MEMÓRIAS DA PRAÇA DO CONGRESSO
Ronalda Suelen Silva Rocha.1
Elizabeth Filippini.2
RESUMO
A Praça do Congresso é um importante patrimônio histórico-cultural para a cidade de
Manaus, devido sua privilegiada localização e seu entorno composto por construções
históricas. Antigamente, as praças de Manaus eram utilizadas para o lazer da sociedade
manauense, porém, esse valor de uso foi se perdendo aos poucos, passando a possuir um valor
de troca. Os eventos sociais, políticos e culturais realizados na praça, proporcionam uma
integração efetiva da população manauense com a praça em questão. Percebe-se que a Praça
do Congresso tem uma grande potencialidade para o Turismo em Manaus, não só devido a
sua localização privilegiada e a sua proximidade com outros patrimônios históricos e culturais
da cidade, mas também pelo fato de cristalizar distintas memórias, cada uma relacionada ao
modo de viver de cada época. Com isso, foi realizado um levantamento bibliográfico,
procurando investigar os acontecimentos do passado para verificar a sua influência na
sociedade atual, ressaltando alguns acontecimentos históricos da Praça do Congresso e a
relação com seu entorno.
PALAVRAS-CHAVE: Patrimônio; história; cultura; turismo; meio ambiente.
INTRODUÇÃO
A Praça do Congresso sofreu várias transformações estruturais durante sua história.
No decorrer de governos e épocas passadas, foi perdendo, também, seu significado de uso
para a população manauense. Maria Evany exemplifica dizendo que, o traçado das praças,
estes mudam a cada administração, ganhando calçamento, palmeiras, pinturas, gradeamento,
mudando-se de lugar seus objetos ou mesmo substituindo-os.
1
Aluna do 4º Período, do Curso de Turismo, da Universidade do Estado do Amazonas, ano: 2006.
Bolsista do PROFIC Programa de Fomento à Iniciação Científica, com o SubProjeto: Memórias da
Praça do Congresso.
2
Professora Doutora em História, da Universidade do Estado do Amazonas. Orientadora do PROFIC
Programa de Fomento à Iniciação Científica, com o Projeto: Patrimônio Histórico-Cultural em
Revisão: revitalização do centro antigo de Manaus.
2
Conforme Maria Evany do Nascimento (2003), as praças são a prova viva das
modificações urbanas, da história da cidade e da memória cristalizada nos lugares, refletindo
o poder da memória coletiva no que se refere ao nome desses lugares. Cada praça da cidade
de Manaus tem um nome oficial, mas é conhecida por outras denominações populares, que
resistem às mudanças sofridas pelo próprio espaço urbano.
Já que a Praça do Congresso representa parte da história da cidade, pretende-se fazer,
primeiramente, uma abordagem histórico-cultural da mesma, apresentando sua importância no
contexto político e social da sociedade manauense, para depois analisar a maneira como ela
está sendo utilizada pela população da cidade, identificando a relação da praça com o seu
entorno.
DESENVOLVIMENTO
Localizada em um dos lugares mais soberbos da cidade de Manaus, no final da
Avenida Eduardo Ribeiro, a Praça do Congresso, bem como outras praças de Manaus
sofreram várias transformações em si mesma e a sua volta representando, assim, a
transformação de uma sociedade.
Otoni Mesquita (1997) mostra que, no final do século XIX: o uso das praças, por parte
do público, começava a tornar-se um hábito em Manaus, ganhando destaque como opção de
lazer, mantendo contato com elementos de uma natureza domesticada e com a instalação de
atraentes equipamentos.
Entre o final do século XIX
e início do século XX, que corresponde ao ciclo
econômico da borracha, a Praça do Congresso era conhecida como Praça da Saúde, devido ao
fato de existir, no seu entorno, o prédio da Saúde Pública de Manaus, que foi demolido sem
motivo oficialmente conhecido, em 1974.
