CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II Os espaços sócio-ocupacionais na contemporaneidade 4 Introdução Você tem conhecimento acerca das áreas de atuação da profissão, assim como das relações de poder existentes nas instituições? Com certeza sim, pois discorremos sobre isso nos capítulos anteriores. Agora você vai conhecer os espaços sócio-ocupacionais da contemporaneidade e as novas formas de inserção do assistente social e visualizar genericamente os campos contemporâneos do Serviço Social. Neste capítulo, abordaremos os campos emergentes do Serviço Social, possíveis campos de estágio e atuação profissional. Sabemos que a realidade é um movimento dialético que resulta em mudanças concretas, em especial, apontando novos locais de inserção profissional para o assistente social. Veremos, a seguir, alguns dos novos campos de atuação do Serviço Social. 4.1 O assistente social na escola Um novo campo de atuação para o assistente social tem sido a escola, campo de trabalho da área da Educação, um desafio à profissão. O assistente social tem sua prática situada em uma perspectiva crítica, participando da transformação social. Portanto, segundo Novais citado por Lopes (2006), deverá desenvolver as seguintes atividades: t pesquisar de forma social, econômica e familiar a população escolar para a sua caracterização; t elaborar e executar programas de orientação social e familiar, visando à prevenção da evasão escolar, à melhoria do desempenho e do rendimento do educando e à sua formação, para o exercício da cidadania e da democracia; t participar, em equipe multidisciplinar, da elaboração de programas que visem prevenir a violência, a drogadição e o alcoolismo, bem como prestar esclarecimento e informações sobre doenças infecto-contagiosas e demais questões de saúde pública; t articular com instituições públicas, privadas, assistenciais e organizações comunitárias locais, com vistas ao encaminhamento de pais e alunos para atendimento de suas necessidades; UNITINS • SERVIÇO SOCIAL • 7º PERÍODO 35 CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II t ampliar o conhecimento acerca da realidade social e familiar do aluno, de forma a possibilitar assisti-lo e encaminhá-lo adequadamente; t elaborar e desenvolver programas específicos nas escolas em que existem classes especiais; t empreender e executar as demais atividades pertinentes ao Serviço Social, previstas pelos artigos 4º e 5º da lei n. 8662/93. O assistente social nas escolas está presente nas mais variadas expressões do cotidiano, seja nas relações externas como a família, sociedade entre outros, seja nas relações internas, que são os diferentes conjuntos como, diretores, docentes e estudantes, entre outros que compõem o campo da educação. É possível compreender que a atuação profissional do assistente social não está firmada sobre uma única necessidade. Sua especificidade está no fato de atuar sobre várias necessidades. Dessa forma, para que esta prática contribua com o processo educacional, é preciso que seja crítica e participativa e esteja relacionada com as dimensões estruturais e conjunturais da realidade, ou seja, baseada no conhecimento da realidade. Para Backhaus citado por Lopes (2006), alguns procedimentos que poderão ser adotados com êxito pela equipe interdisciplinar são: t ter sempre presente que a pessoa deve ser considerada na sua experiência, no processo de trabalho grupal e comunitário e no contexto que ela própria constrói e vai se construindo; t levar em conta a questão da “motivação” dos integrantes do grupo, como ênfase à realização de um bom trabalho; t buscar a conquista de espaços dentro e fora do grupo – “posicionar-se”; t expor sentimentos, usar de franqueza e espontaneidade nas trocas com os outros integrantes do grupo nas discussões, trabalhar a “ideia” e, sobretudo, contribuir para a “união grupal ”; t a conquista da liberdade de opinião é primordial à interação grupal; os posicionamentos devem ser discutidos em de equipe (profissionalmente) e não em termos pessoais. Os resultados precisam vir ao encontro do conjunto, visando o seu aperfeiçoamento. Conforme a autora citada, é notório que os profissionais precisam trocar de saberes e intersubjetividades para a realização da prática, pois quanto maior a integração do grupo na busca de conhecimentos e na realização de um trabalho unificado, maiores serão as condições para intervir na realidade escolar e buscar soluções para