Silveira CA, Robazzi MLCC, Marziale MHP
REGISTROS HOSPITALARES SOBRE
ACIDENTES DE TRABALHO ENTRE
TRABALHADORES DE SERVIÇOS GERAIS
MEDICAL REGISTERS ABOUT OCCUPATIONAL
ACCIDENTS INVOLVING GENERAL SERVICE WORKERS
Cristiane Aparecida Silveira*
Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi**
Maria Helena Palucci Marziale***
RESUMO: O estudo objetivou verificar em prontuários hospitalares o número de pacientes com Acidentes de Trabalho (AT) e entre estes aqueles com a ocupação de serviços gerais, as causas dos acidentes e as partes do corpo atingidas. O estudo foi descritivo, retrospectivo, com análise quantitativa dos
dados e foi realizado no Hospital Escola de Ribeirão Preto, São Paulo. Separou-se os prontuários dos
pacientes acidentados e atendidos, nos anos de 1995 e 1996, consultando-se os registros da equipe de
saúde. Evidenciou-se 40 pacientes acidentados com a ocupação de serviços gerais, sendo: 57,5% com
idades entre 20 a 39 anos; as principais causas dos AT aconteceram em decorrência do contato com
máquinas variadas, tubos, quedas, penetração de corpos estranhos; as partes do corpo mais lesadas
foram membros superiores e múltiplas partes. Geralmente, este trabalhador não tem qualificação e submete-se a realizar as mais variadas atividades para as quais não está capacitado. Sugestões são feitas no
sentido de minimizar os problemas levantados.
Palavras-chave
Palavras-chave: Acidente de trabalho; saúde do trabalhador; serviço geral
ABSTRACT
ABSTRACT:: The aim of this study was to verify, by searching in medical registers, the number of patients
involved in Occupational Accidents (OA) and, among them, the number of general service workers, the
causes of the accidents, and the affected body parts. It was a descriptive and retrospective study using
quantitative data analysis. The medical records of the patients attended at the School Hospital of Ribeirão Preto (São Paulo State) have been separated and the health team’s registers consulted. The results
showed 40 patients who were general service workers and had been involved in occupational accidents;
57,5% of those patients had ages between 20 to 39 years; the mean causes of the occupational accidents
were related to the use of different kind of machines, blades, pipes, as well as to falls and foreign body
penetration; the parts of the body most affected were the arms and multiple parts. Usually those workers
do not have adequate professional qualification and accept to perform different activities even when not
capacitated for them. The authors make suggestions in order to minimize the problems observed.
Keywords: Occupational accident; worker health; general service.
INTRODUÇÃO
É conhecido o fato que os ambientes de trabalho podem conter variados riscos, que por sua vez
favorecem a ocorrência de problemas de saúde nos
trabalhadores, os quais podem acontecer de modo
sutil ou explícito, provocando-lhes numerosos e prejudiciais danos.
Tais danos podem ser provocados pelos acidentes do trabalho (AT), os quais podem ocorrer pelo
exercício do trabalho, a serviço da empresa, provocando lesão corporal ou perturbação funcional ou
doença que cause a morte e a perda ou redução, per-
manente ou temporária, da capacidade para o trabalho1,2. São eventos bem configurados no tempo e no
espaço, cujas conseqüências imediatas, na quase totalidade dos casos, permitem estabelecer facilmente
o nexo causal com o trabalho3 .
Os AT são de notificação compulsória, mediante a Comunicação de Acidente de Trabalho
(CAT), de ordem legal, que representa o registro e o
reconhecimento oficial do acidente e o direito do
trabalhador ao seguro acidentário4. Necessariamente, a CAT deve ser emitida em seis vias, sendo uma
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Registros hospitalares de acidentes de trabalho
delas destinada à Previdência Social, que é a instituição pagadora do benefício ao trabalhador acidentado e que fica afastado do trabalho por mais de 15
dias. Devem ser notificados os acidentes, tipo os de
trajeto e as doenças profissionais.
