UM ESTUDO SOBRE OS DESAFIOS INERENTES AOS CONFLITOS URBANOS ADVINDOS DAS RELAÇÕES ENTRE ESPAÇO, TERRITÓRIO E QUESTÃO SOCIAL Ana Cristina Fonseca de Vasconcelos Ana Paula Carvalho Otoni Resumo O estudo proposto buscou abarcar os trâmites na busca pelo direito à ocupação de espaço simbólico em uma sociedade estratificada, cuja urbanização gerou transformações de cunho multidimensional (econômica, política, cultural e física). Pretendemos refletir em bases teóricas acerca de como os espaços urbanos, compreendidos como produtos sociais determinados historicamente, têm sido espaço de reprodução de conflitos (violência e criminalidade) em territórios com características peculiares e abarrotados de valores simbólicos e ausência de recursos. Especificamente, buscamos entender brevemente a dinâmica que rege os modelos de políticas públicas de segurança implementadas nos âmbitos federal, estadual e municipal; destacando o exemplo do município de Montes Claros. A estratégia metodológica utilizada no presente trabalho consiste na pesquisa bibliográfica e na análise de dados secundários. Os aspectos que nos despertaram para o mérito e importância ímpar da referida discussão, são relativos à necessidade de entendimento dos princípios que norteiam as ações dos atores sociais envolvidos, sejam eles agentes dos conflitos ou intermediadores deles. A hipótese que orientou este estudo, parcialmente confirmada ao final, é de que há uma crescente e latente necessidade da modernização dos procedimentos, no sentido de implantar medidas de médio a grande alcance social, coerentemente com a realidade pós-moderna e sua complexa teia de demandas insurgentes no espaço urbano. Palavras-chave: Violência, Criminalidade, Espaço, Território. UM ESTUDO SOBRE OS DESAFIOS INERENTES AOS CONFLITOS URBANOS ADVINDOS DAS RELAÇÕES ENTRE ESPAÇO, TERRITÓRIO E QUESTÃO SOCIAL Ana Cristina Fonseca de Vasconcelos Ana Paula Carvalho Otoni Introdução O presente artigo tem como título "Um estudo sobre os desafios inerentes aos conflitos urbanos advindos das relações entre espaço, território e questão social”. Ao pretender discutir a problemática apontada, buscamos compreender o histórico do planejamento das políticas públicas de segurança no Brasil, tendo como parâmetro a cidade de Montes Claros / Minas Gerais, e, a relação existente entre violência, criminalidade e território. Este estudo se desenvolveu sob a perspectiva de análise de dois fatores relativos ao tema em foco: (a) as altas taxas de violência e de criminalidade que atingiram o Brasil a partir da década de 1990; (b) a complexa teia de significações que implica tratar de violência e criminalidade, considerando a sua predominância em determinadas localidades. A percepção do tema sugere alguns questionamentos: como o problema deve ser enfrentado? Quais os fatores determinantes que devem ser levados em consideração no momento da elaboração das políticas de segurança pública? A partir dessas questões, foi possível refletir, ao longo do trabalho, com base em informações e análises feitas por estudiosos do tema, sobre as políticas públicas que estão em vigência nos contextos Brasil – Minas Gerais – Montes Claros. O objetivo foi exemplificar, com base na realidade do município de Montes Claros, ainda que de forma superficial, a relação existente entre os conflitos urbanos de origem violenta em determinado espaço e território. Tem-se, ainda, como propósito, compreender a evolução da efetiva entrada da violência e da criminalidade na pauta dos debates acerca do assunto, tendo recebido destaque a partir de indicadores que apontam para a brusca e multifacetada evolução do problema. A metodologia de investigação adotada neste trabalho é substancialmente simples e possui um caráter teórico-bibliográfico, que foi empreendido através da leitura e análise de pesquisas anteriores, focando a mobilização das principais categorias conceituais concernentes ao tema escolhido. 1 - As políticas públicas de controle social no Brasil: um breve histórico Comumente, os meios de comunicação de massa buscam aumentar seus índices de audiência mostrando à sociedade, de modo às vezes sensacionalista, o notório aumento da criminalidade, em especial a urbana. Essa perceptível e amplamente divulgada escalada da violência nas cidades vem representando uma ameaça constante à sociedade e, por isso mesmo, atestando a necessidade de elaboração de políticas de segurança advindas das instituições públicas no âmbito da União, dos estados e dos municípios. O fato é que, no Brasil, como no restante do mundo, entre os citados especialistas e gestores, estudiosos e profissi onais que atuam na formulação de políticas públicas, especialmente na área de segurança, o problema da violência urbana e dos conflit os advi ndos del a, são constantemente discutidos. Esses grupos de atores interessados na questão da criminalidade se vêem com o desafio de decidir sobre a implantação de medidas preventivas e/ou punitivas, que devam ter alcance sobre uma população estratificada e heterogênea, que é marcada pela desigualdade em todas as suas faces. Em seus estudos, Cano (2006), relata que a crise da segurança pública provocou pressão da sociedade sobre os governos, exigindo que os poderes públicos interviessem de maneira mais ativa na solução do problema. É certo que muito da pressão social, bem como das reações dos governos, se deve à notoriedade de fatos brutais de violência noticiados na mídia. Um dos casos mais dramáticos e influentes, provavelmente, foi o que se deu em 2000, envolvendo o