DISCURSO POLÍTICO E O CONCEITO DE QUALIDADE NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA Gleyds Silva Domingues1 Resumo O discurso político e a qualidade na educação é um tema que traz em seu interior uma multiplicidade de interpretações associadas à intencionalidade e ao sentido. Ao abordar a questão da qualidade na educação e a forma como ela vem-se materializando na prática social, torna-se um indicativo para tecer leituras sobre os processos de desenvolvimento e formação humana, perseguidos na forma de índices percentuais pelos órgãos oficiais. Nessa direção, a tentativa que se propõe o artigo volta-se para analisar a própria constituição do termo qualidade educacional e sua inserção nos discursos oficiais, principalmente associados ao sistema de avaliação e aos programas de financiamento e subvenção de recursos. Apresenta-se, aqui, uma crítica inicial que deve servir como ponto de partida para novos estudos e aprofundamentos sobre o papel das políticas educacionais e a forma como se concretizam na realidade social. Afinal, a educação é um dos caminhos para a transformação social e para a emancipação dos sujeitos históricos, bem como de sua inserção como agentes críticos da realidade circundante. Essa, portanto, deveria ser a aposta e o compromisso com os rumos da educação brasileira na formação da cidadania e da autonomia das novas 1 Doutoranda em Teologia, EST. Bolsista da CAPES. Mestre em Educação. Professora da Faculdade Teológica Batista do Paraná. Via Teológica | Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 71 gerações. Palavras-chave: Discurso; Qualidade; Política; Educação. Abstract The political discourse and the quality of education is a theme that brings in its interior a multiplicity of interpretations associated with intentionality and meaning. In addressing the issue of quality in education and how it has been materialized in social practice, it is an indication to make readings on the processes of human development and education, pursued in the form of percentage rates by the official organizations. Thus, the attempt which aims the article turns to analyze the constitution of the term education quality and its inclusion in official speeches, mainly associated with the evaluation system and the funding programs and grant resources. We present here an initial critique that should work as a starting point for new studies and reflections on the role of educational policies and the way they are materialized in social reality. After all, education is one of the path to social transformation and emancipation of historical subjects, as well as of its insertion as critical agents of the surrounding reality. This, therefore, should be the bet and the commitment to the direction of Brazilian education in the formation of the citizenship and the autonomy of future generation. Key words: Speech; Quality; Policy; Education. Introdução A abordagem a ser contemplada refere-se ao discurso 72 Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 | Via Teológica político sobre o conceito de qualidade assumido na educação brasileira, como forma de legitimar as propostas de reestruturação do sistema educacional e as medidas advindas das instâncias e dos órgãos oficiais no âmbito da sociedade civil. Trata-se, ainda, de compreender como o discurso sobre a qualidade educacional influi direta ou indiretamente nos rumos, nas ações e nas decisões pertinentes ao campo de sua abrangência, quer seja de forma subliminar, efetiva ou flagrada. O intuito é perceber a intencionalidade demarcada e permeada em torno de sua complexidade, a qual se corporifica no estabelecimento de um currículo mínimo definido (quer seja de ordem estrutural ou organizacional), a ser mediado por meio da linguagem da qualidade e de mecanismos de avaliação implantados nos diferentes níveis de ensino. O conceito de qualidade assume a “roupagem” do novo a ser perseguido como ideal mensurável, o qual está embutido nos índices percentuais a serem conquistados, conforme os patamares propostos, que serão convertidos em padrões de qualidade estatuídos por autoridades competentes e legais no âmbito da educação. A visão difundida soa como a