Silveira CA, Robazzi MLCC, Marziale MHP REGISTROS HOSPITALARES SOBRE ACIDENTES DE TRABALHO ENTRE TRABALHADORES DE SERVIÇOS GERAIS MEDICAL REGISTERS ABOUT OCCUPATIONAL ACCIDENTS INVOLVING GENERAL SERVICE WORKERS Cristiane Aparecida Silveira* Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi** Maria Helena Palucci Marziale*** RESUMO: O estudo objetivou verificar em prontuários hospitalares o número de pacientes com Acidentes de Trabalho (AT) e entre estes aqueles com a ocupação de serviços gerais, as causas dos acidentes e as partes do corpo atingidas. O estudo foi descritivo, retrospectivo, com análise quantitativa dos dados e foi realizado no Hospital Escola de Ribeirão Preto, São Paulo. Separou-se os prontuários dos pacientes acidentados e atendidos, nos anos de 1995 e 1996, consultando-se os registros da equipe de saúde. Evidenciou-se 40 pacientes acidentados com a ocupação de serviços gerais, sendo: 57,5% com idades entre 20 a 39 anos; as principais causas dos AT aconteceram em decorrência do contato com máquinas variadas, tubos, quedas, penetração de corpos estranhos; as partes do corpo mais lesadas foram membros superiores e múltiplas partes. Geralmente, este trabalhador não tem qualificação e submete-se a realizar as mais variadas atividades para as quais não está capacitado. Sugestões são feitas no sentido de minimizar os problemas levantados. Palavras-chave Palavras-chave: Acidente de trabalho; saúde do trabalhador; serviço geral ABSTRACT ABSTRACT:: The aim of this study was to verify, by searching in medical registers, the number of patients involved in Occupational Accidents (OA) and, among them, the number of general service workers, the causes of the accidents, and the affected body parts. It was a descriptive and retrospective study using quantitative data analysis. The medical records of the patients attended at the School Hospital of Ribeirão Preto (São Paulo State) have been separated and the health team’s registers consulted. The results showed 40 patients who were general service workers and had been involved in occupational accidents; 57,5% of those patients had ages between 20 to 39 years; the mean causes of the occupational accidents were related to the use of different kind of machines, blades, pipes, as well as to falls and foreign body penetration; the parts of the body most affected were the arms and multiple parts. Usually those workers do not have adequate professional qualification and accept to perform different activities even when not capacitated for them. The authors make suggestions in order to minimize the problems observed. Keywords: Occupational accident; worker health; general service. INTRODUÇÃO É conhecido o fato que os ambientes de trabalho podem conter variados riscos, que por sua vez favorecem a ocorrência de problemas de saúde nos trabalhadores, os quais podem acontecer de modo sutil ou explícito, provocando-lhes numerosos e prejudiciais danos. Tais danos podem ser provocados pelos acidentes do trabalho (AT), os quais podem ocorrer pelo exercício do trabalho, a serviço da empresa, provocando lesão corporal ou perturbação funcional ou doença que cause a morte e a perda ou redução, per- manente ou temporária, da capacidade para o trabalho1,2. São eventos bem configurados no tempo e no espaço, cujas conseqüências imediatas, na quase totalidade dos casos, permitem estabelecer facilmente o nexo causal com o trabalho3 . Os AT são de notificação compulsória, mediante a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), de ordem legal, que representa o registro e o reconhecimento oficial do acidente e o direito do trabalhador ao seguro acidentário4. Necessariamente, a CAT deve ser emitida em seis vias, sendo uma R Enferm UERJ 2003; 11:261-7. • p.261 Registros hospitalares de acidentes de trabalho delas destinada à Previdência Social, que é a instituição pagadora do benefício ao trabalhador acidentado e que fica afastado do trabalho por mais de 15 dias. Devem ser notificados os acidentes, tipo os de trajeto e as doenças profissionais. No entanto, sabe-se também que o AT acaba se tornando uma situação complexa e difícil de ser estudada, entre outras razões, porque existe uma elevada subnotificação, principalmente em decorrência de sonegação de informações por parte das empresas em relação aos mesmos. Levantamentos estatísticos oficiais não retratam o quadro verdadeiro de como adoecem os trabalhadores brasileiros; portanto, a subenumeração de AT e de