330
Universidade Federal da Bahia
Instituto de Letras
Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística
Rua Barão de Geremoabo, nº147 - CEP: 40170-290 - Campus Universitário Ondina Salvador-BA
Tel.: (71) 263 - 6256 – Site: http://www.ppgll.ufba.br - E-mail: [email protected]
Caleidoscópio:
Percurso intelectual e a estréia de Heron de Alencar como crítico literário
no jornal A Tarde (1947-1952)
por
Carla Patrícia Bispo de Santana
Orientadora: Profª Drª Ivia Iracema Duarte Alves
V.2
Salvador
2003
Universidade Federal da Bahia
Instituto de Letras
Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística
Rua Barão de Geremoabo, nº147 - CEP: 40170-290 - Campus Universitário Ondina Salvador-BA
Tel.: (71) 263 - 6256 – Site: http://www.ppgll.ufba.br - E-mail: [email protected]
Caleidoscópio:
Percurso intelectual e a estréia de Heron de Alencar como crítico literário
no jornal A Tarde (1947-1952)
por
Carla Patrícia Bispo de Santana
Orientadora: Profª Drª Ivia Iracema Duarte Alves
V.2
Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Letras e Lingüística do Instituto
de Letras da Universidade Federal da Bahia
como parte dos requisitos para obtenção do
grau de Mestre em Letras.
Salvador
2003
332
SUMÁRIO
V. 1
RESUMO
06
ABSTRACT
07
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
08
INTRODUÇÃO
11
1
PERCURSO INTELECTUAL DE HERON DE ALENCAR
1.1
PEREGRINAÇÕES DE JOVEM ESTUDANTE
17
1.2
EM DEFESA DO MONOPÓLIO ESTATAL DO PETRÓLEO
20
1.3
ATUAÇÃO NA UNIVERSIDADE DA BAHIA
24
1.3.1
O ingresso como professor na Universidade da Bahia
24
1.3.2
O assessor de Edgar Santos
30
1.3.3
O IV Colóquio de Estudos Luso-Brasileiros
34
1.3.4
Participação na Reforma Universitária – Bahia
38
1.4
ATUAÇÃO NA SORBONNE
43
1.5
A CONSTRUÇÃO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA -
1.6
A EXPERIÊNCIA DO EXÍLIO
50
1.6.1
1.7
Os trabalhos no IRAM e as Universidades da Argélia
55
58
2
A ATUAÇÃO DE
2.1
O ESPAÇO DA LITERATURA NA IMPRENSA DO FINAL DA DÉCADA DE 40:
2.1.1
POLÊMICAS CRÍTICAS DO PERÍODO: CRÍTICA DE RODAPÉ E CRÍTICA ACADÊMICA
65
2.2
A DIVULGAÇÃO DA LITERATURA POR JORNAIS
69
2.3
ATUAÇÃO EM JORNAIS
72
2.3.1
A veia jornalística
72
2.3.2
2.3.3
Jornal A Tarde
Jornal da Bahia, O povo e outros jornais
73
79
2.4
REDATOR DE REVISTAS
80
2.4.1
2.4.2
Caderno da Bahia
80
84
2.5
2.5.1
2.5.2
TEXTOS DIVERSOS DE HERON DE ALENCAR EM A
UMA UTOPIA VETADA
UM MEDIADOR ENGAJADO
HERON DE ALENCAR
NA IMPRENSA E NA MÍDIA BAIANAS
Outras revistas
Reportagem
Artigos diversos
45
TARDE
A TARDE
62
86
87
90
2.5.3
Literatura
92
2.6
TELEVISÃO: O CLUBE DE DEBATES
97
3
CALEIDOSCÓPIO: “MANIFESTAÇÕES DE ATITUDE CRÍTICA” DIANTE DA
LITERATURA E DA CULTURA
3.1
3.2
O FORMATO DA COLUNA
SOBRE OS MÉTODOS DE ANÁLISE DA PRODUÇÃO TEXTUAL EM CALEIDOSCÓPIO
IMPRESSÕES DA COLUNA CALEIDOSCÓPIO: OS SUB-TÍTULOS MAIS FREQÜENTES
3.3
3.3.1
100
103
105
105
3.3.2
3.3.3
3.3.4
3.3.4.1
3.3.4.2
3.3.5
3.3.5.1
3.3.5.2
3.3.5.3
Biografia e Miniatura: do perfil de escritores ao exercício de um procedimento
de análise crítica
Depoimentos: mosaico de opiniões
O discurso da responsabilidade política do intelectual
Textos maiores de crítica nos quais discute concepção de literatura
Produção em prosa
Produção poética
Um olhar sobre as variações
Descrição e agrupamento das Variações
Variações pensadas a partir da leitura de obras literárias
Variações: Impressões do mundo
4
(IN)CONCLUSÃO
146
5
REFERÊNCIAS
149
114
116
120
121
125
128
128
130
136
ANEXOS
ANEXO A
Anexo A-1- Cronologia (acompanhada de álbum)
160
Anexo A-2 – Entrevistas (retiradas da versão final)
170
Anexo A-3 - Notas diversas em periódicos sobre Heron de Alencar
229
Anexo A-4 – Seleção: Textos de HA em A Tarde utilizados nesta dissertação
243
V.
2
ANEXO B
311
317
CATÁLOGO DE TODA A PRODUÇÃO EM A TARDE (1947-1952)
Anexo B-1 - Índice Geral
Anexo B-2 - Todos os textos por ordenamento cronológico – resumos e
transcrições
Anexo B-3 - Índice remissivo
331
Anexo B-4 - Índices onomásticos
540
Anexo B-5 - Índices das revistas
576
531
Anexo B
334
CATÁLOGO DE TODA A PRODUÇÃO EM A TARDE (1947-1952)
Anexo B-1
Índice Geral
ANEXO B-2:
Todos os textos por ordenamento cronológico1
ANEXO B-3:
Índice remissivo
ANEXO B-4
Índices onomásticos
(autores brasileiros e autores estrangeiros)
ANEXO B-5:
Índice das revistas
-----------------------------------
1. Esta parte do Anexo foi numerada em virtude da inclusão de um índice remisso. A intenção foi a de
facilitar a consulta.
Anexo B – 1 : ÍNDICE GERAL
336
ÍNDICE DE TEXTOS DE HERON DE ALENCAR
Jornal A Tarde – 1947 a 1956
1. FALAM AS RELÍQUIAS DO POETA
14/3/47;2
2. ASSISTÊNCIA À MATERNIDADE E INFÂNCIA
26/7/47;3
3. DIÁLOGO DE RUA
27/9/47;5
4.SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
4.1 Variações
4.2 Olhai os lírios do campo
4.3 Marietta Martin - Mártir do nazismo
4.4 Biografia
4.5 Retrato de "Anacreonte"
4.6 "Le pour et le contre"
4.7 As mulheres que Castro Alves amou
4.8 Publicações estrangeiras
4.9 Na vitrina das livrarias
4.10 Próximas publicações
29/11/47;5
5. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
5.1Variações
5.2 Importância do homem de cor
5.3 A presença de uma desconhecida
5.4 Antoine de Saint-Exupéry
5.5 Biografia
5.6 A imortalidade de Zola
5.7 Goteira do coração
5.8 Flores...do mal
5.9. Tristan Bernard
5.10. Publicações estrangeiras
13/12/47; 5.
6. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
6.1.Variações
6.2.Biografia
6.3.Como escreve você
6.4 Gide e o prêmio Nobel
6.4 Gide e o prêmio Nobel
6.6 O tremendo Monteiro Lobato
03/01/48; 5.
7. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
7.1.Variações
7.2.Daphné de Maurier
7.3.As mulheres no cartaz
7.4.Biografia
7.5.Steinbeck em ação
7.6.Agraciado com a famosa "Ordem de mérito”
7.7.Les gens do Mogador
7.8.Condenado Knut Hansun
17/01/48; 5.
7.9.No prelo e nas vitrinas
8. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
8.1.Variações
8.2 Biografia
8.3 Profissão De Fé
8.4 Uma Grande Romancista Inglesa
8.5 Duro Com Duro
8.6 O Irreverente Sinclair Lewis
8.7 Música Ao Longe
8.8 Flagrantes
9. CAMINHOS CRUZADOS...E ERRADOS
31/01/48; 5.
21/02/48; 3.
10. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
10.1Variações
10.2. Inquisição literária
10.3. Correspondência de Boudelaire
10.4. Flagrantes
10.5. Enquanto ruge a tormenta
10.6. O imoralista
10.7. Pearl S. Buck e o Genocídio
10.8 Também James Joyce
21/02/48; 5.
11. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
11.1 Variações
11.2 biografia
11.3 Não me conte o final
11.4 Literatura de propaganda
11.5 A Manhã de nevontae, a bicicleta... é um grande livro
11.6 Uma das maiores obras do século
13/03/48; 5
12. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
12.1 Variações
12.2 O escritor e apolítica
12.3 Melodias do coração
12.4 Foi só mudar o editor
12.5 Literatura e cinema
12.6 Flagrantes
12.7 Poemas de Enoch Santiago Filho
12.8 Um livro que virou em grande editora
12.9 Lawrence e Ramphion
27/03/48; 5.
OBS: exemplar sem condições de uso no IGHB, e página não encontrada no exemplar consultado na
Biblioteca dos Barris. Sabe-se da existência da página deste dia porque a mesma foi consultada na
microfilmagem do setor de arquivo do A Tarde, que suspendeu o acesso aos microfilmes.
13. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
13.1 Variações
13.2 O escritor e a política
13.3 Essas nossas sociedades!...
13.4. Flagrantes
13.5. Continuam a viver os personagens de Ibsen
10/04/48; 5
338
13.6. A vida é uma grande prisão
13.7. No prelo e nas vitrinas
14. NEM AS HONRAS DE UMA FALÊNCIA HONESTA
15. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
15.1. Variações
15.2. O escritor e a política
15.3. Miniatura
15.4. Anatole France
15.5. Uma floresta impenetrável
15.6. Flagrantes
15.7. Um quebra – quebra literário
16. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
16.1.Variações
16.2. O escritor e a política
16.3. Fora da vida
16.4. Destinos diferentes
16.5. Sartre e a poesia
16.6. Poeta e pintor
16.7. O derradeiro capítulo
16.8. Uma ousada aventura
16.9. Um suplemento
16.10. Autocrítica
16.11. No prelo e nas vitrinas
17. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
17.1.Variações
17.2. A cozinha bahiana
17.3. Miniatura
17.4. Roosevelt romancista
17.5. Cá e lá
17.6. Vigny e Kafka
17.7. Esses nossos concursos!
17.8. Solidariedade a Pablo neruda
17.9. Autores bahianos
18. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
18.3.Variações
18.2. Uma boa tradução para um bom livro
18.3. Debate em paris
18.4. Escritora e heroína belga
18.5. Prêmios literários
18.6. Luta difícil
18.7. Gide e os intelectuais negros
18.8. Flagrantes
19. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
19.1.Variações
19.2. Um livro de Contos
19.3. Cinqüentenário de Whos Who
19.4. Roteiros dos Candomblés Baianos
19.5. O julgamento de Hamsun
19.6. Novo livro de Wallace
29/04/48; 3.
08/05/48; 5.
22/05/48; 5.
05/06/48; 5.
19/06/48; 5.
03/07/48; 9
19.7. Sartre em maus lençóis
19.8. Face oculta
19.9. O Primeiro livro do Brasil
19.10. Chautebriand
19.11. Na vitrina das livrarias
20. BILHETE ÀS CRIANÇAS BAIANAS
21. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
21.1.Variações
21.2. Pavilhão de Mulheres – sobre Pearl S. Buck
21.3. Miniatura
21.4. Revistas
21.5. Um prêmio cobiçado
21.6. Atividades dos novos
21.7. Condições opostas
21.8. Ouvi-lo-emos?
21.9. Caderno da Bahia
21.10. Flagrantes
13/07/48; 3.
24/07/48; 9.
22. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
22.1.Variações
22.2. Um novo mundo para as crianças
22.3. Podem escrever, senhores!
22.4. Mais um título para 48
22.5. Os escritores e as leis ditatoriais
22.6. Suas sagas correm mundo
22.7. Livros e livrarias
22.8. Dona Bárbara
22.9. Flagrantes
07/08/48; 9.
23. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
23.1.Variações
23.2. Reedição de Rachel
23.3. As mãos sujas
23.4. O caminho da liberdade
23.5. Hamsun no cartaz
23.6. Gide, o julgador do “Rivarol”
23.7. No prelo e nas vitrinas
23.8. Sete anos de pastor
23.9. Correio
23.10. Flagrantes
21/08/48; 9.
24. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
24.1.Variações
24.2. Atividades na ABDE
24.3. Contraponto no cinema
24.4 Notícia do prêmio Nobel
24.5. Presente régio
24.6. Maquiavel e a dama
24.7. Miniatura
24.8. Autores novos
24.9. Major Graça vai julgar
24.10. Publicações
04/09/48; 5.
340
24.11. Flagrantes
25. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
25.1.Variações
25.2. Ciro dos Anjos na Bahia
25.3. Interpretação da Vírginia Woolf
25.4. Quem mudou?
25.5. Publicações baianas
25.6. Sapato florido
25.7. O outro intérprete do sul
25.8. Os intelectuais e a defesa da paz
25.9. Flagrantes
18/09/48; 11
26. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
26.1.Variações
26.2. Protesto da ABDE
26.3. O biográfo do século XX
26.4.O escritor e a sua responsabilidade histórica
26.5. Inglaterra e sua gente
26.6. Apassion
26.7. Retrato da Cultura
26.8. Um bom Policarpo Quaresma
26.9. Época
26.10. No prelo e nas vitrineas
26.11. Flagrantes
02/10/48; 9.
27. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
27.1.Variações
27.2. Conflitos modernos
27.3. Enquanto ruge a tormenta
27.4. "Angústia" em tcheco
27.5. Publicações
27.6. As edições Saraiva
27.7. A desintegração da Morte
27.8. Camus e o problema franco-alemão
27.9. Clubes Literários
27.10. O novo Malraux
30/10/48; 5.
28. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
28.1.Variações
28.2. Prêmio Nobel, 1948
28.3. Final de Jean Christophe
28.4. Decadência
28.5 Sem comentário
28.6. O novo livro de Mann
28.7. Mais um para o cinema
28.8. Flagrantes
13/11/48; 5
29. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
29.1.Variações
29.2. Vitrina do candomblé
29.3. Marcele Tynaire
29.4. Deposto Gallegos
29.5. Visita de Souza Dantas
29.6. História da guerra
27/11/48; 9.
29.7. Biografia de Gide
29.8. Traduções de Shaw
29.9. Cidade enferma
29.10. Ensaios de Huxley
29.11. Flagrantes
30. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
30.1.Variações
30.2. Presença de Condé
30.3. Eleição na ABDE
30.4. Sagas
30.5. Estudos na outra América
30.6. Longe da terra
30.7. Miniatura
30.8. A desintegração da morte
30.9. O poeta – editor
30.10. S/T
30.11. Atividades de Huxley
30.12. Seleção de dezembro
31/12/48; 7
31. UM GRAVE PROBLEMA SOCIAL
03/01/49; 3.
32. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
32.1.Variações
32.2. Posse na ABDE
32.3.Gabriela Mistral
32.4. Mais um livro de memórias
32.5. Exemplo e incentivo
32.6 A história dos nórdicos
32.7. Depoimento
32.8. Revistas
32.9. Impressões da Europa
32.10. Miniatura
32.11. Poesia em disco
32.12. Ladeira da Memória
32.13. No prelo e nas vitrinas
15/01/49; 5.
33. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
33.1.Variações
33.2. Bi-centenário de Goethe
33.3. Castro Alves – o Gênio
33.4. Seleção de fevereiro
33.5. Defoe e a medicina
33.6. Verlaine e o Brasil
33.7. Grande prêmio do romance
33.8. Repouso
33.9. Notas soltas
33.10. Eleito Morga
33.11. Miniatura
33.12. Autores baianos
29/01/49; 5
34. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
34.1.Variações
34.2. Poemas regionais
34.3. Contista baiano
12/02/49; 5
342
34.4. Ensaio sobre Rilke
34.5. Miniatura
34.6. A cidade do sul
34.7. Affaire Kravchenko
34.8. Goncourt – 48
34.9. Biografia de Machado de Assis
34.10. Otto Strasser, nazista
35. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
35.1 Variações
35.2. Empresa difícil
35.3. Confiteo
35.4. Os Corumbas no cinema
35.5. Elegias de Duino
35.6. Sartre e as traduções
35.7. Seleção de Abril
35.8. No prelo e nas vitrinas
35.9. Sherwood Anderson
35.10. Miniatura
35.11. Advertência
35.12. A Montanha Mágica
35.13. Correio
11/03/49; 5.
36. A CIDADE E SEU ROMANCISTA
18/04/49; 3
37. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
37.1.Variações
37.2. Estréia
37.3. Presença de Anita
37.4. Novo Livro
37.5. Judas o obscuro
37.6. A excluída
37.7. 40.000 exemplares
37.8. Produção em massa
37.9. O poeta laureado
37.10. Flagrantes
23/04/49; 5
38. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
38.1. Maeterlinck
38.2. Miniatura
38.3. novelista inglesa
38.4. Depoimento
38.5. Acredite que é verdade
38.6. Flagrantes
38.7. É a pedra no caminho
38. 8. Isaias Caminha
21/05/49; 5.
39. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
39.1. Edição de luxo
39.2. Miniatura
39.3. Jean Barois
39.4. Depoimento
39.5. Quem Se Habilita
39.6. Prêmios literários franceses
39.7. Flagrantes
04/06/49; 5
39.8. De Londres
39.9. Meus Verdes Anos
39.10. Um novo anita ?
39.11. Livro de Koestler
39.12. Pequeno mundo antigo
39.13. Quatro notas
40. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
40.1. Variações sobre a desonestidade
40.2. Chamado do mar
40.3. Carta aos americanos
40.4 Biografia de Goethe
40.5. Delegado da A.B.D.E.
40.6. Depoimentos
40.7. Sem título
40.8. Liberdade de viver
40.9. S/T
40.10. Os escritores e a paz
40.11. História de um exemplo
02/07/49; 5.
41. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
41.1. Conferência de Camus
41.2. Viagem Encantada
41.3. Novelista e poetisa
41.4. Depoimento
41.5. Existencialismo na Berlinda
41.6. S/T
41.7. Miniatura
41.8. Filósofo e matemático
41.9. Caderno da Bahia
41.10. Maugham Aposentado
41.11. Quo Vadis
16/07/49; 5.
42. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
42.1. Visita de um editor
42.2. Uma instituição inglesa
42.3. A outra face
42.4. De um grande escritor
42.5. Depoimento
42.6. Notícias do congresso de escritores e da ABDE
42.7. Ensaio de Gide
42.8. História econômica do Brasil
42.9. A primeira entrevista
42.10. Flagrantes
30/07/49; 5.
43. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
43.1. Contos da Bahia
43.2. Atividades do INL
43.3. Síntese de Ruy
43.4. Descobrimento
43.5. Depoimento
43.6. Prêmios franceses
43.7. Flagrantes
43.8. Revista Branca
43.9. Notícias de Gallegos
13/08/49; 5.
344
43.10. Mann em Weimar
43.11.Cartaz de James Hilton
44. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
44.1. Variações
44.2. A grande voz
44.3. Aconteceram-lhe os poemas
44.4. Gide candidato
44.5. Antologia de contos
44.6. Depoimento
44.7. Publicações da Prefeitura de Salvador
44.8. Flagrantes
44.9. Jornal de Letras
44.10. Festival G.B. Shaw
44.11. Os filhos do medo
44.12. Terra morta
45. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
45.1. S/T
45.2. Paratodos
27/08/49; 5.
17/09/49; 5.
45.3. Em surdina
45.4. Joyce e Dublin
45.5. O deserto e os números
45.6. Depoimento
45.7. Vitrina da jovem literatura
45.8. Flagrantes
45.9. Notícia de Lins do Rego
45.10. Boletim da ABDE
45.11. Novela de Brophy
45.12. Livro das Sinfonias
46. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
46.1. Concurso Monteiro Lobato
46.2. Centenário da morte de Poe
46.3. Superou a estréia
46.4. Depoimento
46.5. Flagrantes
46.6. Solidão nos campos
46.7. Crítica humanística
46.8. sem título
46.9. Nevoeiro inglês
46.10. Mar morto
08/10/49;5
47. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
47.1. Variações sobre a história da praieira
47.2. Tradução de Macbeth
47.3 Centenário de Ruy
47.4. Paratodos
47.5. Depoimento
47.6. O tacão de ferro
47.8. Flagrantes
47.9. De José Geraldo Vieira
47.10. A lenda de Madala Grey
47.11. Exposição de James Joyce
26/11/49;5
10.12. Homenagem a Zola
48. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
48.1. Variações sobre um livro
48.2. Concurso Monteiro Lobato
48.3. Moko
48.4. Notícia Histórica da Bahia
48.5. De Europe
48.6. Majupira
48.7. Depoimento
48.8. Flagrantes
48.9. Concurso literário
48.10. Miniatura
48.11. Autobiografia de um baronete
10/12/49;5
49. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
49.1. Poesia autêntica
49.2. Sobre Chamado do mar
49.3. Catalogação geral de livros novos
49.4. Do caderno de Memória
49.5. Ladeira da memória
49.6. Entrevista com Du Gard
49.7. Depoimento
49.8. Não se arrisca
49.9. Mais uma de Zelins
49.10. Panorama Norte-Americano
49.11. Flagrantes
21/01/50; 5
50. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
50.1. Variações sobre a guerra e a paz
50.2. O tempo e o vento
50.3. Prêmio Nobel, 1949
50.5. Carta de Thomas Mann
50.6. Flagrantes
50.7. Prosa de ficção
50.8. De Londres
50.9. Desaparece Putnam
50.10.Quatro Histórias
50.11. Protesto
28/01/50; 5
51. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
51.1. Fundamentos
51.2. Revista Branca
51.3. Prêmio Fabio Prado
51.4. depoimento
51.5. S/T
51.6. Estímulo à cultura
51.7. Novo livro
51.8. Povoamento da cidade do Salvador
51.9. Literatura infantil
51.10. Rolland e Gorki
11/02/50; 5.
52. UM MUNDO QUE NÃO SE ENTENDE...
15/02/50; 3
346
53. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
25/02/50; 5.
53.1. Homenagem ao Gênio
53.2. O pavilhão Flaubert
53.3. Ensaios e estudos
53.4. Poemas de Isgorogota
53.5. Cimarron
53.6. Miniatura
53.7. Depoimento
53.8 ABE – secção Bahia – Assembléia da Associação Brasileira dos Escritores
53.9 Atividades da UNESCO
53.10 J. B. Priestley
53.11. Versão de Miguel Torga
53.12. Sartre e os norte-americanos
53.13. Caderno da Bahia
54. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
54.1 Saltimbancos
54.2 MarK Twain
54.3 Poemas de Amor
54.4 Gide na Alemanha
54.5 Caderno da Bahia
54.6 III Congresso Brasileiro de Escritores
54.7 Depoimento
54.8 Febre de memórias
54.9 Premiado Augusto Meyer
54.10 Assembléia Geral da ABDE
54.11 A menina Morta
54.12 Na Academia Goncourt
54.13 “Stevenson House”
18/03/50;5
55. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
03/50
OBS: exemplar sem condições de uso no IGHB. No exemplar consultado na Bilbioteca Pública do
Estado, nos Barris, faltam as páginas do dia 25 a 30 deste mês.
56. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
56.1. Biografia de um poeta esquecido
56.2. Literatura norte-americana
56.3. Cultura brasileira
56.4. Apoio ao III Congresso
56.5. Edições Caderno da Bahia
56.6. Presença de Lincoln
56.7. Depoimento
56.8. Flagrantes
08/04/50; 5.
57. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
57.1. A participação dos novos
57.2. Terra de Santa Cruz
57.3. O famoso barão
57.4. Grande figura
57.5. Revistas
57.6. O presidente do Congresso
05/05/50;5
57.7. Jovens em ação
57.8. A delegação baiana
57.9. Problemas da arte e literatura
57.10. Presença do “Major Graça”
57.11. Galeão Coutinho
58. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
58.1. Notas do Congresso
58.2. Fábio Prado – 1949
58.3. Reedição de Thomas Hardy
58.4. A história de Trapp
58.5. Três novelas
58.6. Opinião sobre Ruy!
58.7. Menino Felipe
58.8. Flagrantes
58.9. Tesouro de livros raros
20/05/50; 5.
59. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
59.1. Homenagem ao poeta
59.2. Outro sucesso
59.3. Lançamentos de “Caderno”
59.4. O poeta da Turquia
59.5. Depoimento
59.6. O drama de Eugene O’Neill
59.7. Flagrantes
59.8. Livro “Misterioso”
59.9. O Huxley místico
59.10. Edição Clã
03/06/50;5
60. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
08/07/50;5
60.1. Sem título
60.2. Pássaro sangue
60.3. Baiano premiado
60.4. Teatro de crianças
60.5. Depoimento
60.6. Sem título, trata-se notas de sobre lançamentos/ divulgação
60.7. A metade brasileira de Thomas Mann
60.8. Amostra de G.B. Shaw
60.9. Os escritores e a política
61. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
61.1. Euclides em Dinamarquês
61.2. O céu é meu destino
61.3. Kinfolk
61.4. A biblioteca de Afrânio Peixoto
61.5. Exposição de poesia
61.6. Depoimento
61.7. Flagrantes
61.8. O Nobel de 1950
61.9.Concurso de contos e novelas
61.10.As mulheres vencem
61.11. Poemas de amor
61.12. A morte de um grande poeta
15/07/50; 5.
348
62. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
62.1. Anuário Crítico de literatura
62.2. Candidato à Academia
62.3. Literatura e política
62.4. Major Bárbara
62.5. Depoimento
62.6. Flagrantes
62.7. Castro Alves e Mickiewicz
62.8. Os 10 maiores
62.9. A história de um caminhão
62.10.Biblioteconomia
62.11.A secreta mentira de Sherwood Anderson
29/07/50;5
63. G.B.S
(George Bernard Shaw)
04/11/50;5
64. SEÇÃO CALEIDOSCÓPIO
64.1. Prêmio de poesia
64.2. Noel Coward
64.3. Episódios Históricos
64.4. Flagrantes
64.5. O otimismo de Anatole France
64.6. Um bom conselho
64.7. Ângulos
64.8. O que Sylvio Romero escreveu
28/04/51; 9
65. O MEU VELHO ARTUR DE SALLES
04/07/52;5
OBS: Meses sem condições de uso na Biblioteca Pública do Estado, nos Barris, e no IGHB:
abr- jun e out-dez de 1952. Nos meses de jan-mar não foi encontrado nenhum texto assinado
por Heron de Alencar.
Anexo B – 2 :
RESUMOS E TRANSCRIÇÕES
350
CALEIDOSCÓPIO, A TARDE (1947-1952)
(RESUMO E TRANSCRIÇÃO)
1. Data
14/03/47;2
TÍTULO:
Falam as relíquias do poeta
Reportagem de Heron de Alencar
Sua cabeleira é uma das principais características de sua personalidade física. Longa, muito
longa, a cabeleira do gênio fascinava a todas as mulheres que o acentuava. Era como que um,
poder mágico, irresistível, que mais lhe acentuavam os traços de indomável e altivo, a atrair e
subjugar ‘as que dele se aproximavam. Tantas e quantas não sonharam acariciar os negros
cabelos do Poeta, revoltos como a sua própria alma? Tantas e quantas não arderam por deitar
ao colo aquela cabeça de gigante, grande como a própria arte que criava? Todas ternura e
carinho, amansarem os revoltos cachos, com as mãos pequeninas e meigas, na esperança,
talvez, de acalmarem os tormentos íntimos do Poeta dos Escravos?Que de inveja não
sentiram, de Eugênia, a que lhe deu amor e a que lhe fez morrer?
“Senti as asas de um arcanjo errante
Roçar-me brandamente pela fronte”
É o próprio Poeta quem revela, com a beleza dos seus versos, a delicada ternura com que
acariciavam sua fronte e seus cabelos Possuíam eles um poder quase místico, terrível. Sempre
em desalinho, soltos ao vento, os cabelo do gênio avassalavam as almas, seduziam os
espíritos, quebravam o orgulho e a vaidade de quantas lhe acariciavam, perdidas de paixão.
Nem mesmo a formosa e sedutora cabeleira de Liszt, emoldurando-lhe o perfil adorado por
condessas e princesas, teria mais força e sedução que a do cantor de “Vozes d`África”. E se
aquela andou o mundo inteiro, ao som da música do genial criador de “Revê d´amous” esta
que outrora afogou os soluços suplicantes dos amores sem conta do Gênio, ainda hoje está
aqui e ali, fragmentada, dividida, disputada pelos que ainda o amava – e o amarão sempre, 76
anos após sua morte. Dela, ficou esta madeixa, retirada por sua irmã Adelaide, no seu leito de
morte. Dela, outras tantas, espalhadas aqui, em São Paulo, entre os que o adoravam como
Poeta e como homem.
È que seus versos não perderam a força:
“Que tenda mais sutil que meus cabelos
Estrelados nos prantos de teus olhos?...”
Ainda hoje, ao olharmos os retratos do Gênio sentimos, como que viva, aquela expressão
irresistível e sedutora, dos longos e negros cabelos que foram o sonho, o desejo, o martírio e o
prazer de quantos o amaram.
A pequena mesa preta
Rebelde, indomável, filho do povo e cantor dos escravos, a mesa do Gênio era a Praça.
Nela, é que sua imaginação rebolava as asas, nos vôos de condor. E somente na Praça, à frente
do povo, poderia o Poeta clamar, gigante:
“Deus, ó Deus! Onde estás que não respondes!
Em que mundo, em qu´estrela tu t´escondes
Embuçado nos céus?”
E era ele próprio quem dizia:
“A Praça é do Povo
Como o céu é do Condor”
As galerias dos Teatros viram-no, também, inúmeras vezes, cantar os seus amores, suas
paixões, sua rebeldia jamais agriolhoada.
E principalmente nessas circunstâncias , demonstrava o Gênio toda a força de sua arte. De
improviso, brada:
“Nós nos erguemos com soberba fé!
A Lei sustenta o popular direito
Nós sustentamos o Direito em pé!”
Mas, nem sempre o Poeta cantava na Praça e nos teatros. Recolhido em seu quarto de
estudante, solitário e com o mundo inteiro borbulhando em si, sentava-se diante de uma
pequenina mesa de 3 pés, circular, simples e frágil. Sobre ela, o corpo ardendo em febre e a
alma crepitando de paixão, escrevia:
“Mas, por que tardas, querida?...
Já tinha esperado assaz.
Vem depressa, que eu deliro
Oh! Minha amante, onde estás?...”
Nessa pequena mesa, escreveu vários de seus poemas, sentindo toda a inquietude de
espírito que lhe não abandonou um só instante. Sua vida, como a de todos os gênios, foi cheia
de martírios, de dúvidas, de inquietação. E essa mesa foi seu abrigo muitas vezes. Pertence,
hoje, ao Instituto geográfico e histórico, por oferta do prof. Prado Valadares.
Nela há uma inscrição histórica, gravada em prata, de autoria do saudoso professor que a
ofertou, e que é a seguinte:
“Foram aqui escritas estrofes sublimes do maior poeta que jamais viram nascer terras
americanas.
A alma das coisas há de ser o conjunto quiçá eternamente vivedoiro das vibrações que lhe
trafunda a energia superior e um pensamento forte.
Quem puser os olhos neste móvel considere com emoção patriótica de justíssimo orgulho a
espiritualidade altíssima que nele remanesce.”
Prado Valadares
352
A jarra de flores
É uma jarra como qualquer outra. Faiança portuguesa. Mas, tem uma história sua, própria,
e pertence, hoje, ao Museu do Estado. Mas já esteve, no entanto, durante vários anos, no
modesto quarto de estudante, juntamente com aquela mesinha de 3 pés, simples e frágil.
Pertenceu ao quarto do Gênio, o quanto basta pertencer à História.
Olhando-a, reparando-a bem, o observador vai, pouco a pouco, descobrindo a sua história.
Cada detalhe, cada pormenor, sugere uma cadeia de pensamentos, relacionada aos amores do
Gênio. Nela, o cantor de “2 de julho” colocava as flores que lhe enviavam as apaixonadas, as
que o queriam, as que o desejavam. E contemplando os ramalhetes, sentindo o perfume que
deles emanava, corria a pena sobre o papel, escrevendo páginas que o consagrariam como um
dos maiores poetas do mundo, em todos os tempos. Um Gênio. Igual a Goethe e a Hugo.
Maior que muitos, menor que nenhum.
É uma jarra histórica, essa que todos olham na exposição. É necessário, todavia, olha-la
com o pensamento voltado para o passado, para que a sua história se apresente clara à alma de
quem a observa.
Amor sem fronteiras
Há uma outra jarra, um pouco parecida com aquela que adornou o quarto do revoltado
estudante de Direito, esse homem que, ousadamente, gritou ao mundo:
“Eu sinto em mim o borbulhar do gênio”
E é gênio, realmente. Tanto quanto quem mais o for. A história dessa outra jarra poderá
povoar, a quem ainda ousa duvidar.
Pertenceu ela ao antigo Teatro São João. E era onde o jovem Poeta, apaixonado,
costumava depositar flores para Eugênia, a atriz que se tornou famosa por ter sido a amante.
Eugênia e tantas outras amantes do cantor da Abolição passaram à História, e seus retratos
figuram ao lado dos retratos da família do Poeta. Ao lado de d. Clélia ou d. Adelaide. E isso
só é permitido aos gênios. Goethe, grande como foi, mereceu, em Weimar, um Museu que
leva o seu nome. Lá está tudo o que se relaciona com a vida mefistofélica do autor de
“Wilhelm Meister” e “Wherther´s Leiden”. Foi necessário, no entanto, para que lá figurassem
os retratos de suas amantes ao lado do de sua esposa, que se esmorecesse o rigorismo alemão,
posto que se tratava e um Gênio. E o Gênio não conhece fronteiras, nem mesmo no amor.
E é por isso que a História aceita, e até glorifica, todos os amores dos grandes homens, já
que eles se tornam legais pela influência que exerceram em suas vidas.
Tal é o caso do Gênio, idêntico ao de Goethe e do qual não conhecemos outros exemplos.
Essa é a pequena história da jarra do Teatro São João, onde tantas e quantas vezes o Poeta
da Liberdade cantou seus versos geniais, ora inflamado de idéias revolucionárias, ora
abrasado ao imenso fogaréu das paixões, que ele bem soube viver e sentir sofrendo-as.
O artista e a forma
Aspecto interessante e pouco conhecido da vida do Poeta, é o que diz respeito ao desenho.
Isso prova a inquietude do Gênio, sempre a procurar estereotipar, em forma artística todas as
suas dúvidas, todos os seus sonhos. Foi assim que recorreu, algumas vezes ao desenho,
procurando dar forma aos seus pensamentos inquietos e revoltos.
O seu perfil, por ele próprio desenhado, revela a fina sensibilidade do artista, sempre
ansioso de novos motivos. O receio, talvez, do pedantismo de fazer poemas a si próprio –
como os “gênios” atuais, fez com que traçasse, ele mesmo, seu retrato. É um perfil
significativo, e vale mais que o poema que não fez, dado o motivo que, talvez, o ensejou: o
escrúpulo.
A figura popular do tabaréu não escapou ao lápis do Gênio que ensaiou na pintura. Lá está
ele, desleixadamente montado, o chapéu à cabeça e o indefectível gibão de couro. Uma
paisagem sertaneja, talvez da mesma época que o Tabaréu, evidencia o contato íntimo que
teve com os nossos motivos regionais.
Dentre todos, no entanto, é justo salientar o “Paolo e Francesca”, motivo retirado da
“Divina Comédia”, de Dante. Deixou o Gênio, aí, no motivo e na forma, um eloqüente retrato
e suas íntimas tormenta E a quem quer que o examine será permitido observar, em cada traço,
em cada linha aquela superior sensibilidade que sabe sentir e criar, característica do Gênio.
Mensagem a um mundo novo
Sua letra é firme, de traços inconfundíveis. Varia de ano para ano, como acontece com
todos os jovens. A característica inicial, no entanto, é conservada, de princípio a fim. A
mesma firmeza no escrever, como que a traduzir a convicção das idéias que tomavam forma e
ganhavam vida na pena inigualável do Gênio.
“O mundo perguntava erguendo um grito.
Qual os gigantes morto, rolará?...”
É o manuscrito de “Ode ao 2 de julho”. Lançado sem pretensão, numa folha de papel
simples, sem pauta.
A letra é firme e clara. Dela dimana um como que ar de eterno, de imortal. Sem
esforço, espontaneamente, sente-se que a mão que escreveu aquelas linhas era a de um
gigante do pensamento.Era a de um gênio.
“Ó minha mãe! Ó martyr africana
que morreste de dor no cativeiro!”
É do poema “A cascata de Paulo Afonso”, copiado pelo Poeta no álbum de um grande,
também: Aloísio de Carvalho. Este era, talvez, o maior admirador do Gênio. Seus olhos
brilhavam de lágrimas, ao falar no Poeta Libertador. Sensível, como ele, Lulu Parola
guardava, como adorada relíquia, esse álbum que, hoje, pertence ao senador Aloísio de
Carvalho Filho.
Agora, ao escrever “Menina e Moça”, sua letra é mais clara, mais repousada. Está no
álbum de uma mulher. E o Gênio, mais que qualquer outro, sabia corteja-las e seduzi-las. E
cuidava até na letra que para elas escrevia. É ela mesmo, um fino e delicado galanteio,
impossível de recusado. Era o Gênio amando e sendo amado. Era o triunfo da Arte, na
perfeita harmonia da forma e do conteúdo. Era o Gênio que se inscrevia na lista dos mais
célebres amantes.
Os manuscritos do Poeta são um testemunho de sua força, do gigantesco de seu
pensamento. Estamos comemorando o centenário de seu nascimento, e sua letra, firme,
354
enérgica, ainda está bem viva. Parece escrita em nossos dias. É que o Gênio escreveu para os
pósteros, o Tempo o respeita, admirando-o.
2. Data
26/07/47;3
TÍTULO
Assistência à maternidade e infância
Res
Heron de Alencar elogia a Assembléia Legislativa por ter aprovado, por unanimidade, uma
emenda que determinou a criação de um órgão de amparo e assistência à maternidade. De
autoria do Sr. Augusto Publio, o dispositivo constitucional, segundo HA: “Poderá sanar a
deplorável situação em que nos encontramos, neste importante setor de assistência social”.
Critica o fato de algumas medidas não serem implementadas pelo governo, receia que esta
medida não seja colocada em prática e, que se torne mais uma “obra de fachada”. Comenta
que o Hospital Santa Terezinha vinha funcionando precariamente, assim como o Hospital do
Pronto Socorro por conta da precariedade de verbas e pela má remuneração de seu corpo
técnico.
Afirma que a Bahia ocupa um dos primeiros lugares em mortalidade infantil. Apresentando
também um número elevado de mães que morriam devido às causas diretamente ligadas ao
parto: em cem parturientes, duas perdiam a vida. Tal situação poeria ser revertida se houvesse
um trabalho de esclarecimento sobre a importância da higiene pré-natal, que deve ser feita
com o pessoal especializado e o auxílio constante e imprescindível do laboratório de raio X.
Além disso, havia uma única maternidade no estado.
Ainda há outros problemas. O problema da mãe solteira, já solucionado ou em vias de
solução em outros países, como a Argentina que havia criado maternidades de refúgio,
secretas e que protegia, com leis especiais, essas mães. Além disso, aquele país instituiu
escolas profissionais que encaminhavam a mulher para o mercado de trabalho nas oficinas ou
nas fábricas, fazendo, desse modo, a profilaxia da prostituição.
O governo deveria refletir sobre esses problemas e “estudá-los com cuidado a fim de que
medidas que venham a ser tomadas não se tornem, na prática, inúteis ou prejudiciais”.
3.Data
27/09/47; 5
TÍTULO
Diálogo de rua
tr
Não conheço quem haja tido a fortuna de viajar ao lado de duas distintas senhoras, como as
minhas vizinhas de ontem num bonde de Nazaré, sem ser obrigado a ouvir uma irritante
conversa entrecortada de gestos nervosos e risos sem cor. E o assunto predileto é sempre a
vida alheia. A pretexto de discutirem uma simples receita de bolo ou um novo creme para
disfarçar as rugas, certas mocinhas de quarenta anos desfiam um verdadeiro rosário de fatos e
cenas que viram ou ouviram contar, a respeito da vizinha ou daquela que mora defronte e que
é noiva há tantos anos... E por esse caminho enveredam durante toda a viagem, pouco
importando quem esteja ao lado, obrigado a ouvir, com paciência e resignação, as
intermináveis histórias que sempre têm para contar. E quando o comércio cerra as portas,
então, é hora de voltar para casa e os bondes vêm cheios, juntam-se três ou quatro e
descontam os atrasados. Falam de tudo e de todos, com uma naturalidade de espantar.
Desconheço, até hoje, quem não haja sofrido um mau quarto de hora, ao lado dessas pouco
agradáveis companheiras de bonde.
Mas, devo confessar, eu tive essa ventura. As minhas companheiras de banco, quarentonas
bem nutridas e bem pintadas, conversavam discretamente, com uma seriedade só comparável
ao de certo deputado num discurso medíocre na Assembléia. Pareciam dois personagens de
Huxley, debatendo complicados temas metafísicos no intervalo entre duas chávenas de chá. A
mais gorda, e a mais desiludida das duas, afirmava que só havia um remédio para os que
vivem neste mundo moderno e agitado por tantas crises. Na sua estranha opinião esse remédio
era a morte. A outra, mais sonhadora, olhos perdidos num futuro que teimava em fugir, não
queria por nada a pílula mortífera que lhe pretendia impingir a decepcionada companheira.
Argumentava que ávida, por mais crítica que fosse a situação, sem leite, sem carne, sem
verduras, sem pão e mesmo sem marido dava aos mortais magníficas compensações morais e
materiais. Não! Não vale a pena morrer, é preciso lutar sem esmorecimentos – dizia, cerrando
o sobreolho numa inapelável afirmativa. Procurei apurar o ouvido, a fim de conhecer qual o
motivo de toda aquela conversa, que cheirava a círios ardendo e a uma mistura de flores já
murchas.
Julguei, a princípio, que debatessem um tema filosófico. Uma, a mais gorda, agarrando de
unhas e dentes o amargo Schopenhauer a gritar, irritado, que se batêssemos na pedra dos
túmulos para perguntar aos mortos se queriam ressuscitar, eles abanariam a cabeça num
irrecorrível negativa. “A morte é o gênio inspirador”, berrava o grande pessimista nas garras
da truculenta quarentona. A outra, mais calma e perdida num paraíso de sonhos, talvez de
braços dados com um cínico e risonho filósofo chinês.
Mas, qual não foi a minha surpresa, ao verificar que as duas respeitáveis senhoras,
conversavam sobre... adivinhem sobre que? Discutiam a respeito de inflação e deflação. Por
mais incrível que pareça, debatiam a nossa atual política econômica. Muito ao jeito de alguns
trêfegos cidadãos, essas duas senhoras estavam seriamente preocupadas com a nossa situação,
embora dela não tivessem um conhecimento mais sério e mais demorado. Discutiam, no
entanto, como se pronunciassem a última palavra sobre o assunto, muito sérias e muito
convictas do que estavam dizendo. Pelo menos, pensei, elas chegaram a alguma conclusão,
encontraram a solução para toda essa lamentável situação que se criou no país. Uma,
advogava a morte; a outra, pregava a espera sem desesperação. Há os que discutem, falam,
gritam e jamais concluem coisa alguma. As duas quarentonas, ao contrário, encontraram a
fórmula, e no curto espaço de uma viagem de bonde.
Quando uma delas se virou para o lado em que eu estava, encolhi-me o mais que pude no
meu canto, receoso de uma interpelação. E pretendia mesmo continuar a viagem, quando uma
disse para a outra, a propósito da política deflacionista:
-
Não leu o que disse aquele deputado...Como é mesmo o nome dele?
- Qual? – perguntou a sonhadora, deitando para a companheira um longo olhar
de quem procura recordar.
-
Ora, esqueci o nome... aquele do Partido Trabalhista.
Saltei imediatamente era demais.
356
4.Data
29/11/47; 5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
Coluna de crítica literária e política
4.1 Variações
tr
Quando a cidade adormece e as ruas se enchem desse sugestivo silêncio de madrugada, o
Poeta começa a viver. Solitário e olhando a hesitante sombra das árvores projetada no asfalto,
ele sente crescer no íntimo aquela irresistível vontade de compor para os que estão dormindo.
Escutando a cadência monótona dos passos perdidos pelas vielas da lírica cidade, ele parece
ouvir o ritmo torturado de seus versos carregados de angústia.
Há um como que sentido de eternidade nas madrugadas solitárias do Poeta. Qualquer
coisa que lhe sussurra palavras vindas de séculos perdidos nos longes do tempo. Fantasmas
que bailam na sua frente e dança da inconformação. Sombras que se revelam, medrosas, na
penumbra fria da madrugada que morre.
E ele pára, acende um cigarro e pensa.
Pensa que é difícil e inútil para os que estão dormindo. Eles não ouvirão seu canto,
mensagem-apelo às consciências escravizadas.
E a madrugada vai embora, levando a insatisfeita inspiração do Poeta.
*
Nada fica de permanente da leitura de Eurídice, senão a desenganada impressão de que o
autor quis elevar um pouco mais e caiu, como caem as folhas secas de uma árvore sem selva.
*
Um dia, perguntei do fantasma de Keats, que se movimentava na inconsistência da fumaça
do meu cigarro, se ele havia conhecido a beleza eterna e a constante alegria.
- Por quê? Perguntou-me quase a sorrir.
- Por que jamais consegui esquecer aquele verso seu, lembra-se? “A thing of
beauty is a joy forever”
E, quando o procurei na esperança de uma resposta, notei que ele estava se apagando,
no rolo de fumaça. Mas, ainda pude notar o quanto é triste e dolorosa a máscara de um
fantasma contrariado...
4.2 Olhai os lírios do campo
(c/foto do escritor)
tr
Já foi apresentada, em Porto Alegre, a adaptação cinematográfica do romance de Érico
Veríssimo, feita por uma produtora Argentina, à qual haviam sido vendidos os direitos de
filmagem. À “premiere” de Olhai os lírios do campo, compareceu uma grande multidão, que
lotou as dependências do Cinema marabá, e da qual participavam Erico Veríssimo, Silvana
Roth, estrela do filme, membros da embaixada Argentina e jornalistas de Buenos Aires, os
produtores do celulóide e figuras do mundo oficial.
4.3 Marietta Martin - Mártir do nazismo
res
“Lês Cahiers de Rhone” acabavam de publicar um poema místico de Marietta Martin
intitulado “Adieu temps”, com um comentário de Fernando Baldonsperger. Escritora que fez
parte da resistência francesa, foi presa em 1942 pelo nazismo e vagou por algumas prisões e
hospitais; faleceu em 1944. Seus trabalhos escritos na prisão foram destruídos, aqueles eram
assinados com o pseudônimo de François Captif. Obras inéditas foram encontradas em Paris,
dentre as quais o poema citado.
4.4 Biografia
tr
José Geraldo Vieira é, atualmente, um dos maiores romancistas brasileiros. Nasceu no Rio
de Janeiro, a 16 de abril de 1897 e é filho de pais portugueses, de Açores. Formado em
medicina pela Universidade do Rio de Janeiro, estudou, também, na França e na Alemanha,
onde se demorou algum tempo. Escreve desde os tempos de ginasiano e, quando ainda
estudante, publicou “O triste epigrama”, que merece elogios dos maiores críticos brasileiros
da época. Depois, lançou um livro de contos A ronda dos deslumbramentos, em 1936
publicou o romance Território humano, consagrado pelas críticas brasileira e portuguesa.
Apareceu, posteriormente, A mulher que fugiu de Sodoma, considerado uma das melhores
realizações da nossa literatura e, talvez, a sua melhor obra. Vieram, em seguida A
quadragésima porta e A Túnica e os Dados.
José Geraldo Vieira vive, hoje em dia, em Marília, no interior de São Paulo, onde exerce a
medicina. Fala-se que dentre em pouco, publicará um novo romance, enriquecendo, assim, a
nossa literatura para a qual tem contribuído de maneira decisiva.
4.5 Retrato de "Anacreonte"
tr
Este é título do livro de Fernando Diniz Gonçalves, jovem escritor baiano, sobre o “doce
cantor de Téos”. O autor, que é, também, pintor e poeta, é uma das mais vivas afirmações da
inteligência moça da Bahia, e já tem publicado um outro ensaio, Viena eterna, que mereceu
da crítica elogiosas referências.
4.6 "Le pour et le contre"
tr
Jacques Lacretelle escreveu um romance, em dois volumes, com o título acima indicado.
Trata-se dum relato de fundo histórico, que descreve o ambiente francês no período
compreendido entre o fim da primeira guerra mundial e os primeiros capítulos da segunda. A
ação do romance se desenvolve, sobretudo, nos círculos literários e, muito embora o autor
afirme que no seu livro não há mistérios nem alusões a personagens reais, muitos dos seus
personagens já foram identificados como escritores franceses, de diversas tendências.
358
4.7 As mulheres que Castro Alves amou
tr
Está sendo exposto nas livrarias da cidade o novo livro do sr. Archimino Ornellas – Vida
sentimental de Castro Alves. O autor, que é um dos colaboradores das secções literárias da A
Tarde, pertence à moderna geração dos intelectuais, dentre os quais se destaca, pelas
qualidades que põe a serviço de seus trabalhos. Já escreveu, antes deste livro, outro volume –
Caminhos do mundo, já esgotado. Em Vida sentimental de Castro Alves, ele traça o perfil, em
cores delicadas e firmes, de cada um dos vultos de mulher que gozaram do amor do poeta. E
vemos desfilar, numa sucessão de gentis figuras, Idalina, Sinny e Éster, as judias, Eugênia
Câmara, Laura e Cândida, Eulália, Inês, Leonídia, Agnese e outras. Os estudos dessas
personalidades femininas, feito com o conhecimento da bibliografia e depoimento pessoais,
permitem que se veja melhor o aspecto humano de Castro Alves, o grande amoroso. É a
contribuição de Archimino Ornellas para a definitiva biografia do poeta.
4.8 Publicações estrangeiras
rs
- Ten Stories, de Rudyard Kipling, lançado em Londres, editora Pan Books ltd;
- Marlborough – his life and times, biografia de Winston S. Chuechill, em 4 volumes;
lançamento em nova edição de 2 volumes pela Pan books ltda;
- Great expectations, de Charles Dickens, lançado em nova edição pela Novel Library,
introdução de Bernard Shaw;
- Velászquez, nova biografia escrita por Arthur Stanley Riggs, autor de Titan e The
magnificent. Há comentário.
- Cartas do Papa Celestino VI aos homens, de Giovani Papini, autor de Gog, versão
espanhola lançada pela Editora M. Aguilar.
4.9 Na vitrina das livrarias
rs
- Burocracia versus petróleo, de Sebastião Corain, na Livraria Progresso editora, edição
do autor;
- Vida sentimental de Castro Alves, de Archimino Ornellas, Livraria Progresso, edição
da livraria;
- Na Civilização Brasileira:
- A rua, romance de Ann Petry, tradução Ligia J.Smith
- Dias e noites, de Konstantin Simonaw, trad. Isa Silveira Leal
- Caminho da liberdade, de Howard Fast, trad. Godofredo Rangel.
4.10. Próximas publicações
res
- Messalina, de H. Stadelmann, tradução de Percy Cardoso (jornalista baiano), capa de
“Dorca”, de São Paulo; pela Progresso Editora.
5. Data
13/12/47;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
5.1Variações
tr
Uma vez, olhando várias reproduções de famosos quadros chineses, senti-me invadido por
imensa tristeza. Eu não consegui entendê-los, embora sentisse que neles havia qualquer coisa
de grandioso. O tempo passou e em mim cresceu a amargura de não haver compreendido os
pintores de olhos oblíquos e sorrisos mansos. Nas suas paisagens, os seres humanos eram
sombras ridículas, frágeis pinceladas que se me afiguravam sem maior importância. E em
todo o quadro, a grandeza aterradora da natureza pontificando.
Mas, conversando com um velho e bom amigo, um chinês de filosofia cínica e risonha,
pode, enfim, desvendar o que, para a minha ignorância, parecia um mistério.
- A natureza - disse o meu amigo – é por si mesma, e sempre, um sanatório. Mesmo que
não possa curar outra coisa, pode curar o homem enfermo de megalomania. É preciso “por no
seu lugar” o homem, e este sempre se vê posto em seu lugar ante o pano de fundo da natureza.
Por isso é que nos quadros chineses se pintam sempre os homens tão pequenos no panorama.
E é por isso, ainda, que os chineses acreditam que uma viagem às montanhas surta efeito
catártico, pois limpa o peito de uma multidão de ambições tolas e desnecessárias
preocupações.
Agradeci do meu amigo Lin Yutang, com um cordial sorriso de despedida. Mas, levava a
certeza de que nós, ocidentais, não passávamos de pretensiosas crianças, teimosas e maleducadas...
5.2 Importância do homem de cor
(com foto)
tr
Edson Carneiro, conhecido escritor e etnólogo baiano, está nesta capital, recolhendo
material para mais um de seus preciosos livros. Autor de várias obras, e dedicado ao estudo e
investigação dos problemas e das coisas da gente negra. Edson Carneiro tem contribuído para
um melhor esclarecimento e compreensão de certos fenômenos e fatos da nossa vida. Agudo e
penetrante espírito de observação, com um senso crítico pouco comum o jovem etnólogo
publicou Religiões negras (1936) e Negros Bantus (1937), trabalhos esses que são
consultados, universalmente, pelos estudiosos do assunto. Além disso, realizou dois originais
estudos sobre Castro Alves, revelando-o como o verdadeiro poeta revolucionário que foi. Seu
último trabalho, lançado este ano, é Quilombo dos palmares, amplamente aceito como um dos
melhores e mais completos estudos sobre a grande concentração de negros.
Aproveitando a sua estada em nosso meio, a Liga de Intelectuais Antifascistas o convidou
a fazer uma conferência, que se realizou quarta-feira passada, 10, e cujo tema foi: “O homem
de cor e sua importância na vida nacional”. Nesta ocasião, Edison Carneiro revelou o quanto
se acha capacitado, demonstrando profundo conhecimento das nossas raízes históricas e dos
fatores que influenciaram em nosso desenvolvimento como povo. Realizou um estudo
panorâmico, porém claro e lógico, das atividades do homem de cor em nosso país, desde a
colonização aos nossos dias, documentando a importância dessas atividades na nossa
realidade sócio-econômica. Demonstrou que, em todas as épocas e nos diferentes estágios da
360
evolução, o homem de cor esteve presente, como elemento indispensável de progresso e de
civilização, não só lutando pela conquista das chamadas liberdades essenciais, como
contribuindo, de modo decisivo, para o nosso desenvolvimento econômico.
Sua conferência, embora a ela não houvesse comparecido um grande público, como era de
desejar, correspondeu à expectativa dos que lá estavam, que já se acostumaram a ver em
Edison Carneiro, um dedicado e inteligente estudioso de tais assuntos.
5.3 A presença de uma desconhecida
rs
É o título do livro de Jacqueline Marenis, nova geração francesa e considerada futura
renovadora da literatura francesa. Chamada pelo público e crítica de “a nova Georges Sand”
pelo traje e cabelos semelhantes. Heron de Alencar traça um breve perfil da escritora que
ganhou o grande prêmio da Academia, ainda muito jovem. Esse seu novo livro é uma
compilação de toda a sua obra.
5.4 Antoine de Saint-Exupéry
res
Anuncia a nova publicação, em Paris, de La citadelle, um manuscrito de Antoine de SaintExupéry que exprime o angustiado espírito do autor nos meses anteriores à sua morte.
Comenta a angústia do escritor frente à situação do mundo: de desavença entre os homens.
Inclui uma citação do autor pronunciada em um dos últimos eventos ao qual compareceu; a
citação trata do tema da união em prol da paz. Ainda cita uma frase retomada do pensamento
do padre Teilhard de Chardin: “ao ascender, tudo converge”.
5.5 Biografia
(com caricatura)
tr
Dyonélio Machado nasceu em 1895, em Quarai, na fronteira do Rio Grande do Sul. Foi
nessa região que passou os anos de infância e adolescência, testemunhando a agitação dos
contrabandos, tropelias e revoluções, naquela época comuns ao Brasil e Uruguai. Veio para
Porto Alegre aos 16 anos de idade, a fim de estudar medicina. A literatura, no entanto, o
desvia de seu propósito inicial, só vindo a obter o diploma em 1929, especializando-se em
psiquiatria.
De 1922 a 1930 foi redator do Correio do povo, tradicional órgão de imprensa gaúcha,
sendo, mais tarde, seu diretor interino.
Em 1927 publicou um livro de contos Um homem pobre, que obteve algum sucesso. Daí
em diante, sua atuação na literatura foi muito irregular, escrevendo com longos intervalos, em
virtude de seus afazeres profissionais, o que justifica sua pouco volumosa bagagem literária.
Em 1935, estreou no romance, com Os ratos, livro que alcançou extraordinário sucesso,
obtendo prêmio em disputado concurso literário. È uma obra sombria e densa, que se
desdobra no espaço de um dia e se movimenta em torno de um único acontecimento. Nesse
livro, alguns críticos enxergaram “o momento culminante da literatura brasileira”.
Depois de longo e lastimado silêncio, Dyonélio Machado voltou ao cartaz com O louco de
Cati, em 1942. Esse novo livro foi bastante discutido, provocando debates literários, pois o
próprio autor o considerava “aventura”. Como quer que seja, O louco de Cati, embora sendo
um livro diferente e com um tema original, ficou aquém de Os ratos, seja em construção
romanesca ou significação social ou psicológica.
Dyonélio Machado é, indubitavelmente, uma figura de projeção do romance brasileiro.
Fisicamente, é um homem grande, de rosto sem alegria, de temperamento seco, direto,
positivo. Vive em porto alegre, onde exerce a profissão de médico num hospital de alienados.
5.6 A imortalidade de Zola
(com foto)
res
Recorda o enterro, há 45 anos, de Émile Zola. A manifestação ocorrida na ocasião
pelas ruas de Paris foi considerada mais política que literária em virtude de Affaire Dreyfus
estar latente e ser recente “Eu acuso”. A recente peregrinação nas proximidades da casa do
artista também foi considerada mais política que literária.O discurso foi proferido por Francis
Jourdain, o qual destacou a poética de Zola. Também falou Gerard Bauer, presidente da
Associação dos homens de Letras. Após os discursos houve uma visita à casa do escritor.
5.7 Goteira do coração
tr
Flávio Jarbas é um valor novo na literatura baiana, que estreou com um pequeno livro de
quadras prefaciado por Fernando Diniz Gonçalves. Reunindo noventa e cinco quadras de sua
autoria, jovem poeta editou Goteira do coração, cuja etapa alegórica foi desenhada por Assis,
trazendo o volume, ainda, uma crônica de Nilo Pinto sobre o autor e sua obra, na qual se pode
ler: “Estréia promissora de um jovem baiano, cem por cento de espontaneidade e real
inspiração poética”.
Das quadras de Flávio Jarbas, Fernando Diniz, em seu prefácio, selecionou cerca de 12,
como os melhores. E a respeito da quadra, disse o autor de Retrato de Anacreonte: “tem a
força do coração, e por isso, não envelheceu. Ainda canta, e cantará ainda, enquanto houver
ouvidos amantes, capazes de ouvir e entender sua fala... prova disso tenho eu agora lendo em
primeira mão, ainda inédito, Goteira do coração, de Flávio Jarbas, coleção de Quadras que
lhe marcará auspiciosamente a estréia”.
Isso indica que a nova geração baiana promete, e não promete pouco. Parece que um longo
silêncio está sendo quebrado. E Flavo Jarbas contribui para isso, principalmente se nos
continuar a dar quadras como a que se segue:
Teus dentes, alvos e belos,
São teclados de marfim
Onde sorrisos singelos
Tocam piano pra mim...
5.8 Flores...do mal
(com foto)
tr
Charles Baudelaire, embora tenha sido um aluno medíocre durante os tempos de colégio,
foi um dos maiores poetas da França. Sua pronunciada vocação literária desenvolveu-se,
principalmente, após as viagens que realizou às ilhas de Maurice e de Bourbon e Madagascar.
362
À respeito desse grande poeta contam-se inúmeros episódios, a maior parte ligada aos seus
versos iniciais, que eram um tanto escandalosos.
Certa noite, por exemplo, Baudelaire travou conhecimento com uma jovem atriz, que
convidou para ceiar em sua casa. Na biblioteca da moça, o poeta viu um exemplar de “Fleurs
du mal”, sua famosa obra. Curioso, interroga:
- Senhora, já leu este livro?
- Ainda não – respondeu a atriz - mas estou bastante ansiosa... Disseram-me que é muito
picante...
O poeta levantou, apanhou o chapéu e a bengala, saiu sem dizer palavra.
5.9 Tristan Bernard
tr
A França está de luto. O mundo também. Morreu Paul Bernard, aquele irreverente Tristan
Bernard de barba ducal e olhar de mongol, que os nazistas atiraram numa prisão de Drancy,
tal era o seu amor pela liberdade. Era um homem raro, sem dúvida, um admirável tipo de
cidadão e artista, que declamava de cor Ugo e Rimbaud, deamulando pelas ruas da misteriosa
Paris. Tão íntimo de Rabelais, aponto de despertar a inveja de Leon Daudet, Tristan Bernard
conquistou a glória sem conquistar a fortuna. Foi tudo na vida, e em tudo venceu.
Nascido em Besaçon, em 1866, apareceu em 1900, como cronista esportivo, escrevendo a
respeito de ciclismo e Box. Depois, foi o que se viu. Poeta, autor dramático, humorista e até
romancista, além de comendador da Legião da honra. Honrou a França, que o consagrou
como um de seus maiores, não só pela finura e graça de seu espírito, como pela requintada
sensibilidade com que sabia ver e dizer as coisas.
Escreveu várias obras dentre as quais, Os pés niquelados, Petit café, L´anglais tel qu´em se
parle, alguns contos interessantes e um romance. Um marido pacífico, sendo que As
memórias de um rapaz bem comportado é, indubitavelmente, a sua melhor obra.
Possuía Tristan Bernard algumas particularidades, que o tornaram ainda mais conhecido.
Trabalhava incessante durante uma existência inteira, demonstrava um singular interesse
pelos indolentes e hesitantes, como afirma um de seus biógrafos. E o amor que tinha à sua
braba decorativa, fez com que, certa feita, se espantasse de gastar um jornal tantas colunas
sobre sua obra sem qualquer referência à sua longa e famosa barba. Durante o tempo em que
passou na prisão, adquirindo amor pelas palavras cruzadas, vindo a ser respeitado decifrador e
autor de inúmeras.
Morre, agora, Tristan Bernard, com 81 anos de idade, com o honroso título de “humorista
nacional de França”.
5.10
Publicações estrangeiras
Res
- Pavillon of Women, de Pearl S. Buck, novella, editora inglesa Methvenn;
- The day before yesterday, de R.A. Scott James, edição inglesa de Frederik Muller;
- Alicia en el pais de las maravillas, versão castelhana da editorial Sopena Argentina, por
Monteiro Lobato;
- Stone Up, de Marcia Brown, para crianças.
6. Data
03/01/48;5
Título
Seção Caleidoscópio
Obs: coluna no meio da página
6.1 Variações
tr
Visitei, ontem, um grande e sábio amigo. Há muito que não nos encontrávamos. Não me
tem sobrado tempo para ir vê-lo, e ele não se abala para visitar ninguém. Mas, eu o estimo a
ponto de não poder prescindir de sua presença. Ela como que dissipa minhas dúvidas,
fortalece aquelas convicções que se tornam hesitantes e medrosas na grande luta, desfaz
receios e anula temores. É que sua presença, por si mesma, é um imenso e irrecusável
conselho de prudência, paz, tolerância, humildade e amor.
E eu poderia dizer, sem mentir, que o meu amigo é tão velho quanto o mundo e tão moço
quanto o segundo que acaba de nascer e já morreu. Mais ainda: que ninguém, ninguém o
conhece completamente, embora alguns loucos ousem pretender essa glória. Com ele, vivem
bem os que, como eu, lhe ouvem os conselhos sem procurar conhecê-lo profundamente. É que
o meu amigo não gosta de quem tenta desvendar seus mistérios, e ele os têm em quantidade
assustadora.
Caprichos...caprichos do mar, meu grande e sábio amigo.
*
*
*
- Procure Erico Veríssimo e converse com ele, diariamente. Far-lhe-á bem... – disse eu a
um conhecido, certa feita.
O homenzinho me olhou com desdém, sorriu cético e decepcionado, e desapareceu no
meio do povo, que se movimentava com indiferença e alheamento. A visão daquele sorriso
irônico desenhado com superioridade no canto da boca era uma inapelável sentença
aniquiladora. Dava-me, no entanto, a certeza de que o meu conhecido era um sujeito feliz,
despreocupado, que nunca lera uma linha daquele “menino moreno” de Cruz Alta, como diz o
grande Lobato.
Far-lhe-ia bem a leitura de Pastoral, o último capítulo de Saga. Não conheço conversa
mais humana e mais amiga. Ao terminá-la, uma única impressão domina a gente: a de que o
autor é uma criatura profundamente humana e tolerante, homem simples e honesto, que deseja
mais harmonia e compreensão nas relações humanas.
6.2 Biografia
com foto
tr
Érico Veríssimo aparece, hoje no panorama literário do país, ocupando um lugar à parte,
como nosso maior romancista, posto que ele mesmo criou e que não lhe foi dado por atuações
políticas oportunistas nem por grupos de amigos interessados. Veio do nada, e venceu à custa
do próprio esforço. Nenhuma nota biográfica sobre Érico, das divulgadas até agora, apresenta
o interesse e abundância de informações que nos dá a leitura inteligente de seus livros, os
últimos principalmente. Nasceu no interior do Rio Grande, em Cruz Alta, no ano de 1905, e lá
viveu a infância e boa parte da adolescência, quando ainda tinha esperanças de cursar uma
364
escola de pintura na Escócia e fazer grandes quadros. Isso, no entanto, não se realizou. E, em
lugar das paisagens escocesas, ficou a pintar letreiros nos sacos de feijões e batatas, no balcão
de um armazém de secos e molhados. Com essa reviravolta brusca na existência, lançado
repentinamente em contato com o claro-escuro da realidade cotidiana, vendo o desfilar de
tipos vulgares e brutais e o drama dos simples e humildes, convivendo com “um sujeito de
olhar frio que mascava alho” e que lhe chamava à vida sempre que procurava fugir e
mergulhar nos livros, Érico começou a derivar. Ia descobrindo pinturas, autores, músicas, e
isso o impedia de se deixar levar. Ele próprio confessa, nas palavras carregadas de angústia de
Malazarte: “Não sei porque, eu julgava ver a sombra de Verlaine passeando por entre os
plantanos da pracinha provinciana. Seguia-lhe os passos, sofrendo. E esse sofrimento me dava
uma inexplicável felicidade. Eu era feliz por me sentir infeliz”. E mais adiante: “vendendo
batatas e murmurando versos de Samain... O mundo era um mistério e uma promessa”. Foi
nessa época que ele travou conhecimento com Swift e Shaw (“na coleção barata da
Tanchnitz...”) Foi aí que encontrou Ibsen, que ficou “morando na sua admiração”, e com
quem aprendeu o difícil manejo do diálogo simples e expressivo, no qual hoje é mestre com
letras maiúsculas, E descobriu Oscar Wilde, “a mais inelutável de todas as influências
literárias”, como disse mais tarde. Resolve, então, como que impelido por forças íntimas
imperiosas, tentar a Capital. Trabalha durante o dia no comércio, e, à noite, prossegue lendo e
escrevendo cumprindo seu inexorável destino de romancista. E o resultado desse esforço, foi
uma enfermidade que quase o liquida. Volta, então, já noivo de sua atual esposa, para o
interior; lê com sofreguidão os autores franceses e ingleses, em verso e prosa, e, curado,
decide arriscar a sorte mais uma vez em Porto Alegre. Consegue uma máquina de escrever,
cobra ânimo e parte. Passa a trabalhar na Livraria do Globo. Manoelito Ornelas descobre, na
gaveta de Érico, e publica o Ladrão de gado, seu primeiro conto. Surge, depois, outro,
assinado por um tal Denis Rent, que não era senão o autor de Olhai os lírios do campo.
Começam a aparecer seus primeiros ensaios e contos. Vem A lâmpada mágica, surgem
Fantoches e Clarissa, seus primeiros romances. Dizem que um outro livro seu teve toda a
edição queimada num incêndio, e a indenização que lhe foi dada ensejou a publicação de
novos. Apareceu, Música ao longe, que parece ser uma coleção de saudosas recordações dos
dias do interior, com as cenas de sangue, marasmo e decadência que presenciou. Continua, no
entanto, a ser quase um desconhecido para o público nacional, quando surge a tradução de
Contraponto, de Huxley, o mais perfeito trabalho de tradução que conhecemos. Cresce o
interesse em torno de seu nome. Seguem-se outras traduções e, pouco depois, novos
romances. Caminhos cruzados, Um lugar ao sol, olhai os lírios do campo, Saga e O resto é
silêncio. A glória lhe batia à porta.
À maneira de Anatole, o que encontramos em seus livros é ele mesmo seus próprios pontos
de vista, sua maneira de encarar as coisas e os homens. Seus romances são sinceros, pois ele
não os escreve com o fim e ventilar idealismos políticos ou impingir preconceitos aos seus
leitores. É um autor honesto. Pinta retratos à carvão das gentes simples, movimentando com
maestria os elementos romanescos, dentro em uma técnica literária muito pessoal. Parece que
é seu desejo quebrar os moldes convencionais do romance, dando-lhe processos mais
convincentes. Não faz arte-torre-de-marfim, mas escreve pela mais justificável original das
cousas: “por amor à vida”. Isso, objetivamente. Por dentro, como diz Tonio Santiago –
esplêndido auto-retrato que traço em O resto é silêncio – é levado a escrever “por fatalismo
biológico”. Erico trabalha ativamente. Ninguém o vê flanado nas ruas. Quando não está
terminando a tradução de algum romance, entrega-se ao novo livro que está escrevendo, ou à
sua esposa e aos filhos, para os quais conta histórias e pinta bonecos. Escreve
preferencialmente à noite, algumas vezes a máquina nos joelhos, fazendo uso da caneta toda a
vez em que um termo qualquer lhe foge à memória. Desenha também, mas afirma que deixou
de nutrir esperanças nesse sentido, depois que viu as ilustrações de Zeuner para a livraria. Em
matéria de música, tem uma religiosa admiração por Bach, fala com entusiasmo de Beethoven
e da Nona Sinfonia, e acha a 4ª Sinfonia de Gustav Mahler a mais bela criação musical que já
ouviu. Pouco se afasta de Porto Alegre, e já foi à América do Norte duas vezes. A primeira –
quando da acusação que sofreu por parte de um fascista qualquer – em busca de um ambiente
mais sadio, deixando o país num momento em que não se podia dizer ou escrever nada, sem
incorrer perigo de ser chamado ao tribunal ou preso por vários meses, como aconteceu com
Monteiro Lobato. A segunda, a fim de lecionar literatura brasileira numa Universidade
Americana. Dessas viagens, surgiram três livros: os dois Gato preto e a reunião de
conferências que lá realizou, este último editado em inglês. Erico tem um senso de humor
invejável, e raramente conta qualquer coisa sem incluir uma anedota ou uma de suas
observações cheias de espírito. Não é supersticioso; confessa que já tentou várias vezes,
porque ser supersticioso dá sorte, mas tem fracassado sempre, infelizmente... É pouco afeito a
divulgar detalhes sobre a vida íntima. Não tem preferências pelos tipos que criou, embora,
sempre que interrogado a esse respeito, olhe para o retrato de Vasco pendurado à parede,
pintado por Zeuner, confessando a grande analogia que existe entre as idéias do herói de Saga
e as suas próprias. Ambos, aliás, o herói e o livro, são expoentes em nossas letras.
Politicamente, não tem preconceitos ou inclinações por essa ou aquela ideologia. Entende,
como Vasco, “que a vida é demasiado complexa variada para caber em qualquer programa de
partido”. Atende a todos que o procuram, com tolerância e interesse, mas, quando um
interlocutor pouco discreto começa a enfadar, ele ergue a sobrancelha direita, olhos perdidos
num ponto vago e as idéias voando... É seu desejo reunir as qualidades de cada um de seus
livros em um só romance, contado com as palavras de Saga, com a humanidade de Olhai os
lírios do campo e com técnica de Caminhos cruzados. Talvez seja o próximo já anunciado, A
jornada. É, atualmente, o autor mais lido do Brasil. Além dos romances e livros citados,
possui vários outros, inclusive muitos de literatura infantil. Seus romances estão traduzidos
em várias línguas e um deles já foi cinematografado, aliás de maneira não muito feliz. É
diretor da Livraria do Globo e não exerce outra profissão além da de escritor. O conhecimento
que tem da vida e dos homens, faz com que seus livros nos apresentem sempre soluções para
problemas íntimos, pessoais. E é com esse objetivo, de resolve nossos “casos” ou reforçar
nossas convicções e fé no elemento humano que nos atiramos aos seus romances, e dele
saímos satisfeitos, com uma nova filosofia de vida, olhos abertos para situações e fatos que
antes não enxergávamos. É um escritor honesto e realiza impiedosamente autocrítica de seus
livros, a ponto de considerar Um lugar ao sol um livro frouxo.
6.3 Como escreve você
(com foto)
tr
Cada escritor tem o seu método de escrever. Isso varia de acordo com o temperamento e as
predileções de cada qual. Um dia, por exemplo, fizeram a Maurice Maeterlink a seguinte
pergunta:
- Como escreve você?
- Nunca tenho inspiração – respondeu. Meu método de trabalho é muito simples. Sentome todos os dias, à mesa de trabalho, com papel e tinta; se as idéias chegam, escrevo; senão
vêm, fumo o cachimbo. Mas, em qualquer hipótese, as três horas não falham...
Como o autor de L`Oiseau Bleu, pensavam Victor Hugo, Baudelaire e Buffon.
366
6.4 Gide e o prêmio Nobel
Com caricatura
res
Trata da conquista do Prêmio Nobel de 1947 por Andre Gide, fato que mereceu destaque
da maioria dos diários parisienses. HAlencar cita trechos da crítica de alguns diários, dentre
os quais o Populaire, Lê combat, Fígaro, liberation, Le parisien, L´aube. Comenta que, em
outros momentos, o escritor chegou a ser duramente criticado, exemplifica um dos momentos:
quando da publicação de Lês Cahiers D´andre Walter; transcreve trecho do autor sobre as
críticas que sofreu na época, além de trechos a carta que escreveu a respeito das razões que o
levou a aceitar o prêmio, para HAlencar esta carta “é um do mais sérios documentos de nossa
época”
6.5 Obras completas de Pirandello
com foto
res
Anuncia a futura publicação das Obras Completas de Luigi Pirandello pelo Ipê – Instituto
editorial de São Paulo. José Geraldo Veira foi o encarregado da tradução de várias obras
como A excluída, Moços e velhos e novelas para um ano. Para HAlencar aquele é um escritor
que apresenta obras filosóficas.
6.6 O tremendo Monteiro Lobato
com foto
tr
Monteiro Lobato, a maior figura da literatura brasileira, esteve há pouco nesta capital, onde
veio assistir a opereta para crianças Narizinho, baseado em seu famosos livro. A adaptação, os
ensaios e a direção foram do Sr. Adroaldo Ribeiro da Costa, que levou à cena cerca de cem
crianças, numa representação inédita do Brasil. E monteiro gostou. E gostou da terra e do
povo também. Visitou vários pontos, inclusive os nossos campos petrolíferos, dos quais
voltou com o entusiasmo rejuvenecido. E não perdeu a oportunidade de por à mostra o seu
espírito, dizendo:
- terra privilegiada a Bahia! Já ganhou 3 sortes grandes: O Grande Prêmio Castro Alves, O
Grande Prêmio Ruy Barbosa e o Grande Prêmio Petróleo!... Que tremendos são vocês!
7. Data
17/01/48;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
7.1 Variações
tr
A noite é densa, pesada, e eu fecho os olhos para escutar. E vejo. Fantasmas que se
movimentam no silêncio da solidão branca, gelada. Ouço os “ulra’ falando embaixo da terra
e sinto os passos de Thor, o gigante, passeando nas florestas... E esse canto que vem dali,
daquele bosque? Será a feiticeira da beira dos lagos, seduzindo os jovens com seu canto
mágico?... Mas agora o fogo estalou na lareira, e eu sei que é um gnomo brincalhão que
desceu pela chaminé para se aquecer e guardar o sono das crianças... Enquanto isso, tilitam
as campainhas de prata do trenó fantasma, que as renas brancas de São Nicolau puxam na
neve pelas noites frias...
E eu vejo a Finlândia que Sibelius me mostra, contando a história bonita de uma
saga...
*
*
*
Descer à profundidade dos cérebros humanos... Ver angústias e tormentos alheios, que se
ajuntam aos nossos, já tão numerosos e terríveis, por força de um teimoso e obstinado
sentimento de solidariedade humana?... Para que, se as almas são como intrincadas e densas
florestas? Difícil é conhecê-las profundamente e, vezes sem conta, nós próprios nos
desconhecemos no curso tumultuoso da vida...
7.2 Daphné de Maurier
com foto
Res
Sobre o romance Rebeca, 1938, da escritora francesa Daphné de Maurier. ressalta o fato
“interessante” da mesma ter alugado a casa que havia descrito no texto. A casa fantástica
denominada Menabelly tinha sido vista pela autora em Cornovailles foi alugada para moradia
com seus filhos e marido e reformada a fim de tornar-se sua casa dos sonhos. Também
escreveu recentemente o romance General do rei. Pensa em outro romance sobre a origem da
Casa fantástica.
7.3 As mulheres no cartaz
Res
Françoise D´Eaubonne, escritora francesa que obteve o Prêmio das Leitoras pelo romance
Comme un vol dês Gerfants. Em preparo um novo romance, histórico, L´eternité commience
a´ la´homme. Iniciou sua carreira como redatora de jornal.
O resenhista cita trecho da descrição da autora feita, a fim de traçar seu perfil, por Gisele
D´Assily, redatora de Lês Nouve iles literaires.
7.4 Biografia
com foto
Tr
Guilherme de Almeida é, incontestavelmente, uma das grandes figuras da poesia brasileira.
Filho primogênito do jurisconsuto e professor de Direito, Estevam de Araújo Almeida, o
poeta nasceu em Campinas, São Paulo, a 24 de julho de 1890. Cursou a Faculdade de Direito
de sua terra natal, obtendo diploma em 1912. Ainda estudante, estreou nas letras, colaborando
em jornais e revistas da época. Seu primeiro livro, no entanto, Nós, data de 1917. Convidado
por Júlio Mesquita, nesse ano, para trabalhar na redação de O Estado de São Paulo, começou
a publicar ininterruptadamente obras em verso e prosa, sendo a maioria em versos. Sua obra
completa compreende 37 volumes e nela se destacam Nós, A dança das horas, Messidor,
Livro de horas de Sóror Dolorosa e Você. Além disso, Guilherme de Almeida é um dos
melhores tradutores de poesia que possuímos, sendo célebre a versão do famoso poema de
Kipling, If. È membro das Academias Brasileira e Paulista de Letras. Para a Academia
Paulista, foi eleito em 1928, ocupando a vaga de seu pai. Em 1930, 6 de março, entrou para a
368
Academia Brasileira, na vaga de Amadeu Amaral, poltrona nº 15, sob a invocação de
Gonçalves Dias e fundada por Olavo Bilac.
7.5 Steinbeck em ação
c/ foto
Res
Trata da obra mais recente do escritor norte-americano Steinbeck que tem como tema uma
lenda popular mexicana sobre a história de uma pérola. Autor de Vinhas do Ira e Noites sem
lua, diz que esse novo livro é uma parábola. Na resenha não há o título do livro.
7.6 Agraciado com a famosa "Ordem de mérito”
(c/ foto)
Res
T. S. Eliot foi agraciado com a “Ordem do mérito” pelo rei da Inglaterra; a honraria era
anualmente concedida a 23 figuras. Eliot, americano de nascença que fixou residência na
Inglaterra, foi o segundo poeta vivo a receber o mérito. Autor do romance Passage to Índia,
foi também dramaturgo da peça Murder in Cathedral, peça em versos que foi traduzida para o
francês e português, sendo nesta língua pela Srª Saudade Cortesão.
7.7 Les gens do Mogador
Res
Elisabeth Berboir foi agraciada com o Prêmio Renovação Francesa. Este foi instituído em
1946 pelo sindicato dos escritores franceses em campanha pelo soerguimento da França. A
obra Lês gens de Morgador foi considerada o melhor romance de 1948.
7.8 Condenado Knut Hansun
Res
O Prêmio Nobel da literatura, Knut Hansun, foi condenado pela corte civil de Grimstad,
Noruega, a pagar uma multa por suas atividades a favor dos alemães, durante a última guerra.
O autor de Fome e Um vagabundo toca em surdina foi membro do partido nazista, escreveu
mais de 200 páginas de artigos de propaganda nazista divulgados em jornais; ele recorreu da
decisão.
7.9 No prelo e nas vitrinas
- Gaúchos e beduínos, de Manoelito de Ornelas, no prelo;
- Margaret, romance de Margaret Slade, Livraria Progresso Editora, tradução de Percy
Cardoso;
- Bilan d´une nation, de John dos Passos;
- Creatures of circunstances, de Somerset Maughan, editora Heinemann, Londres, coleção
histórias e contos;
- Vidas perdidas, de Carvalho Netto, nas livrarias, livraria progresso Editora;
- Rainha das orças, livraria Progresso editora.
8. Data
31/01/48;5
Título
Seção Caleidoscópio
8.1 Variações
tr
Leio Géraldy. Não há nada de poético no que me oferece a janela desconsolada, por onde
entra uma noite agressiva e quente. Mas, impossível recusar as sugestões dessa conversa
íntima delicada que é o Toi et Moi.
Você não sabe... Estou tão só!...Parece morta.
A alcova que você ordena e desordena.
As coisas em que toco, os armários, as portas,
Fazem ruído diferente, ou tímido, ou
Estranho, que parece um queixume e persiste,
E põe neste vazio uma presença triste.
Como a chuva em redor do encontro que falhou...
Deixo a leitura para olhar a rua. Tudo parado, quieto. Nenhuma folha balança. Nada. A
Noite sufocante abafada. Mas, eu sinto que me envolve um gelo de morte. É a Carta, de
Géraldy, que me da conta de uma ausência fria e torturante:
Mando para você meu coração sedento
de você, mais enfermo e triste cada dia,
e mando minha vida inútil, meu tormento,
minhas noites sem fim, minha dor, meus desejos,
e, para acalentar sua noite vazia,
mando-lhe beijos, e mais beijos, e mais beijos...
8.2 Biografia
com foto
tr
Com das maiores bagagens do romance contemporâneo brasileiro, José Lins do Rego é
uma curiosa figura da nossa literatura. Nasceu a 3 de junho de 1901, em Engenho Corregedor,
Paraíba. Filho de uma família pertencente à melhor aristocracia rural, Lins do Rego é um
escritor que se tem conservado fiel às suas origens humanas e literárias, como real
representante de sua classe social e do ambiente físico em que foi criado. Sua infância,
decorrida no ambiente dos velhos engenhos das casas grandes e das senzalas após a abolição,
marcou, quase que de modo definitivo, sua arte de ficcionista. Seu livro de estréia, Menino de
Engenho, é um relato desse tempo, tendo obtido o Prêmio Graça Aranha, em 1932. Fez seus
estudos primários em Itabaiana, no I. Nossa senhora do Carmo, daí passando para João
Pessoa, onde tirou os preparatórios, no Diocesano Pio X. Seus primeiros trabalhos literários
foram publicados na revista estudantil desse último Colégio, a Arcádia. Transferindo-se para
Recife, diplomou-se em Direito, mantendo-se em constante ligação com escritores
pernambucanos de mais evidência, como Gilberto Freyre, Olívio Montenegro, Osório Borba e
muitos outros. Com este último, Osório Borba, fundou um semanário de crítica política e
370
literária, em 1923. Nomeado promotor público em 1925, exerceu esse cargo em Minas Gerais,
daí transferindo-se em 1926, para Alagoas, onde foi funcionar como fiscal de bancos.
Conheceu então, Graciliano Ramos, Aurélio Buarque de Holanda e Valdemar de Oliveira. Seu
segundo romance, publicado em 1933, Doidinho, é como o anterior, autobiográfico, pois
relata a história de seu aprendizado no Diocesano Pio X. Esse traço de autobiografia poderá
ser encontrado em quase todas as suas obras. Oscilando entre a memória e a imaginação, Lins
do rego, como ficcionista, nos dá a imagem de um homem ligado à terra por raízes profundas
e indestrutíveis. Fixando residência no Rio de Janeiro, em 1935, o romancista continuou a
descrever o antigo panorama que tanto o deslumbrara na infância, só fugindo a isso em dois
romances, um dos quais Eurídice, o mais recentemente publicado cuja primeira edição, de
16.000 mil exemplares, foi esgotado em dois meses. Esse sucesso, aliás, não corresponde ao
êxito do livro como obra de arte de ficção. Escrito de modo fácil, com enormes concessões ao
público, não tem profundidade social ou psicológica. É um livro que agrada pela excessiva
leveza, capítulos curtos que despertam no leito comum a vontade de prosseguir na leitura, o
enredo é atraente e so personagens se movimentam com facilidade, embora muitos sejam
convencionais e falsos. Os problemas expostos, se chegam a ser problemas, são de uma
superficialidade agradável e trazem um molho apimentado e sedutor, posto que mal
preparado. De nível muito inferior a Bangüê (1934), Pureza (1937), Água Mãe (1941, Prêmio
Sociedade Felipe de Oliveira) e Fogo Morto (1943), esse último romance passará, como têm
passado tantas obras de sensação temporária, a exemplo da coqueluche, E o vento levou.
Outros livros de Lins do Rego: Moleque Ricardo (1935), Usina (1936), Pedra Bonita
(1938), Riacho doce (1939), Histórias da Velha Totonha (Literatura para criança) Gordos e
magros (1943, ensaios), Pedro Américo (1944), Conferências no Prata (1946), Poesia e vida
(ensaios, 1946).