No entanto, sabe-se também que o AT acaba
se tornando uma situação complexa e difícil de ser
estudada, entre outras razões, porque existe uma elevada subnotificação, principalmente em decorrência de sonegação de informações por parte das empresas em relação aos mesmos.
Levantamentos estatísticos oficiais não retratam o quadro verdadeiro de como adoecem os trabalhadores brasileiros; portanto, a subenumeração
de AT e de doenças profissionais é importante e deve
ser considerada5. Esta subnotificação é percebida
pelos autores que se dedicam a estudar a temática
AT e parece acontecer entre alguns grupos de trabalhadores, tais como os da saúde6,7,8,9, dos transportes10,
entre outros. Tal situação, no Brasil, ocorre por múltiplos fatores11,12,13,14,15 acrescentando-se o fato que
as informações relacionadas ao trabalho ainda são
precárias, pouco fidedignas e incompletas; a omissão existente, na comunicação de AT, é realidade
geral do país, mesmo em se tratando de trabalhador
com contrato laboral formal.
Em estudo que abrangeu 25 anos de levantamento de AT (1970 a 1995), foram encontrados mais de
29 milhões desses eventos e mais de cem mil mortes
relacionadas ao trabalho, registrados no Brasil4. Quando se considera o trabalhador informal, a notificação
do AT possivelmente torna-se mais rara ainda de ser
notificado Um contingente de acidentes e mortes atingindo os trabalhadores do setor informal da economia e com números ocultos deve ainda ser considerado e somado ao total; no entanto, essa situação não
acontece, tornando-os invisíveis em relação à Previdência Social e outras instâncias oficiais.
No mundo globalizado, competitivo, com os
direitos dos trabalhadores conquistados ao longo da
história sendo questionados, com o nível e composição dos empregos sendo modificados, com as
tecnologias de ponta diminuindo o número de trabalhadores contratados formalmente, aparecem no
cenário os desempregados, os terceirizados e um diversificado grupo de trabalhadores ligados ao mercado informal. Assim, os trabalhadores são sub-contratados e trabalham sob quaisquer condições16.
Nesse grupo, incluem-se, entre outros, os trabalhadores de serviços gerais ou auxiliares gerais1 que,
por conta dessa nova óptica no mundo do trabalho,
acabam realizando o serviço que lhes for possível de
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ser feito e desta maneira, muitas vezes, aprendendo
o trabalho na hora de executá-lo, serviço este muitas vezes caracterizado, segundo a legislação nacional vigente17,18,como penoso, insalubre e perigoso.
Acresce- se a este fato, que quanto mais
desqualificado e geral são os trabalhadores, possivelmente menos vão tomar conhecimento sobre seus
direitos legais e trabalhistas, o que vai colaborar, evidentemente, para a subenumeração acidentária.
Esses trabalhadores podem, então, em decorrência dessas conjunturas, vivenciarem situações de
enfermidades relacionadas aos ofícios que realizam
e sofrerem AT.
Em relação à assistência à saúde a que têm direito, sabe-se que uma gama de empresas não fornece atendimento adequado aos seus empregados;
quando se apresentam com problemas ocupacionais,
os mesmos necessitam procurar os serviços públicos
disponíveis, locais onde recebem uma assistência não
diferenciada, semelhante à das demais pessoas que
buscam atendimento à saúde. Percebe-se também
que, em geral, a equipe de saúde encontra-se
despreparada, não questiona o indivíduo sobre o seu
trabalho e, conseqüentemente, não encontra nexo
entre a alteração de saúde apresentada pelo sujeito
que a procura e o trabalho que realiza. È o caso do
trabalhador de serviços gerais****.
Diante do exposto, o presente estudo teve como
objetivos: verificar em registros escritos por profissionais da área de saúde de um serviço público o número de pacientes caracterizados como acidentados
do trabalho e, entre eles, o número de trabalhadores
de serviços gerais e identificar as causas desses acidentes e as partes afetadas do corpo em decorrência
dos mesmos.
