Caracterização da resistência de um solo tropical a partir do ensaio de penetração dinâmica Franciele Diemer Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO, Brasil, [email protected] Carlos Alberto Lauro Vargas Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO, Brasil, [email protected] Paulo Márcio Fernandes Viana. UEG/LTEC – Universidade Estadual de Goiás, Anápolis-GO, Brasil. e-mail: [email protected] RESUMO: O conhecimento do perfil geológico-geotécnico se faz necessário para qualquer projeto de Engenharia. Os ensaios de campo são capazes de identificar e estimar os parâmetros mecânicos do solo, para uma adequada previsão do comportamento de estruturas de contenção, escavações, fundações, dimensionamento de pavimentos, entre outros. Essa caracterização se refere às investigações do solo que se pretende utilizar a fim de determinar seu tipo, estratigrafia, composição e estrutura, enfim, suas propriedades geotécnicas, de maneira a embasar os projetos de engenharia. Neste contexto, um dos parâmetros de importância a ser estudado é a resistência ao cisalhamento do solo, que é decorrente da ação integrada de dois fatores, denominados de atrito e coesão. O ângulo de atrito (ø) do solo está associado ao efeito de entrosamento entre as suas partículas, enquanto a coesão (c) está associada à natureza das partículas e/ou a presença de cimentação. Nos últimos anos introduziram-se novos e modernos equipamentos de investigação na prática de engenharia visando ampliar o uso de diferentes tecnologias em diferentes condições do subsolo. Dentre eles podemos destacar o ensaio de penetração dinâmica com energia variável (PANDA) de origem francesa, que no Brasil está sendo introduzido como uma ferramenta disponível para investigação geotecnica do perfil do solo, permitindo um tratamento mais refinado dos parâmetros obtidos em investigação de campo, com robusta formulação teórica e resposta simultânea de energia e profundidade de penetração. Este trabalho tem como objetivo medir a resistência à penetração de solos tropicais em campo através do ensaio de penetração diâmica com energia variável e para o mesmo perfil de solo medir os parâmetros de resistência através de ensaios de laboratório. Após a realização dos ensaios de campo e de laboratório, espera-se obter uma relação entre a resistência a penetração dinâmica em campo com a resistência do solo obtido no laboratório. Com isto será possível fazer uma primeira estimativa de parâmetros de resistência do solo para o estudo de estabilidade de taludes e contenções em solos tropicais similares PALAVRAS-CHAVE: Ensaio de penetração dinâmica, Resistência à penetração, Penetrômetros. 1 INTRODUÇÃO Os ensaios de campo para investigar o perfil geotécnico do solo são pré-requisistos para a concepção de qualquer projeto geotécnico seguro e econômico, pois são capazes de identificar as camadas e estimar os parâmetros mecânicos do solo. Os ensaios de campo e de laboratório, bem como a retroanálise de casos reais, foram desenvolvidos para atender as exigências de novas tecnologias construtivas e gradativamente estabeleceram-se como instrumentos de que dispõe o engenheiro geotécnico para obtenção de perfis detalhados e representativos do solo, incluindo a descrição das condições do lençol freático e com o passar do tempo para identificação dos índices físicos; uma estimativa do estado inicial de tensões existentes no solo e sua história de tensões, e características tensão- deformação e resistência do solo. Nos últimos anos introduziram-se novos e modernos equipamentos de investigação na prática de engenharia visando ampliar o uso de diferentes tecnologias em diferentes condições