REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Revista SymposiuM Ciências, Humanidades e Letras Ano 14 • Edição Especial • 2010 ISSN Impressa: 0039-7695 ISSN Eletrônica: 1982-9981 ENGENHARIA CIVIL Revista comemorativa dos 40 anos do Curso de Engenharia Civil e 60 anos da Universidade Católica de Pernambuco ORGANIZAÇÃO Fernando Artur Nogueira Silva Joaquim Teodoro Romão de Oliveira Romilde Almeida de Oliveira Silvio Romero de Melo Ferreira 1 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Rua do Príncipe, 610, Boa Vista, Fone: (81) 2119-4160, Fax: (81) 2119-4259 CEP 50050-410, Recife-PE Impressão: FASA GRÁFICA BIBLIOTECA CENTRAL Pe. ALOÍSIO MOSCA DE CARVALHO, S.J. Endereço para permuta E-mail: [email protected] Fone: (81) 2119-4248 Endereço da versão eletrônica: http://www.unicap.br/revistas/ UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Pe. José Acrízio Vale Sales, S.J. Presidente Pe. Pedro Rubens Ferreira Oliveira, S.J. Reitor Profª Aline Mª Grego Lins Pró-reitora Acadêmica Prof. Luciano José Pinheiro Barros Pró-reitor Administrativo Pe. Lúcio Flávio Ribeiro Cirne, S.J. Pró-reitor Comunitário COMISSÃO EDITORIAL Rua do Príncipe, 526, Boa Vista, 8º andar, setor E, bl. G-4 Fone: (81) 2119-4109, Fax: (81) 2119-4228, CEP 50050-900, Recife-PE E-mail: [email protected] Editor: Prof. Paulo César Nunes Fradique Editor-adjunto: Prof. Fernando José Castim Pimentel (foto da capa) Editoração Eletrônica e Programação Visual: Lílian Costa CONSELHO EDITORIAL Prof. Dr. Sílvio Romero de Melo Ferreira – UNICAP Prof. Dr. Moab Duarte Acioli – UNICAP Prof. Dr. Nadilson Manoel da Silva – UNICAP Prof. Dr. Walber de Moura Agra – UNICAP Profª Drª Zuleica Dantas Pereira Campos – UNICAP Profª Drª Virgínia Colares Soares F. Alves – UNICAP CONSELHO CIENTÍFICO Pe. Fernando Bastos de Ávila – PUC-Rio Prof. Pedro Demo – UFB Dr. Zeferino Rocha – UNICAP Prof. Cláudio Souto – UFPE Prof. Nelson Saldanha – UNICAP Prof. Dr. Denis Rosenfield – UFRS REVISTA SYMPOSIUM. Recife: Fundação Antônio dos Santos Abranches – FASA, 1959 – semestral Publicação da Universidade Católica de Pernambuco ISSN Impressa: 0039-7695 ISSN Eletrônica: 1982-9981 2 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Celebrando os 40 anos do Curso de Engenharia Civil da Unicap e rumo aos 60 anos de fundação da Universidade A Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) é o resultado do trabalho educacional da Companhia de Jesus. O núcleo inicial da Universidade, caracterizou-se pela reunião de três instituições de ensino superior: a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Manoel da Nóbrega (autorizada pelo Decreto nº 2.042, de 23 de março de 1943), a Faculdade de Comércio e Economia de Pernambuco (fundada em 1943), como incorporadas, e a Escola Politécnica de Pernambuco, como agregada (fundada em 1951). A Unicap foi fundada no dia 27 de setembro de 1951, equiparada pelo Decreto no 30.417, de 18 de janeiro de 1952. Tem como missão preservar, elaborar e transmitir o conhecimento, de modo a formar o ser humano para desempenhar uma atitude construtiva a serviço de sua região. É uma Universidade comunitária que visa à formação de homens e mulheres no horizonte do humanismo social cristão. A Unicap manifesta, em sua Carta de Princípios, a intenção de ser uma universidade que reflita os contextos regional, nacional e internacional para desempenhar o papel de uma Universidade inspirada na visão cristã do mundo e do ser humano, uma universidade na tradição da Companhia de Jesus, uma universidade nordestina, uma universidade comunitária, uma universidade que aspira à melhor qualidade. Hoje, a Unicap abrange um complexo educacional com uma oferta de Cursos a partir do Ensino Fundamental até a Pós-graduação stricto sensu. Em dezembro 2010, a comunidade universitária compõe-se de 12.504 alunos, 453 professores e 436 funcionários. Registra-se, ainda, a participação de 2.249 estudantes nos cursos de Extensão oferecidos no referido período. Ao longo dos seus 59 anos de atividades ininterruptas, a Universidade já diplomou 65.606 alunos dos diversos Cursos de Graduação e concedeu Título de Mestre em Ciências a 230 graduados. Em 2009, a Unicap obteve conceito 4 em uma escala de 1 a 5 da tabela de valores apresentada pelo Ministério da Educação. 3 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO O Curso de Engenharia Civil da Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP teve seu funcionamento autorizado através da Resolução 07, da Reitoria da UNICAP, publicada em 13 de dezembro de 1969, teve início em 1970, foi reconhecido pelo Decreto Federal Nº 76378 de 02 de outubro de 1975 e teve a última renovação de reconhecimento pela PORTARIA Nº 4.237, de 22 de dezembro de 2004. Fazendo parte do Centro de Ciências e Tecnologia e atento às exigências do presente e aos desafios do futuro, sobretudo à necessidade e responsabilidade de oferecer uma educação de melhor qualidade, o Curso de Graduação em Engenharia Civil da Unicap tem, como objetivo geral em seu projeto pedagógico: Formar engenheiros, da melhor qualificação possível, em nível de excelência, com os desafios que a sociedade exige; que sejam capazes de realizar, com habilidade e competência, as atribuições próprias à profissão, contribuindo, criativamente, para o desenvolvimento da sociedade, tanto no que concerne à investigação científica que assegure e eleve o atual estágio científico-tecnológico da Engenharia, quanto ao significado desse avanço para o engrandecimento humano. Com um corpo docente qualificado, uma estrutura de laboratório moderna, desenvolvendo atividades de ensino, pesquisa e extensão, o curso de Engenharia Civil da Unicap já formou mais de 2.900 engenheiros. Em 2003, teve início, na Unicap, o primeiro programa do Norte e Nordeste de pós-graduação stricto-sensu (mestrado) em Engenharia Civil na concentração de Engenharia das Construções. Hoje, 40 graduados já se tornaram mestres em Engenharia Civil. No campo da pesquisa aplicada, o curso de Engenharia Civil vem desenvolvendo atividades que visam a contribuir com soluções de problemas sociais e com avanço do conhecimento. A equipe do Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil vem desenvolvendo diversos projetos de pesquisas financiados por órgãos de fomento como CAPES, CNPq e FINEP. Há uma integração entre a graduação e a pós-graduação, em que as atividades da pós-graduação e de pesquisa favorecem à elevação da qualidade do ensino de graduação. Em comemoração aos 40 anos do Curso de Engenharia Civil da Unicap e aos 60 anos da Universidade Católica de Pernambuco, 4 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 este número especial da Revista Symposium foi idealizado. Contempla artigos de vários especialistas do país, sendo que os apresentados pelos professores da Unicap e da USP fazem parte do projeto Procad/ NF financiado pela CAPES Organizadores deste número 5 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 6 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 SUMÁRIO Melhoramento de um Solo Colapsível através da Utilização de Lodo de Esgoto Maria Célia Alves Feitosa Joaquim Teodoro Romão de Oliveira Silvio Romero de Melo Ferreira............................................................9 Estudo de retenção de água e infiltração em solos tropicais coluvionares e residuais Marcos Massao Futai Silvia Suzuki.............................................................................................23 Concreto com uso de agregados de resíduos de construção e demolição – RCD: avaliação do desempenho Pedro Eugenio Silva de Oliveira Joaquim Teodoro Romão de Oliveira Silvio Romero de Melo Ferreira...............................................................49 Avaliação de perdas de resíduos de construção civil (RCC) em obras de edifícios multipisos na cidade de Recife/PE Stela Paulino Fucale Alexandre Duarte Gusmão Paula Christyan de Medeiros Souza Clarissa Ribeiro de Rodrigues..................................................................67 Produção de biogás em uma célula experimental de resíduos sólidos urbanos Felipe Jucá Maciel Régia Lúcia Lopes José Fernando Thomé Jucá.......................................................................85 Análise de métodos semiempíricos para o cálculo da capacidade de carga de estacas raiz de pequeno diâmetro, com base em provas de carga estática, em uma obra de Fortaleza-CE Antonio José Nóbrega Júnior Alfran Sampaio Moura Silvrano Adonias Dantas Neto...........................................................103 Efeito da sensibilidade da estrutura em relação ao solo Jean Marie Désir Vitor Augusto de Souza Crespo.............................................................119 7 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Determinação da resistência à punção de lajes planas com armadura de cisalhamento do tipo “stud” interno Leandro M. Trautwein Túlio Bittencourt Ronaldo Gomes João Carlos Della Bella.........................................................................139 Estudo de ferramentas de gestão na construção civil a partir de um sistema informatizado de benchmarking Alexandre Araújo Bertini Marcos Ronaldo Albertin José Márcio Feitosa Monteiro................................................................155 Alternativas tecnológicas para construção de habitações populares: uma abordagem comparativa dos custos de produção Angela Cristina Alves Guimarães de Souza Fernando Artur Nogueira Silva Romilde Almeida de Oliveira................................................................171 Avaliação comparativa da influência do revestimento simples e armado no comportamento compressivo de prismas e paredinhas de blocos cerâmicos de vedação Antônio Augusto Costa de Azevedo Fernando Artur Nogueira Silva Romilde Almeida de Oliveira................................................................193 Métodos plásticos para determinação de esforços em painéis de alvenaria sob a ação de forças laterais G. A. Parsekian D. R. Maluf N. G. Shrive............................................................................................215 Construção sustentável, inovação e durabilidade Vanderley M. John...................................................................................231 Diretrizes para submissão de artigos.................................................249 Permutas...............................................................................................251 8 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Melhoramento de um Solo Colapsível através da Utilização de Lodo de Esgoto Maria Célia Alves Feitosa1 Joaquim Teodoro Romão de Oliveira2 Silvio Romero de Melo Ferreira3 Resumo A construção de Obras de Engenharia em solos que apresentam instabilidade volumétrica, quando umedecidos, pode causar sérios problemas nas edificações. Solos colapsíveis são solos não saturados que experimentam um rearranjo radical de partículas, seguido de uma redução de volume, quando inundados, com acréscimo ou não de sobrecarga. O objetivo deste Trabalho é de contribuir para os estudos alternativos do aproveitamento do lodo de esgoto, gerado em estações, previamente tratado, no melhoramento de um solo colapsível. Foi utilizado lodo, ambientalmente tratado, misturado ao solo, nas proporções em peso de 5%, 10% e 15%. Para a caracterização e análise da interação do solo com o lodo, foram realizados ensaios físicos, químicos, edométricos simples e Microscopia Eletrônica de Varredura. Os resultados permitem concluir que a adição de lodo ao solo causa uma redução, no índice de vazios, melhora o empacotamento das partículas, reduz a colapsibilidade do solo para um mesmo peso específico aparente seco, mostrando ser um método promissor para o melhoramento de solos colapsíveis. Palavras-chave: lodo de esgoto, interação solo-lodo, melhoramento de solos, solo colapsível, construção civil. Improvement of a collapsible soil through the use of sewage sludge Abstract The construction of Engineering Works in soils with volumetric instability, when moistened, can cause serious problems in buildings. Collapsible soils are unsaturated soils experiencing a radical rearrangement of particles, followed by a decrease in volume, when inundated with or without additional surcharge. The objective is to contribute to studies of alternative use of sewage sludge generated at the stations and previously treated in the betterment of a collapsible soil. We have used ambientally treated sludge, mixed with the soil in the proportions of weight of 5%, _______________________ 1 Universidade Católica de Pernambuco, Recife, Brasil 2 Universidade Católica de Pernambuco, Recife, Brasil 3 Universidade Católica de Pernambuco e Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Brasil 9 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 10% and 15%. For soil interaction characterization and analyzing with the clay soil, there have been carried out physical, chemical, oedometer simple and scanning electron microscopy tests. The results indicate that the addition of sewage sludge in the soil causes a reduction in voids vacuum, improves the particle packing reduces the collapsibility soil to the same dry density, showing out being a promising method for soil betterment collapsible. Keywords: Sewage sludge, sludge-soil interaction, improvement of soils, collapsible soil, Civil Construction. 1 Introdução U m dos maiores problemas ambientais a ser enfrentado pela humanidade, neste século, é a grande quantidade de resíduos, gerados nos centros urbanos. Como o desenvolvimento sustentável é a única alternativa de se conceber a sobrevivência do planeta, levando em consideração o desenvolvimento tecnológico e as condições necessárias à continuidade da vida, foram criadas leis de proteção ambiental, no que diz respeito à gestão de lodos e resíduos. Nas grandes cidades, a legislação ambiental restringe, cada vez mais, a disposição do lodo em aterros, como também a escassez de locais adequados e os altos custos, sendo, então, necessários, o desenvolvimento e a implementação de alternativas que substituam, de maneira eficiente, o simples descarte desses resíduos em aterros (SANTOS, 2003). No Brasil, o ministério do Meio Ambiente estima que cerca de 10% dos esgotos urbanos são tratados nas Estações de Tratamento de Esgotos (ETEs), antes de serem lançados aos rios. Desse tratamento, resulta a produção de um lodo rico em matéria orgânica e em nutrientes, denominado de lodo de esgoto, cuja disposição final é problemática, chegando a representar 60 % do custo de operação das estações de tratamento (CAMARGO; BETTIOL, 2000). A disposição final inadequada desse resíduo anula, parcialmente, os benefícios da coleta e tratamento dos efluentes. Portanto, um destino adequado deve ser dado a esse resíduo e, para tal, vêm sendo realizados diversos estudos no sentido de reciclar esse resíduo, como matériaprima para produção de outros materiais. A busca de soluções, 10 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 economica e ambientalmente vantajosas, para os diversos tipos de resíduos sólidos gerados, continua sendo um desafio e, entre eles, a disposição final do lodo de esgoto. A utilização de resíduos tem-se mostrado uma possibilidade tecnicamente promissora, como material constituinte na fabricação de produtos do setor de construção civil. De acordo com Santos (2003), diferentes formas de reciclagem de lodo de esgoto, como materiais de construção, vêm sendo sugeridas, internacionalmente, como alternativas seguras para o encapsulamento dos metais pesados, redução de emissões atmosféricas poluentes, redução dos volumes requeridos, em aterros sanitários e, consequentemente, redução de custos, além de gerando numa forma de aproveitamento benéfico de matéria-prima e energia disponíveis, causando uma economia, na extração desses recursos do ambiente, mesmo que, em pequenas quantidades. Dessa forma, ajustando-se ao modelo de desenvolvimento sustentável. Estudos de viabilidade de aplicações do lodo de esgoto, tratado na construção civil, têm sido desenvolvidos nas últimas decadas, visando a sua atualização como: a) agregados leves para o concreto, isolamento térmico, enchimentos de vazios, blocos para alvenaria e piso – (Morales e Agopyan (1992) e Santos (2001); b) matéria-prima na fabricação de cimento Potland e posolanas Onaka (2000); c) matéria-prima na fabricação de cerâmica Werther e Orgada (1999). Feitosa (2008) estuda varias aplicações do lodo de esgoto na Engenharia. É nesse contexto que este Trabalho busca alternativas capazes de auxiliarem no debate da gestão da disposição final do lodo de esgoto, através de sua utilização em melhoramento de solos colapsíveis. 2 Material e Métodos Nos experimentos da Pesquisa, utilizou-se o solo, coletado na Estação Experimental de Itapirema do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), Município de Goiana/PE. Os ensaios de caracterização física foram realizados, segundo as Normas da ABNT: Análise Granulométrica (ABNT 1984a), Massa Específica dos Grãos dos 11 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Solos (ABNT 1984b), Limite de Liquidez (ABNT 1984c), Limite de Plasticidade (ABNT 1984d), Ensaio de Compactação (ABNT 1984e) e, para ensaios edométricos simples, foi aplicada a norma de Adensamento (ABNT 1990), com algumas modificações, propostas por Ferreira (1995). O lodo de esgoto utilizado foi proveniente do leito de secagem da Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) do Curado, situada na Região Metropolitana do Recife – PE. Acondicionado em sacos plásticos, para ser transportado ao laboratório, foi colocado para secar, primeiramente, ao ar e, depois de seco, foi destorroado e passado na peneira, com abertura de malha 4 mm. O lodo utilizado atende aos limites de metais pesados do CONAMA 375/06 e se encontram indicados na Tabela 1. Os ensaios de caracterização química do solo, lodo e mistura solo-lodo foram realizados, segundo as metodologias estabelecidas pelo Serviço Nacional de Levantamento e Conservação de Solos e pelo Manual de Métodos de Análise de Solos da Empresas Brasileiras de Pesquisa e Agropecuária, (EMBRAPA, 1997). Tabela 1. Teores de metais presente no lodo da ETE do Curado – PE *Brasil (2006) - ** Lógica Engenharia (2009) 12 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Os ensaios edométricos simples foram realizados através da prensa, tipo Bishop, com braço de relação 1:10 em células com anel fixo. Amostras do solo natural e da mistura solo-lodo, nas proporções em peso de 5%, 10% e 15%, foram compactadas, estaticamente, com umidade de, aproximadamente, 5,0 % e pesos específicos aparente seco de 15,00 kN/m3 e 17,00 kN/m3. As amostras foram colocadas em um saco plástico, para a equalização da umidade. Com as amostras na umidade desejada equalizada, foi calculado o volume de solo necessário para atingir os pesos específicos desejados. A compactação foi realizada estaticamente numa prensa de compressão, com capacidade de 50 kN, o volume de solo, calculado previamente, foi colocado no anel e encaixado no molde de compactação. A forma do molde garantia que o solo não fosse compactado, além do necessário, devido ao sistema de segurança no topo, onde existe um contato do pistão com o topo do molde, impedindo que o pistão compacte mais o solo. A moldagem das amostras (controle de umidade, molde de compactação, o controle dos pesos dos corpos de prova e a técnica de compactação estática) resultou em corpos de prova, com reprodutividade das condições esperadas, apresentando índices físicos com pequena variação de valores, em relação aos desejados. As tensões verticais foram aplicadas de forma incremental (∆σ/σ = 1), iniciando com 10 kPa e atingindo 640 kPa. O tempo de duração de cada estágio de tensão era tal que a deformação, entre dois intervalos de tempo consecutivos ((∆t/t = 1) fosse inferior a 5% da deformação total do solo, ocorrida até o tempo anterior. A inundação dos corpos de prova foi realizada com água destilada, sendo feitos 56 corpos de prova. A contextura (microestrutura) do solo e das misturas sololodo foram observadas a partir das amostras dos ensaios, coletadas cuidadosamente, e colocadas ao ar para secar, onde eram preparados três corpos de prova, de formato prismático, com base de 9,8 mm e altura de 8 mm. Os corpos de prova foram moldados de modo que nenhum instrumento cortante ou pontiagudo tocasse na superfície de observação, utilizando a mesma técnica descrita por Ferreira (1995). Os corpos de prova foram fixados em um cilindro de alumínio, com diâmetro de 9,8 mm e altura de 11 mm, por meio de fita 3M e reforçada por pequena quantidade de cola no contato. Os corpos de prova foram colocados na campânula de vácuo do tipo Fine Coat Íon Sputter 13 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO JfC 1100 para metalização, na qual recebiam uma película de ouro fina, tendo, por finalidade, o carregamento eletrostático, propiciando um boa condução do feixe de elétrons. Em alguns corpos de prova, foi necessário fazer uma segunda metalização, porque a primeira não cobria, totalmente, a amostra e não se podia obter uma maior resolução. Após o processo de metalização, as superfícies das amostras foram observadas e fotografadas no equipamento JSM LV1600 Sconning Microscope de marca Joel, operando a 15 Kv. 3 Análise e Discussão dos Resultados Na classificação Pedológica, o solo utilizado é um Espodossolo, tem 88 % de areia, 3 % de silte e 9 % de argila, Tabela 2. É uma Areia Siltosa (SM) na Classificação Unificada, não líquida e não plástica e, no Sistema de Classificação TRB, é classificado como Pedregulhos e Areias Siltosas ou Argilosas (A-2-4). A composição granulométrica do lodo é constituída de 96 % de granulados (com dimensões entre 4,8 mm a 0,05 mm) e 4 %, com dimensões menores que 0,05 mm, Figura 1. As misturas do solo com lodo de esgoto, nas proporções de 5 % e 10 %, são classificadas, também, como Areia Siltosa (SM), não líquidas, não plásticas. Na proporção de 15 %, é classificada como uma Areia Siltosa mal graduada (SM-SP), não líquida, não plástica. No Sistema de Classificação TRB, são identificadas como Pedregulhos e Areias Siltosas ou Argilosas (A-24), as misturas nas proporções de 5 % e 15 % e a mistura na proporção de 10 %, é uma Areia Fina (A-3). Tabela 2. Peso específico real dos grãos e frações do solo, lodo e das misturas solo-lodo 14 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 1 – Curvas granulométricas – Solo natural, lodo e misturas solo-lodo (5 %, 10 % e 15 %) O acréscimo do lodo ao solo aumenta a umidade ótima (Wot) até o acréscimo de 10 % e um pequeno decréscimo para 15 %. O peso específico aparente seco máximo, praticamente, não altera, até o acréscimo de 10% e decresce para 15 % de adição de lodo. Figura 2. Figura 2 – Curvas de compactação do solo e solo-lodo (5 %, 10 % e 15%) e Curva de porcentagem de lodo versus umidade ótima e versus peso específico aparente seco máximo 15 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO A caracterização química do solo natural é ácido (pH< 7). O valor do pH, em Cloreto de Potássio (pHKCl), é inferior ao valor do pH, em água (pHH2O) e a variação do pH (DpH = pHKCl – pHH2O) é negativa, indicando a presença de argilas silicatadas - Carvalho (2004). A quantidade da matéria orgânica, obtida a partir do carbono orgânico, é baixa (menor que 1,0 %). A capacidade de troca catiônica é baixa (valor T = CTC < 27cmolckg-1), indicando, também, a predominância do mineral argílico caulinita. A Saturação, por base, expressa em porcentagem (valor V), é inferior a 50 %, tratando-se de um solo Distrófico. A porcentagem de sódio, no complexo de trocável (100 Na+T-1) de 2,3 %, é baixa, por ser inferior a 6 %. A condutividade elétrica do extrato de saturação, é alta (10 mS/cm/25°C) superior a 4 mS/cm/25°C. À medida que se adicionar lodo ao solo de 5 a 15%, as misturas, assim formadas, apresentam pH, praticamente, neutro (aproximadamente 7), o teor de matéria orgânica cresce, mas, ainda, é baixo; a capacidade de troca catiônica cresce e, a partir da proporção de 10 %, a mistura passa a ter uma CTC, alta (valor T = CTC > 27 cmolckg-1). A saturação por alumínio decresce, e a saturação por sódio, a quantidade de água no extrato saturado além da condutividade elétrica do estrato de saturação crescem, quando se aumenta a proporção de lodo ao solo. Resultados dos ensaios edométricos simples, realizados para peso específico aparentemente seco de 15,00 kN/m3, estão na Figura 3. Os valores dos índices físicos iniciais dos corpos de prova para cada conjunto de amostras foram semelhantes, indicando que o processo de compactação e o controle de umidade permitiram obter corpos de prova, com pesos específicos aparentes secos e umidades muito próximos aos desejados bem como repetições deles – pesos específicos. Os valores dos potenciais de colapso ou expansão, calculados através da fórmula (1), para as tensões verticais de inundação de 10, 20, 40, 80, 160, 320 e 640 kPa em amostras compactadas nos pesos específicos de 15,00 kN/m3 e 17,00 kN/m3, são apresentadas na Figura 4. 16 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 SP ou CP (%) = 100 DH / Hi (1) Em que: “H é a variação da altura do corpo de prova devido à inundação (mm), Hi é a altura do corpo de prova antes da inundação. No solo sem acréscimo de lodo, para o peso específico seco de 15,00 kN/m3, o colapso aumenta, atingindo um valor máximo de 6,61 %, na tensão de 320 kPa e, depois, decresce, sendo essa a tensão crítica para o colapso máximo. A compactação do solo, para peso específico de 17,00 kN/m3, reduziu, significativamente, os potenciais de colapso a valores máximos de 1,64 %, para a tensão de 640 kPa. O acréscimo de lodo ao solo diminui o potencial de colapso. Para o peso específico seco de 15,00 kN/m3 e tensão de 10 kPa, o acréscimo de lodo de 10 % e 15 % ao solo causou uma pequena expansão. Comportamento similar foi observado para o peso específico seco de 17,00 kN/m3, nas tensões de 10 kPa, 20 kPa, com acréscimo de lodo de 10 % e 15 %. O acréscimo do lodo funciona, com eficiência, na redução do colapso, semelhante ao aumento do peso específico. Para o peso específico de 15,00 kN/m3, a redução do colapso do solo natural, em relação aos acréscimos de lodo, em 5 %, 10 % e 15 % foram de 6,2 %, 51,6 % e 56,4 %, respectivamente. 17 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Figura 3. Variação do índice com a tensão vertical de consolidação obtida através de ensaios edométricos Figura 4. Variação dos valores do potencial de colapso ou expansão com a tensão vertical de consolidação, a) para peso específico aparente seco de 15,00 KN/m3 b) para peso específico aparente seco de 17,00 KN/m3 Para os pesos específicos, aparentemente secos 15,00 kN/ m3 e 17,00 kN/m3, foram obtidos os valores médios dos índices físicos de oito corpos de prova do solo natural e de cada mistura sololodo. O percentual de volume de cada componente da mistura, em percentual correspondente ao solo, ao lodo, à água e ao ar. Figura 5. 18 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 5. Porcentagem de volume de cada componente da mistura Para um mesmo peso específico aparentemente seco, o acréscimo de lodo aumenta o volume das partículas sólidas e reduz o volume de vazios. Como o volume de água teve pequenas variações, a redução que ocorre no volume de vazios é devida à redução do volume de ar. Por outro lado, o aumento de volume que ocorre, de partículas sólidas na mistura, em relação ao solo natural, é, significativamente, influenciado pela diferença do peso específico real dos grãos do solo (26,16 kN/m3), quando comparado com o lodo (16,27 kN/m3). Portanto, para um mesmo peso específico aparentemente seco, o acréscimo do lodo ao solo aumenta o número de partículas, nos contatos entre os grãos, reduzindo os poros e dá maior estabilidade à estrutura do solo, reduzindo o colapso e, consequentemente, existe um maior número de partículas, revestindo os grãos do solo, Figura 6, dando maior estabilidade à estrutura, reduzindo o colapso, quando o solo é inundado. 19 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO b) Mistura solo-Iodo a) Solo natural Figura 6. Eletronicrografia a) solo natural – Empacotamento, b) - Grãos de quartzo ligados com siltes, argilas e matéria orgânica solo-lodo Conclusões Existem alterações físicas, químicas e microestruturais no solo, com a adição de lodo de esgoto ao solo natural. Para manter o mesmo peso específico aparentemente seco da mistura solo-lodo, o acréscimo do percentual de lodo proporciona uma redução do índice de vazios do solo, diminuindo a colapsibilidade. Esses resultados indicam que essa técnica pode ser adequada para o melhoramento de solos colapsíveis, necessitando, entretanto, de maiores estudos para se ter conclusões mais definitivas. Agradecimentos À Rede CCI/FIUC (Federação Internacional de Universidades Católicas) pela oportunidade de desenvolver parte do Trabalho de Pesquisa, intitulado “Formação de técnicos para melhorar a qualidade de solos em países em desenvolvimento”. À Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), pela Bolsa de Estudos da primeira Autora. Agradecimento ao CNPq pelo apoio a pesquisa. 20 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Referências ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 1207: ensaio de adensamento unidimensional. Rio de Janeiro: ABNT, 1990. ______. NBR 7181: solo – análise granulométrica. Rio de Janeiro, 1984a. ______. NBR 6508: grãos de solos que passam na peneira de 4,8 mm determinação da massa específica. Rio de Janeiro: ABNT, 1984b. ______. NBR 6459: solo - determinação do limite de liquidez. Rio de Janeiro: ABNT, 1984c. ______. NBR 7180: Solo - determinação do limite de plasticidade. Rio de Janeiro: ABNT, 1984d. ______. NBR 7182: ensaio de compactação. Rio de Janeiro: ABNT, 1984 e. ______. NBR 10004: resíduos Sólidos – Classificação. Rio de Janeiro: ABNT, 2004. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente, Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução nº 375, de 29 de agosto de 2006. Disponível em: <http//www.mma.gov.br/port/conama/res/res06/res37506.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2009. CAMARGO, O. A. de; Bettiol, W. Agricultura: opção animadora para utilização do lodo. O agronômico, Campinas, v. 52, n. 2/3, 2000. CARVALHO, J. C. Propriedades de comportamento de solos tropicais não saturados. In: Simpósio Brasileiro de Solos não Saturados, São Carlos. São Paulo, (2004). EESC-USP, Vol 2, p 1-22. EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA EMBRAPA. Manual de métodos de análise de solo. 2. ed. Rio de Janeiro. Centro Nacional de Pesquisas de solos, 1997. 21 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO FEITOSA, M.C.A. Lodo de Esgoto: Algumas Aplicações em Engenharia. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil. Universidade Católica de Pernambuco. 120 p. 2009. FERREIRA, S. R. M. Colapso e expansão de solos naturais não saturados devidos à inundação. 1995, 379p. Tese (Doutorado em Engenharia Civil). Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1995. LÓGICA ENGENHARIA. Diretoria Administrativa. Planta ETE Curado. Recife 2009. MORALES, G.; AGOPYAN, V. Caracterização do agregado leve a partir de lodo da cidade de Londrina. São Paulo: EPUSP, 1992. Boletim Técnico da Escola Politécnica da USP, BT/PCC/64. ONAKA, T. Sewage can make Portland cement: a new technology for unimate reuse of sewage sludge. Water science & technology, [S.l.]. v. 41, n .8, p. 93-98, 2000. Santos, H. F. Tecnologias de uso útil do lodo dos esgotos. In: Encontro Técnico Associação dos Engenheiros da SABESP, 12, 2001, São Paulo. Anais... São Paulo: [s. n.] , 2001. 1 CD-ROM. SANTOS, A. D. Estudo das possibilidades de reciclagem dos resíduos de tratamento de esgoto da região Metropolitana de São Paulo. 2003. 265f. Dissertação (Mestrado em Engenharia) – Escola Politécnica, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2003. WERTHER, J.; OGADA, T. Sewage sludge combustion. Progress in energy and combustion science, [S. l.]. n. 25, p. 55-116, 1999. Endereços para contato: Maria Célia Alves Feitosa. E-mail: [email protected] Joaquim Teodoro Romão de Oliveira. E-mail: [email protected] Silvio Romero de Melo Ferreira. E-mail: [email protected] 22 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Estudo de retenção de água e infiltração em solos tropicais coluvionares e residuais Marcos Massao Futai1 Silvia Suzuki2 Resumo Este trabalho estuda perfis de infiltração em solos não saturados compostos por uma camada superficial de solo coluvionar. O exemplo usado é de uma encosta localizada na Serra do Mar. Foram realizados ensaios de curva de retenção e, a partir deles, foram obtidas as funções condutividade hidráulica. Demonstrou-se a necessidade de se considerar a heterogeneidade de distribuição de poros ou distribuição bimodal na curva de retenção e, consequentemente, na função de condutividade hidráulica. Foram utilizados dados pluviométricos medidos próximo ao local de coleta das amostras. A partir dos dados ambientais e do solo, realizaram-se simulações numéricas da variação sazonal da sucção e da umidade ao longo do ano. Comparou-se a influência de uma camada superficial de solo coluvionar sobre solo residual com um perfil de solo residual sem cobertura. Palavras-chave: curvas de retenção, solos não-saturados, função de condutividade hidráulica, solos coluvionares. Water retention and infiltration in colluvium and wastewater tropical soils Abstract This paper examines of infiltration in unsaturated soils consisting of superficial colluvium soil layer. The example used is a slope located in the Serra do Mar. Tests including the soil water retention curve and the hydraulic conductivity functions. It was demonstrated the necessity to consider the heterogenety of pore distribution or bimodal distribution in water retention and consequently in the function of hydraulic conductivity. It was used rainfall data measured near the site of sample collection. From the environmental data and soil held numerical simulations of the seasonal suction variation and water content throughout the year. It was compared the influence of a superficial colluvium soil layer over residual soil with a residual soil profile without coverage. Keywords: retention curve, unsaturated soils, hydraulic conductivity function, colluvium soils _______________________ 1 Professor Doutor – Escola Politécnica/ USP 2 Mestre em Engenharia Civil 23 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 1 Introdução A infiltração em solos não saturados não pode ser analisada de forma tão simplificada como na condição saturada. Isso ocorre porque, no fluxo não saturado, a sucção influencia na propriedade do solo (função condutividade hidráulica) e também no gradiente hidráulico. Além disso, na maioria dos casos, é preciso analisar na condição transiente. No caso de infiltração unidimensional não-saturada e transiente, a equação que rege o fluxo é: (1) Onde: kz(hm) – função condutividade hidráulica h - carga hidráulica θ – umidade volumétrica A solução analítica para eq. (1) é bastante complexa e muito complicada, se for necessária a consideração das condições ambientais, pois elas variam com o tempo. Em casos mais complexos, é necessário recorrer a soluções numéricas. Existem soluções analíticas simplificadas, porém, fornecem uma frente de umedecimento para uma infiltração constante. Neste trabalho, será realizado um estudo numérico com dados pluviométricos medidos em campo. O estudo será focado na influência de uma camada superficial coluvionar sobreposta ao solo residual no perfil de infiltração. O contraste de condutividade hidráulica de solos naturais tropicais pode gerar condições propícias para formação de barreiras capilares naturais ou favorecer a infiltração adicional de água. 24 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 2 Características do solo As amostras dos solos estudados são todas indeformadas, sendo quatro coluvionares (C1, C2, C3 e C4) e dois residuais de migmatito, sendo um maduro (R1) e outro jovem (R2). As curvas granulométricas e a carta de plasticidade estão apresentadas nas figuras 1 e 2, respectivamente. Dos solos coluvionares o C4 é o mais argiloso e plástico, e o C2 é o único com wL menor que 50 por se tratar de um solo mais siltoso. Os índices de vazios dos solos variaram bastante, os coluvionares entre 0,93 e 1,44, porém o solo mais poroso foi o residual maduro (R1). Figura 1 - Curvas granulométricas dos solos 25 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Figura 2 - Carta de plasticidade dos solos estudados A permeabilidade saturada foi medida por meio de permeâmetros de parede rígida com carga variável, cujos valores estão listados na tabela 1. A permeabilidade saturada variou pouco, entre 3x10-5 cm/s e 4x10-4 cm/s, não há nenhuma correlação entre esses valores e o índice físico ou IP. Outras características (mineralogia, análises químicas, ensaios mecânicos) podem ser consultadas em Suzuki (2004). Tabela 1. Índices físicos e coeficientes de permeabilidades 26 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 2 Pluviometria da região A pluviometria da região foi analisada no período de janeiro de 2001 a junho de 2003, cujos dados estão apresentados na figura 3. Os períodos mais chuvosos estão compreendidos entre os meses de janeiro e março. Mesmo assim, pode-se ver na figura 3 que ocorrem picos de pluviometria diária, que pode chegar a 90 mm nos períodos de menor precipitação. Na figura 4, estão apresentados dados de pluviometria acumulada de 30 dias. Nessa figura, pode-se observar que não há um período muito nítido de estiagem. Em alguns períodos, há redução da pluviometria, porém raramente a precipitação acumulada em 30 dias é inferior a 50mm. Esses dados serão utilizados para as simulações numéricas de infiltração em meio não saturado. 27 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 3 Curvas de retenção de água As curvas de retenção de água foram obtidas por meio de três técnicas: placa de pressão, placa de sucção e papel filtro. Os solos foram umedecidos antes do início do ensaio e realizados com trajetória de secagem. As contrações durante o ensaio foram medidas, o que permitiu traçar curvas com umidade volumétrica. Os resultados podem ser vistos na figura 5. A faixa na qual as curvas de enquadram é bem larga. Aparentemente, não há uma tendência clara de comportamento que permita agrupar os solos em grupos de comportamento similar. 28 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 5 - Curvas de retenção de água Para comparar as curvas, foi realizada uma normalização da umidade volumétrica e da sucção: Θ = (θ−θr)/(θsat−θr) (2) ψ/ψa (3) e Dessa forma, reduz-se a influência da condição inicial (figura 6). Para essa normalização, utilizaram-se os valores de entrada que, efetivamente, causam a dessaturação dos solos. Por isso, alguns deles são bastante baixos. A diferença entre as curvas normalizadas deve-se à diferença de comportamento. Os solos cujas curvas se posicionaram mais à direita apresentaram tendência de distribuição de poros bimodal. Há um valor de entrada de ar referente à dessaturação dos macroporos e outra dos microporos. 29 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Figura 6 - Curva de retenção normalizada Θ:ψ/ψa. Para investigar o efeito da entrada de ar dos microporos (ψ2), normalizaram-se as curvas utilizando (Θ∗ : ψ/ψ2), conforme apresentado na figura 7. Sendo Q??calculado com a umidade volumétrica relativa à ψ2. Valores de Q? maiores que 1 indicam que o solo apresenta pelo menos duas concentrações de poros. Analisando a parcela da curva com ψ/ψ2 maior que 1, verifica-se que há uma concentração dos dados, permitindo traçar uma faixa que representa as curvas normalizadas dessa forma. 30 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 7 - Curva de retenção normalizada Θ:ψ/ψ2. 4 Modelos de ajustes Costuma-se ajustar a curva de retenção por meio de funções. Existem várias: algumas baseadas na distribuição de poros e outras empíricas. Selecionaram-se duas delas para se estudar o comportamento dos solos ensaiados: Brooks e Corey (1964) e Van Genuchten (1980). Os dois modelos também permitem que se determinem as respectivas funções de permeabilidade. O modelo de Van Genuchten (1980) é dado pela expressão: (4) Para a função de permeabilidade, utilizou-se a proposta de Van Genuchten (1980) baseada no modelo de Mualem (1976): (5) 31 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Para os solos que apresentaram comportamento bimodal, adaptouse o modelo de Brooks e Corey duas vezes, uma após a entrada de ar dos macroporos: Para ψ<ψa (6) (7) Mantendo-se constante no trecho com ausência de poros: Para θw = θw2 (8) kw = 0,16 k sat (9) e outro ajuste para os microporos: Para y>y2 (10) (11) 32 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 6 Ajustes dos resultados Os ajustes foram realizados para todos os solos e geradas as respectivas funções de permeabilidade, conforme apresentado no item anterior. Os resultados podem ser conferidos nas Figuras 8 a 13. Figura 8 - Ajustes para o solo C1 33 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Figura 9 - Ajustes para o solo C2 34 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 10 - Ajustes para o solo C3 35 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Figura 11 - Ajustes para o solo C4 36 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 12 - Ajustes para o solo R1 37 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Figura 13 - Ajustes para o solo R2 Os solos C1 (figura 8), C3 (figura 10), e R2 (figura 13) ajustaram-se bem pelos dois modelos. Já os solos C2 (figura 9), C4 (figura 11) e R1 (figura 12) apresentaram comportamento bimodal e, por isso, foram ajustados pelo modelo de Brooks e Corey por dois trechos, conforme descrito no item anterior. Quando os dois modelos se ajustam bem, a função de permeabilidade do modelo de Brooks e Corey posiciona-se um pouco a direita da curva de Van Genuchten. Isso ocorre devido à posição do valor de entrada de ar; no modelo de Van Genuchten a curvatura faz com que a dessaturação ocorra um pouco antes. 38 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Quando a distribuição de poros é bimodal, o modelo de Van Genuchten não fornece bom ajuste da curva de retenção. A flexibilidade do modelo de Brooks e Corey modificado permitiu que o modelo se ajustasse bem aos resultados experimentais. A consequência dessa diferença de ajuste é percebida também na função de permeabilidade. A função de permeabilidade gerada pelo modelo de Van Genuchten pode apresentar resultados mais ou menos permeáveis que o de Brooks e Corey. Isso fica claro ao observar o comportamento dos solos C2 e C4. Os dois solos residuais apresentaram comportamentos bem distintos: um apresenta distribuição de poros bimodal (R1) e o outro não (R2). Essa diferença reflete a diferença do grau de intemperismo. O solo R1, residual maduro, apresenta indícios de laterização, índice de vazios elevado (1,6) e é mais argiloso que o solo residual jovem (R2). Para comparar os resultados, foram incluídas todas as curvas ajustadas na figura 14. Para os solos C2 e C4, utilizou-se o modelo de Brooks e Corey e, nos demais, Van Genuchten. Na figura 14(a), estão apresentadas as curvas de permeabilidade, e na figura 14(b), estão as respectivas curvas de retenção de água. Relacionaram-se, na figura 14(c), os valores de permeabilidade e de umidade volumétrica. 39 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Figura 14. Resumo da relação sucção-umidade volumétrica-função de permeabilidade Até sucções da ordem de 100 kPa, o solo residual jovem (R2) foi o que apresentou menores permeabilidades relativas e o solo coluvionar C1 e residual jovem (R1) apresentaram maiores reduções de permeabilidade relativa. Os demais solos enquadraram-se em uma faixa bem estreita. As quedas das permeabilidades relativas dos solos C1 e R1 após o primeiro valor de entrada de ar assemelham-se a funções de areias, porém distinguem-se quando passam a apresentar um patamar e depois voltam a cair. Após 3000 kPa de sucção, o solo C1 passa a ter o mesmo valor de permeabilidade do solo C2; os solos C4 e R1 passam a ter os maiores valores de permeabilidade relativa, porque passam a ser comandados pela matriz argilosa. Esses valores de sucção não serão alcançados em campo, haja vista que a região apresenta elevados índices pluviométricos todo o ano. 6 Ajustes com modelo bimodal Como foram demonstrados no item anterior, os ajustes tradicionais da curva de retenção, nem sempre se aplicam perfeitamente e isso traz importantes reflexos na função de permeabilidade. A dis- 40 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 tribuição de poros bimodal (ou multimodal) deve ser a principal explicação da deficiência do modelo de Van Genuchten (1980), por exemplo. Para obtenção de melhores ajustes, optou-se pela função bimodal proposta por Durner (1994). Durner (1994) propôs que a curva de retenção dos solos com sistema de poros heterogêneos pode ser representada pela superposição de subcurvas da Van Genuchten. No caso de uma função com distribuição bimodal de poros, a função torna-se igual a: (12) Sendo w1 o peso da subcurva 1 e w2 o peso da subcurva 2. Futai e Suzuki (2007) avaliaram a influência da heterogeneidade de distribuição de poros nas curvas de retenção e condutividade hidráulica e sugeriram que os solos coluvionares fossem ajustados por funções bimodais. Serão apresentados ajustes para os solos coluvionares C1 e C4 e R1, porque serão posteriormente utilizados para o estudo de infiltração. O ajuste da curva de retenção de água está apresentado na figura 15 e as respectivas funções de condutividade hidráulica, na figura 16. Os parâmetros usados nos ajustes estão listados na tabela 2. Futai e Suzuki (2006) demonstraram que, quando não se utilizam ajustes adequados, a infiltração resultante pode ser completamente diferente, mesmo partindo dos mesmos dados de retenção de água. As funções de condutividade hidráulica foram obtidas por meio do programa RETEC, sendo que o ajuste do solo R1 com o modelo Van Genuchten (1980) e as demais curvas foram ajustadas com a proposta de Dunner (1994) realizada por integração numérica, usando o modelo de Mualen. Os valores das condutividades hidráulicas saturadas podem ser conferidos na tabela 1. Os valores da condutividade hidráulica saturada estão bem próximos, porém as funções (figura 16) são diferentes em função da 41 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO diferença da distribuição de poros. Os dois solos coluvionares (C1 e C4) apresentaram valores próximos. Para baixos valores de sucção (0,4 kPa para o C1 e 4 kPa para C4), o solo residual passa a ser menos permeável que os solos coluvionares. Figura 15 – Curvas de retenção Figura 16 – Funções de condutividade hidráulica 42 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Tabela 2 - Parâmetros das curvas de retenção 8 Simulações numéricas O perfil geotécnico da região é basicamente composto por uma camada de solo coluvionar sobreposta ao solo residual de migmatito. Como as espessuras são variadas, optou-se por realizar um estudo de três perfis típicos: - solo coluvionar C1 de 15m de espessura sobreposto ao solo residual (R1); - solo coluvionar C1 de 15m de espessura sobreposto ao solo residual (R1); - somente com solo residual (R1). As simulações foram realizadas com o programa Hydrus 1D. As condições de contorno usadas para os três perfis foram as mesmas: à carga total (zero) constante na base, simulando o nível d’água nessa posição e no topo, foram impostas as condições ambientais de precipitação (indicada na figura 3) e evaporação média de 2,0 mm diária. As condições iniciais foram geradas numericamente com 5 anos de imposição das condições ambientais. Esse tempo foi o necessário para que os valores anuais pudessem ser reproduzidos de um ano para outro sem diferenças da sucção. Os resultados referentes à pressão de água do sexto ano de simulação estão apresentados na figura 17, e os respectivos valores da umidade volumétrica podem ser vistos na figura 18. Os resultados obtidos dependem dos valores das funções de condutividade hidráulica e das condições ambientais. Os valores obtidos demonstram que a camada de solo coluvionar desenvolve baixo 43 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO valor de sucção ao longo do ano. Comparando os valores da sucção e umidade volumétrica, pode-se perceber que os solos estão não saturados, porém no caso dos solos coluvionares os valores estão muito próximos ao valor de entrada de ar. Além disso, os valores de sucção são muito baixos. No caso do solo residual, o baixo valor de entrada de ar faz com que o solo se dessature mais rápido e, assim, as sucções na região não saturada são maiores que no solo coluvionar. Essas simulações numéricas estão de acordo com as observações realizadas por Suzuki (2004) através de dados instrumentação (piezometria). Suzuki (2004) tratou a massa coluvionar como um problema de solos saturados cuja movimentação foi associada à variação do nível freático. Nas simulações realizadas, não se pode verificar a elevação do nível freático porque ele foi fixado a 2.000 cm de profundidade como condição de contorno. No caso do perfil com camada de solo coluvionar há uma brusca variação de sucção (figuras 17-a e 17-b) e umidade (figuras 18-a e 18-b) na transição entre o solo coluvionar e solo residual. Pode-se observar que a existência da capa coluvionar C1 sobre o solo residual provocaria elevação do nível freático mais intensamente que no caso de um solo residual sem cobertura. A camada de solo coluvionar C4 gerou um contraste entre as propriedades hidráulicas causando uma grande diferença de sucção na interface (figura 17-b). Devido à sucção mais elevada no solo residual nessa condição, a infiltração nessa interface é barrada, formando uma “barreira capilar natural”. Estudos mais complexos envolvendo fluxo em encostas precisam ser reavaliados usando esses conceitos. No perfil de solo residual sem cobertura, a sucção varia entre 20 e 80 kPa, sendo que os valores são maiores na superfície. O nível de sucção é substancialmente maior do que no caso dos solos coluvionares. 44 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 17 – Resultados dos perfis de pressão de água Figura 18 – Resultados das umidades volumétricas 45 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Conclusões Os solos analisados apresentaram duas características distintas quanto à curva de retenção de água: distribuição contínua dos tamanhos de poros e comportamento bimodal. Avaliaram-se os modelos de Brooks e Corey e Van Genuchten para ajustar os dados experimentais. Nos solos que apresentaram comportamento bimodal, os modelos não se aplicam bem. A adaptação do modelo de Brooks e Corey em trechos permitiu melhores ajustes das curvas de retenção e ainda facilitou a definição da função de permeabilidade. Ajustes multimodais usando somas parciais do modelo de Van Genuchten podem ser utilizados para ajustar à curva de retenção, entretanto, a integração para obtenção da função de permeabilidade só pode ser realizada por aproximação numérica. Porém a melhor opção é a utilização da função bimodal proposta por Dunner, cujo modelo está implementado no programa Hydrus e, por isso, permite realizar aplicações em problemas de fluxo não saturado. Apresentou-se um estudo sobre a infiltração em perfis típicos de solos tropicais compostos por duas camadas de solo: solo coluvionar e solo residual. Mostrou-se que o ajuste mais adequado para o solo coluvionar deve considerar distribuição de poros bimodais. As simulações numéricas foram realizadas com o programa Hydrus, que tem implementado um modelo que considera esse ajuste. Observou-se que a sucção ao longo dos solos coluvionares permanece bem baixa quando comparados com um mesmo perfil formado exclusivamente por solo residual. Isso ocorre devido à diferença entre a capacidade de reter água dos solos; além disso, depende também da função de condutividade hidráulica. Assim, como o solo residual permanece com sucções maiores, sua condutividade hidráulica reduz muito em relação ao valor saturado. Essas análises explicam as baixas declividades das encostas, pois, mesmo acima do nível d’água, a massa coluvionar não apresenta sucção elevada, o que não garante ganho de resistência para se suportar sob condições mais íngremes. 46 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Agradecimentos Os autores agradecem o apoio financeiro da FAPESP, da CAPES e do CNPq. Referências BROOKS, R.H.; COREY, A.T. (1964) Hydraulics Properties of Porous Media. Colorado State. Univ. Hydrol. nº 3. DURNER, W. (1994) Hydraulic Conductivity Estimation for Soils with Heterogeneous Pore Structure. Water Resourch Reserch, vol. 30(18), 211-223. FUTAI, M. M.; SUZUKI, S (2006) Curvas de retenção de água e funções de permeabilidade de solos tropicais naturais. XIII COBRAMSEG, Curitiba. FUTAI, M. M., SUZUKI, S. (2007) Influência da Heterogeneidade da Estrutura Porosa na Infiltração de Água em Perfil de Solo Tropical. VI Simpósio Brasileiro de Solos Não Saturados, Salvador, vol. 1, 483-488. MUALEM, Y. (1976) A New model for Predicting the Hydraulic Conductivity of Unsaturated Porous Media. Water Resour, 12 (3), 513522. SUZUKI, S. (2004) Propriedades geomecânicas de alguns solos residuais e coluviais do oleoduto Curitiba-Paranaguá. Dissertação de Mestrado, UFRJ, Rio de Janeiro, 346 p. VAN GENUCHTEN, M.T. (1980) A Closed From Equation for Predicting the Hydraulic Conductivity of Unsaturated Soils. Proc. Sci. Soc. Am. Vol 44 (5), 892-898. Endereço para correspondência: Marcos Massao Futai. E-mail: [email protected] Silvia Suzuki. E-mail: [email protected] 47 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 48 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Concreto com uso de agregados de resíduos de construção e demolição – RCD: avaliação do desempenho Pedro Eugenio Silva de Oliveira1; Joaquim Teodoro Romão de Oliveira2; Silvio Romero de Melo Ferreira3 Resumo A construção civil, como qualquer outro setor produtivo, é gerador de resíduos, devido aos desperdícios e à demolição, após o uso ou catástrofes. O emprego desses resíduos, como agregados para argamassas e concretos não estruturais, tem estudos difundidos na literatura brasileira e no mundo inteiro. Um dos grandes problemas dos centros urbanos das cidades, no Brasil, é o crescimento da geração dos Resíduos de Construção e Demolição - RCD. O presente trabalho estuda a viabilidade do uso de agregados de RCD para o concreto. Foram coletadas amostras, moldados corpos de prova e avaliado o desempenho do concreto, através de ensaios não destrutivos como de ultrassom, esclerometria e de ensaio destrutivo de resistência à compressão. As amostras foram obtidas de uma obra vertical, na Região Metropolitana do Recife, na fase intermediária, durante a elevação da estrutura e colocação da alvenaria. Os corpos de prova foram moldados no formato cilíndrico, com dimensões médias de 0,10 m de diâmetro e 0,20 m de altura, utilizando agregados naturais e com os obtidos, a partir de RCD, tendo os agregados graúdos a mesma granulometria e mesmos fatores água/cimento. Os resultados obtidos indicam que a resistência do concreto com o uso de agregados de RCD é menor do que a obtida com agregados naturais e o consumo do cimento é maior para se obter uma mesma trabalhabilidade e a ruptura ocorre entre os agregados. Palavras-chave: resíduo de construção e demolição; concreto Concrete with use of aggregate of Construction and Demolition Waste – CDW: Evaluation of the performance Abstract The civil construction, as, any productive sector, is a residues producer, on account of the wastes and demolition, after constant uses or catastrophes. These residues use as aggregates for non-structural mortars and concrete have spread out studies in _______________________ 1 Estudante de Engenharia Civil, PIBIC/UNICAP 2 Doutor em Engenharia Civil, UNICAP 3 Doutor em Engenharia Civil, UNICAP e UFPE Professor Doutor, Departamento de Engenharia Civil 49 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Brazilian and worldwide literature. One of the big problems of the urban centers of the cities in Brazil is the growth of the generation of the Construction and Demolition Waste - CDW. The present Paper studies the viability of the use of the CDW as aggregate for the concrete. Sample have been collected as well specimens have been molded and concrete performance has, also, evaluated, through non-destructive essays, as supersonic vibration, sclerometer and resistance to compression destructive essay those ones and the cement waste is bigger in order to get the same plasticity and, so, rupture occurs among the aggregate ones. The samples have been gotten from a vertical workmanship in the Metropolitan Area of Recife, in the intermediate phase, during the rising of the structure and placing of the masonry. The specimens had been molded in the cylindrical format with average dimensions of 0,10 m of diameter and 0,20 m of height, using gotten natural aggregates and with those ones from CDW, having, the coarse aggregates, the same grain size distribution and same water/ cement ratio. The results indicate that the resistance of the concrete with the use of aggregates of CDW is lesser than those ones gotten with natural aggregates and bigger water/cement ratio to get one same plasticity and the rupture occurs among aggregate. Keywords: Construction and Demolition Waste, Concrete. 1 Introdução U ma das grandes dificuldades enfrentadas pelas administrações municipais, estaduais e mesmo no âmbito federal refere-se ao destino dos resíduos sólidos, gerados pelas indústrias, resíduos domésticos e, principalmente, resíduos ocasionados pela demolição e construção de obras de construção civil. Segundo JOHN (2000), os resíduos de construção e demolição (RCD), tanto no Brasil como no exterior, representam de 13 a 67% em massa dos resíduos sólidos urbanos (RSU). Os dados acenam para um montante de 68,5 milhões de toneladas por ano. Praticamente, todos os países no mundo investem num sistema formal de gerenciamento para reduzir a deposição ilegal e sistemática, causando assoreamento de rios, entupimento de bueiros, degradação de áreas e esgotamento de áreas de aterros, além de altos custos socioeconômicos, especialmente em cidades de médio e grande porte (ÂNGULO, 2005). 