XIX
COLÓQUIO
ISBN: 978-­‐989-­‐8272-­‐14-­‐0
atas 1
ATAS DO XIX COLÓQUIO DA SECÇÃO PORTUGUESA DA AFIRSE 2012
Revisitar os estudos curriculares: Onde estamos e para onde vamos?
Revisiter les Etudes Curriculaires:où en sommes-nous et où allons-nous?
2, 3 e 4 de Fevereiro de 2012 Lisboa, Instituto de Educação da Universidade de Lisboa Comissão Organizadora ♦ Comité d’Organisation Comissão Científica ♦ Comité Scientifique Albano Estrela Maria Teresa Estrela (IE-­‐UL) Louis Marmoz Maria João Mogarro (IE-­‐UL) Maria Teresa Estrela José Carlos Morgado (IE-­‐UM) Manuela Esteves José Brites Ferreira (ESEL-­‐IPL) Maria João Mogarro Manuela Esteves (IE-­‐UL) Luís Tinoca Jesus Maria Sousa (DCE-­‐UM) Fernanda Veiga Gomes Maria Assunção Flores (IE-­‐UL) Júlia Ferreira Fernanda Veiga Gomes (IE-­‐UL) Maria Gabriela Santos Cecília Galvão (IE-­‐UL) Patrícia Figueiredo Luísa Alonso (IE-­‐UL) Joana Marques Maria Céu Roldão (UCP) Helena Peralta (IE-­‐UL) Luís Tinoca (IE-­‐UL) Maria João Cardona (ESE-­‐IPS) Teresa Vasconcelos (ESE-­‐IPL) Ivone Gaspar (UA) Carlinda Leite (FPCE-­‐UP) Preciosa Fernandes (FPCE-­‐UP) Ficha Técnica ♦ Fiche technique Concepção, c omposição e grafismo Mónica Raleiras Patrícia Figueiredo ISBN: 978-­‐989-­‐8272-­‐14-­‐0 2
Índice geral
NOTA PRÉVIA 5 AVANT-­‐PROPOS 7 CONFERÊNCIAS CONFÉRENCES 9 MESAS REDONDAS TABLES RONDES 64 ATELIERS 181 EPISTEMOLOGIA DOS ESTUDOS CURRICULARES: PARADIGMAS E QUESTÕES METODOLÓGICAS ...................................................................................................... 182 HISTÓRIA E FILOSOFIA DO CURRÍCULO .................................................................. 235 POLÍTICAS EDUCATIVAS E CURRICULARES ............................................................. 269 CURRÍCULO E FORMAÇÃO DE PROFESSORES .......................................................... 724 CURRÍCULO E DIDÁCTICA(S) ................................................................................. 1319 CURRÍCULO E AVALIAÇÃO ...................................................................................... 1464 CURRÍCULO: FLEXIBILIDADE, CONTEXTUALIZAÇÃO E AUTONOMIA .................. 1560 INOVAÇÃO CURRICULAR E TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO . 1698 O DESENVOLVIMENTO CURRICULAR NA EDUCAÇÃO PRÉ-­‐ESCOLAR .................. 1965 O DESENVOLVIMENTO CURRICULAR NA EDUCAÇÃO BÁSICA .............................. 2068 O DESENVOLVIMENTO CURRICULAR NO ENSINO SECUNDÁRIO ......................... 2253 O DESENVOLVIMENTO CURRICULAR NO ENSINO SUPERIOR ............................... 2318 ADENDA ADDENDA 2370 LISTA DE AUTORES 2392 LISTA DE TEXTOS 2398 3
REVISITAR OS ESTUDOS CURRICULARES: ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS? ATAS DO XIX COLÓQUIO DA SECÇÃO PORTUGUESA DA AFIRSE 2 012 Apreciar os sistemas de informação no
desenho curricular do curso de
licenciatura em enfermagem numa
perspetiva de educação e formação dos
estudantes em contexto clínico
ANA PAULA MACEDO
Professora Adjunta na Escola Superior de Enfermagem - Universidade do Minho, Braga
Doutora em Educação, área de conhecimento de Organização e Administração Escolar Universidade do Minho
[email protected]
FERNANDO PETRONILHO
Professor Adjunto na Escola Superior de Enfermagem - Universidade do Minho, Braga
Mestre em Ciências da Enfermagem e doutorando em Enfermagem – Universidade de Lisboa
JOÃO CAINÉ
Professor Adjunto na Escola Superior de Enfermagem - Universidade do Minho, Braga
Mestre em Ciências da Enfermagem e doutorando em Enfermagem - Universidade de Lisboa
Resumo
Num mundo global atual é crescente a importância atribuída à produção de informação, bem como o seu acesso em tempo útil. Não sendo exceção, no âmbito das decisões em matéria de saúde, quer no domínio da gestão e prática dos cuidados, quer no domínio da investigação, assiste-­‐se em Portugal, nas últimas décadas, a uma mudança substantiva nos Sistemas de Informação em Saúde (SIS) e, em particular, nos Sistemas de Informação em Enfermagem (SIE), ao nível da estrutura, do conteúdo e do suporte. A consciência por parte dos supervisores (professores e enfermeiros) da necessidade de uma apreciação dos SIE no contexto clínico tem possibilitado a utilização de estratégias com bastante interesse em termos de estimulação da reflexão sobre as experiências do cuidar dos estudantes e com enorme potencial em termos de inovação e desenvolvimento curricular. Para além de permitirem o desenvolvimento de ambientes de aprendizagem potencialmente mais participativos, favorecendo uma maior estimulação dos estudantes na utilização do pensamento crítico e tomada de decisão sobre o objeto e o processo da aprendizagem, remetem para os supervisores um papel de importância vital na gestão deste processo e no apoio efetivo ao desenvolvimento individual e colaborativo. Embora no contexto escolar os estudantes trabalhem os SIE, servindo de pretexto para a problematização das práticas, promotores da sua aprendizagem, quando transferidos para o contexto clínico, nem sempre é fácil a conjugação do enriquecimento das experiências de cuidados de Enfermagem com o desenvolvimento da autonomia profissional, deparando-­‐se, muitas vezes, com barreiras à reflexão na ação e sobre a ação. É neste enquadramento que implica, entre outras, a reflexão sobre o impacto da reformulação e implementação dos SIE em Portugal no desenvolvimento da prática profissional dos enfermeiros, concretamente, na educação e formação em enfermagem. Nesta comunicação, apresentaremos a 1756
