CONDIÇÕES DE TRABALHO DE
ENFERMAGEM E
ADOECIMENTO
Enfª. Vanda Elisa Andres Felli
Panorama das condições de trabalho como
determinantes de problemas de saúde
Os trabalhadores de enfermagem submetem-se às
condições inadequadas de trabalho que são
determinantes do seu adoecimento:
1. O trabalho de enfermagem, na sua especificidade, está
presente 24h/dia nas instituições de saúde com
internação e durante toda a jornada em outras
instituições de saúde, diferentemente da atuação de
outros profissionais da saúde. Com isso sofre um
impacto mais intenso das condições de trabalho.
2.
3.
Nas instituições de saúde, identifica-se a escassez de
trabalhadores de enfermagem, implicando na
intensificação do ritmo de trabalho e, portanto, do
desgaste desses trabalhadores.
Subsidia essa discussão o fato de que a OMS
recomenda a relação de 2 enfermeiros/1000
habitantes. Apesar do grande contingente de
trabalhadores de enfermagem no País, que soma
mais de 1.500 milhão de trabalhadores, esta meta
ainda não foi atingida, sendo a relação de 0,65
enfemeiros/1.000 habitantes, muito aquém do
recomendado (MS,2007). Lembre-se que os Médicos
representam 1,71/1.000, quando o recomendado é de
1/1.000; e os odontólogos 1,15/1.000, quando a OMS
recomenda 1/1.200.
4.
5.
Essa escassez pode ser melhor visualizada quando se
verifica que a média nacional é de 2,3 trabalhadores
por leito (Simoste, 2010), o que não cobre todos os
turnos, as licenças, faltas e afastamentos. Isso faz
com o ritmo de trabalho seja acelerado, intensificando
também o desgaste dos trabalhadores.
Segundo dados do COFEn (2010), essa força de
trabalho é composta por mais de 1.500 mil
trabalhadores, sendo 224.708 enfermeiros (15%),
567.773 técnicos (38%), 648.567 auxiliares de
enfermagem (43%), 58.989 atendentes de
enfermagem (4%) e 337 parteiras (0,002%).
O quantitativo de pessoal já é deficitário e já
implica na qualidade da assistência e no
desgaste do trabalhador, sendo que já é
necessário aumentar esse quantitativo.
6. Média salarial por hora trabalhada: médicos R$ 23,05;
Enfermeiros – R$ 11,07 (representando 48% do salário
pago aos médicos), conforme tabela (MS, 2007).
Salários médios, média de horas semanais contratadas,
média salarial por hora e índice salarial por ocupações
de saúde (regime CLT) – janeiro a dezembro de 2005 –
Brasil
Ocupação
Salário Média de
Média
médio
horas
Salarial/
(em R$) semanais hora de
Trabalho
Índice
Salarial
(Salário/
hora
Médico =
100)
Médicos
1.870,76
39,71
23,05
100
Dentistas
1.549,89
29,16
13,29
58
Enfermeiros
1.693,14
38,24
11,07
48
Técn.enfermagem
663,93
39,52
4,20
18
Os trabalhadores de enfermagem continuam mantendo
o crescimento de emprego, porém com uma média
salarial inferior ao do médico e do dentista e uma
jornada de trabalho maior. Dados mostram que os
trabalhadores de enfermagem realizam uma jornada
maior que 44h semanais, uma vez que precisam cobrir
ausências por acidentes e por doenças. As horas que
deveriam ser pagas como extras, constituem um “banco
de horas” a serem gozadas de acordo com as
necessidades institucionais ou na necessidade de
afastamento por problemas de saúde.
Nessas condições os trabalhadores têm se submetido às
Diferentes cargas de trabalho (riscos ocupacionais)
que são geradoras de processos de desgaste
(adoecimento), que comprometem tanto a saúde
e a vida dos trabalhadores de enfermagem,
como a dos pacientes clientes e
da qualidade de assistência.
Exposição dos trabalhadores às cargas de
trabalho:
Cargas biológicas:
• Acidentes com exposição aos fluídos biológicos, com
potencialidade para aquisição de doenças como as
hepatites, principalmente, B e C; AIDS, etc. Têm sido
notificados casos de dengue, leptospirose, febre amarela,
infecções respiratórias e outras.
