ISSN 0047-2085 CODEN JBPSAX Jornal Brasileiro de Psiquiatria Brazilian Journal of Psychiatry volume 52 • jul/ago 3 jul/ago--200 2003 Publicação bimestral Órgão Oficial do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro – IPUB Alcebíades Gomes Capela Pequenina, 1965 Óleo sobre tela 4 Jornal Brasileiro de Psiquiatria ISSN 0047-2085 CODEN JBPSAX volume 52 • jul/ago 2003 J.bras.psiquiatr. 52 (4): 245-330, 2003 Publicação bimestral Órgão Oficial do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro – IPUB UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE PESQUISA Av. Venceslau Brás, 71 Fundos 22290-140 Rio de Janeiro RJ Brasil Tel: (5521) 2295-2549 Fax: (5521) 2543-3101 www.ufrj.br/ipub e-mail: [email protected] DIRETOR Márcio Versiani [email protected] JORNAL BRASILEIRO DE PSIQUIATRIA [email protected] EDITOR João Romildo Bueno [email protected] EDITORA ASSISTENTE Gláucia Azambuja de Aguiar [email protected] EDITORES ASSOCIADOS E. Portella Nunes Filho [email protected] João Ferreira da Silva Filho [email protected] EDITOR EXECUTIVO Newton Marins [email protected] CORPO EDITORIAL Naomar de Almeida Filho Márcio Amaral Thomas A. Ban Othon Bastos J. M. Bertolote Neury José Botega Marco Antônio Alves Brasil Max Luiz de Carvalho Roosevelt M.S. Cassorla Juarez Oliveira Castro Aristides Cordioli Jurandir Freire Costa Paulo Dalgalarrondo Carlos Edson Duarte Luiz Fernando Dias Duarte Wiiliam Dunningham Claudio Laks Eizerick Helio Elkis Eliasz Engelhardt Rodolfo Fahrer Marcos Pacheco de Toledo Ferraz Ivan Luis de Vasconcellos Figueira Josimar Mata de Farias França Ricardo Gattass Wagner F. Gattaz Valentim Gentil Filho Clarice Gorenstein Mauro Gus Luiz Alberto Hetem Miguel Roberto Jorge Flávio Kapczinski Julio Licinio Carlos Augusto de Mendonça Lima CIP-BRASIL-CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ Programação Visual e Produção Gráfica DIA GR A PHIC Maurício Silva de Lima Pedro A. Schimidt do Prado Lima Ana Carolina Lobianco Mário Rodrigues Louzã Neto Theodor S. Lowenkron Nelson Maculan Jair de Jesus Mari Paulo Mattos Celine Mercier Eurípedes Constantino Miguel Filho Talvane M. Morais Antônio Egídio Nardi Irismar Reis de Oliveira Marcos Palatinik Antônio Pacheco Palha Roberto Ayrton Piedade João Ismael Pinheiro Ana Maria Fernandes Pitta José Alberto Del Porto Branca Telles Ribeiro Fábio Lopes Rocha Jane de Araújo Russo Luiz Salvador de Miranda Sá Jr. Benedetto Saraceno Itiro Shirakawa Jorge Alberto Costa e Silva João Ferreira da Silva Filho Fábio Gomes de Matos e Souza Ricardo de Oliveira Souza Yves Thoret Gilberto A. Velho Walter Zin Antonio W. Zuardi 071 Jornal brasileiro de psiquiatria / Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. — V.1, nº 1 ( ). — Rio de Janeiro: ECN-Ed. Científica Nacional, 2000 v.50 ® E D I T O R A Diagraphic Editora Av. Paulo de Frontin 707 – Rio Comprido CEP 20261-241 – Rio de Janeiro-RJ Telefax: (21) 2502.7405 e-mail: [email protected] www.diagraphic.com.br Pede-se permuta Se solicita el canje Exchange requested Man bittet um Austausch On prie l’échange Si prega lo scambio Mensal Editado pela Diagraphic a partir do V.49 (10-12), 2000 Descrição baseada em: V.47, nº12 (1998) ISSN 0047-2085 98-1981. 1. Psiquiatria - Periódicos brasileiros. I. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Psiquiatria CDD 616.89 CDU 616.89 Sumário 251-257 Esdras Cabus Moreira; George Hamilton Gusmão Soares Dependência de nicotina em pacientes com esquizofrenia: etiologia e tratamento Nicotine dependence among patients with schizophrenia: etiology and treatment 259-265 Luis André Castro; Ronaldo Laranjeira Uso de antagonistas opióides no tratamento do alcoolismo The use of the opioid antagonists in the treatment of alcoholism 267-273 Valéria Barreto Novais de Souza; Francisco Pereira da Silva Júnior; Giselle de Barros Silva; Alexandra Frota Campelo; Ana Rosana Alencar Guedes; Manuela Montenegro Dias de Carvalho; Fábio Gomes de Matos e Souza Comparação do comportamento social de pacientes esquizofrênicos vivendo na comunidade e utilizando antipsicóticos típicos e atípicos Comparison of social behavior of schizophrenic patients living in the community and using typical and atypical antipsychotics 275-282 Flavio Jozef; Jorge Adelino Rodrigues da Silva Homicídio: aspectos epidemiológicos, fenomenológicos e vitimológicos Homicide: epidemilogic, fenomenologic and victimologic aspects 283-289 Liliana Andolpho Magalhães Guimarães; Luciana Negri Teixeira Transtornos mentais e trabalho em turnos alternados em operários de mineração de ferro em Itabira (MG) Mental disorders and alternated shift work of iron ore mining industry workers in Itabira, MG, Brazil 291-297 Flávia de Lima Osório; Sonia Regina Loureiro A atuação do psicólogo no Serviço de Interconsulta Psiquiátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo The activity of the psychologist in the Psychiatrist Interconsultation Service of the University Hospital of the Faculty of Medicine of Ribeirão Preto, University of São Paulo 299-311 Mário Sérgio Ribeiro; Adriana Kelmer Siano; Márcio José Martins Alves; Marisa Sathler Breder; Luiz Cláudio Ribeiro Farmacoterapia de pacientes com transtornos psiquiátricos: hospital geral versus hospital psiquiátrico Pharmacotherapy of patients with psychiatric disorders: general hospital versus psychiatric hospital 313-322 Izabel C. Friche Passos Desinstitucionalização em psiquiatria: um estudo de caso Deinstitutionalization in psychiatry: a case study 323-326 Benedito Paulo Bezerra Idéias, Debates e Ensaios Demandas e direitos na pesca artesanal: reflexões e considerações Errata: No artigo O Uso Ritual de um Alucinógeno no Contexto Urbano: Estados Alterados de Consciência e Efeitos em Curto Prazo Induzidos pela Primeira Experiência com a Ayahuasca, publicado no JBP 2003; 52(3): 181-90, algumas correções precisam ser feitas: 1) na p. 185, em vez de “... 25% da amostra 11,1% na UDV e 31,6% no Santo Daime)”; 2) na p. 185, em vez de “Paz – Quinze (33,3% na UDV e 21% no Santo Daime)”, o correto é “... 25% da amostra (11,1% 53,6% sujeitos (57,1%) relataram...”, o correto é “Paz – Quinze sujeitos (53,6% 53,6%) relataram...”; 3) na p. 185, em vez de “... em relação aos 42,1% (sete sujeitos) do grupo...”, o correto é “... em relação aos 36,8% (sete sujeitos) do grupo...”; 4) na p. 185, Tabela 3, item Curiosidade, em vez UDV – 3 (33,3%) e Santo Daime – 4 (21%), o correto é UDV – 1 (11,1%) e Santo Daime – 6 (31,6%) (31,6%); na p. 187, em vez de “O relato de uma paciente constitui um indicador...”, o correto dinária impor tância aos eventos rituais constitui um indicador...”; 5) na p. 188, em vez de “... a freqüência de 57,1% é “O relato em que se atribui extraor extraordinária importância contrasta com caracterizações majoritárias...”, o correto é “... a freqüência de 53,6% contrasta com caracterizações majoritárias...”. Fontes de referência e indexação: Academia de Ciências da Rússia Biological Abstracts BLDSC – British Library Document Supply Center CAS – Chemical Abstracts Service of American Chemical Society Chemical Abstracts Embase/Excerpta Medica EMDOCS – Embase Document Delivery Service IBICT – Sumários Correntes Brasileiros INIST – Institute de L’information Scientifique et Technique KNAW – Library of The Royal Netherlands Academy of Arts and Sciences LILACS – Index Medicus Latino-Americano NISC Pennsylvania, Inc. Periódica – CICH-UNAM Psychoinfo – American Psychological Association Ulrich’s International Periodicals Directory UMI – University Microfilms International J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 249 Nossa Capa Alcebíades Gomes Capela Pequenina, 1965 Óleo sobre tela De uma forma ou de outra, o quadro era um dos prediletos do autor, que chegava a guardá-lo em seu armário, sem mostrar o distanciamento mantido em relação às outras criações, que só eram lembradas quando elogiadas. Por esta época, Alcebíades andava meio arredio e chegou a ficar alguns dias ausente do hospital, causando preocupação generalizada. Quando voltou, não ofereceu explicação alguma, exibindo durante algum tempo um sorriso misterioso. Trata-se de um dos poucos trabalhos de Alcebíades, o Bide, que são assinados e contêm título no verso. Foi pintado durante a execução de um afresco para ornamentar o antigo pavilhão da Clínica de Orientação da Infância do Ipub (infelizmente, nada resta do grande painel: o edifício, tombado pelo patrimônio, ruiu – o Ipub não podia fazer obras sem permissão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico e Nacional, e este nunca se dignou nos visitar...). A explicação de Bide para o título variava de acordo com seu estado psíquico, indo de uma recordação de infância, “dos tempos em que morava em Campos, numa usina de açúcar”, até fantasiosas lembranças de viagem, “uma capela vista de longe, quando o navio chegava ao porto”. Existem algumas outras pinturas muito semelhantes, em aquarela, feitas pelo autor, inclusive uma série de Casinhas Pequeninas que eram descartadas rapidamente e cuja denominação parecia guardar relação com a canção homônima – Bide era ta mbém membro muito ativo do coral e das atividades de música e dança desenvolvidas pelo serviço de praxiterapia. O objetivo do JBP, ao reproduzir a criação pictórica de seus pacientes, reside na fragilidade destas obras e nas dificuldades de sua manutenção. Some-se a isto o custo elevado das restaurações, que só podem ser feitas quando há patrocínio externo. Com as capas, mantém-se ao menos a reprodução fotográfica... Dependência de nicotina em pacientes com esquizofrenia: etiologia e tratamento Nicotine dependence among patients with schizophrenia: etiology and treatment Recebido em: 21.11.02 Esdras Cabus Moreira1; George Hamilton Gusmão Soares2 Aprovado em: 25.03.03 Resumo Neste trabalho são apresentados dados referentes à etiologia e ao tratamento do tabagismo na esquizofrenia, objetivando uma revisão das evidências científicas que possam ajudar no estabelecimento de um protocolo de atendimento da dependência de nicotina nessa população. A prevalência do uso de tabaco nos indivíduos com esquizofrenia situa-se entre 50% e 90%. Apesar de altíssima, essa prevalência não tem estimulado a criação e o estudo de novos programas que visem a sua redução entre nós. A carência de tais programas pode representar uma concepção desse comportamento na esquizofrenia como causado pela ação positiva da nicotina na redução dos sintomas psicóticos e efeitos extrapiramidais dos neurolépticos. Contudo a hipótese da automedicação não explica o início do uso do tabaco, na maioria desses indivíduos, antes do primeiro surto psicótico. Tal fato favorece a hipótese de um substrato neurobiológico comum às duas condições. Além disso, ensaios clínicos recentes vêm encorajando a utilização de técnicas comportamentais adaptadas ao déficit cognitivo na esquizofrenia e ao baixo funcionamento social desses pacientes em associação à reposição de nicotina e ao uso do antidepressivo bupropiona, este em doses diárias de 150 a 300mg, semelhantes às utilizadas na população geral de tabagistas. Unitermos tabagismo; dependência de nicotina; esquizofrenia; psicose Summary This study presents data about the etiology and treatment of tobacco dependence in schizophrenia, with the goal of reviewing the scientific evidence that can help the establishment of a nicotine dependence treatment protocol in this population. The prevalence of tobacco use among subjects with schizophrenia is around 50% to 90%. Even though very high, this prevalence does not stimulate the creation and the study of new programs to its reduction among us. The lack of such programs can represent a conception of this behavior in the schizophrenia as cause by the positive action of the nicotine in the psychotic symptoms and extrapyramidal effects of neuleptics. However, the hypothesis of self-medication cannot explain the beginning of tobacco use, in most of these patients, before the first psychotic breakdown. This reality enhances the hypotheses of a common substrate for both conditions. Furthermore, recent clinical trails have been stimulated the use of modified behavioral techniques regarding the cognitive deficits and social dysfunction of these patients, associated with nicotine replacement and the prescription of the antidepressant bupropion, used in doses between 150 and 300mg per day, similar to those used in tobacco use by general population. Uniterms tobacco use; nicotine dependence; schizophrenia; psychoses 1Psiquiatra do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (Cetad) da Universidade Federal da Bahia (UFBA); mestre em Saúde Pública pela UFBA; mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Johns Hopkins; Hubert Humphrey Fellow, 2001-2002. 2Psiquiatra do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (Cetad) da Universidade Federal da Bahia (UFBA); coordenador adjunto do Cetad; vice-presidente do Conselho Estadual de Entorpecentes (Conen) – Bahia. J . b r a s . p s i q u i a t r. vol. 52 (4): 251-257, 2003 251 Dependência de nicotina em pacientes com esquizofrenia Introdução A dependência do tabaco entre indivíduos com esquizofrenia é duas a três vezes maior que na população em geral. Não obstante, é grande o pessimismo no tratamento desse problema, na maioria das vezes justificado pelas dificuldades associadas ao déficit cognitivo, à baixa motivação para interromper o tabagismo e ao baixo nível de funcionamento social do paciente psicótico. Existe, ainda, uma valorização do papel da nicotina como automedicação para os sintomas psicóticos e para os efeitos colaterais dos neurolépticos, o que dificultaria a sua abstinência nesses pacientes. Veremos, entretanto, que a associação entre o uso de tabaco e a esquizofrenia não consegue ser explicada apenas pelo modelo da automedicação e que novas intervenções adaptadas a limitações cognitivas e baixo funcionamento social desses pacientes vêm sendo tentadas. Epidemiologia A prevalência do uso de tabaco pelo paciente com esquizofrenia encontra-se entre 58% e 90%13, 22 com uma percentagem elevada de fumantes graves (considerados aqueles com uso de mais de 25 cigarros ao dia). Na população geral americana essa taxa encontra-se entre 25% e 30%25. Associa-se a isso o fato de que os pacientes esquizofrênicos parecem extrair mais nicotina por cigarro do que o fumante normal12. É provável que essa alta prevalência de tabagismo repercuta na morbidade e mortalidade desses indivíduos. As taxas de mortalidade para os transtornos psiquiátricos são maiores do que aquelas para a população em geral26,30. Em particular, essas taxas para os pacientes esquizofrênicos são duas vezes mais altas do que para a população geral. Há, por exemplo, um excesso de mortalidade para doença circulatória e respiratória nesses pacientes30. Acreditamos que esse número elevado de morte por doença respiratória e circulatória tenha relação com a alta prevalência de dependência de nicotina nessa população. Em relação à incidência de câncer nessa população, um estudo multicêntrico da Organização Mundial da Saúde e um estudo holandês19 observaram que os pacientes com esquizofrenia apresentavam redução nos casos de câncer, quando comparados com a população geral, favorecendo a hipótese de uma possível proteção gené252 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Moreira & Soares tica conferida pela esquizofrenia. Entretanto, em um estudo prospectivo com 26.996 pacientes com esquizofrenia na Finlândia, Lichtermann22 encontrou um aumento geral no risco de câncer nessa população, sendo maior para câncer de faringe e de pulmão. Nesse estudo, pela primeira vez foi estudada a incidência de câncer entre parentes próximos (primeiro grau), encontrando-se taxas menores do que as da população. A menor incidência em parentes próximos estaria relacionada a fatores genéticos compartilhados com o paciente com esquizofrenia, conferindo-lhes proteção contra o câncer. Nesse caso, o autor conjectura que essa proteção estaria sendo perdida no paciente pelo uso excessivo de tabaco. Modelos etiológicos O desenvolvimento de modelos etiológicos para a alta prevalência do tabagismo na esquizofrenia é essencial para a estruturação de medidas preventivas e para a implementação de regimes terapêuticos direcionados à especificidade desse fenômeno. Esses modelos também devem explicar a elevada prevalência na vida do abuso de outras drogas nessa população 7 (cocaína, 15% a 50%; anfetamina, 2% a 25%; álcool, 20% a 60%; maconha, 12% a 42%). As hipóteses etiológicas para o uso de tabaco na esquizofrenia podem ser agrupadas em três modelos: automedicação, adição primária e personalidade prémórbida. O modelo da automedicação considera que a motivação primária para o uso da nicotina entre esquizofrênicos encontra-se na melhora das funções cognitivas e dos sintomas psicóticos. O segundo modelo descreve essa comorbidade como relacionada a uma disfunção neurobiológica comum em determinados circuitos subcorticais e corticais, relacionada com os circuitos cerebrais ligados à recompensa. Finalmente, o achado de altas taxas de fumantes graves entre esquizofrênicos pode estar relacionado a traços de personalidade, presentes antes do início dos sintomas psicóticos, semelhantes àqueles que predisporiam a população sem doença mental ao uso inicial do tabaco. A hipótese da automedicacão encontra suporte neurobiológico pela evidência de modulação nicotinérgica em neurônios dopaminérgicos subcorticais e glutaminérgicos corticais10, possivelmente envolvidos na neurobiologia da esquizofrenia. A nicotina agiria aumentando a liberação Moreira & Soares de dopamina no estriato e, assim, aliviando os efeitos extrapiramidais de drogas antipsicóticas ou aumentando a dopamina em neurônios pré-frontais, melhorando os sintomas negativos da esquizofrenia. Outro achado que reforça a hipótese da automedicação é a associação do uso de nicotina com a melhora no potencial evocado por estímulo acústico com latência de 50ms (P50). Numa pessoa normal, a resposta a um segundo estímulo auditivo (medida pela onda P50) é inibida. Entretanto isso pode não ocorrer no indivíduo com esquizofrenia pela redução do glutamato no hipocampo, levando à intensificação do ruído de fundo que acaba por diminuir a atenção e a capacidade cognitiva de processar estímulos. Tem-se observado, entretanto, que a inibição do segundo estímulo é aumentada após o uso de cigarro em pacientes com esquizofrenia23, provavelmente pela ação da nicotina no aumento da atividade glutaminérgica no hipocampo 10. Apesar desses achados, a hipótese da automedicação não consegue explicar por que a maioria desses pacientes começa a fumar antes dos primeiros sintomas psicóticos21. Tal fato, entretanto, pode ser explicado pela presença de características anteriores à psicose, defendido pelo modelo da adição primária. O modelo da adição primária6 determina que a esquizofrenia e a dependência de drogas (inclusive nicotina) são manifestações independentes de uma mesma vulnerabilidade neurobiológica. As drogas de adição parecem agir aumentando o tono dopaminérgico na área tegmentar ventral, atenuando a ação no núcleo acumbente de vias glutamatérgicas aferentes da região pré-frontal e do hipocampo, o que resultaria na diminuição do fluxo de saída gabaérgico nesse núcleo7. Essa inibição do tono gabaérgico estaria relacionada à ativação do comportamento de busca de recompensa e à manutenção do comportamento aditivo. O interessante é que esse estado de menor influência da área pré-frontal e do hipocampo na regulação do fluxo gabaérgico de saída do núcleo acumbente, resultante do uso de drogas, parece ocorrer naturalmente como parte das alterações neurobiológicas nos indivíduos com esquizofrenia, o que aumentaria a vulnerabilidade ao abuso de substâncias psicoativas nessa população. A evidência de alterações neuropsicológicas na atenção e na memória em indivíduos com alto risco de desenvolver esquizofrenia8, bem como as altera- Dependência de nicotina em pacientes com esquizofrenia ções semelhantes em funções cognitivas de execução (atenção e planejamento) nos usuários de drogas, anteriores ao início do uso28, corrobora a hipótese de um substrato neurobiológico único nos pacientes que desenvolvem esquizofrenia, preditor de vulnerabilidade à esquizofrenia e ao uso de drogas. Esses déficits cognitivos tornariam esses indivíduos menos aptos, mesmo antes do início dos sintomas psicóticos, a lidarem com situações estressantes, contatos interpessoais e controle da agressividade e impulsividade, fatores em geral relacionados a uma maior incidência de uso de drogas na população. O terceiro modelo etiológico defendido por Blanchard6, na sua revisão dos estudos existentes sobre o tema, associa traços de temperamento, anteriores ao episódio psicótico, com o uso de drogas na esquizofrenia. Segundo Blanchard, o indivíduo com esquizofrenia, ou em fases anteriores ao desenvolvimento dos primeiros sintomas psicóticos, apresentaria dificuldade em lidar com o estresse, mediada por traços de temperamento como aumento da afetividade negativa e neuroticismo ou da desinibição e impulsividade. A diferença dessa concepção para o modelo de adição primária é que ela não associa esses traços de temperamento a alterações pré-mórbidas de indivíduos vulneráveis à psicose, mas a traços de personalidade etiologicamente independentes da esquizofrenia. Entretanto tais características poderiam representar expressões comportamentais dos déficits cognitivos descritos acima, sem contrariar o modelo da adição primária. Tratamento O tratamento do tabagismo na população geral com o uso de reposição de nicotina, bupropiona e técnicas comportamentais mostra um aumento da taxa de abstinência em um ano de 5% a 10% (sem tratamento) para 22% a 23% (pacientes que receberam bupropiona em dose de 300mg ao dia)18, 20. Há, entretanto, poucos ensaios clínicos sobre a interrupção do uso de tabaco entre esquizofrênicos. Esses estudos utilizaram técnicas comportamentais modificadas devido aos déficits cognitivos e no funcionamento social desses pacientes, associadas ou não à reposição de nicotina e ao uso do antidepressivo bupropiona. Em um estudo piloto, Ziedonis 32 obteve 13% de abstinência em relação à nicotina e nenhuma piora dos sintomas psicóticos em 24 fumantes com J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 253 Dependência de nicotina em pacientes com esquizofrenia esquizofrenia submetidos à reposição de nicotina, técnicas psicoeducativas e terapia comportamental e motivacional por dez semanas. Taxa de abstinência semelhante (12%) foi relatada por Addington1,2 em pacientes expostos a reposição de nicotina e terapia comportamental modificada, evitando o processamento de informações que excedessem a capacidade do paciente, como também dando maior ênfase a técnicas de aumento da retenção na memória das informações apresentadas. George13 comparou as taxas de abstinência de 45 pacientes tabagistas com esquizofrenia ou transtorno esquizoafetivo em uso de reposição de nicotina. Um programa especial para a interrupção do tabagismo em pacientes com esquizofrenia foi utilizado em parte dos pacientes, incluindo três semanas de terapia motivacional e sete semanas de psicoeducação, treinamento de habilidades sociais e estratégias de prevenção de recaídas. Nos pacientes em uso de antipsicóticos atípicos, a taxa de abstinência em seis meses foi de 16,7%, mas apenas de 7,4% para aqueles em uso de neurolépticos típicos. Apesar da maior taxa de abstinência com a terapia comportamental convencional (17,65% contra 10,75% no grupo submetido ao tratamento especial), os autores consideraram importante o achado de uma melhor taxa de abstinência para o grupo submetido ao tratamento especial nas primeiras quatro semanas, considerando essa vantagem inicial uma janela importante para o refinamento das técnicas de intervenção e melhores resultados finais. Em relação à piora dos sintomas psicóticos no curso do tratamento para a dependência de nicotina, os pacientes com esquizofrenia não apresentaram piora dos sintomas da doença tanto no trabalho de George como no de Ziedonis, embora a piora dos sintomas durante a abstinência seja relatada com freqüência12, 25. Os estudos descritos nos parágrafos anteriores não utilizaram outro psicofármaco além da reposição de nicotina. Principalmente, eles não utilizaram o antidepressivo bupropiona, que em estudos recentes mostrou aumentar a taxa de abstinência em grupos específicos18, 20. A não-utilização da bupropiona se deve ao receio de que um agente que provavelmente interfere em mecanismos dopaminérgicos leve à piora dos sintomas psicóticos. Entretanto tal fato não foi observado por Evins12 em pacientes que utilizaram 150mg ao dia de bupropiona por três 254 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Moreira & Soares meses, mas sim no grupo que utilizou placebo no seu estudo. O mesmo ocorreu com os 16 pacientes com esquizofrenia que receberam 300mg de bupropiona no estudo de George14, com a vantagem adicional de redução dos sintomas negativos. Esses estudos tentaram combinar o déficit cognitivo dos pacientes com terapias modificadas em função desses déficits em geral utilizando terapia cognitivo-comportamental com maior ênfase na repetição da exposição ao mesmo material, no ensaio freqüente e na demonstração do aprendizado do que foi dito e repetido. Na sua maioria, são estudos pequenos, com acompanhamento limitado e, com exceção do estudo de Evins, falham em não associar psicofármacos nos ensaios terapêuticos. Outra possibilidade não contemplada nesses estudos é a utilização de técnicas de reforço positivo (vale-recompensa ou dinheiro) condicionada ao estado de abstinência ou à redução do uso de nicotina, como já vem sendo testada, com bons resultados, associada à terapia comportamental modificada para pacientes esquizofrênicos usuários de drogas5. Por esse motivo é que não podemos afastar a possibilidade de que terapias mais específicas, baseadas em concepções teóricas mais abrangentes, possam trazer melhores resultados em termos de abstinência ou modificação do padrão de consumo de substâncias psicoativa, por indivíduos com esquizofrenia. Discussão e conclusão A nossa concepção do modelo etiológico para o uso de tabaco pelos indivíduos esquizofrênicos, que pode ser estendida para explicar o uso de outras drogas por essa população, baseia-se numa concepção das duas condições como relacionadas às mesmas alterações no desenvolvimento do cérebro, decorrentes da interação de fatores genéticos com as condições físicas, sociais e psicológicas externas ao indivíduo e próprias ao seu meio. Tal interação levaria a déficits nas funções cognitivas, principalmente atenção, memória e capacidade de planejamento, que, ao longo da maturação do indivíduo e do seu contato com o meio, tornariam-no mais vulnerável ao uso de drogas e à dependência de tabaco, mesmo antes do desenvolvi- mento da esquizofrenia. Tal mecanismo não exclui, necessariamente, elementos relacionados a automedicação em fases posteriores, uma vez ocorrido o contato com o tabaco ou ouFigura tra substância (Figura Figura). Moreira & Soares Dependência de nicotina em pacientes com esquizofrenia Espectro fenotípico da esquizofrenia Impulsividade, agressividade, isolamento social, déficit de atenção, déficit de memória e de capacidade de planejamento Hipótese da automedicação ➔ Genoma Esquizofrenia Hipótese da adição primária Complicações do parto e da gravidez, desnutrição Uso de drogas (p p. ex.: dependência do tabaco) Figura – Modelo proposto pelos autores para a etiologia do uso de drogas na esquizofrenia. Observar que a hipótese da adição primária e a hipótese da automedicação não são entendidas como excludentes. Até a descrição do espectro fenotípico da esquizofrenia, o modelo descreve a hipótese da esquizofrenia como transtorno do neurodesenvolvimento, postulada por Weinberger31 Um outro fator determinante da prevalência maior do uso de drogas, álcool e tabaco na esquizofrenia está provavelmente associado a uma precária estrutura de suporte social, anterior ao desenvolvimento dos primeiros sintomas psicóticos. É grande a evidência na literatura de uma prevalência maior da esquizofrenia em classes sociais mais baixas11, possivelmente não-relacionada a um processo de seleção social, mas sim a uma maior exposição a complicações na gravidez e no parto, infecções e desnutrição resultantes de uma precária assistência materno-infantil9, 15, pobreza e estresses psicossociais ligados a ambientes urbanos desfavoráveis3, 24. Tais ambientes sociais, além de interferirem no processo de neurodesenvolvimento do indivíduo, representariam maior exposição a violência e drogas, bem como menor suporte social. A ausência de um suporte social adequado, associado ao déficit cognitivo, facilitaria o comportamento de consumo de drogas nessa população. A vulnerabilidade genética para a esquizofrenia, bem como para a dependência de nicotina29, não pode ser considerada de forma determinística. A presença da vulnerabilidade não é suficiente para o desenvolvimento dessas patologias, que necessitam de interações específicas e bidirecionais entre ambiente e genoma. Entretanto é provável que tal vulnerabilidade se expresse na forma de alterações neurofisiológicas e neuropsicológicas passíveis, no futuro, de mapeamento e medição, o que possibilitaria a identificação dos indivíduos em maior risco e o conseqüente desenvolvimento de estratégias preventivas. O mesmo se pensa em relação ao mapeamento de fatores sociais que estariam associados a um risco aumentado para essas patologias em indivíduos vulneráveis4. A abordagem terapêutica da dependência de nicotina na esquizofrenia encontra-se em estágio inicial do seu desenvolvimento. Entretanto o seu aperfeiçoamento é importante, não só para a redução do tabagismo, mas pela sua contribuição para o tratamento do uso de outras drogas por esses indivíduos. Como sabemos, a co-morbidade com o uso de drogas e álcool na esquizofrenia aumenta a incidência de recaídas e a gravidade da sintomatologia psicótica, bem como a freqüência de reinternações. Além disso, altera o funcionamento psicossocial e aumenta a taxa de admissão em outras instituições não-psiquiátricas, como as prisões6, 17. Qualquer avanço no tratamento do tabagismo nessa população provavelmente repercutirá de forma positiva na utilização de outras drogas. De fato, ao expormos o paciente a técnicas que visam a compensar seu déficit cognitivo e a melhorar o seu funcionamento social, estaremos desenvolvendo processos de reabilitação desse paciente com repercussão em outras áreas da sua vida. Em especial, nessa população geralmente privada de adequado suporte social e com limitações psicológicas importantes, as estratégias ligadas à redução de danos devem substituir a exigência de abstinência. Do contrário, é prováJ . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 255 Dependência de nicotina em pacientes com esquizofrenia vel que a retenção do paciente no tratamento diminua em função da sua incapacidade de lidar com esquemas mais complexos que envolvem a abstinência. O tratamento comportamental para a dependência de nicotina deve estreitar seu repertório de opções comportamentais e intensificar a estruturação das sessões e a ênfase na repetição. Isso porque as dificuldades cognitivas na esquizofrenia requerem uma repetição maior do material apresentado, para que o paciente possa incorporar o padrão de comportamento de forma adequada. É fundamental que nesse processo o paciente seja parte ativa, identificando as situações que acarretam um maior risco de uso de drogas e trabalhando junto ao terapeuta no aprendizado de comportamentos substitutos que possam reduzir esse risco. Além de conhecer sua realidade melhor que qualquer outra pessoa, ao incentivarmos a sua participação na evolução do tratamento, estaremos reforçando elementos positivos da sua capacidade de interação com o meio e definição das suas prioridades. Finalmente, em associação às estratégias de reabilitação social e cognitiva e às estratégias de redução de danos, devemos pensar na utilização de técnicas de reforço positivo condicionado à redução do uso (através de prêmios em vale-recompensa ou dinheiro) e a terapias de substituição com nicotina. O uso de antidepressivo, em especial a bupropiona, como vimos anteriormente, necessita de maiores Moreira & Soares estudos para determinar dose e tempo de tratamento e eficácia nessa população. Não há, entretanto, nenhuma evidência que proíba seu uso em ensaios clínicos experimentais, dentro dos cuidados habituais com o uso da droga para a população em geral. Concluindo, baseados nas escassas evidências atuais, sugerimos que o tratamento da dependência de nicotina na esquizofrenia deva ser avaliado caso a caso, dando-se ênfase à instituição de terapia comportamental de grupo, com número reduzido de participantes, para permitir maior treinamento do material apresentado e repetição constante em cada sessão. Essas sessões devem ser estruturadas de forma a expor o paciente a um menor número de informação e de forma que permita a avaliação da retenção do aprendizado. O tratamento pode, também, incluir formas de reforço positivo condicionado às mudanças positivas do paciente. A utilização de reposição de nicotina não parece prejudicial dentro dos esquemas atualmente utilizados para a população em geral. Em relação à bupropiona é preciso cuidado e monitoração adequados, pela escassez dos dados sobre a sua utilização na dependência de nicotina na esquizofrenia. Embora alguns estudos tenham mostrado redução no uso da nicotina com doses de 150mg a 300mg de bupropiona, sem piora dos sintomas psicóticos, suas limitações metodológicas não permitem a generalização destes resultados para outras populações. Referências 1. Addington J, El-Guebaly N, Addington D, Campbell W, Hodging, D. Smoking cessation treatment for patients with schizophrenia. Am J Psychiatry 1998; 155: 974-6. 