do subsolo. O avanço da eletrônica somado a rápida evolução da informática, têm proporcionado equipamentos mais sofisticados, com fundamentos teóricos robustos e menos dispendiosos. Dentre eles podemos destacar o ensaio de penetração dinâmica com energia variável (PANDA) de origem francesa, que no Brasil está sendo introduzido como uma ferramenta disponível para investigação geotecnica do perfil do solo, permitindo um tratamento mais refinado dos parâmetros obtidos em investigação de campo, com robusta formulação teórica e resposta simultânea de energia e profundidade de penetração. Com este estudo pretende-se estimar parâmetros de resistência do solo e assim fazer um projeto preliminar da estabilidade de um talude ou de uma escavação, e também otimizar um programa de ensaios de laboratório para o projeto definito. Tudo isto fica mais atrativo, já que o ensaio PANDA é simples e de fácil execução em campo, permitindo estudos rápidos do perfil do solo e estimativa preliminar do comportamento do solo. O principal objetivo desta pesquisa é medir a resistência à penetração dinâmica de solos tropicais em campo e a partir de ensaios de resistência em laboratório procurar uma relação entre o resultado de campo e de laboratório. 3.1 PENETRÔMETRO UTILIZADO Dentre os penetrômetros dinâmicos portáteis utilizados atualmente para análises geotécnicas, destaca-se o equipamento Pénétromètre Autonome Numérique Dynamique Assisté par Ordinateur (PANDA) desenvolvido pela empresa francesa Sol Solution em conjunto com o laboratório de engenharia civil, LERMES/CUST, da Universidade de Blaise Pascal de Clermont – Ferrand (SOL SOLUTION2007) apresenta peculiaridades que o distingue dos penetrômetros dinâmicos convencionais. Segundo Camapum de Carvalho, et al. (2006), o penetrômetro PANDA é um equipamento leve, portátil e prático, com aquisição automática da energia dinâmica e profundidade de cravação, informações estas facilmente transportadas para o computador, sem necessidade de tratamentos adicionais de sinal. O equipamento completo pesa em média 20 kg (Figura 1). (b) (a) Figura 1 – Penetrômetro Dinâmico – PANDA. a) Detalhe do equipamento (DIEMER, 2013). b) Realização do ensaio em campo O penetrômetro PANDA compõe-se por um martelo manual de 2 kg, hastes de aço de 50 cm de comprimento e 14 mm de diâmetro e pontas cônicas de aço de 2, 4 e 10 cm² de superfície de base do cone e ângulo de ponta de 90º (interno) e sensor de penetração com central microcomputadorizada para armazenar os dados (GOURVÈS; BARJOT, 1995). A escolha da ponta acontece em função da resistência dinâmica do material penetrado. As hastes devem sempre apresentar o seu diâmetro externo inferior ou igual ao diâmetro das pontas. Para este estudo foi utilizado diâmetro das hastes menor que o das pontas o que garante a minimização do atrito lateral das hastes com o solo sob análise os seja, o registro ou medida é apenas da resistência de ponta. (Figura 2). A profundidade mínima necessária por cada golpe é fixada em 1 milímetro e adota-se uma variação adequada de 2 mm e 20 mm. Conforme apresentado por Oliveira (2007), busca-se limitar a penetração de 2 a 20 mm por golpe com o intuito de evitar ou limitar o repique elástico e a geração de pressão neutra no caso de solos saturados ou quase saturados como é o caso de solos compactados acima da linha ótima. Assim, obtêm-se, em média, um ponto de leitura a cada 5 mm, o que permite acompanhar de modo relativamente contínuo o comportamento do solo ao longo da profundidade de cravação, detectando-se eventuais gradientes de comportamento, e portanto, de densidade do solo ou teor de umidade, bem como a passagem de uma camada para