CIDADE FRONTEIRAS ESTABELECIDAS VERSUS FRONTEIRAS ROMPIDAS : UM ESTUDO SOBRE A CONSTITUIÇÃO DO MOVIMENTO SOCIAL DOS TRABALHADORES SEM TETO DE CASCAVEL. Claudimara Cassoli Bortoloto Alexandre José Rossi Rita de Cássia Fagundes Rosangela de Lima RESUMO As eminentes transformações da sociedade brasileira, tais como a mecanização no campo, desenvolvimento industrial e a modernização das cidades, tiveram grandes custos sociais, dentre eles destacamos a organização ( formação) do espaço da cidade, que se constitui com o trabalho da classe trabalhadora, qual concomitantemente é espoliada e relegada desse espaço organizado. Porém da mesma maneira que o capital invade as cidades, principalmente como agentes segregadores expressos na especulação imobiliária, no baixo poder aquisitivo da classe trabalhadora, no alto preço dos aluguéis, e nas dificuldades de sobrevivência imposta pela modernização, faz por emergir nesse contexto os Movimentos Sociais oriundos das experiências de privações e pauperização da classe trabalhadora . O enfoque desse trabalho concentra-se em investigar a constituição do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto de Cascavel a partir das experiências dos sujeitos que o constitui. Pretende-se desvendar a ousadia de pessoas que ocupam uma área Central da Cidade, e que há cinco anos resistem através de uma luta permeada por conflitos, tensões e disputa, onde as reivindicações vão além da aquisição da casa própria. O suporte teórico metodológico da história oral objetivará delinear o processo das experiências vividas, bem como revelar outros sujeitos históricos que surgem como protagonistas de uma outra história. Palavras - Chave: Movimento Social, cidade, ocupação, resistência. INTRODUÇÃO As experiências cotidianas no espaço da cidade vem sendo objeto de estudo investigado por vários pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento. O objetivo de compreender essas experiências como práticas de resistência e rejeição ao modelo dominante leva simultaneamente a descoberta de outros sujeitos que constituem esse espaço. Dessa forma este artigo busca dar bases de uma pesquisa qual vem sendo desenvolvida, cujo principal objeto de estudo é compreender através das experiências cotidianas a constituição do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto de Cascavel. A pesquisa faz-se necessária, uma vez que as investigações e estudos que têm tratado da emergência dos movimentos sociais urbanos, tem sido limitada aos grandes centros urbanos, sendo então esta produção acadêmica restrita as cidades de menor concentração. Desse modo, não estando estas cidades interiores imunes as contradições do Sistema Capitalista, pois também compartilham do processo de urbanização, industrialização e modernização e por isso passam a demonstrar concomitantemente as contradições dos viveres urbanos, tornam-se simultaneamente palco de outras cenas e consequentemente emerge outros protagonistas, que aparecem nesses espaços disputando lugares, reivindicando direitos, impondo presenças, cruzando fronteiras e constituindo com suas vivências cotidianas novos lugares e territórios. As experiências dos sujeitos que constituem o presente movimento social nesta pesquisa torna-se objeto de estudo, demonstrando que a cidade não está pronta e acabada mas se constitui através das vivências cotidianas e vai se compondo pelas lembranças da vida, quando fazem menção aos viveres anteriores à vida urbana, bem como a realidade de viver à cidade. Desse modo, as experiências desses trabalhadores estão intimamente relacionadas com o desenvolvimento urbano desta cidade, Lúcio Kowarick e Clara Ant investigando os viveres urbanos da população pobre de São Paulo nas primeiras décadas do Século XX, delineiam as estratégias de sobrevivência dessa população face a insuficiência salarial desde os primórdios da industrialização. Tornava-se visível a carência de habitação para os trabalhadores, bem como a ausência do desenvolvimento de políticas públicas para este fim, restando ao trabalhador o desenvolvimento de moradias compatíveis com as suas condições materias, neste momento emergem destas condições os cortiços sendo esta