ENCARTE TÉCNICO NEUTRALIZAÇÃO DA ACIDEZ DO PERFIL DO SOLO POR RESÍDUOS VEGETAIS Mario Miyazawa1 Marcos A. Pavan1 Julio Cezar Franchini2 INTRODUÇÃO A A adoção de sistemas conservacionistas, como o plantio direto, tem demonstrado reverter o processo de degradação química, física e biológica de solos ácidos. Isso ocorre porque a principal conseqüência da adoção do sistema de plantio direto é o aumento no teor de matéria orgânica do solo, devido ao ambiente menos oxidativo, e ao menor contato dos resíduos vegetais com o solo. caulinita, principal componente da fração mineral em solos ácidos, é uma argila de baixa atividade, com baixa densidade de carga superficial devido à baixa ocorrência de substituição isomórfica. Outros componentes importantes da fração mineral, os óxidos de ferro (hematita e goetita) e alumínio (gibbsita), em pH ácido, apresentam carga positiva ou nula, não contribuindo para a capacidade de troca de cátions e para a alta capacidade de adsorção de fósforo. Por outro lado, os ácidos húmicos e fúlvicos, principais componentes da matéria orgânica estabilizada no solo, apresentam alta densidade de grupos carboxílicos e fenólicos, que sofrem hidrólise com o aumento do pH, gerando cargas negativas. Segundo PAVAN et al. (1985) e RAIJ et al. (1982), a matéria orgânica pode representar até 80% da capacidade de troca em solos ácidos do Paraná e de São Paulo. Devido à pobreza em bases do material de origem de solos ácidos e às condições climáticas (temperatura e precipitação elevadas), favoráveis ao processo de intemperismo e lixiviação, estes solos apresentam baixa saturação por cátions básicos (Ca, Mg e K) e, conseqüentemente, um predomínio de H e Al nas cargas negativas do solo. Com a aplicação de calcário, grande parte do H e Al podem ser neutralizados, desobstruindo e gerando novas cargas que são então ocupadas por Ca e Mg. No entanto, o uso agrícola prolongado, utilizando o revolvimento do solo e a incorporação dos resíduos vegetais, geram condições favoráveis à degradação da matéria orgânica, reduzindo drasticamente seu potencial produtivo. Deste modo, a adoção de sistemas conservacionistas, como o plantio direto, tem demonstrado reverter o processo de degradação química, física e biológica de solos ácidos. Isso ocorre porque a principal conseqüência da adoção do sistema de plantio direto é o aumento no teor de matéria orgânica do solo, devido ao ambiente menos oxidativo, e ao menor contato dos resíduos vegetais com o solo. A nova situação estabelecida no plantio direto altera profundamente vários processos químicos no solo, influenciando o pH, a capacidade de troca de cátions, a adsorção de fósforo, a toxidez por Al e a mobilidade de cátions polivalentes. Além disso, os resíduos vegetais das culturas comerciais e os adubos verdes apresentam composição orgânica bastante variável, o que proporciona efeitos também variáveis, dando oportunidade ao uso dos resíduos com objetivos diferenciados. Deste modo, o objetivo deste trabalho é apresentar os principais mecanismos envolvidos nestes processos, visando dar subsídios para a tomada de decisão para o manejo adequado de solos tão frágeis e dependentes de matéria orgânica como os solos ácidos brasileiros. NEUTRALIZAÇÃO DA ACIDEZ DO SOLO POR RESÍDUOS VEGETAIS A técnica mais utilizada na agricultura para elevar o pH dos solos ácidos é a aplicação de calcário dolomítico (CaCO3 + MgCO3) e calcítico (CaCO3). Estes produtos apresentam as seguintes vantagens: fornecem Ca e Mg, têm baixo custo, são de fácil aplicação no campo e possuem poder tampão. Outra técnica é a aplicação de resíduos orgânicos na forma de estercos de animais, compostagem(1) (resíduos orgânicos com fermentação controlada) e resíduos vegetais. Vários trabalhos têm demonstrado aumento