2. Addington J, EL-Guebaly N. Group treatment for smoking cessation among persons with schizophrenia. Psychiatric Services 1998; 49: 925-8. 3. Allardyce J, Boydell J, Van Os J, Morrison, DJ, Castle RM, Murray RM, McCreadie RG. 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Jornal Brasileiro de Psiquiatria Endereço para correspondência Esdras Cabus Moreira Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (Cetad) Rua Pedro Lessa 123 – Canela CEP 40000-000 – Salvador-BA Tel.: (71) 336-3322 e-mail: [email protected] J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 257 Uso de antagonistas opióides no tratamento do alcoolismo The use of the opioid antagonists in the treatment of alcoholism Recebido em: 22.04.02 Aprovado em: 10.06.03 Luis André Castro1; Ronaldo Laranjeira2 Resumo Durante a década passada, pesquisas sobre medicações para tratar dependência de álcool floresceram. Os antagonistas opióides são frutos deste esforço. Estudos controlados duplo-cegos sugerem que a naltrexona é efetiva em diminuir o número médio de dias de consumo por recaída e reduzir o craving subjetivo pelo álcool. Sujeitos do estudo que recaíam, tendiam a beber menos álcool e tiveram períodos de recaída menores do que os controles. Pesquisas demonstram que outro antagonista opióide, o nalmefene, tem sido proposto como agente terapêutico para o tratamento do alcoolismo. A sua capacidade reduzida para causar toxicidade hepática pode torná-lo um agente apropriado, particularmente nos indivíduos com comprometimento hepático preexistente. Questões clínicas e direções para futuras pesquisas são revisadas neste artigo. Unitermos farmacoterapia; naltrexona; nalmefene; alcoolismo; anti-craving Summary Over the past decade, research on medications to treat alcohol dependence has flourished. The opioid antagonists are fruits of such endeavors. Controlled double-blind studies suggest that naltrexone is effective in decreasing the mean number of drinking days per relapse and in reducing the subjective craving for alcohol. Study subjects who relapsed tended to drink less alcohol and had shorter relapse periods than control subjects. Research demonstrates that another opioid antagonist, nalmefene, has been proposed as a therapeutic agent for the treatment of alcoholism. Its reduced ability to produce liver toxicity may make it a more suitable agent, particularly in individuals with preexisting hepatic compromise. Clinical issues and directions for future research are reviewed in this article. Uniterms pharmacotherapy; naltrexone; nalmefene; alcoholism; anti-craving 1Pós-graduando do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica, Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina (EPM/USP); bolsista DR-I da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) (processo nº 00/03690-8). 2Coordenador da Uniad. J . b r a s . p s i q u i a t r. vol. 52 (4): 259-265, 2003 259 Uso de antagonistas opióides no tratamento do alcoolismo Introdução As taxas elevadas de recaída (50%) nos três primeiros meses de tratamento psicossocial tornam esse período crítico para os pacientes dependentes de álcool. Portanto qualquer tipo de intervenção farmacológica que aumente a adesão ao tratamento nesse ínterim será de grande valia para esses pacientes21. As evidências pré-clinicas e clínicas apóiam a hipótese de que o sistema opióide endógeno está envolvido nos efeitos de reforço positivo do consumo de álcool. Em diferentes modelos experimentais, a naltrexona diminuiu o consumo de álcool, levando-se em consideração a sua propriedade farmacológica de bloquear seletivamente os receptores opióides. Posteriormente, com base nos achados dos estudos pré-clínicos, os ensaios clínicos avaliaram a eficácia clínica da naltrexona como intervenção farmacológica adjuvante para a dependência de álcool. A naltrexona é um antagonista opióide puro, sintetizado em 1963. É um derivado sintético da oximorfona estruturalmente similar à naloxona e à nalorfina, sem nenhum potencial de abuso, dependência e tolerância. A sua ligação aos receptores opióides µ é mais intensa, em comparação com os outros tipos de receptores7, 8, 17. O nalmefene também é um antagonista opióide estruturalmente similar à naltrexona, porém com as seguintes peculiaridades: naltrexona (1) ausência de hepatotoxicidade dose-dependente, (2) ligação mais efetiva aos receptores opióides δ e κ, (3) meia-vida longa, (4) ausência de interação com álcool e, conseqüentemente, menor flutuação dos níveis séricos da droga. No sítio de degradação metabólica do nalmefene e da naltrexona, a substituição de um grupo hexometileno na posição 6-ceto torna o nalmefene resistente ao metabolismo, o que implica um aumento da sua meia-vida biológica. É aprovado pela Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, para a reversão da intoxicação e superdosagem por opióides11, 17, 19. Neste artigo, procuraremos sintetizar os achados clínicos (tais como farmacologia, mecanismo de ação, indicações, contra-indicações, perfil de efeitos adversos, preditores de resposta terapêutica e interações medicamentosas) dos vários estudos com os antagonistas opióides, que resultaram na sua aprovação como uma das intervenções farmacológicas disponíveis para o tratamento do alcoolismo. 260 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Castro & Laranjeira Aspectos históricos Pohl et al. (1915) foram os primeiros investigadores a estudar a farmacologia dos antagonistas opióides ao relatarem o antagonismo aos efeitos de depressores do SNC promovido pela codeína. Na década de 1940, o primeiro antagonista opióide a ser sintetizado foi a nalorfina, um derivado da morfina. No início da década de 1950, a nalorfina já era utilizada na reversão da intoxicação pela morfina7. Entretanto os efeitos disfóricos da nalorfina desencorajaram o seu uso pelos médicos. Em 1960, a naloxona foi sintetizada, sendo caracterizada pela sua maior potência antagonista e menor toxicidade em relação à nalorfina. Além disso, não produzia sintomas disfóricos em humanos. Apesar da sua capacidade de reverter a depressão respiratória causada pela overdose, a naloxona tinha o inconveniente da curta duração de ação após a administração endovenosa, o que a impedia de bloquear os efeitos euforizantes dos opióides. Em 1963, a naltrexona foi sintetizada com a finalidade de proporcionar um antagonista opióide potente através da administração oral. Desde o início da década de 1970, os trabalhos de Cohen (1970) e Davis (1970) demonstram que o consumo de álcool altera a atividade dos receptores opióides. Em 1994, a FDA aprovou a naltrexona para o tratamento do alcoolismo. Foi a primeira medicação a ser aprovada desde a introdução do dissulfiram, em 19523, 17. Farmacologia Após administração oral, a naltrexona é absorvida rápida e quase completamente (96%). As concentrações plasmáticas variam de 9 a 44ng/ ml em uma hora. A biodisponibilidade oral varia de 5% a 40%. É rapidamente distribuída pelos tecidos corporais. Dentro das doses terapêuticas, 20% da naltrexona estão ligados às proteínas plasmáticas. No fígado, as principais reações metabólicas envolvem a redução e a conjugação glicurônica. O principal metabólito ativo da naltrexona é o 6-β-naltrexol (ou β-naltrexol). Como a naltrexona, acredita-se que o 6-βnaltrexol também seja um antagonista opióide puro, e que possa contribuir com o bloqueio dos receptores opióides. Após doses orais únicas de naltrexona, os níveis plasmáticos de 6-β-naltrexol são 1,5 a dez vezes maiores. Outros metabólitos Castro & Laranjeira Uso de antagonistas opióides no tratamento do alcoolismo menos importantes são o 2-hidróxi-3-metóxi-6β-naltrexol e o 2-hidróxi-3-O-metil-naltrexona. O metabolismo de primeira passagem no fígado é significativo, pois somente 5% da naltrexona atingem a circulação sistêmica na sua forma livre após administração oral. A naltrexona e os seus metabólitos são excretados principalmente pelos rins. Após a administração de uma dose oral, 58% a 79% da dose foram recuperados pela urina, enquanto a excreção fecal foi responsável por 3% a 14% da dose. A meia-vida de eliminação da naltrexona varia entre 4 e 14h, a do 6-β-naltrexol, entre 9 e 13h, e a do nalmefene, é de cerca de 10h. O clearance renal da naltrexona (30 a 127ml/ min) sugere que a excreção renal ocorre principalmente através da filtração glomerular com reabsorção parcial. Os valores para o 6-β-naltrexol são maiores (230 a 369ml/min), o que indica a existência de mecanismo secretor tubular renal7. Mecanismo de ação O álcool estimularia indiretamente a atividade opióide endógena ao promover a liberação dos peptídeos endógenos (encefalinas e β-endorfinas) na fenda sináptica. Através da atividade excitatória dos peptídeos endógenos, as sensações prazerosas do álcool seriam mediadas pela liberação de dopamina nas fendas sinápticas do nucleus accumbens2, 17, 21. Outro mecanismo proposto é a atividade inibitória dos peptídeos endógenos sobre os interneurônios gabaérgicos localizados na área tegmental ventral, que exercem efeitos inibitórios sobre os neurônios dopaminérgicos da área A10, levando os pacientes a recaírem2, 17, 18, 21 . A naltrexona atua como antagonista competitivo nos receptores opióides. Dessa forma, a administração de antagonistas opióides promoveria a redução do consumo de álcool através do bloqueio pós-sináptico dos receptores opióides µ, δ e κ nas vias mesolímbicas. Além disso, os indivíduos sob risco para desenvolver abuso de álcool seriam aqueles com história familiar para dependência de álcool, que costumam apresentar níveis elevados de peptídeos endógenos associados à sua intensa liberação na fenda sináptica2, 11. Indicações Os antagonistas opióides são coadjuvantes das intervenções psicossociais no tratamento do alcoolismo. Portanto, são pouco eficazes, quando usados isoladamente. Três ensaios clínicos evidenciaram sua eficácia e efetividade superiores ao placebo, levando-se em consideração os seguintes resultados: (1) redução do consumo de álcool, (2) redução do craving e dos efeitos prazerosos do álcool (high), (3) aumento das taxas de abstinência e (4) redução das taxas de recaída. A naltrexona deve ser prescrita depois que a síndrome de abstinência do álcool for controlada e estabilizada16. Numa revisão sistemática de 52 artigos científicos que avaliou a eficácia das intervenções farmacológicas no tratamento da dependência de álcool, evi- Tabela – Propriedades farmacocinéticas do cloridrato de naltrexona e do nalmefene Propriedade Absorção Picos plasmáticos Concentração plasmática média Biodisponibilidade Biotransformação Ligação plasmática Excreção Naltrexona Nalmefene Trato gastrintestinal (96%) 1-2h (19 a 44mg/l) Naltrexona (43,6µg/l) β-naltrexol (87,2mg/l) 5%-60% Redução Glucuronidação 20% Renal (58%-79%) Fecal (3%-14%) Leite materno (?) – 1-3h – 40%-50% Glucuronidação (65%) Renal (5%) J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 261 Uso de antagonistas opióides no tratamento do alcoolismo denciou-se que a naltrexona era superior ao placebo ao diminuir o risco de recaídas e a freqüência do consumo pesado de álcool (cinco ou mais doses por ocasião). Além disso, os estudos foram classificados no grupo A de acordo com o nível de evidência, ou seja, aqueles ensaios clínicos com dados suficientes para avaliar a eficácia de determinada medicação, tamanho de amostra adequado e dados fidedignos da superioridade da droga sobre o placebo. Levando-se em consideração uma escala para avaliação da qualidade dos artigos científicos (0 a 100 pontos), os ensaios clínicos de Volpicelli et al. (1992), O‘Malley et al. (1992) e Volpicelli et al. (1997) receberam escores elevados (90, 88 e 95, respectivamente)6. Após seis meses da suspensão do tratamento com naltrexona, apenas 10% dos pacientes preenchiam critérios diagnósticos para abuso de álcool, e 13%, para dependência de álcool. A naltrexona pode ser útil na prevenção secundária do alcoolismo ao promover redução do consumo naqueles indivíduos que fazem uso nocivo de álcool17. Contra-indicações As principais contra-indicações compreendem hepatite aguda, insuficiência e cirrose hepáticas, uso atual e dependência de opiáceos (por ex., analgésicos opiáceos). Devem-se monitorizar com cuidado as mulheres em idade fértil através de métodos anticoncepcionais, pois a naltrexona induziu aumento da secreção do hormônio luteinizante e ovulações em animais de laboratório. Gravidez e uso de antagonistas opióides em adolescentes são contra-indicações relativas, levando-se em consideração os riscos e benefícios do tratamento16. Nos pacientes com imunodeficiência ou infecções agudas, deve-se avaliar o risco/benefício de administrar a naltrexona, em virtude do aumento dos níveis de cortisol associado ao antagonista opióide. Entre os usuários de múltiplas drogas, é recomendável a realização do teste com naloxona para descartar uso de opiáceos17. O uso de antagonistas opióides em pacientes dependentes de heroína e outros opióides pode precipitar sintomas de síndrome de abstinência, que se instalam cinco minutos após a administração da medicação, durando aproximadamente 48 horas9. Nesses pacientes é necessário um período mínimo de sete dias de abstinência antes de se prescrever a naltrexona. Entre aqueles tratados com metadona, recomenda-se um período de abstinência maior (dez a 14 dias)5, 16. 262 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Castro & Laranjeira Orientações clínicas Ao prescrever-se o cloridrato de naltrexona, é importante que os pacientes usem cartões informativos a respeito do antagonista opióide, explicando a necessidade de doses elevadas de opióides em situações de emergência17. Posologia A posologia recomendada é de 50mg por dia, podendo variar entre 25 e 150mg por dia. O esquema terapêutico proposto para o cloridrato de naltrexona consiste na prescrição de 25mg por dia nos dois primeiros dias, com vista a diminuir a incidência e a gravidade dos efeitos adversos. Após este período, pode-se elevar a dose para 50mg por dia. A posologia recomendada para o nalmefene é de 40mg por dia. Para aumentar a adesão aos antagonistas opióides, recomenda-se ingerir a medicação pela manhã (por ex., junto com o desjejum), principalmente quando o paciente bebe ao anoitecer16, 17. Duração do tratamento Os ensaios clínicos com naltrexona postulam o período de 12 semanas para o tratamento. A decisão de continuar após este período baseia-se na avaliação clínica, levando-se em consideração as alterações que foram realizadas para manter a abstinência, a história prévia de respostas aos tratamentos e o interesse do paciente em continuar usando a medicação. Nos pacientes dependentes de opiáceos, a naltrexona pode ser administrada por pelo menos seis meses. Entretanto, ao longo dos meses, os seus efeitos terapêuticos diminuem. Num follow-up de seis meses, após o término de um ensaio clínico com 80 pacientes tratados com naltrexona, evidenciou-se taxa elevada de abstinência até o primeiro mês (67%). As taxas de recaída permaneceram reduzidas até o quarto mês (35%). Após o quinto mês, evidenciou-se perda da eficácia clínica da naltrexona14. Contudo, alguns autores acreditam que a naltrexona possa ser utilizada periodicamente em situações de alto risco para recaídas, após o período inicial de tratamento de 12 semanas16, 17. Efeitos adversos O principal efeito adverso do cloridrato de naltrexona é a náusea (10% dos casos), que geral- Castro & Laranjeira mente coincide com os níveis plasmáticos atingidos dentro de 90 minutos depois da ingestão do medicamento. Outros efeitos adversos comuns são vômitos, constipação intestinal, dor abdominal, cefaléia, ansiedade, irritabilidade, insônia, sonolência, tontura, artralgia e fadiga3, 9, 16. Algumas estratégias podem ser utilizadas para reduzir a gravidade dos efeitos adversos, tais como: ingestão junto com alimentos e mudanças nos horários de administração3. Tais efeitos adversos remitem, decorridos alguns dias, sendo considerados por alguns pesquisadores uma síndrome de abstinência leve por opióides17. Há controvérsias em relação a anorexia, perda ponderal, disforia e depressão associadas ao bloqueio crônico dos receptores opióides endógenos proporcionado pelo tratamento em longo prazo com antagonistas opióides11. A interrupção do tratamento por causa dos efeitos adversos está em torno de 15%6. A hepatotoxicidade baseada no aumento das transaminases (três a 19 vezes os valores iniciais) foi observada nos pacientes obesos tratados com doses elevadas de cloridrato de naltrexona (acima de 300mg por dia). Contudo os pacientes apresentavam-se assintomáticos, com regressão das alterações enzimáticas após a suspensão do antagonista opióide17. O aumento leve dos níveis séricos das transaminases não contra-indicam o seu emprego. Entretanto a monitorização mensal dos valores da bilirrubina total e frações e das transaminases séricas nos três primeiros meses, e depois a cada três meses, é importante. Monitorizações mais freqüentes devem ser indicadas quando as transaminases estiverem elevadas. A naltrexona deve ser suspensa quando as elevações das transaminases persistirem, salvo se forem brandas e atribuídas ao consumo de álcool16. Preditores de resposta clínica As características clínicas dos pacientes que predizem boa resposta terapêutica ao tratamento com os antagonistas opióides, especificamente o cloridrato de naltrexona, são: (1) taxas elevadas de adesão ao longo do tratamento, (2) manutenção da abstinência durante o tratamento e (3) história familiar de dependência de álcool entre parentes de primeiro grau. Nesses pacientes com elevado risco de alcoolismo, o consumo de álcool está associado a (1) níveis elevados de β-endorfinas18, (2) níveis elevados de craving no início do tratamento, (3) baixo nível educacional e Uso de antagonistas opióides no tratamento do alcoolismo (4) presença de problemas físicos, ansiedade somática e déficits cognitivos associados ao abuso de álcool10, 16, 17. Outra característica importante é o tipo de intervenção psicossocial (p. ex.: aconselhamento, treinamento de habilidades sociais, técnicas de prevenção de recaídas e entrevista motivacional) oferecido ao paciente. Segundo O´Malley et al. (1996)14, os pacientes submetidos a terapia suportiva e a naltrexona apresentavam taxas elevadas de abstinência ao longo do tratamento2. Já os pacientes submetidos a Coping Skills Therapy (CST) e naltrexona apresentavam taxas de lapso similares às do grupo placebo. Entretanto a porcentagem de pacientes que evoluíram para recaída era baixa em relação ao grupo placebo21. A principal característica clínica dos pacientes com respostas clínicas desfavoráveis aos antagonistas opióides é o abuso de múltiplas substâncias (principalmente a cocaína), o que pode limitar a eficácia clínica da naltrexona19. Interação medicamentosa O cloridrato de naltrexona é uma medicação segura, pois o seu principal metabólito não é metabolizado pelo sistema do citocromo P450. Entretanto, por tratar-se de droga que sofre oxidação, não se pode descartar o risco de interação com outros medicamentos5, 17. As principais interações encontram-se resumidas no Quadro Quadro. Não há interação relevante com nicotina e cocaína 4, 16. A naltrexona associada a antidepressivos é empregada no tratamento de pacientes deprimidos. É importante ressaltar que o uso concomitante de antidepressivos não aumenta a incidência dos efeitos adversos da naltrexona17. Na literatura, há relato de três ensaios clínicos abertos da associação da naltrexona (50mg/dia) ou nalmefene com sertralina (50 a 100mg/dia), que evidenciam bons resultados terapêuticos em pacientes dependentes de álcool, tais como: aumento do intervalo de tempo para a primeira dose (52 dias versus 30 dias), redução da freqüência do consumo de álcool, redução do número de doses por ocasião e redução do número de doses por semana (6 versus 49). Os autores sugerem que esta associação pode ser empregada tanto para tratar pacientes dependentes de álcool com transtornos depressivos, quanto para potencializar os efeitos da naltrexona naqueles não-responsivos. Entretanto há necessidade de estudos controlados para confirmar esta hipótese11. Nos pacientes que necessitam de medicamentos J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 263 Uso de antagonistas opióides no tratamento do alcoolismo para o controle da dor, devem-se priorizar outros analgésicos não-opióides (p. ex.: antiinflamatórios não-esteróides). Contudo, nos casos graves, procura-se utilizar um analgésico opióde de ação rápida com monitorização em ambiente equipado para ressuscitação cardiopulmonar, já que a depressão respiratória resultante pode ser profunda e grave. A naltrexona altera a meia-vida de absorção, a concentração máxima e as alterações mínimas na biodisponibilidade da morfina4. Os pacientes que serão submetidos à cirurgia eletiva e a analgésicos opióides no pós-operatório devem ser orientados a suspender a naltrexona pelo menos 72h antes da cirurgia. Isto é explicado pelo período de 72h de insensibilidade aos analgésicos opióides. Numa situação de emergência médica dever-se-á administrar dosagem maior de analgésicos opióides, sendo indispensável monitorização respiratória do paciente16, 19. Limitações metodológicas Nos ensaios clínicos com naltrexona, o tamanho da amostra é considerado modesto6, 19. A maioria dos sujeitos compõe-se de pacientes do sexo masculino. Os critérios de seleção rígidos de alguns estudos, tais como dependência leve a moderada de álcool, estabilidade social, pacientes altamente motivados, baixo risco para síndrome de abstinência alcoólica complicada, ausência de co-morbidade psiquiátrica com outros transtornos mentais e abuso de drogas ilícitas, restringem a generalização dos resultados obtidos para a população clínica1. Além disso, os níveis séricos de γ-GT não confirmaram os dados fornecidos pelos autorelatos dos pacientes. Alguns autores consideram a γ-GT um marcador bioquímico de baixa sensibilidade para consumo recente de álcool20. No ensaio clínico conduzido por O’ymalle et al. (1992)15 não foram utilizados marcadores bioquímicos para abuso de álcool. Numa revisão de literatura, Quadro – Interações medicamentosas Drogas psicotrópicas Analgésicos opióides Antidepressivos Antipsicóticos Benzodiazepínicos Dissulfiram Metadona 264 Tipo de interação medicamentosa Síndrome de abstinência – Letargia e sonolência Sedação, ansiedade e fadiga Hepatotoxicidade Síndrome de abstinência J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Castro & Laranjeira Moncrieff et al. (1997)13 criticaram a metodologia e os resultados de alguns ensaios clínicos com naltrexona. Por exemplo, ao excluir da análise estatística um número desconhecido de pacientes que abandonaram precocemente o tratamento após a randomização, os resultados obtidos por Volpicelli et al . (1992) 20 são passíveis de críticas metodológicas. Posteriormente, Volpicelli et al. (1997)22, ao incluírem todos os pacientes na análise estatística (intention-to-treat analysis), não constataram diferenças estatisticamente significativas entre a naltrexona e o placebo. Contudo os resultados clinicamente significativos da superioridade da naltrexona em relação ao placebo foram observados somente naqueles pacientes com elevadas taxas de adesão à medicação e ao tratamento (acima de 90%). O´Malley et al. (1992) também excluíram sete pacientes da análise estatística, além de não especificar a priori o principal resultado a ser investigado, já que foram feitas inúmeras comparações entre os grupos. Perspectivas Apesar dos avanços das intervenções farmacológicas no tratamento do alcoolismo, há necessidade de ensaios clínicos com o objetivo de estimar a duração adequada do tratamento. A eficácia dos antagonistas opióides associados às intervenções psicossociais mínimas, o uso em programas de internação hospitalar e em populações específicas de pacientes dependentes de álcool (p. ex. idosos, adolescentes e mulheres) são pontos a ser investigados num futuro próximo. O impacto de doses elevadas é um tópico a ser abordado, através de ensaios clínicos com avaliação de dose-resposta, utilizando-se dosagens acima de 50mg por dia. Estudos clínicos com duração acima de 12 semanas devem ser realizados para determinar a perda da eficácia clínica com a administração prolongada da naltrexona. Existem três ensaios clínicos em andamento e promovidos pela NIAAA que abordam a eficácia e a segurança da naltrexona por períodos prolongados de tratamento (nove a 12 meses). McCaul et al. (1997)12 observaram taxas elevadas de abstinência e redução do consumo de álcool nos pacientes com níveis séricos de β-naltrexol acima de 40ng/ml10. O emprego deste metabólito ativo da naltrexona como marcador de adesão ao tratamento é uma hipótese a ser investigada. A realização de ensaios clínicos multicêntricos será importante, visando a proporcionar amostra maior de pacientes. Outro ponto im- Castro & Laranjeira portante é o desenvolvimento de preparações depot para facilitar a adesão dos pacientes à rede primária de saúde. Conclusões Ao revisarmos a literatura sobre os resultados obtidos com os antagonistas opióides no tratamen- Uso de antagonistas opióides no tratamento do alcoolismo to da dependência de álcool, devemos considerar os seus efeitos anti-craving na prevenção de recaídas dos pacientes em reabilitação. Ao bloquear os receptores opióides, que modulam os neurônios dopaminérgicos localizados no sistema de recompensa cerebral, as taxas de recaída serão menores, interrompendo a evolução para a reinstalação da síndrome de dependência de álcool. Referências 1. Anton RF, Moak DH, Waid R, Lathan PK, Malcolm RJ, Dias JK. 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Senador Casemiro da Rocha 148/124 Mirandópolis CEP 04047-000 – São Paulo-SP Tels.: (11) 5583-0675/9931-8395 e-mail: [email protected] J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 265 Comparação do comportamento social de pacientes esquizofrênicos vivendo na comunidade e utilizando antipsicóticos típicos e atípicos Comparison of social behavior of schizophrenic patients living in the community and using typical and atypical antipsychotics Valéria Barreto Novais de Souza1; Francisco Pereira da Silva Júnior2; Giselle de Barros Silva2; Alexandra Frota Campelo2; Recebido em: 03.12.03 Ana Rosana Alencar Guedes2; Manuela Montenegro Dias de Carvalho2; Fábio Gomes de Matos e Souza3 Aprovado em: 10.06.03 Resumo A desinstitucionalização de pacientes psiquiátricos é observada em muitos países e tem gerado um interesse sem precedentes pela avaliação do comportamento social desses indivíduos na comunidade. Os objetivos deste estudo são identificar os problemas de comportamento social apresentados por uma amostra de pacientes esquizofrênicos vivendo na comunidade e avaliar se o número desses problemas difere entre pacientes utilizando diferentes antipsicóticos. A amostra incluiu cem pacientes ambulatoriais com diagnóstico de esquizofrenia pelos critérios do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders IV (DSM-IV), que estavam utilizando a mesma medicação antipsicótica por pelo menos seis meses. As medicações eram as seguintes: decanoato de haloperidol (n = 23), clozapina (31), risperidona (30) e olanzapina (16). O comportamento social foi avaliado em entrevistas com informantes-chave através da Social Behaviour Schedule (SBS). Apenas 16 pacientes estavam empregados e cinco estudavam. Setenta e quatro apresentaram problema em pelo menos uma área comportamental. Os problemas de comportamento mais prevalentes foram: rir ou falar sozinho (31%), hipoatividade (29%), esquisitice e impropriedades na conversação (24%), poucos contatos sociais espontâneos (18%) e incoerência na conversação (14%). Não houve diferença significativa no número de problemas apresentados por pacientes utilizando diferentes antipsicóticos. Apesar de os pacientes estarem utilizando medicação antipsicótica, foi encontrada uma alta prevalência de problemas de comportamento social, especialmente naqueles relacionados a distúrbio do pensamento e retraimento social. Unitermos esquizofrenia; comunidade; comportamento social Summary Deinstitutionalization of psychiatric patients is observed in many countries and produced an unprecedented interest in the assessment of the social behavior of these individuals in the community. The objectives of this study are to identify the social behavior problems presented by a sample of schizophrenic patients living in the community and evaluate if the number of these problems differs in patients using different antipsychotics. The sample included 100 outpatients with diagnosis of schizophrenia by DSM-IV criteria who had been using the same antipsychotic medication for at least 6 months. Medications were as follows: haloperidol decanoate (n = 23), clozapine (31), risperidone (30) and olanzapine (16). Social behavior was assessed in interviews with a key-informant by the Social Behaviour Schedule (SBS). Only 16 1Mphil em Psiquiatria pela Universidade de Edimburgo. 2Estudante da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará. 3Professor adjunto de Psiquiatria, Departamento de Medicina Clínica da Universidade Federal do Ceará; PhD pela Universidade de Edimburgo. J . b r a s . p s i q u i a t r. vol. 52 (4): 267-273, 2003 267 Souza et al. Comparação do comportamento social de pacientes esquizofrênicos vivendo na comunidade e utilizando antipsicóticos típico e atípicos patients were employed and 5 were studying. Seventy-four patients presented problem in at least one behavioral area. The most prevalent behavioral problems were: to laugh and talk to oneself (31%), underactivity (29%), oddity and inappropriateness in conversation (24%), little spontaneous social contacts (18%), and incoherence in conversation (14%). There was no difference in the number of problems presented by patients using different antipsychotics. Although the patients were using antipsychotic medication, it was found a high prevalence of social behavior problems, especially those related to thought disturbance and social withdrawal. Uniterms schizophrenia; community; social behavior ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Introdução ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ importância do comportamento de pacientes psiquiátricos para sua aceitação pela família. A introdução dos antipsicóticos nos hospitais psiquiátricos, no final dos anos 1950, promoveu uma revolução no tratamento da esquizofrenia e foi responsável por uma redução dramática no número de pacientes esquizofrênicos internados13. Segundo Holloway et al.10, o número de leitos em hospitais psiquiátricos na Inglaterra e no País de Gales passou de 150 mil em 1954 para 40 mil em 1996. Smith et al.20 afirmam que, analisando-se apenas sintomas, o estudo da esquizofrenia é incompleto. Estudos têm concluído que a avaliação do comportamento de pacientes esquizofrênicos permite uma abordagem mais abrangente da esquizofrenia15, contribuindo para o entendimento de sua heterogeneidade4 e orientando uma intervenção psicossocial auxiliar à medicação antipsicótica23. Apesar de as mudanças nas atitudes políticas e profissionais em relação ao doente mental, ocorridas nas décadas de 1960 e 1970, terem contribuído para a desospitalização em massa, a eficácia da medicação antipsicótica foi elemento essencial18. Esse processo, conhecido por desinstitucionalização, é observado em muitos países19. Apesar da reconhecida importância do estudo do comportamento social de pacientes esquizofrênicos desinstitucionalizados, a literatura pertinente a esse assunto, em países em desenvolvimento, ainda é escassa. Do nosso conhecimento, este é o primeiro estudo que relaciona o comportamento social com a medicação antipsicótica utilizada por pacientes esquizofrênicos. A transferência dos cuidados psiquiátricos do hospital para a comunidade tornou relevante a avaliação do impacto dessa mudança para o paciente, inclusive no que diz respeito ao funcionamento social30. De fato, Weissman25 já ressaltava o interesse sem precedente em relação ao ajustamento social de pacientes psiquiátricos gerado pela desinstitucionalização. Os distúrbios de comportamento apresentados por pacientes esquizofrênicos são elementos essenciais para sua aceitação pela comunidade8 e podem excluir a possibilidade de alta hospitalar para pacientes que os apresentem8, 16. 