CORRELAÇÃO ESPACIAL ENTRE A CONDUTIVIDADE HIDRÁULICA E ATRIBUTOS FÍSICOS DO SOLO Diego Dantas Amorim¹; Ivoney Gontijo²; Eduardo Oliveira de Jesus Santos³; Lucas Rodrigues Nicole³; ¹ Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Agricultura Tropical – PPGAT, Universidade Federal do Espírito Santo – UFES, Centro Universitário do Norte do Espírito Santo – CEUNES. Bolsista FAPES. CEP 29.933-540, São Mateus, ES – Brasil. E-mail: [email protected] ² Professor adjunto do Curso de Agronomia e do Programa de Pós-Graduação em Agricultura Tropical – PPGAT, Universidade Federal do Espírito Santo – UFES, Centro Universitário do Norte do Espírito Santo – CEUNES. CEP 29.932-540, São Mateus, ES – Brasil. ³ Graduando do Curso de Agronomia, Universidade Federal do Espírito Santo – UFES, Centro Universitário do Norte do Espírito Santo – CEUNES. CEP 29.932-540, São Mateus, ES – Brasil. Data de recebimento: 07/10/2011 - Data de aprovação: 14/11/2011 RESUMO No Brasil foram realizados poucos estudos que avaliam a variabilidade espacial da condutividade hidráulica e demais atributos físicos do solo. A condutividade hidráulica do solo (K) é uma importante propriedade física quando se estuda os fenômenos que descrevem o movimento de água no solo. O objetivo deste trabalho foi testar a correlação espacial da condutividade hidráulica do solo saturado (Ksat) com o volume total de poros (VTP) e a umidade do solo nas camadas de 0-0,2 m (U1) e 0,2-0,4 m (U2), com a finalidade de se usar uma dessas variáveis como covariável para a estimativa de Ksat quando se tem um número reduzido de amostras para tal variável. Foi instalada uma malha regular de 100 x 120 m (12.000 m2) com 126 pontos e 30 pontos para o atributo subamostrado, todos georeferenciados, com distância mínima de 5 m. A geoestatística foi utilizada para verificar a dependência espacial das variáveis e posteriormente foram confeccionados os semivariogramas. Para espacialização da Ksat, em função dos valores de VTP e U, utilizou-se a extensão multivariada da krigagem, conhecida como co-krigagem. A análise da dependência espacial foi realizada utilizando ferramentas geoestatística, utilizando-a para obtenção dos semivariogramas e dos semivariogramas cruzados dos atributos estudados. Apesar do valor do coeficiente de assimetria próximo de zero para as variáveis VTP e U1, nenhum dos atributos estudados apresentou normalidade de acordo com o teste de Shapiro-Wilk a 5% de probabilidade. A VTP pode ser uma alternativa para estimativa de Ksat, reduzindo os custos e o tempo de amostragem do Ksat. A umidade do solo na camada de 0,2-0,4 m apresentou uma baixa correlação com a Ksat. Uma avaliação com um maior número de amostras para Ksat deve ser testada para confirmar se a variável pode ser, ou não, utilizada para estimativa de Ksat. PALAVRAS-CHAVE: co-krigagem, semivariograma cruzado, variabilidade espacial. ENCICLOPÉDIA BIOSFERA, Centro Científico Conhecer - Goiânia, vol.7, N.13; 2011 Pág. 263 STUDY OF SPATIAL CORRELATION BETWEEN HYDRAULIC CONDUCTIVITY AND SOIL PHYSICAL CHARACTERISTICS ABSTRACT In Brazil, few studies have been conducted that evaluate the spatial variability of hydraulic conductivity and other physical attributes of the soil. The soil hydraulic conductivity (K) is an important property when studying physical phenomena that describe the movement of water in the soil. The objective of this study was to test the spatial correlation of hydraulic conductivity of saturated soil (Ksat) with the total volume of pores (VTP) and soil moisture in layers of 0-0.2 m (U1) and 0.2-0.4 m (U2), with the aim of using these variables as a covariate for estimating Ksat when you have a small number of samples for this variable. It was installed a regular grid of 100 x 120 m (12,000 m2) with 126 points and 30 points for the attribute