do pH do solo pela aplicação de material orgânico (HOYT & TURNER, 1975; HUE & AMIEN, 1989; FRANCHINI et al., 1999b). CASSIOLATO et al. (1999) estudaram a neutralização da acidez potencial do solo ácido por extratos vegetais (Figura 1A). Os extratos de nabo forrageiro e tremoço azul foram mais eficientes na neutralização da acidez potencial e o efeito do milheto foi quase nulo. MIYAZAWA et al. (1993) avaliaram várias espécies de resíduos vegetais quanto à capacidade de neutralização do H+ da solução em experimento de laboratório (Figura 1B). Em geral, os resíduos de adubos verdes apresentaram 1 Instituto Agronômico do Paraná - IAPAR. Caixa Postal 481, CEP 86001-970, Londrina - PR. Telefone: (43) 376-2000. E-mail: [email protected]. 2 Bolsista, CNPq/Embrapa-Soja. INFORMAÇÕES AGRONÔMICAS Nº 92 – DEZEMBRO/2000 (1) Foi utilizado este termo para evitar confusão com o termo “compostos orgânicos” que é sinônimo de substâncias orgânicas. 1 Legenda: acidez potencial do solo neutralizada pelo resíduo vegetal A Centeio B Trigo T. azul Milho Nabo Azevém Guandu Crotalaria blev. Chícharo Crotalaria espectabilis Aveia preta Aveia Serradela Tremoço branco Girassol Espérgula Café folha Nabo forrageiro Mucuna anã Mucuna cinza Mucuna cinza Crotalária Cana folha Tremoço branco Trigo Mucuna anã Arroz Feijão-de-porco Colza Guandu Casca de café Milheto Ervilhaca comum Testemunha (solo percolado com água) Feijão-bravo-do-Ceará 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 H neutralizado (mmolcg-1) H + Al (cmolckg-1) Figura 1. Neutralização da acidez potencial do solo (A) e da solução de HCl por resíduos vegetais (B) (modificada de CASSIOLATO et al., 1999, e MIYAZAWA et al., 1993). maior capacidade da neutralização de H+ (feijão-bravo-doCeará = 1,0 mmolc g-1) do que os resíduos pós-colheita (palha de trigo = 0,26 mmolc g-1 e de milho = 0,30 mmolc g-1). HUE (1992) verificou que a capacidade de neutralização do pH por esterco de aves representava em torno de 1/3 da capacidade do Ca(OH)2. Vários experimentos realizados no Instituto Agronômico do Paraná (FRANCHINI et al., 1999b,c; MIYAZAWA et al., 1999; MEDA et al., 1999; CASSIOLATO et al., 1999) com extratos vegetais mostraram que a sua percolação por colunas de solo neutralizaram a acidez até a camada subsuperficial. A intensidade da neutralização foi maior para os resíduos de adubos verdes, especialmente nabo forrageiro e aveia preta. A Figura 2 ilustra um perfil típico de aumento do pH após a aplicação de extratos vegetais. pH 4,0 0 Profundidade (cm) 5 10 4,5 5,0 5,5 As reações de ligantes orgânicos, solúveis em resíduos vegetais, responsáveis pela neutralização da acidez do solo envolvem a participação de radicais carboxílicos: R-COOM + H+ → R-COOH + Mn+ Controle M uc u na Tr igo ta pre a i e Av (1) onde, Mn+ = K+, Ca2+ e Mg2+. o Nab e i r o ag forr 15 20 25 Figura 2. pH do perfil do solo após percolação do extrato vegetal. 2 A capacidade de neutralização da acidez do solo por resíduos vegetais está associada aos seus teores de cátions e carbono orgânico solúvel, que normalmente é maior em resíduos de adubos verdes, tais como: aveia preta, nabo forrageiro, tremoços, leucena, mucunas, crotalárias e outros. A menor capacidade de neutralização da acidez do solo dos resíduos de culturas comerciais como soja, trigo e milho está relacionada à redução dos teores de cátions e carbono solúvel com o avanço da idade fisiológica da planta. FRANCHINI et al. (2000) observaram que o teor de substâncias orgânicas hidrossolúveis em resíduos vegetais de adubos verdes também diminui gradativamente no intervalo entre 60 e 120 dias (Figura 3). (Observação: as cargas das equações estão omitidas). Por outro lado, em solos alcalinos (pH superior a 7,0) o uso de resíduos vegetais também é