os problemas encontrados. A teoria de Antonio Gramsci reconhece a importância do sujeito nas inúmeras dinâmicas sociais. E o assistente social também contribui com seu 36 7º PERÍODO • SERVIÇO SOCIAL • UNITINS CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II saber para impulsionar uma reflexão política aos segmentos populacionais, para que também possam reconhecer seus direitos e deveres, no sentido de exercer sua cidadania. É esse mesmo trabalho que deve ser realizado entre escola, educando e seus respectivos familiares e comunidade. A inserção do assistente social no quadro profissional da educação contribui para que a escola execute sua função social, a de proteger os direitos fundamentais da criança e do adolescente, como assegurado no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), inclusive o direito à cultura. Situações como evasão escolar, indisciplina, dificuldade econômica, desagregação familiar, envolvimento em drogas, gravidez precoce, desinteresse do aluno, entre outras questões emergentes, exigem a intervenção de uma equipe interdisciplinar. A presença do assistente social na escola é necessária e relevante, o que vem sendo confirmado por meio de pesquisas, nas quais se percebe que a escola, enquanto lócus de conhecimento e cultura, vem perdendo essa identidade, porque assumiu os problemas sociais apresentados pelas famílias. Portanto faz-se necessária a aprovação da última versão do Projeto de Lei n. 837, de 5 de Julho de 2005, que dispõe sobre a Introdução de Assistentes Sociais e Psicólogos em cada Escola Pública. Assim se mostra a necessidade do reconhecimento dessa emergência pela categoria que também deve reivindicar a sua atuação na área da educação, colaborando para que se efetive esse novo campo de atuação profissional. Saiba mais Leia o artigo de Eleni de Melo Silva Lopes, intitulado Serviço Social e Educação: as perspectivas de avanços do profissional de Serviço Social no sistema escolar público, da Revista Serviço Social em Revista, da Universidade Estadual de Londrina, edição jan/jun/2006, acessando o sítio <http:// www.ssrevista.uel.br>. Você terá muitas informações interessantes sobra a atuação desse profissional nas escolas públicas. Leia também a Lei de Diretrizes e Bases – LDB n. 9.394/96 e o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, n. 8.069/90. Agora vamos conhecer o trabalho do assistente social com pessoas portadoras do HIV/AIDS. 4.2 O assistente social e o trabalho com pessoas com HIV/AIDS Esse campo de atuação é componente da Política Nacional da Saúde, um campo atual e extremamente desafiador, pelo seu caráter desmistificador de mitos e medos relacionados a tão debatido tema. UNITINS • SERVIÇO SOCIAL • 7º PERÍODO 37 CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II As últimas décadas trazem em seu bojo um dos acontecimentos mais marcantes da humanidade: o advento, em 1981, nos Estados Unidos, mais precisamente nas cidades de São Francisco e Nova York, da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA), mais conhecida como AIDS. No Brasil ela foi identificada pela primeira vez no início da década de 1980, porém estudos revelam que sua introdução no país deve ter ocorrido no final da década de 1970. Minayo citada por Patriota (2005) pontua que qualquer ação de tratamento, de prevenção ou de planejamento deveria estar atenta aos valores, atitudes e crenças dos grupos a quem a ação se dirige. Em concordância com a referida autora, entende-se, ainda, que os grupos que conduzem tais ações, notadamente os profissionais de saúde, também devem ser objeto de atenção e estudos. No entanto os profissionais que trabalham com portadores de HIV/Aids, seja no âmbito da assistência ou da prevenção, estão entre os que menos atenção têm recebido por parte das pesquisas. Destacamos o trabalho de Alain Giami e Claude Veil (1997), enfermeiras frente a aids, que tratou das representações sociais de um grupo de enfermeiras e assistentes sociais sobre a AIDS, estudo desenvolvido entre 1989 e 1991, na França. A atuação do Serviço Social com portadores e doentes de AIDS pode ocorrer nas diferentes Unidades de Atendimento, Pronto-Socorro, clínicas, hospitais ou institutos especializados. Assim o assistente social deve ter uma proposta de trabalho voltada ao “acolhimento” como diretriz da prática profissional, que envolve o paciente e família, para a aproximação médico/família. Pode-se trabalhar no aconselhamento ou no