Lins do Rego vive na Capital Federal, onde exerce as funções de fiscal de imposto de
consumo, além de cargos outros nas diversas entidades esportivas, como fan de futebol e
apaixonado torcedor do flamengo. Escreve para vários jornais, inclusive para os Diários
Associados, Jornal dos sports, do qual é colaborador diário, e o Globo. É casado e tem 3
filhas já moças. Sua obra tem grande importância para a literatura brasileira, principalmente a
parte que compreende o chamado “Ciclo da cana-de-açúcar”.
8.3 Profissão De Fé
com foto
tr
Theodore Dreiser, falecido há pouco mais de um ano, é hoje considerado como a mais
expressiva força do romance norte-americano. Sua vida foi uma constante luta contra os
preconceitos e as convenções sociais, daí relutando terrível campanha contra a sua obra e sua
própria pessoa do escritor. Seu primeiro livro, Sister Carrie, corajoso e realíssimo panorama
das misérias sociais norte-americanas, publicado em 1900, foi apreendido pela polícia no dia
em que foi lançado. Era o início de uma violenta luta, que só terminaria com a morte de
Dreiser. Seus livros foram sucessivamente criticados, condenados, por que, neles, Dreiser
punha a nú, a descoberto, os terríveis dramas e as tremendas tragédias de uma sociedade que
se ufanava de ser a mais poderosa e a mais justa de todo o mundo.
Em 1925, quando lançou Uma tragédia americana, foi chamado à barra do tribunal de
Boston, num dos maiores e mais ruidosos processos movidos contra um escritor, isso não
impedindo, todavia, que o livro fosse adotado em várias universidades, nas classes de
literatura norte-americana. Dreiser, porém, jamais hesitou, e sua obra é uma prova irrefutável
de que aceitou a luta. O último documento de Dreiser, tido como o seu testamento político, é
uma carta ao secretário do Partido Comunista Americano, pedindo seu ingresso nesse partido,
e na qual diz entre outras coisas:
“Caro Senhor Foster: escrevo-lhe para lhe comunicar o meu desejo de ingressar nas fileiras
desse partido. Essa petição tem suas raízes em convicções que são minhas desde muito tempo
e que os anos reforçaram e aprofundaram. Sempre acreditei que o povo americano, e, em
primeiro lugar os trabalhadores – dos Estados Unidos e do mundo inteiro, são os guardiões de
seu destino e os criadores de seu futuro. Procurei viver de acordo com essa crença, exprimi-la
por meio de palavras e de símbolos, buscar a sua plena significação na vida dos homens e das
mulheres. Parece-me que essa fé no povo é a realidade simples e profunda, que a crise
mundial comprova”. “A crença na grandeza e na dignidade do homem tem sido o princípio
que orienta a minha vida e a minha obra. A lógica de minha vida e de minha obra me conduz,
conseqüentemente, a pedir minha adesão ao partido Comunista. Sinceramente. Theodore
Dreiser. Hollywood. Califórnia. 20-7-1945”
Esta carta, escrita aos setenta e quatro anos de idade e cinco meses antes de sua morte, foi
tomada como profissão de fé do grande romancista norte-americano.
8.4 Uma Grande Romancista Inglesa
com foto
tr
Virgínia Woolf vai sendo, pouco a pouco, divulgada no Brasil. Sua obra é extensa, pois
atuou em todos os ramos da literatura, sempre com sucesso. È difícil afirmar em qual deles
trabalhou melhor, se nos seus volumosos romances, se nos contos ou ensaios, ou se nos
artigos de apenas uma coluna. A influência de Proust e Joyce em sua obra é marcante, muito
mais acentuadamente do primeiro do que do último, do qual, talvez, tenha herdado esse
admirável poder de nos libertar do tempo-convenção, de quebrar os elos que nos ligam à
realidade tempo-presente, e que constitui o traço mais profundo e característico de seus
romances.
Na coleção Nobel, da Livraria do Globo, aparecerão, de Virgínia Woolf, As vagas e Ao
farol, que virão figurar ao lado de Orlando, na mesma coleção, este último traduzido por
Cecília Meireles. Em Londres, faz pouco tempo, foi lançado da mesma autora, The moment
na other essays, pela hogard Press, editora fundada em 1917, por Virgínia e seu marido,
Leonard Woolf.
8.5 Duro Com Duro
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tr
William Saroyan, o arrogante e audaz jovem do trapézio, ao visitar Londres, certa feita,
resolveu procurar o incrível e célebre Bernard Shaw. A o ser atendido pelo mordomo de Mr.
Shaw, Saroyan empertigou-se todo e disse:
-
Diga a Mr. Shaw que o maior escritor da América aqui está para visitá-lo.
Pouco depois, voltava o impassível mordomo, com o seguinte recado:
- Diga ao maior escritor da América que o maior escrito do mundo não pode atender no
momento.
372
8.6 O Irreverente Sinclair Lewis
com foto
res
Comenta a irreverência do escritor Sinclair Lewis que, apesar das críticas recebidas ao
modo como pinta seus personagens, especialmente, tipo médio americano, continua a escrever
sem se importar com isso e, inclusive, continua a falar mal dos políticos. Cita um fato singular
ocorrido entre o escritor e o Ministro da Inglaterra Mac Donald, quando Lewis fingiu não
conhecer o político. Sua atitude, fruto de um outro encontro em que ministro, decepcionando
o escrito, afirmou, em meio à uma conversa, entre ambos, sobre os direitos da classes
trabalhadoras, que o radicalismo era uma comédia.
8.7 Música Ao Longe
com foto
tr
Dos escritores brasileiros, Érico Veríssimo tem sido o mais preferido pelos estudiosos
argentinos. Seus romances, quase todos traduzidos para o castelhano, tem despertado invulgar
interesse, não só ente o público, como nos meios cinematográficos. Assim é que Olhai os
lírios do campo foi filmado e exibido no Brasil, e os produtores estão interessados na
filmagem de vários outros. O estúdio San Miguel já assinou contrato com Érico, para um
novo filme, baseado em Música ao longe. Depois desse, ao que parece, virá O resto é silêncio.
8.8 Flagrantes
Res. - A mulher de cem rostos, novela esccrita por Thomas Mann, em colaboração de
Louis bromfielo e maximilliam Ilyn. Em filmagem sua versão cinematográfica tendo como
estrela Greta Garbo.
Res. – Jean Louis Curtis, autor de Les Forets de la muit, com o qual obteve o Prêmio
Goncourt, “o maior galardão que um escritor pode almejar”. Seus livros anteriores, Les
jeunnes hommes e Siegfirend, o primeiro lançado em 1946.
Trans. - Gilberto Freyre recusou o convite da ONU para desempenhar o cargo de Diretor
do Departamento Cultural das Américas, alegando que a situação interna do nosso país exige
a colaboração e a vigilância de todos os homens públicos.
9. Data
21/02/48;3
Caminhos cruzados...e errados
O marechal que, ao ouvir falar em cultura, punha a mão na coronha do revólver, já não
mais oferecia perigo aos homens de pensamento e a época de restrições à liberdade de pensar
e dizer pareia ter ficado sepultada nos campos da segunda guerra mundial, de mistura de
frangalhos das camisas negras, pardas e verdes. Pelo menos, era isso que apregoava aos
quatro cantos do mundo, numa promessa de paz, que, desgraçadamente, logo se desfez. As
restrições estão voltando, aqui e ali, por todo parte, perigosamente, numa ameaça mais terrível
e mais imperdoável que as anteriores. Mais terrível e mais imperdoável, por isso que
representa um embuste e uma traição aos povos que se empenharam na chamada guerra de
libertação.
A Associação do Livro Argentino já deu o exemplo, considerando imorais, e de cunho
deliberadamente pornográfico, obras de literatura que merecem respeito e exigem dos homens
meditação e estudo. Entre essas obras, estão o despretensioso Caminhos Cruzados, de Érico
Veríssimo, e o confuso Ulysses, de James Joyce.
Estranho e curioso conceito de imoralidade, esse, adotado pela infeliz Associação
Argentina! Imoral e chocante, senhores juízes, é a própria vida. São os preconceitos hipócritas
de uma sociedade enferma. São as contradições sociais, a opulência e a miséria vivendo uma
defronte da outra, a fartura e a fome vizinhas da mesma rua, o saber e a ignorância viajando
juntas no mesmo veículo. Imoral, respeitáveis julgadores, é a educação deseducadora e
charlatanesca que damos às nossas crianças, mistificando e ocultando verdades, criando
doenças e engendrando conflitos mentais. É a criminosa displicência com que tratamos os
menores abandonados, como a indicar a esses inocentes pecadores o caminho da
delinqüência. E imorais sobretudo, senhores donos da moral, são os homens que procuram
ocultar essa realidade com escusos processos de condenação àqueles que buscam retrata-la em
cores vivas, para que todos a enxerguem e condenem.
As obras de arte – a literatura inclusive – aparecem como frutos de uma determinada
época. Dessa forma, refletem a realidade social em que foram criadas, contendo os erros,
efeitos, virtudes, imoralidade ou pornografia dessa realidade. Daí a sua função social, hoje
não mais negada por qualquer pessoa de mediana inteligência. E os livros apontados como
imorais, não fizeram mais do que espelhar a sociedade em que vivem ou viveram os seus
autores, e têm, por isso mesmo, a sua função social, qual a de mostrar erros e sugerir soluções.
Os tipos retratados em Ulysses e Caminhos cruzados, são homens do nosso tempo e que
conosco convivem todos os dias. É possível que Bloom seja vizinho de Salú, e este poderá ser
até um dos juízes da Associação condenadora. Daí, talvez a absurda atitude que foi tomada...
Estou certo de que o público não levará a sério essa decisão. Verá que isso, ou é uma anedota,
ou uma campanha pessoal contra determinados autores.. Do contrário, não se justificaria a
condenação das obras indicadas, muito menos a do romance de Érico Veríssimo, onde não há
nada de imoral ou de deliberadamente pornográfico. Aliás, Érico já tem sofrido outras
campanhas. Aqui mesmo, no Brasil, sua literatura, no início, foi considerada “água de flor”
sem que isso impedisse que o Sr. José Lins do Rego voltasse depois com um artigo de
elogios, considerando Érico um dos maiores romancistas brasileiros. E note-se que, na época
em que o consideraram “água com flor”, Caminhos cruzados já corria mundo de mão em
mão.
Que fazer, pois, diante de tão contraditórias opiniões? Eu aconselharia a que cada qual,
principalmente os juízes da Associação Argentina, lesse cuidadosamente os livros de Érico, e
visse o que há de humano e que admirável espírito de compreensão e tolerância ele é! Cada
romance seu representa a solução de múltiplos problemas, e, e de todos eles a gente sai
renovado, mais experiente e cheio de esperança. O resto... o resto é silêncio. E eu não duvido
que muito romancista brasileiro deseje estar no lugar de Érico, isto é, considerado imoral ao
lado de Joyce e Balzac.
Aos juízes, aliás, eu aconselharia uma coisa mais: que seguissem o conselho do próprio
Érico, e abrissem a Bíblia, no Cântico dos Cânticos. Talvez Salomão lhe convencesse do
quanto andam trilhando caminhos cruzados, porém, errados, procurando classificar a alguns
livros de imorais...
374
10. Data
21/02/48;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
10.1.Variações
O trem avança na madrugada fria. De minha janela, contemplo o princípio misterioso
das coisas.
Nada vejo ao longe, senão a densa indefinição das coisas que apenas se pressentem.
Adivinho sombras, pesadas sombras, escondidas pela cortina fantástica de um mundo
desconhecido.
Na terra próxima, vejo emergirem vultos pré-históricos, paralisados pela ação profanadora
dos meus olhos, que procuram desvendar o começo misterioso desse mundo novo;
Das águas, sobe uma fumaça constante, como se tudo fosse efervescência e germinação: e
eu as vejo abraçarem a terra, em lentas ondulações de répteis gigantes como tentáculos de
algum monstro das primeiras eras;
O espaço é todo o quadro de um pintor desvairado, visionário procurando
desesperadamente fixar a parturição do mundo, as coisas e dos homens; milhões de sombras e
tons esquivos semelham toneladas de nuvens.
Tudo é sombra e mistério indefinição e princípio.
Súbito, um vivo zarcão suja uma nuvem, mais uma, outra, mais outra, num bárbaro
crescendo de cores que sugerem sons.
A natureza vem nascendo...
10.1. Inquisição literária
com foto
tr
Caminhos cruzados um dos maiores sucessos de Érico Veríssimo foi considerado imoral,
pela Associação do Livro Argentina, que o colocou no seu index, no plano das obras literárias,
deliberadamente pornográficas. Ao lado do grande romancista nacional, figuram James Joyce,
Balzac, Mirabeau e outros, do mesmo modo considerados imorais. O fato seria para estranhar
se não estivéssemos acostumados a esses métodos tão do agrado dos regimes totalitários, que,
receosos da livre manifestação do pensamento, procuram amordaçar as vozes que tentam, em
suas obras de arte, uma análise mais séria das incoerências da vida humana. A melhor
resposta àquele desesperada Associação Argentina, foi dada pelo próprio público argentino,
que tem aceitado as obras de Érico, aproveitando-as, mesmo para o cinema, como já
aconteceu com Olhai os lírios do campo, em breve acontecerá com Música ao longe e,
possivelmente, com O resto é silêncio. Outras respostas foram dadas por escritores e críticos
brasileiros, que repudiam a decisão da A Argentina. Eloy Pontes, por exemplo, disse:
- Por esse critério, a Associação pode condenar Shakespeare, Goethe, Cervantes,B. Shaw,
Voltaire, Zola, Flaubert, D´Annunzio, Eça, Raul Pompéia, Machado de Assis, Aluízio de
Azevedo... enfim, todos os grandes escritores que produziram obras imperecíveis.
Álvaro Lins, o conhecido crítico pernambucano, disse:
- Nenhum dos autores de livros citados é imoral. E o gesto dessa Associação, para mim
representa mais uma manifestação inquisitorial dos governos ditatoriais.
Além desses, outros falaram, como Mucio Leão e Guilherme de Figueiredo, este último
tendo iniciado suas declarações dizendo que imoral era a Associação.
O grande julgamento, no entanto, é o que é feito pelo público. E os livros de Érico
Veríssimo já não pertencem à literatura nacional, de vez que, traduzidos para vários idiomas,
ganharam, ganharam vida própria como representantes da literatura internacional de sua
época. E jamais deixarão de ser lidos, por isso que representam uma sadia mensagem aos
homens de inteligência e um irrecusável convite a mais uma pista coerente compreensão da
vida.
10.2 Correspondência de Boudelaire
com foto
res
Sobre a publicação, em Paris, dos dois primeiros volumes de Correspondência de
Baudelaire, de autoria de Jacques Crépet. A obra completa compreende quatro volumes; o
primeiro corresponde às cartas que o poeta escreveu entre 1833 e 1856, e o segundo às de
1856 a 1859. Comenta os tormentos vividos pelo poeta em conseqüência das dívidas que
contraiu. Para o resenhista sua correspondência é o melhor testamento da resistência de
Baudelaire em salvar a dignidade e a liberdade.
10.3 Flagrantes
Res – A escritora Lia Correia Dutra, autora de Navio sem porto, realizará, durante sua
visita à capital, uma conferência sob o patrocínio da ABD, secção Bahia;
Res - Adonias Filho prepara seu segundo romance As memórias de um Lázaro;
Res - Alfredo Mesquita, escritor paulista, autor do romance Vidas Avulsas, em visita à
capital.
10.4. Enquanto ruge a tormenta
com foto
tr
Esse é o sugestivo título do novo livro da Sra. Lourdes Bacellar, a conhecida autora de
Festa, e de Na sombra e no silêncio. No mesmo feitio dos anteriores, Enquanto ruge a
tormenta certamente merecerá a melhor acolhida do público, que já se acostumou a ver, na
Sra. Lourdes Bacellar, uma sensibilidade sempre disposta a reproduzir, em suas obras, as
sugestões artísticas de sua realidade interior. Em prosa e em verso, o novo livro da poetisa
baiana, pelo que o título indica, será mais um fruto da inquietação íntima em que vive a
autora, de eterno conflito entre as realidades subjetiva e objetiva, na procura de uma fórmula
de vida mais harmoniosa e mais justa.
Os originais ainda estão em mãos da autora que trabalha nos últimos retoques, a fim de
entregar o livro aos editores.
376
10.5. O imoralista
com foto
tr
A livraria do Globo lançou, numa nova e mais artística apresentação da Coleção Nobel, O
imoralista, de André Gide, traduzido por Theodomiro Tostes. Essa, como quase todas as
obras de Gide, tem merecido da crítica contraditórias referências, e foi mesmo objeto de
escândalo, quando da sua publicação, a exemplo do que acontecera com o célebre Lês cahiers
de André Walter e o debatido Corydoni. A inclusão de Gide na Coleção Nobel da grande
editora nacional, vem do fato de haver o romancista francês conquistado o Prêmio Nobel de
Literatura, em 1947.
O livro é precedido de um pequeno prefácio do autor, no qual ele expõe, de modo
positivo, os seus propósitos. O herói gideano, Miguel, não aprece repugnante. Tem qualquer
cosa de indomável rebelião, de grito de protesto contra a vontade escravizada e os instintos
aprisionados. Através dele, Gide chicoteia impiedosamente o que a vida, o mundo, a
civilização, enfim, têm de mais fraco e condenável. Mostrando-se rebelde, ao mesmo tempo
que angustiado pela falsidade que há em tudo, Miguel busca viver sua própria realidade
interior. E aí, então, na exteriorização dessa realidade, é que se manifesta o verdadeiro doente
mental que ele é, possivelmente um maníaco cujo ego, totalmente libertado da coação do
super-ego, satisfaz ou pensa satisfazer os impulsos do id, Miguel, pois, como um doente que
é, deve ser um objeto de estudo e, jamais, de repugnação. Nem por isso, todavia, deve-se dar a
um doente o direito de apregoar e impor aos demais, como normas de vida ou o único meio de
libertação, sua própria doença. E Miguel é, positivamente, um enfermo numa sociedade
também enferma. Sua doença, entretanto, é bem mais perigosa que a da própria sociedade da
qual se derivou e se emancipou, suplantando-a.
10.6 Pearl S. Buck e o Genocídio
com foto
res
Prêmio Nobel de Literatura em 1938, a escritora norte-americana, missionária que vive
na China, tem escrito vários livros sobre a China e os chineses, nos quais analisa o panorama
da sociedade chinesa, chegando a conclusões a favor das liberdades essenciais aos povos e aos
diversos grupos sociais. Enviou, recentemente, uma carta ao Manchester Guardiam sobre o
genocídio, advertindo o mundo contra esse crime, diz ela:
“A destruição de quaisquer grupos raciais, nacionais, lingüísticos, religiosos ou políticos
tende a aumentar consideravelmente, de vez que as nações, de diferentes níveis de civilização,
por força das circunstâncias, são obrigadas a encontrar-se e a entrar em choque umas com as
outras”.
O resenhista cita outros trechos da carta e afirma que a autora de A boa terra conclui a
carta por um maior e melhor entendimento entre os povos do mundo, para que o genocídio
não avance em sua marcha criminosamente destruidora.
10.7 Também James Joyce
com foto
res
A Associação do Livro Argentino, na secção que acaba de fazer das obras literárias
francamente pornográficas, acusa de imoralidade o famoso Ulysses de Joyce, juntamente com
outras obras de literatura estrangeira e um romance brasileiro de Érico Veríssimo: Caminhos
cruzados.
A acusação cega da Associação contra Caminhos cruzados não deve causar admiração
aos leitores brasileiros, até certo ponto. Porque ela é apenas uma das inúmeras e variadíssimas
condenações que tem sofrido o nosso maior romancista, atacado freqüentemente pelos seus
próprios colegas de letras de menor valor.
Mas, a denúncia do Ulysses é absolutamente inexplicável. O livro de Joyce sofreu
repressão na Inglaterra, mas passou depois em traduções e no original a dezenas de literaturas
e foi legalmente introduzido nos EE. Unidos. É oportuno citar o processo dirigido contra essa
obra, pela corte de Nova York, e ainda mais intensamente o depoimento do próprio juiz John
M. Woolsey, depois de analisar todo o livro: “As palavras criticadas como indecentes, no
livro, são velhos termos saxônicos, conhecidos de quase todos os homens e, creio mesmo, da
maioria das mulheres, e são expressões comumente usadas pelo povo que Joyce retrata no
romance. Afirma, portanto, que Ulysses é um livro sincero e honesto e as acusações contra ele
dirigidas inteiramente despropositadas”.
Diante dessas declarações, pronunciadas pela corte literária mais rigorosa, talvez, do
continente, somos levados a crer que se trata dum caso grave de alucinação coletiva, na junta
da Associação Argentina. Mas, pode se também que o senso de moralidade e imoralidade
admitido pelos componentes da junta seja diferente do que o mundo inteiro professe, nessa
questão.
De resto, eles são diferentes em muitas outras coisas...
11. Data
13/03/48;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
11.1 Variações
tr
Há na vida e nas coisas uma penumbra que entristece e faz medo. Movimentam-se as
criaturas como fantasmas num mundo de sombras. Chove e é quase noite. Da janela de seu
quarto, o homem contempla o cair da chuva e a dança esquisita das sombras. E não há como
fugir à essa irresistível sensação de que é, apenas um prisioneiro sem esperanças e sem
ambições.
* * *
Foi Ibsen quem disse que o homem solitário é o mais forte do mundo. Muitos
quiseram ver na afirmativa, uma profunda manifestação de egoísmo, um convite a renúncia do
social, para um ensimesmamento venenoso e mórbido. Bastará, no entanto, um simples
instante de solidão contemplativa, para que aquela verdade aparecesse na imaginação do
homem, decorrente do reconhecimento de sua pequenez ante as coisas universais.
E o homem mais forte, sem dúvida, será aquele que reconhecer, humilde, essa irrecusável
verdade interior, que só a solidão pode revelar.
** *
Não há verdades eternas nem eternos conceitos. Tudo é transitório e passível de
transformação.
378
11.2 Biografia
c/foto
tr
O sr. Álvaro Lins escreveu que Jorge Amado seria um dos maiores criadores de ficção da
nossa literatura, um dia em que apresentasse uma forma e um estilo correspondente à sua
natureza espontânea de romancista. Mas, quando essa opinião foi escrita, em 1943, o sr.
Álvaro Lins já havia dito que ao romance interessa mais a técnica do que o estilo, sendo este
prescindível, e Jorge Amado já era, inegavelmente, um dos maiores criadores de ficção de
nossa literatura. Andou acertado o crítico [-] todavia, quando falou de natureza espontânea de
romancista em Jorge Amado. É, na realidade, uma grande vocação de contador de histórias.
Nascido em Ilhéus, Bahia, no ano de 1912, Jorge Amado viveu toda a infância nas
fazendas de cacau do sul do estado. Vem daí o traço característico de sua obra, essa incrível
fidelidade à terra e ao drama de sua conquista, o sentido real da luta e dos problemas
humanos. Após o curso secundário em Salvador, bacharelou-se em direito, no Rio de Janeiro.
Com 19 anos publicava o primeiro romance, O país do carnaval, quando já havia sido
publicada a novela Lenita, escrita em colaboração com Dias da Costa e Edson Carneiro.
Nesse seu primeiro romance, Jorge Amado esboça o perfil de Pinheiro Viegas, seu antigo
professor, que exerceu grande influência em sua vida. Foi uma estréia fraca, embora um livro
promissor. Vem, a seguir, Cacau, de maior significação que o primeiro, cujo sucesso coloca
Jorge Amado no caminho de melhores e mais sólidas realizações. Em 1934, aparece Suor,
discutido, elogiado e condenado, onde o romancista jogou com a realidade nua e crua de todos
os dias, sem que a subvertesse a um processo de transformação artística, necessário ao
romance. Aparece, então, Jubiabá, obra de maior vulto, na qual o autor já se revela um grande
romancista em pleno desenvolvimento. Segue-se Mar Morto, que lhe deu o Prêmio Graça
Aranha em 1936, embora considerado por alguns críticos como um passo atrás, quer como
técnica, quer como significação. É um poema em prosa, comovente, bonito, mas, está longe
de ser um verdadeiro romance, pois nele predomina quase que exclusivamente a fantasia, a
imaginação inquieta e sem rumo certo do autor, sem que a memória exerça influência, senão
raríssimas vezes. Pouco depois, vem Capitães de Areia, o drama dos menores abandonados,
aprendendo a vida do crime no cais e nas ruas de Salvador.
Há, então, um grande silêncio, interrompido aqui e ali, por crônicas, artigos e conferências.
O romancista vive no estrangeiro, perseguido pela ditadura estadonovista. É quando escreve a
Biografia de Luis Carlos Prestes, editado em Castelhano. Com a guerra, volta ao Brasil e, na
Bahia, trabalha na imprensa diária, no Imparcial. Lança O ABC de Castro Alves, recebido
pela crítica com os melhores elogios. Sem ser, verdadeiramente, uma biografia o livro, em
seus vinte e seis capítulos relata a vida e obra do gênio, um estilo agradável e atraente dentro
do rigor histórico exigido a tais obras.
Depois, surgiu os dois maiores romances de Jorge Amado, aqueles que lhe deram um
lugar excepcional na nossa literatura: Terras do sem Fim e São Jorge dos Ilhéus. No primeiro
desses o romancista se atém da realidade, estabelece convincente contato com a terra, e não
fantasia desenfreiadamente, não solta a imaginação além do que é permitido soltar, como lhe
acontecera em Mar Morto e alguns outros romances. Fiel aos fatos, aos homens, ao ambiente,
Jorge Amado realizou, aqui, um romance mais denso, mais vasto, embora em certos aspectos,
poucos, felizmente, fosse ainda o romancista de 19 anos. É o caso de análise de personagens
mais complexos, mais requintados psicologicamente, na qual sempre falha. Ou, ainda, o
traiçoeiro tema do amor, para o qual lhe faltou o certo senso psicológico e uma melhor e mais
sugestiva linguagem descritiva. No entanto, não ofuscava o valor do livro, que tem trechos,
como alguns do capítulo “A Mata”, que bem podem figurar em qualquer antologia. Em São
Jorge de Ilhéus, o romancista reafirma suas qualidade de grande ficcionista num livro
considerado por muitos como a sua melhor obra. Seu último romance, Seara Vermelho, não
merece comentário. É um dos piores que já escreveu em toda sua vida. Além dessas obras,
Jorge Amado escreveu A Descoberta do Mundo, juntamente com Matilde Garcia Rosa, um
livro de poemas, A Estrada do Mar e uma peça teatral, O Amor de Castro Alves.
Ingressado na política, Jorge Amado foi deputado comunista pelo estado de São Paulo,
para onde transferira residência há algum tempo, atualmente, encontra-se na Europa, em
Paris.
11.3 Não me conte o final
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Res
Sobre o reconhecimento pela crítica norte-americana de Emil Ludwig como o maior
biógrafo do século. Seu livro, produzido pela editora Globo, intitulado Memórias de um
caçador de homens é, segundo o próprio autor, um olhar retrospectivo sobre o meio século de
experiências preciosas e existência produtiva, Ludwig havia completado 68 anos naquele ano.
O poeta e romancista publicou uma dúzia de dramas, poemas e ensaios antes de descobrir sua
verdadeira vocação. Alencar cita alguns de seus livros e faz um breve resumo do seu percurso
de vida. Sobre sua fuga aos Estados Unidos por conta da guerra e a “santa antisemita de
Hitler”, além disso Alencar comenta o prestígio do escritor na Alemanha e os pedidos que
recebeu, de governos estrangeiros, para que fizesse biografias de homens ilustres. Dentre as
obras cita: Napoleão, Goethe, estes biográficos, e mais, Bismarck, Diana, Reise Nach Africa e
Der Spiegel Von Snallot.
11.4 Literatura de propaganda
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Tr
Está causando sensação o discutido livro do Sr. Arthur Koestler, O zero e o Infinito. E
sensação, principalmente, nos meios políticos. Isso é, aliás, muito fácil de compreender, longe
de ser romancista, o sr. Koestler é um político panfletário, que usa a literatura como veículo
de suas intenções. Daí o seu sucesso, mais ruidoso que verdadeiro, num mundo que se está
dividido, cada vez mais nitidamente, em dois campos políticos opostos.
À literatura interessa a vida humana, os problemas dos homens e das coisas, como objeto
de análise, de estudo sério e imparcial. Um romance investiga, avalia a vida real em termos
artísticos, como um processo de transformação, com o simples intuito de contribuir para o
bem estar do homem e da sociedade em qual, sem ter sucesso o compromisso de apresentar
soluções ou sugerir fórmulas. Investiga e avalia para uma melhor compreensão da vida. Mas,
quando se pretende transformar a literatura em porta voz dessa ou daquela ideologia, forjando
argumentos e justificando atitudes, com o objetivo exclusivo de flagrante de defende um
predeterminado ponto de vista, o resultado é essa coisa detestável e nada convincente, como a
pseudoliteratura do sr. Koesltler. Nela, a vida humana é uma abstração, com a qual se joga de
acordo com as circunstâncias previamente escolhidas, com discussões teóricas
antecipadamente fabricadas contra isso ou favor disso. Desgraçadamente, essa
pseudoliteratura corrompe, aos quanto nas livrarias, enganando a quantos não tenham uma
consciência capas de discernir entre a literatura, a verdadeira, a real, essa que é feita para
compreender a vida em seus diversos aspectos, dessa outra, contrafação ordinária, do qual o
sr. Koestler é agora o autor em moda.
Não há, no autor de O Zero e o infinito e Logi e o comissário, nada que o qualificasse
como romancista. Falta-lhe o senso da realidade como lhe falta uma técnica superior. Não há
nele, nenhum autêntico valor literário, o sentido honesto do dramático ou a intenção do
380
humano. É, tão somente, um político internacional, usando a literatura como meio de propagar
suas idéias. Faz parte dessa tendenciosa literatura de propaganda.
11.5 A Manhã de nevontae, a bicicleta... é um grande livro
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Tr
Nascido em 1800, em Lancashire, é James Hilton, inegavelmente, o escritor mais
simpático que a Inglaterra possui. Com dezoito anos, aproximadamente, começou a escrever,
e foi nesse período que produziu sua primeira novela, Catherine Herself. Por esse tempo, o
Manchester Guardian, um dos jornais britânicos mais importantes, começou a aceitar
colaboração literária sua. Durante mais de uma década, Hilton escreveu e leu vorazmente,
enquanto se encarregava da crítica dos livros novos que surgiram na Inglaterra: confessa que
chegou a ler cerca de vinte romances por semana...
Os seus primeiros romances foram fracassos que ele mesmo não desconheceu: o próprio
autor consumia mais do que lhe pagava o jornal, arrecadando em massa, nas livrarias, suas
primeiras novelas, temeroso do que o público lesse trabalhos tão imperfeitos. Pouco depois, o
British Weekly encomendou-lhe uma história longa para o suplemento do natal, com o prazo
de duas semanas. Mas a inspiração não vinha...
Numa manhã nevoenta, Hilton pulou da cama, pegou a bicicleta e saiu a percorrer os
parques ingleses. Voltou para casa, sentou diante da cadeira de trabalho e começou a escrever.
Quatro dias depois estava completo o Adeus Mister Chips; e alguns meses mais tarde era o
maior sucesso literário do país. Posteriormente, Hollywood comprou a novela e produziu um
filme que veio a crescer a lista enorme dos admiradores de Hilton, hoje lido no mundo inteiro,
e recordista de histórias passadas para o cinema.
É um dos escritores mais despretensiosos e modestos. Admira três coisas acima de tudo:
cachorros, alpinismo e música.
11.6. Uma das maiores obras do século
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Tr
Uma nova edição de Os Thibault, na coleção Nobel da Globo, é o acontecimento literário
das últimas semanas. Agora em 3 volumes, pois a 1ª edição traduzida por Casemiro
Fernandes, era somente em 2, esse romance de Roger Martin Du Gard é um dos mais sérios
documentos de nossa época e, mesmo, considerado o maior romance da moderna literatura.
Martin du Gard escreveu o primeiro dos onze volumes da edição original francesa, em
1922. ano após ano, apareciam os outros, antes que o último fosse publicado. A academia
Sueca distinguiu Du Gard com o Prêmio Nobel de 1937, pela força artística com que, no seu
romance Os Thibault, soube fixar os conceitos humanos e a razão do ser da vida. Raros
escritores, embora premiados têm merecido tais palavras. Mas, é que esse magnífico livro é
uma verdadeira obra de arte, apresentando a vida em seus flagrantes mais característicos, mais
reais, e não apenas uma apagada e inexpressiva origem da vida. É uma obra de profunda
análise social e psicológica, na qual o objetivo do autor é refletir, com honestidade, o mundo
em que vivemos, o homem e seus problemas, desde o mais pessoais até os mais coletivos,
tudo isso feito com um raro senso artístico e um quase inacreditável conhecimento da
sociedade humana. E mais ainda: seguindo o curso de vida de uma família francesa durante
toda uma geração, e apontando inclusive o período da 1ª Guerra Mundial, Martin du Gard
realiza uma análise histórica dos acontecimentos mundiais da época, como bem poucos
historiadores conseguirão fazê-lo.
Escrita entre 1922 e 1940, os volumes dessa obra foram aparecendo parceladamente. Sabese que, durante alguns anos, houve uma interrupção. Chegou-se a pensar que o autor não
completaria a obra, o que, felizmente, não aconteceu. Mas, há um fato que ainda será melhor
esclarecido. Dizem que Du Gard levou todos aqueles anos sem publicar os outros volumes,
em virtude de se haver desgostoso de sua própria obra, destruindo, então um volume que já
havia escrito. Um outro escritor, seu amigo, afirmou que esse volume destruído era o mais
importante de todos, sendo para lastimar que se houvesse perdido. Como quer que seja, a obra
aí está, completa, embora aquele volume destruído seja substituído por outro. O valor da obra,
ao que se parece, não sofreu com isso. Basta que se leia o final, “o diário de Antoins”, para
que se conclua da importância e da seriedade desse verdadeiro documento da história humana.
Érico Veríssimo, opinando sobre o livro, escreveu as seguintes palavras, que valem como a
melhor das recomendações:
“Raras vezes tenho lido um romance com tão completa e intensa aceitação do que ele
representa como expressão de vida individual e social, e ao mesmo tempo como obra de arte.
Que belo, que grande livro! Recomendo-o entusiasticamente a todos os meus amigos, como
uma obra que não pode deixar de ser lida, não só porque é uma das mais altas realizações
literárias do nosso século, como também porque junta com profunda beleza um grupo humano
interessantíssimo e um momento decisivo da história de nossos dias”.
12. Data
27/03/48;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
12.10 Variações
12.11 O escritor e apolítica - Comenta Paris na pós-guerra e opinião de Èrico Veríssimo sobre o
engajamento do escritor
12.12 Melodias do coração - Sobre Edgar Proença
12.13 Foi só mudar o editor - estudo crítico sobre o escritor norte-americano William Faulkner
12.14 Literatura e cinema - filmagem de Then and now de Maugham
12.15 Flagrantes - cita: Michel Simon, estudioso da arte popular baiana; José Lins do Rego; a visita de
Marques Rabelo à Salvador; revista Região; e um concurso literário.
12.16 Poemas de Enoch Santiago Filho – estudo crítico sobre o escritor e sobre novos poetas
12.17Um livro que virou em grande editora – estudo crítico sonre Monteiro Lobato
12.18Lawrence e Ramphion – estudo crítico.
OBS: exemplar sem condições de uso no IGHB, e página não encontrada no exemplar consultado na
Biblioteca dos Barris. Sabe-se da existência da página deste dia porque a mesma foi consultada na
microfilmagem do setor de arquivo do A Tarde, que suspendeu o acesso aos microfilmes. Por isso,
apenas citou-se aqui apenas as poucas informações anotadas quando da primeira consulta.
382
13. Data
10/04/48;5
Título
Seção Caleidoscópio
13.1 Variações
tr
Sugestões da leitura de Martin du Gard: o mundo é doido a vida uma burla e os
homens uns animais ridículos. Mais vale contemplar a beleza da árvore solitária de uma praça
qualquer, do que seguir o imenso rebanho de cegos.
Antes de Roger, outros terão sugerido isso. Não tem importância. É uma alegria poder
descobrir o tempo, nessa cabeça cheia de sabedoria, que é o “diário” de Antoins Thibault.
* **
É doloroso discutir ou agir sempre em termos de utilidade e inutilidade. Não há valores
fixos ou eternos, nem coisas úteis ou inúteis. Há, simplesmente, o que nos dá prazer e o que
nos desagrada.
***
A noite está cheia de ritmo monótono dos tambores sagrados. São lamentos que o vento
arrasta pelos caminhos do mundo, enquanto os homens dançam nos terreiros negros,
evocando humildes, os orixás favoritos.
13.2 O escritor e a política
c/foto
Tr
Prosseguindo no intuito de divulgar, aqui, a opinião de vários intelectuais a respeito da
questão que ora agita todos os círculos da inteligência, ou seja, da participação do escritor na
política, daquilo que o francês chama e l’engagement de l’écrivain, transcrevemos, hoje, mais
um depoimento. É o de Michel Simon, intelectual francês que esteve entre nós, faz pouco
tempo, estudando a nossa arte popular. Foi a seguinte sua resposta à nossa pergunta:
“o escritor deve tomar partido ou pode ele se conservar “au dessus de la méléé”, como
Romain Rolland durante a outra guerra?
Eu vou responder em normando (os normandos têm reputação, entre nós, de serem muito
espertos, e de não responderem, jamais nem sim nem não, às perguntas que se lhes
apresentam). Não em entendam assim; é, apenas, um meio de tornar claro o meu pensamento.
Então:
a) eu creio que o escritor, se ele é homem e se tem um coração, não pode se desinteressar
dos problemas criados pela miséria e pela injustiça. O escritor deve, pois, tomar partido. Ele
deve sair de sua torre de marfim, descer às ruas, olhar os semblantes, interrogar, se inclinar,
se oferecer. É muito simples não tomar partido.(ademais será isso possível ainda hoje?)
b) Mas, o escritor deve ser mobilizado de uma forma inteligente. Deve ser mobilizado de
maneira a usar suas qualidade de vigia. Ele deve tentar dominar o problema contingente e
olhar o futuro.
Sua posição é, dessa forma, muito inconfortável, pois como que joga sobre dois quadros: é
mobilizado e deve preservar, ao mesmo tempo, aquilo que Gide chama sua disponibilidade.
Esta posição inconfortável, todavia, é a mais heróica.
13.3 Essas nossas sociedades!...
(c/ caricatura)
tr
José Geraldo Vieira é, inegavelmente, um dos bons romancistas nacionais. O último livro
que nos deu, no entanto, não corresponde às suas qualidades de ficcionista. Talvez fosse
melhor dizer que ele abusou dessas qualidades, se ainda hoje, considerássemos o romance
como obra apenas da imaginação. Em A Túnica e os Dados, seu último livro, ele nos dá a
impressão de um artista cansado de sua arte, desesperadamente à procura de novas formas de
composição e de técnica, oprimido por sua terrível ânsia de criação, mas, desgraçadamente,
impotente para satisfazer essa ânsia. E o resultado foi esse livro que, pouco entendido, tem
sido elogiado, inclusive pela “Sociedade do livro do mês”, que o premiou como um dos
melhores romances da moderna literatura brasileira. Houve mesmo quem dissesse que ele
obriga a ser lido de uma assentada, enquanto outros nele viram uma grande experiência de
cultura e da vida, com amplas perspectivas no desenho do enredo, no retrato dos personagens,
na experiência técnica, etc.
Não há dúvida que se aproveita alguma coisa desse romance de José Geraldo Vieira.
Quando nada, ele tem o mérito de haver sido escrito pelo autor de Território Humano, A
mulher que fugiu da Sodoma e A quadragésima porta, livros que ficarão na nossa literatura,
como obras de grande significação, e valor literário. No mais, ele é fraco ou confuso, ou
apenas bem escrito, como é o caso da fuga do menino Jaiminho, que tantos elogios tem
merecido, mas que não oferece nada de original ou particularmente digno de importância.
Quanto à decantada questão da renovação da técnica, a impressão que se tem é a de que o
autor, angustiado por um desejo imperioso de novidade, caiu, lamentavelmente, no fracassado
processo exibicionista que surgiu, daquela longínqua “Semana da Arte Moderna”, em São
Paulo. Veja-se, por exemplo o seguinte trecho do romance:
“Por um tempo úmido e brumoso, chegava a toda velocidade a São Paulo, o rápido de
Pederneiras. O nevoeiro era tão cerrado que, às sete e meia da manhã, não se podia distinguir
à direita e à esquerda da via férrea, coisa alguma pelas janelas dos vagões. Desde o romper do
dia estavam sentados um diante do outro, rentes à mesma janela, dois passageiros, ambos
esquisitos e ambos desejosos de travar conversa. Que estranha casualidade se via posto um em
frente ao outro, nessa carruagem de segunda classe”
(Ora, todo o período, acima descrito é literalmente, exceto o nome da localidade da
baldeação, e da cidade de destino, o começo traduzido do livro O Idiota, de Dostoievski. Mas,
em vez de plagio, é mera coincidência!)
As palavras contidas dentro dos parênteses, os parênteses e o grifo são nossos, são de José
Geraldo Vieira, transcritos diretamente de A Túnica e os Dados. Isso é tão absurdo e denota
um tão acentuado mau gosto, é tão ridículo, que dispensa comentários. Mas, se o leitor quiser,
ainda encontrará no livro coisas parecidas, como os sonhos simultâneos de Phill e Absalão
384
Levineck, que trazem os títulos, respectivamente, “Tornando a subir os campos Elíseos” e
“Baladas do infante nas Selvas da Nova Guiné”, distribuídos, nas mesmas páginas, um ao
lado do outro, e, ainda, o de Jaiminho, mais adiante, “Um outro sonho ainda mais bonito”. E
muitas outras coisas iguais, lamentavelmente escritas por um autor da responsabilidade
intelectual de José Geraldo Vieira. Enfim, é um livro premiado e elogiado. Coisas da literatura
brasileira...
13.4. Flagrantes
Res - Publicação em Paris da peça extraída do romance de Kafka, Le Procés, idem título.
Por André Gide e Jean- Louis Barrault.
Tr- Corre, com insistência, a notícia de que o sr. Benedito Valadares, um dos muitos
políticos do Brasil, não contente em agredir a política, vai agora agredir a literatura,
escrevendo um romance. Esperidião, é o título, será, ao que se divulga, uma sátira ao meio
político brasileiro. A surpresa é muito grande, pois o sr. Benedito Valadares foi, sempre,
considerado um homem de poucas letras...
Res – Nome de Anatole France dado, pela Cidade de Paris, à uma rua paralela à outra
denominada Voltaire.
Res- Lançamento do livro de Pedro Ivo, romance Caminho sem aventura.
Res- Novo romance de Permino Àsfora, Fogueira verde.
13.5. Continuam a viver os personagens de Ibsen
com foto
tr
É certo que podem haver divergências, quanto à análise do homem que Ibsen foi. Suas
origens, as várias influências de sua formação, os sentimentos que o animaram, tudo isso pode
ser analisado e interpretado de modo diverso, embora seguindo, sempre, um esboço do qual
ninguém se pode afastar. Quanto à sua obra, a interpretação é quase sempre a mesma. Isso
porque, gênio como foi, Ibsen escreveu dramas universais e eternos, como se possuído de uma
estranha e singular força de penetração. Posto que restringindo o ambiente geográfico de seus
dramas à Noruega, sua terra, seu cenário é o mundo, o universo inteiro, seus personagens
tanto vivem nas noites frias do Norte misterioso e lendário, quanto habitam os quentes países
dos trópicos, aqui ouvem estrelas e arremetem moinhos, ali esquenta, as sagas que correm os
gelos eternos do Setentrião. Um dos maiores dramaturgos de todos os tempos, e o maior do
século XIX, sua obra é eterna, indestrutível. E só poderá morrer com o derradeiro dos
homens, quando, com ambos, desaparecerem também os problemas humanos.
E essas são verdades tão simples e claras, que não há como fugir à sensação de
desencanto e decepção que nos oferece a leitura de certos trechos, como um de Klabund, na
sua História da Literatura.
“Eu, quando ginasial, gostava de Ibsen, de seu mestre de obras Solnss, que construiu
pelo céu adentro, do amigo do povo, de Nora, “a mulher incompreendida”, e da excêntrica
Hedda Gaber. Mas, agora, quer parecer-me que todos os seus símbolos perderam um pouco
do valor e somente o Fausto nórdico “Brand”, o “Peer Gynt” e seus últimos dramas “John
Gabriel Borkmann” e “se nós mortos despertamos” ainda me falam à alma. Os problemas de
que Ibsen trata, já não são mais problemas para nós. São problemas demasiadamente
exteriores ao homem e que dele se aproximam, são corvos que voam em torno dele. Por que
este não os enxota, antes que eles lhe arranquem os olhos?
Os corvos costumam aproximar-se só de cadáveres.”
Ao contrário de Ibsen, parece que Klabund, do tempo de ginasiano à maturidade, apenas
regrediu, em lugar de evolver. E tanto regrediu, que não mais enxergou os muitos doutores
Stockmann, os Peter Stockmann e os Aslaksen que ainda hoje, infelizmente, povoam o
mundo, armados dos mesmos sentimentos contraditórios e aniquilados pelos mesmos
problemas comuns. E tantos outros personagens e problemas ibsenianos, que encontramos em
cada esquiva, a cada minuto, mas que inexistem para esse infeliz candidato a historiador da
literatura, cuja afirmativa contida nas primeiras linhas do livro, parcial, inexpressiva e absurda
como a crítica a Ibsen, é a prova provada da sua ausência de espírito crítico:
“Como prova infalível da existência de Deus, eleva-se no espaço e no tempo, no sonho
e na eternidade, o edifício místico da literatura universal”
Quando muito, isso poderia ser um mau verso de um péssimo poeta modernista...
13.6. A vida é uma grande prisão
c/caricatura
res
Pelo menos para Miguel de Cervantes. O resenhista discorre sobre as prisões de que foi
vítima o escritor. A primeira se deu quando aquele era um soldado de regimento de Moncada,
no retorno à Espanha o navio foi tomado por piratas e o escritor foi feito prisioneiro durante
cinco anos em Algeria. Sua excomungão pela Inquisição por ter requisitado, como comissário
de abastecimentos da “Armada Invencível”, forragens pertencentes à igreja e ter cometido
irregularidades financeiras, esta foi a segunda. A terceira prisão foi em Sevilha quando era
arrecadador de impostos em Andaluzia. A quarta prisão em Valladolid. A quinta quando
ocorre um assassinato nas vizinhanças de sua residência e ele foi incriminado. Também citouse nesse texto suas tentativas de insurreição.
13.7. No prelo e nas vitrinas
res
- A condição humana, romance de André Malraux, tradução de Lívio de Almeida,
edições Mundo Latino, venda: Livraria Progresso.
- A Du Barry, biografia de Edmond e Jules de Goncourt, tradução de Modesto de
Abreu, editora Vecchi, na vitrina da Livraria Progresso.
- Luz do Pântano, poesia, de Bueno de Rivera, lançamento de Livraria Olympio.
14. Data
29/04/48;3
TÍTULO DO ARTIGO
Nem as honras de uma falência honesta
Está na ordem do dia do debate nacional o cabuloso problema do petróleo. Não apenas o
governo discute o assunto, mas o próprio público o debate também, interessado que está numa
solução o quando possível urgente. A questão, agora , não se prende, simplesmente, à
existência do petróleo, como há algum tempo passado, quando muitos dos mesmos senhores
386
que hoje apregoam a entrega do minério aos monopólios estrangeiros negavam a sua
existência em terras do Brasil. E como já é impossível negar essa existência ou dizer que o
nosso combustível não é comerciável, vai sendo a questão colocada em outros termos,
referente à exploração do ouro negro, com uma série mais ou menos longa de perguntas:
quem deve explorar o nosso petróleo? O capital nacional ou estrangeiro? Ambos? O capital
oficial ou misto? E nesse emaranhado de perguntas, feitas para atrapalhar e confundir, o
debate vai assumindo um caráter pouco animador, como que a evidar os indisfarçáveis
propósitos dos que, por maioria, se consideram os donos da decisão final, aliás, infeliz decisão
final.
Não se pode nem se deve por em dúvida a importância e a gravidade da questão. O
petróleo nacional vem se arrastando há muitos anos, entre os protestos, a má vontade e a
sabotagem de uns e a perseverança quase mística de uns pouquíssimos. Querendo, a todo
custo, emergir de um solo incrivelmente rico e desgraçadamente abandonado, foi o petróleo
de tantas vezes rechaçado para as profundezas da terra, com o criminoso entupimento de
poços e o expediente tão em voga do retardamento burocrático. Sem se falar no
desaparecimento de maquinário, em condições algo misteriosos, para as quais os interesses
internacionais contribuíram de modo decisivo e definitivo...
O aspecto mais sério do problema, não é o técnico nem o econômico, mas o moral. Este é o
que deve assombrar e estarrecer aos que não estão habituados a contemplar o espetáculo, a um
só tempo ridículo e triste, dos bastidores do palco político. E este aspecto é o referente à
criação de novos obstáculos, que vão sendo inteligentemente arquitetados como o intuito de
impedir, retardar ou tomar a exploração do cobiçado ouro negro. Isso significa que, mercê da
graça de uns bons patrícios, estamos participando de uma batalha gigantesca, para a qual não
estamos nem aparelhados, tendo como contendores hábeis veteranos, acostumados à luta
sempre misteriosa em outros fronts. Nada disso, no entanto, teria maior importância, o
problema praticamente não existiria, se os nossos homens públicos, em sua maioria,
estivessem habituados a uma atmosfera de independência moral; se os nossos políticos não já
se houvessem viciado ao cabresto e as esporas dos chefes e dos caudilhos, se eles fossem
homens livres, capazes de sentir, pensar, agir, e dizer sem receios ou temores. Mas, a regra é a
do rebanho dócil, que logo atende aos primeiros sons mágicos da flauta de prata.
Parece incrível que homens afirmem a impossibilidade de nós próprios explorarmos o
nosso petróleo. Não nos falta dinheiro para os palácios suntuosos, onde se instala a
esterilizante burocracia. Não se medem despesas, quando se trata de ostentar nas recepções
oficiais. Não se procura indagar da eficiência ou deficiência dos cofres públicos, quando se
aumentam os subsídios dos ilustres deputados ou os vencimentos da magistratura e das forças
armadas. Desaparecendo o escrúpulo, quando se trata de criar sinceras ou agraciar afilhados.
Não há discussões nem processos, quando se desvia dinheiro oficial em misteriosas
empreitadas. Mas, para explorar o petróleo, não temos dinheiro. Necessitamos apelar para
quem nos namora por tudo, menos pelos nossos bons ou bonitos olhos... E logo corremos,
ansiosos de um cabresto e saudosos de um chicote, em busca de um senhor onipotente e
sádico que nos exige tudo e não nos dá coisa alguma. Nada mais humilhante e vergonhoso.
Degrada e denigre que nos entreguemos tão facilmente, em prostituição mais lamentável do
que a das mercenárias das beiras do cais.
Não se concebe que os homens e o governo do Brasil não possam explorar suas próprias
riquezas. E se somos um país pobre, esfarrapado e faminto, como se argumente, o de que
necessitamos não será estender a mão, como esmoleiros incapazes e doentes que a outros
entregam a decisão de seus próprios destinos.
O problema se nos afigura, tão somente, como de honestidade e independência moral. Mas,
a tal ponto chegou a sem-cerimônia e ganhou foros de rotina a desonestidade, que se não
hesita em proclamar uma falsa incapacidade nacional, em troca de favores milionários. Já foi
dito que esta é a pior época da nossa acidentada história. Homens da mais alta
responsabilidade intelectual – raros hoje em dia – não se cansam de afirmar que estamos
sufocados por tremenda crise de caráter. Afirmativa dolorosa e triste, que se comprova a cada
hora e a todo instante, no ramerrão do cotidiano, com o servilismo dos homens que governam
e dirigem, dispostos sempre a se curvarem beijando a mão de seus senhores poderosos.
Apologistas da filosofia sedutora dos trinta dinheiros, esses homens fazem do caráter
mercadoria barata e sem valor, que se vende em qualquer esquina, e o resultado é isso que aí
está, uma crise maior e mais geral, que atinge a todos os setores da nossa vida. Em meio a ela,
o petróleo o mesmo petróleo que fez a desgraça da Venezuela, escravizou povos, forjou e
forjará guerras de rapina, para alimentar o polvo insaciável do monopólio.
É possível que esse novo e mais vergonhoso capítulo da história do nosso petróleo ponha
fim ao drama, com o epílogo que todos os homens honestos receiam: a intervenção do
monopólio internacional na exploração do minério, o que significará, desgraçadamente, a
nossa ruína econômica e o recibo melhor da nossa crise de caráter. Mas, se tal acontecer, será
aconselhável que os vendilhões, uma vez feito o rendoso negócio, partam daqui para gastar o
dinheiro nos cassinos que se inaugurarão em Wall Street. Antes, porém, fechem as portas do
país, nas quais não poderemos colocar nem mesmo a animadora taboleta de “fechado para
balanço”, de vez que estaremos falidos. E o que é muito pior, falidos sem as honras de uma
falência honesta.
15. Data
08/05/48;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
15.1. Variações
tr
Naquela madrugada o vento era tão forte, que as acácias pareciam doidas bailarinas
dançando na praça deserta. Aproximei-me mais da janela, e julguei ver, caminhado a passo
lerdo e cansado, um vulto cabisbaixo, como que indiferente ao vento e à dança das acácias.
Mãos cruzadas para trás, o vulto estacou e ficou olhando a esmo... Nunca mais esqueci isso e,
não sei porque, tenho sempre a impressão de haver visto Verlaine compondo uma canção:
Et je m´en vais
Au vent manvois
Qui m’emporte
Deça, dela.
Pareil á la
Fenille morte.
15.2. O escritor e a política
tr
Aimé Petri, redator-chefe da revista Pary, opinou a respeito da discutida questão,
lembrando o que o escritor Denis Rougement, que pôs a palavra engagé em voga antes da
guerra, deve estar bem arrependido do uso abusivo que está se fazendo desse vocábulo. Diz
388
A. Petri “que ninguém poderá contestar ao intelectual o direito de pertencer ao seu tempo e ao
seu país. Impõe-se-lhe esse dever, como homem e como cidadão, mas não como intelectual.
Que coloque, antes de tudo, seu talento, se é que o tem, ao serviço de suas convicções,
ninguém tem nada com isso, nem o pode censurar; é, antes pelo contrário, um fato muito
admirável. O perigo – e grave perigo – consiste em confundir o talento com as convicções. O
fato de termos escrito um bom romance, ou feito uma descoberta genial em matéria de ciência
ou de filosofia, não nos qualifica mais do que qualquer outro homem, quando se trata de
emitir uma opinião sobre o assunto. Não se devem confundir os méritos ou deméritos do
escritor, com os do homem de partido.
Referindo-se, depois aos erros da noção de engagement nos meios literários, cita o caso de
André Gide “simultaneamente atacado pelos de vichy, porque participava da Resistência e
pelos resistentes porque colaborava com vichy, e atacado por motivos semelhantes, o que
constituiu grande exemplo... As grandes obras, quaisquer que elas sejam, não podem imunizar
um homem perante a justiça de seu país”. Finalizando, diz M. Petri: “Seria de desejar que as
polêmicas políticas fossem de encher as páginas literárias, que o clima moral da crítica, seja
saneado e que não se agrave, sob o pretexto de engagement, a confusão de todos os valores”
15.3. Miniatura
c/foto
tr
Nenhum outro escritor disputa com Graciliano Ramos a preferência do público. A crítica é
unânime em reconhecer nele o maior romancista nacional e as constantes reedições de seus
livros traduzem a franca aceitação que a sua obra tem merecido. Nascido em Quebrangulo,
Alagoas, a 27 de Outubro de 1892, Graciliano, antes de se transformar no grande escritor que
hoje é, foi comerciante, poeta fracassado, revisor de jornal e até prefeito do interior!... vem
daí, talvez, seu grande conhecimento da vida, sua experiência longa e amarga das coisas e dos
homens, fatos que se revelam a toda hora e todo instante em seus livros densos e bem
trabalhados.
Sua existência tem sido acidentada desde a infância. Seu pai, Sebastião, casado com a filha
de um fazendeiro de gado, foi obrigado a deixar Quebrangulo quando Graciliano estava
apenas com dois anos de idade, indo morar em Brique, Pernambuco, onde comprou uma
fazenda, nela passando a viver com sua mulher e os filhos. Mas, veio a seca, o mesmo e
eterno drama do nordeste, e Sebastião, morre seu gado e arrasadas suas plantações, montou na
vila uma pequena loja. Aí viveu durante algum tempo Graciliano Ramos, passando depois a
Viscosa, Maceió e Palmeira dos Índios, em cujas cidades seus olhos de criança e de rapaz
viram a vida passar, feia, horrível, cheia de incoerências e absurdos, um sucessivo espetáculo
de dramas e angústias que marcou definitivamente o espírito do escritor. Em 1914 foi para o
Rio de Janeiro, de onde voltou para o nordeste. Foi depois que esteve como Prefeito em
Palmeira dos Índios, Alagoas, durante dois anos, onde era o homem mais culto da terra,
bodequeiro, o célebre major Graça. Aí aconteceu um dos curiosos fatos de sua vida. Findo o
seu período na prefeitura, escreveu Graciliano um curiosíssimo relatório, que, publicado na
íntegra no “Diário Oficial”, logo foi transcrito em vários jornais de Alagoas e do outros
estados do nordeste. Eis alguns trechos desse nada burocrático relatório de um curioso
prefeito, transcritos no “correio da manhã”, de 7-15-47:
“Encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela - dentro uma resistência mole, suave,
de algodão em rama, fora, uma campanha soma, oblíqua, carregada de leis. Pensavam uns que
tudo ia bem nas mãos do nosso senhor, que administrava melhor do que todos nós; outros me
davam três meses para levar um tiro. Dos funcionários que encontrei em janeiro e do ano
passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os
atuais se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se
enganam em contas”
“No cemitério enterrei $189,00 – pagamento ao coveiro e conservação”
“Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco. Dos ordinários vai para
eles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos, forçados pelos inspetores, que
a Prefeitura do Interior não punha alarme, proclamando que a coisa foi feita por ela:
comunicou-se as datas históricas ao governo do estado, que não precisa disso; todos os
acontecimentos políticos são badalados, porque se derrubou uma pedra na rua – um
telegrama; porque o deputado esticou a caneta num telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente
sabe que isso por aqui vai bem, que o deputado, morreu, que não choramos e que em 1556 D.
Pedro Sardinha foi admitido pelos Caetés.
Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates, todos os meus erros,
porém, foram erros de inteligência que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam
ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há descontentamento. Se a minha estrada na
Prefeitura por esses dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos.
Paz e prosperidade. a) Graciliano Ramos.”
Esse relatório foi publicado nos jornais do Rio, e o editor-poeta Schimidt imaginou, então,
que Graciliano devia ser autor, também de algum romance. E foi assim que Caetés, escrito em
1926, veio a ser publicado em 1933 marcando uma vitoriosa estréia para o mestre do romance
nacional. Vieram, depois, São Bernardo, em 1934, Angústia, em 1936 e Vidas Secas, em
1938, além desses romances, Graciliano publicou Histórias de Alexandre, folclore, em 1944,
Infância, memórias, em 1945, Dois Dedos, contos, 1945, Histórias incompletas, 1946 e
Insônia, contos.
A obra de Graciliano é de considerável importância para a literatura nacional, e Raquel de
Queiroz já escreveu que, “se por uma catástrofe natural ou política, sumisse num incêndio
toda a literatura brasileira e só sobrasse do fogo os livros de Graciliano Ramos, - bastariam
esses romances para justificá-la! Sozinhos eles afirmariam que nos seus três séculos de vida a
nossa literatura não existira em vão”. Seus personagens vivem, e vivem intensamente. Embora
homens simples, algumas vezes rústicos, esses personagens, que se movimentam em
ambientes vulgares da vida ordinária, são arruinados por sensações pouco comuns e
sentimentos complexos. Parece que a preocupação maior do romancista é a de , pesquisando,
estudando, analisando, exibir o caráter humano em toda sua rudeza. Pô-lo em, sem
subterfúgios nem rodeios, com todos os seus defeitos, vícios, erros, virtudes, temores e
receios. E, embora se afigure paradoxal, o juízo que faz dos homens é o pior e o mais frio
possível, chegando mesmo ao ódio, ao desprezo, ou à indiferença. Sua humanidade é sempre
miserável, quando não mesquinha. Preocupa-se demasiado com a paisagem interior, enquanto
que a exterior somente chega aos seus personagens através das sugestões que oferece, como
pontos de referências para uma análise da vida. Pessoalmente, Graciliano é um homem meio
esquisito, esquivo, pouco dado à publicidade, chegando mesmo a ser malcriado. Vive
atualmente no Rio de Janeiro, onde exerce a profissão de jornalista, e as funções de inspetor
de ensino. Foi preso durante o Estado-novo, sob a acusação de comunista. Recolhido ao
presídio de Ilha Grande, aí esteve durante algum tempo, distribuindo os cigarros que recebia
com outros detentos e sempre observando e analisando a vida. Temperamento retraído, meio
introvertido, Graciliano, sobre ser considerado o maior romancista brasileiro, é um dos mais
curiosos tipos de escritor. Não produz apressadamente, como alguns fabricantes de livros e
dizem mesmo que leva vários dias atormentado quando lhe foge algum termo, na redação de
uma obra, não prosseguindo senão quando o encontra. E de tal forma é o temperamento de
Graciliano que, certa feita, escreveu um crítico que havia no autor de Angústia uma profunda
influência de Machado de Assis, ali denunciada não só pelo sentido de sua obra, como pelo
390
estilo em que é escrita, correto, quase clássico. O major Graça responde categórica e
fulminantemente, que jamais havia lido antes Machado de Assis...
15.4. Anatole France
c/foto
Tr
Além de romancista, Anatole France foi, também, poeta, historiador e crítico. Mas,
inegavelmente, foram seus contos, admiráveis de serenidade mental e fina ironia, que lhe
trouxeram a consagração e a glória. Extravasados num estilo aparentemente fácil mas que
encobre dificuldades enormes, insuperáveis à grande maioria dos escritores, esses contos têm
o dom misterioso de arrastarem o leitor da primeira à última página. Em cada frase, em casa
palavra de Anatole, oculta-se uma negação, uma dúvida de sábio que tudo conhece e tudo
penetra ceticamente.
Suas expressões são coloridas, sutis, duma profunda delicadeza e perfeição. O processo
mental de Anatole é o do escritor superior, versado em todas as literaturas e todas as ciências,
ultra-civilizado, filho da mais variada, ampla e inquieta cultura que já floresceu. O autor de
Silvestre Bonnard é um dos prosadores mais perfeitos, não somente de nosso tempo mas de
todas as épocas e todas as nações. Entre seus livros de contos mais notáveis, figura L’estui de
nacre. Como romances, avultam em valor literário e estilístico Thais le’lys rouge historie
conuque, uma história trágica com um título ironicamente errado.
Anatole aparece em todos os seus livros e um pouco em cada personagem, como, aliás,
muitos outros escritores. Afeito à inatividade dos livros desde a infância (o pai era livreiro),
ele manifestou logo grande curiosidade de saber, que continuava insatisfeita até quando
morreu, em idade avançada. O estudo com que estreou nas letras, sobre Alfred de Vigny
trouxe-lhe a consagração. É que Anatole sabe, como nenhum outro, imprimir colorido local às
histórias que escreve ou estudos que realiza: quem lê Thais tem a impressão de estar diante
dum manuscrito grego dos primeiros tempos da civilização cristã, isso principalmente pela
informação histórica que se esconde através de suas páginas. A serenidade de Anatole provém
da imensa quantidade de obras clássicas que andou lendo, por toda a vida, daquela cultura
grega que ele assimilou na totalidade, pois lia Homero e Eurípides nos originais, desde a
infância.
No Pierre Noziere, sua autobiografia, não há indulgência nem estilização preconcebida,
como acontece com muitos que escrevem na primeira pessoa. O livro é fácil, delicioso, e
cheio das mais ingênuas e ao mesmo tempo sábias recordações da infância do escritor. O
legado literário de Anatole France é enorme, não só à França, mas a todas as culturas.
15.5. Uma floresta impenetrável
c/foto
Tr
Joyce é um dos mais discutidos através do século. Sua obra incita polêmicas no mundo
inteiro, menos, talvez, pela sua importância e significação, do que pela confusão e
incompreensão em que ela deixa os leitores. E as divergências recaem muito mais sobre o
volumoso Ulysses que sobre qualquer outro livro seu. Denso, quase impenetrável, esse
romance já motivou inúmeras interpretações, cujos números de páginas ultrapassam, de
muito, as suas próprias: Joyce o escreveu entre os anos de 1914 e 1921, nas cidades de
Trieste, Zurich e Paris. Ora considerado uma obra-prima, ora um livro vulgar e seu maior
significação, acusado de imoral aqui e ali apontado como das melhores contribuições da
literatura à vida humana, Ulysses é um livro difícil, complicado, muita vez absurdo, quer na
técnica, quer no conteúdo, e para que bem se calculem as suas dificuldades, basta citar o caso
da tradução para o castelhano, feita por J. Salas Subirat, cuja elaboração durou de 1940 a
1945! Acrescente-se que os nossos tradutores ainda não se atreveram a enfrentá-lo...
15.6. Flagrantes
Tr- Esteve nesta Capital o escritor e jornalista Rafael Correa de Oliveira, que pronunciou
admirável e bem documentada conferência sobre o petróleo nacional, condenando a
intervenção do capital estrangeiro na exploração do nosso minério. Realizando expressivo
estudo à luz da verdade histórica, Rafael Correa de Oliveira demonstrou o papel anticivilizador e até mesmo escravagista dos monopólios particulares.
Rs – Refere-se ao estado de saúde de Monteiro Lobato.
Rs – Sobre a filmagem de Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, pela M.G.M, cita os
atores.
Rs - Lançamento, para breve, de Suíte Brasileira nº2, de Marques Rabelo.
15.7. Um quebra – quebra literário
c/desenho
Tr
Lêdo Ivo, jovem poeta e romancista alagoano, externou em “Argumento no Muro”,
publicado na revista Província de São Pedro, uma curiosa opinião a respeito da poesia
modernista brasileira. Diz Lêdo Ivo, textualmente:
“Há um mal entendido acerca dos srs. Murilo Mendes, Manuel Bandeira, Carlos
Drummond de Andrade e outros grandes poetas do modernismo. Os seus escritores deveriam
tratar de torpedeá-los enquanto é tempo, libertando-se de sua magia prejudicial. O caminho
deles vai ter a um muro, que está sempre atrás do infinito. Pensamos que nos construímos
com o seu talento, mas em verdade estamos empatando o nosso tempo fagueiro. O maior
escritor de minha geração será aquele que organizar uma romaria ao túmulo de Olavo Bilac e,
regressando à noite do cemitério, dirigir um quebra-quebra literário, jogando uma pedra na
vidraça da janela onde o sr. Drummond fita o mar, atiçando os vinte e sete cachorros que
protegem a casa do sr. Murilo Mendes, surrando o sr. Lins do Rego e provando que toda a
obra do sr. Manuel Bandeira posterior a “Ritmo Dissoluto” é indigna até de uma citação”.
Aí está uma sugestão que não é das piores... É até muito boa. E seria ainda melhor, se
incluísse o sr. Schmidt, com os seus poemas e as “páginas do galo branco...”
16. Data
22/05/48;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
16.1. Variações
tr
392
Há no mundo uma tão clara manhã, tão alegre e feliz, que a gente como que encontra
em cada canto e em cada coisa uma sugestão de paz. Mas, os homens que provam a vida só
falam em guerra e em luta, e só adoram o sangue e só pedem a morte.
E desde cedo dão aos filhos soldados e canhões de chumbo, para que brinquem de matar e
de morrer. E ensinam que a vida é uma guerra, sem trégua, na qual vence quem matar melhor.
* * *
Anotações à margem da leitura: Zola foi tão grande que não coube no seu tempo. Risque-se;
lugar comum inexpressivo e idiota. Preferível: Zola vive e tem finalidade. É um exemplo e
um guia.
16.2. O escritor e a política
c/foto
tr
Jorge Amado, um dos melhores romancistas brasileiros, é um ativo participante da política.
Entende ele que ao escritor não é dado fugir aos problemas de seu tempo, do seu país, do seu
povo, sem que se pratique um crime contra a paz da humanidade. Na sua opinião, devem os
escritores participar intensamente da política, a fim de que possam melhor cumprir uma
verdadeira missão. Falando a respeito, e em nome dos escritores antifascistas, no 2º
Congresso Brasileiro de escritores, reunindo em Belo Horizonte, disse o seguinte:
“Não nos cabe, ante as ameaças à paz e ao regime democrático, à Constituição, uma atitude
de neutralidade ou de expectativa, sem que com isso faltássemos ao nosso mais elementar
dever”.
16.3. Fora da vida
c/ foto
tr
No atual panorama brasileiro, o conto vai ocupando um lugar cada vez mais apagado, em
virtude do fato de certos escritores, incapazes de qualquer realização em outros gêneros
literários, se lançarem à derradeira tentativa, fabricando contos. Entendem que, sem as
proporções gigantescas do romance e sem as exigências caprichosas da verdadeira poesia, o
conto seria, nesse caso, o gênero mais fácil e mais acessível. E daí, a decadência do conto
brasileiro, que Machado de Assis e Monteiro Lobato, entre outros, elevaram a uma posição
invejável de prestígio e de glória.
Tais considerações vêm a propósito da leitura de um bom livro de contos, Fora da Vida de
Vasconcelos Maia. Com esse livro, de estréia, o jovem escritor baiano realizou uma obra que
merece atenção. É um trabalho que, se não é perfeito, como não o é, na realidade demonstra
vocação, seriedade e estudo, fatores indispensáveis a qualquer realização literária. A
literatura, como obra de arte não é uma simples aventura, a seduzir espíritos irresponsáveis ou
a convocar aqueles que não sabem fazer coisa nenhuma. Arte, tanto quanto a pintura, e a
música, a literatura exige vocação, estudo paciência. Tem uma função, ou muitas funções, e
não deve ser confundida com o diletantismo de certos senhores desocupados. E Vasconcelos
Maia é, sem dúvida, uma vocação literária. Necessita desenvolver essa vocação e aperfeiçoala, à custa de estudo e de trabalho. Seus contos revelam uma rara capacidade de sentir, embora
sua maneira de traduzir o que sente ainda esteja eivada de erros e de falhas, lamentáveis, por
isto que destoam do conjunto, mas perfeitamente desculpáveis pelo fato de se apresentarem
um livro de estréia, e mais estréia de um jovem de vinte e poucos anos. Não se trata aqui, de
erros de gramática, de falhas na colocação dos pronomes, mais sim, de erros de técnica e
falhas de estilo, que Vasconcelos Mais evitará, por certo, em seus novos trabalhos, quando
adquirir mais experiência e mais domínio no manejo de linguagem. Aí, então, fugirá a certas
expressões de mau gosto literário alcançando, com estética, com senso artístico, o efeito
desejado.
Como quer que seja, todavia, Fora da vida revela uma grande vocação de contista. E o seu
autor, com mais experiência, mais estudo, mais pesquisa literária poderá enriquecer esse
gênero, desgraçadamente decadente, da nossa literatura.
16.4. Destinos diferentes
tr
Faleceu, faz pouco tempo, esquecido e quase sem glória, o poeta Jules Salusse, deixando
uma bagagem poética mais ou menos volumosa. Destino diferente do seu, sem dúvida, tem o
célebre soneto, Os Cisnes, de sua autoria, que ofuscou o resto de sua obra, e que figura em
quais todas as antologias de língua portuguesa, coberto de glória e de fama, lido e relido,
muitas vezes sem que os leitores saibam o nome do autor. Jules Salusse desapareceu aos 76
anos de idade na Capital Federal, onde exercia a profissão de advogado. O famoso soneto de
sua autoria foi escrito há cinqüenta anos atrás, em Nova Friburgo, numa noite chuvosa,
enquanto a solidão e o tédio enchiam a alma angustiada do poeta. Transcrevemo-lo abaixo,
numa homenagem ao seu autor:
A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós, constantemente,
Um lago azul sem ondas, sem espumas...
Hoje ele quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas!
Um dia um cisne morrerá, por certo;
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,
Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nada nunca ao lado de outro cisne...
16.5. Sartre e a poesia
c/foto
Tr
Jean Paul Sartre, o chefe da nova moda literária – o existencialismo – tem sido justamente
acusado por diversos escritores e políticos, como Papini, Cecille Angrand e outros. Mas,
Sartre não se dá por vencido, e prossegue no seu intuito de incutir no povo conceitos absurdos
e confusos, os mais das vezes deturpações de velhos conceitos de escritores do passado. E
quando tenta ser original, cai Sartre num ridículo detestável. Para ele, por exemplo, a poesia
394
está fora da literatura, é uma arte que não tem significação intelectual, como não seria, a seu
ver, a escultura, a pintura, a música. No seu modo de pensar – e com suas próprias palavras –
a poesia contemporânea não existe. E a escola poética mais atingida pela crítica de Sartre, é a
surrealista, justamente a de maior reputação na França.
“Esse tipo de poesia – diz Sartre – pretende desintegrar o indivíduo, reduzi-lo a um engodo
inconsistente num universo objetivo, e o que é pior, trata de destruir a consciência que cada
um de nós possa ter deste mundo, como não pode dinamitar todas as coisas, procura introduzir
dinamite no seio da consciência do leitor, para que, doravante, ele duvide de tudo. A
destruição é, com efeito, para os surrealistas, não somente um meio de abrirem caminho –
meio clássico para as escolas novas, mas um fim em si mesmo”. A seguir, passa Sartre a fazer
uma análise das relações da extrema esquerda literária com o comunismo, dizendo que o
acordo entre ambos, feito quando a “extrema esquerda política se coloca, por fraqueza, numa
fase deliberadamente destruidora, desfaz-se logo que a força política se sente bastante forte
para mudar de ótica e se tornar partido governamental” conclui o chefe atual do
existencialismo, fazendo uma tremenda crítica a André Breton, o teórico e pontífice do
surrealismo.
Respondendo a essa catilinaria de Sartre, Armand Hoog , numa curta, porém substancial
nota da NEF, consagrada à “permanência do surrealismo”, rebate os argumentos do autor de
O ser e o Nada, concluído que o “surrealismo tem um passado imemorial, e pelas suas forças
e seus fracassos acaba de nos falar da espantosa grandeza do homem e dos riscos de seu
destino”
16.6. Poeta e pintor
tr
Artigas Milans Martinez é um jovem poeta uruguaio, de muito pouca divulgação no Brasil.
Na Bahia, então seria um desconhecido, não fosse a correspondência que mantém com os
poetas nossos, Victor Aguiar e Camilo de Jesus Lima, Artigas que trabalha atualmente na
elaboração de uma antologia poética, é, também um bom pintor. Recentemente, na “primeira
Exposição Entrerriana de Artes Plásticas”, o jovem poeta de salto obteve, com os seus
quadros, o primeiro prêmio da secção uruguaia, distinção que bem evidencia os méritos
artísticos de Artigas Milans Martinez.
16.7. O derradeiro capítulo
c/caricatura
res
O escritor Papini, criador do famoso Gog, antes tendo sido futurista, até anticatólico e
acusado de comunista, é convertido ao catolicismo e aderido ao fascismo. Passou a escrever
biografias de santos. Autor de Palavras e Sangue e Gog, está escrevendo seu derradeiro
capítulo.
16.8. Uma ousada aventura
c/foto
Tr
Ainda hoje Upton Sinclair é considerado um dos escritores mais lidos da América do
Norte, não somente em virtude de ser muito grande a sua obra, como pelo fato de abordar os
mais palpitantes problemas populares, sempre convencido de que a desigualdade social entre
os homens é o grande único mal, do qual se originam todos os outros. Escritor de vanguarda,
publicou estudos sobre política, sociologia, saúde, religião, literatura infantil, panfletos,
ensaios, além das inúmeras novelas que escreveu. Uma delas, talvez a mais conhecida em
todo o mundo, The jungle publicada aí por 1905 ensejou ao grande escritor socialista uma das
mais curiosas e ousadas aventuras do século. Manteve-se essa novela, no balcão das livrarias,
durante mais de meio ano, revolucionando os meios literários e a opinião pública norteamericana, sem que outro qualquer livro lhe ameaçasse, nem de perto, o record de vendas. E
não demorou muito para que fosse traduzida em dezesseis idiomas. Isso significava, para
Upton Sinclair, uma renda fabulosa. Foi , então, que recebeu e realizou o ousado
empreendimento. Com o dinheiro obtido, criou, em 1906, em Nova Jersey, uma colônia
socialista! Lá estiveram Sinclair Lewis, John Lewey e William James, entre outros amigos e
companheiros de ideal. Vivia-se como deveriam viver todos os homens da terra. Em 1907,
todavia, a colônia foi quase totalmente destruída por um incêndio. E Upton Sinclair, abatido,
desgostoso, não quis recomeçar, ou não pôde, abandonando o seu incendiado paraíso da
compreensão e da solidariedade. Continuou, no entanto, a escrever, faminto, algumas vezes,
mas, sempre, um tremendo socialista, a criticar a sociedade contemporânea, com o seu
espírito inquieto e idealista.
16.9. Um suplemento
Tr
O Diário de Notícias, desta Capital, está publicando, todos os domingos, um suplemento
literário. É um bom empreendimento, o daquele jornal associado, procurando incentivar o
movimento cultural em nossa terra. E isso tem maior importância, pelo fato de somente A
Tarde de certo tempo para cá, vir mantendo [página] semanal, não havendo nenhuma outra
publicação dessa natureza.
A iniciativa do Diário de notícias,feliz e oportuna, vem trazer uma interessante
contribuição as qualidades culturais da imprensa.
16.10. Autocrítica
c/desenho
tr
Matthew Arnold é um dos grandes autores da era vitoriana na Inglaterra. Crítico
penetrante, de espírito agudo, foi também poeta de fino gosto e disciplina artística,
evidenciando a influência que recebeu das culturas helênicas e alemã. Logo ao início de sua
carreira literária, abandonou a poesia pela prosa, deixando, todavia, naquela, uma produção
que pode ser comparada à de seus dois grandes contemporâneos, Tennyson e Browning. Aqui,
apaixonada e ardente, ali, fria e ascética, a poesia de Arnold ficou como um dos mais lúdicos
documentos da tragédia que agitou a era vitoriana, e que foi o colapso de fé. Ao contrário do
prosador – que tanto se bateu pela eliminação de superstição grega em política, literatura ou
teologia – o poeta evocava os gregos, como que numa ânsia de alcançar um ideal de vida mais
perfeito, mais belo e mais simples. Isso muito contribuiu para que sua poesia fosse
considerada inferior à de Tennyson e Browning, e não conseguisse empolgar os homens de
sem tempo. O próprio Arnold compreendeu isso, e, com um raro senso de autocrítica,
escreveu, profeticamente:
“os meus poemas representavam, ao todo, o movimento principal do espírito do último
quarto do século, e, assim, eles terão provavelmente a sua época ,quando o público tiver
396
consciência do que seja o movimento do espírito e estiver interessado não em produções
literárias que o refletem. Pode mesmo ser dito, desde já, que eu tenho menos sentimento
político que Tennyson, menos abundância e vigor intelectual que Browning – talvez porque
tenha mais visão que qualquer um dos dois, e provavelmente a possuo, como eles tiveram a
sua oportunidade”
16.11. No prelo e nas vitrinas
res
- Luiz II da Baviera, a lenda e a verdade, de Aldo Oberdorfer, tradução Márcio Silva,
editora Vecchi, no balcão Livraria Progresso.
- Vida de Júlio Verne, biografia de uma imaginação, de George H. Waltz Jr, tradução
José Cesio Requeira Costa, Livraria Progresso.
- Nothing so strange, de James Hilton, pela Macmillan.
- Villete, de Charlot Bronte, nova edição da Pilot Press, E.E.U.U, cm 380 páginas,
novela, mesma autora de Jane Eyre.
- Dickens Ilustrado, edição ilustrada das novelas de Dickens, pela Universidade de
Oxford, em vários volumes.
17. Data
05/06/48;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
17.1. Variações
tr
Nada variou. Nem a vida, nem os homens, nem as coisas. Olhando do alto, o
panorama é o mesmo, igual, plano como há mil anos passados. É que o mundo, doido,
alucinado, parece assim uma pintura moderna, um aparentemente desordenado estudo de
cores. Tanto faz um lado, quando de outro, espiado de cima ou de baixo, não faz diferença.
Mas, há o detalhe, e esse é que difere. E o quadro é um conjunto de detalhes harmônicos, que
se interdependem e se entrelaçam... Concepção absurda de uma noite de insônia...
** *
Vejo, neste começo de tarde, uma leva de pequenos seminaristas. Pálidos, fundos,
quase agônicos. Guia-lhes um adulto sinistro, de barbicha negra, suja, e olhar de cera. Vejo-os
e fico triste, cismando. E não sei porque penso na juventude hitlerista, obediente, cega,
intolerante...
17.2 A cozinha bahiana
C/foto
Tr
Já está sendo anunciado o aparecimento, para breves dias, de um interessante livro sobre a
cozinha baiana. Trata-se de um trabalho cuidadoso e paciente do jornalista Darwin Brandão,
que reuniu várias de nossas receitas, agrupando-as num livro útil e singular. Nele figuraram
todas as comidas afro-brasileiras, molhos, bolos e doces, bebidas, os condimentos que exigem
e a exata maneira de prepará-los. O autor, que atua na imprensa diária desta Capital, é um
jornalista ativo, trabalhador e inteligente, que vem, desde algum tempo, pesquisando os
nossos costumes, focalizando nossos aspectos mais típicos, estudando o modo de vida das
nossas diferentes classes, numa série de reportagens para a Revista O Globo, de Porto Alegre.
Seu livro, que ora se anuncia, é o desdobramento de uma dessas reportagens, sua importância
foi bem acentuada por Edson Carneiro, que o prefacia, lembrando a importância da cozinha
baiana, “índice da cultura insular da Bahia”. É uma edição da livraria Universitária, que a
Souza distribuirá. Traz ilustrações, fotografias de Pierre Verger, figurando na capa um
desenho de Hélio Vaz. Será interessante, para os que estranharem um livro dessa natureza,
transcrever as últimas palavras do prefácio de Edson Carneiro:
“Daí que se possa dizer que este livro de Darwin Brandão talvez sirva de ilustração
também para muitos baianos, como certamente servirá para gente de outros estados,
estrangeiros e turistas. Nessas receitas de fabulosos quitutes se verifica a extraordinária
vitalidade, a peculiaridade da cozinha baiana. Uma dor de cabeça para certos baianos roídos
de preconceitos, uma satisfação enorme para muitos brasileiros amigos das tradições
populares”
17.3. Miniatura
c/desenho
Tr
A moderna poesia brasileira encontra em Manoel Bandeira um dos seus principais autores.
É ele personagem central desse drama que se desenrola no país inteiro: a poesia à procura de
seus verdadeiros e legítimos poetas, buscando ritmos naturais, forma, temas menos esotéricos,
tentando angustiada, encontrar seu autêntico sentido. Manoel Bandeira é uma personagem
desse drama, talvez a mais engalanada e a mais discutida. Nasceu o autor de Ritmo Dissoluto,
na cidade do Recife, em 1886, bacharelando-se, no ano de 1902, em Ciências e Letras, pelo
externato colégio D.Paulo II. Pretendeu, inicialmente ser engenheiro-arquiteto, matriculandose, para isso, na E. Politécnica de São Paulo. Mal iniciava o curso, todavia, no segundo ano,
foi obrigado a abandonar os estudos, em virtude de uma doença que exigiu que permanecesse
durante mais de um ano na Suíça, entre 1913 e 1914. Regressa, depois, ao Brasil, onde vive
até hoje. Exerceu as funções de inspetor do ensino secundário durante o período de 1935 –
1938. Foi professor de literatura no colégio D.Pedro II, de 1938-1943. Passa, em 1943, a
ensinar literatura hispano-americana na F. de Filosofia da Universidade do Brasil, cadeira que
ainda ocupa. Bandeira é imortal desde 1940, ano que ingressou na Academia Brasileira,
considerado um dos melhores, senão o melhor, dos nossos poetas modernos, pertence, ainda à
sociedade Felipe d’Oliveira, ao Conselho Consultivo do Serviço do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, tendo sido membro da extinta comissão de literatura infantil do M. da
Educação.
Sua posição na nossa literatura é, de certa forma, importante, embora haja quem negue
isso, como quer que seja, sua obra é vasta e os críticos louvam os poemas e poetas. A.
F.Schmidt, que acumulou funções de poeta e editor, chegou a dizer que “a luz da poesia de
Manuel Bandeira é única nas letras nacionais”. E ao poema fez o elogio José Lins do Rego,
escrevendo: “Eu sinto neste poeta um mestre da vida, no grande sentido da expressão”. São
opiniões pessoais, afetivas e exageradas, quando não frases de efeito, vazias sem maior
expressão. Mas, não se pode negar a alguns de seus poemas o valor que eles realmente tem,
particularmente os de Ritmo dissoluto, que muitos querem considerar como um marco
divisório entre as fases boa e má de sua poesia. Sua bibliografia compreende: A cinza das
horas, Carnaval, Ritmo dissoluto, Libertinagem, Estréia da manhã, Lira dos Cinqüenta anos
(Poesias completas), e Poemas traduzidos, Crônicas da província do Brasil, Guia de Ouro
398
Preto, Noções de história das literaturas, Antologia dos poetas brasileiros da fase romântica,
Antologia dos poetas brasileiros da fase parnasiana, obras poéticas de Gonçalves Dias (edição
crítica e comentada), Apresentação da poesia brasileira, Estudos Literários, Antologia dos
Poetas bissextos contemporâneos.
Principais fontes de estudo: Homenagem a Manuel Bandeira e Autores & Livros.
17.4. Roosevelt romancista
c/foto
Tr
O mundo jamais sonharia em Roosevelt como romancista. Batalhador incansável durante
toda a sua atribulada e proveitosa vida, o campeão das liberdades públicas tinha seus minutos
cortados e medidos, tantos e tais eram os seus afazeres. Preocupavam-lhe os problemas de sua
Pátria e do mundo. Seu pensamento estava sempre voltado para a harmonia entre os povos
que se agridem e se matam mutuamente. Era-lhe curto o dia para tantas tarefas. Seu
dinamismo e sua ânsia de compreensão a levaram a América do Norte a uma invejável
posição no cenário internacional, embora, desgraçadamente seu sucessor a esteja levando por
um caminho qual ele – Roosevelt – jamais desejou nem desejaria, porque amante da paz e
defensor de todas as liberdades e direitos do homem. Pouco se lhe podem comparar.
