Revista da Fapese de Pesquisa e Extensão, v. 1, p. 7-22, mar./jun. 2005
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Anotações sobre a botânica em Sergipe durante a
primeira metade do século XIX*
R e s u m o
Jorge Carvalho do Nascimento**
E
ste trabalho objetiva estudar as primeiras manifestações de
pesquisa científica registradas em Sergipe. A partir de levantamentos realizados no Dicionário Bio-Bibliográfico Sergipa-
no, de Armindo Guaraná, e em outros estudos que analisam a intelectualidade de Sergipe do século XIX, identificou-se o trabalho do
naturalista sergipano Antonio Moniz de Souza, que no ano 1818
esteve dedicado a pesquisar a Botânica, através do levantamento
da flora do território situado entre os rios Real e São Francisco. O
trabalho do pioneiro naturalista está registrado em dois livros publicados ainda no século XIX e em artigos que circularam em revistas científicas e na imprensa periódica sergipana. Influenciado pelo
frei José Mariano da Conceição Veloso, com quem estudou Botânica no Rio de Janeiro, o sergipano, que morreu em 1857, deixou uma
expressiva contribuição aos estudos dessa área científica nesta parte do território do Brasil. O modo de fazer ciência adotado por Antônio Moniz de Souza é também apresentado e compreendido como
próprio das características que tinha a pesquisa científica no mundo ocidental durante a primeira metade do século XIX.
PALAVRAS-CHAVE: Ciência, Botânica, Naturalista, Sergipe.
*
**
Este artigo é parte do projeto de pesquisa Centro de Memória da Ciência e
da Tecnologia em Sergipe – CMCTS. O estudo vem sendo desenvolvido a
partir do acervo existente no Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe
– ITPS e é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico – CNPq, pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Sergipe –
FAP-SE e pela Financiadora de Estudos e Projetos - Finep.
Doutor em História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo - PUCSP. Professor Adjunto do Departamento de História e do
Mestrado em Educação da Universidade Federal de Sergipe – UFS.
Jorge Carvalho Nascimento
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B
uscando entender o processo de organização das
primeiras práticas de pesquisa científica em
Sergipe, este estudo analisa algumas dificuldades
metodológicas encontradas durante o processo de realização de uma pesquisa que dê conta de tal trajetória histórica. O trabalho foi delimitado temporalmente entre os anos de 1817 e 1822, por serem estes os
anos durante os quais a expedição de Antonio Moniz
de Souza esteve viajando pelos territórios das Capitanias da Bahia, de Sergipe D’El Rey, de Alagoas e
Pernambuco, enfatizando principalmente o ano de
1818, durante o qual o pesquisador permaneceu em
Sergipe. A pesquisa nasceu da necessidade de estudar a história da ciência e da tecnologia em Sergipe,
para entender o funcionamento das instituições científicas e tecnológicas organizadas, que se disseminaram ao longo do século XX. Assim, procurou compreender os procedimentos científicos e tecnológicos
próprios a esse tipo de atividade, o que envolve categorias analíticas capazes de estabelecer distinções e
menções a teorias. A modalidade de ciência e tecnologia aqui analisada diz respeito ao modo como esse
fazer era considerado no Brasil ao longo dos anos
oitocentos. O ensino de ciência e tecnologia em instituições escolares não é objeto desta análise, não
obstante, eventualmente, aparecerem também referências a este tipo de prática.
A ciência e a tecnologia podem ser analisadas sob
diferentes aspectos. O que se propõe aqui é o entendimento das diferentes propostas e das práticas de
pesquisa mais importantes que, ao longo do século
XIX, marcaram a atuação dos intelectuais que habitaram esta parte do território brasileiro que é Sergipe.
A participação de Sergipe no processo de organização de uma rede brasileira de práticas científicas ao
longo do século XIX é um tema que não recebeu a
devida atenção da produção historiográfica. Mesmo
existindo alguns estudos sobre a atividade intelectual durante a centúria oitocentista, a pesquisa cien-
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tífica e tecnológica não tem sido objeto de estudos
por parte dos pesquisadores que se dedicam a investigar a história. De um modo geral, são poucos os
estudos de História que se dedicam à investigação
da história da ciência e da tecnologia.
O problema que requer maior atenção nesse debate diz respeito ao conjunto de representações sobre a história do Brasil, disseminado a partir do movimento republicano. Dentre as idéias difundidas está
presente uma quase consensual certeza de que as
práticas científicas brasileiras são obra exclusiva do
republicanismo, desfocando assim as discussões a
respeito deste problema. É evidente que o Estado republicano efetuou transformações no discurso a respeito da ciência. Porém não se pode afirmar que tais
preocupações e concepções eram novas na sociedade brasileira. As alterações no discurso acerca da pesquisa científica e tecnológica durante a Primeira República, além da busca de legitimação política do
regime, são reveladoras do modo como os campos1
acadêmicos buscavam legitimar-se sob a condição
de serem conhecimentos científicos suficientes para
a solução dos problemas da vida brasileira.
O estudo acerca da história da ciência e da tecnologia cria possibilidades de uma melhor compreensão sobre o vigoroso debate que se instalou no Brasil
durante o século XIX e persistiu, atravessando as primeiras décadas do século XX. Um debate que reunia
cientistas, políticos, médicos, militares, professores
e outros intelectuais. Todos eles buscando apoiar-se
em preceitos cientificistas.
A maior parte da bibliografia sobre o assunto produzida no Brasil prioriza o período republicano e ao
fazê-lo escamoteia a importância que teve esse debate durante o século XIX em todo o país e, particularmente, na região Nordeste. Um período da maior importância, no qual o Romantismo marcou as visões
O entendimento sobre campo aqui adotado parte da perspectiva apresentada por Pierre Bourdieu: “o campo é um
espaço estruturado de posições cujas propriedades dependem das posições neste espaço. (...) para que ele funcione é
preciso que haja objetos de disputas e pessoas prontas para disputar o jogo, (...) que conheçam e reconheçam as leis
imanentes do jogo e dos objetos de disputa. (...) A estrutura do campo é um estado de relação de forças entre os
agentes ou as instituições engajadas na luta” (Cf. Bourdieu, Pierre. 1980. p.89-91).
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Anotações sobre a botânica em Sergipe durante a primeira metade do século XIX
de política, literatura, moral e ciência; quando a moral
religiosa enfrentou o ateísmo, e o evolucionismo consolidou-se; o Segundo Império implementou o seu
liberalismo e viu a decadência monárquica, ao tempo em que a unidade nacional se consolidava.
A elaboração de um imaginário é parte integrante da legitimação de qualquer regime político. É por meio do imaginário que
se podem atingir não só a cabeça, mas, de
modo especial, o coração, isto é, as aspirações, os medos e as esperanças de um povo.
