A EDUCAÇÃO DA MULHER NO RIO GRANDE DO NORTE NA DÉCADA DE 1920,
ATRAVÉS DOS ROMANCES DE ÂNTONIO DE SOUZA
Eliane Moreira Dias – mestranda do PPGED da UFRN
Rosanália de Sá Leitão Pinheiro – professora da UFRN
Este trabalho é um recorte da pesquisa que pretende reconstituir parcela da história da
educação da mulher norte-rio-grandense, na década de 1920, através dos romances, Flor do
Sertão (1928) e Gizinha (1930) de Polycarpo Feitosa, pseudônimo de Antônio José de Melo e
Souza (1867-1955). A referida pesquisa vincula-se a Base de Pesquisa Gênero e Práticas
Culturais: abordagens históricas, educativas e literárias e ao Projeto Integrado História dos
Impressos e a Formação das Leitoras/ CNPq.
Os romances são representações da década que pesquisamos. Flor do Sertão narra o
amor entre Rosa Luisa e André, ambientado no sertão de Santa Maria do Potengi. Gizinha é
um drama conjugal entre Adalgiza e Julinho Silveira e se passa em Natal.
Ao analisarmos os romances, tivemos como meta diferenciar a ficção das representações
da época, pois a história cultural, segundo Chartier, tem por principal objeto identificar o
modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é
construída, pensada, dada a ler (Chartier, 1990, p.16). Utilizamos para esse fim as memórias
impressas nos jornais e nos livros, pois as memórias são fontes históricas uma vez que elas
nos ajudam a saber o que tem sido lembrado, recordado por um ou vários grupos sociais
(Motta, 1998, p.77).
Com esse intuito, consultamos o jornal A República, arquivado no Instituto Histórico e
Geográfico do Rio Grande do Norte, localizado à rua da Conceição, 622, Cidade Alta e no
Arquivo Público Estadual à rua José Agnaldo de Barros, 2872, em Neópolis. No acervo do
Instituto também pesquisamos n’A Revista Pedagogium, publicação que circulou a partir da
década de 1920 e trata de temas relacionados a educação. No Arquivo Público tivemos acesso
as mensagens proferidas pelos governadores do período, dr Antônio José de Melo e Souza
(1920-23), dr. José Augusto Bezerra de Medeiros (1924-27) e dr. Juvenal Lamartine de Faria
(1928-30).
Ao fazermos o cruzamento das fontes, identificamos a presença de temáticas
relacionadas a valorização das prendas domésticas, o curso comercial feminino, a influência
da mulher na família, o voto feminino e o celibato pedagógico.
Vimos também a importância de conhecermos Antônio de Souza, pois quanto mais
soubermos sobre quem produziu uma obra literária e em que condições, atendendo a que
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interesse do contexto literário, melhor será para olhar e tratar o documento (Galvão, 1996, p.
108).
Antônio José de Melo e Souza, nasceu em 24 de dezembro de 1867, no Engenho Capió,
Vila de Papari, atual município de Nísia Floresta, no Estado do Rio Grande do Norte. Foi o
primeiro filho do tenente-coronel, da Guarda Nacional, Antônio José de Melo e Souza,
fazendeiro, chefe do Partido Conservador e presidente da Câmara Municipal de Papari, e de
dona Maria Emília Seabra de Melo e Souza. Souza foi governador do Estado por duas vezes,
de 1907 a 1908 e de 1920 a 1923.
Segundo Cascudo (1939, p. 70), nas duas administrações como governador do Estado,
Souza se interessou muito pela educação, criando escolas tanto em Natal quanto no interior.
Em 1908 criou o primeiro Grupo Escolar Augusto Severo que funcionou na praça de mesmo
nome, no prédio onde atualmente funciona a Secretaria de Segurança Pública. Em 1922
fundou a Escola Normal de Mossoró, a Escola Profissional do Alecrim e a Escola de
Farmácia de Natal.
Percebemos, com a ampliação das escolas no Estado, que as mulheres passaram a
freqüentá-las em número de igualdade em relação aos homens e em alguns municípios, como
o de Acari, Angicos e Assú, o número de mulheres matriculadas era superior ao de homens
(Câmara, 1923, p. 122).