subsampled, all georeferenced with a minimum distance of 5 m. Geostatistics was used to determine the spatial dependence of variables and were later made the semivariograms. For a spatial Ksat, depending on the values of U and VTP, we used multivariate extension of kriging, known as co-kriging. The spatial dependence analysis was performed using geostatistical tools, using it to obtain the semivariograms and cross semivariograms of the attributes studied. While the value of the asymmetry coefficient close to zero for the variables U1 and VTP, none of the attributes studied was normal according to the Shapiro-Wilk 5% probability. The VTP can be an alternative for estimating Ksat, reducing costs and time sampling Ksat. Soil moisture in the 0.2-0.4 m layer showed a low correlation with Ksat. An evaluation with a larger number of samples to be tested Ksat to confirm that the variable can be, or not, used to estimate Ksat. KEYWORDS: co-kriging, cross semivariogram, spatial variability. INTRODUÇÃO No Brasil foram realizados poucos estudos que avaliam a variabilidade espacial da condutividade hidráulica dentro de uma unidade de solo e entre unidades taxonômicas, com os principais parâmetros do solo (CORRÊA, 1986; EGUCHI et al., 2003). Segundo NIELSEN et al. (1973), áreas que se configuram aparentemente uniformes podem apresentar uma alta variação de certo atributo estudado, independente de qual for o parâmetro. De acordo com MACHADO (1994), a observação não correta dessa variabilidade compromete o planejamento do manejo do solo, assim como a eficiência de projetos de irrigação, drenagem e de conservação do solo; assim como resultados de pesquisas também podem ser comprometidos. A condutividade hidráulica do solo (K) é uma importante propriedade física quando se estuda os fenômenos que descrevem o movimento de água no solo (VAN LIER & LIBARDI, 1999), pois representa a facilidade com que o solo transmite água. A condutividade hidráulica saturada (Ksat) é determinada quando o solo se encontra saturado, observando-se assim o valor máximo para K (REICHARDT, 1990). ENCICLOPÉDIA BIOSFERA, Centro Científico Conhecer - Goiânia, vol.7, N.13; 2011 Pág. 264 A determinação da Ksat demanda tempo, pode ser de difícil execução, e dependendo da metodologia utilizada pode ter alto custo. Propriedades físicas do solo como volume total de poros (VTP) e a umidade do solo (U) são de fácil determinação, pouco custo e principalmente demanda pouco tempo para a avaliação. A co-krigagem é um procedimento geoestatístico nas quais diversas variáveis regionalizadas podem ser estimadas em conjunto, com base na correlação entre as variáveis e sua correlação espacial. Para sua aplicação, as variáveis também devem ser amostradas no mesmo local dentro de um mesmo domínio espacial. O variograma cruzado é uma ferramenta básica de suporte às técnicas de cokrigagem, que representa quantativamente a variação de um fenômeno regionalizado no espaço. Sua principal aplicação é descrever a variabilidade espaço/temporal entre duas ou mais variáveis aleatórias, desde que, uma das variáveis apresente difícil determinação (difícil amostragem, alto custo e tempo), e as demais apresentem fácil determinação. O método deve ser utilizado exatamente quando uma amostra é subamostrada em relação às demais, não configurando como um problema para a confecção do variograma. Alguns trabalhos abordam a distribuição espacial da condutividade hidráulica do solo e descrevem a alta variabilidade espacial desse atributo, bem como para infiltração de água no solo e sua umidade (WARRICK & NIELSEN (1980), VIEIRA et al. (1981), BOUMA et al. (1989), MORAES & LIBARDI (1993), LOGSDON & JAYNES (1996), VAN LIER & LIBARDI (1999) e MONTENEGRO & MONTENEGRO (2006). O conhecimento da distribuição espacial de propriedades físicas é importante para o