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UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO
GRANDE DO SUL – UNIJUÍ
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO – STRICTO SENSU
MESTRADO EM DESENVOLVIMENTO
SILVANA APARECIDA DESORDI
PAPAI NÃO TRABALHA MAIS? A CONTRIBUIÇÃO DA PSICANÁLISE NO
ESTUDO DO PROCESSO SUCESSÓRIO EM UMA EMPRESA FAMILIAR
IJUÍ, RS
2012
1
SILVANA APARECIDA DESORDI
PAPAI NÃO TRABALHA MAIS? A CONTRIBUIÇÃO DA PSICANÁLISE NO
ESTUDO DO PROCESSO SUCESSÓRIO EM UMA EMPRESA FAMILIAR
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em
Desenvolvimento do Programa de Pós-Graduação
Stricto Sensu em Desenvolvimento da Universidade
Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do
Sul - UNIJUÍ, como requisito parcial para obtenção
do título de Mestre em Desenvolvimento.
Linha de Pesquisa: Gestão de Organizações para o
Desenvolvimento
Orientador: Prof. Dr. Telmo Rudi Frantz
Ijuí, RS
2012
2
Catalogação na Publicação
D466p
Desordi, Silvana Aparecida.
Papai não trabalha mais? Contribuições da psicanálise ao estudo do
processo sucessório em uma empresa familiar / Silvana Aparecida
Desordi. – Ijuí, 2012.
151 f. : il. ; 30 cm.
Dissertação (mestrado) – Universidade Regional do
Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Campus Ijuí).
Desenvolvimento.
“Orientador: Telmo Rudi Frantz”.
1. Processo sucessório. 2. Empresa familiar. 3.
Discurso. 4. Função paterna. I. Frantz, Telmo Rudi. II. Título.
CDU : 334.722.24
Frederico Cutty Teixeira
CRB10 / 2098
3
UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento – Mestrado
A Banca Examinadora, abaixo assinada, aprova a Dissertação
PAPAI NÃO TRABALHA MAIS? O IMPACTO DA PSICANÁLISE NO
ESTUDO DO PROCESSO SUCESSÓRIO E SUAS RELAÇÕES COM A
FUNÇÃO PATERNA EM UMA EMPRESA FAMILIAR
elaborada por
SILVANA APARECIDA DESORDI
como requisito parcial para a obtenção do grau de
Mestre em Desenvolvimento
Banca Examinadora:
Prof. Dr. Telmo Rudi Frantz (UNIJUÍ): __________________________________________
Profª. Drª. Denize Grzybovski (UPF): ___________________________________________
Prof. Dr. Jorge Oneide Sausen (UNIJUÍ): _________________________________________
Ijuí (RS), 02 de abril de 2012.
4
DEDICATÓRIA
Aos meus pais Orides Desordi e Marlene Terezinha Desordi
que me ofertaram a vida, me educaram e me incentivaram para o
estudo.
Ao meu filho Tiago, pelo amor, compreensão, apoio nessa
caminhada e, principalmente por me possibilitar a oportunidade de
revisitar o que recebi de meus pais.
5
AGRADECIMENTOS
Ao professor doutor Telmo Rudi Frantz, estimado amigo e orientador desta
pesquisa, por sua confiança, presteza, capacidade e colaboração.
Aos professores doutores Lurdes Froemming, Dieter Siedenberg e Jorge
Oneide Sausen pela acolhida ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em
Desenvolvimento da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande
do Sul – UNIJUÍ e, pela valiosa colaboração ao longo do trabalho desta pesquisa.
Ao professor doutor Jorge Oneide Sausen, por sua especial contribuição nas
questões metodológicas do presente trabalho.
Aos professores do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em
Desenvolvimento da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande
do Sul – UNIJUÍ, por suas contribuições no meu processo de formação.
À Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul –
UNIJUÍ, pela oportunidade da obtenção deste grau de qualificação profissional.
Aos gestores e funcionários da Retificadora Desordi Ltda, pelo apoio
prestado na obtenção de dados indispensáveis a presente pesquisa.
Aos colegas, pela partilha de uma caminhada rumo a um objetivo comum.
Aos familiares, pelo apoio generoso que propiciaram no processo desta
pesquisa.
A todos os que ajudaram e enriqueceram esta pesquisa com suas
contribuições e depoimentos pessoais.
6
RESUMO
O presente estudo tem por objetivo compreender o processo sucessório em uma empresa
familiar, na perspectiva psicanalítica, a partir da função paterna, enquanto reguladora das
referências simbólicas na cultura. A empresa objeto de estudo é a Retificadora Desordi Ltda,
situada na região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, no período compreendido entre
1950-2007. De maneira geral, interpreta esse processo sucessório, evidenciando quais foram
os períodos estratégicos que propiciaram desdobramentos na função paterna e no processo
sucessório, como foram desenvolvidos e quais fatores determinaram tais desdobramentos. Em
termos de metodologia empregada, trata-se de um estudo de caso singular, enquadrado nas
características da abordagem qualitativa e contextualista. Ao mesmo tempo em que teve o
caráter qualitativo (TRIVIÑOS, 1987) e contextualista (PETTIGREW, 1992), utilizou-se,
também, do modo de análise longitudinal e histórico, ao adotar os procedimentos da direct
research (MINTZBERG, 1985), bem como de uma postura psicanalítica do laço social, em
especial, os quatro discursos de Lacan (1992). Com base na análise histórica e interpretativa
do processo sucessório da organização e, das relações deste com o desdobramento da função
paterna, identificou-se sobre cinco períodos estratégicos que descrevem os principais eventos
críticos ocorridos na empresa. O primeiro, que vai de 1950-1993, caracteriza-se pelo discurso
capitalista. No segundo (1994-1999), predomina o discurso do mestre. O terceiro (1999), se
configura a partir do discurso da histérica. O quarto (2000-2002) é marcado pelo discurso
universitário e, o quinto (2002-2007), pelo discurso do analista. Para cada período estratégico
inferido, realizou-se a análise teórica, possibilitando um melhor entendimento dos eventos e
dos significados destes. Dentre as contribuições que o presente estudo propiciou, merecem
destaque: (1) a análise das contribuições da psicanálise na compreensão do processo
sucessório de uma empresa familiar e a da relação deste com o desdobramento da função
paterna; (2) a inferência de que o processo sucessório de uma empresa familiar se produz a
partir de efeitos discursivos; (3) a utilização de uma metodologia de pesquisa que privilegiou
a análise numa perspectiva histórica, contextual e processual; (4) maior conhecimento sobre a
história, as mudanças e a evolução de um processo sucessório de uma empresa tradicional,
que desempenha papel relevante na região de sua inserção; (5) e, por fim, um conjunto de
informações importantes para os administradores da empresa objeto de estudo que, por certo,
permite uma reflexão sobre o tema estudado, como também subsídio para ações e decisões
futuras.
Palavras-chave: Processo sucessório; empresa familiar; discurso; função paterna.
7
ABSTRACT
The present study it has for objective to understand the succession process in a family
business, in the psychoanalytic perspective, from the paternal function, while regulating of the
symbolic references in the culture. The company study object is the Retificadora Desordi
Ltda, situated in the region the northwest of the State of the Rio Grande do Sul, in the period
understood between 1950-2007. In a generalized manner, it interprets this succession process,
evidencing which they had been the strategical periods that had propitiated unfoldings in the
paternal function and the succession process, as they had been developed and which factors
had determined such unfoldings. In terms of used methodology, one is about a study of
singular case, fit in the characteristics of the qualitative and contextualist boarding. At the
same time where it had the qualitative character (TRIVIÑOS, 1987) and contextualist
(PETTIGREW, 1992), it was used, also, in way of the longitudinal and historical analysis,
when adopting the procedures of direct research (MINTZBERG, 1985), as well as of a
psychoanalytic position of the social bow, in special, the four speeches of Lacan (1992). On
the basis of the historical and interpretative analysis of the succession process of the
organization and, of the relations of this with the unfolding of the paternal function, was
identified on five strategical periods that describe the main occurred critical events in the
company. The first one, that it goes of 1950-1993, is characterized for the capitalist speech. In
as (1994-1999), the speech of the master predominates. Third (1999), if it configures from the
speech of the hysterical. The room (2000-2002) is marked by university speech e, fifth (20022007), for the speech of the analyst. For each inferred strategical period, it was become
fullfilled theoretical analysis, making possible one better agreement of the events and the
meanings of these. Amongst the contributions that the present study it propitiated, they
deserve prominence: (1) the analysis of the contributions of the psychoanalysis in the
understanding of the succession process of a familiar company and of the relation of this with
the unfolding of the paternal function; (2) the inference of that the succession process of a
familiar company if produces from discursive effect; (3) the use of a methodology of research
that privileged the analysis in a historical perspective, contextual and procedural; (4) bigger
knowledge on history, the changes and the evolution of a succession process of a traditional
company, who plays excellent role in the region of its insertion; (5) e, finally, a set of
important information for the administrators of the company study object that, for certain,
allows a reflection on the studied subject, as well as subsidy for action and future decisions.
Word-key: Succession process; family business; speech; paternal function.
8
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Posições dos elementos do discurso ...................................................................69
Figura 2 - Discurso do mestre ............................................................................................. 70
Figura 3 - Discurso universitário ......................................................................................... 72
Figura 4 - Discurso da histérica ........................................................................................... 74
Figura 5 - Discurso do analista ............................................................................................ 75
Figura 6 - Discurso capitalista ............................................................................................. 77
Figura 7 - Movimentações discursivas ................................................................................ 79
9
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 – Eventos críticos.................................................................................................116
Quadro 2 – Processo sucessório da Retificadora Desordi Ltda (1950-2007) – períodos
estratégicos ........................................................................................................ 117
10
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 10
1 CONTEXTUALIZAÇÃO DO ESTUDO .....................................................................12
1.1 APRESENTAÇÃO DO TEMA..................................................................................... 12
1.2 PROBLEMA ................................................................................................................. 14
1.3 OBJETIVOS .................................................................................................................. 18
1.3.1 Objetivo geral ............................................................................................................ 18
1.3.2 Objetivos específicos .................................................................................................18
1.4 JUSTIFICATIVA .......................................................................................................... 18
1.5 DEFINIÇÃO DOS PRINCIPAIS TERMOS .................................................................20
2 REFERENCIAL TEÓRICO ......................................................................................... 22
2.1 FAMÍLIA ...................................................................................................................... 22
2.1.1 A família moderna ....................................................................................................24
2.1.2 Representações da família moderna ....................................................................... 26
2.2 EMPRESA FAMILIAR ................................................................................................ 28
2.2.1 Aspectos que contribuíram para o nascimento das empresas familiares ............ 30
2.2.2 A sucessão nas empresas familiares ........................................................................ 31
2.2.3 A preparação do sucessor ........................................................................................ 33
2.2.4 Processo de gerenciamento da sucessão .................................................................34
2.2.5 A profissionalização da empresa familiar .............................................................. 37
2.2 6 A empresa familiar nas últimas décadas ................................................................ 38
2.2.7 Sucessão como estratégia ......................................................................................... 45
2.2.8 O estigma da incompetência pressuposta ............................................................... 47
2.3 FUNÇÃO PATERNA ...................................................................................................49
2.3.1 Cultura organizada a partir do simbólico .............................................................. 49
2.3.2 O desdobramento da função paterna .....................................................................54
2.3.3 A sucessão - transmissão do conhecimento a partir do simbólico ........................ 56
2.3.4 Constituição dos grupos e propósito da cultura .................................................... 64
2.3.5 O laço social e os quatro discursos de Lacan ......................................................... 68
2.3.6 As movimentações discursivas................................................................................. 78
2.4 DECLÍNIO DA FUNÇÃO PATERNA......................................................................... 80
2.4.1 Contemporaneidade: reflexões sobre o interculturalismo ....................................80
2.4.2 Efeitos do processo de dessimbolização na contemporaneidade .......................... 90
3 METODOLOGIA.......................................................................................................... 106
3.1 CLASSIFICAÇÃO DA PESQUISA ............................................................................ 106
3.2 SUJEITOS DA PESQUISA ......................................................................................... 107
3.3 COLETA DE DADOS ................................................................................................. 107
3.4 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS ........................................................ 110
3.5 SISTEMATIZAÇÃO DO ESTUDO ............................................................................ 112
11
4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ........................................ 113
4.1 CARATERIZAÇÃO DO CASO ESTUDADO ........................................................... 113
4.1.1 Caracterização do Grupo Debacco ........................................................................ 114
4.2 PROCESSO SUCESSÓRIO E DESDOBRAMENTO DA FUNÇÃO PATERNA
NA RETIFICADORA DESORDI LTDA .................................................................... 116
4.2.1 Período estratégico I - Discurso Capitalista (1950-1993) ..................................... 118
4.2.2 Período estratégico II - Discurso do Mestre (1994-1999) ..................................... 124
4.2.3 Período estratégico III - Discurso da Histérica (1999) ......................................... 128
4.2.4 Período estratégico IV - Discurso Universitário (2000-2002) .............................. 130
4.2.5 Período Estratégico V - Discurso do Analista (2002-2007) .................................. 135
CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... 138
SUGESTÕES .................................................................................................................... 143
REFERÊNCIAS ............................................................................................................... 144
12
INTRODUÇÃO
O ser humano tem a necessidade de educadores para nutri-lo amá-lo, orientá-lo ou
guiá-lo, pois somos pela própria natureza, mal-acabados e incompletos. Buscamos a
completude e o acabamento através da cultura. A competência humana, longe de ser inata
ganha sentido, na relação com o Outro da cultura. Cada sujeito é impulsionado via linguagem,
a buscar no Outro o signo da sua ignorância. Contudo, o Outro também é desprovido desse
signo, mesmo que o sujeito suponha que a ele nada falte. Nessa troca, realizada no interior da
cadeia de socialização, o mestre é quem imprimirá um significante, um nome ao ato inaugural
do cuidado.
A transmissão da cultura – significante -, além de grampear um nome aos genes, o faz
às expensas do que lhe é estrangeiro, a saber, da palavra, que sempre vem de um outro, que
também a recebeu de um outro. É necessário um mestre, um nomeante à sensação do malestar orgânico pelo recém-nascido. O ser humano realiza uma colagem entre o código e o
cuidado para que, assim, o artifício da transmissão seja efetuado.
Instala-se aí uma dívida, pois o aprendiz passa a dever sua existência, seus saberes
aprendidos e a possibilidade de decodificar os signos àquele guardião da lei que fora capaz de
transmitir-lhe uma ordem simbólica, ou seja, do repasse infindável de uma dívida de
liquidação impossível.
O presente estudo foi instigado pelo fato de que, na cultura contemporânea,
atravessada pelo processo de dessimbolização, as gerações não sentem o dever de transmitir
conhecimentos. Em contrapartida, as gerações vindouras, por assim dizer, parecem não ter
clareza quanto ao referencial a seguir, e, da mesma forma, não reconhecem uma dívida com a
geração anterior.
Nesse sentido, a presente investigação dedica-se a compreender o processo sucessório
nas empresas familiares na perspectiva de relacionar com o declínio da função paterna na
contemporaneidade. Não há dúvida de que a sucessão é, talvez, o elemento mais preocupante
para a empresa familiar, pois implica na sua sobrevivência, expansão e continuidade, coloca
13
Grzybovski (2000). Trata-se, portanto, neste trabalho de pesquisa, de buscar oportunizar uma
reflexão sobre o tema, verificado no âmbito profissional, em um contexto mais amplo.
Esta pesquisa está organizada em quatro partes, além desta introdução e das
referências.
Na primeira parte contextualiza-se o estudo, apresentando o tema, a problemática, os
objetivos, sua justificativa e os principais termos da pesquisa.
.
O quadro teórico de referência corresponde à segunda parte, em que a literatura
disponível em torno do processo sucessório e do declínio da função paterna é revisada
visando o entendimento da temática e a responder a problemática da pesquisa. Os conceitos e
as teorias foram divididos em quatro tópicos respectivamente: a família, a empresa familiar, a
função paterna e o declínio da função paterna na contemporaneidade.
A descrição da metodologia, em termos de classificação da pesquisa, definição da
organização e dos sujeitos investigados, procedimentos de coleta de dados e de análise dos
dados empíricos, é realizada na terceira parte.
O quarto capítulo contextualiza a empresa objeto de estudo, no que se refere às suas
características, evolução e mudanças e, apresenta o resultado da investigação sobre o processo
sucessório da Retificadora Desordi Ltda e suas relações com o desdobramento da figura
paterna, no período de 1950 à 2007. Numa análise histórica e interpretativa traz a
configuração de cinco períodos estratégicos que descrevem as principais ações, decisões, fatos
e acontecimentos ocorridos na empresa e a análise teórica correspondente, que permite
compreender o tema estudado.
Por último, conclusões do estudo são apresentadas, abrangendo os objetivos e a
problemática da investigação, assim como sugestões em âmbito gerencial e acadêmico são
delineadas.
1 CONTEXTUALIZAÇÃO DO ESTUDO
14
Este recorte da pesquisa expressa a delimitação da temática e sua problematização,
bem como os objetivos delineados e as razões teóricas e práticas que justificam a realização
da investigação. São igualmente definidos os principais termos utilizados no estudo.
1.1 APRESENTAÇÃO DO TEMA
A presente pesquisa tem como tema a sucessão nas empresas familiares e o declínio da
função paterna na contemporaneidade. Não há dúvida de que a sucessão é, talvez, o elemento
mais preocupante para a empresa familiar, pois implica na sua sobrevivência, expansão e
continuidade, coloca Denise Grzybovski (2000).
Sérgio Gonçalves (2000) advoga que a empresa familiar passou a ser pensada, quando
o foi, em função daquele que seria o seu momento trágico, ou seja, o momento da sucessão,
imaginado com o mesmo fatalismo que marca o teatro clássico grego. Nesse caso, o inevitável
podia até mesmo ser comprovado estatisticamente: em todo o mundo, a menor parte das
empresas familiares sobrevive numa segunda geração e uma minoria desprezível suporta a
terceira.
A sucessão, no entendimento de Grzybovski (2000) manifesta historicidade não se
baseia unicamente na racionalidade da administração. As variáveis que a compõem passam
pela ótica do empreendimento, porém estão profundamente enraizadas na própria estrutura
familiar.
Nesse sentido, a autora argumenta que
a sucessão envolve
preparação,
profissionalização, forte vínculo, empatia, confiança e lealdade familiar. Implica ter a carga
do passado presente e as expectativas e obrigações futuras a materializar a dinâmica da
imitação/superação fazendo parte do seu cotidiano. O fundador enfatiza valores que se tornam
parte dos princípios da família e dos negócios, tornando-os parte da cultura empresarial que
devem ser conservados após a sua partida.
Segundo Lodi (1994), os valores numa empresa familiar são comunicados oralmente
durante longo tempo, até que em algum momento eles são escritos em forma de código. Os
valores são o que mantém a empresa integrada, cimentando as relações entre os membros da
família acima das diferenças individuais.
15
Sucessão é plural, afirma o autor. Não se trata de indicar um indivíduo como executivo
principal, mas buscar uma fórmula que atinja a todos naquilo que cada um considere a sua
plenitude pessoal.
Este conjunto de emoções e sentimentos cria um vínculo tão intenso entre a própria
vida do fundador e a vida da empresa, que é difícil separá-las. Para muitos, a empresa é a sua
própria razão de ser ou sua realização maior, mais intensa ainda que os filhos, a família, etc
(BERNHOEFT, 1989).
Quando se pensa sobre os momentos de transição que são experimentados pela
empresa familiar, resta lembrar aquele que é exatamente o mais enfatizado e estudado: a
passagem do comando da empresa, especialmente quando ela envolve o seu fundador
(GONÇALVES, 2000).
Com relação a esta passagem, o autor propõe pelo menos três considerações.
Em primeiro lugar, é inevitável que, na empresa familiar brasileira, o processo
sucessório seja, ainda que em graus diferentes, orientado por uma cultura que a configurou
como patriarcal e patronal, o que leva ao privilégio do filho homem primogênito como sendo
o sucessor necessário. O que não pode ser esquecido, porém, é que a família, como
instituição, experimentou mudanças profundas, que devem ser compreendidas em função de
uma revolução das individualidades ocorridas durante a segunda metade deste século e que
está dando a cada membro da família uma liberdade, em relação a ela mesma, que é inédita no
mundo moderno ocidental. Dessa forma, a empresa familiar, no Brasil, da mesma forma que
no resto do mundo, tem o desafio de ajustar-se a uma nova família, organizada
democraticamente, justificável enquanto os seus membros entendam que ela lhe dá satisfação.
Em segundo lugar, deve ser lembrado que a família é um pequeno grupo social, no
qual são desenvolvidos os sentimentos mais fortes que possam marcar um ser humano, como
o amor e o ódio por exemplo. Do encontro entre as duas esferas, a do privado (a família) e a
do público (a empresa), surge algumas relações que são particularmente perigosas: entre
irmãos e/ou primos; entre sogro e genro; entre avô e neto, no momento da sucessão. Os jogos
do inconsciente da família poderão não prejudicar a sua empresa enquanto ela estiver sob o
comando de um patriarca, que usa do seu poder absoluto não para solucionar os conflitos, mas
para discipliná-los.
Em terceiro lugar, na grande maioria dos casos, os empresários conseguem ser, de
forma aparentemente incoerente, de uma competência equivocada na formação dos filhos
16
sucessores. O filho sucessor é formado de maneira a ser sadio, simpático, bem informado,
bem relacionado e confiante em si mesmo. Ao assumir uma posição de comando na empresa
da família, ele penetra em um mundo povoado por seres que ele jamais conheceu e enfrenta
problemas que não podem ter a solução que mais lhe convém, apenas por um ato de vontade
sua.
Os interesses e as razões que justificam o estudo de organizações familiares são
plurais (DAVEL; COLBARI, 2003). Inserida em um contexto repleto de ambigüidades e
contradições, a pesquisa sobre organizações familiares foi conduzida mediante abordagens
conceituais e metodológicas variadas. Apesar da intensificação das pesquisas sobre o tema
desde a década de 1980, no entendimento dos autores, os resultados são ainda relativamente
limitados, muitos têm se concentrado em aspectos sucessórios, econômicos, financeiros,
funcionais e evolutivos, mas muito pouco tem sido pesquisado sobre os tipos de dinâmicas
subjacentes à organização familiar: dinâmicas sociais, culturais, simbólicas, políticas,
emocionais, relacionais, lingüísticas, temporais, comunitárias e étnicas.
As questões relativas às mudanças culturais e familiares ocorridas nas últimas décadas
instigam a presente pesquisa no sentido de compreender os efeitos dessas mudanças no
processo sucessório a partir da função paterna.
1.2 PROBLEMA
A globalização embora corresponda fundamentalmente a uma nova etapa na evolução
do capitalismo, ensejada pelo progresso das comunicações e da informática, resulta - e é causa
ao mesmo tempo – da uniformização dos padrões culturais e dos problemas que hoje afetam o
planeta como um todo (FARIA, 1996).
Porém, o intercâmbio mundial de mercadorias, em consonância com o autor, não é
algo inteiramente original. Desde a revolução neolítica até a revolução industrial, a
humanidade evoluiu a passos largos no campo econômico. O aperfeiçoamento das técnicas
agrícolas, o transporte sobre rodas e o emprego do barco à vela levaram à criação das cidades
e à expansão do comércio, que passou a ser praticado em escala global a partir das grandes
navegações quinhentistas. A descoberta da máquina a vapor no fim do século XVIII, por sua
vez, permitiu que as manufaturas fossem produzidas em série e exportadas em grandes
partidas para os diversos quadrantes da terra.
17
Mas, advoga o autor, há algo novo na globalização: o poder de autodeterminação das
comunidades políticas organizadas em Estados passou a ser cerceado pelo poder dos agentes
econômicos transnacionais, com o que ficou abalada a própria legitimidade dos governantes.
Incapazes de assegurar uma efetiva regulação social, no âmbito de uma economia
globalizada, despreparados para administrar conflitos coletivos pluridimensionais por meio de
sua engenharia jurídico-positiva concebida para lidar basicamente com conflitos
unidimensionais, sem condições de deter a diluição de sua ordem normativa, os Estados
nacionais encontram-se, assim, em crise de identidade (FARIA, 1996).
Stuart Hall (2005) pontua que a crise de identidade é vista como parte de um processo
amplo de mudança, que está deslocando as estruturas das sociedades modernas e abalando os
quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo.
Um tipo diferente de mudança está transformando as sociedades modernas do final do
século XX, fragmentando as paisagens culturais, de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e
nacionalidade. Esse duplo deslocamento ou descentramento dos indivíduos tanto de seu lugar
no mundo social e cultural quanto de si mesmos, constitui uma crise de identidade, e, está
relacionado ao caráter de mudança na modernidade tardia, ou seja, a globalização e seu
impacto sobre a identidade cultural, cenário do qual a empresa familiar é parte integrante.
A globalização se refere àqueles processos, atuantes numa escala global, que
atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em
novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais
interconectado. Essas novas características temporais e espaciais, que resultam em uma
compreensão diferente de distâncias e de escalas temporais, estão entre os aspectos mais
importantes da globalização a ter efeitos sobre as identidades cultuais (HALL, 2005). As
identidades sociais em crise exigem reconhecimento (TAYLOR, 1998).
Antigamente, em conformidade com Taylor (1998), o reconhecimento nunca havia
constituído um problema, pois estava associado à identidade de origem social, precisamente
pelo fato de se basear em categorias sociais que ninguém punha em causa. Embora, a
identidade pessoal, original, resulte de um processo interior, não é alvo deste reconhecimento
à priori.
As identidades cujo reconhecimento é discutido por Taylor (1998) são o que
chamamos de identidades sociais coletivas: religião, sexo, etnia, raça. Esta lista é heterogênea.
18
Esse reconhecimento pode ser interpretado de várias formas. Por exemplo: a religião, ao
contrário de muitas outras, requer amor pela crença ou compromisso com as práticas.
O que a idade moderna tem de novo não é propriamente a necessidade de
reconhecimento, mas sim as condições que podem levar uma tentativa de reconhecimento
falhar (TAYLOR, 1998).
Para a psicanálise, o patronímico parece assegurar a neutralidade da filiação, mas a
circunstância da herança macula sua função: o patronímico concerne a uma paternidade, a um
pai morto desde sempre. É sempre simbólico, no sentido em que transcende o vivo e está
protegido do tempo. Existe, em princípio, uma espécie de eternidade no nome, que passa
interminavelmente pelas gerações, e nem a vida nem a morte devem concernir-lhe, embora
essa mesma eternidade o situe mais do lado da morte (POMMIER, 1992).
A dívida a ser paga ao pai impele para a ação por ter o dever de ficar à altura de seu
próprio nome, de não se contentar em recebê-lo (POMMIER,1992). Porém, a transmissão do
nome é problemática, pois nunca haverá uma ação suficientemente brilhante para fazê-lo
brilhar.
Nesse sentido, o Nome-do-Pai, no conjunto da obra lacaniana, por ser nome, é
linguagem e, por ser pai, é um operador lógico que visa à intervenção, em suma, é o pai
forjado pela linguagem, que pode ser materializado temporariamente por todo aquele que
exerce intervenção.
O ‘complexo-pai’ é a forma como Freud estabelece a função paterna. Essa função,
para além de todo e qualquer fator biologizante que esse termo possa sugerir, é de fato
suficientemente complexa para daí haver a necessidade de desdobrá-la em três diferentes
registros: real, simbólico e imaginário (PEREIRA, 2008).
É justamente nessa complexidade da função paterna, do simbólico nas relações
interpessoais e na hiância entre paternidade e fraternidade que se institui o discurso, a grande
instituição, resultante imediata desse contrato social, dessas obrigações mútuas, dessa justiça e
dessa moralidade a que Freud se refere em Totem e Tabu. Toda instituição, em suas diversas
formas de organização social – Estado, igreja, exército, escola, etc, são substitutas do pai,
como são seus indivíduos – governantes, padre, general, professor, etc. (FREUD, 1913[191213]).
Nossa organização social de hoje, com o nivelamento de todos os enunciados, com a
evitação da disparidade entre enunciação e enunciado, induz o apagamento da dissimetria dos
19
lugares e quer apagar as diferenças tanto a dos sexos quanto a das gerações. Apagar a
diferença dos lugares, dos sexos e das gerações, tem como efeito o apagamento das
referências simbólicas, indispensáveis à vida social (LEBRUN, 2004).
Desta forma, o que o pós-moderno inaugura, na visão de Lebrun (2004) é, pois, uma
sociedade que não somente não ratifica mais a função dos interditos, habitualmente destinada
ao pai, mas que, em contrapartida, implicitamente não a reconhece, porque o tipo de laço
social por ela promovido se situa às avessas do trabalho de simbolização.
O que funda a possibilidade de alteridade na realidade psíquica é a entrada na
linguagem, veiculada pela intervenção interditora do pai, na medida em que reitera a
indisponibilidade da mãe como objeto de gozo absoluto. É porque estamos numa economia
psíquica regida pelo significante que a presença do objeto é encontrada sempre sobre um
fundo de ausência e, é mesmo por causa dessa fraqueza radical que sua presença se mostra a
nós resplandecente (LEBRUN, 2004).
Até a década de 50, a empresa familiar brasileira teve presença quase absoluta em
praticamente todos os segmentos da economia nacional, desde a atividade agrícola até o
sistema financeiro, passando pela indústria têxtil, de alimentação, de serviços e de meios de
comunicação. A partir daí, iniciado o grande projeto de desenvolvimento e modernização
nacional, ela passaria a partilhar cada vez mais espaços com as empresas multinacionais e
com as estatais (GONÇALVES, 2000).
Nascem os novos líderes, exercendo uma liderança que se baseia na competência. Eles
são os administradores profissionais.
Assim sendo, de acordo com o autor, a empresa familiar recebeu um estigma que iria
marcá-la pelas décadas seguintes: o estigma da incompetência pressuposta.
Entretanto, por acreditar na importância da função paterna subjacente nas produções
do sujeito, em especial nas organizações familiares – naquilo que é o elemento mais
preocupante: a sucessão - e, com isso, contribuir para uma melhor compreensão dessas
organizações, bem como da cultura, formula-se a seguinte questão de estudo: como ocorre o
processo sucessório de uma empresa familiar - objeto de estudo -, e que relações podem ser
estabelecidas com o declínio das referências simbólicas - função paterna -, na
contemporaneidade?
20
1.3 OBJETIVOS
1.3.1 Objetivo Geral
Compreender o processo sucessório em uma empresa familiar, na perspectiva
psicanalítica, a partir da função paterna, entendida como reguladora das referências
simbólicas na cultura.
1.3.2 Objetivos Específicos
- Analisar o discurso dos atores, visando entender a partir deles, o processo
sucessório em uma empresa familiar como um efeito discursivo;
- Analisar o discurso dos atores, interrogando a partir deles, o desdobramento da
função paterna, no decorrer do processo sucessório de uma empresa familiar como
um efeito discursivo.
- Investigar os efeitos do declínio da função paterna no processo sucessório de uma
empresa familiar;
- Analisar as contribuições dos conceitos psicanalíticos para a compreensão do
processo sucessório em uma empresa familiar;
1.4 JUSTIFICATIVA
Gersick et al (2006) constataram em seus estudos que 80% das empresas do mundo
são familiares, por isso desempenham importante papel no cenário econômico e social, tanto
em nível mundial quanto nacional, principalmente pela geração de emprego e renda. A
mortalidade dessas empresas também é alta; muitas não chegam à segunda geração e poucas
atingem a terceira geração (CAMPOS; MAZZILLI, 1998; GRZYBOVSKI, 2007). São,
portanto, organizações representativas na economia nacional e regional e merecem ser
investigadas.
O processo sucessório manifesta historicidade e não se baseia unicamente na
racionalidade da administração. As variáveis que a compõem passam pela ótica do
empreendimento, porém estão profundamente enraizadas na própria estrutura familiar
(GRZYBOVSKI, 2000).
21
Considerando estes aspectos, verifica-se que nas sociedades tradicionais, o pai, no
exercício de sua função, assegurava a continuidade de sua linhagem. Ele como tal, era o
senhor todo poderoso da palavra, sobre o qual se dava o fascínio da transmissão; o negociante
da economia das trocas e dos casamentos (PEREIRA, 2008).
Contudo, na civilização industrial, o pai tornou-se tecnicamente limitado à sua
especialidade. O que ele tem para transmitir parece de bem pouco peso em relação ao que se
deve receber do laço social.
O pensamento moderno se funda sob os princípios de seus significantes fundamentais:
o individualismo, a autonomia, a liberdade, a igualdade e a fraternidade (DUFOUR, 2005). Se
nos tempos pré-modernos, éramos perpassados por mecanismos histórico-ritualísticos de
subjetivação aos quais sucumbíamos, assistimos no cotidiano moderno, à consolidação
crescente dos mecanismos científico-disciplinares que fabricam sujeitos e individualizam
condutas. O utilitarismo contemporâneo procura livrar-se da sobrecarga simbólica que pesa
nas trocas humanas, argui o autor.
O declínio das referências simbólicas, então, indica um processo que visa
desembaraçar a troca concreta do que a excede e, ao mesmo tempo a institui: seu fundamento.
Pretende erradicar, nas trocas, o comportamento cultural, sempre particular.
A promoção de um ideal de submissão às coordenadas da ciência não implica mais
que seja preciso passar pelos caminhos da castração, ou seja, deve sustentar que, mesmo
havendo impossível, a vida não é, por isso, impraticável. Em outras palavras, o que se tenta
apreender dessa nova economia psíquica ou dessas novas doenças da alma, é um recuo da
simbolização. Quando a relação de sentido desfalece, é sempre em detrimento do próprio da
humanidade, a discursividade, e em proveito da relação de forças, o que justifica uma
abordagem crítica.
O interesse em estudar o processo sucessório emerge da experiência nas condições de
herdeira, sucessora, gestora, gerida e, sucedida, em uma empresa familiar, hoje, em processo
de inserção da terceira geração.
Cabe destacar, ainda, que o fenômeno da sucessão no âmbito das organizações é tema
de estudos e investigações no Grupo de Estudos e Pesquisas em Organizações, Gestão e
Aprendizagem (GEPOG), o qual está vinculado ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu
em Desenvolvimento da Unijuí, especialmente na Linha de Pesquisa Gestão de Organizações
e do Desenvolvimento.
22
1.5 DEFINIÇÃO DOS PRINCIPAIS TERMOS
Os principais termos são apresentados e definidos com o intuito de esclarecer com que
significados serão empregados no presente estudo. Estas definições são aprofundadas no
decorrer da revisão teórica.
Discurso: Em seu seminário anual de1969/1970, Jaques Lacan elabora um artifício
teórico para anunciar o ‘Avesso da Psicanálise’, denominando-o, por intermédio de quatro
algorítimos, de Teoria ou Produção de Quatro Discursos. Tal teoria se interessa pelo que o
sujeito produz em seu entrelaçamento com a ordem social (MRECH, 2005).
Sob a forma de algorítimo, Lacan teoriza sua idéia de um discurso com base no que
proclamou “um discurso sem palavras” (LACAN, 1992, p.11). Um discurso que subsista em
certas relações fundamentais. “Estas, literalmente, não poderiam se manter sem a linguagem.
Mediante o instrumento da linguagem instaura-se um certo número de relações estáveis, no
interior das quais certamente pode inscrever-se algo bem mais amplo, que vai bem mais longe
do que as enunciações efetivas” (LACAN, 1992, p.11).
São quatro algorítimos: o do discurso do mestre, do universitário, do analista e da
histérica. Correspondem às práticas sociais de governar, educar, psicanalisar e fazer desejar.
Empresa Familiar: É aquela em que a consideração da sucessão da diretoria está
ligada ao fator hereditário e onde os valores institucionais da firma identificam-se com um
sobrenome da família ou com a figura do fundador (LODI, 1993).
O conceito de empresa familiar nasce geralmente com a segunda geração de
dirigentes, ou porque o fundador pretende abrir caminho para eles entre os seus antigos
colaboradores, ou porque os futuros sucessores precisam criar uma ideologia que justifique a
sua ascensão ao poder (LODI, 1993).
Função Paterna: Complexo – Pai, Nome-do-Pai – Função que ultrapassa todo e
qualquer fator biologicamente que esse termo possa sugerir. Por ser nome, é linguagem e, por
ser pai, é um operador lógico que visa à intervenção, é o pai forjado pela linguagem, que pode
ser materializado temporariamente por todo aquele que exerce intervenção (PEREIRA, 2008).
Pai Real: É o pai concreto, genitor, que compõe o seio da realidade familiar de nossa
cultura. É o pai que possui suas particularidades, opções, mas também suas dificuldades. Seu
verdadeiro lugar dentro da família moderna, por exemplo, é variável, muitas vezes frouxo e
frequentemente impreciso. O pai, pelo menos em nossa civilização, sempre é um pai
23
discordante em relação à sua função, ou, diriam os historiadores, o pai em nossa civilização é,
sobretudo, um pai humilhado. Ele não cria a lei, no entanto, está a ela submetido e por ela
interrogado. Mesmo interrogado é o mecanismo fundamental de identificação primordial, é o
agente da castração (PEREIRA, 2008).
Pai Simbólico: É o que Freud teoriza como morto, o instituinte cultural da
humanidade. É o que promove a inversão lógica: no lugar de proclamarmos: ‘o pai está morto,
então tudo é permitido’, dizemos ‘o pai está morto, então nada mais é permitido’. Para
garantir essa lógica forjamos as instituições sociais, a mestria, a religião, o consumo e tantas
outras obras humanas (PEREIRA, 2008).
Pai Imaginário: É aquele que medeia essa investidura do pai real como pai simbólico.
É uma entidade fantasmática que recupera notadamente a tirania do macho assassinado pela
horda filial para que se dê tal investidura. É na qualidade de idealizado, fantasiado, segundo a
dialética edipiana, que o sujeito terá condições de perceber esse intruso, que, ora
intransigente, ora condescendente, vem privá-lo de seu relacionamento fusionado com a mãe
(PEREIRA, 2008).
Pai Totêmico: Inscrito como exceção, recobrado como imaginariamente vivo na
fantasia de cada sujeito que herdou o crime fundante da humanidade (PEREIRA, 2008).
Patronímico: Assinatura do Nome-do-Pai. Concerne a uma paternidade simbólica, a
um pai morto. Parece assegurar a neutralidade da filiação, porém a circunstância da herança
macula a sua função: o patronímico concerne a uma paternidade, a um pai morto desde
sempre. É sempre simbólico, no sentido em que transcende o vivo e está protegido no tempo.
Concerne eternidade ao nome, que passa pelas gerações (POMMIER, 1992).
Processo Sucessório: Segundo Lodi (1993), os valores numa empresa familiar são
comunicados oralmente durante longo tempo, até que em algum momento eles são escritos
em forma de código. Os valores são o que mantém a empresa integrada, cimentando as
relações entre os membros da família acima das diferenças individuais.
24
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 FAMÍLIA
Para Ariès (1973) a idéia essencial dos historiadores do direito e da sociedade é que os
laços de sangue não constituíam um único grupo, e sim dois, distintos embora concêntricos: a
família, que pode ser comparada à nossa família conjugal moderna, e a linhagem, que estendia
sua solidariedade a todos os descendentes de um mesmo ancestral. A família, embora não se
estendesse a toda linhagem, compreendia, entre os membros que residiam juntos, vários
elementos, e, às vezes, vários casais. Essa tendência à individuação da família, que não durava
além de duas gerações, deu origem às teorias tradicionalistas do século XIX sobre a grande
família patriarcal.
Para o autor, a família moderna seria, portanto, a conseqüência de uma evolução que,
no final da Idade Média, teria enfraquecido a linhagem e as tendências à indivisão.
De igual forma, o autor argumenta que a solidariedade da linhagem e a indivisão do
patrimônio se desenvolveram, ao contrário, em conseqüência da dissolução do Estado: “A
nova distribuição dos poderes de comando, após o ano mil, obrigam os homens a se
agruparem mais estreitamente” (ARIÈS, 1973, p.211). O estreitamento dos laços de sangue
que então se produziu, pontua o autor, correspondia a uma necessidade de proteção.
Ao mesmo tempo, nesses séculos XI e XII, podemos constatar o progresso da
indivisão. É dessa época que trata a indivisão dos bens dos dois conjugues que, no século X,
ainda não estavam fundidos numa massa comum, administrada pelo marido. A indivisão
também foi estendida aos filhos, que eram impedidos de obter qualquer adiantamento sobre
sua herança. Assim sendo, havia uma agregação prolongada na casa paterna e sob a
autoridade do ancestral. Essa indivisão muitas vezes subsistia após a morte dos pais.