METODOLOGIA
O estudo foi realizado na cidade de Ribeirão Preto, ao nordeste do Estado de São Paulo, com
população estimada em cerca de 500.000 habitantes, segundo os resultados do IBGE19.
Trata-se de um recorte de um projeto de pesquisa***** financiado pelo Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),
cujo objetivo geral foi buscar investigar a presença
de acidentados do trabalho entre pacientes atendidos em um hospital publico, nos anos de 1995 e 1996.
Os dados foram coletados em um Hospital Escola (HE) que possui as características de ser público, geral e é considerado o maior da cidade quanto à
capacidade de atendimento, tendo como objetivos
Silveira CA, Robazzi MLCC, Marziale MHP
principais o ensino, a pesquisa e a assistência aos seus
pacientes.
Os trâmites burocráticos e éticos exigidos por
essa instituição e os diferentes trajetos que foram
percorridos para se conseguir realizar a coleta dos
dados encontram-se descritos a seguir.
A fim de obter as informações necessárias para
a execução deste estudo, foi encaminhado um exemplar do mesmo à Comissão de Ética em Pesquisa do
HE. Após a devida autorização e o parecer favorável
da Diretoria Clínica do Hospital para se iniciar a
coleta de dados, solicitou-se ao Centro de
Processamento de Dados do Estado de São Paulo
(PRODESP) que separasse os números de registros
de pacientes acidentados, atendidos pelo hospital,
no período de 1o de janeiro de 1995 a 31 de dezembro de 1996. Esses deveriam se encontrar cadastrados conforme os agrupamentos S00 a S99; T00 a T35;
T66 a T79; T90 a T95 e T98; V01 a V99; W00 a
W99; X00 a X99; X85 a Y09; Y10 a Y35 e Y85 a Y98,
constantes nos capítulos XIX e XX da Classificação
Estatística Internacional de Doenças e Problemas
Relacionados à Saúde20 –CID-10. Os agrupamentos
do capítulo XIX referem-se a Lesões e Envenenamentos e Algumas Outras Conseqüências de Causas Externas, ou seja, os diagnósticos atribuídos em relação às causa de lesões; o capítulo XX refere-se às Causas Externas
de Morbidade e Mortalidade, ou seja, o que ocasionou
o acidente.
O PRODESP, a partir das informações com a
codificação da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde20
–CID-10, levantou 14.873 registros, referentes ao
período dos dois anos anteriormente mencionados,
correspondentes a 6122 prontuários, o que se constituiu a população do presente estudo. A partir desses registros, solicitou-se a separação dos prontuários dos pacientes no Setor de Arquivos Médicos e
Estatísticos do HE e iniciou-se nos mesmos, uma
consulta detalhada das anotações escritas pela equipe de saúde, objetivando-se identificar quais eram
os acidentados do trabalho. Apesar de se saber que
não deveria existir AT em pessoas com limites extremos de idade, foi feita uma consulta meticulosa,
por idade, em todos os prontuários de pacientes de 0
a 106 anos de idade, considerando-se que poderiam
existir registros incorretos por parte dos que os
digitaram, antes destas informações serem encaminhadas ao PRODESP.
Buscava-se no prontuário qualquer anotação
que pudesse levar à caracterização do atendimento
como decorrente de um acidente de trabalho, suas
causas e as partes do corpo afetadas em decorrência
dos eventos acidentários. As anotações apreendidas
foram copiadas em um formulário composto por perguntas abertas sobre os dados de identificação (nome,
número do registro hospitalar, sexo, idade), profissão ou tipo de trabalho, data do atendimento quando o indivíduo chegou acidentado (dia/mês/ano).
Assim, foram consultados todos os 6122 prontuários hospitalares de pacientes atendidos no HE.
RESULTADOS
E DISCUSSÃO
Em relação ao número de pacientes caracterizados como acidentados do trabalho e entre eles o
de trabalhadores de serviços gerais, conseguiu-se identificar nas anotações 40 pessoas que realizavam tais
atividades (0,65% do total dos 6122 prontuários). Destas, 90% eram do sexo masculino e foram distribuídas
nas faixas etárias apresentadas na Tabela 1.