a primeira forma de habitação da classe trabalhadora no espaço da cidade. As formas de habitar na cidade vem se transformando ao longo do tempo, iniciando-se com os cortiços, posteriormente a periferização das cidades com o deslocamento da população pobre para os mais distantes lugares, muitas vezes destituídos de serviços urbanos, básicos para a sobrevivência na cidade, além da emergência de favelas com a auto construção. A cidade de Cascavel, assim como a maioria das cidades brasileiras se caracteriza pela dispersão da população. Os trabalhadores são constantemente deslocados de um espaço para outro, este deslocamento ocorre geralmente de periferia para periferia, ou Centro para Periferia e em raras exceções da periferia para o Centro, como demonstra o depoimento da ocupante Cida: morei no Tarumã, morei no Interlagos de aluguel. há gente, era umas casa, uns lugar horrível, sabe! Nos fundo, das casa dos otro assim, as pessoas, não tem paciência com a gente, era só eu ele meu marido, que minha filha, já se liberô, ela já é de maior, ela trabalha pra ela né! Ela foi mora em Santa Catarina, foi trabalhá prá ela, ai eu peguei, e daí, que daí nóis viemo morá aqui no Gramado, que a gente já não tinha casa, vivia no aluguel, vivia sofrendo, rolano, e aqui eu, aqui eu gostei né, tem já quatro ano e meio, quase cinco já que eu moro aqui! Eu gostei. Este depoimento expressa a vivência desta senhora nos vários bairros do espaço urbano, com exceção do Jardim Gramado situado em área central onde encontra-se localizada a ocupação, os demais bairros são localizados nos arrabaldes da cidade. O espaço da cidade apresenta-se como contraditório, e as contradições são demonstradas nas restrições dos trabalhadores quanto ao seu acesso, Calvo ao estudar a cidade de Uberlândia como espaço da memória, procurou entender o processo de construção e transformação da cidade enveredando caminhos opostos aos produzidos pela história oficial, que procura alijar dessa história a participação dos trabalhadores para legitimar as práticas de poder. O poder que concede hegemonia a classe dominante, torna-se eficaz no processo de expropriação da classe trabalhadora aos espaços da cidade, utiliza para isso meios como a legislação que tem por objetivo demarcar os espaços das classes mais abastadas e os espaços da classe destituída, como nos mostrará Rolnik: Ao mesmo tempo que a lei alinhavou territórios da riqueza, delimitou também aqueles onde deveria se instalar a pobreza, o movimento desde seu nascimento é centrífugo, ou seja delimita as bordas da zona urbana , ou mesmo a zona rural como local onde esta deveria se alojar. Pp: 47. O espaço urbano de Cascavel caracteriza-se pela divisão entre centro e periferia, Segundo Rolnik esta separação de territórios ocorre em virtude da legislação urbana que pretende controlar e ordenar esse espaço, projetando-a de acordo com os interesses dominantes, ao mesmo tempo em que agem como marcos delimitadores das fronteira de poder. A delimitação destes espaços impostos pela classe dominante, ocorre através da disposição de poder aquisitivo. A classe trabalhadora encontra-se desprovida de recursos que lhe dê condições de habitar ou até mesmo freqüentar áreas centrais. Estas estão providas das benesses estruturais promovidas via legislação urbana, tornando-se encarecidas e acessíveis somente àqueles que por este espaço podem pagar. Desse modo, a constituição do Movimento dos trabalhadores Sem Teto de Cascavel, rompe com as fronteiras que visam a separação da riqueza e pobreza quando passam a ocupar uma área nobre do município O histórico da ocupação delineia não só a presença de outros sujeitos em outros territórios, como também demonstra as tensões e os conflitos entre classes, que perduram ao longo das vivências desses sujeitos no meio urbano qual se acirram com a ocupação A característica privilegiada do Jardim Gramado, hoje ocupado pelo Movimento, até então se caracterizava por imperiosos projetos e condomínios luxuosos qual passou a ser ocupada por outras pessoas que, concomitantemente transformaram a paisagem padronizada de exuberantes mansões e belas casas. A ocupação ocorreu no dia 13 de fevereiro de 