19 Salleh avaliou 210 cuidadores primários de esquizofrênicos transferidos de hospitais psiquiátricos para a família e observou que 23% deles passaram a apresentar depressão e ansiedade. Além disso, a intensidade desses sintomas era proporcional ao número de problemas de comportamento apresentados pelo paciente. Bem antes de esse estudo ser realizado, Wing et al.28 já ressaltavam a 268 ○ J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Os objetivos deste estudo são: 1) identificar os principais problemas de comportamento social apresentados por uma amostra de pacientes esquizofrênicos vivendo na comunidade em um estado do Nordeste do Brasil e 2) avaliar se o número de problemas de comportamento social difere entre usuários de diferentes antipsicóticos. Método Amostra A amostra constituiu-se de cem pacientes ambulatoriais consecutivos com diagnóstico de esquizofrenia pelos critérios do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders IV (DSM-IV)1, atendidos no Hospital de Saúde Mental de Messejana (Fortaleza, Ceará), até o momento da realização deste estudo, o único hospital psiquiátrico no estado a distribuir gratuitamente antipsicóticos atípicos aos pacientes. Souza et al. Comparação do comportamento social de pacientes esquizofrênicos vivendo na comunidade e utilizando antipsicóticos típico e atípicos Todos os pacientes esquizofrênicos com idade igual ou superior a 18 anos que aceitaram fazer parte deste estudo e que estavam estabilizados pelo uso de um mesmo antipsicótico por pelo menos seis meses foram incluídos. Vinte e três pacientes estavam fazendo uso de decanoato de haloperidol; 31, de clozapina; 30, de risperidona; e 16, de olanzapina. O tempo de uso da medicação variou de seis meses a nove anos, com média de 28,3 meses (DP = ± 20,3 meses). Foram excluídos os pacientes com quadro agudo e aqueles com mais de 65 anos, a fim de evitar uma possível influência de problemas relacionados à idade (tais como quadros demenciais, dificuldade de locomoção, entre outros) sobre o comportamento social. Aspectos éticos Cada paciente foi previamente informado sobre a natureza do estudo, sendo-lhe assegurado que a não-participação em nada influenciaria no curso de seu tratamento. Os participantes tiveram sua identidade e seus dados preservados em sigilo. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará. Instrumentos Foram utilizados os seguintes instrumentos: 1. uma ficha para coleta de dados sociodemográficos (sexo, idade, estado civil, escolaridade, profissão e atividade de lazer) e clínicos (duração da doença, número de internações anteriores, medicação em uso e tempo de uso da mesma); 2. a Social Behaviour Schedule (SBS)30, traduzida para o português pelos autores e backtranslated para o idioma original, para avaliar o comportamento social dos pacientes através de entrevistas com informantes-chave. Um instrumento que avalia o comportamento dos pacientes através de entrevistas com informantes-chave foi escolhido para evitar influência dos sintomas dos pacientes sobre a avaliação. A SBS é uma escala que avalia 20 áreas específicas do comportamento social (tais como comunicação, interação social e higiene) e apresenta um item final, “outros comportamentos”, que permite ao informante o relato de problemas de comportamento não-especificados pelo entrevistador, mas que interferem no progresso do paciente. A maior parte dos itens é graduada de zero (ausência de problema) a 4 (problema de grande intensidade e freqüência) e descreve o comportamento do paciente durante o mês anterior ao dia da entrevista. Uma avaliação igual ou maior a 2 para determinado item indica presença de problema de comportamento, ao passo que um escore igual ou maior que 3 indica problema comportamental grave. A partir de seus itens, Harvey et al.8 extraíram quatro síndromes comportamentais, a saber: distúrbio do pensamento (agrupando os itens incoerência na conversação, esquisitice e impropriedades na conversação e dificuldade de concentração), retraimento social (poucos contatos sociais espontâneos, pobre autocuidado, lentidão e hipoatividade), comportamento depressivo (depressão e idéias e comportamentos suicidas) e comportamento associal (hostilidade, hábitos socialmente inaceitáveis e comportamento destrutivo). Uma replicação desse estudo, feita por Curson et al.4, chegou a resultados semelhantes, mas três das quatro síndromes tiveram seu número de itens componentes ampliado. Hiperatividade e inquietação, rir ou falar sozinho e realização de idéias bizarras passaram a integrar a síndrome de distúrbio do pensamento. A síndrome depressiva passou a incluir os itens ataques de pânico, fobias e comportamentos para chamar a atenção, e a de comportamento associal recebeu um item adicional, pobre autocuidado. A SBS é baseada nos trabalhos de Wing26 e Wing e Brown27 com doentes mentais institucionalizados. Desde então vem sendo utilizada também para avaliação de pacientes sob o cuidado de serviços comunitários29, desabrigados vivendo em albergues7, 12 e pacientes esquizofrênicos ambulatoriais19, 23. Análise dos dados A análise dos dados foi realizada através do programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS)14. Correlações foram avaliadas através do teste Spearman e comparações foram feitas através do teste Kruskal-Wallis. O nível de significância foi de p < 0,05 (bicaudal). Resultados Dados sociodemográficos e clínicos Dados demográficos e clínicos da amostra são mostrados na Tabela 11. J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 269 Souza et al. Comparação do comportamento social de pacientes esquizofrênicos vivendo na comunidade e utilizando antipsicóticos típico e atípicos Tabela 1 – Dados demográficos e clínicos de uma amostra de cem pacientes esquizofrênicos atendidos no Hospital de Saúde Mental de Messejana (Fortaleza, Ceará) Variável Freqüência (%) Sexo Masculino Feminino Escolaridade Analfabeto Ensino fundamental Ensino médio Ensino superior Duração da doença (anos) Até 10 11 a 20 21 a 30 30 a 41 N o de internações anteriores Nenhuma Até quatro Cinco ou mais 71 29 1 60 37 2 37 40 19 4 29 47 24 A idade variou de 18 a 62 anos, com média de 34,7 anos (DP = ± 9,2 anos). Oitenta e um pacientes eram solteiros e 19 casados. Apenas 16 pacientes trabalhavam de forma remunerada, cinco estudavam, quatro executavam trabalhos domésticos regulares e um fazia terapia ocupacional. A grande maioria, 74 pacientes, não possuía qualquer ocupação diária. Além disso, os informantes de 58 pacientes relataram que eles não demonstravam interesse por atividades de lazer. Comportamento social As Tabelas 2 e 3 mostram, respectivamente, a freqüência de cada problema de comportamento e a de problema grave para a amostra estudada. Pode-se verificar uma maior freqüência de problemas relacionados às síndromes de distúrbio do pensamento e de retraimento social, quando em comparação aos relacionados às síndromes depressiva e associal. No item outros comportamentos, foram relatados uso de drogas ilícitas (n = 1), sonolência excessiva1, uso de cigarro em grandes quantidades1 e alimentação exagerada3. O número de problemas não diferiu de forma significante entre usuários de diferentes antipsicóticos (Kruskal-Wallis = 4,8; p = 0,18). 270 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Tabela 2 – Freqüência de problemas de comportamento social apresentados por uma amostra de cem pacientes esquizofrênicos atendidos no Hospital de Saúde Mental de Messejana (Fortaleza, Ceará) Comportamento Freqüência (%) Rir ou falar sozinho Hipoatividade Esquisitice e impropriedades na conversação Hiperatividade e agitação Posturas e maneirismos Poucos contatos sociais espontâneos Dificuldade de concentração Pobre autocuidado Incoerência na conversação Depressão Comportamentos para chamar a atenção Hostilidade Lentidão Hábitos socialmente inaceitáveis Realização de idéias bizarras Outros comportamentos Idéias e comportamentos suicidas ou de auto-agressão Ataques de pânico e fobias Comportamento destrutivo Contatos sociais impróprios Comportamento sexual impróprio 31 29 24 23 21 18 16 14 14 12 10 9 9 7 7 6 5 4 4 3 0 Tabela 3 – Freqüência de problemas graves de comportamento social apresentados por uma amostra de cem pacientes esquizofrênicos atendidos no Hospital de Saúde Mental de Messejana (Fortaleza, Ceará) Comportamento Freqüência (%) Rir ou falar sozinho Posturas e maneirismos Esquisitice e impropriedades na conversação Poucos contatos sociais espontâneos Incoerência na conversação Hiperatividade e inquietação Pobre autocuidado Hostilidade Hábitos socialmente inaceitáveis Depressão Outros comportamentos Hipoatividade Ataques de pânico e fobias Contatos sociais impróprios Comportamento destrutivo Comportamentos para chamar a atenção Lentidão Idéias e comportamentos suicidas ou de auto-agressão Comportamento sexual impróprio 31 19 13 12 11 10 10 6 6 5 5 4 3 3 2 2 2 1 0 Os itens dificuldade de concentração e realização de idéias bizarras são avaliados numa escala de 0 a 2, não se podendo aplicar o ponto de corte para problema grave de comportamento social (escore igual ou maior que 3). Souza et al. Comparação do comportamento social de pacientes esquizofrênicos vivendo na comunidade e utilizando antipsicóticos típico e atípicos 1234 1234 123 1234Dec. haloperidol (n = 23) 123 Risperidona (n = 30) 7,5 Olanzapina (n = 16) 12345 12345 12345 Clozapina (n = 31) 5 2,5 0 123456 123456 123456 123456 123456 123456 123456 123456 1234 1234 1234 1234 1234 1234 1234 1234 1234 1234567 1234567 1234567 1234567 1234567 1234567 1234567 1234567 Figura – Número médio de problemas de comportamento social apresentados por cem pacientes esquizofrênicos usuários de diferentes antipsicóticos, atendidos no Hospital de Saúde Mental de Messejana (Fortaleza, Ceará). Não houve diferença estatisticamente significante no número de problemas de comportamento social apresentados pelos pacientes que utilizavam diferentes antipsicóticos (Kruskal-Wallis= 4,8, p = 0,18) Setenta e quatro pacientes apresentaram problema em pelo menos uma área comportamental e 57 em duas ou mais áreas. Quando o ponto de corte para problema grave foi aplicado, 58 pacientes apresentaram pelo menos um problema e 37 apresentaram dois ou mais. O número médio de problemas de comportamento foi de 2,6 (DP = ± 2,6; mínimo 0, máximo 13) e o de problemas graves foi de 1,4 (DP = ± 1,8; mínimo 0, máximo 7). Não houve correlação estatisticamente significante entre o número de problemas de comportamento e sexo (Spearman = -0,06; p = 0,5), idade (Spearman = 0,04; p = 0,67), estado civil (Spearman = -0,16; p = 0,1), escolaridade (Spearman= 0,06; p = 0,58), duração da doença (Spearman= 0,02; p = 0,81) e número de internações anteriores (Spearman = 0,02; p = 0,83). Discussão Os principais achados deste trabalho são: 1) houve uma maior prevalência de problemas relacionados a distúrbios do pensamento e retraimento social quando em comparação com os relacionados às síndromes depressiva e associal; 2) o número médio de problemas de comportamento social não diferiu significativamente entre usuários de diferentes antipsicóticos. A prevalência maior de problemas relacionados a distúrbios do pensamento e retraimento social sugere que sintomas como delírios, alucina- ções, diminuição da motivação e isolamento social podem causar uma interferência maior sobre o comportamento social dos pacientes do presente estudo, ou, ainda, sobre sua dinâmica familiar, sendo mais relatados pelos informantes durante as entrevistas. A menor prevalência de problemas relacionados à síndrome depressiva reflete, segundo Harvey et al.8, a pouca detecção desse tipo de comportamento na prática clínica, já que os pacientes não o expressam quando questionados e os familiares não tomam conhecimento de sua existência. No entanto pacientes psiquiátricos vivendo na comunidade estão mais sujeitos a depressão e idéias suicidas21 e, portanto, esses problemas devem ser procurados de forma mais cautelosa durante a entrevista clínica. O fato de poucos pacientes apresentarem problemas de comportamento associal está de acordo com o trabalho de Harvey9, que encontrou uma prevalência rara de comportamento associal grave entre 336 pacientes esquizofrênicos. Para Gattaz5 não existe ligação, ao menos na dimensão em que é divulgada, entre doença mental e violência, mas esse estereótipo estigmatiza o doente mental e constitui-se em obstáculo à sua reintegração social. Apesar de alguns estudos terem chegado à conclusão de que risperidona17, olanzapina22 e clozapina24, além de produzirem menos efeitos colaterais extrapiramidais, podem ser mais eficazes sobre os sintomas da esquizofrenia que o haloperidol, não encontramos diferença significativa no número de problemas de comportamento entre usuários de diferentes antipsicóticos. Uma explicação que pode ser sugerida para tal resultado é o fato de os sujeitos de nossa amostra já apresentarem prejuízo social importante, dificultando a melhoria na interação social pelo uso de medicamentos típico e atípicos, o que é reforçado pela freqüência elevada de pacientes apresentando problema de comportamento social (74%). Além disso, sabe-se que a farmacoterapia, apesar de melhorar os sintomas da esquizofrenia, apresenta efeitos limitados sobre os prejuízos sociais que esta acarreta11. A freqüência de pacientes sem ocupação diária em nossa amostra (74%) foi maior que a encontrada por Harvey9, que foi de 45% entre pacientes esquizofrênicos em idade inferior a 65 anos. Isso pode ter acontecido pelas limitações sociais imposJ . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 271 Comparação do comportamento social de pacientes esquizofrênicos vivendo na comunidade e utilizando antipsicóticos típico e atípicos tas pela própria sintomatologia apresentada pelos pacientes, já que uma importante associação entre distúrbios do pensamento e retraimento social, problemas que predominaram em nossa amostra, e reduzido nível ocupacional e desemprego entre pacientes esquizofrênicos foi descrita por Curson et al.4. No entanto o fato de grande percentagem de pacientes esquizofrênicos em idade economicamente ativa estar desempregada sugere que suas necessidades sociais e ocupacionais podem estar sendo negligenciadas e exigem providências que tornem esses pacientes mais participativos na comunidade9. Isso porque a execução de trabalho remunerado é implicada em melhoria dos sintomas psicóticos e elevada auto-estima3, e a reabilitação vocacional é reconhecida como auxiliar à terapia medicamentosa na esquizofrenia2. Souza et al. Limitações de nosso estudo são a ausência de dados acerca do comportamento social dos pacientes antes de iniciada a medicação, o que permitiria uma avaliação mais fidedigna da influência dos antipsicóticos sobre o comportamento social dos pacientes em nossa amostra, e o fato de nenhum instrumento que avaliasse o comportamento social através de entrevistas diretas com os pacientes ter sido empregado. Em resumo, em nossa amostra, não foi encontrada diferença significativa no número de problemas de comportamento social apresentado por usuários de diferentes antipsicóticos. A análise do comportamento social mostra-se um elemento auxiliar na avaliação de pacientes esquizofrênicos, permitindo uma intervenção direcionada às suas limitações. Referências 1. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 4 ed. Washington D.C.: American Psychiatric Association; 1994. 2. Bond GR, Meyer PS. The role of medication in the employment of people with schizophrenia. Journal of Rehabilitation 1999; 65(4): 9-16. 3. Bond GR, Resnick SG, Drake RE, Xie H, McHugo GJ, Bebout RR. Does competitive employment improve nonvocational outcomes for people with severe mental illness? J Consult Clin Psychol 2001; 69(3): 489-501. 4. Curson DA, Duke PJ, Harvey CA, Pantelis C, Barnes TRE. 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General Mário Hermes, 79 – Álvaro Weyne CEP 60336-230 – Fortaleza-CE Tel.: (85) 284-5880 e-mail: [email protected] J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 273 Homicídio: aspectos epidemiológicos, fenomenológicos e vitimológicos Homicide: epidemiologic, fenomenologic and victimologic aspects Flavio Jozef1, Jorge Adelino Rodrigues da Silva2 Recebido em: 28.05.03 Aprovado em: 10.06.03 Resumo Violência e crime violento são objeto de preocupação em todo o mundo, em face do impacto e dos prejuízos que tais fenômenos provocam na sociedade, e mercê do incremento que as estatísticas demonstram. Os estudos sobre homicídio apontam para importantes aspectos vitimológicos, assim entendidos aqueles que dizem respeito ao estudo das vítimas da violência. Um melhor conhecimento sobre homicídio, especialmente por parte dos profissionais que militam na área forense, mas também por parte do psiquiatra generalista, certamente permitirá melhor abordagem na questão da violência e do comportamento violento. Unitermos homicídio; comportamento violento; vitimologia; criminologia; psiquiatria forense Summary Violence and violent crime are all over the world a concern object, face to the impact and losses, in a broad sense, that such phenomena provoke in the society, and thanks to the increment that the statistics demonstrate. Studies on homicide point to important victimologic aspects, there understood those that concern violence victims study. A better knowledge of the phenomenon of homicide, especially by professionals that work on this area, but also by the generalist psychiatrist certainly will allow a better approach in the subject of the violence and violent behaviour. Uniterms homicide; violent behavior; victimology; criminology; forensic psychiatry Introdução Homicídio é um crime que dificilmente passa desapercebido, e isto facilita uma maior precisão nas estatísticas a ele referentes. Ademais, estatísticas nacionais de homicídios são feitas na maior parte dos países, e, em alguns, há mais de um século, permitindo a comparação, transversalmente, ou a evolução, ao longo do tempo20. Em nosso país, os dados apontam para a existência de um alto índice de homicídios, o que é considerado um termômetro do grau de violência em uma dada sociedade. Em 1990, ocorreram 32 mil homicídios no Brasil 17, o que corresponde a um índice de 21:100.000, preocupante, especialmente se comparado, por exemplo, aos 10,4:100.000 dos EUA, 0,6:100.000 da Inglaterra, 1,4:100.000 da Grécia, 1,6:100.000 de Portugal ou aos 1,2:100.000 que se verificam na maior parte dos países europeus, 1Doutor em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Programa de Estudo e Assistência em Psiquiatria Forense, Instituto de Psiquiatria, IPUB/UFRJ. 2 Professor adjunto de Psiquiatria da UFRJ, Programa de Estudo e Assistência em Psiquiatria Forense, Instituto de Psiquiatria da UFRJ; doutor em Psiquiatria. Este artigo foi elaborado com apoio da Faperj (processo E-26/ 170.129/2001) e faz parte do Projeto de Estudo da Violência Criminal e Psicopatia na Cidade do Rio de Janeiro. J . b r a s . p s i q u i a t r. vol. 52 (4): 275-282, 2003 275 Homicídio Josef & Silva sendo, no entanto, superado pela Colômbia (89,5:100.000), mas superando o México (17,5:100.000)20, 45. O custo da violência no Brasil, segundo recente estudo do Banco Interamericano do Desenvolvimento29, em gastos diretos e indiretos, alcança 85 bilhões de dólares/ano, o que dá uma idéia do pesado fardo que a violência criminal representa socialmente. Esta quantia abarca prejuízos representados pela perda na expectativa de produtividade das vítimas de violência; gastos com tratamentos, bem como com o aparato policial/judiciário e de segurança. Paralelamente, diversos autores têm revalorizado o fator psicopatia no contexto da criminalidade violenta, com base nas pesquisas de Robert Hare et al.16, continuadores do trabalho clínico de autores clássicos como Cleckley. Exemplificando, diversos estudos apontam para uma assimetria na curva de distribuição de crimes entre os criminosos, mesmo ao se estudar criminosos detidos, grupo que já se supõe bastante perigoso e contumaz no cometimento de crimes: um reduzido número de criminosos responderia por quantidade de crimes desproporcional27. Trata-se de fenômeno já descrito por Marvin Wolfgang, em seu estudo de 1972, realizado a pedido do procurador geral dos EUA, Edward Levi, Delinquency in a Birth Cohort: 7,5% de um grupo de indivíduos, estudados e acompanhados através do tempo, responderam por 52% dos crimes cometidos por todo o grupo, e destes, um núcleo caracterizado como recidivante crônico respondeu por 71% dos homicídios, 73% dos estupros e 70% das agressões graves43, em padrão que, posteriormente, verificou-se surgir sempre que se estuda a incidência de criminalidade grave no interior de um dado grupo. Assim, gradativamente, o Sistema de Justiça Criminal, em diversos estados norte-americanos, passou a levar em conta tal fato, voltando sua preocupação principal para indivíduos violentos com carreira criminosa e, freqüentemente, com um perfil psicopático de personalidade, já com duas ou três prisões por crimes violentos graves20, o que provocou importante queda na criminalidade naquele país em meados da década de 1990. É de se supor que uma efetiva detecção da parcela criminal mais ativa e recidivista, bem como sua desmobilização pela justiça criminal, em nos276 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 so país, teria importantes conseqüências sociais e econômicas. Homicídios instrumentais e reativos Homicídios geralmente são divididos em instrumentais e reativos. Instrumentais são aqueles que se dão no âmbito do cometimento de outros crimes, como, por exemplo, um assalto ou seqüestro, sendo, não raro, meticulosamente planejados. Já os chamados reativos, ou primários, constituem o chamado homicídio nuclear, implicando forte componente emocional e compartilhando uma série de características, classicamente estudadas, que iremos expor a seguir. Intragrupalidade A primeira e mais importante característica do chamado homicídio primário ou nuclear é a intragrupalidade, ou seja, o fato de ele se dar em um contexto social ou mesmo familiar, implicando, portanto, perfil próximo para perpetrador e vítima, inclusive no que diz respeito às suas características demográficas. Exemplificando, em 94% dos homicídios, vítima e perpetrador coincidiram em cor. Em 64%, em sexo e idade (média de 35,1 anos para a vítima e 31,9 para o perpetrador)42. Em 31% dos homicídios, perpetrador e vítima eram membros da mesma família9. O homicídio doméstico (envolvendo esposo, familiar próximo ou relacionamento íntimo), nos EUA, corresponde a um quarto do total, sendo metade destes o homicídio de um dos parceiros pelo outro (homicídio conjugal)41. Portanto homicídio tende a ser crime intragrupal (intrafamiliar, entre amigos, conhecidos, vizinhos, dentro de uma rede social próxima, enfim)26, 42, 43. Idade Toda a evidência aponta para o grande peso que tem o jovem na criminalidade violenta. Para Separovic35 tal fato é óbvio, citando pesquisa de Marcovic com homicidas croatas, na década de 1950, e que coloca 40% dos mesmos na faixa de 14 a 24 anos. Para Wolfgang43, a verdadeira extensão da violência cometida por crianças e adolescentes não poderia ser conhecida, mergulhando-se na cifra negra ou delinqüência oculta. Josef & Silva Homicídio Dados do Uniform Crime Report (UCR) e do FBI norte-americano apontam para o fato de 16% das prisões por roubo e agressão (os chamados crimes index) corresponderem a menores de 15 anos26. Já os menores de 18 anos responderiam por 42% das detenções. Entre 1960 e 1974 as detenções por crime violento aumentaram 126% nos EUA, tendo o grupo até 18 anos respondido por um aumento de 254%23. Porém o grupo etário que mais aumentou a sua participação em crimes violentos foi o de 10 a 14 anos43. Jovens entre 18 e 21 anos, mesmo constituindo apenas 8% da população, respondem por 23% das prisões por crimes violentos23. Também dados do FBI mostram que, em 1975, 95,5% dos detidos por homicídio contavam até 25 anos12. Este aumento nos índices de violência nos EUA em meados da década de 1960 pode ser correlacionado ao baby-boom, incremento nas taxas de natalidade norte-americanas no pós-guerra. Oscilações nos índices de violência nas décadas de 1970 (aumento), 1980 e 1990 (estabilização) também podem ser correlacionadas a variações nas populações de crianças e jovens43. Já o panorama nos países europeus é diverso. O homicídio juvenil é citado como raro na GrãBretanha, somando cerca de 25 casos por ano32, situação similar em boa parte dos países industrializados. Tais homicidas seriam oriundos de famílias perturbadas, freqüentemente abusivas, sendo eles mesmos portadores de psicopatologia. Outros autores28,34 correlacionaram positivamente maior juventude com maior periculosidade, estudando, respectivamente, populações de criminosos e de pacientes detidos em manicômio judiciário. Assim, a evidência é avassaladora: criminalidade violenta, incluindo homicídio, atinge especialmente o jovem. Há uma série de explicações para estes achados relacionados à juventude de homicidas. Exemplificando, a redução da força e da agilidade com a idade, a diminuição do vigor e da impulsividade, somadas a vivências negativas ligadas a comportamentos agressivos prévios, tudo parece se relacionar ao conhecido fenômeno do burn-out, ou seja, o decréscimo expressivo na atividade criminosa violenta que se verifica por volta dos 35 ou 40 anos. Cabe comentar a dicotomia legal juvenil/adulto. Para diversos autores11, 16, 43, não parece haver uma ruptura no comportamento violento do jovem, que, nos casos mais graves, não sofreria descontinuidade ao ultrapassar o limiar da idade adulta. Assim, esta dicotomia teria pequena justificativa. Valeria mais o perfil criminoso, na caracterização do indivíduo, do que a faixa etária. Esta é uma questão que tem óbvias implicações na esfera penal, pois é uma das bases da concepção legal de menor. Para Volavka41, por exemplo, existiria evidência em favor da continuidade entre o comportamento anti-social e o violento desde a infância até a maturidade. Entre os estudos que cita está o de Stattin et al.38, pesquisa prospectiva sueca que acompanhou 517 jovens, correlacionando positivamente o comportamento agressivo de meninos de 10 a 13 anos com ulterior criminalidade violenta na vida adulta. Sexo Segundo dados recentes do FBI26, nos EUA, 86% dos homicídios são cometidos por homens, 64% das vítimas são masculinas e 74% dos homicídios envolvem homens matando homens. Ainda segundo dados do UCR, no período de 1976 a 1987, 77% dos homicídios tiveram vítimas masculinas e 23%, vítimas femininas. As mulheres tendem a ter participação limitada no homicídio doméstico. A proporção homem:mulher em homicídios é, tipicamente, de 9:15, 35. Wolfgang42 listou uma série de conclusões ligadas ao sexo: quando um homem é morto por uma mulher, esta provavelmente é a esposa; quando uma mulher comete homicídio, é mais provável que mate o cônjuge do que se um homem o fizesse; 41% das mulheres mortas o foram por seus esposos. No contexto do homicídio conjugal, aquele em que a participação feminina mais se aproxima da masculina, ainda assim a chance de a mulher ser morta é o dobro da do homem. Tais diferenças relacionam-se a fatores biológicos: a maior agressividade é manifestada pelos machos, na maioria das espécies de mamíferos, inclusive primatas antropóides. O papel da testosterona no comportamento agressivo também aparece consubstanciado em inúmeros estudos com humanos e animais33. Exemplificando, índices elevados de testosterona em adolescentes correlacionaram-se positivamente com baixa toJ . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 277 Homicídio Josef & Silva lerância para frustração, impaciência, comportamento agressivo, criminosos violentos encarcerados e agressividade medida por observadores em estudos diversos. Há também, evidentemente, fatores socioculturais em jogo, como a visão machista, que permeia a cultura e que tende a colocar no homem o fardo de uma ampla vitimização. O adolescente de classe operária que precisa ser durão, beber bastante e responder agressiva e prontamente a determinadas situações está correspondendo a um ideal masculino inevitável se ele pretende socializar-se com sucesso. Já o menino que não pode chorar e tem de agir como um homem ao magoar-se, está sendo preparado para uma futura insensibilidade, seja como perpetrador, seja como vítima43. A estabilidade da correlação homicídios masculinos/femininos (perpetrados, respectivamente, por homens e mulheres) tem sido descrita de longa data20. Quando a taxa de homicídios em determinado país é baixa, aumenta a proporção de homicídios femininos (perpetrados por mulheres), os quais seguiriam uma constante. Por outro lado, onde ocorrem altos índices de homicídio haveria uma menor proporção de homicídios femininos. Na Inglaterra, a proporção gira em torno de 4:1. Nos EUA, em 1967, foi referida como sendo de 6:1, subindo para 9:1 na década de 199013, 26. A importante queda verificada (aproximadamente 25%) nos homicídios femininos, em todos os grupos etários, no início da década de 1980, nos EUA, foi atribuída ao surgimento de recursos legais e sociais contra o espancamento de mulheres, que ofereceu alternativas para situações anteriormente vividas como um beco sem saída6. Ademais, este tipo de homicídio tem sido claramente caracterizado pela pesquisa como tendo as características de autodefesa: as mulheres que matam parceiros masculinos freqüentemente vivenciavam altos graus de violência e ameaças na época em que o homicídio ocorreu5. Cor Todos os estudos apontam para uma maior incidência de homicídios entre negros, seguidos por outros grupos de não-brancos (indígenas, latinos) nos EUA26, 41-43. Além disso, deve-se observar a intragrupalidade do homicídio aparecendo nitidamente nos dados referentes à cor. 278 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Wolfgang43 aponta 73% dos homicidas e 75% das vítimas como sendo negros. Segundo o FBI, constituindo apenas 12% da população norteamericana, os negros corresponderam a 50% dos detidos por homicídio e 35% dos detidos por agressão. Wolfgang refere que a violência entre crianças e adolescentes negros excede em 12 vezes a correspondente entre brancos. São achados importantes, conhecidos há algum tempo e que desafiam os autores. Wolfgang43 articula-os ao que denomina subcultura da violência: bolsões subculturais se oporiam aos valores classe-média geralmente vigentes, valorizando e até premiando a violência expressa abertamente. É importante assinalar que a presença de um ethos violento como característica de um grupo que adota uma subcultura da violência nem sempre é de fácil caracterização. Tais valores vêm dissimulados, sendo apresentados sob as mais variadas justificativas ou racionalizações por parte de membros do subgrupo. O fato é que, antes de virem para a América, com certeza os negros não eram tão violentos. Estudos em sociedades tribais da África apontam para baixas taxas de homicídio3. As privações da população negra seriam um fator de exposição, sob múltiplos aspectos (moradia, educação, problemas médicos no parto, piores condições de vida em geral), a uma vitimização ampla, que iria expressar-se também através do envolvimento em crimes violentos, tanto como perpetrador quanto como vítima. Resta lamentar a ausência do dado cor em estudos e mesmo em estatísticas oficiais brasileiras, o que, possivelmente por uma visão equivocada do que seja preconceito, vem apenas colocar obstáculos para o conhecimento da realidade. Classe socioeconômica Toda uma tradição de estudos correlaciona homicídio à classe social menos favorecida e suicídio à classe mais favorecida. De forma similar ao homicídio feminino, o homicídio nas classes altas parece obedecer a uma constante43. Assim, havendo um excesso no número de homicídios, este irá alocar-se entre as classes menos favorecidas, no que já foi denominado uma distribuição desigual da violência11. Josef & Silva Homicídio Background familiar Tem sido enfatizada a influência de fatores relativos ao meio familiar na gênese de comportamentos violentos em geral, e homicidas, especificamente. A família é o primeiro agente de controle social da conduta, bem como fonte de laços afetivos e identificações que estruturam a personalidade. Bourget et al.4 referem que os estudos sobre homicidas infantis, adolescentes e adultos, quase unanimemente, referem um meio familiar de grave desorganização ou desajuste, onde o denominador comum é a persistente brutalidade física sofrida ou presenciada. Ao contrário do que inicialmente se imaginava, tendo em vista a constância de lares rompidos na infância de delinqüentes juvenis, diversos estudos com homicidas apontam para a presença paterna no lar, bem como para uma aparente coesão familiar na infância precoce destes indivíduos7, 22, 46. Ocorre que a interação entre os pais, neste contexto, se dava pela violência. A literatura faz referência ao ambiente de violência na infância de homicidas freqüentemente dirigida contra ele2, 24, 34. Lewis et al.24 referem que 62% dos pais de jovens homicidas tinham sido violentos fisicamente contra as mães, contrastando com 13% dos pais de jovens não-homicidas. Blake et al.2 encontraram a