tratamento do doente ou portador do vírus. A assistente social pode desenvolver ações voltadas à prevenção, à educação, com destaque para a assistência. O enfoque do trabalho é o aconselhamento, pois se deparar concretamente com a doença e com a possibilidade de morte é algo muito impactante na vida do sujeito. É importante trabalhar questões com a família, pois as famílias comumente tendem a esconder o problema devido à discriminação, vendo-se ameaçadas, principalmente quando a doença se manifesta, e afeta todo o contexto familiar de forma significativa. Esse comportamento em relação à família representa a reação de grande parte da sociedade. O atendimento individual do Serviço Social pauta-se na abordagem educativa e reflexiva com vista a orientar e informar sobre o tratamento, direitos e deveres do soropositivo, questões trabalhistas, previdenciárias e jurídicas. Pode atuar também diretamente com as demandas sociais relativas à falta de alimentação, medicação e transporte, sendo extensivo o acompanhamento social a familiares que enfrentam as mesmas dificuldades dos usuários. Martinelli (1997, p. 45) informa que [...] somos profissionais [assistentes sociais] que chegamos o mais próximo possível do cenário da vida cotidiana das pessoas com as quais trabalhamos. O que para muitas profissões é relato, para 38 7º PERÍODO • SERVIÇO SOCIAL • UNITINS CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II nós é vivência, o que para muitos profissionais é informação, para nós são fatos, plenos de vida, saturados de história. Como parte da equipe multidisciplinar desde o início do atendimento, o assistente social atua com o paciente, a família e sua rede de relacionamentos em uma perspectiva de educação, prevenção e assistência. A abordagem do Serviço Social aos usuários e familiares se concretiza por meio do atendimento individual, grupal e visita domiciliar. Essas ações podem ser expandidas por meio de participação em comissões municipais e estaduais de prevenção e controle de DST/AIDS, ações integradas com Organizações Governamentais e não Governamentais. Outra atividade que pode ser coordenada pelo Serviço Social e pela Psicologia é o treinamento de capacitação dos agentes que prestam atendimento direto e/ou indireto a pacientes portadores de HIV e seus familiares, destinado aos profissionais das diversas áreas. O campo do HIV/AIDS tem peculiaridades e particularidades que o diferencia do atendimento a outros pacientes igualmente graves. Não possui um caráter apenas curativo, pois trabalhar com esses pacientes remete a questões que envolvem doença, morte e a própria perspectiva de existência. É um campo de trabalho que tem ampla repercussão, atingindo, além do paciente, todo o seu contexto sociofamiliar, fato que o torna um problema não exclusivamente médico e físico, mas também social, econômico, psicológico, político justificando-se a necessidade de uma atuação em equipe interdisciplinar. A busca da formação e do aprimoramento profissional deve ser constante, sobretudo no desenvolvimento de um atendimento mais humanizado, pois não basta ter capacidade técnica. Trabalhar com pessoas portadoras do HIV é deparar-se frequentemente com situações adversas, dadas as implicações causadas pela doença, ao paciente e à sua rede de relacionamentos. Nesse sentido, Patriota (2005) afirma que as principais demandas sociais que emergem no transcorrer da ação são: questões familiares, hospitalização, direitos sociais (trabalhistas, previdenciários, do paciente...), transporte, medicação. Faz-se ainda necessário um trabalho voltado a questões como sexualidade, preconceito, discriminação e morte. A questão do sigilo profissional é muito importante, pois esses pacientes vivenciam situações de conflito quanto a expor seu diagnóstico de soropositivo a parentes e amigos, fator que deve ser respeitado pela equipe. Reuniões interdisciplinares frequentes, formais ou informais, devem ser uma prática constante, o que, certamente, facilitará a compreensão global do paciente e contribuirá para que a equipe assuma uma conduta única e mais consciente frente aos casos. Uma das principais ações para o enfrentamento da AIDS é a prevenção. É necessário esclarecer a população sobre os aspectos relacionados à doença, UNITINS • SERVIÇO SOCIAL • 7º PERÍODO 39 CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II visando à utilização de medidas preventivas, que ocorrem com a mudança de visão e comportamento. Esse é o maior desafio dos profissionais envolvidos nesta temática. Além dessa área de atuação, você também pode trabalhar com crianças e adolescentes. Veja a seguir. 