outra. A Figura 2 apresenta um esquema funcionamento do equipamento. Antonio do Descoberto - GO. A partir do banco de dados que apresenta um cadastro de erosões que ocorrem próximos a uma faixa de dutos, selecionou-se um ponto proximo, com um talude vertical aparentemente mais arenoso e fácil acesso para coleta de amostras, e próximo à rodovia para um facil transporte das amostras ao laboratório da UFG para realização dos ensaios. A Figura 3 apresenta uma imagem do Google Earth do local selecionado e a Figura 4 apresenta imagem do talude. DUTO OSBRA Solo transportado Muro de gabião Figura 2 – Esquema do equipamento PANDA (modificado de GUERIN, 2011) No ensaio, a velocidade do martelo é medida logo em seguida ao impacto do martelo pelo sensor de deformação situado no capacete que é colocado sobre o conjunto de hastes e recebe diretamente os golpes (Figura 2). Uma correia ligando este capacete á peça guia é dotado de um sistema de controle de altura que onde a cada impacto do martelo a profundidade de cravação é registrada em um microprocessador que por sua vez calcula a resistência de ponta “qd”. Os valores registrados pelo microprocessador durante o ensaio podem ser transferidos para um computador onde os dados são tratados utilizando-se o software PANDA. 2 ÁREA DE ESTUDO O campo experimental selecionado para o presente estudo se encontra no município de Alexânia – GO, abrangendo a bacia hidrográfica entre os municípios de Alexânia - GO e Santo Local dos ensaios e coleta de amostras Figura 3 – Imagem do local selecionado Figura 4 – Imagem do talude Na Figura 4 se observa um talude praticacamente vertical de 4 m de altura e com aparência de solo arenoso resecado na face. 3 ENSAIOS DE CAMPO Definidos os locais de estudo, foram realizadas vistorias in loco afim de definir o perfil mais homogêneo para então realizar ensaios de umidade natural (umidade próxima a umidade de moldagem) e inundada. Na tentativa de correlacionar os valores de coesão aparente, obtidos neste trabalho, com a resistência à tração do solo foram realizados ensaios de compressão diametral conforme a norma brasileira NBR 7222 (ABNT, 1994). 5 RESULTADOS E DISCUSSÕES 5.1 Ensaios de campo Dos 6 pontos realizados, apenas 4 entraram na análise de dados, pois dois pontos apresentaram problemas durante a execução. A Figura 6 apresenta os resultados de resistência de ponta (qd) versus profundidade obtidos para o perfil estudado. Resistência de Ponta – Qd (MPa) Profundidade (m) penetração dinâmica de cone com energia variável (PANDA) em solos tropicais e medida do perfil de umidade dos pontos ensaiados, com ajuda de sondagens a trado coletando amostras a cada 50 cm. Após determinado o local onde seria realizado o estudo, foi definida uma área próxima ao talude onde foi realizada amostragem de blocos indeformados, amostra deformada e amostra para determinação de umidade para cada 50 cm até uma profundidade de 2,5 m (total de 5 amostras). Próximo deste talude, junto com o processo de escavação, foram realizados vários ensaios PANDA junto com um furo a trado para medida de umidade do ensaio PANDA paralelos do poço. Neste artigo foram analisados os dados dos 3 primeiros blocos, os demais estão em processo de análise. A Figura 5 apresenta em planta e em corte como foram realizados os ensaios de campo. Figura 6 – Resultados de qd versus profundidade. (a) P2 e P3 ST P4 e P5 NT BL 01 0,5 m Legenda: Amostra indeformada Amostra deformada Ensaios PANDA Sondagem a Trado BL 02 1,0 m 1,5 m BL 03 BL 04 2,0 m BL 05 2,5 m (b) NA Figura 5 – Esquema dos ensaios de campo: (a) planta baixa; (b) corte. 