Durante o século XIII, a situação mais uma vez se inverteu. As novas formas de
economia monetária provocaram um estreitamento das solidariedades de linhagem e o
abandono das indivisões patrimoniais. A família tornou-se novamente independente. Contudo,
advoga o autor, a classe nobre não voltou à família de laços frouxos do século X. O pai
manteve e até mesmo aumentou a autoridade que, nos séculos XI e XII, lhe havia sido
conferida pela necessidade de manter a integridade do patrimônio indiviso. A capacidade
legal da mulher entrou em declínio no fim da Idade Média e, no século XIII, o direito da
primogenitura se difundiu nas famílias nobres. Ele substituiu a indivisão, que se tornou mais
25
rara, como meio de salvaguardar o patrimônio e sua integridade. Durante muito tempo, o
casamento foi apenas um contrato. A influência do sentimento de família pode ser
reconhecida no século XVII. Daí em diante, a família não é apenas vivida discretamente, mas
é reconhecida como um valor e exaltada por todas as forças da emoção.
Esta conservava suas crianças em casa até a idade de sete ou nove anos. A partir desta
idade, as famílias colocavam suas crianças nas casas de outras pessoas, para aí fazerem o
serviço pesado, e as crianças aí permaneciam por um período de sete ou nove anos. Elas são
chamadas de aprendizes. “De um modo mais geral, a principal obrigação da criança assim
confiada a um mestre era serví-lo bem e devidamente” (ARIÈS, 1973, p.226).
Não havia lugar para a escola nessa transmissão através da aprendizagem direta de
uma geração outra. De modo geral, a transmissão do conhecimento de uma geração a outra
era garantida pela participação familiar das crianças na vida dos adultos. As cenas da vida
cotidiana constantemente reuniam crianças e adultos ocupados com seus ofícios.
A criança desde muito cedo escapava à sua própria família, mesmo que voltasse a ela
mais tarde, depois de adulta, o que nem sempre acontecia (ARIÈS, 1973, p.231). A família
não podia, portanto, nessa época, alimentar um sentimento existencial profundo entre pais e
filhos: eles se ocupavam de suas crianças menos por elas mesmas, pelo apego que lhes
tinham, do que pela contribuição que essas crianças podiam trazer à obra comum, ao
estabelecimento da família. A família era uma realidade moral e social, mais do que
sentimental.
A partir do século XV, as realidades e os sentimentos da família se transformariam:
uma revolução profunda e lenta, mal percebida tanto pelos contemporâneos como pelos
historiadores, e difícil de reconhecer. E, no entanto, o fato essencial é bastante evidente: a
extensão da frequência escolar (ARIÈS, 1973).
O autor argumenta que dessa época em diante, a educação passou a ser fornecida cada
vez mais pela escola. A escola deixou de ser reservada aos clérigos para se tornar o
instrumento normal da iniciação social, da passagem do estado de infância ao do adulto. A
substituição da aprendizagem pela escola exprime também uma aproximação da família e das
crianças, do sentimento da família e do sentimento da infância, outrora separados. A família
concentrou-se em torno da criança.
Os problemas morais da família apareceram então sob uma luz nova. Isso fica
evidente no caso do antigo costume que permitia beneficiar apenas um dos filhos em
26
detrimento dos irmãos, em geral o filho mais velho. Tudo indica que esse costume se difundiu
no século XIII, para evitar o perigoso esfacelamento de um patrimônio cuja unidade não
estava mais protegida pelas práticas de propriedade conjunta e solidariedade de linhagem,
mas, ao contrário, era ameaçada por uma maior mobilidade da riqueza. O privilégio do filho,
beneficiado por sua primogenitura ou pela escolha dos pais, foi a base da sociedade familiar
do fim da Idade Média até o século XVII, mas não mais no século XVIII. A partir da segunda
metade do século XVII, os educadores contestaram a legitimidade dessa prática que
prejudicava a equidade, repugnava a um sentimento novo de igualdade de direito à afeição
familiar, e era acompanhada de uma utilização profana dos benefícios eclesiásticos.
Assistimos aqui, advoga o autor, ao início de um sentimento que resultaria na igualdade do
código civil, e que, como sabemos, já havia penetrado nos costumes no fim do século XVIII.
Os progressos do sentimento de família seguem os progressos da vida privada, da
intimidade doméstica. O sentimento da família não se desenvolve quando a casa está muito
aberta para o exterior, ele exige um mínimo de segredo. No século XVIII, a família começou
a manter a sociedade à distância, a confiná-la a um espaço limitado. A organização da casa
começou a corresponder a essa nova preocupação de defesa contra o mundo. Outrora, vivia-se
em público, e tudo era feito oralmente, através da conversação. Agora, separava-se melhor a
vida mundana, a vida profissional e a vida privada: a cada uma, era determinado um local
apropriado como o quarto, o gabinete e o salão.
A reorganização da casa e dos costumes deixou um espaço maior para a intimidade,
que foi preenchida por uma família reduzida aos pais e às crianças, da qual se excluíam os
criados, os clientes e os amigos. A saúde e a educação seriam as duas principais preocupações
dos pais. Não podemos deixar de nos surpreender com o tom extremamente moderno dessa
correspondência. A criança tornou-se um elemento indispensável da vida cotidiana, e os
adultos passaram a se preocupar com sua educação, carreira e futuro.
A vida profissional e a vida familiar abafaram essa outra atividade, que
outrora invadia toda a vida: a atividade das relações sociais. Somos tentados a crer
que o sentimento de família e a sociabilidade não eram compatíveis, e só podiam se
desenvolver à custa um do outro (ARIÉS, 1973, p.274).
2.1.1 A família moderna
A imagem clássica de família que cultivamos em nossos sonhos é a definida como
extensiva: muitos filhos, crescendo próximos de tios, primos, avós; ela faz parte de uma
27
comunidade com a qual mantém relações de troca e participação, geralmente em um lugar de
poucos habitantes; é capitaneada por um pai presente, seguro e firme em suas convicções, e
gerenciada por uma mãe dedicada e amorosa; o cotidiano desse grupo reúne-os em torno da
grande e farta mesa de refeições, sempre conjuntas e regulares (CORSO e CORSO, 2011).
Já a realidade atual, advogam os autores é bem outra: pequenos núcleos, formados por
um casal e poucos filhos, quando não são famílias reconstituídas, com filhos só de um ou
outro conjugue, ou famílias monoparentais, ou ainda famílias de casais homossexuais. Essas
famílias se instalam nos lugares onde há trabalho, muitas vezes longe de suas origens, e as
refeições familiares só acontecem quando a pesada rotina de trabalho, estudo e atividades
extras permitem. Cada pessoa do grupo familiar tem seu mundo particular, freqüenta grupos
de afinidades, reuniões de trabalho ou amizade, práticas desportivas, cultiva seus hobbies. Nas
horas livres caseiras, em geral escassas, nem sempre a prioridade é o convívio familiar.
Também é comum que as famílias precisem recomeçar a vida sucessiva vezes em diferentes
comunidades.
De acordo com Corso e Corso (2011), dessa experiência de desapego dos lugares de
origem poderia resultar um maior fechamento do grupo familiar sobre si mesmo, como núcleo
de resistência à perda regular de referências externas. De fato, tende a ser assim quando os
filhos são pequenos, porém, a partir da adolescência destes, a tendência é que ocorra uma
pulverização: os filhos se misturam ao mundo externo com mais facilidade, incorporam
insígnias típicas de seu tempo e do lugar onde vivem, tornando-se assim estranhos à cultura
familiar. Logo os filhos partirão em busca de oportunidades, mas talvez para outras formas de
vida, ou ficarão no lugar onde estavam enquanto os pais é que vão embora, mudando-se em
função do trabalho ou de um novo estilo de vida escolhido.
Porém, argumentam os autores, por mais que o cotidiano possa ser pouco favorável ao
convívio, cabe aos membros das famílias influenciarem na formação uns dos outros, através
de relações que são sempre, de algum modo, amorosas. Nesse sentido, uma família é
composta por aqueles que nunca foram nem serão indiferentes entre si, porque eles,
principalmente os pais, são a fundação sobre a qual se equilibra tudo aquilo que vamos
construindo e transformando em nós mesmos. Quanto mais sólida for essa fundação, mais
carga ela suportará, melhores condições terá um sujeito de enfrentar os revezes da vida.
A família moderna constitui-se também, como pontuam os autores, sobre a base da
livre escolha amorosa; cabe a cada indivíduo encontrar e ficar com aquele que melhor lhe
serve como parceiro para a vida e para seus projetos. O desejo sempre teve motivos mais
28
inconscientes e intrincados do que a lei dos homens determina, mas as famílias eram
organizadas pelo sistema jurídico e de costumes, jamais pelos desígnios dos impulsos sexuais
ou amorosos.
A partir da segunda metade do século passado, conforme Corso e Corso (2011), as
famílias sentiam-se inseguras para preparar seus filhos para um mundo que as fascinava e
assustava. “O mundo evolui demasiado rápido, os adultos ‘sucateiam’ com a mesma
velocidade das máquinas, cada geração torna-se rapidamente um modelo superado, inferior
aos novos lançamentos: as crianças e os adolescentes” (CORSO e CORSO, 2011, p.69).
Na verdade, argumentam os autores, quando a história de uma família é narrada, quase
sempre é do ponto de vista de um filho, mesmo que o seja no tom do relatório de acusações da
Carta ao Pai de Kafka. Datada de 1919, essa carta, tantas vezes reescrita e nunca propriamente
enviada, foi publicada postumamente. Ela é o sinal de que o mal-estar na família tem, no
mínimo, praticamente um século. “Os pais são construídos por cada filho a partir da forma
como ele vai internalizando e elaborando as influências, palavras e atos deles” (CORSO e
CORSO, 2011, p.72).
Os pais, por sua vez, afirmam os autores, vão estabelecer seu modo de relacionar-se
com os filhos a partir do que herdaram, querendo ou não, de seus próprios pais: farão igual,
parecido ou inverso, mas sempre travando um diálogo com seu passado e com a educação que
receberam, com amores, ódios e frustrações provenientes da história da sua própria infância e
adolescência. “A família é um conjunto de vozes, de pessoas que, embora partilhem a mesma
história, raramente coincidem na versão que farão dela” (CORSO e CORSO, 2011, p.72).
2.1.2 Representações da família moderna
As histórias das famílias na ficção, na versão de Corso e Corso (2011), foram
modificando-se conforme as necessidades de cada época. Mudaram a serviço da projeção de
nossos desejos e frustrações referidas a esse que é, por excelência, nosso lugar de origem.
Hoje a família é representada ao modo inverso das anteriores: pais medíocres, tolos,
infantilizados e com valores morais duvidosos. Os pais já não são um exemplo a ser seguido,
porém os laços que unem os familiares jamais se desfazem, o amor entre seus membros pode
não ser o melhor, nem ao menos louvável, mas é incorruptível. A família hoje é quase sempre
feita de cacos de famílias anteriores, impondo desafios de convívio entre lares recompostos.
29
Na ficção o pai não é mais aquele, já não existe um patriarca que seja o exemplo e a
reserva moral da família, e também fraqueja a imagem da mãe equilibrada e ponderada que
acolhe com sabedoria as demandas dos filhos.
Os herdeiros da revolução de costumes precisam descobrir como administrar o
paradoxo de fundar-se, encontrar onde assentar as próprias bases, e transmitir algo a seus
filhos, tendo como ideal a transformação. A paixão pela mudança é mais um estado de
espírito do que um conteúdo a ensinar, e isso coloca um desafio para a postura parental, um
enigma que ainda não sabemos solucionar. Os pais nascidos a partir da década de 60
estiveram mais em contato com a mudança de hábitos do que com sua preservação,
aprenderam a valorizar mais a novidade do que a tradição e a sabedoria estabelecida pelos
antigos (CORSO e CORSO, 2011).
Hannah Arendt pontua que “... nossa herança foi deixada sem testamento algum”
(1992, p.31).
Conforme Corso e Corso (2011), aqueles que nas últimas décadas do século passado
recriminavam seus pais pela rigidez de valores e pelo culto hipócrita a uma moralidade de
aparência, estão na origem dos pais de hoje. Esses, por sua vez, constituem um modelo de
família que não joga mais para baixo do tapete os segredos familiares, as contradições, o sexo
e as fraquezas. Mas, embora mude o argumento, a queixa permanece: agora, os pais são vistos
como frágeis e imaturos, apesar do tanto que procuram preencher com afeto e camaradagem
fraterna suas diferenças com os papéis tradicionais. Também tentam fugir da raia, mas não há
escapatória: cada geração inevitavelmente precisa confrontar-se com o olhar crítico da
seguinte. Sejam de qual tipo for, as famílias parecem ter como vocação o conflito entre seus
membros.
A complexidade da antiga família extensiva, na qual era preciso conviver com os avós,
e ver os pais atuando cotidianamente como filhos deles, dividindo a intimidade com os irmãos
e os cunhados dos pais, descobrindo os diversos tipos de vínculos fraternos que existem,
assim como com primos de todas as idades e graus, se reedita. Uma vez dissolvida, a família
nuclear, antes empenhada em aparar todas as arestas, reencontra os enigmas do parentesco em
outra dimensão: outrora os filhos tinham como questão dilemas relativos à família de origem
dos pais, hoje os impasses dos filhos se equacionam em torno das buscas amorosas e de
realização pessoal do homem e da mulher que se uniram para concebê-los. Muda o tema, mas
a invariante é que ser pais e filhos é um trabalho psíquico exaustivo.
30
O cotidiano destas famílias em mutação, asseguram Corso e Corso (2011), inclui,
como se vê, o convívio entre relações amorosas novas e extintas, grupos de amigos, irmãos
em novas rodadas de partilhar o mesmo teto, tios e avós, chamados a figurar como figuras de
identificação para os mais jovens e comunidades de referência. A família está em mutação
porque poucas coisas permanecem iguais, o que não muda é a necessidade dos laços fraternos,
comunitários, familiares ou similares – para a constituição do eu.
2.2 EMPRESA FAMILIAR
A empresa familiar, segundo Lodi (1993), é aquela em que a consideração da sucessão
da diretoria está ligada ao fator hereditário e onde os valores institucionais da firma
identificam-se com um sobrenome da família ou com a figura de um fundador.
O conceito de empresa familiar segundo o autor nasce geralmente com a segunda
geração de dirigentes, ou porque o fundador pretende abrir caminho para eles entre os seus
antigos colaboradores, ou porque os futuros sucessores precisam criar uma ideologia que
justifique a sua ascensão ao poder.
De acordo com Donnelley (1987), citado por Bernhoeft (1989), uma companhia é
considerada uma empresa familiar quando está perfeitamente identificada com uma família há
pelo menos duas gerações e quando essa ligação resulta numa influência recíproca na política
geral da firma e nos interesses e objetivos da família.
Para Bernnoeft, revela-se a existência de tal relacionamento quando há uma ou mais
das seguintes condições:
- Os laços de família constituem um fator, entre outros, que determina a sucessão nos
cargos administrativos;
- Os valores institucionais importantes da firma identificam-se com uma família;
- As ações praticadas por um membro da família refletem-se na representação da
empresa, independente da sua ligação formal com a administração;
- Os parentes que participam da companhia sentem-se obrigados a ficar com ações por
razões mais do que puramente financeiras, especialmente quando há prejuízo;
- Cada membro da família precisa chegar a um acordo quanto às suas relações com a
empresa, ao determinar sua própria carreira a seguir.
31
No tocante ao quadro de colaboradores, o autor considera que são estes aspectos que
tornam a empresa familiar, muito mais do que o grau de parentesco envolvido. Ele cita alguns
pontos como exemplo:
- Forte valorização da confiança mútua, independente de vínculos familiares (os
exemplos são os velhos da casa ou ainda os que começaram com o velho);
- Laços
afetivos
extremamente
fortes,
influenciando
os
comportamentos,
relacionamentos e decisões da organização;
- Valorização da antiguidade com um atributo que supera a exigência de eficácia ou
competência;
- Exigência de dedicação (vestir a camisa), caracterizada por atitudes tais como não
ter horário para sair, levar trabalho para casa, dispor dos fins de semana para
convivência com pessoas do trabalho, etc;
- Postura de austeridade, seja na forma de vestir, seja na administração dos gastos;
- Expectativa de alta fidelidade, manifestada através de comportamentos como não ter
outras atividades profissionais não relacionadas com a vida das empresas;
- Dificuldades na separação entre o que é emocional e racional, tendendo mais para o
emocional;
- Jogos de poder, onde muitas vezes vale mais a habilidade política do que a
capacidade administrativa.
Isto mostra que o aspecto familiar está muito mais relacionado ao estilo que a empresa
é administrada, do que somente ao fato de seu capital pertencer a uma ou mais famílias.
De acordo com Grzybovski (2000), em sua pesquisa "Características comportamentais
dos administradores de empresas familiares: um estudo de caso para Passo Fundo", fica
evidenciado que, na prática, os administradores compreendem o significado de empresa
familiar como sendo aquela que tem a família no comando. Isso demonstra que não há uma
compreensão teórica do termo e num contexto geral que, o administrador não consegue
imaginar a organização sendo conduzida por pessoas estranhas ao convívio da família que
representa.
32
2.2.1 Aspectos que contribuíram para o nascimento das empresas familiares
A discussão sobre o nascimento das empresas familiares remonta a um passado de
colonização do território brasileiro, coloca Grzybovski (2000), basicamente formado por
imigrantes italianos, tendo como ponto geográfico de referência, o estado de São Paulo.
"Costuma-se dizer que a industrialização veio junto com a onda de imigração européia
no final do século passado e o começo deste. Isto é verdade se considerarmos o grande surto
industrial ocorrido principalmente em São Paulo, liderado pelos grandes empreendedores
vindos a maioria deles, da Itália" (MARTINS, MENEZES e BERNHOEFT, 1999 apud
GRZYBOVSKI, 2000).
Para a autora, não se pode negar o grande feito da imigração européia no que se refere
ao impulso de modernização provocado na economia local. Porem, no tocante à sua pesquisa
com empresas passofundenses, em especial as familiares, constata-se que foram
impulsionadas pelo forte espírito empreendedor, ainda presente nas gerações atuais, não
necessariamente correlacionado com questões étnicas.
Dentre os fatores que mais contribuíram para o surgimento das empresas familiares na
região, destaca-se a visão empreendedora dos fundadores. Foram eles que visualizaram uma
oportunidade de investimento, de aplicação ou diversificação das atividades da família.
A partir de sua pesquisa, no tocante ao surgimento das empresas familiares de Passo
fundo, a autora constata que pequenas oficinas (sapatarias, relojoaria, alfaiataria, entre outras)
deram origem a empreendimentos no setor de comércio de calçados, confecções, material
elétrico, indústria de confecções, etc.
É importante destacar que as empresas originárias de pequenas oficinas guardam um
alto grau de conservadorismo. A forma de administrar o empreendimento retrata uma
valorização do passado. Estas empresas acreditam que se deve gerenciar pessoalmente. Não
admitem a presença de um profissional da administração que não seja da família.
Esse conservadorismo não esta presente, nos aspectos que envolvem a busca de maior
participação de mercado (ampliação da loja, aquisição, abertura de filiais, aquisição de
produtos, mercadorias inéditas), o que perseguem sem medir esforços. Afinal, possuem
experiência de quarentena anos (em média) na atividade e conhecem muito bem cada
tendência adotada pelo cliente quanto pelo fornecedor.
33
Em oposição, na atualidade, coloca Grzybovski (2000), as empresas familiares nascem
da percepção de indivíduos de um nicho de mercado apreendido ou percebido nas aulas
freqüentadas em cursos técnicos, superiores ou de pós-graduação.
2.2.2 A sucessão nas empresas familiares
Segundo Lodi (1994), os valores numa empresa familiar são comunicados oralmente
durante longo tempo, até que em algum momento eles são escritos em forma de código. Os
valores são o que mantém a empresa integrada, cimentando as relações entre os membros da
família acima das diferenças individuais.
Bem antes de iniciar o processo sucessório, coloca o autor, há que se considerar alguns
componentes de análise:
a) Os valores da família, ou seja, o código não escrito em torno do qual se
desenvolveu a vida do fundador e que deveria ser a cola para grudar as gerações
maduras e vindouras;
b) As relações de poder, ou seja, quem manda, quem segue, quem disputa a liderança;
c) A ética interpessoal, ou o que é próprio e impróprio na relação com o patrimônio
coletivo, com as pessoas, com as retiradas, com os negócios paralelos, com os
conflitos de interesse;
d) O dado comportamental que determina o padrão de interações psicológicas,
decisões, motivação, satisfação pessoal e coletiva;
e) Os interesses patrimoniais, as preferências quanto à distribuição de resultados,
posse de ativos, previsão de inventários e doação de ações;
f) O acesso a competência profissional que permite investir no preparo de uma autosuficiência econômica e projeção profissional ou negocial na sociedade;
g) A instrumentação jurídica. A consciência das relações jurídicas entre as pessoas,
os direitos e deveres dos sócios, os papéis do sócio majoritário, minoritário e
controlador, os contratos e acordos societários, o direito de família e de sucessão
ou aspectos tributários que incidem sobre a herança.
Todos esses pré-requisitos e medidas afluem para o momento em que a família deve
buscar uma fórmula sucessória que seja inteligente e duradoura. Sucessão é plural, coloca o
autor, não se trata de indicar um individuo como executivo principal, mas buscar uma fórmula
34
que atinja a todos naquilo que cada um considere a sua plenitude pessoal. O adequado é
começar dez ou vinte anos antes da saída do fundador, inclusive por que a permanência do
fundador é instigadora de enredos, mais do que segurança e continuidade.
Não há dúvida de que a sucessão é, talvez, o elemento mais preocupante para a
empresa familiar, pois implica na sua sobrevivência, expansão e continuidade, coloca
Grzybovski (2000).
De acordo com a autora, a sucessão manifesta historicidade e não se baseia
unicamente na racionalidade de administração. As variáveis que a compõem passam pela
ótica de empreendimento, porém estão profundamente enraizadas na própria estrutura
familiar.
A sucessão envolve preparação, profissionalização, forte vínculo, empatia, confiança e
lealdade familiar, implica ter a carga do passado presente e as expectativas e obrigações
futuras a materializar a dinâmica da imitação/superação fazendo parte do seu cotidiano. O
fundador enfatiza valores que se tornam parte dos princípios da família e dos negócios,
tornando-os parte da cultura empresarial que devem ser conservados após a sua partida.
Segundo Bernhoeft (1989), este conjunto de emoções e sentimentos cria um vinculo
tão intenso entre a própria vida do fundador e a vida da empresa, que é difícil separá-las. Para
muitos, a empresa é a sua própria razão de ser ou sua realização maior, mais intensa ainda que
os filhos, a família, etc.
A consideração de todas estas razões torna a sucessão e a profissionalização da
empresa familiar um tema dos mais delicados.
Em sua pesquisa com empresas familiares de Passo fundo, Grzybovski comprovou
que a sucessão está baseada em critérios, como o interesse pessoal, bom relacionamento com
o sucedido e visão de continuidade. A patrilinearidade, sucessão baseada no sexo masculino,
e, no desejo do pai fundador não foi confirmada.
A autora coloca que, possivelmente, variáveis como a maior sensibilidade para com as
relações que confundem a história pessoal (desejos, ambições, estilo de vida) com a da
própria empresa, a determinação da amplitude do espaço familiar ocupado (incorporação de
relações de parentesco, compadrio), a habilidade pessoal de ser a ponte entre o tronco e os
ramos da árvore familiar, os fortes vínculos sociais possivelmente existentes, a amplitude da
visão e o relacionamento com o mercado (clientes, fornecedores, concorrência, planejamento,
35
avaliação, etc), determinam a escolha do sucessor na empresa, num processo natural de
exclusão dos demais membros da família.
Todos esses elementos são variáveis presentes em qualquer comportamento e atitudes
administrativo-organizacionais, coloca a autora, porém, ganham especificidade e maior
objetividade quando da ligação umbilical (conflitiva entre família e empresa).
Em sua pesquisa, a autora constatou, ainda que em menor grau, o problema de
sucessão vinculado a fatores de herança, de fragmentação do patrimônio, com problemas
jurídicos, contábeis em função de uniões conjugais, testamentais, vínculos de parentesco e
compadrio, etc.
2.2.3 A preparação do sucessor
Segundo Grzybovski (2000) o empreendedor idealizador de uma atividade empresarial
ou negócio comercial, é uma figura pouco profissionalizada, estando identificado com a
história econômica de dificuldades quando na colonização do país pelos pioneiros. O
empresário, por sua vez, está mais revestido da identidade do sucessor, é mais profissional,
flexível, descentralizador; faz-fazer; tem mais vínculo com a dinâmica de mercado e com a
racionalidade objetiva, pragmática e instrumental da ação dos meios.
Nesse ponto, reside a ambigüidade e a ambivalência das identidades: exige-se um
sucessor que seja, no presente, o passado e, ao mesmo tempo, a potencialidade e confiança do
e no futuro.
Exige-se do sucessor que seja um empresário empreendedor, que una as duas figuras,
que se volte profundamente para os negócios com os seus valores, o pensamento lógico e a
racionalidade objetiva em competência, dedicação, trabalho árduo, consciência do risco e da
recompensa, de iniciativa, de propriedade, que seja multifuncional, concentre atividades em
suas mãos e sob sua responsabilidade.
Quando um empreendedor prepara seu sucessor, é comum e notório que procure
desenvolver nele traços de sua imagem e semelhança, socializando-o em seu mundo. Porém, a
autora deixa claro que nessa relação, não necessariamente, há limites de profissionalização e
que a família e o passado sejam puramente instâncias sócio-culturais e, temporais superadas,
preteridas e ultrapassadas para o bom funcionamento do empreendimento.
A idéia de sucessor possui uma conotação de seqüência, de continuidade. Por sua vez,
a dinâmica mercantil (mercadológica) é movimento, superação, redefinição, exige estratégias,
36
metas, objetivos, planejamentos estratégicos, conquista de espaços, avaliação, envolvimento
coletivo, multifuncional idade, etc., implicando descontinuidade e superações, para não dizer
rupturas.
A preparação do sucessor é entregue então à academia.
A preocupação em oferecer uma educação adequada aos herdeiros sucessores propõe
que o administrador/fundador das empresas familiares possui a visão que lhe permite o
rompimento de paradigmas que já não se coordenam com as mudanças constantes exigidas
para crescimento no mercado.
2.2.4 Processo de gerenciamento da sucessão
Segundo Lodi (1993), o pior dos conflitos que infestam as empresas familiares é o
existente na fase de sucessão. Geralmente, é o resultado de problemas estruturais da família,
com raízes há vinte ou trinta anos, determinados pela maneira como os pais educaram os
filhos, preparando-os para o poder e a riqueza.
Quando se pergunta por que as empresas falem, tem-se como resposta que a família
não estava preparada para entender a empresa, que a atitude dos familiares foi de dilapidação
do patrimônio, que o fundador consumiu suas energias na construção do império e não teve
tempo para educar os filhos, que a profissionalização descaracterizou a empresa familiar.
A pesquisa das empresas familiares passofundenses aponta a presença do fundador no
comando dos negócios em alguns casos, coloca Grzybovski. Mas, o comando ostensivo está
centrado na segunda geração. Isso se deve, especialmente, à idade avançada do fundador, que
permanece nas empresas como conselheiro, assessor ou figura decorativa. Por outro lado,
coloca a autora, a maioria das empresas apresenta administração do tipo familiar, sob o
comando do filho, assessorado pelo pai (fundador), ou seja, possuem um comportamento
organizacional que requer dos sucessores rendimento de tributos à figura do fundador.
Das empresas estudadas, algumas tiveram problemas de sucessão que provocaram
cisão do grupo empresarial ou ainda, estão em disputa judicial. Durante este processo, os
gestores incorporam o cargo de administradores como se fossem donos do patrimônio,
aprimorando-se de bens da organização ou tentando preservar o futuro da família constituída
em detrimento daquela que os geram.
A disputa pelo patrimônio em alguns casos compreende um longo período (dez anos
em média), que impede o crescimento da organização.
37
No estrato das empresas que estão em poder da terceira geração, apresenta-se o mito
em torno da empresa familiar: pai rico, filho nobre, neto pobre. A autora considera que esse
estrato estando representado por um número pequeno de empresas, não permite confirmar o
dito como uma verdade.
Segundo Lodi (1994), a empresa familiar como organismo vivo pode ser estudada em
sua origem, crescimento, apogeu e declínio. Nesse ponto ela é um organismo biológico
passando por diferentes fases, geralmente ligadas ao fundador, a segunda e a terceira geração.
As fases de fundação e crescimento contemplariam o período do pai rico. Na
fundação, a empresa possui conflitos latentes, sucesso e a força do fundador. Na fase de
crescimento, a velocidade do crescimento, esconde os problemas estruturais.
No apogeu, de acordo com o autor, que caracteriza o período filho nobre, a firma
atinge o máximo, apresenta efeitos residuais do êxito do crescimento, manifestações de
conflitos e perda de posição.
No declínio, período do neto pobre, a empresa apresenta falta de liderança, conflito em
família, divisões, pulverização do patrimônio, obsoletismo, crise e decadência.
De acordo com Vidigal (1997), as empresas têm um ciclo de vida média de 60 anos,
independente de serem familiares ou não. De acordo com o autor, as estatísticas nos EUA,
indicam que a expectativa de vida para empresas com capital pulverizado e gestão
profissionalizada é de 40 anos, enquanto que para as empresas familiares, é de 25 anos.
Existe, portanto um problema.
O que diferencia estas empresas de outra com expectativa de vida menor consiste em
que estas souberam lidar com eficiência com a delicada relação família e empresa. Entre
propriedade e gestão. Treinam os sucessores não para serem herdeiros, mas sim acionistas
competentes e profissionalizados.
A maior parte dos nossos exemplos de fracassos ou perdas coloca Bernhoeft (1989),
esteve muito mais associada a conflitos e mesquinharias entre sócios ou familiares do que a
incapacidade de gerir desafios administrativos nas empresas.
Precisamos alterar, advoga o autor, rapidamente as condutas dos que se acostumaram
com a idéia de que empresas que tinham 'dono', agora têm sócios. E esta sociedade está
constituída por herdeiros que não se escolheram para essa nova situação. O primeiro passo é
38
fazer com que os herdeiros entendam o que é ser ‘acionista’. Foram iludidos com a falsa idéia
de que iam ser 'donos'.
O passo seguinte é separar a propriedade da gestão de forma clara e buscando um
modelo societário que permita criar estruturas de poder diferenciadas para ambos os núcleos.
De forma geral, na primeira geração, a propriedade e a gestão mantém-se misturadas e até
envolvendo questões familiares.
O outro fator que contribui para isso é a criação de conselhos de família. Estes devem
ter uma atuação profissional e não passional. Para tanto, devem contemplar quatro grandes
áreas:
- Conhecimento do Negócio - visão estratégica (médio e longo prazo), com base nos
riscos do capital envolvendo produtos, clientes, concorrentes, fornecedores, riscos e
oportunidades do mercado, pontos fortes e fracos do próprio negócio e vantagens
competitivas que permitam rentabilidade do patrimônio;
- Conhecimentos Legais - direitos e obrigações dos sócios do ponto de vista legal,
familiar e tributário;
- Conhecimentos de Economia e Finanças - leitura e interpretação de informações
econômico-financeiras. Relacionamento com auditorias, incluindo avaliações do patrimônio e
acionárias;
- Conhecimentos Gerais - administração de conflitos familiares. Associações,
parcerias, abertura de capital e, alternativas de capitalização. Critérios para escolhas de
conselheiros, etc.
Bernardi (1995) afirma que é comum ouvir dizer que as empresas familiares
brasileiras se dividem em duas categorias: as que têm problema na família e as que vão ter.
Pouco se fala de uma alternativa diferente. A de que a empresa familiar possa superar
seus problemas, prosperar, disputar posições de liderança e continuar sob o controle acionário
da família.
Preparar um herdeiro para assumir a empresa é o negócio mais acertado, coloca
Bernardi. Porém, exige que se comece a planejar com muita antecedência. Não se pode fingir
que este problema não vai acontecer. Abandonar o futuro, deixar para resolver as coisas
quando as bombas começarem a estourar é um erro sem tamanho, conclui a autora.
39
2.2.5 A profissionalização da empresa familiar
Segundo Grzybovski (2000), nas empresas familiares, a apatia e o descuido com o
todo organizacional são cultivados pelo enfoque mecanicista, da organização que domina a
vida de trabalho. É a racionalidade funcional ou instrumental que se origina da forma como as
pessoas e cargos se encaixam num planejamento informal rígido. Esse tipo de racionalidade
contrasta com a racionalidade substancial dos sistemas, voltados ao melhoramento dos
processos, à qualidade do processo, nos quais as pessoas são encorajadas a determinar se
aquilo que estão fazendo é apropriado ou, não estando, a se ajustar às várias ações.
Essa racionalidade, por sua vez, requer ações que sejam orientadas por
esclarecimentos inteligentes da situação toda, é reflexiva e auto-organizadora. Tais elementos
precisam estar presentes no gerenciamento das empresas contemporâneas em razão do
contexto de mudanças ao qual estão expostas diariamente.
Diante de um discurso de modernidade e de processos transparentes, o
acompanhamento dos resultados é realizado exclusivamente pelos membros da família, com
divulgação restrita.
O planejamento, denominado de estratégico, é elaborado pelos membros da família
que atuam na organização. Contudo, tal planejamento é mera previsão dos resultados
esperados no período de um ano; não é registrado por escrito (formal) e resume-se a metas
operacionais a serem alcançadas pelos funcionários desse nível operacional. É divulgado, na
maioria dos casos, aos demais funcionários da empresa no final de cada ano, durante uma
festa comemorativa setorizada (somente alguns setores participam da divulgação das metas a
serem atingidas no ano que seguirá).
Isso demonstra que a empresa familiar utiliza uma linguagem advinda das modernas
técnicas de gestão, mas o modelo de gestão apenas aparenta ser moderno. Esse retrata um
gerenciamento, voltado para a família, ignorando o mercado e as suas necessidades no que
tange ao gerenciamento, de recursos humanos (sistema fechado). No entanto, quando se trata
de mercadorias, satisfação do cliente ou layout, o processo de tomada de decisão é unilateral
(pela família), voltado para o mercado (sistema aberto). Portanto, a empresa familiar adota um
sistema de gestão antagônico, compreensível somente pelos indivíduos que dela fazem parte,
formando um modelo de gestão atípico.
Quanto ao processo de tomada de decisão, Grzybovski (2000), acrescenta que as
decisões não são tomadas no âmbito familiar, mas no momento certo. Esse pode ser um final
40
de semana, a hora do jantar em família, do churrasco de confraternização entre os empregados
e dirigentes. Dificilmente, será agendada uma reunião para tratar do assunto.
Em contrapartida, alguns empresários não aceitam falar de negócios fora da empresa.
Adotam essa postura como sendo uma forma de preservar os negócios dissociados da família.
Outros ainda utilizam o mau humor como recurso impeditivo para que as pessoas manifestem
interesse em discutir algum assunto que requer tomada de decisão.
Há de se considerar, no entanto, coloca a autora, que o processo de mudança poderá
ocorrer somente após trinta ou quarenta anos de existência da sociedade, momento em que a
empresa está sendo transferida para o comando de uma nova geração (segunda ou terceira) de
membros da família.
Diante de tais fatos, o importante é compreender que a venda ou a cisão em uma
empresa familiar não representa o seu fracasso, mas uma solução inteligente quando o modelo
se esgotou e não foi possível encontrar outro.
Caso trabalhassem juntos e integrados, membros da família e funcionários poderiam
realizar uma gama mais ampla de experimentos com as ferramentas e métodos existentes.
A empresa familiar precisa ser vista num contexto que leve em conta a história, o
passado, o nome, mas também as exigências contemporâneas e a racionalidade administrativa
moderna.
A competência gerencial do(s) fundador(es) não representa, segundo a autora, um
empecilho para a sobrevivência (continuidade da empresa familiar). Necessário se faz levar
em conta algumas questões, variáveis e processos para que a empresa familiar se desenvolva,
sobreviva e seja competitiva.
É preciso fazer uma opção pela modernidade, antecipando tendências de mercado.
Segundo a autora, o processo descrito envolve uma mudança radical profunda. É uma
mudança de crenças e valores formados pelo pensamento mecanicista cultuado desde a
Revolução Industrial e que requer um espírito empreendedor, ambicioso, comprometido com
a capacidade de assumir riscos e desenvolver a mentalidade competitiva.
2.2.6 A empresa familiar nas últimas décadas
Não são poucos os autores em administração que registram um significativo
deslocamento das prioridades dos gestores no decorrer do século XX e no início do atual
41
(PINTO e SOUZA, 2009). Se antes havia necessidade de otimização dos processos
produtivos, a maior parte emergia das empresas. Ao contrário do que percebemos hoje em dia,
a empresa estava totalmente voltada à redução de desperdícios e aumento da produção,
havendo pouca preocupação com transformações radicais no produto ou no processo. No
cenário atual, a empresa se depara com uma realidade de maior dinamismo, que exige um
importante e contínuo incremento de competitividade para dar conta de mercados mais
agressivos com consumidores mais exigentes. Com isso, as mudanças nas organizações
precisam ser mais freqüentes, mais rápidas e, grande parte das vezes, mais profundas,
conforme assevera Wood Jr. (2000), ao afirmar que a mudança não é, hoje, uma opção. O
autor pontua que as empresas tem gradativamente abandonado uma postura reativa para
assumir uma postura pró-ativa frente às mudanças.
O interesse pelo estudo de organizações recortadas pela dinâmica familiar tem
aumentado significativamente no decorrer das últimas décadas (DAVEL e COLBARI, 2000,
2003). Para os autores, é possível dizer que todas as organizações são familiares, na medida
em que consideremos que a esfera da vida pública relacionada ao trabalho não é totalmente
desatrelada da influência da esfera privada e da experiência familiar dos indivíduos. Sob esse
enfoque pode-se considerar que a vida em organização e seus aspectos administrativos são
influenciados pelo complexo e dinâmico mundo da família.
Os autores advogam que a influência e os desdobramentos da família no âmbito das
organizações não se dão de forma unívoca, nem tão pouco uniforme. Os graus de impacto são
variados e as repercussões são qualitativamente diversificadas e quantitativamente
consideráveis. Mesmo atravessando e embasando significativamente as economias de países
europeus, asiáticos, africanos, americanos, etc.; a escala, escopo, limitações e estatuto legal
destas organizações variam historicamente entre setores, entre países e entre regiões.
As repercussões qualitativas da esfera familiar nas organizações têm sido estudadas
por teóricos em administração e em ciências sociais, abarcando dimensões materiais e
imateriais: sucessão, ciclos de vida, profissionalização, estratégia, etc. Entretanto,
recentemente, os estudiosos em ciências sociais tem mostrado interesse e desenvolvido
pesquisas sobre os aspectos simbólicos e culturais da vida organizacional, relacionando-as às
imagens do universo familiar.
Apesar da diversificação de empreendimentos, do aumento do número de artigos
publicados e do número de universidades que incluem pesquisa sobre empresa familiar em
42
seus objetivos, ainda não se encontra um corpo teórico convergente, unificado e maduro sobre
os fenômenos familiares (DAVEL e COLBARI, 2000).
Entretanto, mesmo havendo uma pluralidade excessiva de abordagens sobre o conceito
de empresa familiar, certo consenso se estabelece com relação ao pressuposto de que a
empresa familiar se caracteriza pela inter-relação e combinação complexa de dois sistemas
sociais: a família e a gestão.
Quando se fala em empresa familiar é comum pensar no meio urbano e,
especialmente naquele empreendimento com os dias contados em razão da fatalidade da
racionalidade técnico instrumental, das exigências de mercados globais, da administração
moderna e do tão falado fim da família (TEDESCO, 2002). Pouco se fala sobre o meio rural,
esquece-se que nesse contexto também existe a noção de patrimônio, de sucessão, de
funcionalidade do empreendimento e que, ressalvando as questões culturais e econômicas
inerentes aos espaços rurais e urbanos, as variáveis, problemas, tensões, conflitos e falta de
visibilidade futura assemelham-se em muito nestes dois espaços distintos (TEDESCO, 2002).
O processo de criar o sonho comum começa nos primeiros diálogos entre pais e filhos
e continua até a idade adulta, ficando mais evidente quando a troca da liderança está próxima.
Este sonho é caracterizado pela visão do futuro que todos os membros podem abraçar com
entusiasmo formando a base da sua futura colaboração e provendo a motivação e o
entusiasmo necessários para levar a família através do duro trabalho planejado (GERSICK et
al, 2006).
A necessidade de deixar marcado o seu feito, bem como registrar o trajeto construído
pelo empreendedor, traz um diferencial para as empresas familiares (MERHI; JUNIOR;
SILVA e SILVA, 2010). Para estas famílias e suas empresas, os valores pessoais do fundador
e de sua família, representam o semear da cultura organizacional, cujos símbolos, tradições,
história, mitos e ritos tem significado especial, diferenciando uma empresa familiar específica
de outras empresas (familiares ou não), tornando-a um caso único e idiossincrático
(GERSICK et al, 2006).
A empresa familiar, advogam os autores, tem como desafio equacionar os diversos
sistemas de interesses relacionados à família, à estrutura de propriedade e à estrutura de
gestão, gerenciando interesses tanto de natureza coletivas quanto individuais.