seqüestro do ônibus 174 no Rio de Janeiro2. Nesse mesmo ano, o governo Fernando Henrique Cardoso lançou o Plano Nacional de Segurança Pública. Segundo Cano (2006), esse período reflete a tendência dos poderes públicos de formular respostas imediatas a episódios de crises na segurança pública, em vez de optar por uma abordagem planejada em função de indicadores e dados globais. O Plano Nacional de Segurança Pública criado pelo governo FHC continha uma média de 15 compromissos e 124 ações concretas, com as quais o governo federal se comprometia a intervir contra a violência, particularmente contra a violência urbana. Algumas ações eram exclusivas do governo federal e outras deveriam ser executadas em conjunto com as autoridades estaduais e municipais (Cano, 2006). Para alguns críticos, o Plano simplesmente reclassificava algumas ações que já estavam sendo realizadas ou estavam em fase de projeto, vinculando-as nesse momento à área de segurança. Desta forma, constituía-se um programa inter-setorial – nomeado como Plano Nacional – que pretendia coordenar e maximizar os resultados de várias agências governamentais. Ao mesmo tempo, propunha-se a ação coordenada dos três níveis do poder público, bem como o apoio mais efetivo aos governos locais. O foco dessa estratégia política eram os jovens entre zero e vinte e quatro anos, isto é, envolvia prioritariamente crianças e adolescentes em estado de vulnerabilidade social. (CANO, 2006) No contexto das medidas políticas acima citadas, o governo federal criou o Fundo Nacional de Segurança Pública, com a finalidade de financiar projetos de estados e municípios que cumprissem determinados requisitos – eficiência, transparência, respeito aos direitos humanos – que o governo federal julgasse prioritários. O objetivo era que o governo federal pudesse induzir políticas públicas reformistas nos estados, através do financiamento seletivo, sem ferir suscetibilidades. (CANO, 2006) Neste período, ainda foi reorganizada e fortalecida a Secretaria de Segurança Pública (SENASP) do Ministério da Justiça, com o intuito de acompanhar e implementar novas atividades. Anteriormente, este órgão tinha uma atuação mais discreta, o que deveria, a partir de então, esforçar-se para impulsionar o estabelecimento de condições de cooperação entre as instituições da segurança pública; o apoio a iniciativas visando à qualificação policial; o investimento na expansão das penas alternativas à privação da liberdade; o desenvolvimento de novas perspectivas de gestão nas polícias estaduais e nas secretarias de segurança, através da elaboração de planos de segurança pública nos quais se definissem metas a alcançar. No ano de 2003, já em exercício, o governo Lula elaborou um novo Plano, com apoio de gestores, especialistas, pesquisadores, lideranças da sociedade civil e profissionais de diversas instituições do país. À Secretaria Nacional de Segurança Pública - órgão do Ministério da Justiça - cabia a execução do Plano que teve como autor, o então Secretário Nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares que enumerou os seguintes objetivos a serem alcançados nas primeiras etapas de execução do mesmo, a saber: 1. Construir um consenso com os governadores em torno do próprio Plano, de suas virtudes, sua conveniência, sua oportunidade, sua viabilidade, demonstrando os benefícios que proporcionaria para o conjunto do país e para cada estado, em particular, se fossem feitos os esforços necessários, em moldes cooperativos, suprapartidários, republicanos, para que se superassem as resistências corporativas, as limitações materiais, as dificuldades operacionais e de gestão, e se implementassem as medidas propostas. 2. Os pontos fundamentais do acordo a celebrar seriam a normatização do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e a desconstitucionalização3 das polícias. 3. Aos governos estaduais e ao governo federal, caberia instal ar Gabinetes de Gestão Integrada da Segurança Pública (GGI), um em cada estado, que funcionaria como braço operacional do SUSP e começaria a trabalhar com base no entendimento político, antes mesmo da normatização que o institucionalizaria. As decisões seriam tomadas apenas por consenso, para que se eliminasse o principal óbice para a cooperação interinstitucional: a disputa pelo comando. 1 Em entrevista concedida ao sítio eletrônico: “Comunidade Segura: Rede de Idéias e Práticas em Segurança Humana”, em 20/09/2006, Luiz Eduardo Soares esclarece que desconstitucionalização das polícias consiste na determinação de exigências mínimas, no que tange à burocracia institucional, para esta instituição. Para ele, a necessidade desta medida se justifica no fato de dar autonomia às instâncias estaduais da federação, para que decidam que modelos de polícia desejam ter (respeitando princípios constitucionais e as normas do SUSP). Considerando que os estados, seus problemas, suas polícias e as suas realidades políticas são diferentes. 4. Cumpriria ao governo federal, por sua vez, não contingenciar os recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública, em 2003; e aumentá-lo, consideravelmente, nos anos subseqüentes que seria aceito pelos credores como a contrapartida do governo federal. 5. Também competiria ao governo federal enviar ao Congresso Nacional a emenda constitucional da desconstitucionalização das polícias e, como matéria infraconstitucional, a normatização do Sistema Único de Segurança Pública. 