ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA
Comitê Dança em Mediações Educacionais – Setembro/2014
DIDÁTICA PARA O ENSINO DA DANÇA:
O ESPAÇO ACADÊMICO NA CONSTRUÇÃO DA DANÇA LÚDICA NA PRÁTICA
EDUCACIONAL DOS ALUNOS DE LICENCIATURA EM DANÇA DA
UFPA/ICA/ETDUFPA
Simei Santos Andrade (UFPA/ICA/ETDUFPA)*
RESUMO: A pesquisa que apresentamos tem como objetivo mostrar alguns indicadores
sistematizados na investigação desenvolvida entre os anos de 2012 a 2014 na disciplina
Didática da Dança do Curso de Licenciatura em Dança da UFPA/ICA/ETDUFPA. A
disciplina propõe estudo e elaboração de planos de curso voltados para a construção de
quesitos didático-metodológicos, possibilitando a construção e organização de planos de
intervenção e planos de aulas, com foco na ludicidade. O percurso metodológico partiu da
pesquisa-ação, visto que investiga o problema e suas possíveis soluções.
PALAVRAS-CHAVE: Didática. Ações Metodológicas. Dança Lúdica. Licenciatura.
ABSTRACT: The present research aims to show some systematic indicators on research
conducted between the years of 2012 and 2014 in the subject Didactics for Teaching
Dance of the Dance Graduation Course of UFPA / ICA / ETDUFPA. The subject offers
study and preparation of course plans geared toward the construction of educational and
methodological questions enabling the construction and organization of intervention plans
and lesson plans, focused on playfulness. The methodological approach came from the
action-research, as seen that it inquires the problem and its possible solutions.
KEYWORDS: Didactics. Methodological actions. Playful Dance. Licentiate.
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Introdução
A educação que buscamos para eles deve possibilitar autoconhecimento,
compreensão de si mesmo e do mundo, prazer, contato com o lúdico e
desenvolvimento de consciência crítica, incentivando-o a manifestar suas ideias
por meio de um agir pedagógico coerente, para que, a partir daí, ele expresse sua
corporeidade e capacitação de adaptação, favorecendo acoplamentos estruturais
nessa relação bio-psico-energética. (VERDERI, 2009, p. 46)
Pensar a Didática nos cursos de licenciatura como uma disciplina comprometida
com uma nova maneira de ensinar e aprender na relação que esta estabelece no contexto
escolar, que tenha compromisso com a valorização do homem numa perspectiva ética,
dialógica e lúdica, que nos leve a pensar de forma crítica a educação que almejamos para
a sociedade atual. É o desafio que está posto a todos nós, educadores. A esse respeito
Marques (2010, p. 188) considera que “[...]. O estudo da Didática se funda em situar e
analisar a prática pedagógica em seus aspectos teórico-práticos”. Desse modo, a Didática
tem como objeto de estudo os processos de ensino e aprendizagem.
Compreender a dança como algo tão importante quanto comunicar-se, por
exemplo, significa estabelecer conexões com as diversas dimensões da existência
humana, inclusive com a dimensão lúdica, enquanto construção cultural do homem,
possibilitando o seu desenvolvimento integral. Nesse sentido Verderi (2009) considera a
expressão aluno-corpo para designar o ser que brinca, corre, salta, dança, escreve,
chora, ri, entre outras manifestações que o corpo pode realizar.
Nessa perspectiva, a investigação realizada no exercício da disciplina Didática da
Dança do curso de licenciatura em Dança da Universidade Federal do Pará
(UFPA)/Instituto de Ciências da Arte (ICA)/Escola de Teatro e Dança da UFPA
(ETDUFPA) propõe uma análise dos planos de curso voltados para a construção de
quesitos didático-metodológicos: temática, conteúdos, objetivos, atividades, processos de
avaliação, relações professor-aluno, possibilitando, no decorrer da disciplina, a construção
e organização de planos de intervenção e planos de aulas que pudessem ser
desenvolvidos com alunos da Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental
nas escolas da rede pública de ensino do município de Belém/PA.