levantamento e manejo do solo, o planejamento de amostragem e o gerenciamento de práticas agrícolas. Antes de buscar qualquer relação desses elementos com a cultura, é imprescindível analisar a extensão e a intensidade da dependência espacial dessa variação, seja ela isolada ou em conjunto com outros parâmetros (GANDAH et al., 2000). OBJETIVO O objetivo do presente trabalho foi avaliar a correlação espacial da condutividade hidráulica do solo com o volume total de poros e a umidade do solo em duas camadas, e verificar se essas variáveis podem auxiliar na estimativa de valores para condutividade hidráulica do solo. METODOLOGIA O estudo foi conduzido em uma lavoura de pimenta-do-reino (Piper nigrum L.) da variedade Bragantina, plantada no espaçamento de 3,0 x 1,8 m (1.852 plantas ha-1), em regime de irrigação por microaspersão, localizado no município de São Mateus, Norte do Estado do Espírito Santo, localizada a 18°42’ de latitude Sul e 39° 51’ de longitude Oeste. A área apresenta diferença de nível variando de 3 a 10% de declividade e altitude de 30 m. O clima do município de São Mateus é Aw, segundo classificação de Koppen, caracterizado por clima tropical úmido, com inverno seco e chuvas máximas no verão. A precipitação média anual de 1.200 mm concentra-se entre os meses de novembro e janeiro. A temperatura média anual é de 23°C, e as médias máximas e mínimas são de 29°C e 18°C, respec tivamente. O solo é um ENCICLOPÉDIA BIOSFERA, Centro Científico Conhecer - Goiânia, vol.7, N.13; 2011 Pág. 265 Latossolo Vermelho-amarelo distrófico, de textura argilo-arenosa, com teores de argila, silte e areia, de 344, 113 e 543 g kg-1 respectivamente, conforme classificação apresentada pela EMBRAPA (1999). Na ocasião da implantação da lavoura foi realizada a correção do solo com a aplicação de 2.000 kg ha-1 de calcário dolomítico. No plantio, para cada metro de sulco, foi aplicado 5 kg de uma mistura curtida nas proporções de 3:2 de palha de café com esterco de galinha, além de 300 g de superfosfato simples. Na formação da lavoura, no primeiro ano após o plantio, foram realizadas adubações mensais do formulado 25-00-25 com doses crescentes de 20 g planta-1 até o limite de 50 g planta-1. As adubações anuais de produção, a partir do segundo ano após o plantio, foram parceladas em quatro aplicações do formulado 25-00-25, conforme recomendações técnicas baseadas em análises de solo. Conforme destacam VIEIRA et al. (1981), os planos de amostragem e teste para estudos de variabilidade espacial podem constar de malhas regulares, de transectos e de conjuntos de pontos aleatoriamente distribuídos. Foi instalada uma malha regular de 100 x 120 m (12.000 m2) com 126 pontos e 30 pontos para o atributo sub-amostrado todos georeferenciados, distanciados entre si à distância mínima de 5 m (Figura 1). Para georreferenciamento da área, foi utilizado um par de receptores GPS TechGeo®, modelo GTR G2 geodésico. Os dados após serem processados pela Rede Brasileira de Monitoramento Contínuo (RBMC) do IBGE, apresentaram precisão de 10 mm + 1 ppm. Para a realização da análise dos atributos físicos do solo, foram coletadas amostras nas profundidades pré-determinadas e na projeção das copas de três plantas em cada ponto amostral. As análises de solo foram realizadas no Laboratório de Física do Solo do Centro Universitário Norte do Espírito Santo da Universidade Federal do Espírito Santo (CEUNES-UFES). Os atributos do solo, obtidos em cada ponto amostral, foram o volume total de poros (VTP), coletados na camada de 0–0,2 m, analisados pelo método do anel volumétrico, umidade do solo (U), nas camadas de 0–0,2 m e 0,2–0,4 m foram determinadas conforme EMBRAPA (1997). FIGURA 1 – Croqui da área de estudo e esquema de amostragem na mesma. FONTE: Levantamento de campo ENCICLOPÉDIA BIOSFERA, Centro Científico