Discursos sobre juventude e práticas psicológicas
Rev.latinoam.cienc.soc.niñez juv 6(2): 463-484, 2008
http://www.umanizales.edu.co/revistacinde/index.html
Discursos sobre juventude e práticas
psicológicas: a produção dos modos
de ser jovem. Brasil*
Zuleika Köhler Gonzales**
Professora colaboradora da Faculdade de Tecnologia no Transporte FATTEP e do Instituto de
Pastoral de Juventude Porto Alegre.
Neuza Maria de Fátima Guareschi***
Professora/Pesquisadora do Programa de Pós – Graduação em Psicologia da PUCRS, Coordenadora
do Grupo de Pesquisa “Estudos Culturais e Modos de Subjetivação”.
· Resumo: O jovem tem sido foco de atenção de instituições sociais,
sejam públicas ou privadas. Nos discursos da sociedade sobre essa população, o
jovem aparece associado, mais recentemente, à idéia de inserção nos processos
sociais. No campo acadêmico, vê-se uma grande produção de pesquisas e de
conhecimento em torno da juventude. Nas produções de conhecimento sobre
a juventude, circula um discurso de “preocupação” com relação aos jovens no
tocante à sua integração na ordem social, envolvendo a produção econômica
e a constituição familiar. Assim, neste artigo, nos remetemos às concepções
de juventude que foram sendo veiculadas em diferentes momentos sociais e a
como foi se visibilizando um determinado discurso sobre a categoria juventude,
articulado à noção de problema. Buscamos discutir a implicação do modo
como as práticas psicológicas foram prescrevendo e legitimando esse discurso
e como os jovens estão sendo afetados por determinadas práticas sociais
*
**
***
Este artigo remete ao estudo “Protagonismo: Formas de Governo da População
Juvenil”, dissertação de mestrado realizada no grupo de pesquisa Estudos Culturais e Modos de Subjetivação, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, com apoio da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES.
Mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul – PUCRS, Correo electrónico: [email protected]
Doutora em Educação pela University of Wisconsin-Madison Correo electrónico: [email protected]
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Zuleika Köhler Gonzales y Neuza Maria de Fátima Guareschi
presentes no contemporâneo, gerando diferentes formas de subjetivação que,
por sua vez, serão pensadas, investidas e implicadas em relações de poder e
verdade, sustentadas por saberes, como, por exemplo, o psicológico. Ainda,
procuramos evidenciar como esses sujeitos, neste contemporâneo, estão sendo
foco de investimento do mercado capitalista como consumidores potenciais.
Palavras-chave: juventude, história, contemporâneo, práticas
psicológicas.
Discursos sobre juventud y prácticas psicológicas: la producción
de los modos de ser joven. Brasil
· Resumen: La persona joven ha sido centro de atención por parte de
las instituciones sociales, tanto públicas como privadas. En los discursos de
la sociedad sobre esta población, el joven o la joven se asocia, actualmente, a
la idea de inserción en los procesos sociales. En el campo académico, se percibe
una importante producción de investigaciones y de conocimiento acerca de la
juventud. En las producciones del conocimiento sobre la juventud circula un
discurso de “preocupación” con relación a los jóvenes y a las jóvenes, en cuanto
a su integración en el orden social, económico y familiar. En este artículo,
se hace referencia a las concepciones de juventud que fueron legitimadas en
diferentes momentos sociales y se pretende comprender cómo se ha visibilizado
un determinado discurso sobre esta categoría, generalmente asociado a la
noción de problema. En el proceso, se busca discutir las implicaciones de
este discurso en las prácticas psicológicas e indagar cómo los jóvenes y las
jóvenes están siendo afectados y afectadas por determinadas prácticas sociales
contemporáneas, generando diversos modos de subjetivación, que al mismo
tiempo son pensados, fomentados y resignificados en relaciones de poder y
verdad, sustentadas por saberes como el psicológico. También se pretende
evidenciar cómo esos sujetos han sido intervenidos por el mercado capitalista
como consumidores y consumidoras en potencia.
Palabras clave: juventud, historia, contemporáneo, prácticas
psicológicas.
Discourses on youth and psychological practices: the production
of ways of being young. Brazil
· Abstract: The young person has been a center of attention for social
institutions both public and private. In social discourses on this populatin,
the young man or woman is currently associated with the idea of insertion in
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Discursos sobre juventude e práticas psicológicas
social processes. In the academic field, there are numerous research projects
and wide knowledge on youth. In the production of knowledge on youth there
is a “discourse of worry” related to young men and women as regards their
integration in the family and in the social and economic order. This paper
displays the conceptions of youth that were legitimized in different social
moments and undertakes to understand how a certain discourse on youth has
been presented, often associated to the idea of a problem. The article discusses the
implications of this discourse on psychological practices and explores the ways
in which young men and women are affected by certain current social practices
that generate various subjectivation modes. These modes are simultaneously
thought, fostered and resignified in power and truth relationships, sustained
by various types of knowledge, such as psychological knowledge. The article
also seeks to show how these subjects have been visualized by the capitalistic
market as potential consumers.
Keywords: youth, history, contemporaneous, psychological
practices.
-I. Introdução. -II. Algumas concepções de juventude. -III.
O Campo Psi: prescrições nas concepções de juventude. -IV. A
inscrição do jovem no contemporâneo: de sujeito problema a sujeito
consumidor. -V. À guisa de conclusão: uma categoria de juventude a
ser pensada... -Bibliografia.
Primera versión recibida marzo 26 de 2008; versión final aceptada julio 24
de 2008 (Eds.)
