Dilemas e implicações do uso da observação enquanto técnica em detrimento da etnografia Autoria: Alfredo Rodrigues Leite da Silva, Letícia Dias Fantinel Resumo O objetivo deste artigo é compreender os dilemas e implicações da opção pelo uso da observação participante como uma técnica isolada de coleta de dados, em detrimento da etnografia. Essa opção, quando realizada de forma consciente e deliberada, denota uma escolha que provoca reflexões as quais são discutidas aqui. Nesse ensaio teórico, apresentamos as características da técnica de observação e as particularidades de seu uso no método etnográfico, buscando evidenciar o que está em jogo quando se opta pelo uso da etnografia ou pelo uso da observação participante dentro da pesquisa qualitativa, sem assumir a postura de etnógrafo no texto. 1 1 Introdução Embora comumente associadas, observação participante e etnografia não devem ser confundidas (MAGNANI, 2002). Técnica e método, contudo, compartilham pressupostos, como a real atuação do pesquisador junto ao grupo estudado, de forma que se permita um maior acesso a determinadas informações úteis à pesquisa (GOODE; HATT, 1960). Não obstante, não são práticas sinônimas ou tampouco equivalentes (DALLA CHIESA; FANTINEL, 2014). Cientes dessa premissa básica, e sabedores dos diferentes, ainda que próximos, pressupostos inerentes ao uso do método e da técnica, autores como Leite-da-Silva (2007) optam pela adoção da técnica da observação participante em seus estudos, afastando-se, ainda que de forma relativa, da etnografia. No caso aqui referido, o autor faz uso dos princípios epistemológicos que orientam o uso da observação participante na pesquisa qualitativa, muitos deles em consonância com aqueles envolvidos na prática etnográfica, sem, entretanto, posicionar-se como etnógrafo, em virtude de uma série de fatores que serão discutidos neste texto. O argumento aqui desenvolvido reconhece que a etnografia compartilha de várias premissas que também sustentam a observação, especialmente quando esta última sustenta a coleta de dados da primeira. Dentre essas premissas, cabe destacar aquelas relacionadas à observação participante, comumente associada à etnografia. A observação participante leva a níveis de interação face a face com um amplo potencial de interferir no contexto investigado e atingir profundamente o pesquisador (CRUZ NETO, 1994, p. 59); aos poucos e ao longo do tempo de inserção no campo, essa interferência no pesquisador permite certo afastamento das ideias preconcebidas que o pesquisador traz consigo antes de entrar no campo (BLALOCK JR., 1973), a ponto de o pesquisador questionar o que Malinowski (1978) chamou de os imponderáveis da vida real. Além disso, o registro desses imponderáveis da vida real se dá por meio de um diário de campo, a partir de uma narrativa detalhada de todos os acontecimentos do dia, inclusive os sentimentos do pesquisador (CAVEDON, 1999). O último aspecto, o registro do sentimento do pesquisador, é um dos motes centrais da discussão proposta neste artigo. Tanto na observação participante quanto na etnografia que a utiliza enquanto técnica de coleta de dados, o sentimento do pesquisador faz parte dos dados, sendo elementos úteis para se lidar com as referidas prenoções anteriores à entrada no campo e também os envolvimentos que ocorrem durante a inserção do pesquisador. Entretanto, ao se observarem os usos da abordagem etnográfica e da observação participante dissociada dela nos estudos organizacionais, há uma diferença no grau de exposição desses sentimentos no momento da apresentação da análise dos dados. Esse afastamento da exposição dos sentimentos permite que sejam tecidas reflexões acerca do uso da observação participante. Tal afastamento, embora não seja pleno, é relevante quando se tem como referência a etnografia, em que o pesquisador faz amplo uso de seus sentimentos, expondo-os de maneira significativa. Essa relativização dos diferentes níveis de envolvimento existe inclusive dentro dos diferentes tipos de observação existentes, o que não implica afirmar que os tipos com menor grau de envolvimento sejam menos legítimos ou relevantes. A questão gira em torno das implicações para o pesquisador em optar por um caminho ou por outro, como será discutido a seguir com base no seguinte problema de pesquisa: quais os dilemas e implicações da opção por se limitar a usar a observação como uma técnica isolada de coleta de dados e abrir mão da etnografia? Assim, o objetivo deste artigo é compreender os dilemas e implicações da opção pelo uso da observação participante como uma técnica isolada de coleta de dados, em detrimento da etnografia. 2 Para desenvolver essa discussão, os autores optam por, inicialmente, discutir as diferentes modalidades de observação, os dilemas e as implicações de seus usos, de forma a contextualizar em seguida, as contribuições teóricas anteriores são confrontadas com os aspectos que envolvem o uso dessas modalidades dentro da etnografia; e, por fim, são apresentadas as considerações finais do artigo. 