4.3 O assistente social atuando com criança e adolescente Esse campo de atuação é relativo à Política Nacional da Assistência Social e pode se dar no âmbito da proteção básica ou especial de média ou alta complexidade, dependendo da situação vivenciada. Tanto o ECA como a Constituição Federal preconizam a participação da sociedade civil na formulação, execução e fiscalização das políticas de atendimento à infância e juventude, por meio de conselhos municipais, estaduais e nacional. Na área específica da criança e do adolescente, por exemplo, no caso de violência, na realidade brasileira, a percepção está centralizada na família e, de acordo com dados da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) de 2003, a principal causa da mortalidade infantil no Brasil é a violência. Conforme o Ministério da Saúde (2001), 80% dos casos de violência contra a população infantil e jovem ocorrem dentro do espaço familiar. No entanto, Guerra citado por Patriota (2005, p. 34) assevera que A análise da violência praticada contra a criança e o adolescente deve contemplar aspectos mais abrangentes do que apenas a centralização no ambiente familiar, visto que são vários os motivadores destas práticas. A autora destaca como determinantes os tipos de relações interpessoais entre os membros da família, as questões de abuso de poder disciplinador, no caso, a ênfase no autoritarismo, através de ações coercitivas dos pais ou responsáveis. Por tradição, em muitos casos, a violência intrafamiliar acaba assumindo a característica do sigilo, chancelada pela própria sociedade, protegida sob o manto do espaço privado e inviolável que a família representa. A violência estrutural e social, refletida na vulnerabilidade em que se encontram muitas famílias brasileiras, reflete outro fator fundamental para se compreender a prática de violência contra crianças e adolescentes. O assistente social, nesse e em todos os contextos, deve ter claro que a qualificação profissional deve ser uma prática e uma procura constante, para que se possa evitar atendimentos pontuais e imediatistas, e/ou ainda não fundamentados, colocando em risco a qualidade dos serviços. A construção do trabalho em rede também deve ser uma busca constante. A construção da rede de atendimento é urgente e necessária. Os postulados do ECA, em seu artigo 86, apontam uma perspectiva de atenção articulada entre as redes de serviço de atendimento à criança e ao 40 7º PERÍODO • SERVIÇO SOCIAL • UNITINS CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II adolescente. A desarticulação entre as entidades tende a fragilizar as intervenções na área da criança e do adolescente, prevalecendo sobreposições e paralelismo de ações, que reduz de modo significativo a capacidade de articulação de modo a garantir um trabalho em rede. O Serviço Social, a partir de sua visão de totalidade e da especificidade profissional, deve reiterar seu posicionamento sempre no sentido de que o poder público substitua ações emergenciais e pontuais, que reiteram continuamente a passividade e o conformismo da população, por políticas sociais assentadas nos princípios da emancipação e da autonomia. Patriota (2005, p. 67) chama atenção para o fato de que [...] além disso, a prática sistemática de avaliação de programas sociais deve direcionar a ação dos profissionais comprometidos com a intervenção competente das entidades de atendimento, mediante um trabalho articulado e integrado, constituindo uma rede de serviços capaz de consolidar direitos à população referenciada. As entidades de atendimento à criança e ao adolescente, nessa perspectiva, na pessoa do assistente social e demais agentes, devem priorizar práticas democráticas que garantam a autonomia dos agentes e usuários por meio do diálogo pluralizado capaz de fomentar funções e atribuições de natureza deliberativa, com propostas que beneficiem o coletivo. Devem, ainda, criar condições para a efetivação do processo de participação e do controle social, ultrapassando toda e qualquer postura autoritária por parte do poder constituído, a fim de contribuir para a viabilização de políticas públicas. Aos assistentes sociais são imensos os desafios existentes. Esses profissionais têm de estar capacitados para motivar e para criar uma nova cultura política