utopia a ser oportunizada e refletida nas conquistas sociais e políticas obtidas por meio de programas públicos de governo, fincados no assistencialismo, que num primeiro momento, tentam minimizar ou abrandar as crises sociais estabelecidas pela desigualdade e exclusão e, que perduram historicamente no processo educacional brasileiro. Estar a par desses fatos possibilita ampliar o nível de Via Teológica | Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 73 discussão educacional, observando-a em relação às demais esferas da sociedade civil, na tentativa de perfilar novos horizontes que aplacam a barreira do descaso provocado por políticas de cunho fortuito e imediato que não dão conta do mal gerado economicamente. Nesse caminhar, surge a necessidade premente de tratar o problema da qualidade na educação, de forma comprometida com o viés histórico e social, cujo reordenamento se concretiza na redefinição de políticas públicas educacionais, que contemplem não só o emergente, mas o necessário e o excludente, uma vez que sofrem as consequências das transformações desde suas bases, advindas da nova era da informação tecnológica. A nova ordem global instaurada provoca um novo comportamento na sociedade e que traz à tona a questão dos valores e da ética a serem reconstruídos no interior de uma visão de sociedade solidária, que tem como premissa resgatar a essência, a identidade, a totalidade e as dimensões humana e subjetiva como prerrogativas do processo de humanização e formação do homem cidadão. A tentativa proposta é considerar o discurso no contexto da sociedade que pensa, diz, critica e contempla as mudanças e as possíveis retomadas conscientes pela não aceitação da reprodução e da perpetuação social.A possibilidade é efetivada, quando se consegue ler as entrelinhas do discurso que passam despercebidas pela grande maioria e por isso são consideradas como motivo de euforia e aceitação, em nome do resgate da cidadania e da qualidade de ensino. Remeter o discurso à reflexão oportuniza a sua 74 Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 | Via Teológica desconstrução, com a percepção do que de fato se intenciona, tanto em nível ideológico e político, direcionados à educação e ao desenvolvimento humano. 1. A TERMINOLOGIA: implicações conceituais Na sociedade atual, o termo qualidade está cada dia se popularizando mais, de tal forma que ele é utilizado para designar qualquer tipo de comparação material ou imaterial. Há quase que uma concordância, quando se quer adquirir ou negociar alguma coisa no mercado, sobre o apelo para a qualidade do produto. A qualidade é vista como coisa negociável e tangível e, não como um elemento que contém atributos inerentes e essenciais à coisa. Nessa perspectiva, a qualidade “se converte em uma meta a ser compartilhada, no que todos dizem buscar [...], entretanto, o predomínio de uma expressão nunca é ocioso ou neutro. Ela vem substituir a problemática da igualdade e da igualdade de oportunidades”. 2 O termo qualidade é definido ainda como “a maneira de ser, boa ou má, de uma coisa. Superioridade, excelência em qualquer coisa. Preferir a qualidade à quantidade. O termo quantidade se refere à qualidade do que pode ser medido ou contado”.3 Isso implica dizer que “a expressão qualidade conota é que algo distingue um bem ou serviço dos demais que o mercado oferece para satisfazer as mesmas ou análogas necessidades”.4 2 ENGUITA, Mariano Fernandez. O discurso da qualidade e a qualidade do discurso. In: Neoliberalismo, Qualidade total e educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001, p. 95-96. 3 Definição dada no Dicionário Ilustrado, 1993, p. 694. 