IC 03 – História e Sertões Coordenadora: Maria Aparecida S. de Souza OCUPAÇÃO DA TERRA E ‘PECUÁRIA NO ARRAIAL DOS POÇÕES NO SÉCULO XIX Manoel Alex da Silva Sousa1; Rhanes Souza Alves2; Maria Aparecida Silva de Sousa3 A formação histórica do Brasil, em seus primórdios, não aconteceu de forma isolada, distante dos múltiplos acontecimentos que se processaram na Europa, em finais do século XV e início do século XVI. Ao contrário, faz parte de um contexto marcado por transformações econômicas, políticas e socioculturais intrínsecas à constituição de uma nova sociedade européia, caracterizada pelo desenvolvimento do capitalismo comercial. Em decorrência das transformações, vinculadas às necessidades de expansão do capital mercantil europeu, é que se desdobram os interesses marítimos coloniais, os quais resultaram na expansão marítimocomercial européia e conseqüente colonização da América tropical, de modo especial, do território brasileiro. A colonização do Brasil não data de imediato à chegada dos portugueses na “nova terra” e, muito menos, a sua ocupação e povoamento. Frustrados por não encontrarem ouro, seu interesse maior, os lusos continuaram centrados no seu comércio com o Oriente, atividade que, para os anseios da época, lhes proporcionava lucros imediatos, perspectiva de enriquecimento rápido que não existia em relação ao Brasil. No entanto, a atividade comercial com o Oriente encontrou outros concorrentes e os lucros portugueses decaíram em índices alarmantes. A solução encontrada para sanar esse novo impasse, foi o início da exploração na colônia americana; segundo Nelson Werneck Sodré, “O apossamento, em si, não constitui garantia suficiente. Não assegura a posse de uma área extensa e vulnerável (...) Assim, tornase imperativo povoar: ocupar, pela transferência de grupos humanos,(...)”4. Com isso, a Coroa portuguesa decidiu colonizar as novas terras, de forma que a colônia americana deveria se desenvolver num sistema que não fosse dispendioso para a metrópole, mas, um suporte na 1 Aluno do 8.º semestre do Curso de História – UESB e-mail: [email protected] Aluna do 7.º semestre do Curso de História - UESB 3 Orientadora- Profª. do Deptº de História da UESB e-mail: [email protected] 4 SODRÉ, Nelson Werneck. Formação Histórica do Brasil. 11 ed. São Paulo; DIFEL, 1982, p. 60-61 2 2 resolução dos seus problemas de ordem financeira, conforme ressalta Nelson Werneck Sodré, a colonização se processaria “ (...) numa empresa que não se deve tornar carga para a Coroa, mas alívio para esta. Era preciso, pois, colonizar.”5 Era necessário colonizar. A colonização seria a defesa das terras e, principalmente, uma forma direta de exploração, através da qual, a Coroa tentaria suprir a crise gerada pelo declínio comercial com o Oriente, articulando o investimento nas terras brasileiras ao mercantilismo português. Porém, investir era o problema maior. De caráter muito mais complexo que as feitorias do século XV, na África, o empreendimento colonial no Brasil exigia um grande investimento financeiro, de custo muito alto para Portugal, que não dispunha de condições; além disso, para explorar de forma efetiva, era preciso povoar, e os lusos não estavam dispostos a arriscarem-se numa aventura perigosa financeiramente, diferente do que era realizado na África e na Ásia. Contudo, já que a Coroa não dispunha de recursos, o jeito foi recorrer à iniciativa de particulares e inaugurar aqui, o sistema de capitanias hereditárias imposto nas colônias africanas e asiáticas. Em 1534, o monarca português D. João III aplica, no Brasil, a primeira experiência político-administrativa, dividindo o seu território em quinze grandes lotes, compreendidos entre o litoral e a linha de Tordesilhas. Na região que hoje constitui o Estado da Bahia, distribuíram-se três capitanias hereditárias distintas, com a extensão de cinqüenta léguas cada uma: a Capitania da Bahia, que compreendia a Baía de Todos os Santos e o Recôncavo, doada a Francisco Pereira Coutinho; a Capitania de Ilhéus, doada a Jorge de Figueiredo Correia; e a Capitania de Porto Seguro, doada a Pero de Campos Coutinho. Os capitães-donatários surgiam como proprietários particulares, desenvolvendo uma série de atribuições, visto que, deveriam promover o desenvolvimento de suas capitanias e o lucro da monarquia portuguesa, já que eram obrigados à “redízima das rendas à Coroa.”6 O sistema da capitanias não deu certo. No entanto, outros fatores vão se inserindo na lógica de ocupação do território, surgidos da própria dinâmica e necessidades internas, a grande lavoura, o bandeirismo, a mineração e a pecuária se conjugam no processo de povoamento da colônia, do seu interior e além fronteiras, as quais serão rompidas em meio a tal processo. A expansão dos domínios baianos vai se configurado com o povoamento de algumas áreas específicas. Neste processo, se destaca o povoamento do Recôncavo (com a grande 5 Idem, p. 60-61 HOLLANDA, Sérgio Buarque de. História Geral da Civilização Brasileira. A Época Colonial: Administração, economia e sociedade. RJ: Bertrand Brasil; 1997, p. 93 6 3 lavoura, especialmente da cana-de-açúcar e do fumo) e do sertão, pelas regiões ribeirinhas, às margens do Rio São Francisco, através da expansão das fazendas de gado; e, não podemos esquecer, as incursões bandeirantes em busca do ouro, sendo esta atividade de grande importância no adentramento do sertão. Importante destaque merece a pecuária na constituição de povoados. As fazendas de gado, geralmente, situavam-se em locais vantajosos como entroncamentos de estradas, às margens de rios, próximos a uma capela ou a rotas de boiadas e tropas, o que levava a servir de pousadas para viajantes7, dando origem a feiras de gado e de diversos produtos, sendo assim, um centro atrativo de populações.8 A mineração proporciona uma intensa corrida por metais preciosos e conseqüente concentração demográfica. Destacam-se, na Bahia: Jacobina e Rio de Contas no século XVIII. As primeiras descobertas de ouro em solo baiano ocorreram em 1701, em Jacobina; por volta de 1725 já era intensa a exploração do ouro em tal região. Observando alguns dos principais fatores que contribuíram para a origem e expansão do povoamento da Bahia, notamos a multiplicidade de circunstâncias, planejadas ou não pela metrópole portuguesa, mas que colaboraram para a ocupação, imediata ou gradual, do território baiano. Apesar de as diversas regiões da Bahia terem suas características próprias, sendo ocupadas e povoadas em circunstâncias diferentes, destacando-se economias e relações sociais variadas, há uma interligação dentro dessa diversidade, pois as atividades aqui desenvolvidas não se isolaram, antes, complementavam-se, caracterizando toda a dinâmica interna que, inegavelmente, existiu9. Todavia, interessa-nos estudar o que mais nos fascina em meio a esse movimento de expansão e ocupação do interior da colônia e, no nosso caso, da Bahia: a penetração do vasto sertão. Aqui centramos as nossas atenções. A partir de tal adentramento e posterior ocupação é que podemos analisar a instalação do colonizador na região, conhecida primordialmente, como “Sertão da Ressaca” e, de modo especial, conhecer as origens do Arraial dos Poções, 7 Cf. ARAÚJO, Emanuel. Tão vasto, tão ermo, tão longe: o sertão e o sertanejo nos tempos coloniais. In: PRIORE, Mary Del (Org.). Revisão do Paraíso: Os brasileiros e o Estado em 500 anos de história. Rio de Janeiro: Campus, 2000, p. 65 8 SODRÉ, Nelson Werneck. Op. cit., p. 123. Cf. também SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Pecuária e Formação do Mercado Interno no Brasil. Estudos, Sociedade e Agricultura. Rio de Janeiro; 1997, n.º 8, p. 144145. 