Na maior parte das vezes, espera-se do pai-fundador, o papel de intervir, e conciliar as
partes quando surgem os conflitos, esperando desta forma, que a situação seja amenizada.
43
Entretanto, ressalta Oliveira (2006), muitas vezes os conflitos na empresa familiar se originam
pelo próprio fundador, já que pode ter dificuldades em aceitar opiniões e posições divergentes
da sua própria, e considerar isso uma atitude normal, por ser a empresa uma extensão de si
mesmo e um local para a sua realização profissional e pessoal.
Leonel define a sucessão como “o rito de transferência de poder e de capital entre a
geração que atualmente dirige e a que virá a dirigir” (1991, p.245).
Para Gersick et al (2006), a sucessão é composta por diversos fatores, não é um evento
único, onde um velho líder se aposenta e passa a responsabilidade para o novo líder. Esse
processo acontece desde muito cedo na vida de algumas famílias, permanecendo durante o
amadurecimento e envelhecimento das gerações. Para esses autores, a sucessão leva tempo,
mesmo nos casos inesperados (doença súbita, evento dramático), onde há necessidade de
mudanças abruptas nos papéis das pessoas.
Tondo (2008) aconselha que haja uma construção conjunta entre gerações, onde os
espaços sejam disponibilizados e, tanto os mais velhos quanto os mais novos, respeitem-se em
suas individualidades e características pessoais, não deixando de ter como objetivo a
continuidade dos negócios com a gestão da família.
De acordo com Merhi; Junior; Silva e Silva (2010), a criação dos filhos, a relação
estabelecida desde criança entre os pais e irmãos, reflete na forma como conduzem a empresa.
Para esses autores, tanto a profissão escolhida como a sucessão já recebe traços
importantes desde a infância do sujeito: a forma como esse foi criado, os valores que foram
passados, as referências e as relações estabelecidas. De igual forma, as profissões dos líderes
familiares podem interferir no processo sucessório, seja em função da formação específica e
do preparo destes líderes para assumir a gestão da empresa.
Apesar disso, não é possível afirmar que os valores familiares foram de fato
transmitidos. Para Checchinato (2007) estes valores, tradições e histórias são representadas
pelos mitos e interferem no dia-a-dia das relações profissionais (LOPES, 2008).
Nesse sentido, Oliveira, Albuquerque, Pereira e Borges (2010), advogam que as
empresas familiares possuem peculiaridades que tornam a implementação de mecanismos de
governança ainda mais complexos, pois elas tem que conciliar as relações no âmbito da
família, da propriedade e da gestão. Esse entrelaçamento ocorre em razão de o mesmo grupo
de pessoas estar envolvido em sistemas que possuem objetivos muito diferentes. A família
preza pela união dos integrantes, pela unidade e pela harmonia das relações sociais, já um
44
sistema empresarial é permeado pelo espírito competitivo (LESCURA, 2009). O antagonismo
entre essas duas dimensões é colocado à prova quando o papel do profissional técnico,
racional e objetivo, confunde-se com o papel familiar, afetivo e subjetivo, decorrente do
entrelaçamento da história de vida pessoal.
Considerando a problemática que a interação entre família e empresa representa,
emergem discussões sobre a questão da governança em empresas familiares (CAMERA;
ARAÚJO, 2008). Com efeito, a governança enquanto arcabouço teórico e instrumento
empresarial surge como elemento mediador de possíveis conflitos entre as dimensões família,
propriedade e empresa (BERTUCCI; PIMENTEL; CAMPOS, 2008).
Além do clássico problema de agência, no cerne de uma organização familiar,
desdobram-se desafios referentes ao intenso jogo de interesses entre fundadores e sucessores,
ou ainda entre acionistas familiares e gestores profissionais. Nesse sentido, argumentam os
autores, a implementação de mecanismos de governança se tornam ainda mais complexos
uma vez que é necessário conciliar as relações no âmbito da família, propriedade (patrimônio
e empresa, gestão). O sucesso na questão da governança depende, portanto, da capacidade da
família atuar nessas três esferas, criando mecanismos para administrar suas diferenças.
Para Tillmann e Grzybovski (2005), no âmbito de uma empresa familiar é comum que
os objetivos e princípios organizacionais se confundam com os valores cultivados na família.
O equilíbrio entre os interesses individuais e/ou familiares e os objetivos organizacionais
parece constituir a chave para a sobrevivência das organizações familiares.
Na literatura especializada há poucas pesquisas que tratam das questões que envolvem
as relações família-empresa dos membros da terceira geração de proprietários da empresa
familiar (MACCARI; CAMPANÁRIO; ALMEIDA e MARTIS, 2006).
Lodi (1987) argumenta que os pais não devem forçar a entrada dos filhos na empresa.
O autor aponta a necessidade de elaborar critérios claros para a entrada dos membros da
família na empresa. Nesta direção Miller e Le Breton-Miller (2006) lembram que a entrada de
novos membros da família na administração do negócio geralmente trás mais problemas do
que soluções. Para estes autores, quanto maior o número de membros da família no negócio,
maior a possibilidade de haver conflitos. Neste sentido Gersick et al (2006) abordam
justamente a capacidade que a empresa tem em gerar recursos para sustentar mais membros
da família em seus quadros. Segundo os autores, as empresas precisam criar regras claras que
45
levem em conta a capacidade profissional de cada novo membro que deseja entrar na
empresa.
Garcia (2001) advoga que as empresas familiares devem procurar ajuda para acelerar
o processo de profissionalização da sociedade. Para tanto, elas devem se empenhar na
elaboração de um conselho familiar, também denominado de protocolo familiar.
O conselho familiar teve origem nas empresas européias que possuíam várias gerações
no comando. Este conselho tem como objetivos a preservação da harmonia familiar e a
redução de interferências dos problemas familiares na gestão das empresas (DAVIS, 2003).
Dessa forma, conselhos são criados e constituídos por um número reduzido de familiares que
representam a visão central dos demais. Dentro desses organismos, desenvolvem-se políticas
que visam a manter os interesses da família no longo prazo. Dentre as políticas destacam-se:
a) solicitar informações sobre a performance da empresa; b) expressar as necessidades
familiares; e c) elaborar as soluções para os problemas internos.
Bernhoeft (1989) pondera que mesmo com a existência do conselho familiar, os
problemas não são resolvidos totalmente. Porém, com o comprometimento criado durante a
elaboração participativa do mesmo, observa-se uma diminuição nos conflitos, além de ocorrer
um direcionamento das empresas para a longevidade. O planejamento do processo sucessório
de acordo com Lodi (1987), Bernhoeft (1989, 1995) apontam que o mesmo deve ser feito
seguindo critérios claros de forma sistemática e com tempo para sua execução. Assim sendo,
para esses autores, nas questões de relacionamento entre o fundador e os herdeiros torna-se
muito importante a dedicação do fundador às questões da família. Esta observação também é
apontada por Lansberg (1999) que ainda sugere que deva haver um intenso relacionamento
entre o antigo líder e o novo. De acordo com ele, o novo líder deve participar das atividades
familiares em conjunto com o antigo visando a obter o respeito e a confiança da família, bem
como dos stakeholders (BERNHOEFT, 1989, 1995; LODI, 1987 e SHARMA, 1997).
De acordo com Grzybovski, Hoffmann e Muhl (2008), ainda que permaneça o debate
sobre a influência produzida pela reunião de uma instituição social (família) e uma
organização (empresa familiar) há exemplos no Brasil (Odebrecht, Droga Raia, Zen, Grupo
Ibope, João Fortes Engenharia, Rede Globo) e no Rio Grande do Sul (Gerdau, Fuga Couros,
Intecnial, RBS, Cia Zaffari) de que é possível tornar competitiva a empresa resultante dessa
reunião. Não é a família em si que atrapalha a organização empresarial ou vice-versa, mas sim
o descaso ou desconhecimento dos problemas advindo desse relacionamento (LODI, 1993;
46
BERNHOEFT e GALLO, 2003) e a falta de um código de relações entre os membros da
família na empresa (BORNHOLDT, 2005).
A empresa familiar, enquanto organização empresarial apresenta limitações quanto ao
seu crescimento e desenvolvimento por envolver pelo menos um processo sucessório nos
cargos de gestão e por ter como referência de ação os interesses da família proprietária. Dessa
forma, para Grzybovski, Hoffmann e Muhl (2008), a sucessão aparece na teoria
organizacional como fator determinante de sucesso ou fracasso, consequentemente de
continuidade ou ruptura da empresa familiar e, assim, pode ser encarada pelos gestores e
consultores organizacionais como estratégia empresarial.
No Brasil, de acordo com Gentil (2003), o processo sucessório nas empresas
familiares está mais focado na sucessão patrimonial do que na sucessão da gestão. A sucessão
da gestão é o momento em que o gestor de um empreendimento transmite a outro o poder que
o cargo lhe confere, seja por critérios burocráticos (autoridade – racional legal), tradicionais
(costumes e tradições) ou carismáticos. A opção por um ou outro critério está relacionada às
fontes de legitimidade do poder naquela estrutura social (WEBER, 1991). A sucessão
patrimonial, no entanto, pode ocorrer a qualquer momento que o proprietário decidir ou deixar
de existir, seja por morte natural ou acidental. Nesse caso, os critérios são legais e
determinados pelo direito de família.
A sucessão de gestores na empresa familiar não é definida por um momento. Essa
sucessão é um processo que se desenvolve muitos anos antes da transmissão do poder, através
da maneira pela qual os pais proprietários de empresas educam os filhos para o exercício
profissional. Sendo assim, a sucessão da gestão precisa ser considerada como um processo
que envolve vários fatores, tanto de ordem técnica (profissionalização dos herdeiros, definição
de órgãos de governança corporativa, definição de participação societária e/ou ingresso dos
herdeiros); quanto sócio-culturais (níveis de confiança entre fundador e herdeiros, estrutura,
dinâmica e lealdade familiar, tipos de relações familiares).
A transferência de poder do cargo de gestor é considerada um dos fatores de maior
preocupação na gestão das empresas familiares (LEONE, 2005), pois é o momento em que
conflitos existentes nas relações afloram (ADACHI, 2005), e repercutem negativamente na
gestão da empresa com implicação na sobrevivência, expansão e/ou continuidade do negócio.
Caso seja planejada, a sucessão evita o surgimento de crises organizacionais e permite a
‘empresa jovem’ tornar-se ‘madura’ (PADULA, 1998). Antecipar-se a sua ocorrência é
compreender que a empresa familiar é o resultado da confluência de três sistemas
47
independentes (família, propriedade, gestão), mas superpostos (GERSICK et al, 2006;
BORNHOLDT, 2005), os quais se desenvolvem sob pilastras completamente diferentes.
Nesse contexto, o delineamento de estratégias empresariais envolvendo a sucessão na
gestão, aliadas a um programa de formação de herdeiros, passa a ser determinante de sucesso
da empresa familiar.
2.2.7 Sucessão como estratégia
Estratégia é um tema que apresenta uma configuração teórica muito ampla e depende
de vários elementos contextuais para a sua compreensão e/ou identificação, dentre os quais
podem ser destacados o ambiente organizacional, o tipo de organização, a cultura
organizacional.
Nas análises de empresas brasileiras do tipo familiar, o debate sobre estratégia é muito
incipiente e, quando existente, o enfoque porteriano – vantagem competitiva – predomina,
tanto para análise de grandes e pequenas empresas urbanas quanto para empreendimentos
rurais, numa tentativa simples de transposição das fronteiras teóricas (GRZYBOVSKI, 2007).
De acordo com a autora, no contexto internacional, a abordagem teórica é mais robusta e, as
análises enfatizam a força das demandas emocionais e cognitivas na tomada de decisão
estratégica uma vez que os negócios são uma parte da vida da família empresária e das
identidades individuais (DROZDOW; CARROLL, 1997) de seus membros.
De acordo com Drozdow e Carroll (1997) o sistema de negócios de família pode
sustentar poderoso conservadorismo, e, não apresentar um sinal de patologia administrativa,
se estiver em curso inovação e criatividade, importante elemento estratégico e diferenciador
dos demais tipos de empresa – não familiares. Ambos - conservadorismo e inovação - pontua
Grzybovski (2007), ao invés de se apresentarem como antagônicos, nas empresas familiares,
representam uma conseqüência direta da força da família. Em termos de formulação de
estratégia, portanto é particularmente importante reconhecer essa peculiaridade e a de que as
regras de hierarquia no sistema família dominam as estratégias no sistema empresa.
Ao se levar em conta os fundamentos da sucessão na gestão da empresa familiar, a
escola que melhor se encaixa nesse contexto é a empreendedora, a qual se baseia na formação
da estratégia como um processo visionário, ou seja, uma visão criada ou expressa na mente do
executivo principal e, portanto, é mais pessoal do que diretamente vinculada a um processo de
intuição, julgamento e experiência. (MINTZBERG, AHLSTRAND, LAMPEL, 2000).
48
Para os autores, o fato da visão quase sempre ser mais um modelo de imagem do que
um plano plenamente articulado faz com que o processo de formação de estratégia na escola
empreendedora seja definido como flexível, de forma que o líder possa adaptá-la às suas
experiências e visões de mundo. É um processo de construção artesanal de estratégia
(MINTZBERG, 1997).
Mintzberg (1987) considera que, ao arquitetar artesanalmente uma estratégia, o
empreendedor está evocando habilidades tradicionais, dedicação e perfeição através do
domínio dos detalhes. Isso faz com que a formulação e a implementação da estratégia se
articulem num processo fluído de aprendizagem através do qual se desenvolvem estratégias
criativas.
A estratégia empreendedora, portanto, é concomitantemente deliberada (em suas
linhas amplas e seu senso de direção) e emergente (em seus detalhes) para que estes possam
ser adaptados durante o curso da ação (MINTZBERG, AHLSTRAND e LAMPEL,2000). No
caso das categorias de empresas de micro e pequeno porte e de empresas familiares, as
estratégias são melhor apreendidas a partir da polaridade proposta por Mintzberg (1987), entre
estratégias deliberadas e emergentes.
Outra escola exposta por Mintzberg, Ahlstrand e Lampel (2000) que se revela
pertinente nesse contexto é a escola do aprendizado, a qual apresenta a formação de estratégia
como um processo emergente resultante de esforços de um líder (ação individual) ou de um
pequeno grupo de pessoas (família proprietária). Nessa perspectiva, Tillmann e Grzybovski
(2005) descrevem o processo de preparação do herdeiro para a sucessão da gestão nas
empresas familiares no Rio Grande do Sul e revelam que as estratégias utilizadas por famílias
empresárias para encaminhar os herdeiros para a sucessão se deram coletivamente (no seio
familiar) por iniciativa do sucedido. A lógica orientadora da ação do gestor foi empresarial,
mas a forma de implementação da ação foi de acordo com a dinâmica familiar.
Importa considerar ainda um outro elemento subjetivo de grande influência no
delineamento estratégico na empresa familiar, que está na história contada aos herdeiros e
vivida por eles dentro da empresa. Diferentes autores afirmam que as histórias contadas pelos
sucedidos influenciam a cultura organizacional, o caráter dos herdeiros, a estrutura
administrativa e, consequentemente, o grau de comprometimento do sucessor com o negócio
da família e a eficácia da estratégia desenvolvida para o momento crítico da transferência de
poder (CAPELÃO e MELO, 2001; TEDESCO, 2004; ROSSATO NETO e CAVEDON,
2004; TILLMANN e GRZYBOVSKI, 2005).
49
De acordo com Coutinho e Silva (1009), o relacionamento com familiares, assim
como sua satisfação no trabalho influenciam o contrato psicológico com a empresa da família.
Goffee (1996) lembra que os padrões compartilhados de atitudes, valores e crenças
variam de família para família. Tais padrões influenciam as identidades e as escolhas pessoais
de cada membro. Além disso, a estruturação dessas escolhas varia de acordo com o contexto
cultural, envolvendo variáveis como classe social, nacionalidade e etnia. Segundo o autor, as
famílias diferem na forma como se relacionam com seus negócios. Em algumas culturas, a
empresa e a família se entrelaçam tanto que se tornam indistinguíveis. Por outro lado, há
situações em que os parentes tem em comum apenas o fato de serem proprietários do mesmo
empreendimento, não se identificando uns com os outros. O autor acrescenta que o fato de
estarem em contato com os negócios desde a infância faz com que os membros da família
tenham oportunidade de aprender muito sobre a empresa. Em várias instâncias, a empresa
afeta a identidade dos membros da família que a vêem como reflexo deles mesmos.
De acordo com estudo realizado por Lee (2006), uma alta adaptabilidade na família,
caracterizada por um estilo de liderança mais flexível, pela comunicação mais aberta e tomada
de decisão mais democrática, favorece o comprometimento organizacional, a satisfação no
trabalho e a própria satisfação na vida do herdeiro-gestor. Porém, quando essa adaptabilidade
não é alta, os filhos podem se ressentir da autoridade dos pais, buscando conquistar seus
espaços; e os pais também podem ficar magoados com os questionamentos dos filhos. A
interferência da geração mais velha, intencional ou não, tem fortes impactos na autoconfiança
e no sentimento de controle da geração mais nova. Há casos em que os filhos, já na meiaidade, podem se sentir dependentes dos pais. Os filhos que não trabalham na empresa também
podem achar que estão sendo desfavorecidos com relação aos outros irmãos. O contexto
familiar e a educação recebida dos pais parecem influenciar fortemente essa maneira de
pensar. Tal influência gera implicações futuras com relação à identidade, à satisfação no
trabalho, ao comprometimento e ao contrato psicológico com a organização.
2.2.8 O estigma da incompetência pressuposta
Gonçalves (2000) advoga que a partir do momento em que Schumpeter, reconhecendo
que o progresso econômico se transformava em atividade de grupos de especialistas e
admitindo também que o progresso técnico passava a ser cada vez mais um processo coletivo
e, portanto, despersonalizado, estavam, desde então, criadas as bases para a elaboração do que
pode ser identificado como ‘teoria clássica das organizações empresariais’. Isso estimulou a
50
substituição do magnata pelos técnicos e administradores profissionais como comandantes da
empresa privada.
Assim sendo, a partir desse momento, argumenta Gonçalves (2000), como
conseqüência da teoria que se elaborou, a empresa familiar recebeu um estigma que iria
marcá-la pelas décadas seguintes: o estigma da incompetência pressuposta.
De acordo com o autor, Schumpeter imaginou a unidade industrial gigantesca,
perfeitamente burocratizada, não deixando espaço para as pequenas e médias empresas,
expropriando os seus proprietários e caminhando para reduzir o empresário à condição de
assalariado. Na medida em que a burocracia competente se identifica com a organização
moderna, passa a perceber nos executivos profissionais, que nascem com essa mesma
organização, os novos líderes, exercendo uma liderança que se baseia na competência: eles
são os especialistas e os administradores profissionais. A essa competência, opõe-se,
inevitavelmente, a incompetência dos empresários e suas empresas familiares.
Até a década de 50, a empresa familiar brasileira teve presença quase absoluta em
praticamente todos os seguimentos da economia nacional, desde a atividade agrícola até o
sistema financeiro, passando pela indústria têxtil, de alimentação, de serviços e de meios de
comunicação. A partir de então, iniciado o grande projeto de desenvolvimento e
modernização nacional, ela passou a partilhar cada vez mais espaços com as empresas
multinacionais e com as estatais.
Como resultado dessa avaliação, argui Gonçalves (2000), a empresa familiar passou a
ser pensada, quando o foi, em função daquele que seria o seu momento trágico, ou seja, o
momento da sucessão, imaginado com o mesmo fatalismo que marca o teatro clássico grego.
Nos empreendimentos bem sucedidos, há um momento em que o fundador tem
necessidade de rever suas atitudes e seus procedimentos. A relação entre o fundador e a
empresa deve ser alterada, porque, a empresa passa a ter necessidade de determinadas
competências que ele, o fundador, não possui, mas que deverá ser capaz de identificar,
localizar e alocar. Com relação a essa passagem devem ser propostas, segundo o autor pelo
menos três considerações: a) é inevitável que, na empresa familiar brasileira, o processo
sucessório seja, ainda que em graus diferentes, orientado por uma cultura que a configurou
como patriarcal o que leva ao privilégio do filho homem primogênito como sendo o sucessor
necessário; b) a família é um pequeno grupo social, no qual são desenvolvidos os sentimentos
51
mais fortes que possam marcar o ser humano. Esse mundo familiar pode ser transferido para o
mundo da empresa; c) a educação dos filhos para exercer o poder.
Esse período de transição permite identificar os pontos da suposta incompetência da
empresa familiar: a) a empresa familiar permite-se uma organização informal, confusa e
incompleta; b) ela adota como valor básico a confiança pessoal, em prejuízo da competência,
tornando-se incapaz de contar com técnicos e especialistas de gabarito; c) ela pratica o
nepotismo sob diversas formas, impossibilitando definitivamente a profissionalização; d)
finalmente, a empresa familiar é imediatista, o que impede qualquer forma de planejamento
empresarial.
De acordo com Gonçalves (2000), uma análise dos pontos fracos da empresa familiar
no Brasil, arrematada com a observação de que ela vive um momento extremamente difícil,
não pretende de nenhuma maneira sugerir a sua inviabilidade nos tempos atuais. Nem
pretende que o único caminho possível seja aquele que tem sido apontado com mais
frequência, quando a família estaria deixando de ser empresária para tornar-se acionista.
Também é particularmente animador para a empresa familiar, pontua o autor, que,
com toda certeza, as previsões de Schumpeter não se confirmaram. A grande corporação,
organizada cientificamente, passando a ser identificada como ‘mecanicista’, teve as virtudes
do passado transformadas em vícios: a departamentalização rígida, a especialização, a
burocratização, o planejamento rígido. Tudo isso impede a criatividade, a flexibilidade e a
capacidade de adaptação a transformações. Necessariamente, no outro extremo, muitos dos
antigos vícios e das aparentes incoerências da empresa familiar, desde que canalizados
competentemente, transformam-se em virtudes, as mais desejadas no momento atual.
2.3 FUNÇÃO PATERNA
2.3.1 Cultura organizada a partir do simbólico
Como vivenciar o vínculo social, senão como a relação com os outros que se
declina em termos de amor e ódio, de aliança e competição, de trabalho e lazer?
Senão como nossa relação com seres diferentes de nós, separados de nosso corpo e
de nosso espírito, seres para sempre irredutíveis? (ENRIQUEZ, 1991, p. 158).
Para Enriquez (1991), o vínculo social se apresenta em princípio, como um vínculo
trágico: ele nos faz compreender que os outros existem, não como objetos possíveis de nossa
satisfação, mas como sujeitos de seus desejos, tão suscetíveis de nos rejeitar quanto de nos
52
amar, de manifestarem vontades contraditórias às nossas, de representarem perigos
permanentes não apenas para nosso narcisismo, como também para nossa simples
sobrevivência, e de serem, para nós, apesar de tudo isso, tão indispensáveis quanto o ar que
respiramos. Mas se o outro, ao mesmo tempo, nos ama e nos detesta, se ele é nosso
semelhante, isso significa que nós mesmos nos amamos e nos detestamos. Somos nosso
próprio traidor, nosso próprio carrasco, somos ambivalentes frente a nós mesmos, a relação
que tecemos com nosso próprio corpo é uma relação de proximidade e de rejeição, de ternura
e de terror e a relação que mantemos com nosso psiquismo faz parte de processos de
clivagem. Nós somos seres de desconhecimentos, de lacunas e de transbordamentos, mesmo
possuindo um corpo que constitui uma membrana sólida de proteção contra os outros, que nos
isola, e nos identifica, sabemos, apesar disso, que esse corpo está repleto de sinais de outrem:
palavras dos primeiros educadores, destrutivas ou carinhosas, mas igualmente traços de
carinho e traços de golpes, e ainda objetos introjetados, objetos a expressar, significando que
este corpo não está e não pode estar totalmente desligado do corpo da mãe, que ele porta dela
os estigmas, como porta em si a marca paterna: a castração simbólica inscrita no Édipo.
O que nos diz Freud questiona o autor, senão que o nascimento de um grupo é
correlativo a um crime cometido em comum?
Certo dia, os irmãos que tinham sido expulsos retornaram juntos, mataram e
devoraram o pai, colocando assim um fim a horda patriarcal. Unidos, tiveram a
coragem de fazê-lo e foram bem sucedidos no que lhes teria sido impossível fazer
individualmente. Selvagens canibais como eram, não é preciso dizer que não
apenas matavam, mas também devoravam a vítima. O violento pai primeiro fora
sem dúvida o temido e invejado modelo de cada um do grupo de irmãos e, pelo ato
de devorá-lo, realizavam a identificação com ele, cada um deles adquirindo uma
parte de sua força. A refeição totêmica que é talvez o mais antigo festival da
humanidade, seria assim uma repetição e uma comemoração desse ato memorável e
criminoso, que foi o começo de tantas coisas: da organização social, das restrições
morais e da religião (FREUD, 1913 [1912-13], p. 170).
O que Freud nos mostrou em Totem e Tabu pontua Enriques (1991), é que não existem
irmãos sem que seja colocada, primeiro, a função paterna. Quanto a esta, ela só sobrevém
após a morte do chefe da horda que, uma vez morto, ressurge como pai mítico, fundador da
comunidade. A renúncia à violência entre os irmãos é a conseqüência desse ato.
A sociedade fraterna de acordo com Marcelo Ricardo Pereira (2008), nasce de um
crime perpetrado em conjunto, crime do qual a humanidade não pode jamais se libertar. Esse
não é senão o prelúdio de uma série ininterrupta de assassinatos, próprios da existência
humana em sociedade.
53
Para o autor, o crime provoca não apenas alívio, mas também culpa. Tanto o amor
quanto o ódio sentido pelo assassinato deixam um rastro poderoso de culpa nos membros da
confraria, impossibilitados de ascenderam àquele lugar do morto. “O ato, pois, inventa um
pai” (PEREIRA, 2008, p. 37).
O ato coloca Pereira (2008), institui um dado mítico de que “ao menos um”, ainda que
morto, pôde tudo gozar, pois se inscreveu fora da castração. Desse modo, a figura do pai, para
aquela horda de irmãos, foi-se tornando cada vez mais poderosa, não mais no registro do real,
mas no registro do imaginário. Com efeito, a figura do pai morto foi sendo sacralizada pelos
filhos como um deus e transformada num totem1, para o qual passam a prestar reverência
simbólica.
Para o autor, trata-se da primeira espécie de código do direito, promulgado pela
aliança de irmãos ao estabelecerem as regras do tabu2. Assim, o tabu é uma instituição social.
Há uma força ética de caráter sacrificatório, em cujas obrigações sociais mútuas repousam
proibições morais. Para isso, estabeleceu-se miticamente um totem original, como substituto
do pai morto e pranteado, ao qual toda violação ou desrespeito é uma ofensa social. A
compreensão dos fenômenos totêmicos e dos tabus constitui, de acordo com o autor, a via
régia para a exploração do vínculo social.
De acordo com Pereira (2008), aqui é possível verificar uma injunção de Freud. Ela
nos induz à pergunta de onde ele mesmo partiu: o que é um pai? É o pai morto, responde. A
esse enigma freudiano, conforme segue o autor, retorna Lacan, no conjunto da sua obra, sob a
rubrica de Nome-do-Pai, ao anunciar que tal enigma transcende toda idéia sobre a questão do
genitor da realidade ou sobre algum veredicto de como deve ocorrer essa função paterna. Não
é outra a estrutura da metáfora moderna que leva Freud a realizar a significação da
paternidade, ao reproduzir o evento mítico que, no inconsciente de todo homem, reconstrói a
trajetória do mistério que o orienta.
Antes do ato canibal, acrescenta o autor, o pai não era o pai. Ele assim fora
reconhecido apenas quando se tornou um morto. Sua ordem, simbólica em princípio passa a
ser inventada, a um só tempo, junto à materialidade da ordem fraterna. Para Pereira (2008),
Freud nos conduz da imagem do mito ao simbólico da palavra, que, como tal, ganha a força
1
2
O totem é o antepassado comum do clã. Ao mesmo tempo é o seu espírito guardião e auxiliar, que lhe envia
oráculos e, embora perigoso para os outros, reconhece e poupa os seus próprios filhos (FREUD, 1913
[1912-13], p. 21).
O significado de tabu diverge em dois sentidos contrários. Por um lado, significa sagrado, consagrado e, por
outro, misterioso, proibido, impuro (FREUD, 1913 [1912-13], p. 38).
54
de transmissão. Isso porque, no real da imagem, a transmissão da lei não é possível, pois o
que é visível alberga em si sua própria verdade acabada. Todavia, é no real da palavra que
achamos seu efeito de transmissão.
A partir do momento em que a função paterna é reconhecida, os filhos são oprimidos,
aponta Enriquez (1991). Eles estão numa posição de dependência, presos entre o desejo e a
identificação. Sem a referência paterna, nenhuma cultura é concebível. O acesso à cultura
passa por essa referência. A conseqüência do que diz Freud, coloca o autor, é inquietante em
sua simplicidade. Para ele, um grupo só é imaginável e coeso a partir de um projeto comum.
Ele propõe que o primeiro projeto, aquele que permite justamente a tomada de contato e o
estabelecimento de relações comunitárias, só pode ser uma conspiração contra um outro,
contra um poder vivenciado como maléfico. O objetivo dessa aniquilação não é o simples
desaparecimento desse outro, que recusa qualquer relação de alteridade, possuidor das
mulheres e da linguagem, situado a uma distância vertiginosa dos criminosos, mas
principalmente a apropriação desta potência e desta violência originária. Pelo ato de
incorporação, que segue ao assassinato, sela-se de forma durável a existência do grupo.
É assim, coloca o autor, que Freud concebe o fim de seu mito: os irmãos se sentem
culpados por terem matado o pai que temiam e que amavam. Eles decidem renunciar ao
objeto do desejo pelo qual se tinham ligado e, paralelamente, eles mitificam o pai, instituindoo como totem ou Deus, emblema transcendente, respeitado e venerado, vivido como fundador
do grupo. Pode-se compreender, aponta o autor, que o parricídio é indispensável à criação da
cultura: ele nos introduz no mundo da culpabilização, da renúncia, tanto da realização do
desejo quanto do desejo de realização, da instituição de uma função paterna na origem da
humanidade, da necessidade da referência a uma lei externa transcendente, que se manifestará
em uma organização social, nas restrições morais e na religião.
De acordo com Pereira (2008), a sociedade tornou-se fraterna, segundo essa
pressuposição mitológica, mas com um pesado ônus moral a se imputar. Uma sociedade
fraterna, sem pai, foi gradualmente transformando-se numa sociedade organizada em base
patriarcal, perpetuando o espírito e a vontade do pai eliminado. Por outro lado, o código de
direito entre os iguais prescinde dessa vontade e só se justifica na necessidade de se manter a
nova ordem estabelecida. Por esse motivo, a aliança fraterna é fruto da razão estabelecida
entre os sujeitos que se reconhecem irmãos.
E o que resta? Resta, segundo o autor, o que Freud denominou de uma renúncia
pulsional do desejo. Resta o aspecto fascinante do crime original, que perdura e retorna ao
55
real no menor sinal de hesitação. Temos, então, uma sociedade que se esmera em se vigiar e
se punir, para fazer cumprir uma ética pontuada numa renúncia.
Lévi-Strauss (1980 [1908]) mostra que, a proibição do incesto apresenta-se ligada à
natureza, mas, à medida que se instaura como regra, essa proibição manifesta seu caráter de
fenômeno social e, nesse sentido reporta-se ao universo das regras, isto é, da cultura. Para o
autor, ela constitui o movimento fundamental graças ao qual, através do qual, mas, sobretudo
no qual, se realiza a passagem de natureza à cultura. A renúncia a tomar uma parceira no
âmbito da própria família significa, para o sujeito, o direito de reivindicar uma outra mulher
do grupo. A regra exogâmica constituiria assim, o núcleo originário, ainda indeterminado, de
todas as formas de intercâmbio.
A proibição do incesto tira o indivíduo de sua mera constituição biológica, tornando-o
capaz de coexistir com outros. Ao passar da consangüinidade à aliança, o indivíduo não se
situa apenas em relação à família biológica, mas em relação ao grupo. Em outras palavras,
coloca Enriquez (1991), a proibição do incesto não é apenas um elemento indispensável ao
funcionamento da família, ela se torna o elemento central em torno do qual se organiza o
social e que, permitirá definir a fronteira entre natureza e cultura. Não pode existir corpo
social sem a instauração de um sistema de repressão coletivo. Igualmente, não há sociedade
que possa surgir sem ser regida por um sistema de parentesco, ou seja, de regras de aliança e
de filiação, condição do reconhecimento da diferença dos sexos e das gerações.
A arte da tradição freudiana comenta Pereira (2008), está na subversão de preceitos. A
morte do pai, ao invés de gerar acesso irrestrito ao corpo das mulheres, ao invés de
desimpedir o ato de poder gozar das mães, ao invés de tão somente liberar os tímidos à sua
devassidão e anseio, imputou-lhes interdição. A humanidade acordou de seu ato percebendo o
peso da lei – da lei do pai -, que nada mais é do que a lei determinada pela linguagem. O pai é
o pai simbólico, Freud já o dissera, acrescenta o autor, e Lacan o traduzira: o pai é uma
metáfora. A metáfora é um significante que vem no lugar de outro significante; logo, o pai é
um significante que substitui outro significante. Essa estrutura de metáfora opera de maneira a
assegurar que a interdição simbólica seja logicamente significante perante o desejo do filho às
voltas com o desejo da mãe. A função paterna estabelecida como um significante substitui o
primeiro significante introduzido na simbolização, a saber, o materno. O Nome-do-Pai, por
ser nome, é linguagem e, por ser pai, é um operador lógico que visa à intervenção, em suma, é
o pai forjado pela linguagem, que pode ser materializado temporariamente por todo aquele
que exerce intervenção.
56
2.3.2 O desdobramento da função paterna
A problemática paterna, de acordo com Dor (1991), é possível ser entendida como a
sucessão lógica dos diferentes investimentos que tem por objeto a figura paterna.
O autor ordena, tendo por referência a teoria freudiana, essas diferentes elucidações,
segundo quatro linhas mestras essenciais, que sustentam a função desempenhada pela
instância paterna no processo edipiano:
1 - A noção de função paterna institui e regula a dimensão de complexo de Édipo
(dimensão conflitual);
2 - O desenvolvimento da dialética edipiana requer, certamente, a instância simbólica
da figura paterna, sem, no entanto, exigir a presença necessária de um pai real;
3 - A carência do pai simbólico, isto é, a inconsistência de sua função no decorrer da
dialética edipiana, não é absolutamente co-extensiva à carência do pai real em sua dimensão
realista;
4 - A instância paterna inerente ao complexo de Édipo é exclusivamente simbólica,
posto que é metáfora.
O ‘complexo-pai’ aponta Pereira (2008), é assim que Freud estabelece a função
paterna. Essa função, para além de todo e qualquer fator biologizante que esse termo possa
sugerir, é de fato suficientemente complexa para daí haver a necessidade de desdobrá-la em
três diferentes registros: real, simbólico e imaginário.
O pai real coloca o autor, é o pai concreto, genitor, que compõe o seio da realidade
familiar de nossa cultura. É o pai que possui suas particularidades, opções, mas também suas
dificuldades. Seu verdadeiro lugar dentro da família moderna, por exemplo, é variável, muitas
vezes frouxo e frequentemente impreciso. O pai, pelo menos em nossa civilização, sempre é
um pai discordante em relação à sua função, ou, diriam os historiadores, o pai em nossa
civilização é, sobretudo, um pai humilhado. Porém, humilhado ou não, declinado ou não, o
pai real não se basta a si próprio. Ele não cria a lei, no entanto, está a ela submetido e por ela
interrogado.
Ora, mesmo interrogado, pontua o autor, esse é o pai que Freud situou à sua maneira
como o objeto de incorporação canibalística, mecanismo fundamental da identificação
primordial. O agente da castração é o pai real: o homem que fez da mulher a quem a criança
chama de mãe, a causa de seu desejo. É justamente nisso que ele representa a lei do desejo.
57
Assim, a mãe se torna para o sujeito, ao mesmo tempo, objeto de desejo e objeto interditado.
Ao abdicar desse objeto proibido, ainda que desejado, ao que Freud denomina de ‘declínio do
Édipo’, o sujeito apaga o pai real, revestindo-o com o véu de um pai ideal.
O pai simbólico, de acordo com o autor, é o pai que Freud teoriza como morto, o
instituinte cultural da humanidade. É o que promove a inversão lógica: no lugar de
proclamarmos: ‘o pai está morto, então tudo é permitido’, dizemos ‘o pai está morto, então
nada mais é permitido’. Para garantir essa lógica forjamos as instituições sociais, a mestria, a
religião, o consumo e tantas outras obras humanas. O pai real deve estar simbolicamente
morto, inscrito como exceção, recobrado como imaginariamente vivo na fantasia de cada
sujeito que herdou o crime fundante da humanidade.
O pai imaginário é aquele que medeia essa investidura do pai real como pai simbólico.
É uma entidade fantasmática que recupera notadamente a tiraria do macho assassinado pela
horda filial para que se dê tal investidura. É na qualidade de idealizado, fantasiado, segundo a
dialética edipiana, que o sujeito terá condições de perceber esse intruso, que, ora
intransigente, ora condescendente, vem privá-lo de seu relacionamento fusionado com a mãe.
Da figura paterna, argumentam Corso e Corso (2010), um filho espera receber um
reconhecimento que se inicia com a nomeação: um prenome traz dentro dele um sonho
reservado para aquela nova pessoa que chegou ao mundo, mas ele deve ser seguido por um
nome de família, ou seja, pela inclusão em um grupo, em uma linhagem. Para além do nome,
é necessário que o pai ofereça ao filho um lugar no mundo, o conhecimento necessário para
ocupá-lo e o reconhecimento imprescindível para saber-se capaz disso.
Pommier (1992) pontua que o nome patronímico oferece uma barreira contra a perda
da identidade no anonimato e no coletivizável do grupo social.
Para o autor, o patronímico parece assegurar a neutralidade da filiação, mas a
circunstância da herança macula sua função: o nome patronímico é sempre simbólico, no
sentido de que transcende o vivo e está protegido do tempo. Concerne a uma paternidade
simbólica, a um pai morto desde sempre.
Corso e Corso (2010) acreditam que a paternidade não declinou em sua pujança,
apenas modificou-se, adequando-se às necessidades da família nuclear, caracterizada por
vínculos próximos e complexos entre pais e filhos. O que identificamos como um pai forte é
uma figura correspondente à subjetividade de outra época, quando ser pai era a encarnação
social de uma autoridade, a posição hierárquica determinada por um papel rigidamente
58
instituído. Esse pai, que parecia tão certo de seu lugar, penetrou nos primórdios do
individualismo e da família nuclear como herdeiro de um passado que começou a extinguir-se
com as revoluções do século XVIII. A partir desse momento, gerações de homens vêm
tentando desempenhar suas funções enquanto pais e fracassando em adaptar seus clichês ao
cotidiano de uma família, pois se está excessivamente próximo dos filhos para que funcionem
essas representações rígidas do passado.
Um pai sempre será considerado insuficiente, pois dele esperamos o impossível:
certezas, garantias, que tenha a envergadura necessária para aplacar nossas inquietudes e
sufocar nossos medos. Supõe-se que seria esse pai faltoso que não nos teria dado os elementos
suficientes para amarrarmos nossa própria subjetividade num todo coerente, no interior do
qual navegaríamos em segurança, pontuam os autores.
Contudo, Pereira (2008) vai apontar para o fato de que não devemos nos deter demais
no esclarecimento do que venha a ser um pai, pois sua condição de enigma é o seu maior
estatuto. É justamente nessa hiância entre paternidade e fraternidade que se institui o discurso,
a grande instituição, resultante imediata desse contrato social, dessas obrigações mútuas,
dessa justiça e dessa moralidade a que Freud se refere em Totem e Tabu. Toda instituição, em
suas diversas formas de organização social – Estado, igreja, exército, escola, etc -, são
substitutas do pai, como são seus indivíduos – governante, padre, general, professor, etc.
2.3.3 A sucessão - transmissão do conhecimento a partir do simbólico: missão do pai
O conhecimento e sua transmissão remetem a pensar, inicialmente, nas pesquisas
sexuais da infância, referidas por Freud no texto Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade
(1905). Nesse texto, Freud mostra que, concomitante ao momento em que a vida sexual das
crianças atinge seu ápice, entre três e cinco anos, também surge sinais da atividade que pode
ser atribuída ao impulso do saber ou da pesquisa. Esse impulso corresponde, de um lado, à
maneira sublimada de obter domínio e, de outro à energia da escopofilia. As relações do
impulso do saber com a vida sexual são de particular importância, assinala Freud, “já que
aprendemos através da psicanálise que o impulso do saber nas crianças é atraído
inesperadamente cedo e intensamente para os problemas sexuais e é, na realidade,
possivelmente despertado de início por eles” (1905, p. 200).