4 ENGUITA, Mariano. Fernandez. O discurso da qualidade e a qualidade do discurso. In: Neoliberalismo, Qualidade total e educação. Petrópolis, RJ: Vozes, Via Teológica | Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 75 São perceptíveis as forças ideológicas presentes, embora sutis, que tentam difundir ou reproduzir um tipo de açãocomportamento aliados aos interesses de uma classe de poder. Esse mesmo tipo de relação é percebido ao se deslocar os termos qualidade e quantidade para o centro do campo discursivo educacional. O resultado a ser obtido refere-se à ampliação ou à redução da sua utilização, conforme o enfoque a ser enfatizado. Isso se torna evidente, quanto às concepções que subjazem e legitimam a educação no interior das práticas sociais, as quais contemplam visões de homem, mundo, natureza, cidadania, cultura, conhecimento e estado. Dessa forma, fala-se em qualidade na educação respaldada em mensurações quantificadas. Essa demarcação constitui um dos eixos principais para compreender as diretrizes norteadoras da política educacional e da sua efetivação na esfera da escola, enquanto instância instrumentalizadora do conhecimento sistematizado e válido. Esse processo desencadeia na competitividade desenfreada e acentua a distância entre as classes sociais, diferente do termo igualdade de oportunidades, que trazia em sua essencialidade a ideia de comum “a” e “para” todos. Isso se torna, ainda, mais patente com relação à distinção realizada entre escolas de natureza pública e privada, em que a última ganha em qualidade de ensino, competitividade e confiabilidade de seus clientes consumidores, os quais são favorecidos pelos serviços prestados. A mudança de enfoque altera sensivelmente os rumos da 2001, p. 107. 76 Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 | Via Teológica política educacional, no que diz respeito ao engajamento e à inserção das maiorias na produção humana, material, científica e tecnológica. A consequência direta, porém não lógica e nem qualitativa, é o alijamento e a exclusão do individuo dos processos produtivos da sociedade tecnológica e o aligeiramento da formação e do capital cultural, intelectual e material. Nessa direção, o quantitativo sobressai sobre o qualitativo, uma vez que uma grande massa populacional encontra-se desqualificada e sem chances de competir no mercado global. Esse processo é visto por Kuenzer como a política dos sobrantes.5 Para Bourdieu6, a questão da política dos sobrantes compele os ingressantes no sistema educacional a contemplá-la como mais uma instância distante e isenta de possibilidades reais para a sua inserção competitiva no mercado de trabalho, diminuindo a sua confiança de progressão e ascensão sociais. Na verdade, se sentem vitimizados e excluídos por conta da sua desqualificação frente às inovações no seio da sociedade. Esse processo desencadeia a reprodução pela via democrática e incendeia a legitimação social em diferentes instâncias e níveis da sociedade, na qual os mecanismos legais continuam provocando a desigualdade entre as classes sociais. Isso permite concluir que as políticas públicas voltadas à educação “devem ser políticas a longo prazo, o que supõe que fica assegurada a continuidade das 5 KUENZER, Acácia Zeneida. O ensino médio é agora para vida. Texto mimeografado, 2000. A autora analisa as alterações legais, no tocante ao Ensino Médio e pondera se as mesmas trazem a ruptura entre o ensino propedêutico e o profissional. Ainda pontua sobre o hiato existente na formação e afirma que o processo implantado acentuou a exclusão das maiorias no mercado de trabalho. 6 BOURDIEU, Pierre. Escritos na Educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001, p. 219224. Via Teológica | Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 77 opções e a concretização das reformas [...], deve-se ultrapassar a fase das políticas de vista curta ou as reformas em cascata”,7 as quais sofrem alterações significativas a cada mudança no poder governamental. Dessa forma, há a possibilidade de trabalhar com o real, visando à transformação, por intermédio da qualidade educacional voltada para todos, de forma igualitária, democrática e humana. 2. O DISCURSO: da raiz às vertentes A Constituição Federal do Brasil (CF, 1988) reza em seu artigo 205, que a educação tem por finalidade o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Nessa ação meta, compete às políticas educacionais pautarem-se na consecução do objetivo proposto, apontando caminhos voltados a essa direção. Uma das iniciativas foi àquela estabelecida pela Comissão internacional sobre Educação para o século XXI8, a qual teve como premissa fundamental o estabelecimento de quatro aprendizagens direcionadas ao fazer, ao conviver, ao conhecer e ao ser, que se apresentam na forma de pilares do conhecimento. A preocupação volta-se para a superação da acumulação quantitativa do conhecimento fragmentado, desnecessário, conteudista e, distante da realidade do cotidiano, para uma ação pautada na postura de utilidade e adequação do mesmo ao 7 DELORS, Jacques. Educação um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 2000, p. 175. 