recomendado para a neutralização da alcalinidade. Neste caso, as reações de neutralização da alcalinidade do solo são desempenhadas pelos radicais amídicos e fenólicos: R-CNH2-COOH + OH- → R-CN+H-COOH + H2O (2) R-OH + OH- → R-O- + H2O (3) INFORMAÇÕES AGRONÔMICAS Nº 92 – DEZEMBRO/2000 Figura 3. Cromatogramas de ácidos orgânicos alifáticos e fenólicos e flavonóides na fração solúvel em água de resíduos vegetais de adubos verdes coletados em diferentes estádios de desenvolvimento (1-oxálico; 2-cítrico; 3-málico; 4-aconítico; 5-fumárico; 6-caféico; 7-p-coumarico; 8ferúlico; 9-vitexin; 10-genistina; 11-hidróxi-genistina; 12-rutina; 13-canferol; 14-isoramnetina; 15-luteolina; 16-genisteína) (FRANCHINI et al., 2000). R-COOM + Al3+ → R-COOAl + Mn+ A natureza anfótera da reação dos resíduos vegetais faz com que aumente o pH dos solos ácidos e reduza o pH dos alcalinos, tendendo ao valor de pKa da mistura de diferentes substâncias orgânicas. Os valores de pKa dos compostos orgânicos presentes em resíduos vegetais situam-se normalmente entre 5 e 7. onde, M = Ca, Mg, K. NEUTRALIZAÇÃO DA TOXIDEZ DE ALUMÍNIO DO SOLO Vários estudos têm demonstrado a ocorrência de ácidos orgânicos na solução de solos ácidos com resíduos vegetais na superfície. Entre as espécies solúveis de Al encontradas em solos ácidos [Al3+, AlOH2+, Al(OH)2+, Al(OH)4-, AlL (L = orgânico) e AlFn] o Al3+ é a espécie mais tóxica para as plantas. A redução da toxidez de Al após a aplicação de calcário ocorre pela hidrólise a Al(OH)3. A redução da toxidez de Al após a aplicação de resíduos vegetais e esterco de animais observada em vários estudos (HUE & AMIEN, 1989; MIYAZAWA et al., 1993; FRANCHINI et al., 1999b; HUE & LICUDINE, 1999) ocorre por dois processos químicos: hidrólise devido ao aumento de pH (equação 5) e complexação por ácidos orgânicos (equação 6). R-COOM + H2O → R-COOH + OH- + Mn+ (4) Al3+ + 3OH- → Al(OH)3 precipitado (5) INFORMAÇÕES AGRONÔMICAS Nº 92 – DEZEMBRO/2000 (6) (Observação: As cargas das equações estão omitidas). HUE et al. (1986) encontraram os seguintes ácidos na solução do solo sob floresta de pinheiros no Estado de Alabama, EUA: oxálico, cítrico, málico, malônico, acético, succínico e láctico, com a soma total de ácidos atingindo 480 µmol L-1. Em solos cultivados, no entanto, a diversidade (oxálico, málico, malônico, fórmico e ftálico) e a quantidade de ácidos orgânicos foi muito inferior à observada no solo sob floresta. MIYAZAWA (1990) encontrou concentração total inferior a 500 µmol L-1 de ácidos succínico, aconítico, iso-butílico e butílico na solução de solos cultivados do Estado do Paraná. SLATTERY & MORRISON (1995), em solos da Austrália, observaram maiores concentrações de ácidos cítrico, tartárico, succínico, acético e fórmico, além de quantidades-traço de ácidos fumárico, aconítico, gálico, protocatéico, ftálico e p-benzóico. 3 Comprimento radicular (cm) O grau de neutralização da toxidez de Al por ácidos orgânicos é determinado pela estabilidade do complexo orgânico formado. HUE et al. (1986) classificaram os principais ácidos orgânicos quanto à capacidade de amenização do Al-tóxico para plantas de algodão (Gossypium hirsutum L.) da seguinte forma: a) forte: cítrico, oxálico, tartárico; b) moderado: málico, malônico, salicílico, c) fraco: succínico, láctico, fórmico, ftálico, acético. MIYAZAWA et al. (1992) avaliaram a amenização da toxidez de Al por ácidos orgânicos em trigo (Triticum aestivum L., cv. Anahuac) em solução nutritiva, obtendo a seguinte ordem de eficiência: cítrico > tartárico > oxálico > húmico > malônico > maleico > salicílico > succínico. Na Figura 4 está representada a redução do crescimento da raiz de trigo pela toxidez de Al (A) e a neutralização da toxidez de 20 µmol L-1 de Al pelo ácido