As atividades de pesquisa começam a desenvolver-se nas crianças não por interesses
teóricos, aponta Freud, e sim, por interesses práticos. A descoberta ou a chegada de um novo
59
bebê e o medo, como consequência desse fato, que a criança sente de deixar de ser cuidada ou
amada, tornam-na pensativa e perspicaz. “E esta história da origem do impulso está de acordo
com o fato de que o primeiro problema com que se defronta não é a questão da distinção entre
os sexos, mas o enigma sobre a origem dos bebês” (1905, p. 200).
Muitas são as teorias sexuais construídas pelas crianças, entre elas, Freud aponta
algumas: a suposição de que todos os seres humanos têm a mesma forma (masculina) de
órgão genital; de que as pessoas têm os bebês comendo determinada coisa – como acontece
nos contos de fada -, e de que os bebês nascem através dos intestinos como numa descarga de
fezes; a convicção de que o ato sexual é uma espécie de maltrato ou um ato de subjugação,
etc. Essas teorias sexuais infantis são reflexos de sua própria constituição sexual. Há, contudo,
dois elementos que não são descobertos pelas pesquisas das crianças: o papel fertilizante do
esperma e a existência do orifício sexual feminino. Esses são elementos que a organização
infantil não tem desenvolvidos. E, apesar do esforço e da solidão com que são realizadas as
pesquisas, nos primeiros anos da infância, elas se revelam infrutíferas e terminam com uma
renúncia. Porém, constituem um primeiro passo no sentido de assumir uma atitude
independente no mundo, e “implicam um alto grau de alienação da criança em relação às
pessoas à sua volta que anteriormente gozavam de toda a sua confiança” (1905, p. 203).
Freud, ao fazer uma reflexão sobre a origem de seus pressupostos, diz:
A idéia pela qual eu estava me tornando responsável de modo algum se
originou em mim. Fora-me comunicada por três pessoas cujos pontos de vista
tinham merecido meu mais profundo respeito – o próprio Breuer, Charcot e
Chobrack, o ginecologista da Universidade (...). Esses três homens tinham me
transmitido um conhecimento que, rigorosamente falando, eles próprios não
possuíam (1914, p. 22).
De acordo com Marianne Monteiro Stolzmann e Simone Moschen Rickes (1995), aqui
vemos desenrolar-se uma alusão ao fato de que aquilo que se transmite não está simplesmente
do lado das informações ou dos conteúdos, mas sim de uma operação que permite ao sujeito,
em contato com algumas idéias, tomá-las por meio de um árduo trabalho e reconstruí-las,
importando-lhes seu estilo, agregando-as ao que já havia constituído e produzindo, como
resultado, algo que reconhece como próprio. A questão que se origina é o que torna um objeto
passível de investimento – tanto por parte do ensinante quanto de quem aprende? Isso nos
lança, inevitavelmente, à dimensão do desejo. O que a psicanálise tem a dizer a respeito da
‘(trans)missão’ do conhecimento?
60
As autoras remetem a pensar no fato de que há nisso implicado, de saída, uma missão,
que de certa forma transcende os atores em cena: aquele que ensina e aquele que
supostamente aprende.
No dicionário pode-se e encontrar vários sentidos para a palavra missão. As autoras
destacam dois deles: ofício, mistério; obrigação, compromisso, missão de pai. O segundo
deles remete a algo que não é necessariamente uma escolha, mas sim alguma coisa com a qual
o sujeito se vê implicado. Trata-se de uma obrigação. Mas, é mesmo esse o lugar de quem se
embrenha no terreno da (trans)missão, pois a psicanálise concebe tal lugar como uma
produção sintomática, naquilo que o sintoma fala de uma posição singular frente à linguagem.
Tal posição, colocam as autoras, nos vem de outro lugar do que aquele em que nos supomos
soberanos em nosso fazer, surge-nos desde o inconsciente, desde nossa posição como seres
desejantes.
É desde essa posição de seres desejantes que o primeiro sentido recortado da palavra
missão – o de mistério – pode emergir. Não aqui tomado numa vertente mística, mas como
algo que remete o sujeito a um certo enigma, pois percebe nessa escolha, a de professor, nesse
ato de transmitir, alguma coisa que não domina, alguma coisa sobre a qual não pode dizer
tudo, mas que o compele a encontrar-se nessa posição repetitiva de ensinar. Novamente,
assinalam as autoras, o termo (trans)missão, aloja simultaneamente dois significantes: o de
“trans”, que transcende o sujeito nessa escolha, e o de missão, ou seja, algo da ordem de uma
filiação, por conseguinte, não ensinável, mas transmissível – a sucessão.
Não passa despercebida, para as autoras, no recorte colhido no dicionário para definir
(trans)missão, a referência a uma missão de pai. Como pensar na menção feita ao pai na
definição da palavra missão? Ser pai implica para quem ocupa esse lugar um
reposicionamento frente à linguagem. Portanto, trata-se de um significante que marca uma
posição frente ao mundo. O que também acontece com aquele que ensina. Tem seu lugar no
mundo marcado numa certa posição: “o daquele que deseja o desejo de aprender do outro”
(1995, p.45).
Para as autoras, é sabido o quanto a educação tem como efeito o deslocamento do
corpo da mãe para o corpo social, com a consequente possibilidade de habitar o coletivo e
compartilhar dos valores preconizados numa determinada época e cultura, deslocamento este
que se produz por obra daquele que encarna a função paterna. Trata-se, então, de uma missão
de pai. Como assinala Contardo Calligaris (1994), educação e castração são de certa forma,
61
sinônimos. Os dois termos designam processos pelos quais se pretenderia que o sujeito
chegasse a encontrar um lugar possível na sociedade dos adultos.
Assim, de acordo com Stolzmann e Rickes (1995), o professor, o pai, é também um
sujeito marcado por seu próprio desejo inconsciente. Desejo de (trans)missão, de ensinar algo
a alguém que está na posição de querer saber. E como despertar o desejo de saber de seu
aluno/ filho? Não basta apenas querer, é preciso estar na posição de ser um ser em falta para
que o desejo possa circular e produzir os seus efeitos. Pela via da transferência, “o aluno
passará pelo professor, pelo pai, usá-lo-á, por assim dizer, saindo dali com um saber do qual
tomou verdadeiramente posse e que constituirá a base e o fundamento para futuros saberes e
conhecimentos” (1995, p. 45).
A transferência está presente em todas as relações, sendo a relação analítica o lugar
onde ela aparece em toda a sua dimensão.
Pois o desejo, em sua raiz e sua essência, é o desejo do Outro, e é aqui,
falando propriamente, que está a mola do nascimento do amor, se o amor é aquilo
que se passa nesse objeto em direção ao qual estendemos a mão pelo nosso próprio
desejo e que, no momento em que nosso desejo faz eclodir seu incêndio, nos deixa
aparecer, por um instante, essa resposta, essa outra mão que se estende para nós,
bem como seu desejo. Esse desejo se manifesta sempre na medida em que não
sabemos (LACAN, 1992, p. 180).
Em outras palavras Lacan (1992), sugere que parece impossível eliminar do fenômeno
da transferência o fato de que ela se manifesta na relação com alguém a quem se fala. Este
fato é constitutivo e, implica fundamentalmente uma suposição de saber endereçada a esse
alguém.
Então, como pensar a transferência na relação ensinante-aprendente? De acordo com
Stolzmann e Rickes (1995), a autoridade do professor/pai vai se fundar nessa suposição de
saber que lhe é endereçada pelo aluno. E é preciso que esse professor possa sustentar aquilo
que a criança lhe endereça, pois desde esse lugar será possível ensinar, e viabilizar um
processo de sucessão, transmissão.
Mas, para avançar acerca dos interrogantes que a transmissão coloca, é necessário
retomar algumas questões, por exemplo, a concepção de sujeito. O ato de aprender requer
algumas premissas básicas que, se faltantes, colocam em risco a aventura do descobrimento.
Tais pré-requisitos dizem respeito à constituição subjetiva daquele ser indefeso, provido de
pulsões e nelas envolvido, que o diferenciarão de todos os outros animais. Nesse processo de
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constituição subjetiva, o sujeito deve alienar-se a um outro, aquele que encarna a função
materna, do qual beberá os significantes que lhe darão um lugar. Lacan vai colocar que o que
aparece é o caráter profundamente oral dessa relação de objeto imaginário. “Ao considerar a
relação dual como real, uma prática não pode escapar às leis do imaginário, e o desfecho
dessa relação de objeto é a fantasia de incorporação fálica” (1995, p.27). Isso porque a relação
dual, imaginária, que é a relação mãe-criança, está mediada por este objeto imaginário
privilegiado que se chama o falo.
Se tudo correr bem, assinala Lacan “a criança não tem, pois, nenhum meio de
distinguir entre o que é da ordem da satisfação fundada na alucinação do princípio, ligada ao
funcionamento do processo primário, e a apresentação do real que a preenche e satisfaz,
efetivamente” (1995, p. 34). A realidade aqui é, com efeito, posta em jogo igualmente no
duplo princípio, princípio do prazer e princípio da realidade. Trata-se aí, pontua Lacan, de
algo inteiramente diferente, pois o princípio do prazer não se exerce de maneira menos real
que o princípio da realidade.
De acordo com Lacan, para seguir na compreensão da constituição subjetiva do
sujeito, é necessário considerar a noção de falta de objeto. “É a mola da relação do sujeito
com o mundo” (1995, p. 35).
O autor vai considerar três formas da falta de objeto: a castração, a frustração e a
privação. Estas não são três coisas equivalentes. Elas devem ser distinguidas. A privação, em
sua natureza de falta é uma falta real, um furo. É somente a propósito deste real, como algo
distinto do imaginário, que se pode entender a privação. Já, a noção de frustração refere-se a
um dano, uma lesão, um prejuízo. Ela diz respeito a algo que é desejado e não obtido. É o
domínio das exigências desenfreadas e sem lei. É no plano do imaginário que ela deve ser
situada. A castração foi introduzida por Freud de uma forma relacionada à noção de lei
primordial, fundamental na interdição do incesto e na estrutura do Édipo. A castração
classifica-se, na categoria da dívida simbólica.
E, o que é o objeto que falta nesses três casos?
Lacan vai considerar que o que falta no nível da castração, na medida em que esta é
constituída pela dívida simbólica, é um objeto imaginário. O objeto da frustração, em
contrapartida, é, em sua natureza, um objeto real, por mais imaginária que seja a castração. E,
o objeto da privação, este não passa jamais de um objeto simbólico. A noção de frustração,
para o autor, se refere à primeira idade da vida e introduz a questão do real. A frustração é
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considerada um conjunto de impressões reais, vividas pelo sujeito num período de
desenvolvimento em que sua relação com o objeto real está centrada habitualmente na imago
dita primordial do seio materno, com referência ao qual vão se formar e se inscrever suas
primeiras fixações, aquelas que permitiram articular as relações da fase oral, da fase anal, com
suas subdivisões fálica, sádica, etc, e, mostrar que são todas marcadas por um elemento de
ambivalência. Em suma, diz Lacan, temos aqui a anatomia imaginária do desenvolvimento do
sujeito.
Retomando, o objeto não tem instância, nem entra em função, senão com relação à
falta. E nessa relação fundamental que é a relação da falta de objeto, é possível introduzir a
noção de agente, assinala Lacan. Neste caso, o agente é a mãe. “A mãe é outra coisa que não o
objeto primitivo” (1995, p. 67).
A questão, então, é a seguinte, afirma o autor, o que acontece na medida em que a
imagem do falo para a mãe não é completamente reduzida à imagem da criança?
A divisão do objeto desejado. Longe de ser harmônica, a relação da mãe com a criança
é duplicada, de um lado, pela necessidade de uma saturação imaginária, e de outro, por
poderem existir ali, com efeito, relações reais eficientes com a criança, num nível primordial,
instintual, que permanece definitivamente mítico. E o que entra em jogo no fim dessa fase
pré-edipiana? “Trata-se de que a criança assuma o falo como significante, e de uma maneira
que faça dele instrumento da ordem simbólica das trocas, na medida em que ele preside à
constituição das linhagens. Trata-se, em suma, de que ela se confronte com esta ordem que
fará do pai, o pivô da trama” (1995, p. 204).
O fim do complexo de Édipo é correlativo da instauração da lei como recalcada no
inconsciente, mas permanente. É nessa medida que existe algo que responde no simbólico. A
lei coloca o autor, não é simplesmente aquilo sobre o que nos perguntamos por que, afinal a
comunidade dos homens nela é introduzida e implicada. Ela também está baseada no real, sob
a forma desse núcleo deixado atrás de si pelo complexo de Édipo. Isso remete a um outro
olhar sobre as teorias sexuais infantis estudadas por Freud. Lacan (1995) vai pontuar que elas
envolvem toda a atividade do sujeito e motiva o que se pode chamar de seus temas afetivos. O
autor vai chamá-las de atividades cerimoniosas e as aproxima dos mitos em sua estrutura
narrativa, cuja função é de caráter ficcional. Por outro lado, essa ficção mantém uma relação
singular com alguma coisa que está sempre implicada por trás dela: a verdade. “A necessidade
estrutural que é carreada por toda expressão da verdade é justamente uma estrutura que é a
mesma da ficção. A verdade tem uma estrutura, se podemos dizer, de ficção” (1995, p. 259).
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Retomando: “o sujeito para constituir-se deverá ser no outro para depois vir-a-ser”
(STOLZMANN e RICKES, 1995, p. 46). No entanto, seguem as autoras, jamais se libertará
da tensão que sustenta seu ser: estar entre a alienação e a separação neste/deste Outro que o
possibilitou como sujeito. “A relação dual fundamentalmente animal não deixa de continuar
prevalecendo numa certa zona, a do imaginário, e é justamente na medida em que o homem,
mesmo assim, sabe calcular, que se produz, em última análise, aquilo que chamamos de um
conflito” (LACAN, 1995, p. 244).
Em outras palavras, segundo Stolzmann e Rickes (1995), a alienação não desaparece,
mas sim, passa a tencionar com a separação produzida por essa operação de corte. Com o
agente dessa operação, aquele que faz função paterna, contrai-se uma dívida simbólica. É na
relação a essa dívida que o sujeito irá traçar os caminhos de sua vida; é na referência a sua
filiação que lhe será possível empreender rumos. Por isso, a ruptura dual – a operação edípica
– inscreve o sujeito no lugar de ser desejante e propicia à criança ser fora do corpo materno,
para além dessa miragem de completude, também, instaura uma dívida que põe em questão o
ser em relação a esses significantes constituintes da metáfora paterna. Assim, colocam as
autoras, temos que o sujeito do desejo não equivale ao indivíduo biológico. Está
irremediavelmente dividido, o objeto de sua completude restou para sempre perdido. Logo, ali
onde se poderia pensar num sujeito que se constrói para e pela lógica, identificando o conceito
de aprendizagem a essa instância objetiva e construtiva do ser humano, encontramos um
sujeito desejante e que escapa a qualquer tentativa homogeneizante e estática da razão.
Uma concepção de sujeito que vise à adaptação preocupa-se, fundamentalmente, em
preencher as lacunas que acredita estarem abertas, em encontrar dispositivos que
‘remedeiem’, pontuam as autoras, as dificuldades da criança e a devolvam para um bom
caminho ‘normal’. De preferência que se cale a criança e o seu desejo, que não se escute o
que ela tem a dizer, ou o que esteja falando através de suas pretensas dificuldades. Nessa
concepção, não encontramos lugar para o imprevisível, o inesperado, o fortuito.
Eu acredito que seja uma situação estrutural do sujeito viver com a educação
que ele recebeu e ao mesmo tempo contra ela. Talvez seja isso que os pais
entendam mal. Qual é o grande erro que nós podemos cometer do ponto de vista
psicanalítico em matéria de educação? É que nós transmitimos às nossas crianças
uma mensagem e esperamos delas que a retornem como papagaios, quero dizer, sob
uma forma direta (MELMAN, 1994, p. 32).
De acordo com Melman (1994), Lacan disse algo surpreendente no seminário sobre a
angústia: ele diz que o psicanalista não forma discípulos. O que isso quer dizer? Um discípulo
65
sempre se refere a um saber, o saber de seu mestre e que lhe servirá de guia para sua
existência. Mas o psicanalista sabe que cada um de seus psicanalisandos precisa fazer um
caminho de tal maneira que ele possa não mais se referir a um guia na sua existência, pois “no
grande Outro não há nenhum saber constituído, nenhuma sabedoria suscetível de nos dizer a
boa maneira de tratar as nossas dificuldades” (MELMAN, 1994, p. 39).
O que se espera de uma criança é que ela seja ideal, assinala o autor. Que seja uma
criança limpa, inteligente, agradável, obediente. “É por isso que eu dizia para desconfiarem da
educação, pois há um voto de morte em toda a educação” (1994, p. 39).
Stolzmann e Rickes (1995) aludem ao fato de que Freud nos ensinou a respeito da
ilusão de uma pedagogia psicanalítica, embora, no início de sua obra, tenha-se mostrado
vacilante em relação a esta proposição. O fato é que ele não deixou em seu legado nada que
pudesse dar uma tranqüilidade a seus seguidores sobre um caminho mais ameno a seguir no
campo das aprendizagens. Pelo contrário, referiu-se à educação, assim como à psicanálise e
ao ato de governar como tarefas impossíveis. Nem por isso, deixou de se aventurar por esses
terrenos espinhosos, solitários e, até mesmo contraditórios.
O que seria, então, necessário e desejável em um professor/pai para que este pudesse
proporcionar a seus alunos/filhos que acendessem ao conhecimento? O percurso estabelecido
pelas autoras, acerca da constituição do sujeito em sua condição de ser desejante, deixa
entrever que é a partir de uma dívida simbólica que se abrem as possibilidades do ato
educativo. O mestre ensina porque é seu dever, porque é sua missão, porque transmitir é o seu
sintoma, é o que o funda como sujeito. E, sendo assim, na condição de ensinante, está
assujeitado a ideais, desejos, sistemas, dívidas e, principalmente, toma a seu encargo e
sustenta uma certa tradição de saberes passados que embasam e referendam o seu
ensinamento. Se ensinar é uma questão de dívida, é também um exercício que se sustenta dos
significantes paternos que constituem quem ensina – e quem aprende – em uma determinada
posição desejante frente à linguagem. É, então, de alguma forma a prova viva da dívida
simbólica em relação aos que o precederam, a sustentação de uma filiação.
E do lado de quem aprende? O que fundamenta o desejo de saber do aluno/filho? As
autoras respondem: o aluno/filho está mais do lado de um amor. Amor àquele que lhe oferece
o seu ensino prometendo, com isso, sanar sua falta. Ou seja, o aprendiz supõe no mestre um
saber que venha preencher a sua falta. Porém, o mestre nada sabe sobre o desejo do aluno.
Entretanto, sustenta com a sua posição, este lugar impossível, abrindo as possibilidades para
que o aluno faça circular o seu desejo de saber.
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As autoras apontam, também, para o fato de que para que o desejo do aluno se
articule, é imprescindível que alguém demande isso dele. E, mesmo que estas condições
estejam dadas – desejo e demanda – ainda assim não há garantias. Dito de outro modo, a
demanda de conhecimento que a escola/empresa familiar ou os pais endereçam à criança,
pode não tocar o seu desejo de saber, que é de outra ordem e não está numa posição de
continuidade com este último.
Inscrita na demanda dos pais, há a demanda social, atualizada em nossos dias de tal
modo que faz com que as crianças sejam submetidas, desde cedo, a uma maratona de
atividades a fim de acelerar seu desenvolvimento. Há, portanto, um ideal social ao qual nossas
crianças devem submeter-se para estarem de acordo com as exigências de uma sociedade
capitalista extremamente competitiva, sob pena de que, se fracassarem, terão que se haver
com as feridas narcísicas de seus pais que não suportam, nos dias atuais, a castração que a
educação nos impõe. Claro que isto não se realiza, concluem as autoras, sem uma grande
quota de angústia para a criança.
2.3.4 Constituição dos grupos e propósito da cultura
Para a constituição do grupo, é necessário, coloca Enriquez (1991), de um lado, a
presença de um chefe, de outro, uma estrutura libidinal, unindo os membros do grupo ao
chefe.
Em Psicologia de Grupo e Análise do Ego, Freud nos ensina:
Numa Igreja, bem como num exército, por mais diferentes que ambos
possam ser em outros aspectos, prevalece a mesma ilusão de que há um cabeça – na
Igreja Católica, Cristo, num exército, o comandante chefe – que ama todos os
indivíduos de grupo com um amor igual. Tudo depende dessa ilusão; se ela tivesse
de ser abandonada, então tanto a Igreja quanto o exército se dissolveriam até onde a
força externa lhes permitisse fazê-lo (1921, p. 120).
Para Enriquez (1991), torna-se indispensável, para que o grupo viva a existência de
um pólo instaurador, idealizado, percebido como tendo uma outra essência. Quer encontremos
no início um pai portador de morte, ou um pai afetuoso, não pode haver grupo sem pai, não
pode haver grupo sem obrigação de pagar infinitamente o débito pelo direito da existência e
pelo direito ao sentido. Enquanto a recusa de amor gera o ódio, o dom de amor não cria
necessariamente o retorno do amor, ou o amor entre os irmãos. Freud vai pensar sobre as
67
razões desse vínculo duplo, o que o levará a precisar os mecanismos e os processos de
identificação3. Ele resume as três fases desse processo.
O que aprendemos dessas três fontes pode ser assim resumido: primeiro, a
identificação constitui a forma original de laço emocional com um objeto; segundo,
de maneira regressiva, ela se torna sucedâneo para uma vinculação de objeto
libidinal, por assim dizer, por meio da introjeção do objeto no ego; e, terceiro, pode
surgir com qualquer nova percepção de uma qualidade comum partilhada com
alguma outra pessoa que não é objeto do instinto sexual. Quanto mais importante
essa qualidade comum é, mais bem sucedida pode tornar-se essa identificação
parcial, podendo representar assim o início de um novo laço. Já começamos a
adivinhar que o laço mútuo existente entre os membros de um grupo é da natureza
de uma identificação desse tipo, baseada numa importante qualidade emocional
comum, e podemos suspeitar que essa qualidade comum resida na natureza do laço
com o líder (FREUD, 1921, p. 136).
De acordo com Barros (2001), Freud estava construindo, nesse momento, a teoria da
identificação, como a forma mais primitiva de laço social. É por identificação que o laço se
faz. A essência da formação do laço social encontra-se nas relações amorosas. Freud nos
convida a pensar o lugar do líder ou mesmo da massa como um ideal que suporta a
identificação do indivíduo. Será por meio desse líder, em torno dessa ideia mobilizadora, que
a massa irá se organizar, estruturar-se ao redor dessa ordem que emana da ideia-líder, palavra
de poder.
O amor promove a crença na idéia, exige-se o ideal do eu e as palavras de ordem
vindas desse lugar serão obedecidas, pois terão se tornado objeto de desejo, objeto em torno
do qual a libido desfila... objeto de amor.
De acordo com Freud (1921), cada indivíduo é uma parte componente de numerosos
grupos, acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal
de ego4segundo os modelos mais variados. Cada indivíduo, portanto, partilha de numerosas
mentes grupais - as de sua raça, classe, credo, nacionalidade, etc.
E por fim, o que é cultura, o que é civilização?
Para Freud, em O Futuro de uma Ilusão,
a civilização humana é a expressão pela qual quero significar tudo aquilo em que a
vida humana se elevou acima de sua condição animal e difere da vida dos animais
(...). Por um lado, inclui todo o conhecimento e a capacidade que o homem adquiriu
com o fim de controlar as forças da natureza e extrair a riqueza desta para a
3
4
A identificação será pensada apenas como processo esclarecedor do funcionamento dos grupos.
Ideal do Ego – Freud nos coloca a hipótese de que no ego se desenvolve uma instância capaz de isolar-se do
resto do ego e entrar em conflito com ele. De acordo com Freud, as funções do ideal do ego são: a autoobservação, a consciência moral, a censura dos sonhos e a principal influência na repressão. É o herdeiro do
narcisismo original em que o ego infantil desfrutava de auto-suficiência (FREUD, 1921, p. 138).
68
satisfação das necessidades humanas; por outro, inclui todos os regulamentos
necessários para ajustar as relações dos homens uns com os outros e,
especialmente, a distribuição da riqueza disponível (1927, p. 16).
Para Enriquez (1991), a cultura preenche uma função primária de interdições, que se
exerce de maneira privilegiada sobre três desejos instintivos: o assassinato, o canibalismo e o
incesto. Porém, a civilização não se realiza unicamente pela internalização das interdições
necessárias à sua sobrevivência. De acordo com Freud (1927), ela funciona e se mantém pelas
satisfações de ordem narcísica que desperta em seus membros, na medida em que participam
de seus ideais e de suas criações, e que utilizam essa situação para comparar esses ideais e
criações com os manifestados por outras culturas.
Para Freud (1927), a civilização tem ainda a função de defender o homem contra a
natureza, bem como, protegê-lo do desamparo, do seu anseio pelo pai e pelos deuses, e,
consolá-lo pelos sofrimentos e privações que uma vida civilizada em comum lhe impôs.
Devido a isso, a importância que Freud (1927), atribui à crença, à ilusão. A ilusão
funda-se sobre a crença na possibilidade de realização do desejo e é indiferente à realidade. O
recurso à proteção enganadora pontua Enriquez (1991), é uma constante tentação que
ressurgirá sempre que a distância entre o sonho e a realidade for fonte de grande insegurança
e angústia. De todas as ilusões, a religiosa, coloca o autor, é a mais inexplicável e a mais
tenaz, visto ser a única que se funda sobre o amor por um objeto ausente e invisível, mas cuja
luminosidade, portanto, não pode se embaçar. O que garante a permanência de seu efeito é o
fato de existir fora de qualquer razão.
Em seu texto O Mal-Estar na Civilização, Freud vai questionar sobre a felicidade e o
propósito da vida. Ele vai nos ensinar que “o que chamamos de felicidade provém da
satisfação de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas
como uma manifestação episódica” (1930 [1929], p. 95).
A infelicidade, por outro lado, acrescenta Freud é muito menos difícil de
experimentar. Ela provém de nossa própria constituição: do nosso corpo condenado à
decadência, do mundo externo, que pode voltar-se contra nós e, de nossos relacionamentos
com os outros homens.
Freud coloca que se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sua
sexualidade, mas também à sua agressividade. É possível compreender porque é difícil ser
feliz: “o homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma
69
parcela de segurança” (1930 [1929], p. 137). Apesar disso, o resultado da civilização, vai nos
dizer Freud, foi que “um número bastante grande de pessoas podia agora viver reunido numa
comunidade” (1930 [1929], p. 121).
Podemos entender esses sacrifícios impostos pela civilização a partir de Marcelo
Ricardo Pereira (2008), quando afirma que a lei é uma obra da cultura, efeito da linguagem.
Assim, a idéia do pai – esse outro -, ou ainda do mestre, é uma idéia vazia, um significante
por excelência. Em outras palavras, o pai é um operador lógico, forjado pela linguagem: uma
metáfora. Vale dizer que “não é a lei que impede o gozo, mas como se vê, é a linguagem que
verdadeiramente o impede” (PEREIRA, 2008, p. 70).
O sujeito, de acordo com Barros (2001), em sua estruturação, pode posicionar-se de
diferentes formas diante da lei. Poderá questioná-la, opor-se a ela, interpretá-la ou obedecer
simplesmente. Dependerá da sua resolução edípica.
A partir da constituição edípica, no encontro como rochedo da castração, a criança terá
de abandonar seus impulsos narcisistas e se lançar em desvios. Terá de suportar o mal estar,
contentar-se com satisfações parciais, com o limite alheio e submeter-se às leis da civilização.
Antes de submeter-se à lei da constituição, terá de submeter-se a uma lei maior, a lei
da constituição do sujeito, a lei do pai, ou para sermos mais rigorosos, terá seu destino
ordenado a partir do ponto onde o significante nome-do-pai se inscreve em sua estrutura
subjetiva. A partir daí o sujeito seguirá seu percurso, pela via principal marcada pelo Nome do
Pai. Não se trata aqui da pessoa do pai, ou seja, de uma personalidade que funda a lei. Mas de
alguma coisa que se coloca como conferindo autoridade à lei. É uma operação possível pela
metáfora paterna, pelo nome do pai enquanto operação simbólica que organiza a linguagem
seguindo uma ordem discursiva. Esta ordem marca a posição do sujeito diante do Outro, da lei
e da cultura.
Esses laços, como Freud postula, obedecem a uma lógica libidinal e, tentam responder
ao desamparo do indivíduo diante da morte e da solidão. Sua matriz encontra-se no complexo
de Édipo. É na esteira desse acontecimento que as instituições retiram seu poder e relevância
social.
Mesmo que o desamparo seja sempre reescrito na vida cotidiana, esse lugar
restaurador funciona como o ideal, argumenta a autora. Portanto, será sempre um lugar
pressuposto, ficcional. Lugar anônimo e transcendente. Lugar onde a função paterna opera.
Diante do real do desamparo, qualquer palavra que se coloque lá onde nada há, ganha força e
70
poder e, o indivíduo cai submisso aos seus ditames, por crer que poderá encontrar nesse lugar
ordenador, uma possibilidade de ser amparado pela filiação a essa ordem.
Obedecer às leis, segue a autora, pode ser um ato de filiação àquele a quem se outorga,
simbolicamente, o lugar de um pai. A identificação ao pai pode vir sob as mais diversas
vestes, na sua falha, inclusive. Isso modula a posição do sujeito diante da lei. A crença nesse
lugar ordenado pelo significante do Nome-do-Pai possibilita a amarração do sujeito à palavra
da lei. A obediência à lei, portanto, é um ato de filiação. O gozo aparece desde sempre
interditado, o paraíso está irremediavelmente perdido, resta-nos o mal-estar das civilizações.
Assim sendo, a sujeição ao campo da palavra e da linguagem, ou seja, a transmissão
da lei, do simbólico, cobra um preço: a castração.
2.3.5 O laço social e os quatro discursos de Lacan
No seminário o Avesso da psicanálise, Lacan (1992), vai analisar o laço social a partir
do que ele intitulou os quatro discursos.
Ele afirma que todo discurso implica um freio ao gozo. Para Ruth Helena Pinto Cohen
(2006), essa afirmação de Lacan nos leva a proposição de que o discurso está inscrito na
estrutura da linguagem e implica forçosamente uma determinada organização do modo de
gozar.
De acordo com Isidoro Vegh (2001), Lacan vai explicitar que falar de desejo implica
uma forma de gozo que leva o sujeito a encontrar-se com o outro, e encontrar-se com o outro
quer dizer aceitar uma perda de gozo. “Para sustentar este laço social, aceitam uma perda de
gozo (...). Falar significa perda de gozo” (2001, p. 12). Para o autor, Lacan demonstrou com o
conceito de discurso que situar-se na perspectiva do desejo significa também situar-se na
perspectiva do laço com o outro. Assim sendo, podemos entender que esse conceito tem
consequências na transmissão do conhecimento, na educação e, na sucessão.
Lacan (1992) definiu inicialmente, quatro modalidades de discurso: do mestre, da
histérica, da universidade e do analista; construídos a partir de quatro lugares: agente, outro,
produção e verdade; ocupados por quatro elementos: o sujeito barrado ou dividido ($) 5, o
5
O sujeito em psicanálise não é o homem, a pessoa, o ser ôntico, nem tampouco o indivíduo em geral, mas um
ser dependente da linguagem em que um significante vai representá-lo em relação a todos os outros
significantes e, por isso mesmo, determiná-lo. Nessa posição deriva-se um “resto”, pois o sujeito não é todo
representável na linguagem. De fato, desde que nela se inscreva, o sujeito não tem mais acesso direto ao
objeto, mas tão somente pelo discurso que medeia esse acesso (CHEMANA, 1995).
71
significante mestre (S1), o saber (S2) e o objeto a. Em seguida, acrescentou um quinto
discurso, o do capitalista, fruto de uma inversão no discurso do mestre.
De acordo com Cohen (2006), a teoria lacaniana dos discursos recobre as três
atividades mencionadas por Freud como sendo, na verdade, profissões impossíveis6, ou seja,
esses discursos se referem fundamentalmente a impossibilidades.
Freud se interroga sobre as tarefas impossíveis e, indica o que, para ele era o ideal da
educação, não sem demonstrar que algo escapa dos discursos e incide em suas formações na
repetição inconsciente: a indestrutibilidade do desejo. Mais tarde, coloca a autora, no seu
texto “Análise terminável e interminável”, Freud retoma o tema das impossibilidades e afirma
que, em uma análise, algo não se cura. Nessa mesma direção, Lacan formula uma teoria que
trata dos vínculos sociais, definidos por ele como liames sociais, que quer dizer ligação, sendo
essencialmente fundada na linguagem.
A autora afirma que o mal-estar próprio à civilização, tal como identificado por Freud,
encontrou eco na teoria dos discursos de Lacan, na qual o conceito de objeto a, teve como um
de seus objetivos, a demonstração em cada um desses discursos, da existência de um resto que
constitui o motor de funcionamento dos mesmos. O objeto a representa o que a civilização
exige que os homens renunciem: o objeto de suas pulsões ocupando lugares distintos em cada
um dos quatro discursos iniciais, ele recebeu também o nome de objeto mais-de-gozar.
Assim, em uma de suas definições, “o objeto a não é o objeto da necessidade, mas sim
aquele que está perdido e ao qual não se tem acesso direto como objeto do desejo” (COHEN,
2006, p. 54). Na constituição do sujeito dividido pela linguagem, a sujeição às leis inscreve o
homem nas articulações do laço social, permanecendo o material recalcado nos lugares sob as
barras, que são ocupados por elementos diferentes em cada uma das modalidades de discurso.
agente
verdade
outro
produção
Figura 1 - Posições dos elementos do Discurso
Fonte: Lacan, 1992
6
“Quase parece como se a análise fosse a terceira daquelas profissões “impossíveis” quanto às quais de antemão
se pode estar seguro de chegar a resultados insatisfatórios. As outras duas, conhecidas há muito tempo, são a
educação e o governo” (FREUD, 1937, p.282).
72
Nestas posições, dispõem-se alternadamente os elementos denominados por Lacan de:
S1 – Significante mestre
S2 – saber
$ - Sujeito barrado (dividido)
a – objeto a
Lacan (1992) designa o S1 como o significante–mestre que representaria o sujeito
junto ao conjunto dos significantes S2, designado como saber. O sujeito $ é barrado, para
indicar que não é o sujeito autônomo, mas determinado pelo significante, que tem barra sobre
ele. Também inexiste acesso direto do sujeito ao objeto (a) de seu desejo.
O Discurso do Mestre (impossibilidade)
S1
$
S2
a
Figura 2 - Discurso do Mestre
Fonte: Lacan, 1992
O discurso do mestre pontua Lacan (1992), ou do senhor, implica que ele representa
um sujeito para um outro significante S2. É em tal relação, no entanto, e justamente na medida
em que ela não se sabe, que reside a base do que se sabe, do que se articula tranquilamente.
Para operar com o esquema do discurso do mestre, digamos que o trabalho escravo,
invisivelmente, é que constitui um inconsciente não revelado. A psicanálise vem demonstrar
que o saber não é uma totalidade fechada.
Leny Magalhães Mrech (2005) propõe que se imagine governante (o professor, no
caso da empresa familiar, o pai) no lugar de agente do discurso (S1) autorizando-se com base
em um saber de mestre sabe tudo. Ela exige que seus filhos (sucessores, alunos) - (S2) -,
produzam saberes capazes de materializar suas intenções. Tudo está submetido a uma lei que
ela própria determina do lugar de agente. Tudo, exceto uma coisa: “a produção gera objetos a
revelia da lei, que jamais são materializados conforme ‘planejados’ pelo mestre. Dessa
subversão, surge um sujeito ($) como efeito de verdade, que está sob a barra das
determinações legais” (2005, p. 106).
73
Silvia Wainsztein (2001) argumenta que Lacan, em seu seminário, fala do senhor
antigo e do senhor moderno. O senhor moderno é quem sustenta o discurso da ciência. É a
figura do pai.
Na cultura grega, o escravo fazia parte da família, ou seja, o único que fica para
garantir algo que tenha a ver com os gozos, é o pai.
Mrech (2005) comenta que no discurso do mestre, o governante ou senhor autoriza-se
com base em sua subjetividade, esperando obter do governado ou escravo a produção de
objetos manufaturados ou industrializados para usufruir: objetos de gozo. A lei caracteriza sua
mestria, não a regra puramente imaginária e ideativa. Portanto, é o discurso por excelência,
uma vez que sua tese é a de que tudo deve submeter-se à lei. Há um saber sobre tudo. O
discurso do mestre é o laço civilizador que exige renúncia pulsional, promovendo rechaço do
gozo que retorna sobre a forma de superego. Esse discurso produz os desejos da civilização
(sob a forma de mais de gozar). É o discurso do desejo, portanto, do inconsciente.
A autora defende que o princípio de todo discurso seja o do mestre, por sempre
inaugurar o significante primeiro – traço de lei (S1
S2). Entretanto, o mestre deve operar
nele para não se reconhecer nele, ou seja, deve utilizar-se do discurso do mestre para não
permanecer ali. “Sabemos que tal discurso quer tudo submeter à lei, não admitindo qualquer
falta ou furo. Essa constatação evoca a ‘pulsão de mestria’, que reclama para si a perpetuação
de uma imagem do poder, sob a sutura significante da lei, agora eternizada na regra”
(MRECH, 2005, p.110).
A ideia viria, advoga a autora, tão somente instituir idéias moralizantes e imaginárias,
ao sucumbir o ato original da lei como estofo de identificação simbólica – marca necessária
para se reconhecer na diferença. Em sua obra, Lacan define o pai real como agente da
castração e diz que a função deste pai é da natureza do ato, mas é um efeito de articulação
significante. Sem a articulação significante não pode haver ato.
Wainsztein (2001) argumenta que para Lacan, no caso do discurso do mestre trata-se
do impossível de governar. Essa função é impossível para o mestre porque para efetuar essa
função ele deve transmitir sua própria castração, já que ele, o pai, é também um sujeito da
linguagem. O pai real é impossível já que ele não é outra coisa que o efeito de linguagem.
Para Freud o pai do Édipo pode ser encontrado somente na resolução do Édipo. O
complexo de Édito resolve-se, tanto para o homem quanto para a mulher pela operação de
74
identificação e do amor ao pai. É um pai todo amor que o mito de Édipo produz. Lacan diz
que o lugar desse pai é o de um operador estrutural (WAINSZTEIS, 2001).
Isso implica em dizer que o pai é em princípio um significante na medida em que é o
pai morto. O mito da origem é situar o pai no princípio da estruturação subjetiva. A eficácia
de sua função é efeito do pai morto.
No discurso do mestre no lugar da dominância temos o S1, e o que se trata de dominar
é a lei. Ao mestre o que interessa é que a coisa funcione, que as coisas andem, caminhem.
Não lhe interessa saber porque funcionam.
Discurso Universitário (Impotência)
S2
S1
a
$
Figura 3 - Discurso Universitário
Fonte: Lacan, 1992
O discurso universitário é apenas o conservador e transmissor do saber dos grandes
autores. Seu saber é um saber verdadeiro que se reveste de referência aos mestres, coloca
Mrech (2005). Torna-se, então, o guardião da letra alheia na impotência de inscrever a sua
própria. Essa é a forma do discurso moral que busca a mestria interior, segue a autora, tese
oposta à idéia do inconsciente. “A linguagem é a condição do inconsciente. A maneira pela
qual o traduzem obedece a razões que certamente poderiam ser totalmente ativadas por
motivos estritamente universitários” (LACAN, 1992, p. 39). Lacan afirma que há o mito do
Eu Ideal no discurso do universitário. É o mito do Eu que domina, do Eu pelo qual alguma
coisa é igual a si mesma: o enunciador.
Para Mrech (2005), o gestor ou o educador no discurso do universitário, autoriza-se do
autor, da bibliografia, para impor o saber ao outro objetivado (o que estaria em posição de ser
educado ou de aprender as tarefas - no caso da empresa). Produz-se, assim, por mais
paradoxal que seja um revoltado, um contestador. O ato de educar é o tratamento do outro
como objeto, como um estudante que está ali apenas para aprender. É a objetivação pelo
saber, que só faz produzir um aluno subversivo, que inventa outra coisa e a devolve ao lugar
próprio da verdade de lei daquela professora, como seu significante mestre (S1), que está
barrado dos saberes que enuncia.
75
Nanclaves (2001) advoga que o discurso universitário produzirá o terreno necessário e
as condições estruturais da passagem ao discurso do analista.
Para a autora, esse discurso teve um marcante deslizamento social, próprio do
momento e dos acontecimentos históricos durante os quais Lacan desenvolve o seminário o
Avesso da Psicanálise. Momento este em que tiveram lugar na França os fatos ocorridos
durante o mês de maio 1968. “Seu epicentro foi a universidade” (NANCLAVES, 2001,
p. 114).