4 ENSAIOS DE LABORATÓRIO Foram realizados ensaios de caracterização geotécnica conforme normas da ABNT a partir das amostras deformadas. A partir das amostras indeformadas foram realizadas os ensaios de cisalhamento direto conforme norma americana D3080 (ASTM, 1979), nas condições de Observa-se que o perfil existe repetibilidade dos dados, o P2, P3 e o P4 apresentaram uma camada mais resistente nos primeiros 15 cm, o que pode estar sendo representado pela camada de vegetação com raízes, ou por estar exposto a troca de umidade com a atmosfera. O P5 apresenta uma resistência inferior aos outros nos primeiros 50 cm, visto que o local onde foi executado este ponto foi constatado uma fissura superficial no terreno, mas de forma geral representa uma camada homogênea com faixa de variação da energia de compactação entre 0 e 5 MPa. Com a sondagem a trado, foi possível coletar amostras para determinação da umidade nas proximidades dos ensaios PANDA. A Figura 7 apresenta os resultados obtidos, bem como os resultados de umidade coletados junto ao bloco no momento da coleta das amostras deformadas no talude. silte. Umidade (%) 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 0 Profundidade (m) Tabela 1 - Resumo da análise granulométrica. 0,5 Cota (m) % 1 1,5 Argila (%) 2 2,5 Silte (%) 3 Areia fina (%) Amostra deformada (face do talude) Trado (a 1,2 m da face do talude) Figura 7 - Perfil de umidade. Observa-se na Figura 7 uma diferença entre as umidades coletadas a partir das amostras deformadas e da amostra da sondagem a trado. Isso se dá devido as amostras da sondagem a trado terem sido coletadas mais afastadas da borda do talude (1,2 m) onde a umidade natural estava preservada. A umidade das amostras deformadas, coletadas da face do talude estão sujeitas as variações sazonais de umidade e sucção. 5.2 Ensaios de caracterização Foram realizadas as análises granulométricas das três amostras com e sem o uso de defloculante. A Figura 8 apresenta as curvas granulométricas das 3 amostras ensaiadas com e sem defloculante. Curva Granulométrica N° 200 N° 100 N° 40 Peneiras Nº 10 2" 1" 3/4" 1 1/2" Nº 4 % que passa 100 90 0,0 à 0,5 m - com defloculante 0,5 à 1,0 m - com defloculante 1,0 à 1,5 m - com defloculante 0,0 à 0,5 m - sem defloculante 0,5 à 1,0 m - sem defloculante 80 70 60 50 1,0 à 1,5 m - sem defloculante 40 30 20 10 0 0,00 0,01 0,10 1,00 10,00 Areia média (%) Areia grossa (%) Pedregulho (%) Situação do ensaio c/defloc. s/defloc. % agregação c/defloc. s/defloc. c/defloc. s/defloc. c/defloc. s/defloc. c/defloc. s/defloc. c/defloc. s/defloc. 0,0 à 0,5 21,66 15,91 5,75 23,90 37,51 39,19 42,51 4,05 3,88 0,20 0,19 0,00 0,00 0,5 à 1,0 29,23 3,95 25,28 27,21 45,79 38,34 44,69 5,02 5,26 0,20 0,30 0,00 0,00 1,0 à 1,5 22,48 1,51 20,97 23,44 34,50 45,55 54,65 8,25 9,08 0,28 0,26 0,00 0,00 A análise granulométrica realizada com o uso de defloculante (hexa-metafosfato de sódio), conforme NBR 7181 (ABNT, 1984), apresentou resultados bem distintos quando realizada sem o uso de defloculante para as amostras do estudo. Essa diferença é justificada pela existência de agregações de partículas constituintes desse solo em macro e micro concreções com certa resistência à água, não se desfazendo na sua presença e necessitando assim de agente químico dispersor para a efetiva separação das partículas. Analisando os resultados das análises granulométricas realizadas com uso de defloculante, percebeu-se que de maneira geral as curvas apresentaram uma distribuição muito semelhante, praticamente coincidentes. Observa-se ainda na Tabela 1 que em média todas as amostras tiveram acima de 5% de agregação de argilas. Os índices de consistência, também chamados “limites de Atterberg” do perfil amostrado são apresentados na Tabela 2. 