REVISITAR OS ESTUDOS CURRICULARES: ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS? ATAS DO XIX COLÓQUIO DA SECÇÃO PORTUGUESA DA AFIRSE 2 012 relevância que tem constituído a introdução deste tema no desenho curricular do curso de Licenciatura em Enfermagem da Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho (ESE-­‐
UM) como suporte à tomada de decisão dos estudantes, em contexto clínico. São assim definidos os seguintes objetivos: i) enquadrar a temática dos SIE no desenho curricular do curso ii) proporcionar uma reflexão crítica sobre o contributo dos SIE no desenho curricular do curso, no processo educativo e no contexto da ação. Palavras-chave
Sistemas de Informação; Desenho Curricular; Estudantes em Contexto Clínico INTRODUÇÃO
As primeiras discussões e pesquisas a nível internacional sobre a aplicação das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) nos cuidados de saúde são ainda relativamente recentes. Especificamente, na área dos SI/TIC em enfermagem as primeiras referências sobre este fenómeno surgiram nos anos 80, do século XX. Já nessa altura se tentava clarificar o seu contributo para a gestão dos cuidados e ajuda nos processos de tomada de decisão clínica (Sousa, 2006). Em Portugal, particularmente no domínio da enfermagem, assistimos nas últimas décadas a uma importante reformulação e implementação dos Sistemas de Informação. Em 1995, Silva apresenta o primeiro estudo português sobre SIE, cujos resultados têm sido utilizados na prática clínica de enfermagem. O desenvolvimento da concepção do modelo “Enfin – Sistema de Informação de Enfermagem”, do projecto sobre implementação dos SIE (módulo clínico de enfermagem hospitalar), tendo em vista a sua integração na base de dados no Sistema de Informação Hospitalar (SONHO) – Cuidados de Saúde Diferenciados -­‐ desenvolvido pelo Instituto de Gestão Informática e Financeira (IGIF) e, do projecto de SIE no âmbito da assistência de enfermagem na comunidade (Centros de Saúde)1, são alguns dos exemplos fruto desse trabalho. O módulo clínico de enfermagem, constituído por um aplicativo informático designado por SAPE (Sistema de Apoio à Prática de Enfermagem), veio ao longo desta última década a ser implementado nas instituições de saúde públicas do país. Este facto tornou-­‐se num enorme desafio e oportunidade para a melhoria da qualidade dos cuidados de enfermagem prestados aos cidadãos e, por conseguinte, para a visibilidade da profissão. Por outro lado, perante o cenário de mudança as Escolas de Enfermagem sentiram necessidade de adaptar os seus curricula aos contextos reais de ensino clínico. A consciência por parte dos supervisores (professores e enfermeiros) da necessidade de uma apreciação dos SIE no contexto clínico tem possibilitado a utilização de estratégias com bastante interesse em termos de estimulação da reflexão sobre as experiências do cuidar dos estudantes e com enorme potencial em termos de inovação e desenvolvimento curricular. Para além de permitirem o 1 Este último projeto foi resultado de uma parceria entre a ARS Norte/Sub-­‐região de Saúde de Vila Real, a Escola Superior de Enfermagem de S. João – Porto e o IGIF e tinha em vista também a sua integração na base de dados do Sistema de Informação das Unidades de Saúde (SINUS), – Cuidados de Saúde Primários -­‐ disponibilizando aos enfermeiros um recurso para a documentação da sua relação com a pessoa que necessita de cuidados. 1757
REVISITAR OS ESTUDOS CURRICULARES: ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS? ATAS DO XIX COLÓQUIO DA SECÇÃO PORTUGUESA DA AFIRSE 2 012 desenvolvimento de ambientes de aprendizagem potencialmente mais participativos, favorecendo uma maior estimulação dos estudantes na utilização do pensamento crítico e tomada de decisão sobre o objeto e o processo da aprendizagem, remetem para os supervisores um papel de importância vital na gestão deste processo e no apoio efetivo ao desenvolvimento individual e colaborativo. Embora no contexto escolar os estudantes desenvolvam competências no âmbito dos SIE, servindo de pretexto para a problematização das práticas, promotores da sua aprendizagem, quando transferidos para o contexto clínico, nem sempre é fácil a conjugação do enriquecimento das experiências de cuidados de Enfermagem com o desenvolvimento de maior autonomia, deparando-­‐
se, muitas vezes, com barreiras à reflexão na ação e sobre a ação. É neste enquadramento que implica, entre outras, a reflexão sobre o impacto da reformulação e implementação dos SIE em Portugal no desenvolvimento da prática profissional dos enfermeiros, concretamente, na educação e formação em enfermagem. Nesta comunicação, apresentaremos a relevância que tem constituído a introdução deste tema no desenho curricular do curso de Licenciatura em Enfermagem da Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho (ESE-­‐UM) como suporte à tomada de decisão dos estudantes, em contexto clínico. São assim definidos os seguintes objetivos: i) enquadrar a temática dos SIE no desenho curricular do curso ii) proporcionar uma reflexão crítica sobre o contributo dos SIE no desenho curricular do curso, no processo educativo e no contexto da ação. A metodologia utilizada será descritiva e reflexiva, recorrendo a fontes e dados empíricos dos diversos trabalhos de investigação desenvolvidos no âmbito dos SIE, sobretudo em Portugal e, à experiência dos autores enquanto elementos muito envolvidos nestes processos de mudança. SISTEMAS DE INFORMAÇÃO EM ENFERMAGEM