É nele que as sociedades definem suas
identidades e objetivos, definem seus inimigos, organizam seu passado, presente e
futuro (Carvalho, 1990, p. 10).
Captar alguns problemas metodológicos para a
compreensão das práticas civilizatórias dessa história é propósito deste artigo. O caminho escolhido
remete o trabalho a olhar as práticas científicas por
dentro, apanha-las, priorizando esse enfoque sem,
contudo, desprezar o âmbito das suas relações com
a vida social, uma vez que as práticas científicas e
tecnológicas de cada sociedade correspondem a suas
necessidades.
Compreender a natureza de tais práticas é fundamental para entender as propostas, os modelos e o
conhecimento produzido no Brasil do século XIX;
para analisar o processo de difusão do conhecimento científico e tecnológico no Brasil do século XIX;
para entender o caráter que tiveram essas práticas e
os padrões civilizatórios que estabeleceram. Porém,
para operar assim é necessário entender que em boa
parte dos estudos sobre o assunto a ciência aparece
de modo assemelhado àquele que Edward Thompson
dizia haver sido usado para analisar-se a lei: “na forma de um marxismo sofisticado, mas (em última instância) altamente esquemático, que, para nossa surpresa, parece brotar das pegadas daqueles que, entre
nós, pertencem a uma tradição marxista mais antiga” (Thompson, 1987, p. 349). Para os adeptos desta
tradição, a ciência é por definição uma parcela da
“superestrutura” que se adapta às necessidades de
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uma infra-estrutura de forças produtivas e relações
de produção. Em outras palavras, um instrumento
dos grupos dominantes que define e viabiliza o domínio sobre a força de trabalho. O entendimento é o
de que a ciência e a tecnologia estabelecem e legitimam formas de saber, regras e sanções que confirmam e consolidam o poder do grupo dominante.
Deste modo, o poder da ciência seria o da legitimação
do domínio de um grupo social. Por isto, os adeptos
da teoria marxista muitas vezes entendem a ciência
“como um fenômeno do poder e da hipocrisia da classe dominante” (Thompson, 1987, p. 350).
Tomar a ciência deste modo seria fazer tabula rasa
do terreno da historiografia, tentando descobrir algo
que pode ser conhecido sem nenhuma investigação.
Daí a necessidade de abandonar alguns pressupostos correntemente aceitos. É necessário aceitar parte
da crítica marxista. De fato há evidências que confirmam as funções da ciência e da tecnologia como expressão de um grupo social. Mas, é preciso considerar também a ciência em termos de sua lógica, das
suas regras e dos seus próprios procedimentos. A
ciência como ciência, sem a qual não é possível conceber a organização da vida em uma sociedade complexa. A ciência, “como outras instituições que, de
tempos em tempos, podem ser vistas como mediação (e mascaramento) das relações de classe existentes (como a Igreja ou os meios de comunicação) tem
suas características próprias, sua própria história e
lógica de desenvolvimento independentes”
(Thompson, 1987, p. 353).
Os estudos sobre ciência e tecnologia não podem
estar subordinados a uma perspectiva teleológica.
Para que a pesquisa histórica tenha significado é fundamental que o pesquisador renuncie àquilo que deseja, que acredita que deve ser ao investigar o que é
e o que foi.
O processo civilizador é considerado neste trabalho a partir da abordagem de Norbert Elias (Elias,
1994). Ele acredita que o homem é socialmente civilizado. A civilização é o resultado de um processo ao
qual as pessoas são submetidas. Elias ocupa-se da
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história a partir de agentes individuais que se apresentam combinados com outros em configurações específicas. Para tanto, é fértil o seu diálogo com Freud
(Freud, 1996, 15-19), uma vez que segundo este último, a inclusão do indivíduo num grupo vem acompanhada de práticas que devem ser incorporadas.
Buscando a felicidade, o homem procura escapar às
imposições da civilização e eliminar as práticas que
lhe causam sofrimento. Mas, a realização fora dos
padrões de civilidade também não é possível. Então,
é preciso adotar as práticas conhecidas, utilizandoas como mecanismo de proteção.
Os procedimentos adotados por este trabalho consideram que
conceitos como indivíduo e sociedade não
dizem respeito a dois objetos que existiram
separadamente, mas a aspectos diferentes,
embora inseparáveis, dos mesmos seres humanos (...). Ambos se revestem do caráter
de processos e não há a menor necessidade, na elaboração de teorias sobre seres humanos, de abstrair-se este processo-caráter. Na verdade, é indispensável que o conceito de processo seja incluído em teorias
(...) que tratem de seres humanos. (...) Podese dizer com absoluta certeza que a relação entre o que é denominado conceitualmente de indivíduo e de sociedade permanecerá incompreensível enquanto esses
conceitos forem usados como se representassem dois corpos separados, e mesmo
corpos habitualmente em repouso, que só
entram em contato um com o outro depois,
por assim dizer (Elias, 1994, p. 220-221).
1. OS INTELECTUAIS DO SÉCULO XIX
Eugênia Andrade Vieira da Silva estudou a formação da elite intelectual em Sergipe no período de
1822 a 1889 (Silva, 2004). A partir do seu trabalho é
possível afirmar que inicialmente a elite intelectual
sergipana era formada no exterior. Contudo, até a meRevista da Fapese de Pesquisa e Extensão, v. 1, p. 7-22, mar./jun. 2005
tade do século, a maior parte dos portadores de diploma de graduação já era oriunda das faculdades
de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro e dos cursos jurídicos de Olinda e São Paulo, além das escolas militares e dos seminários. O crescimento da produção açucareira em Sergipe e as outras necessidades de organização da Província estimularam a demanda por escolas superiores do Brasil e da Europa,
durante toda a primeira metade do século XIX, fenômeno que persistiu também durante a segunda parte
da mesma centúria. Esses estudantes eram, predominantemente, filhos da elite econômica e buscavam
a legitimação como intelectuais possuidores de diplomas através da publicação de trabalhos de caráter científico.
Assim, é possível afirmar que durante o século
XIX foi constituído um campo intelectual em Sergipe,
do qual participou um número significativo de cientistas, não obstante boa parte dos estudos sobre esse
tema atribuir a formação de tal campo ao período
republicano. Estudar a intelectualidade dos anos oitocentos permite entender a falácia de alguns estudos para os quais a elite daquele período seria iletrada
e detentora apenas do “poder econômico e político,
sem nenhuma vinculação com o campo intelectual,
o que de imediato parece algo paradoxal, pois, a suposição é a de que ninguém chega a ocupar posição
de mando na sociedade sem que se utilize a capacidade mental” (Silva, 2004, p. 5). O campo que se
constituiu deu visibilidade aos intelectuais e permitiu a existência de uma rede de instituições escolares públicas e privadas, bem como outras organizações científicas e tecnológicas que amparavam os estudiosos. Quando se estuda o funcionamento dessas
instituições no Brasil dos anos oitocentos, fica bem
claro que
a institucionalização da Ciência que se
acentuou no final do século XIX vinha se
forjando havia tempo. Certamente, se não
existissem escolas de ensino secundário e
superior, museus, agremiações científicas
e outras instituições por onde circulassem
os conhecimentos, não haveria na socie-
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dade o lastro científico-cultural que propiciou a ampliação significativa do quadro
das instituições de cunho científico na virada do século (Almeida, 2003, p. 31).