TABELA 1: Distribuição dos trabalhadores acidentados em
relação à faixa etária e sexo. Ribeirão Preto, 1995-1996.
A maioria (57,5%) situava-se entre 20 e 39
anos de idade e apenas 3 eram mulheres; 15% possuíam mais que 50 anos.
Apesar de todos os trabalhadores serem de serviços gerais ou auxiliar de serviços, observa-se um
mosaico de atividades diversificadas entre eles. Um
dos acidentados trabalhava com prensa, outro com
madeira, um foi pisoteado por um touro porque era
auxiliar ou salva-vidas de rodeio, um acidentou-se
com uma esteira rolante, outro enquanto dirigia ônibus, um trabalhava com esmeril, entre outros. Em
relação às mulheres, uma tinha 20 anos e acidentouse em uma prensa; outra tinha 39 anos e trabalhava
no centro cirúrgico de um hospital, uma foi vítima
de acidente de trajeto e a última prensou os dedos
em uma máquina industrial.
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Registros hospitalares de acidentes de trabalho
Torna-se muito difícil realizar comparações
com a literatura existente sobre este tipo de trabalhador, que realiza variadas atividades incluídas no
título genérico de Serviços Gerais ou Auxiliar de
Serviços, já que a literatura especializada não o contempla. Estudo realizado em Piraquara (Paraná) evidenciou a existência de serventes de serviços gerais
que não receberam treinamento quanto à prevenção e à segurança do trabalho21; em outra investigação sobre auxiliares de saúde na rede básica de serviços de saúde de Uberlândia (Minas Gerais), concluiuse que esses trabalhadores realizam atividades assemelhadas às da Enfermagem22.
O Ministério do Trabalho e Emprego entende,
através da Classificação Brasileira de Ocupações, que
essas pessoas executam trabalho rotineiro de conservação, manutenção e limpeza em geral, mas os
direcionam também para as atividades de escritóri-
os, pesca, manutenção de barcos, carpintaria, marcenaria, pintura, serviços de apoio nas áreas de recursos humanos, operação de equipamentos de chamadas telefônicas, prestação de contas, recolhimento
de impostos, entre outras, o que abrange uma
multiplicidade de funções18.
Em relação às causas dos AT, 40 pessoas foram
distribuídas na Tabela 2.
A codificação da CID-1020 contém termos genéricos que dificultam o entendimento dos detalhes
relativos à causalidade dos acidentes. Dessa forma,
optou-se por descrevê-los, na tentativa de uma melhor compreensão.
Em relação às causas de maior incidência, evidenciou-se que, quanto às codificadas como W19
(Queda sem especificação), W17 (Outras quedas de
um nível ao outro), W13 (Queda de ou para fora de
TABELA 2: Distribuição dos trabalhadores acidentados em relação às causas dos acidentes. Ribeirão Preto, 1995-1996.