presença de abuso sexual na infância de 33% dos indivíduos. Quanto à violência física sofrida, consideraram mais adequado falar em tortura , tal a intensidade e a cronicidade dos maus-tratos, confirmados pela presença de cicatrizes, fraturas consolidadas, marcas de queimaduras de cigarros e outros estigmas. Fator álcool/drogas É um fato bem estabelecido a presença importante do álcool em situações homicidas. Sua presença incontestável na cena homicida se dá em 50% a 64 % dos casos, seja na vítima, no agressor ou em ambos43. É importante assinalar que a presença do álcool se dá tipicamente como um desinibidor, talvez exacerbando uma predisposição irritável, porém não chegando a embriagar o homicida. Tipicamente, o homicida e a futura vítima bebem juntos. No tocante à vitimização, o álcool pode agir como um desinibidor, levando a comportamentos agressivos que podem funcionar como provocação para uma agressão ulterior. Estudos recentes indicam que o consumo de álcool parece estar especialmente relacionado ao homicídio doméstico ou conjugal, reforçando o conceito de uma desinibição seletiva, influenciada por normas sociais, que frearia a violência em outros contextos, como, por exemplo, na interação com estranhos30. Não podemos esquecer que a intoxicação alcoólica pode somar-se a fatores preexistentes, tais como distúrbios de personalidade ou, ainda, comprometimentos neuropsiquiátricos (seqüelas de traumatismos, epilepsias), situações que tornam o indivíduo especialmente vulnerável a conduta violenta41. Drogas também têm sido detectadas em grupos de criminosos violentos, abrindo o leque das preocupações para drogas ilícitas como maconha e cocaína. Em estudo com detidos de 199325, realizado em 24 cidades norte-americanas, entre 37% e 59% apresentavam drogas ilícitas presentes em amostras de urina. Estudos com drogaditos apontam para uma relação positiva entre uso de drogas e maior criminalidade: é provável que o uso de drogas como a cocaína e o PCP facilitem o cometimento de crimes violentos, na chamada violência psicofarmacológica. Quanto à chamada violência compulsiva econômica, seria associada aos altos custos do uso de drogas ilícitas, não se originando mais diretamente do efeito fisiológico das mesmas. Já a violência sistêmica derivaria do esquema de tráfico e distribuição de drogas. Interação homicida/vítima O relacionamento homicida/vítima é, freqüentemente, casamento ou outro relacionamento próximo30, 42, 43. Em 40% dos incidentes, perpetrador e vítima são vizinhos, amigos ou conhecidos26. Wolfgang43 cita mais de 50% dos homicídios masculinos como envolvendo parentes próximos ou amigos. Incluindo-se aí os homicídios envolvendo o chamado grupo primário (círculo social mais íntimo), este percentual subia para 59%. Em 94% de todos os homicídios estudados, o homicida e a vítima eram da mesma cor, em 64% eram do mesmo sexo. Em estudo realizado na Escócia, 30% das vítimas (79% J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 279 Homicídio Josef & Silva no caso de homicídios femininos) tinham algum parentesco com o acusado15. Lauder23 cita os 5.200 homicídios domésticos que ocorrem por ano nos EUA, sendo que, em 50%, um cônjuge mata o outro (homicídio conjugal). Em 1985 ocorreram 2 mil homicídios conjugais (entre parceiros ou ex-parceiros) nos EUA6. Estudo sobre a violência conjugal10 aponta para uma rigidez nos papéis sexuais, com aderência a estereótipos masculinos e femininos, por parte de casais, facilitando a ocorrência de violência conjugal, pela irrealidade de expectativas geradas: o homem, necessariamente forte, dominante, superior e bem-sucedido, provedor e último juiz, mas sem responsabilidade pelo clima emocional da casa; as mulheres tendo de arcar com expectativas e demandas, freqüentemente exageradas. Em situações típicas de conflito, seriam colocados em jogo tais papéis estereotipados, com frases-estopim do tipo: Que tipo de mãe é você? Ou ainda: E você ainda se considera um homem? Especialmente a situação de separação parece facilitar o surgimento de violência. Em estudo envolvendo homicídios de mulheres, 52% destas foram mortas por parceiros, metade dos quais estava afastada das mesmas8. Em outro estudo similar, 52% das vítimas encontravam-se separadas dos parceiros na ocasião do crime39. Homicídios tendem, tipicamente, a ocorrer em períodos de lazer e associados a atividades recreativas. Tanay40 assinala a casa como local do homicídio em 58% dos casos que estudou. Para este autor, o ato homicida freqüentemente representaria a resolução de eventos que se encadeiam em poucos dias, em média três, com uma crescente escalada na tensão. Segundo estatísticas policiais norte-americanas, em 85% dos casos de homicídio doméstico a polícia havia comparecido ao local do crime pelo menos uma vez nos dois anos que o precederam; em 50% dos casos já o fizera cinco vezes ou mais23. Wolfgang42 relata que, contrariamente a impressões corriqueiras, a análise dos homicídios revela uma proporção relativamente elevada de detenções ou ocorrências policiais prévias: do total de homicidas, dois terços tinham registro de prisão prévia, assim como 50% das vítimas. Como vemos, a popular visão do homicida como um homem que, ao se barbear pela manhã, não tinha a menor idéia de que naquele dia 280 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 cometeria um assassinato, tem muito de fantasiosa. Por outro lado, quando incorporamos a compreensão de homicídio como resultado de uma interação, a visão tradicional da vítima, como inocente, apenas um alvo de violência alheia, também fica comprometida. A partir destes conhecimentos, ganha importância a proposta de condutas preventivas mais efetivas e atuantes, aliás adotadas por polícias de diversos países, tendo em vista propostas de criminólogos como Wolfgang43 e Rapapport31. Equipes compostas de assistentes sociais, psicólogos e policiais atuam em focos conhecidos de violência doméstica, contrariando o velho aforismo que afirma que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. Homicídio precipitado pela vítima O chamado senso comum tende a ver a vítima de homicídio de uma forma asséptica , como inocente e não-agressiva. Como lembra Silva36, o criminoso está básica e irremediavelmente em oposição aos interesses da sociedade, que, comprovada sua ação intencional, irá puni-lo de forma retributiva. Juridicamente, também, há apenas uma vítima, a ser resgatada e reparada. Ocorre que na dinâmica das intencionalidades e impulsividades há, não raro, envolvidos dois indivíduos com potencial agressivo similar, sendo extremamente relevante a conduta da vítima no contexto da cena do crime. Freqüentemente, seria determinado pelo acaso a quem caberia o papel de vítima ou o de perpetrador. Semelhanças nos perfis psicológico e demográfico, dentro do contexto de intragrupalidade do homicídio, reforçam esta visão. O fenômeno do homicídio precipitado pela vítima chamou a atenção de Wolfgang, que o descreveu em trabalho com o mesmo nome44. Dos 588 casos de homicídio que estudou na Filadélfia, em 26% das situações homicidas a vítima fora a primeira a empregar força física ou a exibir ou empregar uma arma, indo além da mera discussão ou troca de palavras ásperas. Separovic35 cita Marcovic, que fala em 62,1% dos homicídios que estudou na Croácia envolvendo provocação por parte da vítima, consistindo a mesma em ação ilegal ou imoral, resultando em perigo ou dano para o perpetrador ou pessoa próxima a ele. Josef & Silva Homicídio A percepção de ser ameaçada por seu parceiro parece desempenhar importante papel no homicídio feminino, no contexto conjugal. Wolfgang43 observou a freqüência desta situação entre os homicídios conjugais, bem como a grande presença relativa de mulheres entre os perpetradores e de homens entre as vítimas dos homicídios – precipitados pela vítima. Assim, mulheres que matam parceiros masculinos freqüentemente experimentaram graves níveis de violência no momento do homicídio30, 44 . Também tendem a fazê-lo no curso de incidente no qual acreditam que elas próprias ou um filho poderá ser gravemente ferido ou morto14. Conclusão Violência e crime violento são fenômenos graves, de grande impacto objetivo e subjetivo. As estatísticas relativas a homicídio são consideradas bastante precisas e tomadas como um termômetro do grau de violência em uma dada sociedade. Em diversas partes do mundo e em nosso país em especial, as estatísticas indicam um incremento na taxa de homicídio. De forma crescente, os psiquiatras tendem a ser convocados a se pronunciar sobre questões relativas à violência criminal, envolvendo doentes mentais ou não, e isto começa a se refletir na literatura especializada. Um melhor conhecimento sobre homicídio envolvendo a literatura, não só psiquiátrica, mas também sociológica e criminológica, e abarcando seus aspectos epidemiológicos, fenomenológicos e vitimológicos é recomendável, não só para o psiquiatra que milite na área forense, mas também para o psiquiatra generalista. Referências 1. Auerhahn K, Parker RN. Drugs, alcohol and homicide. In: Smith MD, Zahn MA (eds). Studying and preventing homicide: Issues and challenges. Londres: Sage Publ., 1999. p. 97-114. 2. Blake PY, Pincus JH, Buckner C. Neurologic abnormalities in murderers. Neurology 1995; 45: 1641-7. 3. Bohannan, P. Patterns of homicide among tribal societies in Africa. In: Wolfgang ME (eds). Studies on homicide. Nova York: Harper and Row, 1967. p. 211-37. 4. Bourget D, Labelle A. Homicide, infanticide and filicide. Psych Clin North Am 1992; 15(3): 661-73. 5. Browne A, Williams K, Dutton DG. Homicide between intimate partners. In: Smith MD, Zahn MA (eds). Studying and preventing homicide. 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Em estudo anterior, utilizando-se o Questionário de Morbidade Psiquiátrica do Adulto (QMPA) e a Entrevista Psiquiátrica (CID-10) numa amostra de n = 80, obteve-se uma prevalência de doenças mentais de 16,6%. Nesse estudo, a amostra foi distribuída segundo: a) estar trabalhando ou não em regime de turnos alternados; b) estar atualmente ou anteriormente exposto a turnos e nunca ter sido exposto a turnos, correlacionando-se cada condição à presença de doenças mentais. No momento, trabalhavam em turnos alternados 54,3% da amostra. Encontrou-se uma forte associação entre doença mental e trabalho atual ou anterior em turnos alternados. O risco para adoecimento mental foi duas vezes maior (RR = 1,86) para os expostos a turnos. A doença mental associada à exposição a turnos alternados parece não desaparecer com a alteração do sistema de trabalho, destacando-se a importância da questão preventiva. Unitermos saúde mental; trabalho; trabalho em turnos Summary This study aimed to verify the interrelationship between mental illness and alternated shift work in iron-ore mining workers. In a past study, using the Questionnaire of Psychiatric Morbidity for Adults (QMPA) and Psychiatric Interview (CID-10) in a sample of n = 580, it was obtained the prevalence of mental illness of 16.6%. In this study, the sample was distributed according: a) to be working or not in alternated shift; b) to be working at the present or past in shift and never to be working in shift, correlating each condition to presence of mental illness. At the moment, in alternated shift, 54.3% are engaged .It was found a strong association between mental disease and to have been or be exposed to alternated shift. The risk to become mentally ill was two times greater (RR = 1.86) to workers exposed to shifts. The mental disorder associated to exposure to alternated shifts seems not disappear with the change of work schedule, emphasizing the importance of preventive question. Uniterms mental health; job; shift work 1Professora-doutora. 2Psicóloga; membro do Laboratório de Saúde Mental e Trabalho. Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas (SP). J . b r a s . p s i q u i a t r. vol. 52 (4): 283-289, 2003 283 Transtornos mentais e trabalho em turnos alternados em operários de mineração de ferro em Itabira Introdução O trabalho em turnos existe desde o início da vida social humana e é mantido até hoje devido a razões econômico-tecnológicas. Em países industrializados, há uma tendência ao aumento da mãode-obra envolvida com trabalho em turnos22. A interrupção de determinadas operações é inadmissível para grande parte das empresas, pois pode significar enormes prejuízos para todos os processos produtivos que envolvem máquinas, cuja obsolescência técnica ocorre bem antes de seu desgaste propriamente dito16. O sistema de turnos fixos ou alternados tem sido objeto de pesquisas em inúmeros estudos realizados no Brasil e em outros países9. A manutenção de atividades durante 24 horas, levando-se em consideração apenas razões técnico-econômicas, gera conflitos com o ritmo da vida em família19 e na comunidade3, constituindo-se em fator de risco à saúde e à vida social dos trabalhadores6-8. Uma porcentagem significativa de trabalhadores em turnos relata desconforto ou problemas de saúde, e freqüentemente (15% a 20% dos casos) acabam por desempenhar outras ocupações11, diferentes daquela desempenhada quando em regime de turnos. Durante o trabalho em turnos, várias alterações podem ocorrer na saúde física e mental do trabalhador: distúrbios do sono 14-10 , gastrointestinais, cardiovasculares e psíquicos6. Trabalhadores em turnos têm um risco maior para disfunções reprodutivas, e indivíduos vulneráveis podem desenvolver depressão clínica24. Além disso, o trabalho em turnos aumenta o risco de acidentes11. Em estudo realizado sobre os efeitos do trabalho em turnos5, no qual o turno alternado era cumprido pela maior parte da amostra, verificouse que a esfera da saúde estava extremamente afetada principalmente pela presença de distúrbios neuropsíquicos, cardiovasculares e gastrintestinais, corroborando dados já referidos na literatura. Em relação ao sono, as alterações são atribuídas à dessincronização dos ritmos circadianos provocada pelas mudanças no ciclo atividade/repouso, em face do sistema de turnos utilizado8. Em nenhuma outra condição ligada à organiza284 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Guimarães & Teixeira ção do trabalho os efeitos do estilo de vida sobre o sono são mais evidentes do que na mudança para o sistema de turnos26. Com as exigências do mercado global, um grande contingente de empregados tem trabalhado em horários não-convencionais. Aproximadamente 20% dos empregados dos países industrializados trabalham em sistema de turnos, o que requer uma mudança drástica nos seus hábitos de sono nos finais de semana ou mesmo diariamente. Ainda não se dispõe de estatísticas precisas para a prevalência dos efeitos das mudanças provocadas pelo trabalho em turnos. Estima-se que aproximadamente 20% dos trabalhadores de turnos relatam cochilar durante o trabalho, o que aumenta o risco de acidentes de trabalho e diminui a produtividade, ou seja, ironicamente, o trabalho em turnos pode diminuir o ganho econômico, justificativa pela qual o mesmo é empreendido e mantido26. É importante referir também os prejuízos à vida social e familiar, nos quais se inclui a não-participação do trabalhador em atividades culturais, educacionais e esportivas 1. Os relacionamentos interpessoais ficam empobrecidos, tornando a integração social problemática devido à estruturação das atividades familiares, sociais e culturais centradas em torno dos fins de semana7. Além desses aspectos, a vida social também é prejudicada pela dificuldade de planejamento da vida 5. As atividades extratrabalho (ex.: faculdade, cursos de línguas, informática, música e outros) requerem uma organização rígida do tempo, o que não é possível para quem não possui um horário fixo de trabalho. O relacionamento familiar é um dos aspectos mais afetados pelo sistema de turnos25. Os trabalhadores evitam contatar com seu cônjuge e filhos, pois ficam facilmente irritados devido à diferença de ritmo sono/vigília da família, apresentando explosões de raiva, especialmente quando voltam cansados do trabalho12. Além dos fatores relacionados à saúde, não é raro encontrar trabalhadores de turnos alternados com duplo emprego. Em geral o segundo trabalho é autônomo, podendo ser exercido a partir da irregularidade dos horários proporcionados pelo exercício da função em turnos alternados, em detrimento da reposição do sono, do descanso efetivo e do lazer13. O sistema de trabalho em turnos alternados é considerado um risco relativo à organização do Guimarães & Teixeira trabalho, sendo apontado como fonte de cansaço e nervosismo em inúmeros estudos sobre o assunto18. O trabalho em turnos é um aspecto laboral que pode assumir uma grande extensão na gênese da fadiga e dos problemas mentais, assim como os distúrbios psicossomáticos, tornando-se a razão para o isolamento social do trabalhador submetido a este sistema25. O fato de o trabalhador executar seu trabalho em sistema de turnos alternados sem que esta condição seja escolha sua acaba conduzindo-o a um esforço complementar e a uma disposição a consumir mais drogas, tais como álcool, tabaco, entre outras4. O alcoolismo vem sendo apontado como a doença mais prevalente relacionada ao trabalho em turnos2-21. Em um estudo com trabalhadores de turnos fixos de 12 horas17, este sistema foi apontado como fator de redução de fadiga. Estes achados devem-se, provavelmente, ao efeito da presença do trabalhador sadio, ou seja, os trabalhadores que não se adaptaram ou não suportaram o trabalho noturno em jornadas de 12 horas não faziam parte do grupo no momento do estudo, enquanto que os trabalhadores noturnos desenvolveram estratégias de enfrentamento (coping) eficazes, apresentando aparentemente melhores resultados que os dos trabalha-dores diurnos. Cabe lembrar que muitos dos trabalhadores, embora não se adaptem ao sistema, continuam vinculados ao mesmo, visto que existe uma complementação salarial importante para o trabalho em turnos, sobretudo no período noturno. Encontram-se também trabalhadores que estão satisfatoriamente adaptados ao sistema de turnos alternados, não evidenciando maiores problemas de saúde. As alterações na saúde do trabalhador de turnos alternados podem ocorrer em pouco tempo e ser observadas durante as horas de trabalho, quando estes estão desempenhando suas atividades12. Os efeitos do trabalho em turnos na saúde do trabalhador são bem conhecidos e podem deixar profundas raízes com o passar dos anos. A adaptação ao trabalho em turnos depende de muitos fatores: padrão de comportamento dos ritmos biológicos de cada pessoa, idade, quantidade de tempo de exposição ao fator, tipo de trabalho desempenhado, características da organização do trabalho em turnos (grupos, extensão da jornada), conciliação do trabalho com a vida Transtornos mentais e trabalho em turnos alternados em operários de mineração de ferro em Itabira extra laboral, expectativas individuais, entre outros20. O sistema de turnos alternados em interação com múltiplas e complexas variáveis expõe inevitavelmente o trabalhador a riscos relacionados à saúde global e à qualidade de vida. Mesmo não existindo um sistema ideal de trabalho em turnos15, é possível mudar as escalas de trabalho, levando-se em consideração tanto os princípios circadianos quanto a opinião dos trabalhadores, a fim de proporcionar menos repercussões sobre a saúde e a vida social destes indivíduos28. Para a não-instalação da doença mental propriamente dita é necessário que os profissionais da saúde estejam atentos e intervenham precocemente em suas manifestações prévias. Estudos relacionando os efeitos da exposição do sistema de turnos alternados à saúde mental do trabalhador da indústria extrativa de mineração de ferro, com as características desta área e coletivo de trabalho, inexistem nas literaturas nacional e internacional. Objetivos 1. Identificar os indivíduos que trabalham em turnos alternados; 2. verificar a associação entre doença mental e exposição atual a turnos alternados; 3. estabelecer possíveis correlações entre doença mental e exposição atual ou anterior a turnos alternados e/ou doença mental e nenhuma exposição. Método Descrição da área Esse estudo foi realizado num segmento do operariado de uma indústria extrativa de mineração de ferro em Itabira, Minas Gerais. A unidade de produção instalada no local compreende cinco minas: quatro em Itabira e uma próxima à cidade (5km). Foi estudada uma amostra de trabalhadores que desempenha seu trabalho dentro de um local denominado Usina de Concentração de Finos, cuja instalação apresenta-se na forma de um prédio de seis andares. Esta usina situa-se dentro da mina do Cauê, onde se concentram cerca de 70% da capacidade total de produção da companhia e na qual existem todas as fases de produção, o que não ocorre nas outras minas. J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 285 Transtornos mentais e trabalho em turnos alternados em operários de mineração de ferro em Itabira Descrição da população Na Usina de Concentração de Finos há duas grandes classificações de trabalhadores: aqueles que se ocupam do processo de tratamento do minério especificamente e os que trabalham no departamento de manutenção. O primeiro pode ser subdividido em: a) trabalhadores e ajudantes de instalações mecanizadas; b) instrumentistas e trabalhadores especializados. A categoria que reúne a maioria dos trabalhadores do local é a de ajudantes de instalação mecanizada, 53% dos trabalhadores da divisão. Esta função compreende a atividade de vigilância das engrenagens e do maquinário. Há um grande e diversificado número de supervisores formado por geólogos, engenheiros elétricos, eletricistas, técnicos de transportes, de minas e de segurança. A justificativa dos diferentes escalões que compõem a amostra para a existência do processo de produção contínua em sistema de turnos alternados (da 0h às 6h, das 6h às 15h e das 15h às 24h) refere-se ao alto custo do equipamento e do tratamento de extração de minério e do equipamento para a própria manutenção do maquinário. Os trabalhadores deste conglomerado exercem sua atividade sob o lema psicológico a mina não pode parar. Compatível com esta proposição, a necessidade do processo contínuo de produção passa a justificar a existência do sistema de turnos alternados. A vigilância do maquinário, trabalho considerado monótono e exercido por 53% destes funcionários, está também sob inúmeras outras contingências de risco: trabalho com pouca iluminação, umidade, poeira em suspensão, ruídos excessivos, vibração, entre outros. Do ponto de vista metodológico, no entanto, é possível extrair uma variável (turno) e relacioná-la à presença de doença mental, objetivando-se conhecer de forma particularizada esta inter-relação. Desta forma, não se desconsidera, neste estudo, a influência das outras variáveis de risco acima elencadas no processo de adoecimento mental do trabalhador. Amostra O número total de trabalhadores da Usina de Concentração é de n = 907. A amostra estabelecida foi de n = 579 (62,9% da população para um erro padrão de 0,002%). Para facilidade de 286 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Guimarães & Teixeira cálculos, o número amostral foi corrigido para n = 580. Não houve recusa ou perda de casos durante todo o estudo. Quando os trabalhadores entrevistados estavam em férias, eram localizados e chamados à empresa. Esta conduta foi viabilizada graças à proximidade da moradia da maioria dos funcionários. As casas onde moram são de propriedade da empresa e se situam em vilas próximas às unidades de trabalho. A amostra foi constituída de forma aleatória. Quando os trabalhadores compareciam para fazer exames médicos de rotina no serviço de medicina ocupacional da empresa, eram convidados a participar da pesquisa, sendo entrevistados pela pesquisadora principal. A amostra foi composta de trabalhadores do sexo masculino (uma vez que não existiam mulheres trabalhando no setor), na faixa etária entre 18 e 60 anos, com todas as categorias ocupacionais representadas proporcionalmente. Como pré-requisito os trabalhadores deveriam estar trabalhando na companhia pelo menos um ano antes da aplicação dos instrumentos de pesquisa. Procedimento A prevalência de doença mental obtida em uma investigação anterior13 realizada com a mesma amostra (n = 580) foi de 16,6%. Para tanto utilizaram-se o Questionário de Morbidade Psiquiátrica do Adulto (QMPA), desenvolvido por Santana23, e a entrevista psiquiátrica para confirmação de casos, segundo a CID-10. No presente estudo, inicialmente os trabalhadores foram divididos, segundo a condição psiquiátrica (doente x não-doente) em dois grupos: atualmente expostos a turnos e atualmente não-expostos a turnos. Em seguida, uma nova classificação, segundo a condição psiquiátrica, foi feita para três grupos: atualmente expostos a turnos, anteriormente expostos a turnos e nunca expostos a turnos. Numa terceira etapa, os trabalhadores foram agrupados em dois grupos, segundo a condição psiquiátrica, sendo: atualmente ou anteriormente expostos a turnos e nunca expostos a turnos. Esta etapa tinha como finalidade estabelecer-se uma possível correlação entre exposição a turnos alternados e doença mental. Métodos estatísticos Utilizou-se o Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 7.0, para processamento Guimarães & Teixeira Transtornos mentais e trabalho em turnos alternados em operários de mineração de ferro em Itabira e análise de dados. O método do qui-quadrado e o teste exato de Fischer foram usados para verificação de associação de variáveis (p < 0,05). Resultados Trezentos e quinze trabalhadores da amostra (54,3%) trabalhavam em sistema de turnos alternados. Na Tabela 1 observam-se p = 0,328 e OR (0,8< ou <2,06), indicando não existir associação entre o fato de o trabalhador estar trabalhando em turnos alternados no momento e a presença de doença mental. A Tabela 2 mostra a distribuição das seguintes variáveis: estar trabalhando em turnos, já ter trabalhado em turnos e nunca ter sido exposto a turnos, bem como a condição psiquiátrica. Segundo os dados desta tabela, há associação entre as variáveis exposição a turnos e doença mental, onde p = 0,02. A Tabela 3 apresenta a variável exposição a turnos classificada como: atual ou anteriormente exposto e nunca exposto, além da variável condição psiquiátrica. Encontraram-se p = 0,013 e odds ratio (0,16 < ou < 3,85), o que significa que há uma forte associação entre as variáveis atualmente ou anteriormente exposto a turnos e doença mental. O risco relativo (RR = 1,86) indica que indivíduos que estão ou estavam trabalhando em turnos alternados seriam duas vezes mais propensos ao risco de adoecimento mental do que aqueles nunca expostos. Tabela 1 – Distribuição por turno ou não-turno e condição psiquiátrica Condição psiquiátrica Sistema de trabalho Doente Turno Não-turno Total 57 39 96 % Não-doente % Total % 9,83 6,77 16,6 258 226 484 44,47 38,93 83,4 315 265 580 54,3 45,7 100 Odds ratio (0,8 < ou < 2,06); p = 0,328. Tabela 2 – Distribuição por exposição a turnos e condição psiquiátrica Condição psiquiátrica Exposição a turnos Turno atual Turno anterior Nunca exposto Total Doente % Não-doente % Total % 57 22 17 96 9,83 3,84 2,93 16,6 258 77 149 484 44,47 13,24 25,69 83,4 315 99 166 580 54,3 17,08 28,62 100 p = 0,02. Tabela 3 – Distribuição por exposição ou não a turnos segundo a condição psiquiátrica Condição psiquiátrica Exposição a turnos Doente % Não-doente % Total % Turno atual ou anterior Nunca exposto Total 79 17 96 13,67 2,93 16,6 335 149 484 57,75 25,65 83,4 414 166 580 71,42 28,58 100 Odds ratio (0,16 < ou < 3,85); p = 0,013; RR = 1,86. J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 287 Transtornos mentais e trabalho em turnos alternados em operários de mineração de ferro em Itabira Discussão O sistema de turnos alternados é uma condição ligada à organização do trabalho que acarreta conseqüências deletérias à saúde do trabalhador. Na empresa estudada, este sistema foi introduzido simultaneamente ao processo de trabalho contínuo, na década de 1970, coincidindo com a fase expansionista da exportação brasileira de minério de ferro. O sistema de trabalho em turnos alternados é um aspecto de grande importância na gênese do estresse ocupacional, da fadiga crônica, de problemas mentais e psicossomáticos, além de contribuir para uma maior exclusão social do trabalhador. Comparando-se os trabalhadores em turnos com os que não estavam trabalhando neste sistema (no momento do estudo), segundo a presença de doença mental, não foram encontradas diferenças significativas entre os dois grupos. Entretanto, quando foram unidos num só grupo, trabalhadores atualmente e anteriormente expostos a turnos, e comparados com os nunca expostos a turnos, segundo a presença de doença mental, o resultado encontrado foi uma forte associação entre exposição a turnos e doença mental. Aproximadamente 99 trabalhadores (17,08%) da amostra já tinham trabalhado em turnos alternados, mas no momento do estudo não estavam trabalhando mais. Por sugestão do departamento de medicina ocupacional da companhia, alguns foram transferidos para horários fixos devido a várias razões, incluindo o adoecimento mental. Alguns trabalhadores solicitaram esta mudança espontaneamente, mas muitos levaram bastante tempo para ser convencidos a aceitar a sugestão da medicina do trabalho, inclusive escondendo agravos e não manifestando queixas de saúde. Em geral, os supervisores imediatos, ao detectarem tais situações, reportavam-se à chefia do departamento, que encaminhava o caso à medicina do trabalho. É preciso levar em consideração o bônus salarial recebido pelo trabalhador em turnos alternados, principalmente no trabalho desenvolvido no horário noturno, além da resistência pessoal em não demonstrar fraqueza a partir da manifestação de algum tipo de doença. 288 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Guimarães & Teixeira Em concordância com os achados relatados em literatura17, no presente estudo parece ter ocorrido a presença do efeito do trabalhador sadio, ou seja, a maior parte do grupo atualmente exposto a turnos alternados adaptou-se a este sistema de trabalho, não sendo encontrada nenhuma correlação significativa com doença mental. Entretanto, extrapolando os achados dos autores acima citados, foram agrupados para análise os trabalha- dores atualmente ou anteriormente expostos a turnos que, quando comparados com os nunca expostos, apresentaram diferenças de resultados, apontando para uma correlação altamente significativa entre doença mental e trabalho em turnos alternados. Conclusão Encontrou-se uma forte associação entre a presença de doença mental e o fato de o trabalhador estar trabalhando ou já ter trabalhado em sistema de turnos. Ter sido ou estar exposto a turnos alternados predispõe o trabalhador duas vezes mais (RR = 1,86) ao desenvolvimeto de algum tipo de patologia psiquiátrica maior. Esse resultado permite afirmar que pesquisas posteriores devem estar atentas para a história ocupacional do trabalhador em turnos, já que parece ser insuficiente aferir essa condição quando a mesma é desempenhada apenas no momento da coleta de dados. Uma vez que o trabalhador tenha adoecido mentalmente quando exposto a turnos alternados, mesmo retirando-o da exposição e remanejando-o para horários fixos, possivelmente a patologia continuará presente. Ou seja, uma vez instalada a doença, somente a mudança do sistema de horários parece não resolver o problema. Neste caso a questão da prevenção é de fundamental importância. É necessário que os profissionais da saúde fiquem atentos e intervenham precocemente nas manifestações prévias da doença mental do trabalhador em sistema de turnos alternados. Melhor ainda seria encontrar soluções viáveis, que extinguissem o trabalho em sistema de turnos alternados, já que é comprovadamente incompatível com os ritmos humanos de funcionamento, ocasionando graves transtornos do ponto de vista biopsicossocial. Guimarães & Teixeira Transtornos mentais e trabalho em turnos alternados em operários de mineração de ferro em Itabira Referências 1. Akerstedt T. Sleepiness as a consequence of shift work. 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Jornal Brasileiro de Psiquiatria Endereço para correspondência Liliana Andolpho Magalhães Guimarães Rua Benedito Sampaio 75 – Parque São Quirino CEP 13088-220 – Campinas-SP Tel.: (19) 3256-3707 e-mail: [email protected] J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 289 A atuação do psicólogo no Serviço de Interconsulta Psiquiátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo The activity of the psychologist in the Psychiatrist Interconsultation Service of the University Hospital of the Faculty of Medicine of Ribeirão Preto, University of São Paulo Recebido em: 04.11.02 Flávia de Lima Osório1; Sonia Regina Loureiro2 Aprovado em: 30.04.03 Resumo Com base nas questões teóricas que tangem o tema interconsulta psiquiátrica, pretende-se descrever a atuação do profissional psicólogo num serviço de interconsulta psiquiátrica de um hospital geral universitário, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/Universidade de São Paulo (HC/FMRP/USP), detalhando os objetivos da interconsulta, no âmbito das rotinas de assistência hospitalar, do ensino e da pesquisa, contribuindo para o desenvolvimento e a divulgação desta prática. Unitermos interconsulta psiquiátrica; consultoria; psicologia hospitalar Summary On the basis of theoretical questions regarding the topic of psychiatric interconsultation, we intended to describe the activity of the psychologist in a psychiatric interconsultation service of a general university hospital (HC/FMRP/USP), with details on the objectives of interconsultation within the routine of hospital assistance, teaching and research, in order to contribute to the development and the dissemination of this practice. Uniterms psychiatric interconsultation, consultantship, hospital psychology 1Psicóloga contratada do Serviço de Interconsulta Psiquiátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/Universidade de São Paulo (HC/FMRP/USP). 