9 Cf. SILVA, Sylvio C. Bandeira de Mello. Urbanização e metropolização no Estado da Bahia: evolução e dinâmica. Salvador: Centro Editorial e Didático da URBA; 1989, p. 87 4 cujo povoamento faz parte desse momento histórico de penetração dos colonizadores nos sertões. Ao considerarmos “sertão” como toda a área interior, imensa e distante do litoral10, podemos constatar que desde o primeiro século da colonização, essas terras, tão vastas, começaram a ser penetradas por homens aventureiros, na ânsia pelo ouro e metais preciosos11, bem como, pelas atividades voltadas para o apresamento indígena. O bandeirante aparece, por muito tempo, na historiografia tradicional brasileira como um grande herói, desbravador e conquistador dos perigosos sertões. É a epopéia dos bandeirantes, homens fortes, corajosos, que dedicavam sua vida ao aventureirismo, a serviço de sua majestade “(...) esse modismo mental da valentia brilhante, o desapego dramático às comodidades da vida urbana, o sangue assignalado de guerreiros bravos e idealistas, a ingenuidade supersticiosa de christãos primitivos (...)”12 Também os seus feitos tão exaltados, na verdade contribuíram para a matança de milhares de populações indígenas, além de provocar uma grande mudança na paisagem geográfica, nos lugares por onde passavam. No Sertão da Ressaca, havia a presença das nações indígenas formadas pelos pataxós, camacãs, difundidos na região como mongoiós; e, ymborés, apelidados pelos colonizadores como botocudos, devido a um pedaço de madeira que pendurava nos lábios, chamado botoque. Estes, foram subordinados aos interesses dos colonizadores ou exterminados para ceder espaço à instituição da empresa colonial. Assim sendo, os bandeirantes se constituíram em pessoas preparadas para enfrentar todos os perigos que se lhes apresentassem, “Não partem, todavia, sem testar, determinando suas últimas vontades, porque sabem que a fascinação das selvas é traiçoeira; que dos tremedais lutulentos, se levantam miasmas mortíferos”13. Assim partiam os bandeirantes, muitos deixando seus testamentos, os quais demonstram as angústias14 presentes no homem que, a um só tempo, amedronta e é amedrontado. Francisco Bruzza de Spinosa, homem de Castela, é considerado o responsável pela primeira incursão no sertão baiano, em 1553, percorrendo caminhos de Porto Seguro ao São 10 ARAÚJO, Emanuel. Tão Vasto, Tão Ermo, Tão Longe: O Sertão e o Sertanejo nos Tempos Coloniais, in: PRIORE, Mary Del (org.). Revisão do Paraíso: os brasileiros e o Estado em 500 anos de história. Rio de Janeiro: Campus; 2000, p. 79-82 11 Cf. MERCDANTE, Paulo. Os Sertões do Leste. Estudo de uma Região: A Mata Mineira. Rio de Janeiro: Zahar Editores; 1973, p. 15 12 CALMON, Pedro. A Conquista: História das Bandeiras Bahianas. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional; 1929, 5-6 13 BELMONTE. No Tempo dos Bandeirantes. São Paulo: Melhoramentos; 1998, p. 171 5 Francisco, “acompanhado por 12 portugueses e o missionário espanhol João de Apricuelta Navarro”15, Spinosa fora enviado pelos próprios representantes da Coroa, ansiosos pelas riquezas do sertão, das quais falavam os índios: “(...) diz o jesuíta de 1593, autor das Cousas mais notáveis do Brasil, que este foi ‘o primeiro que mandou descobri sertão’.”16 Em meio a esse processo de conquista do interior, destaca-se a figura de João Gonçalves da Costa, um dos “últimos notáveis bandeirantes da Bahia no século XVIII”17, que desempenhou um importante papel no devassamento do sertão, pelas suas sangrentas lutas com os aborígenes, busca de metais preciosos, abertura de caminhos, criação de gado, enfim, pela sua atuação em prol dos objetivos colonizadores. A descoberta do ouro na Bahia em princípios do século XVIII, especialmente em Rio de Contas e Jacobina, deu-se a partir do processo de ocupação e expansão das atividades nas áreas auríferas de Minas Gerais. O encontro do ouro nessas localidades baianas provocou o deslocamento de muitas pessoas para tais centros mineradores, constituindo, assim, novos núcleos populacionais. Jacobina foi elevada à categoria de vila em 1720, e Rio de Contas em 1724, sendo submetidas a um rigoroso controle por parte da Coroa, a fim de evitar o contrabando e manter uma rígida arrecadação dos quintos. Nesses centros mineradores da Bahia, desenvolviam-se novas relações sociais e econômicas, as quais caracterizavam uma sociedade mais aberta para a mobilidade, além de propiciar o desenvolvimento do comércio, destacando-se aqui a pecuária, voltada para o abastecimento de suas populações. A ocupação do “Sertão da Ressaca”, região situada entre os rios: Pardo e das Contas, ocorreu a partir da decadência das minas auríferas nas Minas Gerais e em Rio de Contas, o que forçou a busca de novas zonas mineradoras e ainda o desenvolvimento de novas atividades, as quais suprissem a ausência daquelas almejadas – as mineiras. Desde inícios do século XVIII, o Sertão da Ressaca já era visado pela Coroa, interessada em efetivar a sua ocupação, como fonte lucrativa para a metrópole: “Uma portaria del-rei, de 22 de abril de 1728, (...)”18 informa “que a grande porção de terra que há no sertão dessa capitania desde as minas do Rio de Contas até o Rio Pardo, Rio Verde e cabeceiras do 14 Idem, p. 146 Ibidem, p. 17 16 CALMON, Pedro. Op. cit. p. 34 17 Idem; p. 171 18 Ibidem; p. 171 15 6 São Matheus eram as melhores que tinham todo o Brasil assim para a criação do gado como a cultura de qualquer lavoura (...)”19 Na responsabilidade de investigar sobre a existência das riquezas naturais – especialmente as minerais – nessa região, o superintendente geral das minas da Bahia20, incluindo Minas Novas do Araçuaí, Pedro Leolino Maris, envia a Bandeira de André da Rocha Pinto no ano de 1727 para conquistar, ocupar e povoar o sertão entre os Rios Pardo e das Contas, buscando metais preciosos, combatendo as populações indígenas, destruindo as comunidades quilombolas que já se encontrassem e instalando fazendas de gado, para efetivar a ocupação do território; enfim, a sua função era explorar por completo aquela região a ele designada. Junto a André da Rocha Pinto, aparece uma outra personalidade do bandeirantismo na Bahia, o mestre-de-campo João da Silva Guimarães, designado para explorar o Rio São Matheus, suas cabeceiras e afluentes. Tal bandeirante se destacou pela busca incansável pelo ouro, além das batalhas que travou com os índios que encontrava por onde passava. Há indícios de que tanto André da Rocha Pinto quanto João da Silva Guimarães tiveram passagem pelo Arraial dos Poções, em meados do século XVIII, efetivando uma esparsa exploração de ouro. Informação essa, que ainda carece de documentação específica para sua comprovação. No entanto, nota-se que provavelmente, inicia-se aí o processo de ocupação dessa localidade. Contudo, conforme consta das notícias, se houve exploração aurífera, a mesma foi esparsa e de pouca intensidade; e, o que colaborou para a efetiva ocupação da região foi atividade pecuarista. Esta concorreu para a fixação do colonizador nas áreas sertanejas, à medida que se estabelecessem fazendas de gado, colaborando, ainda, para a integração do sertão à economia colonial. Podemos destacar três momentos diferenciados para o desenvolvimento da pecuária, no período colonial21, a começar pela fase de estreita proximidade locacional entre os currais e o engenho, já que o gado era força de tração, transporte e alimento para o mesmo; em seguida, com extensão das lavouras e dos rebanhos, surge a necessidade de separação das duas atividades – no ano de 1701, foi proibida a criação do gado dentro do espaço de dez 19 Ibidem, p. 132 Cf. SOUSA, Mª Aparecida S. de. A Conquista do Sertão da Ressaca: povoamento e posse da terra no interior da Bahia. Belo Horizonte: UFMG; 1997, (Dissertação de Mestrado, ainda não publicada) p. 21 21 Cf. SODRÉ, Nelson Werneck. Op. cit. p. 122-124; ANDRADE, Celeste