2 A observação e suas diferentes modalidades: dilemas e implicações Malinowski (1978) foi um precursor no uso da observação participante. Em 1922, o autor publicou um estudo no qual a técnica de coleta de dados foi empregada para estudar povos nativos na Nova Guiné Melanésia. Nesse estudo, ele apresenta a observação participante como uma técnica que contribui para um processo no qual deve ser possível distinguir “[...] os resultados da observação direta e das declarações e interpretações nativas e, de outro, as inferências do autor, baseadas em seu próprio bom-senso e intuição psicológica”. Conforme Blalock Jr. (1973) e Cavedon (1999b), isso é possível, pois a observação participante envolve a profunda inserção do pesquisador no cotidiano em estudo. Dessa maneira, ele pode captar conhecimentos amplos ao fazer parte das interações cotidianas. Blalock Jr. (1973) destaca o ideal da não interferência do pesquisador no cotidiano no qual se insere. Para o autor, o pesquisador deveria apenas apreender, sem alterar o que veio investigar. Entretanto, neste artigo defende-se a necessidade de reconhecer as limitações para alcançar esse ideal proposto, pois quando o pesquisador se revela para qualquer sujeito como um novo elemento do seu cotidiano, preocupado em investigá-lo, é inevitável a ocorrência de algum tipo de alteração. Conforme Cavedon (1999b, p. 8), [...] os informantes ao terem consciência da diferença de mundo que os separa do pesquisador tendem a usar esse último como um meio através do qual suas reivindicações possam vir a ser encaminhadas, ou seja, o pesquisador assume mesmo que indiretamente um compromisso político com a comunidade estudada. Tal inevitabilidade implica reconhecer, igualmente, que a aproximação configura-se como necessária para alcançar a confiança dos sujeitos, a ponto de eles revelarem seu cotidiano. Nesse processo, outro desafio é vencer as limitações de ordem etnocêntrica do pesquisador. Ou seja, o pesquisador deve permanecer aberto a se sujeitar a construções sociais resultantes de histórias de vida diferentes das suas. Ao coletar e interpretar os dados, ele não deve tipificá-los de maneira simplista a seu quadro de referência pessoal, que, por sua vez, também não pode ser ignorado. Tal quadro deve ser reconhecido como existente, pois ele está nos dados coletados, nas percepções e nos sentimentos do pesquisador. Ao ser exposto, é possível buscar sua relativização, a partir das próprias observações provenientes da participação do cotidiano dos sujeitos. Dessa maneira, configura-se um processo de aculturação que fundamenta a técnica da observação participante e possibilita a coleta e interpretação dos dados (CAVEDON, 1999b). No dizer de Cruz Neto (1994, p. 59), “o observador, enquanto parte do contexto de observação, estabelece uma relação face a face com os observados. Nesse processo, ele, ao mesmo tempo, pode modificar e ser modificado pelo contexto”. Essa aculturação permite lidar com as limitações impostas pelas ideias preconcebidas, oriundas das experiências passados do pesquisador, inclusive seu embasamento teórico. Conforme Malinowski (1978), comumente, tais ideias levam a hipóteses a serem confirmadas, limitando o potencial da investigação, que passa a girar em torno dessa confirmação. Uma alternativa, sugerida pelo autor, é ocupar o lugar das hipóteses com problemas, nos quais os 3 elementos preconcebidos deixam de ter um sentido próprio para ser algo “natural”. Eles passam a remeter a problemas a serem tratados, possibilitando a relativização daquilo que é preconcebido, e, portanto, dão espaço para um olhar distinto sobre o cotidiano do outro. Dessa maneira, a observação participante tem nas bases teóricas e nas experiências anteriores do pesquisador elementos a serem problematizados e questionados, impulsionando o processo de aculturação do observador, mesmo que parcial. A parcialidade vem do fato de que, concordando-se com Blalock Jr. (1973), o pesquisador permanece com uma parte de suas ideias preconcebidas. Além disso, o afastamento dessas prenoções ocorre aos poucos. Conforme o autor, o amadurecimento desse processo deve ocorrer em paralelo com uma coleta de dados o mais detalhada possível. Por sua vez, os dados serão analisados apenas quando o pesquisador se sentir livre de parte de suas prenoções que prejudicam a familiarização com o cotidiano do grupo social em estudo. Ou seja, é um processo imbricado, no qual a própria imersão no cotidiano para a coleta dos dados permite um olhar crítico do pesquisador sobre suas ideias preconcebidas, o que o prepara para a análise dos dados sobre um grupo social diferente do seu. A observação participante potencializa, assim, a ação do pesquisador, pois permite a ele questionar pressupostos prejudiciais à coleta de dados, oferecendo como dados adicionais à investigação a própria crítica sobre esses pressupostos. Aquele que coleta passa, também, a ter “seus dados” coletados. Ou melhor, inserem-se como dados reflexões que expõem pressupostos do observador que tendem a permear a investigação. Neste artigo, tal característica justifica a adoção da observação participante por parte dos pesquisadores, pois é o caminho para se alcançar o que não está explícito, o que Malinowski (1978, p. 29) chamou de “imponderáveis da vida real”, conceitos e significados no cotidiano do grupo social que impregnam e dão sentido a suas práticas, como os seus cuidados corporais, as maneiras de trabalhar, de negociar, de cozinhar, de comer, de brincar, de expressar hostilidade ou amizade e de viver socialmente. Malinowski (1978, p. 30) explica que [...] a simples descrição dos aspectos exteriores, seja da pompa e do aparato de uma solenidade de Estado, seja de um costume pitoresco dos garotos de rua, não é suficiente para demonstrar se o rito ainda floresce