Este discurso pontua Nanclaves (2001), foi frequentemente tomado em seu aspecto
pejorativo. Isto porque está ligado a um tipo de transmissão de saber – próprio da transmissão
do ensino universitário – ao qual em princípio o discurso analítico se opõe. Entraria em
contradição com o princípio do impossível através do qual Freud definiu a tarefa de educar.
Deixaria de lado, sem reconhecer o que resta de toda relação de ensino, de toda relação do
sujeito ao Outro: o objeto a.
Wainsztein (2001) argumenta que no discurso universitário quem domina é o saber. A
permanência nesta posição resulta na restauração da burocracia.
Como se verá, considera Nanclaves (2001), o desconhecimento deste impossível
estrutural, ligado às tarefas de educar, analisar e governar, não deixa de nos confrontar com as
consequências mais diversas no campo da educação, da análise e do social.
“Alguém que ocupe o lugar totalizante do saber, um educador, um pai, uma mãe, deixa
em posição de alienação absoluta o outro que se pretende educar, ou então governar”
(NANCLAVES, 2001, p. 114).
No discurso universitário, logicamente anterior ao discurso do analista, debaixo do
Outro, temos o sujeito no lugar da produção (NANCLAVES, 2001).
A autora evidencia que na disposição das letras nos quatro discursos, o S1, que no
discurso universitário está oculto para o sujeito, passa a estar pela operação analítica no lugar
da produção, à qual não se pode chegar sem haver transitado por todas estas rotações lógicas
com consequências discursivas para o sujeito. É possível chamá-las de conseqüências de
subjetivação da própria morte, outro modo de nomear a castração.
Educar-se, não se pode não tentar educar, e o discurso universitário tem então uma
função insubstituível, mas não se pode educar todo o real, dado que este resiste a uma
totalização de sua educação (AMIGO, 2001).
76
Discurso da Histérica (Impotência)
$
a
S1
S2
Figura 4 - Discurso da Histérica
Fonte: Lacan, 1992
Wainsztein (2001) coloca que a histérica quer um mestre que saiba muitas coisas, mas
um mestre que não governe e sobre o qual ela reine. No discurso da histérica, com o sujeito
estando no lugar da dominância e, portanto dividido, o que domina é o sintoma.
O discurso histérico é o lugar do desejante ou, é o lugar do provocante. Ele ou ela
assinala Mrech (2005), autoriza-se de seu gozo para impelir o outro elevado à categoria de
mestre a produzir um saber sobre a sua verdade sexual. O sujeito, aqui, é aquele que mantém
o discurso. Logo, o outro é tomado sempre como mestre para estimular seu desejo, mas um
mestre (barrado de seu saber) sobre o qual o sujeito histérico reine e ele não governe. A
insatisfação do desejo é a marca e a queixa, efeito de sua impotência. É, pois, o desejo de
saber que institui o desejo do histérico. Mas a verdade do saber que esse discurso supõe achase no sintoma, que permanece exterior ao discurso como tal, mas que é por ele
necessariamente evocado.
O discurso histérico pode se fazer presente no ato de administrar, de gerir, de preparar
para a sucessão, de educar quando o gestor, professor (sujeito) se forja ambíguo, dividido,
barrado, induzido pela própria operação dos discursos do mestre e do universitário que,
evidentemente, produz nesse sujeito o desejo de saber sobre a sua divisão ou sobre a divisão
que seu ato promoveu.
“Ele supõe que haja um saber e que haja um sujeito que sabe. Isso é a transferência”
(FLESLER, 2001, p. 47).
Nessa posição o saber é importante para dizer a verdade, afirma a autora. E nisso
insiste Lacan: a verdade não é o que a lógica entendeu, não surge da relação entre o
verdadeiro e o falso, como rapidamente se poderia apreendê-la, mas da divisão do sujeito,
causada justamente pela falta do objeto. “O saber é impotente para dizer o que está na causa
da divisão do sujeito” (FLESLER, 2001, p.47). Esse discurso se interessa em saber porque as
coisas funcionam (WAINSZTEIN, 2001).
77
Com isso mostra-se que é necessário um tempo de operação importante para que o
discurso se estabeleça. Esse seria um primeiro tempo lógico na constituição de um sujeito.
Dito em outros termos, conforme a autora, os únicos que tem um saber acabado sobre
sexo são os animais; são eles os únicos que alcançam uma realização natural do sexual; neles
sim, há saber do sexual. Os animais sabem qual objeto é conveniente. Em compensação, diz,
os seres humanos, nem bem começam a falar já se enganam, porque a palavra coloca uma
distância em relação ao gozo, separando, então, gozo e saber.
A isto também se refere o sujeito dividido. Entre o que diz e o que sabe há uma
diferença pela ação da palavra. Alcança-se a condição humana perdendo-se o gozo absoluto, a
satisfação.
A articulação no discurso requer a realização de certas operações, para que alguém se
pergunte sobre a causa de seus sintomas. Não se cresce naturalmente: tempos de
redistribuição de gozo são solidários com um corte que houve. Tempos de corte:
descontinuidade e, não continuidade.
Discurso do Analista (Impossibilidade)
a
S2
$
S1
Figura 5 - Discurso do Analista
Fonte: Lacan, 1992
Amigo (2001) coloca que o discurso do analista é um discurso que aparece em um
momento punctiforme e que comanda a produção possível do ato analítico.
No momento em que o analista leva a cabo seu ato, imediatamente após este ato vai
haver uma rotação e vai aparecer outra vez o discurso do inconsciente que é o do mestre; ou
outro discurso do fazer desejar, que é o da histérica; ou o discurso do saber, que é o
universitário.
Em seu discurso, o analista autoriza-se do saber do inconsciente para obter do sujeito
analisante sua pura diferença, sua particularidade, coloca a autora. O saber é que é
significante. Surge no lugar da verdade o saber inconsciente: um saber não sabido. O ato
analítico trata o outro como sujeito do desejo.
O gestor, professor, investido do lugar de objeto causa de desejo (a) sobre um saber
inconsciente (S2), faz implicar um sujeito – o sucessor, o aluno – na sua pura diferença ($), a
produzir sua própria marca de singularidade (S1).
78
Por isso Lacan pode afirmar, argumenta Amigo (2001), que é pelo discurso do analista
que existe alguma chance de obter outro estilo de significante mestre, “o que é indício de
flexibilidade subjetiva, o que é indício de que alguém passou ao menos por algumas voltas
importantes na sua análise é que possa circular de um discurso ao outro” (AMIGO, 2001,
p.79).
No discurso do analista o dominante é o objeto a, não enquanto mais gozar como
encontramos no discurso da mestre, mas como causa de desejo. É quando o analista faz
semblante de causa de desejo para poder a partir dali desvelar o verdadeiro lugar do gozo para
o sujeito (WAINSZTEIN, 2001).
De acordo com Wainsztein (2001), a lógica do significante não esgota a descrição da
estrutura do sujeito. Ali onde S1 representa o sujeito para o significante S2 cai um resto, o
objeto a. Objeto cuja função é extraída da repetição do ser falante.
Lacan vai retomar o conceito de repetição em Freud. A repetição é o limite, aquilo que
é chamado de gozo na relação entre sujeito e saber.
De que repetição se trata para Freud? Wainsztein (2001) argumenta que trata-sede
reviver a experiência de gozo, a primeira experiência de gozo. Experiência essa que, na
medida em que se inscreve no aparelho psíquico, deixa sua marca. Como é impossível repetir
ou reproduzir essa primeira vez, a impossibilidade conduz ao circuito da repetição. O que esse
circuito inscreve é a repetição de uma perda, o que Lacan denomina de mais gozar. Na
drogadição, um fenômeno conhecido por todos, trata-se do impossível de repetir a experiência
de gozo da primeira vez, mas na repetição o que se tenta reencontrar é essa satisfação, o gozo
primeiro. “Sabemos que a diferença entre o gozo buscado e o gozo encontrado é o que
possibilita a dialética do desejo” (WAINSZTEIN, 2001, p. 29).
Pelo ato analítico, o real vai passar desta condição de estar sustentando este ponto de
fixação a um gozo mortificante, para a de ser o lugar de causa de nosso desejo de criar ou de
amar, quer dizer, o mesmo real de cujo peso padecemos passará a ser o motor de nossa
existência (AMIGO, 2001).
“O apelo ao movimento desejante é emitido para levar a cabo uma leitura, não é um
apelo para gozar” (AMIGO, 2001, p.81).
Essa operação de mudança de lugar, passagem de um objeto obsceno para o lugar do
objeto causa do desejo e da criação, é uma mudança de posição do real do objeto que implica
79
lidarmos de um modo melhor com o real e não o governarmos já que felizmente o real
continua sendo não governável.
A autora acrescenta que com o real, a psicanálise trabalha sabendo que não vai
dominá-lo, mas encarando a tarefa de mudar sua eficácia na estrutura. Quer dizer, o sujeito
pode mudar seu modo de gozo, não as prevalências de seus objetos, mas sim seus modos de
gozo com esses objetos.
O discurso psicanalítico é filho da ciência na medida em que a psicanálise se atém à lei
do “penso” da cadeia simbólica; mas ao mesmo tempo limita a foraclusividade da ciência na
medida em que a psicanálise preserva um real inassimilável pela máquina simbólica que não
põe no lugar de Deus, argumenta a autora.
“Como filho da ciência o discurso analítico consegue ir mais longe que o pai”
(AMIGO, 2001, p. 102).
Discurso Capitalista
$
S1
S2
a
Figura 6 - Discurso Capitalista
Fonte: Lacan, 1992
Esse novo discurso, na verdade, expressa uma inversão no discurso do mestre, pelo
qual o sujeito ($) e o significante-mestre (S1) trocam de lugar, coloca Cohen (2006). Tal
inversão se acompanha da inclusão de flechas que têm como objetivo indicar a dependência
do sujeito em relação ao objeto mais-de-gozar. Para a autora, o crescente fracasso escolar ou
da transmissão, da sucessão, na condição de sintoma contemporâneo, denuncia a existência de
uma educação que tem como base a suposta igualdade entre homens e mulheres, e entre
adultos e crianças regidos pela ética do consumo. Como conseqüência dessa suposta
igualdade, difunde-se na cultura uma promessa de gozo segundo a qual quase tudo é
permitido. A autora questiona: “que tipo de economia psíquica faz com que se pague qualquer
preço pelo prazer e se busque cada vez ‘um a mais’, ainda que, muitas vezes, ao preço da dor
ou da morte?” (p.60). O saber, portanto, é calculado segundo uma lógica matemática em que o
valor de uso, a punição dos bens, implica o pagamento por meio de um a mais, de um gozo.
Nessa ótica, a sucessão, a aprendizagem é a possibilidade de a criança tomar o que está no
campo do Outro para seu próprio uso.
80
De acordo com Mrech (2005), essa abordagem dos quatro discursos, voltados ao
entendimento do ato de sucessão, educar, via ato do mestre, leva a conceber dois princípios:
1) não importa a base discursiva com a qual o professor/pai opere, o que conta é que ele os
faça girar, pois qualquer tentativa de fixação discursiva pode induzir um imaginário especular
e dual a impingir no sujeito uma máscara de indiferença. A autora aponta como exceção, o
discurso do analista que, em sua estrutura mesma de puro efeito, de esvaziamento imaginário,
produz um sujeito do desejo no lugar do outro. Por isso, não tolera qualquer fixidez; 2) a
autora defende que o princípio de todo discurso do professor/pai seja o discurso do mestre,
por sempre inaugurar o significante primeiro, traço de lei. Entretanto, o docente deve utilizarse do discurso do mestre para não permanecer ali.
Para a autora, o ato de educar deve ser marcado pelo esvaziamento do mestre como
inflação imaginária, mas reconvocado como lei simbólica. O professor/pai deve recuperar sua
posição de mestre, para sustentar a palavra verdadeira via identificação e operar
aprendizagens como efeitos discursivos. A mestria deve se declinar de sua imagem para
ajudar o sujeito a reconhecer a palavra plena, simbólica.
2.3.6 As movimentações discursivas
Para Wainsztein (2001), as mudanças de lugar do sujeito e do objeto tem relação com
o real da estrutura. É impossível que a análise elimine esse real, mas é possível promover
mudanças que previnam o analisante quanto à sua existência e à facibilidade de se relacionar
com o real de outra maneira que não seja somente padecendo dele.
A cura: sucessão - promove mudanças de posição nos lugares que o objeto a ocupa
devido a essas transições nos modos de gozo do sujeito no que diz respeito ao objeto causa.
A partir de um dos discursos podem ser obtidos os demais mediante a função “um
quarto de volta” ou “mudança de posição”. As voltas são funções. A operação é a composição
dessas funções.
81
M
A
S1
S2
a
$
$
a
S2
S1
U
H
S2
a
$
S1
S1
$
a
S2
Figura 7 - Movimentações Discursivas
Fonte: Wainsztein (2001, p.26).
De acordo com a autora, as voltas que viabilizam a passagem de um discurso a outro
tem um sentido que descreveremos através da orientação das flechas. A simetria oposta não se
dá somente pela operação sucessiva da função mudança de posição, mas também na diagonal.
O que isso demonstra? Que ali onde no discurso do Mestre - o S1 - está no vértice superior
esquerdo, no discurso do analista está no inferior direito e assim sucessivamente com cada
uma das letras.
A álgebra nos permite transmitir conceitos baseados na escrita dos discursos. A
perspectiva semântica nos permite dar conta da significação de cada materna, cada lugar do
discurso e também de cada discurso, porque tem um nome. O do mestre ou do inconsciente, o
da histérica ou o do analisante, e do analista e o do universitário.
A autora advoga que os tempos de uma análise – sucessão – transcorrem através dos
quatro discursos. Na relação entre o analisante e o analista (fundador sucedido/sucessor), vaise circulando pelos quatro lugares na ordem possível orientando a lógica do laço social que
está em jogo ali. Para mostrar como se efetua a colocação em movimento dos discursos
podemos começar por qualquer um dos discursos. É o analisante quem dá as pistas do
discurso inicial e não existe uma situação padrão.
Amigo, pontua “que todos os discursos guardam em sua combinatória de letras fixas
um impossível” (2001, p.77).
O que é o impossível? O que significa assumir o impossível? A autora argumenta que
é estar profundamente prevenido de que não se pode, por exemplo, governar sem resto.
“Governa-se porque há que governar, mas há algo não governável no real” (2001, p.78).
82
O discurso do mestre ampara, resguarda e preserva como um tesouro, o impossível de
governar. Não se pode governar o real. O discurso histérico preserva como impossível o
“fazer desejar”. O discurso universitário, o impossível de educar. E, o discurso do analista, o
impossível de analisar.
Então, os quatro discursos operam, cada um a seu modo, a preservação precisa de
uma impossibilidade específica. Pelo que não se poderia pensar nenhuma prevalência de um
sobre o outro. Qualquer discurso, dado que o sujeito necessariamente gira pelos quatro, é
guardião de um impossível. “Que possa governar, que possa ensinar, que possa analisar e
também que possa desejar, nas ocasiões em que a vida reclame por alguma dessas tarefas”
(AMIGO,2001, p.79).
Um processo de análise, uma sucessão, muda a partir da posição do sujeito na
estrutura, o que é fundamental. E, também, muda a posição do objeto. O objeto a passa da
condição de objeto gozado, para a condição de ser causa vazia da divisão do sujeito.
2.4 DECLÍNIO DA FUNÇÃO PATERNA
2.4.1 Contemporaneidade: reflexões sobre o interculturaismo
De acordo com Andrea Semprini:
Os conflitos multiculturais não poderiam ser reduzidos a uma questão bipolar
maioria-minoria ou a uma dialética integração/separação. São principalmente o
gerenciamento da diferença e as modalidades de partilha de um espaço policêntrico
que o multiculturalismo coloca como desafios à contemporaneidade (1999, p.36).
Para o autor, uma transformação social nunca é estritamente mecânica e quantitativa.
Ela implica uma profunda transformação dos equilíbrios e posições, das identidades e das
representações. O multiculturalismo é, sem dúvida, resultante de um processo de mistura e de
encontro de diferenças. Pode ser analisado como um sintoma, indicador de uma mudança
social de grande importância, geradora de conflitos, incertezas e ansiedade.
A perda de referências por parte de numerosos grupos sociais é, sem dúvida, de acordo
com o autor, uma das principais causas das reinvidicações identitárias e multiculturais. Podese, igualmente afirmar, que ele lança a problemática do lugar e dos direitos das minorias em
relação à maioria. E, finalmente, ele discute o problema da identidade e seu reconhecimento.
Stuart Hall (2005) pontua que a questão da identidade está sendo ostensivamente
discutida na teoria social. A assim chamada ‘crise de identidade’, pelo autor é vista como
83
parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas das
sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma
ancoragem estável no mundo.
Para o autor, as identidades modernas estão sendo descentralizadas, isto é, deslocadas
ou fragmentadas. As tendências são recentes e ambíguas. O próprio conceito de identidade é
complexo, pouco desenvolvido e pouco compreendido na ciência social contemporânea para
ser posto à prova.
O autor afirma que um tipo diferente de mudança está transformando as sociedades
modernas do final do séc. XX, fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero,
sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas
localizações como indivíduos sociais.
Esse duplo deslocamento, ou descentramento dos indivíduos tanto de seu lugar no
mundo social e cultural quanto de si mesmos, constitui uma crise de identidade, e, está
relacionado ao caráter de mudança na modernidade tardia, ou seja, a globalização e seu
impacto sobre a identidade cultural. As sociedades da modernidade tardia são caracterizadas
pela diferença. Elas são atravessadas por diferentes divisões e antagonismos sociais que
produzem uma variedade de diferentes posições de sujeito, isto é, identidades para os
indivíduos.
O autor considera, também, como importante referência de descentramento, a
descoberta do inconsciente por Freud e, posteriormente, a colocação de Lacan, de que o
inconsciente é estruturado como linguagem.
Na abordagem de Hall (2005), a teoria de Freud de que nossas identidades, nossa
sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e
simbólicos do inconsciente, que funciona com uma lógica diferente daquela da razão,
descentra o conceito de sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e
unificada.
Entretanto, segue o autor, embora o sujeito esteja sempre partido ou dividido, ele
vivencia sua própria identidade como se ela estivesse unificada, como resultado da fantasia de
si mesmo como uma pessoa inteira, que ele formou na fase de espelho.
Para o autor, a globalização se refere àqueles processos, atuantes numa escala global,
que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em
novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais
84
interconectando. Essas novas características temporais e espaciais, que resultam em uma
compreensão diferente de distâncias e de escalas temporais, estão sempre entre os aspectos
mais importantes da globalização a ter efeitos sobre as identidades culturais. Todas as
identidades estão localizadas no espaço e no tempo simbólico.
Os fluxos culturais entre as nações e o consumismo global criam possibilidades do que
o autor denomina de identidades partilhadas – consumidores para os mesmos bens, clientes
para os mesmos serviços, públicos para as mesmas mensagens e imagens – entre pessoas que
estão distantes umas das outras no espaço e no tempo.
Nesse sentido, argumenta o autor, à medida que as culturas nacionais tornam-se mais
expostas às influências externas, é difícil conservar as identidades culturais intactas ou
impedir que elas se tornem enfraquecidas através da infiltração cultural. Quanto mais a vida
social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens
internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente
interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas de tempos, lugares,
histórias e tradições específicas e parecem flutuar livremente.
As identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas
e transformadas no interior da representação, ou seja, a nação não é apenas uma entidade
política, mas algo que produz sentidos: um sistema de representação cultural.
As pessoas não são apenas cidadãos legais de uma nação, elas participam da idéia da
nação tal como representada em sua cultura nacional. Uma nação é uma comunidade
simbólica e é isso que explica seu poder para gerar um sentimento de identidade e lealdade.
As culturas nacionais não são uma forma distintivamente moderna, acrescenta o autor.
A lealdade e a identificação que, numa era pré-moderna ou em sociedades tradicionais, eram
dadas à tribo, ao povo, à religião e à região, foram transferidas, gradualmente, nas sociedades
ocidentais, à cultura nacional.
As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre a nação – sentidos com os quais
podemos nos identificar - constroem identidades. A identidade nacional é também, muitas
vezes, simbolicamente baseada na idéia de um povo.
Para Hall, as identidades nacionais representam vínculos a lugares, eventos, símbolos,
histórias particulares.
85
Em toda parte, estão emergindo identidades culturais que não são fixas, mas
que estão suspensas, em transição, entre diferentes posições; que retiram seus
recursos, ao mesmo tempo de diferentes tradições culturais; e que são o produto
desses complicados cruzamentos e misturas culturais que são cada vez mais
comuns num mundo globalizado (2005, p.88).
Para o autor, as nações modernas são, todas, híbridos culturais. As culturas híbridas
constituem um dos diversos tipos de identidade distintivamente novos, produzidos na era da
modernidade tardia.
Os deslocamentos da globalização mostram-se, afinal, mais variados e mais
contraditórios do que sugerem seus protagonistas ou seus oponentes, pontua o autor.
“Entretanto, isto também sugere que, embora alimentada, sob muitos aspectos, pelo ocidente,
a globalização pode acabar sendo parte daquele lento e desigual, mas continuado,
descentramento do ocidente” (HALL, 2005, p.97).
Do mesmo modo, conforme Nemo (2005), a natureza da mundialização exacerba
muito mais os problemas decorrentes da heterogeneidade das culturas do que ajuda a resolvêlos, se não for acompanhada de debates aprofundados acerca da filosofia, da teologia, da arte
e de todos os domínios do espírito em que se enraízam as convicções íntimas dos homens.
Charles Taylor (1998) advoga que a exigência de reconhecimento adquire uma
premência devido à suposta relação entre reconhecimento e identidade, significando este
último termo qualquer coisa como a maneira através da qual uma pessoa se define, como é
que suas características fundamentais fazem dela um ser humano.
Antigamente, pontua o autor, o reconhecimento nunca havia constituído um problema,
pois estava associado à identidade de origem social, precisamente pelo fato de se basear em
categorias sociais que ninguém punha em causa. Embora, acrescente o autor, resulte de um
processo interior, a identidade original, pessoal, não é alvo deste reconhecimento à priori.
Terá de se conseguir através de troca, o que é uma tentativa possível de falhar.
Para Bauman (2005), a identidade de uma pessoa era determinada fundamentalmente
pelo papel produtivo desempenhado na divisão social do trabalho. “Podia-se seguir a trajetória
passo a passo, adquirindo as sucessivas insígnias de classe em sua ordem adequada, ‘natural’,
sem a preocupação de que os sinalizadores fossem deslocados ou visados na direção oposta
antes de se completar a jornada” (2005, p.56).
As identidades cujo reconhecimento é discutido por Taylor (1998) são o que
chamamos de identidades sociais coletivas: religião, sexo, etnicidade, raça, sexualidade. Esta
86
lista é heterogênea. Dito de outra forma, tais identidades coletivas são importantes a partir de
várias maneiras. Por exemplo: a religião, ao contrário de todas as outras, requer amor pela
crença ou compromisso com as práticas.
O que a idade moderna tem de novo não é propriamente a necessidade de
reconhecimento, mas sim as condições que podem levar uma tentativa de reconhecimento
falhar. No período pré-moderno, não se falava em identidade, nem em reconhecimento, não
porque as pessoas fossem destituídas de identidades, ou porque estas não dependeriam do
reconhecimento, mas, sim, porque não eram suficientemente problemáticas para serem
discutidas como tal.
Semprini (1999) propõe um delineamento de limites, uma distinção entre duas
interpretações do multiculturalismo: uma política e outra culturalista. No primeiro caso, a
análise limita-se basicamente às reinvidicações das minorias nacionais com o objetivo de
conquistar direitos sociais e/ou políticos específicos dentro de um Estado nacional. O autor
cita como exemplo os índios, nos Estados Unidos, ou os Catalães, na Espanha, que surgiram
por um processo de conquista ou incorporação. Para essas minorias, o autor demonstra que há
uma ampla autonomia político - administrativa, podendo chegar até a autodeterminação.
Uma
segunda
interpretação
do
multiculturalismo
privilegia
sua
dimensão
especificamente cultural. Ela concentra sua atenção sobre as reinvidicações de grupos que não
têm necessariamente uma base objetivamente étnica, política ou nacional. Retomando o
exemplo acima, os grupos étnicos, diferentemente das minorias nacionais, são resultados de
um processo de imigração e constituem comunidades mais ou menos homogêneas, com base
em critérios geográficos, étnicos ou religiosos. Para esses grupos, apenas um reconhecimento
cultural e identitário, mas nenhum direito especial deveria ser previsto.
Os grupos étnicos, conforme o autor são movimentos sociais, estruturados em torno de
um sistema de valores comuns, de um estilo de vida homogêneo, de um sentimento de
identidade ou pertença coletivos, ou mesmo de uma experiência de marginalização. Com
freqüência, é esse sentimento de exclusão que leva os indivíduos a se reconhecerem como
possuidores de valores comuns e a se perceberem como um grupo à parte.
“Minoria étnica é uma rubrica sob a qual se escondem ou são escondidas entidades
sociais de tipos diferentes, e o que as faz diferentes raramente é explicitado” (BAUMAN,
2003, p.83).
87
De acordo Zygmunt Bauman (2003), as diferenças não derivam dos atributos da
minoria em questão ou de alguma estratégia desses membros. As diferenças derivam do
contexto social em que se constituíram como tais.
Pode-se argumentar, de acordo com o autor, que a mais crucial das diferenças que
separam os fenômenos reunidos sob o nome genérico de minorias étnicas se correlaciona com
a passagem do estágio moderno de construção da nação para o estágio pós-Estado-nação.
A construção da nação significava a busca do princípio: um Estado, uma Nação e,
portanto, em última análise, a negação da diversificação étnica. Dessa perspectiva de NaçãoEstado culturalmente unificada e homogênea, as diferenças de língua ou costume eram
relíquias do passado. Dito de outra forma, dentro das fronteiras do Estado só havia lugar para
uma língua, uma cultura, uma memória histórica e um sentimento patriótico.
O abandono daquela regulação normativa argumenta o autor, outrora marca do Estado
moderno, torna redudante a mobilização cultural/ideológica da população, outrora estratégia
principal do Estado moderno, e a evocação da nacionalidade e do dever patriótico, outrora sua
principal legitimação: não servem mais a nenhum propósito perceptível. O Estado não mais
preside os processos de integração social ou manejo sistêmico que se faziam indispensáveis à
regulação normativa, a administração da cultura e a mobilização patriótica, deixando tais
tarefas (por ação ou omissão) para forças sobre as quais não tem jurisdição.
Essa transformação, contudo, tira o Estado de seu antigo status de lugar
supremo, talvez único, do poder soberano. As nações, antes firmemente abrigadas
na armadura da soberania multidimensional do Estado-nação, se acham num vazio
institucional (BAUMAN, 2003, p.90).
No discurso do autor, o vazio normativo, aberto pela retirada da meticulosa regulação
estatal sem dúvida traz mais liberdade. Mas, o empecilho, agradável ou não, é que, o produto
experimental nunca é seguro, sua expectativa de vida é curta. Em outras palavras, o
multiculturalismo é orientado pela tolerância liberal, pela preocupação com o direito das
comunidades à auto-afirmação e com o reconhecimento público de suas identidades. Ele
funciona, porém, como força essencialmente conservadora: seu efeito é uma transformação
das desigualdades incapazes de obter aceitação pública em diferenças culturais.
A retirada da regulação estatal se dá com o liberalismo. De acordo com Ramón
Soriano (2004), podemos situar as origens do liberalismo no final do século XVII, na
Inglaterra. O liberalismo consiste nos seguintes princípios: a autonomia da pessoa,
88
representada por suas liberdades individuais e, os limites de ação do Estado, ou de
absenteísmo do Estado, mero vigilante das relações livres dos cidadãos.
A autonomia da pessoa, como princípio básico, se apóia em critérios teóricos e
pragmáticos. O critério teórico consiste em que as questões morais correspondem à autoria
pessoal, ou seja, nada melhor que a pessoa para criar seu próprio projeto de vida. O critério
pragmático se justifica porque há uma variedade de concepções e posições acerca da moral e
do bem, de cujo conjunto não se pode deduzir um acordo moral geral.
O Estado admite os coletivos, as minorias diferenciadas, porém não se ocupa delas
como tais, da defesa dos direitos peculiares que a elas correspondem. “A cultura não é uma
questão de Estado, como não é a religião” (SORIANO, 2004, p.19).
Na trajetória do liberalismo cabe distinguir três etapas: 1) liberalismo antigo – séc.
XVII e XVIII – no qual se trata de defender a pessoa com relação à Lei do Estado, no que diz
respeito às primeiras e básicas liberdades de pensamento e crença. Neste momento, não havia
um problema de identidades pessoais; 2) liberalismo mediano – séc. XIX e XX – marca a
fronteira pessoal em relação ao coletivismo, optando pelas liberdades do indivíduo frente aos
direitos sociais. Tem-se o temor de que os objetivos sociais coloquem em perigo as liberdades
das pessoas, consideradas direitos prioritários; 3) liberalismo contemporâneo ou pósmoderno, rico e variado, que oferece opções que não vem, necessariamente gerar conflito
entre indivíduo e sociedade, mas sim como um complemento do que pertence a um e a outro –
aos indivíduos e aos coletivos sociais. Agora, a identidade cultural é um problema chave e, a
respeito disso, existem diversas posições, desde um liberalismo refratário a um liberalismo
concessivo. Ambos coincidem, apesar de suas diferenças, no fato de que os direitos coletivos
não podem ser usados em detrimento das liberdades individuais, pois estas possuem um
caráter absolutamente prioritário. “Uma liberdade só pode ser limitada por outra liberdade”
(SORIANO, 2004, p.21).
Também não é tarefa fácil, comenta o autor, pôr ordem ao conjunto de posições
comunitaristas, pois nem todos os comunitaristas professam as mesmas idéias. Algumas
características principais podem contrapor o comunitarismo e o liberalismo: 1) prioridade da
comunidade frente à prioridade do indivíduo; 2) bens particulares da comunidade frente à
justiça universal; 3) fins culturais frente à fins individuais; 4) Estado protetor frente à Estado
absenteísta.
89
O comunitarismo coloca o autor, se contrapõe ao liberalismo defendendo o valor de
cada cultura em seu próprio âmbito, com independência de sua natureza, história e relações
com outras culturas. Uma cultura, para os comunitaristas, é um coletivo de significados não
transladáveis a outras culturas. “Um conjunto de valores singulariza uma cultura na mesma
medida em que são refratários para culturas alheias” (SORIANO, 2004, p.59).
Os comunitaristas consideram que uma cultura é uma forma de vida com uma
concepção de bem identificado a um tecido de valores culturais que pesa sobre os indivíduos e
do qual não podem desembaraçar-se. O conceito prioritário de bem e de fins, pontua o autor,
limita a autonomia pessoal e o consenso, que singulariza o liberalismo. A autonomia pessoal
tem que ser respeitosa com a identidade e os valores da comunidade. “O consenso é
substituído pela legitimidade que proporciona a tradição na cultura” (SORIANO, 2004, p.60).
Finalmente, o Estado se converte, acrescenta o autor, em um protetor dos valores e
fins, ou seja, dos sinais de identidade da cultura, de onde não há uma separação entre esfera
pública e privada.
Soriano (2004) coloca que o interculturalismo seria um novo horizonte que vai além
do liberalismo e do comunitarismo. “As culturas são muito diferentes entre si para pretender
algo distinto a um ponto zero em suas relações” (SORIANO, 2004, p.139).
A igualdade dos sujeitos argumenta o autor, se conseguiria com a simetria dos
mesmos na capacidade de propor, de argumentar, de replicar e de decidir sobre cada uma das
questões que se aportem ao discurso no âmbito de sua própria cultura.
Porém, segue o autor, existe um problema mais geral e prévio aos dos aspectos
internos e externos da linguagem intercultural: o fato de que há uma hierarquia e um
desequilíbrio entre as linguagens culturais, pois a prevalência da cultura dominante se
manifesta também na linguagem.
O autor sugere que a cultura superior emprega, em nossos dias um meio refinado de
ocultação da diversidade cultural: a simplificação cultural, que atua em várias dimensões,
espacial e temporal. A simplificação espacial se produz por sua vez, em duas fases. A
primeira é a simplificação social, reduzindo a multiculturalidade presente a uns modelos
selecionados, com critérios de afinidade com a cultura superior para que não comportem
riscos de colisão.
90
A segunda é a simplificação legal ou definição de tipos concretos protegidos pelo
direito dentro dos prévios modelos culturais selecionados: só alguns deles entrarão no raio de
ação das normas do direito.
A simplificação temporal tem por objeto limitar no tempo o desenvolvimento de
algumas culturas que, por sua natureza, são dinâmicas. Capta-se delas os aspectos que mais
interessam e oferecem menos problemas de adaptação aos valores da cultura superior ou que
são indiferentes à mesma. Disso resulta a folclorização cultural a aspectos externos tão
chamativos quanto pacíficos.
Ao reducionismo simplificador da cultura superior, acrescenta o autor, correspondem
a desconfiança e a separação das culturas pretendidamente inferiores. O princípio da
igualdade entre as culturas é o princípio do interculturalismo, difícil de admitir. Muitos
podem estar dispostos a admitir a igualdade das culturas, porém não o igual valor das
mesmas.
De acordo com Bauman, ao menos em sua essência pura e explicitamente admitida, o
liberalismo e o comunitarismo são duas tentativas opostas de transformar a face da identidade
num “sabre de uma só ponta” (2005, p.84). Eles assinalam a droga o autor, os pólos
imaginários de um continuum ao longo do qual se disputam todas as verdadeiras batalhas pela
identidade e se traçam todas as práticas identitárias. As duas coisas caminham em par – a
debilidade do conjunto de crenças, símbolos e normas que une todos os membros da
sociedade politicamente organizada, e a riqueza densidade e diversidade dos símbolos
identitários alternativos (étnicos, históricos, religiosos, sexuais, linguísticos, etc).
A identidade, dessa forma, é uma luta simultânea contra a dissolução e a fragmentação
e, sua construção assumiu a forma de uma experimentação infindável (BAUMAN, 2005).
Para Hannah Arendt: “O perigo consiste em que uma civilização global e interrelacionada universalmente possa produzir bárbaros em seu próprio meio, obrigando a
milhões de pessoas a chegar a condições que, apesar de todas as aparências, são as condições
dos selvagens” (1987, p.438).
Para Bauman (2005), quando o mundo conhecido se despedaça, um dos efeitos mais
perturbadores e inquietantes é a pilha de escombros ocultando as fronteiras, enquanto o lixo e
a sucata escondem os postes de sinalização. A violência é necessária para torná-los
“espetacularmente, inequivocamente, gritantemente diferentes” (2005, p.65).
91
Para Norberto Bobbio (2004), a história humana é ambígua, dando respostas diversas
segundo quem a interroga e, segundo o ponto de vista adotado por quem a interroga. Com
uma metáfora usual, pode-se dizer que o direito e o dever são como o verso e o reverso de
uma mesma moeda. Mas qual é o verso e qual é o reverso? – questiona o autor. Depende da
posição com a qual olhamos a moeda. A moral foi tradicionalmente olhada mais pelo lado dos
deveres do que pelo lado dos direitos.
Não é difícil compreender as razões. O problema da moral foi originalmente
considerado mais do ângulo da sociedade do que do indivíduo. A existência de um direito
implica sempre a existência de um sistema normativo, onde por existência deve entender-se
tanto o mero fato exterior de um direito histórico ou vigente quanto o reconhecimento de um
conjunto de normas como guia da própria ação. A importância do tema, de acordo com o
autor, depende do fato de ele estar vinculado aos problemas fundamentais do nosso tempo.
Hoje as ameaças à vida, à liberdade e à segurança podem vir do poder sempre maior
que as conquistas da ciência e de suas aplicações dão a quem está em condições de usá-las. O
que distingue o momento atual em relação às épocas precedentes e reforça a demanda por
novos direitos é a forma de poder que prevalece sobre todos os outros. A luta pelos direitos
teve como primeiro adversário o poder religioso; depois, o poder político, e, por fim, o poder
econômico.
“Pode-se dizer que o fundamento dos direitos humanos teve sua solução atual na
Declaração Universal dos Direitos do Homem aprovada pela Assembléia Geral das Nações
Unidas, em 10 de dezembro de 1948” (BOBBIO, 2004, p.26).
Porém, declara Bobbio (2004), não se trata de encontrar o fundamento absoluto, mas
de buscar, em cada caso concreto, os vários fundamentos possíveis. Significa dizer, que o
problema fundamental em relação aos direitos do homem, hoje, não é tanto o de justificá-los,
mas o de protegê-los. Os direitos do homem constituem uma classe variável, como a história
desses últimos séculos demonstra. O elenco dos direitos do homem se modificou, e continua a
se modificar, com a mudança das condições históricas, ou seja, dos carecimentos e dos
interesses das classes, no poder dos meios disponíveis para a realização dos mesmos, das
transformações técnicas, etc. O que parece fundamental numa época histórica e numa
determinada civilização não é fundamental em outras culturas. “A Declaração Universal dos
Direitos do Homem pode ser acolhida como a maior prova histórica até hoje dada do
consenso sobre um determinado sistema de valores” (BOBBIO, 2004, p.27).
92
Arendt (1987) indica que a proclamação dos direitos humanos implica em dois
movimentos: por um lado, independente dos privilégios que a História concedeu a certos
extratos da sociedade ou a algumas nações, a Declaração assinalou a emancipação do homem
de toda tutela; por outro lado, significou, também, uma proteção necessária na nova era, na
qual os indivíduos não estavam afiançados nos territórios em que haviam nascido ou seguros
de sua igualdade perante Deus, como cristãos. Em outras palavras, na nova sociedade
secularizada e emancipada, os homens já não estavam seguros de seus direitos humanos e
sociais.
“A idéia dos direitos humanos nos convida a representar esse ser contraditório e
ambíguo que é o homem, não mais apenas do ponto de vista de sua miséria, mas também, da
sua grandeza em potencial” (BOBBIO, 2004, p.203).
2.4.2 Efeitos do processo de dessimbolização na contemporaneidade
Lacan (1992) indicava que o que se opera entre o discurso do senhor antigo e o do
senhor moderno que se chama capitalista, é uma modificação no lugar do saber.
(...) O sinal da verdade está agora em outro lugar. Ele deve ser produzido pelos que
substituem o antigo escravo, isto é, pelos que são eles próprios produtos, como se
diz, consumíveis tanto quanto os outros. Sociedade de consumo, dizem por aí.
Material humano, como se enunciou um tempo – sob os aplausos de alguns que ali
viram ternura (1992, p. 29-30).
Para Dufour, esse traço parece caracterizar a virada pós-moderna: o momento em que
“uma parte da inteligência do capitalismo se pôs à serviço da ‘redução das cabeças’” (2005,
p. 10). Essa mutação pode-se perceber em fatos como: domínio do mercado, dificuldades de
subjetivação e de socialização, toxicomania, delinqüência, violência, novas formas
sacrificiais, etc.
O autor vai considerar que a emergência desse novo período corresponde a uma
fratura na modernidade, observada por vários filósofos. Essa ruptura se caracteriza pelo
esgotamento e pelo desaparecimento das grandes narrativas de legitimação, notadamente a
narrativa religiosa e a narrativa política.
A esse primeiro traço do fim das grandes ideologias dominantes e das grandes
narrativas soteriológicas, o autor vai pontuar que acrescentaram-se paralelamente, a
desaparição das vanguardas, os progressos da democracia, o desenvolvimento do
individualismo, a diminuição do papel do Estado, a supremacia progressiva da mercadoria, a
93
massificação
dos
modos
de
vida,
a
demanda
insaciável
de
plena
saúde,
a
desinstitucionalização da família, as interrogações sobre a identidade sexual, a identidade
humana, a evitação do conflito, a publicização do espaço privado, a privatização do domínio
público. “Essa mutação corresponde ao que poderíamos chamar de uma afirmação do
processo de individuação há muito tempo iniciado em nossas sociedades” (2005, p. 26).
Dufour (2005), em sua leitura de Freud, vai dizer que cada cultura trabalha à sua
maneira na formação dos sujeitos, marcando-os de forma específica, permitindo assim
enfrentar a questão jamais definitivamente organizada da origem. Em outras palavras, a
função simbólica, só é assegurada em uma estrutura de ficção, construindo um Outro,
pintando, cantando um Outro, lhe emprestando voz, figura, cenário, representando-O
inclusive, sob a forma de um irrepresentável.
Mas, por trás de todas essas máscaras sociais, coloca o autor, o único interesse do
Outro é que, assim transfigurado, ele suporte por nós o que não podemos suportar. É por isso
que ele ocupa tanto espaço e exige tantos sujeitos. Ele ocupa lugar de terceiro, que nos funda.
No centro do discurso do sujeito se encontra, portanto, instalada uma figura, isto é, um ou uns
seres discursivos nos quais, o sujeito crê como se fosse reais – deuses, diabos, demônios,
seres que, diante do caos, asseguram para o sujeito uma permanência, uma origem, um fim,
uma ordem.