Maria Pacheco de. (1990). Origens do Povoamento de Feira de Santana: um estudo de história colonial. Salvador: UFBA (Dissertação de Mestrado), p. 44 20 7 léguas da costa, sendo essa área exclusiva para o cultivo da cana-de-caçúcar22. Nesse segundo momento, até romper, significativamente, sua fase de coexistência com a zona agrícola açucareira; aqui, “a pecuária ganha o sertão”, no dizer de Nelson Werneck Sodré23, marcando o terceiro momento da expansão pastoril, a qual efetiva a conquista do interior, proporcionando uma nova fase para a economia colonial, com o desenvolvimento do comércio interno. A pecuária contribuiu, então, para a colonização do sertão e, portanto, não pode ser vista como um simples fator de ocupação do interior: “Não é com justiça que se relega em nossa história para um plano secundário. Certo que não ostenta o lustre dos feitos políticos, nem aparece na primeira ordem dos grandes acontecimentos do país.”24 Aparecendo assim, timidamente, na história da colonização do Brasil, como atividade subsidiária das grandes lavouras, a pecuária foi se expandindo cada vez mais, a partir das necessidades e condições existentes, cumprindo seu grande papel de incorporação do sertão à dinâmica colonial, ocupando, povoando e interligando o interior com o litoral. A pecuária ocupou grandes extensões de terras interioranas, dando “ao homem colonial a noção de valor econômico das áreas que não apresentavam riquezas minerais e que não prestavam à lavoura comercial”25. Desde a primeira metade do século XVII, a criação do gado já era realizada extensivamente no sertão baiano, nas grandes sesmarias doadas pelo governo português aos latifundiários sesmeiros Francisco Dias D’ávila, da Casa da Torre e Antonio Guedes de Brito, da Casa da Ponte. As propriedades deste último, por exemplo, iam desde o litoral aos sertões, incluindo a região de Jacobina26. Podemos perceber, então, que a atividade pecuarista no sertão se deu inicialmente através da grande propriedade sesmarial27, estendendo, após, por todo o interior, especialmente pelo vale do Rio São Francisco. 22 Cf. SOUSA, Maria Aparecida S. de. Op. cit. p. 81; PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense; 2000, p. 191 PRADO Jr. Caio. Op. cit. p. 191 23 SODRÉ, Nelson Werneck. Op. cit. p. 123 24 PRADO JÚNIOR, Caio. Op. cit. p. 190 25 HOLLANDA, Sérgio Buarque de. História Geral da Civilização Brasileira. A Época Colonial: administração, economia e sociedade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil; 1997, p. 219 26 Cf. ANDRADE, Celeste Maria Pacheco de. Op. cit. p. 31-32 27 Cf. SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Pecuária e formação do mercado interno no Brasil-Colônia. Estudos, Sociedade e Agricultura. Rio de Janeiro: 1997, n.º 8, p. 130 8 Além do grande consumo pelas populações litorâneas, as grandes extensões de terras não cultiváveis e a facilidade de se instalar uma fazenda criadora de gado28, a qual exigia poucos recursos e mão-de-obra, enfim, um pequeno investimento, motivaram a implantação de muitas fazendas e a conseqüente expansão da pecuária. Com isso, os bandeirantes que se fixaram nessa região, viram na criação extensiva do gado um fator de extrema importância para a ocupação e povoamento das terras conquistadas. Dessa forma, com a chegada do bandeirante João Gonçalves da Costa na segunda metade do século XVIII, o mesmo adota esse empreendimento como principal meio de efetivar a instalação dos integrantes de sua bandeira por toda a região. O bandeirante João Gonçalves da Costa, certamente morou no Arraial dos Poções, onde nasceu o seu filho Manoel Gonçalves da Costa29. No entanto, instalaram-se no arraial o seu cunhado: Timotheo Gonçalves da Costa, juntamente com os dois filhos: Bernardo e Roberto Gonçalves da Costa iniciando o processo de povoamento dessa região, em finais do século XVIII. Bernardo, inclusive, conforme registro do seu testamento já nasceu nos domínios do Arraial dos Poções. Outro importante fazendeiro do arraial, é o filho natural de João Gonçalves, Raymundo Gonçalves da Costa, este, se mostrou um exímio combatente dos indígenas e fixa residência na Fazenda dos Morrinhos, distante sete quilômetros da sede do arraial. A atividade econômica principal vai ser a criação do gado, que, juntamente com a cultura do algodão e gêneros de subsistência vão compor o cenário econômico do colonizador dessa faixa de terra do Sertão da Ressaca. Uma das preocupações principais da bandeira chefiada por João Gonçalves da Costa é sobrepor a resistência indígena, instalando fazendas de gado e núcleos habitacionais nos lugares onde localizavam as aldeias, abrindo estradas que serviram de vias de comunicação entre as diversas regiões da província da Bahia, conforme fez entre o Sertão da Ressaca e a Capitania de Ilhéus, por onde transportou o primeiro lote de gado para aquela região: “(...) Demarcou e abriu a estrada, que discorre a margem do Rio das Contas, donde a fez partir para as villas da foz do mesmo rio, para Camamú e desta para todo o território das outras villas, fazendo logo descer hum lote de gado, que foi o primeiro, que aquelles moradores virão (...)”30. O gado criado nessa região; e, o que por aí passava, vindo das fazendas localizadas às margens do Rio São Francisco era enviado a diversas localidades da província, sendo 28 Cf. PRADO JÚNIOR, Caio. Op. cit. p. 193 Cf. Testamento de Manoel Gonçalves da Costa Arquivo da Primeira Vara Cível da Comarca de Vitória da Conquista, Caixa Inventários nº 8 (1850-1859), sem catalogação. 29 9 utilizado para o abastecimento dos açougues, para o transporte de madeira utilizado na construção de navios, na Capitania de Ilhéus, além de sua aplicação na agricultura e o uso do couro, artefato de grande utilidade na confecção de utensílios. É por meio dessas atividades que o Arraial dos Poções vai se desenvolvendo durante o século XIX. Assim, quando da passagem do príncipe austríaco Maximiliano de WiedNeuwied, que esteve em visita ao Brasil entre os anos de 1815 e 1817, faz a seguinte observação: “Em breve achei-me no pequeno arraial de Poções, cujo vigário pareceu-me grande apreciador de bebidas fortes, pelo menos a julgar pelo estado de completa embriaguez. O lugar conta com uma dúzia de casas e uma capela feita de barro31. O arraial desenvolve suas atividades econômicas, basicamente, centradas nas fazendas, visto que, àquela época era um pequeno núcleo habitacional. As fazendas que circundam o Arraial dos Poções desenvolveram formas de reprodução da vida material específicas, principalmente, por meio da pecuária, atividade econômica introduzida pelo colonizador na região. A produção agrícola, com o cultivo do algodão, para a confecção artesanal de roupas para a população local, inclusive os escravos; somados ao milho e o feijão, produtos constantes dos relatórios do príncipe Maximiliano; assim como, o desenvolvimento de diversas atividades essenciais à vida da comunidade. Para tanto, havia a utilização efetiva do escravo negro, agente presente em todos os inventários e testamentos analisados, contribuindo de forma significativa para a produção material necessária à vida dos moradores do arraial. A expansão dos domínios de Rio de Contas, aos poucos, vais se tornando imprescindível para a conquista de todo o sertão baiano: “Tanto é verdade que, 31 anos após as descobertas das minas da Bahia, o processo de conquista e ocupação, junto com a criação de gado e o plantio de roças, ainda se processava”32. Essa atividade é intensificada com o início da escassez do ouro nas minas daquela região, assim como, a necessidade de se encontrar novas minas e alternativas para o abastecimento de gêneros de primeira necessidade para as pessoas que adentravam ao sertão. Uma das medidas adotadas pelos conquistadores foi o estabelecimento de fazendas, onde se construíam os currais e ao redor dos mesmos produzia-se os demais artigos necessários à sobrevivência. O que pudemos constatar em 30 Anais da Biblioteca Nacional, vol. 32, p. 539 WIED-NEWIED, Maximiliano (princípe de). Viagem ao Brasil (1815-1817). Tradução de Edgar Sussekin de Mendonça e Flavio Poppe de Figueiredo. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; 1989, p. 445 32 VASCONCELOS, Albertina L. (1998). Ouro: Conquistas, Tensões, Poder. Mineração e Escravidão – Bahia do Século XVIII. Campinas: Unicamp; 1998, (Dissertação de Mestrado) trabalho não publicado. p. 227 31 10 correspondência enviada ao rei de Portugal, datada de 28 de setembro de 1731, o vice-rei dava notícias “sobre a conquista do Rio de Contas, afirmando que estava adiantada em mais de 80 léguas”33, descrevendo as formas pelas quais se processava tal expansão. Estabelecer fazendas para a criação de gado e o cultivo de gêneros agrícolas essenciais, se tornaram as principais atividades econômicas dos bandeirantes que se instalaram nos domínios do Arraial dos Poções. Observamos a existência de uma quantidade considerável de gado bovino, muar, eqüino e caprino em todos os inventários analisados, dentre os maiores pecuaristas, se destacam: Raymundo Gonçalves da Costa 330 cabeças de gado vacum, avaliados em 1.815$000 (um conto e oitocentos e quinze mil réis), em 1839; Joana Maria da Graça com 82 cabeças, avaliadas em 927$000 (novecentos e vinte e sete mil réis), em 1845; Rozaura Gonçalves da Costa, com 41 cabeças, no valor de 533$000 (quinhentos e trinta e três mil réis), em 1850; Joana Gonçalves do Espírito Santo, em 1898, ainda conta com 22 cabeças de gado, dentre outros, no entanto, percebemos nessa época, a introdução de uma nova atividade econômica, o café, que aparece neste inventário numa quantidade de 1.300 pés, avaliados a hum mil réis cada, perfazendo um total de um conto e trezentos mil réis, se constituindo no bem de maior valor desse inventário. O gado era criado de forma extensiva, exposto aos ataques de animais ferozes e dos índios. Estes viam no abate dos bois uma das formas de demonstrar o seu descontentamento com a usurpação de suas terras empreendido pelos colonizadores. Os rebanhos viviam no meio da mata sob olhares atentos de escravos, responsáveis diretos por seu pastoreio, segundo observou o príncipe Maximiliano: “Uma das principais obrigações do vaqueiro é proteger os rebanhos contra os animais carnívoros. Conhecem-se nessas solidões três espécies de grandes felinos, que atacam os bois e os cavalos; são a onça pintada ou ‘jaguareté’, o ‘tigre’ preto, e a onça vermelha ou ‘suçuarana’.”34 O próprio escravo era presa dos constantes ataques desses animais e vítimas do perigoso trabalho de amansar os cavalos para o exercício de suas funções, caso também relatado pelo príncipe da seguinte forma: “Os vaqueiros consideram questão de honra domar assim os cavalos mais bravios, (...) algumas vezes perdem a vida, acidente que não afeta muito o proprietário, seu senhor, pois trata-se apenas de um negro a menos, de que ele não faz menor caso do que o gado.”35 33 Idem, p. 227 WIED-NEUWIED, Príncipe de. Op. cit. p. 423 35 Idem, p. 421 34 11 Esse relato explicita o caráter de mercadoria atribuído ao escravo, especialmente o vaqueiro, nesse caso, comparado a um boi, não apresentando nenhuma característica sentimental ou racional, atributos do ser humano. O escravo vaqueiro é um dos “profissionais” mais caros dentre os presentes no arraial, justificando, talvez, o peso de suas responsabilidades, o valor monetário atribuído às suas habilidades, pois, o trabalho era um dos mais perigosos: “Se o serviço dos vaqueiros é penoso e fatigante, em compensação passam eles o resto do tempo na maior ociosidade, e dormem e descansam todo o dia. Comer e dormir são as suas únicas distrações”36. Não queremos negar com isso, a existência de conflitos entre senhor e escravo. O tratamento desumano coexistiu no Arraial dos Poções nos moldes que nos habituamos a ler em literatura específica. Isto fica claro, principalmente, pela existência de pelo menos um quilombo na região: a Comunidade do Cinzento, localizado na zona rural do atual município de Planalto, na época, área do Arraial dos Poções, a qual preserva muitas das características do seu tempo. Dentre os inventários analisados, um em especial nos chamou a atenção: o inventário do padre Manoel Mendes da Costa, este, um dos primeiros padres a residir no Arraial, senão o primeiro, conta com uma grande variedade de bens; sendo o único que consta de um canavial de 50 braças em quadro, uma panela de alambique, o objeto mais caro do referido inventário, avaliada por 32$000 (trinta e dois mil réis); com casas de morada no Arraial dos Poções na Fazenda Pavão; 26 cabeças de gado vacum, cavalos, mulas, éguas; além de três escravos: Julia, cabra de idade de quarenta e cinco anos avaliada em 700$000 (setecentos mil réis), Dionisio, cabra avaliado em 1.000$000 (um conto de réis); e, um moleque de nome Antonio, cabra avaliado também por 1.000$000 (um conto de réis), sendo estes, os escravos mais caros dos relacionados nos inventários analisados. O bandeirante João Gonçalves da Costa, contando com o auxílio dos demais membros de sua bandeira, bem como, a participação de escravos negros e os índios submetidos ao jugo colonizador; foi, sem dúvida o responsável pela conquista do Arraial dos Poções no Sertão da Ressaca, e transformou-se em grande proprietário de terras, criador de gado, além de cultivador de algodão, outra atividade importante na região, como ressaltou Caio Prado Júnior: “O interior mais remoto também se aproveita da preferência do algodão por climas secos. (...). Ela abrange, (...) a área que se estende a leste do Rio São Francisco, 36 Ibidem, p. 422 12 compreendendo a Serra do Monte Alto, Rio de Contas, Gavião e Conquista, com centro principal em Caetité.37 A cultura algodoeira e a pecuária, juntas, formavam as principais atividades econômicas do Arraial da Conquista, no início do século XIX, contribuindo para a fixação do colono na região e a inserção desta na economia colonial. O Arraial dos Poções se encontra a partir de 1810 sob a jurisdição da Vila de Santa Ana do Príncipe de Caetité, quando esta foi elevada à categoria de vila; e, a partir de 1840, passa a pertencer à Imperial Vila da Vitória, antigo Arraial da Conquista; e, não raro, há registros de algodão e artefatos utilizados no beneficiamento do mesmo em diversos inventários e testamentos analisados, bem como, o registro de dívidas de determinada quantidade de algodão, dando a entender, que o algodão, talvez, servisse como padrão de medida entre as trocas realizadas pelos fazendeiros da região. A interação dessas atividades: pecuária bovina, cultura do algodoeira, além, da agricultura de subsistência vão se constituir em elementos essenciais, propulsores da dinâmica interna da produção econômica da região, possibilitando a fixação dos bandeirantes no Arraial dos Poções e fazendas circunvizinhas, contribuindo significativamente para a criação dos primeiros núcleos habitacionais, expandindo-se; e, posteriormente, dando origem às diversas cidades que compõem grande parte do que é conhecido atualmente, como região Sudoeste da Bahia. O Arraial dos Poções, transformado em vila em 1880, deu origem a diversos municípios da região, como: Ibicuí, Iguaí, Nova Canaã, Planalto, Boa Nova, Bom Jesus da Serra, Caetanos e Mirante, dentre outros, sendo reduzido a pouco mais de dez por cento da sua área original. No entanto, para se estruturar aí a urbanização foi necessário dizimar um grande número de povos indígenas, levando-os ao completo extermínio. Os poucos que restaram, viveram pelas matas do município até princípios do século XX, conforme registros de Raimundo Meira Magalhães: “Os restantes pataxós e botocudos que até o ano de 1925 perambulavam pelas matas do município, retiraram-se para os lados do rio Pardo, onde foram reduzidos sobre a proteção do Posto Indígena que para tal fim mantém o governo federal.”38 Dessa forma, instituiu-se no arraial a empresa colonial européia, como mais uma das etapas de expansão do capital internacional, do cristianismo, representando pelo catolicismo em detrimento da destruição das formas de vida e cultura aí existentes, praticada pelo indígena. 