DE “PANTOMINA SEM ORDEM” A “LOUCA BACANAL”: FESTAS RELIGIOSAS DA BAHIA OITOCENTISTA A PARTIR DAS PERSPECTIVAS DOS VIAJANTES ESTRANGEIROS Edilece Souza Couto1 [email protected] Olívia Biasin Dias2 [email protected] A cidade do Salvador, desde a colonização portuguesa, desperta a atenção das principais nações do ocidente. Situada em uma das extremidades da baía de Todos os Santos, a cidade, no século XIX, sobressaía-se enquanto local privilegiado para a observação da natureza e dos homens, tanto por ser uma localidade portuária, como pelo clima, rica vegetação tropical, arquitetura e pluralidade étnico-cultural e religiosa. A capital da Bahia continha todos os ingredientes que povoavam o imaginário dos estrangeiros, tornando-a interessante como destino de viagem. Ao longo dos oitocentos, viajantes procedentes de diversos países e com diferentes objetivos visitaram Salvador. Muitos deixaram por escrito registros de variados aspectos da cidade, como a geografia; a arquitetura; a mistura étnica da população, formada por descendentes de europeus, indígenas e africanos; a vida urbana; os costumes; as atividades econômicas; a fauna e a flora. Esses são temas normalmente destacados nas pesquisas que utilizam os relatos dos viajantes oitocentistas como fontes históricas. No entanto, nesse artigo o que nos interessa são as observações desses sujeitos sobre a vivência religiosa dos baianos, sobretudo as festas dos santos, geralmente qualificadas de “pantomina absurda”, “bailado de fantoche”, “confuso movimento de feira”, “resquício de paganismo”, “louca bacanal”. Procuramos identificar e discutir os significados, valores e preconceitos presentes nos relatos dos visitantes sobre os festejos religiosos que observaram e registraram em suas crônicas. Para a elaboração do artigo foram analisados os relatos produzidos pelos seguintes viajantes: o comerciante Thomas Lindlley, que permaneceu na Capitania de 1803 a 1805, acusado de envolvimento do contrabando de pau-brasil; o tenente holandês Quirijin ver Huell, que ficou retido em Salvador de 1807 a 1810; os alemães Spix e Martius, em viagem de caráter científico à América do Sul, permanecendo no Brasil de 1817 a 1820; o cientista inglês Charles Darwin, que esteve em Salvador por duas vezes, ao participar de uma expedição científica, nos anos de 1832 e 1836; o nobre francês Conde de Suzannet, que permaneceu no país de 1842 a 1843, ficando algumas semanas na capital 1 Edilece Souza Couto é mestre e doutora em História pela Universidade Estadual Paulista – UNESP, Campus de Assis-SP; professora adjunta no departamento de História e no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal da Bahia – UFBa. 2 Olívia Biasin Dias é mestre e doutoranda em História pela Universidade Federal da Bahia – UFBa; bolsista da CAPES. 2 baiana; James Wetherell, que residiu em Salvador entre os anos de 1842 e 1857, exercendo a função de vice-cônsul britânico; o médico alemão Robert Avé-Lallemant, que esteve na Bahia em 1859, o arquiduque austríaco Maximiliano de Habsburgo, em 1860; e Elizabeth Agassiz, que teve uma breve passagem por Salvador em 1865, durante uma viagem de cunho predominantemente científico. Em relação aos autores dos relatos, deve-se observar que esses personagens nem sempre pertenciam à mesma classe social, possuíam os mesmos objetivos e nível educacional, resultando daí uma heterogeneidade de interpretações e juízos de valor. Além disso, como os visitantes não estavam integrados à sociedade local, vinham ao Brasil com uma idéia pré-concebida sobre o mesmo. Muitos também tinham dificuldade para entender o idioma e tiveram um contato mais próximo apenas com estrangeiros ou indivíduos com costumes “europeizados”. Ademais, os dados apresentados pelos visitantes foram coletados de várias maneiras, através da observação direta da fala da população do lugar, da tradução de um intérprete e de informações contidas em livros. Assim, diversos viajantes escreveram sobre as cenas e os fatos observados sem contextualizá-los, o que acarretava em generalizações e imagens distorcidas. Em contrapartida, por terem vindo de outros países e pertencerem a outras culturas, os viajantes podiam fornecer informações a respeito de práticas muitas vezes