I – Introdução
O jovem tem sido foco de atenção por parte das instituições sociais,
sejam públicas ou privadas. Nos discursos da sociedade sobre essa
população, o jovem aparece associado, mais recentemente, à idéia
de inserção nos processos sociais. Assim, por exemplo, por parte de
órgãos oficiais do governo e da sociedade civil, vemos a convocação
para uma grande mobilização de diferentes parceiros, como relatado
na pesquisa realizada pelo IBASE e Instituto Polis (2006), tais como
a escola, redes institucionais, legisladores, tomadores de decisão,
meios de comunicação e opinião pública em geral, para que se possa
legitimar a institucionalização de políticas públicas e potencializar seus
benefícios, ressaltando que a exclusão dos jovens não é um problema
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Zuleika Köhler Gonzales y Neuza Maria de Fátima Guareschi
somente deles, mas do conjunto da sociedade. No campo acadêmico,
vê-se uma grande produção de pesquisas e de conhecimento em torno
da juventude. Nas produções de conhecimento, circula um discurso
de “preocupação” com relação aos jovens no tocante à sua integração
na ordem social, envolvendo a produção econômica e a constituição
familiar.
Neste texto, nos remetemos a algumas concepções sobre juventude
produzidas em momentos específicos da sociedade, sobretudo nas
últimas décadas do século XX, para evidenciarmos a maneira como
foram sendo visibilizados determinados discursos sobre essa categoria,
articulados à noção de valores que prescrevem a ordem social. Ainda,
objetivamos mostrar como foram se legitimando esses discursos a
partir de práticas inscritas em campos de saber que, posicionados na
confluência de linhas de força e jogos de poder, prescrevem modos de
ser jovem na sociedade. Em especial, buscamos discutir a implicação
das práticas psi na prescrição legitimada pelos discursos psicológicos na
produção desses sujeitos e o investimento do mercado capitalista nessa
população como consumidores potenciais. Finalmente, com base em
uma concepção de novidade presente nos escritos de Hannah Arendt,
apresentamos algumas questões para se pensar essa categoria.
II - Algumas concepções de juventude
Pressupomos, para esta discussão, que cada época profere
discursos relativos aos seus jovens. Tais discursos denotam modelos e
expectativas que irão produzir formas de ser e agir a partir de interesses
específicos do momento histórico, cultural e social vigente. Os jovens,
nesse sentido, são sujeitos concretos que se aproximam ou não, em
seus modos de vida, dos sentidos produzidos por esses discursos em
cada época particular.
Se prestarmos atenção nos sentidos produzidos por um determinado
discurso que circulava na sociedade dos anos 1960 sobre a juventude
no Brasil, veremos que essa categoria era tomada como “o futuro
do amanhã”. Nela se embutia a esperança da concretização dos
1
466
Ver produção de pesquisas da Unesco, Instituto Cidadania, Instituto Akatu,
Ação Educativa, Projeto Juventude, entre outros, nos sites www.unesco.org.br;
www.icidadania.org.br; www.akatu.org.br; www.acaoeducativa.org.br; www.
projetojuventude.org.br. Acessado em: 30.12.2006.
Discursos sobre juventude e práticas psicológicas
projetos de “desenvolvimento e progresso” do pujante capitalismo
desenvolvimentista de então: os jovens tornar-se-iam modelos de
“chefes de família”, “profissionais de carreira”, “filhos”, “estudantes”,
etc. (Souza, 2005).
Em contrapartida, em falas como “é proibido proibir” e “revolução
do desejo”, vinculavam-se sentidos produzidos por discursos
propagados nos episódios sociais dos últimos anos da década de 1960.
A partir de 1968, a imagem preponderante veiculada sobre o jovem é
a do revolucionário e militante, relacionada à noção de contracultura
ou de vanguarda, em uma perspectiva de transgressão ou contestação
à ordem e em uma posição de recusa, de “aversão a toda prática
autoritária e utilitarista” (Abramo, 1997, p. 6). Esse discurso vinha
associado com “a busca de modos alternativos de viver, com o desejo
de criar uma contracultura” (Semeraro, 1994, p. 21), sentido também
presente no texto de Muller (2005).
Outros autores (Souza, 2005) situam a segunda metade da década
de 1980 como o momento em que o jovem deixa de ser “o futuro do
amanhã” para ser “o problema de hoje”. Essa mudança de concepção
seria efeito da “crise urbana do trabalho”, em que o jovem estaria às
margens do processo econômico-social. Ainda na década de 80, associase a juventude ao movimento das “diretas já”, como se todos os jovens
estivessem mobilizados nas questões políticas e sociais da época.
Assim, é possível ver que, para cada momento histórico, é apresentada
uma idéia iconizada da juventude, que passa a valer, em âmbito geral,
como o modelo de análise do jovem concreto em suas relações. Instaurase determinado ícone acerca da juventude, o que denota uma maior
visibilização de determinado modo de ser como efeito do campo de
forças em constante luta no qual nos situamos. O que queremos dizer
com isso é que cada noção de juventude veiculada como sendo uma
visão hegemônica do modo de ser jovem desconsidera a produção de
sentidos e modos de ser engendrados no exercício do embate entre
forças situadas e datadas em condições históricas e culturais de cada
tempo; portanto, podem ser produzidas inúmeras e singulares formas
de subjetivação ou modos de ser em cada momento específico.
Em boa parte das análises tradicionalmente formuladas no decorrer
do século XX, a emergência da concepção de juventude articula-se a um
discurso político e acadêmico que enfatiza as dimensões de transgressão,
de crises, dos excessos, dos conflitos e das explosões, reforçado ao longo
dos anos por teorias científicas que apontam a juventude como sendo
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Zuleika Köhler Gonzales y Neuza Maria de Fátima Guareschi
foco e germinação de problemas sociais (Abramo, 1997; Gonçalves,
2005; Quiroga, 2005). Tal perspectiva parece ter vindo ancorada,
sobretudo, em discursos presentes na primeira metade do século XX
sobre a “juventude transviada” americana ou naquele dos “rebeldes
sem causa” da Europa, articulados a um discurso científico proveniente
de uma psicologia do desenvolvimento. Relacionava-se determinada
fase do desenvolvimento humano – como a adolescência e a juventude
– com um período marcado por contestação aos “padrões familiares e
culturais herdados das gerações anteriores, principalmente a de seus
pais” (Quiroga, 2005, p.8). Dessa forma, grande parte das mazelas
sociais acabava por ser creditada a essa parcela da população.