50 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 A busca por uma gestão sustentável do entulho requer, também, um ordenamento, visando a disciplinar os envolvidos no processo de geração e fluxos desse resíduo e a necessidade da implantação de um plano de destinação e, consequentemente, agregação de valor a esses resíduos, para obras privadas, atentando, aí, para a garantia de compra por parte das entidades municipais envolvidas. O crescimento dos grandes centros urbanos e a falta de planejamento – tanto governamental, quanto privado – para uma gestão apropriada dos resíduos de construção e demolição (RCD) o tornam, quantitativamente, o maior resíduo sólido urbano (RSU) gerado nas cidades brasileiras. Em algumas cidades, o RCD chega a 70% do RSU em massa CARNEIRO (2005), o que torna necessário o desenvolvimento de técnicas de reutilização e reciclagem desse resíduo e de uma estratégia de deposição final eficaz, assim como acontece em alguns países do primeiro mundo, os quais já implementaram uma política de gestão dos RCD. MARQUES NETO (2005) propõe um sistema de gestão integrada entre as prefeituras e o setor gerador, o qual pode ser adotado, em várias localidades. Esse plano consta de aprovação de Programas Municipais de Gerenciamento de RCD, Execução de Projetos de Gerenciamento, Instalação e Implementação de áreas licenciadas de triagem e reciclagem de RCD, redução, reutilização e reciclagem de RCD. A produção de insumos para a construção civil, além de consumir recursos naturais, também produz resíduos. Segundo OLIVEIRA et al (2008), a geração de resíduos é influenciada pela forma como se constroem as edificações e como é feita a gestão dos resíduos de construção e demolição. A Gestão de RCD tem como objetivo a melhoria da limpeza urbana, redução de custos, facilidade de disposição de pequenos volumes gerados, preservação ambiental, incentivo às parcerias e a redução da geração de resíduos nas atividades construtivas. A geração de resíduos de construção varia com o tipo de cidade, com o número de habitantes, com o nível de desenvolvimento e o momento econômicos. Em cidades de médio e de grande porte, no Brasil, as taxas variam de 400 a 700 kg/habitante/ano. A geração de resíduos, também, é influenciada pela forma como se constroem as edificações e como é desenvolvida a gestão dos resíduos de cons- 51 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO trução e demolição. Toda a obra gera resíduo em quantidade significativa. Estima-se, em média, que, de todo o material utilizado em uma obra, 10% dele constituem resíduo. Como o peso de uma edificação, por metro quadrado, varia de 0,8 a 1,2; é possível estimar que 0,08 a 0,12 t/m2 é a geração de resíduo. Uma das mais recentes instalações de usina de reciclagem para beneficiamento de RCD, no Brasil, em 2007, está situada no Bairro da Mangabeira, na Cidade de João Pessoa, no Estado da Paraíba, e outra, no Bairro José e Maria do Município de Petrolina, no Estado de Pernambuco (SANTOS, 2008), ambas com capacidade de processar 20 toneladas/hora de resíduos, que serão beneficiados para a fabricação de blocos de alvenaria, sem função estrutural, bloquetes para pavimentação de ruas e peças para guias e meio-fio, além de produzir material para aplicação em bases e sub-bases de estradas. O presente Trabalho tem por finalidade analisar o comportamento do concreto, com uso de agregado de RCD, através de ensaios destrutivos e não destrutivos, comparando-o com o concreto de agregados convencionais, com mesma granulometria de agregados graúdos e mesmo fator água/cimento. 2 Materiais e métodos O entulho utilizado para este Estudo foi coletado segundo as prescrições da norma ABNT (1987) e representa o resíduo gerado, em uma obra vertical, na fase intermediária entre a elevação de alvenaria, nos pavimentos, e a elevação da estrutura. A construção se encontrava na 19ª laje e os resíduos foram retirados do 14ª pavimento no momento da colocação da alvenaria. O edifício, quando estiver pronto, constará de 23 pavimentos, com 4 apartamentos, por andar. As amostras coletadas passaram pelo processo de separação de materiais indesejáveis para este Estudo, tais como: madeira, ferro, plástico, gesso, placas cerâmicas etc. O material, após seleção e separação in loco, foi armazenado em lugar específico, estruturado pela própria construtora, conforme resolução do CONAMA/307. Todo material coletado - resíduo de alvenaria, argamassa e concreto - foi transportado até o Laboratório de Materiais da Universidade Católica 52 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 de Pernambuco, em 9 sacos de nylon, com aproximadamente 60 kg cada, sendo acondicionado em local seco e específico para o estudo. As amostras de RCD foram trituradas em britador de mandíbulas (Figura 1ª), ajustado para obtenção de uma granulometria equivalente a uma brita de 19 mm seca ao ar e ao sol (Figura 1b), além de protegidas por lonas plásticas para evitar o contato direto com a umidade relativa do ar ou contaminação por outros materiais não recicláveis. A avaliação de todo o material triturado objetivou determinar a proporção entre cada componente encontrado nas amostras. Para isso, utilizou-se a norma ABNT (1987) – que trata do processo de redução de Amostras de Agregados para Ensaios de Laboratórios. Foi empregado o britador de mandíbula, marca Karl Kolp, motor N.714879 Tipo SF848. a) b) Figura 1 – (a)Triturador de Mandíbulas (b) Material reciclado após trituração e material convencional Depois de triturado o material, executou-se o peneiramento, seguindo a norma NBRNM248. Na obtenção de agregado miúdo e graúdo de RCD, fez-se necessário assemelhar, o máximo possível, através do peneiramento, uma granulometria igual à dos agregados naturais. Entretanto, no agregado miúdo, houve dificuldade de controle. Essa dificuldade já foi encontrada por outros pesquisadores, conforme citado por BUTLER (2003). A partir dos agregados reciclados dos Resíduos de Construção e Demolição, foram moldados 24 corpos de prova cilíndricos e com 100 mm de diâmetro e 200 mm de altura. Doze são de concreto, com agregados convencionais de areia e brita, com diâmetro máximo de 19 mm, sendo seis dosados com traços em peso 1:2,17:3,16 e fator 53 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO água/cimento de 0,57 e seis com traço 1:2,78:3,78, fator água/cimento 0,68 e utilizando cimento do tipo CPII Z32. Da mesma forma, doze corpos de prova com concreto de agregado de RCD foram confeccionados. A metodologia usada para dosar os traços com agregados de RCD se baseou no controle do abatimento, por meio do ensaio de slump (ABNT 1982), procurando uma trabalhabilidade semelhante à de um concreto convencional. Os dois traços do concreto convencional foram dosados, com relação água / materiais secos igual a 9%, objetivando-se, nesse caso, atingir um slump próximo de 90 ± 10 mm, o que foi comprovado experimentalmente. A relação água / materiais secos, para esse abatimento, é 18,48% e, a partir desse valor, os traços foram recalculados, mantendo seus fatores água/cimento iguais ao do concreto convencional. O traço recalculado com fator água/cimento 0,57 utilizado, foi 1:0,54:1,54 e o relacionado com fator água/cimento 0,68, foi 1:0,84:1,84. Os traços dos concretos, tanto convencionais como com agregados de RCD, são apresentados nas Tabelas 1 e 2. Após 7, 14 e 28 dias, em dois corpos de prova ABNT (1994) de cada traço, com agregados convencionais e com agregados de RCD, foram realizados os seguintes ensaios: ultras-som, esclerometria e resistência à compressão (Figura 2), segundo as normas ABNT (1994), ABNT (1995), ABNT (1980), respectivamente. Figura 2 – Ensaio de resistência à compressão simples 54 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Tabela 1 – Características dos corpos de concreto com agregados convencionais Tabela 2 - Características dos corpos de concreto com agregado reciclado 3.1 Resultados e Discussão Observou-se que existe predominância de ruptura do tipo A com 66% do total, 30% do tipo C e apenas 4% do tipo D. No concreto com agregado de resíduo, a linha de fratura atravessa os agregados, indicando a fragilidade mecânica do resíduo, quando comparado com a pasta; enquanto no concreto convencional, a linha de fratura ocorre, de maneira predominante, na zona de transição, entre a pasta e agregado graúdo. O peso específico dos corpos de prova convencionais são, em média, 12,7% superiores aos valores encontrados para os corpos de prova com RCD, o que pode ser explicado pela menor densidade média dos resíduos utilizados. O valor médio desse índice para o con- 55 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO creto convencional é de 24,0 kN/m³, enquanto, para o concreto com agregado RCD, é de 21,3 kN/m³. BUTLER (2003) encontrou valores do peso específico para concreto com agregado reciclado, em média 5%, inferiores ao concreto convencional. Vale registrar que esse Autor utilizou o agregado graúdo reciclado das sobras dos corpos de prova do concreto convencional (sem material cerâmico) e o agregado miúdo natural e fator água/cimento entre 0,41 e 0,48. Para manter o mesmo fator água/cimento (a/c) e o mesmo slump no concreto de agregado de resíduo, houve um aumento no consumo de cimento de 50% para o traço com a/c igual 0,57, e 73% para o traço com a/c igual a 0,68, aumentando, de maneira significativa, o custo do concreto produzido. Esse aumento pode ser explicado pela maior avidez por água dos resíduos empregados, o que obrigou a utilização de uma maior quantidade de água, para se obter o mesmo nível de abatimento. Com isso, para se confeccionarem concretos com o mesmo fator água/cimento, foi necessário reduzir a quantidade percentual de agregado empregada no traço. 3.1 Estimativa dos Módulos de Deformação O módulo de deformação estático é dado pela declividade da reta tangente à curva Tensão x Deformação. Segundo a norma brasileira ABNT (2003), pode ser estimado em função da resistência à compressão fcj, pela Equação 1: Equação 1 LEITE (2001) encontrou a Equação 2 para estimar os módulos de deformação dos concretos, produzidos com agregados de RCD, para fcj entre 12 e 42 MPa. Equação 2 Os módulos de deformação (ABNT 2003) crescem com o tempo de cura (Tabela 3) e (Figura 3) e decrescem com o acréscimo do Fator a/c. São superiores, nos concretos com agregados convenci56 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 onais, em cerca de 20,41 %, em relação aos concretos, com agregados de RCD, com fator água/cimento igual a 0,57, e 4,62 % para o traço de fator água/cimento igual a 0,68. Já os módulos de deformação dos concretos convencionais, previstos pela equação de LEITE (2001), são 70,43 % superiores aos concretos de RCD, previstos pela mesma equação. Nesse caso, aumentando-se o fator água/cimento, ocorreu uma redução na diferença entre os valores do módulo de deformação estático do concreto, com agregado convencional e com agregado de RCD. Tabela 3 – Valores numéricos dos módulos de deformação, segundo previsão da ABNT 2003 57 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Figura 3 – módulos de deformação previstos com o tempo 3.1 Cálculo dos Módulos de Elasticidades Dinâmicos (Tangente) por Método Sônico O módulo de elasticidade dinâmico, correspondente a uma deformação instantânea muito pequena, é, aproximadamente, o módulo da tangente para uma reta traçada desde a origem. É, geralmente, de 20 a 40% maior que o módulo estático e pode ser determinado, com mais exatidão, por um ensaio sônico (MEHTA; MONTEIRO 1997), pela Equação 3, onde v é a velocidade de propagação da onda ultrassônica e ñ a massa específica do meio: Equação 3 Os módulos de deformação dinâmico decrescem com o aumento do Fator a/c (Tabela 4) e são superiores nos concretos com agregados convencionais, em cerca de 108,73%, em relação aos concretos com agregados de RCD e crescem, com o tempo de cura (Figura 4). Verifica-se que existe uma tendência de crescimento linear dos Módulos de Deformações com o tempo de cura (Figura 3 e 4). Desse modo, na Figura 5, são correlacionados os módulos estático e dinâmico. Os Módulos de deformação dinâmicos são 87,20 % superiores aos Módulos de deformação nos concretos convencionais; 8,60 % superiores para os concretos de RCD, quando utilizado o método 58 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 da Norma ABNT (2003); e 63,83 %, quando utilizada a equação sugerida por LEITE (2001). Tabela 4 – Valores dos Módulos de Deformação Dinâmicos (M.E.D.) Figura 4 – Crescimento dos módulos de elasticidade previstos com o tempo 59 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Figura 5 – Correlações entre módulo de elasticidade estimado pela norma brasileira e, Módulo de elasticidade dinâmico 3.1 Correlações entre a Resistência à Compressão e os Ensaios não Destrutivos OLIVEIRA et al (2007) apresentaram correlações entre a Resistência à Compressão e os Índices Esclerométricos e da Resistência à Compressão e os valores de velocidade de onda ultrassônica. No presente Trabalho, procura-se, como sugerido por NEVILLE (1997), correlacionar os três ensaios num só gráfico. Os resultados são apresentados na Figura 6. Observa-se que os valores dos corpos de prova, com agregado de RCD, situavam-se abaixo das linhas existentes: as curvas, em azul, foram extrapoladas no presente Artigo, a partir das curvas sugeridas por NEVILLE (1997). Nota-se uma concordância, em termos qualitativos, dos resultados obtidos. 60 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 6 – Correlações entre Resistência à compressão, Índice Esclerométrico e velocidade de onda ultrassônica dos resultados obtidos por OLIVEIRA et al. (2007), a partir de NEVILLE (1997) 3.1 Estudo dos Consumos de Cimento Para se avaliar o consumo de cimento em função do fator água/cimento (a/c = x), foram utilizadas as equações do consumo de cimento e a relação água/materiais secos (A). Para tanto, foram adotados os pesos específicos, tanto do agregado miúdo, quanto do graúdo, iguais a 2,65 kg/cm³ (tento em vista a procedência semelhante dos materiais), obtendo-se as Equações 4 e 5. No presente Trabalho, essa relação pode ser ilustrada na Figura 7, com dados apresentados da Tabela 5. Equação 4 Equação 5 61 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Onde: k1 = 2650.A k2 = (100 + 2,65.A) k3 = -0,152 x = fator água/cimento Tabela 5 – Consumos de Cimento e fator/água cimento Figura 7 – Relação do inverso do consumo de cimento com o fator água/cimento Considerando os valores de A, na Equação 4, é previsível a equação da reta que correlaciona o inverso do consumo com o fator água/cimento. As equações previstas e as encontradas são apresentadas na Tabela 6. 62 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Tabela 6 - Relação do inverso do consumo de cimento com o fator água/cimento Conclusões Para manter o mesmo fator água/cimento (a/c) e o mesmo slump no concreto de agregado de resíduo, houve um aumento no consumo de cimento de 50% para o traço com a/c igual a 0,57, e 73% para o traço com a/c igual a 0,68 crescendo, assim, o custo do concreto produzido. A razão da resistência à compressão entre o concreto, com agregado reciclado, e o concreto convencional, varia entre 0,57 e 1,03. No concreto com agregado de resíduos, a linha de fratura atravessa os agregados e, no concreto convencional, ocorre o mesmo, na pasta. Esse fato indica que a resistência do concreto está limitada pela resistência do agregado de resíduo. A velocidade da onda é maior, no concreto convencional, do que no concreto com agregado de RCD. Os valores dessa velocidade no concreto com resíduos crescem, linearmente, com o tempo, enquanto, com agregados convencionais, é, aproximadamente, constante. Os módulos de deformação dinâmicos decrescem com o aumento do Fator a/c e são superiores, nos concretos, com agregados convencionais, em cerca de 108,73%, em relação aos concretos, com agregados de RCD e crescem com o tempo de cura. Os módulos de deformação dinâmicos são superiores nos concretos com agregados convencionais em cerca de 87,20%; 8,60%, nos concretos com agregados de RCD (ABNT 2003) e 63,83%, quando utilizada a equação, sugerida por Leite (2001), e crescem com o tempo de cura. Foram extrapoladas curvas, no ábaco, que correlacionam Resistência à Compressão, Índice Esclerométrico e velocidade de onda ultrassônica, a partir das curvas sugeridas por Neville (1997). 63 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO O concreto com agregados de RCD apresentaram índices esclerométricos, em média 45% superiores aos obtidos, para o concreto convencional. Embora o concreto com agregado de RCD tenha apresentado menor resistência à compressão e maior consumo de cimento, consequentemente, com maior custo, o aproveitamento desses resíduos trará grande benefício ambiental, cujo valor é de difícil mensuração e contribui para resolver um dos problemas urbanos, que é a destinação final dos RCD. Referências ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas, NBR 5739: “Ensaio de Compressão de corpos de Prova Cilíndricos de Concreto”. Rio de Janeiro, 1980. ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas, NBR 7223: “Concreto – Determinação da consistência pelo Abatimento do Tronco de Cone”. Rio de Janeiro, 1982. ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 10007: “Amostragem de resíduos sólidos”. Rio de Janeiro, 1987. ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 9941: “Redução de amostras de campo de agregados para ensaios de laboratório”. Rio de Janeiro, 1987. ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas, NBR 5738: “Moldagem e Cura de Corpos de prova de Concreto Cilíndricos ou Prismáticos”. Rio de Janeiro, 1994. ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas, NBR 8802: “Concreto endurecido – determinação da velocidade de propagação de onda ultrasônica”. Rio de Janeiro, 1994. ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas, NBR 7584: “Concreto endurecido – avaliação da dureza superficial pelo esclerômetro de reflexão”. Rio de Janeiro, 1995. 64 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas, NBR 6118: “Projeto de estruturas de concreto – Procedimento”. Rio de Janeiro, 2003. ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas, NBRNM248 Agregados - Determinação da composição granulométrica. Rio de Janeiro, 2003. ÂNGULO, S. C. Caracterização de agregados de resíduos de construção e demolição reciclados e a influência de suas características no comportamento mecânico de concretos – São Paulo, 2005. 167 p. Tese (Doutorado) - Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Departamento de Engenharia de Construção Civil. BUTLER, A. M. Concreto com agregados graúdos reciclados de concreto – Influência da idade de reciclagem nas propriedades dos agregados e concretos reciclados. Dissertação de Mestrado – Escola de Engenharia de São Carlos – Universidade de São Paulo, 2003. CARNEIRO, F.P. Diagnóstico e ações da atual situação dos resíduos de construção e demolição na cidade do Recife. Dissertação de Mestrado, João Pessoa, Universidade Federal da Paraíba, Centro de Tecnologia, 131p, 2005. CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE. Resolução nº 307 de 5 de julho de 2002. Estabelece diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos da construção. Livro de Resoluções do CONAMA. JOHN, V.M. Reciclagem de resíduos na construção civil – contribuição à metodologia de pesquisa e desenvolvimento. Tese-Escola Politécnica, Universidade de São Paulo. São Paulo-SP, 2000. 102p. LEITE, M.B. Avaliação das propriedades mecânicas de concretos produzidos com agregados reciclados de resíduo de construção e demolição. Tese de doutorado, São Paulo, Escola Politécnica de São Paulo, 2001. LEVY, S.M. Contribuição ao estudo da durabilidade de concretos, produzidos com resíduos de concreto e alvenaria. Tese de Doutorado, São Paulo, Escola Politécnica de São Paulo, 194p, 2001. 65 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO MARQUES NETO, J. da C. Gestão dos Resíduos de Construção e Demolição no Brasil. São Carlos: Rima 2005, p. 162. MEHTA, P. K.; MONTEIRO, P. J. M. Concreto: Estrutura, propriedades e materiais. 1. ed. São Paulo: Pini, 1999. NEVILLE, A.M. Propriedades do concreto. 2. ed. São Paulo: Pini, 1997. 828 p. OLIVEIRA P.E.S, OLIVEIRA J.T.R, FERREIRA S.R.M. Avaliação da resistência à compressão do concreto com uso de agregado de Resíduos de Construção e Demolição – RCD. 49º Congresso Brasileiro do Concreto – Bento Gonçalves Serra Gaúcha - IBRACON (2007) PINTO T. P. Metodologia para a gestão diferenciada de resíduos sólidos na construção urbana. Tese de Doutorado, São Paulo, Escola Politécnica de São Paulo, 189p, 1999. SANTOS, A. N. Diagnóstico da situação dos resíduos de construção e demolição (RCD) no município de Petrolina (PE). (Dissertação de mestrado) 2008.UNICAP. Recife-PE. ZORDAN, S. E. A utilização do entulho como agregado, na confecção do concreto. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual de Campinas, 140p, 1997. Endereços para contato: Pedro Eugenio Silva de Oliveira Email: [email protected] Joaquim Teodoro Romão de Oliveira Email: [email protected] Silvio Romero de Melo Ferreira E-mail: [email protected] 66 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Avaliação de perdas de resíduos de construção civil (RCC) em obras de edifícios multipisos na cidade do Recife/PE Stela Paulino Fucale1 Alexandre Duarte Gusmão2 Paula Christyan de Medeiros Souza3 Clarissa Ribeiro de Rodrigues4 Resumo A quantidade de resíduos da construção civil gerada é uma parcela significativa das perdas de materiais que ocorrem na construção de edificações. Os custos desse resíduo são distribuídos por toda a sociedade, não só pelo aumento do valor final das construções como também pelas despesas com a sua remoção e tratamento. O objetivo deste trabalho é apresentar o levantamento de indicadores de geração de resíduos (IGR) em atividades da construção de edificações na Cidade do Recife – PE, para os serviços: alvenaria (tijolo cerâmico), revestimento com argamassa e gesso em pasta (parede e teto), e acabamento com placas cerâmicas. Quanto aos resultados dos indicadores mensurados, tem-se que: na fase de alvenaria, obteve-se um IGR de 12,7%; no revestimento com argamassa, foi de 4,5%; no revestimento de gesso em pasta, foi de 47%; e, no revestimento com placas cerâmicas, foi de 5,9%. Os índices de geração de resíduos dos materiais pesquisados são elevados, principalmente no que se refere ao tijolo cerâmico e gesso em pasta, sendo, portanto, de extrema importância que sejam implantados programas de melhorias nos canteiros de obras para reduzir a geração de resíduos e contribuir para uma construção mais sustentável sob o ponto de vista ambiental. Palavras-chave: resíduo da construção civil, indicadores de geração de resíduos, desperdício de materiais. Civil construction waste losses evaluation of (RCC) in multiground buildings in Recife’s city / PE Abstract The amount of civil construction waste generated is a significant loss of material occurring in the construction of buildings. The costs of this waste are distributed _______________________ 1 Doutora em Engenharia Civil, Universidade de Pernambuco 2 Doutor em Engenharia Civil, Universidade de Pernambuco 3 Mestre em Engenharia Civil, Promata/Governo de Pernambuco 4 Mestranda em Engenharia Civil, Universidade de Pernambuco 67 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO throughout society, not only by increasing the final value of buildings but also the costs of their removal and treatment. This paper aims to present indicators of waste generation (IGR) in the construction of buildings in the city of Recife – PE, for the services: masonry (brick ceramic), coated with mortar, plaster coating into folder (wall and ceiling) and covering with tiles. The results of the study showed that the indicators measured were: at the masonry obtained a rate of 12,7% waste generation; in the coating with mortar was obtained an IGR 4,5%; in the plaster coating of slurry, the IGR was 38,7%; and the coating tiles with the IGR 5,9%. The study showed that the rates of waste generation of the materials investigated are high, especially with regard to the ceramic bricks and plaster paste. So it is extremely important that improvement programs are implemented at construction sites to reduce waste generation and contribute to a more sustainable building in terms of environmental. Keywords: civil construction waste, indicators of waste generation, lost of materials. 1 Introdução O s problemas decorrentes da elevada geração de Resíduos Sóli dos Urbanos (RSU) vêm assumindo papel de destaque na sociedade brasileira. Os setores governamentais e da sociedade civil começam a se mobilizar para enfrentar esses problemas, que, por tantos anos, foi deixado em segundo plano. A indústria da construção civil merece maior atenção no que diz respeito à geração de resíduos. O fato de trabalhar com grandes obras fatalmente levam o setor a consumir muitas matérias-primas e, consequentemente, gerar resíduos em grande escala. Contudo, somente a partir da última década, a sociedade em geral, o poder público e o próprio setor produtivo começaram a se preocupar de fato com os danos causados pela falta de um correto gerenciamento desses resíduos. No Brasil, aspectos de geração de Resíduos da Construção Civil (RCC) estão intimamente relacionados à ineficácia do gerenciamento dos materiais de construção nos próprios canteiros de obras e à ausência de aplicação de técnicas capazes de controlar a realização das atividades construtivas durante a execução das obras, provocando altos índices de perdas. Um dos principais problemas vivenciados nos centros urbanos, pelo setor público, envolve o desequilíbrio entre a grande quan- 68 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 tidade de resíduos sólidos urbanos, em que estão incluídos os RCC em maior proporção, e a ausência de locais especializados tecnicamente para disposição e tratamento desses resíduos, em regiões aptas ao fácil transporte, recebimento e manuseio deles. Por esses motivos, frequentemente, observa-se, nos núcleos urbanos, a deposição irregular dos resíduos em terrenos baldios, ruas e avenidas, contribuindo para o acúmulo de outros tipos de rejeitos, para a poluição visual e a ambiental, como também provocando transtornos aos veículos e pedestres pela obstrução das calçadas e faixas de circulação, além de possibilitar a proliferação de vetores de contaminação. Disposto clandestinamente, os resíduos ainda comprometem recursos municipais utilizados para a remoção dos mesmos dos locais e áreas inadequadas, assim como de córregos e galerias onde o material pode depositar-se. Para ter uma estimativa mais precisa dos resíduos gerados pela indústria da construção civil, foi realizado o presente estudo, que tem por finalidade o levantamento dos Índices de Geração de Resíduos – IGR, por serviço, dentro das técnicas construtivas utilizadas pelas construtoras atuantes na cidade do Recife/PE. Tais indicadores são de grande importância para a estimativa da quantidade de resíduos gerados pelo setor, contribuindo para o planejamento das empresas em relação aos seus resíduos. 2 Perdas na construção civil O consumo excessivo de materiais pode ocorrer em diversas fases de um empreendimento: na concepção, quanto há uma diferença entre a quantidade de material previsto num projeto otimizado e a realmente necessária de acordo com o projeto idealizado, gerando, assim, perdas de material incorporado; na execução, quando há diferença entre a quantidade prevista no projeto idealizado e a quantidade efetivamente consumida, gerando perdas de material incorporado e entulho; e durante a utilização, quando há diferença entre a quantidade de material prevista para a manutenção e a quantidade efetivamente consumida num período de tempo, gerando perdas de material incorporado e entulho (SOUZA et al, 1998). 69 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Para Andrade e Souza (2000), ao se propor um método para a avaliação das perdas de materiais existentes nos canteiros, torna-se necessário o entendimento das formas de ocorrência dessas perdas dentro do canteiro de obras. Em seu estudo, classificaram as perdas de materiais como físicas e financeiras. As físicas podem ser de materiais, quando a quantidade de material, hora de mão-de-obra e equipamentos são superiores à prevista, e as financeiras, quando o custo é superior ao planejado (esperado). O entulho de construção civil é uma das parcelas que compõe as perdas físicas de materiais que têm causado grandes transtornos ao meio urbano, alterando-lhe as características físicas e dinâmicas, envolvendo pessoas e o meio natural (ESTEVES, 1997). Praticamente todas as atividades desenvolvidas no setor da construção civil são geradoras de RCC. No processo construtivo, o indicador de perdas é a principal causa dos resíduos gerados, embora nem toda perda, efetivamente, se transforme em resíduo, visto que uma parcela é incorporada à obra (ZORDAN, 2002). Segundo Souza (2005), as parcelas de participação do total de perdas podem ser divididas em aproximadamente 30% em forma de RCC e 70% em perdas incorporadas. Algumas pesquisas apresentam levantamentos de perdas de diferentes materiais medidos no âmbito de canteiros de obras brasileiros, onde pode-se destacar os trabalhos de PINTO (1989), SOILBELMAN (1993), AGOPYAN et al. (1998), SOUZA et al. (1998), SOUZA (2007), GUSMÃO (2008), LORDSLEEM JR. (2009). Pinto (1989) estudou as perdas de uma edificação predial com 3.658 m² de área construída. Por meio da análise dos documentos fiscais, o autor aferiu todos os materiais que entraram na obra, além de medições no canteiro e estudo do projeto executivo. Segundo o projeto, para uma massa estimada em 3.110 toneladas (0,85 ton/ m²), foram adquiridas 3.678 toneladas (1,0 ton/m²) para execução da obra, o que representou desperdício de 18,3%. Durante as etapas da construção, foram retiradas 213 caçambas de entulho em 18 meses de obra, o que representa 2,7 viagens ou 9,45 m³ por semana. Soilbelman (1993) estudou a perda de materiais de cinco obras de classe média alta na cidade de Porto Alegre, RS. O referido 70 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 autor encontrou perda média de 84,13% de cimento (t); 13,18% de concreto (m3); 91,25% de argamassa (m3); e 27,64% de tijolos furados (un). Nas construções analisadas, foram empregadas tecnologias convencionais, ou seja, estrutura de concreto armado, paredes de vedação com blocos cerâmicos e revestimento com argamassa. O estudo se restringiu ao cálculo das perdas de tijolos maciços, tijolos furados, concreto, aço, cimento, areia média, argamassa e cal. O autor afirma que os valores de desperdícios obtidos não representam a quantidade de entulho gerado nos canteiros, mas valores teóricos de consumo utilizados em orçamentos e a quantidade de materiais adquiridos. Agopyan et al. (1998) reuniu estudos feitos em 69 canteiros de obras, envolvendo 15 universidades de 12 estados brasileiros, com intuito de avaliar as perdas reais de materiais dentro de canteiros de obras. Ao final da pesquisa, encontrou os seguintes valores médios de perda de materiais: 9% para concreto usinado, 10 % para aço, 17 % para blocos e tijolos, 15 % para eletrodutos, 25% para condutores, 16% para placas cerâmicas e 45 % para gesso. 