• Estudo em sete hospitais universitários do País (Simoste,
2010, ) e com uma população de 6.044 trabalhadores de
enfermagem, mostra que por ocasião da pandemia de
H1N1, houve registros de 51 suspeitos e 28 casos
confirmados, com prevalência de 0.463%,
significativamente, maior do que para a população em
geral (0.014%).
Cargas químicas
• Os trabalhadores de enfermagem estão expostos às
substâncias químicas, na forma de medicamentos, EPI
(luvas) e outras substâncias desinfetantes e
esterilizantes.
• As instituições de saúde constituem-se em indústrias
que mais consomem substâncias químicas, sendo que
muitas vezes essas são incorporadas a essas
instituições sem que se conheçam os efeitos sobre a
saúde dos trabalhadores. Já são conhecidos os efeitos
dos anestésicos, dos quimioterápicos, alguns
antibióticos, antissépticos, causadores de câncer,
abortos e mal formações, assim como de alergias e de
dermatites de contato (luvas de látex).
Costa (2009) identificou 387 tipos de produtos químicos
usados em uma instituição, sendo que desses 139
foram triados como geradores de produtos químicos
perigosos: tóxicos a diferentes aparelhos e tecidos do
corpo humano, carcinogênicos, teratogênicos e
mutagênicos.
Dentre essas substâncias podemos citar o formaldeído
(teratogênico, mutagênico e carcinogênico), óxido nítrico
(genotóxico), benzina (carcinogênico), éter
(neurotóxico), epinefrina (teratogênico).
Cargas Mecânicas
• Acidentes com agulhas e materiais perfurantes e
cortantes;
• Fraturas, torções, contusões, hematomas, muitas vezes,
como resultados de violência física, são relatados casos
de agressões (a violência física é caracterizada por
ataques físicos, por bater, chutar, estapear, esfaquear,
atirar, empurrar, morder) de pacientes e familiares, de
colegas de trabalho (da equipe de enfermagem e da
equipe multiprofissional – médicos).
As consequências físicas da violência não são menos
graves do que as psíquicas. Estudo de Bastos (2012)
mostra que ocorrem desde pequenos cortes (alguns
casos com necessidade de pontos) até fraturas e
rompimentos de ligamentos, incluindo perda de
consciência.
Apesar da visibilidade da consequência física, a
subnotificação se mantém presente e frequente, devido
às causas como: desconhecimento que este evento
pode ser caracterizado como acidente de trabalho,
vergonha de ser vítima, uma compreensão de que
talvez isto faça parte do trabalho.
Segundo Di Martino (2002) os trabalhadores do setor
saúde são particularmente conhecidos como de risco
para a violência ocupacional, com quase 25% do total.
De acordo com o Holt (1999) estatísticas internacionais
indicam que 1 em cada 3 enfermeiros são susceptíveis
de ser submetido a abuso físico ou verbal no trabalho
em comparação com 1 em cada 4 policiais.
No Brasil, estudo transversal realizado no serviço de
urgência de um hospital geral em Londrina, 100% das
enfermeiras, 88,9% dos técnicos de enfermagem, 88,2%
dos auxiliares de enfermagem foram vítimas de
violência ocupacional (Cezar, Marziale, 2006).
A enfermagem é a terceira profissão mais violentada,
superada somente pelos carcereiros e bombeiros.
Cargas fisiológicas: geradas pelo trabalho em pé,
posturas inadequadas, manipulação excessiva de
pesos, rodízios de turnos e trabalho noturno.
São as responsáveis pela:
• Fadiga – detectada em 52% dos trabalhadores de
enfermagem (Silva, 2011). O trabalho de enfermagem é
realizado, na maior parte da jornada, em pé, com
deslocamentos freqüentes, em posições inadequadas e
com manipulação de pesos excessivos.
• Estudos relatam que o peso manipulado chega a 1
tonelada/jornada diária e que os deslocamentos somam,
cerca de, 10km/dia. Não há como questionar a presença
de cansaço (desgaste) nessa situação e, além disso, o
adoecimento.
Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho
(DORT) são os mais freqüentes problemas de saúde,
relatados pelos trabalhadores de enfermagem,
acometendo quase 100% dos trabalhadores. Os DORT
são decorrentes do super-uso das estruturas corporais
para a realização do trabalho, sem o devido descanso,
sem as devidas pausas para recuperação.
– Vários estudos mostram que os trabalhadores
apresentam sintomas osteomusculares: Sancinetti
(2009) encontrou que 41,5% dos trabalhadores
afastaram por DORT com 3.393 dias de afastamento,
SIMOSTE (2010) 21,5% dos trabalhadores relataram
DORT.
Trabalho em turnos: as mudanças nos ritmos
circadianos, advindas principalmente do trabalho
noturno. A privação do sono e dos níveis de melatonina
provoca alterações desde gastrites, obesidade, insônia,
diminuição da capacidade de julgamento e de atenção,
até os cânceres.
Cargas Psíquicas
Sancinetti (2009) 28,4% por transtornos mentais e
comportamentais, representando 4.957 dias de
afastamento
SIMOSTE (2010) os transtornos mentais e
comportamentais representaram 8,3% (3ª maior causa
de afastamento) que, no entanto, foi responsável pelo
maior nº de dias de afastamento por problemas de
saúde
• Violência psíquica (assedio moral, abuso e ameaças,
além de perseguição, assedio sexual, assedio racial e
agressão psíquica):
– Os episódios de violência psíquica são referidos,
nacional e internacionalmente, em proporções entre 70
a 95% da equipe (Hahn et al, 2010; Anderson e Parish,
2003; Astrom et al (2004) a violência verbal a mais
comum.
– As questões de saúde relacionadas à violência psíquica
vão desde os sentimentos de medo, raiva, indignação,
vergonha, humilhação, até a manifestação de estresse,
burnout e transtorno de estresse pós-traumático
– A violência tem consequências na saúde dos
trabalhadores, sendo causa de altos custos na saúde,
de absenteísmo e decréscimo na produtividade.
• Ansiedade, estresse e bournout – relacionado ao
sofrimento no trabalho pelo cuidado dos pacientes; pela
violência psíquica, advinda do relacionamento com os
pacientes, com os pares e com a equipe multidisciplinar.
Psiquicamente, a ansiedade crônica ou esgotamento
leva a um estado de apatia e desinteresse, desânimo,
uma espécie de pessimismo, insegurança e medo em
relação à vida. (Ballone, Neto e Ortoloni, 2002)
– Kac e cols. (2006) afirmam que morbidades dessa
categoria são muito comuns e difíceis de caracterizar.
Os indivíduos relatam tristeza, ansiedade, fadiga,
diminuição da concentração, preocupação somática,
irritabilidade e insônia.
– A enfermagem foi classificada pela Health Education
Authority (USA) como a quarta profissão mais
estressante, no setor público.
– Como causa de estresse são citadas situações que
excedem o limite suportado, dentre estes, a
sobrecarga de trabalho, o esforço exigido e algumas
características ligadas ao exercício da profissão
(gênero). A carga horária, o tempo dispensado à
atividade é citada como elemento estressor, sendo
também relacionado com a quantidade de atividades
a desenvolver.
As cargas de trabalho a que os trabalhadores de enfermagem
estão expostos permitem identificar esse trabalho como penoso,
insalubre e perigoso:
• Penoso - aquele em há grande dispêndio de energia física,
sensorial, psicomotora, psíquica e cognitiva;
que pode ser definido como inadequado às condições
físicas e psicológicas dos trabalhadores, provocando
um incômodo, sofrimento ou desgaste à saúde
do trabalhador no ambiente de trabalho;
• insalubre – com exposição a agentes nocivos à saúde;
• perigoso - são consideradas ou operações ou atividades
que, por sua natureza ou métodos de trabalho, impliquem
o contato permanente com inflamáveis ou explosivos
em condições de risco acentuado.