Os sistemas de saúde têm evoluído ao longo dos tempos de forma a poderem dar respostas adequadas às mudanças e aos desafios em saúde. Para Goossen (2000), são factores determinantes nestas mudanças: i) O envelhecimento da população; ii) O aumento das doenças crónicas; iii) A limitação dos recursos de financiamento dos cuidados de saúde; iv) O aumento da procura de cuidados de saúde associado às exigências por parte da pessoa em receber cuidados adequados e de qualidade; v) O progresso feito em relação aos processos terapêuticos e às novas tecnologias de diagnóstico e tratamento, o que leva a um aumento significativo dos dados sobre a condição de saúde da pessoa e que têm de ser registados; vi) A necessidade de controlo sistemático sobre eficácia e qualidade da condição de saúde da pessoa; vii) A cultura de uma “prática baseada na evidência” que exige investigação actualizada e disponível sobre os cuidados de saúde. Segundo o Conselho Internacional de Enfermeiras (ICN), estes profissionais não estão alheios a estes progressos e mudanças no âmbito dos cuidados de saúde. Clark (1994, cit. por Goossen, 2000, p. 6) refere-­‐nos que o valor da enfermagem já não é evidente e deve ser demonstrado àqueles que não compreendem que esse valor é derivado da prática e que têm o poder de influenciar ou determinar a natureza da enfermagem, através das políticas e da dotação de recursos. Neste 1758
REVISITAR OS ESTUDOS CURRICULARES: ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS? ATAS DO XIX COLÓQUIO DA SECÇÃO PORTUGUESA DA AFIRSE 2 012 contexto, os enfermeiros têm tido um forte investimento e dedicação à investigação no domínio dos SIE, de forma a desenvolverem conhecimento promotor da criação de modelos que optimizem a forma de gerir, organizar e tratar a informação que deriva dos cuidados de enfermagem, tendo sempre como linha orientadora o desenvolvimento da prática clínica, acrescentando-­‐lhe mais qualidade. Em Portugal, há quase duas décadas que se tem vindo a desenvolver estudos sobre a relevância da informação para a qualidade dos cuidados de enfermagem (Silva, 1995, 2000, 2006; Sousa, 2006; Pereira, 2009; Petronilho, 2008). Resultado do desenvolvimento de investigação no território dos SIE, Silva (1995, 2000, 2006), perspectivando um processo de mudança significativa no suporte e no conteúdo da informação processada, utilizada e disponibilizada pelos enfermeiros, refere que “(…) o desafio consiste em evoluir dos registos de enfermagem para SIE que incorporem entidades de informação associadas ao processo de tomada de decisão dos enfermeiros no modelo de dados” (Silva, 2006, p. 37). Para o investigador, esta mudança na (re) conceptualização dos SIE comporta uma enorme complexidade, a saber: i) necessidade de consciencialização do problema por parte dos enfermeiros para se envolverem na reengenharia dos registos de enfermagem; ii) necessidade de construção de modelos que incorporem novas entidades de informação na estrutura de dados e novos conteúdos baseados em classificações de enfermagem; iii) necessidade de fazer evoluir os SIE em suporte de papel para suporte electrónico, possibilitando aos enfermeiros retirar vantagens do conhecimento e experiência armazenados no sistema de informação. A mudança do modelo tradicional de registos de enfermagem (SIE tipo I), ainda em uso em muitas unidades de cuidados em Portugal, para SIE que incluem uma nova estrutura, novo conteúdo e novo suporte (SIE tipo II), constituiu uma oportunidade e um desafio para o desenvolvimento do exercício profissional dos enfermeiros e, por consequência, um forte contributo para demonstrar a sua utilidade social e a sua visibilidade no contexto multiprofissional dos cuidados de saúde. A Ordem dos Enfermeiros (OE), atenta a estas tendências e mudanças, assumindo que a qualidade em saúde é tarefa multiprofissional, definiu para os enfermeiros que exercem a sua actividade em Portugal, um conjunto de Padrões de Qualidade dos cuidados de Enfermagem (Conselho de Enfermagem, 2003), fazendo parte de um conjunto de pilares do Quadro de Referência da Profissão. Deste trabalho resultou um conjunto de seis Enunciados Descritivos da qualidade do exercício profissional, como linhas orientadoras da prática dos enfermeiros. O 6º Enunciado descritivo – A organização dos cuidados de enfermagem – demonstra uma preocupação com o desenvolvimento de SIE eficazes e consistentes, onde é referido: “A existência de um sistema de registos de enfermagem que incorpore sistematicamente entre outros dados, as necessidades de cuidados de enfermagem do cliente, as intervenções de enfermagem e os resultados sensíveis às intervenções de enfermagem obtidos pelo cliente” (OE, 2003, p. 151). Relativamente a outro dos pilares do Quadro de Referência da Profissão, elaborado pela OE -­‐ Competências do enfermeiro de cuidados gerais -­‐ no domínio da Prestação de cuidados e relacionado com os sistemas de informação, podemos ler como 1759