Conhecer - Goiânia, vol.7, N.13; 2011 Pág. 266 A determinação da condutividade hidráulica do solo saturado foi realizada no campo com o emprego do permeâmetro de fluxo constante (Permeâmetro de Guelph). Os procedimentos de campo foram utilizados seguindo as recomendações de LOMBARDI NETO et al. (1993). A Ksat foi medida na profundidade de 0–15 cm, empregando-se duas cargas hidráulicas, de 5 e 10 cm. Para os valores encontrados, efetuou-se a análise por meio das medidas de posição e dispersão, na análise da estatística descritiva e exploratória (média, variância amostral, valores mínimos e máximos, coeficiente de variação, desvio padrão, coeficiente assimetria e curtose e o teste de normalidade de Shapiro-Wilk). Foi realizado também um estudo da correlação entre os atributos pelo índice p de Pearson. Para verificar a presença de pontos candidatos a valores discrepantes “outliers”, foram analisados os quartis superiores e inferiores e a normalidade foi testada pelo teste SHAPIRO-WILK (1965) a 5% de probabilidade. A análise geoestatística foi utilizada para verificar a dependência espacial das variáveis, segundo VIEIRA (2000). Foram confeccionados semivariogramas, os quais foram considerados os modelos: esférico, exponencial, linear e gaussiano, partindo das pressuposições de estacionaridade da hipótese intrínseca e do cálculo da semivariância, estimada conforme equação 1: n( h) ^ γ (h) = ∑ [ z( xi + h) − Z ( xi)] 2 i =1 2 n( h) (1) Em que N (h) e o número de pares experimentais de observações Z(xi) e Z (xi + h), separados por uma distância h. O semivariograma é representado pelo gráfico γ(h) versus h. Os parâmetros do semivariograma, efeito pepita (Co); patamar (Co + C) e alcance (A) foram obtidos através do ajuste de um modelo matemático aos valores calculados de ŷ(h). A escolha do modelo baseou-se na validação cruzada, no menor valor da soma dos quadrados dos resíduos (SQR) e maior coeficiente de determinação múltipla (R2) do ajuste dos modelos teóricos aos variograma experimentais, nesta ordem de importância. A validação cruzada é uma ferramenta utilizada para avaliar modelos alternativos de semivariogramas simples e cruzados, que servirão de base para a realização da krigagem e a co-krigagem, respectivamente. Na avaliação da validação cruzada, cada ponto contido dentro do domínio espacial é retirado, sendo seu valor estimado. Dessa forma, pode se construir um gráfico de valores estimados versus observados, para todos os pontos. A eficiência do ajuste pode ser observada pelo coeficiente de correlação (r) entre tais valores, e pela equação de regressão linear em questão (ROBERTSON, 1998). A relação entre a proporção em porcentagem do efeito pepita (Co) e o patamar (Co + C), ou seja, o índice de dependência espacial (IDE) foi calculado usando a equação 2, de acordo com CAMBARDELLA et al. (1994), e apresenta a seguinte proporção: (a) dependência forte < 25%; (b) dependência moderada de 26 a 75%, (c) dependência fraca > 75% e (d) independência entre as amostras quando a relação for igual a 100%. ENCICLOPÉDIA BIOSFERA, Centro Científico Conhecer - Goiânia, vol.7, N.13; 2011 Pág. 267 Co IDE = .100 Co + C (2) Para espacialização da Ksat, em função dos valores de VTP e U1,2, utilizou-se a extensão multivariada da krigagem, conhecida como co-krigagem. Esta estimativa pode ser mais precisa do que a krigagem de uma variável simples, quando o variograma cruzado mostrar dependência entre as duas variáveis (VIEIRA, 2000). Na co-krigagem (VIEIRA, 2000), para estimar valores, Z2*, para qualquer local, X0, o valor estimado deve ser uma combinação linear de ambos Z1 e Z2, ou seja: γ 12 (h) = 1 N (h) ∑ [Z1 ( xi ) − Z1 ( xi +h )][. Z 2 ( xi ) − Z 2 ( xi +h )] 2 N ( h) i =1 (3) ] onde γ12 (h) é o variograma cruzado entre a variável primária e a secundária; z1(xi) é o valor