Raríssimos homens de poder terão sido tão humanos quanto ele, sua vida foi de trabalho
contínuo, incessante. Parecerá, pois, incrível a quantos tenham acompanhado a trajetória de
Roosevelt, a notícia que vem de ser divulgada: o Campeão da Democracia começará a
escrever um romance, antes de morrer. Sim! um romance. Em meio a todas as inquietações,
aos problemas intricados que tinha que resolver. Roosevelt , grande conhecedor da vida e dos
homens, iniciou um romance, que, desventuradamente, não pode terminar. Cortou-lhe a morte
a feliz iniciativa. Ainda aqui seria grande, certamente, como o foi no terreno político. Chegou
a concluir o primeiro capítulo, deixando também , entre os papéis os esboços da história.
Sabe-se que seu filho Eliot, aproveitando-se do material deixado pelo pai, está prosseguindo o
romance, para lançá-lo ainda este ano.
É significativo o fato de haver Roosevelt escolhido o romance, como forma de defender
suas idéias e sua concepção de vida. É que os horizontes do romance são ilimitados, como os
da própria vida. São as mesmas suas oportunidades. Pena que não tenha Roosevelt podido
concluir sua obra literária, para que o mundo, ainda mais, respeitasse e venerasse sua
memória.
17.5. Cá e lá
c/foto
Tr
John dos Passos é um dos novos romancistas norte-americanos. O conteúdo social de seus
livros deu-lhe fama e popularidade, e a técnica utilizada em Manhattan Tranfer fez com que
fosse considerado um dos mestres do romance moderno. Mas, o autor de Paralelo 42 tem
sofrido grandes golpes em sua vida. O último deles, há poucos meses havia sido um desastre
de automóvel no qual Dos Passos perdeu a esposa e ficou inutilizado de uma das vistas.
Agora, porém, chega a notícia de um novo desastre, dessa vez político. Embora socialista,
jamais se filiara a qualquer agremiação política,costumando a dizer que era, apenas, “um
crente à moda antiga”. E vem de provar que o é, realmente, declarando à imprensa norteamericana que participará ativamente de campanha presidencial do Estados Unidos,
defendendo a candidatura do senador Robert Taft! A notícia é verdadeiramente espantosa, e
significa mais um desastre na vida de Dos Passos, e um dos piores, de vez que ninguém
desconhece a posição de Taft no cenário político, sendo declaradamente o mais reacionário
dos candidatos à presidência dos Estados Unidos.
17.6. Vigny e Kafka
c/desenho
Res
Comentário sobre a posição de Weiler, professor do Liceu Louis-Le-Grand, em apresentar
analogias entre Alfred de Vigny, poeta, romancista e autor dramático francês (1797-1983) e o
tcheco Kafka, autor de Le Proce’s. Trechos do estudioso que buscam comprovar a analogia
são apresentados. Weiler, em carta ao jornal de Le Monde, transcreve partes do Livro de
Vigny para demonstrar sua tese e estes também são transcritos nesta resenha.
17.7. Esses nossos concursos!
c/foto
res
Sobre a demorada decisão de a quem deveria caber o prêmio Fábio Prado de 1947, São
Paulo. Os preferidos eram José Geraldo Vieira, autor de A Túnica e os Dados, e Octávio de
Faria, autor de Os Renegados. Mas, o premiado foi o livro Eurídice de José Lins do Rego, o
qual, seria para o resenhista um dos piores livros do autor: “um romance frouxo, falso, muito
aquém das possibilidades do autor” e compará-lo a Os Renegados, “romance trabalhado, obra
de fôlego das mais sérias que possuímos” chega a ser “irrisório”, sendo tal fato apenas
possível de acontecer em uma espécie de concurso padronizado pelo DASP.
17.8. Solidariedade a Pablo neruda
c/desenho
Tr
Os intelectuais brasileiros, em fevereiro deste ano, promoveram uma homenagem de
solidariedade e desagravo a Pablo Neruda, em virtude da perseguição que lhe move o governo
antidemocrático de seu país. Senador do Chile, Pablo Neruda viu cassado se mandato e
exilado. Atualmente, ninguém sabe de seu destino. O grande poeta, fora de sua Pátria, paga o
crime de defender a liberdade. Os intelectuais brasileiros, em sua homenagem, aprovaram a
seguinte moção:
“os intelectuais brasileiros, plenamente conscientes dos seus deveres democráticos de
defesa da liberdade e da cultura, reafirmam uma ativa vigilância aos ataques aos direitos de
livre expressão de pensamento. Coerentes com a posição de participantes da luta social em
defesa de democracia e da resistência aos governos que traem as aspirações de seus povos,
declaram-se solidários com o grande poeta continental Pablo Neruda, pura expressão da arte
posta a serviço dos mais nobres ideais de liberdade e independência, que animam
historicamente os povos latino-americanos. Nossa solidariedade inspira-se no fato de ter sido
o grande poeta ameaçado em sua vida e liberdade. Por ter denunciado ao mundo as manobras
das forças de reação que tentam sufocar os anseios progressistas do povo chileno.
O que sucede com Pablo Neruda adverte-nos, a todos nós, democratas e homens livres,
sobre a necessidade da luta permanente em defesa dos ideais de paz e tranqüilidade para os
povos livres de terra, ameaçados pelos avanços dos fazedores de guerra e remanescentes do
nazi-fascismo”
400
17.9. Autores bahianos
tr
- Natur de Assis, um dos melhores poetas da geração moça da Bahia, estreará dentro de
alguns meses , com uma coleção de poemas intitulada Harpa de Prata.
- Já está sendo anunciado A história da vida e outros contos, de Guiseppe Mazzoni,
uma edição do autor e distribuição Livraria Civilização Brasileira S/A, Bahia.
- Abrolhos é o título do livro de versos do sr. André Monteiro, já publicado e a venda
nas livrarias
18. Data
19/06/48;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
18.1. Variações
tr
Olhada do alto, assim sob a luz indecisa da noite, a rua enladeirada, para onde
convergem três outras ladeiras tortuosas, parece o chão do mundo em miniatura, onde há de
tudo e de todos. Mulheres que conversam nas portas e nas janelas, pedaços de músicas
vagando à-toa, homens que passam, apressados uns, vagarosos outros, crianças que correm
despreocupadas e gritando numa algazarra feliz, pares que caminham, olhares bêbados de
vida, sem nenhuma consciência do que se passa em torno, das agonias que se agitam nessa rua
igual a tantas outras, nessa noite mansa, lisa, sem arestas, nessa noite cúmplice... E nesse
ambiente de chão de mundo em miniatura, a Valsa triste, de Sibelius, saúda do alto de uma
janela solitária de estudante sem sentido especial, inconfundível, e vale como um grito
melancólico de protesto universal...
18.2. Uma boa tradução para um bom livro
tr
Carolina Slade é um nome conhecido na América do Norte, pela sua atuação no campo da
assistência social, tendo sido secretária do conselho Estadual de Assistência à Menores, de
Saratoga e adida de um juízo de Menores. Casada com um advogado de renome, atuando,
também no setor de educação e da assistência social, Carolina Slade foi sempre uma grande
batalhadora em favor da legislação especial, que protegesse tanto a mulher quanto a criança. E
como contribuição à essa causa, escreveu uma novela, Margaret, que o jornalista baiano Percy
Cardoso traduziu para a livraria Progresso.
Trata-se de um livro cuja leitura ninguém deve fugir. Ele relata um dos aspectos do imenso
e insolúvel drama da sociedade capitalista: a delinqüência infantil. E o faz de um modo
inegável, quando procura mostrar, com equilíbrio e magnífico senso da realidade, o ambiente
social atuando desde cedo sobre as crianças, levando-as endeusarem o dinheiro como único
objetivo da vida, a ser conquistado de qualquer forma. Em torno e em função disso,
movimentam-se os personagens do livro, num clima de constante tragédia, que se intensifica
com a prostituição de meigas criancinhas inocentes, conduzidas ao apetite de um grupo de
degenerados por Margaret, que, como a avó é apelas vítima dos erros e defeitos da sociedade
capitalista. E o leitor, nesse clima, vai vivendo o drama de Ana conformada, submetida à
vontade de um marido brutal e avarento, um animal que come, dorme e trabalha e junta as
moedas que a sociedade endeusa e adora; vai sentindo dor de Lizzie e Jim, pais da boa
Sphie, adorável menina de doze anos que enlouquece pela agressão sexual que sofre de um
degenerado. Depois, a luta entre a sra. Sleight, auto-retrato da autora, e o juiz de menores,
procurando soluções antes de tudo humanas. E a autora vai mostrando como desenrola a vida
numa sociedade degenerada, a multiplicação de presídios e casa de correção, a ilusão e a
inutilidade das medidas até então adotadas. Finalmente, a solução individual, que Jim apenas
pressente em saber qual seja, enquanto a mulher não arrasta para a religião, que consola,
engana, mas não resolve.
Tal é o livro que a Progresso está oferecendo ao público baiano, nada é necessário
acrescentar aos méritos da tradução de Percy Cardoso que, antes, realizou um bom trabalho
em Messalina, da mesma editora. Mantendo-se fiel ao texto original, mas procurando adaptar
o pensamento da autora ao nosso idioma, Percy Cardoso fez uma excelente tradução da
novela de Caroline Slade. A nossa edição está, pois, de parabéns pelo lançamento que acaba
de fazer, embora a apresentação gráfica ainda não seja das melhores.
18.3. Debate em paris
c/foto
tr
Sobre o problema da classificação da obra de Pascal, discutido em duas revistas literárias
francesas, La Neef e Mercure de France. Na primeira há o depoimento de Paul Louis
Couchoul que vem trabalhando com a classificação de manuscritos, fazendo pesquisas na
Biblioteca Nacional. Na segunda revista, Louis Lafuma se propõe a indicar uma solução para
classificação no próximo nº da revista e defende a necessidade de uma nova edição de
Pensamentos de Pascal, tese de Vitor Cousin defendida em 1842 em relatório à Academia.
18.4. Escritora e heroína belga
c/foto
Tr
Jeanne Verbracken é uma escritora belga, que sofreu horrores durante a ocupação alemã
em seu país. Até hoje conserva a marca de ferro cadente sobre o braço direito e no espírito as
cicatrizes das brutalidades da Gestapo. Ainda assim, Jeanne, atualmente no Brasil, confessa
ser uma alma solar, que ama os aspectos alegres da vida, as paisagens cheias de sol e
movimento, a própria vida em si mesma. Havendo participado ativamente da resistência
belga, dolorosas conseqüências perturbaram sua vida, o que motivou uma viajem ao Brasil,
que já conhecia de passagem, em 1933. Veio disposta a trabalhar em seus livros e, através de
artigos, tornar conhecido o Brasil em seu país. Atualmente está concluindo seu romance,
Assim é a vida, cuja ação iniciada na Europa, termina em fazendas do nosso “hinterland”.
Não é pequena a obra dessa heróica escritora belga. Sendo poetisa, jornalista e romancista,
começou a escrever desde cedo, quando ainda estava no colégio de Antuerpia, sua cidade
natal. Antes da guerra, escrevia artigos e pequenas novelas para os jornais. Depois, quando da
guerra civil espanhola, Jeanne lançou Dança, Juana!, seu primeiro trabalho em forma de livro.
Vieram depois, A Corrente Partida, Confissões e Mai ou Mulher? Este último lançado durante
o ano passado. No primeiro desses, a ação se passa na Europa, África e América; no segundo,
Jeanne fixa a existência de uma desgraçada rapariga do campo, seduzida pelos encantos da
402
cidade, onde encontra, não a salvação sonhada, mas a irremediável perdição; o último
segundo a crítica, é uma dramaticidade surpreendente e de um realismo chocante. Em Assim é
a Vida, o romancista toma o nosso interior como palco para o personagem central, emigrante
da Europa. Para isso, Jeanne está procurando reunir certa documentação, através da viagem
que ora realiza. Vai conhecer, de perto, as plantações de algodão do nordeste, os garimpos de
Minas e do Mato Grosso e virá à Bahia para ver as plantações de cacau, tudo isso no intuito
de conhecer o ambiente, as atividades e condições do homem rural brasileiro. Um outro
trabalho de poesia belga, será um pequeno caderno de poemas, no qual ficarão várias
traduções de poetas nossos para o francês. Os livros de Jeanne Verbracken são editados na
mais antiga editora belga, fundada em 1746, a “Snolck-Ducaju e Zoon”, de Grand.
18.5. Prêmios literários
c/foto
res
Ruth Park ganhou o prêmio “Sydney Morning Journal” com a novela The harp in the
south. A escrita de nova Zelândia foi louvada pela crítica. O livro foi lançado pr Michel
Joseph e ilustrado por James Phillips.
18.6. Luta difícil
Tr
Nem sempre os novos encontraram facilidades. O início é sempre de dificuldades, um luta
inglória, desigual, contra o que já está estabelecido, firmado no conceito do público.
Esquecidos, mal tratados, os que tentam acesso à letras são obrigados a vencer, quando
vencem, uma série enorme de dificuldades. É o mais comum é que não lhes queiram ouvir. Aí
está porque divulgamos a carta de uma jovem poesia, endereçada a Raul Lima, que assina a
secção Movimento Literário, do Diário de Notícias, da Capital Federal. Vale como um
protesto honesto e justo, que merece a atenção. Publicou-a Raul Lima, dando a conhecer,
também, dois poemas de sua autoria.
Transcrevemos:
“Rio, 16 de maio de 1948 – Prezado senhor Raul lima: - Acabo de ler o Diário de notícias,
onde todos os domingos, o senhor escreve o “Movimento Literário”. A idéia que me assaltou,
já há muito tempo vem me acompanhado, apenas por um natural receio de toda pessoa que
nunca se aventurou a escrever para um jornalista, eu tenho estado acarinhado silenciosamente,
o meu desejo. Este se resume: sou uma dessas jovens estudantes, que com as antenas ligadas
para todo o mundo, entre o dinheiro e o estudo, se aventuram a falar na “boca do ouvido” das
almas dos homens.
Ouvi, de fonte bem informada, que o senhor é capaz de apreciar e aproveitar todo o
trabalho daqueles ainda desconhecidos, uma vez que se revelam artistas puros. E está aí, a
minha aspiração. Desejo que o senhor leia alguns dos meus poemas e minha maior alegria
será a de vê-los publicados num cantinho do Diário de notícias.
Escrevo modernamente, acompanhado um tempo inquieto e desorientado, por isso “o meu
poema é sem rima, sem métrica, desalinhado, como um menino enjeitado”, porém conheço as
regras do nosso e quero mostrar com isso, que não sou um doidivanas a copiar a forma ou
modo de Bandeira ou Schimidt. Estudo, estudo muito e lembro que já escrevera, desde o
quarto ano de ginásio.
O meu livro está inédito, são 40 poemas falando das gentes, sem influência política, apenas
sentindo como a gente, as dores de toda gente. A editora Pongetti aceitou a edição, porém eu
não tenho dinheiro suficiente e... espero!
Assim, senhor Raul Lima, com esta carta vai meu pedido pra uma chama trêmula e tímida,
mas cheia de um desejo tão forte, de iluminar um pouco...
18.7. Gide e os intelectuais negros
c/foto
Tr
As vitrinas das livrarias parisienses estão cheias de livro, Presence Africaine, o primeiro a
ser publicado pela revista fundada pela intelectualidade negra de Paris. Isso significa que, ao
lado de brilhantes representantes da cultura asiática, há, agora, na capital francesa, toda uma
falange de intelectuais negros, trabalhando ativa e vitoriosamente. O movimento não é,
apenas, dos numerosos estudantes da África, que se encontram freqüentemente nas ruas de
Quartier Latin e nos pavilhões da Cidade Universitária. Trata-se de um amplo movimento, do
qual participam escritores, professores e homens políticos, num ecletismo racial sem
reticências, que revive as tradições da Sorbonne Medieval. E, como conseqüência disso,
vários liceus parisienses possuem, hoje, professores de cor, numa completa ausência de
preconceitos.
O primeiro número de revista dos intelectuais negros de Paris é de interesse extremo, com
um alto nível cultural. André Gide, a grande figura contemporânea, faz a apresentação de seus
colegas negros, com as seguintes palavras:
“Por muito rica e bela que seja a nossa civilização, temos de admitir, finalmente, que ela
não é a única que existe...
Esta revista pretende se dirigir aos negros, para lhes dizer o quanto nos cremos que deva
ser dito. Mais e melhor ainda, pretende oferecer a esses povos o meio pelo qual eles se dirijam
a nós.”
18.8. Flagrantes
Rs – Foi reeditado o livro The Judge’s Story, de Charles Morgan por Macmillan e Co.
Rs – Sobre o isolamento de José Geraldo Vieira para traduzir estes romances de Pirandello,
lançados pela Ipê.
Rs – Reedição da novela The Professor, de Charlotte Bronte, pela C.E.J. Temple, Londres,
ilustração de Sylvia Green
Tr – Sonata ao Luar é uma interessante novela de Dalton Trevisan, um dos valores da nova
geração de escritores do Paraná. Sobre esta novela disso Lígia A. Correia num comentário:
“Outra característica de Dalton Trevisan é sem dúvida uma grande facilidade para escrever,
facilidade que lhe traz felizes achados expressionais, no poder de resumir em um adjetivo, em
uma comparação curta o que só se explica em longas perífrases”. O próximo livro Dalton
Trevisan é o volume de contos intitulado Sete anos de pastor.
Rs – Le Meilleur Choix de poemes’est que L’on fait pour sol (1818-1918), de Paul Elnar.
Seleção de poesias desde Marceline Desvordes – Valmore e Victor Hugo até Guillanme
Apollinaire e Pierre Reverdy, publicado em Paris.
Rs – Sobre o 80º aniversário do filósofo francês Alain (pseudômino de Emile Chartier).
Citado por André Maurois em suas Memórias, como aquele que influenciou alguns dos
melhores espíritos do nosso tempo.
404
Tr – Fala-se que a Revista Província de São Pedro, admirável iniciativa da Globo, vai
interromper sua publicação. A ser verdadeira a notícia, o público perderá a sua melhore
revista de literatura.
Rs – Sobre a primeira encenação da peça de François Mauriac, Le Passage Du Malin, no
Rio de janeiro pela Companhia Francesa de Maire Bell.
Tr - Joaquim é a revista representativa da nova geração de escritores de Curitiba, um
periódico que vem se impondo à apreciação dos círculos literários brasileiros. Joaquim
obedece a direção de Dalton Trevisan e conta com valioso corpo de colaboradores e
ilustradores da geração de vinte anos, entre os quais se destacam Temístocles Linhares, Yllen
Kerr, Waltensir Dutra, Poty e outros que vêm emprestando relevantes prestígios às letras e
artes paranaenses. Ampliando seu raio de ação. Joaquim iniciará uma série de edições
próprias com um livro de contos de Dalton Trevisan, ilustrado por Poty. É correspondente de
Joaquim nesta capital, o sr. Adalmir de Cunha Miranda.
19. Data
03/07/48;9
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
19.1. Variações
tr
Relidos Terras do sem fim e São Jorge dos Ilhéus. Concluída a leitura de Os servos da
morte, de Adonias Filho. A diferença entre os dois primeiros e o terceiro é algo significativo.
Naqueles, o leitor sente a presença de um grande escritor, para o qual o tempo não existe que
justifique o dinheiro gasto com a edição. Aliás, essa é a característica de certos trêfegos
escritores da última hora, como aquele inquieto e teimoso autor de Oscarina, Marques
Rabelo, no dizer de Ledo Ivo “Um vulcão aposentado...”
xxx
Numa tarde de sol quente, subindo a ladeira, ouço sons de piano colorindo a paisagem. Paro e
escuto. Pour Elyse, de Beethoven, lutando com a inexperiência de um principiante, que
interrompe e recomeça, várias vezes, sem desanimar. Eu é que me desanimo, sinto a ladeira
muito íngreme, a tarde muito quente e a vida muito desigual...
19. 2. Um livro de Contos
(c/fotografia do autor)
Tr
A Livraria Civilização Brasileira dispensou uma das suas vitrinas para exposição do livro
de contos de Guisepe Mazzoni, História da vida e outros contos. O autor, que é um jovem
cirurgião dentista baiano, editou o livro, entregando a distribuição àquela livraria. Trata-se,
como se vê, de uma obra de esforço pessoal. Isso não concede, todavia, o direito de aceitar o
livro como trabalho de primeira qualidade. Inexperiente e sem conhecimento dos problemas
técnicos, o autor comete erros comuns aos livros de estréia, quer na construção literária quer
na escolha dos temas, que é pouco feliz.
19.3. Cinqüentenário de Whos Who
res
50º aniversário do "Who in America", 5000 nomes foram incluídos naquela edição, que
consta de resumos biográficos das pessoas mais importantes das Américas. O mais longo
resumo é o que trata de Thomas J. Watson e os mais curtos são, a exemplo, os do Presidente
Truman e o de Albert Einstein.
19.4. Roteiros dos Candomblés Baianos
(c/fotografia do autor)
tr
Edson Carneiro, baiano de quatro costados, é hoje, o maior estudioso de assuntos afrobrasileiros. Com vários livros publicados, conferências e artigos, Edson tem todas as
credenciais do verdadeiro pesquisador, do homem que vai analisar as questões e os problemas
nas suas origens, nas suas fontes reais, evitando, por isso mesmo, os erros comuns aos
pesquisadores de gabinete. Em permanente contato com o povo, sem jamais se desligar dos
problemas que estuda e dos homens que sofrem esses problemas, Edson Carneiro tem justo
prestígio junto ao público, que nele já se acostumou a ver o estudioso honesto e sem
preconceitos de qualquer espécie. Daí a expectativa com que está sendo aguardado o seu novo
livro sobre Candomblés da Bahia, uma publicação do Museu do Estado. Com cerca de 140
páginas, ilustrados com desenhos e fotografias de Paulo Fróes, contendo transcrições musicais
de Maschall Levins, Candomblés da Bahia é um dos mais sérios e completos documentos
sobre a religião negra, escrito pela pena brilhante e segura de Edson Carneiro. Este roteiro dos
candomblés baianos, segundo o próprio autor, foi feito para o grande público, em linguagem
acessível a todos aqueles que não tenham conhecimento do assunto.
Esta edição do livro de Edson será a oitava de uma série de publicações do Museu do
Estado da Bahia, sob a direção do Dr. José Valadares.
19.5. O julgamento de Hamsun
(c/fotografia do autor)
res
Da continuidade do foco no julgamento do escritor norueguês Knut Hansun, acusado de
haver colaborado em os nazistas, durante a guerra, e ter pertencido ao Partido Nazista.
Condenado a pagar uma multa.
19.6. Novo livro de Wallace
(c/fotografia)
res
Lançamento do novo livro de Henry Wallace, intitulado Rumo à paz mundial, o título
anterior era Sejamos práticos. HAlencar afirma que o autor é um poeta da paz, tendo o
caracter de apóstolo. O livro será lançado próximo às eleições presidenciais, Wallace é exvice-presidente dos EU e candidato do Terceiro Partido às eleições anunciadas.
406
19.7. Sartre em maus lençóis
(c/ fotografia de Sartre)
tr
Faz pouco tempo que Jean Paul Sartre, o oportunista e confuso pai do existencialismo
moderno, foi a Berlim, para um debate público com destacadas personalidades políticas e
intelectuais alemães, sobre o tema "Que é o existencialismo". Uma hora e meia antes da
discussão, às 9 horas, o preço de uma entrada era de 2.000 marcos, no mercado negro, ou seja,
tanto quanto ganha, em média, por mês, um empregado no comércio de Berlim. às 10 horas,
já não havia lugares vagos, e o público amontoava-se na entrada do salão. às 10 e 30 horas,
chegava Sartre, iniciando-se, então, o esperado debate. O autor de O ser e o nada sentou-se
diante de uma mesa cheia de microfones, em torno da qual se reuniam os seus impugnadores,
à esquerda os marxistas e á direita os teológos.
Um professor de teologia gritou-lhe – "Que quer o senhor fazer da liberdade? O senhor
separa o homem de seu Criador, dizendo que tudo lhe é permitido, exatamente o que os nazis
já disseram. para mim, Electra é a fuherine das mulheres nacional-socialistas". Sartre,
evidenciando calma, retrucou – "O remorso é um sentimento puramente negativo e relativo ao
passado. Condená-lo não significa condenar o sentimento de responsabilidade, sem o qual não
há liberdade. Que se me cite um só acontecimento histórico que seja fruto do remorso".
Rebateu-lhe, da esquerda, o prof. Steiniger, da Universidade de Berlim, dizendo – "Sou
membro de um povo culpado pelos maiores crimes, e em Les Mouches o senhor se subleva
contra o remorso. Entre nós, são hoje os nazi que combatem o remorso, porque não querem
reconhecer seus crimes". E o debate continuou nesse tom, até o fim, quando Sartre saiu pouco
satisfeito com o êxito do existencialismo na Alemanha.
19.8. Face oculta
(c/ foto da capa do livro)
tr
A Bahia começa a sair do seu sono de vários anos, no tocante às atividades literárias. O
livro de poesia de Carvalho Filho, Face oculta, representa um passo adiante nesse terreno.
Numa edição "Confiteor" bem apresentada e de bom trabalho gráfico, com ilustrações de
Oswaldo Goeldi, o poeta Carvalho Filho deu publicidade a mais 97 poemas de sua autoria,
reunidos num livro de 262 páginas, com o seguinte plano: 1-poemas das horas claras; 2-hora
obscura; 3- Invocação à luz esperada; 4-Ciclo da Morte; 5-Luz da Noite.
Do valor da obra já disseram vários críticos, e os suplementos literários, como o do
Correio da Manhã, do Rio têm registrado o aparecimento do livro com significativos elogios.
Carvalho Filho, merece tais registros, porque é, realmente, um bom poeta, embora que, fiel ao
meio físico que o rodeia, deslumbrado com a natureza, seu ambiente espiritual reflite a
angústia da classe a que pertence, num desejo constante de fuga para a morte, como única
solução para os problemas da vida.
19.9. O Primeiro livro do Brasil
tr
O primeiro livro publicado no Brasil, foi um folheto contendo aproximadamente 20
páginas, editado no recife, em 1647. Relativo às transações financeiras da Companhia
Oriental Holandesa no Brasil. A primeira obra impressa no primeiro prelo brasileiro, foi
publicada em holandês, sob o título Brasilische gelt-sack (Bolsa Brasileira de dinheiro). A
história editorial brasileira, que aí começa, foi bastante acidentada. Pouco depois que os
holandeses foram expulsos pelos colonos e pelos bravos negros africanos, os primeiros vicereis portugueses, obedecendo as ordens de Lisboa, suprimiram todos os prelos no Brasil. E
somente após a fuga da família real portuguesa, para o Brasil motivada pela invasão do
território luso pelos exércitos de Napoleão, é que se fundou uma imprensa oficial, como
monopólio do Estado.
19.10. Chautebriand
res
Sobre o centenário da morte de François Auguste Chateubriand, em 4 de julho.
19.11. Na vitrina das livrarias
- História do Brasil, 1º volume, de Robert Southey pela livraria progresso. HA elogia a
obra.
- Os Arábes, de Philip R. Hitti, tradução de Otávio da Costa Eduardo, edição da Companhia
Editora Nacional.
- A economia brasileira no alvorecer do século XX, de Rodrigues de Brito, na Coleção de
estudos Brasileiros, da Livraria Editora Progresso com prefácio de Francisco Marques de
Goes Calmon, na vitrina da Livraria Progresso.
Obs. Indica, para todos, o local de venda.
20. Data
13/07/48;3
TÍTULO
Bilhete às crianças baianas
Dizem que vocês, como todas as crianças do Brasil, perderam um grande amigo. Isso seria
mau. Numa época em que sentimento de amizade vai se tornando cada vez mais raro, e na
qual as crianças merecem tanta atenção quanto o freguês da laranja ou o vendedor de batatas,
a morte de um amigo como Monteiro Lobato seria qualquer coisa de desalentador... Daí a
razão deste bilhete. Tenho o dever de ir até vocês, conversar um pouco, dizer que há um
grande mal entendido em tudo isso.
Sei que vocês estranharão que somente agora eu apareça, já decorridos alguns dias da
anunciada morte de Lobato. É que não me foi possível aparecer antes. Andei temporariamente
afastado de tudo; coisas da vida, motivos. Coisas que também tem relação com a morte, em si
mesma. Nem mesmo domingo me foi possível ir à Hora da Criança, estar com vocês e com
Adroaldo, como era de minha irrecusável obrigação. Não tem importância, vocês
compreendem e sabem perdoar. O essencial é que esteja agora aqui, conversando. E são
poucas as coisas que lhes quero dizer.
408
Quero dizer, por exemplo, que Lobato não morreu. É. Não morreu não, como andaram
dizendo os jornais. Eu explico: essa história do sujeito andar no meio da rua, comer, dormir, ir
ao trabalho e voltar para casa, e um belo dia ser deitado, mudo, numa quadra qualquer de sete
palmos, nada disso tem a menor relação com a vida. Quem faz simplesmente isso, nasceu
morto e continua morto. O que acontece é que, lá às tantas, perde a fala, fica mudo, não anda
mais, nem come, nem vê, nem sente, torna-se totalmente imprestável, e os outros, que lutam
por espaço, enterram-lhe numa cova qualquer. Agora, quando ele consegue realizar alguma
coisa, quando se sobressai dos demais indivíduos, quando constrói uma obra que o tempo não
derruba e os homens, sempre tentando, não conseguem destruir, aí, então, ele é vivo,
permanecerá vivo, por mais que isso contrarie a vontade dos mortos, que sempre andarão
soltos no mundo. Tal é o caso do nosso Monteiro Lobato, que não morreu nem morrerá nunca.
Esse gosto os mortos não terão, vocês bem sabem disso. Lobato está vivo e muito forte, nos
seus livros, no exemplo da sua coragem de homem livre. O que desapareceu foi a carcaça, que
é sempre fraca e não merece maior importância depois de um certo tempo, principalmente
quando se tenha realizado o que ele, Lobato, realizou.
Vocês, que conhecem alguns dos seus bons livros, sempre o terão muito proximamente. E
se viram Narizinho, que o Adroaldo fez o milagre de levar ao palco, então, ainda será melhor:
jamais deixarão de julgar Lobato um dos melhores amigos, sempre presente e pronto a contar
coisas que somente ele sabe contar. Mas, dirão vocês, nos cresceremos, a barba e as espinhas
encherão o rosto e, homens feitos, já não nos lembraremos dessas histórias, ou, se as
lembrarmos, elas estarão tão longe, perdidas em tamanha distância, que nada mais
significarão. E Lobato terá, então, morrido para nós. Puro engano. É mais um mal entendido,
nessa complicada história de viver ou de estar morto. Primeiro, porque essas coisas que
Lobato lhes conta hoje, jamais ficarão perdidas nessa distância toda. Emília, Narizinho,
Rabicó, Godofredo, todo esse mundo mágico dos personagens lobateanos viverá sempre em
vocês, como ainda hoje vive em todos nós. Segundo, porque, barbas crescidas, vocês
encontrarão muitos outros livros de Lobato, nos quais o pensamento, a coragem e o exemplo
de um homem vivo estarão presentes, como a melhor lição a ser dada aos que desejam crescer
e ser um homem como Lobato foi. E lendo esses livros, é que vocês se capacitarão de que
aquele amigo da infância não terá sido maior do que esse outro, que o estudo virá a descobrir.
E nenhum de vocês negará a Lobato o direito à vida, a ele, que sempre falou muito e lutou
demais, sem essa preocupação imediata de se sobrepor ao tempo.
Bem, mas que me propus, apenas, a escrever um simples bilhete a vocês, crianças baianas,
que, como todas as crianças do Brasil e do continente, têm em Lobato o melhor dos amigos. E
já vou passando do limite. Reconheço que não podia ser de outra forma, porque vocês, as
crianças da Bahia, têm uma responsabilidade maior do que as outras. Vocês assistiram
"Narizinho", tiveram esse privilégio de sentir Lobato de mais perto, graças ao trabalho de um
outro grande amigo das crianças. E nunca deverão esquecer que o Lobato está vivo, nos livros
que vocês ainda estão lendo e naqueles que vocês terão de ler amanhã.
Termino. Acredito que lhes tenha dito alguma coisa de útil, não muito diferente daquilo
que direi a alguns adultos a respeito de Lobato, nosso amigo comum. Acredito, ainda, que
vocês, mercê do exemplo de Lobato, venham a ser vivos. E isso é, afinal, o que ele mais
deseja.
21. Data
24/07/48;9
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
21.1. Variações
Tr
“Chega de terra. Venham os intermúndios. Morrer...Gaseificar-se... Tudo escuro, escuro – e
tão doloroso...” Lobato escreveu isso quando os japoneses bombardearam traiçoeiramente
Pearl Harbor. E é bem possível que tenha continuado a pensar nos intermúndios, na
gaseificação, depois que os amarelos foram vencidos e houve muita promessa de paz.
Atormentado, vivendo num mundo maluco, cheio de guerras e de brigas ridículas, ele ansiava
a paz porque amava seu povo.
“Quem sou eu? Uma árvore na floresta. Menos: uma folha. O vendaval tudo devasta. Vou
ser apisoado, arrancado e jogado. E vão comigo as minhas folhas companheiras – purezinha, o
coitadinho do Edgard. Fica o Rodrigo, nos seus três anos.
Coitados de todos nós – do Hitler, do Tojo, de Roosevelt, do Rodriguinho...”
Todos esses pensamentos invadiram o espírito de Lobato, quando do ataque nipônico.
Provam o quanto ele era sensível aos problemas humanos sempre voltado para o mundo, na
esperança de uma solução. E sua solução foi, afinal de contas, a morte, antes já anunciada
naquele “Por quem os sinos dobram? Por mim também. Fui morto nalguma coisa com a morte
daqueles 150 mil”. É que Lobato morria aos bocadinhos, cada vez que se matava alguma
coisa da vida. A amargura de seus pensamentos é de uma significação inigualável. E bem
sabia ele que nós também estávamos e estamos morrendo aos bocadinhos.
E os sinos também dobram por nós, que fomos mortos nalguma coisa com a morte de
Lobato.
21.2. Pavilhão de Mulheres
(c/ fotografia da autora)
Tr
É o título do romance de Pearl S. Buck, que a Globo vem de lançar, na sua famosa
“Coleção Nobel”, traduzido por Lino Valadares. Querem alguns considerar esse livro como
obra-prima da autora de Good Earth sabendo-se mesmo que nele Pearl Buck trabalhou longa
e cuidadosamente, enquanto realizava outras obras. O que há de mais interessante em
Pavilhão de Mulheres, é que a grande romancista fixa novos tipos de chineses, acompanhando
a vida de uma grande família, na qual se chocam os problemas e os interesses de três
gerações. Nas relações desse tipo, a autora evidencia o mesmo interesse humano de seus
romances anteriores, focalisando aqui, com mais segurança, o problema do amor mediante um
bom estudo sobre o conflito entre os sexos.
21.3. Miniatura
Tr
Lúcia Miguel Pereira, é uma das escritoras brasileiras em maior evidência. Escrevendo
romances, ensaios, crítica, históricas infantis e crônicas diversas, a autora de Maria Luiza vem
tendo uma vida literária mais ou menos ativa, desde 1931, quando apareceu nas letras como
colaboradora do Boletim de Ariel, escrevendo nessa revista até o ano em que ela deixou de
circular, 1938. Nasceu na cidade de Barbacena, Minas Gerais, a 12 de dezembro de 1903,
410
mas, foi educada no Distrito Federal, onde até hoje reside. Sua primeira publicação em forma
de livro foi, ao que parece, o romance Maria Luiza. Editado em 1933. No mesmo ano, lançou
seu segundo romance, Em Surdina, não mais voltando a esse gênero, até o momento. Atuou
como crítica literária durante um ano, 34-35, na Gazeta de Notícias. Colaborou,
posteriormente, na Revista do Brasil, de1938 a 1943, com um artigo mensal. Atualmente
escreve para o suplemento literário do Correio da manhã, onde publica crônicas, artigos e
críticas semanais. Estudiosa de Machado de Assis, escreveu do mestre um estudo crítico e
biográfico, em 1936, que lhe valeu o prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira. Dedicou-se
depois, à Literatura infantil, iniciando em 1939 com A Fada Menina, premiada no concurso
de literatura infantil do M. de Educação. Publicou, a seguir, no mesmo gênero, A filha do Rio
verde, Na floresta mágica e Maria e seus bonecos, em 1942. Ainda de sua autoria é um
estudo sobre a vida de Gonçalves Dias, publicado em 1943.
21.4. Revistas
Tr
Região, número de junho, dos novos de Pernambuco, contendo boas colaborações de
Laurimio Lima, Otávio de Freitas Júnior, Wilson Rocha, Gastão de Holanda, Claúdio
Tavares, Mário Sette, entre outros, e o manifesto do Epifacismo, assinado por vários
intelectuais franceses. Há, ainda boas ilustrações com reprodução de Augusto Reinaldo e
Hélio Feijó. É uma revista que vem melhorando sensivelmente, sendo sua tiragem, hoje, de
1500 exemplares.
Joaquim, número 18, revista de letras e arte, da nova geração de escritores de Curitiba.
Esse número apresenta colaboração de Daltan Trevisan, José Paulo Paes, Otto Maria
Carpeaux, Temistocles Linhares, e ilustrações de Fayga Ostrower, Poty, Renina Katz etc.
21.5.Um prêmio cobiçado
Res
Trata do “Prêmio Somerset Maugham”. O prêmio de 1847 foi conferido a miss A.L. Baker,
autora de Inocentes, um livro de pequenas histórias. Halencar apresenta três pré-requisitos do
concurso.
21.6.Atividades dos novos
Res
Sabe-se que Wilson Rocha, o jovem autor de Poemes, publicará breve, um novo livro,
Porto Inexistente. Essa notícia significa que novos valores literários não se estão descuidando
da dura tarefa que têm de levar a efeito, ou seja, a renovação do movimento literário.
Principalmente entre nós, onde houve um período da mais completa indiferença, essa
renovação se está processando com certa intensidade, embora não se tenha podido, ainda, pela
inexistência de amplos meios de divulgação, realizar aquilo que vem realizando Pernambuco,
Ceará e outros estados. Como quer que seja, o nosso cenário literário vem sendo modificado,
com o aparecimento dos novos valores. E Wilson Rocha, poeta de sensibilidade e gosto
artístico é, inegavelmente, um deles. Sua poesia, ainda que repetida aqui e ali, e refletindo
certa hesitação, talvez receio de se desprender de símbolos gastos, evidencia um singular
deslumbramento, - cheio de uma saudade intraduzível – pela vida e pelas coisas da vida. Seu
novo livro, certamente mostrará um poeta mais amadurecido, mais livre do convencional,
mais realizado, mais realizador, o que será uma conquista para o movimento literário de
renovação.
21.7 Condições opostas
Res
Nota sobre Tristan Bernard, o humorista nacional da Franca, HA comenta suas vestimentas
despojadas
21.11. Ouvi-lo-emos?
Res
Sobre a visita, à América do Sul, do autor francês Albert Camus. O existencialista, a
convite, teve como agenda uma série de conferências no Brasil, RJ, SP e Porto Alegre, sua
vinda a Salvador é sugerida pelo crítico.
21.12. Caderno da Bahia
Trans
Finalmente a Bahia vai ter uma nova revista literária. Desde algum tempo que o nosso
público vem sendo privado de um bom material de divulgação literária, lendo apenas o que
lhe vem de fora, com vários meses de atraso. As iniciativas locais têm falhado sempre. Agora,
um grupo de moços resolveu editar uma revista, Caderno da Bahia, à semelhança de Clã,
Joaquim, Região, Província de São Pedro, etc. Dirigida por Vasconcelos Maia, Claudio
Tavares, Wilson Rocha e Darwin Brandão, Caderno da Bahia, aparecerá no princípio do
próximo mês e será vendida a dois cruzeiros. Esse primeiro número traz boas matérias, entre
as quais: “Conceito função da poesia”, de Wilson Rocha, “Carlos Drummond até agora”, de
Nilo Pinto, “A grande sogra”, conto de Vasconcelos Maia, “Edison Carneiros e os estudos
afro-brasileiros”, de Darwin Brandão, “Artes plásticas no Ceará”, de Fran Martins, “Música
popular e erudita”, de Paulo Jatobá, poemas de Manuel Bandeira e Claudio Tavares, notas
sobre o jovem escultor baiano M. Cravo Filho e sobre o existencialismo, além de um artigo de
Mota e Silva sobre a recente exposição de Aldo Bonadei. O Caderno será ilustrado com
desenhos e reproduções de quadros, destacando-se as ilustrações de Bonadei.
21.13. Flagrantes
Tr
- Para 1948 os editores estão anunciando vários lançamentos, como de romances, A sombra
do patriarca, de Alina Paim, Os filhos do medo, de Rute Guimarães, A chave dos abismos, de
Guilhermino César, Fogueira verde, de Permino Asfóra e Solidão nos campos, de Raimundo
de Souza Dantas.
- A Pongetti lançou O mundo e a vida , um livro de reflexões de Alexandre Passos.
412
- Depois de um longo silêncio, o escritor Cornélio Pena reaparecerá com o romance
Repouso.
- Álvaro Lins, conhecido crítico literário, segue para a Europa, onde participará, juntamente
com Oscar Niemeyer, Portinari e Gilberto Freire do Congresso Internacional de Escritores.
- Em Portugal o movimento literário continua intenso. João Marmelo e Silva publicará,
brevemente, a novela Adolescente; A “Terra Editora” está trabalhando numa importante obra,
Cancioneiro do Ribatejo coligida, organizada e prefaciada por Alves Redol que será vendida
aos fascículos; Porta de minerva, romance de Branquinho da Fonseca, vem sendo bem
recebido pelo público; Judite Navarro, autora de Está é a minha história, já entregou à L.
Guimarães o seu novo romance A azinhaga dos besouros; Manuel do Nascimento publicará
um novo romance, cujo protagonista principal é uma aldeia, tendo como título O aço mudou
de tempera..., ilustrado por Artur da Fonseca, aparecerá o novo livro de poemas de Alberto
Uva, autor de Segredos de polichinelo.
- O Diário de Notícias vem promovendo uma forte campanha contra certa espécie de
literatura infantil, representada principalmente pelas publicações tipo Gibi e Globo Juvenil.
Os especialistas e o público cooperam nessa campanha, e os editores dessas histórias em
quadrinhos argumentaram que não modificavam os temas por falta de ilustradores nacionais.
Mentira. Os nossos desenhistas chamados a depor disserem que os editores se recusavam a
publicar suas produções com fundamentos no folclore e na História, preferindo aventuras
importadas da América. Quanto ao fato de não haver desenhistas capazes, a prova em
contrário são os prêmios que os nossos artistas têm ganho, e alguns deles até vêm ilustrando
para companhias estrangeiras.
22. Data
07/08/48;9
TITULO
Seção Caleidoscópio
22.1. Variações
Tr
O encanto não estava na manhã de sol, nem na sugestão que lhe oferecia o coqueiro
caminhando para o alto. Nada disso importava. Poderia não haver sol, uma chuva triste
emprestar à vida uma aparência de enterro e o coqueiro estar caído sobre a casa, lembrando
doidices do tempo. O encanto vinha de si mesmo, manso e bom como a paz que vem dos
campos. Vinha precisamente daquele instante em que se sentia vivo, como parte de alguma
coisa maior que pressentia estar ali, um pouco adiante, mais longe, em toda parte. Isso lhe
dava tranqüilidade, paz consigo próprio, e era o seu encanto.
***
Quando, desprevenido, o gato trepou na varanda, o cachorro mal suspendeu as orelhas e
olhou de soslaio. Foi só. Nem mesmo levantou o focinho do chão, não concedeu ao bichano a
importância de um rosnado de ameaça. Certos homens merecem essa desmoralização.
Considerá-los inexistentes é a única atitude coerente.
***
Sentado no bonde, conversavam pouco, embora pensassem quase as mesmas coisas, vendo
os homens e as casas que passavam. Foi quando um garoto de onze anos pulou na contra-mão,
inesperadamente, e sorriu satisfeito da façanha.
- Que tal se você voltasse a viver esse tempo? Um perguntou com desânimo.
O outro deixou que seus olhos se perdessem no fundo das distâncias e não disse palavra.
Qualquer resposta soaria falsa e sem propósito, diante daquela amarga expressão de seus
olhos revivendo a infância.
OBS.: em itálico e com ilustração referente aos dois primeiros blocos.
22.2. Um novo mundo para as crianças
(c/ fotografia)
tr
Acontecimento marcante da semana, na Bahia, foi a conferência de Adroaldo Ribeiro
Costa, sob o patrocínio da ABDE, no Instituto Geográfico e Histórico, na noite de quarta-feira
passada, sobre Monteiro Lobato e a Literatura Infantil. Nada é necessário dizer a respeito dos
méritos do conferencista. Quanto à conferência, o público que a ela compareceu poderá dizer
muito bem. Mostrando quais as origens e os temas da nossa antiga literatura infantil, povoada
de personagens horrorosos, do horripiante “bicho-papão” e outros tipos que aqui chegaram
com os nosso colonizadores, Adroaldo Ribeiro Costa, provou, a mais não poder, a influência
benéfica da obra de Monteiro Lobato, criando um novo mundo, maravilhoso e cheio de sol,
para as crianças brasileiras, até então vítimas inocentes das histórias de assombração, das
quais as historietas em quadrinhos de Gibi, Globo Juvenil e outras tantas revistas são a
continuação aperfeiçoada e, desgraçadamente, mais difundida. Salientou o conferencista a
necessidade urgente de tornar Lobato mais conhecido da criança brasileira, através de um
amplo programa de divulgação de sua obra. É de esperar que essa conferência calou junto no
espirito de todos, para uma compreensão maior desse grave problema, que tão pouca atenção
tem merecido dos educadores brasileiros. E que ela seja o início de algo melhor e mais justo
para a nossa literatura infantil, livrando-a da praga dos “quadrinhos” importados.
22.3. Podem escrever, senhores!
Res
O ministro das finanças da Grã-Bretanha revoga uma lei que vigorava há 3 séculos. Sir
Starford Cripps comunica que os funcionários públicos ingleses poderão escrever novela
policial, poesias ou cultivar outros gêneros quando desejarem. Também, os escritoresfuncionários não serão mais obrigados a entregar parte dos seus honorários aos cofres reais.
Mas, não poderão utilizar o horário de trabalho, material nem experiência adquirida no
trabalho
22.4. Mais um título para 48
Tr
Na lista de novos livros para 1948, aparece mais um título. Trata-se de Cangaceiros, novo
romance de Zé Lins do Rego, no qual o autor de Água Mãe está trabalhando desde algum
tempo. Espera-se que esse romance ainda seja lançado este ano ou logo no início do próximo.
Possivelmente, a julgar pelo título, Lins do Rego abandona a novela urbana. Sua segunda
414
tentativa, com Eurídice, constituiu um fracasso do ponto de vista literário, embora essa
afirmativa não lhe agrade muito.
22.5. Os escritores e as leis ditatoriais
tr
Assinada pelo Sr. Álvaro Lins, presidente, e pelos demais membros da diretoria e
integrantes do Conselho Fiscal, a “Associação Brasileira de Escritores (A.B.D.E.) enviou aos
presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado a seguinte moção, aprovada em
Assembléia geral:
“A Associação Brasileira de escritores vem ponderar a V. Exa. que julga o anteprojeto da
lei de defesa do estado, apresentado à comissão de Leis Complementares da Constituição,
ofensiva à liberdade de expressão de pensamento em nosso país. E, por intermédio V.Exa. faz
um apelo aos representantes do povo, a fim de que não se permita transformar-se em lei um
projeto que na realidade atenta contra o regime democrático e viria subverter os direitos
fundamentais do indivíduo e do cidadão, garantidos pela Constituição Federal.
A aprovação de semelhante lei, por isso mesmo, representaria um retrocesso nas nossas
conquistas culturais, pois qualquer cerceamento ao direito da crítica e do livre debate de idéias
e doutrinas impediria o progresso intelectual, moral e material do Brasil.
Fiéis aos compromissos assumidos solene e unanimamente nos congressos de S.Paulo e
Belo Horizonte, reiteram os escritores a sua repulsa a todos os atos e intenções que visem
estabelecer restrições à “completa liberdade de expressão do pensamento da liberdade de
culto, da segurança contra o temor da violência e do direito a um existência digna”
(Declaração de princípios do 1º Congresso de Escritores).
Sente-se a A B.D.E. no dever de apelar para o poder Legislativo, do qual espera o repúdio
aos projetos de leis que ferem a dignidade do pensamento e da pessoa humana”.
22.6. Suas sagas correm mundo
Res
Sobre Selma Lagerlof, prêmio Nobel, Suécia. Traduzida em diversos idiomas, a exemplo
do livro A saga de Costa Berling única mulher na Academia Sueca. Halencar comenta o livro
As maravilhosasn aventuras de Nils, infantil.
22.7. Livros e livrarias
res
-
Orlando, Virgínia Wolff;
O muro, Jean Paul Sartre;
O destino viaja de ônibus, Jonh Steinbeck;
Nova antologia da poesia brasileira, J.G. de Araújo Jorge;
A cozinha baiana, Darwin Brandão;
A Inglaterra e os ingleses, Emerson, Tradução: Acácio França.
22.8. Dona Bárbara
res
Título da obra de Rômulo Gallegos, na época presidente da Venezuela. Resenha crítica.
22.9. Flagrantes
res
- Livro Heróis sem Armas, Heinrich Heine; livro mais lido na Alemanha;
- Rachel de Queiroz vai escrever uma biografia do Pe. Cícero – Ceará;
- Percurso literário de Célio Santiago, Ceará – existencialista falecido no mês anterior;
- Núcleo cearense da ABDE realizou eleições. Duas chapas: 1- Mozar Soriano Aderaldo e
2- Aluízio de Medeiros, a última vendedora. Apresenta lista da nova diretoria e a polêmica do
resultado.
- Primeiro nº da revista Caderno da Bahia, editada nas oficinas gráficas dos monges
beneditinos. Resenha crítica.
23. Data
21/08/48;9
TITULO
Seção Caleidoscópio
23.1. Variações
tr
- Mãos ao alto!
Suspendeu os braços ossudos e botou no rosto uma expressão que só mesmo ele sabia o que
significava. Fora apanhado bobamente, estupidamente, e isso importaria no seu desprestígio
para com os outros. Seria ridicularizado. Ninguém mais lhe trataria como “chefe”, nem lhe
dariam nunca mais as honras de “mandão”. Parado, no meio da rua, as mãos para cima,
imaginava a vaia que viria, tremenda, arrazadora...
- Toca p’ra frente, seu besta!
Nada podia dizer. A arma do agente ali estava, apontada para as suas costas, e o menor
movimento lhe custaria a vida... Seus sonhos, suas aventuras, tudo perdido. Queria ser o
maior matador do grupo e era respeitado porque engendrava os assaltos mais terríveis. Não
dormia, de pensar no que lia para empregar com a turma. E agora, apanhado bestamente, pelo
mais besta dos agentes da polícia, como o “maricas” daquela história de Jack Estripador.
Desmoralização... Outra vez teria que apresentar uma grande folha de serviços: esquartejar
trinta e dois gatos, enforcar dez cães, estrangular vinte galinhas e brigar e vencer os chefes
dos outros grupos. Quanta pancada teria de tomar para conseguir tudo isso... E aquela
exigência de atirar pedras no próprio pai, quando ele dobrasse a esquina... Mas ele queria ser
novamente o chefe, e faria tudo para ganhar o posto. Sabia de outros que faziam pior dentro
de casa. Por que não fazer também?
* **
Quando o brinquedo acabou, o magro menino de onze anos saiu sozinho, triste,
desmoralizado. Não soubera usar o revolve com agilidade, antes que o agente lhe rendesse.
Na esquina do caminho de casa, baixou para apanhar o casaco, uma faca e dois números de
416
Gibi, onde haviam três histórias que ainda não conhecia. Elas talvez lhe ensinassem como
matar e mais ligeiro, sem se deixar pegar.
23.2. Reedição de Rachel
(c/ fotografia)
tr
Iniciando suas atividades, o Círculo Literário do Brasil – um novo clube do livro –
escolheu os romances O Quinze, João Miguel e Caminhos de pedra, de Rachel de Queiroz,
reunindo-os num só volume, cujo título será Três romances. Trata-se de uma excelente
iniciativa do CLB, de vez que Rachel de Queiroz é uma das melhores escritoras do Brasil,
quer como romancista, quer como cronista. Sua atividade literária começou muito cedo, desde
os quinze anos quando era professora na escola Normal de Fortaleza, Ceará, e escrevia para a
imprensa local. Aos 18 anos lançou seu primeiro romance, O Quinze, mal recebido pela
crítica de sua terra. No Rio, entretanto, a obra fez sucesso, sendo premiada pela “Fundação
Graça Aranha”, recebendo a autora uma sedutora proposta da Companhia Editora Nacional
para uma nova edição. Daí por diante tudo foi mais fácil, vieram João Miguel, em 1932,
Caminhos de pedra, em 1937, As três marias, em 1938, este último também premiado, já
agora pela “Sociedade Felipe D’Oliveira”. De então para cá, a romancista cedeu lugar à
cronista que, na imprensa carioca, vem atuando com invulgar destaque, publicando crônicas,
algumas das quais já reunidas num volume. Atualmente Rachel de Queiroz prepara dois
livros, uma biografia do Padre Cícero e um romance, Maria Barbara, além de um drama
inspirado na vida de Lampeão. A seleção feita pelo CLB é, pois, das mais louváveis, porque
faz reviver a grande romancista, já um tanto esquecida, dado o sucesso da cronista.
23.3. As mãos sujas
(c/ fotografia)
Res
Última peça de Sartre, foi encenada em Londres, sem no entanto, a mesma acolhida que
tivera na França. Halencar comenta o principal do texto e a crítica londrina. O Evening
Standard escreveu: “Sartre escreveria melhor se esquecesse de que é culto”.
23.4.O caminho da liberdade
(c/ fotografia)
Tr
Grande repercussão vem tendo a Carta aberta que Howard Fast, grande romancista norteamericano, dirigiu, da prisão, ao povo do seu país, conclamando-o a lutar pela urgente
redemocratização da América do Norte, hoje ameaçada pelo desespero da reação fascista. Fast
é o autor de alguns bons romances, dentre os quais o Fredom Road, editado no Brasil pela C.
Editora nacional, numa tradução de Godofredo Rangel com o título de O caminho da
liberdade, tem lugar de primeiro plano, pelo tema que aborda a vida dos negros no sul dos
EE.UU., na época imediatamente posterior à guerra civil. Nele Howard Fast estuda o
desajuste dos escravos libertados, transformados pela primeira vez, em homens livres, apesar
da tremenda oposição dos brancos, analisando ainda o conflito que daí surgiu entre os grupos
raciais e que até hoje perdura. Distanciando-se da rendosa, porém nefasta literatura dos “bestseler”, Fast enveredou, como outros bons escritores norte-americanos, pelo caminho da
análise e da interpretação de problemas sociais agudos, tais os da desigualdade e injustiça
sociais, na preocupação constante de encon trar uma melhor e mais justa forma de vida. seu
potencial dramático, vem da observação diária e profunda das condições sociais de seu país,
do estudo paciente da vida e dos problemas do povo nos seus diversos aspectos, E se isso lhe
deu justa fama e popularidade nos EE. UU, trouxe-lhe, por outro lado alguns aborrecimentos e
críticas. Recentemente, foi preso, em companhia e outros onze membros do Comitê de Ajuda
aos Refugiados antifascistas, por determinação a já famosa Comissão de Investigação de
Atividades antiamericanas, cuja atuação contra o cinema mereceu a mais viva repulsa do
público e de certas autoridaes americanas. O senador Pepe, por exemplo, criticou severamente
a Comissão dizendo que ela encerrava uma perigosa restrição às liberdades fundamentais do
cidadão. Agora, voltando-se contra os escritores, essa mesma Comissão prendeu [Fast], que já
se acha solto em vitude dos inúmeros protestos dirigidos contra sua prisão. Cosnciente de seus
direitos e cidadão e de escritor. Fast, da prisão mesmo, endereçou ao povo norte-americano
uma Carta Aberta, considerada um dos mais importantes documentos dos últimos tempos na
América.
23.4. Hamsun no cartaz
(c/ fotografia)
Res
Sobre Knut Hansun, escritor norteguês, e sua colaboração com os nazistas. Anuncia um
livro do 200 páginas baseado nos diversos exames psiquiátricos a que foi submetido durante a
guerra.
23.5 Gide, o julgador do “Rivarol”
(c/ desenho)
Res
Prêmio literário, francês, intitulado Rivarol., a ser dado a obra de autor estrangeiro, escrita
em francês. O nome do prêmio surge pelo fato de haver sido Rivarol o autor do “Discurso
sobre a universalidade da língua francesa”
23.6. No prelo e nas vitrinas
Res
- A segunda Guerra mundial, de Winston Churchill. Tradução de Enio Silveira, Breuno
Silveira e Leônidas Gontijo de Carvalho.
- O tempo do desprezo, de Malraux. Tradução por Frederico dos Reys Coutinho.
- O rei cavalheiro, de Pedro Calmon;
- Pinguinho de gente, de Gilda de Abreu;
- Cancioneiro da Bahia, de Doryval Caimmi;
- Bahia de todos os santos, de Jorge Amado.
23.7. Sete anos de pastor
(c/ desenho)
Tr
Acaba de aparecer o novo livro de contos de Dalton Trevisan, Sete anos de pastor, uma
edição da revista Joaquim. O autor é um jovem intelectual do Paraná, sendo um dos
fundadores e o diretor da já citada revista, havendo publicado, anteriormente, uma novela
Sonata ao luar. Seu novo livro, que contém ilustrações de Poty (Potyguara Lazarroto), reúne
418
onze contos, todos vazados no estilo já evidenciado no livro de estréia, onde a nota
predominante é a análise de estados subjetivos.
23.8.Correio
Tr
Roteiro de Aracaju, de Mário Cabral, um guia da capital de Sergipe, numa apresentação da
Editora Regina, daquele estado. O autor, que já tem publicado outras obras, inclusive Caderno
de crítica, é membro da Academia Sergipana de Letras e professor de literatura.
23.9. Flagrantes
Res
- Culpado, romance de estréia do jurista Souza Neto, panorama político do Brasil.
- Artur Koestler, autor de O Zero e o Infinito, em visita aos E. Unidos.
- Visitou o Brasil e anunciou livros o escritor italiano Dino Segri, médico, pseudônimo:
Pittigrill. Está sendo processado sob acusação de espionagem facista.
- Kin Blood Royan, novela de Sinclair Lewis, um ano de publicada, sendo um dos 50 livros
mais vendidos nos EE.UU.
- Harpa de prata, livro de Natur de Assis, leva o título do primeiro poema;
- Revista Província de São Pedro, nº 10, ressurge após ameaça de desaparecer. Uma das
melhores do Brasil – literatura.
- Gilberto Freyre regressou da viagem à Europa a convite da Unesco.
- Profº H.S.Nyberg, eleito membro da Academia Sueca de Letras.
- Suplemento Literário do Correio da Manhã publica contos de um jovem autor, Ricardo
Ramos, filho de “Major Graça”.
- Querelas intelectuais na França. Aparecimento de um novo movimento literário e filosófico
– o epifanismo – chefiado por Henri Perruchot. Bases: luta contra o “negativismo pessimista
do existencialista”
24. Data
04/09/48;5
TÍTULO
Secção caleidoscópio
24.1.Variações
Tr
Shelley infeliz, vagando pelas ruas de Londres, a repetir como uma ladainha sem fim: um
coração como um bloco de gelo, como um bloco de gelo... A meiga e doce Harriet
transformara-se numa hostil e seca criatura sem alma, tendo o coração como um bloco de
gelo, nada mais que um bloco de gelo. Shelley desventurado continuava a lamentação pelas
ruas frias e desertas: não passo mais de um inseto que se aquece um pouco, adejado num raio
de sol; a primeira nuvem me tornará a mergulhar para sempre no inferno e no frio. Ao réves
disso, todavia, do frio e do inferno, a doce e conformada compreensão de Mary, quente e
mansa como a paz de um carinho. Ano bom da vida atormentada do insatisfeito Shelley.
Assim são os homens, poetas que todos eles são. Vivem sempre a querer e a lamentar,
esquecidos de que as mulheres também querem e lamentam com muito mais razão, embora
nunca se façam ouvir, não porque lamentem e queiram em surdina. Simplesmente porque os
homens são geralmente surdos a tudo aquilo que não vem de si mesmo.
***
A queixa dos que têm fome é como o vai-e-vem da mares. Avança e recua, recua e avança
mas não cessa nunca, nem mesmo quando é noite de lua. Pode amainar um pouco, parecer que
cessou, para voltar mais forte, mais terrível e tremendamente denunciadora.
***
Parece que tudo parou, quando o menino levou olhos para longe, espiando o sol se esconder
debaixo da cama das montanhas. A vista pregada naquela beleza, a garota não via mais nada e
nada dizia. Talvez aí lhe chegasse o fantasma de Goethe, para murmurar simplesmente:
Oh! Para instante, porque és tão belo!
24.2. Atividades na ABDE
tr
A secção baiana da Associação Brasileira de Escritores está em franca atividade. Já
realizou algumas conferências, entre as quais as de Adroaldo Ribeiro Costa e João Valadares,
e estão programandas outras, movimentando, dessa forma, o nosso ambiente cultural. Sabe-se,
por exemplo, que a ABDE convidou o monge brasileiro D. Rafael Wacker, para efetuar uma
série de palestras sobre a origem e forma literária dos “Psalmos”. Dentro em pouco, pois,
aceito que foi o convite, o público ouvirá essas palestras, e ninguém melhor para fazê-las do
que D. Rafael, uma das reconhecidas culturas da comunidade a que pertence.
Além dessas, teremos uma outra, do nosso grande poeta Artur de Salles, sobre Shakespeare,
tema bastante familiar ao mestre de “Sub-umbra”, que traduziu para o nosso idioma, como
ninguém, o “Macbeth” do gênio inglês.
Movimenta-se a ABDE em outros setores, querendo dar a sua contribuição às
comemorações do centenário de Ruy. Para isso, está organizando um concurso de ensaios
sobre a vida e a obra de Ruy, esperando contar com a ajuda oficial para essa iniciativa.
24.3. Contraponto no cinema
(c/ fotografia)
tr
Dificil tarefa Hollywood está tentando: filmar o famoso romance de Aldous Huxley,
Contraponto, considerado uma das maiores obras literárias dos últimos tempos, não somente
pela crítica que encerra à sociedade burguesa, como pela contribuição inestimável que troxe à
técnica do romance em geral. Pesquisando novas formas, utilizando novos processos, Huxley
chegou à uma arquitetura literária até então desconhecida e e resultados os mais positivos,
quando usadas convenientemente. Ela foi o ponto de partida de novas experiências, que
vieram dar ao romance rumos diferentes dos trilhados até então, já um tanto desmoralizados
pela repetição exaustiva. Dabndo novo fôlego À ficção, Huxley contribuiu para que fosse
vencida, em parte, a tão famosa “crise do romance”, ainda hoje no cartaz.. Nessas condições,
não será trabalho fácil a filmagem dessa obra. Hollywood atravessa a fase mais crítica de sua
existência, não sendo poucos os seus fracassos na adaptação da literatura ao cinema e bem
420
precária a sua situação no que diz respeito à própria técnica, carente de renovação. Ao que se
anuncia, no entanto, a filmagem de Contraponto está bem adiantada, sendo de esperar que,
dentro de poucos meses, o público tenha a oportunidade de assistir um filme tão
revolucionário quanto o romance em que foi baseado.
24.4 Notícia do prêmio Nobel
res
Sobre as quantias a serem concedidas em 1948, sua partilha entre os premiados e a parte da
administração.
24.5. Presente régio
res
Os Estados Unidos presentearam a Inglaterra com o manuscrito original de Alice no país
das maravilhas, de Lewis Carrol, sátira deliciosa e profunda, do século XIX. Halencar
comenta o valor da obra e a importância do original por conter ilustrações.
24.6. Maquiavel e a dama
(c/ fotografia)
res
Título do romance de Somerset Maugham, traduzido por Érico Veríssimo, será lançado no
mês a seguir, pelo Círculo Literário do Brasil. Lançamento anterior: Três romances, de
Rachel de Queiroz; lançamento a seguir após o comentado acima: Água Mãe, José Lins do
Rego.
24.7. Miniatura
tr
Uma das grandes figuras da nossa literatura, graças à suas qualidades e a seu espírito de
luta, Álvaro Moreyra, tem uma tradição de trabalhos que o coloca em lugar de destaque no
nosso ambiente. Gaúcho de P.Alegre, nascido a 23 de novembro de 1888, apareceu com o
grupo simbolista daquela cidade, ao lado de Felipe D’Oliveira, Eduardo Guimarães, Homero
Prates e alguns outros fundadores do movimento no Rio Grande. Mudando-se, desde cedo,
para o Rio de Janeiro, onde vive até hoje, ai iniciou suas atividades dirigindo a revista
ParaTodos. Daí por diante, não mais abandonou os periódicos de literatura e mesmo a
imprensa diária, revelando, principalmente uma acentuada vocação de cronista, e por isso
mesmo considerado, no gênero, o melhor de todos. Ainda hoje, apesar de sua longa e
exaustiva atividade e das campanhas que sempre sofreu Álvaro Moreyra mantém sua fama
entre o povo, que encontra em suas produções a tradução daquilo que pensa e sente. Sua
bagagem literária é grande. Publicou Legenda de luz e de vida (1911) Um sorriso para tudo
(1915) Legenda de rosas (1916) O outro lado da vida (1919) Cocaína (1925) A cidade
mulher (1926) A boneca vestida de Arlequim (1927) Circo (1929) Adão, Eva e outros
membros da família e O Brasil continua (1932), além de outros volumes. Como tradutor,
Álvaro Moreyra realizou alguma coisa salientando-se a tradução de Lês Faux Monnayeux, de
Gide. Espírito de combate, revolucionário no pensar, escreveu e agiu, Álvaro Moreyra
fundou, em 1937, uma companhia de teatro de vanguarda, com a qual percorreu as principais
cidades do Brasil levando ao povo a grande arte. Hoje em dia está mais ou menos afastado,
ressentido ainda do choque que sofreu ultimamente, com a morte de sua companheira, a
poetiza Eugênia Álvaro Moreyra.
24.8. Autores novos
tr
No panorama literário da Bahia está se processando um movilmento de renovação, com o
aparecimento de jovens escritores. Raros todavia, têm livros publicados. A maior parte vem
colaborando em jornais e revistas, deste e outros Estados, dando a sua cotribuição em artigos,
conferências, poema, pequenos ensaios etc. Agora, chega a vez de Natur de Assis jovem
estudante de Direiro, que vai lançar seu primeiro livro de poemas, Harpas de prata. Figura
muito conhecida nas rodas literárias, com vários poemas publicados, Natur é um valor de
mérito incontestável. Vocação poética natural tratando os temas com uma originalidade que
surpreende, seus poemas têm ritmo espontâneo, próprios, que logo despertam no leitor a
sensação de estar em contato com um autêntico poeta.
24.9. Major Graça vai julgar
Tr
A Editorial Vitória instituiu um prêmio para o melhor ensaio sobre a Insurreição Praeira,
de 1848, cujo centenário será comemorado este ano. Foram convidados alguns escritores para
integrarem a Comissão julgadora do concurso, que ficou assim constituída: Graciliano Ramos,
- o célebre Major Graça Anibal Machado, Dalcídio Jurandir e Edison Carneiro. Os ensaios
deverão abordar os seguintes temas: a)o ambiente revolucionário de Pernambuco em 1848;
b)a composição de forças políticas no movimento armado da praia; c)a organização militar
dos praeiros; d) a invasão do Recife pelos praeiros; e) o papel da imprensa no
desenvolvimento do conflito da praia; f)personalidades do movimento; g)caracterização
política do movimento praeiro. Devem conter quarenta páginas, no mínimo, e cinqüenta no
máximo, de papel tamanho ofício, datilografadas em espaço 2, com 3 cópias. O autor deve
usar pseudônimo, enviando o nome, por extenso, em envelope fechado. O prêmio será de
cinco mil cruzeiros, havendo, ainda, 3 menções honrosas. O trabalho premiado será publicado
pela Editorial Vitória, que ficará com os direitos da 1ª edição garantidos. Os trabalhos serão
recebidos, até 15 de outubro, na Editorial Vitória, rua do Carmo, 6 – 13º andar, sala 1306, Rio
de Janeiro.
24.10. Publicações
Tr
- Candomblés de Bahia, de Edison Carneiro, publicação do Museu do Estado, que também
editou, de F. Edelweiss, “Tupis e Guaranis”.
- Contemplacion, de Luis Vilaronga, edição de San Juan, Puerto Rico, 1947.
- Ressureição de um suicida moral, de Silas Portugal, pela editora Era Nova ltd., Bahia,
com um prefácio de João Mendonça
422
24.11. Flagrantes
Res
- Publicações em árabe do “Livro de San Michele”, Ayel Munthe
- Edição de Bairro de liberdade, Manuel Martinho, cronista;
- Prêmio dos Poetas Franceses foi para Alice Cluchier com o livro Au Rouet de L’Amur.
- Nº 13 de Joaquim, com ilustrações de artistas do Paraná.
- Revista 2 de julho, dirigida por universitários.
- 20 novos nomes de poetas aparecem na Literatura Brasileira nos últimos 3 meses. E os
romancistas?
- Fonoteca nacional Francesa – um “Museu da Palavra”.
- Adele Garrison, autora de El derrotero peligroso del amor reivindica o título de autora
mais prolixa do mundo.
25. Data
18/09/48;11
TITULO
Seção Caleidoscópio
25.1. Variações
(c/ desenho do escritor)
Tr
Uma linda bonequinha de oito anos provou, como ninguém mais o fez, o quanto vale
Lobato. Nenhum discurso, nenhum conferência, as lágrimas mais sentidas ou a saudade mais
pungente, nada disso, nada, poderá ter tanta e tão espontânea significação do que esse
oferecimento de quinhentos cruzeiros, que a menina Célia, um anjo de oito anos fez à
companhia para o monumento ao grande e querido escritor do nosso povo. Possuindo o
fabuloso tesouro guardado a sete chaves, não hesitou em de, espontaneamente, àquele bom
amigo que, um dia lhe pegou pela mão, como a tantas outras crianças, conduzindo-a para o
maravilhoso mundo das reinações de Emília e Narizinho E o fato é tanto mais expressivo,
quando foi essa a primeira doação da Bahia, ao monumento de Lobato.
Perguntar-se-á, então, porque o fez. Certamente que uns poucos logo pensarão que os pais, os
irmãos, alguém que assim fizesse. Engano. Fiz porque quis e porque gosto da Emília, foi a
resposta que Célia deu a quem lhe fez a pergunta. E Emília é Lobato. E a infância, da qual
Célia é símbolo, ama Lobato pelo que ele lhe deu de bom e de novo, pelo sol límpido e pelo
ar sadio com ele construiu o mundo mágico de suas reinações. Onde havia sombra e
penumbra de medo, ele derramou a luz clara e alegre que espantou os fantasmas e
assombrações da nossa literatura infantil. E criando todo uma gente boa e amiga que ri e
brinca, ensinou às crianças e amarem a terra e a dignificarem a vida. Isso foi, de resto, o que
Lobato mais fez. Ensinar. A grandes ou pequenos, ricos ou pobres, ele ensinou sempre, quer
com o seu admirável exemplo de homem livre, quer com a sua consciência jamais corrompida
de escritor fiel ao seu tempo e ao seu povo.
As crianças jamais negaram o seu amor a Lobato e estão provando que aprenderam o
que ele lhes ensinou. E os outros? E esses, para os quais ele tanto escreveu e pelos quais não
fugiu de sofrer a humilhação das cadeias e a queima pública de seus livros?! Também não o
esquecerão. Lobato vive em todos e em cada um, enquanto existirmos como povo livre, tão
livre como ele sempre foi e nos ensinou a ser.
OBS.: com desenho do escritor
25.2. Ciro dos Anjos na Bahia
(c/ fotografia)
Tr
O autor de Amanuense Belmiro e Abdias está em Salvador, em missão ligada às suas
funções do Diretor de Ipase. O romancista mineiro estreou na literatura nacional em 1937.
Com o primeiro dos romances citados tendo a crítica, na ocasião, considerado a estréia como
uma das mais promissoras dos últimos tempos. Houve mesmo quem colocasse Ciro dos Anjos
na família literária de Machado de Assis, descobrindo outras marcantes influências de Proust
na sua obra. Em 1945, a Livraria José Olympio lançou o seu segundo romance, Abdias, o
qual, embora não se possa dizer que é um mau livro, não corresponde aos méritos da estréia.
Ciro dos Anjos é formado em Direito pela Universidade de Minas Gerais (1932), e nasceu em
Montes Claros, a 5 de outubro de 1906. Funcionário público, tem exercido funções de
destaque, dentre as quais as de diretor da Imprensa Oficial, membro do Conselho
Administrativo e posteriormente presidente do mesmo, em Minas Gerais, tendo sido também,
secretário do Ministério da Justiça, quando ocupava o Ministério o Sr. Carlos Luz.
Atualmente é diretor do Ipase e colabora na imprensa carioca.
25.3. Interpretação da Vírginia Woolf
(c/ fotografia)
Tr
A Hogart Press lançou, de Bernard Blackstone, Vírginia Woolf, um livro de interpretação e
análise da obra da grande romancista. O livro vem sendo considerado como o mais sério
trabalho até agora realizado sobre a desventurada autora de Orlando, cujo fim trágico,
suicidando em 1941, vencida por uma inelutável tormenta interior, fruto da sua visão do
mundo, foi o ponto final de uma existência sempre em conflito com o meio ambiente. O autor
desse trabalho é professor da “University College”, em Swansa.
OBS.: ilustração da capa do livro
25.4. Quem mudou?
(c/ fotografia)
Res
Trata da visita do Jonh dos Passos ao RJ, justificada pela incumbência de escrever artigos
para a revista Life. Sugere, o crítico, que o autor talvez estivesse perdendo o prestígio junto ao
público norte-americano. Acrescenta comentário de suas atitudes políticas, especificando a
sua declaração de apoio a um candidato reacionário, senador Talt, quando seus livros faziam
crítica ao “reacionarismo ianque” ganhou a antipatia de milhões de americanos. Transcreve
trecho da entrevista dada por Dos passos ao repórter do Correio da manhã, na qual afirma não
ter mudado e sim que havia mudado o que se chamava de esquerda, continuava a favor da
liberdade, esta parecia estar aonde antes não se encontrava. Halencar coloca que é o fim de
um escritor e cita outros, Howard Fast, Jonh Steibeck, Erskine Caldwell que são exemplos de
bons escritores norte-americanos.
424
25.5. Publicações baianas
tr
O movimento literário na Bahia continua animado, com o aparecimento de algumas
revistas de jovens, salientando-se o já conceituado Caderno da Bahia e a revista 2 de julho. E
como esse movimento pretende continuar, como programa que os jovens traçaram, já está
sendo anunciado o segundo número de Caderno, que conterá: Conceito e função da poesia –
conclusão - de Wilson Rocha; Primeira parte da correspondência de Monteiro Lobato (cartas a
Oscar Cordeiro, Vasconcelos Maia, Adroaldo Ribeiro da Costa e Wladimir Guimarães). Notas
sobre artes plásticas na Bahia, de Motta e Silva; Música erudita e popular – II – de Paulo
Jatobá; poemas de Nicolau Guillén e Fernando F. de Loanda; O homem da gravata grenat –
peça de Luiz Henrique Dias; Tendências da nova geração, de Adalmir da Cunha Miranda;
Manifesto do Congresso Mundial de Compositores, noticiário geral e comentários, com
ilustrações de Manuel Martins, Carlos Frederico e Hélio Vaz.
25.6. Sapato florido
(c/ desenho)
Res
Título do livro de Mário Quintana. Halencar elogia o estilo original do autor e a riqueza de
sugestões do livro, especificamente tratando a forma como os temas são trabalhados. Inclui
comentário de Érico Veríssimo sobre Quintana.
25.7. O outro intérprete do sul
(c/ fotografia)
res
Sobre os intérpretes do Sul dos Estados Unidos, destaca Erskine Caldwell, suas obras, seu
estilo e naturalidade. Nasceu na Georgia; além de comentar a proibição de veiculação de seu
romance, da crítica agressiva a Tobacco road que impediu a encenação da peça em algumas
cidades. Chega a notícia de uma nova edição de dois dos seus livros: God’s Little Acre e
Trouble in July.
25.8. Os intelectuais e a defesa da paz
Res
Relata reunião em Wroclaw, Polônia, intitulada Congresso Mundial de Intelectuais em
Defesa da Paz. Destaca as presenças de Jan Mukarovsky, reitor da Universidade de Praga e de
Julien Huxley, cientista inglês e de Jorge Amado. Transcreve fala de Maurice Bedel na qual
afirma o respeito às diferenças e às diferenças raciais.
25.9. Flagrantes
res
- Georges Duraud – recebe o prêmio da crítica francesa de cinema. Publicou As máscaras,
ensaio no qual estuda o tema da máscara, livro premiado.
- Condé – deixa de publicar no Suplemento Literário Letras e Artes, reprimido pelo governo
por ter divulgado depoimentos que elogiavam Prestes.
- Noruega – campanha que buscava dotar a Marinha mercante de bibliotecas.
- Concursos de contos na Bahia – lançamento de dois concursos, um na Faculdade de
Direito e outro pela revista Dois de Julho, esta última promove um concurso de poesia.
- Revista Orfeu – em circulação, publicação do RJ e aparece em cada estação do ano.
26. Data
02/10/48;9
TÍTULO
Caleidoscópio
26.1 Variações
Trans
Quando morre um poeta, parece que a vida fica de luto e qualquer coisa foi
definitivamente perdida. Algo imponderável, que não se vê nem pega, mas se pressente
diluído em tudo, no ar, na luz, nas coisas, uma grande angústia que não pede licença nem
aceita recusas.
***
Pouco conhecido do grande público, em virtude do afastamento em que vivia, Fernando
de Salles era um nome de prestígio entre os intelectuais da Bahia e de alguns outros estados,
que conheciam a sua obra e sabiam de seu valor. Fazendo da poesia sua constante
preocupação, a ela sempre voltado numa como que desenganada procura de objetivos, deixa
Fernando, ao morrer, uma obra ainda sem publicação, conhecida apenas dos amigos mais
íntimos ou mercê de uma que outra divulgação em jornais e revistas, mas uma obra que
merece ser conhecida de todos, amplamente divulgada, para que lhe seja dado o lugar que
realmente merece em nossa literatura. Como seu pai, o mestre Artur tinha Fernando de Salles
um carinhoso cuidado com a sua arte, trabalhando seus versos com extrema atenção e
interesse permanente, apesar da imaginação franca e solta que lhe trazia insatisfeito sempre e
sempre em busca de novos motivos. Moço ainda, mas vencido pela doença, não teve o poeta a
oportunidade de editor; os dois livros que já preparara, uma antologia dos nossos poetas e
uma série de produções suas. Seria o caso da ABDE entrar em entendimento com o governo,
no sentido de editarem, em cooperação, os dois livros de Fernando de Salles, o que
significaria uma valiosa contribuição para a cultura baiana, além de uma homenagem justa a
um pobre, paupérrimo poeta, que morreu moço e sem glórias, quando possuía valor e méritos
que lhe dariam fama invejável, se houvesse tido oportunidade.
26.2. Protesto da ABDE
Res
A propósito dos acontecimentos de Vigo na Espanha, quando foi preso pela polícia
franquista, o estudante e escritor Emo Duarte, a secção estadual baiana da Associação
Brasileira de escritores enviou o seguinte telegrama ao Ministro das Relações Exteriores do
Brasil: “A Associação Brasileira de Escritores, secção da Bahia, profundamente ofendida e
revoltada com o vergonhoso ato da polícia franquista, que, raptando do navio brasileiro
426
“Santarém”o jornalista e escritor conterrâneo Emo Duarte, deu mostra de desprezo e ofensa
ao Brasil, ao povo e ao seu governo, vem por meio deste, lançar o seu enérgico protesto e
hipotecar a V.S. inteira solidariedade às másculas e honrosas providências que decerto V.S.
tomará exigindo a imediata liberdade do escritor patrício assim como procedendo o exame de
corpo de delito, responsabilidade a quem de direito, isto é, a famigerada organização policial e
ao ditador Franco por tamanha e insultuosa agressão. Cordiais saudações – Vasconcelos Maia
– 1º secretario.”
26.7. O biográfo do século XX
(c/ fotografia)
Res
Sobre o falecimento de Emil Ludwing, o fato é considerado um luto da Literatura
Universal; Halencar traça alguns fatos de sua vida, nascimento, perseguição pelo hitlerismo
que incinerou vários de seus livros em praça pública e sua fama pelas biografias que escreveu,
dente as quais a de Goethe, Napoleão, Bismark, Bolívar, além das de alguns estadistas.
26.8 O escritor e a sua responsabilidade histórica
(c/ fotografia)
Trans
Érico Veríssimo é um escritor que se tem mostrado independente, distanciado dos grupos e
das igrejinhas literárias do Brasil sem perder, jamais, a consciência de suas responsabilidades
de escritor e de cidadão. Nunca fugiu de se pronunciar sobre os problemas mais graves da
atualidade, naturalmente por entender que o romancista como analista da vida não deve pairar
au dessus de la mélee. Nessas condições, tem Érico atuado como um intransigente defensor
da liberdade, externando sempre a sua opinião sobre aquelas questões que reclamam de todos
uma decidida tomada de posição. Pronunciou-se contra a cassação do mandato de
parlamentares, é membro da Comissão de Estudos e Defesa do Petróleo do Rio Grande de
Sul, contra as concessões das nossas riquezas aos trustes, escravagistas, e recentemente,
evidenciou seu ponto de vista a respeito do Estado de Israel, dizendo: “Simpatizo
profundamente com a causa dos judeus. Acho que chegou a vez da Organização das Nações
Unidas provar que de fato existe e tem força. E a melhor maneira de fazer isso é deter
imediatamente os agressores do estado de Israel, não com discursos ou boas intenções mas
com forças armadas.” Isso significa que o grande escritor brasileiro não se encontra, como
muitos, preso às torres-de-marfim, medroso de levar sua contribuição à solução dos graves
problemas de seu tempo. E tais atitudes é que fazem crescer seu prestígio, atraindo, ainda
mais as simpatias do grande público, que nele encontra um dos romancistas de sua predileção.
26.7. Inglaterra e sua gente
Res
Divulga a iniciativa da Livraria Progresso que pôs à venda o célebre livro de R. Emerson,
traduzido por Acácio França, escritor baiano, já falecido.
26.8. Apassion
(c/ fotografia)
Res
Anuncia para breve, o lançamento da versão traduzida do romance de James Hilton,
escritor inglês, autor de Horizonte perdido e Adeus, Mr. Cripps.
26.9. Retrato da Cultura
(c/ fotografia)
res
Resumo bibliográfico do médico, filósofo e musicista Albert Scweitzer. A “Edições
Melhoramentos” lança Decadência e Regeneração da cultura, de sua autoria com tradução,
prefácio e notas de Pedro de Almeida Moura. São conferências nas quais “o autor procura
esboçar um retrato da cultura”. Halencar afirma que apesar de alguns dos seus princípios
serem inaceitáveis, não se pode negar o valor do livro pelo esforço e estudo objetivando
orientar a vida para novos rumos.
26.10. Um bom Policarpo Quaresma
Tr
O Clube do Livro, entidade cultural que se propõe a distribuir gratuitamente de seis em seis
meses, entre os seus associados, um livro encadernado de autor brasileiro, vem de lançar,
ultimamente, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. É esse o quarto título a ser
editado, sendo os 3 anteriores, Dom Casmurro, de Machado, Destinos, Umberto de Campos e
Fruta do mato, de Afrânio Peixoto. Com essa iniciativa do Clube do Livro, parece que,
finalmente, Lima Barreto teve a edição que merecia. É fato sabido a grande dificuldade que o
inigualável romancistas dos subúrbios cariocas sempre encontrou para a divulgação de suas
obras, tendo mesmo pago do próprio bolso duas edições de livros seus. Jamais teve a mesma
sorte de Machado, que no particular sempre encontrou caminho fácil. E o fato de ter sido
sempre mal editado, constitui, na opinião de alguns, um dos principais fatores para a má
vontade com que lhe recebiam os contemporâneos. Atualmente sua obra tem chamado
atenção do público e da crítica, sendo muitos que os comparam a Machado de Assis e ainda
mais numerosos os que o colocam em lugar superior. E a razão parece estar com os últimos,
de vez que o conteúdo da obra de Lima Barreto não se compara ao da de Machado, sendo bem
mais importante e melhor. Ele, aliás, não via com bons olhos a comparação, chegando mesmo
a dizer: “Machado escrevia com medo do Castilho e escondendo o que sentia, para não se
rebaixar; eu não tenho medo da palmatória de Feliciano e escrevo com muito temor de não
dizer tudo o que quero e sinto, sem calcular se me rebaixo ou me exalto. Sempre achei no
Machado muita secura de alma, muita falta de simpatia, falta de entusiasmos generosos, uma
porção de sestros pueris”.
26.11. Época
Trans
Manda-nos Sergipe uma boa revista de Cultura, elaborada por um grupo de jovens
intelectuais. Época, em seu primeiro número, contém bons estudos sobre literatura nacional e
internacional, demonstrando, assim, que nas províncias também se faz alguma coisa e se
estuda. A iniciativa revela um louvável esforço dos intelectuais sergipanos, trazendo a sua
428
contribuição ao grande movimento de renovação cultural que se processa atualmente. A
destoar, apenas, a nota redacional de apresentação, de vez que evidencia um como que
desconhecimento mais profundo do verdadeiro sentido da luta que se processa no terreno da
cultura contemporânea, quase sufocada por uma crise de vida e de morte. Embora,
acreditamos bem intencionada a "apresentação" , confunde alhos com bugalhos, baralhando,
aqui e ali, conceitos e definições que não podem e não devem ser confundidos. Isso poderia
prejudicar a visão nítida da verdadeira posição da revista face aos problemas que preocupam a
todos, principalmente aos intelectuais. O [registro], aliás, é uma contribuição á elogiável
iniciativa dos moços de Sergipe, os quais, ainda que fazendo a confusão que acima indicamos,
declaram: “A esta altura da nossa apresentação deve já estar bem claro que Época se situará
no extremo progressivo do campo cultural. seu programa busque formas mais perfeitas de
conhecimento e de expressão”. E esse é programa de todos aqueles que não se perdem no
amaranhado dos acontecimentos, marchando lado a lado com o tempo, muita vez a ele se
adiantando na luta por uma vida melhor.