2Docente do Departamento de Neurologia, Psiquiatria e Psicologia Médica da FMRP/USP. J . b r a s . p s i q u i a t r. vol. 52 (4): 291-297, 2003 291 A atuação do psicólogo no Serviço de Interconsulta Psiquiátrica do HC/FMRP/USP Objetivando contextualizar o tema abordado, iniciar-se-á com uma breve descrição teórica, procurando delinear este campo de ação, passando então a caracterizar o Serviço de Interconsulta do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/Universidade de São Paulo (HC/ FMRP/USP) em sua constituição e funcionamento, apresentando reflexões acerca da atuação do profissional psicólogo neste serviço. Contexto teórico de inserção da interconsulta psiquiátrica O movimento psicossomático que se iniciou na Alemanha e na Áustria favoreceu, segundo Lipowski12, o desenvolvimento de conhecimentos acerca das relações entre o psíquico, o social e o biológico na determinação da saúde e da doença, tendo um grande impacto na prática médica e possibilitando a entrada da psiquiatria no hospital geral. Assim, segundo Martins apud Andreoli1, à medida que a concepção psicossomática foi sendo institucionalizada, os serviços de interconsulta psiquiátrica foram se desenvolvendo, tendo como base teórica “a modificação da estrutura assistencial centrada na doença para uma forma de trabalho centrada no paciente, valorizando o papel da relação médico/paciente e aprofundando a compreensão sobre a situação do doente e dos profissionais nas instituições médicas” (p. 23). Em nosso meio, o termo interconsulta psiquiátrica tem sido usado para indicar o conjunto de atividades clínicas, de ensino e de pesquisa desempenhadas por profissionais de saúde mental junto a diversos serviços do hospital geral3, 22. Ante as várias possibilidades de concepção de atuação em interconsulta psiquiátrica, alguns autores se propuseram a conceituar e distinguir tais atuações, embora na prática o limite entre elas não seja claro14, 22. Neste contexto, segundo Shavitt et al.22, distinguem-se duas modalidades básicas em interconsulta psiquiátrica: a consultoria e a psiquiatria de ligação. Define-se consultoria psiquiátrica como “uma atividade na qual a presença do profissional de saúde mental é episódica (...), sendo chamada para identificar e tratar desordens psiquiátricas, bem como esclarecer se os sintomas físicos se relacionam com uma alteração desta natureza. Limita-se a esclarecer e aconselhar o médico consultante sobre o problema formulado”. Por outro lado a psiquiatria de ligação “caracteri292 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Osório & Loureiro za-se pela presença constante do profissional de saúde mental como parte da equipe médica, com livre acesso a todos os pacientes, buscando a participação de fatores psicológicos e sociais em toda e qualquer doença, lidando também com aspectos da relação médico/paciente e equipe/paciente” (p. 109). Botega e Dalgalarrondo4 apontam para o caráter prático do campo da interconsulta psiquiátrica: “embora subsidiada pelo referencial teórico da medicina psicossomática, não busca através da pesquisa estabelecer uma relação etiológica entre fatores psicossociais e determinadas doenças, mas sim manejá-los dentro de cada situação” (p. 56). Seu objetivo último pode ser definido como melhorar a qualidade da atenção ao paciente, auxiliando na provisão de cuidados a todos os aspectos envolvidos na situação de estar doente e hospitalizado5. Para Contel10, o interconsultor funciona como mediador entre o paciente, a família e a equipe prestadora de serviço, procurando estimular o diálogo, desfazer os nós da comunicação e ajudar nos constantes conflitos entre os profissionais em ação no hospital geral. Desta forma, percebe-se que a atuação dos membros de uma equipe de interconsulta psiquiátrica no hospital geral não se limita à atenção direta ao paciente; estende-se também para o trabalho com equipes multidisciplinares, coordenando grupos operativos de funcionários e membros da equipe assistencial, podendo também estar ligados a funções de ensino, pesquisa e programas preventivos em saúde mental7, 23. O profissional psicólogo, enquanto membro de uma equipe de interconsulta, assume um papel de importância. Suas funções em alguns serviços15, 19, 24 englobam basicamente a aplicação e a interpretação de testes psicológicos e as intervenções psicoterápicas, embora cada vez mais estejam sendo valorizadas a necessidade e a importância do trabalho em equipe multiprofissional. Esse contato junto a pacientes e profissionais de outra especialidade vai, segundo Botega e Dalgalarrondo4, delineando um novo perfil para o profissional de saúde mental, especialmente para o psicólogo, que nem sempre possui formação teórica e prática que o capacite para esta função 15, 20, 21. O psicólogo interconsultor, para Andreoli1, necessita reconhecer o setting hospitalar e ter uma postura flexível e criativa, procurando aceitar o enquadre institucional e adequar o seu domí- Osório & Loureiro nio técnico ao serviço e à demanda; “é desejável também que este profissional possua uma versatilidade interpretativa que possa admitir os diversos significados para as relações mente/corpo, médico/ paciente, instituição/família (...) conferindo-lhe uma inserção no campo hospitalar que não aquela baseada no atendimento ao paciente como um prontosocorro psicológico” (p. 27). Neste contexto, o presente artigo pretende caracterizar o papel e a atuação do psicólogo no Serviço de Interconsulta Psiquiátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP, visando a contribuir para o desenvolvimento e a divulgação desta prática. O Serviço de Interconsulta Psiquiátrica do HC/FMRP/USP O Serviço de Interconsulta Psiquiátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP iniciou suas atividades em março de 1978, conjuntamente com a inauguração das instalações do hospital no campus da universidade, sob a coordenação do prof. dr. José Onildo Betiolli Contel13. Inicialmente o serviço contava apenas com profissionais médicos (psiquiatras), porém uma de suas principais características sempre foi a busca de integração com outros profissionais de saúde mental para a assistência em equipe multiprofissional. A entrada do psicólogo como membro fixo da equipe se deu em 1998, com a contratação de um profissional por 20 horas semanais, divididas entre o atendimento às enfermarias do hospital no campus e à unidade de emergência. Atualmente, o serviço dispõe de dois profissionais psicólogos, com carga horária semanal de 20 horas cada, destinadas exclusivamente para atuação no hospital do campus. Além destes profissionais, compõem a equipe: um docente responsável, dois médicos assistentes (um supervisor de interconsulta psiquiátrica ambulatorial e outro de interconsulta psiquiátrica hospitalar), um terapeuta ocupacional assistente, um residente do segundo ano de psiquia- tria (em rodízio de cinco semanas) atuando no setor de interconsulta psiquiátrica hospitalar, dois ou três residentes de segundo ano em estágio no ambulatório de psiquiatria atuando no setor de interconsulta psiquiátrica ambulatorial (estágio de 12 semanas consecutivas), um aprimorando de terapia ocupacional (em rodízio de seis meses), A atuação do psicólogo no Serviço de Interconsulta Psiquiátrica do HC/FMRP/USP dois estagiários do quarto ano do curso de psicologia (estágio semestral) e dois ou três internos do sexto ano médico (em rodízio de uma semana) no período de janeiro a outubro. A solicitação de qualquer espécie de atendimento a este serviço é feita através de um formulário próprio, o pedido de interconsulta (PI), onde constam dados relativos à caracterização do paciente (nome, idade, sexo, cor, leito), de sua enfermidade enquanto manifestação e diagnóstico e o objetivo da solicitação de interconsulta. Tal pedido deve ser respondido num prazo máximo de 48 horas. O psicólogo no Serviço de Interconsulta do HC/FMRP/USP As funções desempenhadas pelos psicólogos contratados do serviço abrangem o campo da assistência, do ensino e da pesquisa. Assim, passase a detalhar as atividades desenvolvidas, bem como os seus objetivos. Quanto à assistência As atividades de assistência realizadas são destacadas no Quadro Quadro. Após a visão global das atividades realizadas, da população-alvo e das estratégias utilizadas para a execução do trabalho apresentadas no Quadro, caracterizar-se-ão tais atividades em seus objetivos e peculiaridades. a) Atendimento em consultoria às clínicas de neurologia, oftalmologia, otorrino, cirurgia vascular: com base em avaliação médica de casos específicos, o psicólogo é solicitado, através do PI, a avaliar o paciente internado, podendo o mesmo, como conduta, acompanhar psicoterapicamente o paciente ou orientar a equipe sobre o manejo do caso; b) atendimento em interconsulta psicológica de ligação às clínicas de gastroenterologia, pneumologia e proctologia: nestas clínicas o psicólogo tem funções rotineiras que independem de solicitação específica. Assim, todos os pacientes internados são acompanhados em apoio psicológico individual e/ou grupal, conforme a necessidade dos casos. Com freqüência de duas vezes por semana e duração de uma hora, são realizados os grupos de apoio ao paciente internado, onde toJ . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 293 A atuação do psicólogo no Serviço de Interconsulta Psiquiátrica do HC/FMRP/USP Osório & Loureiro Quadro – Caracterização das atividades de assistência realizadas pelo psicólogo interconsultor em relação à natureza das atividades, à população-alvo e às estratégias Natureza da atividade realizada População-alvo Estratégias utilizadas Atendimento em consultoria Pacientes internados nas enfermarias de neurologia, oftalmologia, cirurgia vascular, e otorrinolaringologia • Avaliação psicológica • Psicoterapia de apoio individual • Orientação à equipe Atendimento em interconsulta de ligação Pacientes internados nas enfermarias de gastroenterologia, pneumologia e proctologia • Avaliação psicológica • Psicoterapia de apoio individual focal • Psicoterapia de apoio grupal • Orientação familiar • Orientação à equipe • Participação em reuniões clínicas Ambulatório pós-alta Pacientes egressos das enfermarias de gastroenterologia e proctologia • Psicoterapia de apoio individual focal • Contato e encaminhamento para outros serviços ambulatoriais da rede de saúde Avaliação psicodiagnóstica Enfermarias clínicas e cirúrgicas do hospital desde que o paciente esteja em acompanhamento pelo serviço de interconsulta • Entrevista individual e/ou familiar • Aplicação de testes de personalidade • Discussão com equipe médica • Devolutiva e encaminhamento do caso Assessoria às equipes de enfermagem Equipes de enfermagem do hospital • Grupos de apoio • Grupos de psicoeducação Grupo de sensibilização para tratamento de alcoolistas Pacientes das enfermarias clínicas e cirúrgicas e do ambulatório de gastroenterologia • Grupos de psicoeducação dos os pacientes são convidados a participar, sendo a adesão espontânea. Objetiva-se com isso oferecer espaço terapêutico ao paciente, com ênfase na ventilação e apoio psicológico e no contato e troca de experiência com os demais pacientes, visando a minimizar o sofrimento próprio da situação aguda de doença e do período de internação. Os atendimentos individuais são solicitados via PI pelos médicos das equipes (em reunião clínica) ou propostos pelo próprio psicólogo, quando de uma avaliação prévia com o paciente. Esses atendimentos são realizados com freqüência variável, estendendo-se até a alta do paciente. Normalmente, os atendimentos ocorrem no leito ou em espaços hospitalares específicos. Após a alta, se necessária a continuidade do atendimento, o paciente é encaminhado para o serviço de psicologia ambulatorial da rede de saúde. Nas clínicas de gastroenterologia e proctologia organizou-se o Ambulatório de Pós-Alta, onde o paciente, após a internação, continua sendo acompanhado pela psicologia até, no máximo, quatro encontros, com o objetivo de monitorizar o processo de reinserção do paciente em seu grupo familiar, social e de trabalho, bem como, em alguns casos, o processo de transição para outro serviço de psicologia da rede de saúde. 294 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 O psicólogo também participa das visitas às enfermarias das referidas áreas, que são seguidas de reuniões clínicas, espaço onde todos os casos são discutidos em seus aspectos clínicos, psíquicos e sociais e também aspectos da relação médico/paciente; c) avaliações psicodiagnósticas: as avaliações são solicitadas via PI para os pacientes originários de qualquer clínica, desde que estejam sendo acompanhados por um médico psiquiatra do Serviço de Interconsulta Psiquiátrica. As avaliações têm como objetivo contribuir com o conhecimento dos aspectos psicodinâmicos envolvidos no processo do adoecer, favorecendo sua compreensão, bem como o direcionamento da intervenção; d) assessoria às equipes de enfermagem: realização de grupos de psicoeducação e/ou grupos de apoio com profissionais de enfermagem, visando a contribuir para a compreensão e a resolução das dificuldades enfrentadas no cotidiano de trabalho. Objetiva-se oferecer espaço para reflexão e crítica acerca do relacionamento e das rotinas no ambiente de trabalho, bem como oferecer informações sobre aspectos da dinâmica emocional do doente em suas peculiaridades (paciente com doença crônica, paciente deprimido, poliqueixoso, ansioso, terminal...) e seus familiares, potencializando a capacidade da equipe em Osório & Loureiro A atuação do psicólogo no Serviço de Interconsulta Psiquiátrica do HC/FMRP/USP reconhecer e manejar problemas de natureza emocional e subjetiva; e) grupo de sensibilização para tratamento de alcoolistas: grupo aberto realizado semanalmente sob a coordenação das psicólogas contratadas, com a participação de um membro dos Alcoólicos Anônimos (AA), destinado aos pacientes ambulatoriais procedentes da clínica de gastroenterologia e aos pacientes internados nas diversas enfermarias do HC/FMRP/USP com história prévia ou atual de alcoolismo. Os objetivos destes grupos são fornecer aos pacientes informações sobre o alcoolismo e suas conseqüências nos níveis clínico, psíquico e social, e apresentar modalidades de tratamento e apoio disponíveis, facilitando o encaminhamento e a adesão aos tratamentos que visem a diminuir a ingesta de álcool. Aprimoramento em Saúde Mental do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP, realizado com bolsas da Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap), que realizam avaliações psicodiagnósticas de pacientes atendidos no Serviço de Interconsulta Psiquiátrica. Quanto à pesquisa Os temas de interesse para estudo têm emergido da prática e da reflexão clínica2, 8, 17, 18. Com tal sistematização tem-se buscado delimitar e avaliar o modelo assistencial psicológico em um hospital geral. Pretende-se que a experiência acumulada nos permita sistematizar modalidades de atenção direta e indireta ao paciente hospitalizado por meio de ações profiláticas, psicoeducativas e/ou psicoterapêuticas que tenham impacto sobre a saúde mental dos mesmos. Quanto ao ensino a) Supervisão junto ao estágio profissionalizante Ações de atenção psicológica em saúde em contexto hospitalar: destinado a graduandos do quarto ano do curso de psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/USP, que desenvolvem atividades sob supervisão nas clínicas de gastro, procto ou pneumologia, com uma carga horária de oito horas semanais assim distribuídas: atendimento psicoterápico de apoio de pacientes internados, com freqüência de duas sessões semanais; atendimento grupal em co-terapia no Grupo de Apoio Psicológico ao Paciente Internado, uma vez na semana; participação em seminários teóricos semanais, onde são abordados temas relacionados à atuação do psicólogo no campo da saúde. Aos psicólogos contratados cabem a realização de supervisões aos atendimentos individuais e grupais realizados e a coordenação dos seminários teóricos; b) supervisão junto a alunos do sexto ano médico da FMRP/USP: estágio curricular no Serviço de Interconsulta Psiquiátrica, desenvolvendo atividades junto ao Programa de Apoio Psicológico ao Paciente Internado, visando a ampliar a compreensão psicodinâmica da sintomatologia e dos processos do adoecer; c) supervisão de psicodiagnóstico: destinada aos aprimorandos de psicologia do Programa de Considerações sobre a prática profissional do psicólogo no hospital geral A atividade do profissional psicólogo no hospital geral objetiva não só melhorar a assistência e acomodação do doente à situação de hospitalização, mas também favorecer e potencializar recursos, visando a melhores condições de vida e sobrevivência, uma vez que, conforme apontado por Romano20, “pelo menos uma quinta parte de todos os pacientes que acorrem aos serviços gerais de saúde padece de problemas fundamentalmente psicossociais” (p. 17). A inserção do psicólogo em equipes multiprofissionais, pelas peculiaridades de sua formação, favorece o resgate da visão global do doente, integrando práticas e cuidados que não se centralizam apenas na figura do paciente, mas também na família e na rede de saúde/social de referência, com abordagens que visam também à redução e à prevenção de danos, cujos resultados têm sido largamente apontados como positivos na literatura5, 16, 22. Incluem-se aqui a redução no tempo de hospitalização e a diminuição das reinternações. Nas palavras de Botega5, “o trabalho em consultoria psiquiátrica e psicológica no hospital geral reverte em benefícios para o paciJ . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 295 A atuação do psicólogo no Serviço de Interconsulta Psiquiátrica do HC/FMRP/USP ente, para o hospital e para a comunidade” (p. 23). O contato direto do profissional psicólogo com as equipes de trabalho favorece, além de tal compreensão, um canal direto de contato entre paciente e equipe, intermediando esta relação e minimizando as falhas de comunicação. Por outro lado, estar próximo à equipe por meio de atividades de atenção e cuidados psicológicos torna-se o grande diferencial entre psicólogos alocados em serviços de interconsulta em relação aos vinculados aos serviços de psicologia médica. Essa modalidade de atendimento favorece a percepção de fatores iatrogênicos ao funcionamento hospitalar que, se manejados, melhoram o atendimento ao paciente e contribuem para a humanização do ambiente e das condições de atendimento clínico e de trabalho dos diversos profissionais de saúde9, 11. A possibilidade de atuação junto a graduandos do curso médico permite abrir um maior espaço parapsíquico, evidenciando a importância dos fatores psicossociais relacionados ao adoecimento, contribuindo para uma formação mais global e humanitária em saúde. Segundo Botega e Nogueira-Martins6, “a interconsulta tem um importante papel no processo de educação ao participar de situações concretas do exercício profissional, propondo uma atitude reflexiva sobre a prática médica (...) propicia ao estudante um espaço para entrar em contato com seus sentimentos e reações diante dos seres humanos que está começando a atender” (p. 125). A inserção de estagiários de psicologia em serviços desta natureza objetiva oferecer acesso direto à prática e à dinâmica hospitalar, ampliando o campo de formação e atuação profissional do psicólogo, já que, segundo Mercadante15, “o ensino de graduação voltado a formas psicológicas habituais de aten- Osório & Loureiro dimento não é compatível com a necessidade de um grande número de pacientes” (p. 20). Considera-se contudo que a contribuição primordial advém do contato em supervisão com profissionais diretamente relacionados a este fazer psicológico, o que pode minimizar os hiatos entre a formação teórica e a prática oferecida pela universidade20. De forma geral, observa-se que o espaço e a importância para as práticas psicológicas em hospital geral existem e são irreversíveis, e neste contexto o psicólogo vem procurando cada vez mais sistematizar novas modalidades de atendimento. Porém, segundo Romano20, apesar de a instituição hospitalar ter interesse na inserção do psicólogo e perceber a sua importância, ainda não é claro o que este profissional pode oferecer e aquilo que a instituição deseja e espera dele. Neste contexto, segundo Mercadante15, fazem-se necessárias a divulgação de serviços, a produção científica baseada na prática clínica, a atuação multidisciplinar e a participação no ensino de graduação, apontando para novas possibilidades de atuação favorecendo a constituição da identidade do psicólogo hospitalar de modo a evitar a transposição para o contexto hospitalar de práticas institucionalizadas no âmbito clínico. Ao se apresentar as funções do psicólogo no Serviço de Interconsulta Psiquiátrica do HC/FMRP/ USP pretendeu-se contribuir para a divulgação de tal prática como uma modalidade profissional em desenvolvimento que tem como ponto central o papel do psicólogo como um agente de transformação que, pela sua inserção em equipes multiprofissionais de saúde, favorece o entendimento da complexa situação de estar doente e hospitalizado, o que tem reflexo direto na humanização das modalidades de atendimento e na valorização dos fazeres integradores em saúde. Referências 1. Andreoli PBA. Interconsultor: um papel possível para o psicólogo no hospital geral? Temas 1996; 51: 22-30 2. Aquino F, Osório FL, Loureiro SR. O psicodiagnóstico clínico e a destituição do pátrio poder: estudo de caso. Anais do IV Encontro da Sociedade Brasileira de Rorschach e outros Métodos Projetivos 2001, p. 182 3. Borba LEG, Scopel MJ, Albuquerque IC. Consultoria psiquiátrica no hospital geral universitário. 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Serviço de interconsulta em hospital geral: o papel profissional do psicólogo. Trabalho apresentado no I Congresso Brasileiro Psicologia: Ciência e Profissão, São Paulo, Brasil, 2002. 19. Porter JA. Psychiatric consultation: Liaison service in a community hospital. Can J Psychiatry 1988; 33: 271-4. 20. Romano BW. Princípios para a prática da psicologia clínica em hospitais. São Paulo: Casa do Psicólogo; 1999. 21. Semer NL, Fernandes MH. O psicólogo no hospital geral: ensino e atuação. In: Miguel Filho EC, Ramadam ZBA, Malbergier A, Souza DG. Interconsulta psiquiátrica no Brasil. São Paulo: Astúrias; 1990, p. 31-7. 22. Shavitt RG, Busatto Filho G, Miguel Filho EC. Interconsulta psiquiátrica: conceito e evolução. Rev Paul Med 1989; 107(2): 108-12. 23. Shavitt RG, Miguel Filho EC. Interconsulta psiquiátrica: o modelo americano. In: Miguel Filho EC, Ramadam ZBA, Malbergier A, Souza DG. Interconsulta psiquiátrica no Brasil. São Paulo: Astúrias; 1990, p. 2-6. 24. Watson LJ. 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Jornal Brasileiro de Psiquiatria Endereço para correspondência Flávia de Lima Osório Rua João Penteado 900 CEP 14010-220 – Ribeirão Preto-SP Tel.: (16) 3931-4868 e-mail: [email protected] J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 297 Farmacoterapia de pacientes com transtornos psiquiátricos: hospital geral versus hospital psiquiátrico Pharmacotherapy of patients with psychiatric disorders: general hospital versus psychiatric hospital Mário Sérgio Ribeiro1; Adriana Kelmer Siano2; Márcio José Martins Alves3; Marisa Sathler Breder4; Luiz Cláudio Ribeiro5 Recebido em: 30.10.01 Aprovado em: 30.04.03 Resumo O objetivo deste trabalho foi avaliar o perfil de tratamento farmacológico, por categorias diagnósticas dos pacientes, oferecido pela equipe da Residência Médica em Psiquiatria (RMP) do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU/UFJF), em um hospital geral (HG) da rede hospitalar de Minas Gerais – o Hospital Regional Doutor João Penido (HRJP) –, comparando-o com o tratamento oferecido em dois hospitais psiquiátricos (HPs) conveniados ao SUS de Juiz de Fora. Foram realizados a análise do perfil farmacológico e o diagnóstico dos 190 prontuários de pacientes psiquiátricos atendidos pela equipe de RMP do HU/UFJF no HRJP nos anos de 1992, 1993 e 1996, e de 190 prontuários dos HPs, pareados por ano e sexo, mas aleatoriamente sorteados. Em meio às diferenças entre o perfil farmacológico de pacientes atendidos no HG e nos HPs destacamos: 1) maior utilização dos benzodiazepínicos e anticolinérgicos (de forma estatisticamente significativa para algumas categorias diagnósticas) e mais elevadas doses médias/dia (DM) desses fármacos em todas as categorias diagnósticas nos HPs; 2) utilização significativamente maior de estabilizadores de humor entre pacientes com diagnósticos de psicoses maníaco-depressivas (p < 0,001) e DM mais elevada de carbonato de lítio para esses mesmos pacientes no HRJP; 3) prescrição significativamente mais freqüente (p < 0,001) de neurolépticos nos HPs para pacientes com transtornos por uso de substâncias psicoativas (fundamentalmente alcoolistas) e emprego significativamente maior de tiamina e reidratantes no HRJP (p < 0,001). Nossos resultados permitem afirmar a existência de diferença entre o padrão de prescrição farmacológica da equipe da RMP do HU/UFJF no HRJP e aquele praticado nos HPs no período estudado. Unitermos psiquiatria em hospital geral; residência psiquiátrica; perfil farmacológico; uso de psicofármacos; avaliação de tratamento Summary The objective of this paper was to evaluate the pharmacological treatment profile, taken in relation to diagnostic categories, as practiced by the members of a psychiatric residence training team in a state general hospital (HRJP), comparing it to the treatments offered in two public psychiatric hospitals (PH) of the same city (Juiz de Fora-MG). We studied pharmacological and diagnostic profiles taken from 190 prontuaries of psychiatric in-patients assisted by the psychiatric residence team in the years of 1992, 1993 e 1996 and 190 prontuaries of the two PH’s, randomly determined in the same number per year and gender. Among differences found in pharmacological profiles we point 1Professor adjunto de Psiquiatria da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); coordenador do Grupo de Pesquisa em Psiquiatria e Psicologia Médica da UFJF; doutor em Filosofia. 2Médica, ex-bolsista de iniciação científica da UFJF. 3Professor assistente de Medicina Preventiva da UFJF; mestre em Engenharia Biomédica. 4Médica pela UFJF. 5Professor assistente de Estatística da UFJF; mestre em Ciências em Engenharia. J . b r a s . p s i q u i a t r. vol. 52 (4): 299-311, 2003 299 Ribeiro et al. Farmacoterapia de pacientes com transtornos psiquiátricos out: 1) greater use of benzodiazepines and anticholinergics (in a statistically significant manner for some diagnostic categories) and larger daily average doses (AD) of these drugs in all diagnostic categories in the two HP’s; 2) significantly greater use of mood stabilizers among patients with a maniac depressive disorder diagnose (p < 0.001) and larger AD of lithium carbonate, for these same patients, in HRJP; 3) significantly more frequent prescription (p < 0.001) of neuroleptics in the HP’s for patients with disorders associated with the use of psychoactive substances (mainly alcoholism) and significantly more frequent prescription of thiamine and hydro-electrolytic agents in HRJP (p < 0.001). Our findings allow us to state the existence of a different pattern of pharmacological prescription between the psychiatric residence training team of HRJP and the staff of the HP’s for the period of time studied. Uniterms general hospital psychiatry; psyquiatric residence; pharmacological profile; use of psychiatric drugs; treatment evaluation ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Introdução As diferentes práticas assistenciais alternativas ao modelo asilar, ainda hoje predominante no Brasil, podem ser caracterizadas a partir de diversos parâmetros que as compõem19, tais como: 1) o tipo de espaço assistencial: fechado ou semifechado, aberto ou semi-aberto; 2) a técnica de tratamento; 3) os profissionais envolvidos; 4) a dinâmica assistencial; 5) a perspectiva terapêutica. Entre os vários modelos assistenciais propostos a partir da combinação destes parâmetros, um deles refere-se ao modelo de assistência psiquiátrica no hospital geral, que, apesar de sua longa história como alternativa assistencial no campo da saúde mental, necessita ainda ser submetido a estudos de avaliação metodologicamente mais bem fundamentados, de modo a fornecer subsídios para uma discussão que ultrapasse a mera retórica político-ideológica. Conforme já assinalamos em outro momento , no começo do século XX o hospital geral tornou-se a instituição central para o cuidado e a educação médica; todavia esta forma de atenção psiquiátrica intramuros, freqüentemente associada a modismos, tendências e controvérsias, por longos anos não foi colocada como objeto de atenção e avaliação crítica 21, 22 . Enquanto Summergard e Hackett22 enfatizam os fatores sociais, administrativos e organizacionais que resultaram no amplo desenvolvimento do hospital geral no início do século, levando os psiquiatras a nele vislumbrarem uma possibilidade de expansão financeira, poder institucional e realização de procedimentos científicos seguros, Almeida1 pre18 300 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 fere referir que os primeiros serviços americanos de psiquiatria em hospital geral teriam surgido no início do século XX, dando origem ao movimento da medicina psicossomática, oposta ao reducionismo biológico da medicina da época. Desde o final do século XX a assistência psiquiátrica em hospitais gerais em diferentes países tende a se organizar, conforme também já referimos 18 , em: 1) serviços de interconsulta, consultoria e psiquiatria de ligação; 2) enfermarias ou unidades psiquiátricas (UPHG); 3) leitos psiquiátricos em enfermarias de clínica geral; 4) serviços de urgência e emergência psiquiátricas; 5) ambulatórios de psiquiatria. Segundo Botega5, o crescimento da atenção psiquiátrica em hospital geral parece realizar-se de forma desigual em diferentes países, fato este que, no Brasil, por exemplo, faz com que o hospital psiquiátrico tradicional detenha ainda papel hegemônico, com os hospitais gerais brasileiros responsabilizando-se apenas por cerca de 2,5% dos leitos disponíveis para internações psiquiátricas, enquanto que nos Estados Unidos os hospitais gerais recebem 60% das destas internações4, 8 . No Brasil, ainda que as primeiras UPHGs tenham surgido ao longo da década de 1950, nas duas décadas seguintes ainda prevalecia aqui a assistência psiquiátrica centrada no hospital psiquiátrico tradicional; todavia, desde o final dos anos 1980 – e ao lado dos esforços para o estabelecimento de uma efetiva rede assistencial extramuros –, o hospital geral vem sendo cada vez mais utilizado como um espaço assistencial alternativo ao Ribeiro et al. Farmacoterapia de pacientes com transtornos psiquiátricos manicômio6. Dos 1.765 leitos disponíveis no Brasil para internação psiquiátrica em hospitais gerais, a grande maioria localiza-se em UPHGs, com apenas 9,5% do total de internações psiquiátricas em hospitais gerais realizando-se em enfermarias de clínica médica4, 6. Em Juiz de Fora (MG), após um período de debates e reformulações na assistência em saúde mental, o início do atendimento psiquiátrico em hospital geral se deu ao final da década de 1980, logo se associando ao trabalho pedagógico-assistencial prestado pela residência em psiquiatria da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que em 1992 iniciou suas atividades no Hospital Regional Doutor João Penido (HRJP), com a disponibilização de leitos para a internação de pacientes psiquiátricos em enfermarias de clínica médica. Através de convênio com a UFJF, o HRJP está até hoje incluído como campo de estágio do Programa de Residência Médica em Psiquiatria da UFJF, que ali realiza um atendimento diferenciado daquele prestado pela equipe psiquiátrica do próprio hospital18. O objetivo do presente trabalho – parte de um projeto mais amplo que tem avaliado a assistência psiquiátrica prestada em hospitais de Juiz de Fora ao longo da década de 1990 – é discutir o perfil do tratamento farmacológico, por diagnóstico psiquiátrico, oferecido pela equipe da residência médica em psiquiatria