na população brasileira Isso envolve fazê-la enxergar a necessidade de mudança na condução da esfera pública, por meio da participação e do efetivo controle social exercido a partir de espaços de construção e de efetivação de direitos. Citado por Patriota (2005), Benevides chama a atenção para a enorme necessidade daquilo que define como “educação para a democracia”, entendido como um movimento educacional político, capaz de enfrentar o descrédito, o desinteresse, o egoísmo político e o desencanto com a própria ideia de democracia. Cabe não somente ao assistente social essa demanda, mas a toda sociedade e demais categorias profissionais. Há outro espaço para o assistente social, como o meio ambiente, assunto do próximo subitem. 4.4 O assistente social e a questão do meio ambiente O Serviço Social tem, junto às questões ambientais, um espaço tão privilegiado como os permitidos por outras questões mais próximas da sua prática profissional. UNITINS • SERVIÇO SOCIAL • 7º PERÍODO 41 CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II Porém com o agravante de que o meio ambiente, entendido como o mundo, se não for preservado, finda a perspectiva de continuidade, acaba tudo. É importante entender a relação que existe entre as questões ambientais e o Serviço Social, para assim identificar e justificar o papel e a prática do assistente social em mais esse novo espaço. Apesar de nem todos terem esse entendimento, não se pode falar em meio ambiente sem falar de aspectos sociais e vice-versa, pois meio ambiente numa linguagem simplificada “é tudo o que nos rodeia”. Antes de construções, como barragens e hidroelétricas, são realizados estudos de viabilidade em que se fazem levantamentos dos recursos existentes na área e relatórios de impactos ambientais (RIMA). Esses são instrumentos obrigatórios para que haja a aprovação da obra junto aos organismos que têm a função de cuidar do meio ambiente. Os levantamentos e os relatórios tratam mais diretamente das consequências que esses empreendimentos poderão causar na paisagem, na fauna, na flora, mas não tratam dos impactos sociais, ou seja, das consequências sociais que vão resultar de tais empreendimentos e que têm o homem como alvo maior. Quando as consequências sociais são lembradas, isso acontece de maneira superficial. E é esse não reconhecimento que também concorre para a emergência das questões ambientais frente as quais o Serviço Social, assim como outras áreas do conhecimento, vai intervir (PAGANI e outros, 1999). A partir dessa ideia, a intervenção poderá ter como alvo as comunidades rurais e urbanas que sofrerão os impactos direta ou indiretamente. Tem-se como referência que, tanto o espaço rural quanto o urbano, são espaços de moradia e como tais, (re)produzem condições para o desenvolvimento de inúmeros processos sociais, entre os quais as ações das políticas públicas, voltados para essas populações (Souza, 1991). A intervenção social é justificada pela emergência de novas situações que são geradas não só pelo confronto que passa a existir entre a população, na condição de expropriados, e a concessionária, mas também pelos efeitos causados pelos próprios empreendimentos. Esses confrontos poderão surgir em consequência do remanejamento das famílias, do tamanho dos lotes onde deverão ser reassentadas, do preço da terra e das benfeitorias a serem pagos através da ação indenizatória. Outros aspectos conflituosos se referem à cobertura real dos prejuízos, às novas moradias, ao tipo de construção, tamanho, material, entre outros, além do traçado das novas estradas vicinais, às novas pontes que devem ser construídas. Os mecanismos burocráticos estabelecidos para a compensação dessas perdas sociais não oferecem alternativas condizentes com a vida que a população mantinha, criando subsistemas de manutenção da miséria. O objeto da ação interventiva do Serviço Social será, pois, a situação criada pela proposição do empreendimento que gerará novas condições de vida para a população, a que Scherer Warren (1993), utilizando a classificação de Kowarick citado por Pagani e outros (1999), denomina de os expro- 42 7º PERÍODO • SERVIÇO SOCIAL • UNITINS CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II priados, os espoliados e os explorados. Entendendo-se como os expropriados urbanos e rurais os diretamente atingidos (lavradores e índios), que são removidos compulsoriamente de suas terras ou moradias, para dar lugar à construção; os