Após o nome de Praça da Saúde, a mesma tornou-se Praça Antônio Bittencourt para,
somente depois, ser denominada de Praça do Congresso, em virtude da realização do Primeiro
Congresso Eucarístico Diocesano de Manaus.
O Congresso Eucarístico Diocesano foi comandado, no período de 31 de maio a 04 de
junho de 1942, pelo bispo Dom João da Mata Andrade e Amaral.
Durante o Congresso, foram realizadas missas em homenagem ao Estado do
Amazonas, como a missa em ação de Graça pelo 4° centenário da descoberta do Rio
Amazonas e pela prosperidade do Estado, com a presença de todas as autoridades civis,
eclesiásticas e militares, efetuando-se uma comunhão geral das crianças presentes, em 03 de
3
junho de 1942. Em 04 de junho de 1942, último dia do Congresso Eucarístico, foi celebrada
uma Missa Pontifical de encerramento.
Em homenagem ao Primeiro Congresso Eucarístico, foi erguido o monumento à Nossa
Senhora da Conceição, na Praça do Congresso, que se encontra no local até hoje. Além do
Monumento a Nossa Senhora da Conceição, a praça possui um busto em homenagem ao exgovernador Eduardo Ribeiro.
Localizada no alto da área central de Manaus, a Praça do Congresso possui, em seu
entorno, construções significativas de uma época, sendo as principais: o Ideal Clube, o
Instituto Benjamin Constant, a Avenida Eduardo Ribeiro e o Instituto de Educação do
Amazonas
I.E.A., principalmente este último, possuindo uma forte relação com a praça.
Antigamente, as pessoas podiam desfrutar de uma caminhada pela Avenida Eduardo
Ribeiro, através dos dosséis verdes formados pelas árvores, percorrendo-a desde a Sete de
Setembro até a Praça do Congresso, à sombra, mesmo com o sol a pino,
dando a
oportunidade de chegarem à Praça para apreciarem o movimento e ler um livro, sem o forte
sol de Manaus batendo no corpo. (MESQUITA,1997, p.21)
Durante o período de Carnaval, o povo se divertia pela Avenida com fantasias
modestas, brincando com bisnagas, serpentinas e confetes.
A sociedade manauense, desde o período áureo da borracha, entre o final do século
XIX e o início do século XX, necessitava de um ambiente onde pudessem ser celebrados os
bailes da época. No dia 06 de junho de 1903, inaugurou o Ideal Clube, um ambiente onde
podiam ser visualizados o luxo e a riqueza das pessoas que o freqüentava.
O primeiro prédio do Ideal Clube foi construído na rua Dr. Moreira, n°11, demolido
por volta da década de 1940. Mais tarde, foi reinaugurado na mesma rua, n°10, permanecendo
no local até o dia 25 de Janeiro de 1921, transferindo-se para a Avenida Eduardo Ribeiro com
a rua Monsenhor Coutinho.
No ano de 1906, a sede do Ideal Clube mudou-se para a Praça da Saudade, Rua Simão
Bolívar, n°215. Em 1912, o clube mudou-se para a Avenida Eduardo Ribeiro, esquina com
Henrique Martins, no prédio onde funcionava o Clube Internacional.
Instalou-se definitivamente na Rua Monsenhor Coutinho, esquina com a Avenida
Eduardo Ribeiro, n°937, sendo lançada a Pedra Fundamental do prédio, no dia 18 de agosto
de 1918, em frente a Praça do Congresso.
A medida que se percorre os 105 anos de história do Ideal Clube, percebe-se a
importância que ele teve, durante décadas, para pessoas idealizadoras que lutaram para manter
a tradição de um lugar que fascinava a todos por ter sido palco de grandes sonhos. Mas, desde
4
o ano de 1990, deixou de ser o ponto de referência dos grandes bailes existentes na cidade de
Manaus e se tornou um espaço cultural para os apreciadores das artes.
O I.E.A., inicialmente, correspondia à chamada Escola Normal, que foi inaugurada em
06 de março 1882. Sua sede situava-se na Praça Dom Pedro II. Em 1890, a Escola Normal
passou a denominar-se Instituto de Educação Superior, preparando professores em um curso,
com duração de quatro anos.