Causa/Objeto Causador de AT
W10 Queda em ou de escada ou degraus; W13 Queda de ou para fora de
edifícios ou outras estruturas; W17 Outras quedas de um nível ao outro e
W19 Queda sem especificação
f
8
%
20,0
W27 Contato com ferramentas manuais sem motor e W29 Contato com
outros utensílios manuais e aparelhos domésticos equipados com motor
6
15,0
V13 Ciclista traumatizado em colisão com automóvel, "pick up" ou
caminhonete; V27.9 Motociclista não especificado traumatizado em
colisão com objeto fixo ou parado; V49.9 Ocupante de automóvel
traumatizado em acidente de transito não especificado; V67.5 Condutor
de veículo de transporte pesado traumatizado em colisão com objeto fixo
ou parado e V77.0 Condutor de ônibus traumatizado em acidente de
transporte sem colisão
6
15,0
W30 Contato com maquinário agrícola e W31 Contato com outras
máquinas e com as não especificadas
6
15,0
W44 Penetração de corpo estranho no ou através de olho ou orifício
natural e W45 Penetração de corpo ou objeto estranho através da pele
5
12,5
W22 Impacto acidental ativo ou passivo causado por outros objetos
4
10,0
W23 Apertado, colhido, comprimido ou esmagado dentro de ou entre
objetos
1
2,5
W54 Mordedura ou golpe provocado por cão
1
2,5
W64 Exposição a outras forças mecânicas animadas e às não especificadas
1
2,5
T54.2 Efeito tóxico de ácidos corrosivos e substancias semelhantes
1
2,5
Y33 Outros fatos ou eventos especificados, intenção não determinada
1
2,5
40
100
Total
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Silveira CA, Robazzi MLCC, Marziale MHP
edifícios ou outras estruturas e W10 (Queda em ou
de escada ou degraus), dois dos pacientes caíram da
própria altura; dois sofreram quedas de telhados (de
3 a 4 metros de altura), um levou um tombo de um
guincho de mais de 15 metros; o outro caiu da escada, um sofreu queda de 6 metros de altura e o último
caiu com a bicicleta dentro de um buraco.
Quanto às causas W27 (Contato com ferramentas manuais sem motor) e W29 (Contato com outros utensílios manuais e aparelhos domésticos equipados com motor), quatro dos pacientes feriram-se
com serras elétricas ou motosserras em marcenarias,
um machucou-se com um podão e o outro sofreu um
ferimento na face ao consertar gesso.
Se forem contabilizadas todas as causas relacionadas ao trânsito (6 eventos, de causas V49.9 - Ocupante de automóvel traumatizado em acidente de transito não especificado; V13 - Ciclista traumatizado em
colisão com automóvel, pick up ou caminhonete;
V27.9 - Motociclista não especificado traumatizado em
colisão com objeto fixo ou parado; V67.5 - Condutor
de veículo de transporte pesado traumatizado em colisão com objeto fixo ou parado e V77.0 - Condutor de
ônibus traumatizado em acidente de transporte sem
colisão), o percentual dessas causas eleva-se a 15, demonstrando este fator como importante na causalidade acidentária desses trabalhadores. Apesar da redução dos coeficientes de mortalidade por acidentes de
trânsito nas principais capitais brasileiras nos últimos
anos, estes se mantêm ainda como importante causa
de morbimortalidade em diversas cidades do país23.
Estudo realizado em Londrina, no ano de 1996, constatou nos dias úteis o aumento do número de vítimas
nos horários de ida para o trabalho ou de retorno dele,
principalmente no retorno (18h às 19h), sugerindo que,
além da elevação do fluxo de veículos, ocorreu o aumento da fadiga no decorrer do dia, a qual pode exercer um papel importante na ocorrência de acidentes e
vítimas de trajeto24.
Em relação à causa W30 (Contato com
maquinário agrícola) e W31 (Contato com outras máquinas e com as não especificadas), dois dos acidentados tiveram os membros superiores retidos em prensas;
o outro informou ter-se acidentado com uma esteira
rolante que lhe tracionou o membro superior; o quarto
acidentou-se com uma máquina descornadeira; o quinto trabalhava com um equipamento com lâminas, que
quebrou e atingiu a sua perna; e o último informou que
se feriu com a hélice de uma roçadeira.
Em relação à penetração de corpos estranhos no
organismo (W44 Penetração de corpo estranho no ou
através de olho ou orifício natural e W45 Penetração
de corpo ou objeto estranho através da pele), quatro
dos acidentados traumatizaram-se com pedaços de
metais que atingiram os olhos e a pele da mão e um
feriu-se ao cair sobre ferro pontiagudo.
Quanto à causa W22 (Impacto acidental ativo
ou passivo causado por outros objetos), constatou-se
que uma das quatro vítimas carregava caixas e foi atingido por um equipamento de transportar mercadorias;
o segundo deixou cair um objeto nos dedos da mão;
uma carreta de ração caiu sobre a mão do terceiro e um
tubo de ferro atingiu a face do último.