Isso demonstra que o Rio Grande do Norte estava em sintonia com as mudanças que
estavam ocorrendo não só no Brasil, como também no mundo, pois Cambi (1999, p. 387388) comenta que as mulheres,
Depois de milênios de subalternidade social e educativa, de exclusão da escola e
da instrução, só na época contemporânea é que se afirmaram cada vez mais na
cena educativa (...). A educação delineou-se como uma via de emancipação
feminina buscando a paridade (com a masculina) e o reconhecimento de uma
função chave da mulher também na vida social; esse resgate educativo
caracterizou-se pela reivindicação da instrução, de toda ordem e grau aberta
também às mulheres, e como abertura de todas as instituições masculinas
associativas e do tempo livre (referentes ao esporte ou ao compromisso civil), de
modo a permitir uma integração completa das mulheres na vida social e sua
socialização não subalterna.
Percebemos que no Rio Grande do Norte no início do século XX as mulheres
conquistam novos espaços, através das novas instituições de ensino que se consolidam nas
décadas de 1910 e 1920.
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Ao término do primeiro ano da administração de Antônio de Souza, a 4 de dezembro de
1920, inaugurou-se a Associação de Professores do Rio Grande do Norte (Duarte, 1985,
p.17). Um dos objetivos da instituição era auxiliar o poder público na difusão do ensino,
propagando o ensino leigo e o combate ao analfabetismo (Ibidem; p. 18-23).
A Associação começou a mostrar resultados positivos, inaugurando a primeiro de maio
de 1923, o Grupo Escolar Antônio de Souza, localizado à rua Jundiaí 641, onde atualmente
funciona a Fundação José Augusto. Fundou também a revista Pedagogium, em 4 de fevereiro
de 1924, de publicação bimestral, para divulgar os trabalhos realizados por seus membros. Em
1927 criou no grupo Escolar Antônio de Souza, Um curso de trabalhos domésticos (corte,
costura, bordado, crochê, etc.) oferecido às moças desejosas de aprender aqueles ofícios,
principalmente as residentes no bairro do Tirol, onde ficava o Grupo, um tanto afastado do
Centro (Ibidem, p.28).
Ao criar um curso de trabalhos domésticos, percebemos o quanto as prendas femininas
ainda eram valorizadas. O Instituto de Proteção às Moças Solteiras, localizado à rua Santo
Antônio, no antigo Paço Episcopal, dirigido pelas irmãs de Sant’Anna também ministrava o
ensino dessas prendas.
No romance Flor do Sertão o autor valoriza esse aprendizado, através da personagem
Julinha que era inteligente e hábil, com muito gosto para o corte e feitura de vestidos
(Feitosa, 1928, p. 272).
Em Gizinha esse aprendizado já não prevalece com tanta evidência, pois as personagens
estão mais interessadas em cuidar da beleza física e dos prazeres do dia-a-dia, andar na moda,
ir às festas, entre outros.
Na década de 1920 em Natal se sobressaia o ensino da Escola Normal, fundada em 1908
e responsável pela formação de professoras que iam ensinar no interior. Na mensagem lida na
Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte, em primeiro de novembro de 1920, pelo
então governador, Antônio de Souza, constatamos: Os poucos professores diplomados pela
Escola Normal estão exercendo a sua honrosa função nos grupos e nas escolas isoladas, e
algum porventura disponível se não sujeita a ir exercê-la nos povoados do interior (Souza,
1920, p.11).
Esse fato está presente no romance Flor do Sertão, quando o autor narra sobre a
personagem Julinha, professora formada na capital, mas que havia sido designada para
ensinar no interior, na localidade de Santa Maria.
Julinha Costa, desde mais de dois anos professora municipal na povoação, era
uma moça gordinha, de olhos muito vivos e lábios naturalmente muito vermelhos,
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risonha como a mãe, mas “séria até ali”. Não se falava em namoro dela, e
constava ter um pretendente na capital, onde a mãe vivera pobremente, viúva de
um empregado subalterno do tesouro, até o dia em que, pelas solicitações de um
parente de Santa Cruz, a filha obtivera aquela cadeira, com o minguado
vencimento de trinta mil réis por mês (Feitosa, 1928, p. 272).