6. Uma vez endossados os termos do acordo com os 27 governadores, o presidente os convocaria para a celebração solene do Pacto pela Paz, reiterando, politicamente, o compromisso comum com a implantação do Plano Nacional de Segurança Pública. Embora as primeiras etapas do Plano tenham sido colocadas em prática, o governo começou a dar sinais de sua indisposição para prosseguir integralmente com os compromissos assumidos. Após passar pela adesão dos governos estaduais ao projeto do governo federal, o presidente Lula não confirmou sua participação no Pacto Nacional, o que impossibilitou o cumprimento do passo número seis. Segundo Soares (2006), o presidente reviu sua adesão ao Plano e desistiu de seguir no caminho previsto porque percebeu – na interlocução com a instância que, na época se denominava “núcleo duro do governo” – que seguir o inicialmente planejado implicaria assumir um importante papel na reforma institucional da segurança pública no país, ou seja, implicaria assumir a responsabilidade pela segurança perante a opinião pública. Seria este um risco político, já que os efeitos práticos das medidas adotadas só seriam vistos em longo prazo e resultaria em um desgaste da imagem do governo. Fazendo um balanço dos acordos firmados pelo Plano Nacional de Segurança Pública no primeiro mandato do governo Lula, percebe-se que dois dos importantes compromissos originais do Plano Nacional de Segurança Pública foi descumprido. Um deles foi a elevação do status da SENASP para o nível ministerial, tornando-a uma Secretaria Especial ligada à Presidência da República, para cujo âmbito seriam transferidas ambas as polícias federais. O outro foi o deslocamento da Secretaria Nacional Antidrogas4 (SENAD) para, a já reforçada, SENASP ou para o Ministério da Justiça ou da Saúde. Ambos os acordos não foram concretizados. (SOARES, 2007) Ao lançar em agosto de 2007 o PRONASCI – Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, programa que permanece vigente, o governo Lula, já em seu segundo mandato, se compromete a articular políticas de segurança com ações sociais, priorizando a prevenção e buscando atingir as causas da criminalidade. O PRONASCI destaca-se por priorizar a valorização dos profissionais de segurança pública; a reestruturação do sistema penitenciário; o combate à corrupção policial e o envolvimento da comunidade na prevenção da violência. De acordo com o site oficial do Ministério da Justiça, até o ano de 2009 o PRONASCI chegou aos seguintes estados: Alagoas, Acre, Bahia, Ceará, Espírito Santo, 4 A SENAD é tradicionalmente dirigida por militares e tem atribuições na área de prevenção. Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, São Paulo e Sergipe, e ao Distrito Federal e entorno. Soares (2007) afirma que o PRONASCI reitera o Plano Nacional de Segurança Pública do primeiro mandato do governo Lula, plano este que, já incorporava o modelo do Plano do governo FHC. Todavia, se comparadas às medidas adotadas no âmbito da Segurança Pública nos dois mandatos do presidente Lula, o PRONASCI tem a seu favor uma Medida Provisória (MP) que o institui, que implica o envolvimento formal do governo. A MP prevê a explicitação do recurso a ser utilizado pelo Programa em seis anos, ou seja, o próximo governo deverá dar continuidade pelo menos nos dois primeiros anos de mandato; prevê, ainda, que haverá uma instituição responsável pelo acompanhamento e avaliação do Programa, com vistas a garantir a construção de indicadores sociais. Em suma, os mandatos presidenciais de FHC e Lula, destacam-se por uma seqüência de tentativas e esforços para minimizar a questão da violência e da criminalidade. Dentre estas tentativas, observa-se um impulso do governo federal em criar uma rede junto aos estados e municípios para agir de forma unificada na prevenção e na busca por alcançar as causas de tal problemática. Ainda que timidamente, este período é marcado por uma evolução no pensamento acerca da violência e da criminalidade, bem como nos demais conflitos urbanos, pois alguns dos programas implantados foram pensados com efeitos em longo prazo, porém, não se deve desprezar o fato de que a sociedade está cada vez mais complexa em suas necessidades, e, os fenômenos sociais encontram, de tempos em tempos, inúmeras formas de se organizar e sofisticar. Sendo, portanto, a violência reconhecida não somente como um item relacionado aos direitos humanos e à justiça social, mas também como um problema que afeta o crescimento econômico, a produtividade, os níveis de pobreza e as formas de apropriação de espaços públicos físicos e simbólicos, ou seja, a acessibilidade no âmbito físico-social especialmente nos grandes centros urbanos - a discussão adquiriu maiores proporções. 2 - O modelo político adotado em Minas Gerais Em seu artigo “Minas Gerais e suas Políticas Sociais” publicado no ano de 2006, Rudá Ricci destaca que as políticas sociais estaduais possuem uma característica específica, determinada pelo recente processo de descentralização administrativa da área e da natureza das prioridades históricas dos estados, enquanto entes federativos. 5 Segundo Ricci (2006), a descentralização das políticas sociais ocorridas a partir da década de 90 foi induzida pelo governo federal, sendo que as mesmas não estão no centro da legitimação dos governos subnacionais, isto é, não existe uma tradição de políticas sociais sistêmicas no âmbito das instâncias estaduais e municipais no Brasil. 