da variável primária no ponto xi; z1(xi + h) é o valor da variável primária no ponto xi adicionado de uma distância h; z2(xi) é o valor da variável secundária no ponto xi; z2(xi + h) é o valor da variável secundária no ponto xi adicionado de uma distância h e n é o número de pares de pontos formados para uma dada distância h. Expressando que a estimativa da variável Z2 devera ser uma combinação linear de ambos Z1 e Z2, distribuídos de acordo com a dependência espacial de cada uma das variáveis entre si e a correlação cruzada entre elas. A análise da dependência espacial foi realizada utilizando ferramentas geoestatística, com auxílio do software GS+ (ROBERTSON, 1998), que foi utilizado para obtenção dos semivariogramas e dos semivariogramas cruzados dos atributos estudados e estatística descritiva e exploratória dos dados. RESULTADO E DISCUSSÕES Na Tabela 1, são apresentados os valores da estatística descritiva e valores relacionados ao teste de normalidade para as variáveis Ksat, VTP e a U% nas camadas de 0-0,2 m e 0,2-0,4 m. Apesar do valor do coeficiente de assimetria próximo de zero para as variáveis VTP e U1, nenhum dos atributos estudados apresentou normalidade de acordo com o teste de Shapiro-Wilk a 5% de probabilidade. Segundo CAVALCANTE et al. (2007), a normalidade dos dados não se configura como uma exigência da geoestatística, o mais importante é a ocorrência ou não do efeito proporcional, ou seja, se a média e a variabilidade dos dados são constantes na área de estudo. Tal fato não ocorreu no presente trabalho, os semivariogramas demonstraram patamares bem definidos e não ocorreram caudas muito alongadas na distribuição dos atributos, o que poderia comprometer as estimativas da krigagem, as quais são baseadas nos valores médios (ISAAKS & SRIVASTAVA, 1989). A variabilidade de um atributo pode ser classificada de acordo com a magnitude do seu coeficiente de variação (FREDDI et al., 2006). Segundo critério de classificação para o coeficiente de variação (CV), proposto por WARRICK e NIELSEN (1980). Os valores de VTP e Ksat apresentaram CV baixo e alto, ENCICLOPÉDIA BIOSFERA, Centro Científico Conhecer - Goiânia, vol.7, N.13; 2011 Pág. 268 respectivamente. Já a umidade do solo em ambas as profundidades foram classificadas como de variação média. Valores elevados de CV podem ser considerados como os primeiros indicadores da existência de heterogeneidade nos dados (FROGBROOK et al., 2002). De maneira geral os resultados ficaram em consonância com os resultados de QUEIROZ (1995) e EGUCHI et al. (2003), em que a elevada variabilidade Ksat pode ser explicada também pela heterogeneidade da estrutura e a textura do solo em estudo, como também pela presença de obstáculos como de raízes de plantas, atividade microbiota do solo, rachaduras localizadas ocasionadas pelas épocas de estiagens, entre outros fatores. As correlações entre Ksat e os demais atributos estudados (Tabela 2) foram moderadas (0,3<r<0,7), fato esse que se justifica pelo elevado número de observações (n = 126). Houve correlação significativa para Ksat x VTP e Ksat x U2, com coeficiente de correlação de 0,481 e -0,411, respectivamente. Entre Ksat e VTP a correlação foi positiva entre causa e efeito, indicando o incremento da Ksat com o aumento do volume total de poros. Entre Ksat x U2 observou-se uma função decrescente entre causa e efeito, ou seja, quanto menor a umidade na camada de 0,2 – 0,4 m maior será a Ksat, demonstrado pela correlação negativa encontrada. Para seleção dos modelos dos semivariogramas foram considerados os valores de R2 e SQR (Tabela 2) e a validação cruzada. ROBERTSON (1998) afirma que a SQR é um parâmetro mais robusto do que o R2, propiciando uma medida exata de qual modelo melhor se ajusta aos dados. Na Tabela 2, também são apresentados valores referentes aos parâmetros