É importante assinalar que essa intelligentsia era
composta não apenas por intelectuais portadores de
diplomas emitidos pelas faculdades, mas também por
estudiosos que não possuíam formação superior (Silva, 2004, p. 2). No estudo de Eugênia Andrade Vieira
da Silva foram selecionados 400 nomes reconhecidos à época como intelectuais. Destes, 260 eram portadores de diplomas emitidos por instituições de
ensino superior, enquanto 140 não tiveram acesso a
esse tipo de formação. Dentre os que obtiveram formação superior, 254 o fizeram no Brasil e apenas seis
em instituições estrangeiras. Os médicos, farmacêuticos, engenheiros agrônomos, engenheiros civis e
militares eram a maioria dentre os intelectuais que
possuíam formação obtida em curso superior. Os que
não possuíam diplomas emitidos por faculdades eram
legitimados por seus pares diplomados e não
diplomados que exercem o controle do campo no qual
atuavam.
Era esta a elite intelectual do século XIX. Um grupo que, pelas suas características se sobrepunha a
outros grupos, uma vez que o conceito de elite “designa um pequeno grupo que, num conjunto mais
vasto – religioso, cultural, político, militar, econômico, social ou outro – é tido como superior pelas suas
funções de mando, de direção, de orientação ou de
simples representação” (Barata e Bueno, 1999). A
elite intelectual sergipana é, assim, concebida “como
sendo composta por vários grupos constituidores,
oriundos de diferentes elites profissionais, que contribuíram para a formação de uma totalidade” (Silva,
2004, p. 6).
Nessa elite intelectual, boa parte dos seus membros exerceu atividades ligadas ao campo da chamadas humanidades, principalmente os que receberam
formação nas escolas de Direito e nos seminários. As
atividades ligadas ao campo das chamadas ciências
da natureza foram próprias, principalmente, dos que
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receberam formação em Medicina e Engenharia, além
dos militares. Os engenheiros, contudo, adquiriram
maior visibilidade social durante a segunda metade
do século XIX, após a criação da Escola Politécnica,
em 1874 (Coelho, 1999, p. 94). Autores como José Gonçalves Gondra afirmam que a ação dos médicos foi
muito importante no projeto civilizatório da sociedade brasileira (Gondra, 2000, p. 25). Os médicos, os
farmacêuticos e os cirurgiões dentistas deram significativas contribuições para o desenvolvimento de campos científicos como a Química, a Biologia e a Botânica. Os engenheiros e os militares contribuíram com a
pesquisa que viabilizou a execução de “obras básicas
da modernidade do país, como as dos serviços públicos urbanos” (Silva, 2004, p. 16), além de estimularem a pesquisa em campos como os da Física, da Matemática, da Geografia e da Astronomia.
2. A CIÊNCIA NO SÉCULO XIX
A mentalidade vigorante no século XIX reivindicava a organização das práticas científicas em instituições de ensino superior e sociedades de especialistas. O cientificismo predominante afirmava que
somente o conhecimento obtido através dos padrões
de produção do saber científico tornaria possível o
progresso, telos almejado pelo mundo ocidental, através das vozes mais autorizadas do continente europeu, dos Estados Unidos da América, do Brasil e de
muitas outras nações. A organização das redes de
instituições científicas, contudo, era ainda uma novidade, mesmo na maior parte do Estados nacionais
europeus. Ainda no século XVII, a Inglaterra e a França começaram a institucionalizar o processo de produção do conhecimento científico, através da organização da Royal Society e da Academie des Sciences.
A base era o modelo de Isaac Newton, que ajudava a
definir o que era e o que não deveria ser ciência
(Schwartzman, 1979).
Em 1831, os britânicos criaram a Britsh
Association for the Advance of Science. Os ingleses
estavam preocupados com o emprego da ciência para
a incorporação de tecnologias que aperfeiçoassem a
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agricultura, a indústria têxtil, o uso do carvão como
fonte de energia, principalmente com a criação da
máquina a vapor, a mineração, o transporte e a produção de ferro e aço (Santos, 1998, p. 27).
No século XIX, a Alemanha tomara a dianteira desse processo e conseguira organizar uma estrutura de
instituições universitárias de pesquisa e formação de
recursos humanos. Outras nações buscaram também
estabelecer uma organização nesse sentido, muitas
delas procurando orientar-se pelo modelo alemão, a
exemplo dos Estados Unidos da América. Com o objetivo de estimular o atendimento das necessidades
de crescimento econômico, um dos modelos que encantou o mundo foi o das estações agrícolas experimentais, financiadas pelo Estado e dirigidas pelos produtores e por suas associações (Santos, 1998, p. 26).
Ao analisar-se a influência alemã na cultura brasileira ao longo do século XIX, sobressai a contribuição dos evolucionistas e monistas daquele país. O
aporte da cultura alemã contribuiu para com a sistematização de todo um quadro de cientificismo, buscando consolidar no Brasil um pensamento científico assentado sobre base materialista. Todas as coisas
eram subordinadas ao movimento da matéria. Um
materialismo respaldado pelo evolucionismo que
rejeitava qualquer possibilidade de conciliação entre os interesses científicos e religiosos. Ao influenciar o pensamento brasileiro, o evolucionismo, que
aqui chegou através da intelectualidade alemã, disseminou uma concepção de ciência como fato histórico, afirmando a relatividade do conhecimento humano. Era dessa forma que se punha o evolucionismo de Haeckel.
Desde o século XVIII, a pesquisa científica internacional tinha como principal característica o trabalho desenvolvido pelos naturalistas, através da descrição e da classificação de plantas, animais e fenômenos geológicos. “Foram lançadas as bases iniciais
das teorias evolucionistas, e Lavoisier deu início à
Química moderna. Avançou o estudo da matéria, da
eletricidade, do magnetismo e dos fenômenos de calor e energia” (Santos, 1998, p. 28). O avanço desse
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modelo na centúria seguinte fez com que se multiplicassem as turbinas, os dínamos, os motores elétricos e as instalações químicas (Bernal, 1969).