doenças profissionais é importante e deve ser considerada5. Esta subnotificação é percebida pelos autores que se dedicam a estudar a temática AT e parece acontecer entre alguns grupos de trabalhadores, tais como os da saúde6,7,8,9, dos transportes10, entre outros. Tal situação, no Brasil, ocorre por múltiplos fatores11,12,13,14,15 acrescentando-se o fato que as informações relacionadas ao trabalho ainda são precárias, pouco fidedignas e incompletas; a omissão existente, na comunicação de AT, é realidade geral do país, mesmo em se tratando de trabalhador com contrato laboral formal. Em estudo que abrangeu 25 anos de levantamento de AT (1970 a 1995), foram encontrados mais de 29 milhões desses eventos e mais de cem mil mortes relacionadas ao trabalho, registrados no Brasil4. Quando se considera o trabalhador informal, a notificação do AT possivelmente torna-se mais rara ainda de ser notificado Um contingente de acidentes e mortes atingindo os trabalhadores do setor informal da economia e com números ocultos deve ainda ser considerado e somado ao total; no entanto, essa situação não acontece, tornando-os invisíveis em relação à Previdência Social e outras instâncias oficiais. No mundo globalizado, competitivo, com os direitos dos trabalhadores conquistados ao longo da história sendo questionados, com o nível e composição dos empregos sendo modificados, com as tecnologias de ponta diminuindo o número de trabalhadores contratados formalmente, aparecem no cenário os desempregados, os terceirizados e um diversificado grupo de trabalhadores ligados ao mercado informal. Assim, os trabalhadores são sub-contratados e trabalham sob quaisquer condições16. Nesse grupo, incluem-se, entre outros, os trabalhadores de serviços gerais ou auxiliares gerais1 que, por conta dessa nova óptica no mundo do trabalho, acabam realizando o serviço que lhes for possível de p.262 • R Enferm UERJ 2003; 11:261-7. ser feito e desta maneira, muitas vezes, aprendendo o trabalho na hora de executá-lo, serviço este muitas vezes caracterizado, segundo a legislação nacional vigente17,18,como penoso, insalubre e perigoso. Acresce- se a este fato, que quanto mais desqualificado e geral são os trabalhadores, possivelmente menos vão tomar conhecimento sobre seus direitos legais e trabalhistas, o que vai colaborar, evidentemente, para a subenumeração acidentária. Esses trabalhadores podem, então, em decorrência dessas conjunturas, vivenciarem situações de enfermidades relacionadas aos ofícios que realizam e sofrerem AT. Em relação à assistência à saúde a que têm direito, sabe-se que uma gama de empresas não fornece atendimento adequado aos seus empregados; quando se apresentam com problemas ocupacionais, os mesmos necessitam procurar os serviços públicos disponíveis, locais onde recebem uma assistência não diferenciada, semelhante à das demais pessoas que buscam atendimento à saúde. Percebe-se também que, em geral, a equipe de saúde encontra-se despreparada, não questiona o indivíduo sobre o seu trabalho e, conseqüentemente, não encontra nexo entre a alteração de saúde apresentada pelo sujeito que a procura e o trabalho que realiza. È o caso do trabalhador de serviços gerais****. Diante do exposto, o presente estudo teve como objetivos: verificar em registros escritos por profissionais da área de saúde de um serviço público o número de pacientes caracterizados como acidentados do trabalho e, entre eles, o número de trabalhadores de serviços gerais e identificar as causas desses acidentes e as partes afetadas do corpo em decorrência dos mesmos. METODOLOGIA O estudo foi realizado na cidade de Ribeirão Preto, ao nordeste do Estado de São Paulo, com população estimada em cerca de 500.000 habitantes, segundo os resultados do IBGE19. Trata-se de um recorte de um projeto de pesquisa***** financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), cujo objetivo geral foi buscar investigar a presença de acidentados do trabalho entre pacientes atendidos em um hospital publico, nos anos de 1995 e 1996. Os dados foram coletados em um Hospital Escola (HE) que possui as características de ser público, geral e é considerado o maior da cidade quanto à capacidade de atendimento, tendo como objetivos Silveira CA, Robazzi MLCC, Marziale MHP principais o ensino, a pesquisa e a assistência aos seus pacientes. Os trâmites burocráticos e éticos exigidos por essa instituição e os diferentes trajetos que foram percorridos para se conseguir realizar a coleta