do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU/UFJF) no HRJP, comparando-o àquele prestado em dois hospitais psiquiátricos (HPs) conveniados ao SUS de Juiz de Fora nos anos de 1992, 1993 e 1996. As referências bibliográficas por nós utilizadas para essa discussão limitam-se, a rigor, a uma literatura fundamental amplamente disponível aos profissionais da área psiquiátrica eventualmente incluídos nos dados aqui apresentados e que poderia, assim, servir de base para as condutas terapêuticas por eles adotadas. Desta forma, buscamos caracterizar o tratamento mais indicado, no período estudado, para os principais grupos diagnósticos por nós identificados, não nos preo- cupando em discutir as mais recentes – e eventualmente não-disseminadas – proposições terapêuticas no campo farmacológico, o que fugiria aos limites desse projeto. Materiais e métodos Amostra De acordo com o desenho original da pesquisa, cujos critérios de inclusão e exclusão foram apresentados em outro artigo18, foram analisados os prontuários de pacientes internados para atendimento psiquiátrico em um hospital geral (HG) o HRJP, e aos cuidados da equipe da residência médica em psiquiatria do HU/UFJF, nos anos de 1992, 1993 e 1996: um total de 190 pacientes, dos quais 146 do sexo masculino e 44 do sexo feminino. Para efeito comparativo da assistência psiquiátrica prestada no hospital geral estudado, analisamos também os prontuários do mesmo número de pacientes (190) de cada um dos HPs incluídos na pesquisa, em sua primeira internação no hospital considerado, em cada ano estudado, mantendo o mesmo número de prontuários por ano e a proporcionalidade por sexo registrados no HRJP; estes 380 pacientes foram escolhidos de forma aleatória, a partir do livro de registro de internações do Same de cada hospital*, objetivando, com esse procedimento, a obtenção de uma amostra representativa dos pacientes habitualmente internados nesses HPs. Descrição dos hospitais O HRJP é um antigo hospital público de referência para o atendimento a portadores de tuberculose que, desde a década de 1990, responsabiliza-se também pelo atendimento a pacientes clínicos e psiquiátricos de Juiz de Fora e região circunvizinha. O atendimento psiquiátrico é prestado pelo corpo clínico do hospital e por residentes de psiquiatria da UFJF, tanto em nível de interconsultas quanto de internação de pacientes psiquiátricos nas enfermarias gerais, nas quais, no período abrangido por este estudo, havia 12 leitos reservados à psiquiatria – oito *Em virtude de dificuldades para a localização de prontuários no Same da Casa de Saúde Esperança, para o ano de 1996 tivemos que sortear os prontuários a partir daqueles efetivamente encontrados, e não da numeração dos livros de registros de internação; tal mudança implicou que, em alguns casos, tivéssemos que incluir em nossa amostra pacientes que não estavam em sua primeira internação no referido ano. J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 301 Ribeiro et al. Farmacoterapia de pacientes com transtornos psiquiátricos leitos para pacientes do sexo masculino e quatro para o sexo feminino –, representando cerca de 10% do total de leitos do referido hospital. Foram escolhidos, para efeito de comparação do atendimento, dois HPs conveniados ao SUS de Juiz de Fora, hospitais de porte médio e de regime misto, capazes de representar tipicamente o atendimento hospitalar psiquiátrico de nossa região – a saber, a Clínica São Domingos (CSD), com 44 leitos femininos e 144 masculinos, e a Casa de Saúde Esperança (CSE), com 80 leitos femininos e 160 masculinos –, e cujos diretores clínicos concordaram em franquear à equipe da pesquisa o acesso a seus registros. Delineamento geral da pesquisa A metodologia previamente definida foi a da análise retrospectiva de prontuários, comparando-se o atendimento oferecido no HRJP pela equipe da residência médica em psiquiatria do HU/ UFJF com aquele prestado nos dois HPs da cidade de Juiz de Fora. Para tanto utilizamos uma ficha de pesquisa contendo variáveis demográficas, administrativas e assistenciais, desenvolvida após entrevistas com diretores clínicos e administrativos dos três hospitais estudados, com a finalidade de melhor identificarmos a realidade assistencial de cada um e definirmos parâmetros comuns a serem avaliados. Duas estudantes de medicina, sem qualquer vinculação com as instituições pesquisadas, receberam o treinamento adequado e responsabilizaram-se pelo preenchimento e informatização das fichas de pesquisa, através do pacote estatístico Epi-Info, versão 6.04a. Para o preenchimento das fichas e a análise realizada, estipulamos um período máximo de sete semanas (49 dias), uma vez que o tempo máximo de permanência por autorização de internação hospitalar (AIH) para pacientes psiquiátricos agudos era de 45 dias durante o período por nós avaliado – por mudanças determinadas por acordo entre os gestores do SUS/JF e as direções dos hospitais psiquiátricos conveniados, a partir do mês de maio de 2000 a permanência máxima por AIH psiquiátrica passou a ser de 30 dias. 302 res, que residem nos hospitais e têm suas AIHs automaticamente renovadas, a cada período vencido, por um novo prazo de 107 dias18. Por não serem estes os sujeitos adequados à constituição da amostra aqui analisada – uma vez que os pacientes do HRJP são caracteristicamente agudos, a possibilidade da comparação que aqui desenvolvemos estaria prejudicada se, para tanto, utilizássemos os pacientes asilares, os quais, em virtude de sua cronicidade, certamente devem receber um perfil assistencial relativamente diferenciado –, foram retirados das análises a que nos propusemos para esse estudo. Para efeito da análise dos dados, as drogas utilizadas na assistência psiquiátrica, tanto por via oral quanto parenteral, foram agrupadas em nove categorias farmacológicas, assim definidas: • anticolinérgicos: biperideno e prometazina; • anticonvulsivantes: carbamazepina, clonazepam, fenitoína e fenobarbital; • antidepressivos: amitriptilina, clomipramina, fluoxetina e imipramina; • benzodiazepínicos: bromazepam, clordiazepóxido, diazepam e nitrazepam; • complexo B; • estabilizadores do humor: carbamazepina, carbonato de lítio e clonazepam; • neurolépticos: clorpromazina, flufenazina, haloperidol, levomepromazina e propericiazina; • reidratantes; • tiamina (vitamina B1). Essas categorias farmacológicas foram então correlacionadas aos diagnósticos de alta, agrupados em oito categorias: • transtornos por uso de substâncias psicoativas (Tuspa): 291, 292 e 303-305 (fundamentalmente alcoolistas); • psicoses orgânicas: 290, 293 e 294; • esquizofrenias: 295; • psicoses maníaco-depressivas (PMD): 296; • outras psicoses funcionais: 297 e 298; • neuroses/transtornos de personalidade/transtornos sexuais: 300-302; Desenho do trabalho atual • oligofrenias: 317-319; Nos dois HPs foi registrado um certo número de pacientes crônicos (24, ou 6,3% dos 380 estudados), institucionalmente considerados asila- • outros transtornos psiquiátricos: 306-316. J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Vale ressaltar que no preenchimento das fichas de pesquisa consideramos as doses adminis- Ribeiro et al. Farmacoterapia de pacientes com transtornos psiquiátricos tradas segundo o registro da enfermagem, isto é, não as dosagens porventura simplesmente registradas nas prescrições médicas diárias, mas aquelas efetivamente administradas aos pacientes. A medicação prescrita como forma de sedação aos pacientes também foi incluída no perfil farmacológico. Nos casos em que os pacientes receberam permissão para sair da instituição, a dose prescrita foi considerada como tendo sido utilizada, uma vez que o paciente deveria ter mantido o uso da medicação em seu domicílio. uso de substâncias (CID 9: 291, 292, 303 a 305) apresentou percentual de concordância diagnóstica maior no HRJP do que nos HPs e representou um dos grupos com maior concordância nas duas subamostras. O segundo grupo com maior índice de concordância no HRJP é o de psicoses maníaco-depressivas (CID9: 296), e nos HPs todos os grupos apresentaram concordância superior a 50%, exceto o grupo de diagnósticos relacionados a outros transtornos psiquiátricos (CID9: 306 a 316). Esse grupo também se apresentou com um dos menores percentuais de concordância no HRJP, juntamente com os grupos das neuroses, dos transtornos de personalidade e dos transtornos sexuais (CID9: 300 a 302) e das psicoses orgânicas (CID9: 290, 293 e 294). Apesar de, conforme já mencionamos em trabalho publicado na Revista de Medicina do Hospital Universitário de Juiz de Fora (Psiquiatria em Hospital Geral versus em Hospital Psiquiátrico: avaliação da assistência prestada pela Residência em Psiquiatria do HUUFJF), a metodologia por nós utilizada não nos permite quaisquer inferências quanto à confiabilidade dos diagnósticos aqui apresentados18. Tais resultados são sugestivos de diferentes formas de abordagem diagnóstica pelas equipes do HRJP e dos HPs, e indicam uma maior interferência dos responsáveis pelo atendimento hospitalar no HRJP no estabelecimento do diagnóstico definitivo. Resultados e discussão Apresentaremos, em seguida, os resultados das análises efetuadas para as cinco primeiras categorias diagnósticas descritas acima. As diferenças estatisticamente significativas, pelo teste do qui-quadrado, não-corrigido, serão devidamente apontadas em cada uma das tabelas. Não nos ocuparemos em discutir as três últimas categorias ali referidas, uma vez que são categorias menos homogêneas e que o número de sujeitos incluídos em cada uma delas é relativamente pequeno para permitir qualquer tipo de inferência mais objetiva. Todavia antecederemos estas análises por uma breve consideração sobre o grau de concordância diagnóstica entre internação (AIH) e alta. A Tabela 1 nos permite avaliar o percentual de concordância entre o diagnóstico indicado à internação do paciente (isto é, o diagnóstico registrado em sua AIH) e aquele referido no momento da alta hospitalar. Observamos que os maiores percentuais de concordância entre o diagnóstico da AIH e o de alta se deram nos HPs, com destaque para a CSE, que apresentou percentuais mais altos que a CSD. Apenas o grupo de diagnósticos relacionados ao Num primeiro momento discutiremos o uso de cada categoria farmacológica pelos pacientes de cada uma das categorias diagnósticas já referidas (TTabelas 2 a 66); numa segunda etapa (TTabelas 7 a 1 11), discutiremos as doses médias efetivamente utilizadas de alguns dos principais fármacos prescritos aos pacientes estudados, comparando-as às dosagens sugeridas pela bibli- Tabela 1 – Concordância diagnóstica (CID 9) entre internação (AIH) e alta (At) HRJP (n* = 169) Grupo HPS (n = 321) CSD (n = 137) CSE (n = 184) diagnóstico AIH At % AIH At % AIH At % AIH At % 291-2; 303-5 290; 293-4 295 296 297-8 300-2 317-9 306-16 95 11 19 8 9 3 1 23 91 4 9 5 4 1 0 6 95,8 36,4 47,4 62,5 44,4 33,3 0 26,1 96 58 89 12 54 9 3 1 93 50 77 10 32 7 3 0 96,9 86,2 86,5 83,3 59,3 77,8 100 0 42 23 41 3 21 6 1 1 40 16 32 2 6 4 1 0 95,2 69,6 78 66,7 28,6 66,7 100 0 54 35 48 9 33 3 2 0 53 34 45 8 26 3 2 0 98,1 97,1 93,8 88,9 78,8 100 100 0 * Refere-se ao número de pacientes estudados menos aqueles para os quais não foi encontrada a AIH. J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 303 Ribeiro et al. Farmacoterapia de pacientes com transtornos psiquiátricos ografia pertinente e disponível em nosso meio. No momento da discussão de cada uma das cinco categorias analisadas, realizaremos também uma breve descrição das propostas terapêuticas para elas sugeridas nessa bibliografia, conforme referido na introdução desse trabalho. Uma análise mais global quanto a variáveis demográficas e assistenciais da amostra aqui analisada em detalhes pode ser encontrada em outra publicação já referida18. Na Tabela 2 correlacionamos o uso das nove categorias farmacológicas administradas aos pacientes com diagnósticos relacionados ao uso de substâncias psicoativas. Observa-se um percentual de administração significativamente mais elevado de tiamina (vitamina B1) e reidratantes para os pacientes atendidos no HRJP, e de anticolinérgicos, anticonvulsivantes, complexo B e neurolépticos no caso de pacientes internados nos HPs. O percentual de prescrição de anticolinérgicos e neurolépticos foi significativamente mais elevado na CSE em relação ao outro hospital psiquiátrico estudado, a CSD. O tratamento do paciente com síndrome de abstinência alcoólica (SAA) – a rigor, os principais motivos de internação de alcoolistas – baseia-se em medidas gerais de suporte, o que se faz através de hidratação e suplementação vitamínica e, no manejo dos sintomas específicos, através do controle da ansiedade, alterações sensoriais e convulsões, para o que os benzodiazepínicos são considerados medicamentos de primeira linha. Na prática hospitalar esses fármacos devem ser usados em quantidade suficiente para manter os pacientes livres dos sintomas ansiosos da abstinência, porém não sedados a ponto de não poderem ser despertados, caso necessário. Em alguns casos, os neurolépticos podem ser usados, mas, como a atividade dopamínica pode estar diminuída nesses pacientes, é preciso cuidado na administração dessas drogas (antidopaminérgicas), que podem tanto agravar os sintomas visados quanto diminuir o limiar convulsígeno dos pacientes. Atualmente acredita-se que a medicação anticonvulsivante não possua utilidade na prevenção ou no tratamento das convulsões por abstinência alcoólica; entretanto pacientes com uma história de convulsões por abstinência ou outros distúrbios convulsivos apresentam maior risco para desenvolver tais complicações e podem ser medicados com fenitoína. A prescrição de benzodiazepínicos para a redução da ansiedade de alcoolistas durante a fase de manutenção da abstinência é algo controverso; quando considerado necessário utilizar uma dessas drogas nesses pacientes, um bom método prático é estipular a duração do tratamento por um período não superior a quatro a seis semanas. Com relação à suplementação vitamínica, pacientes que se encontram nos estágios iniciais – mas não após o estabelecimento do quadro amnéstico – da síndrome de Wernicke respondem rapidamente a altas doses de tiamina (vitamina B1) parenteral; a ambliopia alcoólica também pode se beneficiar da terapêutica com tiamina e as vitaminas do complexo B aliviam os sintomas neuropáticos2, 9, 10, 14, 15, 20, 23. Na Tabela 33, relativa aos pacientes com diagnóstico de psicose orgânica, registramos Tabela 2 – Grupos farmacológicos* administrados a pacientes com diagnósticos à alta relacionados ao uso de substâncias (291; 292; 303-305) Grupos HRJP (n = 103) HPS (n = 118) CSD (n = 61) CSE (n = 57) farmacológicos Freq. % Freq. % Freq. % Freq. % Anticolinérgicos Anticonvulsivantes Antidepressivos Benzodiazepínicos† Complexo B Estab. humor• Neurolépticos Reidratantes Vitamina B1 8 10 5 92 36 2 19 79 93 7,8 9,7 4,9 89,3 35 1,9 18,4 76,7§ 90,3§ 53 31 7 116 82 11 64 5 2 44,9§ 26,3¶ 5,9 98,3 69,5§ 9,3 54,2§ 4,2 1,7 18 13 4 59 47 9 24 4 1 29,5 21,3 6,6 96,7 77 14,8 39,3 6,6 1,6 35 18 3 57 35 2 40 1 1 61,4§ 31,6 5,3 100 61,4 3,5 70,2§ 1,8 1,8 *Refere-se a todas as substâncias utilizadas, seja por via oral, seja parenteral; †utilizados como ansiolíticos e hipnóticos; •estabilizadores do humor; §p < 0,001; ¶p = 0,002. 304 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Ribeiro et al. Farmacoterapia de pacientes com transtornos psiquiátricos Tabela 3 – Grupos farmacológicos administrados a pacientes com diagnóstico à alta de psicoses orgânicas (290; 293; 294) HRJP (n = 8) Grupos HPS (n = 62) CSD (n = 26) CSE (n = 36) farmacológicos Freq. % Freq. % Freq. % Freq. % Anticolinérgicos Anticonvulsivantes Antidepressivos Benzodiazepínicos Complexo B Estab. humor Neurolépticos Reidratantes Vitamina B1 2 3 2 2 0 1 6 4 0 25 37,5 25* 25 0 12,5 75 50¶ 0 32 40 2 53 20 11 50 2 0 51,6 64,5 3,2 85,5¶ 32,3 17,7 80,6 3,2 0 10 18 1 23 6 7 18 2 0 38,5 69,2 3,8 88,5 23,1 26,9 69,2 7,7 0 22 22 1 30 14 4 32 0 0 61,1§ 61,1 2,8 83,3 38,9 11,1 88,9§ 0 0 *p = 0,01; ¶p < 0,001; §0,1 > p < 0,05 (marginalmente significativo). percentuais significativamente maiores de uso de antidepressivos e reidratantes no HRJP e mais elevados percentuais de administração de anticolinérgicos, anticonvulsivantes, complexo B e benzodiazepínicos nos HPs (apenas a freqüência de prescrição de benzodiazepínicos foi significativamente maior nesses últimos). Não observamos diferença significativa quanto ao uso de neurolépticos entre HRJP e HPs. A CSE permaneceu com percentuais mais elevados de uso de anticolinérgicos e neurolépticos que a CSD (em ambos os casos de forma marginalmente significativa). O tratamento das psicoses orgânicas envolve a identificação da condição médica geral envolvida – nesse sentido, deve ser dirigido à condição básica – e o controle comportamental imediato do paciente. Os neurolépticos podem ser necessários para esse controle imediato e também a curto prazo do comportamento psicótico e agressivo, em- bora os benzodiazepínicos também possam ser úteis no controle da agitação e ansiedade15, 17. Na Tabela 4 descrevemos a prescrição de fármacos aos pacientes com diagnóstico no grupo das esquizofrenias. Observa-se um percentual mais elevado de estabilizadores do humor administrados aos pacientes do HRJP e de anticolinérgicos, benzodiazepínicos e anticonvulsivantes aos pacientes dos HPs – com freqüência significativamente maior apenas para anticolinérgicos e benzodiazepínicos; não houve diferença quanto à administração de neurolépticos, o grupamento farmacológico mais efetivo para os transtornos em questão. Nesse grupamento diagnóstico, o percentual de uso de anticolinérgicos foi maior na CSD do que na CSE. Mesmo considerando que o tratamento dos transtornos esquizofrênicos é empírico, uma vez que a etiologia e o mecanismo de ação dos tra- Tabela 4 – Grupos farmacológicos administrados a pacientes com diagnóstico à alta de esquizofrenia (295) Grupos HRJP (n = 12) HPS (n = 99) CSD (n = 50) CSE (n = 49) farmacológicos Freq. % Freq. % Freq. % Freq. % Anticolinérgicos Anticonvulsivantes Antidepressivos Benzodiazepínicos Complexo B Estab. Humor Neurolépticos Reidratantes Vitamina B1 6 0 1 3 0 2 12 1 1 50 0 8,3 25 0 16,7 100 8,3 8,3 91 12 4 76 16 7 98 1 1 91,9* 12,1 4 76,8* 16,2 7,1 99 1 1 48 6 0 38 7 6 50 1 0 96 12 0 76 14 12 100 2 0 43 6 4 38 9 1 48 0 1 87,8 12,2 8,2 77,6 18,4 2 98 0 2 *p < 0,001. J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 305 Ribeiro et al. Farmacoterapia de pacientes com transtornos psiquiátricos tamentos efetivos deste distúrbio não são claramente compreendidos, um grande número de estudos bem planejados tem demonstrado que o uso de neurolépticos é aqui bastante efetivo, sendo considerado a base do tratamento desses transtornos. Estudos sobre a curva dose/resposta dos neurolépticos indicam que o equivalente a 10 a 20mg de haloperidol ou a 300 a 400mg/ dia de clorpromazina geralmente é eficaz para o tratamento de curto ou longo prazo da esquizofrenia. A dose necessária para aliviaremse os sintomas agudos pode ser consideravelmente superior à dose mínima efetiva. A segurança terapêutica dos neurolépticos é bastante alta, o que, todavia, tem contribuído para um uso abusivamente rotineiro de dosagens desnecessariamente elevadas. Medicamentos coadjuvantes podem ser necessários: os mais freqüentemente sugeridos são o lítio, a carbamazepina e os benzodiazepínicos. Um benzodiazepínico algumas vezes é necessário para melhor sedar o paciente, e parece haver um pequeno subgrupo de pacientes esquizofrênicos que respondem, às vezes dramaticamente, ao tratamento com benzodiazepínicos, não apenas tornando-se menos ansiosos, mas também podendo apresentar melhora dos sintomas de distúrbio do pensamento. Entre os efeitos colaterais dos neurolépticos, os mais comuns são sinais neurológicos extrapiramidais, ganho de peso e impotência, que podem desenvolver tolerância ou ser minimizados pela administração de drogas anticolinérgicas2, 3, 7, 15, 16. Avaliando pacientes com diagnóstico de psicose maníaco-depressiva, verificamos que no HRJP foi maior o percentual de uso de anticonvulsivantes (que inclui, vale lembrar, a carbamazepina), neurolépticos e dos estabilizadores de humor (nesse caso de forma significativa), sugerindo um melhor manejo das medicações mais indicadas para o grupo diagnóstico em questão. Já nos HPs, notamos percentuais mais elevados nos grupos de antidepressivos, anticolinérgicos e benzodiazepínicos. A mais freqüente prescrição de antidepressivos nos HPs e de neurolépticos no HRJP pode dever-se a uma diversidade de fases (maníaca ou depressiva) das duas amostras, o que não nos foi possível avaliar nesse momento. A CSD apresentou percentuais mais elevados dos grupos de antidepressivos, benzodiazepínicos, estabilizadores do humor e neurolépticos que a CSE, onde foi maior o percentual de anticonvulsivantes (TTabela 55). O carbonato de lítio é utilizado no tratamento de pacientes em crise maníaca ou hipomaníaca e na prevenção tanto de fases maníacas como depressivas em pacientes com transtorno bipolar: é essa a principal indicação deste fármaco, o que lhe valeu a denominação de estabilizador do humor. Para a maioria dos pacientes adultos, deve-se iniciar o lítio com 300mg, três vezes ao dia, estando a dosagem habitual situada entre 900 e 1.800mg/dia. Os estágios iniciais dos episódios maníacos freqüentemente exigem o acréscimo de drogas com potentes efeitos sedativos. As drogas geralmente usadas nesse estágio incluem o clonazepam, o lorazepam e o haloperidol. Quando o manejo agudo da mania inclui a utilização de um neuroléptico, cujas dosagens iniciais objetivam o controle do comportamento e a redução da agitação e da hiperatividade, utiliza-se habitualmente a clorpromazina ou o haloperidol (5 Tabela 5 – Grupos farmacológicos administrados a pacientes com diagnóstico à alta de psicoses maníaco-depressivas (296) Grupos HRJP (n = 17) HPS (n = 17) CSE (n = 9) Freq. % Freq. % Freq. % Freq. % Anticolinérgicos Anticonvulsivantes Antidepressivos Benzodiazepínicos Complexo B Estab. humor Neurolépticos Reidratantes Vitamina B1 8 6 1 8 0 16 16 0 0 47,1 35,3 5,9 47,1 0 94,1* 94,1 0 0 13 3 5 13 4 4 14 1 0 76,5 17,6 29,4 76,5 23,5 23,5 82,4 5,9 0 6 1 5 7 3 3 7 1 0 75 12,5 62,5 87,5 37,5 37,5 87,5 12,5 0 7 2 0 6 1 1 7 0 0 77,8 22,2 0 66,7 11,1 11,1 77,8 0 0 *p < 0,001. 306 CSD (n = 8) farmacológicos J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Ribeiro et al. Farmacoterapia de pacientes com transtornos psiquiátricos a 10mg a cada duas horas podem ser necessários durante o primeiro dia). No tratamento de episódios depressivos maiores com aspectos psicóticos, a prática usual consiste em utilizar uma associação de um antidepressivo e um neuroléptico. Como alternativa ao tratamento com lítio, no caso de bipolares, o uso de anticonvulsivantes como a carbamazepina e o clonazepam já era regularmente indicado durante os anos envolvidos por esse estudo; aqui as doses terapêuticas da carbamazepina geralmente situam-se entre 1.200 e 1.600mg/dia11-13, 15. Na categoria de diagnósticos relacionados a outras psicoses funcionais, observa-se que o HRJP apresenta percentuais mais elevados de uso de antidepressivos e estabilizadores de humor (de forma significativa para os segundos). Nos HPs foram mais elevados – todavia sem significância estatística – os percentuais de uso de anticolinérgicos, anticonvulsivantes, benzodiazepínicos, complexo B e neurolépticos. Entre os HPs, também nessa categoria diagnóstica, o percentual de prescrição de anticolinérgicos foi maior, de forma marginalmente significativa, na CSE (TTabela 66). Na Tabela 7 apresentamos a freqüência de uso e a dose média por dia (DM) dos principais representantes dos grupos farmacológicos administrados aos pacientes de nossa amostra com diagnósticos relacionados ao uso de substâncias. Notamos que apenas o antidepressivo amitriptilina e a vitamina B1 (tiamina) foram administrados com maior freqüência e com DM mais elevada no HRJP que nos HPs, nos quais ressaltamos as maiores freqüências de administração e DMs de clorpromazina, haloperidol, fenobarbital e prometazina, drogas sem indicação específica para esse grupo diagnós- Tabela 6 – Grupos farmacológicos administrados a pacientes com diagnósticos à alta relacionados a outras psicoses funcionais (297; 298) HRJP (n = 8) Grupos HPS (n = 37) CSD (n = 10) CSE (n = 27) farmacológicos Freq. % Freq. % Freq. % Freq. % Anticolinérgicos Anticonvulsivantes Antidepressivos Benzodiazepínicos Complexo B Estab. humor Neurolépticos Reidratantes Vitamina B1 5 1 3 6 1 3 7 2 1 62,5 12,5 37,5 75 12,5 37,5* 87,5 25 12,5 27 8 4 34 9 3 34 0 0 73 21,6 10,8 91,9 24,3 8,1 91,9 0 0 5 2 1 9 0 1 9 0 0 50 20 10 90 0 10 90 0 0 22 6 3 25 9 2 25 0 0 81,5** 22,2 11,1 92,6 33,3 7,4 92,6 0 0 *p = 0,03; **0,1 > p < 0,05 (marginalmente significativo). Tabela 7 – Dose média por dia dos principais medicamentos administrados aos pacientes com diagnósticos relacionados ao uso de substâncias (291; 292; 303-305) Droga Amitriptilina Biperideno Carbonato de lítio Clorpromazina Diazepam Fenobarbital Haloperidol Imipramina Prometazina Vitamina B1 HRJP (n = 103) HPS (n = 118) CSD (n = 61) CSE (n = 57) % Dose* % Dose % Dose % Dose 3,9 1 0 5,2 85,4 6,8 15,5 1 6,8 90,3 69,64 0,14 0 41,77 11,46 52,14 2,47 7,85 4,04 451,39 0,8 2,5 0 12,7 94,1 16,9 35,6 5,1 43,2 1,7 4,08 0,98 0 86,48 20,97 83,23 2,64 27,48 27,41 168,68 1,6 1,6 0 14,8 91,8 6,6 23 4,9 27,9 1,6 4,08 0,74 0 97,63 25,23 76,78 2,59 33,1 23,68 300 0 3,5 0 10,5 96,5 28,1 49,1 5,3 59,6 1,8 0 1,1 0 69,75 16,64 84,85 2,67 21,85 29,27 37,36 *Dose média/dia em mg, por via oral e/ou parenteral. J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 307 Ribeiro et al. Farmacoterapia de pacientes com transtornos psiquiátricos tico. O uso de diazepam foi elevado nas duas subamostras, porém maior nos HPs, onde a DM se mostrou mais elevada. Avaliando cada um dos HPs separadamente, podemos notar que a CSE apresenta as maiores freqüências de administração com maiores DMs de biperideno, fenobarbital, haloperidol e prometazina. Com relação aos pacientes que receberam, à alta, diagnósticos de psicoses orgânicas, observamos que as drogas biperideno, haloperidol e imipramina foram mais freqüentemente utilizadas no HRJP do que nos HPs, onde foram elevadas as freqüências de uso de clorpromazina, diazepam, fenobarbital e prometazina, as três últimas com doses bem mais elevadas do que no HRJP (TTabela 88). Observe-se ainda que as drogas mais indicadas para o tratamento desses pacientes, ou seja, os neurolépticos, aqui representados pelo haloperidol e pela clorpromazina, foram administradas diferentemente em cada subamostra: no HRJP utilizouse apenas o haloperidol, que, apesar da maior freqüência, teve DM menor que nos HPs, onde também foi utilizada a clorpromazina. Chamounos a atenção a maior freqüência de administração de haloperidol e prometazina na CSE, com DMs superiores àquelas encontradas na CSD, assim como foram as DMs de biperideno, clorpromazina, diazepam e imipramina. Avaliando a Tabela 99, onde são apresentados aqueles pacientes que receberam diagnós- Tabela 8 – Dose média por dia dos principais medicamentos administrados aos pacientes com diagnóstico de psicoses orgânicas (290; 293; 294) HRJP (n = 8) Droga Amitriptilina Biperideno Carbonato de lítio Clorpromazina Diazepam Fenobarbital Haloperidol Imipramina Prometazina Vitamina B1 HPS (n = 62) CSD (n = 26) CSE (n = 36) % Dose % Dose % Dose % Dose 0 12,5 0 0 25 25 75 12,5 12,5 0 0 1 0 0 3,79 52,08 2,12 6,25 1,78 0 0 6,5 0 21 69,4 61,3 62,9 3,2 50 0 0 0,96 0 86,52 13,51 145,85 3,71 8,81 28,49 0 0 11,5 0 19,2 76,9 65,4 50 3,8 34,6 0 0 0,87 0 53,06 10,18 170,25 3,64 5,65 14,77 0 0 2,8 0 22,2 63,9 58,3 72,2 2,8 61,1 0 0 1,24 0 107,43 16,4 126,11 3,75 11,97 34,09 0 Tabela 9 – Dose média por dia dos principais medicamentos administrados aos pacientes com diagnóstico de esquizofrenia (295) HRJP (n = 12) Droga Amitriptilina Biperideno Carbonato de lítio Clorpromazina Diazepam Fenobarbital Haloperidol Imipramina Prometazina Vitamina B1 308 HPS (n = 99) CSD (n = 50) CSE (n = 49) % Dose % Dose % Dose % Dose 8,3 33,3 16,7 66,7 25 0 100 0 25 8,3 5,35 1,09 285,71 93,74 5,63 0 13,72 0 7,86 150 0 27,3 1 28,3 52,5 6,1 93,9 4 82,8 1 0 2,71 81,42 147,48 11,41 86,2 7,42 39,06 38,95 44,89 0 42 2 26 50 2 96 0 82 0 0 2,43 81,42 173,82 12,49 61,63 7,74 0 30,6 0 0 12,2 0 30,6 55,1 10,2 91,8 8,2 83,7 2 0 3,71 0 124,65 10,41 91,12 7,08 39,06 47,31 44,89 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Ribeiro et al. Farmacoterapia de pacientes com transtornos psiquiátricos ticos de esquizofrenia à alta hospitalar, podemos notar que o HRJP apresentou maior freqüência de administração de vitamina B1, biperideno, carbonato de lítio e, principalmente, neurolépticos, sendo que, para o haloperidol, a DM foi superior à praticada nos HPs. Nestes, foi mais freqüente o uso de diazepam e prometazina, com DMs mais elevadas que aquelas encontradas no HRJP, assim como o foram as DMs de biperideno e clorpromazina; nota-se ainda, nestes hospitais, a administração de fenobarbital, principalmente na CSE, onde a DM e a freqüência foram maiores que na CSD. cias de uso de biperideno e clorpromazina no HRJP e de prometazina nos HPs, onde encontramos DMs de clorpromazina, diazepam e prometazina superiores às encontradas no HRJP. Com relação aos pacientes com diagnóstico de psicose maníaco-depressiva, observamos que, no HRJP, o carbonato de lítio, a clorpromazina e o haloperidol foram administrados com maior freqüência; aqui, carbonato de lítio e haloperidol foram administrados com DMs mais próximas das doses terapêuticas sugeridas que o realizado nos HPs. Nesses, foi elevada a freqüência de uso de diazepam, prometazina e imipramina, estando esta última com DM inferior à encontrada no HRJP. Podemos ainda notar que na CSD as freqüências de administração de carbonato de lítio, diazepam e imipramina foram maiores que na CSE, na qual foi mais freqüente o uso de clorpromazina, com DM superior à encontrada na CSD, da mesma forma que as DMs de carbonato de lítio, haloperidol e prometazina (TTabela 10 10). Dignas de nota são as mais altas freqüências de administração de anticolinérgicos, anticonvulsivantes, benzodiazepínicos e neurolépticos nos HPs em relação ao HRJP; note-se ainda que as DMs de prometazina, fenobarbital, diazepam e haloperidol, respectivamente os principais representantes de tais grupos farmacológicos, foram mais elevadas nos HPs que no HRJP, para a grande maioria dos grupos diagnósticos aqui apresentados. Tal perfil sugere a utilização de um padrão de prescrição farmacológica mais rígido por parte das equipes assistenciais dos HPs, independentemente do transtorno psiquiátrico apresentado pelo paciente. No HRJP, por outro lado, registramos uma freqüência mais elevada daqueles fármacos que seriam considerados os mais indicados a cada grupo diagnóstico em que foram utilizados, com uma maior flexibilidade do padrão de prescrição. Na Tabela 11 11, que se refere a outras psicoses funcionais, podemos destacar as maiores freqüên- Conclusão Nossos resultados permitem afirmar a existência de diferença entre o padrão de prescrição farmacológica para pacientes atendidos pela equipe da residência médica em psiquiatria do HU/UFJF no HRJP e aquele encontrado nos HPs estudados, ao menos nos anos aqui considerados como típicos. Tabela 10 – Dose média por dia dos principais medicamentos administrados aos pacientes com diagnóstico de psicose maníaco-depressiva (296) HRJP (n = 17) Droga Amitriptilina Biperideno Carbonato de lítio Clorpromazina Diazepam Fenobarbital Haloperidol Imipramina Prometazina Vitamina B1 HPS (n = 17) CSD (n = 8) CSE (n = 9) % Dose % Dose % Dose % Dose 5,9 35,3 94,1 58,8 41,2 5,9 88,2 5,9 23,5 0 1,78 0,78 842,44 139,54 2,54 16,66 10,27 64,28 7,08 0 0 0 23,5 47,1 70,6 5,9 76,5 29,4 76,5 0 0 0 484,61 137,3 12,18 195,91 5,46 31,42 35,44 0 0 0 37,5 37,5 87,5 0 75 62,5 75 0 0 0 459,86 94,1 14,29 0 2,13 31,42 28,8 0 0 0 11,1 55,6 55,6 11,1 77,8 0 77,8 0 0 0 558,85 163,21 9,22 195,91 8,32 0 41,14 0 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 309 Ribeiro et al. Farmacoterapia de pacientes com transtornos psiquiátricos Tabela 11 – Dose média por dia dos principais medicamentos administrados aos pacientes com diagnósticos relacionados a outras psicoses funcionais (297; 298) HRJP (n = 8) Droga Amitriptilina Biperideno Carbonato de lítio Clorpromazina Diazepam Fenobarbital Haloperidol Imipramina Prometazina Vitamina B1 HPS (n = 37) CSD (n = 10) CSE (n = 27) % Dose % Dose % Dose % Dose 0 37,5 37,5 62,5 75 0 75 12,5 45 12,5 0 1,22 328,91 39,38 5,08 0 5,89 63,26 11,18 385,71 0 2,7 0 40,5 78,4 13,5 75,7 10,8 73 0 0 0,66 0 91,48 16,01 84,28 4,32 51,06 38,94 0 0 10 0 50 90 10 70 10 50 0 0 0,66 0 87,75 15,92 100 3,81 92,85 39,01 0 0 0 0 37 74,1 14,8 77,8 11,1 81,5 0 0 0 0 93,35 16,05 80,35 4,49 37,13 38,92 0 No que se refere à concordância diagnóstica entre a internação e a alta do paciente, verificamos, nos HPs, percentuais superiores àqueles encontrados no HRJP, o que sugere que neste hospital geral houve uma maior interferência dos responsáveis pelo atendimento hospitalar no estabelecimento de um diagnóstico final. Os resultados aqui discutidos sugerem a necessidade de uma abordagem mais detalhada, de tipo qualitativo, capaz de elaborar em maior profundidade os dados quantitativos por nós apresentados, ou mesmo a extensão desse estudo a um período de tempo mais prolongado, a fim de alcançarmos resultados mais claramente conclusivos. Referências 1. Almeida OP. O papel do psiquiatra no hospital geral. J Bras Psiq 1990; 39(4): 183-9. 