REVISITAR OS ESTUDOS CURRICULARES: ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS? ATAS DO XIX COLÓQUIO DA SECÇÃO PORTUGUESA DA AFIRSE 2 012 requisito fundamental dos enfermeiros generalistas “Utiliza a tecnologia de informação disponível, de forma eficaz e apropriada” e “Demonstra atenção sobre os desenvolvimentos/aplicações locais, no campo das tecnologias da saúde” (OE, 2003, p. 56). Desta forma, a OE, dando uma grande relevância à informação para o processo de tomada de decisão clínica, associado à necessidade de informatização dos serviços de saúde e, particularmente, ao desenvolvimento de SIE, fez um conjunto de propostas ao Ministério da Saúde onde se refere às estratégias que viabilizem e agilizem os processos que conduzem à reformulação, desenvolvimento e implementação deste sistema em suporte electrónico para as instituições de saúde. Propôs a OE que tal sistema fosse integrado no Sistema Nacional de Informação de Saúde, tornando possível a gestão da informação em diferentes níveis de utilização e a produção de conhecimento, bem como, propôs que as aplicações informáticas funcionassem de forma interoperável a partir de outros módulos existentes e em conformidade com as normas internacionais (OE, 2005). Dada a necessidade e importância atribuída à produção de indicadores de saúde e, em particular, indicadores de enfermagem, a partir dos dados documentados e disponíveis, que permitam a transformação da informação em intervenção na melhoria da qualidade do sistema de saúde, tem-­‐se desenvolvido em Portugal nesta última década trabalhos centrados no território dos Resumo Mínimo de Dados de Enfermagem (RMDE) (Pereira, 2009). Goossen (2000) descreve um conjunto de benefícios que advém de um RMDE e incorporado no SIE, para a realidade da Bélgica, referindo que a sua utilização permite: i) Tornar a enfermagem visível em números e representações gráficas; ii) Estudar o desempenho clínico, a garantia da qualidade e a dimensão epidemiológica; iii) Financiar os cuidados de enfermagem a nível nacional; iv) Prever a intensidade dos cuidados de enfermagem e a necessária afectação de pessoal; v) Resumir dados na forma de custo-­‐eficácia, produzir perfis da pessoa por grupos de diagnósticos de enfermagem; vii) Estabelecer uma validação retrospectiva das características definidoras dos diagnósticos de enfermagem, previsão da frequência e tendências dos diagnósticos de enfermagem e determinação dos custos de cuidados directos de enfermagem; viii) Comparar a prevalência dos diagnósticos de enfermagem com vários diagnósticos médicos e procedimentos cirúrgicos. A OE relativamente à necessidade de desenvolver um RMDE, considerando uma estratégica fundamental para a qualidade dos cuidados de enfermagem, faz menção a um conjunto de indicadores importantes para a tomada de decisão clínica, a formação e a investigação. Tais RMDE deverão incluir (OE, 2005): i) Diagnósticos de enfermagem; ii) Intervenções de enfermagem; iii) Resultados de enfermagem; iv) Intensidade dos cuidados de enfermagem; v) Dados demográficos das pessoas; vi) Outros elementos de natureza clínica – administrativa. Mais acrescenta, tendo em vista a operacionalização destes aspectos referidos e como requisito fundamental, que “O SIE e os registos electrónicos devem contemplar a utilização obrigatória de classificações internacionais, sendo recomendada para a enfermagem a Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem (CIPE®) ” (OE, 2005: 49). A CIPE® é uma linguagem comum, desenvolvida pelo ICN e que funciona como uma terminologia de referência e unificadora entre as diferentes 1760
REVISITAR OS ESTUDOS CURRICULARES: ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS? ATAS DO XIX COLÓQUIO DA SECÇÃO PORTUGUESA DA AFIRSE 2 012 linguagens classificadas em enfermagem (NANDA, NOC, NIC, CIPE, etc.)1, tendo evoluído, neste momento para a versão 2 (2011). APRECIAR OS SISTEMAS DE INFORMAÇÃO NO DESENHO
CURRICULAR DO CURSO DE LICENCIATURA EM
ENFERMAGEM
A relevância da tomada de decisão clínica no exercício profissional é materializada a nível curricular da formação graduada com a alocação de um módulo específico para este tema, na Escola de Enfermagem da Universidade do Minho. Partindo da abordagem do processo de enfermagem como metodologia científica de suporte à tomada de decisão, os estudantes são familiarizados com os sistemas de informação em enfermagem e as taxonomias diagnósticas, bem como, das ferramentas informáticas associadas (SAPE). Nesse sentido, promove-­‐se a consciencialização nos estudantes, de uma linguagem comum que sustente a sua prática reflexiva e progressivamente lhes permita um melhor entendimento do desenvolvimento disciplinar. A partir da reforma educativa promovida pelo Processo de Bolonha, procedeu-­‐se a uma reforma curricular de modo a que toda a estrutura do Curso de Licenciatura em Enfermagem se alicerce numa lógica modular e no ensino em alternância entre unidades curriculares teóricas e práticas. Ao longo dos seus oito semestres de duração, é usada uma nomenclatura comum como forma de nomear o conhecimento em enfermagem durante o processo ensino-­‐aprendizagem. Deste modo, a partir de um perfil de competências previamente definido, a utilização de uma linguagem comum na estruturação e desenvolvimento