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Faremos um recorte na pesquisa e aqui trataremos, com maior ênfase, das ações
metodológicas propostas pelos alunos de licenciatura em dança, nos planos de
intervenção e nos planos de aula.
A pesquisa buscou analisar metodologias focadas na ludicidade (jogos,
brinquedos, brincadeiras, brinquedo cantado e contação de histórias) na relação que esta
pode estabelecer com a dança que existe em cada um de nós.
O percurso metodológico partiu da pesquisa-ação, pois segundo Gressler (2003, p.
63) esse tipo de pesquisa tem como principal objetivo “investigar problemas e suas
possíveis soluções visando resolvê-los com a direta e imediata aplicação de seus
resultados, o que caracteriza uma intervenção”. Assim, a pesquisa buscou conhecer a
prática dos alunos de licenciatura em Dança em espaços educativos a partir dos planos
de intervenção e planos de aula construídos no decorrer dos estudos teóricos, discussões
em sala de aula, aplicabilidade nas escolas da rede pública, registros (fotográficos,
filmagens e relatórios) sobre o desenvolvimento da ação metodológica na perspectiva da
dança lúdica.
Nossa investigação também buscou respaldo na legislação da educação básica,
especificamente na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 9.394/96 e
nas Diretrizes Curriculares Nacionais (Resolução nº 5/2009, Resolução 4/2010 e
Resolução nº 7/2010) para a Educação Infantil, Educação Básica e Ensino Fundamental,
respectivamente, para compreender como a ludicidade, enquanto princípio estabelecido
nesses documentos oficiais pode contribuir para que a dança alcance novas formulações
no processo de ensinar e aprender com prazer.
Da didática geral à didática da dança: contexto histórico e reflexivo
O Curso de Licenciatura em Dança da Escola de Teatro e Dança da UFPA foi
aprovado por meio da Resolução nº 3.616, de 22 de novembro de 2007. Em 2011 passou
pelo processo de reavaliação e reestruturação, sendo submetido ao Conselho Superior de
Ensino, Pesquisa e Extensão (CONSEP) da UFPA, aprovado pela Resolução nº 4.212, de
15 de dezembro de 2011.
O curso foi criado por meio do Programa do Governo Federal de Restruturação e
Expansão das Universidades Federais (REUNI) que teve como principal objetivo ampliar o
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acesso e a permanência na educação superior. O Programa possibilitou a abertura de
trinta (30) vagas anuais para a comunidade interessada em aprofundar os conhecimentos
na linguagem da dança. Segundo Marques² (2010, p. 88) “[...]. Cursos de licenciatura
trazem a possibilidade de formação de educadores, artistas e cidadãos e não de meros
técnicos para o mercado de trabalho”. É nessa perspectiva de formação cidadã que nossa
investigação centrou forças para compreender como a dança enquanto linguagem
artística pode fomentar metodologias de ensino que colaborem para um melhor
desenvolvimento da criança na relação que ela estabelece com o meio no qual está
inserida.
O aluno ingressante no curso de Licenciatura em Dança, no contexto da disciplina
Didática terá que desenvolver a competência de “compreender a evolução conceitual e
pedagógica da Dança” e ter as habilidades de “Promover debates acerca da
compreensão das novas propostas pedagógicas para o âmbito da Dança;” e “Identificar
as possibilidades de inter-relacionar os vários conteúdos curriculares com a Dança, para o
contexto escolar”. (Resolução CONSEP/UFPA nº 4.212 – Anexo I)
Atendendo as exigências do PPC, nossa pesquisa buscou analisar as propostas
apresentadas pelos alunos na disciplina que, avaliadas pelos professores e alunos,
tivesse cunho inovador, lúdico, e dialogasse com a linguagem da dança.