26.12. No prelo e nas vitrineas
res
- O jovem José, de Thomas Mann, 2º volume de teatrologia
- The essential James Joyce, de Henry Levin
- Catalina, último romance de Somerset Maugham
- O amor, as mulheres... e um filòsofo, de Maurice Dekobra, tradução de José Dauster.
26.13. Flagrantes
res
- Lançamentos, para breve, do novo livro de Lourdes Bacellar, autora de Festa, o livro que
estará nas livrarias é Enquanto ruge a tormenta.
- Alberto Silva publicou Glória e sofrimento de Castro Alves, 1º prêmio no concurso na ALB.
- Comenta a revisão dos livros didáticos japoneses determinada pelo Supremo Comando
Aliado, objetivando eliminar os apelos ultranacionalistas e ao militarismo.
- Sra. Leandro Dupré está preparando um novo romance.
- Silas Portugal, autor de Ressureição de um um suicida moral, é um presidiário.
- Mário Quintana finalizando o livro de poesia, O aprendiz de feiticeiro
- Tradução para o castelhano de Eurídice, de José Lins do Rego
- Publicado o livro de B. For Ivan: English Literature Between the Wars, na Inglaterra, com
estudos sobre Joyce, Forter, Lawrence, etc.
- Filmagem em breve de Subterrâneos do vaticano, de Gide.
27. Data
30/10/48;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
27.1. Variações
tr
Pouco importa o colorido das acácias na praça cheia de sol, porque é o negro destino
dos que não podem ver, embora não lhes faltem os olhos sadios e a vontade de enxergar.
Pouco importa a sinfonia que apazigua e acalma o tumulto da vida e restitui o ânimo de
prosseguir, porque há a desgraçada sorte daqueles que não ouvem, embora bons sejam os seus
ouvidos e imensa a vontade de escutar...
Pouco importa o livro que educa e abre teóricas perspectivas de um futuro melhor,
porque bem poucos o sabem ler e menor ainda os que desejam para os outros um futuro
melhor...
Pouco importa que a ciência conquiste minuto a minuto, porque à grande maioria não chega
os seus benefícios e as guerras continuam a ser feitas em nome da ciência e do progresso...
Pouco importa... pouco importa tudo o mais, enquanto perdurarem as mesmas condições e os
mesmos forem os objetivos...
O que importa é que todos possam ver, possam escutar, que todos saibam ler e
compreender...
O que importa é que ninguém mais fale em nome da paz com um revólver na mão e
não se diga porta-voz dos povos quando pretende levar esses povos à loucura da morte
coletiva...
O que importa é que as acácias sejam vistas na praça cheia de sol, as sinfonias sejam
ouvidas, os livros sejam lidos, e haja em tudo e em todos, nas coisas e nos homens, um
grande, um imenso desejo de paz...
27.2. Conflitos modernos
(c/ fotografia)
trans
Na Bahia há vários dias, o poeta Murilo Mendes realizou, na noite de quinta-feira passada,
no auditório da Secretaria de Educação, uma conferência sobre o tema: “Conflitos
Modernos”. Abordando alguns dos problemas político-sociais do nosso tempo, traçou o poeta
um quadro da nossa realidade, no qual os moços figuram com merecido destaque, procurando,
no dizer do conferencista, uma posição de equilíbrio entre um e outro extremo. Concluindo ,
apontou Murilo Mendes aquilo que entendia ser o melhor caminho na discutida e discutível
confusão da nossa época, o da influência católica. Foi grande a afluência à palestra de Murilo
Mendes, que é atualmente, um dos intelectuais de mais projeção do Brasil.
27.3. Enquanto ruge a tormenta
trans
Numa edição da Imprensa Oficial do Estado, já está nas livrarias o novo livro de Lourdes
Bacellar, Enquanto ruge a tormenta... A autora de Festa reuniu, nesse volume, várias crônicas
e poemas, escritos naquele seu habitual de ao mesmo tempo encanto e desencanto com a vida
hesitando sempre entre as sugestões que lhe são oferecidas pelo aspecto exterior das coisas e
aqueles que vêm de dentro de si mesma. Logo no início do livro, o leitor encontrará várias
430
opiniões sobre Lourdes Bacellar, inclusive as de Carlos Chiachio e Camilo Jesus de Lima
sobre um outro livro seu Na sombra e no silêncio, editado no ano passado.
27.4. Angústia em tcheco
(c/ desenho)
trans
Se Graciliano Ramos é uma das grandes figuras da literatura brasileira seu romance
Angústia é uma das mais importantes e significativas obras das nossas letras. Em nenhuma
outra ocasião o drama pequeno-burguês de Luiz – que também se pode chamar de José,
Joaquim, Manoel, etc. – foi tão bem fixado quanto nesse romance do major Graça que disseca
todo um mundo de sofrimentos, de complexos, de fracassos, de sonhos impossíveis porque
elaborados pela mente angustiada de um pobre-diabo funcionário público, sem horizontes e
sem perspectivas de vida. A história de Luiz é a mesma de outros homens de todas as partes
do mundo, porque os mesmos são os problemas econômico-sociais. Daí a oportunidade que
sempre terá um livro como esse, quando traduzido para outros idiomas, como vai agora
acontecer, com a versão para o tcheco do mais famoso romance do velho Graça. A edição está
a cargo do “Sfinx Publischers ltd.” , de Praga, com a qual Graciliano vem de contratar a
tradução de Angústia.
27.5. Publicações
res
- Psicotécnica, de Theobaldo Mirando dos Santos, livro de Orientação e Seleção
Profissional – Organização do Trabalho e Prática do Ensino, processos técnicos e técnica
de didática moderna.
- Um pracinha paulista no inferno de Hitler, Altino Bondesan, um ex-expedicionário.
- Antônio Torres, de João Dornas Filho, editora: Guaira.
- A nuvem de fogo, de Santos Morais, poemas, baiano residente na Capital Federal.
27.6. As edições Saraiva
res
Publica livros com mesmo preço. HAlencar ressalta o fato mas, ressalva que poderia ter se
feito uma melhor seleção dos livros, que “não adianta baixar o preço, baixando, também a
qualidade da literatura” e que poderia ter lançado obras de romancistas nacionais
contemporâneos. Cita os lançamentos de Rei Cavalheiro, de Pedro Calmon, e o quarto
volume da coleção Os irmãos leme, romance histórico de Paulo Setubal e Bem-Hur, de Lewis
Wallace.
27.7. A desintegração da Morte
trans
.É o título de uma novela de Orígenes Lessa, conhecido autor de Omelete em bombaim,
que o “Círculo Literário do Brasil” está distribuindo como sua seleção do mês de outubro.
Trata-se de uma sátira ao espírito guerreiro alimentado pela utilização da energia atômica
como arma de destruição. Na novela estuda o autor o problema da escravização da
humanidade, através de um cientista, o sábio Klesoptein, o qual, descobrindo a “desintegração
da morte” , impõe ao mundo e aos homens o grande tributo, que é a pedra da liberdade.
27.8. Camus e o problema franco-alemão
(c/ fotografia)
res
Anuncia a publicação, em Paris, da edição aumentada e prefaciada pelo próprio autor, de
Letras a un ami allemand, de Albert Camus, existencialista divergente de Sartre. Livro escrito
durante a guerra, no qual o autor estuda o problema da adesão ao nazismo, ligado ao amor à
Alemanha.
27.9. Clubes Literários
trans
Uma das provas de que o movimento literário no Brasil vai ganhando mais força e
crescendo de importância, atingindo, mesmo, um público maior, está no fato da multiplicação
dos clubes ou círculos literários, que objetivam a difusão do livro em amplos setores. das
nossas populações. E uma dessas associações é o Círculo Literário do Brasil, cujas seleções
vêm sendo bem recebidas. A de novembro, foi Água Mãe, de Zé Lins do Rego, o romancista
do ciclo da cana de açúcar. Esse romance obteve, em 1941, o Prêmio da Sociedade Felipe D
´Oliveira, como o melhor livro do ano. Há quem o considere uma das melhores obras do
romancista paraibano, talvez porque tenha nele Zé Lins abandonado a história e os cenários
dos banguês e das usinas, para descrever a vida do litoral fluminense, dando, assim, um novo
aspecto aos seus livros, já que iam se repetindo no estudo dos mesmos temas. Como quer que
seja, em Água Mãe o autor do inexpressivo Eurídice confirma as suas qualidades de
ficcionista de grande capacidade imaginativa e de força poética, qualidades essas que lhe
consagram como uma das figuras de maior relevo da nossa literatura contemporânea.
27.10. O novo Malraux
res
Anuncia um romance do escritor, elogiando o romancista já bastante conhecido no Brasil.
Cita a obra, editada em Paris, Les noyers de l´altemgerg e comenta suas posições políticas,
apesar de não especificar quais sejam.
28. Data
13/11/48;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
28.1. Variações
trans
Há, no pequeno baleiro que todos os dias passa, vagaroso e triste, pela rua onde moro,
uma desencantada expressão de quem anda sempre com fome de chocolate...
432
***
A responsabilidade que, nos dias de hoje, cabe ao intelectual, seja ele escritor, pintor,
músico, cientista, seja o que for, é daquelas que exigem pronunciamento imediato e nunca
vacilante. Ou o intelectual participa do grande drama universal, contribuindo para que a paz
no mundo e entre os homens seja cada vez mais firme, ou será ele posto à margem, como
inútil, destituído de qualquer valor - voz que não se ouve, palavras que não são lidas. Não vai
nisso nenhum exagero. Aliás, para ser mais exato, ninguém pode, hoje, deixar de participar da
luta, seja pela paz, seja pela guerra. Ficar de cima, preso à torre-de-marfim, já não é mais
possível. de tal forma se agravaram as condições do mundo, que todos os homens, por mais
humildes e menores, são obrigados, mesmo sem que disso tenham consciência, de contribuir,
de uma forma ou de outra. E o intelectual, mais do que qualquer outro, tem a obrigação de
assim proceder, marchando à frente de seu povo e de seu tempo no caminho da paz, que não é
de rosas...
***
Há, na poesia, um toque de juventude eterna, e esse é o seu grande mistério. Daí ser falso todo
o poeta que pretenda fazer a sua arte com símbolos velhos e cansados de épocas já perdidas
nos longes.
28.2. Prêmio Nobel, 1948
(c/ desenho)
res
Comenta a concessão do prêmio a Thomas Stearns Eliot, cita as obras de Murder in
cathedral e The waste land, além de tratar do conteúdo das suas poesias que se distanciam da
função social, ressalta também a forma afirmando que Eliot era um revolucionário da técnica,
“ escrevendo num tom de conversa simples". No entanto, conservador quanto ao conteúdo,
apesar de seu mundo ser o das ruas, mansardas e cafés, fechou-se na “torre-de-marfim dos
problemas abstratos". Cita seu nascimento, local de estudos e que fez parte do grupo imagista
de Ezdra Pound.
28.3. Final de Jean Christophe
(c/ fotografia)
res
Título do livro de Romain Rolland, Jean Christophe editado em cinco volumes, sendo o
último editado pela "Globo", em 1948. Afirma ser o escritor uma das grandes figuras da
Literatura contemporânea, foi perseguido por seus ideais pacifistas na guerra de 14 e pelos
nazistas na de 39. Autor de Clerambault ou A história de uma consciência e da novela Pedro
e Lúcia.
28.4. Decandência
(c/ fotografia)
res
Sobre a publicação de A caminho de Swann, primeiro volume de A la recherche du temps
perdu, de Marcel Proust, editado pela "Globo". Comenta a "febre de Proust" no Brasil,
aparece nos suplementos literários, há clubes de Proust, caracterizando uma "moda". Segundo
Halencar, apesar de inegavelmente ter sido um escritor fora do comum, se isolado do seu
tempo, Proust pouco significa; sua obra não "vence o tempo, alcançando a imortalidade" e foi,
o escritor, superado na forma e no conteúdo. O retorno a Proust parece significar uma
tentativa de impedir o avanço da literatura no que se refere a novos processos de construção
que se dá inclusive pela experiência deixada por escritores como Proust. Assim, conclui que
esse fenômeno Proust no Brasil pode revelar a decadência da literatura, mas que seria
passageiro.
28.5. Sem comentário
(c/ fotografia)
tr
Sartre, o porta-voz falso desespero existencialista, continua no cartaz da literatura. E agora,
então, parece que será mais lido do que anteriormente. É que o noticiário telegráfico da
Cidade do Vaticano está informando um fato curioso, que trará publicidade ao discutido autor
de O ser e o nada. E ele, que tanto persegue a publicidade, saberá, certamente, explorar esse
fato. Trata-se do seguinte: A Congregação do Santo Ofício incluiu no Index de livros
proibidos, todas as obras de Jean Paul Sartre...
28.6. O novo livro de Mann
(c/ fotografia)
res
A última novela, até aquele momento, de Thomas Mann, Dr. Fausto, é considerada a mais
difícil das de sua autoria, foi selecionada para o "Book-of-the-Club" , da América do Norte,
junto com Catalina, de Maugham. Segundo HAlencar, se fosse feito um concurso entre os
críticos literários do mundo inteiro, Mann obteria o primeiro lugar como maior novelista vivo,
embora sem ser o mais lido; resenha o livro citado, considerando-o uma seqüência literária da
Montanha Mágica, “a admirável e profunda análise do pensamento europeu de antes da
primeira guerra mundial”; considera ainda o livro lançado a obra–prima do escritor, embora
pareça enfadonha para alguns, a biografia escrita durante a 2ª guerra mundial.
28.7. Mais um para o cinema
(c/ desenho)
tr
O cinema nacional vem sendo alvo de severas críticas, não apenas pelos defeitos técnicos
que apresentam, como, e principalmente, pela falta de argumentos das que produz. A maior
parte, a quase totalidade, é filme-revista, simples "shows" cinematográficos. Agora, no
entanto, parece que isso vai mudar. Já há películas nacionais baseadas em obras de revistas
dos nossos escritores. E foi em Os ratos, de Dyonélio Machado, um dos nossos bons
escritores contemporâneos. Essa obra tem um lugar de destaque em nossa literatura, pela
importante contribuição que trouxe ao romance moderno nacional.
28.8. Flagrantes
Tr – Continua perdendo terreno, no Recife o romancista de Água Mãe, que o Sr. Permínio
Ásfora, com certa razão, considera um ex-romancista.
Zé Lins do Rego e o seu grupo não souberam conservar a devida compostura na polêmica
aberta em virtude da nota depreciativa que o autor de Eurídice escreveu contra a revista
Região e, posteriormente, contra Presença. Por outro lado, o revide não foi suave...
434
Tr. –Circulando o 5º número de Clã, a admirável publicação dos intectuais cearenses. Como
das outras vezes, Clã traz um vasto material de estudo e de crítica literária, com algumas
ilustrações.
Rs – André Maurois realiza conferências na América do Norte.
Rs.- Victor Kravchenko processa a revista Lettres Françaises.
Rs. – Bibliotecas públicas da Grã-Bretanha aumentam o fornecimento de livros, comenta as
colocações do Ministro da Educação Tomlinson. Inauguração da primeira escola internacional
para bibliotecários, pela Unesco, na Grã-Bretanha.
Tr.- José Geraldo Vieira, grande figura da literatura nacional, está escrevendo mais um
romance, desta vez para a Coleção Saraiva.
***
Rs.- Livro de Julien Green, Leviatã, traduzido e à venda no Brasil.
Rs - Prêmio Les Nouvelles Litteraires, inscrições encerradas, prêmio de 1 milhão de francos.
Rs – HA repudia a editora Modern Reading Library por lançar livros condensados.
Rs.- Movimentação baiana para o centenário de 1949, com livros em elaboração, dentre os
quais o romance de Nilo Pinto, Cinco escadas sobem para a morte.
Rs.- Livro de poemas de Natur de Assis, Harpa da prata, esgotado.
Tr.- Vem tendo a maior repercussão, em todo o país, a publicação dos jovens intelectuais
baianos, Caderno da Bahia, cujo terceiro número está sendo anunciado.
Tr.- Dois de Julho, outra revista de novos tem tido boa aceitação.
Tr.- Vai entrar no prelo, dentro de poucos dias, Bahia de ontem e de hoje, roteiro de Bahia de
Darwin Brandão e Motta e Silva.
29. Data
27/11/48;9
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
29.1. Variações
tr
Cada homem, ao sair para a vida, como que parte em busca de sua ilha do tesouro,
perdida nos confins do mar. Sonha encontrar qualquer coisa que não lhe disseram bem o que
era nem o que representava. Mas, sonha. Pensa que um dia, ao se alevantarem as nuvens da
tormenta negra, verá ao longe, apenas esboçada, a silhueta indecisa da terra prometida. E
assim ele parte, todos se vão, carregados de imagens de coisas que nunca viram, de pessoas
que jamais conheceram, de terras que nunca pisaram.
Viaja desprevenido as mais das vezes, leva consigo apenas esses sonhos e essas imagens e
essa medrosa certeza de que algo terá de ser encontrado. Não sabe o que é nem onde está, mas
vai à sua procura, joga-se para todas as distâncias, pisa todos os caminhos, como se uma
irrecusável obrigação o fizesse escravo dessa busca desesperada.
Oh! As minhas, as nossas, as vossas ilhas do tesouro, perdidas nos confins do mar...
Como encontrá-las, senão sabeis como e onde procurá-las! Se não tendes o roteiro seguro, que
seria a perfeita compreensão do vosso destino e dos vossos objetivos!... E tantas que vão
ficando, tão perto de vós, enquanto partis desesperados, perseguindo ilusões vazias e
esperanças frouxas – esses venenosos boitátas da vida...
Obs.: com desenho no centro: um baú com uma bandeira rasgada, em uma praia e um
barco/vela.
29.2. Vitrina do candomblé
(c/ fotografia)
tr
A livraria Brasileira organizou uma artística vitrina, para expor Candomblés da bahia, de
Edison Carneiro, editado pelo Museu do Estado. O livro, é sem favor, um dos melhores
estudos já publicados no gênero. profundo conhecedor dos costumes, hábitos e religiões
negras, ninguém melhor poderia informar a respeito dessas religiões, hábitos e costumes que o
Edison Carneiro. A esse respeito, aliás, em oportunidade anterior, fizemos o nosso registro.
Agora, no entanto, que aquela livraria oferece ao público esse livro, numa bela exposição, é
justo insistirmos na sua importância, quer para o estudioso dos problemas afro-brasileiros,
quer para o simples curioso ou leitor comum. Na vitrina exposta, estão as armas, insígnias,
objetos, etc., utilizados no ritual africano, sob os quais Edison Carneiro fez um estudo
completo nesse livro, que numa feliz iniciativa, e cumprindo o seu programa de divulgação
cultural o Museu do Estado editou.
29.3. Marcele Tynaire
res
Sobre a notícia publicada por uma revista literária de Paris que tratou da morte da escritora
francesa Marcele Tynaire, Halencar transcreve a notícia que cita as obras La rebelle e La
maison du péché e elogia a escritora.
29.4. Deposto Gallegos
res
Comenta o fato do presidente da Venezuela, o romancista Romulo Gallegos ter sido
deposto pelo exército. Considera-o um autor de relevo, conhecedor de seu povo e dos
problemas da sua terra, cita o livro Dona Barbara e apesar da literatura ter readquirido um
bom autor, com sua saída forçada da política, o fato não compensa.
436
29.5. Visita de Souza Dantas
(c/ desenho)
tr
Esteve na Bahia, recentemente, o escritor Raimundo Souza Dantas, representando na visita
o Presidente da República ao nosso estado o Diário Carioca, jornal onde trabalha. Ainda
jovem, Raymundo Souza Dantas é um escritor ao qual a crítica dedica especial interesse. Seu
romance, Sete palmos de terra, mereceu as melhores referencias dos suplementos literários, e
é interessante registrar a opinião do linotipista que o compôs. Tão impressionado ficou com o
livro, que escreveu ao autor o seguinte bilhete: “O linotipista que compôs este livro é milanês.
Agradece ao autor pela brilhante personagem do Vitor Missano: verdadeiro tipo de proletário
consciente e leal. O livro é interessantíssimo”. Raymundo Souza Dantas colabora em diversas
revistas e suplementos literários, e é um dos diretores da Revista Branca, cujo próximo
número será dedicado a Proust, e contém, entre outros materiais, uma crônica de Proust
publicada em 1896 na " Revue Blanche", um poema de Paul Morand, dedicado ao autor de No
caminho de swaan e uma entrevista de Mário Quintana.
29.6. História da guerra
res
Resenha o livro de Theodore Plievier, 60 anos, alemão, intitulado Stalingrado, sobre a II
Guerra Mundial que relata a desintegração do exército germânico. O comentarista literário Pat
Frank compara-o com Nada de novo na frente ocidental, de Remarque e com Por quem os
sinos dobram, de Hemingway, considerando-o melhor. Vendeu mais de um milhão de
exemplares na Europa.
29.7. Biografia de Gide
(c/ fotografia)
res
De Klauss Nann, com prefácio de Thomas Mann e editado pela editora londrina Dennis
Dobson ltd. A crítica considera o autor o mais indicado para escrever a biografia de Andre
Gide
29.8. Traduções de Shaw
(c/ fotografia)
res
Anuncia para breve, tradução das obras de Bernard Shaw pela “Edições Melhoramentos”,
de São Paulo. HA elogia a iniciativa que irá beneficiar o público nacional. A equipe de
tradutores que está sendo formada inclui os seguintes nomes: Moacyr Werneck de Castro,
Misael Silveira, Vivaldo Coaracy e Genuíno Neto.
29.9. Cidade enferma
(c/ fotografia)
tr
A nova editora paulista, "Rampa ltda", programou, para dezembro próximo, o lançamento
do romance Cidade enferma, do escritor sergipano Paulo Dantas, atualmente residindo em
São Paulo. Tendo publicado, anteriormente, Aquelas muralhas cinzentas, (Prêmio Afonso
Arinos, da Academia B. de Letras) e As águas não dormem, novela que descreve a vida de um
tuberculoso pobre e que despertou a atenção da crítica nacional. Paulo Dantas firmou-se como
um dos expressivos escritores da nova geração brasileira. Daí a ansiedade com que o público
e a crítica aguardam Cidade enferma. A respeito desse novo livro, o próprio autor confessa
que as circunstancias especiais favoreceram o fenômeno da sua criação. Além disso,
considerado o progresso geral que existe no seu segundo livro, em relação ao primeiro,
podemos admitir que o romance em questão certamente constituirá um útil acréscimo à
realização literária de Paulo Dantas. O jovem escritor já está elaborando planos para depois do
aparecimento de Cidade enferma: pretende lançar um volume de contos e tentar a experiência
de utilização do tema prostituição como material para um romance, com eles encerrando o
ciclo inicial de sua obra de ficção.
29.10. Ensaios de Huxley
(c/ fotografia)
res
Comenta a reedição, em Londres, de Aldous Huxley, escritor de romances e ensaios de alta
qualidade, segundo HAlencar, que traça um breve comentário de seu percurso intelectual, cita
o 1º livro de ensaios intitulado On the margim, de 1923, livro que até hoje guarda atualidade.
29.11. Flagrantes
Tr. – Já estão no prelo os originais de Caderno da Bahia n.3, a vitoriosa revista da nova
geração baiana, que os círculos literários do país vêm recebendo com os maiores elogios.
Rs.- Livro de frei Mansueto Kohen, RJ, intitulado Síntese Histórico-Literária das Letras
Germânicas, lit. alemã.
Tr.- Em circulação o segundo número de Época, a revista dos jovens de Sergipe, com um bom
material de divulgação.
Rs.- Nomeação do escritor Rubens Borba de Morais a sub-bibliotecário da ONU, NY.
Rs.- Minuano, livro de Lauro Rodrigues, poemas, foi o mais vendido em Porto Alegre na 2ª
quinzena de outubro.
Rs.- Dino Sergi, Pitigrilli é o seu pseudônimo, autor de A loura dolicocefala, exercendo a
profissão de médico em Buenos Aires.
Tr.- Chegou ás bancas o numero 5/4 de Fundamentos a excelente revista fundada por
Monteiro Lobato e da qual, ele era redator-chefe. è uma das melhores publicações nacionais,
no gênero.
Rs.- Three soldiers, de John dos Passos, a ser lançado numa tradução de Eneias Camargo.
Rs.- Srª Mônica Brillioth ganhou o prêmio: O Grande Prêmio dos novelistas escandinavos,
pela novela De onde sopra o vento, uma descrição da vida senhorial sueca no século XIX.
também premiada foi a Srtª Eva Jungell, autora da novela O cuco, estudo psicológico, também
de escritora sueca.
438
30. Data
31/12/48;7
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
30.1. Variações
(c/ desenho)
tr
Que se pode dizer de útil, de bom ou de qualquer outra coisa, quando vai um ano e
outro vem? Nada. O tempo é o mesmo, sempre igual e monótono, fastidiosamente repetido
numa seqüência de dias e noites, de horas e minutos, enquanto uns inúteis grãos de areia vão
caindo num compasso que enerva e escraviza. E é só. O resto é convenção, como este dia em
que todos nós, sem dizer palavra e sem fazer gesto, podemos refletir sobre o que passou e
sonhar sobre o que está chegando, sem pagar imposto e sem pedir licença. Convenção
agradável, é certo, que oferece aos desesperançados a oportunidade de resistir um pouco mais.
É como se a noite de Ano Bom fosse um grande feriado da vida. A gente fecha as portas
íntimas, descansa um pouco depois da trabalheira danada, e toca a sonhar coisas boas que
devem chegar e que não chegam nunca.
Mas, como sonhar mansamente é sempre bom, você, leitor, deve hoje sonhar o quanto
puder. Não sonhe demais nem queira o impossível. Faça seus planos, trace seu programa,
pense no que necessita fazer e no que pode fazer e, quando o Ano Bom (!) ( Feliz ano novo
para você, que eu já ia esquecendo), e quando o Ano Bom chegar, você dê um piparote no
velho, beba o que lhe aprouver, coma o que for de seu gosto e não esqueça de que uma nova
vida, mesmo de mentira, vai começar. E começará, realmente, se você houver meditado com
seriedade nos seus erros e nos seus fracassos para evitá-los de então por diante.
E se você for pouco imaginoso para pensar alguma coisa bonita quando, entre risos,
foguetes e música chegar o Tempo fantasiado de criança, diga pra você mesmo estes versos
de Raul de Leoni.
Os pinheiros pensavam cousas longas,
Nas alturas dormentes e desertas...
Estou certo de que você, como os pinheiros do parque antigo, indiferentes ao tempo,
pensará coisas longas, sonhará com uma vida melhor e um mundo mais justo, e prometerá a si
mesmo lutar para consegui-los. E se não houver perdido o bom costume da infância, que eu
não tive peça, que ainda está em tempo, ao seu Papai Noel, seja ele quem for o seu presente
de natal e de Ano Bom: paz, muita paz para você e para todos nós...
30.2. Presença de Condé
tr
João Condé Filho, o homem dos “arquivos implacáveis”, veio visitar a Bahia. É ele o
responsável por uma secção literária em Letras e Artes, suplemento dominical de A manhã, e
do qual, segundo afirmou Rubem Braga numa crônica, havia sido afastado, em virtude de
duas entrevistas que fez, um tanto avançadas para a orientação do jornal. Condé é um nome
de grande prestígio nos círculos literários. Os seus “Arquivos implacáveis" reúnem
curiosidades e indiscrições de inúmeros autores nacionais, como uma carta do poeta Manuel
Bandeira ao seu pai, quando tinha sete anos de idade; um retrato de Álvaro Lins com 12 anos;
originais de cartas, artigos, poemas e até romances e muitos outros documentos do mesmo
valor. Dividido e sub-dividido em inúmeras pastas, o seu arquivo é respeitado. Há, por
exemplo, a pasta N.2, somente de cartas; a N.3, que é a dos poemas; a N.4, de preciosas
fotografias; a N.6-A, repleta de curiosidades, inclusive o menú servido no banquete a
Graciliano Ramos, e um outro, desenhado pelo pintor Guinard, para uma festa de natal; as de
n. 7 e 8, dedicados, respectivamente, a Manuel Bandeira e José Lins do Rego. Álvaro Lins
mereceu, também, uma pasta especial, pois é um dos melhores amigos de João Condé, do qual
é conterrâneo e foi companheiro de estudos desde a infância. Não há dúvida quanto ao valor
dos "Arquivos" de Condé, inesgotável fonte para a história da nossa literatura, e deles disse,
certa feita, Carlos Drummond de Andrade: "Se um dia eu rasgasse os meus versos, por
desencanto ou nojo da poesia, não estaria certo da sua extinção: restariam os arquivos
implacáveis de João Condé."
30.3. Eleição na ABDE
Tr
A ABDE, procurando renovar a sua diretoria para o próximo ano, está divulgando, para
conhecimento dos sócios e interessados, e seguinte proclamação:
"A diretoria da Associação Brasileira de escritores, secção da Bahia, através desta
proclamação convoca, para o dia 3 de janeiro de 1949, os seus associados escritores baianos,
afim de que possam, participando do pleito a realizar-se, eleger a nova diretoria da entidade,
cujo mandato, de acordo, de acordo com disposições estatutárias, terminará após um ano de
exercício a contar da data de posse. A diretoria que será eleita no pleito já aludido,
providenciará a realização, na Bahia, em 1949, do 3º Congresso de Escritores, conforme
resolução tomada no 2ª Congresso levado a efeito em 1949, no estado de Minas Gerais”.
Artur de Sales, presidente.
30.4. Sagas
res
Comenta a doação, a quatro Universidades suecas, de 700 contos populares suecos, durante
o IX Congresso Nórdico de Folklore realizado em Estocolmo. Cita, como mais popular, o
conto "A ratazana desposada".
30.5. Estudos na outra América
res
O prof. Manuel Peixoto, do Colégio Estadual da Bahia, reuniu as impressões e resultados
do estudo desenvolvido no curso de aperfeiçoamento nos E.U, patrocinado pelo Governo do
Estado, no volume intitulado Estudos na outra américa. HAlencar classifica o livro como
sendo "uma valiosa informação sobre literatura, costumes, hábitos e cultura do povo norteamericano".
440
30.6. Longe da terra
(c/ fotografia)
Tr
Nome bastante conhecido, como autor de Barro blanco e Banana brava, José Mauro de
Vasconcelos teve um outro livro seu, Longe da terra, escolhido pelo “Círculo literário do
Brasil” como seleção do mês de fevereiro. Escritor de grande poder de sugestão, tendo vivido
grande parte das histórias que escreve, personagem mesmo do drama das salinas, José Mauro
de Vasconcelos descreve-nos em Longe da terra, o panorama social e físico de uma das
regiões ainda pouco ou nada exploradas pela literatura nacional – o Planalto Central. É a
história de um moço que, desiludido e fatigado do ambiente dos grandes centros urbanos,
ruma para o sertão goiano, onde os brancos e índios vivem misturados uns com os outros,
quase em estado selvagem. Buscando, inquieto, recuperar energias e criar novo ânimo no
convívio amigo das gentes simples e da terra rústica, o jovem acaba por verificar, desalentado,
que lá, Longe da Terra, também há os mesmos problemas, a mesma incompreensão, as
mesmas almas pequeninas e mesquinhas. Verdade é que o herói do livro, fugindo para onde
quer que fosse, em qualquer parte sempre encontraria os mesmos problemas, sofreria as
mesmas angústias, que não vêm do meio onde vive nem da gente que o cerca, mas parecem
estar dentro de si mesmo.
30.7. Miniatura
(c/ fotografia)
Tr
No movimento de renovação literária do Ceará, um dos mais fortes e sólidos dos que se
processam atualmente no país, tendo como centro diretor a revista Clã, João Clímaco Bezerra
é uma figura de relevo, pelo trabalho que vem realizando. Nascido, a 30 de março de 1913, na
pequena cidade de Lavras, no Ceará, aí aprendeu as primeiras letras do alfabeto. Órfão desde
muito cedo, cedo também começou a trabalhar, pulando de emprego a emprego, a começar
pelo de caixeiro de loja, para o qual não parece ter muita vocação. Menino curioso e
interessado pela literatura, andou lendo tudo o que lhe parecia, não importando fosse novela
policial ou folhetim de capa e espada. Lia tudo, com interesse crescente. Mais tarde,
mudando-se para Fortaleza, diplomou-se, como guarda-livros pela Escola de Comércio Padre
Champagnat. E em Fortaleza ficou até hoje, onde tem exercido algumas funções públicas,
inclusive a de Diretor Técnico de Educação do Estado. Seu primeiro livro foi o romance Não
há estrelas no céu, ao qual se segue um outro, também romance, Sol posto. De sua autoria,
ainda, uma História do ceará, para crianças. Sua obra, ainda em início, não apresenta
caraterísticas marcantes, que a diferenciem do grosso de novos autores nacionais. Isso não
significa que lhe faltem qualidades para ser considerada uma das mais promissoras. Costuma
responder aos que desejam saber muito de sua vida:
- Sou casado, reservista de 3º categoria, vacinado e eleitor. Não tive heroísmos, nunca
matei nem roubei, mas sou desgraçadamente pobre...
30.8. A desintegração da morte
(c/ fotografia)
Tr
Merece destaque especial, no panorama literário de 1948, o lançamento de novo livro de
Orígenes Lessa, no qual estão reunidos A Desintegração da morte, que dá título ao volume, e
vários contos do autor de Omelete em bombaim. Evidenciando, mais vez, o seu virtuosismo
técnico, perigoso em que não possua outras qualidades, como ele as possui, Orígenes Lessa
nos oferece, com este livro, uma das mais profundas sátiras da literatura brasileira à época em
que vivemos. Trilhando o caminho nem sempre fácil da ficção pura, mercê de uma
imaginação sempre disposta às mais arriscadas aventuras mas, sem nunca perder o senso de
equilíbrio das coisas e dos homens. Orígenes Lessa como que desabafa, ao gosto dos
melhores sátiros, todos os ressentimentos contra a realidade de guerras e mortes dos nossos
dias. O sábio Kleptein, cientista que descobriu a desintegração da morte, é vingança do
homem comum contra os fazedores de guerra, contra os aproveitadores da energia atômica
como arma de destruição dos novos.
O livro, é todo ele, escrito no estilo original do romancista de O feijão e o sonho, e contém
outras sátiras não menos profundas, como a de “O Instituto Nacional do Amendoim”,
impiedosa estocada na burocracia brasileira.
30.9. O poeta – editor
(c/ fotografia)
Tr
Chegou à Bahia, há poucos dias, o poeta – editor Augusto Frederico Schimitd, que
recentemente esteve no cartaz literário, com a publicação de um livro de memórias, Galo
branco. Visitando o nosso estado, o poeta Shimitd, que dizem ter servido de modelo a José
Geraldo Vieira para o poeta Michel de A quadragésima porta, tem recebido de seus amigos
algumas manifestações de simpatia e, ao que se anuncia, pronunciará conferências sobre
literatura.
30.10 [S/T]
Tr
Numa edição Melhoramentos, apareceu Caricatura dos tempos, do saudoso caricaturista
Belmonte. Tendo, durante vários anos, exercido a sua arte nos jornais e revistas do país,
Belmonte consagrara-se como um dos exímios artistas do gênero. O álbum que aquela editora
vem de lançar, representa um documento da última guerra mundial, desde 1936 até 1946 e
não apenas dos acontecimentos principais, como daqueles que, aparentemente de pequena
importância, tiveram profunda significação na trama política contemporânea. Embora, muita
vez, a interpretação política que o artista dá a certos fatos não seja rigorosamente verdadeira,
não se poderá negar o valor que essas caricaturas possuem. A proximidade dos fatos
históricos impede uma análise mais precisa e mais exata, principalmente àqueles que,
desarmados de um senso político mais profundo, as enxergam como acontecimentos de
superfície, e captam deles suas manifestações mais evidentes. Isso o que faltou a Belmonte:
um senso político que seja, o seu livro de caricaturas, publicado numa espécie de homenagem
à sua memória, é uma contribuição de valor inegável.
30.11 Atividades de Huxley
(c/ fotografia)
res
Anuncia o lançamento, para breve, do livro Ape and essence, do famoso escritor Huxley,
autor de Contraponto. No livro o autor analisa os efeitos da guerra atômica na vida das
pessoas que vivem em uma comunidade vitimada. Segundo HA, o livro tem sido registrado de
modo satisfatório pela crítica.
442
30.12. Seleção de dezembro
(c/ fotografia)
Tr
O "Livro do Mês" selecionou, para este mês, o romance Pecado nos trópicos, de Cecílio J.
Carneiro. Mineiro, filho de sírios, desde cedo residindo em São Paulo, Cecilio J. Carneiro
diplomou-se em Medicina e, em 1935, estreou na literatura publicando O livro de
sheherazade, uma coletânea de contos orientais. Posteriormente, em 1939, lançou Memórias
de cinco, história de cinco internos de um hospital, um tanto autobiográfico, pelo que encerra
de experiência do autor, quando interno da Santa Casa de São Paulo. De repente, seu nome foi
projetado no panorama literário americano, com a conquista do primeiro lugar no concurso de
romance do "Prêmio de Literatura Continental", promovido em Nova York pela Divisão de
Cooperação intelectual pan-Americana. O livro premiado foi A fogueira, imediatamente
traduzido para o inglês e editado sob o título The Bonfire. Agora, com Pecado nos trópicos,
Cecilio J, Carneiro conta uma história de amor puro, sagrado, e o chamado amor profano,
todo sexo e volúpia – o livro de Cecilio J. Carneiro poderá agradar pelo estilo em que é
escrito, impressionante e vivo, inegavelmente a melhor qualidade do autor embora a que
menos interessa ao romance, e em muitos casos mesmo prejudicial à obra.
30. Data
03/01/49;03
TÍTULO
Grave problema social
Tr
Nestes atribulados tempos de fim de ano, em que a gente encontra, a cada passo, em cada
canto, uma festinha de formatura quebrando a melancolia silenciosa das velhas ruas de
quatrocentos anos; nestes tempos em que as noites de Salvador parecem mais misteriosas,
mais cheias de doce encontro pela intensidade da vida que nelas fervilha, nestes tempos em
que tantos moços, aos pares pelas ladeiras penumbrosas, derramam seus sonhos nos ouvidos
nervosos das noivas e das namoradas; nestes tempos de tamanha esperança e tão boa ilusão,
dá o que pensar a notícia que há poucos dias nos chegou do Rio, em meio à rotina do
noticiário telegráfico; a condenação de um médico por crime de abortamento.
Diz o despacho que o Dr. Vitor Hugo, acusado por esse crime numa jovem de quase vinte
anos, e do qual resultou a morte da paciente, foi condenado, pelo Tribunal do Júri, a alguns
anos de prisão celular e cassação do seu diploma de medico. Pouco sugestiva no laconismo de
suas palavras, o telegrama oferece ao leitor mais curioso uma série de considerações
oportunas. Quem quer que, como eu, tenha privado a intensidade do tremendo problema da
maternidade e de suas variantes, principalmente da chamada maternidade ilegítima, não
poderá receber com indiferença, sem certa reserva, a condenação do médico. A outros
teóricos da moral não praticada, ortodoxos quanto ao julgamento da conduta alheia e os mais
tolerantes sem preconceitos, quando se trata de sua própria conduta, a estes causará espanto e
provocará arrepio a simples possibilidade de restrições à atitude do tribunal do Júri. Essa
divergência de posições vem de duas posições mentais, absolutamente opostas; uma, que não
enxerga os fatos senão através do primado falso dos dogmas e em função do que elas possam
representar de perigoso para determinadas crenças ou filosofias; a outras, que procura analisar
os fatos segundo a realidade que os criou e em função de soluções mais humanas e mais
justas. Entre nós, infelizmente, predomina a primeira dessas atitudes mentais, sintoma
patognomônico de atraso e incultura.
Não procuraremos justificar nossas restrições à condenação de médicos por crime de
abortamento, pelo fato de, para cada profissional condenado, ficaram impunes de cinqüenta a
sessenta parteiras ou “curiosas”, as celebres “fazedoras de anjo” indústrias do abortamento
criminoso. Este fato, embora não deixe dúvida quando à injustiça dessas condenações, de vez
que é muito mais criminoso aquele que realiza a interrupção da gravidez sem conhecimento
científico e sem recursos técnicos para fazê-lo, como é o caso das parteiras, esse fato
repetimos, não constitui argumento convincente já que não desce às causa do problema.
Tentamos um pouco mais longe.
Estabelece o nosso Código Penal que o abortamento constitui crime, passível de pena,
excluídos os casos especificados no art. 128e incisos.
Art.128- Não se pune o aborto praticado por médico:
I. Se não há outro meio de salvar a vida da gestante;
II. Se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da
gestante ou, quando incapaz, de seus representante legal.
Avançando um passo no sentido de contrariar o preceito “não matarás”, deixa o nosso
Código sem nenhuma referência outros casos, desgraçadamente mais graves e mais
freqüentes. E para estes é que os nossos legisladores deveriam voltar suas vistas atentas,
esquecidos dos preconceitos e dos dogmas.
Sempre me repugnou a idéia de, sem qualquer estudo prévio e sem levar em conta as
condições de miséria moral e orgânica das gestantes, considerar o aborto um crime. Não
vamos descer a detalhes, que este não é o lugar. Perguntamos apenas, o que fariam os nossos
ilustres juristas se lhes aparecesse, carregada de filhos famintos, alguns tuberculosos de tanta
fome, uma gestante a implorar a interrupção da gravidez? Alegando não ter recursos para subalimentar tantas crianças, sem ter mesmo onde dormir, de vez que um pequeno espaço
cercado de quatro tábuas apodrecidas é a residência do casal e de nunca menos de 6 filhos,
implora a gestante que lhe interrompam a gravidez. Entendem os juristas que seria crime
contra a vida atender ao apelo. Bonito não há dúvida, e tanto mais bonito e heróico quando
quem vai sofrer e vai morrer lentamente não é quem assim pensar. E assim nascido o filho
desse heroísmo sem glória e absolutamente sentimental, graves e múltiplos problemas batem
às portas daqueles juristas. Ou a mortalidade infantil, assustadora no seu crescendo terrível,
ou a infância abandonada, na qual vão resultar os inúmeros “Mar recos” e “Amburás”, que a
própria jurisprudência vai considerar criminosos e a opinião pública apelida de monstros. E
mais: a prostituição e o alcoolismo, os desajustes sociais, os suicídios, crimes, etc... tudo isso
é conseqüência daquela atitude rigidamente desumana de não se praticar o abortamento
quando indiscutível é sua indicação social. Alguns poderão estranhar que o quadro seja assim
tão negro, e hão de pensar que houve excesso nas tintas. Os que assim pensam ignoram que
esta é que é a nossa realidade de todos os dias, e a outra, a que conhecem, não passa de um
aspecto limitado do panorama geral. Os que dispõem de recursos, praticam o abortamento sob
os mais diversos rótulos e aqui, sim, é que não há qualquer razão que o justifique, a não ser a
vaidade de senhoras elegantes que não desejam a deselegância da gravidez e o martírio do
parto. E as conseqüências não são menos desastrosas. Em primeiro lugar, a restrição da
mortalidade, que não pesa no outro caso; depois, o drama dos filhos únicos, de casais ricos,
problema gravíssimo a merecer estudo mais sério. E quantos outros cuja enumeração seria
fastidiosa! Mas, vamos parar. Quisemos apenas registrar a contradição dos fatos: enquanto os
jovens médicos partem cheios de esperança e de sonhos para o sacerdócio da profissão, outros
444
mais velhos e gastos pelos atritos com a realidade, vão dar com os costados no chão, pouco
amigos das cadeias públicas. Não sabemos o que levou o médico condenado a praticar o
abortamento. É possível que razões econômicas, e provavelmente num caso sem indicação
justa, nem terapêutica, nem social. Muitos serão os casos da mesma natureza. Inúmeros os
abortamentos criminosos, praticados quer por médicos, quer por parteiras. Isso nos faz pensar
na solução sempre lembrada pelos que analisam o problema do ponto de vista de que seja
justa, humana, em função das nossas condições de vida: o abortamento controlado e realizado
pelo próprio estado, em qualquer de suas indicações. Somente assim poderíamos alcançar
uma situação menos aflitiva para os médicos e os pacientes. Aqueles ficariam livres dos
colegas que desonram a profissão e estes teriam resolvido o mais grave de seus problemas,
ponto de partida de muitos outros não menos graves
Como que seja, o fato desperta reflexões melancólicas daqueles que convivem intimamente
com os problemas sociais desta época de guerras atômicas, criminosos abortamentos coletivos
sem punição.
32. Data
15/01/49;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
32.1. Variações
tr
Aquele homem que sai de casa todo dia à mesma hora, consulta o relógio mal põe a cabeça na
rua, passa pela igreja respeitoso e solene fazendo o sinal, toma o bonde no mesmo lugar todas
as manhãs e, mal anoitece, volta cansado, sobrançando os jornais da tarde e o embrulho do
pão, aquele homem me parece assim um peru ridiculamente preso em um simples círculo de
giz. Dali não se afasta, por entender que nada mais existe além desse monótono passar e
repassar de horas, nada mais vive além do que se movimenta no caminho de casa para o
trabalho e do trabalho para casa. Quando muito, concede uma estrela distante, espiada da
janela sem graça de uma sala-de-visitas formal, no intervalo entre o café da noite e a leitura
religiosa dos jornais, concede a essa estrela distante a graça de um pensamento ousado e fora
da rotina .
Quem sabe se ali não há vida e homens como eu?...
E olhando furtivo, medroso de que alguém lhe pressinta o pensamento cheio de pecado
– mais felizes do que eu?!...
E logo se alevanta, volta ao seu pequeno mundo, circunscrito por um círculo de giz. Que
culpa tem ele, pobre diabo, de ser e de pensar assim? Já nasceu peru de roda, peru no mundo,
peru na vida, eternamente preso a um simples círculo de giz...
XXX
A um canto, dois pirralhos de castigo, separados do resto da classe, que recitava a lição
em voz alta. As pernas negras, amarelas de barro do caminho de casa.
Que fizeram? Perguntei.
Não quiseram ir à lição de catecismo – respondeu-me a mestra – O senhor vê, desde
cedo começam a pecar...
Se o velho voltasse, lanterna à mão, à procura do homem, ali encontraria dois em um
lugar de um só...
32.2. Posse na A.B.D.E
Tr
Encontra-se nesta capital a escritora Lia Corrêa Dutra, autora de Navio sem porto, livro
premiado pela Academia Brasileira de Letras, que aqui vem representar a ABDE do rio na
sessão de posse da nova diretoria da ABDE local. A sessão será realizada na próxima terça –
feira, na Associação dos Empregados no Comércio, as 20 e 30 horas, devendo falar o poeta
Arthur de Sales, o prof. Adroaldo Ribeiro Caldas e a própria Lia Corrêa Dutra.
32.3.Gabriela Mistral
res
O colunista destaca a importância da poeta chilena Gabriela Mistral vencedora do Prêmio
Nobel de Literatura de 1945, identificando-o como uma das maiores figuras da poesia
contemporânea. Comenta a repercussão da palestra radiofônica realizada pela mesma em
Fortim de Las Flores, México.
32.4. Mais um livro de memórias
Tr
Parece que pegou a moda dos livros de memórias de autores vivos. Agora, temos Segredos
de Infância, memórias de Augusto Meyer, poeto e ensaísta de destaque entre os autores
brasileiros da atualidade. Tendo, anteriormente, Gira –Luz, poemas, e A sombra da estante,
um livro de ensaio, Augusto Meyer oferece, com o seu novo livro, um trabalho autobiográfico
em que confirma as suas qualidades de estudante e hábil analista, tão elogiado pela crítica
nacional.
32.5. Exemplo e incentivo
Tr
Raymundo Souza Dantas, que há pouco visitou a Bahia, é um escritor de origem humilde,
tendo se alfabetizado a custa de muito esforço, de uma força de vontade jamais vacilante.
Agora Souza Dantas vai contar aos leitores o seu processo de alfabetização, através de um
livro, Caminho áspero, escrito para o Departamento Nacional de Educação. É um esboço de
autobiografia, na qual o autor procura incentivar, com seu exemplo, aqueles que se encontram
na mesma situação em que ele se encontrava, há alguns anos passados, antes de se tornar o
jornalista e escritor que hoje é será., sem dúvida, uma valiosa contribuição à campanha
nacional de alfabetização oferecida por quem, de muito perto, sofreu as limitações oriundas
do analfabetismo.
446
32.6. A história dos nórdicos
Res
Fala a respeito de futura produção, pelo do sueco Dr. Ingvar Andersson, da história dos
povos nórdicos.
32.7. Depoimento
Tr
A revista Leitura, do Rio, fez ao poeta Murilo Mendes a seguinte pergunta: “Julga
inconveniente aos poetas, ou à poesia, que aqueles voltem a cultivar o soneto?” O poeta
respondeu do seguinte modo: “Considero o soneto uma forma de representação poética das
melhores, pela sua arquitetura própria, que permite um resumo lapidar. O soneto tem uma
grande tradição, que vem de Pertrarca até os nossos dias. Convém não esquecer que os poetas
revolucionários como Baudelaire, Rimbaude, Mallarmé, Rilka e outros, usaram o soneto. Mas
há soneto e soneto... Creio que o soneto com chave de ouro e outras obrigações acadêmicas
não corresponde mais a necessidade dos tempos”.
32.8. Revistas
Tr
- Está circulando o número 3 de Dois de Julho, uma revista de jovens da Bahia. Embora
com um bom material este número quebrou um pouco o ritmo sustentado pelos dois
primeiros.
- Joaquim, n.21, de Curitiba já se encontra à venda, com uma variada colaboração sobre
literatura e arte em geral, inclusive um artigo de Adalmir da Cunha Miranda, jovem
intelectual baiano a respeito das tendências dos novos quadros da literatura brasileira.
- Em circulação o último número de Região, revista do Recife, com uma boa documentação
sobre o pintor Cícero Dias.
- Em breves dias estará á venda o terceiro número de Cadernos da Bahia, contendo:
“Fundamentos da Poesia Afro-Americana” - Walter da Silveira; “Literatura Proletária e
Outra” - Otto Maria Carpeaux; “Elegia a Jacques Roumain no Céu de Haiti” - Nicolas Guillen
(tradução de Manuel Bandeiras); “O Congresso de Wroclaw e a Tarefa de Escritores” –Luiz
Henrique Dias Tavares; “Romances de Natal ”- conto de Vasconcelos Maia; “Bahia de Ontem
e de Hoje” –Darwin Brandão e Mota e Silva; “Um Poeta Vítima do Regime Franquista”- F.
Kelin; “Notas Folclóricas”- Ruth Guimarães; “Correspondência de Monteiro Lobato”- (a João
Palma Neto); “ O Habitante Marítimo”- Wilson Rocha; “O Largo dos Aflitos”- Antônio dos
Santos Moraes; “O Vento Carrega o Pesado Fardo da Fome” - José Goldoy de Garcia; “A
megera está rondando”- Camillo de Jesus Lima; “A Biblioteca”- Maria José Passos;
“Música”- Paulo Jatobá e Lorenzo Fernandez; N. R., “Cinema- O Herói Cinematográfico” –
W.A; Seções de livros, revistas, noticiários; Ilustrações de Portinari, Carlos Frederic Bastos e
Hélio Vaz.
32.9. Impressões da Europa
Tr
John Steinbeck, um dos maiores cartazes da moderna literatura norte- americana regressou
recentemente de uma viagem à Europa, onde esteve visitando vários países durante muitos
meses. Tendo estudado novas condições de vida desses países, conseqüentes à última guerra
mundial, Steinbeck, ao que se anuncia, escreverá, além do livro que está planejando, uma
série de artigos sobre o que viu no velho Continente, em virtude de ter Steinbeck sofrido, há
poucos messes, em certos jornais e revistas, (no Brasil a revista O Cruzeiro) de algumas falsas
reportagens a ele atribuídas.
32.10. Miniatura
Tr
Ex-locutor da Rádio Mineira, Bueno de Mineira é hoje um nome de certa projeção literária,
como poeta de nova geração. Nascido em Santo Antônio do Monte, Minas, a 3 de Abril de
1915, fez o curso primário em sua cidade natal e o de humanidades em Belo Horizonte.
Trabalhando como repórter em O Diário de Minas, diplomou-se em Química, submetendo-se,
pouco depois, a um concurso de laboratorista instituído pela Diretoria de Saúde Pública de
Minas. Classificado em primeiro lugar, ainda hoje exerce aquela função na Saúde Pública de
seu Estado. Estreou em 1944, com Mundo submerso, editado pela “José Olympio”. Ainda
pela mesma editora publicou Luz ao pântano, em 1948 reunindo seus últimos poemas.
32.11. Poesia em disco
Tr
Uma novidade surge para amantes de literatura, principalmente para os apaixonados de
poesia. Vai ser editada uma série de álbuns de discos, intitulada Vozes da poesia brasileira.
Em cada álbum o ouvinte encontrará as melhores produções de um poeta contemporâneo,
gravadas por ele próprio. O primeiro álbum, ao que se anuncia, consta de 2 discos, nos quais
Manuel Bandeira declama: Evocação do Recife, Vou me embora pra Passargada,
Profundamente, Ultima canção do beco, A morte absoluta, Rondó dos Cavalinhos, Andorinha,
Momento num café, O Rio, Parada de Lucas, Piscina, Pneumotórax, Estrela da manhã, O
último poema, Temas e voltas, Canção do vento e da minha vida.
32.12. Ladeira da Memória
Tr
A “Coleção Saraiva” está programando várias publicações para este ano. E uma deles será
o novo romance de José Geraldo Vieira, Ladeira da memória. O consagrado escritor, um dos
nomes mais respeitados da nossa literatura, é um autor que a cada novo livro conquista um
sucesso. E Ladeira de memórias, constituirá mais um êxito do romancista de A quadragésima
porta, A mulher que fugiu de sodoma e outras obras. Além deste livro de José Geraldo Vieira,
a “Coleção Saraiva” lançará, Recordações da casa dos mortos, de Dostoiewsky, tradução do
próprio José Geraldo: O amanuense belmiro, de Ciro dos Anjos; Amanhecer, romance de
Lúcia Miguel Pereira e outros.
448
32.13. No prelo e nas vitrinas
Tr
- Poemas traduzidos, de Manuel Bandeira, Livraria do Globo;
- Viagem através do brasil, - Distrito Federal, de João Guimarães, “Edições Melhoramentos”,
boa literatura para crianças e jovens.
- Felizes para sempre, de Aldous Huxley, trad. de Merina Guaspari.
- Navio ancorado, novo romance de Ondina Ferreira.
- Suínas, de Pedro Uzzo, poeta santista. Edição Saraiva S/A.
- Contos populares brasileiros, de Lindolfo Gomes, ilustrações de Santa Rosa, “Edições
Melhoramentos”.
- Uma aventura na floresta, literatura para crianças, de Pedro de Almeida Moura, ilustrações
de P. de Lara, “Edições Melhoramentos”.
- Viagens maravilhosas de Marco Polo, de Lúcia Machado de Almeida ilustrado por Osvaldo
Antini. Concatenação das famosas aventuras de Marco Polo, num agradável estilo próprio
para as crianças. Edições de “Melhoramentos”.
33. Data
29/01/49;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
33.1. Variações
Tr
A um homem rude sem nenhuma instrução, que ao meu lado, no café, espia o sol derramado
nas ruas, na praça, no mundo, pergunto qual o maior prazer da vida:
- Isso, seu moço – responde, apontando com os olhos a manhã em que estamos – A
gente poder olhar isso, e ficar pensando...
- Qual nada! – interrompe um outro, que ninguém chamou, respondendo a pergunta que
lhe não foi feita – Prazer é a gente passar bem! Comer bem! Bons pratos, boa garrafa, isso sim.
Agradeço a inesperada interferência, e silenciosamente peço desculpas ao outro. Não
tenho culpa, evidentemente. Ele me compreende, sorri piedoso e segue seu caminho.
Continuo espiando. E relembro Gide: “Quisera saborear este verão trago a trago, como se fora
para mim o último. Os peixes morrem com o ventre para cima e sobem a superfície. É sua
maneira de cair”.
Olho para o “peixe” e o vejo tragando, inteiro, um bolo dormido. O sol, a manhã, a
sombra da árvore naquele canto da praça, nada disso existe para ele. Só a realidade meio
amarga de um estômago exigente. E uma vez satisfeito, tudo o mais está bem.
Ainda é Gide quem chega, como oportuno consolo:
“Saber libertar-se, não é nada; o difícil é saber-se livre”.
Finco, mais uma vez, a fisionomia do “peixe”. Não há dúvida de que é difícil saber ser livre. E
para a maioria, então, a grande, a enorme dificuldade é saber libertar-se. Libertar-se pelo
menos do estômago.
.
.
.
Quem tem a ciência e a arte dispensa a religião, disse Goethe. Boa epígrafe para um
livro sobre a estupidez humana. Sobre a nossa pretensiosa estupidez.
OBS.: ilustração, uma casa na praia com dois coqueiros (ilustração recorrente nestas variações)
33.2. Bi-centenário de Goethe
(c/ fotografia)
res
Sobre os preparativos para a comemoração do segundo centenário de Goethe em Frankfurt,
Alemanha. O colunista atesta o grande valor literário/cultural da obra do escritor.
33.3. Castro Alves – o Gênio
Tr
Vem de ser publicada, pela Academia Baiana de Letras (edição da Imprensa Oficial), a
monografia de Milton Vilas-Boas, Castro Alves – o Gênio, premiada com “Menção Honrosa”
no concurso de trabalhos sobre a vida e a obra do grande cantor da liberdade. A publicação
traz um prefácio do Profº Pinto de Carvalho, que diz bem do valor do estudo que o jovem
intelectual baiano levou a efeito. Trata-se de um trabalho apreciável, quer pelo agradável
estilo em que é escrito, quer pelo modo pelo qual o autor procurou fixar a vida tormentosa do
Gênio, apreendendo-lhe, num bem sucedido esforço de síntese, os fatos mais significativos.
Com esta monografia, projeta-se Milton Vilas-Boas no cenário da nossa literatura, como um
dos seus novos valores, agora, com a responsabilidade de produzir mais e melhor.
33.4. Seleção de fevereiro
(c/ fotografia)
Tr
O “Livro do mês” está anunciando, como seleção de Fevereiro, o novo livro de Dinah
Silveira de Queiroz, Margarida la roque. A ilha dos demônios. A protagonista de história,
uma francesa da época dos descobrimentos, é condenada a viver, em companhia do amante
numa ilha deserta que os marinheiros da época diziam povoada apenas por almas de outro
mundo. Dinah Silveira de Queiroz, cujo primeiro romance – Floradas na serra- obteve
grande êxito, procurou dar ao novo livro um impressionante cunho de mistério, que a crítica
registra como um verdadeiro milagre de imaginação. Margarida la roque foi editada pelo
“José Olympio”, capa de Santa Rosa.
33.5. Defoe e a medicina
(c/ fotografia)
Res
Além de várias obras de cunho literário (Robinson Crusoé, 1719; A aparição de mad veal,
1706; dentre outras), Defoe escreveu também Jornal do ano da peste, em 1722, uma
dramática narrativa sobre os anos em que Londres foi invadida pela peste (em 1695), obra
esta que já foi vista pela Medicina como uma das melhores contribuições para o estudo
daquela epidemia.
450
33.6. Verlaine e o Brasil
(c/ fotografia)
Tr
Verlaine tem influenciado várias gerações de poetas,, em diversos países. No Brasil
mesmo, grande é sua influência, quer entre os poetas simbolistas, quer entre os modernos. Daí
a procedência do título que Michel Simon deu à antologia por ele organizada, Verlaine e o
Brasil. Reunindo poemas de Verlaine, ilustrados por vários artistas brasileiros, Michel Simon,
realizou um trabalho de divulgação elogiável. A primeira parte do livro, editada pela “Agir
Editora”, consta de poemas, com ilustrações de Noemia Cavalcanti, Maria Helena Vieira da
Silva, Bela Paes Leme, Santa Rosa, Guinard, Athos Bulcão, Eros Gonçalves, Wladimir Alves
de Souza e Vicente do Rego Monteiro. Na segunda parte, o leitor encontrará textos originais –
poemas e estudos – muitos compostos especialmente para essa plaquette, por vários escritores
brasileiros, como Tristão de Athayde, Alphonsus de Guimarães Filho, Álvaro Moreyra, A F.
Schimidt, Manuel Bandeira, Mario de Andrade, Murilo Mendes, Olegário Mariano, Onestaldo
Pennafort, Sergio Millet, Vinicius de Moraes e Roberto Alvim Correa. Além do prólogo de
autoria de Michel Simon há, na parte final, uma bibliografia dos poemas de Verlaine
traduzidos no Brasil, organizado por um dos seus bons tradutores nacionais Onestaldo
Pennafort.
33.7. Grande prêmio do romance
Res
Realizado em Paris, nos salões do Círculo Interaliado, O Grande Prêmio Do Romance,
foram escolhidas as seguintes obras e respectivos autores: Querelle avec la bete de Michel
Mercier; Notre de la liberté de Gilles Buhet e LA meche de Lucie Marchal.
33.8. Repouso
(c/ fotografia)
tr
O maior acontecimento literário nacional em 1940, foi até agora, o aparecimento do
terceiro romance de Cornélio Pena, Repouso. Nome raramente citado nos suplementos
literários, pouco escrevendo artigos ou concedendo entrevistas, o autor de Fronteira e Dois
romances de Nico Horta, Cornélio Pena é um escritor retraído, nada amigo da publicidade e
da crítica de encomenda. Alheio às intriguinhas da literatura da metrópole, suas produções
não são antecipadas ou seguidas das fanfarras da crítica de compadres. Embora sua obra não
tenha atingido ainda um posto de relevo no panorama literário, Cornélio Pena é um escritor
que se dedica inteiramente à literatura, na ânsia de realizar alguma coisa de útil para os seus
semelhantes. Daí a importância do aparecimento de seu novo livro, sobre o qual a crítica
certamente vai se pronunciar dentro de pouco tempo.
33.9. Notas soltas
(c/ desenho)
tr
Está para ser lançado o primeiro volume de um romance cíclico de Jean Paul Sartre, L’age
de Raison, tradução de Sérgio Milliet. Almeida Sales escreveu e entregou aos editores um
ensaio, André Gide. Herberto Sales, escritor baiano, já concluiu seu novo romance, Além dos
marimbus. A Bolsa Nacional de Literatura (França) de 1948, de 60 mil francos, foi atribuída a
André Figueiras, pelo seu livro de poesia, Castelos no azul. Foi traduzido Otelo um romance
de Ludwig, há meses falecido. Cabracega é o título do novo romance de Lúcia Miguel
Pereira.
33.10.Eleito Morgan
(c/ fotografia)
Res
Charles Morgan, romancista inglês, foi eleito para a Academia das Ciências Morais e
Política de Paris, como “associado estrangeiro”. No Brasil é conhecido através das obras:
Retrato num espelho, Fonte e Sparkenbroke.
33.11.Miniatura
(c/ fotografia)
Tr
Paulo Ronai é hoje um nome fixado em nossa literatura. Nascido em Budapeste, Hungria,
em 1907, filho de um livreiro, estudou na Faculdade de Filosofia da U. de Budapeste, na
[Universidade] Sorbonne, em França e na U. de Perugia, na Itália. Em 1940, por ser judeu, foi
recolhido a um campo de concentração. Daí fugindo, veio para o Brasil, em 1941, a convite
da divisão de cooperação intelectual do Itamarati. Naturalizando-se brasileiro em 1945, com
dispensa do prazo de residência, em virtude dos serviços prestados à cultura nacional, Paulo
Ronai aqui fixou residência, passando a trabalhar ativamente. Doutor em Letras e Lingüística
neo-latinas, foi professor de um dos colégios de Budapest. Exerceu as funções de redator da
revista Nouvelle revue de Hongriê, editada em francês. Publicou, quando no estrangeiro,
vários livros, inclusive a tese de doutoramento A margem dos romances de mocidade de
Balzac. No Brasil, em 5 anos, publicou Mar de histórias, antologia do conto mundial, em
colaboração com Aurélio B. de Holanda: Tendências e figuras da literatura hungara e As
cartas de fay e Sua vida, além de várias obras didáticas. Traduziu para o português as Cartas
de um jovem poeta, de Rilke e do português para o francês as Memórias de um sargento de
milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Atualmente, está dirigindo a edição brasileira da
Comédia humana, de Balzac, para a qual escreveu uma biografia do romancista, 86 estudos
introdutórios e cerca de 10 mil notas elucidativas do texto balzaquiano, além de um livro,
Balzac e a comédia humana. Paulo Ronai colabora no suplemento literário do Correio da
Manhã, do Rio, e em várias revistas literárias. Fala e escreve vários idiomas, e é considerado
um intelectual de grande fecundidade.
33.12.Autores baianos
Tr
- Castro Alves, arauto da Democracia e da república, de Alexandre Passos, edição
“Pongetti”, conferência pronunciada pelo autor em 1947, na ABAT, a convite da Sociedade
de Homens de Letras do Brasil.
-
As 3 liras e as precilianas, de Pedro Serafim, livro de poemas.
452
34. Data
12/02/49;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
34.1. Variações
Tr
Ainda não tive notícias de um mundo mais doido do que este. Começou atirando pedras que
soterravam cidades e, hoje, mercê de pactos, tratados e conferências, atira bombas atômicas
com a mesma simplicidade de quem distribui brinquedos entre crianças. Atira e depois vai
gastar milhões para discutir a paz, vai pagar a alguns homens para que eles, com a inutilidade
das palavras, continuem a guerra fria, morna ou quente. Jamais chegam a um acordo e fazem
mesmo questão de não se entenderem. Parecem desgraçadamente convencidos de que as
bombas são o melhor argumento e de que a vida tem de ser mesmo esta escravidão idiota, cuja
única finalidade não é outra senão a simples conquista do alimento. Daí toda a complicação, a
maluquice do mundo, este mundo em que estamos soterrados vivos.
. . .
Chegam pela janela ruídos vindos de muito longe, de todas as distâncias e de todos os
tempos. Chegam e entram pelo caminho de luz que o velho lampião, sentinela impertinente,
obra rompendo o escuro tranqüilo do meu quarto. Ouço-os, incapaz de um protesto. Eles me
dizem do que ocorreu e ocorre lá fora, na grande senzala do mundo. Trazem-me notícias que
eu não queria ouvir... Contam-me histórias que eu desejava ignorar. Agridem esta insônia que
me poderia ser um abandono voluntário e pacífico. E aí, então, é que neles distingo, à
semelhança de um doce contraponto em surdina, a voz de Shelley, carregada de angústia,
chorando a morte de Keates, chorando a minha, a sua, a morte de todos nós.
Life, like a done of many-colored
‘glass
Stains the white radiance of
eternity
obs.: Ilustrado com gravura de uma janela aberta, com um lampião do lado de fora
34.2 Poemas regionais
(c/ desenho)
tr
É o título do livro que vem de ser lançado, na Bahia, sob o patrocínio da Sociedade Filinto
Bastos, composto e impresso nas oficinas da “Era Nova”. Seu autor é o nosso velho e
conhecido Artur de Sales, presidente da ABDE local, nome consagrado na literatura nacional
como um dos mais autênticos poetas dos nossos tempos. No presente volume, ilustrado por
Rômulo C. Serrano, mestre de Artur reuniu dois poemas sobre lendas e acontecimentos da
nossa costa, Sangue mau e O ramo da fogueira. O primeiro deles, alias, já havia sido
impresso pela I. Oficial, embora não divulgado, senão de modo muito precário em virtude dos
defeitos que o autor nele encontrou. A publicação deste volume é, assim, um acontecimento
de significação para as nossas letras. O velho Artur de Sales, embora produzindo muito, dá
pouca divulgação aos seus trabalhos, deixando o público sempre ansioso de ler os seus
poemas. Os dois que vêm de ser publicados foram escritos quando da permanência do grande
poeta na vila de São Francisco, onde viveu muitos anos, como professor. Convivendo com as
gentes simples da costa, utilizou suas lendas e supertições como temas para Sangue mau e O
ramo da fogueira, que vale notar, passarão a figurar como uma das melhores contribuições a
pequeníssima lista de poemas regionais brasileiros.
Também de poeta de Sub-Umbra, a Jackson lançou uma tradução em verso de Macbeth de
Shakespeare, considerada uma das melhores já feitas em nosso idioma.
34.3. Contista baiano
(c/ fotografia)
Tr
O público vai ter a oportunidade de ler, brevemente, mais um livro de contos de Souza
Martins, escritor baiano que se tornou conhecido com a publicação, em 1937 de Vozes da
carne. Após um longo silêncio, Souza Martins, que atualmente reside na Capital Federal,
volta a publicar livro, agora Rastros na areia, reunindo seus últimos contos, um dos quais
transcrito por este suplemento, em edição passada, intitulado Sol de inverno.
34.4. Ensaio sobre Rilke
(c/ fotografia)
res
Cresce o interesse do público brasileiro sobre a obra de Rainer Maria Rilke e os poetas
brasileiros têm sofrido muitas influências deste. Um exemplo disto é o lançamento do livro de
Cristiano Martins, Rilke – o poeta e a poesia, livro de ensaio em que o autor procura fixar os
aspectos mais característicos da obra rilkeana.
34.5. Miniatura
(c/ fotografia)
Tr
Como o livro [lividendo] de janeiro, cuja seleção foi Judas, o Obscuro, de Thomas Hardy,
o “livro do mês” está distribuindo aos seus associados Luzia Homem, romance de Domingos
Olimpio, que é considerado o marco do movimento renovador da ficção brasileira. Domingos
Olimpio Braga Cavalcanti nasceu em Sobral, no Ceará, a 18 de setembro de 1851. Filho de
tradicional família cearense, seus pais, Antônio Raimundo de Holanda Cavalcanti e d. Rita de
Cássia Cavalcanti, mandaram-no, após o curso de preparatórios em Fortaleza, estudar Direito
em Recife, onde se diplomou em 1873. Verifica-se o início de sua carreira literária em Recife,
escrevendo para a imprensa local. Regressando à terra natal, aí passou a advogar, casando-se
em primeiras núpcias em 1875, de cuja união teve dois filhos. Foi posteriormente, promotor
em Sobral. O período seguinte à sua formatura é, quase todo, preenchida por intensa atividade
jornalística, quer literária, quer política. Adversário dos políticos dominantes, foi obrigado a
se afastar do seu estado, indo residir em Belém, onde continuou a advogar e a militar como
jornalista e político, chegando a ser deputado à Assembléia Provincial. Vai para a Metrópole
em [18?], passando a colaborar nos suplementos literários do O Comércio, Correio da
Manhã, O País, Jornal do Comércio e outros. Dois anos depois, após a morte da primeira
esposa, contrai novas núpcias. Exerce vários cargos oficiais importantes. Funda, em 1904, a
revista Os Anais que dirigiu, tendo como secretário um seu amigo íntimo, Walfrido Ribeiro.
Trabalhador infatigável, Domingos Olimpio não parava, nem mesmo nos seus últimos dias,
454
quando vitimado por uma moléstia nos rins. Embora literato de grande projeção em sua
época, sua principal atividade foi a advocacia. A última causa que defendeu no foro do Rio,
um processo de certa sensação, abreviou-lhe a vida, três dias depois. Fez uma das mais
brilhantes defesas de sua carreira, perante o Supremo Tribunal Federal, esperando inquieto e
excitado, a decisão, que lhe havia sido contrária em todas as suas instâncias. Três dias após,
em 7-10-1906 vítima de um ataque de embolia às sete horas da manhã, quando fazia a
refeição da manhã em companhia da esposa, falecia às 15 horas, em sua residência. Publicou
os seguinte trabalhos: Luzia-Homem, em 1903; O Almirante, na revista "Os Anais", além de
crônicas, contos, artigos e poemas. Inéditos deixou: Rochedos que choram, A perdição,
Túnica de nessus, Tântalo; dramas: Um par de Galhetas, Os maçons e o bispo, História da
missão especial em Washington, A questão do Acre, A loucura da política, Domitilia, O
irapuru, O negro; comédias, episódios burlescos, política, além de muitos outros contos.
Seu romance que está sendo distribuído pelo "Livro do mês", obteve grande sucesso e a
seu respeito Lúcia Miguel Pereira escreveu: “Luzia-Homem é o primeiro dos romances da
seca, antecessor de A bagaceira e de O Quinze. E Domingos Olimpio é, na verdade, um
romancista da linhagem de José Américo de Almeida e Raquel de Queiroz”.
34.6. A cidade do sul
(c/ fotografia)
Tr
Existe em Minas um grande movimento literário, agora reforçado com o aparecimento de
uma editora, Movimento Editorial Panorama, departamento da revista Panorama. Graças a
essa iniciativa, foi lançado a Cidade do sul, de Alponsus de Guimarães Filho, poeta e
militante mineiro. Seu livro é o primeiro volume da "Coleção Marília de Dirceu" e reúne 56
trabalhos do poeta de Lume de estrelas (1940), segundo a crítica uma das personalidades mais
característica da geração post-modernista.
34.7. Affaire Kravchenko
(c/ fotografia)
res
Sobre processo aberto por Kravchenko contra a Lettres Francaise (publicação comunista
de Paris) por ter a mesma afirmado que ele era agente do imperialismo norte-americano e
incapaz de escrever qualquer coisa (dentre outras acusações). Ao ser inquirido durante o
processo sobre um item dado que consta no livro que o mesmo diz ter escrito, A grande
conspiração, Kravchenko demonstrou não ter conhecimento do assunto
34.8. Goncourt – 48
(c/ desenho)
res
Um dos maiores prêmios literários da França, o Goncourt de 1948, foi atribuído a Maurice
Druon, autor de Les grandes familles; este livro fará parte de uma trilogia.
34.9. Biografia de Machado de Assis (c/ desenho)
Tr
Como primeiro livro-dividendo, o Círculo Literário do Brasil está distribuindo aos seus
associados o estudo de Lúcia Miguel Pereira sobre Machado de Assis. Esta é, assim, a 4ª
edição de Machado de Assis, estudo crítico e biográfico. Livro que a crítica nacional reputa o
melhor e mais completo estudo biográfico sobre o autor de Dom Casmurro. Publicado pela
primeira vez em 1936, este estudo de Lúcia Miguel Pereira foi premiado, posteriormente, pela
Sociedade Fellipe D´Oliveira.
34.10. Otto Strasser, nazista.
Tr
O governo militar norte-americano de Berlim proibiu a circulação do livro Hitler e eu, de
autoria de Otto Strasser. Seu autor foi o fundador do Grupo da Frente Negra do Partido
Nazista, e uma nota oficial do governo militar, publicada em Nuremberg, diz que Strasser é
um antigo nazista militante, sabendo-se que ele tem, de relação á Alemanha, planos políticos
contrários aos interesses do governo. Seu livro foi considerado perigoso e ofensivo, embora o
governo francês consinta a sua circulação na zona sob a sua guarda.
35. Data
11/03/49;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
35.1 Variações
Tr
Irrecusável a paz que vem dos campos. Mesmo aqueles espíritos que andam à procura de
angústias, que perseguem desesperos, aqueles que não podem viver senão dentro de um clima
carregado, em uma atmosfera de eterna embora inútil inquietação, até esses não podem recusar
a sugestão de paz que lhes oferecem os [comdol] cheios de cor e de vida.
Há neles um tal sentido de tranqüilidade e de harmonia, que nenhum homem, diante
deles, poderá sentir outra coisa além de uma doce quietação a sugerir humildade e paz. Vão-se
os problemas, morrem as angústias, acabam-se o desespero e uma enorme paz é a única e
irrecusável presença na paisagem. Mesmo o tempo, "testemunha do universo inteiro", mesmo
este parece "pateiro", mesmo este parece pados, como que vencido pelo que há de tranqüilo e
calmo nos campos carregados de cores.
Há, no entanto, um tipo de homem que se desespera diante das paisagens: o pintor. Ao
vê-la, como que se embriaga de cor e de beleza. Depois, quando procura trazer para tela o que
viu, quando tenta fixar todas aquelas sugestões, aí, então, a angústia e o desespero lhe
invadem. E raros, raríssimos, são os que conseguem vencer este estado, captando e trazendo
para a tela o que o homem comum sente e não sabe traduzir.
35.2. Empresa difícil
(c/ fotografia)
res
O livro de James Joyce, ULYSSES, será traduzido para o português por Hamilcar de
Garcia e Érico Veríssimo.
456
35.3. Confiteo
Tr
Numa bem apresentada edição, a "Saraiva" vem de publicar Confeitior, obra póstuma de
Paulo Setúbal, o sexto volume da coleção de obras do conhecido autor de A Marquesa dos
Santos. Aliás, no plano de obras de Setúbal, a “Saraiva” não incluiu A marquesa dos santos,
em virtude do seu autor haver proibido, após sua conversão definitiva ao catolicismo, a
reedição desse livro. Confiteor reúne confissões de Setúbal, principalmente as de caráter
religioso. Escrevendo a respeito dessa obra, Orestes Barbosa disse que ela “foi a chave de
ouro que fechou esplendidamente o tesouro literário de Paulo Setúbal”.
35.4. Os Corumbas no cinema
(c/ fotografia)
Tr
Nesta nova fase do cinema brasileiro, a literatura tem contribuído com vários argumentos,
embora nem sempre aproveitados do melhor modo. Agora, sabemos de mais um romance que
vai ser levado à tela. Trata-se de Os corumbas, de Amando Fontes, que Lúcio Cardoso –
romancista, poeta, teatrólogo e agora cineasta – vai filmar com sua equipe de técnicos. Os
corumbas é um dos romances significativos da literatura post-modernista e deu fama e
prestígio literário ao seu autor.
35.5. Elegias de Duino
res
Serão traduzidas para o português, Elegias de diuno, de Rainer Maria Rilke.
35.6. Sartre e as traduções
(c/ desenho)
res
Sartre acusou os tradutores norte-americanos da sua peça, Luvas vermelhas, afirmando que
a peça foi corrompida e transformou-se num melodrama comum e vulgar.
35.7. Seleção de Abril
res
Marcus Cheke, voltando suas atenções para a história e literaturas portuguêsas, publicou
inicialmente uma biografia do Marquês de Pombal e, seu segundo livro, foi Carlota Joaquina,
obra que o Livro do Mês selecionou para abril deste ano.
35.8. No prelo e nas vitrinas
Tr
- The life of sir Arthur Conan Doyle, de John Dickson Carr, primeira biografia oficial do
famoso autor de Sherlock Holmes, editado pela John Murrag, Londres.
- Retrato de uma cidade de província, de Ernani Silva Bruno, ensaio histórico e sociológico,
concorrente ao "Fábio Prado – 1948".
- The reign or queen victoria, de Hector Bolitho, autor de célebres reportagens de guerra,
lançamento de Collius, Londres.
- As confissões de Rowsseau, tradução de Wilson Lousada, edição da José Olympio.
- Ursa maior, de Edison Carneiro.
- A luz da estrela morta, de Josué Montelo, edição da José Olympio.
- Human knowlwdge, de Bertrand Russel, lançado em Londres pela Allen &Unwin.
- Padrão G, contos de José Carlos Cavalcanti Borges, autor de Neblina.
35.9. Sherwood Anderson
(c/ fotografia)
res
Informações biobibliográficas de Sherwood Anderson, considerado pelo colunista como
um dos grandes autores realistas da ficção norte-americana.
35.10. Miniatura
(c/ desenho)
Tr
Roberto Alvim Corrêa, de cuja autoria foi lançado há pouco tempo, Anteu e a crítica,
nasceu em Bruxelas, em 1901 e é filho de tradicional família brasileira. Licenciou-se na
Faculdade de Letras de Genebra, tendo, também, estudado na Suíça. Estabelecendo-se em
Paris, dedicou-se ao ramo editorial, no qual militou durante vários anos, tendo fundado, em
1928, uma editora própria a Editions Corrêa, por intermédio da qual lançou várias figuras da
literatura francesa, amigos seus, como Charles Plisnier, prêmio Gonaurt, 1937. Editou, ainda,
quase toda a obra de Chales Du Bos, livros de Maritain, Mauriac, Gabriel Marcel, Edmond
Jaloux e Marcel Raymond. Colaborou em várias revistas literárias, como o Cahier do sud,
Vendredi e alguns suplementos dos diários franceses. Regressou, definitivamente, ao Brasil
em 1936, tendo, então, sido contratado, como professor de literatura francesa, pela
Universidade do Distrito Federal, lecionando, ainda, a mesma matéria na Faculdade Nacional
de Filosofia e na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica. Foi crítico literário de A
Manhã durante os anos de 1942 e 1944 e redator da secção de artes plásticas do Correio da
Manhã.
35.11. Advertência
Tr
Pearl S. Buck, autora de vinte e um livros sobre a China, faz parte do Conselho Nacional
contra o Serviço Militar, organização norte-americana que reúne grande número de
intelectuais, escritores, artistas, cientistas, dentre os quais, Einstein, Bromfield e outros, com o
objetivo de impedir a militarização dos Estados Unidos. Agora, o Conselho publicou um
fascículo, no qual demonstra o perigo dessa militarização, e advertindo o público de que
“jamais tantos oficiais ou antigos oficiais ocuparam postos governamentais”, e jamais os
militares influíram tanto na elaboração de nossa política nacional. A economia da nação está
inteiramente à mercê dos militares”
458
35.12. A Montanha Mágica
(c/ fotografia)
res
Sobre lançamento de nova tradução de A montanha mágica de Thomas Mann pela Editora
Globo.
35.13. Correio
Tr
- Inquietação, 2ª edição de Elpídio Bastos, volume que reúne cerca de cem sonetos do
conhecido poeta baiano.
- Rua de pedra, poesia de Valfrido Piloto, edição da Gráfica Mundial Ltda., de Curitiba. O
autor, que tem publicado vários outros livros em prosa, estréia, agora, na poesia, com
trabalhos produzidos em 1943.
Obs.: gravura de um livro, iluminado por vela num castiçal.
36. Data
18/04/49;3
TÍTULO
A cidade e seu romancista
O Rio tem muito mais necessidade de um romancista do que de um Prefeito. É, pelo
menos, a minha opinião, ao rever, entre decepcionado e triste, a ex-Cidade Maravilhosa. E
explico: se o Prefeito é o homem que governa, dirige, resolve, o romancista é o homem que
observa, sente, traduz e interpreta, para que os outros possam resolver, dirigir e governar.
Lima Barreto foi, em outra época, o romancista carioca. Atropelando-se em escadas de
martírio, embrenhando-se nos cômodos sórdidos das pensões do Catete, seguindo como um
detetive, os passos trôpegos dos joão-ninguém, Lima Barreto fez o romance carioca de
determinada época. Depois dele, enquanto a cidade crescia, nenhum outro, autêntico
apareceu. Muitos tentaram, sem êxito. E atualmente, quando o Rio não perde um só instante
do Tempo, que passa veloz, e faz de cada desses instantes uma história que é sempre a mesma
e é sempre diferente, um romancista é a sua necessidade vital. Um homem que sinta todos os
instantes, viva todos os detalhes, sofra todas as angústias. Um homem eternamente presente,
sem ser notado, atuado pelos desastres que ocorrem na “Getúlio Vargas”, pelo ciúme de
Jacarepaguá, pela hemoptise nas mesas de “café com leite”, pelo duplo suicídio no
apartamento romanticamente anti-higiênico do Catête, pelo salto desesperado do décimo
terceiro andar de um edifício qualquer, pelo passar e repassar sem fim dessa multidão que não
sabe de onde vem, nem para onde vai, desse povo que acorda, trabalha e dorme sem
consciência de si mesmo. Um homem que observa de todos os ângulos, ao mesmo tempo
fotógrafo e poeta, sociólogo e psiquiatra. Disso é que necessita o rio, muito mais que de um
prefeito.
E o pior é que a gente olha e não enxerga qual é esse romancista. Dos muitos que habitam
o rio, nenhum parece ter qualidade e fôlego para a empresa. O velho Graça, inexcedível, é o
detalhista de profundidade, o homem que permite o mais íntimo das angústias, dissecando
processos psicológicos com a simplicidade de quem descasca uma banana. Grande
romancista, seria, talvez, o único capaz de apreender, vertical e horizontalmente, o drama
contraditório e complexo da metrópole. Dificilmente o escreveria, porém, a julgar pelas
características que dominavam a sua obra. O inquieto Lins do Rego fabricaria uma nova
Eurídice. Estaria longe de conceber um Manhattan Tansfer carioca, ciclópico, vertiginoso e
autêntico, como fez Dos passos de outro tempo. Não citemos mais. Para qualquer lado que se
olhe, a mesma, a mesma ausência de um romancista da vida carioca atual. Ainda não surgiu o
escritor capaz de realizar uma síntese do que vai pelas tumultuosas ruas do que se passa no
claro-escuro das habitações suicidas. Um romancista capaz de seguir mil rumos diferentes ao
mesmo tempo, entrecruzando-os na justa oportunidade, acompanhado-os atentamente na
grande marcha para o desembocadouro comum. Um homem identificado com a multidão,
com os transportes, com a trepidação de cada minuto, personagem, ele próprio, do imenso
drama.
Os escritores cariocas, e os que habitam o Rio, ainda não quiseram tomar essa posição de
autor e personagem. Não quiseram ou não puderam. Preocupados uns com problemas de alta
transcendência e outros enxergando apenas o que lhes agride os olhos, sem falar em que se
perdem no emaranhado sedutor dos elogios mútuos e da vaidade incensada, esses escritores
esqueceram de que pertencem à multidão, à massa anônima que não cessa de lutar e de sofrer
na busca de uma vida melhor. E esquecidos disso, não percebem que a cidade necessita de um
romancista que lhe analise a vida, seja o seu interprete. Esse romancista ainda não apareceu.