consideradas irrelevantes para os habitantes da terra, tidas como comuns e “naturais”, ganhando outra leitura ante o olhar estrangeiro. Chegar à Bahia Durante o século XIX, mais especificamente depois que os portos brasileiros foram franqueados à navegação e ao comércio exterior, viajantes procedentes de diversos países e com diferentes objetivos - comerciantes, religiosos, militares, cientistas, artistas, médicos, educadores, contrabandistas e mesmo aventureiros - instalaram-se temporariamente em Salvador. Antes mesmo de chegar à Bahia, a maioria dos visitantes já havia tido notícias dessa paragem tropical, fosse apenas de “ouvir falar”, por meio de livros de história ou da leitura de algum relato de viagem. Ainda assim, é notável o impacto que a cidade, vista do mar, causava nesses estrangeiros recém-chegados, a exemplo da descrição do holandês Quirijin Ver Huell, em 1807: Lentamente, expôs-se a mais grandiosa vista que eu já havia contemplado: a cidade de São Salvador, com a sua centena de torres, conventos e igrejas, postada altivamente de encontro às encostas que se elevavam a partir da praia. O contraste entre as brancas construções e o verde escuro das árvores, que em toda a parte emergiam por entre as edificações, era bastante pitoresco; belas extremidades de torres situadas no dorso da montanha desenhavam-se contra o azul do céu (HUELL, 2007, p.118). 3 O mesmo deslumbramento pode ser observado nos diários de outros viajantes. Maximiliano de Habsburgo (1982, p. 69), comandante da expedição austríaca que aportou em Salvador em julho de 1860, escreveu que estava “de coração alegre”, vivendo “[...] um desses momentos felizes em que, em meio à alegria, surge o pesar de não percebermos tudo, de não gravarmos tudo na memória”. Afirmou ainda que a natureza podia ser contemplada com êxtase, mas não fixada por meio da memória ou da descrição. A palavra escrita “[...] é somente uma pálida fotografia, que, apesar de calcada na verdade, se torna, no entanto, descorada e inexpressiva, quando comparada à natureza”. Porém, Maximiliano não foi o único membro da expedição encantado com a exuberante paisagem avistada do navio Elizabeth: Todo o navio encontrava-se em febril alvoroço. Estávamos às portas do paraíso e ansiosos pela entrada, com uma impaciência indescritível, quase infantil. Hoje era o dia em que o sonho, acalentado durante anos, de pisar o solo tropical da América, se deveria realizar (HABSBURGO, 1982, p. 75). Cinco anos depois foi a vez da norte-americana Elizabeth Agassiz (1975, p. 94), relatora da expedição científica chefiada por seu marido, o célebre naturalista Louis Agassiz, entusiasmar-se com o primeiro olhar sobre a cidade. No seu desembarque, em 28 de julho de 1865, escreveu que um viajante que estivesse pela primeira vez na América do Sul deveria aportar na Bahia, considerando que “[...] Nenhuma outra cidade manifesta em tão alto grau o caráter, reproduz tão visivelmente a fisionomia, leva a grau tão acentuado a marca da nação a que pertence”. Contudo, logo após o desembarque, as dificuldades impostas pela alfândega, os transtornos de andar por ruas estreitas, irregulares e sujas, os ineficientes serviços dos hotéis e restaurantes, a compreensão das mazelas da escravidão e o contato com a população vista como não “civilizada”, muitas vezes transformavam o deslumbramento inicial em descontentamento e desencanto. Nem mesmo as inúmeras festividades religiosas populares, ocasiões de divertimento, escapavam aos olhares reprovadores e duramente críticos. Festas religiosas populares No século XIX Salvador contava com um tradicional e extenso ciclo de festas, a maioria de cunho religioso, dentre as quais podemos citar: Santa Bárbara (4 de dezembro); Nossa Senhora da Conceição da Praia (8 de dezembro); Santa Luzia (13 de dezembro); Natal (25 de dezembro); Ano Novo, acompanhada da procissão do Bom Jesus dos Navegantes (31 de dezembro e 01 de janeiro 4 respectivamente); São José (19 de março); Nossa Senhora da Boa Morte (15 de agosto) e as juninas de Santo Antônio (dia 13), São João (24) e São Pedro (29). Dentre as festas móveis, as mais comemoradas eram a de Nosso Senhor do Bonfim (meados de janeiro), Sant’Ana (data móvel entre janeiro e fevereiro) a