dos dados encontram-se descritos a seguir. A fim de obter as informações necessárias para a execução deste estudo, foi encaminhado um exemplar do mesmo à Comissão de Ética em Pesquisa do HE. Após a devida autorização e o parecer favorável da Diretoria Clínica do Hospital para se iniciar a coleta de dados, solicitou-se ao Centro de Processamento de Dados do Estado de São Paulo (PRODESP) que separasse os números de registros de pacientes acidentados, atendidos pelo hospital, no período de 1o de janeiro de 1995 a 31 de dezembro de 1996. Esses deveriam se encontrar cadastrados conforme os agrupamentos S00 a S99; T00 a T35; T66 a T79; T90 a T95 e T98; V01 a V99; W00 a W99; X00 a X99; X85 a Y09; Y10 a Y35 e Y85 a Y98, constantes nos capítulos XIX e XX da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde20 –CID-10. Os agrupamentos do capítulo XIX referem-se a Lesões e Envenenamentos e Algumas Outras Conseqüências de Causas Externas, ou seja, os diagnósticos atribuídos em relação às causa de lesões; o capítulo XX refere-se às Causas Externas de Morbidade e Mortalidade, ou seja, o que ocasionou o acidente. O PRODESP, a partir das informações com a codificação da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde20 –CID-10, levantou 14.873 registros, referentes ao período dos dois anos anteriormente mencionados, correspondentes a 6122 prontuários, o que se constituiu a população do presente estudo. A partir desses registros, solicitou-se a separação dos prontuários dos pacientes no Setor de Arquivos Médicos e Estatísticos do HE e iniciou-se nos mesmos, uma consulta detalhada das anotações escritas pela equipe de saúde, objetivando-se identificar quais eram os acidentados do trabalho. Apesar de se saber que não deveria existir AT em pessoas com limites extremos de idade, foi feita uma consulta meticulosa, por idade, em todos os prontuários de pacientes de 0 a 106 anos de idade, considerando-se que poderiam existir registros incorretos por parte dos que os digitaram, antes destas informações serem encaminhadas ao PRODESP. Buscava-se no prontuário qualquer anotação que pudesse levar à caracterização do atendimento como decorrente de um acidente de trabalho, suas causas e as partes do corpo afetadas em decorrência dos eventos acidentários. As anotações apreendidas foram copiadas em um formulário composto por perguntas abertas sobre os dados de identificação (nome, número do registro hospitalar, sexo, idade), profissão ou tipo de trabalho, data do atendimento quando o indivíduo chegou acidentado (dia/mês/ano). Assim, foram consultados todos os 6122 prontuários hospitalares de pacientes atendidos no HE. RESULTADOS E DISCUSSÃO Em relação ao número de pacientes caracterizados como acidentados do trabalho e entre eles o de trabalhadores de serviços gerais, conseguiu-se identificar nas anotações 40 pessoas que realizavam tais atividades (0,65% do total dos 6122 prontuários). Destas, 90% eram do sexo masculino e foram distribuídas nas faixas etárias apresentadas na Tabela 1. TABELA 1: Distribuição dos trabalhadores acidentados em relação à faixa etária e sexo. Ribeirão Preto, 1995-1996. A maioria (57,5%) situava-se entre 20 e 39 anos de idade e apenas 3 eram mulheres; 15% possuíam mais que 50 anos. Apesar de todos os trabalhadores serem de serviços gerais ou auxiliar de serviços, observa-se um mosaico de atividades diversificadas entre eles. Um dos acidentados trabalhava com prensa, outro com madeira, um foi pisoteado por um touro porque era auxiliar ou salva-vidas de rodeio, um acidentou-se com uma esteira rolante, outro enquanto dirigia ônibus, um trabalhava com esmeril, entre outros. Em relação às mulheres, uma tinha 20 anos e acidentouse em uma prensa; outra tinha 39 anos e trabalhava no centro cirúrgico de um hospital, uma foi vítima de acidente de trajeto e a última prensou os dedos em uma máquina industrial. R Enferm UERJ 2003; 11:261-7. • p.263 Registros hospitalares de acidentes de trabalho Torna-se muito difícil realizar comparações com a literatura existente sobre este tipo de trabalhador, que realiza variadas atividades incluídas no título genérico de Serviços Gerais ou Auxiliar de Serviços, já que a literatura especializada não o contempla. Estudo realizado em Piraquara (Paraná) evidenciou a existência de serventes de serviços gerais que não receberam treinamento quanto à prevenção e à segurança do trabalho21; em outra investigação sobre auxiliares de saúde na rede básica de serviços de