Algumas formulações tradicionais em torno dos segmentos juvenis
têm sido mais fortemente reiteradas nas últimas décadas por discursos
oficiais de Estado e de procedência acadêmica no entendimento e
explicação dos comportamentos juvenis. Os jovens ora são vistos como
geradores de problemas, ora como um setor vitimizado da população
que precisa ser objeto de maior atenção. Preocupações destinadas a
manter a paz social ou preservar a juventude? Controlar a ameaça
que determinados segmentos juvenis oferecem ou considerá-los como
seres em formação, ameaçados por problemas decorrentes de fatores
sociais, econômicos e culturais da sociedade? (Novaes e Vannuchi,
2004; Sposito e Carrano, 2003).
Esse incômodo lugar destinado aos jovens por uma determinada
leitura social atualiza-se em tempos mais recentes. A associação entre
a população juvenil e a violência é apontada pela educadora Marilia
Sposito, ao ser entrevistada pelo Jornal Brasil de Fato, em abril de 2006. A
autora aponta o fato de que tal associação é visibilizada, principalmente,
na década de 1990, a partir de dois episódios: as rebeliões nas Febems,
centralizadas no Estado de São Paulo, em 1995, e o assassinato do índio
pataxó Galdino, em Brasília, no ano de 1997. Sposito diz como essa
associação produz todo um aparato de legitimação de um discurso a
partir de instituições públicas, citando, como exemplo, as pesquisas
realizadas pela Unesco que tomam por base a ligação “juventude e
violência” a partir do final da década de 1990.
A ONU, por meio da Unesco, inaugurou em 1997, aqui no Brasil, o seu
setor de Pesquisa e Avaliação. Já no ano seguinte, iniciaram-se pesquisas
voltadas à população juvenil, inscrita em um contexto de problemas
sociais e, muitas vezes, de perigo ou risco social, e a juventude aparecia
relacionada predominantemente à temática da violência social. Foi,
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Discursos sobre juventude e práticas psicológicas
então, publicado o primeiro “Mapa da Violência – os jovens do Brasil”
(Waiselfilz, 1998), um estudo que já está na sua quarta edição. Dentre
os temas focalizados pela Unesco, centralizam-se a problemática da
violência, referindo-se ora às “formas emergentes de sociabilidade
transgressora” entre os jovens (Waiselfisz, 1998), ora às questões de
“vulnerabilidade do jovem” à violência (Unesco, 2004). Além desses
temas, violência e juventude também se apresentam associadas com
discursos sobre a sexualidade, as drogas e a educação no cotidiano
escolar, relacionando-se essas questões, principalmente, com os jovens
em situação de pobreza. Um dos últimos relatórios apresentados pela
Unesco em 2006 tem como tema os jovens no “Cotidiano das Escolas:
entre violências”.
É interessante observar que, nos objetivos apresentados para a
realização de tais estudos, o discurso de regulação social é bastante
claro ao dizer que as pesquisas buscam “contribuir para a modelagem
de políticas públicas para a juventude, enfatizando-se a participação
do jovem como produtor e como consumidor cultural” (Castro et al,
2001). As pesquisas objetivam, ainda, “ampliar a visibilidade social
de experiências no trabalho com jovens – particularmente aqueles em
situação de pobreza” (Unesco, 2006).
Assim, o que se vê nesse contexto é a produção de maneiras de
ser e viver relacionadas à juventude que, por sua vez, em cada época,
emergem de uma correlação de forças que produzem efeitos de
visibilidade no campo social. É na cristalização de um determinado
modo de ser, colado à concepção de juventude de uma determinada
época social e histórica, que em muitas situações se produz a
essencialização da condição juvenil. Esperam-se, então, certos modos
de ser ou manifestações dos jovens de forma contínua e estereotipada
nas produções sociais em que o jovem está presente. Nesse sentido,
também visualizamos essa forma contínua e estereotipada em diversos
programas do governo brasileiro dirigidos aos jovens, os chamados
“programas de inserção da população juvenil nos processos sociais”,
frase veiculada na apresentação do Plano Nacional da Juventude.
Investigando, portanto, a forma como se concebe a juventude
na contemporaneidade, encontramos que ela vem principalmente
vinculada ao chamado período de educação formal e de entrada
das pessoas no mundo do trabalho. Enfatizamos, no entanto, que
as concepções veiculadas em épocas e lugares variados diferem sob
o ponto de vista social e epistemológico. Em seu livro História Social
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Zuleika Köhler Gonzales y Neuza Maria de Fátima Guareschi
da Criança e da Família, Philippe Ariès (1981), em uma perspectiva
européia, fala do tema das idades da vida e dos vários nomes usados
durante a Idade Média para identificar o período relacionado ao que
hoje denominamos, por exemplo, adolescência e juventude. Numa
concepção em que os fenômenos da natureza estavam unidos ao
sobrenatural num determinismo universal, situava-se dos 14 anos
até por volta dos 30 anos a idade da adolescência – era assim chamada
porque a pessoa já estava grande o suficiente para procriar e, ao mesmo
tempo, tinha “os membros moles e aptos a crescerem e a receber força
e vigor do calor natural”. Depois, vinha a idade que estava “no meio
das outras idades”, a assim denominada juventude, a idade que tinha a
“plenitude das forças” e em que, justamente por isso, se podia “ajudar
aos outros e a si mesmo” – período que se situava por volta dos 30 até
os 50 anos de idade (Ariès, 1981, p. 6). Com a modernidade ocidental,
surge, então, uma rígida cronologização do curso da vida individual,
com vistas à obtenção de um critério objetivista e naturalista para a
determinação da idade de cada indivíduo, o que gerou uma profusão
de saberes científicos, jurídicos e, por fim, criminalistas sobre estágios
da vida (Groppo, 2000). A noção de idade, no entanto, na perspectiva
discursiva que empreendemos neste estudo, pode ser tomada como
uma marca que nos posiciona no mundo, um marcador identitário
que se inscreve como símbolo cultural que diferencia, agrupa,
classifica e ordena as pessoas conforme marcas inscritas na cultura
– sobretudo, na cultura do corpo, “cujos significados nem são estáveis
nem têm a mesma importância ou penetração relativa, combinam-se e
recombinam-se permanentemente entre si” (Veiga-Neto, 2000, p. 215).