5 In: Revista Espaço Acadêmico, n°61, Ano VI, Belo Horizonte: PUC; junho de 2006. O fato é que boa parte dos governos subnacionais são institucionalmente frágeis, o que traduz-se em ineficiência política, decorrente, em grande parte, da baixa legitimidade, da descrença dos cidadãos em suas instituições, das opiniões generalizadas de que as instituições existem para atender a fins privados e acolher os interesses dos privilegiados. A isso se soma o problema de que vários segmentos da opinião pública e até mesmo alguns políticos se recusam muitas vezes a enfrentar a segurança pública como um problema dotado de alguma especificidade, preferindo pensá-la mais de maneira mais abstrata e genérica, isto é, como sintoma de causas e determinações estruturais de natureza sócioeconômica. (ADORNO, CÁRDIA E POLETO, 2003) Este contexto de comodidade dos governos estaduais perante as políticas públicas de segurança teve que ser modificado, em decorrência dos alarmantes níveis de crescimento da violência e da criminalidade. Tomemos como exemplo o caso do estado de Minas Gerais. Em Minas Gerais, a organização de um sistema de informações sobre a criminalidade violenta nos municípios do estado foi iniciada no ano de 1999, sendo detectado um contexto de crescente ocorrência dos casos de violência e criminalidade no estado, que instigou, no ano de 2003, o governo de Aécio Neves a buscar alternativas de efeito no combate à criminalidade. Como medida inicial, foi criada em 2003 em substituição à Secretaria de Segurança e à Secretaria de Justiça, com o intuito de promover a segurança da população e desenvolver ações de prevenção à criminalidade, integração operacional dos órgãos de Defesa Social, custódia e reinserção social dos indivíduos privados de liberdade, bem como o Colegiado de Integração de Defesa Social (instância deliberativa máxima do Sistema de Defesa Social, que tem como responsáveis os representantes de cada corporação que compõe o Sistema de Defesa Social – Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiro, Defensoria Pública e SEDS) que tem como função discutir, planejar e deliberar ações. Criou-se também, os chamados eixos da política de segurança pública. São quatro eixos com metas específicas: reforma e profissionalização do sistema prisional; atendimento às medidas sócio-educativas; integração policial e prevenção social da criminalidade. Vejamos no mapa a seguir - que apresenta as taxas de violência e criminalidade do estado de Minas Gerais no ano de 2007 - altas taxas concentradas nas grandes e médias cidades mineiras. MAPA I – Taxa média de crimes violentos por 100 mil habitantes / Minas Gerais Fonte: Anuário estatístico da Secretaria de Estado de Defesa Social do governo do estado de Minas Gerais. Observa-se maior concentração dos casos de violência nos maiores municípios mineiros e no seu entorno. O fenômeno é especialmente notório na Região Metropolitana de Belo Horizonte, no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, no Noroeste de Minas, em Montes Claros e em seu entorno, nos municípios de Teófilo Otoni e Governador Valadares e suas regiões circunvizinhas, sendo que também se destacam municípios isolados da Zona da Mata e do Sul de Minas. Observamos que a violência se manifestação como fruto dos conflitos presentes na sociedade que está vinculada (grandes e médios centros urbanos), tendo também, a segregação sócio-espacial como conseqüência da ausência de planejamento urbano e políticas públicas de controle social que visem atender a essa demanda. 3 – Uma análise sobre o município de Montes Claros / MG Conforme buscamos demonstrar anteriormente, embora grande parte das competências relacionadas às políticas públicas de segurança sejam atributos do governo federal e, prioritariamente, dos governos estaduais, os municípios também têm buscado intervir no contexto da segurança pública local de forma relativamente autônoma. Tendo em vista as políticas públicas de segurança e a questão federativa no Brasil, em que os estados e municípios têm autonomia para estabelecer suas ações prioritárias – podendo estas estarem ou não em concordância com as prioridades do governo federal – deve-se ressaltar a relevância da atuação dos governos no âmbito das administrações municipais. Os municípios brasileiros tendem a envolver-se, em geral, em programas de prevenção, pois não costumam contar com aparatos de repressão tradicional, como as corporações de policiais militares armados, as instituições prisionais, etc. Não obstante isso, alguns municípios contam com a guarda municipal, que, atualmente, inclusive no município de Montes Claros, tem sido incumbida de atuar não somente para vigiar os prédios públicos, mas também para assegurar a segurança pública. Por se encontrar em evidência na maioria das estimativas resultantes de pesquisas que avaliam os índices de violência e de criminalidade de Minas Gerais, assim como por seu perfil sócio-demográfico demonstrar sua característica de cidade pólo do Norte de Minas Gerais - levando em consideração as demandas de atendimento em saúde, educação e demais serviços desta região - o município em comento vem se tornando um aglomerado urbano com suas inerentes complexidades, e, por conseguinte, sede dos principais programas implementados em parceria com o governo estadual. 