100,00 Diâmetro (mm) Figura 8 - Curvas granulométricas com e sem defloculante. Na Tabela 1 é apresentado um resumo da análise granulométrica do perfil estudado contendo as porcentagens das frações constituintes de cada cota do perfil, obtidas a partir da Figura 8. Pode-se observar que o perfil estudado não apresenta fração de pedregulho e que existe uma predominância de areia fina e Tabela 2 – Índices de consistência – Limites de Atterberg. Cota (m) WL (%) WP (%) IP IA 0,0 à 0,5 47,2 38,2 9 0,41 – inativa 0,5 à 1,0 34,8 19,7 15 0,51 – inativa 1,0 à 1,5 29,1 8,5 20,5 0,91 – normal Com os índices de consistência foi possível fazer a classificação do solo segundo Sistema Unificado. A Tabela 3 apresenta os resultados das classificações realizadas. inundado). Tensão Cisalhante vs Deslocamento Horizontal Tensão Cisalhante (kPa) Tabela 3 – Classificação do solo segundo o Sistema Unificado e a Classificação Rodoviária Cota (m) Classificação SUCS AASHTO 0,0 à 0,5 ML ou OL A-7-6 0,5 à 1,0 CL A-6 1,0 à 1,5 CL A-4 400 (a) 52,6 350 99,7 300 194,9 250 200 150 100 50 0 0 Tabela 4 - Densidade real dos grãos do perfil estudado. Cota (m) Densidade real dos grãos 0,0 à 0,5 2,67 0,5 à 1,0 2,71 1,0 à 1,5 2,74 Média 2,70 Desvio padrão 0,035 CV (%) 0,012 CV: coeficiente de variação Pode-se observar na Tabela 4 que os valores de densidade real dos grãos do solo encontrados para o perfil estudado possuem uma variação muito pequena, expressa pelo baixo coeficiente de variação encontrado (0,012 %). A média da densidade real dos grãos do solo para este perfil estudado é de 2,70. 5.2 Ensaios de cisalhamento direto Neste estudo, os valores de ϕ’ e c foram determinados por meio de ensaios de cisalhamento direto. Os ensaios foram realizados em duas condições: umidade natural (próximo da umidade de campo) e inundado. Após a moldagem e instalação na prensa, as amostras receberam a aplicação da carga vertical constante e a inundação, quando era o caso, até o fim do adensamento (amostra natural 10 horas, e amostra inundada 24 horas). Após o término da fase de adensamento, iniciava-se a fase de cisalhamento, que consiste na aplicação de uma carga tangencial até a ruptura com velocidade constante de 0,042 mm/minuto. As Figuras 7 e 8 apresentam os resultados obtidos para a cota de 0,0 a 0,5 m nas duas condições de ensaio (umidade natural e 4 6 8 10 12 Deslocamento Horiz. (mm) Deslocamento Vertical vs Deslocamento Horizontal 1,2 Deslocamento Vertical (mm) Os resultados obtidos nos ensaios de densidade real dos grãos obtidos para o perfil estudado estão dispostos na Tabela 4. 2 (b) 52,6 1 99,7 0,8 194,9 0,6 0,4 0,2 0 -0,2 0 2 4 6 8 10 12 Deslocamento Horiz. (mm) Figura 7- Resultado do ensaio de cisalhamento direto da cota 0,0 à 0,5 m condição natural – (a) Tensão cisalhante versus deslocamento horizontal; (b) deslocamento vertical versus deslocamento horizontal. A Figura 8 (a) mostra o gráfico da tensão cisalhante versus deslocamento horizontal para a situação inundada. E a Figura 8 (b) apresenta o resultado de deformação volumétrica ocorrida durante o ensaio. Conforme pode-se visualizar na Figura 7, as amostras ensaiadas na condição natural, tiveram comportamento de areia compacta, onde a tensão desviadora cresce muito mais rapidamente com as primeiras deformações, até atingir um valor máximo, que chama-se de resistência de pico, ou máxima. Nota-se por outro lado, que atingida esta resistência máxima, ao continuar com a deformação da amostra, a tensão desviadora decresce lentamente até se estabilizar em torno de um valor que é definido como resistência residual. Com relação a deformação vertical (Figura 7 (b)) pode-se observar