2.1 Resolução CONAMA Nº 307 No que se refere aos resíduos provenientes de atividades da indústria da construção civil, somente a partir de janeiro de 2003, quando entrou em vigor a Resolução nº 307 do CONAMA (2002), é que se passou a ter um dispositivo legal capaz de tratar questões específicas dos RCC. Tal Resolução estabelece diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos de construção, definindo e ressaltando a responsabilidade do gerador sobre os seus resíduos (CARNEIRO, 2005). Essa Resolução trata de muitos aspectos relacionados aos RCC, dentre eles: • Art. 3º - A classificação dos resíduos da construção de acordo com o seu potencial para reutilização e reciclagem. • Art. 4º - A proibição da disposição dos resíduos da construção em aterros de resíduos domiciliares. 71 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO • Art. 5º - A obrigatoriedade da elaboração, como instrumento de gestão dos resíduos de construção, do Plano Integrado de Gerenciamento de Resíduos da Construção Civil, o qual deverá incorporar: a) Art. 7º - Programa Municipal de Gerenciamento de Resíduos da Construção Civil, a ser elaborado, implementado e coordenado pelos municípios e pelo Distrito Federal, e deverá estabelecer diretrizes técnicas e procedimentos para o exercício das responsabilidades dos pequenos geradores. b) Art.8º - Projetos de gerenciamento dos resíduos da construção civil, que deverão ser elaborados e implementados pelos grandes geradores e terão como objetivo estabelecer os procedimentos necessários para manejo e destinação ambientalmente adequados dos resíduos. 2.2 Classificação dos Resíduos da Construção Civil A classificação dos RCC é estabelecida no art. 3º da resolução CONAMA Nº 307 (2002), conforme segue: I - Classe A - são os resíduos reutilizáveis ou recicláveis como agregados, tais como: a) de construção, demolição, reformas e reparos de pavimentação e de outras obras de infraestrutura, inclusive solos provenientes de terraplanagem; b) de construção, demolição, reformas e reparos de edificações: componentes cerâmicos (tijolos, blocos, telhas, placas de revestimento etc.), argamassa e concreto; c) de processo de fabricação e/ou demolição de peças prémoldadas em concreto (blocos, tubos, meios-fios etc.) produzidas nos canteiros de obras; II - Classe B - são os resíduos recicláveis para outras destinações, tais como: plásticos, papel/papelão, metais, vidros, madeiras e outros; 72 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 III - Classe C - são os resíduos para os quais não foram desenvolvidas tecnologias ou aplicações economicamente viáveis que permitam a sua reciclagem/recuperação, tais como os produtos oriundos do gesso; IV - Classe D - são os resíduos perigosos oriundos do processo de construção, tais como: tintas, solventes, óleos e outros, ou aqueles contaminados oriundos de demolições, reformas e reparos de clínicas radiológicas, instalações industriais e outros. É muito importante reduzir os índices de geração de resíduos (IGR) de materiais de construção e, para tal, primeiramente, devese avaliar a quantidade de material descartado como entulho nas obras. 3 Metodologia Para a realização do levantamento dos Indicadores de Geração de Resíduos – IGR foram selecionadas diferentes obras de serviços de alvenaria e revestimento, localizadas na cidade do Recife-PE. 3.1 Tijolos cerâmicos Para determinação do indicador de geração de resíduo de tijolo cerâmico utilizou-se a metodologia proposta por Souza (2005). De acordo com essa metodologia, antes do início da execução, é necessário marcar um “X” num determinado número de blocos estocados no pavimento, restringindo a análise apenas no nível desse (figura 1A). Semanalmente, fez-se a contagem do número de tijolos marcados que restaram no estoque do pavimento e do número de tijolos marcados assentes na alvenaria executada naquele pavimento (figura 1B). Assume-se que a diferença detectada seja o entulho gerado durante o período de análise. Assim, o índice de geração de resíduo de tijolo é calculado utilizando-se a equação 1: (1) 73 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Onde: IGR – índice de geração de resíduo de tijolos (%); NT – números de tijolos que foram marcados; N1 – número de tijolos marcados que restaram no estoque; N2 – número de tijolos marcados que foram assentes na alvenaria. A B Figura 1 – A) Marcação de tijolo B) Alvenaria com tijolos marcados Para efeito deste estudo, o procedimento foi repetido quatro vezes (uma vez por semana, considerando que as medições foram realizadas durante quatro semanas) em cada um dos canteiros (06 no total), com exceção da Obra 3 (três semanas). A marcação dos blocos foi realizada em duas situações distintas, dependendo do procedimento adotado em cada obra: tijolos fornecidos a granel (armazenados de forma unitária) e tijolos paletizados, isto é, armazenados em grupos, em paletes. 3.2 Argamassa de revestimento, gesso em pasta e placas cerâmicas A metodologia consistiu, primeiramente, na determinação da área (m²) a ser revestida. Em seguida, foi solicitado aos operários que os resíduos gerados fossem estocados no pavimento, de forma segregada, para que se pudesse realizar a sua pesagem utilizando-se balanças analógicas. 74 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Para o cálculo da perda dos materiais relativo à geração de resíduo, ou seja, do IGR, utilizou-se a equação 2: (2) Onde: IGR – índice de geração de resíduo (%); R – massa do entulho (resíduo) gerado (kg); A – área de aplicação do material (m²); AG – quantidade de material necessária para se executar 1 m² (Kg). Para o caso da argamassa de revestimento, utilizou-se AG igual a 20 kg por m2 de revestimento, de acordo com informações do fabricante. Para o gesso em pasta (revestimento de parede e teto), descontou-se da massa do entulho o percentual de 21% relativo à água adicionada para a produção da pasta, percentual esse medido em laboratório. Considerou-se o rendimento de 4,45 kg de gesso por m2 de revestimento, com espessura de 0,5 cm (pode-se considerar esse rendimento para essa espessura. Finalmente, para o procedimento adotado na análise da geração de entulho de placas cerâmicas, a massa de placa cerâmica era variável para 1 m2 de revestimento (13,5 a 15,9 Kg de placa / m2). A geração de resíduos dos diferentes materiais analisados neste item foi mensurada semanalmente, porém como cada obra possuía um ritmo de produção diferente, os cálculos foram feitos por cômodo e não por semanas. 4 Resultados 4.1 Tijolos cerâmicos Para definição do índice de perdas relativo à geração de resíduos de tijolos cerâmicos, foi realizado um levantamento em 06 75 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO (seis) obras de edificações, todas com características similares: edifícios de múltiplos pavimentos em estrutura de concreto armado moldado in loco com vedação em alvenarias executadas com tijolos cerâmicos de 08 (oito) furos, dimensões 9 cm x 19 cm x 19 cm, assentados com argamassa industrializada. Na tabela 1, são apresentadas as principais características do levantamento em cada obra. Tabela 1 – Características das obras nas quais se avaliou a geração de resíduo de tijolos cerâmicos A tabela 2 apresenta o índice de geração de resíduo médio de tijolos das obras estudadas. Tabela 2 – IGR médio das obras estudadas De acordo com a tabela 2, verifica-se que o valor do IGR varia entre 9,3 e 16,1%, dependendo da obra. Percebe-se uma grande dispersão, que pode ser relacionada aos procedimentos de assentamentos de tijolos e à mão de obra envolvida em cada caso. Analisando-se o resultado final (média) do IGR médio das obras estudadas, 12,7%, observa-se que, apesar da utilização das no76 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 vas técnicas construtivas adotadas em algumas das construtoras estudadas, as construtoras do Recife possuem um índice relevante. Um aspecto relevante é que a paginação da alvenaria (obra 5) levou a um índice de geração um pouco menor que a média, mas, ainda assim, muito elevado. Isso mostra que apenas a paginação da alvenaria não reduz substancialmente as perdas com tijolos. O índice de geração (média final) de tijolos cerâmicos das obras estudadas no Recife é da mesma ordem de grandeza que os índices encontrados por Pinto (1989), 13%, e Souza et al. (1998), 13%; em outros canteiros de obras brasileiros, é um pouco inferior aos estudos conduzidos por Agopyan et al. (1998), que foi de17%, e por Lordsleem Jr. e Pinho (2009), que atingiu também 17%. Em relação aos números britânicos publicados em Skoyles (1976), o índice foi de 8%. 4.2 Argamassa de revestimento O IGR de argamassa de revestimento interno foi definido através de um levantamento realizado em 03 (três) obras de edifícios de múltiplos pavimentos em estrutura de concreto armado moldado in loco, durante um período de quatro semanas. Utilizou-se argamassa industrializada pronta para emboço, que, de acordo com o fabricante, possuía rendimento previsto de 1,0 a 1,2 m2 por saco de 20 Kg. Destaca-se também que a argamassa era preparada em pequenas quantidades e uma nova argamassa só era produzida quando acabava a primeira. Toda a argamassa era utilizada até o término do serviço naquele período, além de haver proteções no piso (folha de zinco) para reaproveitamento do material que caía no chão. A tabela 3 apresenta os valores médios de IGR de argamassa obtidos para as três obras estudadas. A medição dos índices era realizada em diferentes cômodos (suíte, sala de estar, cozinha, banheiro, varanda) das três obras estudadas (7, 8 e 9). Vale salientar que a aplicação desse material nas obras 7 e 8 foi apenas em áreas molhadas (cozinhas, banheiros e varandas). 77 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Tabela 3 – IGR médio das obras estudadas – Argamassa de revestimento Conforme a tabela 3, o índice encontrado pela obra 7 (5,8%) e pela obra 8 (5,7%) são bem próximos, obtendo uma diferença de apenas 0,1% entre eles. A obra 9 obteve o menor índice de perda dos três canteiros estudados, devido, possivelmente, à manutenção da mão de obra utilizada no período de avaliação. Os valores dos índices referentes às obras 7 e 8 são semelhantes aos padrões internacionais, os quais, no estudo de Skoyles (1976), são da ordem de 5%. Comparando-se com a pesquisa de Lordsleem Jr. (2009), em canteiro de obras brasileiro, tem-se que a média obtida pelo autor foi superior (10,3%) aos índices obtidos nesta pesquisa. 4.2 Gesso em pasta Muitos dos canteiros de obras do Recife utilizam gesso para revestimento das paredes, substituindo a argamassa tradicional, em razão do baixo preço do gesso no mercado local. O serviço de gesso nas obras estudadas foi executado de forma terceirizada, ou seja, por empresas contratadas pelas construtoras. Essas empresas trabalham por produção, e como o gesso tem um baixo custo no mercado, elas preferem preparar uma grande quantidade de pasta de gesso para uma frente de trabalho, do que perder tempo preparando a pasta em pequenas porções, mesmo sabendo que haverá geração de muito resíduo desse produto. Esse material, como se sabe, normalmente endurece rápido e, portanto, estando em excesso para uma frente de trabalho, não pode mais ser utilizado, tornando-se resíduo. 78 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 O IGR de gesso em pasta para revestimento de parede e teto foi também calculado por área construída e o controle foi feito apenas pela geração de resíduo. Vale ressaltar que, para evitar que o resíduo de gesso se misturasse com outros, foi colocada uma lona para proteger o piso durante a execução do revestimento. Sabe-se que parte do peso dos resíduos de gesso deve ser atribuída à água incorporada ao mesmo. Em virtude da falta de precisão desse percentual, foi realizado um experimento em laboratório, no qual se obteve um percentual de água de 21% presente nos resíduos de gesso. Tal resultado foi utilizado para retirar a parcela de água do cálculo do índice de geração dos resíduos de gesso). Se for admitido um consumo médio de 10 kg de gesso seco por m² e um percentual de água incorporada ao resíduo de gesso de 21% (obtido em ensaios de laboratório), tem-se um IGR médio de todas as obras consideradas neste estudo de 47% (tabela 4). Apenas na Obra 10, foram geradas em torno de 52 toneladas de resíduos de gesso. Esse número é preocupante, tendo em vista as restrições ambientais para a disposição de resíduos de gesso impostas pela Resolução n° 307 do CONAMA (2002). Conforme Gusmão (2008), o serviço de revestimento com gesso é proporcionalmente o maior gerador de resíduo nas obras pesquisadas no Recife. Tabela 4 – IGR médio das obras estudadas – Gesso em Pasta 79 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Em estudos levantados por Agopyan et al. (1998), o valor desse índice foi semelhante, atingindo uma média de 45% em relação aos canteiros estudados. 4.4 Placas cerâmicas O estudo foi realizado em 05 (cinco) obras, em diferentes cômodos, de edifícios de múltiplos pavimentos em estrutura de concreto armado moldada in loco. Utilizou-se cerâmica Classe A, com dimensões de 31 x 31 cm e peso por placa variável, dependendo da obra. Apesar de terem usado cerâmicas do mesmo padrão 31 x 31 cm, as placas apresentaram variações de peso, de uma obra para outra. Portanto, foi admitido para cada canteiro um consumo médio de cerâmica em peso por metro quadrado (variando de acordo com a obra). Na tabela 5, é possível verificar os valores médios de IGR de placas cerâmicas atingidos para as cinco obras estudadas (13 a 17). Tabela 5 – IGR médio das obras estudadas – Placas Cerâmicas 80 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Para as cinco obras estudadas, tem-se um IGR médio de 5,9%. Comparando-se com índices para placa cerâmica de Skoyles (1976), que é de 3%, o índice levantado neste trabalho (Recife/PE) é praticamente o dobro. Já em comparação com o valor obtido por Agopyan et al. (1998), as perdas para esse material foram de 16%, ou seja, superior ao encontrado na presente pesquisa. Considerações finais A realização deste estudo permitiu concluir que os índices geração de resíduos dos materiais pesquisados são, em sua maioria, elevados e devem servir de subsídio aos engenheiros e interessados para que se tenha um programa de melhoria nas técnicas e procedimentos construtivos. Em média, o valor obtido das perdas de tijolo foi de 12,7%, o de argamassa de revestimento foi de 4,5%, o de gesso em pasta foi de 47% e o de placas cerâmicas foi de 5,9%. A análise dos dados obtidos permitiu concluir que a dispersão encontrada nos valores de IGR de alvenaria pode ser relacionada aos procedimentos e técnicas adotadas por cada obra estudada. Esse fato também foi verificado nos valores de IGR de argamassa de revestimento, gesso em pasta e placas cerâmicas. Referências AGOPYAN, V.; SOUZA, U. E. L.; PALIARI, J. C.; ANDRADE, A. C. Alternativas para a redução do desperdício de materiais nos canteiros de obras: relatório final. São Paulo: EPUSP/PCC, 1998. v. 1-5. ANDRADE, A. C.; SOUZA, U. E. L. Materiais nos canteiros de obras de construção de edifícios: superestrutura e alvenaria. São Paulo, 2000. (Boletim Técnico) Escola Politécnica de universidade de São Paulo. CARNEIRO, F. P. Diagnóstico e Ações da Atual Situação dos Resíduos de Construção e Demolição na Cidade do Recife. João Pessoa, 2005. 81 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Engenharia Urbana, Universidade Federal da Paraíba, 131p. 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C. Avaliação de Perdas de Blocos e Argamassas da Alvenaria de Vedação: Estudo de Caso. VI Simpósio Brasileiro de gestão da Economia da Construção – VI SIBRAGEC, ANTAC, 2009. PALIARI, J. C.; SOUZA, U. E. L.; AGOPYAN, V. Metodologia de coleta e análise de informações sobre consumo e perdas de materiais e componentes nos canteiros de obras. Congresso Latino-Americano de Tecnologia e Gestão na Produção de edifícios: Soluções para o terceiro Milênio, PCC_USP, São Paulo, 1998, Vol.1. PINTO, T. P. Perda de Materiais em Processos Construtivos Tradicionais. São Carlos, 1989. Departamento de Engenharia Civil, Universidade Federal de São Carlos. 82 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 SKOYLES, E.R. Material wasrage a misuse of resources. Building Research and Practice, jul./aug.,1976. SOILBELMAN, L. As perdas de materiais na construção de edificações: sua incidência e controle. Porto Alegre, 1993. Dissertação (Mestrado) – Curso de Pós-Graduação em Engenharia Civil, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. SOUZA, U. E. L.; PALIARI, J. C.; ANDRADE, A. C. E AGOPYAN, V. Os valores das perdas de materiais nos canteiros de obras do Brasil. Congresso Latino-Americano de Tecnologia e Gestão na Produção de edifícios: Soluções para o terceiro Milênio, PCC_USP, São Paulo, 1998, Vol.1, p. 355-361. SOUZA, U. E. L. Como reduzir perdas nos canteiros - Manual de Gestão do Consumo de materiais de construção civil. São Paulo, Editora PINI, 2005. SOUZA, P. C. de M. Gestão de Resíduos da Construção Civil em Canteiros de Obras de Edifícios Multipiso na Cidade do Recife/PE. João Pessoa, 2007. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Engenharia Urbana – PPGEU, Universidade Federal da Paraíba, 147p. ZORDAN, S. E. Entulho na Indústria da Construção.São Paulo, 2002. (Artigo Técnico) Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (PCC), São Paulo, 2002. Endereços para contato: 83 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 84 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Produção de biogás em uma célula experimental de resíduos sólidos urbanos Felipe Jucá Maciel1 Régia Lúcia Lopes2 José Fernando Thomé Jucá3 Resumo As emissões fugitivas de biogás em áreas de disposição de resíduos sólidos urbanos (RSU) são um grave problema de poluição atmosférica de níveis local e global que precisa ser mitigado. Essa situação é relevante uma vez que ainda existem cerca de 3.000 lixões em operação no Brasil (IBGE, 2010), os quais contribuem para a contaminação do meio ambiente e a má qualidade de vida da população. Uma das formas de evitar a passagem aleatória do biogás para a atmosfera é constituindo um adequado sistema de coleta e aproveitamento energético do biogás e de cobertura dos resíduos. O objetivo principal desta pesquisa é avaliar o potencial de geração de biogás a partir do desenvolvimento e implantação de uma Célula Experimental com 36.659 toneladas. O plano de monitoramento deste estudo permitiu caracterizar físico-quimicamente os resíduos e avaliar experimental e numericamente a produção de biogás. Os resultados encontrados nesta pesquisa permitiram concluir que, em função das características dos resíduos e do clima local, a produção de biogás ocorreu de forma mais intensa e acelerada que o previsto na literatura internacional. Palavras-chave: Aterro experimental, resíduos sólidos urbanos, biodegradação, biogás. _______________________ 1 Engo Civil. Doutor em Enga Civil/Área de Geotecnia Ambiental (UFPE). Coordenador técnico do Projeto P & D da CHESF/UFPE na área de aproveitamento energético do biogás na Muribeca. Membro do Grupo de Resíduos Sólidos/ GRS-UFPE. 2 Enga Civil e Mestre em Enga Química (UFRN). Doutoranda em Enga Civil/Área de Geotecnia Ambiental (UFPE). Profa do IFRN Campus Natal-Central, dos cursos Técnicos e Graduação Tecnológica da área de Meio Ambiente, desde 1991. Membro do Grupo de Resíduos Sólidos/GRS-UFPE. 3 Prof. Dept. Enga Civil (UFPE). Doutor pela Universidad Politécnica de Madrid. Coordenador do Grupo de Resíduos Sólidos – GRS/UFPE. Coordenador do Programa de Monitoramento dos Aterros da Muribeca-PE, Aguazinha – Olinda e Metropolitano de João Pessoa. Coordenador dos Projetos PROSAB-FINEP, PRONEX e CHESF/UFPE. Consultor do Ministério das Cidades na área de resíduos sólidos. 85 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Biogaz production in urban solid wastes experimental cell Abstract Fugitive gas emissions from municipal solid waste (MSW) landfills are a serious problem related to local and global atmospheric pollution that must be mitigated. This situation is relevant as still exists approximately 4.000 open dumps in operation in Brazil (IBGE, 2008), which contributes to the environment contamination and poor quality of life. One of the forms to prevent gas escape to the atmosphere is to constitute an adequate landfill gas collection and utilization system, and waste covering. The main objective of this research is to evaluate landfill gas potential through the development and implementation of an Experimental Cell with 36,659 t. The geoenvironmental and energetic plan allowed to characterize physicalchemically the waste, and evaluate experimentally and numerically landfill gas production. The results obtained in this research allowed to conclude that, due to the waste characteristics and local climate, the landfill gas production occurred in a more intensive and accelerated form than predicted in the international literature. Keywords: Experimental Cell, Municipal Solid Waste, Biodegradation, Landfill gas. 1 Introdução A situação dos resíduos sólidos urbanos (RSU) no Brasil ainda é precária, uma vez que existem cerca de 3.000 lixões que contribuem para a contaminação ambiental, tendo influências na qualidade de vida da população. De acordo com o IBGE (2010), apenas 27,7% dos municípios destinam seus resíduos a aterros sanitários, enquanto o restante é disposto, indevidamente, em lixões ou aterros controlados. As emissões fugitivas de biogás de aterros sanitários são um grave problema de poluição atmosférica de nível local e global que precisa ser mitigado. Dentre as emissões antrópicas, o gás metano (CH4) é o segundo maior contribuinte para o aquecimento global, atrás apenas do dióxido de carbono (CO2), sendo cerca de 21 vezes mais eficiente do que o CO2 no aprisionamento de calor na atmosfera (IPCC, 2001). A alternativa do aproveitamento energético do biogás e a redução de emissões de gases nos aterros de RSU, associadas à comercialização dos créditos de carbono e inserção social, contribuem para a solução sustentada da gestão dos RSU. O Mecanismo de 86 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Desenvolvimento Limpo (MDL), previsto no Protocolo de Kyoto, é um dos instrumentos ofertados em escala global, por entidades governamentais no Brasil e no mundo, como forma de diminuir o aquecimento global. O estudo do potencial de biogás e energia em aterros de RSU no Brasil ainda é um desafio para a engenharia nacional, uma vez que as atuais estimativas são realizadas com base em critérios e experiências internacionais que não vêm apresentando resultados satisfatórios para as condições locais. Os poucos projetos de aproveitamento energético de biogás no Brasil estão localizados no eixo sulsudeste e alguns estão apresentando dificuldades de ordem técnica em função de falhas na previsão de produção de biogás. Os parâmetros técnicos utilizados foram desenvolvidos para aterros de países desenvolvidos, onde as características de projeto operacionais dos resíduos e as condições climáticas são bem distintas dos aterros existentes no País. Nos últimos anos, o desenvolvimento de novos ensaios laboratoriais e de campo para avaliação do potencial de gás, associado ao estudo da decomposição dos resíduos em diferentes escalas e de novas tecnologias para aproveitamento energético do biogás, vêm contribuindo para minimizar esse problema. Este artigo apresenta os resultados da pesquisa realizada com objetivo de avaliar o potencial de geração de biogás a partir do desenvolvimento e monitoramento de uma Célula Experimental de RSU, com 36.659 toneladas de capacidade, e a Usina Piloto com 20 kW, as quais foram implantadas no Aterro da Muribeca/PE. 2 Informações preliminares 2.1 Características gerais da célula experimental A Célula Experimental possui uma área de base de 5.993 m2 e altura máxima de 9 m de resíduos, distribuída em dois patamares com 3,0 m e 6,0 m de altura. A capacidade de RSU da célula é de 36.659 toneladas. Foram implantados 05 drenos verticais para escoamento dos gases produzidos no interior da massa de lixo, com diâmetro (φ) externo de 700 mm (camada de pedra britada) e uma 87 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO tubulação interna de PVC rígido com = 110 mm. Toda a rede de coleta de biogás é composta por dutos flexíveis de polietileno de alta densidade (PEAD), com φ = 110 mm (coletor-tronco) e φ = 75 mm (ramais e sub-ramais), com comprimento linear da rede de cerca de 300 m. 2.2 Localização e condições climáticas A Célula Experimental está localizada no Aterro da Muribeca/ PE, o qual está situado na Região Metropolitana do Recife (RMR), no município de Jaboatão dos Guararapes/PE, a cerca de 15,0 km do Centro do Recife. As coordenadas geográficas do aterro são: 8º 9’ 50" S e 34º 59’ 00" W. Essa região possui clima tropical litorâneo, quente e úmido, tipo Ams’, comandado por ventos de sudeste com velocidade média entre 3,1 a 4,2 m/s. A precipitação pluviométrica da região é abundante, com média anual de 2.458 mm e evaporação de 1.390 mm. A temperatura média anual é de 25,5ºC e a umidade relativa média do ar é de 79,8%. 2.3 Implantação do projeto Os detalhes de projeto e de implantação da célula foram apresentados por Maciel e Jucá (2007) e Maciel (2009). As atividades preliminares foram realizadas entre agosto/2006 a janeiro/2007, contemplando limpeza do terreno e escavação e regularização da área. O início da execução da Célula Experimental ocorreu em março/2007, com a compactação da camada de base, e se estendeu até março/2009, quando foi finalizado o enchimento da célula e a cobertura dos resíduos com solo compactado. A Figura 1 ilustra as diversas fases de desenvolvimento da Célula Experimental desde a locação da área (A), enchimento com resíduos (B), implantação da cobertura e drenagem pluvial (C) e, posteriormente, a implantação da Usina Piloto da Muribeca (D). Atualmente, faz parte do projeto o monitoramento geoambiental da célula e a avaliação da produção de energia elétrica. 88 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 1. Ilustração da implantação da Célula Experimental e Usina Piloto da Muribeca 3 Metodologia O plano de monitoramento da Célula Experimental foi concebido para avaliar o processo de degradação dos resíduos em associação com a produção de biogás e geração de energia elétrica na usina piloto. Para se estimar a produção de biogás, foram avaliados os parâmetros de vazão, pressão, composição e temperatura nos cinco drenos verticais e na rede de coleta horizontal com frequência semanal de leituras, utilizando as seguintes metodologias: a) Vazão: a medição da velocidade do biogás nos drenos foi realizada por meio da inserção da sonda (com sensor tipo fio quente) do termo-anemômetro, transversalmente ao sentido do escoamento do fluxo de gás na tubulação. Posiciona-se a sonda em três locais distintos no interior do tubo (centro e distante 2 - 3 cm da parte inferior e superior) para obtenção da velocidade média do fluxo. Os equipamentos utilizados foram: (i) termoanemômetro digital portátil, marca Dwyer, modelo 471-2, faixa de leitura de 0 a 70 m/s e precisão de 3,0 89 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO a 5,0%, (ii) termoanemômetro digital portátil, marca Kimo, modelo Vt-50, sistema de fio quente, faixa de medição de 0 a 30 m/s e precisão de 3% e (iii) termoanemômetro digital, marca Unity, modelo 208, faixa de medição 0,2 a 20 m/s, resolução 0,1 m/s e precisão de 3%. A Figura 2 ilustra as medições em campo e as posições de medição de velocidade no tubo. Figura 2. Sistemática de medição da velocidade do biogás nas tubulações b) Pressão: a pressão estática do biogás foi avaliada com um manômetro digital portátil, era acoplado na saída do dreno. Os equipamentos portáteis utilizados foram: (i) manômetro digital portátil da Dwyer, modelo 477-2, com faixa de leitura de 0 - 10 kPa e sensibilidade de 3,0 Pa e (ii) manômetro digital portátil Kimo, modelo MP-50, faixa de 0-9,8 kPa, precisão de 2,5% e resolução de 0,98 Pa. c) Composição do biogás (CH4, CO2, O2 e H2S): a concentração do biogás foi determinada com o detector portátil Drager X-am 7000 em pontos de investigação instalados na rede de coleta e drenos verticais. Os tipos de gases analisados foram: CO2 (0- 100%, erro ± 2,0%), CH4 (0- 100%, erro ± 5,0%), H2S (0 – 500 ppm, erro ± 5,0%) e O2 (0 – 25%, erro ± 1,0%). O tempo para estabilização das leituras adotado, em todos os casos, foi de 3 minutos. d) Temperatura: a temperatura do gás nos drenos verticais foi determinada com o termômetro digital modelo Appa Mt-520 de sensibili90 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 dade de 0,1ºC. O terminal de entrada desse aparelho é para termopar tipo K e a faixa de leitura varia de -50ºC a 1.300ºC. Vale destacar que foram instalados poços térmicos ao longo da rede de coleta, nos quais foi inserido um sensor intercambiável e, posteriormente, realizadas leituras com um termômetro digital para sensores Pt-100 ohms/0ºC com faixa de medição -199,9 a +199,9ºC e resolução de 0,1ºC. 4 Resultados e discussões 4.1. Composição e pressão do biogás A Figura 3 apresenta os resultados da composição do biogás ao longo do período avaliado na rede de coleta da Célula Experimental. Figura 3. Monitoramento da composição do biogás na rede de coleta com o tempo 91 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO A análise da composição do biogás ao longo do tempo mostra que não foi possível estabelecer limites para as fases iniciais de decomposição dos resíduos (fases aeróbia, transição, ácida) anteriores à fase metanogênica, uma vez que a concentração do CH4 atingiu valores da ordem de 50% no instante em que a Célula Experimental foi concluída (t = 0). Augestein e Pacey (1991) afirmaram que as fases iniciais da degradação dos resíduos podem durar de 4,0 meses a 3,0 anos. Dessa forma, pode-se concluir que todas as fases de transição até o estabelecimento da fase metanogênica ocorreram durante o enchimento da Célula Experimental, o qual durou 10 meses (abril/ 2007 a janeiro/2008) e o tempo médio de disposição dos resíduos de 105 dias (3,5 meses). Vale destacar que, antes do fechamento da célula (t < 0), as leituras da composição do biogás estavam sendo influenciadas pelos condicionantes atmosféricos, uma vez que os drenos verticais não haviam sido selados lateralmente (solo compactado na parte superior do dreno). Por esse motivo, a concentração média do O2 atingiu valores da ordem de 12,0%. Após o fechamento da Célula Experimental (t > 0), a composição do biogás na rede de coleta se manteve praticamente estável durante todo o período de monitoramento (janeiro/2008 a julho/2009). A concentração média de CH4 foi de 54,3% ± 2,7%, CO2 de 40,7% ± 2,9% e O2 de 1,2% ± 0,9%. Pode-se concluir que a qualidade do biogás estava satisfatória para produção de energia elétrica desde o instante do fechamento da Célula Experimental (t = 0). Os resultados obtidos nesta pesquisa foram superiores aos encontrados no Aterro Experimental de Belo Horizonte/MG, onde as concentrações médias de CH4 foram de, no máximo, 36,7%, durante um período de 20 meses (CATAPRETA, 2008). Nesse caso, a fase metanogênica não conseguiu estabilizar-se, pois pode ter existido entrada de O2 em virtude da baixa altura da massa de resíduos (3,2 m). A influência das condições atmosféricas na Célula Experimental atingiu profundidades de até 3,0 m com base na avaliação da temperatura dos resíduos e do teor de sólidos voláteis. Por outro lado, o estudo conduzido em seis células experimentais com altura de 20 m de resíduos em Brogborough (Reino Unido), permitiu estabelecer concentração média de CH4 até 9º ano de monitoramento de 55,0% a 92 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 57,0%, em todas as células (KNOX et al, 2005), os quais estão mais próximos dos resultados obtidos na Célula Experimental. A Tabela 01 apresenta os resultados médios da concentração dos gases em cada dreno vertical. Tabela 01. Concentração do biogás nos drenos verticais Observa-se que os drenos DV-04 e DV-05 apresentaram maior influência das condições atmosféricas devido à presença de O2 no biogás, tendo esse fato também alterado a concentração de CH4, cujos valores médios, ao longo de todo o período, foram inferiores a 50%. Em função da qualidade inferior do biogás nos DV-04 e DV05, além da menor vazão captada, os mesmos foram isolados do sistema de coleta da Usina Piloto para não prejudicar a qualidade do biogás para fins de aproveitamento energético. 