Percebe-se pelas descrições dessas causas que os
trabalhadores estão no mercado de trabalho exercendo todos os tipos de tarefas; sendo trabalhadores de serviços gerais ou auxiliares, acabam se tornando menos
qualificados e, conseqüentemente devem receber salários menores em decorrência de tal fato. Com as mudanças ocorridas no mundo do trabalho, tais pessoas
acabam trabalhando por menores preços, realizando
atividades para as quais não se encontram preparadas,
o que as tornam mais vulneráveis aos AT.
Podem ser vários os motivos da ocorrência dos
AT: os trabalhadores poderiam estar desatentos ao realizar os seus trabalhos, sentiam algum mal- estar e conseqüentemente acidentaram-se, desentenderam-se
com algum colega de trabalho que direta ou indiretamente contribuiu para que eles se acidentassem, não
receberam qualquer treinamento prévio a fim de diminuir os riscos de ocorrência acidentária, não possuíam
o perfil profissional recomendado para exercer determinada função, entre outros.
Há possibilidades de as ferramentas manuais causarem acidentes se não estiverem adequadas ao tamanho de braços e pernas dos trabalhadores. Podem também estar defeituosas e podem ainda ser usadas de
modo incorreto, levando os indivíduos a se
acidentarem25.
As partes do corpo afetadas em decorrência dos
AT estão apresentadas na Tabela 3.
TABELA 3: Distribuição dos trabalhadores acidentados em
relação às partes do corpo atingidas pelos acidentes. Ribeirão Preto, 1995-1996.
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Registros hospitalares de acidentes de trabalho
Do total de AT, 40% atingiram os membros
superiores, muito possivelmente por ser a parte do
corpo mais diretamente envolvida com os vários tipos de trabalho efetuados pelos trabalhadores de serviços gerais. A inaptidão para realizar as tarefas
exigidas, o uso de equipamentos protetores de tamanhos diversos nas mãos dos trabalhadores ou a falta
desses equipamentos, além de outros fatores já comentados, podem ter contribuído para as lesões desses membros, de maneira considerável.
Em relação às demais partes envolvidas, aconteceram vários traumatismos nas múltiplas partes do
corpo (20%), na cabeça (15%) e no tronco (12,5%).
Ainda que pese o fato de o trabalhador incluído
nesta categoria executar atividades variadas, como
pode ser constatado, os indivíduos sofreram alterações
de saúde consideráveis. Registrou-se o importante
envolvimento dos membros superiores, provocando
a amputação traumática de membro e dedos, fraturas
múltiplas de dedos, ferimentos de outras partes da mão
e punho, ferimentos de dedos com lesão de unha etc.
O trabalhador entra no mercado de trabalho para fazer de tudo; ele é de serviços gerais e, portanto, realiza
atividades diversificadas e, pelo visto, perigosas. Nenhum dos que foram atendidos entre esses 40 acidentados apresentou uma cópia da CAT, como deveria
ter sido feito, a fim de que a mesma fosse preenchida
pelo médico ou outro profissional de saúde que lhe
prestou atendimento, ou seja, todos estes acidentes
foram subnotificados, tal como acontece no país, conforme já evidenciado em distintos estudos 4,11,12,13,14,15,26.
De qualquer modo, acredita-se que não deveriam acontecer acidentes de trabalho acarretando os
agravos à saúde encontrados no presente estudo.
CONCLUSÃO
Os trabalhadores dos serviços de gerais, apesar
de terem a sua ocupação descrita com detalhes pela
Classificação Brasileira de Ocupações18, executam
uma série de tarefas bastante diversificadas. Essas
atividades, o modo como o trabalho é organizado e
o meio ambiente onde é realizado possivelmente
acabam predispondo-os a sofrerem agravos à sua saúde. Uma vez acidentado no trabalho, procuram o auxílio do serviço público de atendimento à saúde, que
não os identifica como trabalhadores e, conseqüentemente, não os atende como tais.