1999, por aproximadamente trinta famílias, as ações dessas famílias frente à ocupação estimulou a atração de inúmeras outras advindas de todos os cantos da cidade. Rosângela Petuba ao estudar uma ocupação do Movimento Sem Teto em Uberlândia percebeu que esse processo teve origens espontâneas, iniciadas por algumas famílias e posteriormente foi impulsionado por inúmeras pessoas que tomavam conhecimento desse acontecimento nos mais distintos afazeres do cotidiano. Estas famílias faziam da ocupação a solução para os diferentes problemas de privação vividos na cidade, contribuindo para o inchaço da área visada e a constituição do movimento diante das estratégias de resistência para garantir a permanência no local. O movimento social aqui estudado, passa a ser compreendido a partir de experiências anteriores a sua constituição. Neste sentido, buscamos compreender a cultura como todo modo de vida considerando a memória como parte dela, o processo de lembrar trás neste projeto não só um reavivamento da memória, mas delineia a forma de como esses sujeitos interpretam e relêem as suas trajetórias de vida demonstrando práticas de luta e resistência que são anteriores a constituição do movimento. OBJETIVOS OBJETIVO GERAL Estudar o processo de ocupação de terras pelo movimento dos trabalhadores sem teto de Cascavel a partir das experiências e práticas sociais vivenciadas por esses sujeitos no espaço da cidade, problematizando a formação do espaço urbano e o conflito entre classes. OBJETIVOS ESPECÍFICOS • Pesquisar as experiências dos sujeitos que constituem o movimento social e os significados atribuídos a elas; • Estudar o espaço da cidade caracterizado pelos múltiplos territórios, constituídos pelas experiências sociais; • Estudar os diferentes interesses atribuídos à cidade e os conflitos entre classes; • Estudar as experiências sociais que constituem a identidade social, bem como as contradições e conflitos internos ao movimento. • Estudar a memória enquanto processo de luta e resistência METODOLOGIA E FONTES Ao pretender tomar as experiências dos trabalhadores sem teto para compreender o processo de ocupação de terras, procuramos num primeiro instante dialogar com a produção teórica sobre os movimentos sociais, assim como ter acesso ao maior número de informações sobre o movimento produzida pela imprensa escrita local. No plano mais geral dessa proposta de pesquisa pretendo discutir o processo de ocupação de terras, a partir das experiências vividas pelos trabalhadores no espaço da cidade. Compartilhando do referencial teórico de Raquel Rolnik (1997), que faz uma distinção entre espaço e território. Para esta autora o espaço caracteriza-se pela distribuição geográfica territorial, enquanto os territórios, constituem-se pelas experiências e relações sociais dos sujeitos, da apropriação simbólica, dos significados atribuídos por eles à cidade. O movimento, ao mesmo tempo em que desmistifica a homogeneidade do território urbano imposto pela legislação, demonstra que não só ocupa outro território diferenciando-se da circunvizinhança, como também se constitui por diferentes territórios, que emergem com diferentes práticas sociais, atribuindo portanto diferentes significados. A caminhada dentro do movimento vai aos poucos demonstrando os viveres daqueles que o constituem, nas suas individualidades e subjetividades, tornando-se preponderante buscar investigar como esses sujeitos se situam dentro do movimento, e de que maneira interpretam as contradições e conflitos internos. Segundo Paulo Roberto de Almeida (2004), os movimentos sociais, vem sendo pesquisados por muitos historiadores, cujo foco de pesquisa se limita ao coletivo, não sendo mencionado as experiências vivenciadas subjetivamente por cada sujeito, os conflitos internos aos movimentos, que ocorrem pautados nas suas referências culturais. Para Almeida, mesmo que estas experiências sejam intrínsecas aos indivíduos, elas só se concretizam através das relações sociais, inexistindo fora delas. O desafio aqui está em fazer o caminho de volta para o indivíduo, não no seu princípio liberal, mas buscando suas relações e seus nexos para o social, tentando compreender