Com essa noção relativa às idades, questionamos a visão instituída
por um pensamento psicológico desenvolvimentista que estabelece
características inerentes para cada uma das etapas da vida. Da mesma
forma, a constituição e objetivação da vida cronologizada em etapas
a serem percorridas são frutos dessa vertente psi de cunho evolutivo.
Se, por um lado, é na modernidade que se produz a concepção de
juventude como a conhecemos hoje, por outro, a própria constituição
da sociedade moderna – com instituições como a escola, o Estado, o
direito e o trabalho industrial – assentou-se no reconhecimento das
faixas etárias e na institucionalização do curso da vida. Isso nos mostra
um mútuo engendramento de mudanças e de institucionalizações
na rede social no período moderno, configurando, dessa forma, um
período também fértil para a constituição e objetivação das idades em
470
Discursos sobre juventude e práticas psicológicas
etapas bem definidas (Groppo, 2000).
Assim, colocam-se as questões: se o discurso veiculado é o de busca
da inserção e da participação do jovem nos mais variados segmentos
da sociedade, em que condições de emergência esses discursos sobre
a juventude se apresentam? Quando o jovem se faz visível e em nome
de que essa visibilidade toma seu lugar? A visibilização da juventude
estaria dotando-a de um espaço próprio, convertendo-a, assim, em
um campo de possível intervenção e controle? Estaria no fato de se
visibilizarem mais as questões juvenis a preocupação em exercer sobre
elas um maior controle através de instâncias legitimadas de governo e
de mecanismos de vigilância no meio social? Que lugar é este designado
à juventude?
É pensando nesse sentido que nos contrapomos a este lugar que a
juventude vem ocupando, de “foco e germinação de problemas sociais”
(Gonçalves, 2005), e recorrermos assim a uma concepção de novidade
apontada por Hannah Arendt (2001). Para a autora, o lugar da novidade
instaura-se no espaço público, no campo onde se dá a condição para a
ação humana, atividade que ocorre através do discurso e sob a condição
de pluralidade, o que implica ser singular entre os outros. Aí também
a ação humana investe-se de caráter político ao produzir efeitos, estar
em relações de poder e ter uma dimensão ética. No entanto, impõe-se
a questão: com a ampliação da esfera privada e da descrença na esfera
pública, que efeitos estão sendo produzidos na população juvenil e nos
seus modos de agir no que concerne às práticas de saber e regulações
sociais em contraposição a uma possível novidade?
III - O Campo Psi: prescrições nas concepções de juventude
A discussão sobre o jovem e a categoria juventude em relação às
práticas psi remete-nos ao que Foucault (1999) chamou de “corpo
político”. Ou seja, considerar a inscrição do jovem e a produção de uma
concepção sobre juventude é pensar em um “conjunto de elementos
materiais e das técnicas que servem de armas, de reforço, de vias de
comunicação e de pontos de apoio para as relações de poder e de saber
que investem nos corpos humanos e os submetem a uma condição
de objetos de saber” (Foucault, 1999, p. 27). Analisar o investimento
político-estratégico dos jovens a partir de um campo de saber e de
relações de poder é pressupor que existe uma implicação mútua
entre “sujeito que conhece, os objetos a conhecer e as modalidades
471
Zuleika Köhler Gonzales y Neuza Maria de Fátima Guareschi
de conhecimentos” e que esses “são outros tantos efeitos dessas
implicações fundamentais do poder-saber e de suas transformações
históricas” (Foucault, 1999, p. 29). É nesses termos que discutimos a
implicação das práticas psicológicas como ferramentas conceituais e
de intervenção no investimento e disciplinarização sobre os corpos
jovens na perspectiva de que estes se tornem adultos bem adaptados,
sadios e integrados à ordem social.
É nesse percurso que o instrumental da Psicologia foi e é de grande
valia para o esquadrinhamento e classificação de condutas dos jovens.
A Psicologia, “como um corpo de discursos e práticas profissionais,
como uma gama de técnicas e sistemas de julgamento e como um
componente de ética, tem uma importância particular em relação aos
agenciamentos contemporâneos de subjetivação” (Rose, 1999, p. 146).
Assim, exerce também o papel de definir as características e os critérios
balizadores para a classificação da população jovem.
No século XIX, a produção de conhecimento sobre a vida, demarcada,
sobretudo, pelas Ciências Naturais, pretendia “desvendar” as leis
naturais que regeriam o corpo, a mente e a sociedade. Tal como na prática
da biologia evolucionista, emergem práticas psicológicas destinadas
ao controle dos sujeitos por meio da disciplina ou pela valorização da
busca de um suposto indiiduo autônomo, remetendo-o a uma ordem
do natural. Nesse processo, a Psicologia duplica conceitos empíricos
para legitimar seus próprios conceitos em uma função transcendental,
instituindo bases fundamentais para a compreensão da natureza
humana e do desenrolar evolutivo das idades – da infância à idade
adulta –, gerando saberes e práticas em torno desse homem-indivíduo.