Ainda na época em que o I.E.A. funcionava como Escola Normal, a Praça do
Congresso
representava
o
local
preferido
para
os
desfiles
das
estudantes
normalistas .(ANTONACCIO, 2003, p. 309)
Obras importantes foram construídas em Manaus no século XIX, e o Instituto
Benjamin Constant faz parte destes monumentos. O início deste é datado do dia 10 de julho
de 1884, com o nome de asilo Orfhanológico Elysa Souto, sendo extinto no ano de 1892. No
prédio, funcionou o primeiro Museu Botânico de Manaus.
A partir de 1892, criou-se o Instituto Benjamin Constant, em um prédio arquitetado
para receber as moças órfãs na área da educação. A obra foi projetada e construída no governo
de Eduardo Ribeiro, sendo concluída no ano de 1894. Mas, de acordo com Otoni Mesquita
(1997), em 17 de julho de 1900, o jornal A Federação publicou uma medição em favor de
Joaquim Pires dos Santos, referente a serviços que incluíam obras do Instituto .
Em 1959, o governador Gilberto Mestrinho mandou restaurar o prédio do Benjamin
Constant, fazendo com ele entrasse para a lista dos prédios tombados pelo Patrimônio
Histórico e Artístico do Amazonas.
Ao falar da Praça do Congresso, torna-se inevitável não relacioná-la aos diferentes
valores culturais, sociais e políticos, atribuídos pela sociedade em cada época histórica pela
qual a cidade de Manaus passou, uma vez que a praça só tem sentido como patrimônio se
inserida no cotidiano da população.
No início do século XX, os logradouros públicos eram bastante arborizados,
proporcionando sombra e ar fresco. As praças consistiam em um ambiente coletivo e ideal
para um bom passeio, uma conversa ou um namoro, possuía canteiros de gramas, nas quais a
Prefeitura afixava tabuletas com o apelo ingênuo: Povo zelai por esses jardins, pois ele é
vosso. (Idem, p.28)
Por volta de 1940, todos os moradores de Manaus se conheciam, ou pessoalmente ou
de vista, e assim, uma curta caminhada até a porta da casa podia demorar horas, devido as
constantes paradas para prosear com os amigos.
5
A partir de 1967, com a instalação da Zona Franca de Manaus, surgiu os grandes
edifícios, as novas casas comerciais e o aumento das favelas, em função do enorme número de
pessoas que vinham de outras regiões em busca de emprego. A Manaus antiga foi, assim,
dando espaço para a Manaus moderna. Maria Evany retrata alguns dos problemas que
passaram a denegrir a imagem da cidade:
O aumento da prostituição feminina e masculina, principalmente na
área central; o prejuízo ecológico causado pelos desmatamentos para a
construção de conjuntos habitacionais e a poluição dos igarapés e balneários;
também uma diminuição na produção de alimentos. Aos poucos, nas praças e
ruas de Manaus, foi destacando-se mais o valor de troca que o valor de uso. A
busca pelo novo modificou a paisagem do antigo centro, as casas tornaram-se
lojas de departamentos, novas vitrines modernas. Nesse período muitas praças
cederam seu espaço a estacionamento e novas construções como o terminal de
integração da Matriz. Muitas esculturas e monumentos que ornamentavam
estas praças foram removidos ou destruídos, enfim, a paisagem urbana foi
novamente renovada visando esquecer o período da crise. (NASCIMENTO,
2003, p.35)
Esta renovação, pela qual Manaus passou, descaracterizou o centro antigo da cidade.
Muitas casas, que hoje poderiam estar contando um pedaço da história, foram demolidas ou
desfiguradas e as praças perderam seu sentido original.