2. Bazire S. The professionals’ pocket handbook & aide memoire. Wilts: Quay Books; 1997. 3. Black DW, Yates WR, Andreassen NC. Esquizofrenia, transtorno esquizofreniforme e transtornos delirantes (paranóides). In: Talbott JA, Hales RE, Yudofsky SC, editores. Tratado de Psiquiatria. Porto Alegre: Artes Médicas; 1992, p. 267-99. 4. Botega NJ. Censo nacional de unidades de psiquiatria em hospitais gerais: II. Internações psiquiátricas em enfermarias de clínica médica. Revista ABP-Apal 1997; 19(3): 87-90. 5. Botega NJ. Residência de psiquiatria no hospital geral: uma enquete nacional. J Bras Psiq 1991; 40(8): 419-22. 6. Botega NJ, Schechtman A. Censo nacional de unidade de psiquiatria em hospitais gerais: I. Situação atual e tendências. Revista ABP-Apal 1997; 19(3): 79-86. 7. Brandão ML, Graeff FG. Esquizofrenia. In: Graeff FG, Brandão ML, editores. Neurobiologia das doenças mentais. São Paulo: Lemos; 1993, p. 51-78. 8. De Marco MA. Serviços de saúde mental no hospital geral. Revista ABP-Apal 1996; 18(2): 20-2. 9. Frances RJ, Franklin Jr JE. Transtornos por uso de álcool e outras substâncias psicoativas. In: Talbott JA, Hales RE, Yudofsky SC, editores. Tratado de Psiquiatria. Porto Alegre: Artes Médicas; 1992, p. 235-66. 310 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 10. Galant D. Tratamiento de pacientes com abuso de sustancias específicas: Alcohol. In: Galanter M, Kleber HD, editores. Tratamiento de los trastornos por abuso de sustancias de la American Psychiatric Press. 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Trata-se do setor 59G21 da periferia da cidade de Lille, no norte do país. A experiência desse setor foi tomada, pela autora, como contra-exemplo da situação mais geral da psiquiatria pública francesa, longamente estudada em sua tese de doutorado7, a qual traz um estudo comparativo dos modelos francês e italiano de reestruturação da assistência psiquiátrica. Neste texto, discutem-se dimensões problemáticas presentes mesmo em processos avançados de desinstitucionalização e sugerem-se questões igualmente pertinentes para nosso campo brasileiro de reforma psiquiátrica. Unitermos desinstitucionalização; relações comunidade/instituição; serviços de saúde mental Summary This article discusses some aspects pertaining to the actual process of deinstitutionalization in psychiatry based on the study of a French experience in an adult psychiatric sector, which is highly representative of an effort towards deconstructing the traditional asylum institution. It is the 59G21 sector, located in the outskirts of Lille, a town in northern France. The experience in this sector was taken as a counterexample of a more general situation in the French public psychiatry, comprehensively studied by the author in her PhD thesis7, in which a comparative study of the French and the Italian models of restructuring psychiatric assistance was carried out. In the present study, some problematic dimensions which occur even in advanced processes of deinstitutionalization are discussed, and suggestions pertinent to the Brazilian context of psychiatric reform are made. Uniterms deinstitutionalization; community/institutional relations; mental health services Professora de Psicologia Social do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Psicossocial (Lapip) do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São João del-Rei/MG. Este artigo é uma versão modificada e ampliada de Passos8; nele são introduzidos aspectos gerais da psiquiatria francesa, visando a uma melhor contextualização do caso estudado para o leitor brasileiro. J . b r a s . p s i q u i a t r. vol. 52 (4): 313-322, 2003 313 Desinstitucionalização em psiquiatria A idéia de desinstitucionalização na psiquiatria é muito difícil de se precisar, pois comporta diferentes sentidos. O termo foi introduzido pelos americanos para designar a política de saúde mental do governo Kennedy em meados dos anos 70 do século passado. Tal política, no entanto, do ponto de vista de seus críticos, não produziu mais que uma saída em massa dos pacientes dos hospitais psiquiátricos sem que tal desospitalização fosse, de fato, acompanhada por uma ação assistencial comunitária conseqüente (como afirmavam pretender os reformadores da política de saúde mental norte-americana). A psiquiatria democrática italiana – nome adotado pelo movimento que, sob a liderança de Franco Basaglia, revolucionou a psiquiatria na Itália nos anos 70 e 80 do século passado – por sua vez deu um novo sentido à idéia de desinstitucionalização. Pretendendo, como costumam dizer, ressignificar o termo americano, os italianos propõem para seu conteúdo a sua própria maneira de revolucionar a psiquiatria, isto é, através da destruição progressiva, porém total, do hospital psiquiátrico. Sob a perspectiva italiana, cujos principais exemplos de concretização prática são as reestruturações da saúde mental promovidas nas cidades de Trieste e Ímola, o hospital psiquiátrico permanecerá sempre um problema residual e dificultador de uma verdadeira desinstitucionalização das práticas de segregação e isolamento dos considerados doentes mentais, caso persista a estratégia de internação. Esta será sempre uma estratégia recorrente nos momentos mais difíceis. Nesse raciocínio, não há outra alternativa que o questionamento sem concessões da instituição hospitalar. Daí a convicção de que é preciso atacar diretamente a existência desse tipo de estrutura institucional, para que não só novas formas de assistência e tratamento sociocomunitários possam ser consolidados, mas, sobretudo, para que novas formas de relação, representação e práticas sociais em torno da loucura e/ou do sofrimento mental sejam possíveis. A bibliografia sobre tal discussão é extensa. Indicaria, como fontes para uma consulta mais ampla, o texto de Vasconcelos11, que traz uma relação da literatura internacional, principalmente em língua inglesa; entre os italianos, destacaria o texto indispensável de Rotelli et al.9 e um mais recente de Saraceno10; também, numa perspectiva de análise mais pragmática, voltada para a eficácia das novas estratégias e estruturas de tratamento, os artigos de Bandeira1, 2. 314 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Passos Numa aproximação com o segundo sentido do termo, sem, contudo, adotar como referencial exclusivo as experiências italianas, já que a desinstitucionalização, como ruptura de modelos tradicionais, é algo em experimentação em inúmeras partes do mundo ocidental e deve, necessariamente, levar em conta particularidades locais, importa-me aqui refletir sobre os desafios e os paradoxos persistentes em tentativas de desinstitucionalização que se querem as mais profundas ou radicais. Por isso irei trazer como exemplo não uma experiência italiana, mas uma experiência francesa de setor, que é parte integrante de um tipo de política nacional de saúde mental ainda pouco conhecido e estudado por nós brasileiros: a psiquiatria de setor. Uma das poucas experiências francesas que avançam na direção de uma verdadeira desconstrução da instituição psiquiátrica tradicional tem acontecido no setor psiquiátrico geral 59G21 da periferia da cidade de Lille, no norte do país, quase fronteira com a Bélgica. Lendo sobre as mais novas estruturas francesas de acolhimento os Centre d’Accueil Thérapeutique en Temps Parciel (CATTP), na revista L’Information Psychiatrique6, um artigo me chamou particularmente a atenção. Havia nele desde as palavras escolhidas até o modo como os autores problematizavam a questão da loucura e da ressocialização do doente mental, algo que o distinguia dos demais textos. Era certamente a forma como orientavam sua perspectiva de trabalho, mais que o tipo de estruturas que estavam criando no espaço extra-hospitalar, o que me deixava curiosa por conhecer essa experiência. As estruturas em si eram parecidas com as de tantos outros setores franceses ricos em equipamentos, como é o caso de um setor do centro de Lyon, mais antigo que este. Escrevi para os autores do referido artigo solicitando uma visita. Para minha surpresa, recebi resposta imediata. Foi a própria psiquiatra, dra. Murielle Sentchev-Gomes, uma das autoras do artigo e coordenadora de uma das unidades, quem me telefonou, no dia seguinte ao recebimento de minha carta, para marcarmos a visita. Já ao telefone, durante uma amigável conversa, pude saber que eles mantinham uma cooperação com o psiquiatra Franco Rotelli, de Trieste, Itália. Começava a fazer sentido minha intuição sobre a originalidade daquela experiência em relação ao perfil mais geral da psiquiatria no país. Passei dois dias inteiros conhecendo o serviço e conversando com profissionais e usuários. Eles me receberam com enor- Passos Desinstitucionalização em psiquiatria me gentileza, programando previamente as atividades de minha visita, pois o tempo de que dispunha parecia-lhes pouco para o conhecimento de uma rede tão complexa e múltipla. Previram o acompanhamento das atividades da rotina normal, encaixando-me nos deslocamentos do carro do serviço, durante os quais o motorista, sempre um profissional de cuidados, ia me explicando sua função e as das estruturas que íamos visitar. Este setor está situado na região mais urbanizada do país (Nord-Pas-de-Calais), onde 86% da população moram em cidades, estando apenas 14% no meio rural (contra uma média nacional de 26%). É também a região da França com maior concentração de população jovem: 30% da população têm idade abaixo de 20 anos, para uma média nacional de 26,5%. Por outro lado, apresenta a mais alta taxa de mortalidade por câncer das vias respiratórias superiores e digestivas, suicídio e alcoolismo – todas patologias relacionadas a hábitos de vida ou transtornos afetivo-emocionais. A psiquiatria hospitalar desse setor é, em termos estatísticos, bastante avançada, tanto em relação às médias regionais quanto às nacionais. A duração de internações é de 14 dias, contra 70 dias da média da região e 55 dias da média nacional. Dispõem de 0,39 leito por mil habitantes, contra 1,16 leitos na região e 1,37 no país. É bom lembrar que só uma rede substitutiva seria capaz de responder por uma tal diminuição no número de leitos. A França possuía, na época desse estudo, isto é, em 1998, uma quantidade ainda muito grande de leitos psiquiátricos hospitalares: em torno de 80 mil para uma população de, aproximadamente, 60 milhões de habitantes. Nenhum hospital psiquiátrico havia sido fechado no país, pois o fechamento de hospitais nunca fez parte das diretrizes políticas reformistas do modelo de setor. Os hospitais psiquiátricos, bem como as repartições psiquiátricas de hospitais gerais, permanecem sendo o centro de irradiação e de controle da política pública de setor, oficialmente implantada em todo o país a partir de 1960. Assim, apesar de o setor tender a se expandir para fora do hospital (para o extra-hospitalar, como eles dizem), através da criação de uma multiplicidade de estruturas diferenciadas de tratamento e acolhimento na comunidade local, é no hospital, junto aos leitos de internação, que se concentra o maior número de profissionais, bem como a direção de cada equipe de setor. Essa política produziu uma espécie de retalhação das enormes estruturas hospitalares (como Ville-Evrard e Maison Blanche, da cidade de Paris, e muitas outras), cujos pavilhões passaram a pertencer a equipes de setor diferentes, que pouco interagem umas com as outras. Cada equipe é responsável por uma região geográfica e populacional própria, de aproximadamente 70 mil habitantes, sendo este o desenho da territorialização. Decorre dessa divisão uma grande discrepância de recursos e concepções políticas entre os setores franceses: uns muito avançados na desinstitucionalização e ricos em equipamentos e recursos humanos, outros muito hospitalocêntricos e pobres em estruturas extra-hospitalares. Veremos, neste estudo, como o setor 59G21 conseguiu criar, efetivamente, uma rede substitutiva à estrutura hospitalar ainda dominante no país. O setor é coordenado a partir do Hospital Psiquiátrico de Armentières, uma cidadezinha da zona rural, eqüidistante aproximadamente, vinte quilômetros das seis cidades servidas pelo setor 56G21, o qual abrange uma população de 84 mil habitantes. As transformações nesse setor começaram por volta de 1977, quando da criação de uma associação, sob a Lei 1901 – a Associação MédicoPsicossocial (AMP) –, que reúne como membros: profissionais da psiquiatria local, o próprio hospital, eleitos municipais (equivalentes a nossos vereadores) das seis comunas e cidades de abrangência do setor, a equipe do setor 56G21 e representantes de associações de famílias e usuários. Esta associação tem como objetivos a criação de novas formas e estruturas de cuidados, a pesquisa, e a sensibilização da população, com o intuito de modificar representações sociais sobre a loucura. No início do processo, o hospital de referência era, e continua sendo em grande parte até hoje, uma típica instituição asilar. Contava, em 1978, com 2.500 internados, dos quais o referido setor abrigava 300. Hoje, o hospital possui um contingente de 700 pacientes (o que é um número ainda elevado, considerando-se que o mesmo está dividido em sete setores), e o 56G21 conta com apenas 25 leitos, utilizados para a internação de casos agudos e urgências, não restando mais que uma só pessoa dos antigos casos crônicos ou difíceis . Todos os cronificados do hospital, pertencentes ao referido setor, enconJ . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 315 Desinstitucionalização em psiquiatria traram novos lugares de vida, como, por exemplo, os apartamentos associativos. Também não existe mais nesse setor alcoólicos cronificados como antes. Tal como ocorre no restante do país, no mesmo hospital convivem realidades muito diversas de psiquiatria, sendo a situação do setor ímpar em relação à de outros do mesmo hospital de Armentière. Para uma visualização mais completa, apresento, ao final deste artigo, Quadro contendo um resumo da composição das estruturas em funcionamento no setor: suas atividades, capacidades de atendimento e custos anuais. Todas as informações foram retiradas de documento interno, fornecido pelo setor. Em suma, para atender a uma população de cerca de 80 mil pessoas, a equipe conta com: uma clínica com 25 leitos para internação integral no hospital psiquiátrico; dois CATTP (parecidos com nossos centros de convivência); dois centros médico-psicológicos (CMP) (tipo ambulatório para consultas psicológicas e psiquiátricas); um hospital-dia em prédio novo, especialmente construído para tal finalidade com várias dependências para atividades diversas; dois ateliês terapêuticos com 22 lugares, onde os pacientes realizam pequenos trabalhos manuais; um ateliê profissionalizante com 25 postos para deficientes em geral e não só para a psiquiatria; 12 moradias protegidas (sendo sete apartamentos individuais, no piso superior do imóvel, e cinco quartos individuais com espaço social compartilhado, no piso inferior); 125 apartamentos associativos (isto é, moradias a aluguel de baixo custo) espalhados pelas cidades, cujos moradores são acompanhados pela equipe psiquiátrica em seus domicílios. Tudo isto além das muitas parcerias com equipamentos culturais e de lazer dos municípios. As estruturas do setor se espalham por pontos diferentes das cidades atendidas, e os pacientes recebem ajuda para transporte no deslocamento entre elas e delas a seus domicílios. Os grandes consumidores de cuidados do serviço são pessoas diagnosticadas como esquizofrênicas. Constituindo 10% da população atendida, eles consomem 60% dos serviços disponíveis no setor. Trezentas pessoas são acompanhadas regularmente por ano e 1.300 beneficiam-se, de alguma maneira, do serviço, seja em consultas, seja em atividades. Há vinte anos sob a direção e a liderança política ativa do psiquiatra Jean-Luc Roelandt, este ser316 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Passos viço define o que faz como uma psiquiatria cultural comunitária, cujo objetivo é trabalhar para se sair da psiquiatria, abrindo espaço para outras formas de contato e relação com a loucura. Acham que é preciso oferecer à população um atendimento profissional cada vez de melhor qualidade, individualizando e diversificando, o máximo possível, as possibilidades de atenção especializada. Mas pensam também que este aspecto profissionalista do trabalho não pode esgotar a função de um serviço que tem o papel muito mais delicado de abrir o debate social para a relação de todos nós com a loucura. Esta, de forma alguma, deve estar confinada num saber especializado, que, “ao fim e ao cabo, sabe muito pouco dela”, afirma o dr. Roelandt. Este é um setor considerado rico. Mas seu psiquiatra-chefe faz questão de frisar que tudo o que conseguiram foi fruto de um esforço árduo e constante para envolver a prefeitura municipal de Lille, os vereadores e outras instituições de prestação de serviço social em ações de parceria, sem o que não teriam conseguido quase nada. Se observarmos a coluna Custo Anual, no Quadro, notaremos que a estrutura hospitalar gasta sozinha quase o dobro de todas as demais estruturas extra-hospitalares somadas; tal comprovação de gastos ajuda a convencer os políticos sobre a importância da desinstitucionalização. Praticamente todas as unidades externas foram viabilizadas pela Associação MédicoPsicossocial, que tem sede na Maison Antonin Artaud. A maison é um estabelecimento espaçoso e bem decorado, situado na cidade de Hellemmes, uma das seis que compõem a área de abrangência do serviço. Abrigou o primeiro hospital-dia do setor e em 1990 transformou-se em centro de reabilitação, com um CATTP, onde são desenvolvidas atividades de ressocialização, e um CMP, onde são feitos os atendimentos médicos e psicológicos, individuais ou grupais. Desde sua criação, a associação mantenedora desenvolve, com a participação de numerosos artistas da região e do país, uma série de eventos culturais e de mobilização social. Já foram feitas várias exposições de obras desses artista e de usuários. Houve o fechamento do pavilhão de isolamento do hospital, com seminários e semanas de debates abertos à comunidade. Realizou-se uma campanha publicitária original, através de cartazes artísticos e intrigantes, com temáticas em torno da loucura, Passos Desinstitucionalização em psiquiatria expostos nas fachadas de estabelecimentos públicos em vários pontos das comunas, com a única finalidade de sensibilização das pessoas. Produziramse alguns filmes* e peças teatrais. Foi criado um acervo artístico itinerante. As atividades culturais previstas pelo serviço totalizam uma carga horária de 39 horas semanais, e são realizadas dentro e fora do setor, com o envolvimento de equipamentos culturais e esportivos, dos municípios e do departamento (bibliotecas, teatro, ginásios, escolas, piscinas públicas, etc.). Ou seja, há uma programação extensa e acessível a pessoas que normalmente não teriam como usufruir delas, seja pelo custo desse tipo de atividade, seja pela falta de motivação ou de conhecimento, decorrentes de desigualdades sociais de acesso à informação. A proposta de introduzir a arte no serviço vai menos no sentido de se fazer arteterapia ou coisa do gênero, e mais no de buscar uma forte aliada para sensibilização, politização e publicização do debate sobre a loucura e seu estigma. “A arte é um lugar estratégico de encontro e de articulação da loucura com a cidade... como o cavalo azul de Franco Basaglia**, a arte entrou no asilo e tudo mudou em nossas cabeças”, diz Roelandt8. O objetivo é levar a ação artística para os lugares do mito – o asilo –, mas também para a cidade. Numa referência implícita a Deleuze e Guattari, dirá ainda que “são as linhas de fuga engendradas por este Mito que precisam ser interrogadas, do contrário, cai-se novamente num tratamento social e moral da loucura”. O que está em jogo é a reconstrução de uma nova cidadania, não só para os loucos, mas, igualmente, para todos. Os ateliês e as atividades livres são conduzidos por profissionais da área em questão. Nada de amadorismo ou voluntarismo. Nesses grupos, pode-se falar de tudo, menos de psiquiatria e de doença – temas proibidos. Trata-se de uma fórmula paradoxal com a qual acreditam estar eliminando o estigma da doença. A presença de um enfermeiro nesses grupos “é apenas para ajudar a enquadrar o grupo quando necessário”, dizem, pois estão convencidos de que “o enfermeiro participa das atividades como um membro qualquer”. Essas e outras contradições perpassam o tempo todo o trabalho da equipe, sem contudo anular a intenção verdadeira de superação de um estigma social extremamente arraigado para quem se submete ou se submeteu a algum tipo de tratamento psiquiátrico, como nos mostrou Goffman4, 5. As atividades livres não têm caráter formador nem ocupacional, e sim de integração, convivência, troca de informações. Quanto aos profissionais que animam as atividades, estes não recebem qualquer informação sobre os pacientes, não lêem dossiês, nem participam da vida institucional do serviço; são artistas ou profissionais liberais contratados apenas para as atividades. A associação mantenedora desenvolve também várias pesquisas conduzidas por membros da equipe, a maioria em parceria com órgãos oficiais de pesquisa. São exemplos: uma pesquisa européia sobre pacientes esquizofrênicos submetidos a avaliações através de escalas estandardizadas da OMS; estudos sobre custos do setor francês, em cooperação com vários institutos nacionais de pesquisa em saúde; estudos sobre os sem domicílio fixo (SDF), através de participação num projeto de pesquisa, prevenção e ajuda desenvolvido pelo município de Lille e pelo estado; pesquisa epidemiológica multicêntrica e sobre representações da loucura e da doença mental, na França e em países do Oceano Índico, em cooperação com várias agências nacionais e internacionais. As técnicas de cuidado variam numa gama que vai do tratamento biológico ao psicoterapêutico, envolvendo vários tipos de abordagem. Assim, fazem psicoterapia psicobiológica, psicoterapia individual, psicanálise, grupo cognitivo, terapia familiar, terapia corporal, hidroterapia, terapia Gestalt, consulta em etnopsiquiatria. O programa é individualizado para cada paciente de acordo com suas necessidades e interesses e é revisto periodicamente. Uma reunião institucional ampla ocorre semanalmente envolvendo o médicochefe, todo o pessoal de cuidados, pacientes e familiares. A palavra é livre, fala-se de tudo, de dificuldades com a doença a críticas à instituição. O que distingue este setor da política mais geral do país é, principalmente, sua clara postura *Tenho disponível um videodocumentário sobre este setor intitulado Pas si fou que ça, produzido em 1998. Recebeu o primeiro prêmio no 22º Festival Internacional de Filmes de Psiquiatria de Lorquin (está em francês, sem legendas). Para os interessados, contato pelo endereço eletrônico: [email protected]. **Marco Cavalo é o nome do cavalo azul de papel machê construído como símbolo da revolução psiquiátrica triestina. J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 317 Desinstitucionalização em psiquiatria pelo fechamento de hospitais psiquiátricos e uma busca da despsiquiatrização, via formas de cooperação interinstitucionais e inserção na vida comunitária da cidade. A coordenadora do CATTP da Maison Artaud acredita que mesmo diante do risco de uma plataforma de luta pelo fechamento dos hospitais ser apropriada por interesses econômicos perversos de desresponsabilização do estado, o hospital, enquanto existir, terá sempre um caráter asilar, tutelar, cronificante. Outras características, no entanto, tornam inequívoco o pertencimento deste setor ao modelo francês de psiquiatria. Por exemplo, o poder no interior da equipe é extremamente centralizado no médico. Uma psicóloga dá um exemplo concreto. Conta que havia encaminhado uma jovem para psicoterapia antes que se tivesse estabelecido o seu planning terapêutico e definido seu psiquiatra de referência. Isto lhe valeu uma boa bronca do psiquiatra-chefe, pois como psicóloga ela não poderia decidir sobre o risco de suicídio, como temia, e antecipar um encaminhamento. Alguns falam de uma centralização na figura do chefe de setor, na forma de um poder mistificado. Neste caso, particularmente favorecido pelo carisma pessoal e pela arguta inteligência do médico-chefe, que o colocam quase como um guru para a equipe. Apontam também outra dificuldade do serviço, talvez relacionada à questão anterior, a saber, a pouca reflexão e autocrítica da equipe sobre si mesma, sobre o trabalho que faz, sobre as relações que os profissionais estabelecem entre si. Nas reuniões de síntese (como são chamadas as reuniões clínicas), o foco é sempre o paciente, quase nunca a própria equipe. Alguns com quem conversei acham que poderiam ser ajudados, nesta tarefa de auto-análise grupal, pelos psicoterapeutas, mas estes não querem se envolver institucionalmente. Como nos outros setores psiquiátricos franceses, os psicoterapeutas (principalmente psicanalistas e psicólogos) são como Passos um apêndice do serviço, só fazem psicoterapia individual dos pacientes que lhes cabem. Em nome de uma suposta preservação da neutralidade técnica, praticamente não participam da equipe, nem tomam parte no funcionamento das demais estruturas. Os consultórios dos centros médico-psicológicos, onde os psi se localizam institucionalmente, são muito semelhantes a clínicas de consultórios privados, inclusive no modo padrão de funcionamento, com atendimento por consultas em hora marcada previamente. Apesar de públicos, os consultórios são muito bem decorados, em alguns casos, com recursos dos próprios profissionais, que os querem personalizados tal como seus consultórios particulares. Segundo a dra. Sentchev-Gomes, muito franca nas críticas que faz ao serviço, há ainda muito o que mudar, mesmo num setor progressista como o deles. Por exemplo, avalia que eles, os franceses, são muito hierarquizados no modo de trabalhar. Cada um faz o seu trabalho segundo sua especialidade, discute-se e reflete-se pouco em termos interdisciplinares. Atribui isto ao modo como estão organizados na psiquiatria de setor*, mas também à mentalidade dominante no país. Quando pergunto se há voluntários no serviço, ela completa a reposta negativa dizendo: “somos muito individualistas na França, há pouca solidariedade”. Talvez não se trate tanto, ou apenas, de falta de solidariedade, mas de serem muito formais e profissionalizados**. De fato, as funções de cada unidade do serviço são bem delimitadas e específicas. Nesse aspecto, diferem muito da psiquiatria democrática italiana, que é pouco dada ao profissionalismo e a especificações de funções, sendo seus centros de saúde mental um lugar onde realizam de tudo um pouco (de internações curtas a atividades de ressocialização). O voluntariado é muito presente na Itália e tem um papel importante em todas as atividades, mesmo nos processos de cuidado terapêutico propriamente dito, através da figura do acompanhante *Há uma tendência recente, considerada modernizante, de que os setores se especializem por tipo de problemática. Assim, além da divisão existente desde a origem da política de setor entre setores de psiquiatria infantil e setores para adultos, seriam construídos setores específicos para autismo, para toxicomania, para transtornos psicóticos, etc. É uma visão totalmente oposta, por exemplo, daquela adotada por Mário Tommasini em Parma, Itália, nos anos 1980, quando, de modo absolutamente inovador, experimentou, com sucesso, reunir pessoas as mais diversas em atividades de reinserção social (drogaditos, idosos, prisioneiros comuns, portadores de transtornos mentais, crianças de rua). Ver, a propósito, Franca Basaglia3. **Talvez também não seja sem importância o fato de a psiquiatra que faz a crítica estar há poucos anos no norte do país. É originária de Marseille, capital de uma região onde todos são unânimes em reconhecer um jeito mais latino de ser da população, mais expansivo e comunitário. Sendo mediterrâneos, fazem muito intercâmbio comercial e cultural com a Itália, a Espanha e os países árabes vizinhos. 