Cada indivíduo, segundo essa lógica, passaria a ter certeza de que,
em determinado momento, o sinal da natureza iria despertar em si
transformações bio, psico e sociais pré-diagnosticadas pelas ciências
médicas e psicológicas. É nesse sentido que as disciplinas psi, como diz
Rose (1999, p. 147), “estabeleceram uma variedade de ‘racionalidades
práticas’, envolvendo-se na multiplicação de novas tecnologias e em
sua proliferação ao longo de toda a textura da vida cotidiana: normas
e dispositivos de acordo com os quais as capacidades e a conduta dos
humanos têm se tornado inteligíveis e julgáveis”.
É principalmente ancorada nessa lógica desenvolvimentista
– que preconiza um progresso contínuo da humanidade, no qual o
indivíduo, a partir de seus “estágios iniciais”, vai se desenvolvendo
em etapas predefinidas cada vez mais rumo à maturidade do adulto
472
Discursos sobre juventude e práticas psicológicas
– que a Psicologia vem prescrevendo e legitimando concepções acerca
da juventude, ordenando-a e objetivando-a em uma ordem social em
que ela seria uma fase de transição entre a infância e a maturidade do
período adulto. Foi com a crença na transição dos indivíduos para uma
maturidade que as ciências humanas e sociais, do século XIX ao século
XX, produziram uma juventude de transição, a ser controlada por meio
de instituições preocupadas em proteger e diagnosticar os indivíduos
considerados ainda não maduros e diagnosticados como portadores
de fragilidades, criando-se ainda outras instituições interessadas na
possibilidade de intervir na potencialização das capacidades desses
indivíduos. É sob essa visão que a juventude passa a ser considerada
como um estágio que pode ser perigoso ou frágil, propício para
contrair toda espécie de males. Tal concepção contribuiu para a
vigilância e regulação social dos indivíduos no período denominado
de juventude.
É nesse processo de cerceamento político, moral, policial, empírico
e científico do indivíduo, próprio da modernidade, que as ciências
médicas e a Psicologia buscaram “uma definição exaustiva, detalhada e
objetiva das fases de maturação do indivíduo, bem como (propuseram)
métodos de acompanhamento apropriados a cada fase dessa evolução
do indivíduo à maturidade ou idade adulta” (Groppo, 2000, p. 59).
Dentro desse processo de definição objetiva e naturalizante das pessoas,
a categoria juventude passou a carregar em si, do ponto de vista das
ciências modernas, a função social de “maturação” do indivíduo,
pressupondo a tarefa emergente de socialização desse jovem, com
vistas a torná-lo um “indivíduo autêntico e integrado à sociedade
moderna” (Groppo, 2000, p. 60).
Grande parte dos estudos desenvolvidos com relação à juventude
entende essa categoria pela marca da transitoriedade, como uma
fase da vida que se encontra entre a chamada dependência infantil e
a propagada autonomia adulta, um período de pura mudança e de
inquietude (Levi & Schmitt, 1996; Muller, 2005), fundamentado em uma
concepção adultocentrista. Essa transitoriedade implica a consideração
do estado adulto como aquele definitivo, estável, em contraponto ao
instável, inscrito na juventude. Nesse mesmo sentido, a estabilidade
colada ao sujeito adulto denota, por contraposição, uma instabilidade
aos outros momentos da vida humana. Essa visão acarreta, em muitas
leituras, um conjunto de responsabilidades inerentes ao mundo do
adulto, concepção que vem avalizar boa parte de estudos realizados
473
Zuleika Köhler Gonzales y Neuza Maria de Fátima Guareschi
sobre a juventude, como descrito pelos autores Pais, (1993) e Novaes e
Vannuchi (2004). Na situação apontada por Muller (2005), atrelam-se
os jovens à moratória social – um tempo de espera em que o jovem
se prepara para assumir as responsabilidades do mundo dos adultos.
Vincula-se a concepção de moratória social com aquela em que os
jovens estariam num período em que teriam um tempo autorizado para
fazer coisas não toleradas quando feitas pelos adultos. Dessa forma,
define-se a juventude por elementos que, de forma naturalizada, são
tidos como constituintes da vida juvenil e que não são tolerados na
vida adulta. Constituir família, entrar no mercado de trabalho e ter
autonomia com relação ao pai e à mãe são passos hegemonicamente
reconhecidos como sendo aqueles com os quais o jovem passa a ser
adulto.
Assim, a concepção de juventude como sendo um período marcado
por instabilidades e impulsividades, entendidas como naturais,
demandou todo o cuidado e atenção na vigilância desse “período
transitório”, pois se, de alguma forma, essas marcas permanecessem,
seriam sinal de imaturidade de um processo vital, o que, escapando ao
tempo previsto, representaria riscos para aquilo que deve ser a finitude
do humano. Como invenção do pensamento moderno, a finitude
humana é aquilo que possibilita esclarecer o seu aparecimento, sua
constituição e os movimentos presentes para visibilizar momentos
futuros. Esse controle sobre a natureza humana coloca-a na ordem
do pensável para diferentes campos do conhecimento. Porém, para
a Psicologia, essa concepção configurar-se-á no ponto de apoio para
os diversos diagnósticos que elencarão as constantes e renováveis
patologias e para a divulgação de um arcabouço de padrões de
normalidade (Hüning & Guareschi, 2005). Assim, a emergência de
um discurso de valorização da juventude por parte das instituições
públicas ou privadas, legitimadoras e reguladoras dos modos de ser
e viver dos jovens na sociedade, remete-nos às produções das práticas
sociais e institucionais também impostas pela ordem dos processos
econômicos, culturais e políticos que vêm sendo construídos em
diferentes momentos históricos.
IV - A inscrição do jovem no contemporâneo: de sujeito
problema a sujeito consumidor
Se a modernidade propiciou uma concepção relativa à juventude
474
Discursos sobre juventude e práticas psicológicas
como uma fase de transição, composta por um conjunto de etapas
normatizadoras que conduziriam progressivamente em direção ao
mundo adulto, em uma seqüência linear em que a sucessão e a ordem
das etapas a serem percorridas estariam ligadas à certeza do projeto
dessa modernidade, no contemporâneo, a possibilidade de entender a
juventude como um encadeamento contínuo e necessário em relação
às experiências dos jovens, articulando-as às exigências do mundo das
instituições sociais e políticas, dissolve-se perante as transformações e
mudanças ocorridas neste tempo. A primeira dessas transformações é a
própria impossibilidade de se ter continuidade e certeza sobre a noção
de tempo e espaço, gerando ao mesmo tempo diferentes experiências
espaço-temporais.