como são construídas tais relações (p: 145) A realidade apresentada permite a observação de acontecimentos que demonstram a coletividade e a identidade constituída por interesses comuns, assim como, as divergências e as contradições internas do movimento. Algo que chamou a atenção e demonstra tal contradição, refere-se à organização espacial destas famílias. Ocorre uma separação dos que trabalham na informalidade (coletores de recicláveis), daqueles que mesmo trabalhando precariamente, tem uma remuneração fixa, tais como, as empregadas domésticas e aposentados, e por último separam-se os trabalhadores considerados formais, compostos por professores, metalúrgicos, funcionários públicos e outros. Assim como acontece a distribuição espacial conforme o ofício que cada sujeito desempenha na sociedade, percebe-se também que a constituição das moradias no acampamento se dá condicionada as condições financeiras desses sujeitos. Desse modo há a presença de moradias caracterizadas por barracos de lona preta até humildes casas em alvenaria. As entrevistas realizadas até o momento com alguns ocupantes evidenciam que o movimento não é descaracterizado pela distribuição territorial, pois essa constituição demonstra que a estranheza dessas pessoas em juntar-se a tantas outras, que em sua maioria são desconhecidas e tão diferentes, faz com que se aproximem daquelas com quem mais se identificam. A procura de afinidades e a junção de diferentes categorias em espaços separados, na opinião de alguns ocupantes, não só contribui para a organização do movimento, como também o legitima. No entanto torna-se fundamental investigar como os demais ocupantes significam esta separação, uma vez que as entrevistas realizadas até o momento incluem apenas três ocupantes, estando entre elas duas lideranças. As vivências junto ao movimento vão cotidianamente estabelecendo outros caminhos quais tornam-se necessários serem trilhados para compreender tais contradições e como estas interferem ou não no processo de luta. Outras contradições que são perceptíveis são as constantes substituições de famílias e a conseqüente compra e venda de barracos, a utilização do movimento para fins eleitoreiros, a evidência de ações direcionadas para a realização de interesses e favorecimento pessoal. Neste sentido busco compreender não só o que agrega e da coesão ao movimento, mas far-se-á necessária a compreensão de determinadas contradições internas, que neste caso tornaram-se inerentes a constituição do movimento, influenciando diretamente no processo de luta e resistência. Desse modo, as contradições internas ao movimento torna-se uma das questões fundamentais para a compreensão da sua constituição. O paradoxo endógeno ao movimento se apresenta de diversas formas, colocando-se como preponderantes, uma vez que são originárias nas vivências cotidianas, como as tensões entre aqueles que organizam o movimento e aqueles que o constituem, far-seá necessário a investigação de tais relações, delineando qual o significado da liderança para os ocupantes, quem é o líder e quais seus interesses, bem como os significados atribuídos à sua pessoa pelos demais sujeitos que constituem o movimento, observando até que ponto os interesses das lideranças são compatíveis aos interesses dos demais. Souza(1995) quando estuda ocupações de terras por trabalhadores na Zona Leste de São Paulo, observou em duas ocupações o descontentamento e o sentimento de desconfiança dos ocupantes em relação às lideranças. Este sentimento emergia diante da realidade vivenciada, com conseqüentes comentários em torno da venda de lotes por alguns coordenadores. Souza notou que este descontentamento e desconfiança do grupo, interferia diretamente nas ações de solidariedade entre os acampados. Em outro trabalho, Rosangela Petuba (2001) diante do convívio com trabalhadores sem teto, se depara com posições e práticas que a decepcionam, que não correspondem aos seus conceitos de politização, organização, lutas e resistências. A autora se atentava para as relações dos acampados com os representantes políticos, vereadores de partidos conservadores, que muitas vezes, apresentavam um visão positiva da cidade, o