O Projeto Pedagógico de Curso (PPC), para efeito de organização da matriz
curricular, estabelece quatro núcleos nos quais as disciplinas estão agrupadas: núcleo de
conteúdos básicos, núcleo de conteúdos específicos, núcleo de conteúdos teóricopráticos e núcleo das demais atividades. A disciplina Didática da Dança faz parte do
núcleo de conteúdos específicos, sendo ofertada no quarto semestre, como uma
disciplina obrigatória para qualquer licenciatura. Desenvolver um conteúdo que levasse
em conta a especificidade da linguagem da dança foi um dos objetivos que nos motivaram
a ir buscar subsídios para entender o seu papel no contexto escolar.
A didática nasce em 1633 com o educador tcheco João Amos Comenius, com a
publicação do livro Didática Magna. Para Comenius a didática é a arte de ensinar tudo a
todos, ou seja, ensinar todas as artes, todas as ciências, os costumes bons e a piedade.
(COMENIUS, 1997)
Já no século XVII proclamava uma escola diferente, uma escola que fosse
acolhedora, em que os alunos se sentissem integrantes daquele lugar, partindo do
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princípio de que a “escola deve ser atrativa”, acreditava que “onde falta entusiasmo, tudo
se esfria” (COMENIUS, 1997, P. 10)
Entre as ideias principais de Comenius estavam:
[...] o respeito ao estágio de desenvolvimento da criança no processo de
aprendizagem, a construção do conhecimento através da experiência, da
observação e da ação e uma educação sem punição, mas com diálogo, exemplo e
ambiente adequado. Comenius pregava ainda a necessidade da
interdisciplinaridade, da afetividade do educador e de um ambiente escolar
arejado,
bonito,
com
espaço
livre
e
ecológico.
(http://adidatica.wordpress.com/comenius-e-a-didatica-magna/)
As ideias de Comenius eram muito modernas para o seu tempo, já traziam
conceitos que até os dias de hoje ainda são objetos de discussão pelos professores,
pelos alunos, bem como na academia.
Numa perspectiva atual consideramos a didática como uma reflexão sobre a
prática educativa. A esse respeito Masetto (1997, p. 13) considera que a didática “[...] é
uma reflexão sistemática sobre o processo de ensino-aprendizagem que acontece na
escola e na aula, buscando alternativas para os problemas da prática pedagógica”.
Assim, na análise que realizamos dos planos de intervenção e de aula percebemos que
não há como pensar no fortalecimento da educação, especialmente a pública, sem se
pensar na formação de um novo educador comprometido com as populações excluídas e
com a qualidade da educação, em cujo processo de formação a universidade tem um
papel fundamental.
Partindo da compreensão da importância que a didática tem nos cursos de
licenciatura, a dança enquanto uma licenciatura ainda muito nova no contexto nacional e
mais ainda na UFPA, requer uma atenção especial no que diz respeito ao seu
comprometimento com as camadas populares.
A dança na escola ainda não se consolidou como uma disciplina tão importante
como qualquer outra da matriz curricular das etapas da Educação Básica ou mesmo das
modalidades de ensino; alguns fatores ainda dificultam sua efetivação enquanto área do
conhecimento. Algumas questões como relações de gênero, etnia, idade, classe social,
deficiência física, entre outras, ainda são objeto de discussões acirradas quanto ao direito
de viver a dança existente em cada ser humano. Marques² (2010) considera que [...], na
dança também estão contidas as possibilidades de compreendermos, desvelarmos,
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problematizarmos e transformarmos as relações que se estabelecem em nossa sociedade
entre etnias, gêneros, idades, classes sociais e religiões.
Dentro desse processo de entender a dança como possibilidade de novas
formatações sociais é que nossa investigação objetivou analisar os planos de intervenção
e de aula dos alunos de licenciatura em Dança da UFPA com fins de trazer para o
contexto acadêmico formas variadas de experimentações criativas.
O espaço acadêmico na construção da dança lúdica
Luckesi (2014) compartilha a ideia de que a ludicidade possibilita ao ser humano a
experiência plena, ou seja, nesta vivência cada um de nós estamos plenos, inteiros nesse
momento; nos utilizamos da atenção plena. Enquanto estamos participando de uma
atividade lúdica não há lugar na nossa experiência para qualquer outra coisa, além dessa
própria atividade. Não há divisão. Estamos inteiros, plenos, flexíveis, alegres, saudáveis e
com isso, nos construindo; todavia, longe do pensamento de um ser pronto e sim de um
ser em movimento, de ser devir.