saúde de Uberlândia (Minas Gerais), concluiuse que esses trabalhadores realizam atividades assemelhadas às da Enfermagem22. O Ministério do Trabalho e Emprego entende, através da Classificação Brasileira de Ocupações, que essas pessoas executam trabalho rotineiro de conservação, manutenção e limpeza em geral, mas os direcionam também para as atividades de escritóri- os, pesca, manutenção de barcos, carpintaria, marcenaria, pintura, serviços de apoio nas áreas de recursos humanos, operação de equipamentos de chamadas telefônicas, prestação de contas, recolhimento de impostos, entre outras, o que abrange uma multiplicidade de funções18. Em relação às causas dos AT, 40 pessoas foram distribuídas na Tabela 2. A codificação da CID-1020 contém termos genéricos que dificultam o entendimento dos detalhes relativos à causalidade dos acidentes. Dessa forma, optou-se por descrevê-los, na tentativa de uma melhor compreensão. Em relação às causas de maior incidência, evidenciou-se que, quanto às codificadas como W19 (Queda sem especificação), W17 (Outras quedas de um nível ao outro), W13 (Queda de ou para fora de TABELA 2: Distribuição dos trabalhadores acidentados em relação às causas dos acidentes. Ribeirão Preto, 1995-1996. Causa/Objeto Causador de AT W10 Queda em ou de escada ou degraus; W13 Queda de ou para fora de edifícios ou outras estruturas; W17 Outras quedas de um nível ao outro e W19 Queda sem especificação f 8 % 20,0 W27 Contato com ferramentas manuais sem motor e W29 Contato com outros utensílios manuais e aparelhos domésticos equipados com motor 6 15,0 V13 Ciclista traumatizado em colisão com automóvel, "pick up" ou caminhonete; V27.9 Motociclista não especificado traumatizado em colisão com objeto fixo ou parado; V49.9 Ocupante de automóvel traumatizado em acidente de transito não especificado; V67.5 Condutor de veículo de transporte pesado traumatizado em colisão com objeto fixo ou parado e V77.0 Condutor de ônibus traumatizado em acidente de transporte sem colisão 6 15,0 W30 Contato com maquinário agrícola e W31 Contato com outras máquinas e com as não especificadas 6 15,0 W44 Penetração de corpo estranho no ou através de olho ou orifício natural e W45 Penetração de corpo ou objeto estranho através da pele 5 12,5 W22 Impacto acidental ativo ou passivo causado por outros objetos 4 10,0 W23 Apertado, colhido, comprimido ou esmagado dentro de ou entre objetos 1 2,5 W54 Mordedura ou golpe provocado por cão 1 2,5 W64 Exposição a outras forças mecânicas animadas e às não especificadas 1 2,5 T54.2 Efeito tóxico de ácidos corrosivos e substancias semelhantes 1 2,5 Y33 Outros fatos ou eventos especificados, intenção não determinada 1 2,5 40 100 Total p.264 • R Enferm UERJ 2003; 11:261-7. Silveira CA, Robazzi MLCC, Marziale MHP edifícios ou outras estruturas e W10 (Queda em ou de escada ou degraus), dois dos pacientes caíram da própria altura; dois sofreram quedas de telhados (de 3 a 4 metros de altura), um levou um tombo de um guincho de mais de 15 metros; o outro caiu da escada, um sofreu queda de 6 metros de altura e o último caiu com a bicicleta dentro de um buraco. Quanto às causas W27 (Contato com ferramentas manuais sem motor) e W29 (Contato com outros utensílios manuais e aparelhos domésticos equipados com motor), quatro dos pacientes feriram-se com serras elétricas ou motosserras em marcenarias, um machucou-se com um podão e o outro sofreu um ferimento na face ao consertar gesso. Se forem contabilizadas todas as causas relacionadas ao trânsito (6 eventos, de causas V49.9 - Ocupante de automóvel traumatizado em acidente de transito não especificado; V13 - Ciclista traumatizado em colisão com automóvel, pick up ou caminhonete; V27.9 - Motociclista não especificado traumatizado em colisão com objeto fixo ou parado; V67.5 - Condutor de veículo de transporte pesado traumatizado em colisão com objeto fixo ou parado e V77.0 - Condutor de ônibus traumatizado em acidente de transporte sem colisão), o percentual dessas causas eleva-se a 15, demonstrando este fator como importante na causalidade acidentária desses trabalhadores. Apesar da redução dos coeficientes de mortalidade por acidentes de trânsito nas principais capitais brasileiras nos últimos anos, estes se mantêm ainda como importante causa de morbimortalidade em diversas cidades do país23. Estudo realizado em Londrina, no ano de 1996, constatou nos dias úteis o aumento do número de vítimas nos horários de ida para o trabalho ou de retorno