3.1 Perfil sócio-demográfico do Município de Montes Claros / MG O município de Montes Claros está localizado ao Norte do estado de Minas Gerais, na Bacia do Alto Médio São Francisco. Classificada na categoria de cidade de porte médio na hierarquia urbana nacional, Montes Claros possui área de 3.588,82 Km2, e é considerada um eixo entre grandes centros urbanos, sendo o segundo maior entroncamento rodoviário do país, atendido pelas principais rodovias brasileiras. Em decorrência desta situação geográfica e rodoviária, Montes Claros se transformou no principal centro urbano do Norte do estado, apresentando características de uma metrópole regional, com influência no Vale do Jequitinhonha, Vale do Mucuri e Sul da Bahia.6 A economia do município é diversificada pelas atividades agropecuárias, industriais e de prestação de serviços, com predominância no setor terciário - prestação de serviços. Em seguida, se destaca o setor secundário, com seus complexos industriais de grande porte e unidades produtivas de pequeno e médio porte. A renda per capita da população de Montes Claros é de R$ 245,43, abaixo da renda per capita de Minas Gerais, que é de R$273,00 e acima da renda calculada para as demais cidades do Norte de Minas, que é de R$133,00. Segundo a Ouvidoria da Polícia Militar do estado, o índice de GINI é de 0,627. 6 Dados obtidos em documento interno da Secretaria Municipal de Defesa Social e Transportes, expedido em agosto de 2009. 7 O índice ou coeficiente de Gini mede o grau de desigualdade na distribuição de renda em uma determinada população. O índice varia de 0 (zero) a 1 (um), sendo “zero” o indicador de uma distribuição perfeita de renda, de modo que todos tem renda idêntica, e “um” o indicador de concentração máxima da renda, de modo que toda a renda de uma sociedade está nas mãos de uma única pessoa. A população do município é estimada em 363.226 habitantes, conforme dados do IBGE e censo realizado pela Secretaria Municipal de Saúde em 2009, sendo que 94% da população concentra-se na área urbana. Montes Claros tem como característica uma população jovem, sendo que cerca de 35% dos habitantes tem idade inferior a 19 anos e 8,86% da população possui mais de 60 anos. A faixa etária predominante está compreendida no intervalo de 10 a 29 anos, correspondendo ao percentual de 37,6% da população total. De acordo com o Atlas da Exclusão Social no Brasil (Pochmann, 2003), o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano de Montes Claros –, no ano de 2000 era de 0,783. O IDH varia de zero a um, sendo zero (nenhum desenvolvimento humano) e 1 (desenvolvimento humano total). Segundo a classificação do PNUD, Montes Claros está entre as regiões consideradas de médio desenvolvimento humano, apresentando uma situação razoável entre os municípios do estado (101ª posição) e do país (969ª posição). TABELA 1 – Porcentagem de Exclusão Social do Ano de 2000 na Cidade de Montes Claros / MG Indicador de exclusão social e seus componentes - Montes Claros, 2000 Índice de Pobreza 0,534 Índice de Juventude 0,628 Índice de Alfabetização 0,864 Índice de Escolaridade 0,609 Índice de Emprego Formal 0,169 Índice de Violência 0,991 Índice de Desigualdade 0,143 Índice de Exclusão Social 0,517 Fonte: POCHMANN, Marco Amorim (orgs.) Atlas da Exclusão Social no Brasil 2 ed.; São Paulo: Cortez, 2003. Na tabela 2, é possível ver outros indicadores que compõem o índice de exclusão social. Este índice também varia de zero a um, sendo que os valores próximos de um são mais positivos. Em geral, percebe-se pelos números mostrados que a cidade de Montes Claros reflete uma realidade – geográfica, demográfica, econômica e social – complexa, com características costumeiramente associadas a taxas relevantes de criminalidade, notadamente de criminalidade violenta. 3.2 Índices de violência e de criminalidade no município de Montes Claros / MG Conforme estudo elaborado pela Fundação João Pinheiro (FGP) e pelo Núcleo de Estudos em Segurança Pública (NESP), Montes Claros se caracteriza como um município com incidência muito alta de criminalidade – especificamente no que tange aos crimes violentos contra a pessoa e aos crimes violentos contra o patrimônio. Nesse referido estudo, constatou-se que, com relação aos homicídios, dados comparativos registram um aumento de 55,46%, de 2006 para 2007; e de 11,02% de 2007 para 2008. Dito em outros termos, a taxa de homicídios subiu de 1,58 ocorrências por 100 mil habitantes em 2007 para o patamar de 1,76 em 2008. Descritas algumas características geográficas, urbano-demográficas e sociais de Montes Claros, cabe apresentar algumas informações sobre o desenvolvimento das taxas de criminalidade e violência na cidade. Conforme demonstra o gráfico 1, abaixo, o aumento da taxa de crimes violentos de 2006 para 2007 em Montes Claros foi seguido por uma diminuição de 2007 para 2008. Em 2007 foram registradas 77,63 ocorrências mensais, em média, para cada 100 mil habitantes no município. Em 2008, por sua vez, esse patamar foi de 50,19 ocorrências, representando uma queda de 35,29%. No acumulado, de 2006 a 2008, apresenta-se uma queda de 34,01%. Gráfico 1 – Taxas de crimes violentos por 100 mil habitantes / Montes Claros - MG Fonte: Anuário estatístico da Secretaria de Estado de Defesa Social do governo do estado de Minas Gerais. No caso dos homicídios, observa-se um aumento na taxa média registrada, de 55,46% de 2006 para 2007 e de 11,02% de 2007 para 2008. Quanto a outro tipo de crime – o roubo – os dados mostram que apenas entre 2006 e 2007 a tendência é semelhante aos de crimes violentos, acima mostrados. De 2007 para 2008, a tendência se inverte, indicando uma queda na incidência de casos. Em 2007 foram observadas 72,77 ocorrências mensais por 100 mil habitantes, em média, para este tipo de crime. Mas, em 2008 o nível observado foi de 46,61 ocorrências para cada grupo de 100 mil habitantes. Gráfico 2 – Taxas de roubos por 100 mil habitantes / Montes Claros – MG Fonte: Anuário estatístico da Secretaria de Estado de Defesa Social do governo do estado de Minas Gerais. 