O Outro é a instância pela qual se estabelece para o sujeito uma
anterioridade fundadora a partir da qual uma ordem temporal se torna possível, é
também um ‘lá’, uma exterioridade graças à qual pode se fundar um ‘aqui’, uma
interioridade. Para que eu esteja aqui, é preciso, em suma, que o Outro esteja lá.
Sem esse desvio pelo Outro, eu não me encontro, não tenho acesso à função
simbólica, não chego a construir uma espacialidade e uma temporalidade possíveis
(DUFOUR, 2005, p. 38).
As sociedades tradicionais caracterizam-se pela hegemonia exclusiva de um grande
Sujeito, simples ou múltiplo. A definição de sociedades modernas, para Dufour, consiste no
fato de que: a modernidade é um espaço coletivo no qual o sujeito é definido por várias dessas
ocorrências do Outro, ou seja, a coexistência, não necessariamente pacífica, de vários grandes
Sujeitos. Poderia-se dizer que a modernidade remonta ao momento em que começaram as
trocas de toda natureza – culturais, comerciais, guerreiras, colonizadoras, entre as diferentes
populações do mundo. Tornamo-nos modernos quando o mundo pára de ser fechado, voltado
para si mesmo ou enclausurado em si mesmo por e para um grande Sujeito, e quando ele se
transforma quanto ao futuro, em um mundo aberto, múltiplo, até mesmo, infinito.
94
Essa diversificação das figuras do grande Sujeito é concomitante ao declínio e, depois,
à falência do controle da Igreja sobre as descobertas científicas. O coroamento desse processo,
para Dufour, será o nascimento do sujeito crítico kantiano. Trata-se de um sujeito que nunca
está em paz, que se apresenta como descentrado em relação a ele mesmo, de modo que esse
descentramento produza o trabalho da razão.
A modernidade é um espaço de permanente mudança do referencial
universal, tornando as operações simbólicas complexas. Há, pois, muitas figuras do
Outro. Com a modernidade, o espaço e o tempo do pensamento saíram de suas
determinações locais: não estamos mais no tempo imemorial do mito, no tempo
referencial da manifestação de Deus aos homens, no tempo histórico da sucessão
dos reinados, ou em algum outro tempo possível (DUFOUR, 2005, p. 50).
Lebrun (2004) comenta que as descobertas do século XVI vieram abalar essa
organização, que tinha o mérito de autenticar um referencial único. O desenvolvimento da
ciência moderna abala o lugar da autoridade religiosa e produz um novo laço social, cujo
motor não é mais a enunciação do mestre, seu dizer, mas um saber de enunciados, um
conjunto de ditos. “Podemos, então, dizer que, no nosso mundo, é o saber que funciona como
bússola e que o que é assim promovido é uma modalidade de laço social que substitui a
relação mestre-sujeito, uma relação saber (acéfalo) – sujeito” (LEBRUN, 2004, p. 53).
Para Lebrun (2004), os gregos foram os primeiros a querer dar conta racionalmente
dos fatos e, assim, liberar-se de qualquer referência ao irracional, mas foi preciso esperar mais
de vinte séculos para que seu projeto pudesse começar, verdadeiramente a se realizar. Foi
necessário esperar a Idade Clássica para que se iniciasse a era da ciência moderna, constituída
pelas próprias idéias, “o que nos dá a medida do abalo de referências suscitado pela colocação
da ciência em posição de domínio” (2004, p. 62).
O autor sublinha que é possível hoje identificar um terceiro momento da ciência,
aquele em que o nosso mundo está contaminado pelos efeitos do seu progresso: nosso
cotidiano está inteiramente povoado por objetos produzidos por essa ciência.
Essa seria a ciência pós-moderna. De outra forma, o autor aponta para o fato de que, se
o segundo momento da ciência se constituiu ao ser possível apagar a dimensão da enunciação
em proveito da produção de enunciados, no passo seguinte, foi o vestígio desse apagamento
que desapareceu, deixando aberta a via para a proliferação de enunciados que não mais
testemunham, em seu seio, que a dimensão da enunciação esteve presente.
95
Dufour (2005) argumenta que na pós-modernidade não há mais Outro no sentido do
Outro simbólico: um conjunto incompleto no qual o sujeito possa verdadeiramente enganchar
uma demanda, formular uma pergunta ou apresentar uma objeção. Hoje só restam das grandes
narrativas algumas formas subsistentes. Essas persistências delimitam áreas locais de extensão
e de pertença narrativa relativas. Mas essas narrativas, mesmo que ainda mantidas em nome
de um grande Sujeito, não são mais fundadoras de referência.
É possível fazer referência e analisar algumas dessas narrativas, citadas pelo autor: a
narrativa religiosa, a narrativa dos Estados–nações, a narrativa da emancipação do povo
trabalhador. A força da narrativa religiosa está em postular a existência de um Deus, que se
supõe que assume para cada um a questão da origem. A narrativa religiosa pretende, pois,
resolver o imenso problema do sujeito, o de poder se fundar, tornando-o sujeito de um Outro,
sujeito de Deus. Nessa medida, ele sempre pode ser chamado em auxílio do sujeito, no caso
em que o apoio exclusivo no indivíduo, como frequentemente é o caso nas sociedades
democráticas, vier a se revelar frágil demais. Deus fica como último recurso.
A narrativa do Estado-nação está hoje imobilizada nos seus dois grandes referentes
distintos. O primeiro é o da terra, o segundo é o do sangue. É evidente, comenta o autor, que
os Estados-nações tiveram necessidade de uma instância política encarregada de encarar
diante de todos a referência à terra ou ao sangue. Ou seja, todo indivíduo deve sua existência
ao Estado-nação assim como deve sua vida a seus pais, de modo que a narrativa funcionou
coagindo cada um dos sujeitos a acertar indefinidamente uma dívida inesgotável. Mas, hoje, o
que separava os Estados-nações, os une. Assim, todos, apesar de suas oposições constitutivas,
chegaram mais ou menos rapidamente à mesma forma política: a democracia.
A narrativa da emancipação do povo trabalhador – libertadora – devia abolir todas as
outras narrativas – alienantes -, assim como as fronteiras engendradas pelos Estados-nações –
proletários de todos os países -, sendo feita uma promessa de se reencontrar um mundo
homogêneo, sem classes. Em certos países, assegura o autor, restam pequenos núcleos, por
vezes folclorizados, que continuam a sustentar essa narrativa. Entretanto, aquilo em que esses
grupos esbarram não é a morte política do proletariado, mas sua possível morte teórica. Na
economia pós-moderna, o trabalho não é mais aquilo em que repousa essencialmente a
produção do valor. A aposta está cada vez mais em atividades de alto valor agregado –
pesquisa, engenharia, genética, internet, informação, comunicação – nas quais a parte do
trabalho assalariado é, por vezes, pouco considerável. Não é fácil, nessas condições, manter a
narrativa do proletariado, na medida em que a análise em que ela repousava não se verifica
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mais. A morte do proletariado, entretanto, conserva uma verdadeira questão: resta nada menos
do que se encarregar do que é coletivo, da partilha e do bem comum nesse mundo
despedaçado da pós-modernidade.
Dufour considera que a pós-modernidade não tem mais figuras apresentáveis do
grande Sujeito a propor. Se, os períodos precedentes definiam espaços marcados pela
distância do sujeito falante em relação ao que o fundava então, a pós-modernidade é um
espaço definido pela abolição da distância entre o sujeito e o grande Sujeito. A pósmodernidade, democrática, com efeito, corresponde à época em que nos pusemos a definir o
sujeito não mais por sua dependência e sua submissão ao grande Sujeito, mas por sua
autonomia jurídica, por sua total liberdade econômica, e em que nos pusemos a dar do sujeito
falante uma definição auto-referencial: o novo sujeito não é mais o sujeito de Deus, do Rei ou
sujeito à República, mas sujeito dele mesmo. “O referente da democracia não é mais a ‘terra’
ou o ‘sangue’, mas o indivíduo livre (...). O sujeito de algum modo se transformou em sua
própria origem” (DUFOUR, 2005, p. 72).
Todavia, questiona Dufour, é possível se perguntar se o ‘Mercado’ não está, na pósmodernidade, no ponto de se constituir como novo grande Sujeito. Sua implacável ascensão
se aproveita de uma conjuntura ideal em razão de vários fatores: 1) a relativização da
soberania absoluta promovida pelas narrativas do Estado-nação. A mercadoria, como os
capitais, deve poder circular sem entraves nas fronteiras e se possível sem fronteiras; 2) a
escalada simultânea do discurso democrático e do utilitarismo. Deve existir um produto que
permita satisfazer cada um dos desejos de cada sujeito democrático. A narrativa da
mercadoria apresenta os objetos como garantia de nossa felicidade e, ademais, de uma
felicidade realizada aqui e agora; 3) a escalada da narrativa das tribos neo-pagãs. A
diversificação do conjunto dos homens em uma infinidade de tribos cujas necessidades
previsíveis podem ser identificadas e até mesmo antecipadas, oferece uma abertura certa para
o ciclo da mercadoria; 4) o desabamento da narrativa da emancipação do povo trabalhador. A
narrativa da mercadoria, ao não encontrar em sua rota a narrativa antitética da emancipação
do povo trabalhador, só pode se desenvolver sem entrave; 5) o declínio da narrativa religiosa.
Com efeito, sendo o ‘Mercado’ uma rede de trocas de mercadorias e valores, conectarse ao Mercado equivale a nada mais que se conectar apenas na horizontalidade da rede. Tudo,
na rede, se encontra no mesmo plano, existem penas inter-relações dos atores. O autor pontua
que, havendo conflito entre dois atores, não se apela a uma lei – universal – mas a um
procedimento – local – que permite recolocar o circuito em marcha. É assim que o Mercado,
97
enquanto rede, embora ampliado aos limites do mundo globalizado não dá lugar à falta, nem a
um além do sentido. Essa proposição do Mercado tem o mérito da clareza: a rede nos priva
das questões da origem e do fim.
O autor responde, dessa forma, ao questionamento levantado, colocando que é assim
que pode se observar o fracasso do ‘Mercado’ em se constituir como novo grande Sujeito nas
novas formas tomadas pelos distúrbios mentais em nossas sociedades. Como o Mercado
ignora o Terceiro e pode propor apenas relações duais, isto é, interações, ele não permite ao
sujeito se fixar no que o ultrapassa. Um sujeito privado das questões impossíveis da origem e
do fim é um sujeito amputado da abertura para o ser, ou seja, um sujeito impedido de ser
plenamente sujeito. “A rede constitui, pois, uma espécie de grau zero da sociedade, já que ela
forclui a relação com o ser” (DUFOUR, 2005, p. 87).
O autor acrescenta que o sujeito precisa fundar-se numa amputação, a qual se torna
uma espécie de referência no real, suprindo a falta de referência no simbólico. As patologias
modernas frequentemente giravam em torno de uma paixão de ser um outro, de se produzir
como sujeito do Outro; as patologias pós-modernas, por sua vez, giram em torno da questão
de ter que se fundar sozinho. De acordo com o autor, Lacan ao falar do discurso capitalista,
sublinhava o fato de que o que caracteriza esse discurso é a rejeição de todo o simbólico. Em
outras palavras, a rejeição da castração, do desejo de onipotência. E, essa rejeição ou
dessimbolização tem ligação com o capitalismo, conduzindo à perversão e à psicotização. O
imperativo de gozo do objeto, verificado na perversão é compatível com o estatuto de objeto
descartável e renovável da mercadoria e, representa a última defesa contra a psicose.
Na pós-modernidade, acrescenta o autor, não estamos mais nos ocupando com o
sujeito neurótico, caracterizado por uma culpabilidade compulsiva, ligada à suposição de um
Outro cuja expectativa ele não pararia de decepcionar. O que define o sujeito no período pósmoderno é algo como o sentimento de onipotência quando ele é bem-sucedido e de
impotência quando não o é. A culpabilidade precedia de uma frustração e, implicava a
elaboração de um projeto pessoal, o qual podia passar por muitos caminhos e se desdobrar em
um dos campos em que uma compensação simbólica parecesse possível. A vergonha exprime
a intolerância narcísica à frustração. Pode-se verificar que a pós-modernidade produz sujeitos
sem consistência superegóica verdadeira, insensível à injunção simbólica, mas extremamente
vulneráveis a todas as formas de trauma. Não recalcando mais, eles se tornam imunes à
culpabilidade, mas sujeitos à vergonha. O universo simbólico do sujeito pós-moderno não é
mais o do sujeito moderno: sem grande Sujeito, isto é, sem marcos em que possam se fundar
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uma anterioridade e uma exterioridade simbólica, o sujeito não chega a se desdobrar numa
espacialidade e numa temporalidade suficientemente amplas. Ele fica engolido num presente
dilatado no qual tudo transcorre. A relação com os outros se torna problemática na medida em
que sua sobrevivência pessoal se encontra sempre em causa.
Lebrun (2004) considera que a ordem simbólica faz de nós animais desnaturados pela
linguagem, pela introdução de um gozo pulsional que substituiu a instintualidade animal.
Passando de um mundo de instintos para um mundo de pulsões, o ser humano perde e ganha.
O que ganha é a faculdade de falar, é o mundo das palavras, o que perde é a sua adequação às
coisas, também sua adequação a si mesmo. Fundamentalmente, a ordem simbólica que nos
torna humanos implica, segundo o autor, o que Lacan chama de caráter decepcionante da
ordem simbólica. Isso se mostra inscrito na estrutura mesma de nossa realidade psíquica.
Para o autor, o neurótico, em nome da ordem simbólica que organiza nosso mundo,
reconhece o objeto como faltante, mesmo que seja alcançado. Reconhece-o como significante.
Inversamente, o desejo perverso visa apreender o objeto como signo e, é sempre como
presença real que é cobiçado. Se não obtiver o embargo desse real, se encontra
dessubjetivado. Isso o torna, então, extremamente dependente da presença real desse objeto e,
pode-se evocar aqui a relação do toxicômano com seu produto: ele tem necessidade da
realidade do seu produto, porque é este que o sustenta como sujeito.
O objeto do desejo humano, na medida em que está enfeudado na linguagem, é, pois,
estruturalmente, de natureza significante. Podemos, então, apreender o duplo movimento da
linguagem: é ao mesmo tempo o que causa o gozo e o que o detém. É causa de gozo, porque
introduz um gozo específico, linguageiro, permitido, e também o que detém o gozo, na
medida em que, pela linguagem, é mantida a distância de um gozo absoluto e instintual, o
gozo incestuoso, aquele que estaria ali se não fôssemos seres-falantes.
O que o pós-moderno inaugura é, pois, uma sociedade que não somente não ratifica
mais a função dos interditos, habitualmente destinada ao pai, mas que, em contrapartida,
implicitamente não a reconhece, porque o tipo de laço social por ela promovido se situa às
avessas do trabalho de simbolização. De acordo com Lebrun, o que funda a possibilidade de
alteridade na realidade psíquica é a entrada da linguagem, veiculada pela intervenção
interditora do pai, na medida em que reitera a indisponibilidade da mãe como objeto de gozo
absoluto. É porque estamos numa economia psíquica regida pelo significante que a presença
do objeto é encontrada sempre sobre um fundo de ausência e, é mesmo por causa dessa
fraqueza radical que sua presença se mostra a nós resplandecente.
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Nossa organização social de hoje, com o nivelamento de todos os enunciados, com a
evitação da disparidade entre enunciação e enunciado, induz o apagamento da dissimetria dos
lugares e quer apagar as diferenças tanto a dos sexos quanto a das gerações. Apagar a
diferença dos lugares, dos sexos e das gerações, tem como efeito o apagamento das
referências simbólicas, indispensáveis à vida social.
Gianni Vattimo (2007) afirma que as mais difundidas e confiáveis visões da
modernidade são as que a caracterizam como a época da história, em oposição à mentalidade
antiga, dominada por uma visão naturalista e cíclica do curso do mundo. Com efeito, dizer
que estamos num momento posterior com relação à modernidade e, conferir a esse fato um
significado, de certo modo decisivo, pressupõe a aceitação daquilo que a caracteriza mais
especificamente: a ideia da história, com seus corolários, a noção de progresso e a de sua
superação.
Para o autor, uma experiência de ‘fim de história’ parece estar amplamente difundida
na cultura do século XX. Porém, fim da história tem um sentido catastrófico. Seria o fim da
vida humana na Terra, o que caracteriza o fim da história pontua o autor, na experiência pósmoderna é que, enquanto na teoria a noção de história se torna cada vez mais problemática, na
prática historiográfica e em sua autoconsciência metodológica, a ideia de uma história como
processo unitário se dissolve.
Dissolução significa, antes de tudo, ruptura na unidade, e não fim puro e simples da
história. A dissolução da história, nos vários sentidos que se podem atribuir a essa expressão,
é, provavelmente, a característica que distingue do modo mais clássico a história
contemporânea da história moderna.
Vattimo (2007) menciona Walter Benjamin, ao falar da história dos vencedores.
Comenta que só do ponto de vista desses, o processo histórico aparece com um curso unitário,
dotado de consequencialidade e racionalidade; os vencidos não podem vê-lo assim, mesmo e,
sobretudo, porque seus fatos e suas lutas são violentamente eliminados da memória coletiva.
“Quem administra a história são os vencedores, que conservam apenas o que se coaduna com
a imagem que dela fazem para legitimar seu poder” (VATTIMO, 2007, p. XV).
A história contemporânea, desse ponto de vista, não é apenas a que diz respeito aos
anos cronologicamente mais próximos de nós; ela é, em termos mais rigorosos, nas palavras
do autor, a história da época em que tudo, mediante o uso dos novos meios de comunicação,
principalmente a televisão, tende a nivelar-se no plano da contemporaneidade e da
simultaneidade, produzindo também, assim, uma des-historização da experiência.
100
Para Melman (2003) há um progresso considerável, mas, ao mesmo tempo, portador,
de pesadas ameaças. “O progresso considerável é ter efetivamente considerado o fato de que o
céu está vazio, tanto de Deus quanto de ideologias, de promessas, de referências, de
prescrições, e que os indivíduos têm que se determinar por eles mesmos, singular e
coletivamente” (MELMAN, 2003, p. 16).
Os dois últimos séculos, segundo o autor, foram os das grandes invenções e da
identificação dos limites: na matemática, na lógica, na política, na psicologia, etc. O século
que se anuncia será o da suspensão deles: não há mais impossível. A intervenção decisiva foi,
sem dúvida alguma, o domínio da fecundidade, depois, da reprodução da vida. “Roubado de
Deus, o poder da criação permite trazer à luz organismos novos. De certa forma, assistimos ao
fim de uma época, a uma liquidação – em termos analíticos dir-se-ia uma liquidação coletiva
da transferência -, o que é a fonte de uma liberdade muito notável” (MELMAN, 2003, p. 17).
Em outras palavras, o autor considera que não há mais nem autoridade, nem
referência, nem saber que se sustente. Se há, pois, descoberta de Freud é a seguinte: nossa
relação com o mundo e com nós mesmos não é instalada por um objeto, mas pela falta de um
objeto de eleição, essencial. É necessário que o sujeito humano passe por essa perda a fim de
ter acesso a um mundo de representação sustentável para ele, em que seu desejo seja
alimentado e orientado e, suas identificações sexuais quase asseguradas. Somos os únicos, no
reino animal, cuja possibilidade de realização sexual é organizada por uma dissimetria, já que
a escolha do objeto não é regulamentada por uma identificação dos traços característicos do
parceiro, mas pela perda, pela renúncia ao objeto amado. Essa mutação a que assistimos está
ligada ao fato de que esse limite que evocamos está caduco. Não há mais dificuldade para
ultrapassá-lo. “Hoje a questão é exibir. O que se chama de gosto pela proximidade vai tão
longe que é preciso exibir as tripas, e o interior das tripas, e até o interior do interior. Não há
mais limite algum à exigência de transparência” (MELMAN, 2003, p. 23).
Para Melman (2003), esse progresso é homogêneo ao de nossa economia. Esta é
capaz de nos fornecer objetos sempre mais fantásticos, mais próprios a nos fornecer
satisfações, tanto objetais quanto narcísicas. Graças a eles, não se trata mais de se satisfazer
com representações, mas com o próprio autêntico, com o objeto não mais representado, mas
efetivamente ali, presente na realidade. Nessa nova economia psíquica, não há divisão
subjetiva, o sujeito não é dividido. É um sujeito bruto. O sujeito dividido se interroga quanto à
sua existência e suas formas de dizer não. Há “uma formidável liberdade, mas ao mesmo
tempo absolutamente estéril para o pensamento” (2003, p. 29).
101
O autor considera que o que hoje nos é oferecido é experimentar gozos diversos,
explorar todas as situações. É esse o verdadeiro liberalismo, o liberalismo psíquico. No
Mercado, nos é proposto, como se isso fosse comum, participar de múltiplas existências. Dito
de outro modo, isso se traduz, na vida corrente, por percursos por existências efetivamente
múltiplas, no campo profissional assim como no das experiências subjetivas, inclusive
sexuais. A pertença de um sujeito a uma comunidade é momentânea. Ele mudará de acordo
com o lugar em que ele fala, ou seja, de acordo com a informação. Não temos, no período
atual, ideais assumidos. O ‘Zapping’ não é só das imagens, mas também subjetivo. Não se
lida permanentemente com o mesmo sujeito, mas com uma feição neutra e insignificante, com
a máscara de uma subjetividade móvel. O sujeito não é responsável, na medida em que sua
determinação subjetiva não se origina mais no que seria uma aventura singular, numa escolha
singular. Parece-lhe inteiramente legítimo pensar que deve seu percurso, seu destino a
circunstâncias coletivas e exteriores. A mesma coletividade lhe deve, portanto, reparação por
tudo que lhe falta, já que é assim, por ela, percebido.
De acordo com o autor, esse sujeito não é psicótico, mas atraído por essa perspectiva,
essa promessa que essa nova economia faz brilhar: é possível ter múltiplas vidas. Ainda há
pouco, estávamos condenados a levar uma existência e apenas uma. Isto é, estávamos
liberados a ter um tipo de gozo, com histórias sempre idênticas, mesmo quando os parceiros
mudavam. O que hoje nos é oferecido é experimentar gozos diversos, explorar todas as
situações. Evidentemente, coloca Melman, é um laço social muito pobre, já que está fundado
no apoio obtido em outrem, na medida em que outrem compartilha do mesmo gozo. Esse
gozo, pelo próprio fato da similitude de seus adeptos, de seus protagonistas, se torna um gozo
unissex e, em espelho.
Conforme Lebrun (2004), a promoção de um ideal de submissão às coordenadas da
ciência não implica mais que seja preciso passar pelos caminhos da castração, ou seja, deve
sustentar que, mesmo havendo impossível, a vida não é, por isso, impraticável. Em outras
palavras, o que se tenta apreender dessa nova economia psíquica ou dessas ‘novas doenças da
alma’, é um recuo da simbolização. Tudo se passa como se aquilo com que nos defrontamos,
através dessa fenomenologia nova, nada mais fosse que um estreitamento de nossa capacidade
de pensar. Para Melman (2003), a nova economia psíquica testemunha uma tentativa de evitar
os impasses aos quais nos leva a tipos de leis a que até aqui fomos sujeitados.
O desaparecimento do Outro, afirma Dufour (2005), seria apenas o efeito anunciado
de uma desterritorialização radical. É provável que esse esvaziamento simbólico comporte
102
efeitos deletérios, inquietantes e prejudiciais, notadamente para as novas gerações. O limite
absoluto da dessimbolização é quando mais nada vem assegurar e assumir o encaminhamento
dos sujeitos para a função simbólica, encarregada da relação e da busca de sentido. Nunca se
chega aí verdadeiramente, mas, quando a relação de sentido desfalece, é sempre em
detrimento do próprio da humanidade, a discursividade, e em proveito da relação de forças.
Dufour considera que a palavra dessimbolização designa uma conseqüência do
pragmatismo, do utilitarismo e do realismo contemporâneos, “que pretendem ‘tirar a gordura’
das trocas funcionais, livrando-as da sobrecarga simbólica que pesa sobre elas” (2005,
p. 199). A dessimbolização indica um processo que visa desembaraçar a troca concreta do que
a excede, ao mesmo tempo, que a institui: seu fundamento. Com efeito, a troca humana está
inserida num conjunto de regras cujo princípio não é real, reenvia a valores postulados. Esses
valores, de acordo com o autor, se originam numa cultura – depositária de princípios morais,
de cânones estéticos, de modelos de verdade – e, como tal, podem diferir, inclusive se opor a
outros valores. O novo espírito do capitalismo persegue um ideal de fluidez, de transparência,
de circulação e de renovação que não pode se conciliar com o peso histórico desses valores
culturais. Designa a condição de um homem liberado de toda ligação a valores. Tudo o que
remete à esfera transcendente dos princípios e dos ideais, se vê desacreditado. Os valores
morais não têm valor mercadológico. A dessimbolização tem, pois, um objetivo: ela quer
erradicar, nas trocas, o componente cultural, sempre particular.
A pós-modernidade para o autor, não é a simples queda dos ideais do eu, nem um
levante em massa contra os ídolos. Estamos na época da fabricação de um novo homem, de
um sujeito acrítico e psicotizante, por uma ideologia também conquistadora, mas
provavelmente muito mais eficaz do que o foram as grandes ideologias – comunistas e
nazistas do século passado. O que o pós-modernismo quer é um sujeito dessimbolizado, que
não esteja assujeitado à culpabilidade, um sujeito incerto, privado de toda ligação simbólica.
Ele tende a instalar um sujeito unissexo, isto é, sem o arrimo de seu fundamento
exclusivamente no real, o da diferença sexual e da diferença geracional. Sendo recusada toda
referência simbólica suscetível de garantir as trocas humanas, há apenas mercadorias que são
trocadas.
O sujeito capitalista assinala Melman (2003), busca incessantemente as marcas de uma
identidade que só vale no olhar do semelhante, que só pode ser validada por um efeito de
massa – reconhecimento público, midiático – e que nunca é definitivamente adquirido.
103
Como pensar, interroga Dufour (2005), que o pós-modernismo, que destrói as
instâncias coletivas, possa deixar intacto o sujeito, herdeiro de um longo processo histórico,
filosófico e teológico-político de individuação? Esse sujeito pós-moderno, responde, não
adveio por um acaso inexplicável da história, mas ao final de um empreendimento eficaz, no
centro do qual encontramos duas instituições maiores dedicadas a fabricá-lo: de um lado, a
televisão e, de outro, a nova escola consideravelmente transformada por trinta anos de
reformas ditas ‘democráticas’, mas caminhando todas no mesmo sentido, o de um
enfraquecimento da função crítica.
Para o autor, a exposição maciça à imagem televisiva desvia o sentido do secular das
relações texto-imagem. Antes da invasão das relações geracionais pela televisão, decerto
existiam imagens, mas a iniciação à prática simbólica partia do texto através do qual eram
inferidas as imagens. Por texto, o autor se refere tanto a enunciados orais – fala cotidiana,
contos, versões de mitos ou lendas – quanto enunciados registrados numa escrita (texto santo,
folhetos, romances...). Porém, a imagem não é apenas simples reflexo do texto, ela possui sua
eficácia própria e é poderosa: ela pode muito simplesmente suspender o texto. A imagem não
é articulada no sentido em que se diz do texto: 1) unidade elementar, da ordem do som; 2)
nível da significação; 3) nível da significância, da frase. 4) nível mitológico, que reenvia à
narrativa. Todas as tentativas de conferir à imagem o mesmo estatuto articulado do texto
fracassaram. É plausível que seja desse caráter não articulado que vem o poder de suspensão
que a imagem possui em relação ao texto: uma única imagem pode pôr em questão uma rede
densa de sentidos e de significações devidamente organizados no texto. Após essa relação
texto-imagem, o autor articula a questão da função simbólica, em como ela se transmite e se
adquire. É sabido o quanto a transmissão de narrativas foi o meio utilizado pela geração dos
pais para a formação da geração seguinte. Transmitir uma narrativa é transmitir conteúdos,
crenças, nomes próprios, genealogias, ritos, obrigações, saberes, relações sociais... Mas, é
também e antes de tudo transmitir um dom de palavras. É fazer passar de uma geração à outra
a aptidão humana para falar, de modo que o destinatário da narrativa possa identificar-se
como si e situar os outros a seu redor, antes dele e depois dele, a partir desse ponto. O homem
não se priva de ‘inventar’ o que ele chama de realidade.
Conforme Dufour (2005), o que se compreende facilmente é que as referências
simbólicas, contanto que estejam fixadas, podem então se encarregar das imagens vindas da
televisão e, até mesmo, retranscrever essas imagens em discurso. Se suas referências no
discurso estão postas, então ele pode acolher imagem e ir e vir da imagem ao discurso. Esse
104
vai e vem inclusive pode ser lúdico e formador. Porém, nos casos em que as referências
simbólicas da criança não estão bem fixadas ou se verificam frágeis, as conseqüências são
ruins: a imagem externa se torna então uma conexão mais ou menos colada nas imagens
internas, nas fantasias que povoam o aparelho psíquico. Em suma, não se abre para um
processo que resulta em um saber. Constitui uma espécie de tela que se interpõe entre o
sujeito e a realidade que lhe chega. Sendo impotente para transmitir, sozinha, o dom da
palavra, a televisão dificulta o legado do bem mais precioso: a cultura.
A partir daí, considera o autor, se compreende porque numerosos professores ficam
reduzidos a fazer a amarga constatação de que o que eles têm diante de si são sujeitos com
dificuldade para se integrar em um fio discursivo que distribui alternativamente e
imperativamente cada um em seu lugar: aquele que fala e aquele que escuta. Isso significa
dizer que a palavra tem em si mesma uma autoridade. Dito de outro modo: autoridade nunca é
autoridade de alguém. A autoridade é o que está implicado pelo acesso à função simbólica, o
que nos faz sujeitos falantes, no momento mesmo em que nos tornamos objeto, até mesmo
servo da linguagem.
Compreende-se, dessa forma, que todo discurso que põe em questão a autoridade
daquele que assume a responsabilidade geracional de introduzir no mundo os rescém-vindos,
simultaneamente omite instituir as crianças e os jovens como alunos. Isso corresponde à
recusa do adulto de assumir-se como co-autor do mundo no qual, no entanto, ele coloca os
novos sujeitos vindos pela simples renovação geracional. Como havia um fio do discurso que
constituía autoridade, distribuindo cada um dos sujeitos falantes, há um fio geracional que
deve constituir autoridade para distribuir cada geração em seu lugar. Instituir os jovens como
alunos, eis todo o trabalho hoje negado, daquele que se chamava justamente de instituidor.
Do ponto de vista da educação, a ruptura entre a modernidade e a pós-modernidade é
surpreendente: uma geração não faz mais a educação da outra. Desaparecendo o motivo
geracional, não há mais disciplina e, como não há mais disciplina, não há mais educação. Por
esse corte na transmissão, o sujeito pós-moderno se representa como não-engendrado, no
sentido em que ele se vê na posição de não dever mais nada à geração precedente.
Melman questiona quais podem ser as conseqüências dessa emergência da nova
economia para a transmissão. E mais: será que arriscamo-nos a produzir gerações que não
sentem mais o dever de transmitir? Ele afirma que “não transmitimos mais nada que seja
repugnante para as gerações seguintes” (2003, p. 158).
105
Nesse sentido, Dufour (2005), vai distinguir dois tipos de pedagogo: 1) o pós-moderno
- é o que, para o bem dos alunos, renuncia aos trabalhos que eles se tornaram pouco hábeis
para realizar; 2) o simples pedagogo - é o que busca todos os meios possíveis de fazer o aluno
entrar no discurso do saber, instalando-se na função proponente e, instalando o aluno na
função crítica.
De acordo com Melman (2003), hoje a transmissão – como acontece com a linguagem
– é apenas positiva: transmitem-se bens ou dívidas reais. E o que se transmitia? O essencial:
um estado de espírito, uma maneira de compreender o mundo, de se sustentar, todo um
conjunto de elementos que, sem serem verdadeiramente enunciados em algum lugar, regiam,
entretanto, as atitudes e as formulações. O que observamos nos jovens é o que outrora era
reservado aos filhos da burguesia: a revolta contra o que a geração precedente quer transmitir.
Pode-se acrescentar que a questão verdadeira de uma transmissão não é o saber em si, mas a
relação com o saber: o importante é o que o funda, sua relatividade, seus usos. Porém, hoje, o
saber só vale na medida em que é tecnológico, ou técnico, isto é, em que dá um acesso ao
mercado. De outro modo não vale nada.
A sujeição ao campo da palavra e da linguagem cobra um preço: a castração.
Em outras palavras, a impossibilidade de sermos senhor do discurso. Não há
educação, senão no interior do campo da palavra e da linguagem. Portanto, não há
educação que não tenha em causa o caráter errante da palavra, bem como educação
que não venha a padecer dela (PEREIRA, 2008, p. 13).
Pereira argumenta que toda pretensão de se formatar o errar da palavra, de usufruir a
sua mestria está fadada ao fracasso. A palavra vinga-se, mortificando o pretensioso usurpador.
No imaginário social, ao que parece, o mestre idealizado de outrora, cedeu lugar a um
profissional sucumbido à atual modificação industrial, comunicacional e tecnológica, bem
como à inabilidade em lidar com as diversidades culturais emergentes nas instituições
educacionais.
De acordo com o autor, qualquer função de mestria, ou seja, qualquer necessidade de
conduzir a palavra e imprimir-la no real de um corpo descoberto pautar-se-ia no repertório
cultural ou discursivo ao qual cada mestre teve acesso e do qual foi, de algum modo, também
um experimentado, um aprendiz. Tal fato, por si só, já nos possibilita inferir que o mestre
jamais é o dono da palavra, o proprietário significante ou o inventor da lei, mas tão-somente o
seu transmissor. Dessa forma, tudo aquilo que é ensinado pelo mestre está marcado pelo
impossível da cultura de conhecer a Coisa, de ter sobre ela uma acabada episteme. Isso nada
mais é do que dizer, em outros termos, sobre o impossível de tudo e ensinar ou o impossível
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de educar. “O mestre e o mestre do mestre são transmissores do conhecimento que se reduz,
acima de tudo, a um embrulho de uma marca de pertinência ou a um traço identificatório”
(PEREIRA, 2008, p. 100).
Assim sendo, conforme o autor instala-se aí uma dívida, pois o aprendiz passa a dever
sua existência, seus saberes aprendidos e a possibilidade de decodificar os signos do mundo,
àquele guardião da lei que fora capaz de transmitir-lhe uma ordem simbólica. Entretanto, o
transmitido não é, em última instância, do mestre, a ele não pertence e dele não se pode retirar
nenhuma invenção. O mestre doa de fato, aquilo que não deixa de ser sempre propriedade de
uma tradição guardiã de sistemas epistemológicos. Ele se autoriza. É isso que confere caráter
verdadeiramente simbólico ao que é transmitido. Dessa forma, o transmitido é um
significante, tanto da dívida do mestre quanto do desejo em causa ano ato educativo. “Todo
mestre, alguma vez, foi também aprendiz, por isso ele não passa de um devedor, tal qual os
súditos que dele se alimentam ou nele se miram” (PEREIRA, 2008, p. 101).
Para que tal dívida seja repassada, segundo o autor, o mestre não pára de representar a
lei, garantindo com a sua palavra, aquilo de que se compõe a responsabilidade de cada um.
Sua autoridade só se dá quando ele, em ato, garante a lei através de si. Tal ato talvez se
traduza como a expressão maior de sua empresa: impetrar o laço cultural, civilizador,
eximindo-se, momentaneamente, da dívida de origem. Mas esse seu imperativo só faz remetêlo às bordas do impossível: o de jamais ter a palavra precisa que recubra o real. O endividado
mestre humano sempre será aquele que tem o dever da palavra, não o poder dela. Não possui
o direito de dar ordens, tampouco pode exercer o mínimo poder, pois ele tem a obrigação de
não ser aquele que cria a lei, mas aquele que a evoca, incansavelmente. Ele faz se não
escrever nos corpos de seus discípulos a palavra que se supõe ser dos ancestrais. Porém, é
preciso examinar que a lei, a ser guardada e repetida pelo mestre, reserva em si sua própria
possibilidade de subversão, pois nenhuma repetição se dá à altura do repetido. Algo novo, de
sentidos múltiplos, sempre irá se inscrever. O segredo do mestre é saber reconhecer a
distância entre a matéria ensinada e o sujeito a ser instruído. Pode-se ensinar o que se ignora,
eis a tese argumenta o autor. Isso induz à emancipação do sujeito e, quem emancipa não tem
que se preocupar com aquilo que o emancipado deve aprender, do contrário, quem ensina,
sem emancipação, embrutece.
Para o autor, um mestre que escuta que deixa falar, permite a cada sujeito ter acesso a
uma fala verdadeira, na medida em que adquiriu desse mestre precisamente a lei da
linguagem, o traço único do processo de identificação. Optar por esse campo é não fazer do
107
aluno um igual. A ação do mestre passaria, então, por um engajamento ético. Tal engajamento
giraria em torno do deslocamento do imaginário para o simbólico, ao lidar-se com o real.
Melman (2003) sublinha que a questão do ensino vem encontrar-se com os mesmos
propósitos da transmissão. Esta era concebida numa ótica humanista. Tratava-se de transmitir
um estilo, um espírito e conhecimentos. A aquisição de uma posição social vinha como
acréscimo, era deixada, por fim, à iniciativa individual. O ensino sai de certo modo de um
berço: o do ensino religioso. E, sua vocação era ensinar o respeito às leis morais. O ensino
leigo ficou muito tempo marcado por essa origem. Mas, agora, até certo ponto, só lidamos
com escolas profissionais. Na medida em que essas escolas assim se tornaram, é muito
evidente que os alunos vão desvalorizar todos os ensinamentos que não contribuem
diretamente e imediatamente para uma hipotética formação profissional. Para que servem as
letras, a filosofia, o latim, o grego, a história, a geografia, nesta ótica? Com efeito, certamente,
não para realizar performances.
Poderíamos até mesmo chegar a dizer, segundo o autor, que a questão fundamental de
toda criança, isto é, elucidar sua origem e, por extensão, todas as origens, se vê assim expulsa.
Estamos substituindo o desdobramento dessa questão por uma resposta que fornece
acumulações de conhecimentos, chegando literalmente a apagar qualquer voto de saber. “No
encaminhamento freudiano, é a não-resposta ao voto de saber da criança que a sustenta em
seu questionamento.... E, o voto de saber sempre se referiu ao sexo... (...). Na medida em que
o sexo, sem mistério, foi reconduzido às operações puramente biológicas, químicas, técnicas,
em que, então, não há mais lugar para nenhuma verdade, há apenas tudo a conhecer, saber
como isso funciona... e mais nada a questionar” (MELMAN, 2003, p. 169).
108
3 METODOLOGIA
De acordo com Minayo (2010), a metodologia é o caminho do pensamento e a prática
exercida na abordagem da realidade, ou seja, a metodologia inclui simultaneamente a teoria
da aprendizagem (o método), os instrumentos de operacionalização do conhecimento (as
técnicas) e a criatividade do pesquisador (sua experiência, sua capacidade pessoal e sua
sensibilidade). “A pesquisa é a atividade básica da ciência” (VERGARA, 2010, p.1). E,
advoga a autora, a ciência é uma das formas de se ter acesso ao conhecimento. É uma
construção que revela nossas suposições acerca do que se está construindo. É um processo.
Para que este processo de construção do conhecimento seja validado, a avaliação e a escolha
dos métodos de pesquisa devem ser criteriosas, uma vez que estas escolhas podem representar
caminhos diferentes, podendo conduzir a resultados diferentes, inclusive distintos (GODOY,
1995).
Tem-se por objetivo neste momento descrever os aspectos metodológicos que
orientam a presente pesquisa, como forma de garantir a confiabilidade e o rigor científico da
mesma.
3.1 CLASSIFICAÇÃO DA PESQUISA
A classificação do estudo deve contemplar aspectos referentes à natureza da pesquisa,
à abordagem do problema, aos objetivos e aos procedimentos técnicos.
Do ponto de vista de sua natureza, a presente pesquisa é aplicada no sentido de gerar
conhecimentos que possam ser empregados na prática para a solução de problemas de uma
realidade específica (GIL, 1994).
Quanto à abordagem do problema, a pesquisa foi desenvolvida numa perspectiva
qualitativa, por ser mais adequada para realidades sociais e organizacionais (MINAYO,
2010).
Em se tratando dos objetivos da pesquisa, enquadra-se como exploratória e descritiva.
A pesquisa exploratória permite adquirir mais conhecimento e experiência com relação ao
problema, aprofundando estudos nos limites de uma realidade específica (TRIVIÑOS, 1987).
E, a pesquisa descritiva visa descrever as características do processo a ser estudado.
No que concerne ao delineamento da pesquisa, que “ocupa-se precisamente do
contraste entre a teoria e os fatos e sua forma é a de uma estratégia ou plano geral que
determine as operações necessárias para fazê-lo” (GIL, 1994, p. 70), foi realizada, num
109
primeiro momento, uma pesquisa bibliográfica e, num segundo momento, um estudo de caso
único.