do Divino, a de Corpus Christi e as celebrações da Semana Santa, com suas concorridas procissões. Quase todas essas festividades tinham o respaldo das irmandades, associações leigas que tinham o objetivo de demonstrar, por meio de festas e procissões, a devoção dos fiéis aos seus santos protetores. Além das cerimônias religiosas, havia a parte profana na qual a participação da população era relevante. Realizavam-se quermesses, apresentações de grupos musicais, dança, bailes à fantasia, desfiles em carros alegóricos, eleições de rainhas, consumo de bebidas e venda de comidas típicas. Essas comemorações constituíam a principal maneira de celebrar a vida entre os baianos de todas as camadas sociais. Podemos observar que não foi apenas o panorama da cidade que provocou a admiração dos viajantes. As manifestações populares, principalmente de caráter religioso, também despertavam a atenção, conforme relatou Quirijin Ver Huell: A nossa curiosidade era sempre despertada não apenas ao longo dos passeios cotidianos e visitas a nossos companheiros e amigos, mas também durante a celebração das festas religiosas, que aqui são verdadeiramente festas populares. Quase diariamente, à frente da porta de uma ou outra igreja, uma banda de músicos (a maior parte negros) anunciava ao povo, por meio de sua música miserável, que se estava a celebrar a festa do santo protetor ou patrono daquela edificação. Este santo também era o patrono daqueles habitantes que passavam alegremente aquele dia, ao lado da família e dos amigos. Eram principalmente as procissões, no entanto, que conseguiam atrair toda a população, uma vez que se imprimia toda pompa e esplendor possíveis àquelas apresentações (HUELL, 2007, p. 156). Ao concluir sua reflexão, o visitante escreveu que “[...] as distrações mais importantes dos moradores desta cidade são de natureza religiosa, ou, melhor dizendo, altamente supersticiosa” (HUELL, 2007, p.156). Outros visitantes ou moradores da Bahia oitocentista fizeram o mesmo tipo de observação. Salvador era uma cidade sem muitos atrativos culturais. Por isso, as homenagens aos santos de devoção convertiam-se em oportunidades para o lazer. Na falta de atividades recreativas, os baianos aproveitavam as brechas das festas religiosas para desenvolver a sociabilidade. Em 1855, o vice-cônsul inglês James Wetherell já chamava a atenção dos leitores dos seus Apontamentos para as limitadas formas de divertimentos dos soteropolitanos. 5 Não há exposições de pinturas, nem mostras, nem concertos, nem conferências; não existem lojas, nem museus e os espetáculos são raros; não há ruínas nem lugares dignos de serem vistos; não existem passeios a não ser os parques aos domingos e, mesmo assim, muito pouco freqüentados. Existe um só teatro que, apesar de ser único, nunca chega a estar cheio (WETHERELL, 1972, p. 98). Os adros das igrejas e as praças transformavam-se em pontos de encontro para os namoros e a diversão em barracas de comida e jogos. Uma das maiores formas de divertimentos eram os leilões e jogos realizados em frente às igrejas em dias festivos. Os rendimentos alcançados com a venda de produtos alimentícios, flores, frutas e brinquedos eram doados à Igreja para o custeio de ornamentação e iluminação. Dos leilões participavam os membros da elite. O homem elegante, cavalheiro, fazia lances altos para arrematar o objeto de desejo de uma dama e ainda contribuía com a Igreja. O período do verão era bastante propício aos divertimentos. Na cidade ou nos arrabaldes, moradores e veranistas organizavam inúmeras brincadeiras em torno das datas comemorativas dos padroeiros. No final de novembro os comerciantes da Cidade Baixa já se preparavam para homenagear Nossa Senhora da Conceição, padroeira do império português e do Brasil até 1930, quando foi substituída por outra invocação mariana, Nossa Senhora Aparecida. Na primeira semana de dezembro celebravam-se missas e novenas, acompanhadas pelo som de orquestras, órgãos e cantores. No dia dedicado à santa – 8 de dezembro – os fiéis participavam da procissão e da festa de largo. Em 1859 o alemão Robert Avé-Lallemant (1961, p.47-48) registrou as suas impressões sobre os festejos. Demonstrou admiração pelo templo que “ostentava todo o brilho