Mas aparecerá, por certo. E já que os escritores de renome não se aventuram à empresa, é bem
provável que ele surja, espontaneamente, da própria multidão. Um desconhecido qualquer, um
anônimo, que jamais tenha escrito outra coisa, porém, que sinta o drama seu e de três milhões,
sofra a angústia de uma cidade que se debate entre os caprichos extravagantes de “nouveauxriche” e a miséria que floresce nas ruas elegantes. Vivendo e sentindo a cidade, sofrendo suas
dores e rindo suas alegrias, esse anônimo desesperado por não encontrar quem grite ao mundo
por ele e pelos outros, escreverá o romance ciclópico do Rio tumultuário – grito que ficará
revoando como autêntico testemunho de uma época.
37. Data
23/04/49;5
TÍTULO
Caleidoscópio
37.1.Variações
(c/desenho)
tr
Há, em certas passagens de Gide, uma pureza de pensamento rara de ser encontrada. Ele
escreve como se estivesse argumentando consigo mesmo, uma intimidade confortante,
esquecido dos preconceitos, das fronteiras e dos limites que restringem cada vez mais a vida
do homem comum. E isso, principalmente isso, é que faz de Gide um dos mais expressivos e
originais espetáculos do mundo contemporâneo: o de um homem puro, capaz de ser livre, de
enfrentar os semelhantes e a vida sem máscaras e sem hipocrisia. É sempre ele mesmo, audaz,
corajoso, paradoxal e perturbador, mas, Gide sempre.
Sua prosa tem aquele toque de encantamento, uma irrecusável sugestão de sinceridade.
E apenas sugestão, porque Gide não quer ser profeta.
As palavras não podem ser substituídas por outras, porque nele as palavras têm o seu
justo peso e valor, e adquirem força e expressão próprias:
460
“Expressar os pensamentos o mais sucintamente, e não o mais eloqüentemente. Mas é
que a minha frase quer se fazer ouvida, quando, todavia, está inteiramente, viva, quando se
agita e quando se a sente palpitar sobre as palavras. Essa palpitação, tão confundida com o
dizer-bem, resulta-me cada dia mais insuportável... Qual a necessidade de fazer um artigo ou
um livro?... Onde três linhas bastam, eu não colocaria uma quarta.”
Realmente, esse senso de economia de palavras é uma nota dominante na obra
gideana. Sua linguagem é depurada de tudo quanto não tem valor e significação. Não há,
como em certos escritores, esse amor ao decorativo literário. Nele, o que tem beleza é o
pensamento puro e simples do homem. E é por isso que ele pode dizer: “Com que felicidade
me desembaraço daquilo que já não me instrui!”
37.2. Estréia
(c/desenho)
tr
Anuncia-se o lançamento de Chamado do Mar, romance de estréia de James Amado.
Antes de haver publicado qualquer livro, o nome de James Amado já era bastante conhecido
do público, pelas colaborações divulgadas em revistas e suplementos literários de país e pelas
várias traduções de livros de autores consagrados da ficção universal. Diplomado pela escola
Livre de Sociologia e Política de São Paulo, James Amado é tradutor e jornalista profissional,
somente agora estreando no romance com esse livro, que mereceu de Otto Maia Carpeaux as
mais elogiosas referências, principalmente pela originalidade e pelas experiências que
encerra. James Amado é baiano filho de ilhéus e nasceu em 1922.
37.3. Presença de Anita
(c/ fotografia)
Tr
Um dos mais ruidosos lançamentos dos últimos tempos, já em 5ª ou 6ª edição, Presença de
Anita está muito longe de corresponder a esse sucesso de livraria. A não ser o
sensacionalismo do tema gasto e serrado por milhares de autores, embora sempre atual – a
inquietação do homem que não encontrou na esposa o seu correspondente sexual e se
fragmenta aos poucos numa crise de desespero – o livro de Mario Donato nada apresenta que
justifique esse record de tiragem. É verdade que os editores souberam explorar o público com
uma propaganda intencionalmente dirigida, indo ao cúmulo, na quinta edição, de uma
advertência que tem a malícia da chantagem: o livro não deveria ser lido senão por maiores
de idade e, ainda assim, pelos que tivessem algum conhecimento de psicanálise..., A nossa
opinião, em que passe a simpatia com que nos colocamos diante de Mario Donato, autor de
literatura infantil, poeta e excelente jornalista, é a de que o seu livro é um romance mal
realizado, de defeitos gravíssimos, imperdoáveis a um homem de sua responsabilidade
intelectual. Estarrece a sua prodigalidade no uso dos lugares comuns, das frases feitas, e no
mau gosto literário com que construiu a maior parte das cenas do livro. Nele, há coisas assim:
“A vida não quer senão a sua própria continuação, custe o que custar, haja o que houver” Ou,
então, “...era como o passar duma esponja gelada sobre a superfície levemente aquecida do
seu gosto de viver”. São frases do próprio autor, no corpo do romance. Não pertencem a
nenhum dos personagens, o que seria admissível, se se tratasse de alguém capaz de pronunciar
semelhantes tolices. Iguais a essas, há muitas outras, a evidenciarem o pouco cuidado de
Mário Donato na elaboração de Presença de Anita. Ali há um material que deveria ter sido
mais trabalhado, depurado de quanta coisa falsa e injustificável existe em cada página, em
cada linha. E a alegação de que o livro foi escrito em cerca de 90 dias, sob pressão, o autor
cada vez mais empolgado pelo que ia escrevendo, não justifica os erros e as imperfeições. Um
romance exige tempo, cuidado e estudo, entre outras coisas. E Presença de Anita, escrito de
um fôlego, não poderia ser senão isso que está aí: um romance no qual um fantasma deixa
marcas de uma unha no braço de um personagem. Esperemos que Mario Donato trabalhando
com paciência os outros livros que diz ter prontos, ofereça ao público um trabalho que
corresponda aos seus inegáveis méritos de escritor.
37.4. Novo Livro
(c/ fotografia)
Tr
Permínio Asfóra, um dos mais destacados intelectuais pernambucanos, encontra-se em São
Paulo, onde foi, como profissional de imprensa, participar do Congresso Nacional de
Jornalistas. Aproveitando sua ida a São Paulo, o autor de Sapé, e Noite Grande entrou em
entendimento com as editoras paulistas, para a publicação de um novo livro seu, romance
escrito no mesmo estilo dos dois anteriores. Tudo indica que, daqui a alguns meses, seja
lançado esse novo livro do conhecido diretor de Resenha Literária, uma das boas revistas do
Recife. Permínio Asfóra trabalha na imprensa e revistas literárias e é colaborador de vários
suplementos e revistas literárias.
37.5. Judas o obscuro
(c/ fotografia)
res
Ao comentar o lançamento do livro Judas O Obscuro, de Thomas Hardy (1840-1928), pela
Editora A Noite, numa tradução de Octávio Faria, o resenhista afirma que esse livro já foi uma
das melhores produções na obra do autor. Esse romance apresenta uma amargura que
provocou um choque na opinião pública, provocando o abandono da ficção por parte do
escritor e fazendo-o enveredar pela poesia. Alencar considera o romance atual por contar a
“história do homem ludibriado na sua vontade de viver e de crescer”, de forma triste e
amarga, com desencanto. Outro livro do autor : Tess D’urbervilles.
37.6. A excluída
(c/ fotografia)
tr
O círculo Literário do Brasil, que lançou este mês Recordações do Escrivão Isaias
Caminha, de Lima Barreto, já esta anunciando a sua seleção p/o mês de maio: A Excluída, de
Luigi Pirandello, edição da Ipê. Trata-se de uma das grandes obras do singular escritor
italiano, que é das mais expressivas e originais figuras da literatura do nosso século. Esse seu
romance conta a história, aparentemente banal, de uma mulher injustamente acusada de
infidelidade. Descrevendo os acontecimentos posteriores a essa acusação, Pirandello, com
ironia e malícia, analisa o meio social em que vive o personagem central de seu romance,
objetivando os efeitos desastrosos da moral rigorista que preside os nossos destinos.
37.7. 40.000 exemplares
(c/ fotografia)
res
462
O Amanuense Belmiro, de Ciro dos Anjos, lançado, em 3ª edição, pela Coleção Saraiva,
conseguiu uma tiragem surpreendente de 40.000 exemplares. Livro de estréia do escritor, esse
romance recebeu uma boa acolhida do público e crítica, alçando o escritor o um dos
destacados nomes da literatura nacional. Outro romance do escritor: Abdias.
37.8. Produção em massa
(c/ fotografia)
res
O escritor José Mauro de Vasconcelos possui uma volumosa produção literária,
acostumado a percorrer o país, vivendo as histórias que escrevia, formou-se assim, uma das
mais curiosas personalidades da literatura brasileira àquela época. Autor de Barro Blanco e
Longe da Feira, deixou, naquele ano, como editor os romances As pedras de Deus e Vazante,
além de anunciar mais seis já prontos. Em entrevista a Valdemar Cavalcante, que assinava a
secção Jornal Literário, do Jornal do Rio, afirmou que iria viajar para dentro do Brasil em
estudo e, para o próximo ano, estava programando uma viagem para a Europa, com uma bolsa
de estudos.
37.9. O poeta laureado
(c/ fotografia)
res
Ao noticiar que o Poeta Laureado da Inglaterra, John Masefield, estava gravemente
enfermo, o resenhista faz uma crítica à obra do poeta, “um dos mais respeitados nomes da
literatura inglesa”. Esse poeta “voltou-se para a problemática de sua época identificando-se
com os personagens anônimos e simples da tumultuária vida moderna”. Obteve o prêmio
Poeta Laureado em 1930 com a poesia Reynard the Fox. Segundo a crítica suas Baladas
renovaram a poesia inglesa, com novas experiências e processos e seu poema Consacration,
livro dos heróis desconhecidos, deu-lhe prestígio ao representar a revolta contra os potentados
e identificação com o povo:
“nada de príncipes e dignitários com seus cocheiros
de peruca
Triunfalmente laureados, saboreando o fruto dos
Anos
Mas, sim, os homens escanercidos, recusados empunhando
as suas lanças”
37.10. Flagrantes
Rs – Lançamento de concurso de monografia sobre o 2 de julho, pela ABDE, secção Bahia
Rs – A Unidade da Lavoura, do sr. Eusínio Lavigne, reunião de artigos e sugestões sobre a
política cacaueira pelo cooperativismo.
Rs – Antologia dos Novos a ser lançada pela Revista Branca, livro que reunirá contistas
brasileiros. Vasconcelos Maia representará a Bahia, o contista é um dos diretores de Caderno
da Bahia e autor de Fora da vida.
38. Data
21/05/49;5
TÍTULO
Caleidoscópio
38.1. Maeterlinck
(c/ fotografia)
res
A morte de Maurice Maeterlinck – Prêmio Nobel de Literatura, 1911 – conde belga, trouxe
luto ao mundo das letras. Autor de Pelleas et Melisande, que foi transportada para a ópera
por Debussy; de O Pássaro Azul, levado ao cinema; A Vida das Formigas e A Vida das
Abelhas, suas obras são mais voltadas para as crianças e animais. O escritor belga, nascido em
29 de agosto de 1862 abandonou o desejo da família de ingressar nas ciências jurídicas para
dedicar-se à literatura.
38.2. Miniatura
(c/ fotografia)
tr
Escritor de grandes qualidades e possuindo longa experiência, Afonso Schimidt é
considerado, com justiça, um dos pontos mais altos da ficção nacional. Percorrendo todos os
gêneros literários, pois é poeta, jornalista, teatrólogo, ensaísta, romancista, cronista e contista,
é principalmente nesse último gênero – o conto – que Afonso Schimidt se revela uma das
grandes capacidades criadoras da nossa literatura. Também no romance, ao qual se tem
dedicado ultimamente, essa mesma força se manifesta, como uma das mais impressionantes
que possuímos. Nascido em 1890 Afonso Schimidt, mal chegava aos 16 anos, aventurava-se a
uma acidentada viagem à Europa sem quaisquer outros recursos que a coragem e a ousadia do
seu espírito, viagem essa que está fixada no livro A Primeira Viagem. Sua estréia ocorreu em
1912, com Janelas Abertas, publicando, em seguida, Mocidade, Garoa e Poesias. Ingressando
no jornalismo, foi redator do Estado de São Paulo, onde ainda trabalha. Em 1921, reuniu seus
primeiros contos em Brutalidade, lançando, em seguida, as novelas Os impunes, O Dragão e
as virgens. Posteriormente Colônia Cecília e Zangala e o reino do céu. De contos são ainda
os volumes Curiango, onde estão muitas de suas melhores produções no gênero, Pirapora e O
tesouro Cananéia. Para o teatro escreveu As levianas, A história de fadas e Carne para
canhão, um tremendo libelo antifascista, já traduzido para o espanhol e o italiano. Como
romancista, publicou A marcha, A vida de Paulo Eiró, O assalto, Retrato de valentia e,
recentemente, venceu o concurso literário de O cruzeiro, com o romance Menino Felipe. Não
há nenhum exagero em dizer que Afonso Schimidt é uma das mais fortes e mais autênticas
expressões da literatura brasileira contemporânea. Sua obra de autodidata está revestida de
uma como que desenganada simpatia humana, sendo esse um dos seus traços dominantes.
38.3. novelista inglesa
(c/ fotografia)
res
A escritora Elizabeth Bowen, dona de uma aguda sensibilidade e penetrante poder de
investigação, alcançou uma grande projeção na novela inglesa contemporânea,. Autora de The
house in Paris e The heath of the day, esta última, lançada paralelamente á publicação de suas
obras completas, tem recebido elogios da crítica. O cenário do último livro é a Londres
464
convulsionada pela última guerra. Dentre os críticos que tem se ocupado da novelista,
destaca-s O´Faolain.
38.4. Depoimento
tr
Mario Sette, escritor pernambucano, que lançou há pouco, Arruar, história pitoresca do
Recife antigo, possui, uma vasta obra, que abrange quase todos os gêneros literários. Com 60
de idade, Mario Leite, está atualmente preparando um romance, e a esse respeito disse o
seguinte:
“O meu romance de sexagenário está cheio de minha ‘paisagem interior’ da velhice, desta
minha velhice sem disfarces e sem pretensões de não ser velho,visto que não se amorrinhando
de ‘rabugices’, antes sentindo o que me afigura ‘sentir’ nos tempos de agora, sem trair o meu
tempo”.
38.5. Acredite que é verdade
res
- Anuncia o lançamento do já famoso romance The naked and the Dead, do escritor norteamericano Norman Mailer recebeu críticas e provocou “uma tempestade literária”.
Considerando-o obsceno, o Sundy Times exigiu a suspensão do lançamento. Os críticos
dividiam-se. O resenhista cita opiniões veiculadas em diferentes órgãos de imprensa: Sundy
Times, News Chronide, e Daily Herald.
– Uma Academia Ideal – apresentação, considerando os problemas, o resultado de enquete
literária promovida pelo jornal O Combate, o qual solicitava que os entrevistados indicassem
nomes de escritores franceses para comporem a Academia Ideal. Das 507 respostas escolhidas
Gide obteve 423, Camus 342, Sartre 325; Malraux 298, dentre outros citados.
38.6. Flagrantes
res
- Revista Branca, nº 6, comemorativo ao 1º aniversário, edição de abril-maio, à venda;
- Jules Romain foi convidado a escrever um romance a ser aproveitado para o cinema,
cenário: Paris;
- A Revista Resenha Literária, nº3, ano II em circulação, Recife;
- Chegada da Paraíba, a Revista A União;
- A Revista Clã vai publicar o livro de contos de Eduardo Campos, A Viagem Definitiva,
colaboração com editora Fortaleza;
- Tradução de Dentes do Dragão, de Upton Sinclair, por Wanda Murgel;
- Les Hommes San Nom, de Jean Faurel, vol. II, de Gallimard; 1º volume Les Reposantes e
3º Les innocentes, este a ser lançado;
- Lançado pela editora Self de Paris, Phisiologie du Parti Communiste Français, de A Rossi;
- Anuncia: A grande Cidade, de Edmundo Amaral e Pequeno Burgês, de João Calazans.
- Sons and Loves, de D.H. Laurence, 1ª edição de 1913, publicada pela Penguin Books de
Londres.
38.7. É a pedra no caminho
(c/desenho)
tr
João Clímaco Bezerra, escritor cearense, quando lançou o seu romance Não há estrelas no
céu, enviou um exemplar ao poeta Carlos Drummond de Andrade. Nada mais natural. Estava
estreando, e era justo que enviasse o seu livro aos “donos das letras”, inclusive a um dos
nossos maiores poetas contemporâneos. Algum tempo depois, porém foi Braga Montenegro
autor de um livro de contos, Uma Chama ao Vento e do mesmo grupo de João Clímaco
Bezerra – a Revista Clã – quem recebeu a seguinte e curiosa carta de Carlos Drummond.
“Meu prezado Braga Montenegro.
Circunstâncias diversas não me permitiram, até agora, mandar-lhe uma palavra de cordial
agradecimento pela oferta de seu livro, com as felicitações que você bem merece por uma
estréia assim rica de interesse no campo da ficção. Certas cenas de Não há estrelas no céu,
bem como o relevo que V. conseguiu dar à vida moral e às reações psicológicas do
personagem central, revelam a existência de um romancista que muito poderá ainda dizer em
obras futuras.
Com votos de uma fecunda e brilhante carreira, abraça-o, amistosamente,
Carlos Drummond de Andrade.
Adianta-se que Braga Montenegro, não sendo o autor de Não há estrelas no céu, e embora
tendo recebido a carta de Carlos Drummond, fez a esse livro uma severa crítica.
38. 8. Isaias Caminha
(c/ fotografia)
Tr
Aparece mais uma edição de Recordações do escrivão Isaias Caminha, 4ª edição, editora
Merite S.T., Rio, 1949, romance de estréia de Lima Barreto. A luta do grande romancista
carioca é um exemplo que não deve ser perdido de vista. Enquanto Machado de Assis e os
figurões da época tudo conseguiam das editoras, Lima Barreto era tremendamente sabotado. E
a tal ponto chegou a “guerra fria” que lhe moveram que, cansado de esperar editores para o
livro cujos primeiros capítulos já haviam sido divulgados pela sua fracassada Revista Floreal,
Lima Barreto, por intermédio de amigos, mandou publicá-lo em Lisboa, em 1909, pela
Livraria Clássica, Editora, sendo a revisão feita por Albino de Forjaz Sampaio. É famosa essa
edição por dois fatos: o romance sofreu muitos cortes e o autor não recebeu um níquel de
direitos autorais. Chegou mesmo, tão ansioso estava de ver o livro impresso, a escrever aos
editores, antes que esses lhes respondessem afirmativamente, dizendo que concordava em não
aceitar nada, conforme lhe dissera um amigo ser essa a exigência da editora. E acrescentava
na carta: “sabendo eu de que modo a fortuna de um primeiro livro é arriscada, nada exijo pela
publicação do meu, a não ser alguns exemplares, cinqüenta, para os oferecimentos de praxe.
Julgo-me, meu caro sr. Teixeira, muito feliz por encontrar quem queira publicar-me e com a
publicação fico satisfeito”. Para a segunda edição, paga de seu bolso, Lima Barreto teve de
pedir empréstimos. Mas, queria ver o seu romance novamente em circulação e agora na
íntegra. Acrescendo-se que esse livro é uma tremenda sátira ao jornalismo brasileiro e,
particularmente, ao Correio da manhã, do Rio. Nele há muito da experiência pessoal desse
grande nome da nossa literatura, o qual sofrendo hoje um reexame cuidadoso, vem
construindo definitivamente o conceito que já lhe havia sido dado, de admirável escritor, um
dos mais altos pontos do romance brasileiro.
466
39. Data
04/06/49;5
Título
Caleidoscópio
39.1. Edição de luxo
(c/ fotografia)
tr
Murilo Mendes é um dos mais conceituados poetas modernistas do Brasil, apesar das
restrições que, à sua obra, faz certa parte da crítica nacional. Como quer que seja, o autor de
As Metamorfoses é um dos intelectuais de maior projeção no Brasil e, mesmo, no estrangeiro,
onde seus versos são conhecidos e admirados. Agora mesmo, notícias de Paris informam que
a “Impremerie Union” lançará uma edição de luxo de seis poemas de Murilo Mendes, com
ilustrações do conhecido pintor Picabeia.
39.2. Miniatura
(c/ fotografia)
tr
Autor de uma considerável bagagem literária, Orígenes Lessa, embora tendo cursado as
primeiras letras em São Luis do Maranhão, nasceu em Lençóis, São Paulo, a 12 de julho de
1903. A prova de que desde muito cedo teve inclinação para a literatura, é o fato de, aos oito
anos de idade haver escrito uma história em grego, isto é, no alfabeto helênico, pensando que
bastaria alinhar as estranhas letras desse alfabeto para construir uma história e estar no pleno
domínio da língua que seu pai, então, ensinara no Liceu Maranhense. Durante o curso
ginasial, feito já em São Paulo, distinguiu-se sempre, segundo ele mesmo declarou certa feita,
como péssimo aluno. Cursou teologia num seminário protestante da capital paulista, e, no
Distrito Federal, foi aluno da Faculdade de Filosofia e de uma escola dramática, de cujos
estudos disse: “Não sai pastor protestante, nem filósofo, nem ator”. Diz-se, também que sua
vocação para o jornalismo vem de muito longe: quando criança costumava redigir pequenos
jornais, feitos à mão ou impressos, daí nasceu o jornalista que, em 1929, estreava na
profissão, ingressando no Diário da Noite, época em que publicou seu primeiro livro de
contos, O escritor proibido. Espírito combativo, Orígenes Lessa foi revolucionário
constitucionalista em 1932, sendo preso pela ditadura. Escritor por vocação, não perdeu a
oportunidade e escreveu dois livros de reportagens sobre a revolução paulista, Não há de ser
nada, que obteve três edições, escrito a lápis, no presídio, onde “não havia nem tinta, nem
caneta, nem pena, nem comida que prestasse...” e Ilha Grande, do jornal de um presídio de
guerra, “a história de dois mil prisioneiros paulistas durante a mais dolorosa e difícil das suas
batalhas: a dos braços cruzados”, publicado aquele em 1932 e este em 1933. Dedicando-se à
publicidade, Orígenes Lessa tornou-se técnico no assunto, tendo escrito alguma coisa a
respeito inclusive O Livro do Vendedor, teoria e prática comercial, publicado em 1ª edição
em 1931. Escritor dotado de aguda imaginação e grandes recursos técnicos, sua obra é uma
das mais originais de nossa literatura. Dedicando-se ao jornalismo, ao romance, à literatura
infantil, à crônica, ao teatro e ao conto – gênero em que é considerado um dos melhores dos
nossos contemporâneos – sua produção é grande, nela figurando, além dos livros já citados:
Garçom, Garçonete, Garçonniere, contos, 1930, menção honrosa da Academia Brasileira de
Letras, A cidade que o diabo esqueceu, contos, 1931, Passa três, aventuras e desventuras de
um cavalo de pau, novela para crianças, 1932, O sonho de prequeté, novela infantil, 1934, O
Joguete, novela, 1937, O feijão e o sonho, romance, Prêmio Antonio de Alcântara Machado,
1938, ultimamente publicado, em 3ª edição, pela Coleção Saraiva, O.K. América, notas de
viagens ao estrangeiro, 1945, Omelete em Bombaim, contos, 1946, A desintegração da Morte,
novela seguida de contos, selecionada pelo Círculo Literário do Brasil, 1948. para o teatro,
escreveu ainda, Um homem passou e Nasceu um herói. Atualmente prepara um novo
romance, cujo título deverá ser Rua do Sol.
39.3. Jean Barois
tr
Escrito há cerca de 36 anos, e agora publicado pela Livraria do Globo, Coleção Nobel,
tradução de Vidal de Oliveira, este livro de Roger Martin du Gard desperta grande interesse e
suscita as mesmas discussões já travadas em 1913, quando foi escrito. É que, sendo um
romance de debate, fixando o conflito que dominava e domina ainda os homens – o dos
espíritos científico e religioso – sua leitura não pode ser feita com indiferença. Acrescenta-se
a isso o fato de ser um romance, de certo modo histórico, de vez que Martin du Gard colocou
seus personagens imaginários em contato com a realidade histórica de determinada época,
chegando mesmo a incorporar à narrativa documentos autênticos, como parte dos célebres
panfletos de Lazare e provas taquigráficas do affaire Dreyfus. O grande romancista de Os
Thibault é universalmente consagrado como um dos maiores escritores do nosso tempo e um
dos mais brilhantes espíritos da França. Isso provém, em grande parte, do fato de ser Martin
du Gard, além de um profundo pesquisador dos dramas individuais, aquele que melhor e mais
objetivamente realiza o estudo dos dramas coletivos. E em O Drama de Jean Barois essas
duas análises se completam. Feitas com aquele acentuado sentimento humano, que é uma
dominante na obra de Du Gard, ofereceu ao leitor a rara oportunidade de participar da
discussão de tema apaixonante e sempre atual.
39.4. Depoimento
tr
Apontado, por um jornalista que lhe entrevistava, como um dos nossos escritores que
melhor manejavam o idioma, Graciliano Ramos, com a sua peculiar modéstia, respondeu:
“Conversa. Talvez, se houvesse alguma verdade nisso, eu devesse muito aos caboclos do
Nordeste, que falam bem. É lá que a língua se conserva mais pura. Num caso de sintaxe de
regência, por exemplo, entra a linguagem de um doutor e a do caboclo, não tenha dúvida, vá
pelo caboclo, e não erra. Note-se que me refiro ao caboclo do sertão. O do litoral vai se
estrangeirando”.
39.5. Quem Se Habilita
Res
Curioso e pitoresco o anúncio que o escritor Léo Vaz, redator-chefe do O Estado de São
Paulo, publicou no referido jornal à procura de um editor para três pequenos volumes de
ensaios publicados esparsamente na imprensa. Seriam os títulos: Trololós seu tanto quanto
estéticos com leves traços de filosofia, reunindo artigos sobre o modernismo na arte e na
literatura, Escólios Bíblicos, sobre o livro das escrituras e Réplicas e Tréplicas, crônicas mais
468
ou menos polêmicas. O anúncio revela o espírito irônico e meio desencantado do autor que
diz:
“Cartas, se hipoteticamente as houver, dirigi-las a Leo Vaz, na redação dessa folha”
39.6. Prêmios literários franceses
res
A Societé des Gende Letres foi unânime ao conceder um dos seus prêmios a Mme.
Germaine Beaumont, autora de Piege, Du Cote d’ou viendra le jour e La roue d’infortune,
este prêmio com o Le guilde. O outro prêmio foi concedido a René Maran, autora de Batoula,
romance, Le petit roi de Chimerie e Lês livres de la Brousse.
39.7. Flagrantes
res
-
Lançado em Londres, em versão inglesa, Pureza, de José Lins do Rego, tradução por
Lucie Maron, pela Hutchinson.
Feiras de Livros na Bahia: no Depósito Internacional de Livros e, outra, na livraria
Popular.
Publicação de Pequenas Virgens, romance de Carlos de Oliveira, escritor português da
nova geração, autor de Colheita perdida, poemas.
39.8. De Londres
c/foto
res
O último trabalho de Rebeca West, (1892...), The Meaning of Treason, lançado
recentemente, reúne depoimentos, dos quais foi testemunha ocular, dos julgamentos de que,
nas cortes civil e marcial foram vítimas William Joyce, John Amery, Walter Purdy e outros. A
poetisa, novelista, historiadora, comentadora política e também crítica escreveu vários estudos
importantes, dentre os quais o de Henry James, 1916.
39.9. Meus Verdes Anos
(c/ fotografia)
Tr
O sr. Zé Lins do Rego, cujo romance Pureza foi traduzido para o inglês e publicado em
Londres, continua a trabalhar inquieta e ativamente, divulgando crônicas diárias na imprensa
“Associada”, polemizando com os novos do grupo Orfeu e discutindo com alguns rapazes do
Recife, sem esquecer o futebol. Embora trabalhando na elaboração de um novo romance,
Cangaceiros, o sr. Zé Lins está redigindo as suas memórias. O título já anunciado, Meus
verdes Anos, sugere qualquer coisa no estilo de Delly e Ardel e deixa os leitores numa dúvida
tremenda: se as memórias dizem respeito à verde infância do menino ded engenho ou aos
“verdes” anos do escritor.
39.10. Um novo anita ?
(c/ fotografia)
tr
Mário Donato, o escritor e jornalista de São Paulo, que obteve um dos mais ruidosos
sucessos de livraria em 1948, com o romance Presença de Anita, declarou ao ser entrevistado
pela imprensa, que possuía outros romances já prontos. Agora, segundo notícias da capital,
paulista, o redator-chefe da Folha da manhã, vai lançar um desses livros, o romance que leva
o curioso título de Maria Vestida de Azul. É de esperar que esse romance nos apresente um
Mario Donato mais amadurecido e mais senhor da difícil técnica do gênero que abraçou. E
que Maria Vestida de Azul não seja um outro Presença de Anita, sucesso de livraria, elogiado
por certos críticos, mas sem nenhuma dúvida, um livro de qualidade inferior e mal construído.
39.11. Livro de Koestler
(c/ fotografia)
Res
Arthur Koestler, no livro Insigth and outlook, segundo os pareceres da crítica, procura
estudar as causa que levam o homem a pensar, enveredando pelos domínios da biologia e da
psicologia. O livro citado é uma tentativa de teoria sobre ética, estética e o pensamento
criador. Autor de O Zero e o Infinito, Yogue e o Comissário, dentre outros livros.
39.12. Pequeno mundo antigo
Res
José Geraldo Vieira traduziu, e a Livraria Martins publicou, Pequeno Mundo Antigo, de
Antônio Fogazzaro (1842-1911), escritor italiano. Esse escritor é considerado um dos
continuadores de Manzoni e pertence àquela geração que refletiu na sua arte o conflito entre o
misticismo e o racionalismo, sendo esse romance um dos mais equilibrados e melhor
realizado como obra de arte. Publicou ainda Il Santo, livro condenado pela igreja.
39.13. Quatro notas
c/foto(ñ indica de quem)
Res
-
-
José no Egito, de Thomas Mann, traduzido por Agenor Soares de Moura, pela Editora
Globo;
Em preparo uma História da poesia moderna brasileira, por Sergio Milliet, crítico
paulista;
John Lehmann, poeta, novelista, crítico e ensaísta, “um dos líderes da nova geração
inglesa e um dos mais arrojados editores de seu país”, vem ao Brasil, onde proferirá
conferência sobre a moderna literatura inglesa. Publicou, dentre outros livros, The Sphere
os Glass.
Recompensa, poemas, de Judas Isgorogota, pseudônimo de um poeta alagoano, residente
em São Paulo. Livro em 4ª edição, pela Edição Saraiva.
470
40. Data
02/07/49;5
TÍTULO
Caleidoscópio
40.1. Variações sobre a desonestidade
Tr
Dir-se–ia que as publicações feitas em um dos jornais desta capital, a respeito da
dissidência havida na ABDE do Rio, teriam sido regidas por um investigador do estado
novismo, daqueles que prendiam um comunista, em cada esquina, tal o caráter de que se
revestiam. Ninguém ignora nem procurou esconder que houve dissidência na ABDE do Rio.
É fato do domínio público, e o Brasil inteiro já tem ciência desse assunto, que anda fedendo
de tão velho. Quer, porém, ressuscitá-lo para envolver a secção baiana da ABDE nessa,
dissidência, e por ainda, pretender acusá-la de extremismo, é de um ridículo absolutamente
original. É claro que alguns elementos se deixarão iludir, ou melhor dito, amedrontar por
essas publicações. O medo do comunismo é um pretexto para a covardia e o comodismo de
algumas pessoas. Covardia de contrariar alguém ou desgostar o governo e o comodismo de
não fazer coisa nenhuma. Poucos, todavia, dos que lá estão, andarão a cata desse pretexto. E
na história dessas publicações há uma verdade tão cruel quanto necessária de ser conhecida. É
a vontade de sabotar o III Congresso Nacional de escritores, que aqui vai ser realizado este
ano. É o firme propósito de impedir a reunião dos escritores. Porquê? Simplesmente por dois
pequenos motivos que as publicações não esclarecem. Primeiro, por uma questão de vaidade
de poetas, ressentimento de não fazer parte da uma comissão organizadora. Segundo, porque
do Congresso foi retirado qualquer caráter político ou pessoal, e certa ala política entende que
qualquer manifestação coletiva deve ser, obrigatoriamente, uma afirmação de seu prestígio,
daí entendo que a presidência da honra do Congresso deveria caber a outro que não o
governador Mangabeira e a presidência da Comissão organizadora a outro que não deputado
Jorge Calmon. E, como ficaria feio declarar isso publicamente (embora particularmente esse
segundo motivo fosse soprado em muito ouvido) o meio mais fácil de sabotar seria o
espantalho do comunismo, do qual gregos e troianos se afastam rapidamente. Esquece o autor
das publicações (vive no mundo da lua) de que esse negócio de a tudo acusar de comunista
está inteiramente desmoralizado, mais ainda quando se sabe o interesse que atua por detrás da
acusação. E depois, mesmo que assim não fosse, aí estão os nomes que integram a Comissão
Organizadora e a própria diretoria da ABDE, a desmentirem, a priori, qualquer acusação
dessa natureza.
O curioso é que numa das explorações, porque um ou dois se afastarem, tem-se a coragem
de convidar os outros escritores a abandonarem a ABDE! Mas, ora que tolice. Isso é tão
repugnante quanto a má poesia de alguns falsos poetas, que somente têm esse nome à custa do
regime de elogios mútuos. Os verdadeiros escritores, conscientes de sua responsabilidade, lá
continuarão a trabalhar em prol de maior e mais estreita união entre os intelectuais,
independente de suas convicções filosóficas ou fé religiosa, visando apenas o bem comum. E
se não é do seu feitio capitular ou entregar a outros a decisão de seus problemas, muito
menos será aceitar que uma reunião de escritores se transforme em arma de propaganda
eleitoral de quem quer que seja. Ora, seu poeta, procure outra vida. Lembre-se também, que
do alto daquelas pirâmides quarenta musaceas vos saúdam.
40.2. Chamado do mar
Tr
Já está a venda, lançado pela Martins, Chamado do mar, romance de James Amado,
escritor baiano que o público nacional se acostumou a encontrar como tradutor profissional e
colaborador de suplementos e revistas literárias. Seu livro de estréia revela um escritor
amadurecido e no completo domínio da técnica novelística. É aspecto do drama do homem
em luta com a natureza, com o mar e com a terra, e o autor soube fixar seus personagens com
um vigor e uma expressão raramente encontrados em livros de estréia. Trabalhando um tema
que já seduziu a escritores, mas, sabendo-o trabalhar com a sensibilidade e compreensão,
James Amado nos deu um romance em que há uma densa atmosfera humana, pintada um
singular toque de poesia, o que faz de algumas páginas de Chamado do mar algo digno das
melhores antologias. E impossível será ao leitor deixar de participar da atmosfera do livro,
sentindo a paisagem e vivendo os seus conflitos tal o poder de comunicação e sugestão, que
há no estilo vivo, plástico de James Amado.
40.3. Carta aos americanos
Res
Após regressar à França, Jean Cocteau, que estivera nos Estados Unidos assistindo a
“premiere” do seu novo filme, escreveu uma série de artigos intitulados ‘Carta aos
americanos’, nos quais relata o que viu e sentiu na América do Norte.
40.4. Biografia de Goethe
Res
Sobre estudos que sugiram sobre Goethe, durante o período de comemoração do bicentenário do seu nascimento.
40.5. Delegado da A.B.D.E.
Tr
Encontra-se nesta Capital o conhecido escritor, sociólogo e historiador Edison Carneiro,
que atualmente reside no Rio de Janeiro, onde é redator chefe da ‘Associated Press’. Figura de
singular prestígio da literatura nacional, tendo, durante alguns anos, exercido a atividade de
critico literário. Diretrizes e outras, e, hoje em dia, o maior pesquisador de assuntos afrobrasileiros e grande estudioso da nossa história, Edison Carneiro é fonte obrigatória pelos que
se interessam por esses estudos, dada a probidade intelectual e ao cuidado com quão são
escritos. Edison Carneiro veio à Bahia como delegado da ABDE do Distrito Federal, a fim de
tratar de assuntos ligados ao III Congresso Nacional de Escritores, a ser realizado nesta
capital, dentro de poucos meses.
40.6. Depoimentos
Tr
Escrevendo sobre o humanismo, afirmou Alceu Amoroso Lima: “Nossa posição perante os
clássicos e particularmente a antigüidade grego- romana, tem necessariamente, de fugir dos
472
dois extremos - o da admiração que tolha o movimento ou o da repulsa que corte as raízes.
São dois extremos iguais e contrários, o do Renascimento e o do século XVIII. Êxtase
imitativo ou formal. Nada mais errado. O melhor meio de escolhermos o caminho da
proporção entre os dois extremos e a verdade é sempre uma proporção como a beleza é um
equilíbrio- é fazermos não o que os clássicos faziam, mas como os clássicos faziam se
devemos conhecer bem os clássicos, não é para que eles nos tolham a liberdade de renovação,
mas, para que, ao contrario, nos enriqueçam com o seu incomparável exemplo de vigor, de
originalidade, de inteligência e sensibilidade do “humano.”
40.7. (Sem título)
Tr
Em circulação um novo número de Resenha Literária, revista de literatura e de arte
dirigida pelo romancista pernambucano Permínio Asfóra.
xxx
Publicado pela “Martins”, aparece O Céu entre montanhas, romance de Jurandir Ferreira.
40.8. Liberdade de viver
tr
Jean Cassou (1911-...) é um nome pouco divulgado no Brasil. Grande, todavia, é o seu
prestígio na Franca, Espanha e México, países que considera suas pátrias, já que é francês
descendente de espanhóis e mexicanos. É nessa qualidade que divulgou entre os franceses
,muito da literatura hispano-americana, tendo traduzido Cervantes, Gomes de La Serna,
Unamuno, Quevedo, Lope de Veja e outros. Autor de várias novelas e ensaios de crítica de
literatura e de arte, dentre os quais um dos maiores, porém, mais profundos estudos sobre
Cervantes, Cassou é uma das personalidades marcantes do mundo literário francês, tendo,
também, ocupado vários cargos oficiais importante, como o de conservador do Museu de
Luxemburgo. Espírito sensível às transformações que se processam no mundo, Cassou
escreveu recentemente um artigo no qual diz: ‘Agora, que o nosso país começa a realizar os
esforços necessários ao seu próprio renascimento, temos pela frente a brutal perspectiva de
uma nova guerra. A esse abominável injução, nós respondemos com uma firme vontade de
paz, com a recusa da ameaça de morte, e com uma vontade não menos apaixonada e imediata,
concreta e militante de consagrar a nossa atenção àquela que nos parece a necessidade mais
atual, substancial e organicamente indispensável do nosso país: aquela de viver .e reconstruir,
imediatamente, as próprias forcas intelectuais, a própria atividade criadora. Assim como se
pode provar o movimento movendo-se, prova-se a vida vivendo-se. Sabendo que o livre
exercício do pensamento é a riqueza nacional mais preciosa e a garantia de todos os nossos
bens, do pão, do vinho, da moeda e da força. É a garantia da independência nacional. Um
povo, antes de qualquer consideração de superioridade materiais, é forte e livre pela própria
cultura, esta cultura que não pode ser reservada a poucos, mas, aberta a todos os filhos do
povo porque é a realidade mesma do povo. É necessário, pois, dar aos homens que têm missão
a defesa e o desenvolvimento dessa cultura, todos os meios para que possam, dignamente,
cumprir o seu trabalho.’’
40.9. (sem título)
Tr
Anita Garibaldi é, sem dúvida, uma das maiores impressionantes figuras femininas da
História do Brasil. E sua vida é um tema sugestivo e apaixonante, que Valentim Valente
soube aproveitar na sua biografia romanceada, Anita Garibaldi, “heroína por amor”, editado
pela Pongetti. Dispondo de poucos elementos, pois bem escassa é a biografia sobre a heroína
brasileira, Valentim Valenti realizou um romance evocativo jogando com os poucos dados
existentes, completando-os com a sua disciplina imaginação. Esse livro que é uma
homenagem a Anita Garibaldi no transcurso do seu centenário, que este ano se comemora, foi,
também, editado em italiano, e servirá de argumento para um filme a ser produzido pela
Universali- film, de Roma.
40.10. Os escritores e a paz
tr
Um dos mais vigorosos escritores da moderna literatura norte-americana, Erskine Caldwell
(Gerorgi, 1903-...) ganhou rápido prestígio pela sinceridade, muita vez agressiva, com que
constrói suas histórias. Sua obra está, quase toda, fundamentada na realidade trágica do sul
dos Estados Unidos, com suas terras esgotadas, seus poor whites linchados de negros não
querendo enxergar e aceitar a decadência e a transformação das antigas condições. Esse é o
ambiente característico de suas novelas e contos, muito bem fixado em Tobaco’s road e
God’s litle acre. Foi essa atitude corajosa e renovadora, rompendo com a tradição das
histórias bonitas e irreais, falsas, dos campos sulinos, que deu a Erskine Caldwell a grande
celebridade de que hoje goza no seu e em outros países. Recentemente, representou os
Estados Unidos no Congresso internacional de Intelectuais, realizado na Polônia. No curso de
uma reunião na Associação de Escritores Poloneses, da qual participava, Erskine Caldwell,
com a autoridade de escritor jamais distanciado da realidade e grande lutador da causa de paz
entre os povos, declarou, a respeito da atualidade política internacional: “Se deixasse aos
escritores o cuidado de resolver as dificuldades internacionais, a paz seria logo assegurada. O
que não pude aprender durante muitos anos, aprendi rapidamente convosco”.
40.11. História de um exemplo
Tr
Raymundo Souza Dantas (Estância, Sergipe-1923-...) é um nome já conhecido do público,
como autor de Sete palmos de terra e Agonia, colaborador de algumas revistas literárias e
jornalista profissional. Poucos sabem, entretanto, que, de origem humilde, Souza Dantas
exerceu os mais variados ofícios, foi tipógrafo e revisor, e somente em idade um tanto
avançada foi que aprendeu a ler e escrever. Alfabetizou-se à custa de muito sacrifício e força
de vontade. A história de sua alfabetização é um incentivo sobre ser um exemplo que a muitos
poderá servir. É essa história a que ele próprio nos conta em seu novo livro, esboço de
autobiografia, escrito, a convite do Ministério da Educação e Saúde, para a campanha de
alfabetização de adultos. Já anunciado há algum tempo, com o título de Caminho áspero, esse
livro vem de ser publicado, com o título pouco expressivo e nada original de Um começo de
vida, e um prefácio do próprio ministro Mariani, que assim termina: “Recomendamos a leitura
de Um começo de vida nas classes de ensino supletivo em todo o país, e também aos
desalentos e descrentes de idéias de que cada homem possa construir o seu próprio destino,
474
pois que assim é, em grande parte, pelo menos. O Ministério da Educação agradece a
Raymundo Souza Dantas haver aceitado a incumbência de escrever este livro, aparentemente
tão simples, mas tão sério e profundo, pelo que representa da capacidade que tem o homem,
criatura de Deus, de progredir e aperfeiçoar-se”.
41. Data
16/07/49;5
Título
Caleidoscópio
41.1. Conferência de Camus
Res
Sobre a conferência a ser realizada na Bahia pelo escritor francês, existencialista, Albert
Camus, a qual faz parte da viajem a América do Sul do mesmo.
41.2. Viagem Encantada
Tr
Um doce passeio à infância, ao ambiente cheio de poesia do bairro perdido na memória,
onde as lembranças chegam como fantasmas amigos eis o despretensioso mas, admirável livro
com o qual Hermano Requião encontra no mundo das letras. Menino de Itapagipe, filho de
conhecida família baiana, o atual secretário do Diário de Noticias, do Rio, aqui estudou e se
diplomou em professor pelo Instituto Normal, tendo aqui também exercido o magistério
durante alguns anos além das atividades jornalísticas. Transferindo-se para o Rio, em 1933
ingressou na redação do já citado jornal onde até hoje trabalha e ao qual dedica todo o seu
tempo. Em meio ao tumulto do seu trabalho assaltavam-lhe, aos quanto, as lembranças da
terra distante, do bairro poético da infância despreocupada dos cenários e personagens que
nunca mais vira porém que continuavam a viver em sua memória como ternas figuras de
lenda. E um dia, cede à insistência dessas lembranças, fixando-as em páginas sem nenhuma
pretensão literária, sem qualquer intenção de estilo, porém escritas tão naturalmente e com
tanta sinceridade, que reunidas em livro se nos apresentam como páginas com uma pureza
rara de ser encontrada. Com essa descida ao mundo mágico da infância, Hermano Requião
oferece ao publico um livro simples, mas cheio de beleza e poesia cuja leitura é uma
agradável viagem aos velhos tempos da península de Itapagipe, uma visita aos seus
personagens populares, às ruas e ladeiras impregnadas de doce mistério, ao cineminha de dez
tostões, às suas xarangas e a tudo o mais que compõe a vida pacata das províncias. E ao leitor
de Itapagipe, Minha infância na Bahia uma impressão há de assaltar, mais do que estará
sendo conduzido por hábil e precavido contador de histórias ao mundo encantado de
reinações. Acrescente-se a isso tudo, o fato de ser Itapagipe uma das mais artísticas
apresentações da José Olímpio Editora, com a capa de Santa Rosa e belas sugestivas
ilustrações de Gonçalves. Esse livro já foi apresentado à Academia Brasileira de Letras, pelo
prof.. Pedro Calmon . Seu autor está credenciado a futuras realizações literárias, cujo sucesso,
a julgar pelo amadurecimento, sensibilidade e hábil manejo do idioma que agora apresentou
parece garantido.
Hermano Requião encontra-se, atualmente nesta capital aonde veio participar de um
congresso, visitar amigos, rever a “boa terra”, e matar as saudades do seu bairro.
41.3. Novelista e poetisa
Tr
No mundo da ficção inglesa, as mulheres estão sendo bem representadas por algumas
figuras realmente dignas de atenção. Dentre elas está Estella Gibbors (1902-‘’) que é também
poetisa e jornalista, tendo sido educada no North London Collegiati School e University
College. Seu primeiro livro de poema foi The mountain beast e sua primeira novela, Cold
comfort farm, com a qual obteve, em 1933, o prêmio “Feminina Vie Heureuse”. A Longmars
de Londres, publicou, recentemente, mais uma novela de Estella Gibbors, The matchmaker,
que descreve a vida de uma pequena comunidade inglesa no após guerra.
41.4. Depoimento
tr
Garcia Lorca, barbaramente fuzilado pela polícia de Franco, quando da Revolução
Espanhola, é uma das mais impressionante figura da literatura hispano-americana. Poeta de
autêntico valor e de expressão eterna, seus conceitos sobre a arte e seus problemas são de
indiscutível atualidade, razão porque os transcrevemos abaixo.
“Nenhum homem verdadeiro, acredita nessas miudezas de arte pura, de arte pela arte.
Neste momento dramático para o mundo, o artista deve chorar e rir com o seu povo. A criação
poética é um mistério indecifrável como é um mistério o nascimento do homem. Nem o poeta
nem ninguém guarda a chave do segredo do mundo. Quero ser bom como o burro e o filósofo.
Creio firmemente que se há outro mundo, terei a agradável surpresa de encontrar nele(?). Mas
a dor do homem e a injustiça constante que dimana do mundo, e um próprio corpo e
pensamento impede que mude minha residência para junto das estrelas. Sou espanhol integral
e me seria impossível viver fora de meus limites geográficos; porém odeio ao que é espanhol
simplesmente por ser espanhol. Sou irmão de todos e detesto o que se sacrifica por uma
abstrata idéia nacionalista, pelo simples fato de que ama a sua pátria com uma venda nos
olhos”
41.5. Existencialismo na Berlinda
Tr
Antes mesmo de realizar-se, o Terceiro Congresso Pan-Americano de Filosofia, o qual foi
convocado pela Universidade Autônoma do México, já causa uma série de polêmicas por
parte de muitos filósofos que se negam a comparecer ao evento em protesto contra a expulsão
de professores das universidades argentinas, como também, pelo fato de muitos deles serem
contra o primeiro tema da discussão: A filosofia existencialista.
476
41.6. S/T
Tr
Galeão Coutinho é um nome já conhecido do público, autor que é de Vovó mornngaba,
Memórias de Simão, o caôlho e outras curiosas novelas picarescas, as quais lhe deram grande
prestígio literário, principalmente a última mencionada, já traduzida para o espanhol e o
alemão. Agora, a “Coleção Saraiva” vem de publicar, como seu volume n.11, Confidências de
Dona Marcolina, de Galeão Coutinho, novela em que o autor reproduz a conversa popular das
ruas paulistanas, da qual dona Marcolina opina sobre seu marido, o popular Simão o Caôlho.
xxx
Raimundo de Menezes, que já nos deu, anteriormente, entre os livros, A vida boêmia de
Paula Ney e Emílio de Menezes, o último boêmio, publicou, agora, mais um interessante livro
de pequenos estudos biográficos sobre conhecidos escritores, reunindo abundante anedotário,
os cacoetes, os vícios, os hábitos e os costumes de muitos dos nossos intelectuais. Tudo isso
está em Escritores na intimidade, editado pela Martins, que é mais um livro a enriquecer a
bagagem literária de Raimundo Mendes.
xxx
Aparece em Londres a primeira análise da poesia de Dylan Thomas, de autoria de um outro
poeta, Herey Freece publicada por “Lindsay Drumond”.
xxx
“John Lehmann”, de Londres, publicou The grand design, de John dos Passos, novela que
descreve a vida social e política em Washington, durante o “New Deal”.
41.7. Miniatura
Res
Dentre os participantes do Congresso de História da Bahia, destaca-se o diretor do Arquivo
Municipal de Porto Alegre, também escritor e historiador, Walter Spalding. Nascido no Rio
Grande do Sul é autor de várias obras: Farrapos (1931-1935), A luz da história (1933), A
Revolução Farropilha (1939), A invasão paraguaia das fronteiras do brasil (1940), além de
ser colaborador de suplementos e revistas literárias e também diretor do Boletim Municipal.
41.8. Filósofo e Matemático
Tr
Bertrand Arthur William Russel (1872-...) é descendente de uma das mais famosas famílias
da aristocracia inglesa. Tendo cursado o “Trinity College”, graduou-se em Matemática e em
Ciências Sociais, sendo hoje um dos filósofos de maior renome do nosso tempo. Antigo
professor de Cambridge, foi dali demitido em virtude de suas idéias pacíficas, as quais ainda
conserva. Espírito avançado e objetivo, quando mal iniciava sua trajetória brilhante, Russel
assombrou o conservadorismo britânico, com suas opiniões a respeito do mundo ocidental, da
educação, da sociedade privada, cuja origem são a violência e o roubo, é o grande mal. E diz:
nenhum bem para a comunidade, de qualquer espécie que seja, resulta da apropriação privada
da terra. Se os homens forem razoáveis, decretariam para amanhã o fim de um regime, sem
nenhuma compensação mais do que uma taxa de renda vitalícia aos atuais detentores. “Autor
de vários livros sobre os mais diversos assuntos, dele aparece agora, mais uma obra, editada
por Aller e Urwin de Londres Sob o título Authrity and hte individuak, que reúne algumas
palestras radiofônicas do conhecido filósofo e matemático”.
41.9. Caderno da Bahia
Tr
Caderno da Bahia, cujo 4ºnúmero está em véspera de circular, elaborou um grande
programa cultural, parte do qual já vem sendo cumprido, com a realização de conferências,
palestras e exposições de arte. Desse programa, consta a edição dos livros de literatura e de
arte, de autores que aqui residem, baianos ou não. A primeira dessas edições será
Descobrimento, o novo livro do poeta Carlos Eduardo, acreano já radicado na Bahia, autor de
Este rumor que vai crescendo, presença e Canção dos que regressam. Ainda como ponto do
seu programa, Caderno da Bahia, promoverá, breve uma exposição do jovem escritor baiano
Mário Cravo Junior, e várias conferências culturais.
41.10. Maugham Aposentado
Tr
Ao completar 75 anos de idade, em 25 de Janeiro deste ano, Somerset Maugham declarou
que se retiraria da profissão de escritor, passando a ser um literato amador, limitando-se a
escrever pequenos ensaios, para gozo pessoal. Um dos mais famosos escritores
contemporâneos, premiado muitas vezes, Maugham é autor de um grande número de livros de
ficção. Destacando-se dentre eles Servidão humana, romance que, preparado em poucos
meses, ficará na história da literatura como uma das maiores realizações do nosso tempo. De
formação francesa, e sem esconder esse fato, esse inglês nascido em Paris não encontrou a
fama com facilidade. Foi médico, espião do “Inteligence Service”, na Rússia, autor fracassado
de uma dezena de peças teatrais e um mundo de outras coisas. Com Of human boundage
vieram-lhe a fama, a glória, o prestígio a fortuna, e, desgraçadamente, talvez, a morte do
grande escritor que nem existia começou a estudar o gosto do público, para escrever e ser lido
pela maior parte. Começaram as concessões e Maugham passou a ser um industrial da
literatura. Fabricava livros porque seu nome era garantia de que eles seriam bem vendidos. E
as inúmeras novelas e os romances que nos deu depois disso, excetuando alguns excelentes
contos, não valem a pena de ser citados. Talvez houvesse sido melhor que escrevesse menos e
abrandasse mais cedo a difícil e perigosa profissão de escritor. Possivelmente haveria deixado
livros do mesmo nível de Servidão humana, embora sendo sempre o Mestre do Cinismo,
como classificou Chesteston.
41.11. Quo Vadis
Tr
Quo Vadis, livro de Henryk Sienkiewiecz, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em
1905, foi a obra escolhida para integrar a “Coleção Saraiva”.
478
42. Data
30/ 07/49;5
Título
Caleidoscópio
42.1. Visita de um editor
Res
Visita à Salvador do editor Artur Neves, um dos fundadores da Editora Brasiliense, para
divulgação e difusão da obra de Monteiro Lobato. O diretor palestrou a respeito da crise do
livro nacional.
42.2. Uma instituição inglesa
Res
Aproveitando o lançamento aqui no Brasil, do livro Aventura de uma negrinha que
procurava deus, HA cita aspectos biográficos de G. B. Shaw, dramaturgo inglês autor do
referido livro, salientando traços de sua personalidade que o definem como uma figura ainda
bastante polêmica apesar dos 93 anos e de uma inteligência brilhante e incomum.
42.3. A outra face
Tr
J. G. de Araújo Jorge, romancista, poeta, jornalista, professor e bacharel em Direito, tem
uma bagagem literária desproporcional à idade. Estreiando com Meu céu interior, em 1934,
agora reedita pela “Vecchi Editora. Araújo Jorge publicou mais alguns volumes de poesia,
como Estrela da terra, O canto da terra e outros, além de romances, como Um besouro
contra a vidraça, e uma Antologia da Nova Poesia Brasileira. Lançado pela “Vecchi” surge o
último livro de poesia do conhecido lírico nacional, A outra face, sendo programa dessa casa a
reedição de toda a obra do ativo escritor.
42.4. De um grande escritor
Res
Howard Fast é um dos grandes renovadores da ficção norte-americana. Em sua obra estão
presentes os mais agudos problemas de seu país, os quais são dissecados com vigor e
profundidade. Ao escrever o Caminho da liberdade, dedica-o “aos homens e mulheres pretos
e brancos, amarelos e pardos, que devotaram suas vidas à luta contra o fascismo”; devido a
isso atraiu para si o ódio do reacionarismo ianque. Sua mais nova obra é The american.
42.5. Depoimento
Tr
Em carta dirigida a Mauro Mota, Álvaro Lins, surpreendido com o domínio da poesia
manifestado pelo autor de Balada do vento frio, escreveu, a respeito de Elegia n.2, daquele
poeta, certas afirmações que, mesmo feitas em caráter pessoal, merecem cuidadosa
observação e reparo. São elas: “O último verso é de uma beleza baudelairiana. Diga-se o
seguinte: este soneto é um dos raros da língua portuguesa que podem ser colocados ao lado do
soneto de Machado à Carolina, e este, por sua vez, é ao meu ver o mais belo e nobre soneto da
língua, superior ao de Camões sobre o mesmo tema.” “Creio que eles podem construir um
marco de retorno ao soneto e à tradução, depois da aventura necessária, mas já encerrada, da
poesia modernista. Todos anseiam por esse retorno, e o seu soneto poderá ser o marco dessa
tendência.”
42.6. Notícias do congresso de escritores e da ABDE
res
- Irá ao Rio, e possivelmente à São Paulo, o prof Adroaldo Ribeiro Costa para tratar de
assuntos relativos ao III Congresso Nacional de Escritores;
- Solicitam inscrição no quadro social da ABDE: Wilson Lins (escritor), Lafayette Spínola
(jornalista) e Pacífico Ribeiro(poeta).
- A Agir Editora lançou: Noções de história da filosofia (do falecido Pe. Leonel França) e,
uma “infeliz” biografia de Ruy de Alencar; também pela mesma editora, Águia de haia do sr.
Silo Gonçalves.
- Maurice Levaillant, Yves Gandon e Yvone Pagnies foram os agraciados com os Grandes
Prêmios da França de literatura e de romance.
42.7. Ensaio de Gide
Res
Surgimento de nova edição do ensaio de Gide sobre Dostoievsky, publicada pela Secker e
Warbung, de Londres.
42.8. História econômica do Brasil
Tr
Nas livrarias a 2ª edição do notável estudo de Caio Prado Júnior, História econômica do
Brasil, “Coleção Grandes Estudos Brasilienses”, Editora Brasiliense, São Paulo, 1949.332
pgs. Escrito especialmente para o Fundo de Cultura Econômica, México, este livro do grande
sociólogo e historiador paulista, foi publicado no Brasil em 1945, reaparecendo agora, em 2ª
edição, aumentado de um capítulo, “A guerra e suas conseqüências”, no qual o autor faz uma
análise do que representou para nós a Segunda Guerra Mundial, com o agravamento de nossas
precárias condições de vida e, consequentemente, aprofundamento da crise econômica em que
nos estamos debatendo. Preenchendo um importante claro na literatura econômica do Brasil,
cuja bibliografia é escassa em qualidade e, pode-se dizer, inexistente no que se refere à
interpretação histórica. Caio Prado Júnior realizou uma obra de consulta obrigatória para
todos aqueles que pretendiam conhecer algo sobre o nosso desenvolvimento. História
econômica do Brasil é o primeiro sério e profundo estudo da nossa evolução econômica,
elaborado por um pesquisador honesto que, munido de um instrumento científico de análise e
de crítica – a dialética materialista – soube realmente fazer história, entendida esta, não como
480
simples relato de acontecimentos ou fatos, onde apenas se respeita a ordem cronológica, mas,
como paciente trabalho de investigação e interpretação dinâmica de fatos, estudando-os nas
suas relações recíprocas. Tal é o livro de Caio Prado Júnior, importante fonte para o
conhecimento do Brasil.
42.9. A primeira entrevista
tr
Otto Maria Carpeaux é um nome amplamente conhecido no Brasil. Austríaco evadido do
nazismo, hoje naturalizado brasileiro, há oito anos apareceu no jornalismo carioca
apresentado por Álvaro Lins. Aqui fixou residência, passando a colaborar assiduamente nos
suplementos literários e a estudar a nossa literatura, que hoje conhece como poucos. Embora
as opiniões a seu respeito sejam de certo modo contraditórias, ninguém põe em dúvida a
cultura e erudição do autor de A missão européia da Aústria, cujo trabalho de divulgação e de
crítica tem sido dos mais apreciáveis. A excessiva densidade dos seus trabalhos foi, inclusive,
tomada como uma atitude exibicionista. Essa opinião, todavia, não parece estar de acordo
com o verdadeiro Carpeaux que jamais havia concedido uma entrevista ou deixado fotografar
pelos repórteres curiosos. Esse encantamento foi, agora, quebrado com a entrevista que
Homero Senna vem de divulgar na Revista do Globo, n. 483, na qual Carpeaux fala sobre
vários problemas, sobre sua vida na Europa, sua atitude e suas convicções. Confessando-se
influenciado pelas leituras de Hegel, Marx e Croce, e acreditando na “inevitabilidade do
socialismo”, diz Carpeaux na sua primeira entrevista:
“Estudei em Viena e em outras universidades européias. Poucos sabem que, antes de
estudar letras, estudei, até o fim, Matemática, Química e Física. Nunca me aproveitei
praticamente desses estudos. Mas ai aprendi algo do método e precisão de pensar, o que é
vantajoso no mundo sempre vago das Letras.”
42.10. Flagrantes
Res
-
Coleção Saraiva lançou Emílio de Menezes, “o último boêmio”, de Raimundo de
Menezes.
- A Melhoramentos, de São Paulo, publicou O neto dos reis, de Franz Treller.
- Gustavo de Freitas estréia no romance com Fogos dos pântanos, cuja ação se passa no
agreste pernambucano.
- Cogumelos de Breno Accioly, livro de contos, sairá em agosto.
- Lançado novo volume de contos de Lygia Fagundes Telles, O cacto vermelho.
- Serão lançados pela Coleção Homens do Brasil: História da vida de Joaquim Nabuco, de
José Montello e, uma biografia de João Simões Lopes [Neto] por Augusto Mayer.
- Posteriormente Moacyr Félix de Oliveira, porá em circulação, Canto do homem só, novo
livro de versos.
- Cláudio de Araújo Lima traduziu o notável estudo de Emylio Myra y Lopes, Os quatro
gigantes da alma.
43. Data
13/08/49;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
43.1. Contos da Bahia
Tr
Dentro de pouco tempo, começará a ser impresso um novo livro de contos de Vasconcelos
Maia, jovem escritor baiano cuja a estréia com Força da vida, contos, Edições Elo, Bahia,
1946, foi uma das mais promissoras revelações da nova literatura baiana. E se antes já era
colaborador de suplementos e revistas literárias, passou Vasconcelos Maia a neles colaborar
com mais assiduidade, despertando na crítica e no público atenção fora do comum. Lobato, ao
ler seu livro, não escondeu o entusiasmo que lhe motivaram certos contos ali publicados,
enviando ao jovem escritor uma carta de incentivo e aplauso, por todos os títulos honrosa.
Autêntica vocação de narrador, longe de se deixar dominar pela vaidade estéril tão do agrado
dos falsos valores, após uma estréia feliz, Vasconcelos Maia põe-se ao trabalho e ao estudo. E
seu novo livro é um resultante desse interesse crescente pela arte de contar.
Nele, aparece-nos um contista mais experiente, mais seguro de sua técnica, fugindo à
sugestão fácil e esquemática, por isso mesmo, desmoralizada, do conto tradicional. Com
magníficas ilustrações de Carlos Bastos, Contos da Bahia, a ser lançado este ano, será mais
uma edição de Cadernos da Bahia, revista de cultura e divulgação da nova geração baiana,
que tanto sucesso vem obtendo em todo país.
43.2. Atividades do INL
res
Sobre as atividades do Instituto Nacional do Livro, o qual criou um Serviço de Assistência
Regional às bibliotecas diretamente beneficiadas por ele; tendo sido indicado para diretor
desse serviço, na Bahia, o dr. Osvaldo Imbassahy.
43.3. Síntese de Ruy
Tr
Archimino Ornelas concluiu o trabalho que vinha fazendo a alguns meses e o lançará
dentro em pouco. Trata-se de um estudo sobre Ruy Barbosa, com o qual o autor de Caminhos
do mundo e Vida sentimental de Castro Alves pretende render uma homenagem ao centenário
do ilustre baiano. Archimino Ornelas pertence à moderna geração de intelectuais, faz parte da
Comissão Organizadora do II Congresso Nacional de Escritores e, como colaborador da
secção literária de A Tarde, tem escrito artigos nos quais deixa patente a sua capacidade de
observação e seu poder de síntese. Tais qualidades fazem com que o público aguarde com
ansiedade seu estudo sobre Ruy Barbosa, que certamente será mais uma afirmação de sua
inteligência e de seu talento de escritor.
482
43.4. Descobrimento
Tr
A Bahia é um mundo inesgotável de sugestões. Os artistas, quais sejam as suas
especialidades, sempre encontram na velha cidade do Salvador excelentes temas para as suas
obras. Em cada canto, em cada coisa, há um motivo a ferir a sensibilidade do artista, como a
chamá-lo para a realização, para o trabalho. Foi esse ambiente, impregnado de poesia, que
Carlos Eduardo soube captar e transmitir no seu novo livro, Descobrimento, a primeira de
uma série de edições que Caderno da Bahia pretende lançar. Com capa e ilustrações de
Carlos Bastos, o livro de Carlos Eduardo constitui uma das melhores edições feitas na Bahia,
nos últimos tempos, sendo a sua apresentação gráfica digna de referência. E se o autor de Este
rumor que vai crescendo está de parabéns, por mais essa afirmação de sua poesia- simples
porém sugestiva e cheia de ritmo- Caderno da Bahia, revista que vem se impondo no
panorama literário nacional, merece louvores pelo trabalho que agora apresenta ao público,
sendo de esperar que suas próximas edições se façam dentro do mesmo critério, ou seja,
cuidado na escolha e bom gosto na apresentação.
43.5. Depoimento
Tr
Nelson Werneck Sodré, analisando o chamado movimento post-modernista, escreveu, em
Literatura, n.2:
“Uma literatura só pode aparecer com seus contornos bem presos, com fisionomia
autônoma, quando se liga ao que há de peculiar na gente e na época em que se desenvolve.
Nesse sentido, a bem dizer, a literatura brasileira começou em 1930- tudo o que ficou para
trás é uma espécie de proto-história, confusa, desordenada, com valores isolados a que é
necessário recorrer, sem dúvida, porém que, em conjunto, muito pouco representa, sendo a
mais demorada gestação, a lentíssima preparação ao que fizemos depois do marco aqui
estabelecido para definir o post-modernismo”.
43.6. Prêmios franceses
Res
- Foram premiados com o prêmio anual da Associação da Imprensa Latina da Europa e da
América: Hervé Bazin, com la tete contre les murs; Monsieur Richard e Henri David com
Teux de plomb.
- A Academia Francesa conferiu a Jules Roy o “Prêmio Max Berthou” pelo livro Lies metier
des armes e a Jean Bannerot o prêmio “Louis Barthou”.
- Gustavo de Freitas, escritor pernambucano, estréia com Fogos dos pântanos.
43.7. Flagrantes
Res
-
Publicado em Londres, por S. Evelgr Thomas, Princess Elizabeth wife and Mother.
Selecionada e editada por B. G. Guerney, em Londres A treasury of russain literature.
A ser publicada pela Revista Branca, Vigília da noite de Raymundo Souza Dantas.
-
Será lançado novo livro de Augusto Frederico Schimidt, Fonte invisível.
De Lin Yutang, será lançado pela editora Hainemann, de Londres, Chinatown family.
André Maurois informou que leu 120 livros sobre Marcel Proust para escrever A la
recherche de Marcel Proust.
Estreará com Elegia de sangue, o jovem poeta Da Costa e Silva Filho.
Será traduzido para o português La pest e de Albert Camus.
Foi lançada A casa das 3 meninas, livro de contos do mineiro Mário Matos.
Aparece de B. for Evans, em Londres em nova edição A short history of english literature.
43.8. Revista Branca (caricatura de um dos citados)
trans
Nas nossas livrarias o número 7 da Revista Branca, a bem apresenta a publicação literária
dirigida pelo grupo dos novos à cuja frente se encontra o contista Saldanha Coelho. Nesta
edição, ilustrada por Alcélio, Orval, Illen Kerr e Sorosen, além de boas reproduções de
quadros e esculturas, há colaborações de Bráulio Nascimento, Saldanha Coelho, Afonso Félix
de Souza, Pedro Luiz Morais, Rocha Filho, Mauro Mota, Paulo Armando, George Matos, Da
Costa e Silva Filho, Haroldo Bruno, Constantino Paleólogo, José Conde, Herberto Sales,
Beatriz Rocha, Renato Jobim, Nataniel Dantas, Renato Linhares, Alzira Ferreira de Coimbra,
Flávia da Silveira Lobo, Maurílio Bruno, Gasparino Damata e secções de registro crítico e
bibliográfico e uma entrevista com John Lehmann.
43.9. Notícias de Gallegos
Res
Romulo Gallegos (Caracas, 1884) cuja ação democrática à frente do governo da
Venezuela, contrariando os interesses do truste petrolífero da Standard Oil, declarou à
imprensa que fixará residência no México, dedicando-se exclusivamente à literatura. (Segue
com informações biobibliográficas do mesmo).
43.10. Mann em Weimar
Res
Thomas Mann foi à Alemanha, sua pátria, receber em Frankfurt e em Weimar o Prêmio
Goethe de 1949. Foi recebido com honras por figuras de destaque da política local.
43.11.Cartaz de James Hilton
Res
Sobre o esquecimento por parte dos meios de comunicação do escritor James Hilton, autor
do famoso Lost Horizon. Mesmo em face à edição de mais uma novela sua, So well
remembered, as revistas literárias não dão maior destaque.
484
44. Data
27/08/49;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
44.1. Variações
tr
Bem fácil será ao leitor identificar Domingos Carvalho da Silva (São Paulo, 1915 -...),
bacharel em Direito, jornalista e poeta, seu nome figura freqüentemente nas colunas do
Correio Paulistano e do Jornal de Notícias, e seus dois livros já publicados, Bem-amada
Ifigênia (1943) e Rosa extinta (1945), deram-lhe prestígio literário e, segundo Antônio
Cândido, “uma irrecusável procedência” sobre os outros poetas aparecidos em São Paulo, nos
últimos anos. Traduziu os 20 poemas de amor e uma canção desesperada, de Neruda, e ainda
publicará Praia oculta, já no prelo. Articulista político muito acatado pelo equilíbrio de suas
opiniões, escreveu um artigo para o Jornal de Notícias, edição de 7-8-49, no qual, procura
com êxito, traçar o panorama político nacional, mostrando como, nos diversos setores de
atividades, as forças revolucionárias tentam ganhar posição para a “Reabilitação da ditadura”,
título do artigo. Dele é que retiramos o trecho que abaixo vai transcrito, a respeito da ABDE e
do Congresso de Escritores, trecho esse que traz muita luz sobre o assunto, refutando certas
explorações daqueles que Domingos Carvalho da Silva, muito acertadamente, denominou os
“inocentes úteis da relação integralista” ou “fina flor do fascismo intelectual do país”:
“Veja-se o que aconteceu recentemente na Associação Brasileira de Escritores do Distrito
Federal: duas chapas concorreram, uma presidida pelo udenista Afonso Arinos de Melo
Franco, outra pelo socialista Homero Pires. Vitoriosa a chapa do sr. Afonso Arinos, não se
sentiram, porém, os seus integrantes, com disposição ou com tempo para cumprir suas
promessas. Saíram então em massa da A.B.D.E., alegando que a mesma estava infiltrada
pelos comunistas.
Esperavam os dissidentes da A.B.D.E carioca que os acompanhassem as secções estaduais
daquela associação. No entanto, tomaram quase sozinhos o bonde errado: apenas a
inexpressiva A.B.D.E de Santa Catarina os prestigiou. A de São Paulo, presidida pelo sr.
Sérgio Millet, nem sequer tomou conhecimento do manifesto assinado pela fina flor do
fascismo intelectual do país e pelos liberais transformados em inocentes úteis da reação
integralista.
Fracassado o movimento divisionista e gorada a nova associação prometida no manifesto,
voltaram-se os dissidentes contra a realização do III Congresso Brasileiro de Escritores, a ser
promovido pela secção baiana da A.B.D.E. A técnica de luta é a mesma: denúncia política.
Numa linguagem que nos faz lembrar a imprensa de Franco ou Mussolini, certos escritores,
por meio de alguns jornais baianos, estão se servindo de uma argumentação que repugnaria o
sr. Felinto Muller em 1938, para evitar que o congresso se realize.
Ora, em 1947 houve em Belo Horizonte um congresso. Lá compareceu uma poderosa
corrente comunista. E os comunistas foram derrotados, sempre que algumas de suas propostas
ou atitudes feriam os pontos de vista da maioria democrática. A representação de São Paulo que tive a honra de integrar - distinguiu-se na sua posição contrária ao P.C.B., enquanto
muitos atuais signatários do manifesto cortejaram a bancada vermelha.
É uma lástima que o regime de delação seja reinstaurado no país exatamente por aqueles
que deveriam defender a liberdade de pensamento e de ação política”.
44.2. A grande voz
Res
O poeta e senador Pablo Neruda acusou a embaixada britânica de “boicote ilegal”, devido ao
fato da mesma, recusar um simples visto de trânsito em seu passaporte por ocasião de sua
passagem em Londres.
44.3. Aconteceram-lhe os poemas
Tr
Manuel Bandeira (Pernambuco, 1886-...) é considerado por grande parte dos críticos e do
público como o maior poeta vivo do Brasil. Da Academia Brasileira de Letras, professor da F.
Nacional de Filosofia, onde leciona Literaturas Hispano-Americanas, é hoje um nome por
demais conhecido e respeitado, sendo, na realidade, um dos nossos mais autênticos poetas.
Arquiteto frustrado, e a arquitetura, segundo ele próprio, não parecia ser a sua vocação, pois
vocação - ele mesmo acrescenta - foi coisa que infelizmente nunca teve. Bandeira ligou-se
definitivamente à poesia, graças a doença que o levou a procurar inclusive a Suíça, onde
conheceu Eluard, um dos maiores poetas da França. Falando, recentemente, a Homero Senna,
numa entrevista publicada pela Revista do Globo, a respeito de como escreve seus poemas,
disse Bandeira:
“Acontecem-me os poemas inesperadamente. De tal modo que a minha impressão a posteriori
é que não fiz o poema: ele é que se fez em mim. Mesmo o que parece mais composto. Assim,
“A última canção do beco”. Repare que são sete estrofes, cada estrofe de sete versos, cada
verso de sete sílabas. Não houve em mim intenção de fazer assim, e só dei conta disso depois
de escrito o poema.”
44.4. Gide candidato
Res
André Gide será um dos candidatos à “Medalha Goethe”, por ocasião das festas
comemorativas do bi-centenário do nascimento de Goethe.
44.5. Antologia de contos
trans
Anunciada há alguns meses, foi lançada no Rio, esta semana, uma Antologia de contos de
escritores novos do Brasil, edição da Revista Branca prefaciada por Otto Maria Carpeaux, e
com xilografuras de Yllen Kerr, essa Antologia apresenta contos dos seguintes escritores:
Almeida Fiscker, Aluízio Medeiros, Aníbal Nunes Pires, Bernardo Gersen, Braga
Montenegro, Breno Accioly, Carlos Castelo Branco, Cláudio Tavares Barbosa, Cleia
Malheiros, Constantino Paleologo, Da Costa e Silva Filho, Dirceu Quintanilha, Domingos
Félix de Souza, Eduardo Campos, Fran Martins, Francisco Brasileiro, Gasparino Damata,
Gastão de Holanda, Herberto Sales, Herly Drummond, Ibrahim Abi-Ackell, J. C. Cavalcanti
Borges, José Conde, José Stênio Lopes, Lêdo Ivo, Linnêo Séllos, Lygia Fagundes Teles,
Marcos Rei, Mário Donato, Moreira Campos, Murilo Rubião, Nataniel Dantas, Pedro Luiz
486
Morais, Raymundo Souza Dantas, Renato Sérgio, Jobim, Roland Corbosier, Saldanha
Coelho,, Vasconcelos Maia e Xavier Placer.
44.6. Depoimento
Tr
No início de uma apreciação crítica que fez à representação de Bodas de sangue, de Lorca,
por Dulcina e Odilon, Álvaro Lins escreveu, a propósito do grande poeta espanhol:
“Em 1936, nos primeiros dias da reação, os fascistas do “Caudilho” Franco assassinaram
Frederico Garcia Lorca em Granada, em “Su Granada”. Foi um dos primeiros atos do
franquismo, e serviu como aviso de que o movimento nacionalista espanhol seria uma
sucessão de crimes. Do ponto de vista literário e artístico, trouxe para o nome de Garcia Lorca
uma glória imediata e universal; ampliou, pelo sentimento, a zona de influência na arte
dramática de vários países. Mas, está claro, o seu martírio em nada exagerou o que se vem
julgando da sua obra, e seria diminuí-lo, quando nos achamos no plano da apreciação literária,
aplaudir o homem sacrificado em lugar do artista admirável que ele foi. O artista, na verdade,
era tão grande em Garcia Lorca, que de nenhum acontecimento exterior poderia depender o
destino do seu teatro.”
44.7. Publicações da Prefeitura de Salvador
trans
Como parte do Programa Comemorativo do Quarto Centenário da Fundação da Cidade de
Ssalvador, a prefeitura municipal fez publicar e está divulgando várias obras de caráter
histórico e outras de informações turísticas das quais, gentilmente, nos enviou as seguintes –
História da literatura baiana, Pero Calmon, vol II da “Coleção evolução histórica da Cidade
do Salvador”; História política e administrativa da Cidade de Salvador, Afonso Ruy, vol I da
“Coleção evolução histórica da Cidade do Salvador”; Documentos históricos do Arquivo
Municipal, vols 2 e 3; Breves informações turísticas; Pequeno guia turístico da Bahia;
Situação físico-demográfica, 1949; e Imagens da Bahia.
44.8. Flagrantes
res
-
Lançamento de Histórias talvez de Guilherme de Almeida pela Melhoramentos, de São
Paulo.
Em circulação o 1º n. de Temário, revista dirigida por Reginaldo Guimarães e o poeta
Solano Trindade.
Publicação de Biosofia do sr. Pedro Deodato de Morais.
Será publicado o primeiro livro de Mauro Mota, poeta pernambucano, Elegia e outros
poemas.
Fundado na França “Le courrier Balzacien”, mosaico destinado a divulgar a vida e a obra
de Balzac.
44.9. Jornal de Letras
(c/fotografia)
trans
Sob a direção dos irmãos Condé, José, José e Elyseo, está circulando mais um mensário de
literatura e de artes, Jornal das Letras, que se edita na Capital Federal. É uma as melhores
iniciativas levadas a efeito ultimamente no país, pelo que representa de contribuição ao
movimento artístico nacional, onde já figuram excelentes revistas como Fundamentos, Clã,
Caderno da Bahia, Revista Branca e outras. O número de Jornal das Letras, traz, entre
diversas matérias, um artigo de Otto Maria Carpeaux sobre Camus, de Gilberto Amado sobre
Goethe, de Carolina Giedion-Weicker sobre Joyce, de Paulo Ronái sobre Balzac, uma novela
inédita de Gasparino Damata, parte das memórias de Afrânio Peixoto, uma entrevista de
Álvaro Lins sobre o seu afastamento da crítica militante, além de várias secções redacionais,
sobre cinema, teatro, artes plásticas e curiosidades literárias. Fartamente ilustrada e com uma
boa apresentação gráfica, Jornal das Letras é uma publicação de consulta obrigatória no
cenário de Literatura Brasileira.
44.10. Festival G.B. Shaw
(c/fotografia)
res
Sobre o festival dramático a ser realizado em Malven em homenagem a G.B. Shaw. Com
a representação várias peças do autor.
44.11. Os filhos do medo
(c/fotografia)
Tr
Quando Amadeus Queiroz descobriu para a literatura brasileira o nome da paulista Ruth
Guimarães, talvez não soubesse, ele mesmo, que estava contribuindo para uma das mais
promissoras estréias do romance nacional e para o lançamento de uma das nossas maiores
escritoras. Com Água Funda, Livraria do Globo, vol. 01 da Coleção Autores Brasileiros, já
em segunda edição, Ruth Guimarães realizou uma obra fora do esquematismo que tanto
agrada a certos de nossos autores, passando seu nome a ser objeto de viva curiosidade.
Continuando a trabalhar e estudar – pois é aluna da Faculdade de Filosofia de São Paulo,
funcionária do IPASE e assídua colaboradora da imprensa – a jovem romancista e grande
estudiosa do folclore preparou seu segundo romance, Os filhos do medo, que vai ser editado
pela livraria do Globo.
44.12. Terra morta
Tr
Iniciando a Coleção Gaivota, a Editora da Casa do Estudante do Brasil lançou o romance
Terra morta, no qual o autor, Castro Soromenho, pinta a vida de Angola e fixa com
propriedade e vigor a triste condição não só dos negros e dos mulatos como de muitos brancos
daquela colônia.
488
O crítico Adolfo Casais Monteiro apontando essa como a melhor obra daquele romancista
acentua que pela primeira vez um romance português desse gênero se nos impõe como de
categoria universal.
Deve-se essa publicação no Brasil, ao fato de haver o governo de Salazar proibido a edição
em Portugal.
45. Data
17/09/49;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
45.1. (sem título)
(c/fotografia)
Tr
O segredo da atualidade de Balzac está no fato de ter sido ele, apesar de sua formação
absolutamente fiel ao seu tempo. Foi o escritor que mais fundamente, compreendeu a
conjuntura social de sua época, e a sua obra monumental mostra e analisa de modo impiedoso
as contradições da sociedade francesa, explicando-as principalmente pelos interesses
materiais em jogo. Nisso é que deve ser procurada a chave da perenidade de sua obra. São
esses interesses materiais as forças que realmente movimentam a História, e delas é que se
originam, direta ou indiretamente, os dramas que servem de tema aos escritores. E grande
escritor será aquele que, como Shakespeare, Goethe, Cervantes e outros, saibam ver e dissecar
a realidade, descendo ao fundo de sua origem, para mostrá-la em todo o seu esplendor ou em
toda a sua miséria, sem as interpretações de superfície que a deturpam e falseiam. E a
Comédia Humana, de Balzac, outra coisa não é senão a compreensão conseqüente de uma
sociedade cheia de erros e de contradições incapaz de solucionar os grandes problemas
surgidos no curso da história do homem e por ela mesma tremendamente agravados.
Trabalhando sem parar,, de 14 a 16 horas por dia, a fim de saldar os compromissos, as
dívidas, Balzac construiu uma obra que perdura e há de perdurar, pelos autênticos valores
sociais e humanos que contêm. E se dos seus contemporâneos recebeu acerbas e impiedosas
críticas – tão impiedosas e acerbas como as suas próprias à sociedade em que vivia – tem
recebido da posteridade e compreensão e a consagração de que se fez credor. Daí a
oportunidade da publicação no Brasil, da Comédia Humana, que a Livraria do Globo, sob a
direção e orientação de Paulo Rónai, vem fazendo na sua “Biblioteca dos Séculos”.
Compreendendo o plano geral da obra 17 volumes, surge agora, após a edição dos 3
primeiros, o 4º volume, no qual estão O Pai Goriot, romance que é um dos pontos altos da
obra de Balzac, as novelas o Coronel Chabert, A interdição, O contrato de casamento e outro
estudo de mulher e o conto A missa do ateu, traduzido por Gomes da Silveira, Vidal de
Oliveira e Berenice Xavier, e, além das notas explicativas e dos seis prefácios de Paulo Rónai,
dos estudos sobre Balzac, um de Anatole France e outro de Fernand Baldeuspager, professor
da Sorbone e um grande especialista em literatura comparada. Sobre O Pai Goriot, a última
palavra ainda cabe a Balzac, que o considera uma obra prima. Em célebre carta à Condessa de
Hanska, escreveu Balzac: “O Pai Goriot é uma obra bela, porém monstruosamente triste. Era
preciso, para ser completo, mostrar um esgoto moral de Paris e este dá impressão de uma
chaga nojenta”. E tão bela, triste e grande é essa obra, que ainda hoje serve de estudo
obrigatório para os alunos de certos países, como na URSS. Acusada de imoral pelos críticos
da época dado o caráter do amor de Goriot pelas filhas, e a certos detalhes das relações
familiares, ela está hoje situada como um dos grandes momentos de Comédia Humana, não
apenas pela técnica com que foi construída, mas, sobretudo, pelo seu alto conteúdo dramático.
45.2. Paratodos
(c/fotografia)
Tr
A mais auspiciosa notícia que nos manda a metrópole, é o reaparecimento de Paratodos,
aquele excelente semanário que Álvaro Moreyra fundou e dirigiu, há alguns anos. Nessa sua
nova fase, Paratiodos, além da valiosa direção de Álvaro Moreyra, contará com um excelente
corpo de redatores e colaboradores, no qual figuram nomes como Edison Carneiro, A Ramos,
Graciliano Ramos, Dalcídio Jurandir e outros. Revista que marcou época, quando do seu
anterior aparecimento, Paratodos está fadada ao maior sucesso, nessa hora em que a literatura
brasileira se renova e se enriquece na busca de novos e maiores progressistas rumos, sendo de
esperar que forme a vanguarda das centenas de publicações especializadas, com que hoje
conta o nosso movimento literário.
45.3. Em surdina
(c/fotografia)
Tr
Continua a Coleção Saraiva a cumprir o seu bom programa editorial, do qual consta a
divulgação mensal, a preço módico, de livro de autores nacionais e estrangeiros. Essa coleção,
apresenta, agora, o seu 15º volume, o romance Em surdina, de Lúcia Miguel Pereira, cujo
aparecimento data de 1933 e que mereceu da crítica nacional elogiosos comentários, inclusive
de Grieco, que viu na autora uma das nossas boas romancistas. Sobre Lúcia Miguel Pereira
nada é necessário dizer, tão conhecida ela é do público, como ensaísta, romancista e biografa.
A respeito do seu romance Em surdina, que narra a vida e o desmoronamento de uma família,
basta reproduzir o que a própria autora escreveu para essa nova edição (os editores não fazem
qualquer referência ao número da edição, que parece ser a segunda):
“relendo agora este livro, escrito há 17 anos, achei-o muito distante da visão que hoje
tenho do mundo. Se o fosse corrigir, talvez em grande parte o alterasse. Não o fiz porque não
o renego: tal como está, corresponde ao que um dia pensei. Limitei-me por isso a contar-lhe
os excessos próprios da inexperiência de autora noviça. Veja-se nele uma tentativa de
reproduzir a vida de família em tempo que embora não muito remoto, parece todavia bastante
antigo. A rapidez com que tudo mudou conferiu-lhe um inesperado valor documental. Oxalá,
possa, sob esse aspecto, interessar os leitores.”
45.4. Joyce e Dublin
(c/fotografia)
Tr
Patrícia Hutchins reuniu num curioso livro algumas interessantes opiniões de Joyce sobre
sua terra natal, Dublin, inclusive trechos de artigos do autor de Retrato do artista quando era
jovem, publicado na revista do Trinity College, dando a esse livro o título de Joyce`s dublin.