37 PRADO JÚNIOR, Caio. Op. cit. p. 148 MAGALHÃES, Raimundo M. Monografia histórica do município de Poções. (Trabalho datilografado, sem publicação), s/d, p. 4 38 13 Estudos como esse, servem para demonstrar a integração dos arraiais e vilas do interior no desenvolvimento da história do Brasil; e, que a mesma não aconteceu de forma isolada, contribuindo inclusive, para desconstruir diversos mitos que foram criados acerca da história local, sendo que, “a ausência de estudos dessa natureza permite o surgimento de explicações míticas sobre a história local, transmitidas de geração em geração”39. Como acontece no município de Poções, que, carente de trabalhos científicos, cultiva a tradição oral, cheia de mitos, lendas e histórias fantasiosas acerca dos diversos aspectos inerentes à formação histórica da localidade. 39 SOUSA, M.ª Aparecida S. de. Op. cit. p. 163 14 REFERÊNCIAS BILBIOGRÁFICAS E FONTES DOCUMENTAIS FONTES MANUSCRITAS Arquivo da 1ª vara cível de Vitória da Conquista (não catalogados) seção judiciário • • • • • Inventário de Rozaura Gonçalves da Costa Caixa Inventários nº 8 (1850-1859) Inventário de Raymundo Gonçalves da Costa Caixa Inventários nº 1 (1801-1832-/1834-1839) Testamento de Manoel Gonçalves da Costa Caixa Inventários nº 8 (1850-1859) Inventário de Joana Maria da Graça Caixa Diversos nº 5 (1844-1846) Inventário do Padre Manoel Mendes da Costa Caixa Inventários nº 6 (1846) Arquivo da vara cível da Comarca de Poções (não catalogados) seção judiciário • Inventário de Joana Gonçalves do Espírito Santo (1898) Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Portugal Brasil Avulsos • Carta ao Desembargador e Ouvidor de Ilhéus Francisco Nunes da Costa para o governo interino da Bahia • Carta ao Desembargador e ouvidor de Ilhéus aos Exmos. Governadores (06 de agosto de 1783) Arquivo Histórico Ultramarino, Portugal (Fundo Castro e Almeida) • Carta Patente de Capitão da Conquista do Gentio Bárbaro do Sertão da Ressaca Doc. nº 25.107 • Carta Patente de capitão-mor da Conquista do Sertão da Ressaca Doc. nº 22.989 RELATOS COLONIAIS E DOCUMENTOS IMPRESSOS Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Inventário dos documentos relativos ao Brasil existentes no Arquivo de Marinha e Ultramar de Lisboa. Bahia, v. XXXI (1909), XXXII (1912), XXXVII (1918) WIED-NEWIED, Maximiliano (príncipe de). (1989). Viagem ao Brasil (1815-1817). Tradução de Edgar Sussekind de Mendonça e Flávio Poppe de Figueiredo. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (Coleção Reconquista do Brasil, 2. Série, vol. 156) 15 LIVROS ARTIGOS E DISSERTAÇÕES ANDRADE, Celeste Maria Pacheco de. Origens do Povoamento de Feira de Santana: um estudo de história colonial. Salvador: UFBA; 1990, (Dissertação de Mestrado), p. 18-49 ARAÚJO, Emanuel. Tão Vasto, Tão Ermo, Tão Longe: O Sertão e o Sertanejo nos Tempos Coloniais, in: PRIORE, Mary Del (org.). Revisão do Paraíso: os brasileiros e o Estado em 500 anos de história. Rio de Janeiro: Campus; 2000, p. 47-91 BELMONTE. No Tempo dos Bandeirantes. São Paulo: Melhoramentos; 1998, p. 22-228 CALMON, Pedro. (1929). A Conquista: História das Bandeiras Bahianas. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional; 1929, p. 5-190. (These de concurso à cadeira de História do Brasil da Escola Nacional do Rio de Janeiro). HOLLANDA, Sérgio Buarque de. História Geral da Civilização Brasileira. A Época Colonial: administração, economia e sociedade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil; 1997, p. 177-310 MAGALHÃES, Raimundo M. Monografia histórica do município de Poções. (Trabalho datilografado, sem publicação), s/d, MERCADANTE, Paulo. (1973). Os Sertões do Leste. Estudo de uma região: a mata mineira. Rio de Janeiro: Zahar Editores; 1973, p. 15 - 133 PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, Publifolha (Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro); 2000, p. 9-198 SILVA, Sylvio C. Bandeira de Mello. Urbanização e metropolização no Estado da Bahia: evolução e dinâmica. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA; 1989, p. 73-117 SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Pecuária e formação do mercado interno no Brasilcolônia. Estudos, Sociedade e Agricultura. Rio de Janeiro; 1997, n.º 8, p. 119 - 156 SOUSA, Maria Aparecida Silva de. A Conquista do Sertão da Ressaca: Povoamento e Posse da Terra no Interior da Bahia. Belho Horizonte: UFMG; 1998. (dissertação de mestrado, obra ainda não publicada) SODRÉ, Nelson Werneck. Formação Histórica do Brasil. São Paulo: DIFEL; 1982, p. 59 139 VASCONCELOS, Albertina L. Ouro: Conquistas, Tensões, Poder. Mineração e Escravidão – Bahia do Século XVIII. Campinas: Unicamp; 1998, p. 227 (dissertação de mestrado, obra não publicada) 16 TROPAS E TROPEIROS NO SERTÃO DA BAHIA Idelma Aparecida Ferreira Novais40; Maria Aparecida S. de Sousa41 O tropeirismo se desenvolveu no Brasil a partir do século XVII. Foi na mineração que essa prática cresceu, assumindo a importância e o dinamismo do mercado abastecedor. Os difíceis acessos da região das Gerais exigiam um tipo de animal que fosse resistente, que percorresse e suportasse as enormes distâncias, com terrenos íngremes e ainda com o peso das cargas que buscavam suprir as inúmeras carências das populações locais. Com a expansão da pecuária e a penetração do vasto interior do território nordestino, se ampliou a atividade exercida pelo tropeirismo: desenvolvendo-se inicialmente nas áreas litorâneas, na região mineradora e no sul do País, aos poucos se espalhou pelo interior do Nordeste, acompanhando a precariedade das locomoções de comunicação regional, pois onde havia povoados, lá estava o tropeiro, figura indispensável para a superação das dificuldades que obstaculizavam os contatos locais naqueles tempos difíceis, representando não apenas a fonte de aquisição de mercadorias como também de informações. Tal atividade consistia em abastecer as vilas, povoados e lugarejos com mercadorias vindas de lugares distantes para atender as necessidades das pessoas: desde produtos utilizados no abastecimento: carne, farinha, arroz, feijão; como também para uso geral (ferramentas) e até mesmo produtos importados (tecidos). A intensidade e variedade das trocas proporcionavam uma integração comercial entre regiões anteriormente privadas desse intercâmbio, possibilitando a diminuição das distâncias características de áreas com povoamento disperso. A tropa, normalmente formada por lotes de 10 a 12 animais, muares e burros, é que conduzia as mercadorias, sendo guiada pelos tropeiros, homens que protagonizaram mudanças significativas na paisagem sertaneja ao longo de dois séculos e meio. A origem da palavra tropa é imprecisa. Rogich Vieira acredita que o termo tenha sentido americanizado, provindo das colônias hispânicas, principalmente Peru e Argentina. Para ele, no Brasil a palavra sofreu algumas adaptações de acordo as regiões, sendo que nas áreas centrais teve o seu significado restringido, designando apenas tropa de muares assínios, já para o Norte e Nordeste a tropa seria o “comboio” e o tropeiro unicamente o “comboeiro”42. Para Aluísio de Almeida, a tropa tanto poderia se constituir de cavalos, bois, muares como também de porcos, acrescentando a tudo isso a idéia de rebanho em marcha para a feira ou matadouro. 