dos blocos temáticos pretende criar um todo coerente entre os diferentes domínios curriculares. Esta coerência, permite ainda ao estudante, perceber de forma mais clara os resultados de aprendizagem que lhe são propostos bem como uma maior capacidade de interligação dos diferentes temas e níveis de exigência com que se vai confrontando ao longo do curso. O uso de uma linguagem classificada, ao contrário do que possa parecer, promove a diversidade das propostas formativas e é sensível à diversidade cultural da profissão de enfermagem. Um dos requisitos atuais e fundamentais para a utilização e implementação de SIE é a utilização de uma linguagem comum, ou seja, atribuir aos mesmos significantes os mesmos significados. A linguagem compreende um conjunto de símbolos representados tanto pelos seus significantes como pelos significados, permitindo enunciar o conteúdo do pensamento. O conhecimento sendo conteúdo do pensamento, só é possível tornar visível através da linguagem. A formalização do conhecimento em enfermagem tem sido definida como o esforço para traduzir por palavras ou linguagem o que os enfermeiros concebem e descrevem acerca dos cuidados que prestam. Identificar e desenvolver o conteúdo do conhecimento deve ser entendido como um desafio atual a que os enfermeiros devem dar resposta. Deste modo, os enfermeiros contribuem para a 1 NANDA (North American Nursing Diagnosis Association); NIC (Classificação das Intervenções de Enfermagem); NOC (Classificação dos Resultados de Enfermagem); CIPE (Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem) 1761
REVISITAR OS ESTUDOS CURRICULARES: ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS? ATAS DO XIX COLÓQUIO DA SECÇÃO PORTUGUESA DA AFIRSE 2 012 formalização do conhecimento da disciplina e para uma prática refletida, com base na evidência produzida pela investigação. Nesta medida, a utilização da linguagem comum e classificada, alicerçada nos sistemas de informação, permite aos estudantes uma maior capacidade de nomear o seu juízo clínico (inclui a dimensão diagnóstica, terapêutica e ética) de forma sistemática e sistémica, um olhar mais global sobre as múltiplas variáveis que se colocam no processo de cuidados, e ainda, uma maior capacidade de avaliar os resultados em saúde resultantes da sua intervenção terapêutica. Esse facto ajuda a atingir a finalidade última da sua formação como futuro enfermeiro, uma melhor compreensão da natureza e valor da enfermagem como profissão autónoma. Neste enquadramento, o módulo “A Tomada de Decisão em Enfermagem”, inserido na Unidade curricular – Fundamentos de enfermagem II, no 1º ano do Curso de Licenciatura em Enfermagem da ESE -­‐ UM, aborda conteúdos programáticos relacionados com a tomada de decisão clínica, o processo de enfermagem, os sistemas de informação em enfermagem e as linguagens próprias da disciplina e da profissão. É um módulo com a duração de 84 horas, 42 das quais presenciais e, as restantes, de autoaprendizagem. Constituído por dois blocos temáticos: 1. A Tomada de Decisão e o Processo de Enfermagem; onde se pretende que o estudante seja capaz de definir e descrever as etapas do processo de enfermagem, bem como, explicar a importância do processo de enfermagem para a tomada de decisão/julgamento clínico em enfermagem; 2. Os Sistemas de Informação em Enfermagem (SIE), as linguagens em enfermagem como instrumento de formalização do conhecimento da disciplina e reflexão das práticas; onde se pretende que o estudante seja capaz de: a) definir SIE, 2) compreender a importância dos SIE para a tomada de decisão em enfermagem e para a melhoria da qualidade dos cuidados de enfermagem, c) descrever os critérios atuais de implementação de um SIE, d) descrever as componentes específicas do SIE, e) compreender a importância da produção de indicadores clínicos para a melhoria da qualidade dos cuidados de enfermagem, f) compreender a Importância das linguagens como instrumentos de informação para a disciplina e profissão de enfermagem, g) descrever os objetivos da CIPE e, por último, h) construir enunciados (diagnósticos, intervenções e resultados de enfermagem) utilizando como instrumento de informação a CIPE. Os Sistemas de Informação em Enfermagem na Educação e Formação
em Contexto Clínico
O modelo de educação e formação em Enfermagem privilegia a aprendizagem em alternância com uma estrutura curricular desenvolvida de forma articulada, uma componente de ensino teórico seguida da respetiva componente de ensino clínico. Esta componente é realizada de forma progressiva e implica que o ensino e a investigação ocorram desde o 1º ano do Curso, exigindo um trabalho conjunto entre a Organização Escola e Hospital. A proximidade do estudante estagiário com os profissionais de Enfermagem, elementos da equipa multidisciplinar de saúde, e com a pessoa, família e outros 1762