490
Publicado pela Grey Walls Press essa coletânea é uma boa fonte para o estudo de James
Joyce, autor que tantas discussões motivou, pela complexidade de Ulysses, o mais famoso de
seus livros
45.5. O deserto e os números
Tr
Edson Reis, diretor de “Correio das artes”, suplemento literário de “A União”, de João
Pessoa, lançou um livro de poesia, O deserto e os números. Nesse volume que traz capa e
ilustração de Yllen Kerr, estão reunidos 32 poemas do autor, cujo nome é bastante conhecido
nos círculos literários, principalmente nos de Recife, onde as revistas e os suplementos
encontram em Edson Regis um dos bons colaboradores. O deserto e os números é um
lançamento da Revista Orfeu que nos promete edições especiais sobre Fernando Pessoa,
Murilo Mendes, Cecília Meireles e outros.
45.6. Depoimento
Tr
O poeta Wilson Rocha, num artigo sobre conceito e função da poesia, escreveu:
“É claro que, sendo a poesia ligada continuamente à vida em todos os seus movimentos,
haja, sem dúvida, períodos menos favoráveis à sua criação. Todavia, em tais períodos de
debilidade ou declínio da produção poética, é evidente que tal fenômeno não é devido às fontes
de onde brota a poesia sem a responsabilidade é da poesia em si, mas do meio e da época. Se a
decadência da sociedade burguesa se afigura pobre ou vazia, mais pobre e vazio pareceria o
poeta burguês que não pressentiu ou fingiu não sentir essa decadência”.
45.7. Vitrina da jovem literatura
Tr
No panorama da jovem literatura brasileira, tornou-se prova que as revistas literárias não
restringem suas atividades, apenas, à circulação periódica, mas realizem empreendimentos
outros, como exposições de arte e edição das obras daqueles escritores que pertençam aos seus
grupos. Esse amplo programa tem como principal objetivo a luta contra o “papismo”da
metrópole, as províncias procurando uma certa independência em relação àquela,
principalmente no que diz respeito à edição de livros. E a verdade é que alguma coisa as
províncias têm conseguido. Prova disso é o movimento literário de norte a sul do país,
desordenado aqui ou irresponsável ali, mas, como quer que seja, um movimento que já
possibilitou e há de possibilitar ainda mais o aparecimento de excelentes publicações de arte, e
de cultura, bem como o surgimento de novos valores para o enriquecimento de nossas letras.
Aqui mesmo, o grupo de Caderno DA Bahia vem cumprindo o seu programa com um alto
critério de honestidade artística. Se o Caderno é, por si mesmo, uma grande realização num
meio reconhecidamente hostil e as referências elogiosas que lhe têm feito publicações de todo
o país e mesmo do estrangeiro representam uma consagração invejável – suas outras
atividades, como a organização de exposições de arte e lançamento de livros de escritores
modernos, não ficam atrás em significação e valor. Em outros estados, o mesmo ocorre. E para
que o nosso público tomasse maior contato com esse movimento de renovação artística, foi
que a Unidade e Caderno da Bahia organizaram, na livraria Civilização Brasileira, uma
vitrina da jovem literatura, na qual estão expostas com as respectivas direção e endereço,
várias dezenas de revistas e algumas de suas edições mais recentes. O interesse que está à
mostra tem despertado no público é o melhor elogio que pode e deve ser feito aos seus
promotores.
45.8. Flagrantes
Tr
- Lançado pela Editora Nacional o volume 2 de A segunda guerra mundial, de Winston
Churchil, numa tradução de Breno Silveira, Thomaz Newlands e Leônidas Gontijo de
Carvalho. Esse segundo tomo, que é o volume 48-A, série 3, da Biblioteca do Espírito
Moderno, está dividido em duas partes: “A queda da França” e “Sosinhos”.
- Em circulação o n. 11 de Região, do Recife, com colaboração de Gasparino Damata, Otto
Maria Carpeaux, Gilberto Freyre Costa, Carlos Davi, Murilo Mendes e outros.
- Está sendo preparado o n. 3 de Cultura, revista do Centro de Estudo da Faculdade de
Filosofia.
45.9. Notícia de Lins do Rego
(c/ fotografia)
Tr
Escreveu o sr. Zelins do Rego, não faz muito, uma de suas tremendas crônicas diárias para
um jornal carioca, a respeito de Joseph Burnichon, escritor francês que visitou o Brasil em
1907.
Procurando mostrar a mediocridade desse escritor, disse o autor de Cangaceiros – romance
que ainda vai ser ou está sendo escrito: “Ele (Burnichon) chegou até aos versos bem fracos,
para nos louvar. A lira de Burnichon é bem mais vulgar que seus instrumentos de prosa. Mas,
não fica mal transcrever a sua tentativa de poemas economiástico:
C’est um pays splendide
Que cette terre de Tupã,
Depuis l’Amazone jusqu’au Rio de la Plata
Do Rio Grande jusqu’au Pará
Il a dês chaines de montagnes giantes
Et dês forêts profondes
Qui retentissent perpetuellement
Des chants du sabia”
Acontece que ainda há quem leia as crônicas do sr. Zelins. E um desses pacientes e
teimosos leitores escreveu para um suplemento literário do Rio, mostrando que os versos
fracos de Burnichon, citados pelo cronista Zélins, não são outra coisa que os versos célebres
de Casimiro de Abreu, que aqui vão reproduzidos para o necessário cotejo:
“É um país majestoso
Essa terra de Tupã,
Desde o Amazonas ao Prata,
Do Rio grande ao Pará!
- Tem serranias gigantes
E tem bosques verdejantes
Que repetem incessantes
Os cantos do sabiá”
492
45.10. Boletim da ABDE
Tr
Em sua primeira reunião, logo após a posse, a diretoria da secção nacional da ABDE, sob a
presidência do prof. Homero Pires aprovou o lançamento de um manifesto – programa do qual
consta um plano de trabalho, com os 12 seguintes pontos: 1- Preparação do III Congresso
Brasileiro de Escritores. 2-Constituição do Conselho nacional da ABDE, de acordo com os
nossos Estatutos. 3- Publicação de uma revista de cultura, que se torne um órgão dos
intelectuais brasileiros em geral; 4-Publicação de um boletim informativo, que interesse a
todas as secções de ABDE e, bem assim, ao movimento editorial e bibliográfico do país; 5Instituição de prêmios e concursos literários e científicos; 6-Realização de uma série de
conferências no Rio e nos estados com entradas pagas, devendo o seu produto líquido reverter
em benefício dos corpos sociais da secção local onde se realizarem, pagando-se aos seus
autores os direitos previamente estabelecidos; 7- Patrocínio, junto às casas editoriais existentes
no país, de edições de obras de escritores que ainda não tenham publicado qualquer livro; 8Organização de um serviço de “copyright” de âmbito nacional; 9- Criação de uma biblioteca
volante para os sócios, composta de obras básicas de estudo e consulta; 10- Estudo definitivo,
por meio de uma comissão especial, da questão dos direitos autorais, tendo em vista o material
recolhido pelo II Congresso Brasileiro de Escritores; 11- Início de intensificação de relações
com as associações congêneres do exterior; e 12- Reforma dos estatutos.
Desses pontos, alguns já foram cumpridos, outros estão em andamento e impossível será
que uma só diretoria possa cumpri-lo inteiramente, como bem salienta o citado manifesto. E
um dos pontos já postos em prática, é a publicação do primeiro número do boletim mensal,
referente ao mês de agosto, o qual traz um bom material informativo.
45.11. Novela de Brophy
(c/ fotografia)
Tr
John Brophy é um escritor inglês já bastante conhecido, como autor de Sarah, Gentle man
of straford e outros livros. Agora, Brophy lança sua mais recente novela, Julian’s way, escrita
na Palestina, durante o último período do mandato britânico. A novela de John Brophy foi
lançada pela Collins de Londres, e compreendem 384 páginas de uma artística edição.
45.12. Livro das Sinfonias
(c/ fotografia)
Tr
A Editora Globo vem apresentando bons livros de informação sobre os mais variados
assuntos da vida humana, como é o caso de O livro das grandes sinfonias, de George Upton e
Felix Borowski, agora editado, numa tradução de E. Carrera Guerra, e revista e atualizada pelo
professor Luis Heitor. Esse livro explica o sentimento e o desenvolvimento de 70 grandes
sinfonias e 330 peças sinfônicas, de autoria de 96 famosos compositores, com disposição de
texto e índices que facilitam as consultas, contendo ainda uma nota de história e composição
das orquestras e um dicionário de termos musicais.
46. Data
08/10/49;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
46.1 Concurso Monteiro Lobato
res
Pelo fato de ter recebido cartas de leitores indagando sobre a vida e a obra de Monteiro
Lobato, Heron de Alencar, após comentar que há uma escassez de trabalhos críticos ou
interpretativos a esse respeito, afirma que o concurso lançado por Caleidoscópio busca
atender a curiosidade do público e a escassez de trabalhos. Dividido em duas seções, o
concurso abarca trabalhos de crianças e adultos, sendo que na primeira seção- das crianças-,
apresentar-se-ão trabalhos em equipe sobre a vida e a obra, por crianças de escolas públicas
e/ou particulares, e a segunda seção, por adultos, artigos sobre a literatura para crianças de
Lobato. Dentre os quesitos do regulamento, destacaram-se: os trabalhos poderiam abordar um
ou vários aspectos da vida ou da obra, analisar os personagens; preferências pelos trabalhos
com desenhos, caricaturas e manuais dos próprios alunos, os professores poderiam orientalos. A comissão dessa primeira seção foi formada por: Wilson Rocha, Walter da Silveira,
Adroaldo Ribeiro da Costa, J. Palma Neto e Luiz Henrique Dias Tavares. O prêmio: 1ºlugar coleção completa das obras de literatura de Lobato, com encadernação de luxo; 2ª - idem, em
edição popular; 3º - as escolas que enviassem trabalho receberiam um retrato em cores,
tamanho grande de Lobato; 4º - todas as crianças que participassem também receberiam uma
foto, tamanho reduzido. Para a segunda seção os artigos deveriam se assinados por
pseudônimo; a comissão julgadora foi composta por: Jorge Calmon, Maneca Pedreira, Silvio
valente, Adalmir da Cunha Miranda e o autor da seção; seriam seis os premiados, além da
publicação dos trabalhos, receberiam: 1º - coleção completa da literatura geral com
encadernação de luxo; 2º - idem, em brochura; 3º - seis livros; 4º - quatro livros; 5º - dois
livros e 6º - um livro.
46.2. Centenário da morte de Poe
res
Comenta o primeiro centenário da morte do norte-americano Edgar Allan Poe, autor de O
corvo, considerado um dos escritores que mais contribuíram para o tesouro literário mundial.
46.3. Superou a estréia
(c/ fotografia)
tr
Alina Paim, escritora baiana cujo livro de estréia, Estrada da liberdade, foi uma promessa
de melhores realizações, lançou agora seu segundo romance, Simão Dias, editado pela
Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil. Se, naquele, havia defeitos e as deficiências
eram acentuadas, embora o conjunto representasse uma estréia auspiciosa, nesta, a julgar
pelos depoimentos que sobre ele tem feito escritores e críticos, a autora superou aquelas
deficiências e corrigiu aqueles erros naturais da estréia. O próprio Graciliano Ramos, sempre
muito sóbrio e econômico nas palavras, disse, a respeito do Simão Dias, de Alina Paim: “As
494
suas personagens são criaturas que a fizeram padecer na infância ou lhe deram alguns
momentos de alegria em cidadezinhas do interior. Nenhum excesso de imaginação”.
Acentuando que no livro de Alina Paim os homens são vistos à distância e as mulheres
aparecem com intensidade e vigor, a exemplo da criança atormentada, a melhor criação da
autora e talvez ela própria, finaliza o “Major Graça”: “Vê-se bem que a romancista cochilou
nas orações compridas, trocou bilros nas almofadas e agüentou muito puxão de orelha. Foi
bem. Essas aventuras lhe fornecem hoje excelente material”.
46.4. Depoimento
tr
Escrevendo a Permínio Ásfora, a respeito de problemas de literatura, afirmou Octávio
Brandão, entre outras coisas:
“Há um realismo crítico e um realismo proletário, socialista. Uns tantos livros de escritores
brasileiros ainda não ultrapassaram a etapa do realismo crítico, inerente à época de Balzac e
Stendhal. No melhor dos casos, eles criticam a “realidade” atual, aspectos do semi-feudalismo
dominante, mas não vêem as causas reais nem indicam uma solução. Só mostram tipos
negativos e não apresentam uma única personalidade positiva, de combate, em luta contra o
velho, pela criação do novo. Há mais de 40 anos, no começo do nosso século, Máximo Gorki,
em A Mãe, já tinha ultrapassado essa etapa do realismo crítico e lançado os fundamentos do
realismo proletário, socialista.”
46.5. Flagrantes
res
-
Aníbal Machado está escrevendo uma novela e um volume de ensaios;
Lançado Dois amores em uma vida, da Srª Almeida Moniz, pela Brasiliense ltda;
O colar de esmeraldas, de Frances Sarah Moore, pela “Coleção Rosa”, da Saraiva;
Resenha Literária, nº 5, e Letras da Província, pela Livraria Popular.
46.6. Solidão nos campos
(c/ilustração)
res
Souza Dantas, jovem escritor sergipano, residindo no Rio, escreveu Solidão nos Campos,
romance editado pela Globo. Os suplementos cariocas consideraram-no como o romance mais
bem realizado de seus livros, conquistando lugar de destaque na ficção nacional. Ainda foi
autor de Um começo de vida, novela na qual relatou sua experiência de alfabetização tardia e
Sete palmos de terra.
46.6. Crítica humanística
res
Noticia o lançamento, pela livraria Martins, de Crítica humanística de autoria de Souza
Filho (1900-1948), jornalista paulista e dono de um espírito de boa formação filosófica. O
livro é uma reunião de seus rodapés de crítica publicados em A gazeta, de São Paulo. João
Batista de Souza Filho, falecido repentinamente, foi organizador e diretor da primeira escola
de Jornalismo, na qual exercia a cadeira de História das Artes.
46.8. (sem título)
(c/desenho)
res
Os Diários Associados, ao divulgar os pormenores da memória do assassinato de Euclides
da Cunha e de seu filho mais velho promovia uma “campanha de desrespeito” da figura do
escritor. A “novela” do coronel Dilermando de Assis, publicada naquele periódico, injuriava a
memória do autor. Intelectuais de São Paulo reagiram lançando um manifesto de repulsa pela
exploração pública das circunstâncias da tragédia. Manifestações à memória do autor de Os
Sertões, surgiram em outros pontos do país e Caleidoscópio manifestou solidariedade.
46.9. Nevoeiro inglês
(c/desenho)
res
O escritor inglês Graham Greene, além de ser um escritor confuso, foi incapaz de enxergar
a realidade de seu tempo. Em entrevista a Cecily Mackworth que formulou uma pergunta
sobre a sua posição de escritor até então considerado “romancista católico”, afirmou que a
literatura católica não existia, e disse que, em sua viagem ao México, pode amar a igreja
porque a viu “perseguida e vilipendiada”. O autor de O poder e a glória, livro que tem sua
ação desenrolada no México na época das perseguições religiosas, anunciou que pretendia
escrever um livro psicológico, seguindo, assim, um caminho já gasto e abandonado pelos
verdadeiros escritores, e que nenhuma contribuição traria ao homem, na sua luta diária por
uma vida melhor.
46.10. Mar morto
(c/fotografia)
tr
Pouco a pouco, com o conhecimento maior que vai adquirindo do Brasil e da América do
sul, cresce o interesse da Europa pela nossa literatura, interesse que se concentra nos nossos
mais representativos escritores, cujas melhores obras passam a ser traduzidas em vários
idiomas europeus. E sendo o romancista baiano Jorge Amado, realmente, um dos pontos altos
da ficção sul-americana, e tendo a sua longa permanência na Europa atraiu para si a atenção
dos círculos literários, natural seria que sua obra passasse a ser objeto de maior curiosidade
dos europeus. Como prova disso, chega-nos a notícia que uma editora parisiense já está
traduzindo o seu romance Mar morto, que será lançado em Francês este ano. Jorge Amado
encontra-se na Europa há mais de um ano, e a sua produção verdadeiramente literária tem
sido escassa dedicando-se mais artigos e panfletos políticos. Além de uma novela, O primeiro
dia de greve, já traduzida em quase toda a Europa, não se tem notícia de qualquer outro livro
seu, a não ser o plano de um teatrologia, sobre o movimento político de 30 anos aos nossos
dias.
496
47. Data
26/11/49;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
47.1. Variações sobre a história da praieira
Tr
Se é fato que não pode haver uma ciência social “imparcial”, numa sociedade fundada sob
a luta de classes, verdadeiro, do mesmo modo, é o fato de que a História, refletindo essa luta
através dos tempos, é sempre a defesa dessa ou daquela é sempre a História da classe em que
o historiador estiver colocado. No Brasil, até bem pouco tempo, somente existia uma espécie
de História, oficial ou oficiosa, que, defendendo ou enaltecendo os feitos dos diversos
governos, procurava ocultar ou diminuir a significação e importância daqueles
caracterizadamente populares, de que é exemplo a revolução praieira, tão pouco estudada pela
maior parte dos nossos historiadores. Acontecimento de grande significação histórica, nas
lutas do nosso povo pela sua libertação, a “praieira’ não tem merecido, na maioria das vezes,
mais do que umas poucas palavras de registro, quando na sua importância justificaria a
existência de uma imensa bibliografia sobre o seu conteúdo e os seus personagens centrais.
Mas, como foi dito acima, começa a aparecer a outra História. E a ele pertence esse oportuno
livro de Fernando Segismundo, História popular da Revolução Praieira, que obteve o Prêmio
único do Concurso da “Editorial Vitória” e foi ela editado, com capa e ilustrações de Renato
Silva. Escritor e jornalista de alta categoria, soube Fernando Segismundo estudar e analisar a
“praieira”, - as suas origens, seu desenvolvimento,a sua significação e as suas conseqüências,
- condensando tudo isso num precioso livro que é realmente história escrita para o povo, pois
nele o povo encontrará a verdadeira história de uma das suas mais gloriosas lutas contra a
escravidão. A “praieira” não foi, como se pretendeu fazer crer, uma luta de partidos políticos,
mas, uma luta de classes, antes um movimento social do que um movimento político, como
afirmou Nabuco. E isso, fundamentalmente, é o que nos mostra Fernando Segismundo, com a
sua maneira sóbria, porém, agradável e acessível de escrever para ser entendido. Autor que
nos deu, anteriormente, o ensaio, Castro Alves explicado ao povo, e recentemente premiado
pelo III Congresso Nacional de Jornalistas, com a tese “Cypriano Barata, jornalista político”,
Fernando Segismundo, pela exatidão de seu estilo e método, aliados a um justo conceito nas
afirmações e análises apresenta-se com o seu último trabalho, um escritor de primeira linha na
moderna literatura brasileira.
47.2. Tradução de Macbeth
(c/fotografia)
res
Artur de Sales traduziu, em versos, o Macbeth, de Shakespeare. Lançado pela Jackson em
volume X de sua Coleção de Clássicos , essa edição reuniu a tradução do Rei Lear por J.
Costa Neves. Sales também publicou um estudo sobre a obra de Shakespeare que consta na
introdução dessa edição. Sua tradução é uma das maiores expressões da nossa poesia.
47.3. Centenário de Ruy
res
Durante as comemorações do centenário de Ruy Barbosa, além das inúmeras homenagens
nacionais, foram publicados os seguintes livros: Lições de Ruy, pela Imprensa Oficial; Ruy e a
poesia nacional, coletânea de poetas brasileiros sobre Ruy, organizado por Epamiondas de
Souza Pinho, contém dados biográficos dos autores.
47.4. Paratodos
(c/ desenho)
tr
Está em circulação o primeiro número da nova fase de Paratodos datado de 20-X-49. O
antigo semanário, hoje publicação quinzenal, que Álvaro Moreyra fundou e dirigiu há anos
passados, reaparece numa hora em que o movimento cultural no Brasil carece de orientação
que lhe dê sentido e conteúdo coerentes com o espírito da época. Se muitas vezes são as
publicações de literatura e de arte, no Brasil, poucas, pouquíssimas, aquelas que sabem e que
podem enxergar claro na confusão do mundo atual. Daí a oportunidade de ressurgimento de
ParaTodos que, sob a direção de Álvaro Moreyra, tendo como redator-chefe Dalcídio
Jurandir e redatores Astrogildo Pereira, E. Carrera Guerra, Floriano Gonçalves, Jorge
Medanar, Lia Correa Dutra, Nair Batista, Osvaldino Marques e Yolandino Maia, certamente
virá reforçar o trabalho daquelas pouquíssimas publicações a que nos referimos. O primeiro
número, além de outras colaborações, contém uma pequena apresentação assinada por Álvaro
Moreyra, artigos de Brasil Gerson, Jean Freville, Zora Braga, Dias da Costa, uma entrevista
de Dalcídio Jurandir com o Barão de Itararé e um editorial, “caminho”, que contém o
programa e os propósitos de ParaTodos, do qual extraímos esse significativo trecho. “estamos
opostos às tendências dessa pequena arte espectral que domina em nossa vida literária, feita
de exaltação do absurdo da covardia, da traição, da renegação do entusiasmo e da esperança,
saturada de hipocrisia de tédio, de medo e da mentira, que se coloca, por isso mesmo, contra a
própria marcha da cultura, contra a paz, contra o Brasil. Saibamos usar a palavra “povo” de
modo largado e contente contra o nojo e o desprezo dos que evitam pronunciar o nome porque
sabem que o estão traindo.”
47.5. Depoimento
tr
Há mais de onze anos passados, Astrogildo Pereira, tecendo considerações em torno de um
romance de Graciliano Ramos, fez observações que tem hoje toda a oportunidade. São as
seguintes:
“Bem consideradas as coisas, os romancistas brasileiros, que fazem da miséria
terrivelmente viva do nosso povo o tema central de suas obras, estão cumprindo o seu dever
supremo. Vamos deixar de pabulagem. O problema da miséria é o mais importante, o mais
urgente, o mais nadiável dos problemas que reclamam solução neste país. Fingir desconhecêlo é hipocrisia; desinteressar-se dele é cumplicidade. Está visto que os romances não vão
resolvê-los, mas podem, mas devem contribuir para que ele seja resolvido. Contribuir
evidentemente com os recursos próprios e específicos, suscitando nos leitores um estado
emocional capaz de transformar-se em vontade de ação – direta ou indireta, imediata ou
remota, máxima ou mínima – que venha integrar-se no esforço nacional pela abolição da
miséria no território nacional” (Interpretações, Astrogildo Pereira, p. 153-154, junho de 1938)
498
47.6. O tacão de ferro
res
Jack London foi um dos mais poderosos escritores que a América já produziu, apesar de
não ser reconhecido por certos historiadores e críticos. Seus livros, quase todos de sentido
autobiográfico, destacam as situações sociais com o objetivo de servir aos menos favorecidos
e de lutar contra a opressão. Em destaque o livro O tacão de ferro, 1907; leitura recomendada
aos que desejam uma vida melhor e um mundo mais justo.
47.8. Flagrantes
res
– A musa e um poeta, de Luis Ferreira Pires, biografia romanceada de Paulo Eiró, pela
Martins Editora. Eiró era pulista, foi abolicionista e republicano;
- Revista Cultura, nº3, do Centro de estudos dos Alunos da Faculdade de Filosofia da
Universidade da Bahia;
- Poemas agrários, de Bueno Rivera e Wilson Figueiredo, poetas mineiros.
47.9. De José Geraldo Vieira
(c/desenho)
tr
O movimento editorial argentino tem crescido bastante nos últimos anos, com um bom
número de traduções e lançamentos de autores hispano-americanos. Agora, segundo se
anuncia, uma editora rio-palatense, contratou com José Geraldo Vieira a publicação de todos
os romances deste, em tradução castelhana. Nessas condições, o público dos países de língua
espanhola vai tomar contato com uma das significativas obras da ficção brasileira
contemporânea, a de José Geraldo Vieira, autor que a crítica não se cansa de estudar e
analisar, para nela encontrar um dos pontos altos do nosso romance. Aliás, o interesse por
José Geraldo Vieira não fica somente aí, pois, ao que se sabe, uma empresa cinematográfica
de Buenos Aires apresentará no próximo ano, a versão de A mulher que fugiu de Sodoma,
romance que não é, apenas, um dos mais bem trabalhados daquele autor, mas, um dos
melhores da nossa ficção.
47.10. A lenda de Madala Grey
tr
A Globo acaba de lançar, em sua Coleção Nobel, A lenda de Madala Grey, de Clemence
Dane. Esta romancista e autora de peças teatrais inglesa, ainda é pouco conhecida no Brasil, o
seu verdadeiro nome é Winifred Ashton, sendo seu pseudônimo inspirado na famosa igreja
londrina, “St. Clement Dane”, destruída pelas bombas nazistas, durante a última guerra.
Clemence Dane fez seus estudos primários na Suíça, onde, aos 16 anos já era professora de
francês. Voltando á Inglaterra, antes da primeira guerra mundial, foi por algum tempo atriz
teatral, devendo, no entanto, sua notoriedade, mais ao fato de haver Katherine Cornell
representado uma de suas peças. Sua atividade literária é muito intensa, já havendo escrito
mais de 20 romances e peças de teatro, além e várias novelas policiais, em colaboração com
Helen Simpson. A lenda de Madala Grey, cujo título original é Legend, foi publicada em
1919, e, na opinião de Erico Veríssimo, mereceu a honra de ser colocado ao lado de Servidão
Humana e Os Thibault. Na lista de seus livros figuram Regiment of women, 1917, livro de
estréia; The babyons, 1928, Brooms stages, 1928, The moon is feminine, 1928, The arrogant
history of White Ben, 1939.
47.11. Exposição de James Joyce
(c/fotografia)
res
A Livraria La Hune, de Paris, organizou uma exposição sobre James Joyce, autor de
Ulysses. Seriam expostos os livros de Joyce e seus manuscritos, que poderão ser adquiridos
pelos visitantes. Também se prevê, no mesmo mês, o lançamento de uma peça do autor, pela
Gallimard, Les exiles.
47.12. Homenagem a Zola
(c/fotografia)
res
Na passagem do 47º aniversário da morte de Zola, várias homenagens foram registradas,
como de costume, na França. A mais famosa das homenagens foi a peregrinação a Medan,
onde reisidu, estiveram presentes como oradores o advogado Maurice Garçon e o escritor
Jean Rostand, filho de Edmond Rostand.
48. Data
10/12/49;5
Título
Caleidoscópio
48.1. Variações sobre um livro
tr
É com máximo interesse que realizamos a leitura dos nove contos do livro de Breno
Accioly, (Cogumelos, Editora A Noite, Rio, 1949, com capa de Luis jardim, ilustrações de
Osvaldo Goeldi e prefácio de Gilberto Freire). Com ele, o autor confirma o êxito João urso, já
esgotado, livro que obteve os prêmios “Graça Aranha” e “Afonso Arinos” da Academia
Brasileira de Letras. Original em certos aspectos, criador e narrador de qualidades apreciáveis,
revela-se o jovem contista alagoano, apesar disso, ou talvez por isso mesmo, um tanto fácil ou
inexperiente em alguns ângulos, sem conseguir dominar inteiramente o material com que
trabalha, incapaz de dar sentido e unidade à sua obra, unidade e sentido que para ele e para o
leitor devem ser da maior importância. Perdidos em um mundo de insegurança e angústia,
seduzidos pelo estranho e pelo sinistro, e no desespero que os personagens de Breno Accioly
encontram, quase sempre, a solução de seus problemas. O marido de Hilda, do conto A valsa,
é um bom exemplo: vagando sem perspectivas e sem horizontes, perdidos num emaranhado
de conjecturas desesperadas, ouve o povo falar e protestar, pressente algo no protesto do
povo, mas está longe de sentir realmente o que ele quer, e que forças o conduzem e para onde
o conduzem. Em outro conto, um personagem recorre ao suicídio como solução para o drama
que lhe armara o destino. E assim em muitos outros, em quase todo o livro, onde o desespero
é uma dominante que enche de sombras todos os horizontes. É que no mundo desses
500
personagens shakesperianos, a última palavra ainda cabe ao azar, ao destino, e é ele o
supremo árbitro. Talvez isso reflita, ou melhor, isso reflete, com segurança, a visão que Breno
Accioly tem do mundo e dos seus problemas. E essa visão antes de tudo, é que precisa de ser
corrigida ou reconsiderada.
Essas observações, feitas à margem da leitura, refletem, não apenas o interesse pelo livro,
mas, sobretudo, o interesse que temos no progresso de um escritor que possui qualidades e
condições de avançar sempre. Elas não seriam feitas, por exemplo, se se tratasse de Os servos
da morte, do sr. Adonias Filho.
Já não há por onde fugir ao fato de ter a literatura, como qualquer outra arte, uma função. E
esta não pode ser outra senão a de refletir situações e tendências da época em que é criada e
das quais o artista participa dessa ou daquela forma – visando ajudar o povo na sua luta por
uma vida melhor. E o artista honesto, consciente de sua função, é aquele que desenvolve a sua
arte no sentido dessa ajuda, indicando ao seu público a justa solução dos problemas que
formam o conteúdo da sua obra.. E é precisamente aqui nesse terreno que os dois campos se
definem com absoluta precisão: de um lado, os artistas que receiam avançar, e, direta ou
indiretamente, por incompreensão, omissão consciente ou clara definição de princípios,
defendem a sobrevivência de uma estrutura social anacrônica; de outro lado, os artistas que
compreendem o processo de desenvolvimento social e marcham com o tempo ou à frente
dele, abrindo e indicando caminhos. E está claro que o desespero, o negativismo, não
conduzem a nenhum progresso e são armas de luta próprias daquele primeiro campo.
48.2. Concurso Monteiro Lobato
(c/fotografia)
res
Em estudo e julgamento os trabalhos da secção de adultos, pela Comissão Julgadora e para
a secção infantil os prazos foram dilatados, a pedido de inúmeras cartas.
48.3. Moko
(c/fotografia)
tr
Lança o sr. Teixeira Lobão o seu primeiro livro, Moko, impresso na Imprensa Oficial do
Estado, com capa de Robespierre de Farias. Não sendo propriamente um estreante, pois seu
nome já é bastante conhecido do nosso público, tendo publicado contos e poemas em nossos
suplementos literários e já havendo dirigido uma secção de “Autores Novos” na A Tarde. É
com esse livro que o autor realmente estréia no difícil terreno da ficção, no qual a Bahia tem
dado vultos de grande projeção, como Xavier Marques e Vasconcelos Maia e de projeção
inclusive internacional como Jorge Amado. Moko é o diário de um jovem militar morto em
águas da Bahia nos operações da última guerra.
48.4. Notícia Histórica da Bahia
res
Thadeu Santos, Redator dos Debates do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, realizou
pesquisas, desde 1948, sobre a magistratura na Bahia, como parte desse trabalho solicitou às
famílias dos magistrados que lhe fornecessem dados sobre os mesmos. Essa pesquisa
apresentou como resultado o Almanaque da Magistratura baiana, o qual foi dedicado ao
centenário de Ruy Barbosa, no entanto, o lançamento não pode ser realizado na data prevista.
O autor também escreveu publicou Notícia histórica da Bahia, destinado à apreciação do 1º
Congresso de História do estado da Bahia, reunido por aqueles dias, na capital.
48.5. De Europe
(c/fotografia)
res
O romance Fast, de Howard Fast, estava sendo publicado, em capítulos, na Revista Europe
– revista mensal dirigida por Pierre Abraham, fundada em 1923 por Romain Rolland.
Traduzido do americano por Renaud de Jouvenel, seu título em francês pe les Héros
desesperes. No mesmo número da revista continha uma crônica de Aragon e uma peça de
Paul Eluard. Fast foi o autor de Caminho da Liberdade e Citizan Tom Payne.
48.6. Majupira
res
Romance regional, Majupira, foi escrito por J.B. Mello e Souza. Esse livro foi publicado
pela primeira vez em 1938. Mello é ainda autor de Uma viagem pelas estrelas e Estudantes de
meu tempo.
48.7. Depoimento
tr
“O que mais impressiona em Raul de Leoni é a inteligência metafísica, uma nobre e alta
feição da inteligência que parece ter sentido um dia arrepios ante o mistério das coisas. Do
contato transcendente, porém, guardou ele uma sensação de medo e desorientação. Venceu-a
aparentemente, procurou esquecê-la, naquela atitude de fim-de-século, de serenidade
epicurista e dúvida amável. Mas o malogro íntimo e profundo deixou-lhe no espírito uma
ferida aberta. Daí essa seiva ácida que ele entrevê no “fundo sombrio das Verdades”. Por toda
a “luz mediterrânea”, o poeta narra o seu desencanto. Uma torre morta, ao pôr-do-sol lhe
sugere a inutilidade de subir e superar-se. As árvores estéreis, de galhos tristes e vazios, que
representam as “dolorosas utopias” de todos os filósofos do mundo... O poeta nos adverte sem
cessar contra o enigma eterno e aconselha que nos deixemos viver na simplicidade amorável
das coisas, tendo por guia o instinto e por filosofia o prazer.” (Carlos Dante de Morais, Raul
de Leoni, poeta vesperal, Revista Província de São Pedro, n.4, p.74)
48.8. Flagrantes
res
– Abkar, a cidade dos gênios, de Chafic Maluf, poemas, versificação por Judas Isgorogata,
edição do autor.
– Praia oculta, de Domingos Carvalho, poemas, ilustrações de Aldemir Martins, Graciano,
Marcy Penteado, Gruber Correia, Oswald de Andrade Filho e Otávio Araújo, lançado pela
“Brasiliense”.
– Jorge de Lima lançou livro de sonetos, o autor foi figura de projeção do movimento
modernista de 22.
502
48.9. Concurso literário
(c/desenho de Ruy Barbosa)
res
O Brasil e a Grã-Bretanha assinaram um Convênio Cultural, em 1947, comprometendo-se
a conceder um prêmio literário à melhor obra escrita por nacional de cada um dos dois países
sobre qualquer aspecto da cultura ou civilização do outro país. Prêmio Ruy Barbosa, título
dado pelo governo britânico seria concedido às obras escritas até cinco anos antes de 1952,
em primeira edição. Divulgou-se a configuração da comissão julgadora e o regulamento.
48.10. Miniatura
(c/desenho)
tr
Possui Otávio Tarquínio de Souza, na literatura nacional, um lugar definitivo, pela
seriedade com que estuda e escreve. Preferindo o setor histórico, nele se afirmou como
estudioso inimigo das improvisações. Nasceu no Distrito Federal a 7 de setembro de 1889 e
seu nome completo é Otávio Tarquínio de Souza Amaranto. Diplomado em Direito, foi
diretor dos Correios e Telégrafos do Estado do Rio, durante o governo Nilo Peçanha, e
posteriormente, Ministro do tribunal de Contas, cargo do qual já se aposentou. Dirigiu, de
julho de 1938 a dezembro de 1943, a Revista do Brasil, na sua terceira fase, e foi crítico de O
Jornal, durante alguns anos. Além de autor de vários livros, Otávio Tarquínio de Souza é um
reputado tradutor, tendo vertido para o português entre outras obras O Rubaiyati, Omar
Khaayyan. Dirige, para a José Olympio, a Coleção Documentos Brasileiros. É casado com a
escritora Lúcia Miguel Pereira e tem publicado os seguintes livros: A mentalidade da
Constituinte, Bernardo Pereira de Vasconcelos e seu tempo, Evaristo de Veiga, Diogo
Antônio Feijó, História de dois golpes de estado e José Bonifpácio. Atualmente, está
escrevendo uma biografia de D. Pedro I, cujas pesquisas, iniciadas há dois anos, ainda não
terminaram. De sua autoria será também, o volume da História da Literatura Brasileira,
período de 1830 a 1870, dirigida por Álvaro Lins.
48.11. Autobiografia de um baronete
(c/fotografia)
res
Osbert Sitwell, poeta, ensaísta, crítico e novelista, herdou seu pai o título de 5º baronete,
em 1943. Sua obra foi programada para cinco volumes, são três deles: Left hand, right hand;
The scarlet tree e Great morning. Neste ano foi publicado o 4º volume: Laugther in the next
room.
49. Data
21/01/50;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
49.1 Poesia autêntica
Tr
Uma das mais autênticas vozes da moderna poesia brasileira é, sem dúvida alguma, Wilson
Rocha, que já nos deu, anteriormente, um livro de poemas editado aqui mesmo na Bahia.
Poderosa expressão de artista, consciente, estudioso e honesto, Wilson Rocha cada vez mais
se aprofunda nos domínios de sua arte, buscando realizar-se definitivamente, sem pressa e
sem sensacionalismo. Produzindo pouco, divulgando menos e estudando mais, tem
procurando fazer de sua poesia uma arma de luta, uma bandeira, uma como que mensagem de
beleza e de amor, de compreensão e de paz em meio ao tumulto que os falsos valores
procuram fazer para confundir. Tendo editado apenas um livro, há alguns anos, vai agora
lançar o segundo, em edição de Caderno da Bahia. Com ilustrações de Aldo Bonadei e cerca
de quinze a vinte poemas. O tempo no caminho - é o título – deverá aparecer em março
próximo e certamente que figurará como um dos mais significativos das letras em 1950.
49.2 Sobre Chamado do mar
Tr
O livro com que James Amado estreou na ficção brasileira Chamado do mar, continua a
despertar na crítica e no público o mais vivo interesse, suscitando opiniões, artigos, notas, em
grande parte de elogios ao romance de jovem escritor. Dentre essas opiniões, tem grande
significação a de Roger Bastide, o erudito professor da Universidade de São Paulo que em
carta a James Amado, assim se expressou a respeito de Chamado do mar: “Eu lhe envio as
mais cordiais felicitações. É um muito bom livro, bem construído, sólido, escrito com amor.
E eu lhe felicito ainda mais, pelo modo feliz e seguro com que você brinca com as
dificuldades técnicas. Com freqüência, joga com temas já tratados – pois são constantes no
Nordeste chamados do mar, fazendas de cacau, candomblés, etc – e cada vez você os trata de
maneira muito pessoal, sua. Sinto apenas que você tenha utilizado a repetição lírica. Mas,
mestre de sua própria técnica, estou certo de que se libertará disso que tende a ser um “tic” do
romance nordestino. Partirei para a França dentro de alguns dias, e não o queria fazer sem
dizer, antes, o grande prazer que me deu a leitura de seu livro.”
James Amado, em companhia de sua esposa, a poetisa Jacinta Passos Amado, está
realizando uma “tournée” pelo norte e nordeste do Brasil. Ao regressar, retomará o trabalho
de seu segundo livro, também romance, e ao que se sabe já bem adiantado, com vários
capítulos prontos.
49.3 Catalogação geral de livros novos
res
Um novo e importante projeto literário foi discutido na conferência anual da Associação
Britânica de Bibliotecário. O plano consistia na publicação semanal de uma catalogo de todas
os livros impressos na Grã-Bretanha, sendo a primeira edição foi planejada para 1951. Ao
Museu Britânico coube a responsabilidade de preparar e classificar as entradas. Um anuário
seria lançado com todas as entradas semanais, que registrariam cerca de 300 livros novos e
reedição. Sob o título Bibliografia Nacional Britânica, serviria a livreiros e bibliotecários de
todo o mundo.
49.4 Do caderno de Memória
tr
Somerset Maugham vem de publicar mais um livro. Caderno de notas de um escritor, no
504
qual faz um balanço de seu estado físico e mental. Vive Maugham atualmente, na sua “vela
nourisca”, em Cap Serrat, na Riviera Francesa, de lá é que nos manda esse livro, com o
seguinte resumo dos seus setenta e cinco anos: “Dentes naturais: vinte e seis. Renda: o
suficiente para viver com conforto e para satisfazer certos ‘caprichos’. Esperança de
imortalidade: Nenhuma (‘estou contente em saber que minha alma se vai dissolver no nada’).
Esperanças quanto à posteridade: algumas duas ou três peças de teatro e uma dúzia de contos
meus podem sobreviver por muitos anos. Atitude para com a morte: ‘Estou perfeitamente
disposto a desocupar meu pequeno nicho’. Atitude para comigo mesmo: ‘Fiz o mais que pude
com os dons que a natureza me deu’. Atitude para com os outros: ‘Já não me importo mais...
Podem aceitar-me ou negar-me...”
49.5 Ladeira da memória
tr
A Coleção Saraiva iniciou bem seu programa de 1950, com a publicação de Ladeira da
memória, de José Geraldo Vieira, vol. 15 correspondente ao mês de janeiro. Após apresentar
Majupira, de Mello e Souza, e Os últimos dias de Pompéia, de Lord Lytton, respectivamente
em novembro e dezembro, inicia o novo com o livro de um dos maiores romancistas do
Brasil, autor de A quadragésima porta, A mulher que fugiu de Sodoma, Território Humano e
outros livros. Promete a Saraiva para este ano, ao lado de outras iniciativas, a publicação de
romances inéditos de autores nacionais, com tiragens surpreendentes, como é o caso de
Ladeira da memória, que inicia esta série com 45 mil exemplares!
49.6 Entrevista com Du Gard
tr
Entrevistado por Justino Martins, da Revista do Globo, Roger Martin du Gard, sem dúvida
um dos maiores escritores do nosso tempo, conversa com o conhecido repórter brasileiro
como raríssimas vezes terá feito com outros jornalistas. Fala de sua vida, de sua obra, de seus
hábitos, de seus projetos. Referindo ao seu método de trabalho, o autor de Jean Barois:
“ – Nunca me foi tão difícil escrever como atualmente, jamais corrigi tanto como agora.
Veja o meu processo de início, tomo notas rápidas, a lápis sobre fichas amarelo-claro. É a
idéia como ela vem, fresca e primitiva. Depois, passo tudo a tinta para as fichas azul-claro,
retocando e estendendo o assunto dentro dos seus limites. Em seguida, levo o texto corrente e
já muito alterado para folhas comuns, brancas, sobre as quais realizo um trabalho de ‘limpeza’
na escrita. É quando abandono a coisa por dois dias ou três meses, ao fim dos quais retomo
para uma correção definitiva. É, sem dúvida, um trabalho penoso, que ainda continua sobre as
provas de tipografia, mas eu o adoro. Creio que boa qualidade da minha obra se deva,
sobretudo, a esse método, a essa paciência, se o senhor quiser a esse devotamento ‘obstinado’
como diz Gide.”
Prosseguindo, Du Gard fala da América do Norte, dizendo que esse país não lhe pode
interessar especialmente. E, a propósito, cita seu caso com o “Reader Digest”.
“– Veja, recebi ontem essa carta do ‘Reader Digest’ (edição francesa) pedindo-me um
artigo de seis páginas sobre o personagem mais interessante que eu conheci. E o diretor da
revista acrescenta que se sente contente de poder oferecer dois mil dólares por um artigo de
apenas seis páginas datilografadas. Eu não devo alar de alguma figura conhecida, mas de um
caráter comum, cuja personalidade possa impressionar favoravelmente ao público. Para
terminar, o homem me dá uma sugestão: O máximo possível de anedotas será aceitável...”
Diz Justino Martins que Du Gard, lendo a carta e rindo, acrescentou: “- Eu não chamarei a
isso de inconsciência, mas de ‘naivite’ (ingenuidade) tipicamente americana. No entanto, a
oferta é daninha por causa dos dois mil dólares. Ela pode corromper a qualquer espírito mais
fácil. Eu respondi esta manhã, dizendo que estou precisando de dois mil dólares agora, mas
que não poderei escrever um tal artigo sob medida e com assunto pré-estabelecido. Quando
escrevo, não poso ter um limite à minha frente, senão o que a minha própria razão de
recomenda.”
Essa atitude cem confirmar sua própria opinião, de que o último homem livre da França
“sacrifico tudo, tudo, pela minha tranqüilidade e pela minha independência. Do contrário, eu
nada poderia escrever...”
49.7 Depoimento
tr
Neste nosso mundo marcado por inúmeros crimes a guerra, os campos de concentração, as
perseguições raciais, o terror policial, a mutilação de crianças e tantas outras calamidades –
um crime há que a todos se deve sobrepor, por ter sido uma advertência, o ponto de partida
das ações celeradas do tempo em que nós vivemos.
Quero referir-me ao assassinato de Frederico Garcia Lorca, o admirável poeta que os
soldados de Franco abateram estúpida e friamente. Nunca será bastante o clamor contra essa
hedionda tragédia deliberadamente consumada pelos Fascistas espanhóis – esses mesmos que
ainda hoje dominam a pátria do autor de Bodas de sangue e com os quais um cínico sugeria
tivesse normalmente a humanidade relações e negócios, conforme se leu num dos últimos
números das “Seleções do Reader´s Digest” (Mário da Silva Brito, Sobre Garcia Lorca,
Jornal de Letras, n.6)
49.8. Não se arrisca
tr
Segundo notícias da América do Norte, Erskine Caldwell trabalha atualmente na
elaboração de um novo romance Chão trágico e estrada de tobaco é um dos melhores
escritores norte-americanos contemporâneos, e seu novo livro, A place called es therville está
sendo aguardado com ansiedade. A respeito dessa romance, ele mesmo declarou: “Nesse livro
proponho um grande número de problemas. Mas, não me arrisco a resolver um só deles, o que
inda é melhor meio de contentar a todos”.
49.9. Mais uma de Zelins
Tr
O Sr. Zelins do Rego, que é o autor do Ciclo da cana-de-açúcar, tem se notabilizado mais
pelas suas arruaças como torcedor e cronista de futebol. Ainda agora, a 6 deste mês, o
conhecido e reputado cronista José Brigido, que assina a seção Pra ler no bonde, do Diário de
Notícias do Rio publicou o trecho que abaixo vai transcrito sem comentários:
“Nutrimos tanta admiração pelos homens decentes normais de moral sadia, quanto
sentimos consideração sincera pelos rebotalhos da sociedade e repugnância ainda mais
506
profunda pelos desertores da dignidade. Ainda ontem, achavamo-nos, despreocupadamente, a
ver livros expostos numa vitrine, quando de nós de cercou o medíocre e confuso José Lins do
Rego conhecido em certas rodas por Zé da Vala. Pediu-nos que entrássemos, pois desejava
falar-nos. Aqui viemos, quando inopinadamente, ele investiu contra nós, com a mesma
covardia que o distinguia nas tocais do cais de Lingüeta, no Recife, onde deixou fama.
Reagimos e plantamos a mão esquerda na face faioderma, uma vez que a nossa direita se
achava ocupada com embrulhos. Não deve ter ficado marca, por ser escura a máscara do
cafuzo, mas ele há de sentir sempre o calor dos nossos dedos, como lembrete de sua própria
ignomínia. José Lins do Rego há muito tempo que se tornou gratuitamente nosso ofensor. Até
hoje nada mais fizemos do que repetir suas mórbidas provocações. De uma feita, tomamos até
a iniciativa de saúda-lo, na sede do Fluminense e estender-lhe fraternalmente a mão. Passou
uns tempos sossegado, voltando, ultimamente, ao delírio antigo. Continuaremos na mesma
posição em que sempre nos colocamos, ainda mesmo que José Lins do Rego por impulso
atávico, deseje recorrer ao assassinato, não nos intimida o cafuzo. Se nos atacar, terá resposta.
Pode estar certo disso. Há pouco antes, um estrangeiro que se refira pejorativamente ao Brasil
preferiu ficar contra nós, não revelando a menor sensibilidade cívica. Cada qual dá que pode.
Ele, se, capacidade para rebater nossos argumentos malgrado ter dois jornais a sua disposição,
cedeu a voz interior, que pode ser sinal do que Machado de Assis denominou “nostalgia da
lama”. Fiquemos por aqui. O assunto não merece mais espaço e o sujeito que o motivou,
muito menos, pois teve no mesmo instante o tronco da sua insolência covarde, apesar da
intervenção de terceiros. Continuaremos sem receio algum em nosso posto. Por sermos
homens de responsabilidade, não desejamos nivelar-nos a um irresponsável, experimentado
nas “espolas da Lingüeta da Gameleira ou do Pajeú...”
49.10. Panorama Norte-Americano
res
Em 1949, foram publicados mais de nove mil títulos nos Estados Unidos. Desses, cerca de
1500 seriam romances e o restante obras de todos os tipos. Harold Smith, comentarista de
uma agência noticiosa, afirmou que o romance mais importante foi Point of no return (Não se
pode voltar atrás), de John Phillips Marquand; segundo o comentarista, este livro apresenta
uma análise da mentalidade dos norte-americanos da classe média. Smith continua
comentando o movimento editorial e cita ainda outros escritores: Sinclair Lewis, John dos
Passos, Ernest Hemingway, William Falkner e John Steinbeck.
49.11. Flagrantes
-
Rubem Braga publica mais um livro de crônicas O homem rouco...
-
O Goncourt de 1949 foi atribuído a Robert Merie pelo seu livro Week-end a zuy docofe.
-
A Brasiliense laça o erudito estudo de Ciro de Morais Vale, Civilização cristã.
50. Data
28/01/50;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
50.1. Variações sobre a guerra e a paz
Tr
Há quem defenda a cruel tese de que a guerra é sempre e fatalmente fator de progresso.
Concluindo daí que nenhum mal há em que os povos, vez por outra, se estranhem como
animais sem inteligência e se matem uns aos outros sem constrangimento. Não é necessário
dizer que uma tal teoria é fruto de encomenda, sob medida, e os seus autores nada mais
fazem do que interpretar e defender os desejos dos que vivem e enriquecem à custa das
guerras e das mortes. E tanto é assim, que, se há pouco saímos de uma carnificina, na qual
muitas mulheres de entes humanos perderam a vida, já hoje homens decididamente
empenhados no deflagrar de uma nova hecatombe, e tudo fazem para convencer os povos de
que ela é inevitável e necessária. Desencadeiam a mais tremenda campanha ideológica a
favor da guerra, alugam escritores e jornais, fabricam livros em massa, arquitetam intrigas e
forjam desentendimentos, condenam a palavra paz e prendem os que a defendem, tudo isso
para que os povos se deixem arrastar na desumana, impiedosa aventura guerreira.
Mais ainda bem que os povos do mundo inteiro se pronunciam a favor da paz, a mais bela
e mais doce palavra de todas as línguas. E é em nome da paz e do amor entre nossos povos
que reverenciamos a memória dos que morreram na última guerra. Aos escritores em
particular cabe honrar e respeitar a memória dos escritores e intelectuais que desapareceram
na luta ou em conseqüência da luta contra o ódio e a opressão.
E Otakar Fisher, crítico e tradutor theco, que ao receber a notícia da ocupação da Áustria
pelos nazistas caiu fulminando por um colapso cardíaco.
E o refém de Lidice, Viadisiav Vantchura, romancista tcheco, autor de O padeiro marhoul,
fuzilado desumanamente pelos nazistas em 1942, naquela qualidade de refém.
E o historiador romeno Nicolas Torga, assassinado pela “Guarda-de-ferro”, de odiosa
memória.
São ainda os que morreram,
É Nordhal Grieg, um dos mais famosos romancistas contemporâneos da Noruega, bravo
aviador da RAF que não voltou de uma incursão aérea sobre Berlim, em 1943.
...É Saint-Exupery, águia que desapareceu dos céus da França no verão de 1944.
É Sidney Keys e é Alun 1 Lewis, jovens poetas ingleses que a morte encontrou nas
campanhas do mediterrâneo.
É o soviético Afenogenov, dramaturgo que o mundo inteiro admirava, morto durante um
dos bombardeios de Moscou pelos nazistas.
É Hendrick Marsman, líder do movimento renovador de poesia na Holanda, tentando fugir
de seu país para a Inglaterra e torpedeado junto com muitos outros perecendo afogado.
É Kay Munk, heróico dramaturgo dinamarquês, coração e sangue da Resistência em seu
país fuzilado pelos nazistas numa fria manhã de 1944. É o “maquis” Jean Prevost,
desaparecido nas guerrilhas.
Sabe como, nos campos de concentração, como o crítico polonês Zelenski, no campo de
Dachau em 1942; o poeta francês Maz Jacob, em Drancy 1944; o velgo historiador norueguês
Huizinda e o escritor tcheco Joseph Tchopek, em Belsen, 1945; o grande Jules Zuchik, autor
de O testamento, sob a força, admirável exemplo de coragem e decisão revolucionárias, herói
tchecolsvaco e símbolo de um novo mundo, que os nazistas enforcaram pelo crime de muito
1
Ou Akun Lewis esclarecer –procurar nome na internet ou em dicionário, assim como os nomes dos outros
508
amor à vida e os homens e por eles lutar. É ainda o suicida Walter Benjamim, evadido de sua
pátria, a Alemanha, escorraçado pelos celerados soldados fascistas de franco, refugiando-se
na França e aí preferindo suicidar-se a ser martirizado.
São tantos outros cujos nomes não foram guardados, são milhares de anônimos que
merecem o mesmo respeito e a mesma admiração. E é em nome deles, no nosso próprio e nos
do que virão, que devemos lutar pela paz, harmonia e amor entre os povos, na busca de um
mundo sem guerra e sem ódio.
50.2. O tempo e o vento
Tr
O acontecimento literário deste começo de ano é, sem sombra de dúvida, o lançamento do
novo livro de Erico Veríssimo, O tempo e o vento, (1ª vol. O continente, editora globo, Porto
Alegre, 689 p) com uma tiragem inicial de 20 mil exemplares. Autor que se impôs pelo hábil
manejo da técnica novelística, pelo modo agradável e simples de escrever, aliados a uma
grande dose de compreensão humana e de sentimentalismo, Erico Veríssimo era justamente
considerado o melhor romancista da classe média brasileira, sendo sem favor um dos autores
mais lidos do país. Com este seu novo livro, toma o escritor gaúcho um outro caminho,
abandonando o cenário urbano e a vida de seus contemporâneos, vai às origens e ao
desenvolvimento do continente de São Pedro, para lá encontrar os diversos fios das muitas
histórias da formação do Rio Grande, desenrolando-os e conduzindo-os através de seiscentas
e poucas páginas de O tempo e o vento, com uma habilidade realmente admirável,
tecnicamente tão admirável que os diversos tempos, quadros, cenas e capítulos do livro, por
mais diversa que sejam as épocas, são como partes de um todo, indispensáveis e
interdependentes, atuando umas sobre as outras e produzindo no leitor essa nem sempre fácil
impressão de unidade.
Os personagens que povoam O continente são bem construídos, alguns marcantes outros
inexpressivos, e pena é que o autor tenha procurado dar ao destino – ao azar, enfim – a força
de conduzi-los, de guia-los através de suas vidas acidentadas, como se o destino lhe fosse
anterior e exterior, quando se sabe que são as suas próprias condições de existência e de
desenvolvimento que lhes traçam o destino. É a luta cega ela posse da terra, dominando todo
o livro, são dramas dos emigrantes logrados pela má lei da corte, são os interesses antihumanos dos governistas pela conquista de mais terras e mais mercado, é tudo isso que traça o
destino dos personagens deste novo livro de Erico Veríssimo, cujo segundo volume, O
retrato, que já se encontra no prelo, traz a história de fins do século XI até nossos dias.
50.3. Prêmio Nobel, 1949
Tr
O famoso prêmio Nobel de literatura não foi concedido a ninguém em 1949. nenhum
escritor conseguiu obter essa glória que tantos almejam. Não é, aliás, a primeira vez que isso
acontece. No último decênio, por exemplo, o Prêmio Nobel não foi distribuído cinco vezes:
1940, 1941, 1942 e 1949. Quando da Primeira Guerra Mundial, também não houve
contemplados nos anos de 1914 e 1918, havendo nos anos de 1913, 1916 e 1917, sendo os
seus detentores respectivamente, Romain Rolland, Von Reidenstan (sueco) e Gjellerup e
Poutoppidan (dinamarquês).
Os premiados nos últimos anos foram: Gabriela Mistral, grande voz poética do continente
e único sul-americano já premiado, em 1945; Hermam Hesse, suíço, em 1946; André Gide,
francês, em 1947 e T.S. Eliot, norte-americano naturalizado inglês, em 1948.
50.4. Depoimento
Tr
“No começo do séc. XVII Cervantes escreveu o Dom Quixote, a maior novela cômica de
todas as literaturas. Nem Rabelais rivaliza com Cervantes porque para a grande “burlesca”
Rabelais tomou como elemento vários gigantes absurdos ao passo que o escritor espanhol só
jogou com seres humanos tirados do comum”. “se Cervantes não houvesse escrito o Dom
Quixote teria ainda assim lugar de honra na literatura, como autor de várias peças e novelas.
Mas, quando um homem se excede a si próprio numa obra de projeção universal, pode deitarse a dormir à sombra com todos os demais trabalhos na gaveta” (John Macy, História da
literatura Mundial, p. 180 e 190).
50.5. Carta de Thomas Mann
Tr
Por ter sido agraciado com o Prêmio Goethe, o escritor Thomas Mann, alemão
naturalizado norte-americano, foi convidado a visitar a Alemanha por ocasião das
comemorações do centenário de Goethe, tendo, por esse fato, sofrido ataques do jornalista
Paul Olberg. Através de uma carta aberta, marcada por uma independência de opinião e
equilíbrio de espírito, respondeu àquele jornalista, são trechos da carta: “Não tenho em
absoluto, a impressão de ‘haver-me rebaixado’ com o discurso que pronunciei em Francyort, e
em Weimar, no aniversáro e Goethe, nem de haver negado com isso, minha condição de
emigrado bem minha posição durante a guerra. Fui a Weimar porque lamento o ‘profundo
abismo’ que, como diz você, separa as duas partes da Alemanha, e porque sou de opinião que
não se deve aprofundar esse abismo, mas ao contrário, contribui para faze-lo desaparecer, na
medida do possível, e nem que seja por um instante, por ocasião das festivas comemorações
do aniversário de Goethe. A população da Zona Oriental soube agradecer-me pelo de eu não a
ter esquecido e de não a haver tratado como filhos perdidos da Alemanha.” E mais adiante
finaliza:
“Contudo, o só fato de que me reserve o direito de estabelecer uma separação entre o
comunismo como contribuição à ideologia humana, e a absoluta canalhice fascista, o fato de
que me nego a participar da histórica campanha de perseguição aos comunistas, e de que me
pronuncio em favor da paz num mundo cujo futuro já é inconcebível sem traços comunistas,
tudo isso basta, parece, para que eu receba, na esfera daquele nascimento social, certa
confiança que nunca reclamei e que, não estou convencido de que seja um mau sinal para
minha saúde moral e espiritual.”
50.6. Flagrantes
Rs
- Confissões do meu tio Gonzaga, romance de Luis Jardim, pela José Olimpio;
- Knut Hansun, romancista norueguês que foi acusado e condenado como colaborador dos
nazistas, vai escrever um livro sobre a Segunda Guerra Mundial;
- Collected poemes – 1909-1935, de Eliot, pela editora Faber e Faber, de Londres, edição
artística;
- Ruy e o vernáculo, de Fontenelle Ribeiro, jornalista de São Paulo.
510
50.7. Prosa de ficção
Tr
Desde 1944 que se anuncia a História da literatura brasileira, em quinze volumes e escrita
por um grupo de colaboradores, sob a direção de Álvaro Lins, mas, somente agora é que
aparece um de seus volumes, o 12º, o primeiro a ser publicado, de autoria de Lúcia Miguel
Pereira e sobre o desenvolvimento da nossa ficção no período 1870-1920. É Lúcia Miguel
Pereira um espírito inteligente, autora de um bom estudo sobre Machado de Assis, sendo de
esperar que essa sua obra, Prosa de ficção, corresponda ao que dela de espera. Essa obra faz
parte da coleção Documentos Brasileiros da Livraria José Olympio.
50.8. De Londres
Tr
Anuncia-se em Londres a publicação de duas uniformes e elegantes edições de Elizabeth
Bowen, The house in papis e The cat jumps. A primeira dessas novelas mostra como pessoas
jovens e inocentes podem ser corrompidas pelos que simultaneamente as adoram e odeiam. O
outro volume The cat Jumps encerra alguns dos melhores contos de Elizabeth Bowen,
escritora que é considerada a mais sutil e penetrante interprete da vida privada inglesa da
classe média, nessas duas décadas, tendo por isso assegurado um permanente lugar na
literatura de seu país.
50.9. Desaparece Putnam
Tr
Samuel Putnam, escrito norte-americano que aqui esteve em 1946, traduziu alguns dos
nossos escritores e escreveu ele mesmo, o livro Viagem maravilhosa, pesquisa de quatro
séculos através da literatura brasileira, foi recentemente agraciada com um prêmio da
Fundação Guggnheim para preparar um novo livro, ampliando aquele primeiro, e que seria
uma antologia das mais importantes páginas da literatura brasileira, desde 1918, o tomo não
lhe seria possível voltar o Brasil, dado o seu estado de saúde. Putnam lançara um apelo aos
autores e críticos nacionais, bem como aos estrangeiros residentes no Brasil, no sentido de
que lhe enviassem publicações e recortes que auxiliassem a elaboração de seu livro. Seu apelo
foi logo apoiado inclusive pelo jornalista norte-americano Charles Anderson Gould, que há
muito reside no Brasil. Mas, noticias da América do norte anunciam o falecimento de Putnam,
na cidade de Lambertville em Nova Jersey, onde vivia em companhia de sua esposa. Trata-se
de uma perda lamentável, tanto para os estados Unidos como para o Brasil. Samuel Putnam
foi um grande estudioso da nossa literatura, e a ele se devem boas versões para o inglês, como
a de Os sertões, as de livros de Jorge Amado e Gilberto Freire.
50.10.Quatro Histórias
Tr
Na sua coleção “Word´s classic” a Oxford University Press laçou, em dois volumes Four
tales de Joseph Conrad, incluindo The nigger of the narcissus, Youth, The secret sharer e
Freya os seven isces. Esse foi considerado um dos melhores lançamentos do mês de
novembro de 1949, em Londres, dada a popularidade de Conrad, embora alguns críticos
pensem que o seu círculo de leitores seja reduzido, dada a sua pouco animadora concepção do
mundo. Como quer que seja o chamado “romancista do mar” Josef Conrad (Josef Teodor
Konrad Korzencowski. Polônia 1857-1924) inglês de formação é um dos melhores escritores
da Inglaterra e a história trágica de seus personagens sempre desperta o maior interesse entre
os leitores.
50.11. Protesto
Tr
Paris continua a ser o centro da cultura ocidental, oferecendo ao mundo as mais
sensacionais notícias no particular. E é de lá que nos chega o protesto que Marcel Peguy, filho
do famoso poeta Charles Peguy, fez contra as homenagens prestadas a seu pai, no dia 12 do
corrente, na Sorbonne. Tratava-se de uma cerimônia oficial, com a presença do presidente da
república, Sr. Vicent Aurid, pelo cinqüentenário de Fundação dos Cahiers de La Quinzaine,
de Charles Peguy, Marcel, filho do poeta, enviou a todos os jornais um anota de protesto,
declarando que na mesma hora em que se realizava a cerimônia ridícula os verdadeiros
amigos de Peguy estavam reunidos no Café´Voltaire na praça de Odeon.
51. Data
11/02/50;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
51.1. Fundamentos
Tr
Desde o aparecimento de seu primeiro número Fundamentos, revista de cultura moderna
fundada por um grupo de intelectuais paulistas tendo à frente Monteiro Lobato impôs-se no
movimento cultural do país, como uma das melhores das mais sérias e das mais bem feitas
publicações no seu gênero. Editados, porém, dez números, os responsáveis pela excelente
revista tendo em vista as sugestões recebidas e a própria analise dos destinos e dos objetivos
de Fundamentos, resolveram imprimir a esse órgão um outro aspecto, tornando-o mais
acessível ao grande público em lugar de servir apenas a um reduzido número de privilegiados.
E é assim que o nº 11 referente a janeiro deste ano e já à venda em nossas livrarias se
apresenta como o primeiro dessa nova fase. De aspecto gráfico mais modesto, porém bem
cuidado, com o preço reduzido a metade do anterior essa novo número de Fundamentos
oferece aos leitores um farto material de leitura, sobre assuntos da maior atualidade e da
maior importância, a exemplo do oportuno estudo do sociólogo Caio Prado Junior a respeito
das Democracias Populares. E mais artigos de Edson carneiro sobre a “Significação Nacional
da obra de Arthur Ramos”, de Artur Neves sobre “Posições Socialistas”, de Eduardo Corona
sobre “Tiradentes de Portuária”, além de notas redacionais de contos e poemas de Guillen e
Rossine Camargo Guarnieri.
512
51.2. Revista Branca
Tr
Nas livrarias da cidade o nº 9, relativo a outubro/novembro, da Revista Branca, publicação
literária da Capital Federal, a cuja frente se encontra o contista Saldanha Coelho,
recentemente convidado pelo governo de Pernambuco para ali realizar conferência. Encerra
essa edição uma homenagem a Ruy Barbosa, trazendo, a respeito, um trecho do estudo
literário de Ruy sobre Swift, documentação fotográfica e artigos de Américo Jacobina
Lacombe, Homero Pires, Mario de Lima Barbosa e outros. Além disso, traz colaborações de
Bernardo Gerson, Haroldo Bruno, Eustáquio Duarte, Herberto Sales, alguns contos e poemas
e reproduções fotográficas de trabalhos do escultor baiano Mario Cravo Júnior.
51.3. Prêmio Fabio Prado
Tr
Encerradas que foram, em São Paulo, as inscrições para o disputado prêmio literário Fábio
Prado, a ser concedido a obras de ficção e de teatro. Grande foi o número de candidatos
inscritos, quer com os livros publicados, quer com livros inéditos, destacando-se entre eles no
terreno da ficção, o bom romance do baiano James Amado Chamado do mar, lançado há
pouco tempo pela Martins editora. Além desse inscreveram-se Confissões do meu tio
Gonzaga, de Luis Jardim. Vazante, de José Mauro de Vasconcelos e outros mais. Na parte do
teatro estão sendo destaque as seguintes inscrições: A mão e a aldraba, de Antônio D´Elia, a
Ciméria, de Osvaldino Marques e três peças de Miroel Silveira.
51.4. Depoimento
Tr
Dreiser é, com toda a justiça, apontado como o introdutor do realismo na ficção norteamericana. Seu realismo é muito cru, é verdade, mas nunca perde um certo colorido poético.
O mesmo que sucede em nossa literatura com Aluisio de Azevedo. Poderíamos realmente
comparar Dreiser ao autor de O Cortiço – mas um Aloísio mais profundo, mais filosófico e,
por isso mesmo, mais pesado e menos gostoso de se ler. A pesadez é ao meu ver o único
defeito que se pode apontar na obra de Dreiser. Seu estilo é o pior dentre os de todos os
grandes escritores do nosso tempo. Seus romances são, às vezes, fatigantes como relatórios,
Uma coisa porém os salva. São relatórios da condição humana (Rolmes Barbosa. Escritos
norte– americanos e outros. Liv. Do Globo, 1943, p.105)
51.5. (Nota sem título)
Tr
- Vultos e fatos da minha infância é o título do folheto de Theodomiro Jordão (Imprensa
Glória Bahia, 1942);
– Anuncia-se um novo romance de Cornélio Pena, autor que há pouco lançou Repouso. O
título do seu novo livro será A menina morta.
51.6. Estímulo à cultura
Res
O deputado Osvaldo Gordilho apresentou à Assembléia Legislativa um projeto de lei
criando prêmios de estimula às letras, artes e ciências. Incluiu nesta notícia a longa redação
destacando o valor da premiação para escritor, compositor, interprete e escultor. Os
concorrentes deveriam residir no estado há mais de dois anos. Para o comentarista, esse
projeto tem uma função encorajadora da “nova geração que vem realizando um movimento de
renovação e todos os setores da nossa cultura, embora não faltem os que tentam opor
resistência a esse movimento por saberem o que ele representa e as conseqüências que ele
acarreta”. Além disso, sugere algumas modificações a fim de dar ao projeto mais
“objetividade”, são elas: deveria haver um prêmio para trabalhos de ficção, um para teatro e
outro prêmio para ensaio; prêmios distintos para pintura e escultura; a inclusão de premiação
para trabalhos inéditos considerando as dificuldades de para a edição de livros; criação de um
prêmio anual para melhor revista de cultura publicada na Bahia e criação de um mecanismo
que pudesse impedir a interferência de fatores políticos que viessem falsear os resultados. As
sugestões visam complementar o projeto.
51.7. Novo livro
Res
A escritora parisiense Dephené de Maurier, autora de Rebecca, com o qual ganhou fama e
notoriedade, o mesmo possui uma versão cinematográfica, e de The Lowing spirit, ainda não
traduzido para o português, estava prestes a apresentar seu novo livro, um romance de
costumes intitulado The roring porties
51.8. Povoamento da cidade do Salvador
Res
Dando continuidade à série intitulada “Evolução Histórica da Cidade do Salvador”,
comemorativa ao IV centenário de Fundação da cidade, a Prefeitura editou a livro
Povoamento da cidade do Salvador, de autoria do prof. Thales de Azevedo. O livro é
elogiado pelo resenhista que, apesar de afirmar que o mesmo deve figurar na estante de todo
estudioso da matéria, não deixa de considerar que algumas controvérsias e discussões
poderiam resultar do relevo que o autor dá alguns dos fatores do nosso desenvolvimento.
51.9. Literatura infantil
Res
Repassa a noticia anunciada pelos jornais cariocas acerca da inauguração do I Salão de
Ilustrações para o Livro Infantil, instalado na ABI, sob o patrocínio do SACI-Sociedade dos
Amigos da Cultura Infantil. Para o evento, organizou-se algumas conferências; O escritor
Mario Cordeiro: O livro infantil; o escritor Martins D´Alvarez: a poesia na literatura infantil;
Darcy Evangelista: A criança e o livro; o escritor Paschoal Carlos Magno: teatro infantil e o
escritor Vicente Guimarães; o livro para a infância. O resenhista lamenta o fato de não se dar
a devida importância a esse tipo de literatura.
514
51.10. Rolland e Gorki
Tr
Oferecemos hoje, aos nossos leitores, as interessantes e justas opiniões que Gorki e
Romain Rolland tinham um do outro, ambos escritores dignos desse título por isso que
voltados para os grandes problemas humanos, ambos profundamente interessados no
progresso e na paz entre os povos. Disse Romain Roland. “A fraternidade que me liga a
Maximo Gorki é tanto mais digna de nota quanto viemos a encontrar-nos partindo de dois
pontos opostos do oriente. Ele, da velha Rússia, e de raça popular robusto e calejado. Eu, da
velha burguesia francesa, fraco de saúde mais de espírito inquebrantável. Ele aprendeu
gastando a planta dos pés em todos os caminhos. Eu gastando meu assento e meus cotovelos
nos bancos da Escola e das Universidades. E é fora de dúvida que materialmente Gorki levou
a vida mais rude, mas não é tão certo que tenha tido, moralmente, vida mais dura, pois ambos
tivemos que abrir caminho através de pântanos e florestas de preconceitos
52. Data
15/02/50;3
TÍTULO
Um mundo que não se entende...
Ontem, uma das emissoras da Capital federal divulgou, em caráter sensacional, a noticia de
que já se encontrava completamente curado o cidadão que há cinco anos passados na América
do Norte, assassinou sua esposa e foi considerado louco. E como poderia parecer para alegria
de uns tolos sentimentais como eu, que a justiça mandara curar o assassino para devolver ao
convício social, apressou-se o repórter radiofônico a acrescentar: Uma vez curado, conforme
atestaram os médicos e o juiz sentenciou, o homem será executado na cadeira elétrica, como
castigo pelo crime cometido há cinco anos.
Durante cinco anos os médicos trabalharam na reconquista de uma consciência perdida,
gastando o governo norte-americano, nesse cura cruel, parte do dinheiro arrecadado ao
público por intermédio dos impostos. Concluída a cura em lugar de devolver-se o cidadão à
coletividade, já que ele praticara o crime sem ter consciência disso, manda a justiça que ale
seja executado em pleno uso da consciência, para que realmente sofra o castigo do crime que,
conscientemente, não praticou. Em outras palavras manda a justiça que se assassine, fria e
cruelmente, um homem que matou a esposa em reconhecido estado de loucura.
Há quem possa defender o argumento de que não há nisso nenhuma maldade, que o
cidadão merece morrer porque matou e que somente um perfeito e acabado ignorante pode
estranhar e arrepiar os cabelos diante de fato tão simples. Quanto a mim, confesso que poucas
das últimas noticias me terão tocado tão profundamente e nenhuma como essa, me terá dado a
exata medida do absurdo, do cinismo desumano a que nós civilizados, estamos chegando.
Em todo caso, não há dúvida de que é uma providencia de alta sabedoria, inclusive por que
desopila o fígado de quantos andam aí amargurados com a tão falada destruição do mundo
pelas bombas de hidrogênio ou com essa noticia de recuperação e assassínio posterior do
matador de sua própria esposa, ou, ainda, com os sombrios destinos deste país que, afinal de
contas, com a economia no cafezinho do Presidente, embora o do público continue sabendo
cada dia mais, não vai tão mal assim...
53. Data
25/02/50;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
53.1. Homenagem ao Gênio
Tr
A Academia de Letras da Bahia vem de publicar o volume X de sua Revista, cujo diretor é
o acadêmico Alfredo Pimentel. A particularidade desse número, é que ele encerra uma
homenagem a Castro Alves, trazendo farta documentação das comemorações aqui levadas a
efeito em março de 1947, quando do centenário do gênio. Essa edição comemorativa, que é
um valioso documento histórico, foi organizada pelo diretor da revista com a colaboração e o
auxílio de uma comissão composta dos seguintes acadêmicos: Pinto de Carvalho, João
Américo Garcez Froés, Antônio Viana, Edith Gama e Abreu, Manuel Barbosa e Colombo
Spinola.
53.2. O pavilhão Flaubert
Res
A Biblioteca Gustave Flaubert, contendo objetos pessoais e apresentando uma atmosfera
do gabinete de trabalho, foi instalada no pequeno pavilhão à margem de Sena, neste lugar o
autor de Madame Bovary escreveu quase todos os seus livros, onde também recebeu a visita
de George Sand que lhe dedicou seu Dernier amouri e aí o ofereceu a Zola, e onde foi
sepultado.
53.3. Ensaios e estudos
Tr
Abandonando a poesia, gênero em que estreou na literatura como o livro Moema (1928)
Eugênio Gomes (Bahia, 1897...) transferiu suas atenções para a crítica, dedicando-se
principalmente ao estudo da literatura inglesa, dela se tornando apaixonado estudioso e um
dos mais elogiados conhecedores. Autodidata, nem por isso seus ensaios deixam de refletir
um espírito objetivo e uma aguda sensibilidade, revelando método de análise e de
interpretação de que é prova o seu H.D. Lawrence e outros (Editora Globo, 1937), livro que
lhe trouxe renome e prestígio no mundo das letras.
De sua autoria é o recente lançamento de IPE – Espelho contra espelho, estudos e ensaios,
volume que reúne estudos sobre as influências estrangeiras em Machado de Assis e vários
outros sobre reconhecidas figuras de literatura inglesa. Esse livro de Eugênio Gomes está
considerado o mais importante lançamento editorial no setor da crítica e do ensaio.
53.4. Poemas de Isgorogota
Tr
Judas Isgorogota é o estranho pseudônimo de um poeta alagoano radicado em São Paulo
516
cujo nome verdadeiro é Agnelo Rodrigues de Melo. Transbordantes de um lirismo, que
muitas vezes confunde com a pieguice, os livros de Judas Isgorogota trazem alguns bons
poemas embora o poeta se mostre sempre cada vez mais um místico que não cessa de
procurar seus horizontes ou realizar seus sonhos, sem que jamais consiga nem uma nem outra
coisa, tais os caminhos que resolveu seguir. A Editora Saraiva de São Paulo, está lançando as
obras de Judas Isgorogota, algumas já publicadas anteriormente, como é o caso de
Fascinação, 2ª ed. edição Saraiva, S. Paulo, 1950, com ilustrações de Messias e Beppi
Spolaor.
53.5. Cimarron
Tr
O volume XX da Coleção Saraiva, correspondente ao mês de fevereiro, é o romance
Cimarron, de Edna Febber (Kalamazoo, Michigan, EE.UU – 1887-...). Autora que tem
encontrado no cinema o maior divulgador de sua suas obras, inclusive com aversão desse
romance agora selecionado pela Saraiva. Edna Feber descobriu uma vocação literária através
do jornalismo, onde obrigada a trabalhar em virtude de ter o pai enfermo, começou como
repórter do Dally Crescent, de Appleton, com 2 dólares semanais, indo depois para o
Milwaukee journal e posteriormente para o Chicago Tribune. Com 23 anos escreveu seu
primeiro trabalho literário, um conto e, um ano depois, veio editada sua primeira novela,
Dawn Ohara. Daí em diante, seus triunfos foram sucessivos. Escritora aparentemente fácil e
sem maior conteúdo, suas histórias entretanto, estão penetradas de uma certa dose de crítica
social, segredo de seu sucesso, de que é exemplo So Big cuja tradução no Brasil Trigo e
esmeralda tanto êxito alcançou. Seu romance Cimarron, traduzido por Nair Lacerda, é a
história do estado de Okalahoma, com suas lutas pela posse de riqueza e de poder, escrita em
estilo agradável e com necessário senso de observação e de análise.
53.6. Miniatura
Tr
Tendo publicado apenas um livro Vila Feliz (1944), seu nome é mais conhecido no Brasil
do que o de muitos autores de dezenas de livros. Seu prestígio nos meios literários é um
fenômeno que a muitos espanta, e à sua residência se fazem verdadeiras romarias. Isso vem
do fato de ser Anibal Machado uma espécie de conselheiro e confidente de intelectuais e
artistas. E escritores, poetas, homens de cinema, sambistas e cientistas o estimam e respeitam
como um dos trabalhadores intelectuais mais honestos, esclarecidos e corajosos do Brasil.
Nasceu Aníbal Machado em Salará, Minas Gerais, no ano de 1893, casado, com filhos, não é
colaborador assíduo de jornais ou revistas, de quando em quando pronuncia um conferência,
escreve um prefácio ou um conto. Há vários anos anuncia um romance João ternura. Lírico
vulgar, e sua casa é tão freqüentada quanto o catete.
53.7. Depoimento
tr
“Castro Alves foi assim. Romântico e retórico: absuro e profético; genial e singular; na sua
mocidade perturbada, o reflexo das idéias que iriam governar o mundo; mas tão brasileiro,
poeta e estudante na vida e na obra. Que desta não lhe podemos separar o simbolismo em que
se engrandece. E o Brasil de vinte anos que canta suas odes, padece as suas angústias, ri suas
aventuras, e sonha com glorioso entusiamos os seus devaneios...”
(Pedro Calmon. Prefácio à História de Castro Alves, p.71)
53.8. [S/T]
(c/ fotografia de Adroaldo Ribeiro Costa)
res
Divulga o resultado da eleição da nova diretoria e do novo conselho fiscal da ABDE – secção
Bahia. A composição foi a seguinte: presidente: Adroaldo Ribeiro Costa; vice-presidente:
Antônio Loureiro; 1º secretário: Heron de Alencar; 2º secretário: Archimino Ornelas;
tesoureiro: Luis Henrique Dias Tavares; Conselho Fiscal: Arthur de Salles, J. Palma Netto,
Adalmir da Cunha Miranda, Vasconcelos Maia e Laura Austregésilo. Afirma que essa nova
diretoria assumiria os trabalhos preparatórios para a realização do III Congresso brasileiro de
escritores, iniciado pela diretoria anterior, tendo à frente o poeta Arthur de Salles e o então
vice e atual presidente. Finaliza anunciando a data da realização do Congresso e convocando
os escritores à participação.
53.9. Atividades da Unesco
Tr
Anuncia-se que representantes de 12 países e de suas organizações internacionais
estiveram reunidas na Maison e I´Unesco, a fim de examinarem o programa de tradução dos
clássicos estabelecidos pela Unesco. Já o diretor geral dessa organização Sr. Jaime Torres
Bodet, na mensagem que endereçou ao Comitê, quando da abertura de seus trabalhos, tinha
declarado que “após longos esforços preliminares, podia a Unesco, finalmente, realizar algo
no domínio de tradução das obras-primas clássicas do mundo”.
Seria interessante que os técnicos dos diversos países e organizações ali reunidas – Brasilm
China, Egito, estados Unidos, França, Índia, Itália, Líbano, México, países baixos, Inglaterra,
Suíça, a Liga árabe e a União Pan-americana – ao selecionarem as obras para traduzi-las
tivessem em mira as palavras do diretor geral da Unesco, referente ao problema das traduções.
53.10. J. B. Priestley
Tr
John Boynton Priestley é um nome pouco divulgado no Brasil. Entretanto, a posição
que ele ocupa na literatura inglesa justificaria um maior conhecimento de sua obra por parte
da nossa crítica e do nosso público. Considerado um moderno Dickens, seu prestígio vem do
fato de ser ele um escritor sempre interessado nos problemas de seu tempo e suas novelas são
sempre o espelho sincero do caráter britânico atual. Nasceu Priestley em Bradford, no ano de
1894, tendo combatido na França durante a primeira Guerra Mundial, após a qual regressando
à Inglaterra, cursou a Universidade de Cambridge. Durante a última guerra, J.B. Priestley
escreveu histórias radiofônicas que muito contribuíram para levantar a moral dos soldados
aliados. Ainda contribuindo para o esforço de guerra.
518
53.11. Versão de Miguel Torga
Tr
Com o título de Farrusco tha Blackbird, foi publicado em Londres um volume de contos
do popular escritor português Miguel Torga, pseudônimo de Adolfo Rocha, nascido a 12 de
agosto de 1907, em São Paulo, em S. Martinho da Anta, no distrito Trás-os-Montes. A versão
para o inglês foi feita por Dennis Brás que também escreveu uma introdução sobre o grande
escritor português, sendo a edição ilustrada pelo espanhol Gregotio Prieto, realizada por
George Allen E Unwin ltda., de Londres. Miguel Torga é sem favor uma das mais
importantes figuras da literatura portuguesa, tendo liderado sem eu país um movimento
progressista, com base no humanismo e no realismo concreto contra o realismo subjetivo à
moda de Proust que orientava as gerações de intelectuais portugueses.
53.12. Sartre e os norte-americanos
Tr
Escrevendo a respeito dos romancistas norte-americanos modernos como Steinbeck,
Hemingway, Fast, Faulkner, Caldwell e outros, Sartre diz que a análise à maneira e Proust e
James – processo referido pelos romancistas franceses – já não podia satisfazer nem
convencer num mundo em que as guerras e os campos de concentração se multiplicaram a
cada instante “Aquele processo, diz o papado existencialismo, não podia levar em conta a
morte de um judeu em Ausehvitz ou o bombardeio de Madrid pelos aviões de Franco” E
conclui afirmando que eram necessários novos métodos e novos temas.
53.13. Caderno da Bahia
Tr
Foram entregues à composição os originais de mais um número de Caderno da Bahia,
revista de cultura e divulgação, dirigida por um grupo de jovens intelectuais de nossa terra.
Esse número traz colaborações de Roger Bastide, Cerqueira Falcão, Luis Henrique, Cláudio
Tavares, Walter Silveira e outros e ilustrações de Cravo Jr.
54. Data
18/03/1950;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
54.1 Saltimbancos
(c/ fotografia)
tr
A Coleção Saraiva vai apresentar, como seleção do mês de março, o romance Saltimbancos,
de Afonso Schimidt, o consagrado autor de O menino Felipe e tantos outros sucessos, mercê
dos quais seu nome se fixou na história da nossa literatura, como um dos mais sérios e
fecundos escritores nacionais. Saltimbancos aborda o sugestivo tema da vida dos artistas de
circo e de teatro, mostrando a história de algumas das mais destacadas figuras da nossa
ribalta, suas lutas, suas glórias e sua decadência, e a crítica o anuncia como um dos pontos
mais altos da arte de Afonso Schimidt. Escritor conseqüente e sempre animado do propósito
de bem servir ao seu povo, Afonso Schimidt tem sido alvo, algumas vezes, do ódio, não só de
certos críticos literários, como de pessoas de outras esferas. Agora mesmo, o juiz de São José
dos Campos, São Paulo, o sr. Ricardo Couto, está movendo um processo contra o popular
escritor, julgando-se injuriado com uma frase publicada numa reportagem do jornal A crítica
do qual é diretor Afonso Schimidt. A frase que motivou o processo é a seguinte: “Os juízes ou
delegados ou são donos de terras ou parentes dos donos de terras, e por isso estão sempre a
favor dos tatuíras, contra os camponeses”. O repórter escreveu essa frase, ao relatar o caso de
um camponês que foi despejado da terra em que morava, perdendo sua roça d emilho e tendo
seu rancho de sapé queimado sem que a Justiça o protegesse ou amparasse. Embora a frase
não cite nominalmente o juiz, este se julgou ofendido e está movendo um processo contra o
diretor do jornal. O fato sobre representar um deliberado propósito de atingir pessoalmente
um escritor, em virtude da independência de suas idéias, é mais um exemplo de como se
procura abafar a liberdade de pensamento no Brasil, a fim de que as vozes que discordam das
injustiças e das arbitrariedades não se façam ouvir, esclarecendo o público.
54.2 Mark Twain
(c/desenho)
res
Sobre a exposição, realizada pela Universidade da Califórnia, das páginas originais dos
escritos de Mark Twain, pseudônimo de Samuel Larghone Clemens, jornalista e escritor
norte-americano. O material, composto de 45 cadernos de notas e diários e mais de 400
manuscritos literários do autor que escreveu sobre sobre a vida dos desbravadores norteamericanos do século anterior, fora doado por sua filha, Clara Clemen Samossaud. Autor de
Tom Sawyer e de Um ianque na corte do Rei Arthur, faleceu em 1910.
54.3 Poemas de Amor
Ainda nesta semana deverá ir para o prelo, na tipografia beneditina, outra próxima edição de
Caderno da Bahia. Trata-se, desta vez, de mais uam edição de luxo, limitada a 100
exemplares: Poemas de Amor, antologia de poetas brasileiros contemporâneos. Neste livro,
dedicado a subescritores encontrar-se-ão algumas das mais belas peças literárias do gênero, de
autoria de Alphonsus de Guimarães Filho, Aníbal Machado, Augusto Frederico Schimidt,
Bueno de Rivera, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Dante Milano, Emílio
Moura, Jamil Almansur Hadad, Joaquim Cardoso, Lêdo Ivo, Manuel Bandeira, Maira da
Saudade Cortezão, Maria Izabel, Mário de Andrade, Mário Quintana, Murilo Mendes,
Péricles Eugênio da Silva Ramos, Vinicius de Moraes e Wilson Rocha, cada qual
comparecendo com um poema. O livro será impresso a duas cores em papel “west-ledger” e
está enriquecido com ilustrações de Aldari Toledo, foi organizado por Pedro Moacir Maia,
destacado elemento do grupo de Caderno.
A iniciativa representa mais um elogiável esforço do grupo de jovens da Bahia, cujo
movimento de renovação cultural tem repercutido em todo o país.