40 41 42 Aluna do Curso de História da UESB. E-mail: [email protected] Orientadora. Professora do Departamento de História da UESB. E-mail: [email protected] VIEIRA, Rogich, A Feira de Muares de Sorocaba. IN. BONADIO, Geraldo. O tropeirismo e a formação do Brasil. Academia Sorocabana de Letras; Fundação Ubaldino do Amaral: Skol/Momesso/Caracu. 1984, p. 27-32 17 Alguns historiadores divergem quanto à identificação do tropeiro. Para Licurgo Santos Filho e Paulo Mercadante43, o tropeiro é aquele que detém a posse dos animais. Outros, como João Dornas Filho44, afirmam que o tocador e o dono da tropa é a mesma pessoa, colocando ainda a função do tropeirismo como sendo uma profissão, sendo o tropeiro prático e honrado nos negócios. Alcir Lenharo afirma que o tropeiro é o negociante de tropas “solta” ou “carregada”, ou ainda “aquele que vive de negócio”, nesse caso tropa é composta por animais carregadas ou soltas à serem negociados45. Neste trabalho o que é considerado o tropeiro é o tocador da tropa, é aquele que vive a prática do tropeirismo, e por este está em contato direto com os animais e mercadorias, exercendo realmente o trabalho, também porque o dono da tropa participava igualmente do trabalho. *** O gado foi o responsável direto pela abertura das primeiras estradas do sertão. Segundo o Príncipe Maximiliano, no Sertão da Ressaca – área que atualmente corresponde ao Planalto da Conquista e por onde circulavam numerosos rebanhos – o bandeirante João Gonçalves da Costa, preocupado com o isolamento daquela região, usou recursos próprios para a abertura de estradas, ainda em princípios do século XIX, sendo amplamente apoiado pela coroa portuguesa que, no entanto, ainda não o havia ressarcido pelos empreendimentos feitos46. A abertura de estradas no Sertão da Ressaca teve um forte impacto no cenário regional pois propiciou o desenvolvimento de povoados, dos transportes e das comunicações dessa área com outros lugares como o litoral e a capital. As principais estradas seguiam os cursos dos rios e João Gonçalves da Costa aparece como um dos pioneiros nessa empreitada haja vista que já que era experiente explorador dos rios daquela área, como por exemplo o Pardo (...) Em outras palavras, pode se afirmar que ele foi fundamental na ruptura do isolamento do Sertão da Ressaca e adjacências47. 43 Ver respectivamente SANTOS FILHO, Licurgo. Uma Comunidade Rural no Brasil Antigo: Aspectos da vida patriarcal no Sertão da Bahia nos séculos XVIII e XIX. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956 e MERCADANTE, Paulo. Os Sertões do Leste: Estudo de uma Região – a mata mineira. Rio de Janeiro: Zahar, 1973. 44 DORNAS FILHO, João. Tropas e Tropeiros, da Academia Mineira de Letras. 45 LENHARO, Alcir. As Tropas da Moderação: o abastecimento da Corte na formação política do Brasil – 1808-1842. São Paulo: Símbolo, 1979. 46 WIED- NEUWIED, Maximiliano. Viagem ao Brasil (1815-1817). Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, , p. 439. 47 SOUZA, Maria Aparecida S. A Conquista do Sertão da Ressaca: povoamento e ocupação de terra no interior da Bahia. Belo Horizonte: UFMG. 1998 (Dissertação de Mestrado) p. 79-80. 18 Essa preocupação com a abertura e também conservação de estradas pode se perceber ainda no Código de Posturas de 1842 da então Imperial Vila da Vitória (hoje cidade de Vitória da Conquista) que em seu artigo 20 determina: Todo o proprietário, ou pessoa que tiver terra junto das estradas e caminhos públicos, he obrigado a tel-as limpas, e desramadas. Pena 10$000 reis, ou oito dias de prizão. Na mesma pena incorrerão os que não conservarem as estradas, que passarem por suas terras, limpas e sem ramagens, que embaracem o transito público48. Além da criação de gado – fonte de renda para os sertanejos – havia também a de muares, cavalos e burros que também contribuíram para impulsionar o mercado interno, revelando uma atividade rendosa e significativa para os criadores e comerciantes. A nível nacional, um exemplo desse comércio é a famosa feira de Sorocaba, referência em todo o país e ponto de encontro de tropeiros e fazendeiros oriundos de várias regiões do Brasil, em busca dos melhores animais e dos menores preços.49 Os tropeiros foram os responsáveis diretos pela entrada dos cavalos e muares no Brasil. Segundo Rogich Vieira, os tropeiros do sul traziam esses animais principalmente da Argentina, do Uruguai, e também do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, pois estes eram tidos como os melhores para o transporte de carga. Segundo ele, desde a década de 1750, a Coroa Portuguesa arrecadava impostos sobre a entrada e a circulação de animais no Brasil. Isso já garantia um bom lucro para a máquina administrativa, como também para enriquecer o mercado e os comerciantes. A compra e venda desses animais, e também para o pagamento do imposto, eram facilitadas, uma vez que, era feito em “espécie de duplicatas” que possibilitava o parcelamento do pagamento em um ou dois anos conforme contrato assinado. Quando o tropeiro necessitava do dinheiro, trocava a duplicata e, mesmo perdendo alguns juros, usufruía do dinheiro para a compra de mercadorias que satisfaziam suas necessidades imediatas50. Os cavalos e muares eram vendidos para as montarias e para o transporte de cargas. O mais vendido era o muar, e o seu preço era de acordo a sua qualidade. As “bestas florão” e as “berros grossos” eram os mais caros, de qualidade excepcional; já os “refugos”, os “alcaides” eram animais ruins e difíceis de vender por serem fisicamente debilitados. Tinham ainda os “burros xucros”, não domados, os “tambeiros” e “cargueiros”, animais dóceis e mansos e o “fuá” animal preguiçoso. Para cada tipo de animal, o tropeiro, o comerciante e o comprador identificavam-no de acordo as suas qualidades e funções51. 48 Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB). Código de Posturas da Câmara Municipal da Imperial Villa da Vitória, 18 de maio de 1842. 49 SANTOS FILHO, Licurgo. Op. Cit., p. 248. 50 VIEIRA, Rogich. Op. Cit.1984, p. 32-34. 51 VIEIRA, Rogich. A Princesa dos Tropeiros. Sorocaba, SP – ELU (Editora Literatura Universal), 1972, p. 11,12,17, e 69. 19 Ao longo das estradas se dava a fixação de ranchos, em que os tropeiros, viajantes e boiadeiros pernoitavam, gerando assim, um pequeno comércio, tendo a venda como o principal ponto. O rancho também era o responsável pelo surgimento de lugarejos que posteriormente se tornariam vilas e cidades, como é o caso de Jequié, uma vez que a região era área de pouso, de engorda e de criação de bovinos52. Conforme verificamos através da documentação e dos depoimentos coletados com extropeiros do Sertão da Ressaca, o caminho utilizado pelos mesmos de Vitória da Conquista a Jequié incluía o povoado Lagoa da Pedra (atual Itaipu), Inácio (hoje pertencente ao município de planalto), Mamoneira, Manoel Roque (atual Manoel Vitorino), Buscavile, seguindo Lagoa da Pedra de Nênego (integrantes do município de Manoel Vitorino), Rodeador, Castanhão e, por último, Jequié. Este percurso levava sete dias com as devidas paradas nos pousos ao longo do trajeto. A Estrada Real de Poções que ligava Vitória da Conquista a Poções não era utilizada pelos tropeiros, a não ser que fossem diretamente até Poções, pois era um percurso longo e penoso53. Além desses lugares, os tropeiros oriundos de Lagoa da Pedra percorriam também Encruzilhada, Brumado, Caetité, Rio de Contas, Jequié e Itaji. Para realizar esses trajetos e os fretes, às vezes ficavam até meses fora de casa, mas sempre retornavam com encomendas e notícias variadas . A área de abrangência desses tropeiros estendia-se por outras cidades fora do roteiro já mencionado. O ex-tropeiro José Ribeiro de Carvalho, por exemplo, residia