com total vigor nos corações daqueles que dele participam, ou se o consideram como coisa já ultrapassada e quase morta, conservada apenas por amor à tradição. Sem a compreensão desses imponderáveis, o pesquisador tende a permanecer na superfície dos fenômenos. Ao acessá-los, ele ganha a profundidade oculta na complexidade das relações humanas. Um exemplo seria o caso de um norte-americano que visite o Brasil em época de copa do mundo e atribui um forte nacionalismo aos brasileiros, em virtude das bandeiras nacionais espalhadas em ruas, casas, carros e pessoas. Ele ignora que aquilo só ocorre a cada quatro anos e que em outras épocas raramente se vê uma única bandeira brasileira nas ruas, surgindo apenas as dos times de futebol em ação nos diversos campeonatos existentes. A interpretação do norte-americano em questão envolve os significados que, para ele, estariam nas manifestações supostamente nacionalistas observadas de maneira superficial. Conforme Malinowski (1978), ao observar e participar, o observador obtém um acesso além dessa superficialidade. Para isso, o caminho é deixar os fatos falarem por si mesmo, na medida em que ocorrem ao seu redor e são devidamente anotados num diário. De acordo com Cavedon (1999, p. 7), ao registrar em um diário de campo os imponderáveis da vida real, 4 [...] o pesquisador irá narrar com acuidade todos os acontecimentos ocorridos dia após dia. As expressões próprias daquele grupo também serão anotadas, bem como os sentimentos do pesquisador [...] de modo que as impressões muito particulares do pesquisador poderão ser melhor compreendidas e eliminadas por ocasião da descrição do êmico, ou seja, das categorias dos pesquisados [...] o que se procura é não misturar as duas falas, de modo que o êmico (categorias dos pesquisados) e o ético (categorias do pesquisador) não se confundam. Ou seja, os sentimentos narrados pelo pesquisador revelam elementos para a mencionada reflexão sobre as prenoções do observador e o alcance de seu aculturamento para investigar um contexto social distinto do seu. Isso possibilita enxergar o etnocentrismo que pode permear a atuação do observar, bem como indica a intensidade de sua inserção no grupo estudado. Uma questão importante envolve as limitações dessa inserção: o observador não se torna um dos informantes e nem precisa chegar a esse ponto; ele permanece alguém de fora, mas que se aproxima o suficiente para obter informações com profundidade do grupo, a partir de relações construídas no convívio com seus membros (CAVEDON, 1999b; LENGLER; CAVEDON, 2001). Não se espera que os membros do grupo considerem o pesquisador como um igual, mas que eles o aceitem como alguém diferente em quem confiam (FOOTE-WHITE, 1980). Mais tarde, o diário de campo servirá para embasar a análise e a apresentação dos dados. Além de fornecer detalhes para a análise que se perderiam pelo esquecimento, por meio de fragmentos extraídos do diário de campo é possível ilustrar e esclarecer melhor alguns aspectos para o leitor “[...] é como se os caminhos trilhados pelo pesquisador pudessem ser percorridos pelo leitor” (CAVEDON, 2001, p. 10), que, por sua vez, é levado a se aproximar do contexto investigado. O uso da observação participante nos estudos organizacionais não é uma novidade. Wright (1994) destaca o uso da técnica desde a década de 1950, em abordagens que permitiram extrapolar a ênfase que Mayo (1960) dá às relações sociais dos trabalhadores associadas à estrutura a que estão submetidos no espaço fabril. Conforme o primeiro autor, a técnica baseou-se em estudos que compreenderam contextos mais amplos, nos quais são reconhecidas as relações dos trabalhadores nas sociedades nas quais viveram e estão inseridos, permeadas por aspectos culturais próprios considerados nas análises. No campo organizacional no Brasil, a observação participante e a observação sistemática foram assumidas como adotadas em estudos sobre uma diversidade de temas, tais como: vínculos sociais numa oficina de marcenaria (BRESLER, 1997); formas de classificação social refletidas no ambiente organizacional de livrarias (PEREIRA, 2005); relações entre os arranjos familiares e empresas familiares em suas implicações familiares, sociais e mercadológicas (CAVEDON; FERRAZ, 2003); significação atribuída a um shopping center por adolescentes que nele se socializam (LENGLER; CAVEDON, 2001); cultura organizacional num mercado público (CAVEDON, 2002); processo de transição de um hospital psiquiátrico da lógica racional-instrumental para a racionalidade comunicativa (VIZEU, 2004); favorecimento ou impedimento da aprendizagem em ambientes de trabalho numa indústria química (GROPP, 2003); comprometimento e a participação dos funcionários do Serviço Social do Comércio (SESC) em Pernambuco nas atividades que eles próprios definem na programação social voltada para o uso do tempo livre dos associados (SANTOS; OLIVEIRA, 2001); relações entre a implantação de um programa de qualidade total e a qualidade de vida dos membros da gerência administrativa da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (MONACO; GUIMARÃES, 1999); e desenvolvimento de um modelo de 5 remuneração por habilidades numa indústria eletroeletrônica (RODRIGUES; CORRÊA; LADEIRA, 2004). Esses estudos têm em comum a tentativa de captar o cotidiano dos sujeitos relacionados com o fenômeno investigado. Entretanto, a despeito de afirmarem que adotam a observação