O processo de expansão da atividade científica e
a intensificação das suas relações com a economia
de mercado fizeram com que as sociedades científicas nem sempre conseguissem conter os experimentos e a produção do conhecimento científico estimulados pelas corporações econômicas e pela iniciativa individual de muitos estudiosos. Ademais, se multiplicavam geometricamente as sociedades de Química, de Geologia, de Astronomia e de tantos outros
campos, bem como o interesse da imprensa periódica especializada e o interesse dos jornais, de um modo
geral, pelos temas científicos.
No Brasil do século XIX, após a transferência da
corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, foram criadas instituições científicas como a Academia de Guardas-Marinha, o Colégio Médico-Cirúrgico da Bahia, a Escola Médico-Cirúrgica do Rio de
Janeiro, a Biblioteca Nacional, a Imprensa Régia, a
Academia Real Militar, o Museu Real e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Inaugurou-se também o ciclo de viagens e expedições científicas. Todavia, desde o período colonial havia uma atividade científica
desenvolvida por diferentes intelectuais europeus
que de estabeleceram no Brasil e por intelectuais brasileiros que estudaram em universidades européias.
Alguns períodos chamam a atenção, como o da ocupação holandesa, quando Maurício de Nassau, no século XVII, trouxe para o território brasileiro um grupo de cientistas encarregados de realizar estudos
sobre a natureza tropical brasileira. Foi grande, nesse período, a contribuição do
médico de Amsterdã, Guilherme Piso
(Willem Pies), e George Marcgrave, naturalista alemão, que fizeram, sobre a medicina colonial e a flora e a fauna do país,
observações de interesse científico, reunidas posteriormente (em 1648) na sua famosa Historia naturalis Brasiliae (Azevedo, 1994, p. 29).
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Nassau também foi responsável pela fundação da
imprensa, bibliotecas, museus e do primeiro observatório astronômico brasileiro, além de impulsionar
“a arquitetura sob a inspiração de Peter Post, que traçou os planos de uma grande cidade de sobrados e
canais”. O governante holandês do Brasil tropical estimulou ainda “numerosas expedições científicas”
(Azevedo, 1994, p. 29).
A ciência que se praticava no Brasil na primeira
metade do século XIX era fortemente influenciada
pelo espírito da ciência européia desde a segunda
metade do século XVIII, principalmente depois que
o Marques de Pombal reformou a Universidade de
Coimbra, em 1772, o que possibilitou a implantação
de novos cursos, como os de Botânica, Geologia,
Mineralogia e Metalurgia, criados em 1791. Foi nessa instituição portuguesa de ensino superior que se
formaram importantes nomes da ciência brasileira
no período: o astrônomo e geógrafo Francisco José
de Lacerda e Almeida2; Azeredo Coutinho3; o explorador, médico, naturalista, geógrafo e etnógrafo Alexandre Rodrigues Ferreira4; e, o mineralogista José
Bonifácio de Andrada e Silva.
Durante o Primeiro Império foram criadas as faculdades de ciências jurídicas de Olinda e São Paulo e as de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, a
partir da transformação dos cursos criados por D.
João VI. A Regência reformou os cursos de Engenharia Civil, Militar e Naval. Já sob o Segundo Império, em 1858, a Escola Militar foi transformada
em Escola Central, criando-se as seções de Ciências Naturais e Matemáticas e de Ciências Físicas e
Matemáticas. Sob o ministério do Visconde do Rio
Branco, a instituição foi reformada e transformada
em Escola Politécnica, com os cursos de Ciências
Matemáticas, Físicas e Naturais. O Visconde fundou também, em 1875, a Escola de Minas, para for-
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mar engenheiros especialistas em Mineralogia, Geologia e Minas.
A difusão no Brasil de todo o debate sobre ciência e cultura que se irradiava por toda a Europa a
partir, principalmente da Alemanha, recebeu forte
estímulo de uma conjunção de fatores, dentre os
quais é possível destacar o crescimento do protestantismo, não apenas tolerado, mas, também, intensivamente estimulado pelo Estado monárquico. Desde os primeiros anos após a independência é possível encontrar evidências indicadoras desse estímulo, no bojo da política de substituição da mão-deobra escrava empreendida pela monarquia brasileira, a exemplo da remuneração dos pastores protestantes patrocinada pelo Governo do Brasil a partir
de 1825, apesar de ser o Estado oficialmente católico. Ou, da Fala do Trono de maio de 1858, quando o
Imperador Pedro II defendeu junto ao Parlamento a
concessão da liberdade de culto às religiões protestantes. Tradição protestante que o Brasil já conhecera bem antes mesmo do período da ocupação holandesa em Pernambuco. No primeiro século da colonização, em 1555, quando Nicolas Villegagnon fundou
a França Antártica na Baía de Guanabara, o almirante Coligny montou a estratégia de estabelecer colônias protestantes no Brasil. Em 1557 chegou o primeiro contingente de refugiados huguenotes que o
almirante havia solicitado a Jean Calvin. O VisitadorGeral Heitor Furtado de Mendonça, quando da primeira visitação do Santo Ofício a Pernambuco já
denuncia em seu relato uma forte presença de comerciantes protestantes alemães. Gilberto Freyre
relata problemas vividos pela Província de Pernambuco, em 1858, a fim de sepultar alemães protestantes, quando estes faleciam em Recife. Problema
que era resolvido sempre pelo Consul de S. M. Britânica, que autorizava o sepultamento no Cemitério
dos Ingleses.
Francisco José de Lacerda e Almeida nasceu em São Paulo, no ano de 1750, e morreu em 1802. Juntamente com o
mineiro Antônio Pires da Silva Pontes elaborou mapas e determinou com a exatidão a posição dos rios e de boa
parte dos acidentes geográficos das capitanias de Rio Negro, Cuiabá e Mato Grosso.
O bispo Azeredo Coutinho foi o fundador do Seminário de Olinda, em 1798.
Alexandre Rodrigues Ferreira estudou a Zoologia, a Botânica e várias populações indígenas do Norte e do Centro do
Brasil.
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De um modo geral, o mercado editorial brasileiro
do século XIX dá bem a medida dessa influência. A
primeira editora brasileira, a Livraria Universal, fundada em 1833 (Paixão, 1996, p. 14), tinha como sua
principal atividade a tradução de originais alemães.
Outro bom indicador é o processo de estabelecimentos das colônias de alemães que se expandiu desde
as primeiras décadas do século XIX, a partir da Bahia.
A primeira dessas colônias a funcionar no país foi a
Leopoldina, instalada em 1823 na vila Viçosa, região
de Porto Seguro. Segundo Antônio Moniz de Souza
seus fundadores eram naturalistas.
leira que se alonga, embora em curvas ascendentes e descendentes, desde o crepúsculo do período colonial até nossos dias,
passando pelo Império, é a botânica, na
exploração de cujos domínios se apresenta toda uma linhagem, iniciada por Alexandre Rodrigues Ferreira e por frei José
Mariano da Conceição Veloso6 e continuada, entre outros, por Freire Alemão e, mais
tarde, por Barbosa Rodrigues, talvez o
maior botânico que o Brasil já produziu
(Azevedo, 1994, p. 34).