3.3 Medidas de controle social no município de Montes Claros / MG Considerando o perfil sócio-demográfico traçado, bem como os indicadores que evidenciam os níveis de criminalidade e violência da cidade em comento, citemos as principais medidas de combate e de prevenção implantadas. Para melhor compreender a atuação de cada programa, é necessário que se entenda a estrutura organizacional dos órgãos de segurança pública do município. São eles: I – Polícia Militar de Minas Gerais: a) 10° Batalhão de Polícia Militar; b) 11° Comando de Polícia Militar; c) 3ª Companhia de Meio Ambiente e Policiamento Rodoviário; II – 7° Batalhão de Bombeiro Militar; III – 11° Departamento de Polícia Civil; IV – 8ª Delegacia Regional de Segurança Pública; V – Delegacia da Polícia Federal; VI – Delegacia da Polícia Rodoviária Federal; VII – Guarda Municipal da Secretaria Municipal de Defesa Social e Transportes. A cargo da Secretaria Municipal de Defesa Social e Transportes da Prefeitura de Montes Claros, estão os programas de prevenção ou de combate à violência e criminalidade, que são subdivididos em: I – Programas de cunho preventivo: Programa Mediação de Conflitos; Programa Fica Vivo!; CEAPA – Central de Penas Alternativas; Programa de Reintegração Social dos Egressos do Sistema Prisional – PRSESP. Os programas de prevenção à criminalidade e à violência tomam corpo através do Núcleo de Prevenção à Criminalidade (NPC), que é o espaço de referência para os programas caracteristicamente preventivos, e se encontra presente em cidades e localidades com altos índices de crimes violentos. Em Montes Claros funcionam dois NPC’s: um no bairro Cidade Cristo Rei e outro no bairro Santos Reis. Tais núcleos, antes de serem implantados, foram norteados pela administração municipal, bem como pelas comunidades locais, sobre quais seriam as melhores áreas para a instalação dos núcleos, apontando os principais locais de conflito, as localidades neutras e também pontos onde os jovens poderiam circular pela região. Suas intervenções são realizadas por equipes técnicas que desenvolvem, em parcerias com instituições públicas e privadas e lideranças comunitárias, diagnósticos quantitativos e qualitativos da criminalidade; fóruns comunitários, grupos de gestores locais, planos locais de prevenção, policiamento comunitário, seminários e mobilizações comunitárias, atividades coletivas de cidadania e atendimento a demandas individuais e coletivas. Os Núcleos de Prevenção à Criminalidade – NPC são viabilizados pela tutela do município de Montes Claros, todavia, estão diretamente ligados à Superintendência de Prevenção à Criminalidade (SPEC), um órgão do estado, subordinado à Secretaria Estadual de Defesa Social – SEDS. Os núcleos do Programa Fica Vivo! no município de Montes Claros oferecem oficinas de teatro, dança de salão, aeróbica, axé, capoeira, informática, break, rap, grafite, D.J., futebol de campo, vôlei e arte em sucata. Enquanto o Programa Mediação de Conflitos realiza atendimentos extrajudiciais, para a resolução de problemas interpessoais e coletivos, como briga entre casais, briga entre vizinhos e reconhecimento de paternidade. Segundo dados da Prefeitura Municipal de Montes Claros, além do NPC do “Grande Santos Reis” oferecer as assistências cabíveis aos programas Mediação de Conflitos, Fica Vivo!, Central de Penas Alternativas – CEAPA e Programa de Reintegração Social dos Egressos do Sistema Prisional – PRSESP, o núcleo instituiu, em maio de 2009, o Projeto Cozinha Comunitária. O projeto foi denominado “Projeto Cozinha Bem Servir” e consiste em um grupo de 10 pessoas, entre homens e mulheres, do bairro Santos Reis, que se formou a partir de um diagnóstico obtido pelo programa Mediação de Conflitos. Nesse diagnóstico, constatou-se que várias famílias, que sobreviviam com valores inferiores a um salário mínimo, viviam em situação favorável à marginalização. As famílias foram convidadas a participar de um grupo, a montarem o seu negócio, sendo que “a idéia da cozinha partiu da própria comunidade”, salientou Noelma Rezende, então advogada do Programa Mediação de Conflitos de Montes Claros do bairro Santos Reis. O Projeto trabalha com a venda de marmitex, salgados e encomendas, na cozinha cedida pela Pastoral da Criança do bairro, onde o almoço é preparado todos os dias. São feitas pelo menos 400 refeições por mês. O marmitex é vendido a R$ 5,00 e o prato feito (PF) a R$ 3,50, para a comunidade. O dinheiro arrecadado é destinado para cobrir os gastos da cozinha, e o lucro é dividido entre todos. Não há um líder definido na Cozinha, as decisões são tomadas em conjunto. De acordo com a então gestora do NPC de Montes Claros, Elizabeth Aguiar, os integrantes da Cozinha Bem Viver passaram por uma formação integral em cursos de culinária, orientação com nutricionistas, vigilância sanitária e noções de associativismo e cooperativismo. Segundo Aguiar, a Prefeitura Municipal proporciona toda a estrutura física, como pagamento de aluguel, manutenção, zeladoria e vigilância do patrimônio público. O programa conta, ainda, com o apoio da Associação dos Moradores do Bairro Santos Reis, Universidade Estadual de Montes Claros - Unimontes, por meio da Incubadora Tecnológica Científica de Cooperativas Populares (ITCP), Pastoral da Criança, Igreja Católica e Empresa Vallée Nordeste. Desde o início de sua atuação no ano de 2006 no Grande Santos Reis, o NPC estabeleceu ações com abrangência de 22 