participante, eles se diferem quanto à maneira como o pesquisador se insere no campo. Esses diferentes posicionamentos em relação às maneiras como o pesquisador desenvolve a observação participante foram destacados por Gold (1958), que as classificou em quatro tipos básicos: 1) “Pleno participante”. Caracteriza-se pela plena participação e inserção social nos contextos que envolvem o grupo estudado, sem que a identidade e os propósitos do pesquisador sejam conhecidos por aqueles que ele observa. De um lado, essa abordagem oferece a oportunidade de aprender sobre aspectos do comportamento invisíveis para quem está menos inserido no grupo, mas, de outro, pode surgir implicações morais e éticas que prejudiquem o estudo, o que inclui a dificuldade do pesquisador de se distanciar do grupo, perdendo as condições para manter seu papel de observador. 2) “Participante como observador”. Nesta abordagem, o observador se apresenta para o grupo e aqueles que serão observados, revelando suas intenções e mantendo a ampla inserção no cotidiano investigado. O observador oferece a si mesmo uma base para certo distanciamento, mas problemas podem surgir caso certo envolvimento e a percepção do papel do observador façam o informante também assumir esse papel, afastando-se de seu próprio cotidiano. Permanece aqui a possibilidade de o observador envolver-se em demasia com o contexto investigado, “transformando-se em um nativo”, o que exige atenção e possíveis afastamentos do campo para uma reflexão sobre seu papel como observador. 3) “Observador como participante”. Caracteriza-se pela observação formal, restrita a um contato único e formal com o campo e aquele que se observa. Durante esse contato, ele será entrevistado, e a observação, mais formal do que informal, ocorre sem nenhum tipo de participação. Os problemas citados nas duas abordagens anteriores são minimizados, mas o potencial de compreensão do contexto investigado também é reduzido, e se destaca o problema de interpretações equivocadas, oriundas da análise superficial de manifestações de várias pessoas em encontros breves. A lógica da participação é mantida aqui em virtude da inserção do informante no campo, algo preservado nessa abordagem. 4) “Pleno observador”. O pesquisador permanece afastado dos informantes, sem se envolver em participação ou qualquer interação social com o grupo investigado. As pessoas não sabem que estão sendo observadas, nem que fazem o papel de informante para um observador qualquer. A plena ausência de interação social tende a intensificar os problemas destacados na abordagem anterior, mas, em contrapartida, ocorrem a redução da possibilidade de envolvimento equivocado do pesquisador e a consequente confusão sobre qual é o seu papel no campo. 6 Ao discutir as quatro abordagens, Gold (1958, p. 222, tradução nossa) destaca que “[...] à medida que a observação se intensifica em detrimento da participação, as chances de se ‘tornar nativo’ diminuem, mas se amplia a possibilidade de ocorrer o etnocentrismo”. No primeiro extremo, a visão do informante torna-se importante demais, interferindo no papel do pesquisador; no segundo, ela é menosprezada, prejudicando a compreensão de aspectos do contexto em estudo. As dificuldades e vantagens de se aproximar de um ou outro extremo impedem a afirmação de que uma abordagem é simplesmente melhor do que a outra. Dependendo das demandas do pesquisador, uma pode ser apenas considerada mais adequada do que a outra, em termos da disposição e da maturidade do pesquisador para assumir papéis sem deixar de ser quem ele é e dos níveis de profundidade das informações que ele deseja tratar em sua pesquisa (CICOUREL, 1980). A despeito de se concordar com Gold (1958) sobre as implicações de se optar por um maior ou menor nível de interação com os informantes, no tocante à terminologia adotada é necessário fazer algumas ressalvas. Neste artigo, assume-se que a participação está associada à predisposição por parte do pesquisador em se inserir nas atividades cotidianas do grupo em estudo. No caso da abordagem nominada de “Observador como participante”, Gold (1958) a caracteriza pela intenção do pesquisador em ter um contado breve o suficiente apenas para realizar uma entrevista, o que não se reconhece como participação. Na abordagem denominada “Pleno observador” o autor deixa claro que não há intenção do pesquisador em interagir com os sujeitos, logo, também não é considerada aqui como um tipo de participação. Portanto, segundo o conceito de participação aqui assumido, caberia identificar as duas últimas abordagens reconhecidas por Gold (1958) como modalidades de observação. No caso do “Observador como participante”, seria uma observação mais próxima da abordagem assistemática, marcada por observações pontuais, e a quarta, a do “Pleno observador”, seria uma observação mais próxima da abordagem sistemática. Cruz Neto (1994, p. 60) defende a classificação adotada por Gold (1958) ao afirmar que “um distanciamento total de participação da vida do grupo” é uma situação de observação participante escolhida pelo pesquisador. Mas neste artigo questiona-se o potencial de essa classificação mais confundir do que esclarecer sobre as intenções do pesquisador. Deve ficar claro que toda a classificação sobre observação que busque distinguir participação de nãoparticipação tem como propósito indicar os direcionamentos principais assumidos na abordagem metodológica, pois, a