8 Ver o relatório para a UNESCO sobre as teses defendidas em Educação para o século XXI, no livro organizado por DELORS, J. Educação um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 2000. 78 Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 | Via Teológica mundo, em constante processo de transformação. Nessa iniciativa, compete considerar a educação inserida em diferentes contextos, tendo como objetivo a realização e a formação da pessoa para vida em sua plenitude. Isso porque “a educação ao longo de toda a vida deve aproveitar todas as oportunidades oferecidas pela sociedade”.9 A discussão retoma novamente a questão da quantidade, pois esta ainda ocupa destaque no fazer educacional, em detrimento da qualidade que não deve ser restrita tão somente ao ensino, mas ao desenvolvimento e à formação humana. Sabe-se, entretanto, que para conservar a ordem estabelecida, um dos mecanismos é a mudança. Mudança que muitas vezes é direcionada para conservar e reproduzir o poder legitimado. Por essa razão, cabe aos dirigentes “produzir o discurso que não diz quase nada a não ser o lugar onde se articula porque faz parecer essencial”10, isto é, os conflitos e lutas travados em prol da transformação das relações sociais. Diante disso, identificam-se as finalidades que se encontram firmadas no bojo do discurso político educacional e, que podem ser exteriorizadas na práxis educativa, como ponto certo de inovação da qualidade pedagógica. Nessa direção, o discurso caminha em polos contrários, que se complementam e convivem em constante batalha ideológica, uma vez que parte da concepção daquele que o idealizou. Afinal, o discurso tornase “o meio principal através do qual se constroem versões sobre 9 DELORS, Jacques. Educação um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 2000, p. 117. 10 BOURDIEU, Pierre. Escritos na educação, Petrópolis, RJ: Vozes, 2001, p. 175. Via Teológica | Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 79 o que são a mente e o mundo”.11 Uma das vertentes encontradas no discurso refere-se à necessidade ou não de manutenção do poder legitimado, o qual está revestido de uma ordem instaurada, em prol do benefício e da transformação da realidade dada. O valor da educação vem atrelado às transformações nos rumos da história do Brasil, cuja tentativa é construir a identidade de um povo subjugado, por meio da implantação e da implementação de um sistema educacional, que reconheça as pluralidades e as diversidades sociais, que se encontram presentes neste vasto território. E sobre essas diferenças, tracem estratégias e planos voltados à universalização e ao acesso à escolarização em grande escala. O fato de tocar nas feridas brasileiras e mostrar-se estar conscientes delas, não trazem mudanças e nem mesmo a inclusão tão desejada, pois só há necessidade de efetivação desses processos se de fato existe a comprovação do seu contrário, como poder exercido e concentrado na mão de uma minoria. A verdade é patenteada no discurso, porém sua condução possibilita o mascaramento da situação real, por meio de argumentos e medidas paliativas que oferecem respaldo aceitável no tratamento do problema elucidado. Frigotto afirma que: A ausência de uma efetiva política pública, com investimentos no campo educacional compatíveis com o que representa o Brasil, em termos de geração de riqueza, vai conduzindo a medidas paliativas que reiteram o desmantelamento da 11 COLL, Cesar e EDWARDS, Derek. Ensino, Aprendizagem e Discurso em sala de aula. Porto Alegre: Artmed, 1998, p. 45. 