do nobre material de sua ornamentação” e ressaltou o seu encanto pelas variadas “pinturas do seu teto” e “profusa iluminação do seu altar-mor”. Porém, os comentários sobre a procissão revelam a perplexidade do olhar estrangeiro sobre os costumes baianos. O visitante afirmou que o cortejo foi prejudicado pelo “terreno nada propício”, impedindo que parte da multidão o acompanhasse. O préstito pareceu-lhe uma “pantomina sem ordem”, ou seja, uma espécie de representação ou peça teatral em que os atores se manifestam apenas por gestos, expressões corporais ou fisionômicas, prescindindo da palavra e da música. A procissão não lhe pareceu um cortejo católico, e sim, uma mímica, encenação sem sentido cristão. Segundo Avé-Lallemant, “as meninas fantasiadas”, representando os anjos e a Virgem, lembravam “fantoches de bailado ou dançarinas de corda”. Observou “a gente de côr” que fervilhava “diante da igreja e das ruas adjacentes”, reparando atentamente no vestuário feminino: E é genuinamente africano um rico colar de corais, com enfeites de ouro, em 6 volta do pescoço negro dessas mulheres. Muitas trazem grossas correntes de ouro ornando-lhes o colo. Vi uma com o antebraço coberto até o cotovelo de braceletes articulados. Parece-me, todavia, que os maiores cuidados da toilette consistem no enrolar em forma de turbante em volta da cabeça a muito bordada faixa branca, na camisa finamente bordada e na fímbria da saia rodada e franzida. Meias, pareceu-me que nenhuma usava com as leves chinelinhas, como se tivessem estudado a coqueteria da nudez de gracioso pé feminino (1961, p.46). Algumas horas após ter visto a procissão, onde apreciara “as belezas africanas”, esteve em um baile alemão “onde só se encontravam damas estrangeiras”. Ao participar num mesmo dia de festas tão diferentes, ele aproveitou para analisar e comparar as mulheres negras da Bahia com as européias. Na verdade, diante dêsses radiantes exemplares das raças nórdicas, as belezas africanas transformam-se num horrendo quadro noturno. Como é inteiramente diferente uma jovem cabeça loura, de olhos claros e faces de carmim, como se o Sul tivesse plantado suas rosas nas neves do Norte; como é diferente uma jovem assim, com um vestido de cetim roçagante, quando desliza através da sala ao ritmo da música! (1961, p.47) Seu depoimento é um tanto contraditório, pois ao reparar nas negras, ele elogiou sua beleza, mas ao entrar em contato com as brancas e “bem vestidas” mulheres da raça nórdica, ele não hesitou em considerá-las muito superiores em termos estéticos e a transformar as negras “num horrendo quadro noturno”. As negras atraíam sua atenção pelo exotismo e sensualidade, mas, sob seu prisma, não deixavam de fazer parte de uma raça inferior e que, ao serem comparadas com exemplares nórdicos, tinham suas peculiaridades e diferenças ainda mais ressaltadas e depreciadas. Valeu-se da ocasião para contemplar “[...] com imenso prazer essas outras, êsses rebentos de troncos europeus e civilizações nórdicas, tanto maior quanto mais longe até as profundezas das longínquas florestas virgens me levaria minha viagem” (1961, p.47). Na Bahia, havia o gosto generalizado pela música, de modo que diversas práticas recreativas, mesmo as de cunho religioso, estavam ligadas às atividades musicais e à dança. A modinha, mais executada no seio das classes abastadas; o lundu, dança intimamente associada ao negro escravo; o batuque; o baião; a dança-luta capoeira, praticada principalmente pelos escravos, com seus berimbaus, chocalhos e pandeiros; os ternos, ranchos de reis e bailes pastoris, realizados por grupos de pessoas que se reuniam para louvar o nascimento do Menino Deus, na véspera do Natal até o dia de Reis, faziam parte do cotidiano de todas as classes na Salvador dos oitocentos. A maior diferenciação social percebida durante esses festejos é que a elite costumava realizar os bailes nas casas, enquanto os 7 menos favorecidos – brancos pobres, negros africanos e seus descendentes – ocupavam as ruas, praças, largos, adros e mercados. Na capital baiana, Lindley testemunhou a comemoração ao Dia dos Reis, apresentando um olhar bastante etnocêntrico, assim como a maioria dos viajantes estrangeiros que teve oportunidade de presenciar