espoliados urbanos são aqueles indiretamente atingidos tanto na zona rural como na urbana e que sofrerão os efeitos não só ambientais como também sobre o seu sistema de produção e, na zona urbana, os efeitos serão sentidos na infraestrutura de serviços existentes no local de moradia; e, por fim, os explorados, que são representados pelos trabalhadores não qualificados que são recrutados para o trabalho nos canteiros de obras e que, terminada a construção, se vêem desempregados. O Serviço Social utiliza estratégias particulares para intervir nos problemas gerados por essas construções. Ele desenvolve um processo metodológico de ação para, primeiramente, elaborar um diagnóstico socioeconômico dessas comunidades para, logo após, procurar capacitá-las para o enfrentamento das questões emergentes. Isso pode ser realizado por meio do repasse das informações técnicas sobre os efeitos do empreendimento na vida da comunidade e da geração futura; por meio da formação de lideranças para garantir o movimento, em defesa de seus direitos e interesses a fim de, posteriormente, levar as comunidades a buscar articulações com outros parceiros, como o Movimento dos Atingido por Barragens (MAB), Comissão Regional dos Atingidos por Barragens (CRAB), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), ONGs e a Igreja por meio das suas outras pastorais, além de outros, como os movimentos ambientalistas. As principais dificuldades encontradas nesse processo, pelo assistente social, conforme Pagani e outros (1999), referem-se, primeiramente, ao desconhecimento dos fundamentos relativos às questões ambientais. Na formação profissional, pouco são abordados assuntos que dizem respeito ao meio ambiente. Em segundo lugar, existe certo “desinteresse” da categoria pelos projetos que tenham como alvo as questões ambientais, o que pode estar ligado ao desconhecimento da grande importância que tem o meio ambiente na continuidade da vida no mundo. As questões ambientais configuram um espaço sócio-ocupacional novo e muito importante para o Serviço Social. Isso ocorre não somente pela riqueza de possibilidades de estudos interdisciplinares, mas também pela importância de que se revestem essas questões, que oportunizam inúmeras condições de intervenção ao Serviço Social, em ações de mobilização, organização das populações quando ameaçadas com a degradação do seu meio ambiente ou de educação dessa mesma população para a sua preservação. É bom lembrar que, quando se fala de meio ambiente, fala-se das questões ligadas ao tecido da vida, não havendo maior importância do que a sua preservação para a garantia da sua continuidade. Conheça agora a tuação do assistente social em ONGs. UNITINS • SERVIÇO SOCIAL • 7º PERÍODO 43 CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II 4.5 O assistente social no Terceiro Setor – ONGs Outro campo atual, desafiador e que vem cada vez mais requisitando a presença do assistente social, é o chamado Terceiro Setor, configurado nas Organizações Não Governamentais – ONGs. O Terceiro Setor se configurou, no decorrer dos últimos vinte anos, em um contexto socioeconômico e político marcado pela complexidade, incerteza, instabilidade e mudanças aceleradas, em uma dimensão globalizada e de grande desenvolvimento tecnológico e científico, paradoxalmente ligada ao aumento da pobreza e da desigualdade social. A abordagem dessa temática jamais pode ser no sentido de endeusar o terceiro setor, como se pudesse ocupar o papel, que é do Estado, na formulação e execução de políticas públicas, sociais, nem de forma a satanizá-lo, a ponto de negar sua importância e a dimensão de suas ações quanto ao enfrentamento das diferentes manifestações da questão social no Brasil. Alguns requisitos são fundamentais a todos os profissionais que desejam atuar em organizações do Terceiro Setor. Entre eles, destacamos, segundo Costa (2005): t ter um conhecimento básico sobre o que é o Terceiro Setor e as instituições que o compõem, bem como, mais especificamente, sobre a instituição onde irá desenvolver a sua ação: histórico, objetivos, missão, recursos, proposta de trabalho, dificuldades, possibilidades, limites, público-alvo etc.; t ter a visão da totalidade institucional, conhecendo o ambiente interno e externo da organização e, principalmente, o papel que pretende cumprir naquele determinado momento histórico e pelo qual deseja ser reconhecida; t conhecer a legislação atual que fundamenta a política