dele, principalmente no retorno (18h às 19h), sugerindo que, além da elevação do fluxo de veículos, ocorreu o aumento da fadiga no decorrer do dia, a qual pode exercer um papel importante na ocorrência de acidentes e vítimas de trajeto24. Em relação à causa W30 (Contato com maquinário agrícola) e W31 (Contato com outras máquinas e com as não especificadas), dois dos acidentados tiveram os membros superiores retidos em prensas; o outro informou ter-se acidentado com uma esteira rolante que lhe tracionou o membro superior; o quarto acidentou-se com uma máquina descornadeira; o quinto trabalhava com um equipamento com lâminas, que quebrou e atingiu a sua perna; e o último informou que se feriu com a hélice de uma roçadeira. Em relação à penetração de corpos estranhos no organismo (W44 Penetração de corpo estranho no ou através de olho ou orifício natural e W45 Penetração de corpo ou objeto estranho através da pele), quatro dos acidentados traumatizaram-se com pedaços de metais que atingiram os olhos e a pele da mão e um feriu-se ao cair sobre ferro pontiagudo. Quanto à causa W22 (Impacto acidental ativo ou passivo causado por outros objetos), constatou-se que uma das quatro vítimas carregava caixas e foi atingido por um equipamento de transportar mercadorias; o segundo deixou cair um objeto nos dedos da mão; uma carreta de ração caiu sobre a mão do terceiro e um tubo de ferro atingiu a face do último. Percebe-se pelas descrições dessas causas que os trabalhadores estão no mercado de trabalho exercendo todos os tipos de tarefas; sendo trabalhadores de serviços gerais ou auxiliares, acabam se tornando menos qualificados e, conseqüentemente devem receber salários menores em decorrência de tal fato. Com as mudanças ocorridas no mundo do trabalho, tais pessoas acabam trabalhando por menores preços, realizando atividades para as quais não se encontram preparadas, o que as tornam mais vulneráveis aos AT. Podem ser vários os motivos da ocorrência dos AT: os trabalhadores poderiam estar desatentos ao realizar os seus trabalhos, sentiam algum mal- estar e conseqüentemente acidentaram-se, desentenderam-se com algum colega de trabalho que direta ou indiretamente contribuiu para que eles se acidentassem, não receberam qualquer treinamento prévio a fim de diminuir os riscos de ocorrência acidentária, não possuíam o perfil profissional recomendado para exercer determinada função, entre outros. Há possibilidades de as ferramentas manuais causarem acidentes se não estiverem adequadas ao tamanho de braços e pernas dos trabalhadores. Podem também estar defeituosas e podem ainda ser usadas de modo incorreto, levando os indivíduos a se acidentarem25. As partes do corpo afetadas em decorrência dos AT estão apresentadas na Tabela 3. TABELA 3: Distribuição dos trabalhadores acidentados em relação às partes do corpo atingidas pelos acidentes. Ribeirão Preto, 1995-1996. R Enferm UERJ 2003; 11:261-7. • p.265 Registros hospitalares de acidentes de trabalho Do total de AT, 40% atingiram os membros superiores, muito possivelmente por ser a parte do corpo mais diretamente envolvida com os vários tipos de trabalho efetuados pelos trabalhadores de serviços gerais. A inaptidão para realizar as tarefas exigidas, o uso de equipamentos protetores de tamanhos diversos nas mãos dos trabalhadores ou a falta desses equipamentos, além de outros fatores já comentados, podem ter contribuído para as lesões desses membros, de maneira considerável. Em relação às demais partes envolvidas, aconteceram vários traumatismos nas múltiplas partes do corpo (20%), na cabeça (15%) e no tronco (12,5%). Ainda que pese o fato de o trabalhador incluído nesta categoria executar atividades variadas, como pode ser constatado, os indivíduos sofreram alterações de saúde consideráveis. Registrou-se o importante envolvimento dos membros superiores, provocando a amputação traumática de membro e dedos, fraturas múltiplas de dedos, ferimentos de outras partes da mão e punho, ferimentos de dedos com lesão de unha etc. O trabalhador entra no mercado de trabalho para fazer de tudo; ele é de serviços gerais e, portanto, realiza atividades diversificadas e, pelo visto, perigosas. Nenhum dos que foram atendidos entre esses 40 acidentados apresentou uma cópia da CAT, como deveria ter sido feito, a fim de que a mesma fosse preenchida pelo médico ou outro profissional de saúde que lhe prestou atendimento, ou seja, todos estes acidentes foram subnotificados, tal como