manifestações religiosas: Aqui, músicos ambulantes, com seus violões e tambores, etc., começaram ontem à noite (a véspera ou vigília da festa) a cruzar as ruas em grupos, indo de casa em casa, sem a menor cerimônia, e fazendo em cada uma o mais bárbaro tumulto; e depois de repetirem as mesmas tolas formalidades, seguem adiante para importunar o morador mais próximo. Continuaram nisso pela noite inteira, e a multidão participou da rude alegria, parecendo apreciar muito o espetáculo. Isso prosseguiu hoje, com entusiasmo aparentemente nada reduzido. Até mesmo os transeuntes são abordados, nas ruas, e correspondem à brincadeira. Em resumo, isso parece um carnaval italiano, cheio de confusão, mas sem o espírito picante e o vivo interêsse que inspira esta festa. (LINDLEY, 1965, p.100). O nosso informante não entendeu a entrada do Reisado nas casas. O que Lindley classificou de “sem a menor cerimônia”, tinha um ritual, um cerimonial próprio. Normalmente a casa ficava fechada e só era aberta após o pedido de licença para entrar e bailar, realizado por meio de versos, que provavelmente escaparam ao seu entendimento. Vejamos os versos registrados na Bahia por Mello Morais Filho (2002, p. 76): [...] Ó senhor dono da casa, Quer que lhe diga quem é? É um cravo de amaranto Com sua açucena ao pé. Senhora dona da casa, Mande entrar, faça favor, Que dos céus estão caindo Pinguinhos d’água de flor. A delicadeza da cantoria ainda foi vista como uma forma de importunar os moradores. Lindley ainda se referiu ao Reisado como “bárbaro tumulto” e “tolas formalidades”, porém não teve como negar que aquela “rude alegria” animava os participantes num espetáculo que durou a noite inteira e ainda sobrou entusiasmo para o dia seguinte, em outra noite de festa. Os cientistas Spix e Martius participaram dos festejos do Nosso Senhor do Bonfim e consideraram o momento como privilegiado para a observação dos tipos humanos: 8 O vozerio e os divertimentos do grande número de negros ali reunidos, dão a essa festa popular uma feição singular, da qual só pode fazer idéia quem observou as diversas misturas de raças na promiscuidade de suas expansões. Igualmente atraem o observador as particularidades das diferentes classes e raças, que se manifestam quando, acompanhando uma procissão religiosa, passam pelas ruas da Baía. O vistoso préstito de inúmeras irmandades de gente de todas as côres, que procuram à porfia sobressair com a riqueza de suas roupas, bandeiras e insígnias [...] a gravidade e unção dos padres europeus e tôda a suntuosidade do culto romano antigo, no meio do barulho selvagem de negros espantados, poderse-ia dizer quási pagãos, e cercados pelos mulatos alvoroçados: tudo isso constitui um dos mais imponentes quadros da vida, que o viajantes possa encontrar (VON SPIX e VON MARTIUS, 1938, p.293). A mistura de raças, bem como as relações sociais, chamava a atenção dos estrangeiros. Os negros eram considerados diferentes do restante da população devido a sua procedência, cor da pele, caracteres fenotípicos e culturais, sendo recorrente a percepção de que eles eram inferiores, idéia dominante na época. Durante todo o século XIX, a interpretação pessimista que via o Brasil como atrasado em função da sua composição étnica e racial era bastante difundida tanto internamente quanto no exterior. Muitos visitantes se incomodavam com o fato de os negros participarem do cotidiano das cidades, ficando evidente a mescla de curiosidade e repulsa que permeava os sentimentos desses estrangeiros. Assim, as manifestações populares, tanto de caráter religioso, cívico ou carnavalesco, também constituíam ocasiões privilegiadas para a observação do povo, conforme relatou Avé-Lallemant em relação à presença de negros escravos ou libertos na festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia: E é genuinamente africano um rico colar de corais, com enfeites de ouro, em volta do pescoço negro dessas mulheres. Muitas trazem grossas correntes de ouro ornando-lhes o colo. Vi uma com o antebraço coberto até o cotovelo de braceletes articulados. Parece-me, todavia, que os maiores cuidados da toilette consistem no enrolar em forma de turbante em volta da cabeça a muito bordada faixa branca, na camisa finamente