318 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Passos Desinstitucionalização em psiquiatria terapêutico. É uma função que não demanda qualquer especialização profissional para ser exercida, dependendo simplesmente de uma disponibilidade interna, pessoal, por parte de quem a deseja realizar e da aceitação do agente pelo usuário. Este, digamos experimentalismo de princípio praticado nos cuidados aos usuários em Trieste só encontra restrições diante da responsabilidade médica maior que compete à equipe médica (psiquiatras e enfermeiros), principalmente no que respeita à medicação. Os casos onde prevalece certo profissionalismo têm lugar apenas nos ateliês de formação profissional ou educacional em sentido estrito (nos centros politécnicos), ou quando da aprendizagem de um ofício ou profissão (nas cooperativas sociais), duas únicas situações em que as atividades são dirigidas por professores ou profissionais habilitados. De todo modo, a equipe do setor estudado passou a impressão de grande espontaneidade nas avaliações que fazem do serviço, sendo pouco rígidos e menos formais no modo como atuam, que em outros serviços conhecidos durante a pesquisa. Mesmo ao falar com uma visitante, as pessoas, em geral, não escondiam suas insatisfações, nem douravam a pílula para mostrar um setor ideal. Essa franqueza pareceume também muito peculiar ao serviço e provavelmente é decorrência da proposta de maior abertura e despsiquiatrização no modo de trabalhar. Algumas conversas comigo aconteciam sem muita formalidade, às vezes na cozinha, tomando um cafezinho, durante o almoço, andando pela cidade. Uma outra dificuldade apontada é a de se libertar do estigma de lugar de maluco que o serviço ainda carrega. Pude observar que os próprios usuários não discriminam muito bem as estruturas, chamam o CATTP de hospital, de clínica, e são corrigidos pelo educador. Aliás, os educadores que pude acompanhar fazem muito esse papel corretor da fala e da conduta dos usuários, sem serem agressivos, é verdade. Curiosamente, não se consideram paternalistas, pois, ao contrário, pregam um discurso antiprotecionista, contra a dependência do usuário. Todos os usuários com quem conversei são unânimes em condenar o hospital, dizendo preferir mil vezes os apartamentos na cidade. Os usuários saem, fazem compras, preparam a própria comida, às vezes com ajuda das equipes. O desafio maior da ressocialização é fazer as pessoas comuns se inte- ressarem pela questão da loucura, aproximaremse de fato, e não apenas tolerarem a presença de vizinhos pouco convencionais. Um dado mostra o quanto a questão da loucura, considerada assim em geral, continua sendo atravessada por determinantes sociais, mesmo em países ricos. Os casos que chegam ao serviço público francês têm um perfil psicossocial, de pobreza e/ou abandono, muito semelhante aos nossos, senão vejamos: 60% da população atendida no CATTP da Maison Antonin Artaud eram constituídos por pessoas desempregadas, inválidas, alcoólatras ou recebendo o RMI (renda mínima – ajuda do estado aos pobres). A maioria, homens entre 30 e 50 anos, celibatária ou vivendo só. Por outro lado, o setor não seleciona clientes: 44% dos freqüentadores deste CATTP são psicóticos (20% do total do setor), 39% sofrem de transtornos de personalidade, neuroses e transtornos ciclotímicos, 17% sofrem de toxicomania e deficiência mental. Segundo a coordenadora, o CATTP acaba desempenhando muito mais um papel de assistência social do que psiquiátrico. “Pelo menos essas pessoas não ficam desamparadas”, reflete. Estava em processo de negociação, à época, um projeto mais ousado, com previsão do início de implantação para o ano 2000. Trata-se do projeto Frontières, que prevê a construção de um centro de saúde mental acoplado a um centro de arte contemporânea, num espaço total de construção de 3.000m2. O objetivo era retirar todos os leitos deste setor, remanescentes no hospital, com a transferência de dez deles para o referido centro de saúde mental e outros sete para famílias terapêuticas, reduzindo-se, assim, o total dos 25 leitos existentes para 17. (O Ministério da Saúde determinava que cada nova reestruturação de serviços fosse acompanhada de uma redução no número de leitos – condição para recebimento de mais verbas.) Para o novo centro de saúde mental estava previsto um CATTP com 25 lugares para atividades e um centro de hidroterapia. Para o centro de arte contemporânea estavam previstos ateliês de criação plástica e uma residência para artistas. Além desta residência, previa-se a construção de estúdios aos moldes das habitações a aluguel moderado (HLM) para estudantes com transtornos psíquicos (e público em geral) que pudessem se beneficiar dos cuidados da clínica e das atividades culturais do centro de arte pelo tempo de duração dos estudos – a cidade de Lille tem uma importante universidade. J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 319 Desinstitucionalização em psiquiatria Passos Pode-se concluir, dessa descrição sumária, que o setor estudado exemplifica bem não apenas os avanços, mas, igualmente, os desafios persistentes na desinstitucionalização em psiquiatria. Por um lado, é flagrante o distanciamento da prática desse serviço da tradicional prática de internamento em grandes hospitais psiquiátricos que fizeram a fortuna da psiquiatria por mais de dois séculos, não só na França como em todo o mundo ocidental moderno. Este aspecto, por si só, é de grande importância quando se considera a presença ainda maciça no país dessas estruturas gigantescas. Essa é uma entre muitas outras dimensões do quadro atual da psiquiatria francesa que comprometem a desinstitucionalização. Podese citar ainda, nesse sentido, a expansão, sem pre- cedentes, de uma lógica econômico-tecnicista, de custos/benefícios, hoje pregnante na definição das políticas; tal lógica vem deixando pouco espaço para preocupações essencialmente humanitárias nas propostas reformistas. Por outro lado, o setor estudado é, sem dúvida, atravessado por novos paradoxos e desafios quando a questão é vencer o estigma social da loucura (e isto apesar dos esforços consideráveis da equipe para superá-lo). Experiências como esta nos ajudam a avaliar de maneira realista os limites das transformações em curso. Também nos permitem refletir sobre a amplitude dos problemas a enfrentar quando o objetivo é o redimensionamento da instituição psiquiátrica para uma maior e efetiva interação com a comunidade. Quadro – Estruturas do setor 56G21 de Lille 320 Estrutura Equipe* Atividades Capacidade Custo anual em francos (1996)** Clínica Jerome Bosch (hospitalização em tempo integral) Localização: Hospital Psiquiátrico de Armentières Médicos psiquiatras, generalista, residente, psicólogo, psicometrista, fisioterapeuta, educador, enfermeiros de quadro, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, agentes administrativos, agentes de serviço, artistas (19h/sem.) Psicoterapias individuais, psicomotricidade, ergoterapia, hidroterapia, reuniões do pessoal de cuidados com pacientes, artes plásticas, música, estética, dietética, fisioterapia, esportes 25 leitos 15.114.926,00 Centro Samuel Beckett Hospital-dia (2ª a 6ª, 8h30 às 17h30) Médico psiquiatra, enfermeiros, enfermeiros de quadro, enfermeira-chefe, agente administrativo 15 lugares CATTP (2ª a 6ª, 8h30 às 17h30) Acolhimento no domingo: 14h30 às 16h30 (Parcerias com várias instituições e associações locais) Artísticas e culturais, esportivas, grupo de palavra, acompanhamento individual, consultas médico-psicológicas, apartamentos associativos, visitas em domicílio, acolhimento, fisioterapia Maison Antonin Artaud Médico psiquiatra, psicólogo, Consultas médico-psicológicas, 297 pacientes Reabilitação CATTP (2ª a 6ª, 8h30 às 17h30) Acolhimento aos sábados: 14h às 16h psicometrista, educador, enfermeiros, educador especializado, quadro socioeducativo, agente administrativo, monitor-educador, artistas (36h/sem.) psicomotricidade, terapias familiares em 1997 (meias jornadas: 5.953) CMP Médico psiquiatra, enfermeiro de quadro, enfermeiro-chefe, psicometrista, psicólogos, massagista-fisioterapeuta, quadro socioeducativo, enfermeiros, agentes administrativos, educador especializado J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 600 admissões/ano (40% readmissões) 3 semanas de permanência em média (50% ficam apenas uma semana) 960.728,00 193 pacientes/mês (meias jornadas atendidas em 1997: 3.225) 1.834.792,00 Atividades artísticas e culturais, principalmente na comunidade: bibliotecas, videodebate, esporte, piscina, informação-atualidade, teatro (na Escola Pública de Teatro), concertos, dança Consultas médicas, visitas em domicílio, acompanhamento de apartamentos, acolhimento todos os dias da semana Número de consultas em 1997: 8.235 2.126.326,00 cont. Passos Desinstitucionalização em psiquiatria Quadro – Estruturas do setor 56G21 de Lille (cont.) cont. Centro Fernand Leger Filière-travail 1 ateliê terapêutico 1 centro de adaptação à vida ativa (Cava) – equivalente ao CAT Estabelecimento da municipalidade Parceria com: Agência Nacional para o Emprego e com a Permanência de Acolhimento, Informação e Orientação para Inserção Profissional de Deficientes Equipe do setor: médico psiquiatra, enfermeiro de quadro, enfermeiro-chefe, monitores de ateliês, ergoterapeuta 1 ateliê protegido 45.476,00 (no que respeita ao orçamento da psiquiatria) Pequenos trabalhos artesanais que ficam para os próprios pacientes 10 postos Pequenos trabalhos para empresas 12 postos para pacientes psiquiátricos dos 24 também destinados a desempregados de longa data ou pessoas que recebem o RMI Oficinas profissionalizantes 25 postos para deficientes em geral No total, 42 pacientes psiquiátricos beneficiaram-se dessas estruturas em 1997 Residência Andre Breton (habitações a aluguel moderado da Sociedade Anônima dos HLM de Lille e região) 7 apartamentos associativos (andar térreo) Médico psiquiatra, massagista-fisioterapeuta, auxiliares de enfermagem, agentes de serviço, quadro socioeducativo, enfermeira-chefe, monitor-educador, monitor de ateliê, enfermeiros, agente administrativo, ergoterapeuta, artistas (19h/sem.) Lugar de moradia para crônicos e deficientes 2.128.112,00 7 deficientes profundos ou indivíduos com transtornos neurológicos 5 apartamentos sociais individuais, na parte superior do imóvel (geridos pela municipalidade) 5 moradores com história psiquiátrica, vivendo com autonomia 1 grande apartamento terapêutico (espaço social comum no andar térreo) Nº total de jornadas em 1997: 2.111 Apartamentos associativos (moradias) e apartamentos protegidos (pós-cura) Moradores recebem visitas em seus domicílios e participam das estruturas do setor 125 apartamentos espalhados pelas cidades de Lille e circunvizinhas Todos são geridos por uma comissão municipal com representantes dos setores psiquiátricos, do HLM, de outras instituições afins, famílias e usuários CMP – Faches Thumesnil Médico psiquiatra, Idem ao outro CMP quadro de enfermagem, enfermeira-chefe, psicomotricista, psicólogo, massagista-fisioterapeuta, quadro socioeducativo, enfermeiros, agente administrativo Nº de consultas e visitas domiciliares em 1997: 3.610 1.000.002,00 Sala Concorde (funciona numa escola primária) Educador e enfermeiro 15 lugares Sem informação Almoço associativo, encontros e jogos * Não está discriminado o número de funcionários por estrutura; a maioria desloca-se por mais de uma delas. Há boa cobertura da equipe, a maior deficiência sendo em número de psiquiatras, segundo avaliação interna. À época, o franco estava desvalorizado quase sete vezes em relação ao dólar. ** J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 321 Desinstitucionalização em psiquiatria Passos Referências 1. Bandeira M. Desinstitucionalização ou transinstitucionalização: lições de alguns países. Jornal Brasileiro de Psiquiatria 1991; 40(7): 255-360. 2. Bandeira M, Lesage A, Morissette R. Desinstitucionalização: importância da infra-estrutura comunitária de saúde mental. Jornal Brasileiro de Psiquiatria 1994; 43(12): 659-66. 3. Basaglia FO. Mario Tommasini: vida e feitos de um democrata radical. São Paulo: Hucitec; 1993. 4. Goffman E. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 1987. 5. Goffman E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar; 1975. 6. L’information Psychiatrique 1996; n. 7. 7. Passos ICF. Políticas e práticas de cuidado em saúde mental: experiências e ‘modelos’ em discussão. Tese de doutorado. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2000. 8. Passos ICF. Les défis de la désinstitutionalisation en psychiatrie: l’exemple d’un secteur très avancé. In: Revue Internationale de Psychosociologie. Paris: Ed. Eska (no prelo, aceito para publicação em março de 2001). 9. Roelandt J-L. Un conte de faits: à la folie. Lille: Secteur psychiatrique 56G2, 1990. p. 48. 10. Rotelli F. et al. Desinstitucionalização, uma outra via. In: Nicácio F. (org.) Desinstitucionalização. São Paulo: Hucitec; 1990. 11. Saraceno B. Libertando identidades: da reabilitação psicossocial à cidadania possível. Rio de Janeiro: Instituto Franco Basaglia/TeCorá,1999. 12. Vasconcelos EM. Do hospício à comunidade. Belo Horizonte: Segrac, 1992. p. 41-80. Jornal Brasileiro de Psiquiatria Endereço para correspondência Izabel C. Friche Passos Depto. de Psicologia Social da Fafich/UFMG R. José Cleto 291/103 – Palmares CEP 31155-290 – Belo Horizonte-MG Tel.: (31) 3499-6281 e-mail: [email protected] 322 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Idéias, Debates e Ensaios Demandas e direitos na pesca artesanal: reflexões e considerações Benedito Paulo Bezerra Recebido em: 24.01.03 Aprovado em: 21.01.03 Resumo Este ensaio inclui reflexões e considerações sobre demandas e direitos na pesca artesanal. O sonho de independência dos pescadores artesanais e a experiência de viver uma realidade oposta, constituída pela dificuldade de ser dono da própria embarcação, de comercializar o produto do trabalho, de ter atendimento médico e de encaminhar pedido de aposentadoria e segurodesemprego, podem levá-los a adoecer. O conhecimento dos direitos garantidos na Constituição Federal e a luta para garantilos, com o apoio das organizações sociais e dos centros de pesquisas comprometidos com a melhoria das condições de vida dos pescadores amazônidas, podem promover transformações positivas na vida deste grupo social. Unitermos pesca artesanal; demandas; direitos; organizações sociais; centros de pesquisa Summary This essay includes reflections and considerations about the demandings and rights in the fishing artisanship. The fishermen’s dream of independence and the fact that they experience a reality quite different from it, which includes the difficulty of being the owner of the boat used for fishing, the difficulty of selling the product of their work, of having medical assistance, unemployment insurance and retiring can make them fall ill. Knowing the rights expressed in the Federal Constitution and struggling in order to guarantee them, with the support of the social movements and the research centers committed with the improvement in the conditions of life of the fishermen in Amazonia can further positive changes for that social group. Uniterms fishing artisanship; demandings; rights; social movement; research centers Introdução A literatura sobre os pescadores artesanais, em particular os estudos produzidos na Universidade Federal do Pará (UFPA), no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) e no Museu Paraense Emilio Goeldi (MPGE)8 descreve-os como parceiros do mar e povos das águas7, caracterizando-os como homens que detêm um profundo conhecimento da natureza e autênticos mestres na arte de navegar, tanto nas águas interiores como no oceano. Trata-se de indivíduos que dominam diversas técnicas de captura do pescado e trabalham em barcos cujos únicos sinais de modernização residem, em geral, na presença do motor a diesel como forma de propulsão e na inovação no armazenamento do pescado, garantindo, assim, uma permanência mais longa na pescaria em alto-mar. Professor do Curso de Medicina da Universidade Federal do Pará; diretor de ensino e pesquisa da Fundação Pública Estadual Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, Belém-PA. Este artigo está fundamentado na tese de doutorado apresentada pelo autor à Escola Paulista de Medicina/Universidade Federal de São Paulo, sob o título A Saúde Mental no Nordeste da Amazônia: Estudo de Pescadores Artesanais. J . b r a s . p s i q u i a t r. vol. 52 (4): 323-326, 2003 323 Demandas e direitos na pesca artesanal A denominação parceiros deve-se às relações de trabalho predominantes quando os pescadores artesanais não são proprietários dos equipamentos de pesca. Neste caso, dividem com os outros membros da tripulação o produto do trabalho. Tal divisão destina 50% da produção para o dono do barco ou o seu representante na embarcação. Ressalta-se que a comercialização inclui, geralmente, a presença do atravessador, ao invés de ser efetivada numa relação direta com o consumidor. Desenvolvendo um trabalho no qual o risco é constante, pela imprevisibilidade do tempo e pela precariedade do equipamento utilizado, constatamos que esses homens vivem um processo de trabalho que pode levá-los a adoecer. Penner11 aponta a gripe e o reumatismo como males freqüentes entre os pescadores. Este ensaio, com base no estudo1 realizado em Vigia, o maior centro pesqueiro do estado do Pará, inclui reflexões e considerações sobre anseios e demandas dos pescadores artesanais no nordeste da região amazônica e a luta pela garantia dos direitos constitucionais. Considerações iniciais A jornada de trabalho a que são submetidos os pescadores artesanais, descrita e discutida em estudos sociológicos e antropológicos, apresenta indicadores de perda da qualidade de vida8-9, indicando a necessidade do desenvolvimento de pesquisa científica visando à mensuração destas perdas. A carência de trabalhos científicos sobre a saúde mental desse grupo social foi a principal justificativa para a realização de nosso estudo em Vigia. Partindo, inicialmente, de um desenho metodológico quantitativo, cujo único instrumento de coleta de dados era o Composite International Diagnostic Interview (Cidi), incorporamos durante o trabalho de campo a observação etnográfica para melhor compreensão do contexto e da cultura predominante no município. O trabalho de campo foi desenvolvido de março a agosto de 1999, período no qual uma amostra de pescadores artesanais (221) e moradores não-pescadores (230) foi entrevistada. Identificamos transtornos mentais no grupo de pescadores e comparamos a prevalência encontrada com o quadro epidemiológico delineado para a população de moradores não-pescado324 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 Bezerra res. Apresentamos também a correlação com as variáveis demográficas. A realidade epidemiológica revelada para os pescadores artesanais apresentou-se mais grave do que os resultados encontrados entre os moradores não-pescadores. Constatamos que o fator mais importante entre o conjunto de variáveis consideradas no estudo (origem, idade, estado civil, número de filhos, meses trabalhando, se empregado atualmente, escolaridade e renda) foi ser pescador, ou seja, as condições de trabalho enfrentadas por estes indivíduos poderiam ser apontadas como causas prováveis das diferenças encontradas nos resultados das duas amostras. Entre as diferenças mais relevantes podemos apontar a alta prevalência de esquizofrenia, transtorno identificado apenas entre os pescadores (3,2%) e que constitui uma preocupação, uma vez que a prevalência deste diagnóstico para a população geral é de 1%4. Com base nos resultados obtidos, recomendamos, então, uma discussão sobre o atendimento à saúde mental no município de Vigia com a implementação de um programa voltado para os pescadores. O ponto de partida deste artigo é a constatação da experiência vivida pelos pescadores no contexto socioeconômico em que realizam a atividade pesqueira: o permanente sonho de independência. Independência de patrão, de horário, de local onde capturar o pescado. Sonho de liberdade que se opõe à realidade de viver cada vez mais dependente e explorado9. Tal experiência pode favorecer o comprometimento da saúde mental. E a reflexão continua: demandas, direitos, luta... Nossas reflexões foram aprofundadas nos momentos de socialização dos resultados do estudo, sendo um dos mais importantes a sessão solene realizada na Câmara de Vereadores de Vigia. As intervenções dos parlamentares, entre eles oito pescadores, contribuíram para enriquecer a discussão sobre ações a serem desenvolvidas em favor deste grupo social. Vale ressaltar que os pescadores artesanais entrevistados no estudo apresentaram mais transtornos mentais do que a população de moradores não-pescadores, demandando a implementação de um programa de atendimento à saúde mental destes indivíduos. Bezerra Demandas e direitos na pesca artesanal Revisitando a bibliografia sobre os pescadores artesanais na Amazônia, identificamos as principais reivindicações da categoria, as formas de encaminhamento, os tipos de organização, o desempenho das colônias, a principal representação da categoria e as mais recentes organizações: associações, caixas pesqueiras e cooperativas. Consideramos também os direitos garantidos nas Constituições Federal e Estadual no que concerne ao setor pesqueiro. Segundo Campos7, os pescadores estão organizados, obedecendo ao modelo confederativo de organização sindical: Confederação Nacional de Pescadores (CNP), com sede em Brasília, Federação Estadual de Pescadores (FEP) e, na base da pirâmide, as colônias. Os presidentes destas entidades, porém, são, na maioria das vezes, pessoas estranhas à categoria. Em 1985 realizou-se o movimento denominado pelos pescadores Constituinte da Pesca, reunindo representantes de pescadores da maioria dos estados do Brasil. Foram então incluídos na Constituição direitos como: liberdade organizativa, autonomia e não-interferência do poder público na organização sindical, assim como a equiparação das colônias dos pescadores aos sindicatos. Estas garantias estão expressas no art. 5º da Constituição Federal, que trata dos direitos e deveres individuais e coletivos. Para lutar, no entanto, de forma organizada pelos direitos adquiridos foi criado o Movimento Nacional de Pescadores (Monape), que continua demandando a definição de uma política pesqueira que leve em consideração os pescadores artesanais, a defesa do meio ambiente e a previdência social. O Movimento de Pescadores do Estado do Pará (Mopepa), criado em 1989, ligado ao Monape, trabalha com o objetivo de conquistar a direção das colônias, tendo participado com os demais trabalhadores rurais dos Gritos do Campo. Atualmente, o MOPEPA congrega 30 colônias e 48 associações e busca a melhoria das condições de vida e trabalho dos pescadores, lutando pelos benefícios da categoria. No tocante à ZC 03 Vigia, colônia de pescadores fundada em 1922, seu trabalho visa a atender as demandas econômicas, políticas e sociais da categoria encaminhadas pelos associados, objetivo difícil de ser alcançado não só devido à inadimplência dos sócios, que representa um entrave para a formulação de um plano anual, como também pelas precárias assistência jurídica e assessoria administrativa. Uma das maiores reivindicações dos pescadores artesanais de Vigia, que geralmente resulta em dispu- tas judiciais, refere-se ao espaço destinado à pesca artesanal com freqüência desrespeitado pelas embarcações de pesca industrial, uma vez que a fiscalização exercida pelos órgãos oficiais é insuficiente. Por outro lado, o acesso ao financiamento para a aquisição de embarcações e equipamentos de pesca representa a maior demanda econômica da categoria, uma vez que o barco é o instrumento mais importante na organização do trabalho produtivo dos pescadores, que também lutam pela comercialização direta ao consumidor. Há ainda um grande contingente de pescadores vivendo num sistema de parceria, nas relações de trabalho, que se agrava no momento da comercialização do produto. Benefícios sociais como atendimento médico, emissão de documentos, seguro-desemprego e aposentadoria devem ser viabilizados pelas colônias. A existência de convênio com o INSS, porém, só garante o acesso ao benefício àqueles associados que estejam em dia com a contribuição mensal. E a efetivação de seguro-desemprego e aposentadoria requer uma longa espera, nem sempre compreendida pelos pescadores que tendem a classificar a colônia como inoperante. As dificuldades enfrentadas na pesca artesanal levaram os pescadores a buscar outras formas de organização que pudessem agilizar o atendimento principalmente das demandas econômicas. Surgiram, assim, a partir da década de 1990, as associações, caixas pesqueiras e cooperativas. As novas organizações de pescadores artesanais têm como objetivo a melhoria da qualidade de vida da categoria e a defesa dos direitos dos seus associados. No caso da Associação Livre dos Pescadores Artesanais do Cajueiro (Alpac), Ilha do Mosqueiro, distrito de Belém, registra-se a assessoria do Curso de Serviço Social da UFPA e do Conselho Pastoral de Pescadores (CPP). O grande benefício apontado por 20% dos associados diz respeito à comercialização do pescado sem a presença dos atravessadores12. Vigia dispõe, além da colônia, de outras duas organizações: a Caixa Pesqueira Artesanal de Vigia (Capav) e a Cooperativa Vigiense de Pesca (Covip). A primeira, criada em 1990, conta, entre seus associados, com alguns profissionais liberais habilitados a negociar financiamentos. A Covip, fundada em 1992, visa também a responder às demandas econômicas e a garantir a comercialização direta ao consumidor. J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 325 Demandas e direitos na pesca artesanal A criação de novas organizações, porém, nem sempre favorece a rapidez no atendimento às reivindicações, levando os pescadores, de um modo geral, a fazer uma avaliação negativa do desempenho das diretorias, colocando em dúvida o correto encaminhamento das demandas. Uma das questões a ser discutida e, se necessário, repensada, é a atuação das organizações de apoio às demandas na pesca artesanal: FEP (ligada diretamente às colônias), CPP e o Mopepa. Acrescentaríamos também o papel dos pesquisadores e técnicos dos centros de pesquisa (UFPA/ NAEA/ MPEG) comprometidos com estudos sobre a atividade pesqueira na região. Considerações conclusivas Há ainda muito a ser feito pelos pescadores artesanais, e os estudos sobre a atividade pesqueira na Amazônia e os sujeitos que a ela se dedicam podem subsidiar a formulação de políticas públicas e ações governamentais que levem em consideração dados produzidos por centros de pesqui- Bezerra sa, por serem evidências apresentadas a partir de metodologia científica. A concretização dos sonhos e anseios dos pequenos pescadores e a resposta às reivindicações poderão, desta forma, ter uma aproximação mais real, e a grande queixa da categoria contra a inoperância e a ineficiência das colônias e das organizações mais recentes poderá ser minimizada. O empenho dos centros de pesquisa no Pará tem refletido o compromisso com a ampliação do conhecimento sobre o homem amazônida e a preocupação com a melhoria da qualidade de vida da população pesqueira. Tal preocupação pode ser expressa e ter sua concretude através do acompanhamento, ainda que necessitando de mais adesões e fortalecimento, do trabalho desenvolvido pelas organizações sociais que lutam pela garantia dos direitos da pesca artesanal, assim expressos no art. 244 da Constituição estadual: ”§ 5º – A pesca artesanal, dado o seu caráter social, é considerada atividade prioritária, devendo o Estado proporcionar condições de desenvolvimento desse setor através de regulamentação própria”. Referências 1. Bezerra BP. A saúde mental no nordeste da Amazônia: estudo de pescadores artesanais. São Paulo, 2002. Tese de Doutorado. Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina. 2. Brasil. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. 27 ed. São Paulo: Saraiva; 2001, p. 4-13 3. Campos AJT. Movimentos sociais de pescadores amazônicos. In: Furtado LG, Leitão W, Mello AF. Povos das águas: realidade e perspectivas na Amazônia. Belém: Museu Paraense Emilio Goeldi; 1993. 4. Conley RR, Kelly Al. Tratamento farmacológico da esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora de Publicações Científicas Ltda.; 2001. 5. Furtado LG. Curralistas e redeiros de Marudá: pescadores do litoral do Pará. Belém: Museu Paraense Emilio Goeldi; 1987. 6. Furtado LG. Pescadores do rio Amazonas: um estudo antropológico da pesca ribeirinha numa área amazônica. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi; 1993 7. Furtado LG, Leitão W, Mello AF. (orgs.) Povos das águas: realidades e perspectivas na Amazônia. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi; 1993. 8. Loureiro VF. Os Parceiros do mar, natureza e conflito social na pesca na Amazônia. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi; 1985 9. Mello AF. Capitalismo, pesca e empobrecimento na Amazônia: a contraface da modernização. In: D’Incao MA, Silveira IM. (orgs.) Amazônia e a crise da modernização. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi; 1994. 326 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 10. Pará. Constituição Estadual de 05 de outubro de 1989, atualizada até 15 de dezembro de 2001. Belém: Editora CEJUP; 1989. 11. Penner MES. A dialética da atividade pesqueira no nordeste amazônico. Belém: Universidade Federal do Pará; 1984. 12. Rocha RM, Saraiva ZR, Moraes SC, Guimarães SCS. Delineamento das organizações sociais de pescadores amazônicos: o caso do nordeste paraense. In: Políticas pesqueiras nos países amazônicos. Belém: Associação de Universidades Amazônicas, Universidade Federal do Pará, Núcleo de Altos Estudos Amazônicos; 1996. 13. Ximenes T. (org.) Políticas pesqueiras nos países amazônicos. Belém: Associação de Universidades Amazônicas, Universidade Federal do Pará, Núcleo de Altos Estudos Amazônicos; 1996. Jornal Brasileiro de Psiquiatria Endereço para correspondência Benedito Paulo Bezerra Travessa Rui Barbosa 840/501 CEP 66053-260 – Belém-PA Tels.: (91) 222-2581/225-0480/9983-4577 e-mail: [email protected] Bezerra Demandas e direitos na pesca artesanal Instruções aos autores No Jornal Brasileiro de Psiquiatria são publicados artigos relevantes em português, inglês ou espanhol. Os requisitos para apresentação de manuscritos foram estabelecidos de acordo com Uniform requirements for manuscripts submitted to biomedical journals do International Committee of Medical Journals Editors – Grupo de Vancouver – publicado em Ann Intern Med 1997:126:36-47, disponível em versão digital em http://www.acponline.org. Manuscritos e correspondências devem ser enviados para: Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro Av. Venceslau Brás, 71 Fundos 22290-140 Rio de Janeiro RJ Brasil Tel: (5521) 2295-2549 Fax: (5521) 2543-3101 www.ufrj.br/ipub e-mail: [email protected] Uma vez aceito para publicação, torna-se o trabalho propriedade permanente da Diagraphic Editora Ltda., que reserva todos os direitos autorais no Brasil e no exterior. Carta de autorização • Os manuscritos devem estar acompanhados de carta de autorização assinada por todos os autores. por dois pareceristas independentes. Estrutura do manuscrito • Os manuscritos devem ser enviados em formato eletrônico, acompanhados de quatro cópias impressas na última versão, e não serão devolvidos em nenhuma hipótese. • Todas as páginas devem estar numeradas, indicando na primeira o total de páginas. • A primeira página deve conter o título do trabalho, nome completo dos autores e filiação científica. • Os resumos devem ser apresentados no idioma do texto e em inglês, inclusive títulos, com, no máximo, 200 palavras. • Os unitermos, entre três e 10, devem ser apresentados nos dois idiomas. Recomenda-se o uso de termos da lista denominada Medical Subject Headings do Index Medicus ou da lista de Descritores de Ciências da Saúde, publicada pela BIREME, para trabalhos em português. • Tabelas e ilustrações devem estar numeradas e preparadas em folhas separadas, com as respectivas legendas em formato que permita sua reprodução e incluídas no disquete. Os locais sugeridos para inserção deverão ser indicados no texto, com destaque. • Ilustrações não serão aceitas em negativo e impressão de fotos em cores será cobrada do autor. • Agradecimentos deverão ser mencionados antes das Referências. Modelo “Os autores abaixo assinados transferem à Diagraphic Editora Ltda., com exclusividade, todos os direitos de publicação, em qualquer forma ou meio, do artigo..............., garantem que o artigo é inédito e não está sendo avaliado por outro periódico e que o estudo foi conduzido conforme os princípios da Declaração de Helsinki e de suas emendas, com o consentimento informado aprovado por comitê de ética devidamente credenciado.” (incluir nome completo, endereço postal, telefone, fax, e-mail e assinatura de todos os autores). Avaliação por pareceristas (peer review) • Todos os manuscritos submetidos ao JBP serão avaliados Referências Devem ser numeradas e apresentadas em ordem alfabética. Deve ser usado o estilo dos exemplos que se seguem: Artigos • Akiskal HS, Maser JD, Zeller PJ, Endicott J, Coryell W, Keller M, Warshaw M, Clayton P, Goodwin F. Switching from ‘unipolar’ to bipolar II. An 11-year prospective study of clinical and temperamental predictors in 559 patients. Arch Gen Psychiatry 1995; 52:114-23. Livro • Goodwin FK, Jamison KR. Manic-Depressive Illness. New York: Oxford University Press; 1990. Capítulo de livro • Heimberg RG, Juster HR. Cognitive-behavioral treatments: literature review. In: Heimberg RG, Liebowitz MR, Hope DA, Schneier FR, editors. Social phobia – Diagnosis assessment and treatment. New York: The Guilford Press; 1995, p. 261-309. J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 327 Instructions for authors The Jornal Brasileiro de Psiquiatria will consider for publication relevant articles in Portuguese, English or Spanish. The following guidelines for the submission of manuscripts are in accordance with the Uniform requirements for manuscripts submitted to biomedical journals of the International Committee of Medical Journal Editors – Vancouver Group – published in the Ann Intern Med 1997; 126:36-47, also available in http:/www.acponline.org. Send all manuscripts and correspondence to the following address: Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro Av. Venceslau Brás, 71 Fundos 22290-140 Rio de Janeiro RJ Brasil Tel: (5521) 2295-2549 Fax: (5521) 2543-3101 www.ufrj.br/ipub e-mail: [email protected] Once accepted for publication, the manuscript becomes permanent property of the Diagraphic Editora Ltda. which reserves all the rights in Brazil and in any other foreign country. Structure of the manuscript • The articles should be sent in electronic format plus four printed copies of the latest version, which will not be returned to the authors in any instance. • All pages must be numbered, indicating in the first page the total numbers of pages. • The first page must have: title of the manuscript, complete name of the authors and scientific affiliation. • Abstracts should be presented in the languages of the text and in english with the maximum number of 200 words. • Key words should be presented in two languages, the one of the text and in english (between 3 and 10). For the choice of terms, the list entitled Medical Subject Headings of the Index Medicus or the Lista de Descritores de Ciências da Saúde of BIREME, for portuguese scientific literature, are recommended. • Tables and illustrations should be numbered and placed in separate individual pages, with the legends, in a format that allows its reproduction, and its inclusion in a diskette. Places for insertion in the text should be highlighted. • Illustration in negative will not be accepted and the printing of coloured material will be charged to the author. • Acknowledgements should be placed prior to the References. Authorizing letter • Manuscripts should be accompanied by a letter authorizing the publications signed by all authors. Letter “The undersigned authors transfer to Diagraphic Editora Ltda., with exclusiveness, the copyright of the publication by any means of the manuscript entitled...................., guarantee that this article is not being evaluated by another periodical and that the study has been conducted according to the Declaration of Helsinki and its amendments with informed consent duly approved by an independent review board (IRB).” (include the complete name, addresses, telephone, fax, e-mail and signature of all authors). Peer review • All manuscripts submitted to this Journal will be reviewed by two independent reviewers. 328 J . b r a s . p s i q u i a t r . • Vol. 52 • Nº 4 • 2003 References Should be numbered and listed in alphabetical order. The following styles for the references should be employed. Articles Akiskal HS, Maser JD, Zeller PJ, Endicott J, Coryell W, Keller M, Warshaw M, Clayton P, Goodwin F. Switching from ‘unipolar’ to bipolar II. An 11-year prospective study of clinical and temperamental predictors in 559 patients. Arch Gen Psychiatry 1995; 52:114-23. Book Goodwin FK, Jamison KR. Manic-Depressive Illness. New York: Oxford University Press; 1990. Book chapter Heimberg RG, Juster HR. Cognitive-behavioral treatments: literature review. In: Heimberg RG, Liebowitz MR, Hope DA, Schneier FR, editors. Social phobia – Diagnosis assessment and treatment. New York: The Guilford Press; 1995, p. 261-309.