bairros considerados área de risco social, por conta dos altos índices de violência. Outra medida a ser mencionada é o Programa de medidas sócio-educativas e/ou de combate: Programa Liberdade Assistida, que funciona através da Secretaria Municipal de Defesa Social e Transportes de Montes Claros, junto ao convênio com a Secretaria Estadual de Defesa Social (SEDS), que visa reintegrar o jovem infrator à escola, à família e à sociedade. Cita-se, ainda, o NAVCV - Núcleo de Atendimentos às Vítimas de Crimes Violentos, que por meio de entre a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (SEDESE) e a Secretaria de Defesa Social da cidade, conta com uma equipe multidisciplinar formada por técnicos da área de direito, psicologia e de serviço social, que tem o objetivo de acolher, orientar e buscar providências legais às vítimas de crimes violentos e/ou seus familiares. É relevante remeter, ainda, à criação da Guarda Municipal de Montes Claros no ano de 2001, que atua na vigilância de edifícios públicos, parques e monumentos, entretanto, através da perspectiva de Cano (2006), tal segmento institucional é utilizado para funções que extrapolam suas atribuições originais. Esta tendência tem sido adotada freqüentemente, inclusive na cidade de Montes Claros onde a Guarda Municipal se enquadra no perfil de assessoramento da segurança pública municipal. Vale referir, também, a um instrumento de auxílio às medidas preventivas da violência e criminalidade no município de Montes Claros que foi inaugurado em julho de 2007; trata-se de um sistema de câmeras de monitoramento eletrônico da ação de criminosos no centro comercial de Montes Claros, conhecido como Olho – Vivo, que visa aumentar a vigilância e, com isso, reduzir a criminalidade nesta localidade. No tocante à articulação intergovernamental das políticas em contexto federativo, percebe-se, uma tentativa de integração entre a instância municipal e estadual, sendo que os convênios firmados entre estes dois vértices do poder público, bem como as contrapartidas estabelecidas entre ambos, têm gerado e mantido os programas de prevenção e/ou combate à violência no referido município. Particularmente, Montes Claros mostra-se um município tendente a adotar medidas de prevenção, combinadas com estratégias de mediação de conflitos, de forma a estabelecer proximidade com as comunidades, com o intuito de alcançar os conflitos sociais de diversas naturezas nesta localidade. 3.4 Violência e criminalidade versus espaço e território A área urbana do município de Montes Claros é constituída por vários territórios, sendo que dois deles se destacam pelos seus altos índices de violência e de criminalidade, que são: o bairro Cidade Cristo Rei, popularmente conhecido como Feijão Semeado, e o bairro Santos Reis e adjacências. Segundo o relatório da Secretaria Municipal de Defesa Social e Transportes de Montes Claros, emitido em agosto de 2009, a principal característica destes territórios urbanos detectada pela sociedade e vivenciada, muitas vezes de forma trágica, pelos moradores dos referidos bairros, refere-se à sensação aguda de insegurança, devido, entre outros fatores, a uma forte presença e domínio do tráfico de drogas. Na perspectiva da Secretaria de Defesa Social, essa situação dificulta o desenvolvimento sistemático de serviços e políticas públicas. O relatório atenta, ainda, para o fato de as características sócio-espaciais do bairro Cidade Cristo Rei facilitarem as ações ilícitas, uma vez que o mesmo está inserido na região central da cidade, facilitando, desta forma, o acesso aos pontos de tráfico de drogas, isto é, aos locais onde as facções criminosas atuam. Com isso, aumenta-se a vulnerabilidade social dos moradores e não moradores – especialmente dos jovens usuários e daqueles que são atraídos pela atividade criminosa em busca, sobretudo, de renda. A região do Grande Santos Reis – junção de vários bairros próximos ao bairro Santos Reis – abrande 18 bairros periféricos, e tem uma população de 35.000 habitantes, sendo que 65% da sua área total é ocupada pelo Distrito Industrial. Destes 18 bairros, pelo menos 5 recebem a classificação oficial de “aglomerados subnormais”, ou seja, favelas. Cerca de 56% dos seus moradores tem idade inferior a 25 anos, sendo que a faixa etária de 14 a 24 anos corresponde a 25% da sua população. Segundo a Secretaria Municipal de Defesa Social e Transportes de Montes Claros, esta alta concentração de jovens entre os residentes do Grande Santos Reis, constitui um dos fatores que favorecem o aumento progressivo dos índices de criminalidade no município. Acerca das características descritas de ambas as regiões, destacamos um fator fundamental para o estabelecimento das conexões necessárias ao entendimento desse trabalho; versa-se sobre a relação existente entre o fato de tais regiões serem periféricas em termos de localização no sítio urbano, bem como por conta das dificuldades de acesso tidas pelos moradores de tais territórios. Em tempos de acesso rápido às informações, estas chegam por meios de comunicação, tantas vezes, imbuídos de apelos midiáticos e manipuláveis (Hall, 1997); o que influencia as formas de apropriação espacial, sejam elas de cunho concreto ou simbólico dos sujeitos. É notória uma peculiaridade aos tipos de políticas públicas implantadas nas regiões do Grande Santos Reis e do Cidade Cristo Rei, trata-se de atividades que buscam eminentemente trabalhar com o resgate cultural por meio da construção de uma identidade. De acordo com Hall (1997, p. 85), “a proliferação