REVISITAR OS ESTUDOS CURRICULARES: ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS? ATAS DO XIX COLÓQUIO DA SECÇÃO PORTUGUESA DA AFIRSE 2 012 significativos, alvo dos cuidados de Enfermagem, permite-­‐lhe iniciar a sua identificação profissional, através da observação, análise, reflexão e comparação entre os aspectos teóricos relacionados com o conteúdo funcional do enfermeiro e o desenvolvimento das atividades na prática clínica. Esta integração dos estudantes nas equipas de saúde, com vista ao desenvolvimento de competências para a prestação de cuidados de enfermagem generalistas à população passa pela orientação e acompanhamento dos mesmos nos contextos de trabalho por supervisores (professores/enfermeiros). É neste cenário, em contexto de trabalho hospitalar, que acontecem as experiências de educação e formação vivenciadas pelos estudantes estagiários, cuja indagação crítica dos processos de cuidados (utilizando uma linguagem classificada para a prática de Enfermagem) e numa fase final o registo dos cuidados prestados e observados com a utilização do aplicativo informático, assumem primordial importância. O domínio do Processo de Enfermagem, permitindo a documentação relativa aos diagnósticos, intervenções e resultados de enfermagem, refletindo o exercício autónomo dos enfermeiros, constitui a essência do modelo de SIE, denominado Sistema de Apoio à Prática de Enfermagem (SAPE). A conceção do modelo de dados, referente à área da tomada de decisão de Enfermagem engloba três entidades principais: os dados da apreciação inicial, os dados referentes aos diagnósticos de Enfermagem, contendo neste item os dados referentes ao status de diagnósticos (as características definidoras da condição de saúde da pessoa num determinado intervalo de tempo) e, as intervenções iniciadas pela prescrição dos enfermeiros. Neste contexto, o SIE é uma estrutura que permite introduzir dados relativos à apreciação inicial, a partir do modelo parametrizado para determinada Unidade de Cuidados, havendo lugar à adição de texto livre. Assim, o modelo de SIE adota os processos inerentes ao conceito de “Processo de Enfermagem”, entendido como um processo que, embora dinâmico e interativo, é sistemático e inclui cinco fases (i) Avaliação inicial; ii) Identificação dos problemas – diagnóstico de enfermagem; iii) Planeamento; iv) Implementação; v) Avaliação final). Uma das ideias que surge salientada no documento emanado pela Ordem dos Enfermeiros Sistema de Informação de Enfermagem (SIE) – Princípios Básicos da Arquitetura e principais requisitos técnico-­‐funcionais é que o próprio sistema não impõe soluções, mas antes, pela flexibilidade do seu modelo, permite diferentes modos de desenvolvimento das práticas de cuidados (Ordem dos Enfermeiros, 2007: 3). Embora no contexto escolar os estudantes trabalhem com os SIE, servindo de pretexto para a problematização das práticas, a partir da informação documentada e disponibilizada, promotora da sua aprendizagem, quando vão para o contexto de trabalho, nem sempre é fácil a conjugação do enriquecimento das práticas de cuidados de Enfermagem com o desenvolvimento da autonomia profissional, deparando-­‐se muitas vezes com barreiras à reflexão na ação e sobre a ação. Uma das barreiras que pode estar presente no contexto hospitalar é o excesso de domínio de tecnologia, combinado com uma estrutura organizacional racional burocrática de cariz gestionária, capaz de sobrepor aos espaços de questionamento. Este olhar exclusivo para o lado instrumental da tecnologia, quando estamos na presença de domínios que exigem a aquisição de novas competências técnicas, mas que não envolvem qualquer mudança nos padrões de interpretação ou representação do conhecimento, dificulta a existência de um 1763
REVISITAR OS ESTUDOS CURRICULARES: ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS? ATAS DO XIX COLÓQUIO DA SECÇÃO PORTUGUESA DA AFIRSE 2 012 processo amplo de adoção dos sistemas de informação e comunicação (SIE/TIC) capaz de transformar os discursos e as práticas dos atores (estudantes, professores e enfermeiros supervisores). Tendo como ponto de partida a dificuldade sentida no contexto de trabalho hospitalar em utilizar abordagens pedagógicas e didáticas, fornecendo aos estudantes estagiários informação concreta e detalhada sobre as possibilidades do uso SIE/TIC, numa “linha de defesa da autonomia de consciência e de promoção da dignidade humana” (Pérez Tornero, 2007: 190), é nosso propósito propor um esquema/arquétipo para análise e apreciação dessas mesmas tecnologias. Uma das finalidades desse esquema é que ele contribua para a identificação das potencialidades educativas e investigativas que essas mesmas tecnologias possam proporcionar, de acordo com os objectivos concretos normalmente associados à utilização dos aplicativos informáticos para os registos em Enfermagem. Pretende-­‐
se, por outro lado, que esse esquema de análise e apreciação venha a constituir um instrumento de utilização autónoma por parte dos professores e enfermeiros supervisores que desejam utilizar essas ferramentas ou necessitam de ajuda específica nesta área. Impacto dos Sistemas de Informação em Enfermagem em contexto
clínico