em Iguaí e viajava para Poções, Ponte de Astero (em Ibicuí), Itabuna, Ilhéus. Manoel Pereira da Silva, residente em Anagé, viajava para Mata verde (Minas Gerais), Taboa dos Alves, Candeal, Condeúba e Jequié. Na margem das estradas se erguiam vendas e ranchos para atender as necessidades dos viajantes e tropeiros. Os ranchos geralmente ficavam em alguma fazenda e sua estrutura era simples, apenas um barracão com telhado e meia parede. No local os tropeiros descarregavam as mercadorias e as protegiam contra possíveis chuvas. O ex-tropeiro José Ribeiro de 52 ARAÚJO, Emerson Pinto de. Capítulos da História de Jequié. Salvador: EGB editora, 1997, p. 48-49. Conforme depoimentos dos ex-tropeiros Ivan Alves Ferreira, Ivo Alves sobrinho e Sandoval Pereira de Oliveira, alguns nomes sofreram alterações, mas outros permaneceram com a mesma denominação oferecida pelos tropeiros. O rancho que ficava na Cachoeira de Manoel Roque é o mesmo citado pelo Príncipe Maximiliano quando este esteve na região e se hospedou ali. WIED- NEUWIED, Maximiliano. Op. Cit., p. 447 53 20 Carvalho afirma que, às vezes, a rancharia tinha muita tropa e quando isto ocorria, quem ia chegando por último ia ficando no “tempo”54. Quando não tinha rancharia com uma estrutura coberta, o tropeiro armava sua própria barraca, que carregava junto com as mercadorias. Segundo seu Sandoval Pereira de Oliveira, para armar a tolda, fazia-se uma vala no chão para isolar o terreno da enxurrada da chuva, colocava quatro paus e cobria com couro para proteger a mercadoria. Para dormir, o chão também era coberto com couro55. As estradas que ligavam os lugares de rota dos tropeiros, no inicio do século XX, ainda se caracterizavam por caminhos estreitos, obrigando a tropa a andar em fila. Caminhos muitas vezes cheios de galhos que machucavam os animais e danificavam as mercadorias. Essas estradas, de acordo com a sua localidade, nas regiões de clima seco e de caatinga como Jequié, Anagé, Condeúba, Itaji, Caetité, entre outras, eram de difíceis acesso devido à falta d’água, principalmente em épocas de secas prolongadas. Os animais tinham que andar devagar e com menos peso do que o habitual, pois o sol quente os desgastavam mais. Já a região de Poções, Ponte de Astero (em Ibicuí), Iguaí, Itabuna, Ilhéus, a dificuldade encontrada pelos tropeiros era a chuva, que era constante nessa área, elevando o nível das águas do rio Pardo o que obrigava os tropeiros a permanecerem no pouso durante cinco a sete dias até que o nível do rio voltasse ao normal. O Príncipe Maximiliano relata sobre a presença de salteadores nas estradas das margens do rio Gavião, representando perigo para viajantes e tropeiros, que a preferiam por ser mais curta, porém perigosa56. Já nas primeiras décadas do século passado, os ex-tropeiros que andavam por essas estradas da região, dizem não tem sofrido roubo ou outro tipo de violência por salteadores pelos caminhos, indicando uma certa diminuição da violência nesses locais. O ex-tropeiro José Ribeiro de Carvalho conta que não se preocupava com isso, e que o único perigo que enfrentavam era o fato de: Às vezes chegava um camarada com uma surraca57 nas costas, ... eles pedia o arrancho ... aí a gente falava assim, “que saqueiro tinha que durmir marrado”... que ficava com medo de saqueiro, ... tinha aquela cisma58. 54 Entrevista com o ex-tropeiro José R. de Carvalho, em 31 de dezembro de 2001 Entrevista com o ex-tropeiro Sandoval P. de Oliveira, em 27 de janeiro de 2002. 56 Op. Cit., p. 439. 57 Surraca, saco usado nas costas pelo viajante 58 José Ribeiro de Carvalho, ex-tropeiro, Op. Cit. 55 21 Os tropeiros enfrentavam muitas dificuldades em seu cotidiano. Eram longas caminhadas, tocando os burros e em constante estado de alerta para que nada de errado pudesse acontecer e machucar um animal ou danificar as mercadorias. O trabalho era árduo e a disciplina rigorosa: levantavam cedo, arriavam os animais e seguiam rumo ao seu destino. Para aparelhar a tropa, utilizava-se arreio em couro, resistentes para agüentar o peso das cargas e o movimento dos animais. Era necessário ajustar bem a mercadoria no animal, para que ela não quebrasse, perdesse ou estragasse. A cangalha era um elemento importantíssimo, pois era nela que a mercadoria seguia segura. Era feita toda em madeira e, depois de colocada no animal, instalavam-se as bruacas, confeccionadas em couro, para não danificar a mercadoria e compostas com uma tampa, também em couro, em cada lado da cangalha. As mercadorias e o peso deveriam ser iguais em cada bruaca para que houvesse um equilíbrio, facilitando o transporte. Para reforçar a segurança, colocava-se um couro por cima da cangalha e da bruaca visando proteger as mercadorias sobretudo no período de chuvas. Depois de arriada, a tropa era organizada para seguir viagem. Era ornamentada e os animais recebiam guizos, gongolos, chocalhos. O madrinheiro59 puxava a tropa e os demais o acompanhava. Segundo os ex-tropeiros, quando chegavam em uma cidade ou em uma vila, o barulho dos guizos atraía a população local e eram recebidos com festa e entusiasmo após uma longa viagem de trabalho. Os animais exigiam um cuidado especial, tanto com a alimentação como também o preparo físico, pois além de caminharem longas distâncias, ainda carregavam peso de até 120 quilos, subindo e descendo ladeiras. Na seca o cuidado era redobrado devido à falta d’água e o calor que desgastavam sensivelmente o animal. As doenças dos animais eram tratadas pelos próprios tropeiros. As mais comuns eram a dor de barriga, geralmente causada por planta venenosa, e tratada com garrafadas e com rezas; Já a pisadura, provocada pelo atrito de cangalhas e outros ferimentos, eram tratados com toucinhos quentes e repouso.60 Os burros eram animais ariscos e alguns apresentavam hábitos que dificultavam o trabalho do tropeiro, principalmente na hora de recolhê-los na manga, quando escondiam ou fugiam. Sobre isso, o ex-tropeiro Ivan Alves conta que Não deixava de num apresentar uma mania.. Tinha uma mesmo que todo dia que ... Arriava ela duas vezes durante a viagem ... Ela fazia de tudo pra derrubar ... pulava, caia, deitava, rolava pelo chão. Aí, tinha que consertar e só assim ela seguia viagem61. Os tropeiros percorriam os vastos sertões abastecendo as feiras. Mas, em muitos casos, iam de fazenda em fazenda, suprindo as vendas que existiam pelos caminhos; levando as encomendas feitas pelos vendeiros. José Ribeiro de Carvalho, afirma que as feiras eram poucas e pequenas, e que existia mesmo era muitas vendas pelo interior que eles percorriam atendendo os pedidos dos vendeiros62. 59 O madrinheiro seguia à frente da tropa, sempre enfeitado, e tanto podia ser uma pessoa, um cachorro ou um burro. 60 DORNAS FILHO, João, Op. Cit., p. 113 e relatos dos ex-tropeiros. 