dos semivariogramas para cada variável analisada e dos semivariogramas cruzados (efeito pepita, C0; patamar, C0 + C; alcance, a; e o coeficiente de determinação, R2), valores referentes ao índice de dependência espacial (IDE) e os modelos teóricos que melhor se ajustaram a variabilidade espacial dos dados. Os resultados da análise geoestatística mostraram que os atributos químicos estudados apresentaram dependência espacial para todas as variáveis analisadas. A U2 e a VTP, por apresentarem moderada correlação com Ksat, foi confeccionados os semivariogramas cruzados (Figura 3). A Figura 2 apresenta os semivariogramas dos modelos teóricos ajustados a distribuição espacial das variáveis Ksat, VTP, U1 e U2. TABELA 1 - Estatística descritiva e teste de normalidade para as variáveis condutividade hidráulica (Ksat), volume total de poros (VTP) e umidade nas profundidades de 0-0,2 m (U1) e 0,2-0,4 m (U2). Variáveis Ksat VTP U1 U2 Média -3 1,5x10 45,22 15,67 17,05 Var. Min. -6 3,0x10 5,84 6,56 7,27 Max. -6 5,9x10 35,96 9,49 10,07 CV -3 6,7x10 51,18 22,93 24,96 110 5,3 17,1 21,4 DP -3 1,6x10 2,416 2,56 2,69 Cs Ck w 1,41 -0,29 0,6 3,61 1,78 1,59 1,3 26,3 0,882ns 0,969ns 0,976ns 0,756ns Var. = Variância, Min. = Mínimo, Max. = Máximo, CV(%) = Coeficiente de Variação, DP = Desvio Padrão, Cs = Coeficiente de assimetria, Ck = Coeficiente de Curtose e ns = não significativo pelo teste Shapiro-Wilk a 5% de significância. A variável U2 e a correlação Ksat x VTP apresentaram forte dependência espacial, ressalvo à correlação Ksat x U2 que apresentou IDE de 0% devido a não se conseguir um bom ajuste para o semivariograma cruzado como demostra a Figura 3 ENCICLOPÉDIA BIOSFERA, Centro Científico Conhecer - Goiânia, vol.7, N.13; 2011 Pág. 269 e a Tabela 2. Já as variáveis Ksat e VTP demonstraram moderada dependência espacial (26% a 75%). Todos os semivariogramas ajustaram-se aos modelos esférico e exponencial (Tabela 2). Tais modelos que se ajustaram aos atributos estudados são considerados transitivos (ISAAKS & SRIVASTAVA, 1989), possuindo patamar, ou seja, a partir de um determinado valor da distância entre amostras a dependência espacial deixa de existir, a variância da diferença entre pares de amostras não mais varia de acordo com a distância (CAVALCANTE et al., 2007). Os modelos esféricos e exponenciais apresentam-se como os modelos teóricos mais comuns aos atributos do solo (TRANGMAR et al., 1985; CAMBARDELLA et al., 1994; SALVIANO et al., 1998; CARVALHO et al., 2003). A análise dos semivariogramas simples e cruzados para os atributos em estudo e as correlações, não possuem anisotropia, ou seja, a variabilidade espacial dos dados ocorre de maneira bem próxima em todas as direções. TABELA 2 - Parâmetros, índice de dependência espacial (IDE%), modelos teóricos ajustados dos semivariograma simples e semivariograma cruzado dos atributos. Parâmetros Modelo Co Co+C A (m) R² (%) SQR IDE (%) R p-valor Variáveis U2 Ksat VTP U1 Esf. 1x10-6 3x10-6 42,3 95,7 5,1x10-14 33,3 - Esf. 2,68 6,097 33,7 91,7 0,603 43,9 - Exp. 0,76 6,713 21,3 86,8 0,1990 11,3 - Exp. 0,36 7,136 16,5 94,4 0,0573 5,0 - Ksat x VTP Ksat x U2 Esf. 8,3x10-5 1,3x10-3 53,2 96,0 2,4x10-8 6,4 0,481* 0,007 Esf. -1x10-6 -2,1x10-3 20,4 36,3 2,5x10-7 0,0 -0,411* 0,024 Esf. – Esférico; Exp. – Exponencial* coeficiente de correlação de Pearson significativo (p < 0,05); Co – Efeito Pepita; Co+C – Patamar; A – Alcance; R² - Coeficiente de determinação; SQR – Soma dos Quadrados do Resíduo; IDE – Índice de Dependência Espacial; R – Coeficiente de Correlação; p-valor – Coeficiente de correlação de Pearson (significância). Os alcances variaram de 15,9 a 53,2 m, indicando a amplitude de correlação espacial entre as observações de cada variável. O índice de determinação (R²) indica quanto da variação total é comum aos elementos que