cítrico, malônico e succínico (B). A figura mostra completa neutralização da toxidez de Al pela adição de 90 µmol L-1 de ácido cítrico e sem nenhum efeito do ácido succínico sobre a toxidez de Al. A 10 B Al C itra to 8 M alon a to S uccinato 6 Entre as características dos ácidos orgânicos responsáveis pela neutralização da toxidez de Al3+ destacam-se: • constante de estabilidade (pK) dos complexos Al-L (L = ligantes orgânicos): pK maior que 4,5 forma complexos fortes; pK entre 4,5 e 2,5 forma complexos moderados e pK menor que 2,5 forma complexos fracos; • moléculas de ácidos orgânicos que formam complexos na forma de anéis com 5 ou 6 átomos, incluindo o Al, apresentam maior estabilidade. Por exemplo, o ácido cítrico pode formar complexos com 5 ou 6 átomos, sendo um dos mais fortes entre os ácidos orgânicos (Figura 5). Os ácidos acético, fórmico e succínico não formam complexos, porque não podem formar anéis. Além da toxidez de Al, a manutenção de resíduo vegetal na superfície dos solos ácidos reduz também a toxidez de Mn. ANDRADE et al. (1999) avaliaram o efeito da cobertura do solo com resíduos vegetais na solubilidade do Mn e observaram maior teor de metal solúvel em solo sem cobertura vegetal (73,2 mg kg-1) em relação ao solo coberto com resíduos de aveia preta e folhas de café (5,2 mg kg-1). TRANSPORTE DE CÁTIONS POLIVALENTES POR LIGANTES ORGÂNICOS 4 2 0 0 5 10 Al (µmol L-1) 15 7,5 30 60 90 Ácidos orgânicos (µmol L-1) + Al: 20 µmol L-1 Figura 4. Redução do crescimento da raiz de trigo pelo alumínio em solução nutritiva (A) e amenização da toxidez de Al = 20 µmol L-1 por ácidos orgânicos. Considerando apenas a presença de ânions inorgânicos, a mobilidade de cátions em solos minerais segue a seguinte ordem: Na+ > K+ > NH4+ > Mg2+ > Ca2+ > Mn2+ > Fe2+ > Zn2+ > Cu2+ > Al3+ > Fe3+. Os cátions monovalentes são facilmente lixiviados em água por se encontrarem principalmente na forma iônica. Cátions divalentes e trivalentes sofrem várias reações no solo, que diminuem sua mobilidade. Figura 5. Estruturas moleculares de complexos organometálicos. 4 INFORMAÇÕES AGRONÔMICAS Nº 92 – DEZEMBRO/2000 CaCO3 + 2H+ → Ca2+ + H2CO3 (7) H2CO3 → H2O + CO2 ↑ (8). Entretanto, PAVAN (1994) e OLIVEIRA & PAVAN (1996) observaram elevação do pH, diminuição do Al trocável e aumento nos teores de Ca e Mg até a camada subsuperficial em Latossolo Vermelho Escuro, textura média, em áreas sob plantio direto e com culturas perenes onde o calcário foi aplicado na superfície. CAIRES et al. (1999) observaram aumentos nos teores trocáveis de Ca e Mg até 80 cm de profundidade, após 18 meses da aplicação de calcário, também em Latossolo Vermelho Escuro, em sistema de plantio direto. Muitos estudos têm demonstrado o transporte de Ca e a neutralização de Al na camada subsuperficial do solo por meio de processos químicos. O cálcio dos sais solúveis de Ca(NO3)2 e CaCl2 é facilmente transportado em profundidade no solo. Porém, como estes sais são neutros, não aumentam o pH e nem reduzem a toxidez de Al no subsolo. Em anos recentes, vários trabalhos têm demonstrado a mobilização de Ca para o subsolo na forma orgânica, principalmente na forma de fulvato de Ca. WATT et al. (1991) foram os primeiros a estudar o transporte de Ca à profundidade do solo na forma de Ca-fulvato, purificado da turfa. LIU & HUE (1995) fizeram estudos semelhantes com Ca-fulvato extraído do esterco INFORMAÇÕES AGRONÔMICAS Nº 92 – DEZEMBRO/2000 de aves. NOBLE et al. (1995) extraíram Ca-fulvato de carvões minerais e também observaram aumento no teor de Ca na camada subsuperficial do solo. MIYAZAWA et al. (1998) avaliaram a alteração química do perfil do solo pela adição de resíduos vegetais da superfície. Os resíduos de aveia preta, nabo forrageiro, mucuna cinza e leucena foram os que