Essa personagem, gostava de falar expressões francesas, na conversa com as amigas,
para “bolir com elas”: - Bonjour, ça va bien?, ou revoir, souvenir, e mais duas ou três de
igual transcendência (Ibidem, p. 274). A cultura francesa era muito valorizada na sociedade
brasileira, principalmente o idioma que fazia parte do currículo escolar.
Morais, no texto Vida íntima das moças de ontem: um encontro com Sofia Lira,
evidencia também a influência da língua francesa, no romance de autoria de Sophia Lira
(Morais, 2001, p.114). Essa evidência está igualmente presente nas Maneiras de ler no Brasil
do século XIX, quando Morais (1997, p.17) trata do romance Quincas Borba (1891) de
Machado de Assis ao referir-se a personagem Maria Benedita que consentia em aprende
francês “que era indispensável para conversar, para ir às lojas, para ler um romance”.
No jornal A República, saiam anúncios de professoras particulares que ensinavam
francês em sua residência. Um exemplo é o caso da professora Nathalia Maciel, residente à
praça André de Albuquerque, no centro da cidade (A República, 21/07/1921).
O Curso Comercial Feminino foi criado em 1919, pelo bispo D. Antônio Cabral (A
República, 23/03/1924) e era destinado a ministrar às suas alunas a instrução teórica e prática
indispensável ao exercício de vários misteres do comércio e da indústria compatíveis com o
sexo. As matérias ministradas eram de português, francês, inglês, aritmética, álgebra, direito
usual, história do Brasil, geografia, datilografia e moral e cívica (A República, 13/09/1921).
Em Flor do Sertão mais uma personagem feminina merece destaque. Juliana, filha mais
velha de Sobreira (amigo da família de Rosa), dona da agência dos Correios da pequena
cidade de Santa Maria (Feitosa, 1928, p. 52). Não há referência ao grau de instrução de
Juliana, mas como administrava uma agência dos Correios, acreditamos se tratar de uma
pessoa instruída, como as mulheres que freqüentavam o Curso Comercial.
A Aliança Feminina tinha ainda como função organizar as forças femininas no Rio
Grande do Norte e argumentar a justa influência da mulher na família e na sociedade para o
predomínio dos princípios cristãos (A República, 21/09/1921).
Essa influência da mulher na família esta presente em vários momentos da narrativa de
Flor do Sertão, quando o autor refere-se à mãe de Rosa Luiza, na Ascendência sobre todos e
pela incansável e animada atividade, que os cinqüenta anos ainda em nada enfraqueciam,
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era d. Sabina, a mulher de Boavista, matrona sertaneja da velha marca, que os íntimos
diziam ter nascido mulher “por engano da parteira”. (Feitosa, 1928, p. 21).
Quando fala da criação de Rosa Luiza.
Num capítulo todavia, por acordo da primeira hora, era a vontade da mulher que
predominava, - a caçula, filha única além, do mais, pela qual o pai “era doido”,
porém só a mãe dirigia, como só ela amamentará e criará. Desde a infância a
menina, como tantas outras, se habituara a respeitar e a temer a mãe,
encontrando no pai, que poucas horas do dia ela via em casa, um servo para
carregá-la, e um adorador para satisfazer os seus caprichos (Feitosa, 1930, p.2223).
Em Gizinha também percebemos essa influência da mulher na família, principalmente
em relação a educação dos filhos.
Na educação dos dois únicos, Adalgiza e Renato, as dissidências foram em todo
tempo freqüentes, e o resultado delas é que, tanto a moça como o rapaz
gozavam inteira isenção da autoridade paterna, salvadas todavia as aparências
de respeito, qual a mãe habilmente se encarregava de manter. Sem dúvida uma e
outro queriam bem ao pai e lhe eram gratos aos constantes carinhos, que
retribuíam espontaneamente; mas o governo era a mãe, porque dela se obtinha
o levantamento das proibições, ou a revelação de penas porventura impostas
pela virtual jurisdição paterna (Ibidem, p.16).