bordada e na fímbria da saia rodada e franzida. Meias, pareceu-me que nenhuma usava com as leves chinelinhas, como se tivessem estudado a coqueteria da nudez de gracioso pé feminino (AVE-LALLEMANT, 1961, p.42). Encontramos semelhante descrição dos negros no diário de Maximiliano de Habsburgo (1982, p. 128-133) durante os festejos de Nosso Senhor do Bonfim, em 12 de janeiro de 1860. Afirmou ter visto os homens de cor vestidos com os “mais coloridos e berrantes trajes de festa” e as mulheres envoltas em “gazes transparentes e lenços de cores berrantes”. Seu olhar discriminatório aparece com 9 intensidade. Escreveu que quando as negras usavam os trajes típicos africanos, de “cores pitorescas, vivas e berrantes”, apresentavam boa aparência, porém, quando se vestiam como as mulheres brancas, em trajes europeus, assemelhavam-se a “macacas vestidas”. O culto ao Jesus crucificado em Salvador teve início em 1745, com a formação da irmandade de homens brancos conhecida por Devoção do Senhor do Bonfim, por iniciativa do capitão de mar e guerra e traficante de escravos Theodózio Rodrigues de Faria. Apesar do critério de cor para acesso à irmandade, a devoção logo atraiu a população negra que, numa justaposição de crenças, cultuava ao mesmo tempo Cristo e Oxalá. A igreja do Bonfim se tornou o maior santuário dos baianos e, no mês de janeiro, recebe adeptos do catolicismo e das religiões afro-brasileiras. Voltando ao nosso ilustre visitante, o estranhamento de Maximiliano de Habsburgo (1982, p. 123-124) começou no Arsenal da Marinha, em frente à igreja da Conceição da Praia, na Cidade Baixa, de onde tradicionalmente parte o cortejo em direção à colina sagrada, na península de Itapagipe, onde se localiza a igreja do Bonfim. O percurso, de cerca de oito quilômetros pode ser feito a pé ou nas carroças enfeitadas especialmente para a ocasião. O austríaco, ao olhar para a “carruagem da moda”, de “luxo extravagante”, recuou e foi preciso que seu compatriota, o cônsul da Áustria, Lohmann, que o acompanhava nas visitas pela cidade, usasse de toda persuasão para convencê-lo. E não era uma carroça qualquer, puxada por jegues, como era comum à época. Puxada por quatro cavalos brancos, a carruagem era conduzida por dois negros vestidos de sobrecasacas verdes e calções de veludo ornamentados de prata, polainas, gravatas e luvas. Ao chegar à colina, Maximiliano de Habsburgo (1982, p.128) ficou admirado com tanta movimentação de fiéis e, ao mesmo tempo, dos vendedores. Ainda hoje é grande o número de pessoas vendendo fitinhas, crucifixos, pequenas imagens de santos, chaveiros e até mesmo bijuterias. O nosso visitante oitocentista percebeu o comércio na praça e no adro da igreja como um “movimento confuso de feira”, onde “Caixas de vidro cheias de comestíveis pairavam, ousadamente, sobre a multidão. Pequenos grupos de fornecedores de Cachaça formavam as ilhas, no mar de pessoas”. Porém, para seu espanto, “barulho e gritos estridentes de alegria” também estavam presentes dentro da igreja: Pelo vestíbulo emanava uma atmosfera alegre e festiva. Em longa fila, estavam sentadas, junto a uma das paredes, moças negras, alegres – sua graça bronzeada não estava escondida, mas envolta em gazes transparentes e lenços de cores berrantes – em meio a um falatório estridente, nas posições mais confortáveis, sensuais e desleixadas, vendendo, parte em cestos, parte em caixas de vidro, toda espécie de bugigangas religiosas, amuletos, velas e comestíveis. Para um católico respeitável, todo esse alvoroço deve parecer blasfêmia, pois nessa festa popular dos negros, 10 misturavam-se, mais do que o permitido, resquícios do paganismo na assim chamada romaria (HABSBURGO, 1982, p.129). Tudo leva a crer que Habsburgo (1982, p.129-130), na condição de “católico respeitável”, ainda esperava encontrar um ambiente de respeito e contrição dentro da igreja, mas sua esperança terminou ao se deparar com o padre na sacristia. Relatou haver encontrado um “padreco amarelo” próximo aos paramentos e ao cálice, que conversava “comodamente e da maneira mais solícita” com algumas senhoras. O austríaco fez uma crítica acirrada ao clero brasileiro ao afirmar que, com exceção do Núncio Apostólico – representante papal, espécie