proporcionaram os maiores aumentos nos teores de Ca e Mg na camada subsuperficial de solos ácidos. FRANCHINI et al. (1999c) observaram aumento de Ca e Mg até na camada de 40 cm pela adição de extrato de nabo forrageiro e de aveia preta, e acúmulo de K na superfície do solo (Figura 6). N a bo Tes te m un ha pe rc ola da c om á gu a 0 40 0 5 10 20 Profundidade (cm) Os cátions divalentes podem estar presentes no solo nas seguintes formas: íons livres, adsorvidos, precipitados, complexos orgânicos e inorgânicos. A ocorrência de uma espécie de cátion divalente no solo depende de vários fatores, tais como: pH, teor de matéria orgânica, teor de argila, temperatura, força iônica e potencial de oxi-redução. Maior quantidade de cátions divalentes livres é encontrada em solos ácidos, enquanto as formas de precipitados de hidróxidos e carbonatos são mais comuns em solos alcalinos. Em solos com alta quantidade de matéria orgânica aumentam as formas complexadas e adsorvidas de cátions divalentes. A ocorrência de cátions trivalentes livres no solo é extremamente baixa. As formas mais comuns são as de óxidos e hidróxidos, de complexos orgânicos e inorgânicos e adsorvidas no solo. Por isso, em solos agrícolas minerais a lixiviação de cátions segue a ordem: Na+ , K+, Mg2+ , Ca2+ e Al3+. Uma das condições indispensáveis para a lixiviação de cátions no solo é a presença de ânions solúveis, tais como Cl(cloreto), NO 3- (nitrato), NO 2- (nitrito), SO42+ (sulfato), OAc(acetato), OFor- (formiato) e HCO3- (bicarbonato). Mesmo os cátions monovalentes Na+ e K+ somente são lixiviados na companhia de ânions solúveis. A retenção de Mn+ na superfície do solo ocorre quando as cargas negativas dos ácidos húmicos e das argilas estão livres. O aumento no teor de cátions monovalentes na superfície do solo é dificultado pela sua lixiviação preferencial em relação aos cátions polivalentes. No entanto, a manutenção de resíduos vegetais na superfície do solo no sistema de plantio direto e em culturas perenes (OLIVEIRA & PAVAN, 1996; PAVAN, 1994) favorece o acúmulo de K na superfície do solo. A mobilidade de Ca e Mg na forma de carbonato, presente no calcário, é baixa em solos ácidos, sendo observados aumentos do seu teor no solo apenas na camada corrigida (PAVAN et al., 1982). A baixa mobilidade do Ca2+ na forma de carbonato em solos ácidos se deve à ausência do ânion acompanhante, conforme reação (7) e (8). O ânion CO32- reage com H+ do solo e se perde na atmosfera na forma de gás CO2. 40 0,0 0,4 1,2 0,8 1,6 2,0 2,4 Av e ia 0 Tes te m un ha pe rc ola da c om á gu a 40 0 5 10 20 40 0,0 0,4 0,8 1,2 C á tio n s c m o l c k g K Mg Ca 1,6 2,0 -1 Al Figura 6. Teores trocáveis de K, Mg, Ca e Al do solo após aplicação de extratos de resíduos vegetais de nabo forrageiro e aveia preta (modificada de FRANCHINI et al., 1999c). Foi realizada uma série de experimentos no Instituto Agronômico do Paraná visando compreender os mecanismos responsáveis pelo acúmulo de K+, Ca e Mg na superfície e também pelo transporte de Ca e Mg e pela neutralização do Al na camada subsuperficial do solo, após a aplicação de resíduos vegetais (FRANCHINI et al. 1999b,c; MEDA et al., 1999; MIYAZAWA et al., 1996). ZIGLIO et al. (1999) adicionaram resíduos vegetais misturados com CaCO3 na superfície do solo e determinaram os teores de Ca, Mg e K na solução percolada (Figura 7). Os autores observaram que nos tratamentos que receberam resíduos vegetais de aveia preta e mucuna preta a lixiviação máxima de Ca e Mg ocorreu dois volumes de poros de água antes da lixiviação máxima de K, contrariando a ordem natural de lixiviação encontrada na literatura. Nos tratamentos controle e CaCO3, na superfície sem resíduos vegetais, a seqüência da lixiviação seguiu a ordem natural, porém com