Conseqüências
Além do adoecimento propriamente dito, as condições de
trabalho e a exposição dos trabalhadores às cargas
implicam em:
Diminuição da capacidade para o trabalho - Estudo em
uma unidade cirúrgica (Silva, 2011) mostra que, em
trabalhadores com idade média de 39,4 anos, foi
constatado que 19% tem restrição de atividades; 35% têm
índice de Capacidade para o Trabalho de moderado a
baixo. Mesmo assim, os trabalhadores de enfermagem
executam suas atividades com dor, desgastados,
exauridos da energia vital, caracterizando o “presenteísmo”
e o comprometimento com os colegas e pacientes, como
mostra o estudo de Sancinetti (2009) em que os
trabalhadores só se afastam após as situações de “pico”.
Absenteísmo: Segundo Sancinette (2009), 56% dos
trabalhadores do quadro ausentaram-se por motivo de
saúde, e destes 91,2% (333) eram mulheres; a idade
média foi de 40,2 anos; 75% dos trabalhadores que
tinham de 5 a 10 anos de trabalho; e 83,1% tinham um
único vínculo empregatício, sendo que os que tinham
dois ou três vínculos, representaram 16,9% dos
afastamentos.
Desmistifica-se, assim, que quem se afasta são
os mais velhos, com mais tempo de casa
e devido aos múltiplos vínculos
Elevado custo dos afastamentos
– As ausências por doença somaram 11.941 dias, ou
seja, 32 anos de trabalho perdidos em um. Se
considerados o salário médio da equipe (3.071,85 reais),
esses afastamentos representam o montante de, cerca
de, 6.113.024 reais (Sancinetti, 2009).
Outros estudos (Fugulin et al, 2011 e Secco e Castilho,
2007) mostram que o custo médio da hora é (salário +
benefícios) dos enfermeiros é de 72,48 a 51,80 reais e
dos técnicos de enfermagem de 40,40 reais.
Nesse caso, considerando a média de 46,1 reais a hora
trabalhada, o custo das ausências de Sancinetti seria de
13.210.726 reais em um ano, ou com esse montante
poderiam ser pagos 43 trabalhadores com salário de
3.071,85 reais.
O estudo SIMOSTE (2010) identificou 8.543 dias, ou 23
anos de trabalho perdidos em um, o que custaria, na
média, 4.375.226 reais.
O custo dos afastamentos, portanto, é altíssimo
e poderia ser revertido para contratação de trabalhadores
de enfermagem necessários para
uma jornada de 30h semanais.
Perfil de mortalidade dos trabalhadores de enfermagem
evidencia o câncer e suicídio (Karino, 2012): o câncer
acomete vários sítios, como cérebro, mama, fossas
nasais, sistema nervoso, pele, pulmão, fígado e outros,
em decorrência da exposição às cargas químicas,
trabalho noturno; o suicídio ocorre pelo sofrimento no
trabalho, pressão, a convivência com a dor e sofrimento
dos outros.
Pesquisas também mostram a relação entre o
quantitativo de pessoal e qualidade da assistência
prestada (Curtin, 2003, ICN, 2006, Penoyer, 2010),
segundo indicadores assistenciais, como: taxa de
infecção, extubação acidental, mortalidade, eventos
adversos, tempo de permanência e outros relativos aos
cuidados prestados aos pacientes que, em última
instância, impactam nos perfis de morbi-mortalidade.
A diminuição das ausências por dos trabalhadores por
motivo de doença tem a potencialidade
de melhorar qualidade da assistência prestada.
Nesse sentido, as condições de trabalho dos trabalhadores
de enfermagem
tem um ônus indiviual/familiar
(doença e impacto nos proventos), institucional ( custo
e produtividade) e social (custo social da qualidade
da assistência prestada).
Estratégia de intervenção
Considerando a impossibilidade de mudar a natureza do
objeto de trabalho de enfermagem e as limitações para
novas formas de organização dos processos de trabalho
nas instituições, que são tipicamente insalubres
Dadas as possibilidades de diminuição da insalubridade,
periculosidade e penosidade e, portanto do desgaste e
exaustão dos trabalhadores, permitindo a recuperação
da força de trabalho e o distanciamento da exposição às
cargas é a diminuição jornada de trabalho.
PORTANTO,
30 HORAS PARA ENFERMAGEM JÁ!
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Apresentação