A modernidade entende as experiências concretas e imediatas
como sendo particulares, mas inseridas em espaços gerais, abstratos,
infinitos e ideais. O que se pode chamar de lugar é o espaço vivido e
definido pelo sensorial, pelo imediato e, ao mesmo tempo, ideal, em
contraposição à lógica medieval, em que as práticas diárias dependiam
de um espaço físico concreto, onde a dominação dependia da posse de
um espaço físico. Segundo Veiga-Netto, é “a esse cenário particular,
sensorial e imediato do espaço, (que) chamamos de lugar” (2002, p.
169).
Já na lógica espaço-tempo estabelecida no contemporâneo, importa
cada vez mais o produto dessa relação – a velocidade –, que toma a frente
nas formas de subjetivação, valorizando sempre mais a mobilidade, a
velocidade de acesso a todas as coisas, com efeitos de “hiperconsumo”,
presente nas práticas econômicas e políticas.
Outra condição, nesse mesmo cenário, é o que Veiga-Netto (2002)
aponta como sendo a volatilidade nas experiências vividas no cotidiano,
um estado de sempre mudança sentido na sua inconstância. Bauman
(2001) refere-se a um estado de leveza e fluidez em contraponto ao
sólido presente numa lógica espacial e temporal com mais durabilidade
e com limites bem definidos na modernidade. Com a mobilidade e o
volátil demarcando posições no campo subjetivo, o que se mostrava
de longo prazo, com grande durabilidade e definitivo, apresenta-se
com um caráter cada vez mais transitório, supondo “uma crescente
aceleração no ritmo de se relacionar com as coisas e com as pessoas,
transformando o cotidiano num caleidoscópio de apelos, exigências e
possibilidades” (Souza, 2005, p. 101).
Considerando que a noção de juventude vem inscrita em discursos
475
Zuleika Köhler Gonzales y Neuza Maria de Fátima Guareschi
proferidos em cada momento particular da sociedade, que produz
modos de ser jovem de acordo com interesses próprios de um
momento histórico, o que vemos a partir da metade do século XX,
segundo Ribeiro (2004), são jovens sendo disputados por duas forças
antagônicas: por um lado, a idéia de revolução, colocando-os no lugar
de rebeldia, contestação, desvio à norma, etc.; por outro lado, o campo
da publicidade, constituindo a juventude como destinatária por
excelência de anúncios e propagandas para um mercado em expansão.
Para ilustrar, o autor cita o filme Made in USA, de Godard, que chama
os jovens parisienses dos anos 1960 de filhos de Marx e da Coca-Cola.
Morin (1997) indica a década de 1960 como um período que se
fez marco no aumento dos bens de consumo, da indústria cultural
e da valorização social do tempo livre, o que produziu como efeito
o investimento na construção e visibilização de novos atores sociais,
dentre os quais, a juventude. Esta é tomada como alvo e solo fecundo
para uma potencial fatia de mercado consumidor, vinculando-se a essa
população a idéia de “uso do tempo livre” e de “produtor e consumidor
cultural”, marcador ainda presente em documentos publicados pela
Unesco (Castro et al., 2001).
Ribeiro (2004), ao buscar o processo histórico de como a juventude
e, por conseguinte, como o ser jovem passa a ser algo valorizado,
aponta o período pós-Revolução Francesa como a emergência de uma
oposição sentida de forma cada vez mais intensa entre o que se remetia
ao novo – naquele momento, o sentido de liberdade, democracia – e
o que conotava o antigo, velho – a servidão, a mentira, os privilégios
de poucos. Desde então, segundo esse autor, a juventude tem sido
um valor importante – ela “passa a ser algo positivo, e mais que isso,
prioritário na agenda” (p. 23).
No contexto de Brasil, Kehl (2004, p. 90) diz que o prestígio da
juventude é mais recente. Essa autora cita Nelson Rodrigues, a partir
de uma crônica escrita sobre a infância deste, em que o dramaturgo
relata: “O Brasil de 1920 era uma paisagem de velhos; os moços não
tinham função nem destino. A época não suportava a mocidade”.
Eram tempos em que os jovens buscavam ostentar sinais de seriedade
e “respeitabilidade”, vinculados aos adultos da época, tais como o uso
do bigode, ternos escuros e guarda-chuva, marcadores identitários de
determinados homens, os “bem-sucedidos” da primeira metade do
século XX. Em tal contexto, “homens e mulheres eram mais valorizados
ao ingressar na fase produtiva/reprodutiva da vida do que quando
476
Discursos sobre juventude e práticas psicológicas
ainda habitavam o limbo entre a infância e a vida adulta chamado de
juventude”.
Já na segunda metade do século XX, a juventude passa a ser
situada nos anos dourados da vida. Se pensarmos nas condições de
possibilidade para a visibilidade dos jovens como algo a ser desejado,
investido e valorizado, principalmente a partir do pós-guerra, na
segunda metade do século XX, podemos apontar o auge do modelo
centrado na economia capitalista, florescendo com toda a força a
invenção de produtos a serem consumidos e de mercados a serem
conquistados, bem como a expansão da indústria cultural – cinema,
televisão –, produzindo e capturando sentidos na lógica da economia
de mercado. Assim, mesmo com o estigma produzido sobre os jovens
como sendo uma geração problemática, a juventude passa a ser
investida como um novo e gigantesco mercado para os novos “fetiches
da felicidade” – Coca-Cola, chicletes, discos, cosméticos, carros, etc.