rigor, na prática da pesquisa a distinção não é tão clara e serve apenas para fins analíticos (MINAYO, 2000). Conforme Alencar (1999, p. 109), “[...] na prática nem sempre é possível traçar um limite rígido entre observação participante e observação não-participante, pois participação geralmente é parcial”. A partir dela, observamse acontecimentos que estão além do locus da participação, também caracterizando a obtenção de informações por meio da não-participação. De outro lado, a simples presença de um observador que opte pela não-participação provoca interferências que podem ser consideradas como algum nível de participação. Com base nas reflexões realizadas até aqui, neste artigo assume-se que a técnica de observação consiste na obtenção de dados a partir da possibilidade de acompanhar por meio da visão e dos demais sentidos o cotidiano dos informantes. Essa observação é considerada participante na medida em que houver a intenção e as condições para que o pesquisador, mesmo parcialmente, atue no papel de observador e, ao mesmo tempo, em outros papéis que cotidianamente os informantes assumem. Esse posicionamento, concordando-se com Godoy (1995) e Alencar (1999), justifica-se pela importância de diferenciar como observação as técnicas que exigem intensa inserção do pesquisador no campo, destacando-se que ela pode ocorrer por meio da observação participante e da observação não-participante. Na primeira, o investigador se insere na posição do outro, diretamente envolvido com o fenômeno em estudo 7 (CRUZ NETO, 1994); na segunda, ele assume a postura de espectador, e, com base “[...] nos objetivos da pesquisa e num roteiro de observação, o investigador procura ver e registrar o máximo de ocorrências que interessam ao seu trabalho” (GODOY, 1995, p. 27). No caso da observação não-participante, uma subdivisão que permite um maior detalhamento dos caminhos adotados na coleta de dados é a distinção entre as técnicas de observação não-participante, comumente chamadas de “observação sistemática” e “observação assistemática” (ou “simples”) (GIL, 1995). Na primeira, a observação segue uma sequência de observações planejadas no mesmo locus, ao longo de um determinado tempo, com base em um roteiro. Na segunda, não há uma permanência sistemática no locus que permita um aprofundamento com base em um roteiro de observação, mas, ainda assim, aproveita-se a oportunidade para observar, destacando-se as limitações impostas pela falta de inserção. Já na observação participante há a possibilidade do pesquisador se apresentar ou não como pesquisador ao sujeitos, essa segunda opção leva a reflexões sobre implicações morais geraram nos pesquisadores uma série de inquietações no tocante à opção adotada. Como discute Bulmer (1982), devem ser considerados os dilemas éticos ao assumir a abordagem da observação participante sem se apresentar para aqueles que são observados, o que exige cuidados. Entretanto, o autor deixa claro que isso não implica abandonar a abordagem, que, em alguns casos, é necessária por questões práticas ou pela intenção do pesquisador em influenciar o mínimo possível no cotidiano no qual está inserindo. Nesse sentido, há desde uma ocultação total, deliberada, na qual ninguém conhece a posição do observador, até uma ocultação parcial, na qual alguns conhecem sua posição, mas não há meios práticos para o pesquisador se apresentar a todos com os quais mantém contado no campo. Um exemplo disso é o estudo de Leite-da-Silva (2007) em um mercado municipal. No início do seu estudo a observação participante se deu de maneira totalmente oculta, tanto pela intenção de não interferir, quanto por envolver o contato cotidiano com diferentes clientes, funcionários e proprietários do mercado público, em contextos nos quais, algumas vezes, a apresentação não seria algo viável, como nas conversas numa fila de um caixa ou nos comentários sobre uma discussão na rua. Após três meses de iniciada a observação participante, quando outras técnicas de coleta de dados foram aplicadas, o autor observou que a opção pela ocultação inicial foi adequada. A partir do momento em que ele se apresentou e permaneceu no campo, ficou evidente a diferença de tratamento em relação à interferência no cotidiano observado. O observador passou a ser uma atração à parte, que dividia a atenção dos observados e, de certa maneira, alterava seu cotidiano, pois a ele era dado um tratamento diferenciado de quando estava oculto. Cabe destacar que a opção pela ocultação e o reconhecimento dos dilemas éticos exigem uma maior atenção com os cuidados sobre as implicações para os respondentes das informações divulgadas pelo pesquisador. Essa é uma preocupação indispensável a qualquer estudo. Mas no caso de uma observação oculta deve ser algo redobrado, pois os informantes não têm conhecimento do papel do observador quando interagem com ele. Sabem apenas que há um desconhecido num espaço compartilhado por eles e assumem os riscos de se manifestar. Portanto, quando da passagem dos acontecimentos de cada dia para o diário de campo, deve haver a preocupação em demarcar aquilo que incomoda o pesquisador do ponto de vista ético, o que deve fazer parte dos dados, pois é considerado um aspecto relevante das limitações do pesquisador, a serem observadas na análise dos dados. Na modalidade de observação participante em que o pesquisador se apresenta as implicações passam a serem outras. Ao se buscar