As atividades lúdicas, por si mesmas, são construtivas, na medida em que são
ações e sabemos, a partir de várias tradições teóricas como as deferidas por Max, Piaget,
Claparède e John Dewey, que o ser humano enquanto age se modifica e modifica o
mundo.
A ETDUFPA, onde funciona o curso de licenciatura em Dança, tem sido o espaço
de ressignificação de algumas práticas pedagógicas. Ao analisarmos os planos de
intervenção e de aula dos graduandos com foco na ludicidade, convergindo para a dança,
percebemos que as atividades propostas para as crianças da Educação Infantil e anos
iniciais do Ensino Fundamental têm como base a contação de histórias, o brinquedo
cantado e os jogos, brinquedos e brincadeiras, o que possibilitou o exercício de ações
naturais, entendida na concepção de Verderi (2009) como: andar, correr, saltar, saltitar,
equilibrar, rodopiar, girar, rolar, trepar, pendurar, puxar, empurrar, deslizar, rastejar,
galopar e lançar. Tais atividades tendem a compor uma sequência pedagógica que “inicia
do simples para o complexo, do concreto para o abstrato, do espontâneo para o
especifico, das atividades de menos duração para as de longa duração e de um ritmo
inicialmente lento, progredindo para o alegro”. (VERDERI, 2009, p. 69)
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Nossa investigação analisou 10 (dez) planos de intervenção (2 para Educação
Infantil/Pré-escola – 4 anos, 2 para Educação Infantil/Pré-escola – 5 anos, 2 para o
Ensino Fundamental/Ciclo de alfabetização, 2 para o Ensino Fundamental/4º ano e 2 para
o Ensino Fundamental 5º ano) e 30 (trinta) planos de aula para as mesmas etapas já
mencionadas.
Na Educação Infantil as ações metodológicas mais utilizadas nos planos de
intervenção foram a contação de histórias e o brinquedo cantado. As histórias contadas
às crianças aparecem com 62% nos planos de intervenção, constando nos planos de aula
histórias clássicas e folclóricas: Os Três Porquinhos, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho,
Branca de Neve e os Sete Anões; Matinta Perera, O boto, Curupira. O brinquedo cantado
apareceu com cerca de 31,2% nos planos de intervenção, sendo que as cantigas
identificadas nos planos de aula foram as cirandas que se caracterizam por serem
realizadas em rodas, com destaque para as seguintes cantigas: Atirei o pau no gato, O
cravo brigou com a rosa, Ciranda-cirandinha, e O sapo não lava o pé. Apenas 6,8% dos
planos de intervenção têm outros tipos de propostas de ações metodológicas (desenhos
animados e fotografias).
As ações apresentadas serviram como estímulo para que a dança fosse
apresentada às crianças possibilitando o conhecimento de diferentes ritmos e estilos,
como por exemplo: dança de roda, clássicas, modernas, folclóricas, entre outras. Em
relação às histórias Moraes, Ferreira, Oliveira e Araújo (2012, p. 130) asseveram que “É
ouvindo histórias que se pode sentir importantes emoções”, o que pode nos instigar a
uma movimentação corporal.
O brinquedo cantado segundo Souza, Silva, Rodrigues, Conegundes e et al (2012,
p. 114) “[...] se constitui numa estratégia que pode levar ao aprendizado significativo”, em
que a criança pode criar e recriar maneiras de movimentações criativas. As canções
podem sofrer mudanças, mas não impossibilita a diversão das crianças que se divertem
ao ouvirem os primeiros trechos das canções, como nos dizem as autoras supracitadas.