O estado prodigioso desta colônia está acima de
tudo que dizer-se possa. O arranjo, a limpeza, a economia, o verdadeiro método de agricultores civilizados, a boa ordem é por esta gente posta em prática.
Suas casas bem repartidas e mobiliadas, as mobílias
são por eles mesmos feitas, suas hortas são abundantes de toda hortaliça; grandes pomares; eles usam de
máquinas que suavizam o trabalho, cultivam os frutos
do Brasil; porém o café é o seu forte5; seus escravos são
mais felizes que a maior parte de seus vizinhos livres,
que sem hábito do trabalho jazem na miséria. (...) os
colonos na abundância, possuindo já embarcações em
que fazem as exportações dos seus gêneros para a Bahia
e Rio de Janeiro (Souza, 2000, p. 189-190).
Segundo Mário Guimarães Ferri, a botânica no
Brasil começou com o índio.
Dentre as várias áreas nas quais a pesquisa no Brasil se desenvolveu, além de muitas outras já referidas
por este texto, chamam a atenção a Antropologia Física, a Fisiologia Experimental, a Zoologia, a Astronomia, a Matemática, a Geografia e a Geologia. Contudo,
das ciências de investigação, a única de
que se pode encontrar uma tradição brasi-
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Indo à caça, o índio levava arco e flecha. Flecha às vezes envenenada com veneno tirado
de certas plantas. O arco compunha-se de
arco propriamente dito e da corda que ligava
seus extremos. Não era qualquer madeira
que servia para a confecção do mesmo.
Nem todas as tribos empregavam para isso
os mesmos materiais (Ferri, 1994, p. 175).
Os índios fabricavam as suas habitações com vegetais, teciam redes com fibras, fabricavam bebidas
fazendo fermentar a mandioca, pintavam o corpo com
tintas de jenipapo, cultivavam algodão, fumo, mandioca, batata doce, milho, feijão e amendoim, conheciam plantas medicinais. Enfim, dominavam algo que
poderia ser chamado de cultura botânica. Os padres
Manoel da Nóbrega e José de Anchieta registraram
na sua correspondência o uso que os índios faziam
das folhas de fumo e Hans Staden comentou a exploração do pau-brasil.
Em 1833 a colônia exportou cem mil arrobas de café. Segundo Ubiratan Castro de Araújo, “a Colônia Leopoldina foi
o mais moderno e mais importante empreendimento escravista na Província da Bahia, dedicada exclusivamente à
cafeicultura. Extinguiu-se em 1888 com a abolição da escravidão” (Souza, 2000, p. 190).
Segundo Fernando de Azevedo, “Dos numerosos trabalhos de frei José Mariano da Conceição Veloso, o mais importante
é, por certo, a Flora fluminensis, seu descriptionum plantarum etc, publicada em 12 tomos e 7 volumes (Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, 1825-1827). Foi, como se vê, editado 14 anos depois de sua morte que ocorreu em 1811,
três anos após a sua volta do reino. Durante sua permanência em Portugal (...), publicou, entre outras, a obra
verdadeiramente interessante sob tantos aspectos, Fazendeiro do Brasil, melhorado na economia rural etc., em 5
tomos e 11 volumes (Lisboa, 1798)” (Azevedo, 1994, p. 45-46).
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A opção de muitos intelectuais brasileiros dos séculos XVIII e XIX foi por um campo científico de
muito prestígio para os naturalistas desde o século
XVII, em todo o mundo: o da Botânica. Assim, são
muitos os registros existentes no Brasil e em outras
partes do planeta a respeito do sucesso que tinham
os botânicos como cientistas. Natalie Zemon Davis
relata a trajetória de Maria Sibylla Merian, uma naturalista do século XVII, que abraçou a Botânica, a
Entomologia e a Pintura como profissão (Davis, 1997).
Numa época em que das mulheres se cobrava recato, Sibylla embarcou em Amsterdam, no mês de junho de 1699, com sua filha Dorothea, em direção ao
Suriname, onde pretendia estudar e pintar insetos,
borboletas e plantas.
3. A BOTÂNICA EM SERGIPE
Foi sob a influência do frei José Mariano da Conceição Veloso7 que Sergipe conheceu os seus primeiros experimentos científicos, exatamente no campo
da Botânica. Quando a Capitania se tornou independente da Bahia em oito de julho de 1820, por Carta
Régia de D. João VI, o botânico Antônio Moniz de
Souza já havia viajado pelo seu território, desenvolvendo pesquisas, explorando e catalogando a flora
da região situada entre os rios Real e São Francisco.
Este campo foi aquele que inaugurou a pesquisa científica por aqui. O pesquisador era um sergipano
que havia morado no convento de Santo Antônio,
no Rio de Janeiro, durante três anos, onde aprendeu
Botânica com o famoso naturalista brasileiro, José
Mariano da Conceição Veloso, que vivia no mesmo
claustro e que, além de ministrar os ensinamentos
ao explorador sergipano, franqueou a sua biblioteca
pessoal para que este pudesse desenvolver os seus
estudos (Guaraná, 1925, p. 29). Além de estudar com
os livros do frei Mariano Veloso, Moniz de Souza
teve a oportunidade de aprofundar os seus conhecimentos acerca das propriedades curativas dos vege-
7
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tais trabalhando na botica da enfermaria do mesmo
convento, onde se encarregava de tirar extratos e fazer cozimentos.
Fazer viagens e expedições era responsabilidade
dos botânicos e de outros naturalistas até o início do
século XX. Deles se cobrava o espírito aventureiro.
A vida dos cientistas era marcada por muitas reviravoltas. Ao discutir a vida da alemã Maria Sibylla,
Natalie Davis demonstrou que esta ganhou fama
como cientista na Holanda, depois que voltou da
América carregada de espécimes. Publicou “sua grande obra Metamorphosis insectorum surinamensium
(Metamorfose dos insetos surinameses), ampliou seu
trabalho sobre Insetos europeus e até sua morte, em
1717, ocupou lugar de destaque entre os botânicos,
cientistas e colecionadores de Amsterdam” (Davis,
1997, p. 133).
Em 1812, um ano depois da morte do frei José
Mariano da Conceição Veloso, Antonio Moniz de Souza resolveu abandonar o convento e embarcou para
a Bahia, onde obteve licença do governador da Bahia,
o Conde dos Arcos, para realizar uma expedição pelos sertões daquela Capitania, também por ele financiada. A área escolhida como objeto de estudo por
parte da expedição que Antonio Moniz comandou
corresponde ao território delimitado por D. João VI
para a Capitania de Sergipe D’El Rey, nos limites do
território baiano com Pernambuco e Alagoas
(Guaraná, 1925, p. 29).