Ainda hoje a Praça do Congresso é bastante freqüentada por jovens, que procuram no
seu espaço físico a possibilidade em manifestar suas vontades, que na maioria das vezes é
reprimida no ambiente familiar ou limitada pelos costumes sociais. Com certa freqüência,
observam-se casais de jovens trocando carícias afetivas mais íntimas, outras vezes, nota-se a
concentração de indivíduos para a prática de vandalismo e algazarra, ou para o consumo de
entorpecentes.
A Praça do Congresso continua sendo palco de importantes eventos culturais, políticos
e sociais, que proporcionam uma integração efetiva da população manauense com a área em
questão. Segundo Francisco Paulo de Melo Neto, ao atrair pessoas para as proximidades dos
prédios históricos tombados, os eventos atraem público e estimulam a sua visita e
preservação. (MELO NETO, 2003, p.60).
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Em 2000, ano em que o Brasil comemorou os 500 anos do seu descobrimento, a Rede
Globo instalou um Relógio na Praça do Congresso, que fez a contagem regressiva até o dia 22
de abril do mesmo ano.
Em virtude da realização da Copa do Mundo de Futebol, entre os meses de junho e
início de julho de 2006, o subsecretário de Esporte e Lazer de Manaus, Miguel Antônio
Pacheco, pôs em prática o projeto
Manaus na Copa - Futebol o grande esporte da paz .
Como símbolo maior do evento, foi confeccionada uma grande bola de futebol, sendo
instalada no centro da Praça do Congresso.
A Praça do Congresso também é utilizada para a realização de eventos políticos, como
comícios e passeatas, sendo que estas últimas têm a finalidade de chamar a atenção das
autoridades competentes para as questões sociais.
Portanto, a Praça do Congresso é um importante patrimônio cristalizador de várias
memórias, o que evidencia a necessidade da divulgação da sua história, permitindo a
continuidade desses registros.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Situada em um dos lugares mais estratégicos da cidade de Manaus, no alto da Avenida
Eduardo Ribeiro, a Praça do Congresso é um dos símbolos das modificações urbanas e sociais
vividas em Manaus.
Antigamente as praças representavam locais de lazer e descontração, sendo
fundamental que esta característica seja recuperada para a sociedade atual, pois é a partir do
momento em que os logradouros deixam de ser um local apenas de passagem para se
tornarem locais de passeio e divertimento que surge o interesse em preservá-lo.
A Praça do Congresso já foi denominada de Praça da Saúde e Praça Antônio
Bittencourt, recebendo seu atual nome após a realização do Primeiro Congresso Eucarístico
Diocesano de Manaus, que ocorreu no período de 31 de maio a 04 de junho de 1942.
O entorno da Praça do Congresso é composto de construções importantes para a
história da cidade de Manaus, onde se destacam o Ideal Clube, o Instituto Benjamin Constant,
a Avenida Eduardo Ribeiro e o Instituto de Educação do Amazonas.
Sendo assim, a Praça do Congresso configura-se como um atrativo turístico da cidade,
devido ao significado histórico do seu entorno e à sua localização geográfica privilegiada,
cabendo ao Turismo explorar, de forma planejada, as potencialidades culturais da praça.
7
REFERÊNCIAS
ANTONACCIO, Gaitano Laertes Pereira. Ideal Clube de 06-06-1903 a 06-06-2003: Um
século de aristocratismo. Manaus: Imprensa Oficial, 2003.
MESQUITA, Otoni Moreira de. Manaus: história e arquitetura (1852-1910). Manaus:
Universidade do Amazonas, 1997.
NASCIMENTO, Maria Evany do. Patrimônio e memória da cidade: monumentos do centro
histórico de Manaus, 2003. Dissertação (Mestrado)
Faculdade de Ciências Humanas e
Letras, Universidade Federal do Amazonas, Manaus.
MELO NETO, Francisco Paulo de. Evento: de ação, de entretenimento a agente de promoção
do patrimônio histórico-cultural. IN: FUNARI, Pedro Paulo; PINSKY, Jaime (org). Turismo
e patrimônio cultural. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2003.
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Ronalda Suelen Silva Rocha Orientadora