de atuação junto ao segmento atendido pela instituição. Isso significa buscar nas leis pertinentes à ação institucional, respaldo legal para a um trabalho voltado para a garantia dos direitos da população atendida. A Constituição Federal de 1988; a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, a Lei Orgânica da Saúde, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, etc., são exemplos do aparato legal que podem contribuir para garantir a ação do técnico, do Serviço Social ou de outras áreas, uma ação mais contextualizada, interdisciplinar e abrangente; t ter a concepção clara de que a população atendida pela instituição é constituída por sujeitos de direito e não meros objetos da ação profissional; t saber atuar em equipe, pois essa participação pressupõe o trabalho conjunto de pessoas que discutem e analisam situações e fatos concernentes ao âmbito de atuação, tomando decisões de encaminhamento 44 7º PERÍODO • SERVIÇO SOCIAL • UNITINS CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II e executando-as. Traz a ideia do trabalho coletivo, cujos membros partilham de uma visão claramente definida sobre os objetivos a serem alcançados, tendo em vista a totalidade institucional e a ação interdisciplinar; t produzir respostas profissionais concretas e práticas para a problemática trabalhada pela instituição, a partir de uma postura reflexiva, crítica e construtiva. Exercer a práxis profissional com compromisso e responsabilidade, primando pela capacidade de denunciar situações que necessitam ser superadas, mas também anunciando as formas de fazê-lo. Especificamente quanto à atuação do assistente social, é imprescindível um entendimento da relação do Estado com o mercado e o Terceiro Setor, sem esquecer que cabe ao Estado o dever de prover políticas sociais adequadas e eficientes para o enfrentamento da questão social . O terceiro setor é parceiro do Estado e não o contrário. Além disso, com base na Lei de Regulamentação da Profissão de Assistente Social, Lei n. 8.6662, de 7/6/1993, é possível visualizar algumas atribuições específicas ao assistente social que atua na área do terceiro setor. Por exemplo, a implantação, em âmbito institucional, da Política de Assistência Social, conforme as diretrizes da Lei Orgânica da Assistência Social, LOAS/1993 e Sistema Único da Assistência Social, SUAS/2004, de acordo com a área e o segmento atendido pela instituição. Também deve dar subsídio e auxílio na administração da instituição quanto à elaboração, à execução e à avaliação do Plano Gestor Institucional, tendo como referência o processo do planejamento estratégico para organizações do terceiro setor. Além dessas atribuições, é tarefa do assistente social desenvolver pesquisas junto aos usuários da instituição, com o objetivo de conhecer o perfil social dessa população, obtendo dados para a implantação de projetos sociais, interdisciplinares. Suas ações continuam com a função de identificar continuamente as necessidades individuais e coletivas, apresentadas pelos segmentos que integram a instituição, na perspectiva do atendimento social e da garantia de direitos, implantando e administrando benefícios sociais. Pode realizar seleção socioeconômica, quando for necessário, a partir de critérios pré-estabelecidos, sem perder de vista o direito de acesso universal ao atendimento integral e de qualidade. Outra forma de agir é ampliar o atendimento social às famílias dos usuários da instituição, com projetos específicos e formulados a partir de diagnósticos preliminares, intensificar a relação instituição e família, objetivando uma ação integrada de parceria e fornecer orientação social e fazer encaminhamentos da população usuária aos recursos da comunidade, integrando e utilizando-se da rede de serviços socioassistenciais. Também participa de estudos e discussões de casos com a equipe técnica, coordena-os e os assessora, relacionados à UNITINS • SERVIÇO SOCIAL • 7º PERÍODO 45 CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II política de atendimento institucional e aos assuntos concernentes à política de Assistência Social. Por fim, realiza perícias, laudos e pareceres técnicos relacionados à matéria específica da atuação profissional, no âmbito da instituição, quando solicitado. A atuação do assistente social no interior das instituições do terceiro setor deve se dar sempre com a finalidade de atendimento integral e de qualidade e garantia do direito de inclusão a esse atendimento. Agora você conhecerá o campo de atuação com idosos. 