4.2 Vazão de biogás captada pelos drenos A Tabela 02 apresenta os resultados consolidados da captação e temperatura do biogás em cada dreno vertical no início e no final da investigação. 93 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Tabela 02. Vazão de biogás e de CH4 e Temperatura do biogás * t = 0 (valor médio do mês de jan/08) e t = 550 dias (valor médio do mês de jul/09); ** valor médio Os resultados indicam que a captação de biogás foi significativamente reduzida ao longo do período de 550 dias, em todos os drenos. Diferentemente do reportado na literatura, não é possível identificar, na Célula Experimental, um intervalo inicial de crescimento da produção de gás, o qual deve ter ocorrido ainda na fase de enchimento da célula. O tipo de comportamento da curva de decaimento da vazão de biogás será discutido posteriormente quando do ajuste de modelos teóricos de produção de biogás. A redução percentual mais significativa foi identificada nos drenos DV-04 e DV-05 com valores de 80% a 90%. Os drenos DV-01 a DV-03 também apresentaram redução de vazão acentuada, entretanto, os valores foram da ordem de 70%. Assim como identificados na análise qualitativa do biogás, os drenos DV-01, DV-02 e DV-03 (localizados no platô superior) foram os que apresentaram maiores vazões de biogás, e os drenos DV-04 e DV-05 (localizados nos taludes), os piores resultados, em função da menor espessura de resíduos no local. Dessa forma, pode-se concluir que os drenos devem estar preferencialmente posicionados na parte superior da célula para otimizar a captação do biogás. Outro parâmetro de interesse é a taxa de captação de biogás pela altura útil de cada dreno. A altura útil é definida como o comprimento de drenagem localizado no interior da célula que possui orifícios para captar os gases. Para o cálculo dessa variável, foram utilizadas as vazões de biogás (Tabela 02) e as alturas úteis de cada dreno 94 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 estabelecidas quando da conclusão da Célula Experimental. A Tabela 03 apresenta os resultados da taxa de captação de biogás por metro de drenagem, a qual variou de 3,4 Nm3/h.m a 8,5 Nm3/h.m (situação de vazões em t = 0) e de 0,1 Nm3/h.m a 0,3 Nm3/h.m (t = 550 dias). Tabela 03.Taxa de captação do biogás *Vazão captada de biogás sem extração forçada com compressor Observa-se que a eficiência da captação do biogás por metro de drenagem independe da profundidade do dreno, considerando a situação de drenagem livre (sem extração forçada). O DV-04, com apenas 3,0 m de profundidade útil, foi o que apresentou a maior taxa de captação unitária (8,5 Nm3/h.m). Dessa forma, pode-se afirmar que a eficiência de captação do biogás está mais relacionada com fatores internos do aterro (ex.: nível de líquidos) e/ou estruturais dos drenos (ex.: colmatação, ruptura, desmonte de peças sobrepostas etc.) do que com a altura útil deles. Esse tipo de análise é relevante para o dimensionamento de drenos verticais em aterros de RSU. A taxa de captação de biogás por tonelada de resíduos aterrados na Célula Experimental variou de 12,4 Nm3/t.ano (t = 550 dias) a 46,2 Nm3/t.ano (t = 0) – base úmida. Esses valores foram obtidos dividindo-se a vazão captada de biogás da célula em cada período pela quantidade de resíduos aterrada (36.659,8 t). Willumsen e Bach (1991) coletaram dados de 86 aterros sanitários de diferentes países e constataram que a taxa de captação de biogás situa-se entre 0,8 e 10,0 m3/t.ano a depender da idade dos resíduos, embora resultados de até 20,0 m3/t.ano tenham sido observados. De acordo com Environmental Agency (2002), os aterros sanitários no Reino Unido apresentaram 95 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO taxas de captação de 5,0 a 10,0 m3/t.ano de biogás. Benson et al (2006) estudaram 05 aterros sanitários operados como biorreatores (com recirculação de lixiviado) e a captação de biogás foi de 4,0 a 16,1 m3/ t.ano. O estudo conduzido por Knox et al (2005) em 05 células experimentais no Reino Unido permitiu concluir que a taxa máxima ocorreu após 5 e 7 anos, com valores de 13 a 22 m3/t.ano. Conclui-se, portanto, que os valores obtidos na Célula Experimental são superiores ao reportado na literatura técnica internacional, considerando os dados de aterros sanitários e células piloto de grandes dimensões, os quais citam taxa máxima de até 22,0 Nm3/ t.ano. Entre os fatores que contribuíram para essa potencialização do biogás, podem-se citar as características físico-químicas dos resíduos da célula e as condições climáticas favoráveis para decomposição dos resíduos na RMR. Vale ressaltar que os valores reportados para a Célula Experimental referem-se à vazão captada pelos drenos sem extração forçada, ou seja, não está incluída a eficiência de coleta do biogás e perdas por emissões fugitivas e oxidação do CH4, as quais serão vistas posteriormente. 4.3 Ajuste das previsões de produção de biogás A Figura 4 apresenta as curvas de previsão da geração de biogás utilizando os parâmetros “default” dos modelos LandGem (USEPA, 2005) e do IPCC (2006), além dos dados experimentais obtidos nesta investigação. A eficiência de captação do biogás utilizada nas previsões foi de 41,4% (MACIEL, 2009). 96 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 4. Previsão da captação de biogás utilizando modelos IPCC (2006) e USEPA (LANDGEM, 2005) e dados experimentais de captação do biogás Observa-se nessa figura que a diferença entre os modelos e os dados experimentais foi significativa (4,0 a 5,0 vezes) no início do período de monitoramento. Após cerca de 550 dias (1,5 anos – meados 2009), a captação de biogás na Célula Experimental atingiu níveis similares às modelagens. Posteriormente, verifica-se que a captação de biogás na Célula Experimental tenderá a ser menor que as previsões dos modelos. Dessa forma, conclui-se que a decomposição dos resíduos para as condições climáticas e operacionais da Célula Experimental foi muito mais acelerada que o previsto na literatura técnica internacional e, consequentemente, a produção de biogás deve ser mais intensa em termos quantitativos e restrita a um menor intervalo de tempo. Os ensaios realizados em laboratório, nesta investigação (BMP e reatores), também corroboram esse comportamento de geração de biogás (MACIEL, 2009). Uma vez constatado que os modelos de previsão com parâmetros “default” não se ajustam bem ao intervalo inicial da curva de captação de biogás da Célula Experimental, procedeu-se ao ajuste dos modelos com variações nos principais parâmetros de entrada: tempo de meia vida (t1/2), constante cinética de degradação (k), 97 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO potencial de CH4 (Lo), fração de carbono orgânico degradável (CODf) e fração de COD transformado em CH4 (DOCf). O ajuste do modelo LandGem (USEPA, 2005) foi realizado com base nas seguintes premissas: (i) adoção do valor de Lo calculado em 123,9 Nm3/t e (ii) utilização de diferentes valores da constante cinética de degradação dos resíduos (k), mas o que melhor se ajustou aos dados experimentais foi o k = 0,80. Esse valor representa um tempo de meia vida dos resíduos de 316 dias, o qual é próximo ao obtido com os dados experimentais (t1/2 = 365 dias). A constante de degradação utilizada na versão “default” foi de 0,15 e 0,20, conforme recomendado pelo manual do LandGem para países de clima tropical úmido. O ajuste do modelo IPCC (2006) foi realizado utilizando os parâmetros descritos por Maciel (2009). No que se refere ao tempo de meia vida das frações dos resíduos, foi adotado um fator de multiplicação de 0,25 (ou seja, 1/5) do valor máximo sugerido pelo IPCC (2006). Esse fator foi adotado em função da captação de biogás registrada no período inicial do monitoramento ter sido cerca de 4,0 a 5,0 vezes maior que as previsões iniciais feitas com parâmetros “default”. A Figura 5 apresenta as curvas ajustadas dos modelos com os resultados experimentais. Figura 5. Ajuste dos modelos LandGem (USEPA, 2005) e IPCC (2006b) aos dados de captação de biogás da Célula Experimental 98 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Observa-se que os ajustes obtidos com o modelo IPCC (2006) foram mais satisfatórios que o modelo LandGem (USEPA, 2005). Esse fato está relacionado com a maior flexibilidade do modelo IPCC (2006), que permite incorporar parâmetros da cinética de degradação das diversas frações que compõe os resíduos, enquanto, no modelo comercial da USEPA, isso não é possível. Desta forma, pode-se concluir que os modelos de previsão de geração de biogás devem ser utilizados com cautela tendo em vista que as previsões podem variar bastante dos resultados experimentais. Recomenda-se, portanto, que os modelos sejam periodicamente ajustados com os dados de campo para que as simulações se tornem mais coerentes com a realidade do aterro. Conclusões Os valores de geração de biogás obtidos na Célula Experimental são superiores ao reportado na literatura técnica internacional, considerando os dados de aterros sanitários e células piloto de grandes dimensões, os quais citam taxa máxima de até 22,0 Nm3/ t.ano. Entre os fatores que contribuíram para essa potencialização do biogás, pode-se citar: características físico-químicas dos resíduos da célula e (II) condições climáticas favoráveis para decomposição dos resíduos na RMR. A utilização dos modelos existentes na literatura internacional deve ser utilizada com cautela para estimativa da geração de biogás para condições operacionais e climáticas semelhantes às da Célula Experimental. Se possível, devem-se realizar estudos em escala piloto para obtenção dos parâmetros de entrada do modelo, principalmente o tempo de meia vida das frações dos resíduos (t1/2). Os parâmetros de entrada obtidos nos ajustes foram muito superiores aos limites máximos sugeridos nos manuais dos modelos. O tempo de meia vida utilizado nos ajustes dos modelos LandGem (USEPA, 2005) e IPCC (2006) foram cerca de 4,0 e 5,0 vezes, respectivamente, menor que o máximo limite sugerido pelos manuais. Dessa forma, pode-se afirmar que a velocidade de degradação dos resíduos na Célula Experimental foi cerca de 4,0 a 5,0 vezes maior que o previsto pela modelagem “default” de 1ª ordem. Este trabalho pode ser de 99 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO grande valia para o desenvolvimento deste tema no Brasil e poderá ser aplicado em diversos aterros de resíduos urbanos, principalmente considerando o porte e a taxa de disposição de resíduos desta célula, que são semelhantes à de pequenos e médios municípios do Brasil. Agradecimentos Os autores gostariam de agradecer o financiamento desta pesquisa por parte da Companhia Hidroelétrica do São Francisco – CHESF e o suporte operacional da Prefeitura de Recife, por intermédio da Empresa de Limpeza Urbana de Recife – EMLURB. Referências AUGENSTEIN, D.; PACEY, J. MODELLING LANDFILL METHANE GENERATION. In: Proceedings Sardinia 1991. The Third International Landfill Symposium, Sardinia, Italy, Vol.1, p.115-148. 1991. BENSON, C.H.; BARLAZ, M.A.; LANE, D.T.; RAWE, J.M. Practice review of five bioreactor/recirculation landfills, In: Journal of Environmental Management, n. 27, p. 13-29, 2007. CATAPRETA, C.A.A. Comportamento de um aterro sanitário experimental: avaliação da influência do projeto, construção e operação. Tese de Doutorado em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG. 2008. INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE – IPCC. Climate Change 2001: The Scientific Basis. Cambridge University Press, Cambridge, UK. 2001. INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE – IPCC. Guidelines for National Greenhouse Gas Inventories. Chapter 3: Solid waste disposal. 2006. KNOX, K.; BRAITHWAITE, P.; CAINE, M.; CROFT, B. Brogborough landfill test cells: The final chapter. A study of the landfill completion in relation to final storage quality criteria, In: Proceedings Sardinia 2005, 100 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Tenth International Waste Management and Landfill Symposium, Cagliari, Itália, 2005. CD. ENVIRONMENTAL AGENCY. Guidance on landfill gas flaring, Bristol, UK. sept. 2002. IBGE (2008) Pesquisa Nacional de Saneamento Básico. Brasília, DF. Disponível em < http://www.ibge.gov.br>. Acesso em 10 de setembro de 2010. MACIEL, Felipe Jucá. Geração de biogás e energia em um aterro experimental de resíduos sólidos urbanos. Tese de doutorado. Engenharia Civil/UFPE. 2009. MACIEL, Felipe Jucá; JUCÁ, José Fernando Thomé. MSW test cell for energy recovery at the Muribeca Landfill. In: Proceedings Sardinia 2007, Eleventh International Waste Management and Landfill Symposium, Cagliari, Italy, 2007. CD. UNITED STATES ENVIRONMENTAL PROTECTION AGENCY – USEPA. Turning a liability into an asset: A Landfill gas-to-energy Project development handbook. Landfill Methane Outreach Program (LMOP), EPA 430-B-96-0004. 1996. WILLUMSEN, H.C.; BACH, L. Landfill gas utilization overview, In: Proceedings Sardinia 1991. The Third International Landfill Symposium, Sardinia, Italy, Vol.1, p.329-348. 1991. Endereços para contato: 101 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 102 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Análise de métodos semiempíricos para o cálculo da capacidade de carga de estacas raiz de pequeno diâmetro, com base em provas de carga estática, em uma obra de Fortaleza-CE Antonio José Nóbrega Júnior1 Alfran Sampaio Moura2 Silvrano Adonias Dantas Neto3 Resumo O objetivo do presente artigo é analisar alguns dos principais métodos semiempíricos utilizados para o cálculo da capacidade de carga em estacas raiz, através de resultados de provas de carga estática em uma obra, em Fortaleza. O artigo apresenta comparações entre os resultados de Lizzi (1982), de Salioni (1985), de Cabral (1986), da Brasfond (1991), de Aoki e Velloso (1975) e de Décourt e Quaresma (1978), com os resultados de três provas de carga estática, cujos valores foram extrapolados através do método de Van der Veen (1953). Para as estacas raiz de diâmetros 160 mm, 200 mm e 250 mm, os métodos de Salioni (1985), de Cabral (1986) e de Décourt e Quaresma (1978) apresentaram os resultados mais concordantes com aqueles obtidos nas retroanálises das provas de carga estática realizadas. Palavras-chave: capacidade de carga, estacas raiz, provas de carga estática. Semiempirical methods analysis for small diameter root stakes charges capacity calculation, based on static charge tests, in a fortaleza’s work Abstract This paper deals with the analysis between semi-empirical bearing capacity methods in root piles and the statics load tests results, at imobiliary market building at Fortaleza. This paper presents comparison between Lizzi (1982), Salioni (1985), Cabral (1986), Brasfond (1991), Aoki and Velloso (1975) and Décourt and Quaresma (1978) results and the three static load tests results which values were obtained from Van der Veen (1953) method. For the root piles in 160mm, 200mm and 250 mm diameter, the Salioni (1985), Cabral (1986) and Décourt and Quaresma (1978) methods presents the best results when compared with ones obtained from performed load tests. Keywords: bearing capacity, root piles, static load tests. _______________________ 1 Engenheiro Civil, GEOBRASIL Ltda 2 Doutor, UFC 3 Doutor, UFC 103 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 1 Introdução As provas de carga estática, quando devidamente interpretadas, constituem a forma mais confiável para o cálculo da capacidade de carga e consistem, basicamente, em aplicar esforços estáticos crescentes às estacas e em registrar os deslocamentos correspondentes. Uma grande vantagem da prova de carga estática é o fato de tratar-se de um ensaio que submete o complexo conjunto solo-fundação às condições reais de trabalho. A norma NBR – 6122 (ABNT, 1996) recomenda, na avaliação da carga admissível, que o fator de segurança contra a ruptura não deva ser inferior a 3,0 em fundações superficiais; 2,0 para estacas ou tubulões sem provas de carga; e 1,6 para estacas ou tubulões submetidos a provas de carga, ratificando, dessa forma, a importância e a confiabilidade conferidas a esses ensaios. O objetivo do presente artigo é analisar alguns métodos semiempíricos utilizados para determinação da capacidade de carga em estacas raiz através da avaliação dos resultados de três provas de carga estática executadas em uma obra no Município de Fortaleza/ CE. O artigo apresenta comparações entre os resultados de alguns dos principais métodos semiempíricos utilizados para determinação da capacidade de carga em estacas raiz (Lizzi, 1982; Salioni, 1985; Cabral, 1986; Brasfond, 1991; Aoki e Velloso, 1975; Décourt e Quaresma, 1978), com base nos resultados de três provas de carga estática executadas na referida obra. Para obtenção da carga de ruptura das estacas raiz, através dos resultados de prova de carga, é utilizado o método de Van der Veen (1953). 2 Estacas raiz Segundo Lizzi (1977), inicialmente as estacas raiz destinavam-se ao reforço de fundações, aplicação à qual, até hoje, tem apresentado excelentes resultados. Diversas outras situações utilizam as estacas raiz, dentre as quais, podem-se citar as seguintes: controle de 104 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 recalques; reforço de fundações para acréscimo de pavimentos em edifícios; fundações de difícil execução pelos métodos tradicionais, quer pela ocorrência de matacões no subsolo, quer pela exigência de espaço em superfície. A estaca raiz é uma estaca de argamassa, armada, de fuste contínuo e dotada de rugosidades ao longo da profundidade, constituída por um aglomerado de areia e cimento eventualmente aditivado e injetado sob pressão. As estacas raiz apresentam elevada capacidade de carga quando comparadas com outros tipos de estacas de mesmo diâmetro, principalmente, devido a sua parcela de capacidade de carga relativa à resistência por atrito lateral, o qual pode ser proporcionado mesmo por um terreno de escassas características e, dessa forma, pode-se afirmar que qualquer terreno é adequado para as estacas raiz. Tal fato não exclui obviamente que, na presença de rocha ou alteração de rocha, ou concreções lateríticas na base, não possam ser empregadas como estacas com resistência de ponta, mesmo porque a tecnologia executiva das estacas raiz permite seu engastamento em qualquer profundidade. Em nível regional, Moura et al. (2005) apresentaram um estudo sobre a prática das fundações de edifícios em estacas raiz, em Fortaleza. A execução de uma estaca raiz se procede segundo as seguintes fases principais e consecutivas, dadas a seguir: perfuração do furo, colocação da armadura e injeção da estaca. A perfuração é executada por rotação ou roto percussão (no caso de maciço rochoso), com revestimento contínuo do fuste, no trecho em solo, sendo os detritos resultantes da perfuração eliminados por uma corrente fluida, geralmente água, podendo ser utilizada lama bentonítica ou ar comprimido, que, introduzida através do tubo, volta à superfície pelo interstício anelar que se forma entre o tubo e o terreno. Terminada a perfuração, é colocada a armadura metálica no interior do tubo de perfuração. Segundo Lizzi (1982), essa pode ser constituída de uma ou mais barras de aço de aderência melhorada ou, para as estacas de maior diâmetro, de várias barras montadas em gaiola, ou ainda, de um tubo. Outros tipos de armadura, como perfis metálicos (U, I, H, T, L) de dimensões convencionais e combinações 105 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO de barras, tubos e perfis podem ser usados. Os diversos segmentos de armadura são ligados entre si por simples sobreposição, no caso de estacas a compressão, ou mediante solda ou luvas rosqueadas, no caso de estacas a tração. Após a introdução da armadura da estaca, coloca-se, no interior do tubo de perfuração, um tubo de injeção, que é introduzido até o fundo. Através desse tubo, é lançada a argamassa dosada de 500 a 600 kg de cimento por metro cúbico de areia grossa peneirada, com uma relação média água/cimento variando de 0,4 a 0,6, dependendo do tipo de areia utilizada, e com o uso de eventuais aditivos fluidificantes, até completo enchimento do tubo de perfuração. Uma vez que o tubo de perfuração seja preenchido com argamassa, em sua extremidade superior, é montado um tampão e procede-se à extração da coluna de perfuração com ferramenta adequada, quando, simultaneamente, aplica-se ar comprimido. A pressão do ar é aplicada por duas ou três vezes no curso da injeção e, geralmente, não supera 400 kPa, sendo o seu valor máximo determinado pela absorção do terreno e deve, não obstante, ser tal que evite a laminação da argamassa. 1 Características geológico-geotécnicas dos solos da Região Metropolitana de Fortaleza-CE (RMF) A geologia da Região Metropolitana de Fortaleza é caracterizada pela existência das seguintes feições geológicas: rochas cristalinas, dos tipos metamórficas e ígneas, do Complexo Nordestino, sedimentos terciários do Grupo Barreiras e dunas do tipo edafizadas e móveis. Todas elas são cortadas por cursos d’água do sistema fluvial, nos quais os sedimentos recentes estão depositados. As rochas cristalinas do Complexo Nordestino consistem de metassedimentos, gnaisses, xistos, quartzitos e calcários, com rochas graníticas associadas ao período Pré-Cambriano. Os gnaisses de coloração cinza-claro, constituídos de quartzo, feldspato e mica, são comuns na RMF e estão presentes na região que compreende as cidades de Maracanaú, Maranguape e Caucaia, sendo que, na região próxima ao litoral de Fortaleza, encontram-se abaixo do Grupo ou For106 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 mação Barreiras. Nas serras de Maranguape, Aratanha e Câmara, estão localizadas pedreiras industriais que fornecem pedras britadas ou em blocos para o setor da construção civil. O Grupo ou Formação Barreiras distribui-se como uma faixa sedimentar de largura variável (até 30 km), acompanhando a linha da costa, sendo parcialmente recoberta junto ao litoral por dunas e areias marinhas. Consistem de argilas variegadas e arenitos avermelhados, ricos em cascalho, apresentando camadas laterizadas e conglomerados grosseiros com cimento ferruginoso (óxidos de ferro). As dunas edafizadas ou páleo-dunas e as dunas móveis consistem de areias bem selecionadas de graduação fina a média, às vezes siltosas, quartzosas e quartzo-feldspáticas, com colorações amarela, laranja ou acinzentada. Encontram-se sobre o Grupo ou Formação Barreiras e, na RMF, as dunas estão quase completamente descaracterizadas por conta do avanço da urbanização. A região das rochas cristalinas apresenta-se recoberta por um manto de solo resultante da alteração da rocha local em três níveis horizontais distintos. O primeiro, superficial, apresenta-se como areno-argiloso com pedregulhos, marrom, com presença de raízes e de matérias orgânicas. O segundo horizonte é chamado de solo residual maduro e apresenta-se como areia argilosa com pedregulhos, de cor vermelha ou amarela. O terceiro horizonte é chamado de solo residual jovem (saprólito) e apresenta-se com a aparência de rocha gnáissica com frações de areia, silte e argila (Figura 1). Figura 1 – Formação geológica padrão da Região Metropolitana de Fortaleza (adaptado de Miranda, 2005) 107 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 3 Estudos geotécnicos realizados Os estudos geotécnicos realizados para a elaboração deste trabalho consistiram basicamente na execução de sondagens a percussão do tipo SPT e provas de carga estática em três estacas raiz com diâmetros iguais a 160 mm, 200 mm e 250 mm, com cargas admissíveis iguais a 250 kN, 400 kN e 600 kN, respectivamente. Foram realizadas três sondagens a percussão do tipo SPT (SP 03, SP 04 e SP 09) para a caracterização do subsolo na região onde as estacas raiz ensaiadas foram executadas. A Figura 2 apresenta a variação dos valores de NSPT com a profundidade para os três furos de sondagem realizados. De acordo com as informações obtidas nos perfis de sondagem a percussão, o subsolo local é constituído, inicialmente, por delgada camada de aterro, constituída de areia fina a média, muito argilosa, com matéria orgânica, com espessura entre 0,20 m e 0,30 m. Em seguida, o subsolo é constituído por argila arenosa, muito mole a dura, vermelha e amarela, variegada, com presença de pedregulhos, apresentando um horizonte bastante resistente com impenetrável estando nas profundidades entre 8,00 m e 9,20 m. Figura 2 – Perfis de sondagem a percussão: a) SP-03, b) SP-04 e c) SP-09 108 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 As três provas de carga estática executadas foram do tipo carregamento lento. As cargas foram aplicadas em dez estágios sucessivos, por meio de um macaco hidráulico, com capacidade para aplicar cargas até 2000 kN, reagindo sobre um conjunto de perfis metálicos apoiados sobre 04 estacas executadas como sistema de reação. As figuras 3, 4 e 5 mostram as curvas carga x recalque obtidas nas provas de carga realizadas nas estacas raiz com diâmetro de 160 mm, 200 mm e 250 mm, respectivamente. Figura 3 – Curva carga x recalque para estaca raiz D = 160 mm Carga (kN) 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 0 Recalque (mm) 1 2 3 4 Figura 4 – Curva carga x recalque para estaca raiz D = 200 mm 109 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Figura 5 – Curva carga x recalque para estaca raiz D = 250 mm Nas três provas de carga estáticas executadas, o comportamento dos gráficos foi bastante semelhante, aproximando-se do regime elástico linear em função dos pequenos recalques. Para a estaca raiz de 160 mm de diâmetro, o recalque total para o máximo carregamento aplicado foi de 4,23 mm e recalque residual, após descarregamento, de 2,51 mm. Para a estaca raiz de 200 mm de diâmetro, o recalque total para o máximo carregamento aplicado foi de 2,01 mm e recalque residual, após descarregamento, de 1,25 mm. Finalmente, para a estaca de 250 mm de diâmetro, o recalque total para o máximo carregamento aplicado foi de 6,88 mm e recalque residual, após descarregamento, de 4,18 mm. A tabela 1 apresenta, para as estacas raiz de 160 mm, 200 mm e 250 mm de diâmetro, as cargas de ruptura e admissível, obtidas através da extrapolação pelo método de Van der Veen (1953) das curvas carga x recalque obtidas nas provas de carga estática realizadas. Tabela 1 – Estimativa da capacidade de carga das estacas a partir dos resultados das provas de carga estática realizadas pelo método de Van der Veen (1953) 110 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 4 Estimativa da capacidade de carga das estacas por método semiempíricos Várias têm sido as formulações semiempíricas empregadas na previsão da capacidade de carga em estacas em todo o Brasil. Essas fórmulas utilizam, em sua maioria, valores de resistência à penetração estática, fornecidos pelo ensaio de cone (CPT), ou valores de resistência à penetração dinâmica, medidos nas sondagens a percussão (SPT). Neste trabalho, foram utilizados os seguintes métodos semiempíricos para a estimativa da capacidade de carga das estacas raiz estudadas: Lizzi (1982), Salioni (1985), Cabral (1986), Brasfond (1991), Aoki e Velloso (1975), Décourt e Quaresma (1978). Segundo Milititsky & Schnaid (1996), a origem de correlações de natureza empírica, geralmente obtida em condições particulares e específicas, com expressa limitação por parte dos autores, acabam sendo extrapoladas muitas vezes de forma não apropriada. No Brasil, difundiu-se a prática de relacionarem diretamente medidas do ensaio de SPT com a capacidade de carga das estacas. Esses métodos se constituem ferramentas valiosas à engenharia de fundações. É importante reconhecer que a validade dos métodos é limitada à prática construtiva regional e às condições específicas dos casos históricos utilizados em seu estabelecimento. Os coeficientes determinados estatisticamente e aplicados no estabelecimento de um modelo são afetados pelos procedimentos de ensaio, tipo de prova de carga, bem como a definição da carga de ruptura da mesma, procedimentos construtivos e seus efeitos nas propriedades e condições do subsolo. A utilização de métodos de estimativa de capacidade de carga, estabelecidos em condições diferentes, como a transposição para a América do Sul de métodos europeus ou norte americanos, baseados no SPT ou CPT, devem ser validados localmente, segundo Milititsky & Schnaid (1996), por provas de carga com resultados conclusivos. A determinação da capacidade de carga das estacas raiz por meio dos métodos semi-empíricos foi feita, inicialmente, considerando-se os perfis de sondagem a percussão SP 03, SP 04 e SP 09. Em seguida, para cada método adotado, determinou-se o valor médio entre os perfis de sondagem. 