que a conduziu a mudar alguns caminhos da pesquisa, uma vez que percebia que a trajetória e luta desses moradores nem sempre eram marcadas por confrontos e divergências. Vislumbrava ainda, que as lutas e resistências estavam muitas vezes ligadas a criação de alternativas impostas pelo cotidiano, constituída por uma lógica política que só poderia ser percebida considerando a trajetória de vida dos trabalhadores. Desse modo, a venda de um barraco pode ter vários significados, sendo compreendida pelo valor material, através da avaliação do custo da construção, pois o morador ao desistir do barraco não o leva consigo, mas o repassa para um substituto, como também pelo valor simbólico, cujo significado é inerente ao processo de luta, as dificuldades impostas pelo movimento, como as intempéries, a estigmatização, o empecilho de conseguir um trabalho, uma vez que faz referência a sua moradia e outros fatores como o favorecimento pessoal de alguma liderança. Compreender os meandros do cotidiano, assim como as experiências vividas tanto daqueles que perduram na ocupação desde o início, como os que são inseridos no movimento a cada dia, requer a compreensão das disposições para continuar a luta, bem como para nela entrar e a realizar coletivamente. Discutindo com o aporte teórico de Arantes para melhor compreender as significações atribuídas à cidade, este autor comenta que este espaço é agregado de tensões e conflitos, quais ocorrem pelo processo de significação dos diferentes sujeitos ao espaço da cidade, formando assim lugares e não lugares, onde os diferentes interesses atribuídos a cidade conduzem os sujeitos a cruzar fronteiras, atravessando territórios interpenetrados. Desse modo, a força dos limites simbólicos nos remete a diferentes sentidos e são neste projeto demonstrados através das construções de imagens negativas dos sujeitos que compõe o movimento, por aqueles que sentem-se incomodados com a sua presença, utilizando-se para isso da imprensa. Ao trabalhar com fontes escritas produzidas pela imprensa local, percebemos que a mídia vem ao longo do tempo construindo via representação dos interesses dos antigos moradores, uma imagem negativa do movimento, cujo objetivo é a assimilação da sociedade proporcionando a sua desmoralização e desmobilização. As reportagens no primeiro momento procuraram alcunhar os ocupantes de pessoas bem estabelecidas na cidade, quais estavam utilizando o movimento para acumular capital, posteriormente mencionavam a desvalorização imobiliária, a presença de bandidos que ameaçam e põe em risco a vida dos antigos moradores, a iminência de transformar a área ocupada em favela e a sensibilidade daquelas famílias frente a situação de miserabilidade imposta pela ocupação. A imprensa cria estereótipos daqueles que fazem parte da ocupação, revelando e posicionando-se para defender os interesses dos antigos moradores que representam algumas das famílias que detém o poder político e econômico da cidade. Contudo, percebemos que os jornais que circulam na cidade, apresentam um objetivo comum quando tratam das tensões que culminam no espaço urbano, qual recai na intenção não só de passar uma imagem negativa do movimento quando tratam da defesa da propriedade privada ameaçada pela “invasão, mas também pela assimilação negativa que se pretende impor de toda a sociedade cascavelense e consequentemente conquistar o apoio desta para contribuir na defesa de seus interesses. Desse modo, pretendemos estabelecer este diálogo privilegiando como fonte de pesquisa a história oral, que possibilitará incorporar toda experiência humana pautada nos valores culturais, identificando as diferenças e descobrindo as práticas sociais que questionam e subvertem a ordem. O ato de narrar delineia as práticas que se forjam na experiência vivida, cabendo então ao pesquisador desenvolver procedimentos que possibilitem apreender o trabalho da consciência e incorporá-lo na explicação histórica. Dessa forma, tenta-se perceber a partir da história de vida narrada pelos ocupantes de terras, a forma pela qual representam e significam o espaço da cidade a partir de suas vivências. O artigo de YARA KHOURY (2004) busca