3.2 SUJEITOS DA PESQUISA
Os entrevistados foram vinte e nove pessoas, sendo que, destes, dois são gerentes de
setores, três são gestores (herdeiros/sucessores) e, o fundador (sucedido). Todos são atores
envolvidos no processo sucessório desta empresa.
3.3 COLETA DE DADOS
Nesta pesquisa foram utilizadas como técnica de coleta de dados: entrevistas, pesquisa
documental e pesquisa bibliográfica.
A entrevista é um encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha
informações a respeito de determinado assunto, mediante uma conversa de natureza
profissional. É um procedimento utilizado na investigação social, para a coleta de dados ou
para ajudar no diagnóstico ou no tratamento de um problema social (LAKATOS e
MARCONI, 1986).
Pela natureza do trabalho, optou-se por privilegiar a entrevista semi-estruturada. Esta
técnica, ao mesmo tempo em que valoriza a presença do investigador, oferece todas as
perspectivas possíveis para que o informante alcance a liberdade e a espontaneidade
necessária, enriquecendo a investigação. Em geral, ela parte de certos questionamentos
básicos, apoiados em teorias e hipóteses que interessam à pesquisa e, que, em seguida,
oferecem amplo campo de interrogativas, frutos de novas hipóteses. Desta maneira, o
informante, seguindo espontaneamente a linha de seu pensamento e de suas experiências
dentro do foco principal colocado pelo investigador, começa a participar na elaboração do
conteúdo da pesquisa (TRIVIÑOS, 1987).
Foram entrevistados todos os funcionários da empresa. A pesquisadora assumiu o
compromisso formal de não divulgar os nomes dos entrevistados para resguardar o caráter
pessoal das informações prestadas. Apenas foram divulgados os sobrenomes das três famílias
de sócios fundadores.
Todas as entrevistas foram pautadas pelos seguintes procedimentos:
a) Contrato inicial de trabalho com a gerência;
b) Planejamento para realização das entrevistas;
110
c) Agendamento com os funcionários, de datas para acompanhamento, observação do
trabalho e realização da entrevista, sendo o tempo médio de acompanhamento,
observação e entrevista, de dois dias com cada funcionário;
d) Em todas as entrevistas preponderou um diálogo informal, sendo que o objetivo da
mesma era apresentado ao funcionário inicialmente. Porém, o funcionário tinha
liberdade para apresentar seu trabalho da forma que desejasse fazê-lo, trazer a
história anterior daquela função, idéia inovadoras, problemas, etc;
A pesquisa documental constitui-se numa técnica de abordagem de dados qualitativos,
podendo ser utilizada para complementar as informações obtidas em outras fontes. Diversos
tipos de documentos podem servir como fonte de informação para prover o pesquisador com
dados complementares para melhor compreensão do problema investigado, tais como
arquivos históricos, registros estatísticos, revistas especializadas, atas de reuniões de diretoria,
disponíveis na organização ou fora dela (GODOY, 1995).
Em relação a esta técnica, foram reunidas informações complementares em vários
documentos internos da empresa. Destacaram-se: contratos sociais, balanços contábeis, atas
de reuniões, relatórios de diretores, planejamentos, notícias em jornais, documentos do
arquivo morto como: livros contábeis, documentos do departamento de pessoal, notas fiscais
das primeiras máquinas compradas.
A pesquisa bibliográfica trata do levantamento da bibliografia já publicada e que tenha
relação com o tema em estudo. Sua finalidade é colocar o pesquisador em contato direto com
o que foi escrito sobre o assunto objeto de estudo. Incluem-se aqui as obras literárias em
geral. São os chamados documentos de fontes secundárias (LAKATOS e MARCONI, 1986).
Nesse sentido, foi realizado pesquisa em livros e revistas especializadas,
principalmente, na caracterização das empresas familiares; do conceito de família e, da
dessimbolização da cultura na contemporaneidade, tendo como efeito o declínio da função
paterna, que possibilitou a compreensão de conceitos e fatos relacionados à história da
empresa e que não estavam suficientemente presentes na interpretação dos sujeitos
(entrevistados), mas que estabeleceram relações com as mudanças ocorridas no processo
sucessório da empresa.
A partir da consideração de que este estudo tem como tema central a sucessão nas
empresas familiares e, o declínio da função paterna na contemporaneidade, propôs-se coletar
dados referentes aos fatos que entrelaçam estes percursos a partir da abordagem longitudinal,
histórica e contextual (PETTIGREW, FERLIE e MCKEE, 1992). Esta abordagem procura
111
entender o processo evolutivo de estruturação e mudança de uma organização, a partir da
consideração de três elementos fundamentais: o conteúdo da mudança (o que), o contexto da
mudança (porque) e o processo de mudança (como).
O conteúdo refere-se a um conjunto de ações e/ou estratégias que conferem
consistência a uma determinada decisão. O contexto é o elemento que serve de justificativa
para propor uma determinada estratégia ou decisão. O processo, por sua vez, refere-se ao
modo como esta estratégia ou decisão foi construída.
O conteúdo da mudança pode ser classificado de acordo com um conjunto de
características mais abstratas as quais podem afetar a adoção da mudança: algumas mudanças
são radicais, outras incrementais; algumas tecnológicas e outras centradas em mudanças nos
papéis (PETTIGREW, 1987).
Neste estudo, o conteúdo da mudança relaciona-se às mudanças discursivas no lugar
paterno que influenciaram no processo sucessório da empresa em estudo.
Em relação ao contexto da mudança, Pettigrew (1987) afirma que analiticamente é útil
a distinção entre contexto interno e externo. O contexto externo refere-se ao contexto
econômico, político e social, bem como à percepção, à ação e à interpretação das políticas e
eventos nos níveis nacionais e regionais; os movimentos sociais e processos de
profissionalização de longo prazo. O contexto interno refere-se à estratégia, estrutura, cultura,
gerenciamento e processo político atuais da organização que ajudaram a moldar os processos
de mudanças.
No presente estudo, o contexto externo refere-se às modificações no contexto familiar
e cultural vivenciados nas últimas décadas. Já o contexto interno caracteriza-se pelos lugares
ocupados pelos herdeiros e fundador a cada giro discursivo – contexto de mudança na
empresa estudada.
Já o processo de mudança, para Pettigrew (1987), refere-se às ações, reações e
interações das várias partes interessadas quando elas procuram mover a organização de seu
estado presente para um estado futuro.
O modelo de estudo do processo de mudança apresentado pelo autor envolve a
interação contínua entre o contexto, o processo e o conteúdo da mudança, junto com a
habilidade de regular as relações entre os três elementos.
Na presente pesquisa, considera-se que processo são todas as ações – individuais e
organizacionais – que, planejadas ou não, relacionam-se ao processo sucessório e ao lugar da
figura paterna na empresa em questão.
112
3.4 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS
A presente pesquisa se desenvolveu em interação dinâmica, retroalimentando-se,
reformulando-se constantemente, de tal forma que, a coleta de dados em determinados
momentos passa a ser, também, análise de dados, e esta, em seguida, é veículo para nova
busca de informações. Ela assume características de um processo simultâneo, não linear
(TRIVIÑOS, 1987).
A análise teórica foi realizada de acordo com os procedimentos de análise propostos
pela abordagem adaptada da “direct research” (MINTZBERG, 1997).
A direct research é caracterizada por uma forma simples e direta de investigação, na
qual o pesquisador observa situações e traça o fluxo de decisões de uma organização.
Significa avaliar em termos organizacionais reais como as ações e decisões acontecem nas
organizações (MINTZBERG, 1978).
Mintzberg (1978) aponta dois passos essenciais nesse método: o primeiro se
refere ao trabalho de detetive, de traçar modelos. Essencialmente um trabalho de investigação
de um fenômeno procurando ordem e sentido de consistência, num processo que nem sempre
é nítido. O segundo é o salto criativo em direções relevantes, procurando descrever alguma
coisa nova. A “direct research” que utiliza um método longitudinal de análise abordando a
evolução da organização em um determinado período histórico, é desenvolvida a partir das
seguintes etapas: a) coleta de dados: procurando identificar as ações e decisões importantes
ocorridas dentro de determinados períodos históricos na organização, como também os
eventos importantes e tendências do ambiente que afetaram ou afetam o comportamento
organizacional; b) inferência dos períodos e estratégias de mudança: os dados, decisões e
ações passam a ser organizados em ordem cronológica, sempre que possível observando uma
escala comum, sendo analisados para que se possam inferir os padrões e consistências ao
longo do tempo, isto é, as estratégias – mudanças discursivas; c) análise intensiva dos
períodos de mudança: interpretando as percepções dos padrões surgidos nos períodos
específicos de mudança a partir dos relatos e entrevistas com os tomadores de decisão para
identificação das principais mudanças estratégicas; d) análise teórica do estudo: procurando
explicar, à luz de referenciais teóricos, as descobertas realizadas em cada período histórico,
tanto quanto o estudo completo.
Embasada nestes procedimentos metodológicos, a presente pesquisa cumpriu as
seguintes fases de trabalho (mas não estritamente seqüenciais).
1) Realização de entrevistas, pesquisa documental e bibliográfica;
113
2) Elaboração de uma lista de eventos considerados relevantes do ponto de vista do
processo sucessório e do lugar paterno, com base nas informações e dados
extraídos das entrevistas e da análise documental;
3) Definição dos períodos estratégicos históricos, considerando os giros discursivos,
com base na interpretação dos entrevistados e da pesquisadora;
4) Caracterização das condições do contexto externo da organização que tiveram
influência nas ações e decisões da empresa, com base nas percepções dos
entrevistados e da pesquisa bibliográfica;
5) Análise teórica de cada período estratégico;
6) Considerações finais.
Os procedimentos de coleta e análise dos dados também estão estruturados a partir de
uma abordagem que indica uma postura psicanalítica que parte de processos de inconsciência
psicológica ou social. Nessa abordagem supõe-se que os sistemas culturais de significados, de
alguma forma, compõem a percepção e a elaboração da realidade subjetiva e social por parte
do indivíduo (FLICK, 2004).
Segundo Flick (2004), a suposição básica dessa abordagem é a necessidade de se fazer
distinção entre a superfície da experiência e da atividade de um lado; e de outro as estruturas
profundas das atividades. Enquanto, no primeiro caso, a superfície da experiência e da
atividade, por associar-se às intenções e ao significado subjetivo relacionado às ações, é
acessível ao sujeito participante; no segundo, as estruturas profundas das atividades, por
serem vistas como geradoras das atividades, não são acessíveis às reflexões individuais
cotidianas. Estruturas profundas deste tipo estão contidas em modelos culturais, em padrões
interpretativos e estruturais latentes de significado e, por fim, nas estruturas latentes que, de
acordo com a psicanálise, permanecem inconscientes.
Nesse sentido, a psicanálise considera a relação entre o pesquisador e o entrevistado
ou observado, um recurso fundamental para a pesquisa das produções sociais (FLICK, 2004).
Freud (1912) advoga que a recomendação feita aos analistas de manter a atenção
suspensa em face de tudo o que se escuta constitui a contrapartida da necessária exigência
feita aos analisandos – entrevistados -, de que comunique tudo o que lhe ocorre, sem crítica
ou seleção – regra fundamental da psicanálise - associação livre. “O analista deve conter todas
as influências conscientes de sua capacidade de prestar atenção e abandonar-se inteiramente à
memória inconsciente” (1912, p.150). Não se deve esquecer, pontua Freud, que o que se
escuta, na maioria das vezes, é algo cujo significado só é identificado posteriormente.
114
Dessa forma, este estudo avalia como as ações e decisões evidenciam os
desdobramentos da figura paterna como efeito discursivo na organização estudada, a partir da
teoria dos quatro discursos de Lacan (1992). Nessa perspectiva, compreender os eventos
críticos como efeitos discursivos implica em convoca-los e reconvocá-los em períodos
diferentes.
3.5 SISTEMATIZAÇÃO DO ESTUDO
No presente estudo analisou-se o processo sucessório e sua relação com a função
paterna na Retificadora Desordi Ltda, no período compreendido entre 1950-2007,
configurando-se, do ponto de vista metodológico, como um estudo de caso singular, de
natureza qualitativa.
Estudo de caso é o circunscrito a uma ou poucas unidades, entendidas essas como
pessoa, família, produto, empresa, órgão público, comunidade ou mesmo país. Tem caráter de
profundidade e detalhamento. Pode ou não ser realizado no campo. Utiliza métodos
diferenciados de coleta de dados (VERGARA, 2010).
Mintzberg (1973) é um dos autores que recomenda o estudo de caso na construção de
modelos de análise de mudanças organizacionais construídos a partir de dados e observações
de fatos, através da investigação sistemática do comportamento organizacional de uma
determinada organização.
115
4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Este recorte da pesquisa apresenta os resultados da investigação sobre o processo
sucessório e as relações possíveis de serem estabelecidas com a função paterna, na
Retificadora Desordi Ltda, no período de 1950-2007, constituindo parte importante da
resposta ao problema e aos objetivos da pesquisa, pautados pela intenção de compreender o
processo sucessório da empresa, bem como a função paterna, identificando quais foram as
mudanças estratégicas que propiciaram desdobramentos na função paterna e, no processo
sucessório, como foram desenvolvidas e implementadas e quais fatores determinaram tais
mudanças naquele período.
Inicialmente apresenta-se, em linhas gerais, a Retificadora Desordi Ltda, procurando
mostrar sua estrutura organizacional. Em razão da Retificadora Desordi Ltda ter sido,
inicialmente, um setor da Veículos Debacco Ltda, faz-se um resgate histórico desta empresa
para contextualizar e dar coerência ao estudo realizado.
Posteriormente apresentam-se os eventos críticos e as fases do processo sucessório,
bem como os desdobramentos da função paterna, definidos a partir da análise das entrevistas e
dos demais elementos referenciados na metodologia. Com esta descrição procura-se
reconstruir e analisar a história do processo sucessório da empresa.
Durante toda a pesquisa e, especialmente neste recorte, procurou-se relacionar as
mudanças ocorridas no processo sucessório com o contexto, buscando, na descrição das fases
e na análise teórica, realçar os eventos críticos, pois são eles que permitem explicar o processo
sucessório e suas relações com o desdobramento da função paterna.
4.1 CARATERIZAÇÃO DO CASO ESTUDADO
A Retificadora Desordi Ltda foi fundada em 1969 com a razão social de Retificadora
Debacco Ltda, no município de Santo Ângelo, situado ao Noroeste do Estado do Rio Grande
do Sul.
Antes de surgir como empresa, ela foi um departamento, um setor de veículos
Debacco Ltda, concessionária da Mercedes-Benz, fundada em 1964 por um grupo de três
irmãos.
116
A reestruturação da Retificadora Desordi Ltda e sua caracterização como empresa
familiar, só foi possível quando houve a ruptura da sociedade com o então Grupo Debacco em
1997. Com a cisão desse grupo, a empresa passou a ser administrada pela família Desordi e a
denominação social passou a ser Retificadora Desordi Ltda.
4.1.1 Caracterização do Grupo Debacco
A primeira empresa do Grupo Debacco foi fundada em 8 de abril de 1964, no
município de Santo Ângelo, Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, por três irmãos da
família Debacco e denominava-se Veículos Debacco Ltda – concessionária da MercedezBenz Ltda. Razão social que alguns meses depois passou para Veículos Debacco S/A.
Os irmãos Debacco trabalhavam juntos desde 1950 e, no período de 1950 a 1968,
fundaram 19 empresas, entre elas uma empresa de ônibus – hoje Viação Tiaraju Ltda; dois
postos de gasolina – hoje Ipiranga e Brittes; empresa de transporte de madeira; de alfafa; loja
de confecções; transportadora – Expresso Viaduto; concessão de tratores (SBT em São Borja
e em Santo Ângelo); loja de eletrodomésticos – hoje uma das filiais das lojas Colombo. Essas
empresas, em sua maioria, foram fundadas no município de Santo Ângelo – Noroeste do
Estado do Rio Grande do Sul.
Em 1959, os irmãos Debacco adquiriram uma frota de dez novos caminhões para a
Expresso Viaduto – transportadora. E, associaram dez pessoas nessa empresa. Entre os novos
associados, estavam dois que, mais tarde fariam parte do Grupo Debacco – um pertencia à
família Desordi. A loja de eletrodomésticos foi a empresa que possibilitou aos sócios reunir
um montante financeiro para a abertura da concessionária da Mercedez Benz. Essas duas
empresas (transportadora e loja de eletrodomésticos) reuniram condições – humanas e
financeiras – para a constituição do Grupo Debacco. Todas as empresas acima mencionadas
foram fechadas ou vendidas.
O Grupo Debacco foi formado com as empresas: Veículos Debacco Ltda; Comercial
Debacco Ltda; Retificadora Debacco Ltda e Hotel Debacco Ltda. Em 1997, houve a cisão e
dissolução do Grupo Debacco.
Após a fundação da concessionária Mercedez Benz – em 1964 -, foi dado início ao
projeto de construção das instalações da empresa – 1966. O prédio antigo foi demolido para
dar lugar ao novo que se destinava a abrigar, no primeiro piso, o escritório e a exposição. Os
demais andares, concluídos mais tarde, se destinaram ao Hotel Debacco.
117
Em 1969 foi instalada a Retificadora Debacco Ltda, com máquinas importadas da
Dinamarca, em dois prédios especialmente construídos para este fim.
Em 1973, com a conclusão da BR 285, no ano do centenário do município de Santo
Ângelo, a diretoria da empresa Veículos Debacco S/A, voltou sua atenção ao trevo de acesso
para o município de Entre-Ijuís, adquirindo áreas de terreno no local e, elaborando um projeto
para as futuras instalações dessa empresa. Ainda em 1973 foi fundada a Comercial Debacco
Ltda bem como o Hotel Debacco Ltda. E, em 1976 foi inaugurada a filial da empresa
Veículos Debacco S/A no município de Ijuí – RS.
Em 1980 foram inauguradas as novas instalações da empresa Veículos Debacco S/A,
na BR 285, com 5.800m2. O custo do prédio foi estimado em 61 milhões de cruzeiros. O
capital social elevou-se para 74 milhões de cruzeiros e as reservas da empresa somaram mais
de 45 milhões de cruzeiros.
Em 1988, houve o fechamento da filial da empresa Veículos Debacco S/A em Ijuí e, o
fechamento do atacado de peças da Retificadora Debacco Ltda.
Em 1995 ocorreu a venda das ações da empresa Veículos Debacco Ltda que muda a
razão social para Veísa Missões Veículos Ltda.
No ano de 1997, ocorreu a cisão do Grupo Debacco, ficando o controle acionário das
empresas desse grupo assim distribuídas:
- Veículos Debacco Ltda – passa o controle acionário para a família Debacco;
- Comercial Debacco Ltda – passa o controle acionário para a família Ritter;
- Retificadora Debacco Ltda – passa o controle acionário para a família Desordi;
- Hotal Debacco Ltda – passa o controle acionário para a família Debacco.
Em 1999 foi criada a empresa Debacco Participações Ltda para gerir o aluguel do
patrimônio (prédios), onde continua instalada a Veísa Missões Veículos Ltda.
Com o capital recebido referente à cota de ações da família Desordi na empresa
Veículos Debacco Ltda, surgiu a empresa Desordi Desordi e Cia Ltda, atuando junto à
Retificadora Desordi Ltda, com o objetivo de ampliar o negócio e, ofereceu o serviço de
injeção eletrônica e demais serviços automotivos, bem como venda de peças.
Em 2002 foi efetuada a venda da Comercial Debacco Ltda e, foi criada a empresa
Ritter e Debacco Participações Ltda, para gerir o aluguel do patrimônio da empresa. Nesse
118
mesmo ano, ocorreu a mudança da razão social da Retificadora Debacco Ltda para
Retificadora Desordi Ltda e, a empresa passa a ser administrada pela segunda geração da
família Desordi, com a presença do fundador na empresa.
4.2 PROCESSO SUCESSÓRIO E DESDOBRAMENTO DA FUNÇÃO PATERNA NA
RETIFICADORA DESORDI LTDA
Para explicar o processo sucessório da Retificadora Desordi Ltda e, as relações deste
com o desdobramento da figura paterna, no período compreendido entre 1950-2007, foram
identificados os eventos críticos7 de maior relevância para a organização no que se refere ao
processo sucessório (Quadro 1) e os períodos estratégicos (Quadro 2).
Neste período (1950-2007), foram identificados 19 eventos críticos, os quais são
apresentados no Quadro 1.
Evento crítico
Ano
1. Fundação e fechamento de diversas empresas e fundação da empresa Veículos Debacco
1950-1966
S/A (1ª empresa do Grupo Debacco).
2. Morte do principal sócio do Grupo Debacco.
1968
3. Fundação da Retificadora Debacco Ltda
1969
4. Aquisição de terreno no município de Entre-Ijuís para futuras instalações da empresa
1973
Veículos Debacco S/A; fundação da Comercial Debacco Ltda e Hotel Debacco Ltda.
5. Morte de outro sócio fundador e inauguração de uma filial da empresa Veículos Debacco
1976
S/A em Ijuí – RS.
6. Inauguração das novas instalações da empresa Veículos Debacco S/A na BR 285,
1980
município de Entre-Ijuís.
7. Fechamento do atacado de peças da Retificadora Debacco S/A e da filial da empresa
1988
Veículos Debacco S/A em Ijuí.
8. Morte do último sócio fundador da empresa Veículos Debacco S/A.
1989
9. Mudança da razão social da Retificadora Debacco S/A para Retificadora Debacco Ltda.
1993
10. Doação parcial de ações das empresas, realizada pelos dois sócios não pertencentes à
1994
família Debacco aos seus filhos.
11. Mudança da razão social da empresa Veículos Debacco S/A para Veículos Debacco
1996
Ltda.
7
Eventos críticos: mudanças estratégicas (planejadas ou não) que têm influência decisiva no curso do processo
de adaptação estratégica – no caso da presente pesquisa: do processo sucessório de uma organização
(CUNHA, 1996).
119
12. Crise da Retificadora Debacco Ltda.
1995-1996
13. Cisão da sociedade – dissolução do Grupo Debacco; venda da empresa Veículos
1997-1999
Debacco Ltda (que muda a razão social para Veísa Missões Ltda); abertura da Debacco
Participações Ltda e, arredamento do Hotel Debacco Ltda.
14. Entrada da filha – sócia herdeira – para a Retificadora Desordi Ltda.
15. Reestruturação organizacional na Retificadora Debacco Ltda e Fundação da empresa
1999
2000-2002
Desordi Desordi e Cia Ltda.
16.Saída do filho mais novo da Retificadora Debacco Ltda.
2001
17. Mudança da razão social da Retificadora Debacco Ltda para Retificadora Desordi Ltda.
2002
18. Nova crise da Retificadora Desordi Ltda
2005-2007
19. Saída da filha da empresa e da sociedade.
2007
Quadro 1 – Eventos críticos
Fonte: Entrevistas da autora.
Nº
Períodos estratégicos
Descrição
I
1950-1993
Discurso Capitalista
II
1994-1999
Discurso do Mestre
III
1999
Discurso da Histérica
IV
2000-2002
Discurso Universitário
V
2002-2207
Discurso do Analista
Quadro 2 – Processo sucessório da Retificadora Desordi Ltda (1950-2007) – períodos estratégicos
Fonte: Pesquisa da autora.
O estudo da cada período estratégico focalizará, num primeiro momento, a descrição
dos eventos críticos que caracterizam as mudanças estratégicas que marcam o desdobramento
do processo sucessório, interpretado a partir dos quatro discursos lacanianos, apresentados de
modo mais abrangente no capítulo 3. A seguir realizar-se-á a análise teórica de cada período a
partir de abordagens teóricas (apresentadas nos capítulos anteriores) que possibilitaram uma
explicação das mudanças ocorridas em cada período e de suas relações com o desdobramento
da função paterna. A explicação teórica permite uma melhor compreensão dos eventos e dos
significados destes.
Na análise dos períodos é possível verificar as categorias analíticas propostas por
Pettigrew (1987), abordada nos capítulos correspondentes aos aspectos metodológicos e à
revisão bibliográfica. O contexto externo das mudanças estratégicas que perpassam o
processo sucessório no período de 1950-2007 foi descrito no capítulo 2, mais especificamente
nos estudos sobre a família, a empresa familiar, função paterna e, o declínio da função
120
paterna. O contexto interno, por sua vez, é apresentado juntamente com a descrição dos
eventos críticos que marcaram a trajetória da empresa em cada período. O conteúdo das
mudanças (o que mudou – o processo sucessório) consta tanto da descrição dos eventos
críticos de cada período, quanto da análise teórica, onde o processo sucessório é explicitado
de forma mais precisa. Da mesma forma, o processo das mudanças, isto é, a maneira como o
processo sucessório foi concebido e desdobrado, se encontra relatado tanto na descrição dos
eventos críticos dos períodos estratégicos, quanto da análise teórica dos mesmos.
4.2.1 Período Estratégico I – Discurso Capitalista (1950-1993)
No período de 1950-1993, nove eventos configuram o discurso capitalista
predominante na empresa: 1) fundação de diversas empresas e fundação da empresa Veículos
Debacco S/A (1ª empresa do grupo Debacco); 2) morte do principal sócio do Grupo Debacco;
3) fundação da Retificadora Debacco Ltda; 4) aquisição de terreno no município de EntreIjuís para futuras instalações da Veículos Debacco S/A; fundação da Comercial Debacco S/A
e Hotel Debacco Ltda; 5) morte de outro sócio fundador e inauguração de uma filial da
empresa Veículos Debacco S/A em Ijuí; 6) inauguração das novas instalações da Veículos
Debacco S/A na BR 285; 7) fechamento do atacado de peças da Retificadora Debacco Ltda e
da filial da empresa Veículos Debacco S/A em Ijuí; 8) morte do último sócio fundador; 9)
mudança da razão social da Retificadora Debacco S/A para Retificadora Debacco Ltda.
Evento Crítico 1: fundação e fechamento de diversas empresas e fundação da
empresa Veículos Debacco S/A – 1ª empresa do Grupo Debacco – 1950-1966
O período que compõe o evento 1 é caracterizado pela fundação e fechamento de
dezenove empresas em sua maioria no município de Santo Ângelo, Noroeste do Estado do
Rio Grande do Sul, por três irmãos da família Debacco: empresa de ônibus – atual Viação
Tiaraju Ltda; dois postos de gasolina – hoje Ipiranga e Brites; empresa de transporte de
madeira; empresa de transporte de alfafa; loja de confecções; empresa de ônibus, no
município de São Borja – E – Metral -; concessionária de tratores SBT em São Borja e Santo
Ângelo; Expresso Viaduto – transportadora; loja de eletrodomésticos – hoje uma das filiais
das lojas Colombo. Todas essas empresas foram fechadas ou vendidas.
Em 1959, a Expresso Viaduto expandiu. Foram adquiridos dez caminhões novos e
“foram associadas 10 pessoas nesses caminhões” (SIC).
121
Em 08/04/1964 os irmãos Debacco fundaram a Veículos Debacco Ltda concessionária
da Mercedez-Benz – primeira empresa do Grupo Debacco. A razão social da empresa mudou
alguns meses depois para Veículos Debacco S/A, abrindo assim o capital para novos sócios.
Em 1966, a Expresso Viaduto foi fechada e, admitiu-se na composição da sociedade
da empresa Veículos Debacco S/A dois de seus sócios. Esses sócios não faziam parte da
família Debacco e, tornaram-se, em outro período gestores da Comercial e da Retificadora
Debacco Ltda – empresa que passaram a compor o Grupo Debacco.
A loja de eletrodomésticos foi a empresa que permitiu reunir um montante financeiro
para a abertura da concessionária da Mercedez-Benz.
A partir da abertura de capital foi dado início aos projetos de construção das
instalações da empresa. O prédio antigo foi demolido para ceder lugar ao novo que se
destinava a abrigar, no primeiro piso, o escritório e a exposição. Os andares superiores,
concluídos mais tarde destinavam-se ao Hotel Debacco Ltda.
Evento Crítico 2: Morte do principal sócio do Grupo Debacco (1968)
Em 28/04/1964 faleceu um dos sócios fundadores da empresa Veículos Debacco S/A,
vitimado por acidente de automóvel. Era um dos três irmãos da família Debacco e, maior
acionista. Em função da partilha de bens (inventário), seus filhos ingressaram na empresa.
Evento Crítico 3: Fundação da Retificadora Debacco Ltda (1969)
A Retificadora Debacco Ltda foi instalada em dois prédios construídos para este fim.
Todas as máquinas foram importadas da Dinamarca. Em 1972, mudou a razão social para
Retificadora Debacco S/A.
Esta empresa em sua origem era um departamento da empresa Veículos Debacco S/A.
A demanda por reforma de motores dos caminhões vendidos aumentou, surgindo a
necessidade de um local maior e mais apropriado para este fim. Os funcionários recebiam
treinamento na matriz da Mercedez Benz em São Paulo, obedecendo aos padrões técnicos da
fábrica. De igual forma, a administração da concessionária da empresa Veículos Debacco S/A
seguia as diretrizes da matriz. Não havia muita autonomia.
Evento Crítico 4: Aquisição de terreno no município de Entre-ijuís para futuras
instalações da empresa Veículos Debacco S/A, fundação da Comercial Debacco Ltda e do
Hotel Debacco Ltda (1973).
122
Com a conclusão da BR 285, no ano centenário de Santo Ângelo, os gestores da
empresa Veículos Debacco S/A voltaram sua atenção ao trevo de acesso para o Entre-Ijuís,
adquirindo áreas de terreno no local. Foi elaborado um projeto para futuras instalações dessa
empresa no local.
Nesse mesmo ano, foi fundada a Comercial Debacco Ltda. A empresa também era,
inicialmente, um departamento da Veículos Debacco S/A. A partir do crescimento da
demanda de acessórios para os caminhões vendidos e, com a perspectiva de mudança de local
da empresa Veículos Debacco S/A, optou-se por ocupar as instalações com essa empresa.
O Hotel Debacco Ltda, que já estava previsto no projeto inicial para atender à
demanda de caminhoneiros e clientes em potencial da empresa, foi fundado neste ano.
Evento Crítico 5: Morte de outro sócio fundador e inauguração de uma filial da
empresa Veículos Debacco S/A em Ijuí (1976)
Também vitimado por acidente de automóvel em 06/07/1976, veio a falecer mais um
dos irmãos Debacco – sócio fundador da empresa Veículos Debacco S/A.De igual forma, por
inventário, ingressaram seus filhos na empresa.
Neste mesmo ano, em função do aumento da demanda de clientes e de serviços no
município de Ijuí fundou-se a filial da empresa Veículos Debacco S/A nesse município.
Evento Crítico 6: Inauguração das novas instalações da empresa Veículos Debacco
S/A na BR 285, município de Entre-Ijuís (1980)
As novas instalações da empresa passaram a ter 5.800m2 construídos. O custo do
prédio foi estimado em 61 milhões de cruzeiros. O capital social elevou-se para 74 milhões de
cruzeiros e as reservas da empresa somaram mais de 45 milhões de cruzeiros.
A venda de caminhões atingia uma média de 100 caminhões por mês.
Evento Crítico 7: Fechamento do atacado de peças da Retificadora Debacco S/A e da
filial da empresa Veículos Debacco S/A de Ijuí (1988)
Esse evento se deve ao fato de que as fábricas de peças passaram a vender direto aos
consumidores – pessoas físicas, garagem de automóveis, pequenas oficinas, entre outros.
Há que se considerar também que a Retificadora Debacco Ltda, bem como a
Comercial Debacco Ltda, embora tenham deixado de ser departamentos da empresa Veículos
Debacco S/A e, passado à condição de empresa, não sofreram mudança na forma como eram
123
administradas, ou seja, tinham seus gerentes e chefes de setores, porém seus gestores
exerciam suas funções de administradores nos seus escritórios na empresa Veículos Debacco
S/A, distantes da realidade das duas novas empresas. Por essa mesma razão, foi fechada a
filial da Veículos Debacco S/A de Ijuí.
Evento Crítico 8: Morte do último sócio fundador da Veículos Debacco S/A (1989)
Em 24/02/1989, igualmente vitimado por acidente de automóvel, veio a falecer esse
gestor. Esse tinha um casal de filhos, sendo que seu filho mais velho havia falecido de forma
trágica. A filha, da mesma forma que os herdeiros dos demais sócios falecidos ingressou na
empresa em função do inventário. Esta passou a trabalhar na empresa, na função de gestora,
com os demais sócios diretores – dois não pertencentes à família Debacco. Foi a única
herdeira da família Debacco a permanecer na empresa.
Os dois sócios diretores restantes que iniciaram com a família Debacco, juntamente
com a herdeira, passaram a tratar da cisão do Grupo Debacco, que mais tarde ocorreu.
Evento Crítico 9: Mudança da razão social da Retificadora Debacco S/A para
Retificadora Debacco Ltda (1993)
Os dois sócios diretores compraram todas as ações dos sócios minoritários da
Retificadora Debacco S/A, mudando assim a razão social para Ltda. Igualmente, compraram
as ações da Comercial Debacco Ltda. Com o objetivo de apressar a cisão do Grupo Debacco.
Análise Teórica do Período Estratégico I
Entre 1950 e 1993, a Retificadora Desordi Ltda surgiu como uma das empresas do
Grupo Debacco – Retificadora Debacco Ltda. Esse primeiro período estratégico da empresa –
desse Grupo – é caracterizado fortemente por um discurso capitalista.
Esse novo discurso na verdade, expressa uma inversão no discurso do mestre ou no
discurso do pai. É uma inversão através da qual o sujeito ($) e o significante mestre (S1)
trocam de lugar (COHEN, 2006). Tal inversão tem como objetivo indicar a dependência do
sujeito em relação ao objeto mais-de gozar.
Lacan (1992) indicava que o que se opera entre o discurso do senhor antigo- do mestre
– e, o do senhor moderno – capitalista -, é uma modificação no lugar do saber: “o sinal da
verdade está agora em outro lugar. Este deve ser produzido pelos que substituem o antigo
escravo (...) produtos consumíveis tanto quanto os outros” (1992, p.29-30).
124
Para Dufour (2005), esse traço parece caracterizar a virada pós-moderna: o
desaparecimento ao outro – o efeito anunciado de um esvaziamento simbólico, momento em
que “uma parte da inteligência do capitalismo se pôs à serviço da redução das cabeças” (2005,
p.10).
O limite absoluto da dessimbolização – desaparecimento do Outro, da anterioridade
fundadora -, afirma Dufour (2005), é quando mais nada vem assumir o encaminhamento dos
sujeitos para a função simbólica, encarregada da relação e da busca de sentido. Nunca se
chega aí verdadeiramente, mas quando a relação de sentido desfalece, é sempre em detrimento
do próprio da humanidade, a discursividade, e em proveito da relação de forças.
Cohen (2006) vai questionar que tipo de economia psíquica faz com que se pague
qualquer preço pelo prazer e se busque cada vez um a mais, ainda que, muitas vezes, ao preço
da dor ou da morte. Para a autora, o saber é calculado seguindo uma lógica matemática em
que o valor de uso, a punição dos bens, implica o pagamento de um a mais de gozo.
Nesse sentido Semprini (1999) pontua que uma transformação social nunca é
estritamente mecânica e quantitativa. Ela implica uma profunda transformação dos equilíbrios
e posições, das identidades e das representações.
Do mesmo modo, conforme Taylor (1998), o que a idade moderna tem de novo não é
propriamente a necessidade de reconhecimento, mas sim as condições que podem levar uma
tentativa de reconhecimento falhar. No período pré-moderno nem a identidade nem o seu
reconhecimento eram suficientemente problemáticas para serem discutidas como tal.
Dufour (2005) argumenta que na pós-modernidade não há Outro no sentido do Outro
simbólico: um conjunto incompleto no qual o sujeito possa verdadeiramente enganchar uma
demanda, uma pergunta ou apresentar uma objeção.
O efeito imediato pontuado por Lebrun (2004) observado no social é o nivelamento
dos enunciados, o apagamento da dissimetria de lugares e das diferenças tanto a dos sexos
quanto das gerações, indispensáveis à vida social. Dessa forma, de acordo com Melman
(2003), hoje a transmissão é apenas positiva: transmitem-se bens ou dívidas reais. E o que se
transmita? O essencial: um dom, uma maneira de compreender o mundo, um conjunto de
elementos que regiam as atitudes e as formulações.
Na condição de sintoma contemporâneo, a sucessão, nesse período, denota ser a
possibilidade de o herdeiro tomar o que está no campo do Outro para seu próprio uso e, da
mesma forma, a fundação de inúmeras empresas, sem relações entre si, sem objetivos
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compartilhados. Empresas que permaneceram em sua maioria no mercado apenas por curto
período de tempo, não evidenciando estratégias empreendedoras – ou qualquer outro estilo
estratégico - mas uma experimentação sem limites do campo do Outro.
Porque inversão no saber? O saber, a transmissão oriunda da lei do pai, do mestre,
representante do Outro, não é operacionalizado pela lei do pai nesse grupo de empresas, nesse
período. O próprio mestre – o pai – é ele próprio um objeto, dependente dos objetos
oferecidos pelo Outro – mercado -. Em outras palavras, os herdeiros passaram à condição de
herdeiros não por uma transmissão simbólica, mas pela morte real de seus genitores, pela
castração – corte – no real. A falência, venda, etc, de praticamente todas as empresas abertas
demonstra ter sido o corte no real a forma de operacionalizar esse período. O preço da herança
foi muito caro e, impossibilitou-os de assumir esse lugar de herdeiros, pela dificuldade de
operacionalizar uma morte simbólica de seus genitores, o que lhes permitiria o exercício da
assinatura do Nome do Pai – a herança de um dom e, não de bens e dívidas reais. Outro fator
importante a considerar é o fato de que os eventos críticos são aleatórios. Parece não haver
uma lógica que os organize.
Gozar a qualquer preço denuncia a existência de uma transmissão que tem por base a
suposta igualdade entre homens e mulheres e, entre adultos e crianças, regidos pela ética do
consumo. Como conseqüência dessa suposta igualdade, difunde-se na cultura uma promessa
de gozo segundo a qual quase tudo é permitido.
Os herdeiros, assim como seus genitores, não deixaram suas marcas, pois não a
receberam pela lei do Pai. Esse fato é denunciado pela falta de informações sobre eles. Estão
apagados simbolicamente. Assim como seus pais, alguns tiveram mortes trágicas e todos sem
exceção, venderam suas ações – bens e dívidas reais que herdaram – nas empresas – cortes
reais.
Uma ruptura nessa dinâmica veio a ocorrer com a fundação da empresa Veículos
Debacco Ltda, momento a partir do qual, houve intervenção na administração, pela Mercedez
Bens. A fábrica em São Paulo tinha por estratégia o controle de todas as concessionárias no
País, desde abertura de regiões de venda, treinamento de funcionários, etc. Esse aspecto pode
ter funcionado como uma intervenção terceira, simbólica nas empresas e, talvez por isso, suas
marcas possam ser identificadas no momento atual.
Outro aspecto, nesse sentido, foi a entrada na empresa Veículos Debacco Ltda, logo
após sua fundação, de dois sócios não pertencentes à família Debacco.
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O fechamento do atacado de peças na Retificadora Debacco Ltda parece ter sido um
momento de reflexão crítica sobre a forma como ocorria o processo administrativo dessa
empresa, nesse período, E, a decisão dos dois sócios, a partir da morte do último gestor da
família Debacco de comprar as ações dos sócios minoritários da Retificadora Debacco Ltda e
da Comercial Debacco Ltda e, dar início a cisão do Grupo Debacco, denota um primeiro
movimento verdadeiro de mudança.
4.2.2 Período Estratégico II – Discurso do Mestre (1994-1999)
No período de 1994-1999 aparecem quatro eventos críticos: 1) doação parcial de ações
das empresas, realizada pelos dois sócios não pertencentes à família Debacco, aos seus filhos;
2) mudança da razão social da empresa Veículos Debacco S/A para Veículos Debacco Ltda;
3) crise da Retificadora Debacco Ltda; 4) cisão da sociedade – dissolução do Grupo Debacco;
venda da empresa Veículos Debacco Ltda, que muda a razão social para Veísa Missões
Veículos Ltda, abertura da Debacco Participações Ltda e arrendamento do Hotel Debacco
Ltda.
Evento Crítico 10: Doação parcial de ações das empresas realizada pelos dois sócios
não pertencentes à família Debacco aos seus filhos (1994)
Esta decisão dos sócios foi motivada por preocupações dos mesmos tanto com a
empresa e seu futuro quanto com o futuro dos filhos e familiares. A partir de então, alguns dos
filhos destes acionistas passaram a trabalhar na empresa Veículos Debacco S/A. Um dos
sócios visava ficar com a Retificadora Debacco Ltda e o outro com a Comercial Debacco
Ltda. A herdeira, sócia majoritária, ficaria com a empresa Veículos Debacco S/A.