[...]. Algumas canções já sofreram alterações seja na retirada ou acréscimos de
palavras, frases ou até mesmo pequenas estrofes. Porém, nada tira a beleza e a
alegria de se divertir cantando, pulando, fazendo pequenas coreografias,
inventando e viajando no mundo da imaginação. (SOUZA, SILVA, RODRIGUES,
CONEGUNDES e et al, 2012, p. 114)
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Deste modo observamos que na Educação Infantil a contação de histórias e o
brinquedo cantado podem levar a uma estratégia de movimentações criativas que vá além
do factual e possibilite a inserção da dança na escola de maneira fecunda e inventiva.
Os planos de intervenção para o Ensino Fundamental/Ciclo de alfabetização, que
correspondem do primeiro ao terceiro anos dessa etapa, mostram que as ações
metodológicas sugeridas pelos alunos nesse ciclo foram: contação de histórias, brinquedo
cantado e jogos de regras simples. A contação de histórias foi a atividade mais trabalhada
pelos alunos de licenciatura com as crianças, sendo que 49,9% dos planos de intervenção
foram contemplados com esta ação metodológica. Histórias folclóricas de assombração
que compõem o universo das lendas amazônicas tiveram destaque nos planos de aula,
com menos destaque para as histórias tradicionais.
O brinquedo cantado também teve destaque nos planos de intervenção com 28,1%
das ações sugeridas. As canções que apareceram nos planos de aula foram: canções
tradicionais e criadas a partir do universo amazônico durante as oficinas que foram
oferecidas na ETDUFPA aos alunos do curso de licenciatura em Dança (jogos,
brinquedos, brincadeiras, brinquedo cantado e contação de histórias, teatro, dança e voz
e dicção).
Imagem 1: Oficina de contação de histórias
Imagem 2: Oficina de dança
As canções tradicionais com maior destaque foram: O sapo não lava o pé, Cirandacirandinha, Sapatinho branco, Pirulito que bate-bate e A barata, as quais serviram de
suporte para a organização de composições coreográficas e movimentações criativas
diversas.
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Partindo do contexto amazônico a criação de composições sobre este universo
possibilitou pensar o corpo na especificidade desse lugar com os seus rios, fauna e flora
adentrando o contexto da escola e da vida das crianças moradoras da Amazônia
Paraense. As cantigas que constavam nos planos de aula foram criadas e organizadas
pelos graduando com orientação de uma professora de música da ETDUFPA. As canções
possibilitaram movimentações e ritmos variados; sobre este aspecto Verderi (2009, p.70)
salienta que “[...]. Aqui a dança não tem regras, não tem certo, não tem errado. O que
importa é o movimento, o ritmo, a música, o desejo e a harmonia de se movimentar, seja
lá como for”.
Destacamos as canções construídas nas oficinas de brinquedo cantado com foco
no imaginário amazônico que deram um novo enfoque às ações metodológicas
organizadas para as crianças do ciclo de alfabetização do Ensino Fundamental: Cobra
grande do Pará, O boto, Matinta Perera, Uirapuru, Lamento da Amazônia e Lenda do
açaí. Tais cantigas têm o dom de encantar, possibilitando muitos movimentos corporais,
além de instigar a imaginação das crianças. Algumas composições coreográficas foram
estruturadas a partir do que as crianças sabiam sobre as histórias lendárias da Amazônia,
os movimentos e sons dos animais, da mata, dos rios, enfim, dos elementos da natureza.
Também foi observado para o ciclo de alfabetização jogo de regras simples, com
22% de ações presentes nos planos de intervenção. Os jogos de regras simples são
aqueles em que a formulação das regras de funcionamento contam com a participação
das próprias crianças na sua elaboração. Os jogos que mais se destacaram nos planos
de aula foram: amarelinha, elástico e bambolê. O jogo com regras segundo Piaget (1990)
é a atividade lúdica do ser socializado. A análise confirma uma das hipóteses levantadas,
quando do início de nossa investigação: a de que “no contexto escolar, o fato de explorar
os jogos enquanto atividade lúdica pode vir a se um estímulo para a mudança da prática
de sala de aula, promovendo, ainda, uma verdadeira integração, possibilitando atividades
prazerosas, alegres e contagiantes” (ANDRADE, 2013, p. 17).