desenvolver uma reflexão sobre a importância da história oral como fonte de pesquisa, onde para ela, o intercâmbio de experiências e pontos de vista entre o pesquisador e o entrevistado, se constitui em um encontro e uma troca, que emerge em locais sociais diversos, através das relações sociais vividas, trata-se de diálogos caracterizados por fronteiras que tem um caráter político, psicológico e afetivo. A autora reflete o potencial da memória como prática política que delineia as formas de como os grupos marginalizados se refazem, reconstroem identidades reinventando tradições e práticas culturais. No dizer de Porteli, a história oral leva o pesquisador a visualizar o que está invisível, as formas de narrar carregam consigo uma linguagem própria imbuída de sentidos e significados, esta linguagem muitas vezes não se expressa somente nas falas, mas se apresenta nos gestos, nos silêncios, nas expressões, enfim no ato de narrar. Contudo, a metodologia da história oral, além de expressar nas falas as experiências sociais e os significados que fazem delas, delineiam outras questões até então não percebidas na pesquisa, Souza (1995) observa a emergência destas questões quando remete a importância das história oral para cobrir as lacunas deixadas pelos documentos escritos. Além das fontes documentais como jornais e a história oral, utilizamos como fonte dados estatísticos, sendo estes retirados do IBGE, e pretendemos nos atentar para outros documentos como o Estatuto da Cidade e o Plano Diretor. As tensões e os conflitos na cidade revelam os embates de diferentes classes sociais, quais projetam sobre ela diferentes interesses, perceber a constituição do movimento social através das práticas e experiências dos sujeitos que o constitui, permite a construção e incorporação de valores culturais, que se dão no cotidiano. Souza (1995) ao estudar uma ocupação de movimento de trabalhadores sem terra em São Paulo percebe que esse processo é contínuo, e constitui-se sob as experiências humanas, a cultura para ele é criação que implica tanto mediação como luta, assim o processo de ocupar terras emerge a partir de valores que são reelaborados no cotidiano, nas novas relações sociais quais os indivíduos se deparam. Não obstante, pretende-se aqui um estudo das práticas cotidianas quais estão engendradas as relações desse grupo, que superam coletivamente as dificuldades que são postas pelo acampamento e travam na luta a resistência frente à dominação, o cotidiano torna-se no movimento área de improvisação de novos papéis informais, proporcionando a possibilidade de conflito e confronto, através da multiplicação de formas peculiares de luta e resistência. RESULTADOS A pesquisa está em fase de desenvolvimento, onde pretende-se com ela alcançar alguns resultados, tais como estudar e compreender a constituição do movimento sem teto de Cascavel, bem como compreender o processo de luta e resistência no espaço da cidade que são anteriores ao movimento qual se acirram com a sua constituição. Estudar e trazer para a história a presença de outros sujeitos sociais quais têm sido relegados pela história oficial. CONCLUSÃO A presente pesquisa qual encontra-se em processo de investigação, não possui uma conclusão, ou resultado final. Tornou-se necessária a partir do interesse de vários pesquisadores quais pretendem conhecer e estudar as ações de outros sujeitos no espaço da cidade, onde o contato com esses trabalhadores quais tem ocorrido de forma direta quando representam o poder público municipal, os levam a observar a importância desses movimentos na cidade, quais refletem a luta pelo direito à cidade, bem como o conflito entre classes refletido nos diferentes interesses em relação a ela. BIBLIOGRAFIA ALMEIDA, Paulo Roberto. Encantos e Desencantos da Cidade: trajetórias, Cultura e Memória de Trabalhadores Pobres de Uberlândia - 1970-2000. In. FENELON, Déa Ribeiro, ANTUNES, Laura, ALMEIDA, Paulo Roberto, KHOURY, Yara Aun( orgs) Muitas Memórias, Outras Histórias. Ed. Olho D’Água, SP.2004. ARANTES, Antônio Augusto. A guerra dos lugares. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. 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