80 Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 | Via Teológica educação pública em todos os seus níveis.12 A evocação da mudança, a euforia e o entusiasmo são ferramentas indispensáveis no convencimento e no engajamento dos ouvintes quanto ao aspecto a ser viabilizado pelas políticas educacionais. A chamada palavra de ordem incita o desejo de resgate do orgulho nacional diante de um mundo conectado globalmente. A raiz do discurso sustenta e viabiliza uma postura ideológica, política e social capaz de nortear as ações e diretrizes que se perpetuam na história, sendo elas utilizadas em grande escala em um tempo ou sendo ressignificadas em outro momento. Isso irá depender dos rumos perseguidos e da intencionalidade pela qual foram criadas. Isso possibilita olhar na história e encontrar os pontos de divergência e convergência associados às medidas assumidas pelas políticas educacionais, as quais foram legitimadas pelas Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), a partir dos anos 60. Essa revisão pode ser iniciada no princípio fundamental eleito pela educação, que prossegue na organização, na estrutura e no funcionamento da educação brasileira, que caminha no processo de distribuição das reponsabilidades pelos órgãos e finaliza com o gerenciamento e o investimento de recursos públicos na educação. É por esta razão, que se torna usual em discursos, a presença de percentuais comparativos entre o estado passado 12 FRIGOTTO, Gaudêncio. Educação e a construção democrática no Brasil: da ditadura civil-militar à ditadura do capital. In: FÀVERO, Osmar; SEMERARO, Giovanni (orgs). Democracia e Construção do Público no Pensamento Educacional Brasileiro. Petrópilis, RJ: Vozes, 2002, p. 60. Via Teológica | Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 81 e o presente, cujo intuito é demonstrar pelo índice, patamares de crescimento conquistado, por meio das políticas públicas destinadas à qualidade educacional. Isso acontece porque “diferentes tipos de discurso em diferentes domínios ou ambientes institucionais podem vir ‘investidos’ política e ideologicamente13”, o que assegura sua legitimação e seu lugar no campo do poder. Nas estratégias do discurso percebe-se a intencionalidade da classe de poder, que se afirma em uma proposta de metas bem delineadas e revestidas num campo amplo de abrangência e operacionalidade; afinal, se as metas não foram cumpridas, isso ocorreu por conta de fatores externos à vontade política e que fogem do controle dos seus idealizadores. No campo do discurso, as práticas políticas se revestem de legitimidade e nela se apoia para tornar públicas as intenções e expressões de uma dada classe, mas que são transmitidas como uma necessidade manifesta pela coletividade e maioria dos diferentes grupos e classes sociais. Para Fairclough, “O discurso como prática ideológica constitui, naturaliza, mantém, transforma os significados do mundo de posições diversas nas relações de poder”.14 Ressignificar as políticas públicas educacionais e revestilas de caráter emancipador e articulador no âmbito da sociedade, da cultura, da economia e do trabalho é a bandeira que se levanta em rumo à democratização, no que diz respeito 13 FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: Editora UNB, 2008, p. 95. 14 FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: Editora UNB, 2008, p. 94. 82 Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 | Via Teológica ao pleno exercício da cidadania e da liberdade humanas. 3. O DISCURSO OFICIAL: con(tradições) na prática social Nos bastidores do discurso oficial, as entrelinhas são referenciais importantes na reconstituição das intenções de seus oradores. O que leva a intuir que é preciso conhecer o momento histórico em que foi gerado e para qual público foi pensado, isso porque um discurso oficial não é projetado sem interesses, antes enquanto prática social objetiva conduzir as relações sob o prisma de uma concepção de Estado. Ler ou ouvir um discurso oficial é ler o contexto a que se refere. Essa leitura, porém, deve ser crítica e reflexiva, visto que não basta apenas ouvir, mas compreender o seu sentido. Isso porque o discurso oficial manifesta a visão sobre as propostas advindas da esfera governamental e que podem ser alvo de aceitação e aprovação, o que torna seu orador um instrumento de disseminação das ideias, devido ao grau de partidarismo envolvido com