acontece no país, conforme já evidenciado em distintos estudos 4,11,12,13,14,15,26. De qualquer modo, acredita-se que não deveriam acontecer acidentes de trabalho acarretando os agravos à saúde encontrados no presente estudo. CONCLUSÃO Os trabalhadores dos serviços de gerais, apesar de terem a sua ocupação descrita com detalhes pela Classificação Brasileira de Ocupações18, executam uma série de tarefas bastante diversificadas. Essas atividades, o modo como o trabalho é organizado e o meio ambiente onde é realizado possivelmente acabam predispondo-os a sofrerem agravos à sua saúde. Uma vez acidentado no trabalho, procuram o auxílio do serviço público de atendimento à saúde, que não os identifica como trabalhadores e, conseqüentemente, não os atende como tais. A respeito dos achados, torna-se difícil tecer comparações com a literatura, pois são quase inexistentes os estudos relacionados a este tipo de trabalhador, de funções tão genéricas. p.266 • R Enferm UERJ 2003; 11:261-7. Sugere-se novas investigações, utilizando esta ou outras abordagens metodológicas, a fim de se compreender melhor os diversos tipos de trabalho realizados por essas pessoas. Aos profissionais de saúde e principalmente aos membros da equipe de enfermagem, que permanecem ao lado do paciente durante 24 horas, torna-se importante questionar os acidentados sobre o seu trabalho, objetivando encontrar possíveis nexos entre os problemas de saúde apresentados e a atividade laboral realizada por tais pessoas. Recomenda-se também a emissão de uma via da CAT, por parte da pessoa que realizou o atendimento hospitalar, quando se tratar de doente ou acidentado do trabalho, para que os trâmites burocráticos possam ser seguidos e o Instituto Nacional de Seguro Social possa ser comunicado, a fim de orientar o trabalhador em relação aos benefícios aos quais tem direito e que, muitas vezes, desconhece. REFERÊNCIAS 1. Thame ACM. Acidente de trabalho: um péssimo negócio. 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El estudio fue descriptivo, retrospectivo, con análisis cuantitativo y fue cumplido en el Hospital Escuela de Ribeirão Preto-São Paulo-Brasil. Se apartó los registros de los pacientes accidentados, y, atendidos en 1995 y 1996, iniciándose una consulta de las notaciones escritas por el equipo de salud. Se confirmó 40 pacientes accidentados con la ocupación de servicios generales, con las siguientes características: 57,5% con edades entre 20-39 años; las principales causas de los AT ocurrieron por contactos con máquinas variadas, tubos, caídas, penetración de cuerpos extraños; las partes del cuerpo más lesionadas fueron los miembros superiores y múltiplas partes. Generalmente, este trabajador no tiene calificación y se somete a realizar las actividades más variadas, para las cuales no está capacitado. Sugestionas son echas para minimizar los problemas inventariados. Palabras clave: Accidente de trabajo; salud del obrero; servicios generales. Recebido em: 13.06.2003 Aprovado em: 02.12.2003 Notas * Graduanda do 7º Semestre da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Bolsista de Iniciação Científica vinculada ao Projeto. E-mail: [email protected] ** Professora Titular do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem da OPS/OMS. Enfermeira do Trabalho. Coordenadora do Projeto. E-mail: [email protected] *** Professora Associada do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem da OPS/OMS. Enfermeira do Trabalho. E-mail: [email protected] **** Atividades resumidas do trabalhador de serviços gerais: “Executam manutenções elétrica e hidráulica, substituindo, trocando, limpando, reparando e instalando peças, componentes e equipamentos. Realizam manutenção de carpintaria e marcenaria, consertando móveis. Executam serviços gerais em residências e serviços de apoio nas áreas de recursos humanos. Auxiliam tripulação em serviços gerais e carregam e descarregam embarcação. Realizam serviços de manutenção de embarcações de pesca em estaleiros. Coordenam serviços gerais de malotes, mensageiros, transporte, cartório, limpeza, terceirizados, manutenção de equipamento, mobiliário, instalações etc; administram recursos humanos, bens patrimoniais e materiais de consumo; organizam documentos e correspondências” 18. ***** Título do Projeto de Pesquisa financiado pelo CNPq: Injúrias: possíveis relações existentes entre estas lesões e a atividade laboral realizada pelos seus portadores. R Enferm UERJ 2003; 11:261-7. • p.267