uma pequena redução de volume no início do ensaio e logo após um aumento de volume, confirmando o comportamento de areia compacta. Tabela 5 – Tensão cisalhante máxima do perfil estudado para cada condição e tensão normal. Tensão Cisalhante vs Deslocamento Horizontal 180 49,7 99,5 150,2 200,9 Tensão Cisalhante (kPa) 160 140 (a) Cota (m) Condição Natural 100 80 0,0 à 0,5 60 Inundado 40 20 0 0 2 4 6 8 10 12 Natural Deslocamento Horiz. (mm) 0,5 à 1,0 Deslocamento Vertical vs Deslocamento Horizontal Inundado Deslocamento Vertical (mm) 0 (b) -0,2 -0,4 Natural -0,6 1,0 à 1,5 49,7 99,5 150,2 200,9 -0,8 -1 Inundado -1,2 0 2 4 6 Deslocamento Horiz. (mm) 8 10 12 Figura 8 - Resultado do ensaio de cisalhamento direto da cota 0,0 à 0,5 m – condição inundada – (a) Tensão cisalhante versus deslocamento horizontal; (b) deslocamento vertical versus deslocamento horizontal. τ (kPa) 173,99 212,98 377,47 55,19 85,25 113,67 163,27 123,26 199,95 271,96 41,15 73,56 81,51 88,64 140,40 226,58 33,99 70,07 87,07 - σ (kPa) 50 100 200 50 100 150 200 50 100 200 50 100* 150 200 50 100 200 50 100 150 200* 120 Nota: * Dados descartados da análise Os resultados da Tabela 5 foram utilizados para o traçado das envoltórias de resistência do perfil de solo, conforme visualizado na Figura 9. Tensão Cisalhante vs Tensão Normal 400 0,0 à 0,5 m -natural 0,0 à 0,5 m -inundado 350 0,5 à 1,0 m - natural Tensão Cisalhante (kPa) Quando submetidas a inundação, tiveram comportamento completamente diferenciado, tendendo ao comportamento de areia fofa, onde ao ser feito o carregamento axial, o corpo de prova apresenta uma tensão desviadora que cresce lentamente com a deformação, atingindo um valor máximo somente para deformações relativamente altas, conforme mostrado na Figura 8 (a). Em termos de deformação vertical, à medida que aumenta-se a tensão normal, temse uma diminuição no volume da amostra, confirmando o comportamento de uma areia fofa (Figura 8 (b)). Como as amostras das outras cotas (0,5 à 1,0 m e 1,0 a 1,5 m) apresentaram o mesmo comportamento, optou-se em apresentar os resultados do cisalhamento direto apenas da cota 0,0 à 0,5 m. A partir dos gráficos apresentados, e dos outros resultados das outras cotas ensaiadas, foi possível extrair o valor de tensão cisalhante máxima em cada tensão nas duas condições ensaiadas. Os valores respectivos de tensão cisalhante (τ) são apresentados resumidamente na Tabela 5. 0,5 à 1,0 m - inundado 300 1,0 à 1,5 m - natural 1,0 à 1,5 m - inundado 250 200 150 100 50 0 0 40 80 120 160 200 240 280 320 Tensão Normal (kPa) Figura 9 – Envoltórias de resistência do perfil de solo. Através das envoltórias apresentadas na Figura 9 e das suas respectivas equações determinou-se o ângulo de atrito (ϕ’) e coesão (c) do perfil estudado, os quais estão detalhados e analisados na Tabela 6. Juntamente com os valores de ϕ’ e c acrescentou-se na tabela os valores médios obtidos no ensaio PANDA, que foram as médias das camadas a cada 25 cm correspondentes a posição de retirada da amostra no bloco para o ensaio de cisalhamento. Se mostra uma relação entre a resistência de ponta com o ângulo de atrito e a coesão total, a medida que diminui a resistência de ponta, diminui o ângulo de atrito e a coesão. Tabela 6 – Valores de ângulo de atrito e coesão do perfil de solo. Cisalhamento direto inundado 0,0 à 0,5 0,5 à 1,0 1,0 à 1,5 Panda (MPa) Cisalhamento direto natural 10 20 30 40 50 60 70 0,00 Coesão (kPa) 6,31 Ângulo de atrito (º) 34,98 Coesão (kPa) 16,85 Ângulo de atrito (º) 55,84 4,09 15,23 28,86 44,39 85,33 3,20 28,17 10,16 43,28 42,31 84,28 0,20 0,40 0,60 0,80 1,00 1,20 1,40 1,60 Na tentativa de correlacionar os valores de resistência