de embaixador do Vaticano nos países cristãos – não havia, no Brasil, sacerdote que pudesse ostentar esse título. Ao presenciar o mesmo padre diante do altar, nosso informante teve “um arrepio de indignação”, pois o que observava não podia ser chamado de missa, e sim, “o sabá negro das feiticeiras”, e ainda comparou a nave da igreja a uma “sala de dança, grande, alegre e animada”. A festa do Bonfim era e ainda é composta de novena, missas, procissões e a lavagem do templo. Foi no dia deste último ato que o visitante austríaco esteve na colina sagrada. Lavar o interior da igreja significa limpeza e purificação do espaço físico e dos corpos, com água perfumada de flores e folhas, para pedir bênçãos a Cristo e Oxalá. Habsburgo (1982, p.131-132), entretanto, reduziu aquele momento de devoção a uma romaria de mulheres munidas de vassouras “a fim de obter fertilidade”. Quando resolveu sair da “louca bacanal”, o visitante ainda se deparou com o “povo ignorante”, em pleno meio-dia, a soltar foguetes, “segundo costume luso-brasileiro”. Por conta do ambiente descontraído no qual se desenrolava a cerimônia, do entrelaçamento entre o profano e o sagrado, o visitante não conseguia distinguir o culto cristão da festa popular, supondo que o sentimento religioso não era a principal motivação dos fiéis. Era difícil para os visitantes observarem festas católicas sob o aspecto religioso, pois não compreendiam o sincretismo das comemorações. Os viajantes estrangeiros criticavam a organização e a estrutura dos rituais, influenciados por uma perspectiva mais ortodoxa do catolicismo romano e, por vezes, uma visão protestante. Nesse sentido, os eventos perdiam sua função religiosa e passavam a ser contemplados como um espetáculo, uma curiosidade local. Cabe ressaltar que o catolicismo praticado pelos baianos floresceu dentro de uma sociedade com influências culturais variadas e era expresso de forma espetacularizada. Queremos abrir espaço para tratar também do Carnaval, denominado Entrudo por portugueses e baianos. Para o século XIX, assim como na Idade Média e no Renascimento analisados por Mikhail Bakhtin (1993, p.1-50), há imbricação entre as festas religiosas e carnavalescas, seus elementos se confundem, se mesclam. Alguns dos visitantes da Bahia oitocentista participaram dos festejos 11 religiosos e do Entrudo. As homenagens aos santos foram muitas vezes comparadas às festas profanas, como o Carnaval europeu. Habsburgo (1982, p. 130) afirmou que na igreja do Bonfim “festejavam-se as Saturnais dos negros” e comparou o “vozerio alto, ininterrupto” ao barulho dos “grandes bailes da elegante sociedade de Corte de Viena, igualmente barulhenta e conseqüente”. No centro ou na periferia era comum que negros e brancos participassem do Entrudo. A principal brincadeira desse festejo consistia em jogar farinha, água suja ou bolas de cera contendo água perfumada, nos transeuntes. Essa prática possuía características menos agressivas que em Portugal e aos poucos ganhou contornos locais, principalmente devido à participação da população de cor. Quanto ao evento, Quirijin Ver Huell escreveu, no início do século XIX: De caráter bem menos sério é a festa popular Dias de Entrudo ou o Carnaval Brasileiro. Rapazes, moças e escravos percorrem as ruas entoando o refrão: ‘É de iáiá, é de iôiô, quem queres entrudar seu amorzinho?’ (os negros daqui normalmente chamam os jovens senhores de iôiô e as jovens senhoritas de iáiá). Eles levam, acima da cabeça, caixas de maçãs feitas de cera e recheadas com água perfumada. Somente durante estes dias é permitido penetrar em todas as residências e jogar estas maçãs nas senhoras. Esta brincadeira, geralmente, termina com a molhação por inteiro do intruso, com o auxílio dos escravos e escravas da casa. Entre o populacho, a brincadeira era mais grosseira. Os homens negros eram primeiro regados com água e depois se lançava farinha ou pó de arroz sobre a pele molhada. Na Cidade Baixa, por sua vez, era melhor manter-se no meio da rua, pois, dos balcões, lançavam-se almofadas ou travesseiros na cabeça dos transeuntes, que depois eram novamente içados por uma corda. Em toda parte, reinavam os gracejos e a alegria (HUELL, 2007, p.158-159). Em 4 de março de 1836, Darwin