Evento Crítico 11: Mudança da razão social da empresa Veículos Debacco S/A para
Veículos Debacco Ltda (1996).
Nesse período foram realizadas as compras de ações dos sócios minoritários dessa
empresa pelos dois diretores acionistas não pertencentes à família Debacco, com o objetivo de
apressar o processo de dissolução do Grupo Debacco.
Evento Crítico 12: Crise da Retificadora Debacco Ltda (1995-1996)
A Retificadora Debacco Ltda passou por uma dificuldade financeira. A crise
financeira se instaura na empresa motivada, principalmente pelo contexto interno,
especialmente pela forma como era administrada: “de longe” (SIC). Isso implica em dizer que
os gestores permaneciam com seus escritórios na empresa Veículos Debacco Ltda. Somado a
127
isso, a morte dos principais acionistas, a compra das ações, produziu uma desconfiança
interna, um descuido com o faturamento – compras e vendas mal planejadas, recursos
humanos mal distribuídos, organização do trabalho ruim, entre outros fatores. Essa crise já
havia iniciado no período estratégico anterior.
Optou-se por vender o setor de peças para uma empresa de Porto Alegre – PRP –,
antigo fornecedor de peças da Retificadora Debacco Ltda. A empresa ficou apenas com a
venda de peças para os serviços internos.
Nessa época, um dos dois gestores principais assumiu a administração desta empresa,
“in loco” (SIC), levando consigo seus filhos, que estavam trabalhando na empresa Veículos
Debacco Ltda.
Evento Crítico 13: Cisão da sociedade – dissolução do Grupo Debacco, venda da
empresa Veículos Debacco Ltda, que muda a razão social para Veísa Missões Veículos Ltda,
abertura da Debacco Participações Ltda e arrendamento do Hotel Debacco Ltda (1997-1999)
Nesse momento, depois de longo processo de avaliações, auditorias contábeis,
jurídicas, econômicas, patrimoniais, foi realizada a cisão parcial da sociedade, ficando assim
distribuído o controle acionário:
- Hotel Debacco Ltda: o controle acionário fica com a herdeira da família Debacco,
que decide arrendar o hotel.
- Veículos Debacco Ltda: o controle acionário é transferido para a herdeira da família
Debacco. O negócio foi vendido em 1998 para a concessionária da Mercedez-Benz de Passo
Fundo, mudando a razão social para Veísa Missões Veículos Ltda. Em 1999, foi aberta a
empresa Debacco Participações Ltda para gerir o aluguel do patrimônio (prédio, instalações).
- Comercial Debacco Ltda: O controle acionário passa para a família Ritter, que decide
vender o negócio e o patrimônio.
- Retificadora Debacco Ltda: O controle acionário é transferido para a família Desordi,
que em pouco tempo compra as ações de todos os sócios e, continua com ações na Debacco
participações Ltda.
Nesse momento, os sócios – agora unicamente a família Desordi – conseguem
recuperar o setor de peças, anteriormente vendido para a PRP de Porto Alegre. Também
houve redução do quadro de funcionários, de funções, sendo algumas terceirizadas:
vendedores externos e contabilidade.
128
Análise Teórica do Período Estratégico II
Esse período caracteriza-se pela desconstrução da dinâmica discursiva do período
anterior e pela instauração de um novo discurso predominante: o discurso do mestre.
O discurso do mestre pontua Lacan (1992), ou do senhor, implica que ele representa
um sujeito para outro significante (S2). E em tal relação, no entanto, e justamente na medida
em que ela não se sabe, que reside a base do que se sabe, do que se articula. Para operar com
o esquema do discurso do mestre, digamos que o trabalho escravo, invisivelmente, é que
constitui um inconsciente não revelado. A psicanálise vem demonstrar que o saber não é uma
totalidade fechada.
Mrech (2005) comenta que o governador ou o senhor autoriza-se com base em sua
subjetividade, esperando obter do governado ou do escravo a produção de objetos
manufaturados ou industrializados para usufruir: objetos de gozo. A lei caracteriza sua
mestria, não a regra puramente imaginária e ideativa. Portanto, é o discurso por excelência,
uma vez que sua tese é a de que tudo deve submeter-se à lei. Há um saber sobre tudo. Nas
palavras de Lodi (1994), os valores são o que mantém a empresa familiar integrada,
cimentando as relações entre os membros da família acima das diferenças individuais. Para
Mrech (2005), o discurso do mestre é o laço civilizador que exige renúncia pulsional,
promovendo o rechaço do gozo que retorna sobre a forma de superego. Esse discurso produz
os desejos da civilização (sob a forma de mais gozar). É o discurso do desejo, portanto, do
inconsciente.
Mrech (2005) propõe que se imagine o governante – o gestor, na empresa familiar –
no lugar de agente do discurso (S1) autorizando-se com base em um saber de mestre sabe
tudo. Ele exige que seus filhos – sucessores – (S2) produzam saberes capazes de materializar
suas intenções. Tudo está submetido a uma lei que ele próprio determina do lugar de agente.
Tudo, exceto uma coisa: “a produção gera objetos à revelia da lei, que jamais são
materializados conforme ‘planejados’ pelo mestre. Dessa subversão, surge um ($) como efeito
de verdade que está sob a barra das determinações legais” (2005, p.106).
Mrech (2005) defende que o princípio de todo discurso seja o do mestre, por sempre
inaugurar o significante primeiro-traço de lei (S1
S2). Entretanto, o mestre deve operar
nele para não se reconhecer nele, deve utilizar-se do discurso do mestre para não permanecer
ali. “Sabemos que tal discurso quer tudo submeter à lei, não admitindo qualquer falta ou furo.
129
Essa constatação evoca à pulsão de mestria, que reclama para si a perpetuação de uma
imagem de poder, sob a sutura significante da lei, agora eternizada na regra” (2005, p.110).
Conforme a autora, a regra viria tão somente instituir idéias moralizantes e
imaginárias, ao sucumbir o ato original da lei como estofo de identificação simbólica – marca
necessária para se reconhecer na diferença.
Pereira (2008) pontua que é justamente nessa hiância entre paternidade e fraternidade
que se institui o discurso, a grande instituição, resultante imediata desse contrato social,
dessas obrigações mútuas, dessa justiça a que Freud se refere em Totem e Tabu (1913[1912]),
ao colocar que toda instituição, em suas diversas formas de organização social – Estado,
escola, exército, igreja, etc -, são substitutas do pai, como são seus indivíduos-governantes,
padre, professor, general, etc. Isso porque, comenta Pereira (2008), o ato inventa um pai. Os
pais são construídos pelos filhos (CORSO e CORSO, 2010).
Lacan (1995) define o pai real como agente da castração e diz que a função desse pai
não é da natureza do ato, mas é um efeito de articulação significante. Sem a articulação
significante não pode haver ato.
Wainztein (2001) argumenta que para Lacan, no caso do discurso do mestre trata-se do
impossível de governar. Essa função é impossível para o mestre porque para efetuar essa
função ele deve transmitir sua própria castração já que ele, o pai, é também um sujeito da
linguagem. O pai real é impossível já que ele não é outra coisa que o efeito de linguagem.
Nesse período o gestor que assume o controle acionário da Retificadora Debacco Ltda
– o governante, o mestre, o pai – instaura um novo discurso, que assume as características
predominantes do discurso do mestre, porque a lei caracteriza sua mestria e, por ser lei,
reorganiza lugares e exige renúncia.
Que ato(s) desse gestor produz efeito de lei, de mestria?
Alguns podem ser enumerados: a compra de ações, juntamente com o outro gestor,
dos sócios minoritários, forçando a ruptura ou cisão do Grupo Debacco; a doação de ações
aos filhos herdeiros, a transferência dos filhos para a empresa na qual escolheria, após a cisão,
o controle acionário.
Os filhos, nesse momento, não participaram dessas decisões do gestor. A eles foi
imposta a lei, o ato do pai – a sua mestria. A eles – filhos – cabia cumprir a lei. O que se
130
transmite, juntamente com as ações doadas, pela via da linguagem, é a lei do pai – do mestre,
o princípio de todo discurso.
O discurso fundador – o ato – institui um caráter mítico totêmico atribuído à figura do
mestre (fundador) – registro do imaginário que reveste esse lugar fundante – real e simbólico.
As narrativas sobre o início da empresa, sua história, a história do fundador, sobre esse
período de rupturas, se multiplicaram na empresa e, a cada história contada, recriam esse
momento inicial, de origem.
4.2.3 Período Estratégico III – Discurso da Histérica (1999)
Nesse período – 1999 – merece destaque um evento: entrada da filha – sócia herdeira
para a Retificadora Debacco Ltda.
Evento Crítico 14: Entrada da filha – sócia herdeira – para a Retificadora Debacco
Ltda (1999)
O objetivo do gestor para essa contratação pode ser assim desdobrado: reunir todos os
filhos, propor mudanças na organização, planejar o futuro dos filhos, da organização e,
igualmente, o seu, pois demonstrava interesse de, aos poucos, afastar-se da administração da
empresa. O gestor demonstrava uma insatisfação – acreditava que os filhos deveriam ter mais
responsabilidade.
Os herdeiros realizam, juntamente com o gestor, um diagnóstico da organização.
Os instrumentos utilizados foram, basicamente, entrevistas de análise de funçõesdetalhamento das atividades realizadas por um funcionário em seu setor -, com todos os
funcionários, gerentes e com o gestor da empresa.
Os dados levantados podem ser assim resumidos: os funcionários, sem exceção,
reclamavam da “falta de chefe” (SIC). “Todo mundo faz o que quer” (SIC). O fundador era
considerado um pai para eles, que estavam na empresa em média de 15 a 25 anos.
As entrevistas revelaram muitos problemas:
- no setor de vendas: veículos mal cuidados; viagens desnecessárias – três vezes por
dia para o mesmo município, por exemplo; os clientes “eram dos vendedores” (SIC), pouco
conhecidos dos donos e gestores da empresa; não havia controle de viagens, considerando que
a empresa prestava serviço, na época, para quarenta municípios;
131
- no setor de retífica: desperdício de peças – “peças matadas” (SIC), ou seja, quando
manuseadas incorretamente são inutilizadas; atraso na entrega dos serviços; falta de
programação dos serviços; uso indevido ou não uso dos equipamentos de segurança; brigas
entre os funcionários; problemas com a seleção de lixo – a prefeitura não levava o lixo
produzido no setor e, as multas eram constantes.
- no escritório: não se fazia cadastro de clientes; não havia controle de clientes por
região; não havia controle de pagamento dos clientes – inadimplência muito alta; não havia
controle ou contas definidas no caixa, que permitissem relatórios e acompanhamentos; não
havia setores definidos – o que dificultava o processo de compra e venda. As compras eram
feitas sem troca de informações com o setor financeiro.
- recursos humanos – (contratação, demissão, férias, benefícios, etc): estava a cargo do
contador – terceirizado. A grande maioria dos funcionários estava há mais de dois anos sem
gozar de férias, entre outras questões levantadas.
Ainda assim, um dos pontos positivos levantados se relaciona à qualidade dos serviços
prestados, considerada muito alta em relação às retificadoras da região.
Análise Teórica do Período Estratégico III
Esse período vem demonstrar uma série de efeitos decorrentes do período anterior ou
seja, tudo deve estar submetido à lei, exceto que a produção gera objetos à revelia da lei, que
jamais são materializados conforme planejados pelo mestre (MRECH, 2005). Dessa
subversão, surgem sujeitos ($) como efeito de verdade.
A queixa do gestor de que esperava maior responsabilidade e comprometimento dos
filhos/herdeiros denota que há uma impossibilidade de tudo saber, de tudo governar. E, este
descompromisso dos herdeiros com às exigências do mestre os reanimam enquanto
sujeitos ($).
O diagnóstico aponta problemas e, uma certa subversão em toda a empresa. Os
sintomas pontuados, de certa forma estão presentes na maioria das empresas familiares,
conforme descrito na bibliografia.
E o que evidencia o discurso da histérica? O fato de que, aqui, o sujeito é aquele que
mantém o discurso. Logo, o Outro, assinala Mrech (2005), é tomado sempre como mestre
para estimular seu desejo, mas um mestre (barrado de seu saber) sobre o qual o sujeito
histérico reine e ele não governe. A insatisfação do desejo é a marca e a queixa, efeito de sua
132
impotência. É, pois, o desejo de saber, que institui o desejo do histérico. Mas a verdade do
saber que esse discurso supõe acha-se no sintoma, que permanece exterior ao discurso como
tal, mas que é por ele necessariamente evocado.
O discurso histérico se faz presente nesse momento, quando o gestor (sujeito) se forja
ambíguo, barrado, dividido pela própria operação do discurso do mestre que, evidentemente,
produz nesse sujeito o desejo de saber sobre a sua divisão ou sobre a divisão que seu ato
promoveu.
Nessa posição, o saber é impotente para dizer a verdade (FLESLER, 2001). E nisso
insiste Lacan (1992): a verdade não é o que a lógica entendeu, não surge da relação entre o
verdadeiro e o falso, como rapidamente se poderia apreendê-la, mas da divisão do sujeito,
causada justamente pela falta de objeto. “O saber é impotente para dizer o que está na causa
da divisão do sujeito” (FLESLER, 2001, p.47). Lacan (1992) agrega assim aos três
impossíveis de Freud (1937), o impossível de fazer desejar (WAINZTEIN, 2001). Os seres
humanos ao falarem se enganam, porque a palavra coloca uma distância em relação ao gozo,
separando então, gozo e saber (WAINZTEIN, 2001).
A isto se refere o sujeito dividido: entre o que diz e o que sabe há uma diferença pela
ação da palavra. Por isso, a articulação desse discurso requer a realização de certas operações,
para que alguém se pergunte sobre a causa de seus sintomas. Não se cresce naturalmente:
tempos de redistribuição do gozo são solidários com um corte que houve – com tempos de
descontinuidade.
Nesse período, o mestre – gestor, pai, abdica da posição de mestria. O mestre deve
operar no discurso do mestre para não permanecer ali, para não se reconhecer ali (MRECH,
2001). A perpetuação de uma imagem de poder evoca a pulsão de mestria (MRECH, 2001).
O gestor abre mão de uma imagem de poder e constata nele próprio a castração, o
efeito da lei, do ato realizado no período anterior. Sofre os efeitos de sua própria divisão como
sujeito, sofre com uma verdade que não havia calculado. Esse momento é necessário para que
algo diferente se produza.
4.2.4 Período Estratégico IV - Discurso Universitário (2000-2002)
Nesse período 2000-2002 – podem ser destacados dois eventos críticos:
1) reestruturação organizacional na Retificadora Debacco Ltda e fundação da empresa
Desordi Desordi e Cia Ltda; 2) saída do filho mais novo da Retificadora Debacco Ltda.
133
Evento Crítico 15: Reestruturação organizacional da Retificadora Debacco Ltda e
fundação da empresa Desordi Desordi e Cia Ltda (2000-2001)
Uma reestruturação organizacional tem início em 2000, a partir do diagnóstico
organizacional realizado no período anterior, com a participação de todos os sócios herdeiros
e do fundador. Optou-se, com o auxílio do sócio herdeiro mais novo, estudante de
Administração na época, bem como com a supervisão de auditores, pela adoção das seguintes
medidas:
- Na oficina: mapeamento de funções, modificações do layout dos maquinários,
distribuição de ferramentaria necessária para cada funcionário, venda de maquinários
desnecessários, organização do trabalho com o objetivo de cumprir prazos, agilizar compras
de peças necessárias para o serviço interno, confecção de ordens de serviços, laudos de
motores, manutenção das máquinas, controle e distribuição de EPIs aos funcionários,
treinamentos com intuito de diminuir acidentes de trabalho, limpeza do setor, pesquisa e
destinação correta dos tipos de lixo originados no setor, higiene dos funcionários, horários e
locais adequados para lanche, reuniões semanais com os funcionários, visando a melhoria no
relacionamento com outros setores.
- No escritório: foram definidas as funções - cadastro, faturamento, vendas, marketing
-. Foram atualizados os cadastros de todos os clientes; colocando em dia cobrança e
faturamento, tendo em vista que este era realizado a cada dois, três meses, elevando assim, a
inadimplência. Foram organizadas as vendas e viagens dos vendedores na região. De igual
forma, foram criadas normas operacionais para cada atividade, bem como relatórios para
análise e, reuniões periódicas nos setores.
- Recursos Humanos: Foram regularizadas as férias e observadas algumas das queixas
de funcionários.
A empresa optou ainda pela implantação do PGQP (Programa Gaúcho de Qualidade e
Produtividade).
Em função da reestruturação, a empresa passou a fazer parte do CONAREM
(Conselho Nacional de Retíficas de Motores) e da ARERGS (Associação das Retíficas do Rio
Grande do Sul). O CONAREM realiza auditorias semestrais e faz exigências específicas no
setor de retíficas. As retificadoras integrantes do CONAREM garantem atendimento aos seus
clientes em qualquer lugar do país.
134
Durante o processo de reestruturação, inúmeros funcionários antigos saíram e houve a
necessidade de elaborar esse momento. A empresa se orgulhava de não ter rotação de pessoal.
Era uma “empresa estável” (SIC). Porém, para surpresa dos sócios, funcionários e fundador,
percebeu-se que não havia movimento algum na empresa. Tudo funcionava da mesma forma
há 30 anos aproximadamente. A empresa se obrigou a enfrentar um processo de novas
contratações e questionar a forma de realizá-las. Que funcionários contratar? Optou-se por
realizar convênio com uma escola técnica do município e com o SENAI e, também, por
treinar e capacitar esses funcionários na própria empresa.
As novas contratações, capacitações e inúmeras demissões tornaram esse período
bastante oneroso para a empresa. O próprio processo de reestruturação trouxe inúmeras
mudanças não previstas, oriundas do desdobramento das propostas apresentadas.
A partir da modificação de todo layout da empresa, um prédio inteiro foi desocupado
– a empresa estava instalada em dois prédios.
No prédio desocupado fundou-se a empresa Desordi, Desordi e Cia Ltda,. A empresa
surgiu a partir do projeto do filho mais novo, ao término do Curso de Administração
(Trabalho de Conclusão de Curso). Esse herdeiro partiu do pressuposto de que, no futuro, não
haveria mercado para retífica de motores. “Os motores seriam descartáveis” (SIC). Assim
sendo, a empresa precisava prospectar novos nichos de mercado. Foi projetada a
operacionalização dessa ideia, bem como a capacitação de pessoas para operacionalizar o
projeto e, a empresa surgiu no mercado.
O capital investido foi o recebido pelos sócios na venda do negócio da empresa
Veículos Debacco Ltda.
A filha optou por não entrar na nova sociedade.
Evento Crítico 16: Saída do filho mais novo (2001)
O mentor da proposta de reestruturação da empresa e do projeto da nova empresa
decide sair, sem, no entanto, sair da sociedade.
Passou em um processo seletivo para a vaga de Administrador na Nestlé em Porto
Alegre, logo após sua formatura.
Foi um momento difícil para a empresa, bem como, para a família, mas, a empresa se
reorganiza e segue no seu processo de reestruturação.
135
Análise Teórica do Período Estratégico IV
Nesse período predomina o discurso universitário. Esse discurso produzirá o terreno e
as condições estruturais para a passagem ao discurso do analista (NANCLAVES, 2001).
Nanclaves (2001) pontua que esse discurso teve um marcante deslizamento social,
próprio do momento e dos acontecimentos históricos durante os quais Lacan (1992),
desenvolve o seminário Avesso da Psicanálise. Momento este em que tiveram lugar na França
os fatos ocorridos durante o mês de maio de 1968. “Seu epicentro foi a universidade”
(NANCLAVES, 2001, p.114).
Para Mrech (2005) o gestor ou o educador, no discurso universitário, autoriza-se do
autor, da bibliografia, para impor o saber ao Outro objetivado – o que estaria em posição de
aprender as tarefas. Produz-se, assim, por mais paradoxal que seja, um revoltado, um
contestador.
O discurso universitário acrescenta a autora, é apenas o conservador e transmissor do
saber dos grandes autores. Seu saber é um saber verdadeiro que se reveste de referência aos
mestres (MRECH, 2005). Torna-se, então, o guardião da letra alheia na impotência de
inscrever a sua própria. Esta é a forma do discurso moral que busca a mestria interior, segue a
autora, tese oposta à ideia do inconsciente. “A linguagem é a condição da inconsciente. A
maneira pela qual o traduzem obedecem a razões que certamente poderiam ser totalmente
ativadas por motivos estritamente universitários” (LACAN, 1992, p.39).
Lacan afirma que há o mito do Eu Ideal no discurso do universitário. É o mito do Eu
que domina, do Eu pelo qual alguma coisa é igual a si mesma: o enunciador.
Este discurso coloca Nanclaves (2001), foi frequentemente tomado em seu aspecto
pejorativo. Isto porque está ligado a um tipo de transmissão de saber – próprio da transmissão
do ensino universitário – ao qual em princípio o discurso analítico se opõe. Entraria em
contradição com o princípio do impossível através do qual Freud definiu a tarefa de educar.
Deixaria de lado, sem reconhecer o que resta de toda relação de ensino, de toda relação do
sujeito ao Outro: o objeto a.
“Alguém que ocupe o lugar totalizante do saber – um educador, um pai, uma mãe, um
gestor – deixa em posição de alienação absoluta o Outro que se pretende educar ou governar”
(NANCLAVES, 2001, p.114).
136
Educa-se, não se pode não educar. E, o discurso universitário tem então uma função
insubstituível, mas não se pode educar todo o real dado que este resiste a uma totalização de
sua educação (AMIGO, 2001).
O discurso da ciência é o discurso que advoga a profissionalização, a substituição dos
mestres por técnicos e administradores profissionais, por novos líderes, novas competências
(GONÇALVES, 2000). Para o autor, esse discurso propõe o estigma da incompetência
pressuposta às empresas familiares.
Em um âmbito maior, é o discurso da globalização, do encurtamento dos espaços e
tempos, do desaparecimento das metanarrativas, dos papéis clássicos que definiam as famílias
tradicionais. Resta aos herdeiros, a difícil tarefa de descobrir como administrar o paradoxo de
fundar-se, tendo como ideal a transformação (CORSO e CORSO, 2010).
Toda a empresa foi envolvida nesse processo de reestruturação. Optou-se por instituir
um cronograma de atividades e um planejamento operacional em conjunto com os
funcionários. Apesar disso, as resistências apareceram: sobrecarga de trabalho – execução do
trabalho de rotina e, a operacionalização das mudanças.
Nessa sobrecarga de trabalho inclui-se a carga psíquica, especialmente o apagamento
do fundador, que, já no período anterior, declina do seu lugar de mestre, viabilizando a
ascenção dos herdeiros à administração e à gerência da empresa e consequentemente, das
mudanças.
Surge, assim como efeito desse processo, a contestação. São inúmeros os pedidos de
demissão, a não sujeição a essa objetivação e formalização do saber.
No entanto, esse movimento discursivo do fundador, viabiliza um espaço aos
herdeiros, que conseguem ultrapassar esse pai/gestor – inovando, sem, no entanto, destituí-lo
de seu lugar de gestor, representante da lei, através da qual foram marcados.
O reconhecimento do gestor foi importante não só para continuidade dos trabalhos na
empresa, mas, de forma individual, também possibilita a saída de um dos herdeiros da
empresa, após ter seus projetos reconhecidos nas comunidades onde foram apresentados –
universidade e empresa. Foi marcado e, deixou suas marcas.
A possibilidade de uma escolha necessita, antes, da lei. Isso evidencia que o saber da
ciência, a educação não cobre o real. Essa escolha evidencia um novo discurso fundador, uma
nova inserção discursiva de mestria.
137
4.2.5 Período Estratégico V - Discurso do Analista (2002-2007)
Este período – 2002/2007 - constitui-se por três eventos críticos: 1) mudança da razão
social da Retificadora Debacco Ltda para Retificadora Desordi Ltda; 2) nova crise da
Retificadora Desordi Ltda; 3) saída da filha da empresa e da sociedade.
Evento Crítico 17: Mudança da razão social da Retificadora Debacco Ltda para
Retificadora Desordi Ltda (2002)
Nesse momento optou-se pelo nome da família na razão social da empresa, passando
para Retificadora Desordi Ltda, sendo que a partir desta data, a empresa passa a ser
administrada pela segunda geração da família Desordi, com a presença do fundador na
empresa.
Em agosto de 2002, a empresa foi surpreendida com a decisão do fundador de se
afastar da administração e da representação legal da empresa, que passou a ser legalmente
representada por seus filhos.
Este foi um momento em que as mudanças seguiram um ritmo mais lento. O efeito
dessa decisão precisou ser elaborado pela empresa, bem como todas as alterações realizadas.
Foi um processo de luto – do fundador/da tradição.
O setor de recursos humanos recebeu um investimento maior. A admissão/demissão
passaram a ser dialogadas. A empresa investiga tanto a necessidade de contratar como de
demitir pessoas. Além dos procedimentos legais, passou-se a realizar entrevistas com estes
funcionários, levando em consideração a função e suas relações com demais funções dentro
da empresa.
Foi implantado também o Programa de Saúde Ocupacional, o Programa de Prevenção
de Riscos Ambientais, o Levantamento Técnico das Condições Ambientais de Trabalho,
supervisionado pela Unimed, levando em consideração as exigências do Ministério do
Trabalho.
Foram ampliados os benefícios que passaram a contar, além da Unimed, com serviço
odontológico, realizado pela unidade móvel do SESI, empresa sorriso – serviço de prevenção
odontológica, ginástica laboral. Foram ampliados os convênios oferecidos pela Associação
dos Funcionários da Retificadora Desordi Ltda, etc.
138
Também foram retomados alguns cursos técnicos de capacitação que, com a rotação
de pessoal se tornaram necessários, além, é claro, da necessidade imposta pelo mercado.
Evento Crítico 18: Nova crise da retificadora Desordi Ltda (2005-2007)
Nesse período, a empresa enfrenta uma crise financeira devido à quebra de safra na
agricultura. Os clientes da empresa eram 90% agricultores.
Novamente foi necessário demitir funcionários e retomar o processo de reestruturação
que estava em ritmo lento, devido às inúmeras mudanças ocorridas e, da necessidade de
elaborá-las.
No final desse processo, a empresa constata que, em função das reestruturações e
mudanças discursivas nos períodos anteriores, consegue superar a crise, com certa
tranqüilidade e, sai fortalecida. Denota-se que os processos de mudança passaram a fazer
parte da rotina da empresa, foram incorporados.
Evento Crítico 19: Saída da filha da empresa e da sociedade (2007)
A filha sai em função da percepção de que a empresa internalizou como parte de sua
rotina os processos de mudanças. Esta opta, então, por retomar projetos pessoais.
Análise Teórica do Período Estratégico V
Esse período caracteriza-se pela sucessão na empresa, oportunizado pelo ato do gestor
de retirar-se da administração e da representação legal da empresa, caracterizando assim, uma
virada discursiva que põe em evidência o discurso do analista.
Amigo (2001) coloca que o discurso do analista é um discurso que aparece em um
momento punctiforme e que comanda a produção possível do ato analítico.
No momento em que o analista – gestor – leva a cabo seu ato, imediatamente após
esse ato vai haver uma rotação e vai aparecer outra vez o discurso do inconsciente que é o do
mestre ou, do fazer desejar que é o da histérica ou, ainda do saber, que é o do universitário.
Em seu discurso, o analista - gestor – autoriza-se do saber do inconsciente para obter
do sujeito analisante – herdeiro – sua pura diferença, sua particularidade, coloca Mrech
(2005). Surge no lugar da verdade o saber inconsciente: um saber não sabido. O ato analítico
trata o Outro como sujeito do desejo.
139
O gestor, o professor, investido do lugar de objeto causa do desejo (a) sobre um saber
inconsciente (S2), faz implicar um sujeito – o aluno, o sucessor -, na sua pura diferença ($), a
produzir sua própria marca de singularidade (S1).
Por isso é possível afirmar que é pelo discurso do analista que existe alguma chance de
obter outro estilo de significante mestre, como o fez Amigo (2001), apoiada em Lacan.
Nesse período, os herdeiros assinam o Nome do Pai na própria razão social da
empresa. “O patronímico concerne a uma paternidade simbólica, a um pai morto desde
sempre” (POMMIER, 1992, p.24). Aqui, pode-se dizer que houve a sucessão nesta empresa
familiar. Houve a transmissão de um dom, assumido pelos herdeiros que, no ato de assinatura,
legitimam a morte desse pai e, atestam sua singularidade a cada assinatura, pagando, desta
forma, a dívida com o pai. Dívida impagável, renovada a cada assinatura.
No real da imagem – presença do fundador – a transmissão da lei não é possível,
porque o visível alberga em si sua verdade acabada (PEREIRA, 2008). A morte simbólica –
imputa a interdição. Por isso, o pai é uma construção forjada pela linguagem. E, retomando
Freud (1913[1912]), toda instituição é um substituo do pai.
A possibilidade de recriar esse pai permite a saída da filha. Permanecem dois herdeiros
– agora gestores – e, o fundador. A empresa está num momento mais reflexivo.
A nova crise exigiu um reposicionamento dos gestores, um novo estilo de mestria e
uma análise de todo o percurso percorrido. A empresa entendeu que, caso não houvesse
passado por uma reestruturação, não teria suportado esse momento. “... o que é indício de que
alguém passou ao menos por algumas voltas importantes na sua análise é que possa circular
de um discurso ao outro” (AMIGO, 2001, p.79).
140
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As variáveis que compõem o processo sucessório são construções que não estão
firmadas unicamente na racionalidade da administração. Nessa perspectiva, a pesquisa
propôs-se a compreender, a partir da interpretação possível pela teoria psicanalítica, em
particular, os quatro discursos de Lacan, o processo sucessório da Retificadora Desordi Ltda,
no período compreendido entre 1950-2007 e, as relações estabelecidas com a função paterna,
entendida como reguladora das referências simbólicas na cultura.
Buscou-se esclarecer quais foram as mudanças estratégicas que propiciaram
desdobramentos na função paterna e, no processo sucessório, como foram desenvolvidas e
implementadas e quais fatores determinaram tais mudanças naquele período.
O que Freud nos mostrou em suas obras, especialmente em Totem e Tabu é que não
existem irmãos, não existe vida em sociedade sem que seja colocada, primeiro, a função
paterna. O crime, proposto por Freud inaugura a sociedade fraterna, principia uma série
ininterrupta de assassinatos, próprios da existência humana.
O acesso à cultura passa pelo reconhecimento da função paterna, que coloca os filhos
em uma posição de dependência, presos entre o desejo e a identificação e, rege um sistema de
parentesco, regras de aliança e de filiação como, o reconhecimento da diferença entre os sexos
e das gerações. Em outras palavras, retira o indivíduo de sua mera constituição biológica.
A cultura tem ainda a função de defender o homem contra a natureza, de protegê-lo do
desamparo, do anseio pelo pai e, de consolá-lo pelos sofrimentos e privações que uma vida
civilizada em comum impõe.
A educação/transmissão tem como efeito o deslocamento do corpo da mãe para o
corpo social, com a consequente possibilidade de habitar o coletivo e compartilhar dos valores
preconizados numa determinada época e cultura, deslocamento este que se produz por obra
daquele que encarna a função paterna. Trata-se de uma transmissão de pai. Ser pai implica
141
para quem ocupa esse lugar um reposicionamento frente à linguagem. Portanto, trata-se de um
significante que marca uma posição frente ao mundo. O que também ocorre com aquele que
ensina. Tem seu lugar no mundo marcado por uma posição: a de desejar o desejo de aprender
o outro.
A ruptura dual – a operação edípica – inscreve o sujeito no lugar de ser desejante e,
também, instaura uma dívida que põe em questão o ser em relação a esses significantes
constituintes da metáfora paterna. Portanto, é na relação a essa dívida que o sujeito irá traçar
os caminhos da sua vida, é na referência à sua filiação que lhe será possível empreender
rumos. E é a partir dessa dívida, que se abrem as possibilidades do ato educativo/sucessão.
Da análise histórica e interpretativa do processo sucessório da organização e das
relações deste com o desdobramento da função paterna, conclui-se sobre cinco períodos
estratégicos que descrevem os principais eventos críticos ocorridos na empresa objeto de
estudo. O primeiro, que vai de 1950-1993, caracteriza-se pelo discurso capitalista.
Este discurso é reconhecido pela inversão no discurso do mestre e, por seu efeito
imediato: o desaparecimento do Outro, uma modificação no lugar do saber, um esvaziamento
simbólico. O que prevalece são as relações de força.
Em outras palavras, pode-se afirmar que uma transformação social implica em uma
mudança de equilíbrios, posições, identidades e representações. Nesse caso, a novidade
moderna são as condições que podem levar uma tentativa de reconhecimento falhar.
Essa falha no reconhecimento pode ser observada no nivelamento dos enunciados, no
apagamento da dissimetria de lugares e das diferenças.
Nesse contexto, a transmissão é apenas positiva: bens ou dívidas reais. Não há o
compromisso da transmissão de valores – lei – de uma geração à outra. Em contrapartida, não
há o reconhecimento de uma dívida entre sucessores e sucedidos. A sucessão/transmissão é
apenas a possibilidade de tomar o que está no campo do Outro para seu próprio uso – o que
pode ser observado no surgimento e dissolução do Grupo Debacco.
A transmissão/ sucessão/ ensino passam pela lei do pai, representante do Outro. No
capitalismo, o próprio representante do Outro, da lei se torna um objeto, dependente dos
objetos oferecidos pelo Outro – no caso aqui – do mercado.
No segundo período (1994-1999), predomina o discurso do mestre.
142
A lei caracteriza a mestria e sua tese é a de que tudo deve submeter-se à lei. Aqui,
pode-se observar o discurso clássico da bibliográfica sobre as empresas familiares: os valores
são o que mantém a empresa familiar integrada.
O discurso do mestre é o laço civilizador e exige renúncia pulsional.
Porém, os escravos – filhos/sucessores -, que são a base de um saber não reveladoinconsciente, vão produzir à revelia da lei, o que aparece como sintoma no discurso seguinte –
da histérica.
O princípio de todo discurso pode ser o do mestre, por inaugurar o significante
primeiro (lei). Entretanto, o mestre deve operar nele para não se reconhecer nele. Deve
utilizar-se do discurso do mestre para não permanecer ali.
O que se observa nas empresas familiares é o fato de que o mestre/fundador evoca
uma pulsão de mestria, reclama para si a perpetuação de uma imagem de poder. A psicanálise
vem demonstrar que o saber do mestre não constitui uma totalidade fechada. O pai real
(fundador) é o agente da castração, desse laço fundador. A função desse pai é da natureza do
ato, efeito de linguagem. E, o discurso do mestre vem demonstrar o impossível de governar.
O ato fundar, de inaugurar, vai constituir um caráter mítico. No caso das empresas
familiares,
as
narrativas
vão
(re)construir
infinitamente
esse
ato.
Cada
filho/funcionário/gestor, através das narrativas, irá construir esse pai real, que é impossível,
visto que é linguagem.
O terceiro período (1999) se configura a partir do discurso da histérica.
A insatisfação do desejo é a marca desse discurso e a queixa, efeito de sua impotência.
Trata-se do impossível de fazer desejar. O sujeito dividido é aquele que mantém o discurso.
Esse sujeito toma o Outro como mestre. Porém, que esse mestre não reine.
A verdade do saber que esse discurso supõe acha-se no sintoma e permanece exterior
ao sintoma. A verdade não é o que a lógica entendeu, não surge da relação entre o verdadeiro
e o falso, mas da divisão do sujeito.
Nas empresas familiares, em particular, na empresa estudada, são evidentes as queixas
relacionadas a uma produção que não atende ao desejo do mestre, igualmente castrado e
impotente em fazer os escravos/sucessores desejarem. Um sujeito dividido entre o que diz e o
que sabe pela ação das palavras.
143
Esse discurso é importante porque denota, na empresa estudada, um declínio da
mestria, da imagem do poder, o que permite tempos de corte e redistribuição do gozo: tempos
de descontinuidade e de perguntas sobre a causa dos sintomas.
O quarto período (2000-2002) é marcado pelo discurso universitário.
Na bibliográfica especializada, a empresa familiar recebeu o estigma da incompetência
pressuposta diante do discurso da ciência que propõe a profissionalização e a substituição do
mestre por técnicos e administradores profissionais, por novos líderes e novas competências.
Exige dos herdeiros a difícil tarefa de administrar o paradoxo de fundar-se, tendo como ideal
a transformação.
Esse estigma revela o mito do Eu Ideal nesse discurso universitário. Um discurso que,
no entanto, não educa todo o real, dado que este resiste a uma totalização de sua educação.
O discurso universitário é o conservador e transmissor do saber dos grandes autores,
se reveste de referência aos mestres, é o guardião da letra alheia e, produz o terreno e as
condições estruturais para a passagem ao discurso do analista.
Esse discurso teve uma função insubstituível na empresa estudada, tornou possível um
processo de reestruturação, a partir do declínio da imagem de poder do fundador, que autoriza
esse giro discursivo.
O quinto período (2002-2007) é regido pelo discurso do analista.
O discurso analista trata o outro como sujeito do desejo, a partir do ato.
Nesse momento, os herdeiros da empresa estudada surgem como pura diferença, ou
seja, mostram suas particularidades.
Nessa condição, os herdeiros passam a assinar o Nome do Pai – o patronímico – pai
morto. Assumem uma dívida impagável, renovada a cada assinatura.
A sucessão – a transmissão – não seria possível no período estratégico de
predominância do discurso do mestre, no qual os herdeiros estavam na condição de escravos
e, deveriam produzir o que o mestre e sua lei determinavam.
No momento de predominância do discurso do analista a transmissão torna-se
possível. A morte do pai, anunciada no discurso do mestre, pela operação da lei e, reafirmada
pelo esvaziamento da mestria, propicia a instituição do discurso, que substitui o real da
imagem, que alberga em si a verdade acabada.
144
A mestria deve se declinar de sua imagem para ajudar o sujeito a reconhecer a palavra
plena e, portanto, simbólica (MRECH, 2009).
Considerando os quatro discursos de Lacan, importa observar que não é relevante a
base discursiva a partir da qual o gestor – pai/fundador – opere na empresa familiar. Ele deve
fazê-los girar. Qualquer tentativa de fixação discursiva pode induzir um imaginário especular
e dual a suturar a pura diferença de sujeitos. Com exceção do discurso do analista que, pela
própria estrutura de esvaziamento imaginário, produz um sujeito do desejo no lugar do outro.
A partir dessa leitura pode-se afirmar que o ato de administrar uma empresa familiar
na contemporaneidade deve ser marcado pelo esvaziamento do mestre, que deve ser
convocado e (re)convocado como lei simbólica. Isso implica em dizer que os herdeiros, por
outro lado, não desfrutam de um lugar passivo. O esvaziamento do mestre os obriga a ter que
fundar-se a partir da lei e produzir transformação. O declínio da função paterna só é possível
de ser pensado no discurso capitalista que forclui – torna sem efeito - a lei do Pai.
Dentre as contribuições que o presente estudo propiciou, merecem destaque: (1) a
análise das contribuições da psicanálise na compreensão do processo sucessório de uma
empresa familiar e a da relação deste com o desdobramento da função paterna; (2) a
inferência de que o processo sucessório de uma empresa familiar se produz a partir de efeitos
discursivos; (3) a utilização de uma metodologia de pesquisa que privilegiou a análise numa
perspectiva histórica, contextual e processual; (4) maior conhecimento sobre a história, as
mudanças e a evolução de um processo sucessório de uma empresa tradicional, que
desempenha papel relevante na região de sua inserção; (5) e, por fim, um conjunto de
informações importantes para os administradores da empresa objeto de estudo que, por certo,
permite uma reflexão sobre o tema estudado, como também subsídio para ações e decisões
futuras.
Finalmente, julga-se que esta pesquisa teve êxito na resposta ao problema e na
concretização dos seus objetivos. E, é possível afirmar a proposição: Papai trabalha sim!
145
SUGESTÕES
Entende-se oportuno registrar duas proposições finais a título de recomendação.
A primeira refere-se à continuidade da pesquisa na própria empresa. A Retificadora
Desordi Ltda, como foi possível observar, passou por mudanças profundas e sofreu
descontinuidades no seu processo de sucessão e, nas suas relações com o fundador/pai.
Atualmente, está acolhendo a terceira geração. Deve-se levar em consideração, também que,
nessa pesquisa não foram utilizados, de forma mais analítica, os dados econômicofinanceiros, nem tampouco, as escolhas estratégicas administrativas ou, ainda, as questões de
governança corporativa que podem ser relacionados aos resultados já obtidos.
Seria importante, portanto, avaliar os resultados dessas questões.
A segunda recomendação sugere a utilização de novos estudos, a partir da psicanálise,
na área organizacional, visando a novas proposições e, assim, contribuir para a construção de
uma reciprocidade mais sólida entre essas duas áreas de estudo.
146
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Silvana Aparecida Desordi - Biblioteca Digital da UNIJUÍ