estabelecer “[...] um relacionamento agradável e de confiança entre o observador e o observado” (GODOY, 1995, p. 27), há o risco de se contribuir para que os informantes se coloquem no papel de observador, afastando-se da sua própria participação cotidiana que deveria ser investigada. Ou seja, mesmo sendo 8 esperado que o pesquisador passe por sentimentos estranhos e que o próprio informante passe por isso em virtude do pesquisado, não se espera que o pesquisador potencialize isso em relação ao informante, ou se trataria de outra técnica, como a pesquisa-ação. O conjunto dos dilemas e implicações apresentados até aqui apresentam parte das dificuldades a serem vencidas para se aplicar a técnica de observação. Comumente essa técnica é adotada associada à etnografia, mas essa escolha leva a outros dilemas e implicações que, em alguns casos, faz o pesquisador optar por outros caminhos, como se discutirá a seguir. 3 A observação como técnica no contexto etnográfico Por constituírem-se a partir de um método multitécnico (PELÁEZ, 2013), é possível afirmar que os estudos etnográficos são produzidos através de fontes diversas, embora a observação e a conversação informal sejam as mais comuns, em uma pesquisa tecida de forma pouco estruturada, sem categorias pré-estabelecidas e com uma análise com viés descritivo e interpretativo (FINO, 2003). A etnografia, a partir daí, tem por objetivo descrever a vida de outras pessoas, de maneira precisa e sensível, através de uma experiência direta prolongada (INGOLD, 2008). Uma das técnicas entendidas como legítimas para a obtenção da profundidade necessária na coleta de dados com fins de construção do texto etnográfico é a observação participante (CAVEDON, 2003), que, conforme já apresentado anteriormente, é comumente associada à prática etnográfica. Contudo, é oportuno ressaltar que as técnicas, em si mesmas, não caracterizam a etnografia, sendo necessária uma postura de pesquisa etnográfica, na qual o pesquisador esteja atento às condições de produção do conhecimento expressos na relação com o campo e no que se escreve sobre ele (DALLA CHIESA; FANTINEL, 2014). Assim, mais do que um conjunto de procedimentos, o método etnográfico representa um modo de apreensão de uma dada realidade (MAGNANI, 2002). Assim, entre as técnicas que podem ser utilizadas para tal apreensão, além da observação participante, encontram-se também a observação direta ou sistemática, a captação fotográfica ou audiovisual, entrevistas, levantamento de registros históricos e de histórias de vida, etc. A observação participante implica grande envolvimento do pesquisador enquanto sujeito. Tal técnica no contexto da etnografia implica, além da participação do pesquisador nas dinâmicas que envolvem o grupo que é objeto de estudo, um “caráter subjetivo implicado na coleta de dados” e um investimento “na capacidade do pesquisador para o estabelecimento dessa interação” (MEINERZ, 2007, p. 142). Na visão de Meinerz (2007), a observação participante é técnica cara ao fazer etnográfico justamente por permitir que, a partir de interações e relações interpessoais de caráter subjetivo, mediante a observação de recorrências de classificação e também de apreciação, produzam-se elementos objetivos sobre o grupo estudado. No contexto do fazer etnográfico, é justamente a experiência de viver algo para aprender, ao longo do tempo, como participar de determinado grupo social, que ensina o pesquisador a fazer parte desse grupo, por meio de uma viagem visceral na socialmente e culturalmente distinta vida do grupo. Mediante essa experiência, aprende-se sobre os modos de habitar do grupo, sobre suas relações sociais, suas preocupações, valores e sentimentos (EVANS, 2012). Além disso, através da experiência etnográfica, apreende-se uma vivência de mundo a partir de um ponto de vista diferente do pesquisador, questionando aquilo que tomamos como certo sobre a própria experiência humana (EVANS, 2012). Na pesquisa antropológica, a prática desse tipo de trabalho de campo é caracterizada como um rito de iniciação (PELÁEZ, 2013), configurando-se como uma “experiência total, profundamente marcante, dolorosa e individualizante” (CABRAL, 1983, p. 327). Assim, 9 destacam-se algumas dificuldades inerentes a essa prática, principalmente devido à retirada do pesquisador de seu contexto habitual e inserção em um novo contexto imprevisível e atemorizante (CABRAL, 1983). Outrossim, a atuação real do pesquisador no cotidiano do grupo estudado, no contexto etnográfico, leva à captação do sentido de determinadas ocorrências e ao encadeamento de tais significados em contextos mais amplos (CLIFFORD; GONÇALVES, 1998). Ao buscar situar os significados nesses contextos, o pesquisador constrói o texto etnográfico a partir do ponto de vista nativo (BOAS, 2004), caracterizando-o como uma interpretação da interpretação (GEERTZ, 2008), sempre de natureza relacional (MOHIA, 2008) e situacional. O estudo dependerá não só da biografia e das opções teóricas do pesquisador, mas também do contexto histórico em um sentido mais amplo e das situações cotidianas ocorridas no local da pesquisa (PEIRANO, 1995). Os dados de pesquisa, as categorias nativas, a observação, revelam-se não ao pesquisador, mas no pesquisador, exercendo significativo impacto na personalidade do etnógrafo (PEIRANO, 1995). Nesse sentido, devido ao grau de imersão necessária e ao descentramento do olhar imposto pelos processos