Antonio Moniz de Souza optara por realizar estudos a partir da região onde nascera em 1782, nas
margens do Rio Real de Nossa Senhora dos Campos
(atualmente município de Tobias Barreto), termo da
vila do Lagarto. Iniciada a sua expedição em 1817,
o pesquisador dedicou o primeiro ano do seu trabalho a investigar o sertão baiano, na região de Cachoeira de Santo Estevão de Jacuípe, Camisão,
Orobó e Jacobina. No ano seguinte, a partir do mês
O frei José Mariano da Conceição Veloso nasceu em Minas Gerais no ano de 1742 e faleceu em 1811. Na obra Flora
fluminensis ele descreveu 1.700 espécies.
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Jorge Carvalho Nascimento
de maio, Moniz de Souza embrenhou-se pelas matas de Sergipe, nas quais permaneceu durante um
ano, recolhendo as espécies que encontrou na região de Lagarto, nas margens do rio São Francisco,
em Própria, em Itabaiana, em Brejo Grande, em
Xingó e em Canindé. A partir de 1820, partiu de
Salvador pelo sertão, atravessando Sergipe, outra
vez, em direção ao Pará. Suspendeu sua viagem no
interior de Pernambuco, em julho de 1822, regressando para Sergipe, onde se incorporou ao Batalhão
do Imperador com o objetivo de lutar na guerra pela
Independência do Brasil, marchando para a Bahia
a fim de reunir-se ao exército pacificador, com o
qual chegou a Salvador em dois de julho de 1823
(Edelweis, 1944, p. 28). Para que se compreenda a
importância da iniciativa de Antônio Moniz de Souza, até então o único registro sistematizado conhecido sobre a flora sergipana eram algumas referências existentes na Historia naturalis Brasiliae, “escrita por Marcgrave e publicada por João de Laet
em 1648” (Ferri, 1994, p. 180). Os trabalhos do estudioso holandês
constituem a primeira contribuição importante para os estudos florísticos do Nordeste. Muitos dos nomes vulgares de plantas
que figuram na Flora Brasiliensis [de
Martius] são os que foram coligidos por
Marcgrave. Este autor herborizou no Rio
Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco,
Alagoas, Sergipe, Bahia, Ceará e Maranhão
(Ferri, 1994, p. 180).
Até o final do século XIX, a vida dos cientistas
era repleta de aventuras. Seus trabalhos de observação e representação ajudavam a incorporar uma visão de mundo. Foram importantes e exerceram grande influência na formação da consciência sobre o
8
Brasil no século XIX os relatos feitos por pesquisadores que integraram as muitas expedições científicas daquele período. Bons exemplos são as viagens
empreendidas pelo Barão Heinrich von Langsdorf e
por Herman von Jhering.
Observar a vida de Antônio Moniz de Souza e a
sua trajetória como cientista é conhecer um homem
curioso, obstinado e versátil. O botânico sergipano
era filho de Domingos de Souza e Oliveira e Victorina
Francisca Abreu Leite. Ainda jovem foi trabalhar na
fazenda de gado do seu pai, da qual se retirou, já
com dezoito anos de idade, para atuar como comerciante durante cinco anos. Nomeado para o cargo de
capitão de forasteiros, entrou em conflito com salteadores8 ligados ao sargento-mor Bento José de Oliveira, resolvendo logo depois partir para Portugal,
“disposto a oferecer seus serviços militares em defesa da metrópole, então invadida em 1807 pelas tropas de Napoleão sob o comando de Junot, não conseguindo realizar o seu patriótico intento, por ter
naufragado na ilha de Itamaracá, em Pernambuco”
(Guaraná, 1925, p. 29). O naufrágio fez com que Antonio Moniz de Souza perdesse os recursos destinados à viagem, forçando-o a partir para o Rio de Janeiro, onde morou, como leigo, no convento de Santo
Antônio.
A partir do final do ano de 1824, o botânico de
Sergipe empreendeu uma nova viagem, saindo de Salvador, a pé, em direção ao Rio de Janeiro, costeando
o mar. Nesse período fez novas explorações e estudos da flora. Em seguida, já estabelecido na capital
do Império fez viagens exploratórias no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. A mulher com a qual casou
era natural de Macacú, no Rio de Janeiro. Viveu, sem
filhos, na sua chácara em Santa Rosa, município de
Niterói, até morrer, no dia 17 de setembro de 1857.
Ubiratan Castro de Araújo, ao comentar a juventude de Antonio Moniz de Souza na vila de Lagarto, então
Capitania da Bahia, afirma que “a ausência de ordem pública decorrente do descaso das autoridades do império
português em relação aos interiores das capitanias do Brasil dava lugar à ação criminosa de grupos armados,
ligados ou acobertados por autoridades da capital, pela qual impunham o seu poder sobre os moradores das
vilas, sobre os lavradores e rústicos do interior, apropriando-se por esse meio de suas riquezas e
propriedades”(Araujo, 2000, p. 6).
Revista da Fapese de Pesquisa e Extensão, v. 1, p. 7-22, mar./jun. 2005
Anotações sobre a botânica em Sergipe durante a primeira metade do século XIX
Verdadeiro apóstolo da civilização e da ciência,
Moniz de Souza impôs-se a missão de derramar o
bem em torno de si e de ser útil à sua pátria, servindo de catequista dos índios e das raças mestiças semiselvagens do país, ao mesmo tempo que, percorrendo os nossos sertões durante 28 anos de viagens contínuas, obedecia ao seu gênio indagador e analista,
estudando muitos vegetais cujas virtudes até então
desconhecidas vieram enriquecer a Medicina brasileira (Guaraná, 1925, p. 29).
A sua contribuição ganha relevo quando se considera que somente em meados do século XVIII fora
efetivamente estabelecido um sistema de classificação das espécies vegetais9. Além da sua atividade
como botânico, Antonio Moniz de Souza fez experimentos e descobertas nos campos da Mineralogia e
da Zoologia. Os exemplares que coletou durante três
décadas de trabalho foram oferecidos ao Museu Nacional e os resultados dos estudos que realizou em
Sergipe e em outras regiões do Brasil estão publicados no livro Viagem e observações de um brasileiro,
que, desejando ser útil à sua pátria, se dedicou a estudar os usos e costumes de seus patrícios e os três
reinos da natureza em vários lugares e sertões do
Brasil: oferecidas à nação brasileira. Planejado para
ser publicado em dois tomos, somente o primeiro
entrou em circulação, no ano de 1834, com 218 páginas. A Tipografia Americana, de I. P. Costa, sediada
no Rio de Janeiro, não conseguiu publicar o segundo
tomo. No primeiro, além das observações sobre as
ciências naturais que preocupavam o autor, há também um relato sobre a revolução da Independência
nas Províncias da Bahia, Sergipe e Alagoas. O tomo
primeiro ganhou uma nova edição no ano 2000. O
Instituto Geográfico e Histórico da Bahia reeditou o
livro, que já fora republicado pela revista do mesmo
IGHB, em 1945.