Tomando-se a juventude como uma “fatia privilegiada” do mercado
consumidor, produz-se como efeito um jovem consumidor – o teenager
americano –, rapidamente difundido por todo o mundo capitalista
ocidental via publicidade e televisão, numa associação com a imagem
de “liberdade, busca intermitente de prazeres e novas sensações”,
oferecendo-se como modelo para todas as classes sociais e faixas etárias
da população (Ribeiro, 2004, p. 24).
É nesse sentido que alguns autores ressaltam a ênfase colocada
na juventude nos tempos atuais, como um vetor de incidência na
subjetivação dos sujeitos, abarcando, sobretudo, a dimensão relacionada
ao corpo, concretizando-se no comércio da “juvenilização” – um
produto almejado por muitos e balizador de uma estética hegemônica
prescrita como modelo ideal (Margulis, 2000; Muller, 2005).
Em análise sobre a produção de uma estética juvenil globalizada a
partir do mercado de consumo, Oliveira (2001, p.38) aponta o jovem,
nos tempos contemporâneos, como aquele sobre o qual se vinculou a
idéia de “máxima potência de afetar e ser afetado”, numa referência à
obtenção de um prazer mais imediato, mais narcisista e menos utópico
do que aquele experimentado por gerações anteriores. Nesse sentido,
o mercado midiático encarregou-se de transformar a juventude em
modelos de consumo, passando de um consumidor preferencial a
um agente catalisador e propagador de estilos que fazem proliferar
uma estética juvenil entre todas as gerações. Com isso, o mercado
encarrega-se de definir e cristalizar grupos de estilos juvenis variados,
477
Zuleika Köhler Gonzales y Neuza Maria de Fátima Guareschi
demarcando “a filiação do desejo do consumidor” em diferentes tribos
a serem investidas com suas marcas identitárias já capturadas pelo
sentido do consumo. É assim que “consumir os produtos ofertados
para cada uma dessas tribos passa a ser um modo de existir e de ser
notado na vida pública” (Oliveira, 2001, p. 38). Proliferam, então, os
surfistas, os nerds, os mauricinhos, as patricinhas, etc., com suas etiquetas
visíveis e bem demarcadas, tornando-os reconhecidos e pertencentes a
uma determinada tribo.
Sarlo (1997), ao fazer uma analogia entre a velocidade de circulação
na lógica do consumo e o valor simbólico impresso na juventude com
relação a um prazer imediato, sempre em busca do novo nos tempos
atuais, refere-se ao mercado como o lugar em que as mercadorias
necessariamente devem ser novas, conotando o estilo que está na moda.
Nesse sentido, a autora aponta o mito da “novidade” presente nesse
modelo, com a renovação incessante de necessidades-mercadorias
produzidas pelo mercado capitalista, como um elo articulado à noção
de juventude em que se cola o mito da novidade permanente. Juventude
surge como um valor potencializado na trajetória da existência do
homem, nessa lógica do imediato, da busca incessante pelo novo e pela
novidade para suprir necessidades criadas na chamada sociedade do
consumo.
Essa lógica descrita acima se articula à noção de transitoriedade citada
por Veiga-Netto (2002), no modo de viver o tempo no contemporâneo,
supondo uma crescente aceleração no ritmo de se relacionar com
as coisas – e com as pessoas – e “transformando o cotidiano num
caleidoscópio de apelos, exigências e possibilidades” (Souza, 2005, p.
101). Nessa conformação presente nas relações atuais, desponta com
vigor o caráter efêmero e mutante do que vem a ser consumido, sejam
coisas, idéias, “atitudes” ou comportamentos, entrecruzados com o
mesmo vigor com que se desenvolvem as tecnologias que operam na
produção e sustentação do cenário atual.
Numa perspectiva foucaultiana, o tempo insere-se na discussão das
técnicas criadas na chamada sociedade de controle como um elemento
a ser controlado para o funcionamento dos mecanismos inerentes a
um modelo de produção da subjetividade ou constituição dos sujeitos
dessa sociedade, numa determinada direção. Em um de seus textos,
Foucault aponta o modelo de mercado presente no capitalismo como
pano de fundo para o controle do tempo. Ali ele diz que “é preciso que
o tempo dos homens seja colocado no mercado, oferecido aos que o
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Discursos sobre juventude e práticas psicológicas
querem comprar, e comprá-lo em troca de um salário; e é preciso, por
outro lado, que este tempo dos homens seja transformado em tempo
de trabalho” (Foucault, 1996, p.116). Nests sentido é que se controla,
se vigia e se demarca o tempo das pessoas nos mais diferentes espaços
e momentos de suas vidas. Podemos pensar também num tempo
capturado por um modelo de mercado que totaliza as mais diversas
faces da existência humana em modelos hegemônicos a serem ofertados
num grande mercado de consumo.
É no sentido dessa captura de novos “nichos de mercado” a serem
conquistados que Bauman (2004, p. 88) se refere aos “mercados
modernos”, em uma analogia aos Estados modernos, que, “ocupados
em ordenar e classificar, não podiam suportar a existência de ‘homens
desgovernados’ e, (...) ávidos por territórios, não podiam suportar a
existência de terras ‘de ninguém’”; da mesma forma, “os mercados
modernos não toleram bem a ‘economia de não-mercado’: o tipo de
vida que reproduz a si mesma sem que o dinheiro troque de mãos”.
Institui-se, assim, um modo de vida em que usar e descartar
em seguida, a fim de abrir espaço para outros bens e usos, dita
funcionamentos em que a leveza, a velocidade e o imediatismo pautam
a existência humana, modos constituintes no campo subjetivo. Se, por
um lado, instauram-se os “incluídos” na sociedade de consumo, no
dizer de Bauman (2004, p. 68), “aqueles que não precisam se agarrar
aos bens por muito tempo, e decerto não por tempo suficiente para
permitir que o tédio se instale, os chamados bem-sucedidos, por outro,
se institui os excluídos, os consumidores falhos, os inadequados, os
incompetentes, os fracassados”. Nesse aspecto, podemos ver como um
alerta a implicação das práticas psi tradicionais no controle e ordenação
do mundo, mundo este onde se inscreve a sociedade do consumo
ao prescrever modos de existência “adequados” a essa ordem, “ao
dar especial atenção àqueles que devem ser incluídos nos sistemas
normativos e normalizadores dessa sociedade” (Hüning & Guareschi,
2005, p. 116).