Assim, os jogos de regras simples como indutor da dança podem acordar o corpo,
e fazer com que ele tenha uma identidade – a sua identidade, aquilo que se constitui
como próprio de cada um de nós. Vianna (2005) referenda que “[...]. Para acordar esse
corpo é preciso desestruturar, fazer que a pessoa sinta e descubra a existência desse
corpo. Somente aí é possível criar um código pessoal, [...].
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Para o Ensino Fundamental/4º e 5º anos percebemos uma grande similaridade nos
planos de intervenção, no que diz respeito às ações metodológicas propostas para as
crianças na faixa etária entre 9 e 10 anos. Percebemos que 91,3% das ações
metodológicas propostas estavam relacionadas ao jogo de regras com finalidades, ou
seja, jogos que segundo Piaget (1990) possibilitam à criança a aplicação efetiva de regras
e desenvolvimento do espírito de cooperação, onde o sujeito tem prazer em construir; ele
formula situações e diz como é vivenciado. (ANDRADE, 2013)
A predominância do jogo de regras com finalidades pode ser observada nos
seguintes jogos: futebol, taco, pipa, piras, queimada e elástico. O trabalho consistiu em
brincar com as crianças e posteriormente os movimentos relacionados a cada jogo eram
resignificados e transformados em pequenas composições coreográficas. Sobre esse
aspecto Marques² (2010, p. 145) em seus estudos sobre o sistema Laban afirma que ele
“[...], propõe um ensino de dança no qual as crianças pudessem por si mesmas “aprender
fazendo” seus movimentos e danças “livres, naturais e espontâneos”. É essa a ideia que
permeia os planos apresentados pelos alunos do curso de licenciatura em Dança.
Outras ações metodológicas foram observadas com menor intensidade, apenas
8,7%, das quais destacamos o brinquedo cantado com foco em músicas folclóricas e
histórias que tenham no final uma mensagem de cunho moral, como, por exemplo, as
fábulas do escritor grego Esopo.
Considerações Finais
Essa pesquisa objetivou investigar, refletir, descrever e desenvolver experiências
metodológicas lúdicas e práticas docentes de caráter inovador e interdisciplinar que
busquem a superação de problemas identificados no processo de ensino-aprendizagem.
Buscou analisar metodologias focadas na ludicidade (jogos, brinquedos, brincadeiras,
brinquedo cantado e contação de histórias) com foco para a linguagem da dança que
cada ser humano estabelece com o meio ambiente, consigo e com o outro.
A pesquisa analisou a aplicabilidade dos planos de intervenção e planos de aula
construídos no decorrer dos estudos teóricos na disciplina Didática da Dança nas escolas
da rede pública. Nosso recorte nesse artigo considerou as ações metodológicas
propostas pelos licenciados. Assim, observamos que a dança pode ter vários indutores
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lúdicos que possibilitem metodologias inovadoras e que facilitem o processo ensinoaprendizagem da dança e de outras linguagens da educação infantil e anos iniciais do
Ensino Fundamental.
Consideramos que os jogos, brinquedos, brincadeiras, contação de histórias e o
brinquedo cantado podem contribuir para que a dança seja inserida como uma disciplina
que contribua na formação integral das crianças.
REFERÊNCIAS
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VERDERI, Érica. Dança na escola: uma abordagem pedagógica. São Paulo: Phorte,
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VIANNA, Klauss; CARVALHO, Marco Antonio de (colaborador). A dança. 3. ed. São
Paulo: Summus, 2005;
*É doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC Minas, professora
assistente da UFPA/ICA/ETDUFPA. É autora de livros, capítulos de livros e artigos
publicados em revistas especializadas nacionais, com destaque para os livros: “O lúdico
na vida e na escola: desafios metodológicos”; e “Ludicidade e formação de educadores”.
Integra grupo de pesquisas junto ao CNPq: Educação Lúdica e Educação da Infância,
Cultura e Sociedade. E-mail: [email protected]
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o espaço acadêmico na construção da dança lúdica