constituem os pares analisados, quanto mais próximo de 1,0, melhor se explica o fenômeno decorrente da combinação das duas variáveis estudas. Nota-se aumento no alcance e do R², como também uma diminuição no IDE da Ksat para a correlação Ksat x VTP, demonstrando melhoria no ajuste do variograma de Ksat (Figura 2) pela correlação entre Ksat x VTP (Figura 3). O mesmo já não ocorre para a correlação Ksat x U2, pois há um decréscimo do alcance e do R². Todas as variáveis, com exceção da correlação Ksat x U2, apresentaram um elevado coeficiente de determinação (R2), o que demonstra que o modelo escolhido foi eficiente ao modelar a dependência espacial das variáveis. De acordo com classificação proposta por Cambardella et al. (1994), Ksat e VTP apresentam um IDE moderado e os demais demonstram um índice de dependência espacial forte. Para U1 foi realizada a análise geoestatística, descritiva e exploratória de dados mas por não apresentar correlação com a Ksat não foi realizada a avaliação da co-krigagem. ENCICLOPÉDIA BIOSFERA, Centro Científico Conhecer - Goiânia, vol.7, N.13; 2011 Pág. 270 A Figura 3 apresenta os variograma cruzados das correlações entre Ksat x VTP e Ksat x U2. Observa-se que os valores dos parâmetros dos semivariogramas cruzados, bem como os modelos, são distintos, indicando que estes não seguem o mesmo padrão de distribuição espacial. A correlação entre Ksat e VTP é positiva (Figura 3) como demonstrada pelo variograma, no entanto, a correlação entre K e U2 é negativa (Figura 3), que é demonstrada pelo semivariograma invertido e com valores negativos de Co e Co+C. FIGURA 2 – Semivariogramas dos modelos teóricos ajustados à distribuição espacial da condutividade hidráulica saturada (Ksat), volume total de poros (VTP) e umidade para a camada de 0,2-0,4 m (U1 e U2). O ajuste do modelo teórico aos semivariogramas cruzados demonstra a possibilidade de utilização da variável VTP como covariável na obtenção de estimativas de valores de Ksat em lugares não amostrados dentro da área de estudo, facilitando e reduzindo os custos de análise e amostragem. A variável U2 não apresentou um bom ajuste com um baixo coeficiente de correlação, como também uma baixa correlação. Mas vale ressaltar que o número de avaliações de Ksat (30 pontos amostrais) foi um valor considerado pequeno em relação as demais variáveis. ENCICLOPÉDIA BIOSFERA, Centro Científico Conhecer - Goiânia, vol.7, N.13; 2011 Pág. 271 FIGURA 3 – Semivariogramas dos modelos teóricos ajustados a distribuição espacial da condutividade hidráulica saturada (Ksat), volume total de poros (VTP) e umidade para a camada de 0,2-0,4 m (U1). CONCLUSÕES A VTP pode ser uma alternativa para estimativa de Ksat, reduzindo os custos e o tempo de amostragem do Ksat. A umidade do solo na camada de 0,2-0,4 m apresentou uma baixa correlação com a Ksat. Uma avaliação com um maior número de amostras para Ksat deve ser testada para confirmar se a variável pode ser, ou não, utilizada para estimativa de Ksat. ENCICLOPÉDIA BIOSFERA, Centro Científico Conhecer - Goiânia, vol.7, N.13; 2011 Pág. 272 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOUMA, J.; JONGMANS, A. & STEIN, A. Characterizing spatially variable hydraulic properties of a boulder clay deposit in the Netherlands. Geoderma, 45:19-29, 1989. CAMBARDELLA, C. A.; MOORMAN, T. B.; NOVAK, J. M.; PARKIN, T. B.; KARLEN, D. L.; TURCO, R. F.; KONOPKA, A. E. Field-scale variability of soil properties in central Iowa soils. Soil Science Society of America Journal, Madison, v. 58, n. 5, p. 1501-1511, 1994. CARVALHO, M. P.; TAKEDA, E. Y. & FREDDI, O. S. Variabilidade espacial de atributos de um solo sob videira em Vitória Brasil (SP). Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 27, p. 695-703, 2003. CAVALCANTE, E. G. 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