111 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Adotou-se a profundidade de 8,45 m para o cálculo de capacidade de carga das estacas, pois essa profundidade corresponde à profundidade média de execução das estacas ensaiadas. As tabelas 2 e 3 fornecem, respectivamente, os resultados da carga de ruptura e da carga admissível das estacas raiz de 160 mm, 200 mm e 250 mm de diâmetro, através dos diferentes métodos semiempíricos propostos na avaliação. Tabela 2 – Estimativa da carga de ruptura das estacas raiz de 160 mm, 200 mm e 250 mm considerando-se a média dos valores obtidos entre os perfis de sondagem a percussão SP 03, SP 04 e SP 09 Tabela 3 – Estimativa da carga admissível das estacas raiz de 160 mm, 200 mm e 250 mm considerando-se a média dos valores obtidos entre os perfis de sondagem a percussão SP 03, SP 04 e SP 09 112 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Verifica-se que, para as estacas raiz com 160 mm e 200 mm de diâmetro, a metodologia proposta por Aoki e Velloso (1975), com a adoção de seus parâmetros inicialmente propostos para estacas prémoldadas de concreto, apresenta a menor carga de ruptura. O método proposto por Décourt e Quaresma (1978) apresenta a maior carga de ruptura para as estacas raiz com 200 mm e 250 mm de diâmetro e valor muito próximo ao proposto pelo método de Salioni (1985) para as estacas raiz com 160 mm de diâmetro, o qual apresentou a maior carga de ruptura para aquela seção. Quando se avalia a carga admissível para todas as seções das estacas, o exposto acima se confirma, exceto pelo fato de que a metodologia proposta por Décourt e Quaresma (1978) apresenta a maior carga admissível para todas as seções avaliadas. A utilização da metodologia da Brasfond (1991) foi a que proporcionou os valores mais próximos da média de todos os métodos semiempíricos utilizados. Vale comentar que isso se repetiu para todas as seções das estacas estudadas. Estima-se que os valores encontrados pela metodologia da Brasfond (1991) sejam cerca de 10% menores que a média de todos os métodos semiempíricos. Comparando-se os valores estimados para a capacidade de carga das estacas raiz ensaiadas com aqueles obtidos a partir da aplicação do método de Van der Veen (1953) às curvas carga x recalque obtidas nas provas de carga realizadas, verifica-se que, para os três casos estudados, as propostas de Salioni (1985), Cabral (1986) e Décourt e Quaresma (1978) apresentaram estimativas concordantes com os valores de referência obtidos a partir dos ensaios de provas de carga estática. Vale comentar, ainda, que as estimativas realizadas, a partir da média de todos os métodos avaliados, apresentaram valores da carga de ruptura abaixo dos valores de referência. A exceção ocorreu para a estaca de 250 mm de diâmetro em que, apenas pelo método de Décourt e Quaresma (1978), o valor estimado superou em cerca de 8% o valor de referência. As figuras 6, 7 e 8 apresentam a comparação entre a carga de ruptura, obtida pelos métodos semiempíricos empregados, e os valores obtidos a partir da extrapolação das curvas carga x recalque pelo 113 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO método de Van der Veen (1953), através dos ensaios de provas de carga estática para as estacas raiz de 160 mm, 200 mm e 250 mm de diâmetro, respectivamente. Os métodos semiempíricos de Salioni (1985) e Décourt e Quaresma (1978), utilizados para determinação da carga de ruptura das estacas, apresentaram resultados mais concordantes, quando comparados com aqueles obtidos através das extrapolações das curvas carga x recalque pelo método de Van der Veen (1953). Figura 6 – Carga de ruptura para a estaca raiz de 160 mm Figura 7 – Carga de ruptura para a estaca raiz de 200 mm 114 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 8 – Carga de ruptura para a estaca raiz de 250 mm Conclusões Conclui-se que, a partir das análises realizadas para as estacas raiz com diâmetros de 160 mm, 200 mm e 250 mm, os métodos semiempíricos para cálculo de capacidade de carga de Salioni (1985) e Décourt e Quaresma (1978) apresentaram resultados mais concordantes quando comparados com aqueles obtidos através das extrapolações das curvas carga x recalque pelo método de Van der Veen (1953). Observa-se que, para todas as estacas avaliadas, o método de Salioni (1985) foi o que proporcionou os resultados mais próximos dos valores obtidos pelas provas de carga. A explicação mais provável é que, em função do pequeno diâmetro das estacas e, consequentemente, reduzida área da seção transversal, a parcela de carga resistida pela ponta é pequena em detrimento à parcela resistida pelo atrito lateral. Dessa forma, o método de Salioni (1985), o qual leva em conta apenas a parcela resistida pelo atrito lateral, apresenta bons resultados. Verifica-se que, quando se confrontam os resultados obtidos através das extrapolações das curvas carga x recalque pelo método de Van der Veen (1953) com as cargas admissíveis comerciais adotadas para as respectivas estacas, a estaca raiz de 250 mm de diâmetro apresenta carga superior ao resultado do ensaio. Com base nos resultados, os fatores de segurança contra ruptura para estacas raiz de 160 mm, 115 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 200 mm e 250 mm de diâmetro foram de 2,72, 2,63 e 1,75, respectivamente. Agradecimentos Os autores agradecem o apoio, bem como as informações fornecidas para elaboração da pesquisa às empresas Geobrasil Projetos e Engenharia Ltda., Fundações Projetos e Engenharia Ltda., Geonorte Engenharia de Solos e Fundações Ltda., J. R. Medeiros Engenheiros Associados Ltda., C. Rolim Engenharia Ltda., FAS Geotecnia e Consultoria S./C. Ltda., ao professor Gulielmo Dantas e a Universidade de Fortaleza – UNIFOR. Referências ABNT (1996). NBR 6122: Projeto e execução de fundações. Associação Brasileira de Normas Técnicas. Rio de Janeiro, Brasil, 1996. AOKI, N., VELLOSO, D.A. (1975). An approximate method to estimate the bearing capacity of piles. Pan American Conference of Soil Mechanics and Foundation Engineering - Proceedings. Buenos Aires, Argentina, v. 1. p. 215-218. CABRAL, D.A. (1986). O uso da estaca raiz como fundação de obras normais. Congresso Brasileiro de Mecânica dos Solos e Engenharia de Fundações - Anais. ABMS, Porto Alegre, Brasil, v. 6,.p. 71-82. 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Endereço para contato: 118 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Efeito da sensibilidade da estrutura em relação ao solo Jean Marie Désir1; Vitor Augusto de Souza Crespo2 Resumo Muitos edifícios, cujo projeto estrutural atendeu aos requisitos básicos de dimensionamento, têm apresentado sintomas característicos de problemas de recalque e a magnitude do problema depende da sensibilidade da estrutura em relação ao solo. Neste trabalho, procura-se definir uma estratégia de análise assim como uma metodologia adequada para a consideração da interação solo-estrutura. Tal metodologia deve estabelecer, de antemão, a partir de parâmetros do solo, de fácil determinação, o perfil da distribuição dos possíveis assentamentos, para depois carregar a estrutura com esses. É uma análise do tipo “inversa”, capaz de proporcionar informações pertinentes para o aprimoramento do projeto inicial, garantindo maior segurança e conforto nas edificações. Analisa-se também a influência da presença de paineis de alvenaria ou do tipo de fundações nos valores de recalque estimados e calculados. Finaliza-se o estudo comparando os esforços que aparecem num prédio residencial, utilizando, por um lado, os métodos tradicionais de análise estrutural e, por outro lado, levando em consideração a sensibilidade da estrutura em relação ao solo. Palavras-chave: Recalque diferencial, interação solo-estrutura, rigidez da alvenaria. Structure sensibility effect in relation to soil Abstract Many buildings, designed in accordance with basic design requirements, have presented however characteristic symptoms of settlement problems and, the magnitude of the problem depends on the sensitivity of the structure in relation to the ground. In this work, we seek to understand better this interaction, what is fundamental to define a model of analysis, as well as an adequate methodology to take into account the ground-structure interaction. Such methodology must establish beforehand the soil settlement distribution profile and then loads the structure with these settlements. Thus, it works as an “inverse type” analysis, providing pertinent information for the improvement of the initial design, guaranteeing greater security _______________________ 1 D.Sc., Engenheiro Civil, Universidade Federal do Rio Grande do Sul 2 M.Sc., Engenheira Civil, Universidade Estadual do Norte Fluminense 119 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO and comfort in the constructions. Moreover, the influence of some structural elements such as the masonry panels or the type of the foundations in the settlement values has also been investigated. Finally, the study compares the efforts that appear in a residential building, using; on one side, traditional structural analysis methods and, on the other side, taking into account the structure sensitivity. Keywords: differential subsidence, ground-structure interaction, masonry stiffness 1 Introdução O mecanismo de interação entre a superestrutura, a infraestrutura e o maciço de solo (ISE) tem sido objeto de muitos estudos desde a década dos cinqüenta, destacando os trabalhos de MEYERHOF(1953) entre outros. Após discutir a capacidade de cargas das fundações superficiais e profundas, preocupou-se com a previsão de recalques, considerando as características do solo, da fundação e da rigidez da estrutura nos cálculos. A ISE tende a uniformizar os recalques, dependendo da rigidez do conjunto solo-estrutura. Isso proporciona a diminuição das distorções angulares (rotação relativa) devido à diminuição da curvatura da deformada dos recalques, podendo, então, evitar o aparecimento de certos danos. O item 3.1.1.9 da NBR 6118 (2003) recomenda que seja levado em consideração, em estruturas sensíveis a deslocamento de apoio, o respectivo efeito no cálculo dos esforços solicitantes. Por outro lado, a NBR 6122 (1996), que trata no item 4.7.1 de projeto e execução de fundações, considera de grande valia a instrumentação de edifícios para observação do comportamento das fundações e da interação solo-estrutura porque considera as “características da obra, em especial a rigidez da estrutura”, como fatores importantes na determinação da pressão admissível. O capítulo 2 do ACI-336.2R/88 (1994) é todo dedicado ao tema “Interação solo-estrutura”, sendo descritos sugestões de procedimentos de análise e projeto de fundações superficiais. Apresenta alguns fatores a serem considerados, tais como: o tipo de solo, a forma e o tamanho da fundação e a rigidez tanto da fundação quanto da estrutura. Entretanto, esse mecanismo é frequentemente desprezado na maioria dos projetos onde se assume, convencionalmente, rigidez 120 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 infinita do terreno, calculando a estrutura com apoios indeslocáveis. As cargas assim determinadas são utilizadas no dimensionamento das fundações. Em parte, essa prática se deve às dificuldades que envolvem a modelagem da ISE. Essas dificuldades são inerentes ao sistema estrutura-terreno de fundação e dizem respeito à sequência de construção, às propriedades geológicas dos materiais, à heterogeneidade vertical e horizontal do solo, à transferência de cargas ao terreno, à representatividade da prospecção e ensaios e, à influência do tempo nos parâmetros geotécnicos (GUSMÃO FILHO, 2002). Este trabalho pretende analisar a consideração dos recalques através de um procedimento racional de forma a captar, independentemente do projeto estrutural a sensibilidade da estrutura em relação ao solo. As manifestações têm padrões diferentes em função da magnitude do recalque, valor que depende também da rigidez relativa solo-estrutura. Aplica-se uma metodologia que permite interpretar as informações disponíveis sobre o terreno (sondagem, tipo de solo, etc.), se possível os de mais fácil obtenção, de tal maneira que se possa determinar de antemão o perfil de distribuição dos possíveis assentamentos, antes de carregar as estruturas. A importância de utilizar tal procedimento é evidenciada quando seus resultados são comparados aos obtidos com os métodos tradicionais de análise estrutural. 2 Metodologia De acordo com o modelo de Winkler, molas podem ser utilizadas para idealizar o comportamento do solo. Assim, o contato solo-estrutura é feito com apoio elástico nodal, onde se admite, nos pontos nodais da base da estrutura, a presença de molas (apoios elásticos), considerando-se apenas a translação em Z, ou seja, não é permitido deslocamento no plano horizontal. Isso é feito devido ao tipo de carregamento utilizado (somente carregamento vertical) e a consideração de uma rigidez muito grande do solo nas direções X e Y. O elemento de mola substitui totalmente a fundação superficial, através do seu coeficiente km, o qual já considera as dimensões das sapatas. O solo é considerado como um meio contínuo, elástico, linear, isotrópico 121 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO e homogêneo. Para as simulações, usa-se o Método dos Elementos Finitos (MEF), que proporciona uma boa representação das diferentes partes do conjunto solo estrutura e é utilizada pela maioria dos programas comerciais de análise estrutural. 2.1 Representação do solo Vários trabalhos têm sido desenvolvidos na procura do melhor modelo para representação do solo. RAO et al. (1995) destacam que o maciço de solo pode ser estimado como elástico linear, elástico não linear, elastoplástico sendo, porém, normalmente tratado como elástico linear. A busca por um modelo eficiente e matematicamente simples do solo para os problemas de interação solo-estrutura mostram duas aproximações clássicas básicas: a aproximação Winkleriana e a aproximação Continua. Na interface do solo com a fundação, a distribuição da pressão de contato é um parâmetro importante. A variação da distribuição da pressão depende do comportamento da fundação (rígida ou flexível) e da natureza do solo (argila, areia, etc.). Frente à dificuldade de descrever matematicamente o comportamento complexo do solo, Dutta e Roy (2002) recomendam simplicidade na definição dos modelos porque, em geral, proporcionam resultados razoáveis. 2.2 Cálculos dos recalques Os métodos para previsão de recalques de fundações com base rígida são separados em três grandes categorias: métodos racionais, métodos empíricos e métodos semiempíricos. Nos métodos racionais, os parâmetros de deformabilidade determinados in situ ou em laboratório, são combinados a modelos de previsão de recalques teoricamente exatos. Nos métodos empíricos, usam-se tabelas de valores típicos de tensões admissíveis para diferentes tipos de solo. Embora as tabelas não forneçam recalques, as tensões indicadas por elas estão associadas a recalques usualmente aceitos em estruturas convencionais. Nos métodos semiempíricos, os parâmetros de 122 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 deformabilidade, obtidos por correlação com ensaios, in situ, de penetração estática (CPT) ou dinâmica (SPT), são combinados a modelos de previsões de recalques teoricamente exatos ou adaptação desses. A expressão “semiempírica”, associada aos métodos de cálculos de recalques, deve-se à introdução de correlações para a definição de propriedades de deformação dos solos. As correlações permitem a estimativa de propriedades de deformação por meio de outros ensaios [penetração estática ou de cone (CPT) e dinâmica (SPT)] que não visam a observar o comportamento tensão-deformação dos solos (no laboratório: ensaios triaxiais, oedométrico; no campo: ensaios de placa, pressiométrico). Neste trabalho, a previsão de recalques e de tensão admissível é determinada, por um lado com o método racional e, por outro lado, estimada com três métodos baseados no SPT. Pela teoria da elasticidade o recalque para o caso de uma sapata com carga concentrada é dado por: (1) onde q é a pressão média aplicada, B a menor dimensão da sapata, n o coeficiente de Poisson e E o módulo de Young. Is, Id e Ih são os coeficientes de forma, de profundidade e de espessura da camada compressível respectivamente. De maneira semiempírica, TERZAGHI E PECK (1948, 1967) definiram a tensão que provoca um recalque de 1 polegada através da expressão: (2.a) onde B é a menor dimensão em pés da sapata e N o número de golpes no ensaio SPT. MEYERHOF (1965) propôs as seguintes expressões 123 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO para a relação entre a tensão aplicada (kgf/cm2) e o recalque de sapatas (w em polegadas) em areias: (2.b) (2.c) Burland e Brubidge (1985) calcularam o recalque de fundações em área com: (3) w é o recalque em mm, q a tensão aplicada em kN/m2, B a menor dimensão da sapata em m e N média do número de golpes no SPT na profundidade de influência. fs e fl são fatores de forma e de espessura compressível respectivamente. 2.3 Cálculo dos coeficientes de Reação Vertical (kv) O coeficiente de reação é um parâmetro muito importante para a consideração da flexibilidade das fundações. Através dos ensaios oedométrico e SPT, pode-se estimar o Módulo de Young para, posteriormente, calcular os recalques nas sapatas por meio dos métodos convencionais. De posse dos dados (cargas nos pilares, recalques), o coeficiente de reação vertical (kv) resulta: (4) 124 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 onde q representa a tensão aplicada pela sapata e v o recalque. A tensão utilizada no cálculo acima é obtida pelas reações originadas nos pilares para o esquema indeslocável e pela área da sapata. Os recalques, por sua vez, são obtidos pela média dos cálculos manuais feitos pelos métodos semi-empíricos apresentados anteriormente. Posteriormente, para uma sapata de área A os valores do coeficiente da Mola (km) do solo são calculados pela fórmula: (5) Os valores desse coeficiente não são iguais para todo o prédio, pois dependem das dimensões da sapata e da sua tensão, e é nisso que está a noção de sensibilidade do solo. Com todos os valores de km inseridos no modelo, conseguem-se os valores dos recalques levando em consideração a interação solo-estrutura. Em resumo, o coeficiente de mola pode ser determinado com um procedimento que envolve os seguintes passos: 1) realização de ensaios oedométrico e SPT; 2) cálculo do módulo de Young; 3) cálculo das cargas nos pilares; 4) cálculo dos recalques nas sapatas; 5) cálculo do coeficiente kv de reação vertical; 6) cálculo do coeficiente km da mola; 7) obtenção dos resultados através doe um programa de cálculo. 2.4 Análise da Interação Solo-Estrutura (ISE) Num edifício alto, os primeiros pavimentos se comportam como uma viga parede e trabalham à flexão. Os demais pavimentos situados acima agem como uma chapa, distribuindo o carregamento sobre a viga, e não são muito afetados pelo movimento dos andares abaixo. Em relação à rigidez relativa fundação-solo (Rr), quanto mais flexível for a fundação, mais as pressões de contato refletirão o carregamento. A partir de análises com valores diferentes de rigidezes relativas estrutura-solo, MEYERHOF (1953) verificou-se que o recalque total máximo não é muito afetado, apesar de sofrer leve decréscimo com o aumento da rigidez relativa. Em contrapartida, o recalque dife125 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO rencial máximo diminui rapidamente quando Rr aumenta. Para isso, recomenda que a contribuição da superestrutura seja considerada através da expressão: (6) onde EcI representa uma rigidez equivalente, åEc Iv o somatório das rijezas das vigas e EaIa as rijezas dos painéis de alvenaria. Neste trabalho, duas configurações estruturais com preenchimento parcial e total com alvenaria são analisadas para investigar a contribuição dos painéis de alvenaria na rigidez da estrutura e seu efeito nos valores dos recalques diferenciais. A consideração da ISE pode mudar o mapa de esforços da estrutura, chegando, em alguns casos, a mudar os sinais dos esforços. Esses valores devem ser utilizados para refinar o pré-dimensionamento feito com base numa estrutura indeslocável. Esse mesmo procedimento também pode ser utilizado para uma estrutura já em serviço e que apresenta problemas de recalque, para definir o reforço mais adequado. Para levar em conta esta interação, analisa-se, inicialmente, com um programa de cálculo, um modelo estrutural do edifício com base indeslocável, de acordo com a metodologia convencional de cálculo estrutural. A partir desse modelo, obtêm-se as cargas normais nos pilares, as quais permitem estimar as dimensões das sapatas e, posteriormente, calcular os recalques. Uma vez determinadas as cargas e os recalques, o coeficiente de reação vertical pode ser determinado de acordo com o procedimento descrito no item 2.2. Com isso, analisa-se novamente o edifício, com base elástica, calculando assim os esforços e deslocamentos introduzidos na estrutura em função dos recalques nos apoios. Assim, a consideração da interação solo-estrutura consiste das seguintes etapas: 1) análise do edifício com base indeslocável; 2) estimativa das dimensões das sapatas; 3) cálculos dos recalques nas sapatas; 4) cálculo do coeficiente de reação vertical; 5) análise do edifício com base elástica e 6) comparação das duas análises. 126 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 3 Simulações Computacionais A simulação computacional visa à determinação dos esforços e à previsão dos recalques, permitindo, assim, a comparação dos modelos adotados. A simulação é feita utilizando-se os recursos computacionais de um programa comercial que utiliza o método dos elementos finitos. Esse programa é capaz de analisar edifícios considerando a rigidez da estrutura, incluindo as paredes de alvenaria. Os carregamentos para os quais cada estrutura é analisada são os recomendados na NBR 6120, aplicados diretamente nos elementos. As cargas nas lajes são calculadas pelo somatório das cargas de sobrecarga, de revestimento e de parede, distribuído por metro quadrado. As paredes, escadas e caixa d’água localizada sobre as vigas e pilares também são incluídas na forma de carga distribuída linearmente ou nodais, respectivamente. A validação dessa sequência de cálculo foi realizada no trabalho de CRESPO (2005). Para isso, foram analisados um pórtico plano, um pórtico espacial e um prédio residencial multifamiliar. A inclusão da ISE permitiu avaliar o efeito da redistribuição de carga na estrutura e dos recalques nas fundações. A rigidez relativa solo-estrutura, por ser um parâmetro importante, requereu, também, a influência da alvenaria de vedação no comportamento global da estrutura. Neste artigo, são apresentados e discutidos os resultados do pórtico plano e do prédio residencial. Para evidenciar o papel da ISE, foram considerados para cada estrutura os seguintes casos: 1) sem interação (SemInt); 2) com interação (ComInt); 3) com interação e paredes em todos os pavimentos (ComPle); 4) com interação e paredes somente nos primeiros dois pavimentos (ComPar). Quando disponíveis, os resultados são também comparados com dados de trabalhos já publicados. 127 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 3.1 Análise do pórtico plano O pórtico plano considerado consiste de dois vãos simétricos e dez pavimentos (figura 1). A seção transversal das vigas é de 12x60 cm. Os pilares da periferia têm 25x50 cm e o central tem 25x70 cm de dimensões. A cinta de fundação tem seção transversal de 30x80 cm. Na modelagem do solo, foi considerado um coeficiente de reação vertical kv = 5.000,00 kN/m3. O tamanho das sapatas isoladas foram estimadas levando em conta uma tensão de trabalho da ordem de 0,45 MPa. Os pilares externos receberam uma carga total de 1.350,00 kN cada um e o pilar interno 4.000,00 kN, sendo aplicados na forma de carga pontual nos nós correspondentes às fundações. Figura 1 – Pórtico adotado: (a) sem parede, (b) com parede e (c) com parede somente em 2 pavimentos 128 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 A tabela 1 mostra as características do pórtico e os valores de km resultantes enquanto a tabela 2 apresenta os recalques absolutos, médios e diferenciais para cada um dos casos estudados. Tabela 1 – Dimensionamento dos pilares e das sapatas e, suas cargas respectivas Tabela 2 – Recalques absolutos, médio e diferenciais dos pilares para cada modelo estudado Observa-se também que o procedimento proposto neste trabalho conduz a resultados próximos aos obtidos por Fonte(2000) para o mesmo pórtico (ComInt). É também importante notar o papel das alvenarias na redução do recalque diferencial. Todavia, a análise confirma o fato de os primeiros pavimentos absorverem quase o total das solicitações provocadas pelo recalque diferencial. A figura 2 mostra a distribuição dos momentos fletores e dos esforços normais na altura do pórtico. Nota-se, claramente, o efeito da ISE assim como a contribuição da incorporação da alvenaria. As mudanças observadas nos recalques se traduzem em redistribuição de esforços entre os pilares. Estes esforços aumentaram nos pilares laterais. 129 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Figura 2 – Diagramas de momento fletor e esforço normal no pilar lateral: Com interação (círculo), Com Int. e paredes em toda a altura (quadrado) e Com Int. e paredes em dois pavimentos (triangulo) 3.2 Análise do prédio residencial multifamiliar O prédio possui um pavimento térreo e três pavimentos tipo. A figura 3 mostra o esquema das cintas e a localização dos pilares. As características do solo de fundação foram determinadas a partir do ensaio eodométrico (figura 4) enquanto o módulo de elasticidade e os recalques nas sapatas foram determinadas com o SPT. 130 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 P1 P2 P3 P5 P4 P6 P7 P9 P8 P11 P10 P12 P13 P14 P15 P16 P17 P18 P19 P20 P21 P22 Figura 4 – Ensaio oedométrico: para amostras retiradas a 1(quadrado), 2 (triângulo), e 6 metros (círculo) de profundidade debaixo da fundação A tabela 3 contém os valores de recalques calculados com a teoria da elasticidade e com as expressões apresentados no item 2.2 São mostrados os resultados para os pilares P9 a P19 (região mais carregada) e a média de todos os pilares. Para as simulações, o prédio é discretizado considerando as vigas e colunas como elementos de pórticos e as lajes como cascas. As fundações consistem de sapatas isoladas. 131 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Tabela 3 – Estimativa dos recalques pelos métodos convencionais 132 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 A tabela 4 apresenta a organização das características dos elementos de fundações para o cálculo dos coeficientes km. Tabela 4 – Dimensões dos pilares das sapatas com suas respectivas cargas e coeficientes de mola Quando se considera uma estrutura cujos apoios são indeslocáveis, somente os nós dos andares acima sofrem deslocamento, devido às deformações ocorridas nas peças da estrutura, como por exemplo, a deformação axial dos pilares. Apesar disso, o cálculo estrutural convencional estima os valores dos recalques utilizando esta teoria. No entanto, quando se considera uma fundação flexível e o maciço de solo subjacente, esses deslocamentos tornam-se maiores em função do aparecimento dos recalques, mesmo havendo a redistribuição das tensões na estrutura. A Tabela 5 compara as duas situações. 133 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Tabela 5 – Recalques absolutos nos apoios dos dois modelos e seus respectivos valores médios em (cm) Constata-se uma suavização das deformadas de recalque na estrutura ao se utilizar à interação solo-estrutura. De fato, a maioria dos pilares externos (valores sublinhados na tabela) recebeu um acréscimo de carga que resultou num assentamento maior. É interessante ressaltar que as médias dos recalques absolutos nos dois modelos são bastante parecidos, porém a média dos recalques diferenciais estimados através do cálculo convencional é mais de duas vezes maior do que o valor calculado com o modelo que considera a ISE. Os esforços normais mostram a mesma tendência e confirmam o que foi observado em relação aos valores de recalque. Os pilares externos (sublinhados na tabela 6) registram aumento de cargas enquanto os internos acusam redução. Alguns poucos pilares não mostraram essa tendência devido à complexidade da redistribuição das tensões na região da estrutura onde se encontram. Observou-se, também, pouca diferença na média dos esforços normais absolutos entre os dois modelos, que se encontrou em torno dos 4%. Mas, quando se trata da média dos esforços diferenciais, essa diferença fica em torno dos 37% . 