A respeito dos achados, torna-se difícil tecer
comparações com a literatura, pois são quase
inexistentes os estudos relacionados a este tipo de
trabalhador, de funções tão genéricas.
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Sugere-se novas investigações, utilizando esta
ou outras abordagens metodológicas, a fim de se compreender melhor os diversos tipos de trabalho realizados por essas pessoas.
Aos profissionais de saúde e principalmente aos
membros da equipe de enfermagem, que permanecem ao lado do paciente durante 24 horas, torna-se
importante questionar os acidentados sobre o seu
trabalho, objetivando encontrar possíveis nexos entre os problemas de saúde apresentados e a atividade
laboral realizada por tais pessoas.
Recomenda-se também a emissão de uma via
da CAT, por parte da pessoa que realizou o atendimento hospitalar, quando se tratar de doente ou acidentado do trabalho, para que os trâmites burocráticos possam ser seguidos e o Instituto Nacional de
Seguro Social possa ser comunicado, a fim de orientar o trabalhador em relação aos benefícios aos quais
tem direito e que, muitas vezes, desconhece.
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REGISTROS HOSPITALARIOS SOBRE ACCIDENTES DE TRABAJO ENTRE OBREROS DE SERVICIOS GENERALES
RESUMEN: El estudio objetivó verificar en registros hospitalarios el numero de pacientes con Accidentes
de Trabajo (AT) y entre estos los obreros de servicios generales, las causas de los accidentes y las partes
del cuerpo que fueron lesionadas. El estudio fue descriptivo, retrospectivo, con análisis cuantitativo y fue
cumplido en el Hospital Escuela de Ribeirão Preto-São Paulo-Brasil. Se apartó los registros de los pacientes accidentados, y, atendidos en 1995 y 1996, iniciándose una consulta de las notaciones escritas por
el equipo de salud. Se confirmó 40 pacientes accidentados con la ocupación de servicios generales, con
las siguientes características: 57,5% con edades entre 20-39 años; las principales causas de los AT
ocurrieron por contactos con máquinas variadas, tubos, caídas, penetración de cuerpos extraños; las
partes del cuerpo más lesionadas fueron los miembros superiores y múltiplas partes. Generalmente,
este trabajador no tiene calificación y se somete a realizar las actividades más variadas, para las cuales
no está capacitado. Sugestionas son echas para minimizar los problemas inventariados.
Palabras clave: Accidente de trabajo; salud del obrero; servicios generales.
Recebido em: 13.06.2003
Aprovado em: 02.12.2003
Notas
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Graduanda do 7º Semestre da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Bolsista de Iniciação Científica vinculada ao
Projeto. E-mail: [email protected]
**
Professora Titular do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São
Paulo, Centro Colaborador para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem da OPS/OMS. Enfermeira do Trabalho. Coordenadora do Projeto.
E-mail: [email protected]
***
Professora Associada do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São
Paulo, Centro Colaborador para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem da OPS/OMS. Enfermeira do Trabalho. E-mail: [email protected]
****
Atividades resumidas do trabalhador de serviços gerais: “Executam manutenções elétrica e hidráulica, substituindo, trocando, limpando, reparando
e instalando peças, componentes e equipamentos. Realizam manutenção de carpintaria e marcenaria, consertando móveis. Executam serviços gerais
em residências e serviços de apoio nas áreas de recursos humanos. Auxiliam tripulação em serviços gerais e carregam e descarregam embarcação.
Realizam serviços de manutenção de embarcações de pesca em estaleiros. Coordenam serviços gerais de malotes, mensageiros, transporte, cartório,
limpeza, terceirizados, manutenção de equipamento, mobiliário, instalações etc; administram recursos humanos, bens patrimoniais e materiais de
consumo; organizam documentos e correspondências” 18.
*****
Título do Projeto de Pesquisa financiado pelo CNPq: Injúrias: possíveis relações existentes entre estas lesões e a atividade laboral realizada pelos seus
portadores.
R Enferm UERJ 2003; 11:261-7.
• p.267
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