Percebemos que as mulheres começavam a ascender socialmente e isso vai refletir
também na política, local no qual passaram a reivindicar os mesmos direitos que os homens, o
de votar e ser votada. O Rio Grande do Norte teve um dos primeiros políticos a se interessar
por essa causa. Juvenal Lamartine, que
conseguiu antes de ocupar o poder, incluir na legislação do Estado do Rio Grande
do Norte um dispositivo estabelecendo igualdade de direitos políticos para os dois
sexos. Seguiram-se vinte alistamentos femininos. O precedente aberto deu margem
à ampla movimentação da Federação Brasileira para o Progresso Feminino,
fundada a 9 de agosto de 1922, que enviou ao Senado uma mensagem contendo
duas mil assinaturas. Nela reivindicava-se o voto feminino, acentuando que
“desde que uma só exista não há motivo para que não sejam eleitoras todas as
mulheres habilitadas no Brasil”. (Soihet, 2000, p.103).
Apesar das reivindicações, as mulheres permaneceram sem poder votar, apenas no Rio
Grande do Norte isso foi possível, sem ser reconhecido no âmbito Federal. Em abril de 1928,
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José Augusto Bezerra de Medeiros, candidato ao Senado, foi o primeiro brasileiro a receber
o voto feminino (Cardoso, 2000, p.452). Nesse período foi eleita no Estado a primeira prefeita
da América Latina no município de Lajes, Alzira Soriano.
Esses fatores contribuíram para que a mulher se tornasse mais independente e tivesse
um comportamento menos recatado. Isso é muito bem representado nos romances que
analisamos, sendo que em Flor do Sertão, as moças são mais recatadas, exceto a personagem
Julinha. Percebemos isso na descrição de Rosa Luiza: A menina crescera e se fizera mulher,
adorada pelo pai e pelos irmãos, sem deixar de ser profundamente querida pela mãe, que
nela ia vendo renovadas as suas qualidades de recato, de trabalho e de ordem (Feitosa, 1928,
p.23).
Em Gizinha acontece exatamente o contrário, tanto Adalgiza quanto sua mãe, Sabina,
são mulheres modernas e extrovertidas. Percebemos um pouco do comportamento de Gizinha
quando Feitosa diz:
Adalgiza principalmente atraía as atenções pelo contraste das atitudes com
aquelas normais, que alguns dos mais velhos ainda julgavam exigidas pelo sexo, o
estado civil e a educação. Ela exagerava quase inconscientemente, por uma
espécie de perversão vinda antes do meio em que vivia, das conversas com amigas
“adiantadas”, das fitas de cinema, cheias de abraços e de beijos, de estimulantes
brutais, como são grande parte das modernas (Feitosa,1930, p. 50).
Essas mudanças que ocorriam no comportamento das jovens causavam polêmicas na
sociedade. Vemos isso, através da Aliança Feminina que publica no jornal A República, um
alerta às senhoras católicas do Estado, com o título Cruzada da pureza e da dignidade:
A corrente maléfica do modernismo indecoroso, oriundo de paragens longínquas,
impetuosa e destruidora, estranha aos nossos costumes e a nossa educação
assentada sobre os verdadeiros moldes da moral cristã, alastrou-se pelo mundo
afora, pela sociedade brasileira, enfim, desviando-a dos seus deveres, fazendo
esmaecer até no próprio recesso do lar virtuoso e santo das famílias católicas, a
flor da modéstia, que sempre distinguiu a mulher patrícia como soberana
sacerdotisa da virtude (A República, 22/10/1921).
Isso significa que o comportamento da personagem não estava de acordo com os
padrões considerados normais pela sociedade, uma vez que ela procurava seguir o que existia
de mais moderno. A Aliança Feminina ainda diz :
Deplorando a cegueira de tantas senhoras de toda idade e condição que
enfatuadas pela ambição de agradar a outrem, não vêem quanto seja astuta certa
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maneira de vestir com a qual não só suscitam a desaprovação dos homens, mas, o
que ainda é mais grave, ofendem a Deus e com um tal vestuário que elas mesmas
há pouco teria rejeitado com horror como pouco conveniente à modéstia cristã e
não se limitam a apresentar-se somente em público, mas nem mesmo se
envergonham de entrar tão indecentemente vestidas nas Igrejas, de assistir as
sagradas funções e de levar até mesmo a Sagrada mesa na qual se vai receber ao
divino autor da pureza, os incentivos das mais torpes paixões (A República,
22/10/21).