520
54.4 Gide na Alemanha
(c/desenho)
tr
André Gide Completou, há pouco, oitenta anos de existência e nessa ocasião, declarou
à imprensa que tinha “uma grande necessidade de silêncio”. Apesar de sua avançada idade
Gide ainda se arrisca, devez em quando, a fazer viagens, embora seus médicos recomendem o
maior repouco. O autor de Imoralista, recentemente foi à Alemanha, a fim de assistir à
abertura do primeiro Congresso Internacional de estudantes realizado na Alemanha após a
guerra. 12 países estiveram presentes à essa reunião, cujo ´principal tema era “Alemanha e
França” e seu objetivo anunciado oficialmente, era o de “reforçar as relações entre os dois
países”.
54.5 Caderno da Bahia
tr
Dentro de poucos dias estará à venda o número 5 de Caderno da Bahia, revista de cultura e
divulgação da nova geração da Bahia. Do seu “sumário”, além do noticiário, de matéria sobre
o III Congresso Brasileiro de Escritores e outras notas, fazem parte as seguintes matérias:
História estético-musical da Bahia - Paulo Jatobá; latifúndio Devorante - Eliardo Farias;
Aspectos Filosóficos - Cachaça José Calasans; O segredo das ervas Roger Bastide; Conflito
ideológico na Biologia Vladimir Guimarães; Artes Plásticas na Bahia – 1949 – Wilson
Rocha; Histórias da Literatura Bahiana – Adalmir da Cunha Miranda; Conto de Luiz
Henrique Dias Tavares; ; Cinema - Walter da Silveira; poemas de Jacinta Passos; Aluízio
Medeiros e Sosísgenes Costa; ilustrações de Mário Cravo Jr., Poty, Carlos Thiré, Lygia
Sampaio, Jenner Augusto e outros.
54.6 III Congresso Brasileiro de Escritores
res
Notícias sobre a organização do Congresso a ser realizado entre 17 e 21 de abril daquele ano,
em Salvador. Como ato preparatório realizavam-se conferências. A primeira paltesra foi a do
escritor Achimino Ornelas, sobre “Ruy e as Liberdades”.
54.7 Depoimento
tr
“O romance brasileiro contemporâneo é, estou certo de escrevê-lo, um dos mais significativos
do mundo atual. Entre os seus cultores está Jorge Amado, romancista que assinou o seu
primeiro romance com dezoito anos e que aos vinte e cinco fechou, com Capitães de Areia,
um ciclo: os seis “Romances da Bahia”. Embora afastado de sua ideologia social e política,
aqui afirmo que Jorge Amado é, depois de Eça de Queiroz para cá, um dos maiores
romancistas da língua portuguesa e, se excetuarmos algumas pequenas hesitações de quem
não teve tempo, ainda, de adquirir uma experiência literária definitiva, aquele, de todos, que
mais penetrou na intimidade do HUMANO. Por isso, lhe chamo, conscientemente, ARTISTA
DO HUMANO e do PATÉTICO.”
(Manuel Anselmo, In: Família literária Luso-Brasileira, p.281, Liv. José Olímpio, 1943)
54.8 Febre de memórias
desenho)
(c/
tr
Uma febre de “memórias” está dominando certos círculos literários do país, como se a falta de
temas ou a incapacidade de apreender e recriar a realidade objetiva estivessem a obrigar os
escritores patrícios à elaboração de suas memórias pessoais, que pouca ou nenhuma
contribuição podem trazer ao conhecimento exato e à solução dos vários problemas que a
realidade nos oferece. A febre atingiu, também, a Graciliano Ramos, cujas “memórias”, em
três volumes, já estão sendo anunciadas. Graciliano, segundo notícias que nos chegaram da
Capital Federal, retomou a redação dessa obra, já em fase final, interrompido que fora, esse
trabalho, por um longo período de repouso físico do grande romancista, a isso obrigado em
virtude de moléstia.
54.9 Premiado Augusto Meyer
(c/ desenho)
res
O Prêmio Filipe d´Oliveira foi concedido a Augusto Meyer, autor de “Segredos da Infância”,
seu último livro, publicado no ano anterior. Ensaísta e poeta, Meyer exercia naquele ano as
funções de Diretor do INL.
54.10 Assembléia Geral da ABDE
res
Anuncia a Assembléia para a eleição dos delegados baianos ao III Congresso Brasileiro de
escritores. Reproduz o edital de convocação distribuído à imprensa.
54.11 A menina Morta
desenho)
(c/
tr
Em 1943, Cornélio Pena publicou mais um romance, Repouso, reputado pela crítica como um
dos melhores lançamentos daquele ano. O fato despertou maior interesse em virtude do longo
silêncio literário de Cornélio Pena, escritor que trabalha com vagar, sem pressa, tendo editado
até agora apenas uns quatro ou cinco livros. Não é sem certa surpresa, portanto, que os
suplementos literários estão divulgando a notícia do próximo lançamento de mais um
romance do autor de Nico Horta, cujo título será A menina Morta.
54.12 Na Academia Goncourt
res
Noticia a eleição do novo presidente da Academia Goncourt, Sr. Pierre Orlan, pseudônimo de
Pierre Dumarchey (1883-?). Foi autor de Lês pattes eu l´air, seu primeiro livro, publicado em
1911. Algumas de suas obras foram ao cinema, dentre elas Quai dês Brumas e La Bandera.
522
54.13 “Stevenson House”
(c/desenho)
res
Comenta a homenagem prestada, pela América do Norte, ao escritor escocês Robert Louis
Stevenson (1850-1894), autor de A ilha do tesouro e O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr.
Hyde, este último levado ao cinema com o título de O médico e o monstro
55. Data: março/1950
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
OBS: exemplar sem condições de uso no IGHB. No exemplar consultado na Bilbioteca
Pública do Estado, nos Barris, faltam as páginas do dia 25 a 30 deste mês.
56. Data
08/04/50;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
56.1. Biografia de um poeta esquecido
Tr
O escritor baiano Antônio Loureiro de Souza, diretor do Arquivo Municipal e vicepresidente da secção baiana da ABDE, deverá lançar, dentro de poucos dias, o seu segundo
livro. Tendo publicado Baianos Ilustres, já esgotado e com excelentes referências da crítica
nacional, Antônio Loureiro de Souza vai editar, agora, uma apreciação biocrítica sobre o
esquecido poeta baiano, Pedro Barros, um inspirado lírico quase que completamente
desconhecido dos nossos contemporâneos. Sobre o poeta cuja obra se encontra esparsa, esse
estudo de Loureiro de Souza é fruto de paciente trabalho de pesquisa, e, nas cem folhas de que
se comporá, o autor focaliza a vida e a obra de Pedro Barros, transcrevendo os poemas que
conseguiu reunir.
56.2. Literatura norte-americana
res
Sobre um inquérito promovido pela Universidade da Flórida a respeito de qual o melhor
livro norte-americano da primeira metade deste século, o resultado foi o empate em 1º lugar
dos livros Tragédia Americana, de Theodore Dreiser e E o vento levou de Margaret Mitchell,
considerado honroso por HA já que, apesar da "diferença flagrante", Dreiser concorreu com a
máquina cinematográfica. Para Halencar, Dreiser é de qualidade superior e o segundo livro é
uma literatura fácil e superficial. Nesse mesmo inquérito, Sinclair Lewis foi considerado “o
autor que fez a maior contribuição para a literatura norte-americana na primeira metade do
século”. Para HA essa afirmação pode ser contestada mas é inquestionável que o autor de
Babbit seja um dos bons romancistas da América do Norte.
56.3. Cultura brasileira
res
Sobre a tradução inglesa do livro de Fernando de Azevedo, intitulado Cultura Brasileira.
Foi a tradução feita por William Rex Crawford, estudioso interessado no Brasil. O livro foi
considerado por HA um sumário da cultura brasileira escrito com "inteligência e erudição"
56.4. Apoio ao III Congresso
res
Nota sobre a visita a Salvador e a conferência proferida por Saldanha Coelho e Haroldo
Bruno a convite do Caderno da Bahia e da UEB. Prestaram declaração acerca do Congresso
de escritores a ser realizado no mês corrente. Haroldo Bruno – ensaísta e crítico e Saldanha
Coelho – contista; na nota estão inclusos trechos da conferência referente ao Congresso.
56.5. Edições Caderno da Bahia
res
Anuncia as edições para o ano corrente. São: Pássaro de sangue, poesia de Claúdio Tuiuti
Tavares, ilustrações de Aldo Bonadei; Contos da Bahia, de Vasconcelos Maia; O tempo no
caminho, poesia, de Wilson Rocha, ilustrações de Aldo Bondei; Poemas de Amor, antologia
de poemas de amor de autores brasileiros contemporâneos, organizada por Pedro Moacir
Maia, edição de luxo, ilustrações de Aldari Toledo; Momentos da literatura, de Adalmir da
Cunha Miranda, e uma edição póstuma de um poema de Enoch Santiago Filho.
56.6. Presença de Lincoln
res
Sobre a publicação de The Lincoln Encyclopedia em comemoração anual do aniversário de
seu nascimento, constando reunião de cartas, discursos e outros documentos.
56.7. Depoimento
tr
“O artista pode pensar que não serve à ninguém, que só serve à Arte, digamos assim. Aí
está o erro, a ilusão. No fundo, o artista está sendo um instrumento nãso mãos dos poderosos.
O pior é que o artista honesto, na sua ilusão de arte livre não se dá conta de que está servindo
de instrumento, muitas vezes para coisas terríveis. E o caso dos escritores apolíticos, que são
servos inconscientes do fascismo, do capitalismo, do quinta colunismo”.
524
Mário de Andrade
56.8. Flagrantes
res
Divulgação de eventos e lançamentos:
-
Passos cegos, de Milton Pedrosa;
-
a Revista Europe, francesa, publicou um poema de Solano Trindade, poeta negro do
Brasil;
-
Introdução às poesias de Rodrigues de Abreu, de autoria de Domingos Carvalho da Silva,
poeta;
-
Congresso da ABDE, seção Bahia: notas sobre a recepção baiana, o entusiasmo nos outros
estados e as manifestações de apoio.
56.9. A nova diretoria
res
Eleição da nova diretoria da secção nacional da ABDE. eleitos: presidente – Álvaro
Moreyra; vice – Carlos Sussekind Mendonça; 1º secretário – Fernando Segismundo; 2º
secretário – Miécio Tati; tesoureiro – Ary de Andrade; Conselho fiscal – Cleto Seabra Veloso,
Edison Carneiro, Edmar Morel, Graciliano Ramos e Moacir Werneck de Castro.
56.10. Joaquim Nabuco e os Universitários
res
Inquérito promovido pela Revista Branca indagando o contato que os jovens universitários
tiveram com a obra de Nabuco e as influências recebidas. Destaca a resposta mais
significativa, na visão da Revista, dada por um estudante de direito que abordou a questão
política, aproveitando o inquérito para fazer uma crítica aos governantes e políticos do Brasil.
As respostas, ou melhor, o resultado geral das respostas foi considerado negativo pelo fato de
os estudantes demonstrarem ignorância em relação à questão.
56.11. Voz de fraternidade e de paz
res
Lançamento de The poetry and prose of Walt Whitman (EE.UU. 1819-1892). Considera-o
revolucionário na forma e no conteúdo e um nome da literatura universal.
57. Data
06/05/50;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
57.1. A participação dos novos
Tr
Um dos fatos altamente significativos do Terceiro Congresso de Escritores, foi a ativa
participação dos escritores novos, que formavam a maioria em quase todas as delegações que
aqui vieram. Discutindo nas comissões, formando posição nos debates em plenário,
contribuíram os escritores novos para maior vitalidade da reunião, fato que por si só falaria
em favor da grande significação que o Congresso teve e tem para a literatura nacional. E está
claro que um congresso de escritores não alcançaria plenamente seus objetivos, se dele não
participassem aqueles que, jovens ainda, se iniciam na literatura atraídos por indeclinável
vocação e, amanhã, serão os continuadores da obra dos que hoje trabalham para dar ao Brasil
uma literatura à altura de suas gloriosas tradições de amor à cultura e à liberdade. Seria
fastidioso citar o nome de todos os escritores novos que participaram do Congresso. Basta
salientar os de Sãoo Paulo, entre os quais estavam André Carneiro, Cézar Nêmolo e o jovem
Aca[i]aba, os de Minas, como Wilson Figueiredo e Edmur Fonseca, do Ceará como Eduardo
Campos, e tantos outros de outros estados, cuja presença no Congresso foi um dos fatores de
seu sucesso.
57.2. Terra de Santa Cruz
Tr
João Muniz, conhecido poeta baiano, foi um dos delegados da Bahia ao Terceiro
Congresso de escritores. De sua autoria é o recente Terra de santa cruz, editado pela Imprensa
Oficial do Estado, capa de Jaime Hora e ilustração de Fernando Diniz Gonçalves. Terra de
santa cruz é um longo poema [ ? ] a acidentado história da Bahia, desde o "sonho do Infante
Casarão de Sagres", até a epopéia grandiosa de Dous de Julho. Em versos de autêntica
inspiração, em ritmos variados, João Muniz consegue reconstruir e fazer desfilar a civilização
baiana, do seu nascimento à mais gloriosa de suas páginas, oferecendo-nos um belo poema
histórico, realização que aumenta de muito o seu prestígio e o seu renome.
57.3. O famoso barão
res
Sobre a participação do Barão de Itararé no Congresso. Destaca o quanto foi requisitado
durante o evento, suas conferências, entrevistas e autográfos, tendo destaque sua teoria do
sono. HA não detalha o teor da teoria.
57.4. Grande figura
res
526
Sobre a participação, atuação do poeta paulista Rossine Camargo Guarnieri no Congresso.
Alvo de homenagens, classificado como inteligente e vivo por HA, autor da Voz do grande
rio, livro de poesias, discursou sobre a poesia hermética a participante, tomando como
exemplo Pablo Neruda, a quem o Congresso prestou moção de solidariedade.
57.5. Revistas
res
As revistas que noticiaram o Congresso: Caderno da Bahia, 5º número mais suplemento;
Fundamentos, 13ºn., com artigos de Moacir Werneck de Castro: “Literatura de decadência”;
Paratodos, 3º n.
57.6. O presidente do Congresso
res
A presença de Álvaro Moreyra no Congresso, comenta ainda seu "discurso-crônica"
pronunciado na sessão de encerramento do Congresso. Considerado por HAlencar como
"exemplo de síntese e propriedade no escrever".
57.7. Jovens em ação
res
Sobre a revista literária Tentativa, de São Paulo, editada por Cézar Nêmolo, que lançou um
concurso de contos; HA inclui na matéria as bases do concurso apresentado em 10 tópicos.
57.8. A delegação baiana
res
Discorre sobre o trabalho das comissões do Congresso e da contribuição dos delegados
baianos. Cita os seguintes com respectivas atuações: Adroaldo Ribeiro da Costa; Hélio
Simões; Vasconcelos Maia; Wladimir Gumarães; Antônio Loureiro; James Amado; Luiz
Henrique; Palma Netto; Adalmir da Cunha Miranda; Archimino Ornelas e Soares de
Azevedo; Acácio Ferreira; Cravo Júnior.
57.9. Problemas da arte e literatura
res
Publica trechos da tese do romancista Dalcídio Jurandir, Problemas da arte e literatura.
São trechos que abordam o debate sobre as tendências e perspectivas da literatura brasileira,
perspectiva histórica; a busca "de temas populares e nacionais para a criação artística" que
tem como fonte o povo.
57.10. Presença do "Major Graça"
res
Presença de Graciliano Ramos no Congresso. Considera-o um dos maiores romancistas do
Brasil. destaca o fato de ter sido perseguido e preso. Para HA o “popular escritor está mais do
que nunca intimamente ligado com os problemas de sua profissão e com os problemas de seu
povo, ao contrário de muitos intelectuais que preferem a comodidade da torre de marfim e
nada produzem”.
57.11. Galeão Coutinho
res
Lançamento de Conferências de D. Marcolina, pela Saraiva, de Galeão Coutinho. Outros
livros: Vovó Morungaba e Simão o caolho; gênero predileto do escritor, a sátira, participou do
Congresso.
58.Data
20/05/50;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
58.1. Notas do Congresso
Tr
Eggidio Squeff, ex-pracinha, correspondente de guerra brasileiro, é escritor e jornalista de
renome em todo o país. Delegado do Distrito Federal ao terceiro Congresso, aqui também
esteve como repórter do jornal a que pertence, fornecendo diariamente, noticiário sobre as
atividades do Congresso. Ao regressar, Squeff escreveu uma série de "Notas do Congresso",
que vêm sendo publicadas pela imprensa carioca. De uma dessas "notas", destacamos os
seguintes trechos: "Os delegados paulistas têm o gosto intelectual do debate. Não há dúvida
de que vão ajudar muito os trabalhos do Congresso. Caio Prado Júnior tem um perfil
irrequieto de águia. A tarde, reuniu-se a Comissão de Assuntos políticos. Acácio Ferreira,
professor da Faculdade de Filosofia da Bahia, discute com caio Prado, demoradamente, sobre
o conhecimento e a consciência em face do problema da liberdade, " descemos a rua Chile.
Um cidadão dirige-se para Alvaro Moreyra de braços abertos:
- Então, que há de novo?
Álvaro sorri cordial, passada a surpresa do primeiro instante, e respondeu:
- O nosso conhecimento..." .
58.2. Fábio Prado – 1949
res
O resultado do concurso de romance e novela patrocinado pela ABDE, seção São Paulo,
denominado "Prêmio Fábio Prado", favoreceu Antônio Olavo Pereira (SP) com o romance
Contra a mão. Comissão julgadora: José Geraldo Vieira, Carlos Burlamaqui Kopke e Osmar
Pimentel. Menção honrosa para: Chamado do mar, de James Amado (BA); confissões do meu
tio Gonzaga, de Luiz Jardim e Recuo do meridiano, inédito, de João Pacheco.
528
58.3. Reedição de Thomas Hardy
trans
Thomas Hardy (1840-1928) é considerado, sem nenhum favor, um dos maiores escritores
da Inglaterra, sendo a sua obra, que compreene novelas, contos, drama e poesia, legítimo
patrimônio das letras inglesas. Dentre os escritores classificados como “regionalistas”, é
comum a citação de Hardy em primeiro lugar, como o maior de todos eles, quer pelo
revolucionarismo de seu estilo e de sua técnica, quer pela coragem com que sabia enfrentar os
temas que a realidade lhe oferecia, tratando-os com realismo que escandalizou seus
contemporâneos. Grande é o interesse que a obra de Thomas Hardy desperta entre os leitores,
razão porque a MacMillan resolveu reeditar todas as novelas de Hardy, em sua “Library
Edition”. Já foram publicadas, Tess of the D´urbevilles e Jude the obscure, em outubro
passado, The return, of native e Far from the maing crowd, em novembro, e, em princípios
deste ano, The Woodlanders, The major of caster-bridge, The trumpet-major e Under the
greenwood tree.
58.4. A história de Trapp
res
The story of the Trapp Family (A história da Família Trapp) livro de Maria Augusta
Trapp, lançado nos EU. Grupo que forma o Côro Trapp, 11 membros da família. HA comenta
o côro e o livro.
58.5. Três novelas
res
A editora Pan Books td., de Londres, reuniu em volume 3 novelas de J.B. Priestley, com o
título geral Three time plays. HA escreve sobre o autor, "uma das marcantes figuras da ficção
inglesa, embora ainda pouco conhecida no Brasil".
58.6. Opinião sobre Ruy!
Tr
A propósito do centenário de Ruy Barbosa, baiano que é patrimônio do Brasil, muita coisa
se escreveu e se disse a respeito dessa grande figura do nosso pensamento. Ainda há pouco, o
Sr. Rubem Nogueira, autor do livro O advogado Ruy Barbosa, recebeu do diretor da casa de
Ruy a "medalha Ruy Barbosa", pela contribuição que emprestou às comemorações do
centenário. E, como conversa puxa conversa, vale a pena transcrever um pequeno trecho da
reportagem que, sob o título "Newton Cavalcanti integralista ainda é facista de 1937 até hoje",
publicou a Tribuna da Imprensa, edição de 6 de abril deste ano, jornal cujo diretor é o sr.
Carlos Lacerda. O trecho, à página 2, coluna 6ª, terço inferior é o seguinte: "Na 'a ofensiva',
para a qual o general Newton Cavalcanti era o 'o condensável', um sr. Rubem Nogueira
escrevia: Ruy Barbosa em confronto com o Plínio Salgado, mediocriza-se (15 de setembro de
1937)".
58.7. Menino Felipe
Tr
Classificado em primeiro lugar no concurso de romances patrocinado pela revista O
Cruzeiro, (prêmio de sessenta mil cruzeiros) de cuja comissão julgadora faziam parte os
escritores Álvaro Lins, Ciro dos Anjos e Marques Rabelo, o romance Menino Felipe, de
Afonso Schimidt, aparece agora em primeira edição, após haver sido publicado em capítulos
pelo semanário carioca patrocinador do concurso. Trata-se de um romance autobiográfico, no
qual Afonso Schimidt focaliza sua infância numa cidade do interior paulista, dentro do estilo e
na técnica que lhe tornaram um dos mais renomados escritores nacionais, desde sua estréia,
com Janelas abertas, em 1912. Detentor de vários prêmios literários, Afonso Schimidt tem
publicado numerosas obras, romances, contos, poesias, peças para o teatro e, recentemente,
escreveu um argumento para um filme nacional. Afonso Schimidt foi um dos delegados de
São Paulo ao Terceiro Congresso de Escritores aqui realizado no mês passado, e faz parte da
Comissão de redação da revista Fundamentos.
58.8. Flagrantes
Res
-
Distribuição do 22º volume de Coleção Saraiva: romance A borboleta azul (Lê petit
chose), de Alphonse Dauret, tradução de José Geraldo Vieira
-
Mundos mágicos, de A L. Nobre de Melo: ensaios sobre Proust, Dostoievski, Gide e
outros, pela editora José Olympio
-
Periódico Imprensa, nº 11, dirigido por Luiz Ernesto Machado Kawall.
-
Atualidades pedagógicas, revista, publicada pela Companhia Editora Nacional.
-
Aves de caça do estado de São Paulo, Emílio Varoli, publicado pela Saraiva.
-
1º volume da trilogia Iremos longe demais, de Antoni di Monti, esse 1º livro tem o título
Não sei se voltarei.
-
Memoriais de um Sargento de Malícias, a ser lançado, de Silvino Lopes, escritor
pernambucano.
-
Auto do possesso, de Haroldo de Campos, publicação do Clube de Poesia de São Paulo. O
clube já havia publicado Poemas, de Cyro Pimentel e Ângulo e Face, de André Carneiro.
-
Terra morta, de Castro Soromenha (Portugal)
-
The write horse, de Mervyn Savil (tradutora) – autora: Elsa Triolet
530
58.9. Tesouro de livros raros
res
A Biblioteca Nacional de França recebe a coleção de Henri de Rotchild, com cerca de
cinco mil volumes. Halencar comenta a importância do fato e alguns livros da coleção.
59. Data
03/06/50;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
59.1. Homenagem ao poeta
(c/ fotografia)
Tr
A “Associação Brasileira de Escritores”, secção Bahia, está organizando uma homenagem
ao poeta Artur de Sales, seu presidente durante dois exercícios e uma das mais eminentes
figuras das letras baianas. Inicialmente, a ABDE designou uma comissão, da qual fazem parte
o Prof. Adroaldo Ribeiro da Costa, o poeta Hélio Simões, o escritor Walter da Silveira, o prof.
Acácio Ferreira, o poeta Cláudio Tavares, o contista Luiz Henrique, o escritor Soares de
Azevedo e outros, comissão que tem a incumbência de entrar em entendimento com outras
agremiações culturais e com outros nomes da intelectualidade baiana, no sentido de que
apóiem a participem da homenagem de inteira justiça que a Bahia vai prestar a Artur de
Salles, lírico cantor do nosso povo e da nossa terra. A homenagem ao autor de Sangue mau,
que representa o pagamento de uma dívida da Bahia a um dos seus filhos ilustres, será uma
bela noite de festa dos poetas e escritores baianos. Sua data, local e programa serão
oportunamente anunciados, a fim de que o público em geral dela participe, emprestando-lhe
maior brilho e expressão.
59.2. Outro sucesso
(c/ fotografia)
Tr
Depois do sucesso que obteve com a publicação de The harpin the sout, livro que lhe valeu
o prêmio de duas mil libras no concurso promovido pelo Sydney Morning Journal, em 1948,
Ruth Park lança, agora uma outra novela, em que continua a narrar, como na anterior, a
melancólica vida de um subúrbio de Sydney, através do estudo da vida de uma família. Tratase de Pour Mans orange, editado por Angus & Robertson, Sydney, Austrália, livro que a
crítica de Londres vem registrando com referências elogiosas.
59.3. Lançamentos de “Caderno”
Tr
Deverá estar pronta na próxima semana a Antologia – talvez a primeira no gênero a ser
editada no Brasil – de poemas de amor, organizada por Pedro Moacir Maia para Caderno da
Bahia que, ampliando sempre suas atividades culturais, lançará assim o primeiro volume de
sua coleção “Dinamene”, de livros impressos a duas cores, em ótimo papel, formato grande, e
ilustrados. Incluindo vinte poetas brasileiros contemporâneos e contando com preciosos
desenhos de Aldari Toledo, Poemas de amor está sendo impresso na Tipografia Beneditina,
desta cidade, sendo de notar que se foi totalmente composta a mão – coisa rara, hoje! -, com
tipos “Garamond”, corpo 12. Mais valor terá essa edição, em virtude de sua tiragem reduzida.
100 exemplares dos quais apenas 70 serão adquiridos por subscritores, que, devido ao seu
bom gosto disporão logo de uma verdadeira raridade bibliográfica. “Caderno da Bahia”
pretende expor em local e data a serem anunciados as ilustrações oferecidas gentilmente por
Aldari Toledo. Caderno tem programados, ainda, outros lançamentos de belos livros, como A
canção de amor e morte da Porta Estandarte Cristóvão Rilke, de Rainer Maria Rilke
(traduzido por Nathanael de Barros e ilustrado por Guignard); Cartas de amor a Sóror
Mariana (a reconstituição feita por Jaime Cortezão e ilustradas por Remina Katz); e Sonetos,
de Camões, com “Carvões” de Mário Cravo Jr.
59.4. O poeta da Turquia
res
Sobre a notícia de libertação do cidadão turco Nazim Hikmet, condenado pela ditadura
Inonu. O Governo alegou erro judiciário à sua condenação. Nazim Hikmet, grande poeta da
Turquia, considerado para a sua pátria como Neruda era para o Chile, Guilen para Cuba, Elard
para a França e Albert para a Espanha, “uma vítima dos atentados à liberdade de opinião”.
59.5. Depoimento
Res
De Guilhermo de Torre, sobre a poesia militante ou política, sendo um gênero como
qualquer outro, legítimo. Cita Victor Hugo, Maiakowski, Bérenguer, Carducci e Walt
Whitman, além de Antônio Machado. Ensaio In: L aventura y el orden, (ensaio intitulado
“Poesia y exemplo de Antonio Machado”, Losada, Buenos Ayres, 1942, p. 116
59.6. O drama de Eugene O’Neill
Res
Filho de atores, nascido no ano de 1888, em plena efervescência da Broadway, o destino do
jovem Eugene O´Neill haveria de ser marcado pelas terríveis influências que recebeu desde
o nascimento. Adolescente ainda, viu-se em luta com a morte, vítima da tuberculose. Aos 18
anos, expulso da Universidade de Princeton, entrega-se ao álcool com a volúpia de um
apaixonado. Casa-se aos 20 anos, bebe demasiadamente nas núpcias, e três dias depois, já sua
esposa requeria divórcio. Segue-se um breve período no jornalismo e na Universidade de
Harwa, após o qual volta ao álcool, sendo outra vez expulso da Universidade. Procurando
cumprir seus sonhos, faz-se embarcadiço e ruma para a América do Sul. Leva-lhe um
naufrágio à ilha de Honduras, onde tenta fundar um Império. Sua vida é, então, um rosário de
trágicas aventuras. O álcool e as rameiras dos portos do Atlântico e do Pacífico são os mais
íntimos companheiros do jovem e magro marinheiro, que recita Baudelaire e fala em
532
Shakespeare nos boteqins mal iluminados e esfumaçados. Dois anos bastaram para que, um
dia, em Buenos Aires, o sangue lhe chegasse à boca, vindo dos pulmões. Volta à América e é
internado no sanatório. Aí começa a meditação, o desejo de contar ao mundo tudo o que sabia
e o que havia conhecido. Dominado por essa irresistível vontad, sobrevive à moléstia, volta
ao jornalismo e vai encontrar no teatro o melhor veículo de comunicação com o mundo. Vêm
suas obras, nas quais é quase sempre o mar o personagem central. Além do horizonte e Anna
Christie são consideradas obras primas. Seguem-se Estranho Intermédio e Enlutada torna-se
Electra, pontos altos do trabalho e O´Neill, grandes marcos do teatro moderno da era
capitalista. Sua visão de mundo é amarga e cruel. Como que envolto em denso nevoeiro, não
enxerga, por um instante apenas, a salvação da espécie. Tudo caminha, inelutavelmente, para
a destruição. Dada a sua origem, as circunstâncias de sua vida acidentada, não podia ser outro
o caminho de seu pensamento. O mundo de O´Neill, ao qual ele mesmo pertencia de corpo e
alma, é um mundo em decomposição, caminhando para o fim, e isso está em todas as suas
peças. Visceralmente ligado a esse mundo, que se vai destruindo com as próprias forças que
criou e não pôde dominar, O´Neill era inacapaz de ver, além do nevoeiro, a salvação, os
novos horizontes, a nova vida. E porque fosse disso incapaz, e porque entendesse não haver
salvação, foi obrigado a viver, ele mesmo seu próprio e desesperado drama, cujo final se
iniciou desde 1946, quando foi estreada sua última peça, The iceman comet. Desde então
acometido de “delirium tremens”, chega agora aos últimos instantes, sem qualquer esperança
de salvação. Grande escritor, prêmios Nobel e Pulitzer, foi vítima, como tantos outros, de uma
retrógrada concepção do mundo e da vida que encontra no desespero, no suicídio, as únicas
soluções para os problemas do mundo.
59.7. Flagrantes
Tr. – O poeta baiano Argileu Silva, autor de As pérolas, já entregou à Imprensa Oficial os
originais de seu novo livro de poemas, intitulado Noite.
Tr. – “Agir Editora” publicou Angústia e paz do religioso Fulton J. Sheen, um dos principais
doutrinadores católicos da América de hoje.
Rs. – Lançamentos: livro de Marques da Cruz: Eça de Queiroz, a sua psiquê; de Fernando
Alegria, escritor chileno: Lautaro, jovem libertador e arauco; de Pe. Vieira: A arte de furtar.
Rs – Tradução por Moacyr Werneck de Castro: Major Bárbara e Homem e Superhomem, de
Bernard Shaw.
Rs. - Lúcio Cardoso vai publicar: Reaparição de Inácio, romance, em capítulos em um
vespertino carioca.
59.8. Livro “Misterioso”
Res
Lançamento do livro de Ernest Hemingway, conhecido autor de Por quem os sinos
dobram, em NY, título do novo livro: Misterioso, dado o silêncio mantido pelo autor em torno
do livro. HA comenta o percurso do autor.
59.9. O Huxley místico
Res
Sobre Aldous Huxley, nome projetado no cenário internacional, considerado um dos mais
projetados escritores contemporâneos. Prêmio Nobel de Literatura. Anuncia o livro Themes
and variations, já havia publicado antes o livro Contraponto.
59.10. Edição Clã
Tr
O movimento literário cearense é um dos mais fecundos do Brasil, e tem como centro de
gravidade a revista Clã, que congrega os nomes mais expressivos da atual geração de
escritores cearenses. De simples revista de cultura, Clã, passou a ser, também, editora,
divulgando a obra de grande número de escritores, como Eduardo Campos, Aluízio Medeiros,
Martins d’Alvarez, Mozart Spzinac Aderalo, Veríssimo de Melo, Raimundo Girão e Antônio
Girão Barroso. Teatrólogos, ficcionista, folcloristas e poetas.
60. Data
08/07/50;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
60.1. [S/T]
res
Texto sem título sobre Monteiro Lobato. Coloca que é um nome que sempre existirá na
literatura brasileira, nunca será esquecido. Cita personagens do sítio do Pica-pau amarelo e
critica a falta de atividades ou referências que homenageiem seu nome.
60.2. Pássaro sangue
Tr
Já está em nossas livrarias, numa excelente apresentação, o livro de poemas de Cláudio
Tavares, Pássaro Sangue, edição de Caderno da Bahia, com ilustrações de Aldo Bonadei. O
jovem poeta, que nasceu em Timbauba, Pernambuco, a 24 de maio de 1922, reuniu nesse
volume 31 poemas de sua autoria, desde os já produzidos há alguns anos até os dias mais
recentes, como a conhecida Balada para Zélia. Jornalista profissional, destacado colaborador
das revistas de cultura do país, Cláudio Tavares é um dos diretores de Caderno da Bahia, a
jovem e já vitoriosa revista que aqui se edita, e dele disse Murilo Mendes: “Cláudio Tuiuti
Tavares, poeta de fortes possibilidades, portador de marca pessoal, simpático tipo de lutador
equilibrado”. Seu livro será, para muitos, uma surpresa. É que a poesia de Cláudio Tavares
não é fácil de ser entendida. Acentuadamente hermética, escapa à compreensão do leitor
comum, que dificilmente penetrará sua essência ocultada quase sempre por imagens e
símbolos de difícil e trabalhosa apreensão. Nesse, e sem que isso constitua restrição absoluta
à sua arte, deve Cláudio Tavares libertar-se das fortes influências que tem recebido de certos
autores, que fazem da poesia, não um poderoso instrumento de comunicação com o povo,
534
mas, ao contrário disso, um jogo esotérico de palavras bem ou mal arrumadas, jogo que é uma
deliberada tentativa de fuga da vida.
60.3. Baiano premiado
Tr
A Academia Brasileira de Letras vem de distinguir um escritor baiano, concedendo-lhe um
dos prêmios que, periodicamente, distribui aos melhores escritores nacionais, nos diversos
gêneros literários. Coube ao baiano Antônio Loureiro de Souza, nome já bastante conhecido
em nosso meio, o prêmio “Carlos de Laet”, no valor de dez mil cruzeiros, pelo seu livro
Baianos ilustres, que já se encontra esgotado e que, no Congresso de História da Bahia,
merecera unânime parecer favorável do plenário. O escritor Antônio Loureiro de Souza é uma
das mais destacadas figuras do nosso meio intelectual; jornalista, diretor do Arquivo
Histórico, é, também, vice-presidente da Associação Brasileira de Escritores, secção da Bahia.
A Academia Brasileira de Letras telegrafou ao escritor bahiano, comunicando-lhe à sessão
solene da entrega da laurea.
60.4. Teatro de crianças
tr
Quando Adroaldo Ribeiro da Costa pretendeu levar ao palco a hoje famosa Narizinho, não
faltou quem lhe quizesse tirar da cabeça a iéia. Entretento, a sua iniciativa marcou época,
como uma das mais ousadas e bem sucedidas realizações já tentadas no Brasil, no campo de
teatro de crianças. Tendo como arcabouço histórias de Monteiro Lobato, com música do
próprio Adroaldo e do maestro Agenor Gomes, mais de uma centena de crianças viveu no
palco do “Guarany” um admirável sonho de beleza, que o público não se cansou de apreciar.
Agora, vai o professor Adroaldo Ribeiro Costa continuar aquela sua realização, apresentando
à Bahia a revista Infância, de sua autoria, e para isso conta com uma excelente equipe de
auxiliares, como o maestro Agenor Gomes, o professor Álvaro Zózimo, e outros do mesmo
modo interessados no êxito dessa nova iniciativa. Infância será apresentada, nos próximos
dias 15 e 16, no auditório do Instituto Normal, e nela atuarão cento e cinqüenta crianças. E a
julgar pelo que se tem visto nos ensaios, o êxito será maior do que o de Narizinho. Não há
dúvida de que realizações dessa natureza devem merecer o apoio de todos os quais se dizem e
realmente são amigos da cultura. Mercê delas, são as crianças orientadas no sentido de melhor
desenvolverem suas qualidades, sua inteligência, e de cultivarem as tradições artísticas de seu
povo. A música de Infância, por exemplo, é toda folclórica, com algumas adaptações, pelo
que por si só diz dos altos objetivos desse empreendimento.
60.5. Depoimento
tr
“O que sobretudo me chamou a atenção no sr. Dionélio Machado foi um traço que mais
tarde haveria de acentuar-se consideravelmente – a preocupação de salientar o drama do
homem, não na sua caracterização local, mas na sua expressão permanente. Era uma
tendência realizada com modéstia, sem dúvida, mas bastante significativa como reação ao
sentido localista que então ainda prevalecia na ficção rio-grandense. A nota psicológica
entrava a ganhar terreno sobre as receitas já gastas, mas ainda teimosas, do regionalismo
guachesco. Quaisquer que sejam as imperfeições que se possam observar na estrutura de seus
contos, agita-se nas suas páginas, o pensamento de alguém que já sentiu na própria pele o
contato com a vida e se dispõe a prestar o seu depoimento”.
(Moisés Velhinho. Letras de Província. 1. ed. Globo, Porto Alegre, p. 80 e 81)
60.6. Sem título
res
- Conferências do escritor francês André Maurois que estará colhendo material para um
livro sobre D. Pedro I, além de uma biografia de Matarazzo.
- Miguel Torga com Paraíso – farsa em quatro atos e Portugal;
- Romance de Edmond About intitulado O Homem da orelha rasgada, lançado pela Editora
Saraiva no volume 24 de sua edição.
- Bete Alan com o romance Alma de heroína, lançado no volume n. 9 da Coleção Rosa das
edições Saraiva.
60.7. A metade brasileira de Thomas Mann
res
Afirma que muitos críticos vêem Thomas Mann como "o maior romancista vivo e maior
homem das letras da Alemanha do nosso século". Destaca sua filiação materna, que é
brasileira e faz um resumo do seu percurso intelectual. Transcreve trecho de uma carta
enviada por Mann ao jornalista tcheco Carlos Lustig-Prean (SP), na qual coloca ter ouvido
falar das belezas do Brasil por sua mãe, de ter sofrido a influência latino-americana e do seu
desejo de visitar o Brasil.
60.8. Amostra de G.B. Shaw
res
Sobre o posicionamento de Shaw ao movimento liderado pelo comandante Oliver Locker
contra a extração das amígdalas. A notícia foi retirada de um suplemento literário londrino.
60.9. Os escritores e a política
Tr
A política partidária continua a atrair escritores, que facilmente trocam “o estranho ofício
de contador de história” pela cômoda porém nem sempre respeitável posição de políticos
influentes mais ou menos desocupados. Tal não é o caso de Érico Veríssimo, um dos raros
escritores brasileiros que se têm mantido fiel à literatura e vivendo exclusivamente às custas
da profissão de escritor. Ainda agora, solicitando o seu pronunciamento a respeito do partido
socialista brasileiro, Érico Veríssimo dirigiu ao Sr. Farias Guimarães, um dos dirigentes da
seção gaúcha do PSB, uma interessante carta, da qual extraímos os seguintes trechos:
"Atendendo ao seu pedido, quero manifestar-lhe nesta carta meu pensamento político e social
sobre o partido Socialista Brasileiro. Há muito que acompanho com simpatia e admiração o
pensamento político e social de Bertrand Russel, filósofo e matemático inglês, e um dos
pensadores mais lúcidos do nosso tempo. Sua filosofia social me parece perfeitamente
536
consubstanciada no programa do Partido Socialista Brasileiro, que advoga socialismo sem o
sacrifício da liberdade e da dignidade do indivíduo. Por tudo isso, estou ideologicamente com
vocês. Só minha incapacidade para a disciplina partidária e mais os afazeres do meu estranho
ofício de contador de história me impedem de ser membro militante do partido de João
Mangabeira."
61. Data
15/07/50;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
61.1. Euclides em Dinamarquês
Tr
É fato sabido que a nossa literatura, por diversos motivos, é bem pouco conhecida no
estrangeiro sobretudo na Europa. Raros são os escritores, como Jorge Amado, Érico
Veríssimo e uns poucos mais, que têm seus livros traduzidos e editados em outros países. Daí
a satisfação com que se deve receber a notícia de que Os Sertões, de Euclides da Cunha,
indiscutivelmente uma das maiores, senão a maior obra da nossa literatura, foi publicada na
Dinamarca, há poucos meses. Traduzido por Richard Hansen e ilustrado por Ib Anderson, o
livro de Euclides foi editado pela Wesfermann, de Copenhague, e o sucesso desse lançamento
tem sido registrado por quase todos os jornais dinamarqueses, tendo um deles observado: “A
literatura e a vida intelectual do Brasil até o presente pareciam-nos bastante desconhecidas,
mas, agora existe, em dinamarquês, uma das maiores obras em tempos modernos, em
tradução primorosa.”
61.2. O céu é meu destino
res
A Editora Globo, cujo representante na Bahia passou a ser a Livraria Civilização
Brasileira, acaba dde lançar, em sua coleção Nobel, numa tradução de Rolmes Barbosa, a
admir´vale sátira Heaven´s my destination, de Thornton Wilder, (1897 - ...) novelista e
dramaturgo norte-americano, do qual já havia sido traduzido anteriormente A Ponte de São
Luiz Rei, livro que obteve nos Estados Unidos apreciável êxito. Dedicando-se mais ao teatro
do que À novela, possivelmente em virtude dos espetaculares sucessos de suas peças, como
Our Town em 1937 (Prêmio Pultizzer de Teatro, 1938) e The skin of our teeth, em 1943,
Thornton Wilder publicou em 1935, o livro que agora a Globo fez traduzir e editou, com o
título O céu é meu destino. Trata-se da curiosa e acidentada história de Jorge Brush, jovem
caixeiro viajante cheio de fé, de virtudes e manias, espécie e D. Quixote do século XX que a
todos assombra com as suas excêntricas idéias. Brush lembra Judas Fawloy, O obscuro, de
Thomas Hardy, e sua história não pode ser lida com desinteresse ou indiferença. Thorton
Wilder, mais próximo do fino huorismo inglês do que do realismo fotográfico de seus
patrícios contemporâneos, oferece-nos cenas à altura de seu renome de dramaturgo, nas quais
toda a tragi-comicidade da luta de um homem com a sua fé e com os seus semelhantes reponta
com admirável precisão. Dono de um estilo sóbrio, porém elegante, o autor de O céu é meu
destino consegue sugerir aos leitores toda a amarga ironia da vida de Jorge Brush, jovem
intoxicado por uma fé absolutamente fora de seu tempo e de seu mundo, pacifista, pregador
da pobreza voluntária e discípulo de Gandhi, incapaz de perceber a inutilidade de “sua” lógica
diante da lógica da realidade em que vive. O céu é meu destino, pelo mundo de sugestões e de
reflexões que nos oferece, é uma novela que vale a pena ser lida, e páginas como as referentes
ao Tribunal e aos preparativos do casamento não são encontradas com muita freqüência.
61.3. Kinfolk
res
Título do livro de Pearl S. Buck, romancista londrina, que publicou Pavilhão de mulheres.
A escritora, segundo Halencar, tem como tema predileto a China e seus problemas. O crítico
resume o eixo central do romance.
61.4. A biblioteca de Afrânio Peixoto
Tr
Algumas das grandes bibliotecas brasileiras particulares têm sido dispersadas, após o
desaparecimento de seus respectivos donos. Assim aconteceu com a de Eduardo Prado, com a
de Cândido Mendes, e com a de outros nomes igualmente ilustres. Merece aplausos, pois, o
gesto da viúva de Afrânio Peixoto, que acaba de doar a biblioteca do escritor e cientista
baiano à Universidade do Brasil. Com essa atitude, presta a ilustre dama uma homenagem à
memória de seu marido, resguardando a sua preciosa biblioteca.
61.5. Exposição de poesia
Tr
Informa-se que os poetas baianos estão cogitando de realizar, nesta Capital, a Primeira
Exposição de Poesia, empreendimento que certamente despertará o maior interesse nos
círculos intelectuais do Estado. Como se sabe, a primeira exposição de poesia no Brasil, foi
realizada, há algum tempo, na cidade de Recife, em Pernambuco, tendo a iniciativa obtido
ruidoso sucesso, repercutindo favoravelmente nos outros estados, que logo trataram de
reproduzi-la.
Agora, chegou a vez da Bahia. Os nosso poetas vão efetuar uma reunião preparatória, a fim
de discutirem as bases para a organização da curiosa Exposição, esperando-se que, dentro de
pouco tempo, o público possa apreciar essa inédita mostra de poesia.
61.6. Depoimento
res
Trecho do texto: Anselmo, Manuel. Família literária luso-brasileira. José Olympio, Rio,
1943.Pg.224. Sobre o romancista Ferreira de Castro, de Portugal.
61.7 Flagrantes
res
538
- Romance de Érico Veríssimo, O tempo e o vento, 1º volume, em 2ª edição;
- Ligia Fagundes Teles concluiu mais um romance;
- Rosário Fusco procura editor para o romance Carta a Noiva;
- Jamil Almansur Haddad traduziu Odes Anacreonticas;
- Lúcia Benedetti ganhou o prêmio de teatro da ABL com a peça O casaco encantado;
- Olegário Mariano com Últimas cigarras em 6ª edição, ilustrada por Noemia Guerra;
- Ronaldo Hingley tem sua biografia de Chekow publicada pela editora londrina George
Allen e Unwin ltda.
61.8 O Nobel de 1950
Res
Observa a concorrência do prêmio ser grande pelo fato de que em 1949 nenhum escritor têlo adquirido. Cita um dos nomes cobiçados do prêmio: William Faulkner (1897), amigo e
protegido de Sherwood Anderson. Halencar cita os elementos que fazem de Faulkner um bom
candidato, inclusive ser considerado por Dickinson um dos mais expressivos nomes da
‘geração revolta’.
Outro nome, candidato inscrito, é Ortega y Gasset, filosófo e ensaísta espanhol.
61.9 Concurso de contos e novelas
Res
Concurso internacional organizado pela New York Herald Tribune, com apoio da Unesco,
garantido pelo diretor-geral Sr. Jaime T. Bodet.
61.10 As mulheres vencem
res
Dinah Silveira de Queiroz recebe o prêmio, pela ABL, “Afonso Arino de Melo Franco”, de
1950, destinado a contos e novelas. O livro premiado ainda está inédito: As noites do morro
do encanto. A comissão era composta por Sr. Rodrigo Octávio Filho, relator, Celso Vieira e
Clementino Fraga.
61.11 Poemas de amor
Res
Título de mais de uma edição do Caderno da Bahia; antologia organizada por Pedro
Moacir Maia, reunindo 20 poemas de autores brasileiros contemporâneos, ilustrada por Aldari
Toledo.
61.12 A morte de um grande poeta
Tr
A 29 de junho último, o Brasil perdeu um poeta, fato que para muitos não é motivo de
tristeza. Entretanto a morte de um poeta é sempre uma coisa triste e lamentável num mundo
louco como o nosso, e ainda mais quando o poeta é Da Costa e Silva e sua morte, aos 65 anos
de idade, vem como dramático epílogo de uma vida pontilhada de infortúnios. Filho do Piauí,
Da Costa e Silva surgiu no panorama da nossa literatura quando os chamados neo-simbolistas
e os parnasianos, embora dominando a cena da poesia nacional, sentiam que uma nova
tendência procurava abrir caminho na estrada gasta da poesia segundo fórmulas e receitas.
Escritor provinciano, vinha armado de alguns contos e sonetos, entre os últimos figurando um
que hoje tem lugar obrigatório em qualquer antologia, “Saudade”. Estreou com Sangue, em
1908, em 1917 publicou Zodíaco e uma plaquete dedicada ao belga Verhaeren, do qual
recebeu fortes influências, em 1919 editou Pandora, em 1927 Verônica, e, daí por diante,
somente em 1934 viria a aparecer a sua Antologia. A essa altura, porém, o poeta já se
encontrava irremediavelmente enfermo, acometido de um mal que chegou a pressentir no
“Canto do Bêbado, dizendo: “E temo certas vezes que endoudeço a minha triste e feissima
cabeça coroada de estrelas e de rosas”. Recolhido ao seu retiro na Tijuca, onde faleceu,
silenciou o poeta, nunca mais dele se ouvindo falar. Do antigo cidadão que pontificava nas
rodas literárias que freqüentavam, no Rio ou em Belo Horizonte, para onde lhe levara a
profissão de Funcionário da Fazenda nenhuma outra notícia, senão a de que vivia no tumulto
interior de sua loucura, desamarrado dos homens e do mundo. Seu nome, mais ou menos
desconhecido dos jovens, desperta, entretanto, nas gerações mais velhas, lembranças
melancólicas. Sua morte vem como que ressuscitar a impressionante figura do poeta de há
trinta anos passados, despreocupado boêmio que esbanjava talento noite apos noite nos bares
por onde passava. E é possível, com a sua morte, retornem os críticos e públicos à sua obra,
que indubitalvemente tem lugar de grande projeção em nossa literatura.
OBS.: Na mesma página foram publicados dois poemas de Da Costa e Silva, são os que
seguem abaixo
Saudade
Saudade, o olhar da minha mãe rezando,
O pranto lento deslizando em fio.
Saudade, amor da minha terra, o rio,
Cantiga de águas claras soluçando.
Noites de Junho o caboré com frio
Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando,
E ao vento as folhas lívidas cantando
A saudade imortal de um sol de estio.
Saudade – aza da dor do pensamento,
Gemidos vãos dos canaviais ao vento
E as mortalhas de névoa sobre a serra
Saudade – o Parnaíba, velho monge,
As barbas brancas alongando e ao longe
O mugido dos bois de minha terra.
A moenda
Na remansosa paz da rústica fazenda
540
À luz quente do sol e à fria luz do luar,
Vive, como a expiar uma culpa tremenda,
O engenho de madeira a gemer e a chorar.
Ringe e range, rouquenha, a rígida moenda
E, ringindo e rangendo, acena a triturar,
Parece que tem alma, advinha e desvenda
A ruína, a dor, o mal que vai, talvez, causar...
Movida pelos bois tardos e sonolentos,
Geme, como a exprimir, em doridos lamentos,
Que as desgraças por vir sabe-as todas de cor.
Ai! dos teus tristes ais! Ai! Moenda arrependida!
- Álcool! Para esquecer os tormentos da vida
E a cavar, sabe Deus, um tormento maior!
62. Data
29/07/50;5
TÍTULO
Seção Caleidoscópio
62.1. Anuário Crítico de literatura
Tr
Haroldo Bruno, jovem crítico literário e um dos diretores da Revista Branca, que aqui
esteve há alguns meses, realizando conferências sob o patrocínio da Secretaria de Educação,
está organizando um Anuário crítico de literatura, que deverá ser lançado em princípio de
1951. Tem essa publicação o objetivo de divulgar, coordenar e sistematizar as atividades
literárias do país, trabalho realmente necessário, dada a nossa carência de informações, no
particular. O plano desse trabalho compreende três partes, “Colaborações”, “Documentários”
e “Bibliografia”e a sua execução contará com o auxílio de um Conselho Fiscal, no qual
estarão presentes os críticos e ensaístas Álvaro Lins, Augusto Meyer, Eugênio Gomes e,
possivelmente, Tristão de Atayde. A direção do Anuário crítico de literatura está solicitando
às editoras, bem como aos autores que realizam suas próprias edições, que remetam as
revistas ou os livros aparecidos, ou a aparecerem até dezembro do ano em curso, para a rua
Santa Luzia, 732, sala 1105, D. Federal, a fim de que possam eles a ser registrados no
Anuário.
62.2. Candidato à Academia
res
Com a morte do Profº Alberto de Assis cogita-se candidatos à vaga, na ALB, da cadeira
cujo patrono é Marquês de Abrantes. Os inscritos até o momento são: Afonso Ruy e
Elyowaldo Chagas de Oliveira. As inscrições já estão encerradas. Halencar faz um breve
curriculum dos candidatos.
62.3. Literatura e política
res
Escritores que são candidatos a deputado: Adonias Aguiar Filho, autor de Os servos da
Morte; Franklin de Oliveira, cronista – no prelo Concerto para piano e Josué Montelo de A
luz da estrela Morta
62.4. Major Bárbara
res
Sobre a peça de G.B.Shaw encenada em Londres e que após a 1ª representação provocou
reboliço, considerando-se um insulto ao Exército da Salvação. A obra teve tradução em
português de Moacir Werneck de Castro para as Edições Melhoramentos.
62.5. Depoimento
trans
“E das nonas rimas de Spencer, dos versos de Warner, das páginas de Holinsched e de
outras obras surgiu o Rei Lear de Shakespeare. Ficaria o velho rei bretão vagando de página
em página, de cena em cena, de verso em verso, silencioso e esquecido, se o sopro do gênio
não lhe insuflasse a vida poderosa com que há três séculos domina o teatro ocidental.”
(SALES, Artur de. Prefácio ao vol X de “Clássicos Jackson”, Macbeth e Rei Lear de
Shakespeare, tradução de Artur de Sales e J. Costa Neves, pgs. XXII e XXIII)
62.6. Flagrantes
res
-
Lançamento de uma biografia de Afrânio Peixoto por Leonídio Ribeiro.
Manuel Bandeira redigindo suas memórias, título previsto: Itinerário de Pasargada.
Alberto Camus terá seu livro La Peste, traduzido e lançado pela editora José Olympio.
John Gonto Fletcher suicidou-se, autor de Montanha em Fogo.
62.7. Castro Alves e Mickiewicz
res
A ABDE lança concurso de Ensaio e Poesia, sobre as afinidades existentes entre os dois
autores. Objetivo: promover o intercâmbio entre o povo brasileiro e o povo polonês.
Transcreve regulamento do concurso e premiação.
62.8. Os 10 maiores
Tr
542
Paulo Rónai, o excelente tradutor e estudioso de Balzac, refugiado europeu e hoje
naturalizado brasileiro, foi chamado a indicar, no suplemento literário do Correio da manhã,
os dez maiores romances da literatura universal. Rónai apresentou a seguinte lista: 1Educação sentimental, de Flaubert; 2- O primo pons, Balzac; 3- Guerra e paz, de Tolstoi; 4Crime e castigo, de Dostoiewski; 5- O vermelho e o negro, de Stendhal; 6- Viagens de
Gulliver, de Swift; 7- O progresso, de Kafka; 8- Os miseráveis, de Victor Hugo; 9- Ana Edef,
de Kosztolanyi; 10- A família malavoglia, de Verga.
62.9. A história de um caminhão
(c/desenho do autor)
trans
Richard Llewellyn tornou-se conhecido no Brasil principlamente em virtude da versão
cinematográfica do seu famoso romance, Como era verde o meu vale. Agora, ao que se
anuncia, Richard Llewellyn publicou outro romance, intitulado A Few flowers for shiner,
cujo lançamento foi registrado peloas suplementos e revistas literárias com notas elogiosas. A
Few flowers for shiner é a história de um caminhão de guerra e seus ocupantes, no final da
campanha da Itália, e o próprio caminhão é um dos personagens mais curiosos do romance.
62.10.Biblioteconomia
res
A Biblioteca Central da Universidade de São Paulo, sob a direção da bibliotecária Maria
Luiza Monteiro da Cunha, está coligindo material para a Bibliografia Bibliotecologia
Brasileira, incluindo artigos e livros sobre biblioteconomia. Organizada com a cooperação do
Inst. Nacional do Livro, que tem como diretor o poeta e ensaísta Augusto Meyer.
62.11.A secreta mentira de Sherwood Anderson
trans
A literatura norte-americana encontra em Sherwood Anderson (1876-1941) uma de suas
notáveis figuras,s endo sua obra preciosa contribuição ao movimento de renovação que nela
se processou, com o chamado período realista. Antes dele, poucos, como Dreiser à frente
ousavam romper a tradição, o convencionalismo. A maior parte apegava-se à técnica e À
temática do passado, sem sequer enxergar e muito menos interpretar a nova realidade,
impressionante realidade da época do industrialismo. Sherwood Anderson, percebendo com
indisfarçável melancolia o despontar dos novos tempos, e sentindo muito de perto os seus
efeitos no desprevenido homem das ruas – era um deles – foi o escritor que, com voz mansa e
desencantada, porém com vigor e independência, começou a falar dessa nova era, de suas
conseqüências na psicologia do cidadão norte-americano. Tendo sido vendedor de jornais, de
pipoca e amendoim, rapaz de estábulo e empregado num armazém de fumo, trabalhador de
uma plantação de couve e funcionário de um hipódromo, foi nas ruas e nas praças públicas
que recolheu a imensa experiência, mercê da qual viria a ser depois um grande escritor. Uma
tarde, já homem feito, casado e gerente de uma fábrica de tintas em Elyria, Ohio, interrompe
uma carta que está ditando para a secretária, sai do escritório e durante muito tempo dele não
se teve notícias na cidade. Atendera ao irrecusável apelo de sua vocação de escritor,
abandonando tudo a que até então estivera ligado. E é assim que, em 1916, aos quarenta anos
de idade, estréia com Windy Mcpherson´s son, livro que levou Dreiser a encorajar o autor para
a aventura literária. Em 1917 publica Marching men e em 1919 lança Winesburg, Ohio,
considerado a sua maior obra e de cuja repercussão nasceu, principalmente, o seu enorme
prestígio literário. Isso o animou a lançar, logo no ano seguinte, outro grande livro, de técnica
mais amadurecida e agitando o problema dos brancos arruinados no sul, Poor White, ao qual
se seguiram outros, inclusive um de poemas. De todos eles, porém a crítuca apponta como o
mais expressivo Winesburg, Ohio, pelo vigoroso e sugestivo quadro que oferece da vida da
sociedade do centro norte-americano. E é esse livro que a “Globo” oferece agora ao público
brasileiro, como o volume 81 de sua Coleção Nobel.. A essa edição da “Globo”, traduzida por
James Amado e Moacir Werneck de Castro, e com uma introdução de James Boyd, foi dado
um outro título que não o original, Winesburg, Ohio. Resolveram os editores dar ao livro o
título de um dos seus mais belos episódios, A secreta mentira, história que reflete toda a
impressionante visão patética que do mundo tinha Sherwood Anderson. Se é condenável o
fato de não se dar a um livro traduzido seu título original, pela confusão que isso pode trazer
aos leitores menos avisados, a verdade é que nesse caso a mudança foi benéfica, pois o título
de A secreta mentira, sobre pertencer ao próprio texto do livro, a ele empresta o verdadeiro
sentio da notável obra de Sherwood Anderson, como talvez não o fizesse o original.
A secreta mentira não é um romance e não pode ser rigorosamente classificado como um
simples livro de contos. São fragmentos, episódios aparentemente dispersos e sem unidade da
vida de Winesburg. Liga-os, porém, o mesmo sentimento de frustração, de malogro diante da
“grande ilusão de industrialismo”. Escritas no original, suave e musicado estilo que
caracteriza toda a obra de Sherwood Anderson, as histórias de A secreta mentira diferem
daquelas que nos contam Dos Passos, Steinbeck, Caldwell, Fast e outros, pois nelas, ao
contráriio do que acontece nestas, os dramas e as dores, os sofrimentos e as angústias, como já
disse alguém, são contados “quase num murmúrio”
63. Data
04/11/50;5
TÍTULO
GBS
Tr
No dia de Finados, como qualquer outro dia, em todas as partes do mundo, muitos homens
terão morrido. Perto de Londres, porém, ainda era madrugada e o frio e a bruma não se
tinham ido, morreu um homem que há algumas horas agonizava. Durante noventa e quatro
anos viveu neste mundo, que nem sempre o compreendeu e nem sempre quis aceitá-lo.
Contudo, ele era o mais autêntico representante de uma humanidade que não deseja nem
merece perecer. E sua vida foi o mais surpreendente e um dos mais edificantes espetáculos
dos nossos tempos. Foi, toda ela, um inteligente protesto. Uma original atitude de renovação.
Um inigualável esforço de vencer o tempo e, com ele vencer os preconceitos, as convenções e
as injustiças.
Escrever era o seu ofício e era também o seu divertimento. Jamais, porém, escreveu sem
estar seguro do que escrevia e sem estar certo de que, com o que escrevia, participava da vida
e procurava engrandecê-la. Suas opiniões tinham o condão de perturbar e de comover.
Irritavam tanto quanto sensibilizavam, porém, nunca foram nem poderiam ser recebidas com
indiferença. Calavam fundo onde quer que chegassem. Sua ironia foi tornada lenda, e todos
544
reconhecem que ela se alicerça sempre na piedade, no amor ao próximo, e nunca no desprezo
ou no ódio. Suas críticas, carregadas de sarcasmo e desencanto, representam a mais otimista
esperança num mundo melhor e mais justo, numa vida mais digna de ser vivida.
Irreverente e perturbador, esse homem era um irlandês, segundo ele próprio, “vegetariano,
mentiroso, tagarela e socialista”.O que ele deixa para a humanidade, porém, não pode ser
avaliado com facilidade. Seus livros e peças, seus artigos e conferências, são um tesouro de
cuja grandeza, em toda a história do mundo, haverá raríssimos exemplos. Depois de
Shakespeare, o teatro teve nele o seu maior nome. E os homens não têm notícias, após Swift e
Voltaire, de uma ironia tão fina e tão sutil.
Seus noventa e quatro anos de vida são a mais irrecusável afirmação de juventude e
lucidez. Dele se dia que era contraditório e sem crenças definitivas. Nenhum outro elogio lhe
poderia ser mais alto do que essa acusação. Por ser jovem, já ancião de barbas brancas e
acreditar no progresso e na evolução como resultado da luta entre forças contrárias, é que era
contraditório e não tinha crenças nem dogmas; era um constante receptivo às últimas verdades
e, no momento mesmo de aceitá-las, já estava procurando as outras que os novos tempos
iriam revelar.
Esse homem morreu na madrugada do Dia de Finados e, de agora em diante, nesse dia, o
mundo inteiro chorava algo mais do que a morte dos homens que se foram, em todos tempos.
Chorará a morte de um homem que se chamou, que se chama e sempre se chamará GEORGE
BERNARD SHAW.
64. Data
28/04/1951;9
TÍTULO
Caleidoscópio
64.1. Prêmio de poesia
Tr
O nome de Enoch Santiago Filho (1920-1945) tem lugar de relevo na história da literatura
contemporânea da Bahia. Embora filho do vizinho estado de Sergipe, foi aqui que iniciou sua
formação cultural e aqui escreveu seus primeiros trabalhos, tendo sido aluno de nossa
Faculdade de Direito. Roubou-lhe a morte, porém, inesperada e brutalmente, quando contava
apenas 24 anos, uma insopitável destinação de poetas. E aí então, reunidos em livros por
Zitelman de Oliva, os versos jamais revistos que escreveu sem qualquer preocupação, como a
provarem que o tempo e a experiência dele fariam um poeta como poucos o podem ser. E
parte de sua obra reflete a atitude dos moços de seu tempo, frente aos problemas políticos e
sociais, frente à luta contra o nazi-facismo que então acendia a chama de uma guerra mundial.
Sua poesia está cheia de entusiasmo revolucionário, de compreensão e de solidariedade
humana, traduzindo com honestidade e coragem, os princípios que orientavam a luta dos
jovens de sua geração. Nada mais justo, pois, que lhe preste a mocidade da Faculdade de
Direito as homenagens de que é merecedor. E tanto mais significativa essa homenagem
quanto se traduz na instituição do Prêmio Anual de Poesia Enoch Santiago Filho, prêmio cuja
instituição é um dos pontos do programa de trabalho do candidato vitorioso à presidência do
Centro Acadêmico Ruy Barbosa, da Faculdade o jornalista e escritor Adalmir da Cunha
Miranda.
64.2. Noel Coward
Res
HA desculpa-se por ter informado erroneamente, no número anterior da coluna, que Noel
Coward seria norte-americano, já que o mesmo é de origem inglesa. Apresenta dados da
produção do referido escritor.
64.3. Episódios Históricos
tr
“A investigação da origem da propriedade privada de extensas terras sulinas de Mato
Grosso, componentes do planalto da Cordilheira de Amambaí entre os rios Ivinheima e
Iguatemi, como as do planalto ao norte do Ápa, estas e aquelas outrora disputadas ao domínio
eminente do Brasil pelo governo do Paraguai, levou o autor a pesquisas históricas que se
prolongaram por cerca de um decênio. Começadas em fevereiro de 1923, estenderam-se a
dezembro de 1926, quando interrompidas para serem reencetadas em janeiro de 1944. agora
ultimadas.
A iniciativa não foi espontânea, nem tampouco estimuladas por pendores naturais.
Cometera-se de começo ao autor a sua intervenção ocasional como advogado incumbido de
recolher do direito de Mato Grosso em pleito judicial em que aquela propriedade fora
controvertida. Posteriormente impôs-se a necessidade de completar as pesquisas outrora
iniciadas.”
Com essas palavras, inicia o sr. Mario Monteiro de Almeida o seu volumoso trabalho,
agora editado sob o título Episódios históricos da formação geográfica do Brasil – fixação
das raias com o Uruguai e o Paraguai – Pongetti, Rio, 1951, 630 (inclusive anexos, mapas e
fac-símiles). Baiano, jornalista, militante, tendo atuado durante muitos anos na imprensa
baiana, de onde se transferiu para a da Capital Federal, Mario Monteiro de Almeida é dono de
um estilo fluente, o que torna acessível e de certo modo agradável a leitura de seu trabalho.
Obra de pesquisa histórica, podendo, por isso mesmo estar sujeita a controvérsias de
documentação e de interpretação, Episódios históricos da formação geográfica do Brasil é
valiosa contribuição ao estudo do processo de desenvolvimento nacional, passando a figurar
como uma das fontes obrigatórias de consulta para os interessados na matéria.
O estudo de Mario Monteiro de Almeida, que traz à lume documentos ainda não
divulgados sobre trechos dos nossos setores está dividido em três partes: a primeira de análise
dos episódios históricos de nossa formação geográfica que o autor dividiu em 27; a segunda,
sobre a disputa da propriedade privada, e a terceira, contendo a minuciosa história dos
supostos latifundiários do barão de Antonina.
64.4. Flagrantes
tr
-
Mormaços d’alma (Imprensa União, Bahia, 1951, 82 pgs.) é o título do livro de versos do
sr. Geraldo Alves Martins, prefaciado pelo sr. Clodomir Morais, da Acad. de Letras de S.
Paulo. O livro reúne 26 produções do autor.
546
-
-
De autoria de Vicente Brome e editada pela Longmans, de Londres, aparece uma
biografia de H.G. Well, considerada pela crítica como uma das melhores contribuições do
estudo da personalidade de Wells, desde o seu falecimento, em 1946.
Acaba de sair o n. 37 da Revista brasileira de estudos pedagógicos, órgão de estudos e
pesquisa do Ministério da Educação, editada pelo INEP. O novo número dessa publicação
oferece um bom material de leitura e estudo, inclusive um ensaio de Félix Ibanez, sobre
“Psicopatologia dos mitos e lendas dos contos infantis”.
Já está publicada a 2ª edição de Cascalho, romance do baiano Herberto Sales, agora quase
que totalmente reescrito, podendo mesmo ser considerado um novo livro.
O jornalista e escritor norte-americano Edward Tamlinson realizou uma viagem de
estudos ao Brasil, colhendo dados para uma obra sobre os nossos costumes e tradições. O
livro Tomhinson está sendo anunciado na América para talvez ainda este ano.
64.5. O otimismo de Anatole France
res
Comentários sobre críticas que são feitas à obra de Anatole France, as quais falam das
diferentes temáticas trabalhadas pelo autor. Quando jovem, críticas ferozes, quando idoso,
atitude otimista diante da vida e do futuro – o que segundo as críticos faz parte de “um
colapso de inteligência e lucidez” – reflexão, esta, não aceita pelo colunista.
64.6. Um bom conselho
Res
Elogio ao escritor norte-americano Jack London (1876-1916); informa, também, que
apesar dele não ser bem aceito pela crítica sua obra é de grande importância para a arte.
64.7. Ângulos
Tr
Em circulação o segundo número da revista Ângulos, órgão de cultura do Centro
Acadêmico Ruy Barbosa, de nossa Faculdade de Direito, cujo número de estréia alcançou
grande êxito, não apenas nos círculos universitários, mas, nos meios intelectuais do nosso e de
outros Estados. Dirigida por Adalmir da Cunha Miranda, jovem crítico já bastante conhecido
do público e que durante muito tempo manteve uma secção literária no matutino Diário de
Notícias, apresenta-se Ângulos com o seguinte sumário: “A participação política do estudante”
(editoral) – Adalmir da Cunha Miranda. “A reforma do código comercial” - prof. Josaphat
Marinho. “Minha formação” – Harold Laski. “A aurora da filosofia grega” - A. L. Machado
Neto. “Considerações sobre o moderno conceito da taxa” - Sylvio Santos Faria. “Parecer” prof. Lafayette Ponde. “Poemas XIX” e “Maldições” – Enoch Santiago Filho. “Sobre Enoch
Santiago Filho” - redação. “Amorosa” - Paul Elward – tradução de Jair Gramacho. “O avô
Guiliano” – Antonieta Dias de Morais Silva. “A neve” – Jorge Guillén – tradução de
Raymundo Mesquita. “Canto da tarde” - Eno Mendes de Carvalho. “O tempo no caminho” Otacilio Lopes. “Silvio Romero” - Adalmir da Cunha Miranda. Ilustrações de Carlos Bastos e
Jenner Augusto. Notas sobre livros e revistas.
64.8. O que Sylvio Romero escreveu
(c/ fotografia)
Res
A poesia contemporânea, 1869; Etnologia selvagem, 1973; Razões justificativas do art. 482
do Código Comercial, tese, 1875; A filosofia no Brasil, 1878; Contos do fim de século, 1878; A
literatura brasileira e a crítica moderna, 1880; Contos populares do Brasil, 1882; O
naturalismo em literatura, 1882; Contos populares do Brasil, 1883; Últimos Harpejos, 1883;
Uma esperteza, 1884; Estudos e literatura contemporânea, 1885; Estudos sobre a poesia
popular no Brasil, 1888; História da literatura brasileira, 2 vols. 1888; Etnografia Brasileira,
1888; Organização republicana, 1889; Luiz Murat, 1891; História do Brasil, 1891;
Parlamentarismo e presidencialismo, 1893; Doutrina contra doutrina, 1894; A verdade sobre
o caso de Sergipe, 1895; A vampiro do Vasa-Barris, 1895; Ensaios de filosofia do Direito,
1897; Machado de Assis,, 1897; Novos estudos de Filosofia contemporânea, 1897; Ensaios de
sociologia e literatura, 1900; Livro do centenário, 1900; O elemento português no Brasil,
1902; O Duque de Caxias, 1903; Passe recibo, 1904; Discurso, 1904; Parnaso sergipano,, 2
vols. 1904; Vista sintética da literatura brasileira, 1904; Evolução do lirismo brasileiro, 1904;
Outros estudos de literatura contemporânea, 1906; O allemanismo no sul do Brasil, 1906; A
pátria portuguesa, 1906; Compêndio de história da literatura brasileira, 1906; A América
latina, 1906; Da crítica, 1909; Zeverissimações inepta na crítica, 1909; Provocações e
debates, 1910; Quadro sintético da evolução dos gêneros, 1911; O Brasil na primeira década
do século vinte, 1911; A banca-rota do regime federal, 1912; O castelhismo, 1912; A
geografia da politicagem, 1912; Minhas contradições, 1914; Prólogo aos estuso alemães,
Prólogo aos estdos de Direito; de Tobias Barreto, 1892; de Tobias Barreto, 1892; Prólogo aos
Dias e noites, de Tobias Barreto, 1893; Prólogo aos Vários escritos, de Tobias Barreto, 1900;
Prólogo às Polêmcias, de Tobias Barreto, 1901; A união do Paraná e Santa Catarina, 1916; A
prioridade de Pernambuco no movimento espiritual brasileiro, in. Revista Brás., tomo II, ano I,
1819; A questão o dia, a emancipação dos escravos, artigo, 1881; Introd. à História da
literatura brasileira, 1882; Lucros e perdas, 1883; A filosofia e o ensino secundário, 1889; A
migração e o futuro da raça portuguesa no Brasil, 1891; Pinheiro Chagas, conferência, 1904;
Discurso à Euclides da Cunha, 1907; O Brasil social, 1907, idem, 1908; Da natureza dos
cargos públicos nas democracias modernas, 1911; Carlos Frederico Von Martins, in. Rev.
Acad. Bras. Letras, 3º, n.8, 1912; Novas contribuições ao folclore brasileiro, in. Rev. Acad.
Bras. Letras, ano 2, n.4, 1911; Novas contribuições para o estudo do folclore brasileiro, in.
Rev. Acad. Bras. Letras, ano 2, n.7, 1912.
65. Data:
04/07/52;5
TÍTULO
O meu velho Artur de Salles
Tr
Já nem lembro bem como o conheci, tão permanente e contínua é a sua presença em minha
memória. Lembro-me, porém, de sua bela cabeça de bronze de alvos cabelos longos,
contemplando os velhos solares das ladeiras baianas. De seu magro e digno vulto parado no
coração da cidade que tanto amava, o olhar perdido nas perspectivas surpreendentes dos
campanários e telhados patinados de quatro séculos. De sua mansa voz anasalada, a repetir o
solilóquio de Hamlet, os versos de seu irmão Castro Alves ou a dizer as estrofes candentes do
548
“Liberté” de Eluard. De seus olhos negros e cansados, cheios de confiança e de vida, quando,
nas longas conversas que mantínhamos, recordava episódios de sua tranqüila vila de São
Francisco, ou me dizia da sua ardente esperança no estabelecimento da paz entre os povos do
mundo.
Setenta e três vezes o calendário dos homens viu passar um primeiro de janeiro, e em
nenhuma dela o tempo – que nada perdoa e não pára – conseguiu vencer o espírito do meu
velho Artur de Salles, desse poeta jovem de cabelos brancos, cuja modesta morte junto à casa
dos Alienados parece um irônico símbolo cheio de sugestiva verdade. Vivemos, infelizmente
vivemos num mundo em que a lucidez vai se tornando a cada dia maior pecado, e uma quase
sempre consciente alienação é a virtude dominante. A escala dos valores inverteu as medidas,
e o que mais vale é sempre o que não vale. Esquecido ou ignorado, quase desconhecido dos
habitantes do Estado que tanto engrandeceu, foi assim que morreu Artur de Salles, imensa voz
de poesia, que se contentava em escancarar as janelas para a noite e fazer das águas do Lago
Sagrado a mensageira melhor de seus versos, mas, nunca trocou sua autêntica poesia por
vantagens e interesses impuros. Sabia, porém – e sei que o sabia como uma certeza
rejuvenescedora – que esse mundo que não o ouvia, que não o queria ouvir, tinha as horas
contadas no relógio da História. E essa era a certeza que fazia do velho Artur de Salles um
moço como nós, os desta geração que, através do Caderno da Bahia, de Seiva, da ABDE e de
tantos outros movimentos, vem procurando manter para a Bahia o prestígio que lhe deram um
Gregório de Matos, um Castro Alves, o fluminense Euclides da Cunha, um Xavier Marques,
um Artur de Salles e um Jorge Amado.
O meu velho e bom Artur de Salles, debruçado na sua mesa da Biblioteca Pública, a
repassar as páginas do mundo Shakespeariano ou ler o último poema do mais recente poeta da
França. Meu bom amigo, permanentemente em mágoa com a vida – a morte do filho, a morte
da esposa, a morte do outro filho – e a pensar e, mesmo, a contribuir para que o mundo dos
vivos seja realmente dos vivos.
Que belo e rico exemplo de poeta e de homem, esse que nos deu o cantor dos velhos
casarões e grande companheiro do mar dos costeiros baianos!
O coração da gente é uma fogueira acesa
Arde, brilha, incendeia. E todo o céu da vida
Fica cheio de luz e de beleza.
Depois o fogo morre. A lenha consumida
Não brilha mais. Não canta.
Sim, meu velho Artur de Salles, a lenha consumida não brilha mais. Mas os teus versos
continuarão cantando.