V – A Guisa de Conclusão: uma categoria
de juventude a ser pensada...
Assim, se o social vale-se da demarcação binária entre incluídos/
excluídos, que grupo social vem ecoando insistentemente nos
discursos sociais de inclusão social e inserção no mercado? Que novo
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Zuleika Köhler Gonzales y Neuza Maria de Fátima Guareschi
nicho a ser conquistado estaria ainda além fronteiras da regulação de
mercado nas últimas décadas? É pensando na tradução da categoria
juventude como aquilo que busca o novo de modo incessante, sendo
isso o que a faz visível e valorizada, tornando-a um campo desejável
de investimento para produções de subjetividade, que se procura uma
possibilidade de olhar a juventude de uma forma diferente e ao mesmo
tempo deslocada daquela que impõe as relações de força e de poder
dos movimentos midiáticos e conformistas da sociedade.
Retomando a idéia de Arendt (2001), que apresentamos no início
deste artigo, pensamos que o conceito de novidade, pode auxiliar para
refletirmos sobre a possibilidade de uma direção inversa ao novo que se
institui como forças motrizes nesta sociedade do consumo. A novidade,
segundo esta autora, está inscrita nos espaços de tensionamento entre
o público e o privado. É no espaço público, no entanto, que o lugar
da novidade se instaura, no campo onde se dá a condição para a ação
humana, atividade esta que ocorre através do discurso, na singularidade
da produção humana e também em uma condição de pluralidade. Para
essa autora, é no público que a ação humana é investida de um caráter
político por produzir efeitos, estar em relações de poder e ter uma
dimensão ética.
Em contraponto ao público, no espaço privado, é excluída a
possibilidade da ação humana. Esse espaço representa a privação do
humano e a não-condição do seu aparecimento na pluralidade, ao
mesmo tempo, o não ser singular entre os outros. É onde o homem se
comporta e se regula conforme um interesse comum e uma opinião
unânime presente no espaço doméstico. No espaço privado, não há
lugar para o inusitado, o imprevisto, o desconforme. Com a assunção
do modelo doméstico na esfera pública, Arendt (2001) aponta a
substituição, em nossa sociedade, da ação pelo comportamento na
forma de relação entre os homens, fazendo com que se espere de
cada um dos humanos certo tipo de comportamento, com inúmeras e
variadas regras, mas todas tendentes a normalizá-los. É nesta ordem, a
dos sujeitos privatizados, que podemos situar os mandatos de consumo,
velocidade e descartabilidade presentes no contemporâneo como os
destituidores do caráter político da ação humana e da afirmação no
espaço público do que é singular em troca da homogeneização e da
normatização.
Então, se o espaço público é também espaço político, deve ser
pensado como ação, como acontecimento, como irrupção, como uma
480
Discursos sobre juventude e práticas psicológicas
interrupção de todos os processos automatizados e totalizantes. E é aí,
então, que pode emergir uma concepção de juventude com a novidade
como possibilidade do improvável e da surpresa. A questão que se coloca
é: com a ampliação da esfera privada na sociedade contemporânea e a
descrença no espaço público, do poder político, que efeitos estão sendo
produzidos na população juvenil e nos modos de ela agir em relação
ao novo? Se a juventude ocupa no discurso político o lugar acadêmico
e social que é, paradoxalmente, o das crises, dos excessos, dos conflitos
e das explosões – lugar reforçado ao longo dos anos pelas ciências,
com a juventude sendo foco e germinação de problemas sociais –,
mas também é o foco de investimento de mercado que a produz como
objeto e sujeito do consumo, não estaria aí também o contraponto, ou
seja, o lugar da novidade como possibilidade de um solo fértil para o
surgimento de algo novo que gere mudanças no campo social?
Ao conformar os excessos juvenis a uma regulação social, a uma
norma instituída, a um comportamento esperado no espaço público, e
ao se avaliarem os jovens com o potencial extraordinário de produtores
e consumidores no mercado capitalista, não se estaria também retirando
a possibilidade da existência de algo que inova, que inventa, que excede
e que irrompe nos modos de ser juvenil, para além da conformidade
social, impossibilitando-se, assim, que se instaure a novidade? Ao
aproveitar-se a oportunidade que a novidade dispõe, seria possível
utilizá-la como estratégia para pensar a imprevisibilidade em uma
chance de vida para transformar a opacidade do futuro em ações
presentes, intensas e finitas. Ou a idéia de finitudes do conhecimento
moderno, que coloca a natureza humana na ordem do previsível,
poderia ser transposta para uma idéia de tempo futuro não-dissociada
do tempo presente, do indeterminado, da pulverização de experiências
e da possibilidade de exploração do provisório como forma de emergir
e potencializar a novidade.
Finalmente, cabe-nos colocar em questão as práticas psicológicas que
instituem e legitimam modos de ser juvenil por meio de procedimentos
e técnicas ancoradas em um discurso científico sobre a interioridade do
indivíduo psicológico e de caracterizações naturalizadas na perspectiva
de um sujeito normal, adaptado e governável. Problematizar concepções
de juventude fundamentadas em definições e caracterizações
atreladas a uma etapa universal, natural e homogênea para todos
impõe a necessidade de uma postura crítica às reificações totalizantes
produzidas no campo psi.
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Referencia:
Zuleika Köhler Gonzáles y Neuza Maria de Fátima Guareschi,
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Se autoriza la reproducción del artículo, para fines no comerciales,
citando la fuente y los créditos de los autores.
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