134 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Tabela 6 – Esforços normais nos pilares (kN) nos dois modelos, e seus respectivos valores médios Conclusões O procedimento proposto neste trabalho contribuiu para mostrar a influência da interação solo-estrutura nos cálculos estruturais utilizando um programa comercial. Com as análises feitas com e sem interação solo-estrutura, percebeu-se a ocorrência de uma redistribuição das cargas aplicadas na fundação. Ficou confirmado que os pilares que tendem a sofrer maiores assentamentos transferem parte de seu carregamento para pilares próximos com menores recalques. É importante notar que não somente os pilares mas também as vigas das estruturas recebem esforços adicionais em decorrência dos deslocamentos nodais. Os momentos podem sofrer mudanças bruscas na peça, principalmente nos primeiros pavimentos, pois, quanto mais baixo o pavimento, maior a sua contribuição na absorção dos recalques diferenciais. Quando se fala de interação soloestrutura, a ocorrência dos recalques é o efeito que mais rapidamente nos vem à mente, e pode-se inferir que os recalques diferenciais são a principal causa das mudanças de comportamento da superestrutura. Com relação a esse efeito, verificou-se que os recalques diferenciais verticais diminuíram com a consideração da ISE, de acordo com os exemplos apresentados. A introdução das paredes de alvenaria confirmou a sua contribuição na rigidez global da estrutura, reduzindo 135 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO ainda mais os recalques diferenciais. Da maneira que as estruturas foram modeladas, foi constatado que as cargas nos pilares travadas por paredes diminuem devido à redistribuição que essas propiciam. Torna-se evidente a importância de se considerar, na fase de projeto e análise de uma edificação, a redistribuição de cargas oriundas dos recalques nos apoios dos pilares. Essa redistribuição não deve ser ignorada, para não comprometer o conforto, a durabilidade, ou até mesmo a segurança da obra. A consideração dos recalques no dimensionamento das estruturas e, por conseguinte, a redução de possíveis intervenções para reparo ou reforço é muito importante, visto que, em geral, a intervenção é mais onerosa do que a própria construção; seja pelo custo ou pelo transtorno causado aos ocupantes. Referências AMERICAN CONCRETE ISNTITUTE (A.C.I.) (1988). Suggested Analisys and Design Procedures for Combined Footings and Mats. Report by ACI Committee 336, Journal of the A.C.I., may-june, p. 377324. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (1996). NBR 6122 – Projeto e execução de Fundações. Rio de Janeiro. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (2003). NBR 6118 – Projeto e execução de obras de concreto armado. Rio de Janeiro. BURLAND, J.B., BURBIDGE, M.C. (1984), Settlement of foundations on sand and gravel, Proceedings of the Institution of Civil Engineers, Part 1, 1985, 78, dec., 1325-1381. CRESPO V. A. Estudo de sensibilidade de edificações em relação ao solo. Dissertação de Mestrado - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, 2004. 92 f. DUTTA, S. C.; ROY R. (2002). A critical Review on Idealization and Modeling for Interaction Among Soil-Foundation-Structure System. Computers and Structures 80, p. 1579-1594. 136 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 FONTE, F. L. F. (2000). Análise de Interação Solo-Estrutura em Edifícios. Recife. Tese (Mestrado) – Universidade Federal de Pernambuco. GUSMÃO FILHO, J. A. (2002). Fundações, Do conhecimento geológico à prática da engenharia. Editora universitária - UFPE. MEYERHOF, G. G. (1953). The bearing capacity of foundations under eccentric and inclined loads. Proc. 3rd Int. Conf. Soil Mech. Found. Engng, Zurich, 1, 440-445. MEYERHOF, G.G. (1965). Shallow foundations. J. Soil Mech Found. Div., ASCE, 91(SM2), 21-31. RAO, P. S. et al. (1995). Representation of soil support in analysis of open plane frames. Computers & Structures, Vol. 56, n. 6, p. 917-925; TERZAGHI, K.; PECK, R.B. (1948). Soil mechanics in engineering practice. 1st Edition, John Wiley & Sons, New York. TERZAGUI, K. (1955). Evaluation of Coefficient of Subgrade Reaction, Geotechnique, v. n. 4, p. 297-326; TERZAGHI, K.; PECK, R. B. (1967). Soil Mechanics in Engineering Practice. 2nd Ed., John Wiley & Sons Pub., New York, 729p. VELLOSO, D. A.; LOPES, F. R. (1996). Fundações. 2. ed. Rio de Janeiro: COPPE/UFRJ. Endereços para contato: 137 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 138 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Determinação da resistência à punção de lajes planas com armadura de cisalhamento do tipo “stud” interno Leandro M. Trautwein 1 Túlio Bittencourt 2 Ronaldo Gomes 3 João Carlos Della Bella 4 Resumo A resistência de uma laje plana com armadura de cisalhamento ao puncionamento é dada pela combinação de duas parcelas: resistência do concreto e da armadura transversal. A consideração destas duas parcelas é feita de maneira distinta entre as normas técnicas e por alguns pesquisadores. Seis lajes planas de concreto armado com armadura de cisalhamento sem envolver a armadura de flexão e submetidas a um carregamento simétrico foram analisadas experimentalmente. Para todas as lajes ensaiadas, o modo de ruptura alcançado foi à punção e a superfície de ruptura cruzou a região com a armadura de cisalhamento. O objetivo deste trabalho é avaliar a parcela de contribuição da armadura de cisalhamento sem envolver a armadura de flexão e do concreto, para que se possa comprovar a eficiência deste tipo de armadura. Palavras-chave: punção, normas, superfície de ruptura. Definition of punching strength of flat slabs with unbraced shear reinforcement Abstract The punching shear strength of flat slabs with shear reinforcement is provided by a combination of both steel and concrete strengths. The shear contribution, provided by steel and concrete to the ultimate load, have been argued by many researchers _______________________ 1 Universidade Federal do ABC, Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas, Santo André-SP, Brasil, [email protected]. 2 Universidade de São Paulo, Escola Politécnica da USP, PEF, São Paulo-SP, Brasil, tbitten@gmail. 3 Universidade Federal de Goiás, Escola de Engenharia Civil, Goiânia-Go, Brasil, rbggomes@gmail. 4 Universidade de São Paulo, Escola Politécnica da USP, PEF, São Paulo-SP, Brasil, [email protected]. 139 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO and there are considerable differences between codes. Ten reinforced concrete flat slabs with shear reinforcement, being six with shear reinforcement without embracing the flexural reinforcement were tested experimentally by a load on their centre through a square steel plate (200 x 200 x 50 mm). All the slabs failed by punching and the failure surface was in the region within shear reinforcement. This paper aims to investigate the efficiency of the use of shear reinforcement that does not embrace the flexural reinforcement in flat slabs determining the steel and concrete contribution. Keywords: punching, codes, failure surface. 1 Introdução A ligação direta entre pilares e lajes de concreto armado, sem o auxílio de vigas, é uma alternativa cada vez mais frequente nos projetos de construção civil. As lajes-cogumelo, como são conhecidas no Brasil, apresentam algumas vantagens em relação ao sistema tradicional (laje – viga – pilar) como a adaptação da obra a diferentes finalidades durante a sua vida útil, devido à inexistência de vigas. O principal problema desse tipo de concepção é a resistência limitada pela punção nas seções em torno dos pilares, devido à grande concentração de tensões decorrentes de cargas concentradas ou de reações de apoio. Para aumentar a resistência à punção, podese aumentar a seção transversal dos pilares, aumentar a espessura da laje, utilizar concretos de alta resistência com ou sem a adição de fibras de aço e utilizar armadura de cisalhamento [1]. As armaduras de cisalhamento, para o combate à punção, nas lajes planas usadas atualmente, (“studs”, estribos) são de fácil confecção, mas apresentam uma certa dificuldade de fixação no canteiro de obras devido ao seu posicionamento na laje, pois, de acordo com as recomendações das normas, as armaduras de cisalhamento, devem envolver a armadura de flexão para que se tenha uma boa ancoragem, fato esse que dificulta e aumenta o tempo e a mão de obra envolvida no serviço. Entretanto, neste trabalho, foi proposta uma armadura de cisalhamento interna à armadura de flexão, não recomendada atualmente pelas normas e códigos. A motivação para este estudo está na necessidade de se conhecer a real contribuição dessa armadura de cisalhamento do tipo 140 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 “stud” interno na resistência à punção de lajes planas, conhecendo-se as suas limitações para permitir o seu uso. Sabe-se que a resistência de uma laje-cogumelo com armadura de cisalhamento ao puncionamento é dada pela combinação de duas parcelas: resistência do concreto e da armadura transversal. A consideração dessas duas parcelas é feita de maneira distinta entre as normas técnicas e por alguns pesquisadores. 2 Programa experimental e resultados As lajes eram quadradas com 3000 mm de lado e 200 mm de altura. O programa experimental de Trautwein (2006) era composto de onze lajes, entretanto, neste trabalho, serão apresentados os resultados de apenas seis lajes, devido ao tema abordado. Essas seis lajes foram dimensionadas para que a superfície de ruptura cruzasse a armadura transversal. Os materiais constituintes do concreto das lajes foram dosados de forma a obter uma resistência à compressão do concreto (fcm) em torno de 40 MPa, aos 14 dias. A altura útil das lajes foi definida em 164 mm, podendo ocorrer algumas variações devido ao processo executivo da concretagem. A armadura de flexão foi composta por 31 barras de 16 mm de diâmetro (CA – 50) no bordo superior em cada direção, espaçadas a cada 10 cm, enquanto que a armadura do bordo inferior foi constituída por 21 barras de 8 mm (CA – 50) em cada direção, espaçadas a cada 15 cm. Para garantir uma adequada ancoragem das barras superiores, foram acrescentadas 31 barras em formas de U com 12,5 mm de diâmetro em cada lado da laje. A armadura de flexão se manteve constante para todas as lajes, e foi utilizada uma alta taxa de armadura (1,26%), para garantir que o modo de ruptura fosse por punção e não por flexão. A Figura 1 apresenta o detalhamento da armadura de flexão utilizada nas lajes ensaiadas [2]. 141 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO A armadura de cisalhamento utilizada em todas as lajes foi do tipo “stud”, na qual barras de aço CA-50 (comprimento de 95 mm) foram soldadas, em suas extremidades, às chapas de aço de 30 mm de largura e 10 mm de espessura. A altura total dos “studs” é de 115 mm. Os “studs” foram colocados de forma interna à armadura flexão, sem envolver as barras da armadura superior e inferior, de acordo com o ilustrado na Figura 2. Figura 1. Detalhamento da armadura de flexão [2] 142 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 2. Detalhamento da armadura de cisalhamento [2] As principais variáveis entre os ensaios foram o número de camadas, o diâmetro e o espaçamento entre as barras da armadura de cisalhamento. Essas lajes apresentam uma densidade de armadura de cisalhamento reduzida para que fosse possível induzir a ruptura junto ao pilar ou cruzando a região armada por punção. A tabela 1 apresenta as características das lajes ensaiadas: diâmetro e número de camadas da armadura de cisalhamento, além da área de armadura transversal por camada (Asv/cam). As seis lajes apresentadas neste trabalho romperam por punção e as superfícies de ruptura obtidas cruzaram as regiões de armadura de cisalhamento. As lajes I6, I7 e I8 continham 11 camadas de armadura de cisalhamento, sendo as barras espaçadas (Sr) de 60 mm; já nas lajes I9, I10 e I11, o número de camadas da armadura de cisalhamento foi reduzido para 5 e o espaçamento entre as barras (Sr) e a distância entre a face do pilar e a primeira camada (S0) foram de 80 mm. Todas as lajes romperam à punção e as cargas de ruptura variaram de 853 kN (laje I9) a 978 kN (laje I7). A resistência à compressão do concreto deste grupo variou de 35,4 MPa a 44,4 MPa. A tabela 2 apresenta as principais características das lajes e as cargas de ruptura. A Figura 3 apresenta um desenho esquemático das superfícies de ruptura. 143 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Tabela 1 – Características das lajes Tabela 2 – Carga de ruptura das lajes 144 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 3. Superfícies de ruptura das lajes ensaiadas [2] 3 Contribuições do aço e do concreto na resistência à punção das lajes ensaiadas A resistência de uma laje cogumelo com armadura de cisalhamento ao puncionamento é dada pela combinação de duas parcelas: resistência do concreto e da armadura transversal. A consideração dessas duas parcelas é feita de maneira distinta entre as normas técnicas e por alguns pesquisadores. Regan (1985) [3] conclui que uma laje-cogumelo sem armadura de cisalhamento tem uma superfície de ruptura que forma um ângulo de 25º com o plano horizontal, com a raiz na face do pilar (carregamento simétrico). Se a laje for armada com o primeiro elemento da armadura de cisalhamento sendo posicionado a uma distância que force a mudança da inclinação da superfície de ruptura, haverá um acréscimo para a contribuição do concreto em sua carga de ruptura: esse acréscimo será modesto até a 145 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO inclinação de 45º, mas aumenta bastante depois desse limite. Regan (1985) [3] sugere que a contribuição do aço é a soma das forças na armadura de cisalhamento cortada a 45º pela superfície de ruptura, enquanto que a contribuição do concreto é tomada igual a 75% da resistência ao cisalhamento de uma laje sem armadura de cisalhamento, conforme indica o gráfico da Figura 4. Vteste – força resistente medida em ensaio; vck – força resistente para uma superfície de ruptura inclinada a 25º; tan θ – nova inclinação da superfície de ruptura; Vu – força resistente majorada devido à mudança de inclinação da superfície de ruptura. Figura 4. Efeito da inclinação da superfície de ruptura na resistência à punção[3] Para determinar a parcela de contribuição do concreto (Vck) na resistência à punção, foi realizada uma comparação entre os valores estimados pelas normas EC2/2004[4], NBR6118/03[6] e o ACI318/08[7]. As equações 1, 2 e 3 apresentam as expressões para previsão de cada norma. As expressões utilizadas para a parcela do 146 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 concreto se referem à situação de superfície de ruptura, cruzando a região com armadura de cisalhamento. A tabela 3 apresenta os valores previstos para a parcela de contribuição do concreto (Vck), de acordo com o EC2/2004[4], NBR6118/03[6] e o ACI318/08[7]. Onde: u1 : perímetro de controle a 2d da face do pilar; d : altura útil; , (“d” em mm); - taxa de armadura de flexão; fc : resistência característica do concreto (MPa). Onde: taxa de armadura nas duas direções ortogonais, calculadas com a largura igual à dimensão do pilar, ou área carregada, mais 3d para cada um dos lados (ou até a borda da laje, se essa estiver mais próxima); u: perímetro de controle C’, distante 2d da face do pilar; fc: resistência característica do concreto (MPa); d: altura útil. 147 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Onde: fc: resistência à compressão do concreto (MPa); b0 : perímetro de controle a “0,5d” da face do pilar (mm); d: altura útil da laje (mm). Tabela 3 – Parcela de contribuição do concreto na resistência à punção das lajes De acordo com os resultados de diversos pesquisadores, a expressão que mais se aproxima dos resultados experimentais referente à parcela de contribuição do concreto é a do EC2/2004[4]. Para verificar se isso se aplica a esse tipo de lajes, foi determinada a parcela experimental da armadura transversal (Asw.fy), utilizando o valor de ensaio de fy (tensão de escoamento determinada em ensaio) e, posteriormente, o valor da resistência do concreto experimental na resistência à punção, subtraindo-se o valor da carga de ruptura pela parcela de resistência da armadura transversal (tabela 4). Analisando-se os resultados apresentados na tabela 4, pode-se concluir que a expressão do EC2/2004[4] é a que estima o valor da parcela de resistência do concreto mais próxima do valor experimental. 148 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Tabela 4 – Parcela de contribuição experimental do concreto na resistência à punção das lajes Para a análise das contribuições da armadura de cisalhamento e do concreto nas lajes estudadas, será utilizada a expressão do EC2/ 2004[4] para estimar o valor da parcela de resistência do concreto. A tabela 5 apresenta a análise das contribuições da armadura transversal e do concreto na resistência à punção. Se somente 75% da contribuição do concreto for considerada, as seis lajes necessitariam de pelo menos mais uma camada de armadura de cisalhamento de reforço, para atender às condições de ruptura das lajes ensaiadas. Quando se considera a contribuição real do concreto, o número de camadas que influencia a parcela resistente da armadura de cisalhamento fica mais próximo do que foi evidenciado nos ensaios. Na laje I6, por exemplo, a superfície de ruptura observada no ensaio cruzou duas camadas da armadura de cisalhamento e, na análise, considerando a relação contribuição total do concreto mais a parcela resistente pela armadura de cisalhamento com a carga de ruptura, indica que a superfície de ruptura teria cruzado 1,93 camadas. A última coluna da tabela 5 apresenta uma comparação entre as cargas estimadas de ruptura, considerando a total contribuição do concreto e da armadura de cisalhamento, com a carga de ruptura experimental (Vu). Os resultados encontrados mostraram que a laje 149 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO I7 apresentou um resultado mais conservador, talvez porque a superfície de ruptura tenha cortado apenas o topo da segunda camada da armadura de cisalhamento, e, no cálculo, levamos em conta a contribuição de toda a barra do “stud”. Tabela 5 – Contribuições do concreto e da armadura de cisalhamento na resistência à punção das lajes A tabela 6 apresenta uma comparação entre a carga de ruptura experimental e uma carga de ruptura teórica igual a 75% da parcela da contribuição do concreto (Vck) mais uma parcela da contribuição . Para efeito de cálculo, da armadura de cisalhamento foi considerada uma tensão de escoamento efetiva igual a 345 MPa. Para as lajes I9, I10 e I11 (Sr = 80mm), as cargas estimadas foram menores do que as obtidas experimentalmente, apenas as lajes I7 e I8 apresentaram cargas experimentais inferiores às estimadas. Para as lajes I7 e I8, as cargas estimadas pela contribuição do concreto e da armadura transversal foram, respectivamente, 30% e 10% superiores e, para a laje I6, a relação carga teórica estimada e carga de ruptura experimentaol foi de 0,90. 150 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Já a tabela 7 apresenta duas comparações para a carga de ruptura experimental e a carga teórica estimada. A primeira considera totalmente a contribuição do concreto (Vck) mais uma parcela da contribuição da armadura de cisalhamento , e a segunda, considera a total contribuição do conreto mais uma parcela da contribuição da armadura de cisalhamento igual a considerada a mesma tensão de escoamento acima. Tabela 6 – Comparação entre as cargas de ruptura experimental e teórica considerando apenas 75% da contribuição do concreto 151 . Foi UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Tabela 7 – Comparação entre as cargas de ruptura experimental e teórica considerando apenas 75% da contribuição do concreto Os resultados apresentados na tabela 7 mostram que a laje I7 continua apresentando resultados mais conservadores em relação às demais, mas é importante destacar que na consideração total na contribuição do concreto nas lajes com menor taxa de armadura transversal, tem resultados mais próximos dos experimentais. Avalia-se também que a consideração do perímetro de controle igual a 2,0d, a partir dos resultados apresentados, aproximou a carga estimada da experimental para as lajes I6 e I10. Percebe-se que essas duas lajes possuem uma taxa intermediária de armadura transversal em relação ao espaçamento (Asw/Sr (cm²/m)) com relação às demais lajes. Com relação à laje I7, todos os resultados obtidos foram sempre conservadores, muito provavelmente devido à taxa de armadura transversal ser a mais elevada. Para a laje I9, com a menor relação Asw/Sr, o cálculo que apresentou o melhor resultado foi considerando a total contribuição do concreto e, para a contribuição da armadura de cisalhamento, foi para o perímetro de controle igual a 1,5d. Conclusões Os resultados obtidos nessa série de ensaios de lajes-cogumelo comprovam a eficiência e a potencialidade desse tipo de armadura de cisalhamento do tipo “stud” interno, sem envolver a armadura de flexão. Deve-se ressaltar que as normas nacionais e internacio152 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 nais não preveem o posicionamento da armadura de cisalhamento interna à armadura de flexão. A expressão para previsão do valor da parcela de resistência do concreto, considerando a superfície de ruptura cruzando a região com armadura de cisalhamento, que mais se aproximou dos resultados experimentais foi a do EC2/2004[4]. Verificou-se, na análise da contribuição do concreto e da armadura, que, se somente 75% da contribuição do concreto for considerada, as seis lajes necessitariam de, pelo menos, mais uma camada de armadura de cisalhamento de reforço, para atender às condições de ruptura das lajes ensaiadas. Quando se considera a contribuição real do concreto, o número de camadas que influencia a parcela resistente da armadura de cisalhamento fica mais próximo do que foi evidenciado nos ensaios. Com relação à estimativa da carga de ruptura a partir da contribuição do concreto e do aço, verificou-se que os resultados foram mais próximos dos experimentais quando se considera a total contribuição do concreto e o perímetro de controle na contribuição da armadura igual a 1,5d, com exceção das lajes I7 e I8, que apresentam os maiores valores da relação Asw/Sr. Referências [1] GOMES, R. B. Punching Resistance of Reinforced Concrete Flat Slabs with Shear Reinforcement. PhD Thesis, Polytechnic of Central London, England, 185 p. 1991. [2] TRAUTWEIN, L.M. Análise Numérica e Experimental de Lajes Cogumelo de Concreto Armado com Armadura de Cisalhamento do tipo “stud”interno. Tese de Doutorado, Departamento de Estruturas e Geotécnicas da EPUSP. São Paulo, Brasil, 2006. [3] REGAN, P.E. Shear Combs, Reinforcement against Punching. The Structural Engineer, 1985. v. 63b, n. 4, p. 76-84. 153 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO [4] EUROCODE 2 – European Standard. Design of Concrete Structures – Part I: Genreal Rules and Rules for Buildings. European Prestandard. European Committee for Standardization, Brussels, 2004. [5] WALRAVEN, J. Design of Structures for Punching: Present Status of Revision of EC-2. Im: INTERNATIONAL WORKSHOP ON PUNCHING SHEAR CAPACITY OF RC SLABS. Sweden, 2000, p. 211224. [6] ACI COMMITTEE 318, “Building Code Requirements for Structural Concrete (ACI 318-08) and Commentary (318R-08),” American Concrete Institute, Farmington Hills, MI, 2008, 467pp. [7] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (NBR6118). Projeto de Estruturas de Concreto Armado. Rio de Janeiro, 2003. Endereço para contato: E-mail: 154 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Estudo de Ferramentas de Gestão na Construção Civil a partir de um Sistema Informatizado de Benchmarking Alexandre Araújo Bertini11 Marcos Ronaldo Albertin2 José Márcio Feitosa Monteiro3 Resumo A cadeia produtiva da construção civil representa 8,5% do PIB brasileiro e apresenta-se como uma das mais complexas do setor industrial. O seu mapeamento e monitoramento na busca pela elevação do patamar de qualidade e eficiência de seus processos faz-se essencial para que o setor possa dispor de organizações cada vez mais preparadas para desafios de competitividade. No intuito de apoiar o processo contínuo de implantação de melhorias, utiliza-se o benchmarking competitivo para identificar as melhores práticas nos processos produtivos. A partir da observação dessa demanda, o presente trabalho utiliza um sistema informatizado de benchmarking, no qual as empresas podem cadastrar-se e observar seu desempenho em relação às médias das demais. O artigo analisa os resultados da aplicação desse sistema em construtoras que atuam na cidade de Fortaleza, no estado do Ceará, e propõe a ampliação dessa aplicação para outras empresas do macrossetor da construção civil. Palavras-chave: cadeias produtivas; sistemas de gestão; construção civil. Study on management tools in civil construction departing from “Benchmarking” computerized system Abstract The productive chain of construction, which represents 8.5% of GDP in Brazil is presented as one of the most complex industrial sector. Its mapping and monitoring in order to raise the level of quality and efficiency of their process is essential to have organizations increasingly prepared for the challenges of competitiveness. To support the ongoing process of implementation of improvements is used competitive benchmarking to identify best practices in manufacturing processes. From the observation of this demand, this study uses a computerized system of benchmarking, where companies can register themselves and observe its performance relative to _______________________ 1 Prof. Dr. (DEECC – Centro de Tecnologia – UFC); 2 Prof. Dr. (DEMP – Centro de Tecnologia – UFC); 3 Mestrando (PEC – Centro de Tecnologia – UFC). 155 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO mean of the others. The article analyzes the results of applying this system in the civil construction companies operating in the city of Fortaleza, in Ceara state, and proposes to expand this application to other companies in the macro-construction industry. Keywords: productive chains; management systems; construction. 1 Introdução O macrossetor da construção civil, responsável por cerca de 8,5% do PIB brasileiro, tem no subsetor edificações um de seus mais importantes elos. As construtoras e incorporadoras, agentes principais desse subsetor, utilizam diversos subsistemas de gestão para organizar seus processos internos, desde a administração das obras até a gestão financeira da empresa. Esta pesquisa propõe analisar as ferramentas de gestão de empresas construtoras por meio de um sistema informatizado de monitoramento e benchmarking de cadeias produtivas a fim de apontar os seus gargalos, servindo de fonte de informações para a melhoria das empresas em suas atividades gerenciais e administrativas. Pretende-se, ainda, contribuir para a melhoria da cadeia produtiva da construção com foco no subsetor edificações. A Figura 1 mostra como está organizada esta cadeia. Figura 1 – Cadeia Produtiva da Construção Civil Fonte: ABRAMAT 156 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 A Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído (ANTAC), uma das principais organizações do setor da construção e que reúne pesquisadores de diversas universidades do país, atenta à necessidade de integração da cadeia produtiva da construção, inseriu, em seu plano estratégico, algumas diretrizes que apontam para a busca por melhoria da cadeia produtiva como um todo. (ANTAC - Plano Estratégico para Ciência, Tecnologia e Inovação na área de Tecnologia do Ambiente Construído, 2002). • Mapeamento das cadeias produtivas vinculadas à Construção Civil de forma a identificar seus principais gargalos do ponto de vista da eficiência e da agregação de valor. • Programas de integração de cadeias produtivas vinculadas à construção civil. • Estabelecimento de sistemas de indicadores para avaliação de desempenho do Macro-complexo Construção Civil que permitam monitorar a competitividade de suas cadeias produtivas e setores. • Diretrizes para o estabelecimento de parcerias entre os agentes envolvidos nos empreendimentos de construção. • Remoção de barreiras para a introdução de produtos com a configuração de subsistemas na cadeia produtiva. • Promoção de arranjos produtivos locais, envolvendo microempresas do Macrocomplexo Construção Civil, com o apoio de instituições públicas e privadas de treinamento, pesquisa e de serviços tecnológicos. • Programas para o desenvolvimento tecnológico e gerencial de empresas fornecedoras de serviços (subempreiteiros), de forma a dotá-los das competências técnicas e gerenciais necessárias para que essas assumam um papel mais importante na cadeia produtiva. • Prospecção tecnológica para as cadeias produtivas da Construção Civil, visando ao estabelecimento de futuros cenários que possam orientar o esforço de desenvolvimento tecnológico. 157 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Este trabalho considera a importância da construção de edificações para a economia nacional e o apoio de entidades do setor à melhoria da gestão das empresas da cadeia produtiva, e propõe a utilização do sistema computacional SIMAP (Sistema de Monitoramento e Benchmarking de Arranjos Produtivos) para apoiar o desenvolvimento nacional desse macro- setor. Na sequência, são descritas a metodologia dessa pesquisa, o SIMAP e análise dos dados obtidos com a pesquisa. 2 Metodologia Foram trabalhadas, para a produção deste artigo, as metodologias de revisão bibliográfica e pesquisas de campo que contemplaram as seguintes etapas: • estudo do questionário de coleta de dados aplicado nas empresas; • elaboração e estudo de Manual do SIMAP e de suas ferramentas; • aplicação do questionário nas empresas construtoras mediante visitas de campo; • compilação dos dados e inserção dos mesmos no SIMAP; • interpretação dos gráficos gerados pelo sistema; • cálculo das médias relativas aos níveis de gestão da cadeia produtiva e das construtoras; • análise dos gráficos e identificação dos principais gargalos. Para melhor compreensão dos resultados obtidos na pesquisa, é importante o entendimento do conceito e do funcionamento do SIMAP. 