de estranhamento e familiarização (VELHO, 1978; MAGNANI, 2009), além da necessidade da experiência direta e prolongada do pesquisador, da observação detalhada e da precisão e sensibilidade na realização da pesquisa (INGOLD, 2008; ROCHA; ECKERT, 2008), há autores que preferem referir-se à etnografia como algo mais que um método. Alguns a caracterizam como uma prática descritiva (INGOLD, 2008), como um gênero de escrita social (WATSON, 2012), outros como uma postura (ROCHA ET AL, 2005), ou, ainda, como “a própria teoria vivida” (PEIRANO, 2008, p. 3). Por isso, pode-se dizer que a etnografiaé uma forma especial de operar em que o pesquisador entra em contato com o universo dos pesquisados e compartilha seu horizonte, não para permanecer lá ou mesmo para atestar a lógica de sua visão de mundo, mas para [...] comparar suas próprias teorias com as deles e assim tentar sair com um modelo novo de entendimento [...] (MAGNANI, 2009, p. 135). Observação e descrição, aqui, são aspectos complementares e simultâneos na construção da pesquisa, que ocorrem mediante percepção e ação do pesquisador (INGOLD, 2008). A percepção, certamente, não se dá somente através do ato de observar, mas também do ato de ouvir (FORSEY, 2010), que implica necessariamente uma posição dialógica, em que se constroem espaços para a verdadeira interlocução dos sujeitos pesquisados (URIARTE, 2012). A presença do pesquisador é, portanto, um dos aspectos centrais do trabalho etnográfico (DALLA CHIESA; FANTINEL, 2014), no qual reside a chamada autoridade etnográfica (CLIFFORD; GONÇALVES, 1998). Da mesma maneira, a dimensão da presença necessária a esse tipo de pesquisa faz com que a subjetividade do etnógrafo seja aspecto central na construção do estudo (MOHIA, 2008) e, sendo assim, a experiência pessoal, as interações e as reflexões desenvolvidas pelo pesquisador não podem ser eliminadas da etnografia (PEIRANO, 2008). Assim, a escolha de determinado objeto de pesquisa, as escolhas teóricas, a abordagem em campo, entre outros aspectos, encontram-se imbricados à personalidade do investigador. Entende-se que, estando 10 consciente deste fato e revelando-o claramente, tem-se dimensão das condições de produção do conhecimento. Ao invés de anular-se pretensamente pressupondo um distanciamento entre o pesquisador e sua pesquisa – com ambições positivistas –, a condição de produção etnográfica é justamente a interação e, portanto, a relação entre sujeito e objeto da pesquisa (DALLA CHIESA; FANTINEL, 2014, p. 11). Destarte, acredita-se que, na consecução da etnografia, o pesquisador não pode se isentar, seja do processo de pesquisa de campo ou da escrita, uma vez que suas experiências prévias e sua visão de mundo, bem como as condições que nortearam sua vida pregressa e presente influenciam suas opções concernentes à pesquisa. Da mesma maneira, o envolvimento do pesquisador com o campo é aspecto fundamental na construção da etnografia, e da consecução da observação participante nesse contexto, uma vez que “é raro o investigador que não sinta um profundo laço emocional pelo grupo social cuja vida partilhou tão intensamente” (CABRAL, 1983, p. 331). Nesse âmbito, há que se ressaltar que a riqueza ou pobreza dos dados coletados depende da sensibilidade e da empatia que se estabelecem entre pesquisador e pesquisados, além da própria capacidade daquele para ouvir e compreender estes últimos com base na emoção (CAVEDON, 2003). Essa contínua tensão entre aproximação e distanciamento (pois, afinal, o pesquisador nunca será um nativo) evidencia outro dilema nesse tipo de pesquisa. O observador participante encontra-se perante algumas armadilhas, uma vez que está frente a uma prática de natureza paradoxal: por um lado, tem-se o “perigo de cair na participação inobservante — com uma interiorização total dos interesses e ideais do grupo a estudar”; por outro, vê-se o risco de “cair numa observação distante e fria que lhe impeça uma visão ‘em profundidade’ do grupo social [...]”, fazendo com que os nativos se recusem “a ser estudados por alguém que não demonstre simpatia para com os seus ideais e interesses” (CABRAL, 1983, p. 332). Assim, “[...] o que se espera de um etnógrafo não é uma adaptação fácil nem total à sociedade que estuda: o observador participante nunca deve tornar-se unicamente um participante. [...] a participação total não é consistente nem conciliável com a observação intensa” (CABRAL, 1983, p. 332). O caráter distintivo da etnografia, contudo, reside igualmente em um tipo específico de escrita, tanto na produção das notas de campo quanto na forma final (EVANS, 2012). Assim, a experiência da observação participante em contexto etnográfico tem, como um de seus produtos, a escrita etnográfica, revelada nas dimensões do diário e do relatório final da pesquisa. A exposição dos sentimentos do pesquisador, já citada neste texto, é aspecto central na elaboração dos diários, que servem de base para a construção do texto etnográfico (CAVEDON, 2003). É no diário de campo que se exerce plenamente a “disciplina” etnográfica: deve-se aí relacionar os eventos observados ou compartilhados e acumular assim os materiais para analisar as práticas, os discursos e as posições dos entrevistados, e também para colocar em dia as relações que foram nutridas entre o etnógrafo e os pesquisados e para objetivar a posição de observador (WEBER, 2009, p. 158). Dessa forma, o diário de campo tem função de, além de diário de pesquisa, diário íntimo (WEBER, 2009). Na produção do texto etnográfico, que pode ser caracterizado pela escrita em tom confessional (KUNDA, 2013), tem-se por objetivo transmitir ao leitor a sensação de estar no campo, em contato com os nativos (GIUMBELLI, 2002), aproximandose mais de uma escrita literária que propriamente científica (GEERTZ, 2008). Assim, ainda 11 que instrumento polifônico, em que os diferentes interlocutores têm espaço e voz, a etnografia possui um autor, que é sujeito das ações de pesquisa, e, por ser fruto de sua experiência pessoal, suas percepções e discernimentos aparecem no texto: [...] o envolvimento é parte integrante do campo-ritual, que sentir o campo não significa perder a neutralidade [...]