obtidos no ensaio de compressão diametral e os ensaios PANDA elaborou-se a Tabela 7 que apresenta a coesão total por meio do ensaio de compressão diametral e a resistência de ponta dinâmica obtidos no ensaio PANDA bem como as suas umidades no momento do ensaio. As umidades do ensaio Panda foram obtidas através da sondagem à trado conforme descrito no item 3. Tabela 7 – Valores de coesão total e resistência de ponta encontrados nos ensaios para o perfil de solo. Cota (m) qd (MPa) / Coesão (kPa) 0 Profundidade (m) Cota (m) pode representar um solo mais solto, com menor densidade com a profundidade. Compressão Diametral c (kPa) - c (kPa) secagem molhagem 28,02 65,93 0,0 à 0,5 0,5 à 13,01 14,96 1,0 1,0 à 3,17 3,37 1,5 c – coesão total; w – umidade Panda qd (MPa) 6,31 w (%) 19,1 4,09 18,3 3,20 17,2 Plotando os dados da Tabela 7, obtem-se os resultados apresentados na Figura 10, onde pode-se observar uma tendência de diminuição da coesão total com a profundidade. Existe uma diferença entre a coesão total da secagem e molhagem, devido a diferença dos procedimentos e a variabilidade dos corpos de prova. Estes dados podem ser melhor analisados com os resultados da curva característica. Para os valores de qd, há uma tendência de redução com o aumento da profundidade que PANDA Coesão total - secagem (CDm) Coesão total - molhagem (CDm) Figura 10 – Comparação da Coesão com o qd do PANDA. 5 CONCLUSÕES O PANDA é um penetrômetro moderno, pois fornece todo suporte computadorizado dos dados. O ensaio PANDA fornece uma medida de resistência de ponta, ou seja não se tem medida de atrito lateral e por tal motivo com apenas uma medida não pode-se dizer que a estimativa de dois parâmetros é direta, sendo assim deve-se ter uma segunda medida já que nosso solo tem coesão e atrito. Mesmo assim existe uma relação que pode ser estabelecida com uma faixa mais ampla de variabilidade dos parâmetros. Está em andamento estudos da curva caracteristica do solo onde pretende-se analisar o comportamento de histerese e o comportamento mecânico do solo. AGRADECIMENTOS Agradeço à CNPQ, Petrobrás, FAPEG, LTEC, aos meus professores pelo apoio e a Universidade Federal de Goiás pela concretização desse trabalho. REFERÊNCIAS ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 7181: Solo – Análise Granulométrica – método de ensaio. Rio de Janeiro, 1984, 13p. ABNT ______. NBR 7222: Argamassa e Concreto – Determinação da resistência à tração por compressão diametral de corpos-de-prova cilíndricos. Rio de Janeiro, 2011, 3p. ASTM - American Society for Testing and Materials. D3080: Standard Test Method for Direct Shear Test of Soil under Consolidated Drained Conditions. United States, 2011. 9p. Camapum de Carvalho, J, Sales, M. e Souza, N.. Processos Erosivos no Centro-Oeste Brasileiro. FINATEC, 2006 464 p Diemer, F; Gitirana Jr. G. F. N.; Vargas, C. L. A. (2013). Avaliação sazonal e espacial da resistência do talude d e uma voçoroca utilizando um penetrômetro dinâmico, GEOCENTRO – 3º Simpósio de Prática de Engenharia Geotécnica na Região Centro-Oeste, 9 p. Gouvès, R.; Barjot, R. (1995) The Panda ultralight dynamic penetrometer. The Interplay between Geotechnical Engineering and Engineering Geology. Vol. 3, Proc 11 Euro. Conf. on Soil Mechanics and Foundation Engineering, Copenhagen 1995. p. 8388. Guerin, G. Estimation dês paramètres de comportement des sols latéritiques à partird’essais de pénétrationem place. Trabalho de Conclusão de Curso. Polytech Clermont-Ferrand. Département Génie Civil. 2011. 120p. PINTO, C. S. Curso Básico de Mecânica dos Solos com Exercícios Resolvidos. Editora Oficina de Textos, 2 edição, São Paulo, p.9-14, p.51-57, p.65-69, 2000.