Entre os pais de Gizinha há um diálogo que demonstra como as mulheres estavam se
vestindo, na época, exatamente da forma como a Aliança Feminina condena em favor da
moral e dos bons costumes:
você é do tempo antigo, diz Regina rindo.- pois quero ser mesmo do tempo antigo,
que ao menos havia mais seriedade e as mulheres andavam vestidas. – Já estava
tardando a música... Se você fala todo dia nisso, porque não obriga sua filha a se
vestir? Continuou ela em tom de troça. – Porque não quero que ela fique atrás das
outras e fora da moda. – Pois então não reclame, meu amigo, não fale. – Falo é
contra os exageros. Adalgiza anda com o vestido pelos joelhos, e por baixo só tem
uma “combinação” que não esconde quase nada. Regina deu uma risada. – Aliás,
continuou Azevedo amuado, isto não admira, porque a mãe é a mesma coisa.
Outra risada mais sonora, e ela cruzando a perna, coberta por uma fina meia de
seda clara, demonstrou logo que o marido não mentia (Feitosa, 1930, p. 13).
Nesse período na moda feminina predominavam os tecidos veludo e renda, como fica
claro em um artigo sobre modas: Ao seu lado (o veludo), impera também a renda, feminina,
delicada, sutil, sempre antiga e sempre nova na sua graça imorredoura (A República,
17/05/1928).
O comportamento das personagens, representa parcela das mulheres da sociedade da
época. Mesmo com as mudanças, percebemos que as pessoas continuam a achar que o lugar
de uma mulher, principalmente se for casada não é fora do lar.
Dauphin (1991) em seu texto Mulheres sós, nos remete a vários países onde as mulheres
que trabalhavam fora, tinham de se manter solteiras, pois corriam o risco de serem
despedidas, caso viessem a casar. Isto ocorria independente da profissão, não precisava
exatamente ser professora.
Colocadas, em todos os momentos da sua vida, sob vigilância, devem ser solteiras
e assim permanecer, porque o casamento é sempre causa de despedimento. Este
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caso francês está longe de ser o único na Europa. Sabe-se que na Boêmia, até
1919, as professora e as funcionárias do Estado foram condenadas ao celibato
(Dauphin, 1991, p.485).
No Brasil, na década de 1920, a situação não era muito diferente. Por exemplo Minas
Gerais implantou o celibato às professoras, pois só poderia ter acesso ao magistério as
professoras solteiras ou viúvas sem filhos (Lima, 1921, p.44). O Rio Grande do Norte se
diferenciou diante desse acontecimento. As mulheres podiam exercer a profissão de
professora, independente de seu estado cívil (Ibidem, p. 44-47).
O professor Nestor dos Santos Lima ao escrever sobre esse tema na Revista
Pedagogium, deixa claro que no Estado as professoras casadas conseguiram adquirir alguns
direitos.
Lembro-lhe a necessidade de fazer um inquérito, ouvindo as interessadas e
discutindo amplamente o assunto, que é de vital interesse para o ensino. Poderão
objetar-me que já temos leis sobre o assunto, favorecendo as professoras casadas
como o conhecido Art. 224 da reforma de 1916. É realmente benigna e protetora a
“licença especial”, que vai tendo, entre nós, tão larga aplicação (Lima, 1921,
p.46).
Depois comenta que: Não se fiem muito as jovens professoras nessa proteção oportuna
das leis que podem mudar e mudam, de fato, com as idéias que animam os seus
confeccionadores ou dirigentes do Estado (Ibidem, 1921, p.46). Percebemos no comentário
de Lima, um representante de parcela da sociedade que não aceitava a nova condição da
mulher na tentativa de conciliar vida doméstica com trabalho fora do lar.
A década de 1920 representou um avanço para a mulher na sociedade norteriograndense. Não só por essa ter um maior acesso ao ensino, através da implantação de novas
escolas, mas também por ter surgido cursos destinados exclusivamente a sua educação, como
o Curso Comercial, ministrado pela Aliança Feminina e também pela conquista ao voto.
Os romances de Polycarpo Feitosa, representam muito bem essas mudanças no
comportamento feminino. Mudanças que ocorreram lentamente, no entanto significativas,
pois aos poucos fizeram com que as mulheres conquistassem posteriormente o mercado de
trabalho não só como professoras.
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