baixas quantidades lixiviadas. FRANCHINI et al. (1999c), adicionaram soluções puras de ácidos orgânicos e extratos de resíduos vegetais na superfície do solo e determinaram Ca, Mg, K e Al na solução percolada. Cálcio e alumínio foram os principais cátions extraídos do solo após a aplicação dos extratos de resíduos vegetais (Figura 8). O 5 C ontrole C alcário C alcário + aveia C alcário + trigo 4 3 2 P ro fun d id ad e (cm ) 5 10 0 0 90 A l-org ânico (% d o A l-to tal) 1 4 3 2 1 0 2 1 10 20 40 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Volum e de poros 0 Figura 7. Concentração de Mg, Ca e K na água de drenagem após aplicação superficial de calcário e resíduos vegetais (ZIGLIO et al., 1999). A veia Nabo Figura 9. Fração do Al trocável lixiviado no perfil do solo pelos extratos de plantas (FRANCHINI et al., 1999c). Nabo MÉTODOS QUÍMICOS PARA AVALIAR A QUALIDADE DOS RESÍDUOS VEGETAIS 0 5 P ro fund id ade (cm ) 10 20 40 0 20 40 60 80 120 100 A ve ia 0 5 10 20 40 0 20 40 60 80 120 100 C á tio ns solú veis (% ) K H Mg Ca Al Figura 8. Fração de cátions solubilizados do solo pelo extratos de resíduos de plantas (modificada de FRANCHINI et al., 1999c). Al foi lixiviado principalmente na forma orgânica, como pode ser comprovado pelo Al-orgânico (AlL0) determinado nos extratos de resíduos vegetais (Figura 9). O Al extraído do solo pelo extrato de nabo foi superior ao extraído pelo de aveia e similar ao extraído pelas soluções com citrato. Os complexos formados no extrato de nabo têm estabilidade elevada devido ao predomínio de AlL0, mesmo a 40 cm de profundidade. Nos extratos de resíduos vegetais o comportamento do Ca foi diferenciado. No extrato de aveia, o Ca foi extraído na mesma proporção em todo o perfil do solo, enquanto no extrato de nabo o Ca foi mantido em solução nos mesmos níveis observados na solução inicial, mesmo após a percolação pela camada de 40 cm. 6 A mobilização de cátions (Ca, Mg e K), o aumento do pH e a imobilização do Al pela aplicação de resíduos vegetais em solos ácidos se deve à formação de complexos organo-metálicos. A intensidade destas alterações químicas do solo depende da quantidade de resíduos, mas também da qualidade e quantidade dos ligantes orgânicos presentes nos resíduos. A quantidade e as espécies de compostos orgânicos se alteram conforme a idade, o clima e o manejo dos resíduos vegetais. Por isso, a avaliação da qualidade dos resíduos vegetais é importante na tomada de decisão do manejo de resíduos conforme o objetivo do agricultor. A seguir estão descritos os principais métodos químicos aplicáveis para avaliar a qualidade de resíduos de plantas. A escolha do método depende da condição do laboratório, da disponibilidade de equipamento, da demanda de amostras e do treinamento de analistas: • Preparo das amostras Coletar as amostras de resíduos vegetais e orgânicos (adubos verdes, casca de café, bagaço de cana, restos culturais, com-postado, esterco de animais), secar a 60 oC na estufa até peso constante, triturar, passando em peneira de 1,0 mm, e armazenar em frasco de vidro. • Extração de compostos orgânicos Transferir 1,0 g de amostra para frasco de 100 mL, adicionar 50 mL de água, agitar por quatro horas e filtrar. • Determinações analíticas a) Soma de cátions Determinar os teores de Ca, Mg e Mn do extrato por absorção atômica, emissão atômica ou por espectrofotometria, de K e Na por fotometria de chama e expressar a concentração em mmolc kg-1. Constitui a quantidade de H+ e Al3+ que pode ser neutralizada pelo resíduo vegetal. INFORMAÇÕES AGRONÔMICAS Nº 92 – DEZEMBRO/2000 Em solos ácidos, os cátions Ca, Mg, K, Na e Mn ligados nos compostos orgânicos são substituídos por H+ ou Al3+, formando compostos estáveis protonados ou complexo Al-orgânico. se, principalmente, à