A partir dos aspetos fundamentais da definição dos SIE/TIC utilizada por diversos autores (Damásio, 2007; Pérez Tornero, 2007) concluiu-­‐se que, nenhuma tecnologia ou media, antigos ou recentes, se caracteriza pela neutralidade. Portanto, torna-­‐se necessário “observá-­‐los”, uma vez que, mais do que nunca, exercem influência sobre o modo como interagimos com a realidade e compreendemos o mundo. De forma a coligir dados que evidenciam o conjunto de objetivos normalmente associados à utilização dos aplicativos informáticos em contexto clínico hospitalar, procede-­‐se à seleção e análise de textos que têm servido de referência à investigação em Enfermagem realizada nesse domínio (Paiva, 2001, 2006; Sousa, 2006; Pereira, 2004, 2009). Face ao protagonismo dos SIE, torna-­‐se emergente que a educação e formação em Enfermagem questione radicalmente o carácter monolítico e transmissível do conhecimento, revalorize as práticas e as experiências que acontecem nos contextos de trabalho e “(…) ilumine um saber em mosaico feito de objectos móveis e fronteiras difusas (…)” (Martín Barbero, 1996: 21). Uma autora que nos serve de referência é Diana Laurillard (1993, 2002). A autora permite-­‐nos discutir e desocultar os objetivos educativos inerentes à aplicação dos sistemas de informação e comunicação, em que o processo de ensino-­‐
aprendizagem é tido como resultado de interações entre os atores intervenientes. É um referencial que coloca em primeiro plano a prática reflexiva dos intervenientes num processo de interação contínuo e dinâmico, em que o professor/enfermeiro supervisor assume sobretudo o papel de mediador e de instigador da aprendizagem. De acordo com estes pressupostos, Diana Laurillard (2002) defende que as tecnologias digitais podem desempenhar um papel fundamental no processo de 1764
REVISITAR OS ESTUDOS CURRICULARES: ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS? ATAS DO XIX COLÓQUIO DA SECÇÃO PORTUGUESA DA AFIRSE 2 012 questionamento das práticas clínicas, desde que se interajam algumas dinâmicas e estratégias pedagógicas – a estratégia discursiva, a estratégia adaptativa, a estratégia interativa e a estratégia reflexiva. Passemos a explicitar cada uma delas com maior detalhe: Estratégia discursiva A relação de comunicação entre vários intervenientes surge relevada. É uma estratégia em que preside uma atitude de indagação e de investigação sistemática por parte de professores e estudantes e que ajudará na compreensão do processo de ensino e aprendizagem, onde são identificadas as dimensões cognitivas, as afetivas e as de ação. Estratégia adaptativa As atividades de aprendizagem são baseadas nas concepções dos diversos intervenientes, evoluindo e ajustando-­‐se a cada situação concreta. O professor procura compreender para intervir, adequando as atividades às necessidades específicas de cada estudante ou grupo de estudantes num determinado momento. Estratégia interativa Várias expressões e representações são utilizadas como forma de proporcionarem trocas de ideias e de conteúdos. É uma estratégia em que preside uma atitude de escuta mútua e de diálogo constante entre professor e estudante. Estratégia reflexiva Há sobretudo a reflexão e o aprofundamento de conhecimentos com base no registo de diferentes formas de estruturação e organização do pensamento. É uma estratégia em que se pretende a análise e o pensamento crítico do estudante, acerca do que está a aprender, como está a aprender e sobre o seu próprio papel no processo de ensino e aprendizagem. São precisamente essas estratégias que tomamos como referencial para análise e apreciação dos SIE em contexto hospitalar, relevando as experiências cujos valores da autonomia e emancipação se tornam primordiais (Macedo, 2004, 2006). Esta apreciação baseia-­‐se nas estratégias, preferencialmente utilizadas para alcançar os objectivos inerentes à utilização de sistemas de informação e comunicação. Tal como pode ser observado no Quadro 1, trata-­‐se, em última instância, de uma proposta de regulação das estratégias a desenvolver pelos intervenientes, estruturada em torno dos quatro eixos. Neste sentido, toma-­‐se em consideração o contexto de ação, abrindo-­‐se espaço à reflexão sobre em que medida o sistema de informação permite concretizar uma série de objetivos específicos. Quadro 1 – Proposta de análise e apreciação dos sistemas de informação em função do tipo de estratégias e dos objetivos específicos Estratégias a desenvolver em contexto Clínico/Objetivos Específicos ESTRATÉGIA DISCURSIVA (Comunicação, Participação) Em que medida o sistema de informação permite: − Manter uma relação de comunicação contínua entre vários intervenientes; − Negociar conteúdos e objetivos (professor e estudantes); − Expressar ideias em função dos objetivos negociados; − Participar ativamente na construção do conhecimento. 1765
REVISITAR OS ESTUDOS CURRICULARES: ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS? ATAS DO XIX COLÓQUIO DA SECÇÃO PORTUGUESA DA AFIRSE 2 012 ESTRATÉGIA ADAPTATIVA (Evolução, Seleção) Em que medida o sistema de informação permite: − Construir atividades de aprendizagem adequadas às concepções dos diversos intervenientes; − Adaptar os objectivos de aprendizagem aos interesses dos estudantes tendo em conta as interações e o diálogo ocorridos; − Tomar consciência das facilidades e dificuldades sentidas com o sistema operativo; − Permitir um empenho pessoal e social no processo de ensino aprendizagem. ESTRATÉGIA INTERACTIVA (Motivação, Visualização) Em que medida o sistema de informação permite: − Fornecer resposta ao estudante, ajudando-­‐o a alcançar os objectivos de aprendizagem; − Reconhecer o significado inerente ao feedback transmitido pelo professor, de forma a apropriar-­‐se dos conteúdos que melhor se ajustam ao seu perfil; − Adicionar outras informações visando complementar determinado