9
17
O segundo tomo nunca chegou a circular em forma de livro. Foi publicado pelo mesmo periódico,
duas vezes (1924 e 1946), sob o título “Descobertas
curiosas que nos reinos vegetal, animal e mineral,
por sítios e sertões vários das brasílicas Províncias
Bahia, Sergipe e Alagoas, fez o capitão Antonio Moniz
de Souza e Oliveira, natural da primeira, com uma
breve descrição primordial do lugar de nascimento e
princípios de sua educação. Oferecidas ao Augusto
Chefe da Nação Brasileira o Senhor D. Pedro Primeiro, Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil”. Na
Revista do IGHB, o texto contém uma apresentação
de Frederico Edelweiss. Os originais foram oferecidos, em 1846, ao Instituto Histórico, Geográfico e
Etnográfico do Brasil pelo coronel Ignácio Acioli de
Cerqueira e Silva. O tomo contém um catálogo de
ervas, plantas, raízes, resinas e drogas.
Na apresentação que faz desse texto, Frederico
Edelweiss afirma que o trabalho representa uma importante contribuição para o conhecimento da medicina (Edelweiss, 1946). Foram 193 espécies catalogadas por Antônio Moniz de Souza em suas viagens na
Bahia, em Sergipe e em Alagoas. Mais da metade delas era desconhecida pelos pesquisadores em 1854,
quando foi publicado o “Sistema da Matéria Médica
Vegetal”, traduzido por Henrique Veloso de Oliveira,
trinta anos depois do levantamento feito pelo botânico aqui estudado. “Mesmo na terceira edição do ‘Dicionário Brasileiro de Plantas Medicinais’, de Meira
Pena, ainda faltam umas quarenta dentre as citadas
pelo nosso ‘Homem da Natureza’” (Edelweiss, 1946).
O livro de Antonio Moniz de Souza, além de estudar
o meio ambiente e as espécies vegetais, é um testemunho importante do processo de transição e da vida das
pessoas no momento em que o Estado brasileiro ganhava autonomia e se separava do império português.
“Carl von Linné (1707-1778), nascido na Suécia, é mais conhecido na versão latina do seu nome Carolus Linnaeus.
Sempre interessado nas plantas, viajou 1.182 quilômetros através do norte da Escandinávia, onde descobriu centenas
de espécies novas de plantas. Viajou também pela Grã Bretanha e pela Europa Ocidental. Em 1735, publicou
Systema Naturae (Sistemas da Natureza), no qual classificava numerosas plantas, estendendo essa classificação,
em edições posteriores, aos animais” (Asimov, 1993, p. 338).
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Além deste livro, Antonio Moniz de Souza publicou mais quatro importantes trabalhos: Máximas e
pensamentos praticados por Antonio Moniz de Souza, o homem da natureza em suas viagens pelos sertões do Brasil desde 1812 até 1840. O trabalho foi
organizado por um amigo de Moniz de Souza e publicado com 56 páginas, pela Tipografia Niteroiense,
em 1843; “Petição dirigida a S. M. I.”, publicada pelo
jornal Philantropo do Rio de Janeiro, número 67, de
12 de julho de 1850; e, “Tratamento da morféia pela
casca da raiz de sucupira”, publicado no Correio
Sergipense, de oito de agosto de 1855.
O pesquisador Jackson da Silva Lima reproduziu o
texto publicado no Correio Sergipense por Antonio
Moniz de Souza (Lima, 1971, p. 232). Através dele é
possível perceber as preocupações do naturalista quanto
ao fato de que os seus estudos pudessem contribuir
para salvar vidas, ao tempo em que os médicos do início do século XIX, lutando pela legitimação do seu saber e pela delimitação do seu campo profissional, resistiam a admitir a incorporação das contribuições do
botânico desprovido de formação em Medicina. Contudo, o botânico sergipano nunca deixou de enviar para
os médicos e as boticas a Ipicacoanha, o Gurenhen, a
Sucupira e outras raízes e plantas medicinais que recolhia em suas incursões pelas matas. Era evidente o
entusiasmo de Moniz de Souza para com as possibilidades curativas que identificara na flora:
Nos sertões por onde percorri nas minhas
longas viagens, encontrei um número de medicamentos extraordinários, os quais todos
que pude colher os apresentava aos médicos, e os dava não só a estes, como a Academia de Medicina, mas sempre foram desprezadas, porque poucos foram os que se
puseram em prática, talvez por não ser eu
médico; mas, entre estes medicamentos, os
quais ainda me pretendo ocupar, como já o
fiz a respeito da casca de gurenhen para o
tratamento da asma, inflamação do fígado,
e de todas as úlceras, e agora o faço para
falar da casca da raiz da sucupira para o
tratamento da morféia, por ter tido ocasião
Revista da Fapese de Pesquisa e Extensão, v. 1, p. 7-22, mar./jun. 2005
de ver nas matas do Japão, na Província de
Sergipe um homem, o qual dizia ter sofrido
esta terrível moléstia e se achava curado
com o uso do cozimento e banhos desta casca, tanto interna quanto externamente: mas
não é isso que me obriga a publicar uma
coisa que tanto bem pode causar à humanidade, é ainda o ter eu aconselhado o uso
deste medicamento a uma pessoa atacada
desta moléstia, e esta achar-se com muitas
melhoras. A sucupira é planta que produz
nas matas e nos campos agrestes, é árvore
de construção e há duas qualidades dela,
uma vermelha e outra branca, porém a de
que se faz uso é da branca produzida nos
campos agrestes. Agora só me resta pedir à
Academia Imperial de Medicina, a todos os
médicos e ao mundo inteiro a quem ofereço
este meu trabalho que mande vir este medicamento, e que dele façam uso os desgraçados sofredores desta tão cruel moléstia, pois
estou certo que muitos deverão melhorar os
seus sofrimentos (Lima, 1971, p. 232).
Ao publicar este texto, Antonio Moniz de Souza deixou claro que anteriormente ocupara as páginas do
mesmo periódico, através de carta dirigida ao editor,
também reproduzida por Jackson da Silva Lima (1971):
Sr. Redator – Fiado na bondade de v. m. animo a pedir-lhe pela segunda vez a continuação do seu obséquio em imprimir o seguinte
anúncio sobre a casca da raiz da sucupira
no tratamento da morféia, assim como m’o
fez a respeito da casca de gurenhen para o
tratamento da asma, etc.; ficando v. m. na
certeza de que faz-me com isto um particular favor, e à humanidade um grande serviço. AntonioMoniz de Souza.