das escolhas de identidade é mais ampla no centro do sistema global do que nas periferias”, pois, mesmo com a chegada das informações, permeadas pelo discurso da inclusão social, por meio de bens de consumo supostamente acessíveis a todos – sensação trazida pelo fenômeno da globalização – traz às localidades periféricas a sensação de possuir o mesmo caráter pluralizado das regiões centrais. No entanto, as expressões da necessidade de acesso aos bens de consumo nas periferias parecem se maximizar, pois se unem à pobreza vivida pela população, impulsionando assim as altas taxas de criminalidade que acabam por influenciar na formação da identidade dos jovens. Hall (1997, p. 80) afirma, ainda, que “a identidade muda de acordo com a forma com que o sujeito é interpelado ou representado, a identificação torna-se politizada, constituindo uma mudança da política de identidade para política da diferença”, ou seja, o indivíduo é diretamente atingido pela forma como as informações chegam até ele, o que provoca uma desconstrução de conceitos previamente definidos e reforça a diferença social do sujeito da periferia para com os demais. Sendo assim, a dimensão territorial aqui relatada surge da necessidade de construir uma perspectiva simbólica, o que caracteriza um local por suas tradições definidas coletivamente. Segundo Raffestin (1993), o estudo da territorialidade reflete o que é vivido dentro de um dado território por membros de uma coletividade. A noção de pertencimento – advinda da construção de uma identidade coletiva – se traduz de uma forma construída e alicerçada para garantir a reprodução material e social da pessoa. Consistindo o território para Becker (1983), como a somatória das práticas sociais vividas pelos indivíduos, podemos pautar a violência e a criminalidade expressas no município de Montes Claros, de maneira especial, nas regiões periféricas do Grande Santos Reis e do Cidade Cristo Rei, como advindas de um conjunto de causas relacionais, dentre elas enfatizamos a recente estratégia, ainda em fase de avaliação de resultados, de implementação de políticas de controle social de cunho preventivo e mediador; assim como a visível necessidade de inclusão dos sujeitos nos processos de apropriação de espaços simbólicos (bens de consumo) e de demarcação do seu território por meio de significações. Considerações Finais Ao longo desse trabalho foi possível notarmos que, a partir de uma diferenciação na conjuntura da segurança pública no Brasil, advinda do crescente aumento da violência e da criminalidade em meados da década de 1990, esta problemática passou a representar ameaça para a sociedade de forma geral. Desde então, a busca por soluções técnicas e bem embasadas teoricamente se fez necessária de forma constante e programada. Em se tratando de um país federativo, notamos que o Estado brasileiro apresenta dificuldades relacionadas à aplicabilidade de políticas públicas, bem como na administração política entre seus entes federados, que são constitucionalmente autônomos, o que representa a necessidade da descentralização de tais medidas. Importa ressaltar que este artigo buscou apresentar a evolução histórica no quadro nacional da adoção de medidas de controle social na área de segurança, que se entrelaçam aos condicionantes impostos pelas questões de espaço e território, destacando como exemplo a cidade de Montes Claros – MG. Em suma, observamos que há uma crescente e latente necessidade da modernização dos procedimentos, no sentido de implantar medidas de médio a grande alcance social, coerentemente com a realidade pós-moderna e sua complexa teia de demandas insurgentes no espaço urbano, não devendo desconsiderar, contudo, os grandes desafios encontrados neste percurso. Desafios estes que devem extrair vantagens não apenas na evolução de estudos e pesquisas na área, mas igualmente da experiência concreta com tais fenômenos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1- BECKER, Bertha K. O uso político do território: questões a partir de uma visão do terceiro mundo. In: BECKER, Bertha K.; COSTA, Rogério H. da; SILVEIRA, Carmen B. (orgs.). Abordagens políticas de espacialidade. Rio de Janeiro: UFRJ, 1983, p. 1-8. 2-CANO, Ignacio. Políticas de segurança pública no Brasil: tentativas de modernização e democratização versus a guerra contra o crime. Revista internacional de direitos humanos: SUR, São Paulo, v. 3, n. 5, p. 136-155, 2 sem. 2006. Disponível em: <http://www.surjournal.org>. Acesso em: 25/03/2009. 3-CARDIA, Nancy; ADORNO, Sérgio e POLETO, Frederico Z. Homicídio e Violação de Direitos Humanos em São Paulo. NEV/USP, 2003. 4-HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 8ª ed.; Trad. Tomaz T. da Silva e Guaraci L. Louro. Rio de Janeiro: DP & A, 1997. 5-RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993; p. 269. SOARES, Luis Eduardo. “Meu casaco de general – 500 dias no front da segurança pública do Rio de Janeiro”. São Paulo, Cia. das Letras, 2001. 6-SOUZA, Celina. Políticas Públicas: uma revisão da literatura. Sociologias nº 16. junho/dezembro 2006, p. 20-45. Disponível em: < http://www.comunidadesegura.org.br > Acesso em : 03 nov 2009. 7-Site <http://www.seds.mg.gov.br> 21/10/2009 8-Site do Ministério da Justiça http://www.mj.br/pronasci Acesso em 24/10/2009 23:35hs. 9-Revista Espaço Acadêmico, n°61, Ano VI, Belo Horizonte: PUC; junho de 2006; acesso em 02/11/2009. 10-Site www.ibge.com.br Fonte: IBGE, Censos e estimativas; acesso em 15/08/2009. 11-Site http://www.montesclaros.mg.gov.br; acesso em 15/08/2009.