158 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 2.1 O Sistema de Monitoramento e Benchmarking de Arranjos Produtivos (SIMAP) A pesquisa utilizou como base fundamental de coleta e análise de dados o SIMAP. Essa ferramenta informatizada foi desenvolvida no Observatório Tecnológico do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Ceará para estudar cadeias produtivas regionais. Entre as cadeias produtivas, destaca-se a da construção civil no estado do Ceará. O SIMAP avalia as empresas sob a perspectiva de 46 critérios agrupados em sete subsistemas, que englobam ferramentas de gestão, conforme ilustrado na Figura 2. Esse modelo de avaliação de empresas baseia-se no nível de aplicação das ferramentas para monitorar o desempenho das empresas pesquisadas sob a ótica de gestão. Figura 2 – Sistemas de Gestão analisados pelo SIMAP 159 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO O texto seguinte, presente na home page do SIMAP, descreve os objetivos do sistema. O SIMAP (Sistema de Monitoramento de Arranjos Produtivos), objetiva acompanhar o desenvolvimento de empresas, de elos e de cadeias produtivas dos principais arranjos produtivos (APs) do Ceará e demais estados brasileiros. Através de uma comunicação ágil e transparente, todos os interessados no desenvolvimento dos APs, passam a colaborar entre si (em forma de Benchmarking) disponibilizando informações sobre desempenho estratégico, tecnologias de gestão, de processos e de produto direcionando ações e esforços para a competitividade sistêmica. Mas sua implantação e acompanhamento é uma atividade por demais complexa, visto que se passa a observar todo um sistema de empresas, e não mais uma única empresa isolada. Tal sistema imerso num mercado econômico extremamente dinâmico exige um monitoramento constante que informe os gargalos e restrições tecnológicos de forma cooperativa e colaborativa a partir de critérios (indicadores) previamente definidos. As informações de cada empresa são de natureza sigilosa, e são utilizadas apenas como parâmetros estatísticos de comparação de entre si. A participação neste projeto permite que o empresário compare o seu desempenho e uso de boas práticas no setor de atuação e em outro, onde queira atuar. As informações permitirão apontar que tecnologias estão se destacando em setores específicos, ou mesmo, técnicas e métodos que estão deixando de ser utilizadas. Permite, ainda, conhecer os requisitos desejados e (não) atendidos para atuar em um determinado elo produtivo. (OBSERVATÓRIO TECNOLÓGICO, 2010) 3 O SIMAP aplicado à Cadeia Produtiva da Construção Civil Este item mostra, por meio da Figura 3, extraída do SIMAP, um exemplo de aplicação desse sistema em empresas construtoras de edifícios de múltiplos andares na cidade de Fortaleza. As barras azuis 160 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 representam o desempenho da empresa benchmarking. A linha laranja mostra os níveis correspondentes aos requisitos fundamentais para que as construtoras atinjam desempenho satisfatório no setor. Já as linhas amarela e verde apresentam, respectivamente, as médias da cadeia da construção com um todo e do elo que inclui somente construtoras. Figura 3 – Comparação da empresa benchmarking com a média da cadeia e a média do elo em relação aos requisitos de mercado Fonte: Observatório Tecnológico - UFC Foram avaliadas desde construtoras que empregam modernas técnicas de gestão até empresas do setor com pouquíssima experiência na aplicação de ferramentas de gestão. A média obtida para a cadeia da construção civil foi de 37,11%, com um desempenho abaixo dos requisitos de mercado em quatro subsistemas. Outra observação é a de que o desempenho das empresas do elo é quase coincidente com o da cadeia. A menor média verificada (21,92%) foi observada no subsistema de Gestão Integrada (o requisito é 50%). Vale ressaltar, porém, que a construção civil baseia-se em normas locais de gestão de resíduos, estabelecidas geralmente pelas prefeituras e nacionais de segurança do trabalho, no caso a NR-18. Essas, apesar de apresentarem pontos comuns com as normas internacionais ISO 14000 e OSHAS 18000, são distintas das mesmas. A norma SA 8000, que trata de responsabilidade social, é praticamente desconhecida do se161 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO tor, apesar de diversas empresas realizarem programas de inclusão social com seus operários a partir do apoio de entidades como o SESI, o SENAI e o SINDUSCON. Já a norma ISO 9000 e o programa 5S são os mais aplicadas nas empresas da construção, sendo que há até certificados que atestam, por exemplo, a efetiva implantação da norma ISO 9000 nas empresas. A maior diferença entre os requisitos e a média da cadeia está no subsistema de gestão estratégica, o requisito de mercado exige que todas as ferramentas desse subsistema estejam implantadas (média 100), mas o nível de implantação nas empresas é de 48,79%. 3.1 Análise particular dos subsistemas O SIMAP também permite que cada um dos sistemas de gestão seja estudado mais detalhadamente. Gestão Integrada, Gestão da Produção, Gestão de Produtos, Gestão Estratégica, Gestão Logística, Gestão de Recursos Humanos e Gestão Financeira serão, na sequência de gráficos seguinte, objeto de análise. Com isso, tornase possível obter uma visão específica de cada um dos subitens que compõem os subsistemas analisados, o que permite às empresas, baseando-se no conceito de benchmarking, e a partir do nível em que se encontra a cadeia como um todo, traçarem metas com o intuito de elevar o patamar de seus níveis de gestão, trazendo inúmeros benefícios para todas as áreas da construtora. Figura 4. Gráfico específico para análise dos Sistemas Integrados de Gestão Fonte: Observatório Tecnológico UFC 162 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 A Figura 4 mostra os resultados da pesquisa para os Sistemas de Gestão Integrada. Ela reflete claramente como está posicionada a empresa benchmarking (barras azuis) e as empresas da cadeia como um todo (linha laranja) em relação às ferramentas de gestão ISO 9000 e 14000, programa 5S, SA 8000 e OSHAS 18000. No caso, observase o uso efetivo da ISO 9000 e do programa 5S pelas construtoras e o quase desconhecimento das demais normas do subsistema de gestão integrado, como já foi relatado na análise da Figura 3. Figura 5. Gráfico específico para análise da Gestão da Produção Fonte: Observatório Tecnológico UFC Figura 6. Gráfico específico para análise da Gestão de Produtos Fonte: Observatório Tecnológico UFC 163 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO A Figura 5 deixa transparecer o desempenho da empresa benchmarking, que contrasta com o média geral da cadeia. Esta tem apenas um patamar médio de eficiência na Gestão da Produção. O subsistema gestão da produção, o mais visível e um dos mais importantes para as construtoras, merece especial atenção dos responsáveis pelo setor operacional das empresas, uma vez que, atualmente, é possível dispor de uma série de sistemas para a organização da produção, redução de desperdícios e o aumento da produtividade das equipes de obra. Exemplo disso é a Lean Construction, filosofia que, a partir dos princípios de especificação de valor, cadeia de valor, fluxo, produção puxada e busca da perfeição produtiva com o foco nas necessidades do cliente, tem alcançado inúmeros resultados positivos em empresas construtoras. Nota-se, no gráfico, clara deficiência no item “Defeitos PPM”, que se refere à porcentagem de falhas na produção. Isso se deve ao fato de a maioria das empresas não utilizarem esse indicador para o controle dos defeitos no processo produtivo. Já a Figura 6, que expõe os dados da Gestão de Produto, tem como marcante a depressão do item “Lead Time de desenvolvimento de produtos e serviços”. Isso se configura como uma realidade no âmbito da Construção Civil, já que, estando o lead time intimamente ligado ao contexto da produção, verifica-se que os processos de execução de tarefas sofrem frequentemente, nas obras, atrasos inesperados ou tempos de parada. A Figura 5 deixa transparecer o desempenho da empresa benchmarking, que contrasta com o média geral da cadeia. Esta tem apenas um patamar médio de eficiência na Gestão da Produção. O subsistema gestão da produção, o mais visível e um dos mais importantes para as construtoras, merece especial atenção dos responsáveis pelo setor operacional das empresas, uma vez que, atualmente, é possível dispor de uma série de sistemas para a organização da produção, redução de desperdícios e o aumento da produtividade das equipes de obra. Exemplo disso é a Lean Construction, filosofia que, a partir dos princípios de especificação de valor, cadeia de valor, fluxo, produção puxada e busca da perfeição produtiva com o foco nas necessidades do cliente, tem alcançado inúmeros resultados positivos em empresas construtoras. 164 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Nota-se, no gráfico, clara deficiência no item “Defeitos PPM”, que se refere à porcentagem de falhas na produção. Isso se deve ao fato de a maioria das empresas não utilizarem esse indicador para o controle dos defeitos no processo produtivo. Já a Figura 6, que expõe os dados da Gestão de Produto, tem como marcante a depressão do item “Lead Time de desenvolvimento de produtos e serviços”. Isso se configura como uma realidade no âmbito da Construção Civil, já que, estando o lead time intimamente ligado ao contexto da produção, verifica-se que os processos de execução de tarefas sofrem frequentemente, nas obras, atrasos inesperados ou tempos de parada. Figura 7. Gráfico específico para análise da Gestão Estratégica Fonte: Observatório Tecnológico UFC A Figura 7 aponta um gargalo típico das construtoras que é a realização do planejamento estratégico. Cerca de 30% apenas das empresas responderam que realizam esse tipo de planejamento de forma efetiva. Esse comportamento vai-se refletir mais adiante, durante a execução do empreendimento, com o aparecimento de uma série de incertezas, decisões tomadas “às pressas” com pouca reflexão e falta de análise do ambiente de mercado no qual se inseriu a obra. Esse gargalo é dos mais graves, pois aponta que a liderança principal da empresa não atua de forma completa em sua atividade de gestão. O mesmo patamar de somente 30% das empresas utiliza-se de técnicas de benchmarking, base de fundamentação deste trabalho, 165 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO como estratégia competitiva. A exceção fica por conta justamente da empresa identificada como a que exerce o papel de referência na área de gestão no mercado da construção civil fortalezense, como mostra o gráfico nas barras azuis. Figura 8. Gráfico específico para análise dos Sistemas Gestão Logística Fonte: Observatório Tecnológico UFC Os gargalos da Figura 8 são, notadamente, rotatividade de estoques e unitização. Dados que refletem a necessidade das construtoras de planejarem melhor o processo de compra, armazenamento, modalidade e tempo de entrega dos insumos, bem como a maneira de como os mesmos são disponibilizados pelos fornecedores nas obras. Figura 9. Gráfico específico para análise da Gestão de Recursos Humanos Fonte: Observatório Tecnológico UFC 166 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 A Figura 9 aponta a necessidade de as empresas construtoras investir mais intensamente na capacitação e treinamento de seus quadros técnicos e operacionais a fim de que os mesmos possam absorver, de maneira efetiva, as novas tecnologias disponibilizadas pelo mercado de materiais de construção, ferramentas e equipamentos, bem como as técnicas e novas filosofias de organização de canteiros de obra e de produção. A maior dificuldade está, entretanto, na implantação de programas participativos, já amplamente executados, e com sucesso, em outros ramos da indústria, mas ainda sofrendo certo grau de rejeição por parte dos setores gerenciais e de gestão da construção civil. Figura 10. Gráfico específico para análise Gestão Financeira Fonte: Observatório Tecnológico UFC Finalmente a análise da gestão financeira das empresas de construção aponta um desempenho mediano da cadeia, exceto no que diz respeito aos métodos de análise de investimentos (Figura 10), que necessitam de profissionais de formação específica para esse fim e demandam alta qualificação e elevada experiência do setor financeiro da empresa. 167 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 5 Considerações finais Como um dos setores mais importantes para a economia brasileira, a construção civil deve balizar e avaliar o seu desempenho a partir de sistemas avançados e capazes de traduzir suas principais deficiências. O SIMAP apoia a busca de melhoria contínua a partir de conceitos como o do benchmarking competitivo, divulgando e induzindo o uso de ferramentas na construção de edificações de qualidade que englobem os princípios de sustentabilidade, segurança e conforto de seus usuários, bem como gerem benefícios para as empresas construtoras e para seus colaboradores. A busca pelo aperfeiçoamento constante do setor da construção passa, sem dúvidas, pela análise de como as empresas dessa cadeia vêm administrando suas estruturas internas de organização do trabalho. O SIMAP apresentou-se como ferramenta eficiente para a avaliação das ferramentas de gestão interna de empresas construtoras do subsetor edificações. Através dele foi possível tecer análises efetivas do patamar gerencial de cada empresa e da cadeia produtiva como um todo. Referências ABRAMAT- Associação Brasileira de Materiais de Construção. A cadeia produtiva da construção e o mercado de materiais. Fundação Getúlio Vargas, 2007. Disponível em: <http://pcc2302.pcc.usp.br/Textos/Estudo%20Abramat%20.pdf>. ANTAC - Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído. Plano Estratégico para Ciência, Tecnologia e Inovação na área de Tecnologia do Ambiente Construído. 2002. ALBERTIN, M. R.; SOUSA, I. F. Propostas de ações horizontais de dinamização da cadeia produtiva de petróleo & gás através do mapeamento e levantamento de demandas e ofertas tecnológicas. Relatório final do projeto de pesquisa “Propostas de ações horizontais de dinamização da cadeia produtiva de petróleo & gás do estado do Ceará”. Observatório Tecnológico, UFC. Fortaleza, 2010. 168 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 CARMO, B. B. T. ; ARAGAO, D. P. ; PONTES, H. L. J. ; ALBERTIN, M. R. . Proposição de um sistema de benchmarking para cadeias produtivas. In: Simpósio de Engenharia de Produção da Região Nordeste, 2009, Fortaleza. Anais SEPRONE. Fortaleza, 2009. v. 1. OBSERVATÓRIO TECNOLÓGICO. Sistemas: O SIMAP. Disponível em: <http://www.ot.ufc.br/portal01/ index.php?option=com_content&task=view&id=55&Itemid=56>. OBSERVATÓRIO TECNOLÓGICO. Sistemas: O SIMAP: Manual de ferramentas. Disponível em: <http://www.ot.ufc.br/portal01/ index.php?option=com_content&task=view&id=55&Itemid=56>. Endereços para correspondência: Alexandre Araújo Bertini [email protected] Marcos Ronaldo Albertin José Márcio Feitosa Monteiro 169 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 170 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Alternativas tecnológicas para construção de habitações populares: uma abordagem comparativa dos custos de produção Angela Cristina Alves Guimarães de Souza1 Fernando Artur Nogueira Silva2 Romilde Almeida de Oliveira3 Resumo Este trabalho apresenta os resultados obtidos de um estudo comparativo entre três alternativas tecnológicas para a construção de habitações de interesse social. Os três sistemas construtivos estudados foram: Sistema Construtivo em Alvenaria Estrutural com Blocos Cerâmicos e de Concreto, Sistema Construtivo com Paredes de Gesso e com Painéis Monolíticos de Poliestireno Expandido. Foi eleita uma geometria típica de uma edificação térrea de 42,3 m2. Foram examinadas as características de cada um dos sistemas, ressaltando suas potencialidades, vantagens e desvantagens e foram também apropriados os custos de construção com levantamento detalhado dos insumos necessários à execução dos mesmos. O Sistema construtivo que apresentou melhor desempenho, em termos de custo de implantação, foi o baseado em alvenaria de blocos cerâmicos. Palavras-chave: habitações populares, custos de construção, sistemas construtivos, alvenaria, gesso. Technology alternatives for popular housing construction: construction costs comparative approach Abstract This work presents results obtained from a comparative study of three technological options for building social interest houses. Three building systems were studied: structural masonry walls made with concrete or ceramic units, with gypsum walls, _______________________ 1 Professora do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Pernambuco – IFPE 2 Professor do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Católica de Pernambuco 3 Professor do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Católica de Pernambuco 171 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO and with expanded polystyrene panel walls. An typical building geometry with 42,3 m2 in area was considered in the analyses. The features of each building system were analyzed, highlighting their potentialities, advantages and disadvantages and building costs were also appropriated. The building that exhibited the best performance in terms of costs was the system using walls made with ceramic blocks. Keywords: popular habitation, building costs, building systems, masonry, gypsum. 1 Introdução O estudo sobre a habitação de interesse social vem ganhando destaque na pesquisa acadêmica no país porque se trata de um problema que envolve uma elevada quantidade de pessoas e porque ainda persiste no país uma significativa demanda por habitações. Com efeito, a Pesquisa Nacional de Amostras e Domicílios (PNAD) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apontou um déficit habitacional absoluto de 7.209.852 moradias no país, no ano de 2007 (IBGE, 2007), correspondendo a 12,8% do total de domicílios. O presente trabalho pretende, portanto, contribuir para oferecer informações qualitativas sobre as peculiaridades tecnológicas de três sistemas de habitações de interesse social ressaltando suas potencialidades e apropriando os custos de produção de cada um desses sistemas. 2 Descrição dos sistemas construtivos estudados 2.1 Sistema Construtivo Monolite O sistema construtivo Monolite se constitui atualmente num dos sistemas construtivos que contempla importantes avanços do ponto de vista técnico, tanto em termos de tempo de construção quanto com relação aos aspectos de qualidade final e economia. O pressuposto básico é a possibilidade de atendimento simultâneo, num mesmo sistema, das demandas de desempenho estrutural, conforto térmico e impermeabilidade, que, na maioria das vezes, são requisitos que exigem a superação de importantes desafios tecnológicos para que se tornem exequíveis. 172 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 2.1.1 Características do Sistema O sistema construtivo foi desenvolvido pela Monolite e por isso o denominou de Sistema Monolite. Advém de um projeto italiano, desenvolvido numa região sujeita a terremotos, com o intuito de criar uma estrutura monolítica que não desmoronasse e agregasse elementos de isolação térmica no início dos anos oitenta. Pode-se utilizar o sistema com um único elemento construtivo (vedações verticais e horizontais, coberturas em lajes planas, inclinadas e em forma de arco). Quando utilizado na vertical, poderá ser usado apenas como vedação junto a outros elementos de função estrutural ou ele mesmo com ambas as funções. Esses painéis proporcionam racionalização dos projetos, por ter características modulares e, dependendo da necessidade do projeto, quando na confecção dos painéis, ou mesmo durante a obra, poderão ser acrescidos outros materiais. Também são fáceis de serem recortados, quando necessário. Segundo Bertoldi (2007), essa tecnologia foi difundida em diversos países, entre eles: Itália, Portugal, Espanha, Rússia, Turquia, Líbia, Egito, Argentina, Chile, Venezuela, Guatemala, Costa Rica, México, França, países onde foram implantadas unidades de produção do sistema construtivo. No Brasil, ela chega por volta do ano de 1990, quando o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo realiza análises dos componentes do sistema e de elementos construídos, obtendo resultados favoráveis no que diz respeito aos principais seus pressupostos (comportamento estrutural, conforto térmico e impermeabilidade). Os painéis são tipo sanduíche, com núcleo de poliestireno expandido (espessura de 5 cm, 8 cm ou 10 cm) e telas de aço eletrossoldadas em ambas as faces, presas entre si por conectores. A função principal desses conectores é manter as telas a uma distância de 1,0 cm da face da placa de EPS, dos dois lados, e fazer com que o pré-painel possua rigidez suficiente para permitir a projeção da argamassa. 173 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO 2.1.2 Técnicas construtivas • Etapa I: nesta etapa, é realizada a preparação das fundações, que poderá ser uma laje de fundação, sapata corrida, ou outro tipo em conformidade com as condições do terreno e do projeto estrutural. Após o término das fundações, deverão ser fixados arranques de aço de 3,4 mm a 5 mm e 30 cm acima do piso, que, alinhados pelo gabarito da obra, serão fixados aos painéis monolíticos. • Etapa II: nesta etapa, é realizada a montagem dos painéis. A partir dos arranques deixados no “radier”, os painéis são unidos uns aos outros por processo normal de amarração de ferragens. Da mesma forma utilizada na alvenaria convencional, deve-se verificar o prumo e alinhamento das paredes, conforme Figura 1. Figura 1: Montagem dos painéis - (http://www.tecnocell.com.br/produtos) • Etapa II: na fase de instalações, faz-se necessária a abertura de sulcos, os quais receberão as tubulações. Para a execução desses sulcos, utiliza-se como ferramenta auxiliar o soprador térmico, ou ainda um maçarico, que produz ar quente sobre o poliestireno expandido, provocando a contração do material. Ver Figura 2. 174 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 Figura 2: Abertura de canaletas com um soprador de ar quente (http://www.tecnocell.com.br/produtos) • Etapa IV: nesta etapa, é realizado o revestimento da parede. Executa-se o revestimento de argamassa ou microconcreto diretamente sobre o painel. A fase de revestimento dos painéis é diferente do reboco na alvenaria convencional. A principal diferença está no traço e composição da massa, que, na realidade, trata-se de argamassa estrutural ou microconcreto. Pode-se utilizar, nesse procedimento, um “projetador” ou uma caneca de projeção de argamassa, dando maior velocidade à execução ou utilizar o processo manual tradicional de chapisco e reboco. Ver Figura 3. Figura 3: Projeção de argamassa em painel (BERTINI, 2002) 175 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Os componentes do micro concreto são: areia média e cimento com a inclusão de fibras plásticas e aditivos, para dar maior consistência e impedir a retração excessiva do concreto. Cada parede deve ser rebocada pelos dois lados para evitar problemas de alinhamento e prumo. A Tabela 1 apresenta o traço da 1ª e 2ª demãos de revestimento usado para cálculo do orçamento. Tabela 1: Traços usuais para argamassa de revestimento 2.2 Sistema Construtivo com Blocos Estruturais de Concreto (Casa 1.0) O Sistema Casa 1.0 é uma tipologia construtiva idealizada conjuntamente pela Associação Brasileira de Cimento Portland – ABCP – e pela Organização não Governamental Água e Cidade, tendo a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo como suporte técnico para o seu desenvolvimento. Trata-se de um projeto que utiliza o concreto celular ou a alvenaria de blocos estruturais de concreto como principais elementos construtivos das paredes e que busca aliar a qualidade técnica dos materiais utilizados com a minimização dos desperdícios e dos custos de construção. O termo Casa 1.0 busca estabelecer uma analogia com os carros populares, que atingiram enorme sucesso na última década. 176 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 2.1.1 Características do Sistema O Sistema Construtivo Casa 1.0 utiliza os conceitos das construções racionalizadas em alvenaria estrutural não armada, que se caracterizam pela coordenação modular e pela utilização de blocos de concreto com resistência à compressão de 4,5 MPa na área bruta, usualmente empregados como blocos de finalidade estrutural. A estrutura será executada em alvenaria, com blocos de concreto estrutural de 4,5 MPa de 14 cm de largura, de acordo com as normas NBR 6136/2006 (blocos vazados de concreto simples para alvenaria) e NBR 12.118/2006 (blocos vazados de concreto simples para alvenaria – Métodos de ensaio). A Figura 4 apresenta alguns blocos estruturais de concreto. Usualmente, o projeto de obras em alvenaria estrutural de blocos de concreto utiliza duas famílias de blocos: a família 29 e a família 39. Figura 4: Parte da Família de blocos de concreto (Pallotti, 2003 apud Silva, 2003) 2.2.2 Técnicas construtivas • Etapa I: após execução da fundação, deve-se observar a locação das instalações, porque as tubulações elétricas coincidirão com os furos dos blocos, e as instalações hidrossanitárias com os shafts (Figura 5). O processo de marcação é realizado através das informações contidas na planta de primeira fiada da edificação. A Figura 6 apresenta o esquema da primeira fiada de um projeto de arquitetura. 177 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Figura 5: Execução da alvenaria – locação (ABCP, 2002) Figura 6: Planta da primeira fiada (ABCP, 2002) 178 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 • Etapa II: nesta fase, serão executados os vãos das esquadrias, sendo que os vãos das portas já foram locados na primeira fiada. É realizado também o embutimento dos eletrodutos, são definidos os locais para as instalações de água e esgoto (shafts) e os detalhes estruturais (armações e concretagens). Todos esses detalhes deverão estar contidos nas elevações das paredes, com soluções práticas estabelecidas na fase de projeto. • Etapa III: caso haja revestimento, não se faz necessário o uso do chapisco para alvenaria com blocos de concreto. O projeto da ABCP Casa 1.0 não prevê revestimento nas paredes. 2.3 O sistema construtivo com paredes de gesso O gesso encontra a sua maior aplicação na indústria da construção civil, porém basicamente em revestimentos e decoração. O Brasil tem a maior reserva mundial de gipsita com uma pureza de 98%. Dessa produção nacional, Pernambuco detém 89%, em especial a região do Araripe. O restante da produção nacional está distribuído da seguinte forma: Maranhão com 5,5%, Ceará com 3,5%, Amazonas com 1,6% e Tocantins com 0,4%. Os blocos para paredes de gesso podem ser vazado (espessura 70 mm) ou maciço (espessura 70 ou 100 mm) e dimensões 66x50 cm. Esse material já vem sendo utilizado em alguns conjuntos habitacionais, como no Município de Araripina, no sertão do Araripe em Pernambuco. Ver Figura 7. Figura 7: Moradias construídas com blocos de gesso no Município de Araripina 179 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO Os blocos utilizados para o estudo do protótipo foi o bloco de gesso Hidro (cor azul) para a primeira fiada e parede de áreas molhadas (paredes do banheiro) e o bloco de gesso S – simples (cor branca) para as demais fiadas. 3 Análise comparativa de custos Com a finalidade de desenvolver a abordagem comparativa de custos dos sistemas construtivos estudados, foi eleita uma planta de arquitetura típica conforme indicada na Figura 8. As especificações dos materiais utilizados no orçamento de cada sistema construtivo achamse detalhadas em SOUZA (2009). Além dos sistemas construtivos descritos anteriormente, foram também estudadas a execução das paredes da edificação com blocos de vedação de concreto e cerâmico. Isso foi feito para que se pudesse apropriar qual a magnitude da redução de custos existente, que, eventualmente, pudesse ser utilizada como argumentação para sustentar a aplicabilidade da utilização de blocos de vedação utilizados para suportar carga além do seu próprio peso. Área da casa = 42,3 m2 Figura 8: Planta baixa típica da arquitetura do modelo estudado 180 REVISTA SYMPOSIUM • ANO 14 • EDIÇÃO ESPECIAL • 2010 4 Análise de resultados e discussão A Tabela 2 a seguir sumariza o resultado das análises em termos da produtividade da mão de obra para cada sistema construtivo estudado sem a consideração da existência de revestimento de argamassa sobre as paredes. Apenas o sistema construtivo com blocos de EPS foi considerado com revestimento, já que não há hipótese de sua execução sem esse revestimento. O custo de mão de obra apresentado refere-se apenas aos profissionais pedreiros e serventes das etapas construtivas, pois são elas que diferem entre si em cada sistema. As atividades que são comuns a todos os sistemas construtivos não foram computadas no custo do consumo de mão de obra desta tabela. O mesmo raciocínio foi adotado na Tabela 3. Tabela 2: Consumo de mão-de-obra na execução de cada sistema estudado, sem revestimento BVCON=Sistema com Blocos de Vedação de Concreto; BVCER= Sistema com Bloco de Vedação Cerâmico; BECON= Sistema com Bloco Estrutural de Concreto; BECER= Sistema com Bloco Estrutural Cerâmico; EPS=Sistema Monolite com EPS, BGES= Sistema com Bloco de Gesso Os dados da Tabela 2 encontram-se condensados no Gráfico 1 a seguir. BVCON BVCER BECON BECER EPS BGES Gráfico 1: Produtividade dos sistemas construtivos estudados, sem revestimento 181