decidiu conhecer o Carnaval acompanhado de John Wickman, e de Bartholomew Sullivan, oficiais integrantes da tripulação do navio Beagle. Desavisados acerca das práticas recreativas presentes na festa, o naturalista e seus companheiros não vivenciaram uma experiência muito agradável. Eis o seu relato: Este é o primeiro dia do carnaval mas Wickman, Sullivan e eu, nada destemidos, estávamos determinados a encarar seus perigos. Esses perigos consistem em ser atingidos sem misericórdia por bolas de cera cheias de água e sair encharcado por grandes seringas de lata. Achamos muito difícil manter nossa dignidade enquanto caminhávamos pelas ruas. Carlos V disse que era um homem valente quem pudesse apagar uma vela com os dedos sem pestanejar; eu digo que seria (valente) quem pudesse andar com passos firmes enquanto baldes de água o ameaçassem, por todos os lados, de ser sobre eles despejados (DARWIN, 2009, p.43). [Tradução das autoras]. 12 Seu companheiro Wickman sentiu-se tão ultrajado com tal situação que, ao voltar para o navio, lhe afirmou que caso tivesse de ficar em Salvador por seis meses, não iria novamente à cidade. O conde de Suzannet, alguns anos mais tarde, em 1843, também presenciou o Carnaval da Bahia, referindo-se à festa, possivelmente, com certa fantasia: A cidade tem as suas festas, os seus dias de loucura e abandono, que são o carnaval. É um estranho prazer êste carnaval da Bahia. Durante três dias, tôdas as atividades são suspensas. Na rua somos assediados por todos os lados por vasilhas de água que nos atiram à cabeça, e que machucam, molham e até ferem. Mas pode, também, acontecer que uma mulher bonita jogue sôbre você uma bola de cêra cheia de água perfumada, e então nada impede que você se embarafuste pela casa dela; pois tôdas as casas estarão então abertas. Quantas ligações não terão começado durante o entrudo!(SUZANNET, 1957, p.185-186) Há ainda que se levar em conta o fato de que algumas festas religiosas aconteciam no verão. As famílias aristocráticas baianas, e também seus escravos, se dirigiam aos arrabaldes, estações de veraneio como a Península do Itapagipe (onde acontecia a festa do Bonfim) e o Rio Vermelho (onde veranistas e a comunidade de pescadores homenageavam Sant’Ana). Assim, as homenagens aos padroeiros dessas localidades transformavam-se em ocasiões para diversos tipos de divertimentos (jogos, rodas de samba, bailes e banhos de mar à fantasia, desfiles de carros alegóricos, eleições de rainhas, concursos de beleza, etc.), num verdadeiro entrelaçamento entre o sagrado e o profano, procissão e Carnaval. Embora muitas datas do calendário cristão fossem celebradas em outros países, no Brasil, e em especial em Salvador, os viajantes tiveram a oportunidade de vivenciar ou apenas observar, no papel de espectadores, práticas culturais com traços característicos da cultura popular local. Assim, esses festejos, eram alvos da curiosidade e do interesse dos visitantes estrangeiros. É possível constatar que os viajantes, ao participarem, temporariamente, da dinâmica da capital baiana, formularam impressões acerca da cidade e dos seus habitantes, (re)configurando as representações do lugar e promovendo diferentes formas de olhar e interagir com o outro. No contexto da Bahia oitocentista, as manifestações lúdicas populares, sobretudo com viés religioso, sobressaíramse como momentos privilegiados para a elaboração de impressões sócio-culturais acerca do povo. Ao apresentarem um olhar majoritariamente eurocêntrico, esses atores sociais reinteravam imagens de um Brasil exótico, que se encontrava na “infância da civilização”. Referências bibliográficas: 13 AGASSIZ, Jean L .R. e Elizabeth C. A. Viagem ao Brasil: 1865-1866.Tradução de João Etienne Filho. Belo Horizonte/ São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1975. AVÉ-LALLEMANT, Robert. Viagens pelo norte do Brasil no ano de 1859. Tradução de Eduardo de Lima Castro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro/Ministério da Educação e Cultura, 1961. BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: HUCITEC; Brasília: Edunb, 1996. DARWIN, Charles. Voyage of the Beagle. Disponível em: http://darwin-online.org.uk. 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