Apesar desse tipo de registro o próprio Moniz de
Souza confessou, em outras ocasiões, haver recebido o estímulo, inclusive financeiro, de diversas autoridades e até de médicos para que prosseguisse com
as suas pesquisas. Médicos que, aliás, em várias oca-
Anotações sobre a botânica em Sergipe durante a primeira metade do século XIX
siões mantiveram um diálogo aberto com Antônio
Moniz de Souza e aproveitaram do conhecimento sobre as plantas que este aportava como contribuição
à Medicina.
Algumas dessas ervas, raízes, e mais drogas de decidido préstimo naqueles países,
onde mais pelas virtudes delas que pelos
conhecimentos dos habitantes, fazem curas milagrosas, são as mesmas que já por
vezes tenho apresentado em varias partes,
e muito mais na Bahia, (...) aos peritos da
arte médica, (...) examinadas, primeiro
para ordem do Exmo. Conde dos Arcos,
insigne patrocinador dos gênios e artes, a
quem tanto deve a Bahia, e depois pelo de
Palma, quando ali governaram. Foi por todos aprovado o meu trabalho, atenta a utilidade e eficácia desses remédios, com que
a bem da existência humana tanto se pode
enriquecer a Medicina; e aqueles Exmos.
Condes patrocinaram, e animaram as más
fadigas, não tanto para indução, que para
elas me fizeram verbalmente, quanto para
19
subscrição em que primeiro assinaram, e
concorreram com duas ofertas generosas
de companhia com os professores médicos,
e outros muitos cidadãos e proprietários do
Recôncavo, em virtude do que continuei
nas descobertas, e conduzi o fruto delas;
que de novo apresentei e fui muito (...) aceito (Souza, 1946).
O nome de Antônio Moniz de Souza pode ser colocado ao lado de Langsdorf, Saint Hilaire, Spix,
Martius e outros empreendedores de viagens científicas ao interior do Brasil com o objetivo de descobrir riquezas dos reinos animal, mineral e vegetal.
Com a grande diferença de que os demais investigadores estavam a serviço de potências estrangeiras,
enquanto Moniz de Souza viajou servindo aos interesses do Brasil.
O discurso do botânico Antônio Moniz de Souza
incluía também uma expressiva preocupação para
com a necessidade de preservar as espécies vegetais.
Já nas primeiras décadas do século XIX estava denunciando o risco de extinção do Pau-Brasil e pre-
Figura 1: Reprodução da capa do livro de Antonio Moniz de Souza, Viagens e obser vações de hum brasileiro. 1834.
Fonte: Acervo da Biblioteca Pública Epifânio Dória.
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gando a necessidade de proibir-se o corte de tal madeira, além de alertar para o fato de que a exploração
da espécie servia apenas para enriquecer comerciantes e exportadores estrangeiros, afirmando que
àquela altura já se estava também extinguindo, no
território da Bahia, a Tabagiba, ou Amoreira, que até
o século XVIII ali se encontrava abundantemente
(Souza, 2000, p. 85). Dois outros graves problemas à
proteção ambiental do Brasil também apontados foram o da caça e o da produção agrícola. O entendimento era o de que os métodos empregados então
pela agricultura eram extremamente danosos, principalmente o hábito de “no tempo de estio lançar
fogo às frondosas matas para se divertirem com o
incêndio e (...) para na limpa que o fogo faz plantar
alguns pés de abóboras”, reduzindo a cinzas “léguas
de matas aformoseadas de preciosos troncos” (Souza, 2000, p. 98). Também denunciava a extração do
óleo de Copaíba, afirmando que para a colheita do
produto as árvores eram derrubadas com machado,
comprometendo a reprodução da espécie. Do mesmo modo, a caça era uma atividade extrativista tida
também como destruidora e desordenada, que agredia o meio ambiente indistintamente. Todo o
extrativismo, aliás, era entendido por ele como ruim,
fosse a extração do mel de abelhas, de frutos ou a
matança de animais.
O caçador meleiro, homem estúpido e insensível, vai arrombar o cortiço das abelhas para lhes roubar todo o mel, único recurso que elas têm para o
seu sustento. Chega o insensato com machado junto
da frondosa árvore, em cujo tronco está depositado
o cortiço de abelhas, lança-lhe o machado desbaratando o asilo dos incansáveis e industriosos
animaizinhos, estes saem a defender a sua propriedade com as tênues armas que a natureza lhes concedeu, mas quando encontram desmanchada a sua
casa, e julgam já baldados os seus esforços e inútil a
resistência, vão reunir-se aos filhinhos postos e lançados por terra sem vida (Souza, 2000, p. 99).
Para Antônio Moniz de Souza era possível praticar a agricultura e cultivar a terra sem recorrer aos
incêndios das florestas. Era possível produzir o mel
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e a cera e extraí-lo racionalmente, sem agredir as
abelhas.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo buscou compreender o processo de organização das primeiras práticas de pesquisa científica
em Sergipe. Diferentes propostas e práticas de pesquisa
marcaram, ao longo do século XIX, a atuação dos intelectuais que habitaram esta parte do território brasileiro
que é Sergipe. Tanto durante o período da Capitania
quanto, após a organização do Império, sob a condição de Província, Sergipe colaborou no processo de organização de uma rede brasileira de práticas científicas. Estudando essas contribuições se compreende a
ciência em termos de sua lógica, das suas regras e dos
seus próprios procedimentos. A ciência como ciência,
organizando a vida em uma sociedade complexa.
Durante o século XIX foi constituído um campo
intelectual em Sergipe, do qual participou um número significativo de cientistas. Esse campo deu visibilidade aos intelectuais e permitiu a existência de
uma rede de instituições escolares públicas e privadas, bem como outras organizações científicas e tecnológicas. Os cientistas do século XIX eram intelectuais portadores de diplomas emitidos pelas faculdades e também estudiosos que não possuíam formação superior. Os integrantes do campo exerceram
atividades ligadas às chamadas humanidades e às
ciências da natureza. Neste último grupo se destacaram médicos, engenheiros, militares e farmacêuticos. Esses intelectuais sistematizaram um quadro de
cientificismo, buscando consolidar um pensamento
científico assentado sobre base materialista.
A Botânica foi o primeiro campo da ciência a entusiasmar os sergipanos, através de Antônio Moniz
de Souza, ex-aluno do frei José Mariano da Conceição Veloso, que durante cinco anos, entre 1817 e 1822
buscou conhecer as plantas do território situado entre os rios Real e São Francisco que pudessem ser
úteis à Biologia, à Medicina, à Química e a outros
usos de caráter econômico.
Anotações sobre a botânica em Sergipe durante a primeira metade do século XIX
21
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