os ideais estabelecidos pelo poder legitimado. Num discurso oficial, vê-se claramente a necessidade de reafirmar as alianças em prol da manutenção da ordem e do poder social conferido. Torna-se inquietante perceber o sentido da colaboração manifesta em prol de interesses associados à perpetuação do poder, o que assegura aos seus locutores o direito de expressar sentimentos gerais em nome de uma ou de combinações de siglas partidárias. Neste nível de prática discursiva, a educação é concebida como uma engrenagem capaz de provocar a revolução e a transformação social, uma vez que é vista como um canal Via Teológica | Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 83 difusor das propostas governamentais. Entretanto, transferir o processo histórico de mudança social para a educação é reduzir a esfera de atuação de outras instâncias sociais, à medida que a responsabilidade direta e efetiva passa a ser de uma única engrenagem do sistema, o que de fato pode vir a ser um impeditivo para o não atingimento de tal finalidade. Ao analisar as estratégias educacionais apontadas em um discurso oficial percebe-se que estão estritamente ligadas, em sua grande maioria, à visão do mercado e aos princípios que os rege, dentre eles destaca-se a competitividade a qualquer custo. Essa visão mercadológica propõe a formação do cidadão mínimo15, que está pronto para desempenhar suas funções, a partir do desenvolvimento de habilidades e competências dirigido à obtenção de um resultado. A constatação sobre os efeitos do discurso oficial indicam que os efeitos dele na prática social se tornam assustadores. Pois, no ato de consecução das metas estabelecidas, existe um claro objetivo de fazer cumprir, mesmo que temporariamente, as promessas de campanha partidária e para isso todo o sistema educacional é envolvido e comandado pelo Ministério da Educação. Dentre as ações, verifica-se um conjunto de medidas voltadas à avaliação dos sistemas de ensino. Nesse caso, faz ressurgir a temática da qualidade assumida como um slogan 15 Conceito apresentado no trabalho de FRIGOTTO, Gaudêncio. Educação e a construção democrática no Brasil: da ditadura civil-militar à ditadura do capital. In: FÀVERO, Osmar; SEMERARO, Giovanni (orgs). Democracia e Construção do Público no Pensamento Educacional Brasileiro. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002, p.57- 64. 84 Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 | Via Teológica educacional e que tem por pano de fundo uma avaliação de caráter meritocrático, classificatório, na forma de ranking de eficiência, seguido por um programa de accountability, baseado em exames padronizados para os diferentes níveis de ensino. As avaliações constituem-se em um dos pilares de toda a política educacional do Ministério da Educação, por meio do plano de metas do Compromisso Todos pela Educação, cujo objetivo é atingir, até, 2021, o padrão de qualidade dos países desenvolvidos. Por ele, todas as esferas de governo (federal, estadual e municipal) se comprometem com metas de melhorias do IDEB16. As escolas que atingirem as metas são beneficiadas com aumento de recursos no Programa de Dinheiro Direto na Escola (PDDE) do MEC (Ministério de Educação e Cultura), mas a principal atenção do governo foi com às redes com piores IDEBs. O MEC estabelece convênios com estados e municípios, por meio da elaboração local de um Plano de Ações Articuladas (PAR). Pelo PAR, os gestores municipais e estaduais se comprometem a promover um conjunto de ações, responsabilizando-se pelo alcance das metas estabelecidas. Em contrapartida, passam a contar com transferências voluntárias e assessoria técnica da União.17 É interessante notar que por trás desse esforço em avaliar os sistemas de ensino está uma prática de benefícios e compensações associadas a programas de financiamento e provisão de recursos. O que faz lembrar as práticas de mérito educacional escolar, 16 IDEB é o índice de desenvolvimento da Educação Básica, que tem como meta percentual até 2021 a média 6,0 para a primeira fase do ensino fundamental. Ele é um indicador que sintetiza as informações de desempenho nos testes padronizados com as informações sobre rendimento escolar (taxa média de aprovação dos estudantes na etapa de ensino). FERNANDES, Reynaldo; GREMAUD, Amaury Patrick. Qualidade da Educação: avaliação, indicadores e metas. In: VELOSO, Fernando; PÊSSOA, Samuel; HENRIQUES, Ricardo; GIAMBIAGI, Fabio (orgs.). Educação no Brasil: construindo o país do futuro. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009, p. 234. 17 FERNANDES, Reynaldo; GREMAUD, Amaury Patrick. Qualidade da Educação: avaliação, indicadores e metas. In: VELOSO, Fernando; PÊSSOA, Samuel; HENRIQUES, Ricardo; GIAMBIAGI, Fabio (orgs.). Educação no Brasil: construindo o país do futuro. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009, p. 235. Via Teológica | Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 85 associadas a uma quantificação estabelecida. A proposta avaliativa evidencia a não neutralidade do sistema educacional frente às exigências impostas pelo Banco Mundial18 para continuar sistematicamente subvencionando projetos e planos educacionais no Brasil. O financiamento garantido pelo Banco Mundial vem apoiado nos índices percentuais de qualidade e desenvolvimento humano propostos nos acordos estabelecidos entre as partes envolvidas: países e agência financiadora. A contradição presente no discurso falado e praticado pelo Banco Mundial provoca novas e amplas discussões, porque na verdade não está claro se suas medidas voltam-se mesmo para minimizar as desigualdades ou para reproduzi-las no seio da sociedade. Afinal, é questionável se de fato elas contribuem com o agravamento ou com a erradicação de índices de reprovação e evasão escolares. Mais uma vez, a questão da qualidade é interposta como garantia de sucesso das metas estabelecidas, as quais se verificam por meio de dados concretos e comprováveis - os índices percentuais - de desenvolvimento educacional e de políticas públicas de cunho assistencialista que propõem socorrer aos menos desfavorecidos. A ênfase dada a tais programas políticos cumpre temporariamente um papel de resgate das identidades individuais, pois seu compromisso maior é limitado aos interesses da classe investida de poder. 18 O Banco Mundial é uma organização internacional que empresta recursos financeiros para os países pobres. Ele, ainda, encara a questão da qualidade educativa como resultado da presença de determinados insumos imprescindíveis a uma boa escolaridade como: biblioteca, tempo de instrução, tarefas de casa, livros didáticos, conhecimentos do professor, experiência do professor, laboratórios, salário do professor e tamanho da classe. 86 Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 | Via Teológica As políticas sociais são fragmentárias e lineares, pois de fato não compreendem o todo complexo de classes desiguais e excludentes. Isso ocorre porque as diretrizes não se apresentam como expressão de políticas de caráter contínuo e consistente. “Ao contrário são conjuntos de programas descontínuos, episódicos, comprometidos com interesses outros e que não atingem a raiz dos problemas”.19 O distanciamento da realidade gera o fracasso, a evasão e a desesperança, que são alimentados na prática educacional escolar por intermédio dos sistemas de ensino que cumprem seu papel ao prever currículos fechados e voltados para o ensino conteudista e, portanto, irreal e desnecessário à vida. O resgate do real sentido de qualidade poderá advir do comprometimento assumido por sujeitos históricos com o processo educacional e sua ousadia em transformar uma visão tradicionalista e mercadológica da educação perpetuada historicamente. Para tal ação, faz-se necessário denunciar as falsas ideias de qualidade que se multiplicam na sociedade da economia global e capitalista, ao evidenciar as facetas de discriminação e exclusão que são disseminadas em seus projetos sociais. Essa iniciativa poderá abrir espaços para o sentido de democracia, na qual a pluralidade não é considerada uma ameaça, mas é vista como um elemento favorável na construção de novas concepções e inovações a serem concretizadas no campo educacional. 19 CIAVATTA, Maria. A construção da democracia pós-ditadura militar. In: In: FÀVERO, Osmar; SEMERARO, Giovanni (orgs). Democracia e Construção do Público no Pensamento Educacional Brasileiro. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 101. Via Teológica | Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 87 À guisa de conclusão Falar sobre o discurso politico na educação remete a questões de relações complexas e mais amplas da sociedade por envolver disputa e conflito de poderes distintos. As lutas travadas refletem a desigualdade de oportunidades e condições, as quais se verificam na grande maioria da população brasileira. O grito das grandes maiorias surge como uma expressão de um sonho de liberdade pela dignidade e identidade no seio de um contexto histórico e social. A utopia buscada diz respeito às garantias inerentes aos homens no seu processo de desenvolvimento e formação, e que estão alistadas na Carta Magna do Brasil. Os princípios referendados na Constituição Federal e elencados nas Diretrizes e Bases da Educação Nacional são de fato fundamentais para o exercício do indivíduo cidadão e pode ser contemplado como um caminho real de garantia e viabilidade desses na vida do povo brasileiro. A Educação, nesse sentido, pode vir a ser mais um dos caminhos de efetivação e legitimação dessa proposta e, não, a única via de acesso e mobilidade social. Antes, compete à educação oportunizar a todos, indistintamente, a qualidade de ensino, independente de mecanismos de avaliação estatal. Sua finalidade precípua voltase a assegurar ao homem o pensar, o fazer e o agir livremente num espaço democrático de direito, no qual a criticidade, a autonomia e a reflexão sejam elementos básicos de sua formação e prática educativa. Pensar a educação é inseri-la de fato no mundo real, carregado 88 Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 | Via Teológica de tensões e problemas sociais. Seu objetivo é buscar atacar a raiz de seus males e não apenas tratá-lo de forma maquiada e temporária, ao se lançar mão de gráficos percentuais demonstrativos de desenvolvimento e enfrentamento de problemas sociais. E claro que esta reconstrução demanda tempo e vontade, principalmente por abarcar em seu interior o ideal de igualdade para todos, à medida que reacende a utopia de constituição de uma sociedade justa, livre, humana e democrática. O horizonte pode ser vislumbrado, porém a ação real compete aos indivíduos, sujeitos históricos e sociais, que intervêm no espaço, levantam bandeiras e travam lutas em prol de seus direitos e deveres, pois nisso reside o real significado de cidadania e de liberdade humana. Buscar a qualidade é fazer ouvir a voz do oprimido e percebêlo no contexto das relações sociais como cidadão pensante, presente e capaz de intervir nos rumos da sociedade brasileira, redefinindo sua história. A ressignificação da qualidade educativa se efetivará no uso da liberdade e da prática de inclusão dos sujeitos na vida da sociedade, quer seja esta de ordem política, econômica, cultural, histórica e, é claro, educacional. Referências BOURDIEU, Pierre. Escritos na educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. BRASIL. Constituição (1988). Constituição [da] Republica Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal. CIAVATTA, Maria. A construção da democracia pós-ditadura Via Teológica | Gleyds Silva Domingues, Vol. 13, n.25, jun.2012, p. 71 - 91 89 militar. In: FÀVERO, Osmar; SEMERARO, Giovanni (orgs). Democracia e Construção do Público no Pensamento Educacional Brasileiro, 2002. COLL, Cesar e EDWARDS, Derek. Ensino, Aprendizagem e Discurso em sala de aula. Porto Alegre: Artmed, 1998. DELORS, Jacques. Educação um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 2000. Dicionário Ilustrado, 1993. DEMO, Pedro. A nova LDB: ranços e avanços. São Paulo: Papirus, 1997. ENGUITA, Mariano. Fernandez. O discurso da qualidade e a qualidade do discurso. In: Neoliberalismo, Qualidade total e educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: Editora UNB, 2008. FERNANDES, Reynaldo; GREMAUD, Amaury Patrick. Qualidade da Educação: avaliação, indicadores e metas. In: VELOSO, Fernando; PÊSSOA, Samuel; HENRIQUES, Ricardo; GIAMBIAGI, Fabio (orgs.). Educação no Brasil: construindo o país do futuro. 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