maior taxa de decomposição dos resíduos com a incorporação. O manejo adequado de resíduos vegetais na agricultura aumenta a produtividade, reduz o input de material antropogênico e, sobretudo, diminui a contaminação ambiental. b) Ácidos tituláveis Acidificar o extrato vegetal com a solução de HCl para pH inferior a 3,0 e titular com a solução de NaOH 0,1 mol L-1 padronizado, no intervalo de pH entre 3,0 e 7,0, utilizando pHmetro com eletrodo combinado de vidro. Expressar o valor em mmol kg-1 de ácidos tituláveis. Este método determina os grupos funcionais R-COOH, R-OH e aminoácidos responsáveis pela neutrali-zação de H+ e Al3+ do solo (MIYAZAWA et al., 1993). A acidificação da solução com HCl evita solubilização do gás CO2 da atmosfera na solução. Caso contrário, se titular com a solução de NaOH de pH 7,0 até 3,0 ocorre solubilização do gás CO2 no extrato antes da titulação, causando um erro positivo. LITERATURA CITADA ANDRADE, M.; MIYAZAWA, M.; PAVAN, M.A.; OLIVEIRA, E.L. Efeito da cobertura vegetal na solubilidade do manganês do solo. In: ENCONTRO DE QUÍMICA DA REGIÃO SUL, 7., Resumos... Tubarão, 1999. CAIRES, E.F.; FONSECA, A.F.; MENDES, J.; CHUEIRI, W.A.; MADRUGA, E.F. Produção de milho, trigo e soja em função das alterações das características químicas do solo pela aplicação de calcário e gesso na superfície, em sistema de plantio direto. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v.23, p.315-327, 1999. c) Condutivimetria Determinar a condutividade elétrica da solução por condu-tivimetria. Este método determina a concentração dos íons dissolvidos na solução. Os valores da condutividade podem correlacionar-se com a soma dos cátions determinados por absorção atômica. d) Cromatografia líquida Determina os teores de cada uma das substâncias orgânicas dos resíduos vegetais. Os compostos orgânicos da fração solúvel (material seco, moído a 1 mm, 1g/50 ml água) acidificada com HCl (pH 2,5) são extraídos sucessivamente com acetato de etila. Após redução de volume, em rotavapor, o resíduo é redissolvido para análise de ácidos fenólicos (AF), flavonóides (FL) e ácidos orgânicos alifáticos (AA), através de cromatografia líquida de alta eficiência (CLAE). Para análise de AF e FL, utiliza-se coluna de fase reversa com fase móvel composta por ácido acético e metanol. Para a análise dos AA, utiliza-se coluna de troca iônica com fase móvel constituída por H2SO4 (0,005 M). A identificação das substâncias orgânicas é realizada pela comparação dos tempos de retenção e dos espectros ultravioleta com os de padrões. CONCLUSÕES Com base no exposto anteriormente, a época de manejo de resíduos vegetais de adubos verdes depende do objetivo do agricultor. Para aumentar o transporte de Ca e Mg e a neutralização da acidez da camada subsuperficial, o resíduo vegetal deve ser manejado antes do florescimento, sem que no entanto ocorra um comprometimento dos efeitos pela redução na produção de matéria seca. Isto porque na época do florescimento o processo de maturação dos tecidos diminui o teor de substâncias orgânicas responsáveis pelo transporte de Ca e Mg e pela neutralização da acidez. A permanência dos resíduos vegetais na superfície do solo reduz a taxa de decomposição pelos microrganismos, permitindo que a existência destas substâncias orgânicas seja prolongada, aumentando os efeitos. Com a ocorrência das primeiras chuvas após o manejo dos resíduos, as substâncias orgânicas seriam solubilizadas e reagiriam com cátions e hidrogênio no solo. CASSIOLATO, M.E.; MEDA, A.R.; PAVAN, M.A.; MIYAZAWA, M. 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Ser iluminado por todas as coisas é remover as barreiras entre o ego e os outros. Dogen (1200-1253), monge zen-budista 8 INFORMAÇÕES AGRONÔMICAS Nº 92 – DEZEMBRO/2000