61 Entrevista com o ex-tropeiro Ivan Alves Ferreira, em 31 de março de 2002 62 Entrevista com o ex-tropeiro, em 31 de dezembro de 2001 22 Segundo alguns autores, como Alcir Lenharo, Adolfo Friori, Rogich Vieira, Licurgo Santos Filho, os tropeiros pagavam impostos e pedágios tanto pelos animais, mercadorias e pela passagem em alguns lugares, principalmente no Sul do Brasil. No Sertão da Ressaca, porém, não temos registros de que esse tipo de imposto tenha sido praticado, pelo menos na documentação consultada até o momento. Para esses tropeiros, uma das principais localidades de aquisição de mercadorias era a cidade de Jequié que, nas primeiras décadas do século XX, tornou-se um importante centro comercial, pois todos os comerciantes para ali se dirigiam em busca dos cobiçados produtos vindos da capital através de trem, ou dali seguiam diretamente para Salvador realizar suas compras e no retorno à Jequié, as tropas encarregavam de transportar as mercadorias até o seu destino. Os tropeiros, além de procurarem nos armazéns os fretes que precisavam ser feitos, já possuíam os fregueses certos na região onde moravam e viajavam. Geralmente vendeiros que faziam encomendas para o comércio local. O Senhor Manoel Pereira da Silva explica que as feiras que tinham naquele tempo, início do século XX, eram poucas e praticamente só existiam nas cidades. Desse modo, nos lugares mais afastados da zona urbana, o comércio era efetuado pelos vendeiros e fazendeiros, suprindo o consumo das fazendas e dos moradores próximos, evidenciando a presença de um núcleo populacional ao redor das vendas. Conforme afirma Senhor Sandoval Oliveira: “E era... era cheio de venda, nas estrada tudo”63. Na prática do tropeirismo, havia uma troca de produtos do campo para a cidade e vice-versa. Assim, na ida às cidades, o tropeiro geralmente levava produtos de subsistência como carne seca, toucinho, feijão, farinha, milho, algodão e outros produtos como pedra de amolar, forno de fazer farinha, pedra de forno etc. Na volta, traziam mercadorias que não existiam na região como também encomendas para os vendeiros do lugar como açúcar, rapadura, querosene, sal, roupas, tecidos, tijolo, café, sabão, peixe e até cerveja. A troca de produtos variava de acordo a necessidade do lugar. O pagamento por essa mercadoria e pelo frete era sempre em dinheiro. A produção da mercadoria para a comercialização era feita na própria fazenda do tropeiro. Plantava feijão, mandioca e criava o gado. Em toda fazenda existia a casa de farinha. A mandioca era colhida e enviada para a casa de farinha, aí as mulheres raspavam, moíam, transformavam em massa e era levada para a prensa, retirada a água para depois levar ao forno para torração. Depois era só ensacar, carregar os burros e comercializar. Da mandioca retirava a puba e o polvilho, que eram bons para o preparo de bolos e biscoitos, não podia faltar o beiju de massa. Todo esse processo era manual. Para o preparo da carne seca, levava um certo tempo, de 03 a 04 dias. A produção era muita. Matava-se de 08 a 10 vacas. Seu Ivan Alves Ferreira afirma que as vacas tanto podiam ser da própria criação como adquiridas na região. 02 ou 03 pessoas passavam o dia e a noite observando a carne para que nenhum imprevisto ocorresse. À noite fazia-se a fogueira e dormiam no estaleiro, revezando a dormida, enquanto um dormia o outro vigiava. A vestimenta do tropeiro era simples: camisa de algodão e calça. Para calçar usava os chinelos (“precatas”) de couro, que eram mais confortáveis para andar. O chapéu de couro era indispensável e, de acordo com José R. de Carvalho, não só para proteger do sol, mas também para transportar as agulhas, que ficavam pregadas nas abas dos chapéus, para costurar os sacos dos cereais durante a viagem e não derramá-los caso rasgassem pelo caminho. 63 Op. Cit. 23 O acesso ao banho durante as viagens era bastante difícil. Geralmente o tropeiro recorria aos tanques e rios que existiam perto do pouso, quando nadavam ou utilizavam um vasilhame para jogar água sobre o corpo. Isso tudo era ao ar livre, já que não existia estrutura mínima para as necessidades higiênicas. Nos períodos de seca, os banhos não ocorriam com a mesma freqüência. Os homens ingressavam no tropeirismo bastante cedo. Aos 12, 13, 15 anos, desde que suportassem as agruras do ofício. Nesse caso, dois meninos acompanhavam o tropeiro, pois os dois juntos podiam ajudá-lo a colocar as bruacas na cangalha. As duas cangalhas deveriam ser postas ao mesmo tempo no muar para que não houvesse acidentes nem com o animal e nem com as mercadorias. No Sertão da Ressaca as tropas familiares ou independentes, como era o caso de José Ribeiro de Carvalho, que tinha sua própria tropa, mas não possuía propriedade rural, viajavam levando frete de um lugar para o outro. Porém, existia também uma estrutura mais comercial de tropas, ou seja, firmas que alugavam-nas ou encarregavam-se dos fretes. De acordo com Emerson Pinto de Araújo, em Jequié, todo frete era feito por tropas e o preço era elevado pelo transporte, além da responsabilidade sobre as mercadorias. Rotordando, que já possuía um armazém, também não demorou muito para formar a própria firma de tropas, muito bem equipada com 120 bestas64. Mesmo existindo essas firmas, a estrutura familiar do tropeirismo foi a que prevaleceu na região. *** O tropeiro, além de homem de negócios, comerciante, assumia outras funções, principalmente como difusor de noticias, além de intercambiar bilhetes, cartas, recados e os últimos acontecimentos dos lugares visitados. Quando a tropa chegava, todos queriam saber das informações. Desse modo, as tropas funcionavam como correios, e os motivos não eram apenas pela demora no recebimento das notícias através de outros meios, mas principalmente pela confiança que as pessoas depositavam nos tropeiros, pois O tropeiro era geralmente muito conhecido na vila, reconhecido como pessoa de bem que, vivendo deste trabalho, tornava-se credor de grande confiança e estima dos comerciantes65. Um outro aspecto interessante e que merece ser mais bem investigado é a participação feminina, direta ou indiretamente, no universo do tropeirismo. Nos estudos consultados sobre o tema, pouca ou nenhuma referência é feita. Embora a maioria dos extropeiros entrevistados tenha afirmado que inexistiam mulheres exercendo esta função, pois, segundo eles, não agüentariam a sobrecarga de trabalho e as difíceis jornadas que o tropeirismo exigia, os ex-tropeiros José Ribeiro de Carvalho e Sandoval Pereira de Oliveira presenciaram mulheres atuando como condutores de tropa, acompanhantes e mesmo proprietárias de animais de carga, ainda que fosse bastante raro. O Senhor Sandoval diz que viu duas ou três e que 64 Op. Cit., p. 64. FONSECA, Humberto José & SILVA, Danilo M. da. Povoamento, Abastecimento e Cotidiano: Conquista nos séculos XVIII e XIX. IN. FONSECA, Humberto José (Org.). História e Cotidiano no Planalto da Conquista. Vitória da Conquista: Museu Regional de Vitória da Conquista/ UESB, 1998 (Memória Conquistense n 3, p. 143.) 65 24 Era a mesma mulher assim, ajeitava, botava um chapéu e tocava o lote. Panhava uma taca e saia bateno e levava. Agora outros é que ajudava botar a carga, que elas não agüentava,( e) carregava o lote66. Como Maria Isaura Pereira de Queiroz67 ressalta, a mulher no sertão trabalhava e assumia as mesmas tarefas destinadas ao homem. No que se refere às mulheres de tropeiros, elas ocupavam as funções anteriormente sob a responsabilidade dos maridos, quando estes seguiam viagem e ficavam até meses fora de casa. Ivan Alves Ferreira Conta que Benedita Alves Ferreira, sua mãe, tomava conta de tudo quando o marido viajava: cuidava da administração da fazenda, orientando o trabalho com a criação, da roça, da casa de farinha e da casa, isso para que a produção não parasse68. Pelo que pudemos constatar, a prática do tropeirismo no Sertão da Ressaca vigorou até meados do século XX quando os animais de carga foram substituídos por outros meios de transporte favorecidos pela construção de novas estradas, principalmente a Br 116 (Rio-Bahia), e provocando outras mudanças na paisagem sertaneja. 66 Entrevista, Op. Cit.b QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Os Cangaceiros. São Paulo: Duas Cidades, 1977, p. 38 68 Entrevista, Op. Cit. 67 25 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAUJO, Emanuel. Tão Vasto, Tão Ermo, Tão Longe: o Sertão e o Sertanejo nos tempos coloniais. IN: PRIORE, Mary Del (Org.) Revisão do Paraíso: os brasileiros e o Estado em 500 anos de história. Rio de Janeiro: Campus. 2000. ARAÚJO, Emerson Pinto de. Capítulos da História de Jequié. Salvador: EGB editora, 1997. BONADIO, Geraldo. O tropeirismo e a formação do Brasil. 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