conteúdo/tópico; − Representar ideias/conteúdos utilizando várias formas de expressão. ESTRATÉGIA REFLEXIVA (Reflexão, Estruturação) Em que medida o sistema de informação permite: − Refletir e escrever sobre processo de ensino e aprendizagem; − Estruturar e registar ideias, percepções e convicções dos estudantes; − Refletir sobre as descrições do estudante; − Fornecer diferentes formas de organização do pensamento, possibilitando o aprofundamento de conhecimentos. A consciência por parte dos supervisores da necessidade de uma apreciação dos SIE no contexto clínico tem possibilitado a utilização de estratégias com bastante interesse em termos de estimulação da reflexão sobre as práticas dos estudantes e com enorme potencial em termos de inovação curricular. Esta apreciação para além de permitir o desenvolvimento de ambientes de aprendizagem mais colaborativos, favorecendo uma maior participação dos estudantes na tomada de decisão sobre o que se está a aprender e como se está a aprender, remete para os supervisores (professores e enfermeiros) um papel de importância vital na gestão do processo e no apoio efetivo à aprendizagem individual e colaborativa. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O conjunto de achados dos itens do trabalho produzido responde aos desafios que nos colocámos inicialmente. O valor da informação na sociedade contemporânea e o impacto da implementação e reformulação dos SIE, em Portugal, na qualidade dos cuidados de enfermagem, na educação, na formação e na investigação, surgem relevados nesta comunicação. É no ambiente de alguma diferenciação da enfermagem em relação à medicina, com a integração das escolas de enfermagem na academia (E.U.A., anos 50 do séc. XX) e, por conseguinte, com a emergência das teorias de enfermagem, que se verifica, gradualmente, uma evolução na natureza 1766
REVISITAR OS ESTUDOS CURRICULARES: ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS? ATAS DO XIX COLÓQUIO DA SECÇÃO PORTUGUESA DA AFIRSE 2 012 dos registos de enfermagem (na forma e no conteúdo), com maior preocupação na caracterização da condição de saúde da pessoa relativamente às respostas humanas aos processos de saúde-­‐doença. Neste contexto emerge o conceito de Processo de Enfermagem, enquanto processo de raciocínio clínico dos enfermeiros. Em Portugal, a década de 90 do séc. XX foi decisiva para a reformulação e implementação dos SIE, fruto do desenvolvimento da investigação neste território. A mudança do modelo tradicional de registos, com enfoque na documentação como prova documental, para um modelo de registos com enfoque na documentação como suporte à tomada de decisão clínica onde estão incorporados os elementos básicos do Processo de Enfermagem – diagnósticos, intervenções e resultados de enfermagem – com recurso a uma linguagem comum (CIPE®), constituiu uma oportunidade e um desafio para a o exercício profissional dos enfermeiros, uma vez que contribuiu para a (re)definição de pensar o cuidado e com impacto na qualidade dos cuidados de enfermagem. Deste modo, estão também criadas condições para uma maior visibilidade da enfermagem no espaço multiprofissional dos cuidados de saúde e, assim, a demonstração da utilidade social da profissão de enfermeiro. O impacto da reformulação e implementação dos SIE/TIC na qualidade da Educação e Formação em Enfermagem assim como os resultados das experiências realizadas no contexto clínico apontam para uma correlação entre o uso de uma tecnologia da comunicação e da informação e a natureza e resultados de uma experiência educativa. A experiência educativa só é eventualmente positiva nos casos em que o uso dos SIE/TIC esteja adequado à globalidade dos (elementos cognitivos) objectivos inerentes à sua utilização e respectivos focos. Trata-­‐se antes de mais de ter em conta um referencial que coloca em primeiro plano a prática reflexiva dos intervenientes num processo de interação contínuo e dinâmico, em que o professor/enfermeiro supervisor assume sobretudo o papel de mediador e de instigador da aprendizagem. Na formação inicial, o uso das SIE/TIC em contexto clínico torna-­‐se adequado à globalidade dos elementos cognitivos, sociais e de ensino, em presença de uma experiência educativa. Neste sentido, a procura de novas formas de compreender a relação entre a tecnologia, a educação e formação e, transformar positivamente as consequências inerentes ao ambiente, parece ser o grande desafio dos educadores e das Escolas Superiores de Enfermagem que tenham de responder de forma construtiva às possibilidades que elas abrem. Finalmente gostaríamos de realçar que o principal achado deste trabalho é a obtenção de uma concepção de educação que consideramos válida para a nossa realidade social de educação e formação e a construção de identidades individuais e colectivas. Independentemente do valor da mesma, os processos de mudança social, que ocorrem em torno de uma experiência educativa contemporânea, apontam inevitavelmente para a necessidade de repensarmos os nossos modelos de formação e educação em contexto clínico/sala de aula e passarmos a olhar para os SIE/TIC como algo mais do que um instrumento de trabalho. Como educadores estamos conscientes da necessidade e do esforço de mudança que eles implicam. 1767
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