. É claro que o debate sobre a questão é antigo e produziu pérolas nesse sentido. Sabemos que o evento como apresentamos num formato final na verdade não existe, é uma construção do antropólogo, que reuniu informações suficientes para supor sua existência, mas estamos nos resguardando no que foi dito antes sobre a questão, explicitando exatamente quem disse o quê, em que momento e circunstância, para deixar claro onde o outro aparece e onde você está” (DIAS, 2008, p. 85). As emoções estão sempre envolvidas no encontro do pesquisador com os nativos e estão presentes nas monografias (TORNQUIST, 2007). O envolvimento emocional do pesquisador com o campo promove um encontro desse pesquisador consigo mesmo e com o ambiente de trabalho em si, até mesmo porque não somente os fatos observados, mas também os sentidos, compõem o fazer etnográfico (DIAS, 2007). Contudo, prossegue Dias (2007), cabe destacar que, apesar do fato de que tanto as escolhas como a escrita revelem um pouco do que o pesquisador é, existe uma distância significativa entre ter algum aspecto revelado pela biografia e produzir um trabalho essencialmente etnográfico. A autora argumenta que a supervalorização das relações ou das experiências vividas em campo para o crescimento pessoal pode comprometer o trabalho por completo. O objetivo não é a produção de uma “eutnografia”, mas sim de um trabalho que permita ampliar os conhecimentos sobre determinado grupo (DIAS, 2007). 4 Considerações sobre o embate: observação como técnica isolada versus etnografia Ao se confrontar os dilemas e implicações do uso de diferentes modalidades de observação como técnica de coleta de dados isolada com o uso da observação como técnica no contexto etnográfico fica claro que a distinção entre os dois caminhos são as diferentes ênfases na análise do próprio olhar do pesquisador. Esse processo é extremamente caro ao trabalho etnográfico, que se realiza em função dele, a partir da ancoragem das relações pessoais em seus contextos e do estudo das condições sociais de produção dos discursos (CARDOSO, 1986). Isto é, etnografia não se produz somente através da estada do pesquisador no campo, mas também a partir da presença do campo no pesquisador. Essa dimensão pessoalizada do texto etnográfico, perceptível na visibilidade do autor em relação à narrativa (DENZIN, 1999), é uma das razões para que autores como Leite-daSilva (2007) optem pelo distanciamento em relação à escrita etnográfica. Apesar de considerar que todo texto etnográfico tem uma dimensão de autocensura, na medida em que etnógrafos selecionam, dentre os materiais de pesquisa, incluindo diários, o que seria supostamente útil ou inútil para a construção da narrativa (WEBER, 2009), fala-se aqui em outro tipo de censura, que preza pela assunção da observação participante enquanto técnica de pesquisa, mas pela retirada do tom confessional ou literário do relatório final, de maneira que o produto da pesquisa não possa ser chamado de etnografia. Evidencia-se, pois, que esse tipo de escolha não tem a ver, necessariamente, com o momento da estada em campo, que, em alguns casos, pode até se aproximar de formas de acercamento inspiradas na etnografia, mas sim com a produção do texto etnográfico, em virtude da exposição dos sentimentos, expectativas e idiossincrasias do autor. 12 Dessa maneira, é possível dizer que essa censura representa uma opção de pesquisa relevante e não menos legítima que a etnografia, como se tenta apresentar aqui. Nesse sentido, as reflexões metodológicas que se colocam apontam para uma tendência em admitir-se uma pluralidade de técnicas para o acercamento do campo, inclusive aquelas de inspiração etnográfica. Contudo, uma vez que nem todos os autores sentem-se confortáveis na colocação de seu envolvimento com o campo, expondo-se enquanto sujeitos da pesquisa, tal opção reveste-se de caráter válido, até mesmo por, paradoxalmente, ela mesma já refletir as opções do pesquisador, algo tão discutido e valorado pelos próprios etnógrafos. Todavia, essa escolha tem implicações, conforme discutido neste texto, e, dentre elas, uma das mais importantes é a caracterização do texto não como uma etnografia, mas como uma pesquisa que se utiliza da observação participante. Esse rigor na identificação da opção adotada pelos autores e o reconhecimento das implicações de cada escolha é a contribuição que esta discussão deixa para os que optarem por um dos dois caminhos aqui discutidos. Referências ALENCAR, E. Introdução à metodologia de pesquisa social. Lavras: UFLA, 1999. BLALOCK JR., H.M. Introdução à pesquisa social. Rio de Janeiro, Zahar, 1973. BRESLER, R. 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