Anexo B – 3 : ÍNDICE REMISSIVO
550
ÍNDICE REMISSIVO DESTE CATÁLOGO
A
A F. Schimidt, 431
A L. Nobre de Melo, 510
A Ramos, 470
Acácio Ferreira, 507
Acácio França, 395, 407
Achimino Ornelas, 501
Adalmir da Cunha Miranda, 405, 427, 474,
498, 501, 504, 507, 525, 527
Adele Garrison, 403
Aderalo, 514
Adolfo Casais Monteiro, 469
Adonias Aguiar Filho, 356, 385, 481522
Adroaldo Ribeiro Caldas, 426
Adroaldo Ribeiro Costa, 347,394, 400, 405,
460, 474, 498, 507, 515, 511, 515
Afonso Félix de Souza, 464
Afonso Ruy, 467, 521
Afonso Schimidt, 444, 499, 510
Afrânio Peixoto, 408, 468, 518, 522
Aimé Petri, 368
Albert Camus, 392, 412, 455, 464
Albert Einstein, 386
Albert Scweitzer, 408
Alberto Camus, 522
Alberto de Assis, 521
Alberto Silva, 409
Alberto Uva, 393
Alcélio, 464
Alceu Amoroso Lima, 452
Aldari Toledo, 500, 504, 512, 519
Aldemir Martins, 482
Aldo Bonadei, 392, 484, 504, 514
Aldo Oberdorfer, 377
Alexandre Passos, 392, 432
Alfred de Vigny, 371, 380
Alfredo Mesquita, 356
Alfredo Pimentel, 496
Alice Cluchier, 403
Alina Paim, 392, 474
Almeida Fiscker, 466
Almeida Moniz, 475
Almeida Sales, 431
Aloísio de Carvalho Filho, 334
Alphonse Dauret, 510
Alphonsus de Guimarães Filho, 431, 435,500
Altino Bondesan, 411
Aluízio de Medeiros, 396, 466, 501, 514
Álvaro Lins, 355, 359, 393, 395, 420, 459,
461, 467, 468, 483, 491, 510, 521
Álvaro Moreyra, 401, 431, 470, 478, 505, 507
Alzira Ferreira de Coimbra, 464
Amadeu Amaral, 349
Amadeus Queiroz, 468
Amando Fontes, 437
Américo Jacobina Lacombe, 493
Anatole France, 365, 371, 469, 527
André Carneiro, 506, 510
André Figueiras, 432
Andre Gide, 347, 357, 364,365, 369, 384, 398,
401, 409, 417, 429, 431, 440, 445, 460, 466,
485, 489, 501, 510
André Malraux, 366
André Maurois, 384, 415, 464, 516
André Monteiro, 381
Anibal Machado, 402, 497
Aníbal Nunes Pires, 466
Anita Garibaldi, 454
Ann Petry, 339
Antoine de Saint-Exupéry, 341
Antoni di Monti, 510
Antônio Cândido, 465
Antônio D´Elia, 493
Antônio dos Santos Moraes, 427
Antônio Girão Barroso, 514
Antônio Loureiro de Souza, 498, 503, 507, 515
Antônio Olavo Pereira, 508
Antônio Viana, 496
Aragon, 482
Archimino Ornelas, 339, 462, 498, 507
Argileu Silva, 513
Arthur de Sales, 420, 426, 433, 477, 498, 511,
522, 522, 528
Arthur Koestler, 360, 450
Arthur Stanley Riggs, 339
Artigas Milans Martinez, 375
Artur da Fonseca, 393
Artur Koestler, 399
Artur Neves, 459, 492
Ary de Andrade, 505
Astrogildo Pereira, 478
Athos Bulcão, 431
Augusto Frederico Schimidt, 422, 464, 500
Augusto Meyer, 426, 461, 502, 521, 523
Augusto Publio, 335
B
B. for Evans, 464
Balzac, 354, 355, 432, 467, 468, 469, 475, 522
Barão de Itararé, 478, 506
Beatriz Rocha, 464
Bela Paes Leme, 431
Belmonte, 422
Benedito Valadares, 365
Bernard Blackstone, 404
Bernardo Gersen, 466, 493
Bertrand Arthur William Russel, 438, 457, 516
Bete Alan, 516
Braga Montenegro, 446, 466
Brasil Gerson, 478
Bráulio Nascimento, 464
Breno Accioly, 461, 466, 480
Breno Silveira, 472
Breuno Silveira, 398
Bueno de Mineira, 428
Bueno de Rivera, 366, 479, 500
C
Caio Prado Júnior, 460, 508
Camillo de Jesus Lima, 411, 427
Cândido Mendes, 518
Carlos Bastos, 527
Carlos Burlamaqui Kopke, 508
Carlos Castelo Branco, 466
Carlos Chiachio, 411
Carlos Dante de Morais, 482
Carlos Davi, 472
Carlos de Oliveira, 449
Carlos Drummond de Andrade, 372, 420, 446,
500
Carlos Eduardo, 458, 463
Carlos Frederic Bastos, 427
Carlos Frederico, 405
Carlos Lacerda, 509
Carlos Luz, 404
Carlos Sussekind Mendonça, 505
Carlos Thiré, 501
Carolina Slade, 381
Carvalho Filho, 387
Carvalho Netto, 349
Casemiro Fernandes, 361
Castro Alves, 331, 339, 340, 347, 359, 360,
409, 430, 432, 462, 477, 496, 497, 498, 522,
528, 529
Castro Soromenho, 468, 510
Cecília Meireles, 352, 471, 500
Cecílio J. Carneiro, 423
Cecily Mackworth, 476
Cerqueira Falcão, 499
Cervantes, 490
Cézar Nêmolo, 506, 507
Ch
Chafic Maluf, 482
Charles Baudelaire, 342
Charles Dickens, 339
Charles Morgan, 384, 432
Charles Peguy, 492
Charlotte Bronte, 377,384
C
Cícero Dias, 427
Ciro de Morais Vale, 487
Ciro dos Anjos, 404, 428, 443, 510
Cláudio de Araújo Lima, 461
Cláudio Tavares Barbosa, 466
Cláudio Tuiuti Tavares, 392, 466, 499, 504,
511, 514
Cleia Malheiros, 466
Clemence Dane
Winifred Ashton, 479
Cleto Seabra Veloso, 505
Clodomir Morais, 526
Colombo Spinola, 496
Condé, 406, 419, 468
Constantino Paleologo, 466
Cornélio Pena, 393, 431, 493, 502
Cravo Filho, 392
Cyro Pimentel, 510
D
Da Costa e Silva, 464, 466, 519, 520
Da Costa e Silva Filho, 464, 466
Dalcídio Jurandir, 402, 470, 478, 507
Dalton Trevisan, 384, 385, 398
552
Dante, 334
Dante Milano, 500
Darcy Evangelista, 494
Darwin Brandão, 377, 378, 392, 395, 415, 427
Defoe, 430
Dephené de Maurier, 348, 494
Dias da Costa, 478
Dickens, 377, 498
Dinah Silveira de Queiroz, 430, 519
Dino Segri, 399, 418
Dirceu Quintanilha, 466
Domingos Carvalho da Silva, 465, 482, 505
Domingos Olimpio, 434, 435
Doryval Caimmi, 398
Dylan Thomas, 457
Dyonélio Machado, 341, 342, 414
Érico Veríssimo, 337, 344, 353, 354, 355, 356,
357, 362, 401, 405, 407, 436, 479, 489, 516,
517, 518
Ernani Silva Bruno, 438
Ernest Hemingway, 487, 513
Eros Gonçalves, 431
Erskine Caldwell, 404, 405, 454, 486
Estella Gibbors, 456
Euclides da Cunha, 517
Eugene O´Neill, 512
Eugênia Álvaro Moreyra, 402
Eugênio Gomes, 496, 521
Eusínio Lavigne, 443
Eustáquio Duarte, 493
Eva Jungell, 418
Ezdra Pound, 413
E
F
E. Carrera Guerra, 478
Edgar Allan Poe, 474
Edison Carneiro, 340, 341, 402, 416, 438, 452,
470, 505
Edith Gama e Abreu, 496
Edmar Morel, 505
Edmond About, 516
Edmond e Jules de Goncourt, 366
Edmond Rostand, 480
Edmur Fonseca, 506
Edna Febber, 497
Edson Carneiro, 340, 359, 378, 386
Edson Reis, 471
Eduardo Campos, 506, 514
Eduardo Prado, 518
Edward Tamlinson, 527
Eggidio Squeff, 508
Elisabeth Berboir, 349
Elizabeth Bowen, 444, 491
Elpídio Bastos, 439
Elsa Triolet, 510
Emerson, 395, 407
Emil Ludwig, 360, 407
Emile Chartier, 384
Émile Zola, 342, 355, 373, 480, 496
Emílio Moura, 500
Emílio Varoli, 510
Emo Duarte, 406
Emylio Myra y Lopes, 461
Enio Silveira, 398
Eno Mendes de Carvalho, 527
Enoch Santiago Filho, 504, 525, 527
Epamiondas de Souza Pinho, 478
Felix Borowski, 473
Félix Ibanez, 526
Fernando Alegria, 513
Fernando de Azevedo, 504
Fernando Diniz Gonçalves, 338, 342, 506
Fernando F. de Loanda, 405
Fernando Pessoa, 471
Fernando Segismundo, 477, 505
Ferreira de Castro, 518
Flávia da Silveira Lobo, 464
Flávio Jarbas, 342
Floriano Gonçalves, 478
Fontenelle Ribeiro, 490
Fran Martins, 392, 466
Frances Sarah, 475
Francisco Brasileiro, 466
Francisco Marques de Goes Calmon, 388
François Auguste Chateubriand, 388
François Mauriac, 385
Françoise D´Eaubonne, 348
Franklin de Oliveira, 522
Franz Treller, 461
Frederico dos Reys Coutinho, 398
Fulton J. Sheen, 513
G
Gabriela Mistral, 426, 489
Galeão Coutinho, 457, 508
Garcia Lorca, 456, 467, 486
Gasparino Damata, 464, 466, 468, 472
Gastão de Holanda, 391, 466
Genuíno Neto, 417
George Bernard Shaw, 339, 352, 417, 459,
513, 516, 522, 524
George H. Waltz Jr, 377
George Matos, 464
George Sand, 496
George Upton, 473
Georges Duraud, 405
Georges Sand, 341
Geraldo Alves Martins, 526
Géraldy, 350
Gerard Bauer, 342
Germaine Beaumont, 449
Gilberto Amado, 468
Gilberto Freyre, 350, 353, 393, 399, 472, 480,
491
Gilda de Abreu, 398
Gilles Buhet, 431
Giovani Papini, 339
Gisele D´Assily, 348
Godofredo Rangel, 339, 397
Goethe, 333, 355, 360, 400, 407, 430, 452,
464, 466, 468, 469
Gonçalves Dias, 349, 379, 391
Graciano (ilustrador), 482
Graciliano Ramos, 351, 369, 370, 402, 411,
420, 448, 470, 474, 478, 502, 505, 507
Graham Greene, 476
Gruber Correia, 482
Guilherme de Almeida, 348, 467
Guilhermino César, 392
Guilhermo de Torre, 512
Guillen, 492
Guinard, 420, 431
Guisepe Mazzoni, 385, 381
Gustavo de Freitas, 461, 463
H
H. Stadelmann, 339
H.S.Nyberg, 399
Harold Smith, 487
Haroldo Bruno, 464, 493, 504, 521
Haroldo de Campos, 510
Hector Bolitho, 438
Heinrich Heine, 396
Hélio Simões, 507, 511
Hélio Vaz, 378, 405, 427
Henri David, 463
Henri de Rotchild, 511
Henri Perruchot, 399
Henry Wallace, 386
Henryk Sienkiewiecz, 458
Herberto Sales, 431, 464, 466, 493, 527
Herly Drummond, 466
Hermano Requião, 455, 456
Homero Pires, 473, 493
Howard Fast, 339, 397, 404, 459, 482
Huxley, 336, 345, 400, 405, 418, 422, 429, 513
I
Ib Anderson, 517
Ibrahim Abi-Ackell, 466
Ibsen, 345, 358, 365, 366
Illen Kerr, 464
Ingvar Andersson, 427
Isa Silveira Leal, 339
J
J. C. Cavalcanti Borges, 466
J. G. de Araújo Jorge, 459
J. Palma Netto, 474, 498
J.B. Mello e Souza, 482
J.B. Priestley, 509
J.G. de Araújo Jorge, 395
Jacinta Passos, 484, 501
Jack London, 479, 527
Jacqueline Marenis, 341
Jacques Crépet, 356
Jacques Lacretelle, 338
Jaime Cortezão, 512
Jaime T. Bodet, 519
Jair Gramacho, 527
James Amado, 441, 452, 484, 493, 507, 508,
524
James Hilton, 361, 377, 408, 464
James Joyce, 352, 354, 355, 357, 358, 371,
409, 436, 468, 470, 471, 480
Jamil Almansur Hadad, 500, 519
Jan Mukarovsky, 405
Jean Bannerot, 463
Jean Cassou, 453
Jean Cocteau, 452
Jean Faurel, 445
Jean Freville, 478
Jean Louis Curtis, 353
Jean Paul Sartre, 374, 375, 387, 395, 397, 412,
414, 431, 437, 445, 499
Jean Rostand, 480
Jeanne Verbracken, 382
Jenner Augusto, 501, 527
João Américo Garcez Froés, 496
João Batista de Souza Filho, 476
João Clímaco Bezerra, 421, 446
João Dornas Filho, 411
João Guimarães, 429
554
João Marmelo e Silva, 393
João Muniz, 506
João Pacheco, 508
Joaquim Cardoso, 500
Joaquim Nabuco
Nabuco, 461, 477, 505
Jobim, 467
John Boynton Priestley
Priestley, 498
John Brophy, 473
John Dickson, 437
John dos Passos, 349, 379, 418, 457, 487
John Gonto Fletcher, 522
John Lehmann, 450, 457, 464
John Macy, 490
John Masefield, 443
Jonh dos Passos, 404
Jonh Steibeck, 404
Jorge Amado, 359, 360, 373, 398, 405, 476,
481, 491, 501, 517, 529
Jorge de Lima, 482
Jorge Guillén, 527
Jorge Medanar, 478
Josaphat Marinho, 527
José Calasans, 501
José Carlos Cavalcanti Borges, 438
José Cesio Requeira Costa, 377
José Conde, 464, 466
José Dauster, 409
José Geraldo Vieira, 338, 364, 380, 384, 415,
422, 428, 450, 479, 485, 508, 510
José Goldoy de Garcia, 427
José Lins do Rego, 350, 354, 378, 380, 394,
401, 409, 412, 414, 420, 449, 472, 486, 487
José Mauro de Vasconcelos, 421, 443, 493
José Montello, 438, 461, 522
José Stênio Lopes, 466
Joseph Burnichon, 472
Joseph Conrad, 491
Judas Isgorogota, 450, 496
Agnelo Rodrigues de Melo, 497
Jules Romain, 445
Jules Roy, 463
Jules Salusse, 374
Julien Green, 415
Jurandir Ferreira, 453
Justino Martins, 485
K
Kafka, 365, 380, 523
Keats, 337
Klauss Nann, 417
Knut Hansun, 349, 386, 398, 490
Konstantin Simonaw, 339
Kravchenko, 435
L
L. Machado Neto, 527
Lafayette Ponde, 527
Lafayette Spínola, 460
Laura Austregésilo, 498
Laurence, 445
Lauro Rodrigues, 418
Leandro Dupré, 409
Lêdo Ivo, 372, 466, 500
Léo Vaz, 448
Leônidas Gontijo de Carvalho, 398, 472
Lewis Carrol, 401
Lewis Wallace, 411
Lia Corrêa Dutra, 356, 426, 478
Lima Barreto, 408, 439, 442, 446
Lin Yutang, 340, 464
Lindolfo Gomes, 429
Linnêo Séllos, 466
Lívio de Almeida, 366
Lord Lytton, 485
Lourdes Bacellar, 356, 409, 410
Lúcia Benedetti, 519
Lúcia Machado de Almeida, 429
Lúcia Miguel Pereira, 390, 428, 432, 435, 436,
470, 483, 491
Lucie Marchal, 431
Lucie Maron, 449
Lúcio Cardoso, 437, 513
Ludwig, 360, 432
Luigi Pirandello, 347, 442
Luis Ferreira Pires, 479
Luis Heitor, 473
Luis Henrique Dias Tavares, 405, 427, 474,
498, 499,501, 507
Luis Jardim, 490, 493
Luis Vilaronga, 402
Luiz Ernesto Machado Kawall, 510
Lygia Fagundes Teles, 461, 466, 518
Lygia Sampaio, 501
M
Machado de Assis, 355, 370, 371, 373, 391,
404, 408, 435, 436, 446, 448, 460, 475, 487,
491, 496, 497, 500, 512, 515, 528
Maira da Saudade Cortezão, 500
Major Graça, 399, 402, 475, 507
Malraux, 398, 412, 445
Manoel Bandeira, 378
Manoelito de Ornelas, 349
Manoelito Ornelas, 345
Mansueto Kohen, 418
Manuel Anselmo, 501, 518
Manuel Antônio de Almeida, 432
Manuel Bandeira, 372, 378, 379, 392, 420,
428, 429, 431, 466, 500, 522
Manuel Barbosa, 496
Manuel Martinho, 403
Manuel Martins, 405
Manuel Peixoto, 420
Marcel Proust, 413, 464
Marcele Tynaire, 416
Marcia Brown, 343
Márcio Silva, 377
Marco Polo, 429
Marcos Rei, 466
Marcus Cheke, 437
Marcy Penteado, 482
Margaret Slade, 349
Maria Augusta Trapp, 509
Maria Helena Vieira da Silva, 431
Maria Izabel, 500
Maria José Passos, 427
Maria Luiza Monteiro da Cunha, 523
Marietta Martin, 338
Mário Cabral, 399
Mario Cordeiro, 494
Mário Cravo Jr, 493, 458,499, 501, 507, 512
Mário da Silva Brito, 486
Mario de Andrade, 431,500, 504
Mario de Lima Barbosa, 493
Mário Donato, 441, 450, 466
Mário Matos, 464
Mario Monteiro de Almeida, 526
Mário Quintana, 405, 409, 417
Mario Sette, 445
Mark Twain, 500
Samuel Larghone Clemens, 500
Marques da Cruz, 513
Marquês de Abrantes, 521
Marques Rabelo, 372, 385, 510
Martins D´Alvarez, 494, 514
Matthew Arnold, 376
Maugham, 391, 401, 409, 414, 458, 484
Maurice Dekobra, 409
Maurice Druon, 435
Maurice Garçon, 480
Maurice Levaillant, 460
Maurice Maeterlinck, 346, 444
Maurílio Bruno, 464
Mauro Mota, 459, 464, 467
Maximo Gorki, 475, 495
Mello e Souza, 485
Mervyn Savil, 510
Michel Mercier, 431
Michel Simon, 363, 431
Miécio Tati, 505
Miguel de Cervantes, 366
Miguel Torga, 516
Adolfo Rocha, 499
Milton Pedrosa, 505
Milton Vilas-Boas, 430
Miroel Silveira, 493
Misael Silveira, 417
Moacyr Félix de Oliveira, 461
Moacyr Werneck de Castro, 417, 505, 507,
513, 522, 524
Modesto de Abreu, 366
Moisés Velhinho, 515
Mônica Brillioth, 418
Monsieur Richard, 463
Monteiro Lobato, 343, 346, 347, 372, 373,
388, 389, 394, 405, 418, 427, 459, 474, 481,
492, 514, 515
Moreira Campos, 466
Mota e Silva, 392, 405, 415, 427
Mozar Soriano Aderaldo, 396
Mozart Spzinac, 514
Murilo Mendes, 372, 410, 427, 431, 447, 471,
472, 500, 514
Murilo Rubião, 466
N
Nair Batista, 478
Nataniel Dantas, 464, 466
Natur de Assis, 381, 399, 402, 415
Nazim Hikmet, 512
Nelson Werneck Sodré, 463
Nicolau Guillén, 405, 427
Nilo Pinto, 342, 392, 415
Noel Coward, 525, 526
Noemia Cavalcanti, 431
Norman Mailer, 445
O
Octávio de Faria, 380
Olavo Bilac, 349, 372
Olegário Mariano, 431, 519
Ondina Ferreira, 429
Onestaldo Pennafort, 431
Orestes Barbosa, 437
Orígenes Lessa, 411, 421, 447
Orval, 464
Osbert Sitwell, 483
Oscar Cordeiro, 405
556
Oscar Niemeyer, 393
Oscar Wilde, 345
Osmar Pimentel, 508
Osvaldino Marques, 478, 493
Osvaldo Antini, 429
Osvaldo Gordilho, 494
Osvaldo Imbassahy, 462
Oswald de Andrade Filho, 482
Otacilio Lopes, 527
Otávio Araújo, 482
Otávio da Costa Eduardo, 388
Otávio Tarquínio de Souza, 483
Otto Maria Carpeaux, 391, 427, 461, 466, 468,
472
Otto Strasser, 436
P
P. de Lara, 429
Pablo Neruda, 380, 466, 507
Pacífico Ribeiro, 460
Palma Netto, 507
Papini, 374, 375
Pascal, 382
Paschoal Carlos Magno, 494
Pat Frank, 417
Patrícia Hutchins, 470
Paul Elnar, 384
Paul Eluard, 482
Paul Elward, 527
Paul Louis Couchoul, 382
Paul Olberg, 490
Paulo Armando, 464
Paulo Dantas, 417
Paulo Eiró, 479
Paulo Jatobá, 392, 405, 427, 501
Paulo Ronai, 432, 468, 469, 522
Paulo Setubal, 437,411
Pe. Leonel França, 460
Pe. Vieira, 513
Pearl S. Buck, 343, 357, 390, 438, 518
Pedro Barros, 503
Pedro Calmon, 398, 411, 455, 498
Pedro de Almeida Moura, 408, 429
Pedro Deodato de Morais, 467
Pedro Ivo, 365
Pedro Luiz Morais, 464, 467
Pedro Moacir Maia, 500, 504, 511, 519
Pedro Serafim, 432
Pedro Uzzo, 429
Percy Cardoso, 339, 349, 381, 382
Percy Shelley, 399, 433
Péricles Eugênio da Silva Ramos, 500
Permínio Asfóra, 442, 453
Permínio Ásfora, 365, 392, 414, 475
Philip R. Hitti, 388
Pierre Orlan
Pierre Dumarchey, 502
Pinto de Carvalho, 496
Portinari, 393, 427
Poty, 385, 391, 398, 501
Prado Valadares, 332
R
Rabelais, 490
Rachel de Queiroz, 396, 397, 401
Rafael Correa de Oliveira, 372
Rafael Wacker, 400
Raimundo de Menezes, 457, 461
Raimundo de Souza Dantas, 392, 417,426,
454, 463, 467
Raimundo Girão, 514
Rainer Maria Rilke, 434, 437, 512
Raul de Leoni, 482
Raul Lima, 383, 384
Raymundo Mesquita, 527
Rebeca West, 449
Reginaldo Guimarães, 467
Remarque, 417
Remina Katz, 512
Renato Jobim, 464
Renato Linhares, 464
Renato Sérgio, 467
Ricardo Ramos, 399
Richard Hansen, 517
Richard Llewellyn, 523
Rivarol, 398
Robert Louis Stevenson, 503
Robert Merie, 487
Robert Southey, 388
Roberto Alvim Correa, 431,438
Robespierre de Farias, 481
Rocha Filho, 464
Rodrigues de Brito, 388
Roger Bastide, 484, 499, 501
Roger Martin du Gard, 361, 363, 448, 485
Roland Corbosier, 467
Rolmes Barbosa, 493, 517
Romain Rolland, 363, 413, 482, 489, 495
Romulo Gallegos, 396, 416, 464
Ronaldo Hingley, 519
Roosevelt, 379, 390
Rosário Fusco, 518
Rossine Camargo Guarnieri, 492, 506
Rubem Braga, 419, 487
Rubem Nogueira, 509
Rubens Borba, 418
Rudyard Kipling, 339
Ruth Guimarães, 427, 468
Ruth Park, 383, 511
Ruy de Alencar, 460
S
S. Evelgr Thomas, 463
Salazar, 469
Saldanha Coelho, 464, 467, 493, 504
Samuel Putnam, 491
Santa Rosa, 429, 430, 431, 455
Santos Morais, 411
Saudade Cortesão, 349
Scott James, 343
Sebastião Corain, 339
Selma Lagerlof, 395
Sergio Millet, 43,1465, 450
Sherwood Anderson, 438, 519, 523, 524
Silas Portugal, 402, 409
Silo Gonçalves, 460
Silvana Roth, 337
Silvino Lopes, 510
Silvol Romero, 527
Sinclair Lewis, 353, 376, 399, 487, 503
Soares de Azevedo, 507, 511
Solano Trindade, 467, 505
Somerset Maughan, 349
Sorosen, 464
Sosísgenes Costa, 501
Souza Dantas, 475
Souza Martins, 434
Souza Neto, 399
Starford Cripps, 394
Steinbeck, 349, 395, 428, 487, 499, 524
Stendhal, 475, 522
Sylvio Santos Faria, 527
T
T. S. Eliot, 349, 379, 413, 489, 490
Teilhard de Chardin, 341
Teixeira Lobão, 481
Thadeu Santos, 481
Thales de Azevedo, 494
Theobaldo Mirando, 411
Theodomiro Jordão, 493
Theodomiro Tostes, 357
Theodore Dreiser, 493, 351, 352, 503,523
Theodore Plievier, 417
Thomas Hardy, 434, 442, 509, 517
Thomas J. Watson, 386
Thomas Mann, 353, 409, 414, 417, 439, 450,
464, 490, 516
Thomaz Newlands, 472
Thorton Wilder, 517
Tristan Bernard, 343, 392
Tristão de Atayde, 431, 521
Truman, 386
U
Umberto de Campos, 408
Upton Sinclair, 375, 445
V
Valdemar Cavalcante, 443
Valfrido Piloto, 439
Vasconcelos Maia, 373, 392, 405, 407, 427,
443, 462, 467, 481, 498, 504, 507
Veríssimo de Melo, 514
Verlaine, 345, 368, 431
Vicente Brome, 526
Vicente do Rego Monteiro, 431
Vicente Guimarães, 494
Victor Hugo, 346, 384, 512, 523
Victor Kravchenko, 415
Vidal de Oliveira, 448, 469
Vinicius de Moraes, 431, 500
Virgínia Wolff, 395, 352
Vitor Cousin, 382
Vitor Hugo (médico), 423
Vivaldo Coaracy, 417
Vladimir Guimarães, 501
W
Walfrido Ribeiro, 434
Walt Whitman, 505
Walter da Silveira, 427, 474, 501, 511
Walter Silveira, 499
Walter Spalding, 457
William Faulkner, 519
William Rex Crawford, 504
Wilson Figueiredo, 479, 506
Wilson Lousada, 438
Wilson Rocha, 391, 392, 405, 427, 471, 474,
484, 500, 501, 504
Winston Churchil, 339,398, 472
Wladimir Alves de Souza, 431
Wladimir Guimarães, 405
558
X
Xavier Placer, 467
Y
Yllen Kerr, 385, 466, 471
Yolandino Maia, 478
Yves Gandon, 460
Yvone Pagnies, 460
Z
Zora Braga, 478
Índices Onomásticos
Anexo B – 4
Autores brasileiros
560
ÍNDICE ONOMÁSTICO AUTORES BRASILEIROS
COM RESPECTIVAS OBRAS DATADAS
Autor
Título
Clasif.
Ano
Pub.
1. A. L. Nobre de Melo
2. Adalmir da Cunha Miranda
3. Adonias Aguiar Filho
Mundos mágicos
Momentos da literatura
Os servos da morte
4. Adroaldo Ribeiro da Costa
Terras do sem fim
São Jorge dos Ilhéus
As memórias de um Lázaro
Narizinho – histórias de Monteiro Lobato
Opereta - teatro infantil
1948
Revista infância
Peça teatral infantil
1950
Romance autobiográfico
1950
1912
contos
Novela
Novela
1921
5. Afonso Ruy
6.
Afonso Schmidt
História política e administrativa a cidade do
Salvador. v. 1
Menino Felipe
Janelas abertas
A Primeira Viagem
Mocidade
Garoa
Poesias
Brutalidade
Os impunes
O Dragão e as virgens
Colônia Cecília
Zangala e o reino do céu
Curiango
As levianas
A história de fadas
Carne para canhão
Ensaios
contos
Teatro
teatro
teatro
Ano Div.
20/05/1950
08/04/1950
03/07/1948
29/07/1950
03/07/1948
03/07/1948
21/02/1948
05/07/1950
03/01/1948
18/03/1950
05/07/1950
18/03/1950
1949
20/05/1950
20/05/1950
21/05/1949
21/05/1949
21/05/1949
21/05/1949
21/05/1949
21/05/1949
21/05/1949
21/05/1949
21/05/1949
21/05/1949
21/05/1949
21/05/1949
21/05/1949
562
7.
8.
9.
10.
11.
12.
13.
14.
15.
Alfredo Mesquita
Alina Paim
A marcha
A vida de Paulo Eiró
O assalto
Retrato de valentia
Saltimbancos
Fruta do mato
Glória e sofrimento de Castro Alves
Segredos de polichinelo
Castro Alves, Arauto da Democracia e da
República
O mundo e a vida
Avulsas
A sombra do patriarca
Almeida Moniz (Srª)
Almeida Sales
Alphonsus Guimarães
Estrada da liberdade
Simão Dias
Dois amores em uma vida
André Gide
LUME DE ESTRELAS
Afrânio Peixoto
Alberto Silva
Alberto Uva
Alexandre Passos
romance
romance
romance
romance
romance
Romance
Poemas
Conferência
A ser
reflexões
1948
romance
A ser
1º
Ensaio
Poema
POEMA
CIDADE DO SUL
16. Altino Bondesan
17. Álvaro Moreyra
18.
19.
Amando Fontes
André Carneiro
Um pracinha paulista no inferno de Hitler
Legenda de luz e de vida
Um sorriso para tudo
Legenda das rosas
O outro lado da vida
Cocaína
A cidade mulher
A boneca vestida de arlequim
Circo
Adão, Eva e outros membros da família
O Brasil continua
Os corumbas
Angulo e face
A ser
1940
1949
1948
1911
1915
1916
1919
1925
1926
1927
1929
1932
1932
Romances
21/05/1949
21/05/1949
21/05/1949
21/05/1949
18/03/1950
02/10/1948
02/10/1948
24/07/1948
29/01/1949
24/07/1948
21/02/1948
24/07/1948
08/10/1949
08/10/1949
08/10/1949
29/01/1949
12/02/1949
12/02/1949
30/10/1948
04/09/1948
04/09/1948
04/09/1948
04/09/1948
04/09/1948
04/09/1948
04/09/1948
04/09/1948
04/09/1948
04/09/1948
11/03/1949
20/05/1950
20.
21.
22.
André Figueiras
André Monteiro
Anibal Machado
23.
24.
Antônio D´Elia
Antônio Loureiro de Souza
Castelos no azul
Abrolhos
Vila Feliz
João ternura
A mão e a aldraba
Baianos ilustres
25.
26.
Antônio Olavo Pereira
Archimino Ornelas
Pedro Barros ( título não confirmado)
Contra a não
SÍNTESE DE RUY (?)
Poesias - Prêmio em 48
versos
Estudo biocrítico
romance
Estudo sobre Ruy Barbosa
romance
Teatro
1948 (?)
1944
A ser
1950
A ser
Prêmio49
A ser
1949
Vida sentimental de Castro Alves
CAMINHOS DO MUNDO
27.
Argileu Silva
28.
Arthur de Sales
29.
30.
Astrogildo Pereira
Augusto Frederico Schimitd
31.
Augusto Meyer
32.
33.
Barão de Itararé
Belmonte (caricaturista)
SANGUE MAU
Poemas
poemas
Poemas
O RAMO DA FOGUEIRA
Poemas
As pérolas
Noite
A ser
29/01/1949
05/06/1948
25/02/1950
25/02/1950
11/02/1950
08/04/1950
05/07/1950
08/04/1950
20/05/1950
13/08/1949
29/11/1947
13/08/1949
29/11/1947
13/08/1949
03/06/1950
03/06/1950
12/02/1949
12/02/1949
POEMAS REGIONAIS
12/02/1949
SUB-UMBRA
12/02/1949
Livro de memórias
Autobiografia
1948
1948
GIRA-LUZ
Poemas
<1948
26/11/1949
13/08/1949
31/12/1948
15/01/1949
18/03/1950
15/01/1949
A SOMBRA DA ESTANTE
Ensaio
<1948
15/01/1949
biografia de Simões Lopes
Provável título
A ser
30/07/1949
Caricatura dos tempos
Álbum de caricaturas: 1936- 1948
31/12/1948
Interpretações
Fonte invisível
Galo branco
SEGREDOS DA INFÂNCIA
1938
564
46
34.
35.
36.
37.
38.
Benedito Valadares
Bete Alan ?
Braga Montenegro
Branquinho da Fonseca
Breno Accioly
39.
Bueno de Rivera
Bueno Rivera e Wilson Figueiredo
40.
41.
Caio Prado Júnior
Carlos Eduardo
Esperidião
Alma de heroína
Uma Chama ao Vento
Porta de Minerva
Cogumelos
João urso
Mundo submerso
Luz do pântano
Poemas agrários
História econômica do Brasil
ESTE RUMOR QUE VAI CRESCENDO
A ser
Romance
contos
Contos
A ser
poemas
1944
1948
1949
PRESENÇA
Canção dos que regressam
Descobrimento
42.
43.
44.
Carvalho Netto
Carvalho Filho
Cecílio J. Carneiro
45.
46.
Ciro de Morais Vale
Ciro dos Anjos
47.
Cláudio Tuiuti Tavares
Vidas perdidas
Face oculta
Livro de Scheherazade
Memórias de cinco
Pecado nos trópicos
Fogueira
Civilização cristã
Amanuense Belmiro
1949
Poesias
Contos
Romance (autobiográfico)
Romance
1948
1935
1939
1948
>1939
Romance
1937
Abdias
Romance
1945
Pássaro sangue
poesia
1950
10/04/1948
05/07/1950
21/05/1949
24/07/1948
30/07/1949
10/12/1949
10/12/1949
15/01/1949
15/01/1949
26/11/1949
30/07/1949
16/07/1949
13/08/1949
16/07/1949
16/07/1949
16/07/1949
13/08/1949
17/01/1948
03/07/1948
31/12/1948
31/12/1948
31/12/1948
31/12/1948
21/01/1950
18/09/1948
15/01/1949
23/04/1949
18/09/1948
23/04/1949
08/04/1950
05/07/1950
48.
49.
50.
51.
Cornélio Pena
Cristiano Martins
Cyro Pimentel
Da Costa e Silva
52.
53.
54.
Da Costa e Silva Filho
Dalcídio Jurandir
Dalton Trevisan
55.
Darwin Brandão
56.
Darwin Brandão e Motta e Silva
57.
Dinah Silveira de Queiroz
58.
Domingos Carvalho da Silva
59.
Domingos Olimpio
Repouso
Romance
Fronteira
Dois romances de NicoHorta
Romance
Romance
Repouso
A menina morta
romance
Rilke – o poeta e a poesia
Poemas
Zodíaco
Pandora
Verônica
Antologia
Sangue
Elegia de sangue
Problemas da arte e literatura
Sonata ao luar
Sete anos de pastor
Ensaio
Poema
Sua própria antologia
Poesia
Tese
novela
contos
1940
1949
1917
1919
1927
1934
1908
a ser
1950
<48
1948
a ser
A COZINHA BAIANA
Roteiro
a ser
Margarida la roque. A ilha os demônios
Floradas na Serra
As noites do morro do encanto
Bem-amada Ifigênia
Rosa extinta
Praia oculta
Romance
Romance
Conto ou novela
1949
?
a ser
1943
1945
1949
Introdução às poesias de Rodrigues de Abreu
Luzia-Homem
poesia
BAHIA DE ONTEM E DE HOJE
1903
24/07/1948
29/01/1949
18/03/1950
29/01/1949
29/01/1949
18/03/1950
29/01/1949
11/02/1950
18/03/1950
12/02/1949
20/05/1950
15/07/1950
15/07/1950
15/07/1950
15/07/1950
15/07/1950
13/08/1949
06/05/1950
19/06/1948
19/06/1948
21/08/1948
05/061948
07/08/1948
13/11/1948
29/01/1949
29/01/1949
15/07/1950
27/08/1949
27/08/1949
27/08/1949
10/12/1949
08/04/1950
12/02/1949
566
O Almirante
Rochedos que choram
A perdição
Túnica de Ne´ssus
Tântalo
O negro
UM PAR DE GALHETAS
Inédito
Inédito
Inédito
Inédito
Drama Inédito
drama Inédito
12/02/1949
12/02/1949
12/02/1949
12/02/1949
12/02/1949
12/02/1949
12/02/1949
OS MAÇONS E O BISPO
Drama Inédito
12/02/1949
A QUESTÃO DO ACRE
Drama Inédito
12/02/1949
A LOUCURA NA POLÍTICA
Drama Inédito
12/02/1949
DOMITILIA
Drama Inédito
12/02/1949
O IRAPURU
Drama Inédito
12/02/1949
HISTÓRIA DA MISSÃO ESPECIAL EM
Drama Inédito
12/02/1949
WASHINGTON
60.
61.
Doryval Caimmi
Dyonélio Machado
62.
Edison Carneiro
63.
64.
65.
66.
Edmundo Amaral
Edson Reis
Elpídio Bastos
Emílio Varoli
Cancioneiro da Bahia
Um homem pobre
Os ratos
contos
Romance
1927
1935
O louco de Cati
Ursa maior
Candomblés da Bahia
1942
1949
1948
Religiões negras
Negros Bantus
Quilombo dos palmares
A grande Cidade
O deserto e os números
Inquietação
Aves de caça do Estado de São Paulo
1936
1937
1947
Poesia
Poema – soneto
1949
2ª edição
21/08/48
13/12/1947
13/12/1947
13/11/1948
13/12/1947
11/03/1949
03/07/1948
04/09/1948
27/11/1948
13/12/1947
13/12/1947
13/12/1947
21/05/1949
27/08/1949
11/03/1949
20/05/1950
67.
Epamiondas de Souza Ponho
Ruy e a poesia nacional
68.
Érico Veríssimo
Música ao longe
Clarissa
Coletânea de poetas
brasileiros sobre Ruy
1949
26/11/1949
O tempo e o vento
Romance
2ª ed
1948?
1928
03/01/1948
03/01/1948
21/02/1948
03/01/1948
03/01/1948
03/01/1948
29/11/1947
03/01/1948
21/02/1948
03/01/1948
03/01/1948
21/02/1948
21/02/1948
03/01/1948
03/01/1948
03/01/1948
31/01/1948
21/02/1948
28/01/1950
15/07/1950
11/03/1949
08/10/1949
15/07/1950
25/02/1950
Romance
Fantoches
Traduz: Contraponto, Huxley
Lâmpada mágica
Olhai os lírios do campo (primeira publicação
em jornal)
romance
Ladrão de gado
Caminhos cruzados
Conto
Pseudônimo: Denis Rent
Romance
Um lugar ao sol
Saga
O resto é silêncio
69.
70.
Ernani Silva Bruno
Euclides da Cunha
Retrato de uma cidade de província
Os sertões
71.
Eugênio Gomes
Moema
Ensaio hist. e sociológico
Publicação na Dinamarca,
Trad. Richard Hansen
Poemas
H.D. Lawrence e outros
Crítica
1937
25/02/1950
IPE – Espelho contra espelho
Crítica e ensaio
1950
25/02/1950
A Unidade da Lavoura
Psicopatologia dos mitos e lendas dos contos
infantis
Cultura brasileira
Artigos e política
Ensaio
1951
23/04/1949
28/04/1951
72.
73.
Eusínio Lavigne
Felix Ibanez
74.
Fernando de Azevedo
Traduzido p/ inglês por
William Rex Crawford
08/04/1950
568
75.
Fernando Diniz Gonçalves
Viena eterna
Retrato de Anacreonte
76.
Fernando Segismundo
CASTRO ALVES EXPLICADO AO POVO
Ensaio
Ensaio
Ensaio
29/11/1947
29/11/1947
26/11/1949
tese
26/11/1949
26/11/1949
13/12/1947
77.
Flávio Jarbas
Cypriano Barata, jornalista político
História popular da revolução praieira
Goteira do coração
78.
79.
80.
81.
82.
Fontenelle Ribeiro
Franklin de Oliveira
Frederico Edelwiss
Frei Mansueto Kohen (RJ)
Galeão Coutinho
Ruy e o vernáculo
Crônicas
Concerto para piano
Tupis e guaranis
Síntese histórico-literária das letras germânicas. estudo
Novela
Vovó Morumba
Prefaciaor Fernando Diniz
Gonçalves
No prelo
MEMÓRIAS DE SIMIÃO O CAOLHO
Novela
CONFIDÊNCIAS [CONFERÊNCIA] DE DONA
Novela
1949
Mormaços d´alma
Pinguinho de gente
Caetés
São Bernardo
Angústia
Pref. Clodomir Morais
1951
romance
Romance
romance
1933
1934
1936
Vidas Secas
Histórias de Alexandre
Infância
Dois Dedos
Histórias incompletas
Insônia
Nós
A dança das horas
Messidor
romance
folclore
memórias
Contos
Contos
contos
1938
1944
1945
1945
1946
MARCOLINA
83.
84.
85.
86.
Geraldo Alves Martins
Gilda de Abreu
Graciliano Ramos
Guilherme de Almeida
1917
28/01/1950
29/07/1950
04/09/1948
27/11/1948
16/07/1949
06/05/1950
16/07/1949
06/05/1950
16/07/1949
06/05/1950
28/04/1951
21/08/1948
08/05/1948
08/05/1948
08/05/1948
30/10/1948
08/05/1948
08/05/1948
08/05/1948
08/05/1948
08/05/1948
08/05/1948
17/01/1948
17/01/1948
17/01/1948
87.
88.
Guilhermino César
Guisepe Mazonni
Livro de horas de Sóror Dolorosa
Você
Histórias talvez
A chave do abismo
História da vida e outros contos
89.
Gustavo de Freitas
Fogos dos pântanos
90.
91.
92.
Haroldo Bruno
Haroldo de Campos
Herberto Sales
93.
94.
95.
Hermano Requião
Jaime Cortezão (org)
J. G. de Araújo Jorge
Anuário crítico de literatura
Auto do sossego
Além dos Marimbus
Cascalho
Itapagipe, minha infância na Bahia
Cartas de amor a Sóror Mariana
Meu céu interior
ESTRELA DA TERRA
O CANTO DA TERRA
UM BESOURO CONTRA A VIDRAÇA
ANTOLOGIA DA NOVA POESIA BRASILEIRA
A OUTRA FACE
1949
A ser
Contos
Romance
1949
A ser
Romance
Romance
(reconstituição da obra)
poesia
Poesia
A ser
2ª edição
1949
A ser
1934
Poesia
30/07/1949
romance
30/07/1949
Antologia poesia
30/07/1949
Poesia
1949
30/07/1949
07/08/1948
NOVA ANTOLOGIA DA POESIA BRASILEIRA
96. J.B. Mello e Souza
Majupira
Romance
1938
97.
Uma viagem pelas estrelas
Estudantes de meu tempo
Chamado do mar
Romance
1949
James Amado
17/01/1948
17/01/1948
27/08/1949
24/07/1948
05/06/1948
03/07/1948
30/07/1949
13/08/1949
29/07/1950
20/05/1950
29/01/1949
28/04/1951
16/07/1949
03/06/1950
30/07/1949
30/07/1949
30/07/1949
10/12/1949
21/01/1950
10/12/1949
10/12/1949
23/04/1949
02/07/1949
21/01/1950
11/02/1950
20/05/1950
570
98.
99.
100.
101.
102.
103.
104.
105.
João Calazans
João Clímaco Bezerra
Pequeno Burguês
Não há estrelas no céu
João Dornas Filho
João Guimarães
João Marmelo e Silva
João Muniz
João Pacheco
Jorge Amado
Sol posto
História do Ceará
Antônio Torres
Viagem através do Brasil
Adolescente
Terra de Santa Cruz
Recuo do meridiano
LENITA
O PAÍS DO CARNAVAL
Romance
<1948
Romance
Infantil
<1948
Infanto-juvenil
Novela
Poema longo
Romance Inédito
Novela, escrita em colab.
com Dias da Costa e Edson
Carneiro
Romance
CACAU
romance
SUOR
Romance
JUBIABA
Romance
MAR MORTO
Romance
CAPITÃES DE AREIA
Romance
1948
1949
A ser
21/05/1949
31/12/1948
21/05/1949
31/12/1948
31/12/1948
30/10/1948
15/01/1949
24/07/1948
06/05/1950
20/05/1950
13/03/1948
13/03/1948
13/03/1948
1934
13/03/1948
13/03/1948
1936
13/03/1948
08/10/1949
13/03/1948
13/03/1948
O ABC DE CASTRO ALVES
TERRAS DO SEM FIM
Romance
13/03/1948
SÃO JORGE DOS ILHÉUS
Romance
13/03/1948
Colab. Matilde Garcia Rosa
13/03/1948
poemas
13/03/1948
O AMOR DE CASTRO ALVES
teatro
13/03/1948
BAHIA DE TODOS OS SANTOS
romance
21/08/1948
novela
08/10/1949
A Descoberta do Mundo
A ESTRADA DO MAR
O PRIMEIRO DIA DE GREVE
106. José Carlos Cavalcanti Borges
107. José Geraldo Vieira
108. José Lins do Rego
PADRÃO G
Neblina
A ronda dos deslumbramentos
Território humano
Contos
1949
11/03/1949
contos
1949
1936
11/03/1949
29/11/1947
29/11/1947
10/04/1948
21/01/1950
29/11/1947
10/04/1948
15/01/1949
29/11/1947
10/04/1948
31/12/1948
15/01/1949
21/01/1950
29/11/1947
10/04/1948
15/01/1949
26/11/1949
21/01/1950
15/01/1949
21/01/1950
31/01/1948
31/01/1948
31/01/1948
31/01/1948
04/06/1949
31/01/1948
31/01/1948
31/01/1948
31/01/1948
31/01/1948
A Túnica e os Dados
1947
A quadragésima porta
<1949
A mulher que fugiu de Sodoma
<1949
Ladeira da memória
Romance
1950
Menino de Engenho
Doidinho
Bangüê
Pureza
Romance
Romance
Romance
Romance. Tradução por
Lucie Maron
Romance
Romance
Romance
Romance
Lit. infantil
1932
1933
1934
1937
Moleque Ricardo
Usina
Pedra bonita
Riacho doce
Histórias da Velha Totonha
1935
1936
1938
1939
?
572
Água mãe
Romance
1941
Fogo Morto
Gordos e magro
Pedro Américo
Conferências no Prata
Poesia e vida
Eurídice
Romance
Ensaios
1943
1943
1944
1946
1946
1948
Ensaios
Ensaios
Romance
Em
preparo
Cangaceiros
109. José Mauro de Vasconcelos
Meus verdes anos
BARRO BLANCO
memória
Banana brava
Longe da terra
romance
As perdas e Deus
Vazante
romance
romance
110. José Montello
História da vida de Joaquim Nabuco
A luz da estrela morta
111. Judas Isgorogota (Agnelo
Rodrigues de Melo)
112. Judite Navarro
Recompensa
Fascinação
Esta é a minha história
A asinha dos besouros
“Os Cisnes”
113. Jules Salusse
1948 (?)
A ser
Poemas
Poema - (2ª ed)
1950
Soneto
A ser
1898
31/01/1948
07/08/1948
04/09/1948
30/10/1948
13/11/1948
31/01/1948
31/01/1948
31/01/1948
31/01/1948
31/01/1948
31/01/1948
07/08/1948
02/10/1948
31/01/1948
07/08/1948
27/08/1949
04/06/1949
31/12/1948
23/04/1949
31/12/1948
23/04/1949
31/12/1948
23/04/1949
23/04/1949
23/04/1949
11/02/1950
30/07/1949
11/03/1949
29/07/1950
04/06/1949
25/02/1950
24/07/1948
24/07/1948
22/05/1948
114.
115.
116.
117.
Jurandir Ferreira
Lauro Rodrigues
Leonídio Ribeiro
Lia Correia Torres (ou Dutra)
Céu entre montanhas
Minuano
Biografia de Afrânio Peixoto
Navio sem porto
Romance
poemas
Dúvida no título
118. Lima Barreto
Triste fim de Policarpo Quaresma
Recordações do Escrivão Isaias Caminha
Romance
romance
119. Lindolfo Gomes
120. Lourdes Bacellar
Contos populares brasileiros
Enquanto ruge a tormenta...
Crônicas e poemas
Contos
1949
121. Lucia Benedetti
122. Lúcia Machado de Almeida
O casaco encantado
VIAGENS MARAVILHOSAS DE MARCO POLO
Teatro. Prêmio ABL
Infantil
1949
02/07/1949
27/11/1948
29/07/1950
21/02/1948
15/01/1949
02/10/1948
23/04/1949
21/05/1949
15/01/1949
21/02/1948
02/10/1948
30/10/1948
21/02/1948
02/10/1948
30/10/1948
21/02/1948
30/10/1948
15/07/1950
15/01/1949
123. Lúcia Miguel Pereira
Amanhecer
Romance
Romance
>1949
1949
15/01/1949
29/01/1949
Machado de Assis
Em surdina
Estudo crítico e biográfico
romance
1936
1933
Maria Luiza
A fada menina
A filha do rio verde
Na floresta mágica
Maria e seus bonecos
Gonçalves Dias (possível título)
romance
Lit infantil
Lit. infantil
Lit. infantil
Lit. infantil
Estudo biográfico
1933
1939
1940 ?
1943
1943
1943
12/02/1949
24/07/1948
27/08/1949
24/07/1948
24/07/1948
24/07/1948
24/07/1948
24/07/1948
24/07/1948
lançado
<1948
1949
1948
Festa
1947
Na sombra e no silêncio
CABRACEGA
574
Prosa de ficção
124. Lúcio Cardoso
125. Luis Ferreira Pires
Reaparição de Inácio
A MUSA E UM POETA
1950
Historiografia
12º vol de História da
Literatura Brasileira, dir.
Álvaro Lins
Folhetim – em vespertino
A ser
carioca
A biografia romanceada de
Paulo Eiró
Romance
126. Luiz Jardim
Confissões do meu tio Gonzaga
127. Lygia Fagundes Telles
128. Machado de Assis
129. Manoel Bandeira
O cacto vermelho
Dom Casmurro
Ritmo Dissoluto.
A cinza das horas
Carnaval
Libertinagem
Estréia da manhã
Lira dos Cinqüenta anos e Poemas traduzidos
Crônicas da província do Brasil
Guia de Ouro Preto
Noções de história das literaturas
Antologia dos poetas brasileiros da fase
romântica
Antologia dos poetas brasileiros da fase
parnasiana
obras poéticas de Gonçalves Dias
Apresentação da poesia brasileira
Estudos Literários
Antologia dos Poetas bissextos contemporâneos
Poemas traduzidos
contos
Romance
Poemas
1949
Itinerário de pasargada
Gaúchos e beduínos
Memórias
redigindo
No prelo
130. Manoelito de Ornelas
1949
Poesias completas
28/01/1950
03/06/1950
26/11/1949
28/01/1950
11/02/1950
20/05/1950
30/07/1949
02/10/1948
05/06/1948
05/06/1948
05/06/1948
05/06/1948
05/06/1948
05/06/1948
05/06/1948
05/06/1948
05/06/1948
05/06/1948
05/06/1948
edição crítica e comentada
05/06/1948
05/06/1948
05/06/1948
05/06/1948
05/06/1948
15/01/1949
29/07/1950
17/01/1948
131. Manuel Anselmo
132. Manoel Bandeira
133. Mansueto Kohen
134. Manuel do Nascimento
135. Manuel Martinho
136. Manuel Peixoto
137. Marcus Cheke
138. Marcus Cheke
139. Mário Cabral
140. Mario Donato
141. Mário Matos
142. Mario Monteiro de Almeida
143. Mário Quintana
144. Mario Sette
145. Marques da Cruz
146. Marques Rabelo
147. Mauro Mota
Família literária luso-brasileira
Ritmo Dissoluto
Síntese Histórico-Literária das Letras
Germânicas
O aço mudou de tempera...
Bairro da liberdade
Estudos na outra América
Marquês de Pombal
Carlota Joaquina
Roteiro de Aracajú
Caderno de crítica
Presença de Anita
Maria Vestida de Azul
A casa das 3 meninas
Episódios históricos da formação geográfica do
Brasil- fixação das raias com o Uruguai e o
Paraguai
Sapato florido
O aprendiz e o feiticeiro
Arruar
Eça de Queiroz, a sua psiquê
Suíte Brasileira nº2
Oscarina
BALADA DO VENTO FRIO
ELEGIA Nº 2
148.
149.
150.
151.
Michael Simon (?)
Milton Pedrosa
Milton Vilas-Boas
Moacyr Félix de Oliveira
Elegia e outros poemas
Verlaine e o Brasil
Passos cegos
Castro Alves – o gênio
Canto do homem só
1943
15/07/1950
05/06/1948
27/11/1948
Romance
A ser
Crônica
Estudo de literatura e cultura
norte-americana
Biografia
24/07/1948
04/09/1948
31/12/1948
poemas
Guia
1948
romance
Romance
contos
A ser
1949
1951
11/03/1949
11/03/1949
21/08/1948
21/08/1948
23/04/1949
04/06/1949
04/06/1949
13/08/1949
28/04/1951
Poesia
18/09/1948
02/10/1948
21/05/1949
03/06/1950
08/05/1948
03/07/1948
30/07/1949
Poesia
30/07/1949
Poesia
1950
[talvez seja uma revista]
Poesia – cita como 1º livro
Antologia (org)
poesia
Monografia (publicação)
Versos
1949
1949
A ser
27/08/1949
29/01/1949
08/04/1950
29/01/1949
30/07/1949
576
152. Monteiro Lobato (trad)
Alicia en el pais de las maravillas
153. Murilo Mendes
154. Natur de Assis
As metamorfoses
Harpa de Prata
155. Nilo Pinho
156.
157.
158.
159.
Octávio de Faria
Olegário Mariano
Ondina Ferreira
Orígenes Lessa
160. Osvaldino Marques
161. Otávio Tarquínio de Souza
versão castelhana da
editorial Sopena Argent.
13/12/1947
Poemas
1948
CINCO ESCADAS SOBEM PARA A MORTE
romance
1949
04/06/1949
05 /06/1948
04/09/1948
13/11/1948
13/11/1948
Os Renegados
Últimas cigarras
Navio ancorado
O escritor proibido
Garçom, Garçonete, Garçonniere
A cidade que o diabo esqueceu
O Livro do Vendedor, teoria e prática comercial
Não há de ser nada
Passa três, aventuras e desventuras de um
cavalo de pau
Ilha Grande, do jornal de um presídio de guerra
O sonho de prequeté
O Joguete
O feijão e o sonho
Romance
Romance
contos
contos
contos
técnico
Memória/reportagem
novela para crianças
1947 (?)
6ª ed
1949
1929
1930
1931
1931
1932
1932
05/06/1948
15/07/1950
15/01/1949
04/06/1949
04/06/1949
04/06/1949
04/06/1949
04/06/1949
04/06/1949
Memória/reportagem
novela para crianças
Novela
Romance
1933
1934
1937
1938
O.K. América
Omelete em Bombaim
Notas de viagens
Contos
1945
1946
Desintegração da morte
Novela seguida de contos
1948
Um homem passou
Nasceu um herói
Rua do Sol
Ciméria
A mentalidade da Constituinte
teatro
teatro
romance
Teatro
04/06/1949
04/06/1949
04/06/1949
31/12/1948
04/06/1949
04/06/1949
30/10/1948
31/12/1948
04/06/1949
30/10/1948
31/12/1948
04/06/1949
04/06/1949
04/06/1949
04/06/1949
11/02/1950
10/12/1949
A ser
162. P. Leonel França
163. Paulo Dantas
Bernardo Pereira de Vasconcelos e seu tempo
Evaristo de Veiga
Diogo Antônio Feijó
História de dois golpes de estado
José Bonifpácio
“Biografia de D. Pedro I”
História da Literatura Brasileira, 1830 a 1870
Noções de história da filosofia
CIDADE ENFERMA
AQUELAS MURALHAS CINZENTAS
164. Paulo Ronai
As águas não dormem
Á margem dos romances de mocidade de Balzac
MAR DE HISTÓRIAS
Biografia em pesquisa
Direção Álvaro Lins
A ser
A ser
romance
1948
10/12/1949
10/12/1949
10/12/1949
10/12/1949
10/12/1949
10/12/1949
10/12/1949
30/07/1949
27/11/1948
Romance
< 1948
27/11/1948
romance
< 1948
Tese de doutorado
Antologia do conto mundial,
colab. com Aurélio B. de
Holanda
27/11/1948
29/01/1949
29/01/1949
29/01/1949
TENDÊNCIAS E FIGURAS DA LITERATURA
HÚNGARA
165. Paulo Setúbal
166. Pe. Vieira
167. Pedro Calmon
168.
169.
170.
171.
Pedro de Almeida Moura
Pedro Deodato de Morais
Pedro Ivo
Pedro Moacir Maia (org)
As cartas do Padre Fay e sua vida
Balzac e a comédia humana
Confeitior
A Marquesa dos Santos
Os Irmãos Leme
A arte de furtar
Rei cavalheiro
Confissões, obra póstuma
Infantil
Uma aventura na floresta
Biosofia
romance
Caminho sem aventura
Poemas de amor – antologia de poemas de amor poesias
de autores brasileiros contemporâneos
1949
1949
1949
1948
A ser
29/01/1949
29/01/1949
11/03/1949
11/03/1949
30/10/1948
03/06/1950
21/08/1948
30/10/1948
15/01/1949
27/08/1949
10/04/1948
08/04/1950
03/06/1950
15/07/1950
18/03/1950
578
172. Pedro Serafim
173. Pedro Uzzo (Santos)
174. Perminio Ásfora
175. Rachel de Queiroz
176. Raimundo de Menezes
As 3 liras e as prescilianas
Suínas
Fogueira verde
Poemas
Poesia
romance
Sapé
Noite grande
Maria Bárbara
O quinze
João Miguel
Caminhos de Pedra
As três marias
Romance
romance
Romance
romance
Romance
Romance
romance
A ser
1932
1937
1938
A ser
Três romances
A VIDA BOÊMIA DE PAULA NEY
ESCRITORES NA INTIMIDADE
1949
1949
1948
Estudos biográficos
1949
EMÍLIO DE MENEZES - O ÚLTIMO BOÊMIO
177. Raimundo de Souza Dantas
Solidão nos Campos
UM COMEÇO DE VIDA
A ser
Autobiografia
1949
(TÍTULO INICIAL ANUNCIADO EM 48: CAMINHO
29/01/1949
15/01/1949
10/04/1948
24/07/1948
23/04/1949
23/04/1949
21/08/1948
21/08/1948
21/08/1948
21/08/1948
21/08/1948
04/09/1948
21/08/1948
16/07/1949
16/07/1949
16/07/1949
30/07/1949
24/07/1948
08/10/1949
15/01/1949
02/07/1949
08/10/1949
ÁSPERO)
27/11/1948
02/07/1949
08/10/1949
02/07/1949
SETE PALMOS DE TERRA
AGONIA
VIGILIA DA NOITE
178.
179.
180.
181.
Roberto Alvim Corrêa
Rodrigues de Brito
Rosário Fusco
Rossine Camargo Guarnieri
Anteu e a crítica
A economia brasileira no alvorecer do século XX
Romance
Carta de noiva
Poesia
Voz do grande rio
a ser
13/08/1949
1948
A ser
11/03/1949
03/07/1948
15/07/1950
06/05/1950
182. Rubem Braga
183. Rubem Nogueira
184. Rute Guimarães
185.
186.
187.
188.
Santos Morais
Sebastião Corain
Sergio Milliet
Silas Portugal
189. Silo Gonçalves
190. Silvino Lopes
191. Souza Filho
192. Souza Martins
193. Souza Neto
194. Teixeira Lobão
195. Thadeu Santos
196.
197.
198.
199.
200.
201.
202.
Thales de Azevedo
Theobaldo Mirando dos Santos
Theodomiro Jordão
Umberto de Campos
Valentim Valente
Valfrido Piloto
Vasconcelos Maia
O homem rouco...
O advogado Ruy Barbosa
Os filhos do medo
Crônicas
Água funda
Os filhos do medo
romance
romance
2ª ed
a ser
A nuvem de fogo
Burocracia versus petróleo
História da poesia moderna brasileira
Ressurreição de um suicida moral
Poemas
Ensaio
crítica
Prefácio João Mendonça
1948
1947
A ser
1948
Crítica de rodapé
1949
A ser
1949
21/01/1950
20/05/1950
24/07/1948
27/08/1949
27/08/1949
24/07/1948
27/08/1949
30/10/1948
29/11/1947
04/06/1949
04/09/1948
02/10/1948
30/07/1949
20/05/1950
08/10/1949
VOZES DA CARNE
Contos
1937
12/02/1949
RASTROS NA AREIA
Contos
1949
12/02/1949
Política
1948
Didático/técnico
1948
1942
21/08/1948
10/12/1949
10/12/1949
10/12/1949
11/02/1950
30/10/1948
11/02/1950
02/10/1948
02/07/1949
11/03/1949
22/05/1948
13/08/1949
23/04/1949
13/08/1949
08/04/1950
Águia de Haia
Memoraiss de um sargento de malícias
CRÍTICA HUMANÍSTICA
Culpado
Moko
Almanaque da Magistratura baiana
Notícia histórica da Bahia
Povoamento da cidade do Salvador
Psicotécnica
Vultos e fatos da minha infância
Destino
Anita Garibaldi
Rua de pedra
FORA DA VIDA
CONTOS DA BAHIA
1949
P/ 1948
Romance
Biografia romanceada
Poema
Conto
1949
1949
1946
contos
A ser
580
203. Walter Spalding
FARRAPOS
16/07/1949
A LUZ DA HISTÓRIA
16/07/1949
A REVOLUÇÃO FARROPILHA
16/07/1949
A INVASÃO PARAGUAIA NAS FRONTEIRAS DO
16/07/1949
BRASIL
204. Wilson Rocha
205. Zilteman de Oliva
O tempo no caminho
Poesia, ed. Caderno da Bahia
Poemas
Porto inexistente
Reunião de versos de Enoch Santiago Filho
A ser
Poesia
poesia
Não cita o título
A ser
21/01/1950
08/04/1950
24/07/1948
24/07/1948
04/11/1951
Autores brasileiros
ÍNDICE ONOMÁSTICO DE AUTORES ESTRANGEIROS
COM RESPECTIVAS OBRAS DATADAS
Título
Classif.
Ano pub.
Tradutor(es)
1647
1º livro publicado no Brasil
Ano div.
03/07/1948
Autor
1.
Por holandeses
Barslische gelth-sack
2.
Angústia e paz do religioso Fulton J. Sheen
03/06/1950
Bibliografia Nacional Britânica
21/01/1950
?
3.
4.
?
5.
A. L. Baker
6.
A. Rossi
7.
Adele Garrison
8.
Affaire Kravchenko
9.
Albert Camus
Jamil Almansur Haddad
Tradutor de Odes Anacreonticas
24/07/1948
Inocentes
PHISIOLOGIE DU PARTI COMMUNISTE FRANÇAIS
21/05/1949
EL DERROTERO PELIGROSO DEL AMOR
04/09/1948
Autoria duvidosa
A GRANDE CONSPIRAÇÃO
Albert Schweitzer
DECADÊNCIA
Confer.
Pedro de Almeida Moura
02/10/1948
REGENERAÇÃO DA CULTURA
Confer.
Pedro de A. Moura
02/10/1948
Provável título
1949
BIOGRAFIA DE GOETHE
11.
Alberto Uva
12.
Aldo Oberdorfer
13.
Aldous Huxley
12/02/1949
13/08/1949
29/07/1950
30/10/1948
La pest
LETRAS A UN ALLEMAND
10.
15/07/1950
SEGREDOS DE POLICHINELO
poemas
24/07/1948
Márcio Silva
LUIZ II DA BAVIERA - A LENDA E A VERDADE
ON THE MARGIN
ensaios
APE AND ESSENCE
Felizmente para sempre
Themes and variations
Contraponto
1923
27/11/1948
1948
31/12/1948
Marina Guaspari
A ser
romance
22/05/1948
15/01/1949
03/06/1950
04/09/1948
31/12/1948
03/06/1950
312
04/09/1948
14.
Alice Cluchier
15.
Alphonse Daudet
LE PETIT CHOSE (A BORBOLETA AZUL)
16.
Altino Bondesan
UM PRACINHA PAULISTA NO INFERNO DE HITLER
30/10/1948
17.
Alves Redol (org)
CANCIONEIRO DO RIBATEJO
24/07/1948
18.
Anatole France
19.
Andre Gide
AU ROUET DE L´AMOUR
Silvestre Bonnard
Thais le’lys rouge historie conuque
Pierre Noziere
Lês Cahiers D´andre Walter
Romance
Romance
Romance
autobiog
Theodomiro Tostes
O imoralista
Corydoni
Sobre Dostoievsky
SUBTERRÂNEOS DO VATICANO
20.
21.
22.
23.
André Malraux,
André Maurois
Ann Petry
Antoni di Monti
24.
Antoine de SaintExupéry
25.
Antônio Fogazzaro
26.
Arthur Koestler
08/05/1948
08/05/1948
08/05/1948
03/01/1948
21/02/1948
21/02/1948
18/03/1950
21/02/1948
30/07/1949
02/10/1948
Não cita título
A ser filmado
romance
Lívio de Almeida
romance
trilogia
Ligia J.Smith
1º vol: Iremos longe demais
10/04/1948
13/08/1949
29/11/1947
20/05/1950
La citadelle
Manuscrito
29/11/1947
Pequeno Mundo Antigo
José Geraldo Vieira
04/06/1949
A condição humana
A la recherche de Marcel Proust
A rua
NÃO SEI SE VOLTAREI
Il Santo
04/06/1949
O zero e o infinito
13/03/1948
21/08/1948
04/06/1949
13/03/1948
04/06/1949
04/06/1949
Insigth and outlook
Arthur Stanley Riggs
20/05/1950
Ensaio
Logi e o comissário
27.
José Geraldo Vieira
THE MAGNIFICENT.
29/11/1947
29/11/1947
TITAN
VELÁSZQUEZ
28.
Artigas Milans
Martinez
29.
Ayel Munthe
30.
32.
B. for Evans
Biografia
1947
22/05/1948
NÃO CITA OBRA
Em árabe
LIVRO DE SAN MICHELE
Nova ed.
A short history of England literature
ENGLISH LITERATURE BETWEEN THE WARS
Estudos
CORONEL CHABERT
novela
Balzac
A interdição
Novela
O contrato de casamento
Novela
Outro estudo de mulher
novela
A missa do ateu
Conto
1948
O primo pons
33.
Bernard Blackstone
34.
G. Bernard Shaw
35.
36.
37.
38.
39.
29/11/1947
VIRGÍNIA WOLFF
estudo
Aventuras de uma negrinha que procurava Deus
Major Barbára
Homem e superhomem
Bertrand A. W. Russel
HUMAN KNOWLEADGE
Authority and the individual
Branquinho da Fonseca Porta de minerva
Bueno de Rivera
Luz do Pântano
Carlos de Oliveira
Pequenas Virgens
Colheita perdida
Carolina Slade
Margaret
1948 ?
04/09/1948
13/08/1949
sobre Joyce, Fost, e outros
02/10/1948
Gomes da Silveira,Vidal de
Oliveira e Berenice Xavier
Gomes da Silveira,Vidal de
Oliveira e Berenice Xavier
Gomes da Silveira,Vidal de
Oliveira e Berenice Xavier
Gomes da Silveira,Vidal de
Oliveira e Berenice Xavier
Gomes da Silveira,Vidal de
Oliveira e Berenice Xavier
Os melhores p/ Paulo Ronai
Interpretação e análise da obra
da autora
27/08/1949
Moacyr Werneck de Castro
Moacyr Werneck de Castro
1949
1949
romance
Poesia
romance
Percy Cardoso
27/08/1949
27/08/1949
27/08/1949
27/08/1949
29/07/1950
18/09/1948
30/07/1949
03/06/1950
03/06/1950
11/03/1949
16/07/1949
24/07/1948
10/04/1948
04/06/1949
04/06/1949
19/06/1948
314
40.
Castro Soromenho
41.
Chafic Maluf
42.
Charles Baudelaire
43.
Charles Dickens
GREAT EXPECTATIONS
44.
Charles Morgan
THE JUDGE’S STORY
45.
46.
47.
48.
49.
50.
romance
Terra morta
FLORES DO MAL
D.H. Laurence
Daphné de Maurier
Defoe
Dino Segri
Publicado no Brasil.
versificação por Judas
Isgorogata
Comentário anedótico
ABKAR, A CIDADE DOS GÊNIOS
Poesias
Nova edição, introdução de
Bernard Shaw
<1948
27/08/1949
20/05/1950
10/12/1949
13/12/1947
29/11/1947
19/06/1948
RETRATO NUM ESPELHO
romance
29/01/1949
FONTE
Romance
29/01/1949
SPARKENBROKE
romance
29/01/1949
novela
22/05/1948
Charlot Bronte
Clemence Dane
1949
VILLETE,
A ser
1719
22/05/1948
19/06/1948
26/11/1949
26/11/1949
26/11/1949
26/11/1949
26/11/1949
26/11/1949
21/05/1949
17/01/1948
17/01/1948
11/02/1950
11/02/1950
29/01/1949
A APARIÇÃO DE MAD VEAL
1706
29/01/1949
JORNAL DO ANO DA PESTE
1722
29/01/1949
Jane Eyr
The Professor
Regiment of women
A lenda de Madala Grey (Legend)
The babyons
Brooms stages
The moon is feminine
The arrogant history of White Ben
Sons and Loves
General do rei
Rebeca
The Lowing spirit
The roring porties
Robinson Crusoé
A loura dolicocefala
novela
novela
1917
romance
<1948
1919
1928
1928
1928
1939
1913
Pseud. de Winifred Ashton
1938
romance
Romance
pseud: Pittigril
27/11/1948
Os Irmãos Karamazov
Recordações da Casa dos mortos
Filmagem
José Geraldo Vieira
08/05/1948
15/01/1949
Crime e castigo
Os melhores por Paulo Ronai
29/07/1950
51.
Edgar Allan Poe
O corvo
52.
Edmond About
O homem da orelha rasgada
romance
A Du Barry
biografia
Modesto de Abreu
10/04/1948
Cimarron
romance
Nair Lacerda
25/02/1950
Dawn Ohara
novela
25/02/1950
So Big (Trigo e esmeralda)
novela
25/02/1950
53.
Edmond e Jules de
Goncourt
54.
Edna Febber
55.
Edward Tomlinson
56.
Elisabeth Berboir
57.
Elizabeth Bowen
58.
Elsa Triolet
59.
Emerson
60.
Emil Ludwig
61.
Emil Ludwig
08/10/1949
Anuncia livro sobre costumes e tradições do Brasil,
não indica o título
Romance
LÊS GENS DE MORGADOR
05/07/1950
28/04/1951
1948
17/01/1948
THE HOUSE IN PARIS
Novella
21/05/1949
THE HEATH OF THE DAY
novela
21/05/1949
THE CAT JUMPS
Contos
28/01/1950
THE WRITE HORSE
A Inglaterra e os ingleses
MEMÓRIAS DE UM CAÇADOR DE HOMENS
Napoleão
GOETHE
Mervyn Savil
20/05/1950
Acácio França
07/08/1948
biografia
13/03/1948
Biografia
13/03/1948
biografia
13/03/1948
BISMARCK
13/03/1948
DIANA
13/03/1948
REISE NACH AFRICA
13/03/1948
DER SPIEGEL VON SNALLOT
13/03/1948
316
OTELO
62.
63.
Emílio Myra e Lopez
Ernest Hemingway
Os quatros gigantes da alma
Por quem os sinos dobram
64.
Erskine Caldwell
Misterioso (título hipotético)
TOBACO´S ROAD
65.
66.
67.
68.
69.
Estella Gibbors
Eugene O´Neill
Eva Jungell
Fernando Alegria
Gustave Flaubert
Romance
29/01/1949
Estudo
Cláudio de Araújo Lima
GOD´S LITTLE ACRE
Teatro
TROUBLE IN JULY
teatro
30/07/1949
27/11/1948
03/06/1950
03/06/1950
18/09/1948
02/07/1949
18/09/1948
02/07/1949
18/09/1948
A PLACE CALLED ES THERVILLE
romance
21/01/1950
THE MOUNTAIN BEAST
Poemas
16/07/1949
COLD COMFORT FARM
Novela
THE MATCHMAKER
Novella
A ser
teatro
1933
16/07/1949
16/07/1949
ALÉM DO HORIZONTE
03/06/1950
ANNA CHRISTIE
03/06/1950
ESTRANHO INTERMÉDIO
drama
03/06/1950
ENLUTADA TORNA-SE ELECTRA
drama
03/06/1950
O cuco
Lautaro, jovem libertador e arauco
Educação sentimental
Psicolog.
lançamento
Os melhores por Paulo Ronai
25/02/1950
MADAME BOVARY
70.
71.
72.
73.
Frances Sarah Moore
O colar de esmeraldas
Françoise D´Eaubonne L´eternité commience a´ la´homme
Comme un vol dês Gerfants
François Mauriac
Le Passage Du Malin
Franz Freler
O neto dos reis
27/11/1948
03/06/1950
29/07/1950
Romance
romance
Teatro
A ser
Encenada no Rio
08/10/1949
17/01/1948
17/01/1948
19/06/1948
30/07/1949
74.
Frederico Garcia Lorca Bodas de sangue
75.
Fulton J. Sheen
76.
Germaine Beaumont
77.
George Upton e Felix
Borowski
78.
Georges Duraud
79.
George H. Waltz Jr
ANGÚSTIA E PAZ
27/08/1949
21/01/1950
03/06/1950
religião
PIEGE DU COTE D’OU VIENDRA LE JOUR
04/06/1949
LA ROUE D’INFORTUNE
04/06/1949
O LIVRO DAS GRANDES SINFONIAS
música
AS MASCARAS
Ensaio
E. Carrera Guerra. Rev. Luis
Heitor
27/08/1949
18/09/1948
José Cesio Requeira Costa
VIDA DE JÚLIO VERNE -, BIOGRAFIA DE UMA
22/05/1948
IMAGINAÇÃO
80.
Gilles Buhet
81.
Giovani Papini
NOTRE DAME DE LA LIBERTE
Romance
29/01/1949
GOG
29/11/1947
CARTAS DO PAPA CELESTINO VI AOS HOMENS
29/11/1947
PALAVRAS E SANGUE
22/05/1948
82.
Godofredo Rangel
83.
Graham Greene
84.
Guilhermino de Torre
85.
Hector Bolitho
86.
Heinrich Heine
87.
Henry Levin
88.
89.
Henry Treece
Henry Wallace
Análise da poesia de Dylan Thomas
Rumo à paz mundial
90.
91.
92.
Henryk Sienkiewicz
Herey Freece
Hervé Bazin
Quo Vadis?
S/t (análise da poesia de Dylan Thomas)
Teux de plomb
21/08/48
O CAMINHO DA LIBERDADE
O PODER E A GLÓRIA
POESIA Y EXEMPLO DE ANTÔNIO MACHADO
THE REIGN OF QUENN VICTORIA
romance
Ensaio
08/10/1949
1942
In: La aventura y el orden
1949
03/06/1950
11/03/1949
07/08/1948
Heróis sem armas
02/10/1948
ESSECTIAL JAMES JOYCE
Provável título
16/17/1949
03/07/1948
Nobel de 1905
16/07/1949
16/07/1949
13/08/1949
1948
318
93.
Howard Fast
O Caminho da liberdade (Fredom Road)
Romance
The american
prosa
Carta aberta
Carta
Godofredo Rangel
29/11/1947
21/08/1948
30/07/1949
10/12/1949
30/07/1949
escrita na prisão
21/08/1948
1949
Fast
10/12/1949
Citizan Tom Payne
10/12/1949
94.
H. Stadelmann
Messalina
Percy Cardoso
29/11/1947
95.
96.
Ingvar Andersson
Jack London
História dos povos nórdicos
O TACÃO DE FERRO
(possível título)
15/01/1948
26/11/1949
97.
Jacqueline Marenis
Compilação de sua obra
13/12/1947
98.
J. B. Priestley
THREE TIME PLAYS
Reunião de 3 novelas
20/05/1950
99.
Jacques Crépet
CORRESPONDENCIA DE BAUDELAIRE
100.
Jacques Lacretelle
101.
James Ailton
102.
James Joyce
103.
Jeanne Verbracken
1907
A PRESENÇA DE UMA DESCONHECIDA
LE POUR ET LE CONTRE
novela
21/02/1948
Romance
Em dois volumes
29/11/1949
Em conclusão
22/05/1948
13/03/1948
13/03/1948
02/10/1948
13/08/1949
02/10/1948
13/08/1949
21/02/1948
08/05/19482
6/11/1949
11/03/1949
27/08/1949
26/11/1949
19/06/1948
Nothing so strange
Catherine Herself
Adeus Mister Chips
So well remembered
Lost Horizon (horizonte perdido)
Novela
Romance
Ulysses
romance
Les exiles
ASSIM É A VIDA
teatro
romance
1948
DANÇA, JUANA!
Romance
19/06/1948
A CORRENTE PARTIDA
Romance
19/06/1948
CONFISSÕES
romance
19/06/1948
MAI OU MULHER?
romance
104.
Jean Cocteau
CARTA AOS AMERICANOS
105.
Jean Faurel
LES HOMMES SAN NOM
106.
Jean Louis Curtis
LES JEUNNES HOMMES
1947
19/06/1948
artigos
02/07/1949
21/05/1949
1946
31/01/1948
31/01/1948
31/01/1948
Siegfirend
LES FORETS DE LA MUIT
107.
Jean Paul Sartre
L´AGE DE RAISON (VOL. I)
LUVAS VERMELHAS
Romance
a ser
Sérgio Milliet
Teatro
11/03/1949
Novela
Novela
22/05/1948
03/07/1948
13/11/1948
03/07/1948
07/08/1948
24/07/1948
17/01/1948
17/01/1948
27/11/1948
05/06/1948
05/06/1948
16/07/1949
27/08/1949
Novela
27/08/1949
O ser e o nada
O muro
108.
109.
110.
João Marmelo e Silva
John dos Passos
John Brophy
Adolescente
Bilan d´une nation
Three soldiers
Manhattan Tranfer
Paralelo 42
The grand design
SARAH, GENTLE MAN OF STRATFORD
JULIAN´S WAY
111.
John Dickson Carr
112.
John Gonto Fletcher
THE LIFE OF SIR ARTHUR CONAN DOYLE
Montanha em fogo
29/01/1949
Novela
Biografia
A ser
Portugal
A ser
Eneias Camargo
1949
11/03/1949
29/07/1950
320
113.
John Lehmann
The Sphere os Glass
114.
John Macy
História da literatura Mundial
historiogr
115.
John Masefield
“Reynard the Fox”
Consacration
Point of no return (Não se pode voltar atrás)
poesia
1930
romance
1949
116.
John Phillips
Marquand
117.
John Steinbeck
118.
Joseph Conrad
119.
Judite Navarro
04/06/1949
120.
121.
122.
Jules Roy
Jules Zuchik
Julien Green
O destino viaja de ônibus
Four tales
Está é a minha história
A azinhaga dos besouros
Les metier des arms
O testamento, sob a força
LEVIATA
123.
Kafka
O progresso
124.
Klauss Nann
125.
Knut Hansun
126.
28/01/1950
23/04/1949
23/04/1949
21/01/1950
Portugal
07/08/1948
28/01/1950
24/07/1948
24/07/1948
13/08/1949
28/01/1950
13/11/1948
Os melhores por Paulo Ronai
29/07/1950
(provável título). Prefácio de
Thomas Mann
27/11/1948
romance
romance
romance
BIOGRAFIA DE GIDE
Konstantin Simonaw
Fome
Um vagabundo toca em surdina
Dias e noites
Isa Silveira Leal
17/01/1948
17/01/1948
29/11/1947
127.
Koszolanyi
Ana edef
Os melhores por Paulo Ronai
29/07/1950
128.
Lewis Carrol
129.
Lewis Wallace
130.
131.
Lin Iutang
Lord Lytton
132.
Lucie Marchal
133.
Luigi Pirandello
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS
04/09/1948
BEM-HUR
30/10/1948
13/08/1949
21/01/1950
Chinatown family
OS ÚLTIMOS DIAS DE POMPÉIA
LA MECHE
OBRAS COMPLETAS
A EXCLUÍDA
29/01/1949
Romance
A ser
romance
José Geraldo Veira: A
excluída, Moços e velhos e
novelas para um ano
03/01/1948
23/04/1949
134.
Luis Villaronga
135.
Malraux
136.
Malraux
LES NOYERS DE L´ALTEMBURG
romance
O AÇO MUDOU DE TEMPERA...
romance
1º vol de A La recherche du
temps perdu
LA REBELLE
13/11/1948
27/11/1948
27/11/1948
LA MAISON DU PECHE
27/11/1948
Marcia Brown
141.
Margaret Mitchell
142.
Margaret Slade
143.
Maria Augusta Trapp
144.
Marietta Martin
“ADIEU TEMPS”
145.
Matthew Arnold
NÃO CITA TÍTULO DA OBRA
146.
Maurice Dekobra
O AMOR, AS MULHERES...E UM FILÓSOFO
147.
Maurice Druon
148.
Maurice Maeterlink
Máximo Gorki
150.
Michael Mercier
151.
Miguel Torga
(Adolfo Rocha)
Literatura Infantil
STONE UP
E O VENTO LEVOU
Romance
THE STORY OF THE TRAPP FAMILY SINGERS
13/12/1947
08/04/1950
Percy Cardoso
17/01/1948
coral
A história da família Trapp
20/05/1950
Poema
Pseud: François Captif
29/11/1947
MARGARET
22/05/1948
José Dauster
02/10/1948
LES GRANDES FAMILLES
12/02/1949
L`OISEAU BLEU
03/01/1948
O PÁSSARO AZUL
21/05/1949
A VIDA DAS FORMIGAS
21/05/1949
A VIDA DAS ABELHAS
21/05/1949
A MÃE
08/10/1949
QUERELLE AVEC LA BETE
Paraíso
30/10/1948
24/07/1948
140.
149.
21/08/1948
Ilustr. Artur da Fonseca
A CAMINHO DE SWANN
Marcele Tynaire
04/09/1948
Frederico dos Reys Coutinho
O tempo do desprezo
137.
Manuel do
Nascimento
138.
Marcel Proust
139.
1947
CONTEMPLACION
Romance
29/01/1949
Farsa em 4
atos
05/07/1950
322
152.
Mônica Brillioth
153.
Monsieur Richard e
Henri David
154.
Norman Mailer
Farrusco tha Blackbird
De onde sopra o vento
Latete contre les murs
THE NAKED AND THE DEAD
155.
Omar Khaayyan
156.
Osbert Sitwell
157.
Otto Maria Carpeaux
158.
Otto Strasser
159.
Patrícia Hutchins
160.
Paul Elnar
Le Meilleur Choix de poemes’est que L’on fait
pour sol (1818-1918)
161.
Pearl S. Buck
Kinfolk
Pavilhão de mulheres
162.
Philip R. Hitti
163.
R.A. Scott James
164.
R. Emerson
165.
Rainer Maria Rilke
contos
Novela
romance
LAUGTHER IN THE NEXT ROOM
10/12/1949
Obra
1949
4º vol
10/12/1949
A MISSÃO EUROPÉIA DA ÁUSTRIA
30/07/1949
HITLER E EU
12/02/1949
Dublin=terra natal de Joyce
JOYCE´S DUBLIN
antologia
Romance
Romance
A boa terra
Os árabes
1948
1948
INGLATERRA E SUA GENTE
13/12/1947
02/10/1948
11/03/1949
ELEGIAS DE DUINO
THE MEANING OF TREASON
27/08/1949
Seleção de poesias desde 19/06/1948
Marceline
Desvordes
–
Valmore e Victor Hugo até
Guillanme Apollinaire e Pierre
Reverdy
15/07/1950
Lino Valadares. Tb. em 50
13/121947
editora inglesa Methvenn
24/07/1948
15/07/1950
21/02/1948
Otávio da Costa Eduardo
03/07/1948
edição inglesa: Frederik
Muller
Acácio França
THE DAY BEFORE YESTERDAY
A ser
ESTANDARTE CRISTÓVÃO RILKE
Rebeca West
25/02/1950
27/11/1948
13/08/1949
21/05/1949
O RUBAIYATI
A CANÇÃO DE AMOR E MORTE DA PORTA
166.
Dennis Brás (p/ o inglês)
depoimentos
Nathanael de Barros e ilustr.
Guignard
03/06/1950
04/06/1949
27/11/1948
167.
Remarque
168.
René Maran
Batoula
Le petit roi de Chimerie
Lês livres de la Brousse
romance
169.
Richard Llewellyn
Como era verde o meu vale
A few flowers for chiner
A ilha do tesouro
O estrabho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde
Week-end a zuy docofe
História do Brasil
Os thibault
O Drama de Jean Barois
Romance
Romance
A ser
história
1949
1948
Vol. I
1913
Vidal de Oliveira
NADA DE NOVO NA FRENTE OCIDENTAL
174.
Rolmes Barbosa
ESCRITOS NORTE–AMERICANOS E OUTROS
crítica
1943
04/06/1949
04/06/1949
29/07/1950
04/06/1949
29/07/1950
29/07/1950
18/03/1950
18/03/1950
21/01/1950
03/07/1948
13/03/1948
04/06/1949
21/01/1950
11/02/1950
175.
Romain Rolland
JEAN CHRISTOPHER
05 vol.
5º em 48
13/11/1948
170.
Robert Louis
Stevenson
171.
Robert Merie
172.
Robert Southey
173.
Roger M.artin Du
Gard
Trad.: O médico e o monstro
13/11/1948
CLERRAMBAULT OU A HISTÓRIA DE UMA
CONSCIÊNCIA
13/11/1948
PEDRO E LÚCIA
176.
Rômulo Gallegos
Dona Bárbara
177.
178.
Ronald Hingley
Rudyard Kipling
Biografia de Chekow
TEN STORIES
179.
Ruth Park
180.
Samuel Larghome
Clemens
181.
Samuel Putnam
182.
S. Evelgr Thomas
Dúvida no título
POUR MANS ORANGE
Novela
THE HARP IN THE SOUT
Novela
Tom Sawyer
Um ianque na corte do rei Arthur
Viagem maravilhosa
Princess Elizabeth wife and mother
historiogr
1950
07/08/1948
27/11/1948
15/07/1950
29/11/1947
03/06/1950
Literatura brasileira
19/06/1948
03/06/1950
18/03/1950
18/03/1950
28/01/1950
13/08/949
324
183.
Selma Lagerlof
184.
Shakespeare
185.
Sherwood Anderson
A saga de costa berling
As maravilhosas aventuras de Nils
MACBETH
Windy mcpherson´s son
Marching men
Winesburg, ohio. Título em português: A secreta
mentira
Lit. infan
romance
1916
fragmentos
Sinclair Lewis
BABBIT
KIN BLOOD ROYAN
187.
188.
Somerset Maughan
Steinbeck
1950
1917
1919
1920
Poor white
186.
Arthur de Sales
Creatures of circunstances
Servidão humana
Then and now
Maquiavel e a dama
Catalina
romance
29/07/1950
29/07/1950
James
Amado,
Moacyr 29/07/1950
Werneck de Castro. Introd.
James Boyd
29/07/1950
08/04/1950
novela
21/08/1948
Romance
Romance
Romance
Érico Veríssimo
1948
1950
Caderno de notas de um escritor
NOITES SEM LUA
Stendhal
Swift
Theodore Dreiser
192.
Theodore Plievier
193.
Thomas Hardy
Os melhores p/ Paulo Ronai
Os melhores p/ Paulo Ronai
O vermelho e o negro
Viagens de Gulliver
SISTER CARRIE
UMA TRAGÉDIA AMERICANA
1900
Romance
1925
TESS OF THE D´URBEVILLES
29/07/1950
29/07/1950
31/01/1948
31/01/1948
08/04/1950
27/11/1948
STALINGRADO
JUDAS, O ABSCURO
17/01/1948
16/07/1949
27/03/1948
04/09/1948
02/10/1948
13/11/1948
21/01/1950
03/01/1948
03/01/1948
VINHAS DO IRA
189.
190.
191.
07/08/1948
07/08/1948
26/11/1949
Romance
Apenas citação
12/02/1949
23/04/1949
23/04/1949
20/05/1950
194.
Thomas Mann
THE RETURN
Apenas citação
20/05/1950
OF THE NATIVE
Apenas citação
20/05/1950
FAR FROM THE MADDING CROWD
Apenas citação
20/05/1950
THE WOODLANDERS
Apenas citação
20/05/1950
THE MAYOR OF CASTER-BRIDGE
Apenas citação
20/05/1950
UNDER GREENWOOD TREE
Apenas citação
20/05/1950
THE TRUMPET-MAJOR
Apenas citação
20/05/1950
A MULHER DE CEM ROSTOS
novela
31/01/1948
13/11/1948
11/03/1949
02/10/1948
13/11/1948
A MONTANHA MÁGICA
Teatro
O jovem José
2º vol
DR. FAUSTO
Agenor Soares de Moura
JOSÉ NO EGITO
195.
Thomas Stearns Eliot
Romance
17/01/1948
Teatro
THE WASTE LAND
17/01/1948
13/11/1948
13/11/1948
COLLECTED POEMES – 1909-1935
28/01/1950
PASSAGE TO ÍNDIA
MURDER IN CATHEDRAL
196.
Thornton Niven
Wilder
197.
Tristan Bernard (Paul
Bernard)
198.
Upton Sinclair
04/06/1949
A ponte de São Luiz Rei
Our Town
The skin of our teeth
O céu é meu destino
Os pés niquelados
Petit café
L´anglais tel qu´em se parle
Um marido pacífico
As memórias de um rapaz bem comportado
The jungle
peça
Peça
sátira
1937
1943
1935
Rolmes Barbosa-em50
Novella
1905
Wanda Murgel
15/07/1950
15/07/1950
15/07/1950
15/07/1950
13/12/1947
13/12/1947
13/12/1947
13/12/1947
13/12/1947
22/05/1948
326
199.
200.
201.
202.
203.
204.
205.
206.
Verga
Viadisiav Vantchura
Vicente Brome
Victor Hugo
Vitor Cousin
Virgínia Wolff
Dentes do Dragão
A família Malavoglia
O padeiro marhoul
Biografia de H.G. Wels
Os miseráveis
Pensamentos de Pascal
Orlando
Walt Whitman
Winston Churchil
As vagas
Ao farol
The moment na other essays
The poetry and prose
A segunda guerra mundial
A Segunda guerra Mundial.
Os melhores p/ Paulo Ronai
romance
1951
tese
Trad. Cecília
Meireles
Dúvida no título
Os melhores p/ Paulo Ronai
1842
1950
Vol I
1949
Vol II
Enio Silveira, Breuno Silveira
e Leônidas Gontijo de
Carvalho
Breno Siveira, Thomas
Newlands e Leônidas Gontijo
de Carvalho
21/05/1949
29/07/1950
28/01/1950
28/04/1951
29/07/1950
19/06/1948
31/01/1948
07/08/1948
18/09/1948
31/01/1948
31/01/1948
31/01/1948
08/04/1950
21/08/1948
27/08/1949
Índice das revistas
Anexo B – 5
ÍNDICE DE REVISTAS BRASILEIRAS
CITADAS POR HERON DE ALENCAR
Revista
A imprensa
A União
Ângulos
Local
Ano
Nº/fund.
citação
1950
Nº 02
João Pessoa 1949
/ Paraíba
Salvador
1951
Nº02
Atualidades
pedagógicas
Boletim de Ariel
1950
Branca
1949
1948
Caderno da Bahia
Bahia
Clã
Fortaleza
Cultura
Dois de Julho
Época
Fundamentos
Fundamentos
Bahia?
Bahia
Sergipe
1931 (?)
fim: 1938
1948/19 1948
50
1949
1948
1948
1948
1950
Nº 03
/nº 03
(2º nº)
nº4/5
Nº 13
Colaboradores/obs.
Direção: Luiz Ernesto Machado Kawall
Diretor do suplemento literário Correio das
Artes deste periódico: Edson Reis
Do Centro Acadêmico Ruy Barbosa da
Faculdade de Direito
Direção: Adalmir da Cunha Miranda
Cita as publicações deste número: Josaphat
Marinho, Harold Laski, A . L. Machado Neto,
Sylvio Santos Faria, Lafayette Ponde, Enoch
Santiago Filho
Jair Gramacho, Antonieta Dias de Morais
Silva, Raymundo Mesquita, Enio Mendes de
Carvalho, Otacílio Lopes, Adalmir da Cunha
Miranda
Colab. Lúcia Miguel Pereira
Org.: Saldanha Coelho; Diretores: Haroldo
Bruno
Nº = Bráulio Nascimento, Saldanha Coelho,
Afonso Félix De Souza, Pedro Luiz Mais,
Rocha Filho,, Mauro Mota, Paulo Armando,
George Matos, Da Costa e Silva Filho,
Haroldo Bruno, Constantino Paleólogo, José
Conde, Herberto Sales, Beatriz Rocha, Renato
Jobim, Nataniel Dantas, Renato Linhares,
Alzira Ferreira de Coimbra, Flávia Silveira
Lobo, Maurílio Bruno, Gasparino Damata.
Entrevistado: John Lehmann. Ilustradores:
Alcélio, Orval, Illen Kerr, Sorosen.
1950: nº 05 + suplemento
Dir: Vasconcelos Maia, Cláudio Tavares,
Wilson Rocha, Darwin Brandão. Cita os
colaboradores do 1º número.
João Climaco Bezerra (?)
Em 1950 passa a ser também editora. Publicou
os seguintes escritores: Eduardo campos,
Aluízio Medeiros, Martins d´Alvarez, Mozart
Sozinac Adderaldo, Veríssimo de Melo,
Raimundo Girão, Antônio Girão Barroso
Nº sendo preparado
Fundador e redator-chefe: Monteiro Lobato
Neste nº artigo de Moacir W. de Castro
Comissão de redação: Afonso Schmidt
312
Joaquim
Curitiba
1948
Nº 13 em Dir,: Dalton Trevisan
1948/nº 21 Publicou neste nº: Adalmir da Cunha Miranda
Nº 18, Colab: Daltan Trevisan, José Paulo
Paes, Otto Maria Carpeaux, Temistocles
Linhares, e ilustrações de Fayga Ostrower,
Poty, Renina Katz etc.
Jornal das Letras
Capital
Federal
1949
Direção Dos Irmãos Conde, José, João E
Elyseo.
Neste Nº (ago/49) Colaboração: Otto Maria
Carpeaux, Gilberto Amamdo, Carolina
Giedion-Weicker, Paulo Ronai. Traz textos de:
Gasparino Damata, Afrânio Peixoto.
Entrevistado: Álvaro Lins
Leitura
Literatura
O cruzeiro
Orfeu
Os anais
RJ
Panorama
Paratodos
Minas
Presença
Província
Pedro
Região
1949
1949
1949
de
São
Fundada em Fundador: Domingos Olimpio; secretário:
1904
Walfrido Ribeiro
1949
1949/19 reaparecime Fundador, desde a 1ªfase: Álvaro Moreyra .
50
nto
Colaboradores e Redatores: Edison Carneiro,
A. Ramos, Graciliano Ramos, alcídio jurandir
1948
Recife
Nº 02
Nº 10
1948
último
Retorna
em
1949
Nº 11
Resenha Literária
Revista brasileira de
estudos pedagógicos
Revista do Brasil
Revista do Globo
Temário
Recife
Tentativa
Unidade (?)
São Paulo
Bahia ?
1949
1950
N º 37
1948
1949
1949
483
Nº01
1950
1949
Nº de junho/48: Laurimio Lima, Otávio de
Freitas Júnior, Wilson Rocha, Gastão de
Holanda, Claúdio Tavares, Mário Sette
(anuncia como último nº)
Nº 11/ 1949 - Colab: Gasparino Damata, Otto
Maria Carpeaux, Gilberto Freyre Costa, Carlos
Davi, Murilo Mendes e outros.
Direção: Permínio Ásfora
Órgão de estudos e pesquisa do Ministério da
Educação
Colab. Lúcia Miguel Pereira, de 1338-1943
Homero Senna( ?)
Direção: Reginaldo Guimarães e Solano
Trindade
Editor Cezar Nêmolo
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Dissertação Carla de Santana3 - RI UFBA