4.6 O assistente social no campo dos idosos Esse campo de trabalho pertence à Política Nacional da Assistência Social, em conformidade com o Estatuto do Idoso, Lei n. 10.741, de 1° de outubro de 2003. Os assistentes sociais, como categoria profissional, na tentativa de atender a essa população tão marginalizada e sofrida, buscam a garantia de direitos a esse segmento, dentro dos limites que não acarretem comprometimento à estabilidade do sistema. Uma modalidade utilizada pelo serviço social é a de ocupar o tempo dos idosos, pois, a maioria, após completar 60 anos, encontra-se afastada, isolada do processo produtivo. Jonas (2004, p. 25) ensina que, Ao serviço social, cabe pensar nas atividades mais adequadas a esta faixa etária. Deste modo, os programas e serviços ofertados através dos serviços sociais preocupam-se em preencher este tempo ocioso, com atividades formuladas empiricamente (grupos de convivência, atividades artesanais, culturais, físicas e esportivas etc.), sem uma base teórica consistente, no mais das vezes reproduzindo o que é feito noutros lugares. Quanto ao enfrentamento das questões relacionadas ao idoso, urge ao serviço social um esforço científico, o que quer dizer conhecer verdadeiramente as determinações presentes no bojo dos trabalhos com idosos, afinal essa é a parcela da classe trabalhadora mais fragilizada para cuidar de sua autorreprodução. Na medida em que as propostas de trabalho com idosos no âmbito do Serviço Social, em grande parte, tem se concentrado na ocupação do seu tempo ocioso, a análise do uso do tempo torna-se uma questão relevante. É possível afirmar que o emprego do tempo pelos indivíduos na sociedade capitalista varia de acordo com algumas circunstâncias, evidentemente não suscetíveis de escolha pelos indivíduos, mas impostas a eles pelo lugar que ocupam na sociedade ao nascer. A importância de abordar a questão do envelhecimento numa perspectiva teórica consistente pode ajudar os assistentes sociais não se deixar levar facilmente pela perspectiva que encara o aumento da população idosa como um problema e nem por aquela que a torna uma oportunidade de negócios. 46 7º PERÍODO • SERVIÇO SOCIAL • UNITINS CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II Saiba mais Pagani e outros (1999), em artigo intitulado Conversando sobre as questões ambientais e o Serviço Social, publicado pela revista eletrônica Serviço Social em Revista, da UEL, esclarece sobre pesquisa em meio ambiente no Serviço Social. Leia o artigo na íntegra pelo sítio <http://www.ssrevista. uel.br> e fique por dentro dessa temática! Neste capítulo, você conheceu alguns espaços sócio-ocupacionais contemporâneos do Serviço Social e pôde visualizar a atuação profissional do assistente social, sua rotina de trabalho, instrumentos e estratégias utilizadas. No próximo capítulo, você estudará a reestruturação produtiva e suas principais consequências no mundo do trabalho e, em especial, no campo específico do trabalho do assistente social. Referências ANHUCCI, Valdir. O Conselho Municipal dos direitos da criança e do adolescente e entidades sociais na garantia de direitos. Serviço Social em Revista, v. 8, n. 2, jan./ jun., 2006. Disponível em: <http://www.ssrevista.uel.br>. Acesso em: 23 jul. 2009. LOPES, Eleni de Melo Silva. Serviço Social e educação: perspectivas de avanços do profissional de Serviço Social no sistema escolar público. Serviço Social em Revista, v. 8, n. 2, jan./jul., 2006. Disponível em: <http://www.ssrevista.uel. br>. Acesso em: 23 jul. 2009. PAGANI, Ângela Maria; COLITO, Maria Clementina Espiler. Conversando sobre as questões ambientais e o Serviço Social. Serviço Social em Revista, v. 1, n. 2, jan./ jun., 1999. Disponível em: <http://www.ssrevista.uel.br>. Acesso em: 23 jul. 2009. PATRIOTA, Lúcia Maria. Assistentes sociais e AIDS: um estudo de suas representações sociais. Serviço Social em Revista, v. 8, n. 1, jul./dez., 2005. Disponível em: <http://www.ssrevista.uel.br>. Acesso em: 23 jul. 2009. SOLCI, Silvia Maria. A efetivação dos direitos da criança e do adolescente. Serviço Social em Revista, v. 4, n. 2, jan./jun., 2002. Disponível em: <http:// www.ssrevista.uel.br>. Acesso em: 23 jul. 2009. Anotações UNITINS • SERVIÇO SOCIAL • 7º PERÍODO 47 CAPÍTULO 4 • ORIENTAÇÃO E SUPERVISÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL II 48 7º PERÍODO • SERVIÇO SOCIAL • UNITINS