MARIANA ROCHA CURITIBA : ENTRE A CIDADE E AS REPRESENTAÇÕES -Análise da narrativa em Back, Tezza, Trevisan e Sá Barreto- Trabalho de conclusão de curso, apresentado ao Curso de História, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná, sob a orientação do Prof. Dr. Magnus Roberto de Mello Pereira. Primavera 2008 2 AGRADECIMENTOS Longos anos como moradora e cidadã desta cidade “sorriso”, me estimularam a pensar a possibilidade de estudá-la e entendê-la. Talvez nem tanto pelo sorriso (“seco”), diriam alguns, dos curitibanos, mas pela minha própria vivência nesta metrópole que foi palco para minhas brincadeiras infantis e aventuras da juventude. Neste sentido, vejo-me obrigada a agradecer a Curitiba, simbolicamente, em toda sua estrutura urbana, com suas múltiplas e complexas representações, que tanto me instigaram. Agradeço também ao meu orientador, Magnus, que, apesar da minha declarada inexperiência com o tema, e com o método estruturalista, teve, ao seu modo, paciência em me acompanhar. 3 RESUMO O presente estudo tem por objeto a literatura ambientada em Curitiba entre as décadas de 1920 e 1970. Essas fontes serão sistematicamente abordadas na suposição de que são discursos mitológicos sobre a cidade moderna. Desta maneira, serão estudadas através do método que o antropólogo Lévi-Strauss desenvolveu para a análise dos mitos. Estudos anteriores sobre a temática da modernidade, e que seguiram esta perspectiva analítica, demonstram a necessidade de adaptação deste método, que trata as narrativas mitológicas de forma bastante atemporal, para o interesse específico da disciplina História, que se baseia sobre uma visão diacrônica da realidade. Neste sentido, aproveita-se deste modelo metodológico, readaptado, para aplicá-lo ao objeto de estudo em questão. Para. com isto, tornar possível a análise das fontes, que versam sobre a modernidade curitibana, tomando-a enquanto categoria de análise. 4 ÍNDICE INTRODUÇÃO..............................................................................................................05 1. O ADVENTO DA MODERNIDADE (EUROPÉIA) EM FINS DO SÉCULO XIX E A CIENTIFICIZAÇÃO DO ESTRUTURALISMO............................................05 2. O MÉTODO ESTRUTURALISTA, PROPRIAMENTE DITO..............................09 3. OS MITOS DE LÉVI-STRAUSS E AS CRISES DA MODERNIDADE..............15 CAPÍTULO I-A CIDADE.............................................................................................23 1. A “FRIA” CURITIBA OU OS CURITIBANOS “FRIOS”? : O AUTOMÓVEL 117, LANCE MAIOR E TRAPO, SOB A PERSPECTIVA ANALÍTICA DOS SINTAGMAS QUENTE X FRIO............................................................................24 2. ENTRE O “CENTRO” E A “PERIFERIA”, AS CLASSES, OS INDIVÍDUOS E OS DESEJOS : UMA INVESTIDA ANALÍTICA A PARTIR DE BACK, TEZZA E SÁ BARRETO......................................................................................................31 3. CURITIBA E O INTERIOR, ENTRE AS FUMAÇAS DO TREM, DOS AUTOMÓVEIS E DAS FÁBRICAS : ANÁLIE EM BACK E TEZZA................39 CAPÍTULO II-A MODERNIDADE............................................................................42 1. “REVELAÇÃO” E “RECLUSÃO”, OS LIMITES DO PRIVADO E DO PÚBLICO EM CURITIBA : UMA ANÁLISE EM BACK, TEZZA, TREVISAN E SÁ BARRETO.........................................................................................................42 2. OS “SONHOS DE FELICIDADE”, ENTRE A TRADIÇÃO E A MODERNIDADE : UMA ANÁLISE A PARTIR DE BACK E TEZZA...............53 CAPÍTULO III-O GÊNERO........................................................................................60 1. “COISAS E OUTROS TRECOS”, A COISIFICAÇÃO DO SEXO E A MANIPULAÇÃO DO GÊNERO FEMININO : ANÁLISE EM TREVISAN, BACK E SÁ BARRETO.......................................................................................................60 2. “FILHOS DE FAMÍLIA”, “FILHAS DA CIDADE”, UMA DISCUSSÃO A PARTIR DOS ELEMENTOS SUJEIRA X PUREZA : ANÁLISE EM TREVISAN, BACK E TEZZA.......................................................................................................64 CONCLUSÃO................................................................................................................71 FONTES...........................................................................................................................81 BIBLIOGRAFIA...........................................................................................................82 5 -INTRODUÇÃO1. O advento da modernidade (européia) em fins do século XIX e a cientificização do estruturalismo A formalização do estruturalismo, enquanto ciência, se deu em fins do século XIX, juntamente com a discussão da idéia, ou conceito de modernidade. Tal conceito, aplicado a realidade européia, e focalizada nas grandes metrópoles, como Viena, Moscou, São Petesburgo, Londres, Paris, trazem para o cenário literário da época a preocupação com as questões urbanas, a modernização e as (in)sensibilidades modernas. Observa-se, pela literatura sobre o período, uma abordagem das fontes que se baseia em análises da narrativa e, por consequência, na categorização de alguns grandes eixos temáticos. O individualismo e a solidão; o reordenamento dos espaços urbanos e a concepção de novas sensibilidades; o problema das nacionalidades e a crise das identidades; a ascensão social feminina e a crise da identidade sexual. Entre a ética e a estética, crise das instituições políticas e a predominância das categorias psicológicas; entre as nacionalidades conflitantes, crises de identidade; entre as classes que se definiam, as iminentes crises do capitalismo ascendente; entre os gêneros, crises sexuais. Crise, portanto, parece ser a palavra de (des)ordem para se entender estruturalmente todo o movimento da modernidade européia. Três autores de referência, especificamente, valem-se deste método estruturalista de análise da narrativa, para estudar a categoria Modernidade a partir da literatura, Jacques Le Rider1, em; E. Schorske, em Viena Fin de Sècle e Marshall Bermam, em Tudo que é sólido desmancha no ar : as aventuras da modernidade. Ambos identificam a crise como um elemento indissociável do, por assim dizer, fenômeno da modernidade. Crises, postas no plural, demarcam a coexistência neste universo urbano de uma série infindável de problemas relacionados à redefinição de identidades raciais, culturais, sexuais (Le Rider), ao irônico destino do socialismo, enquanto organização sócio-econômica que surge e se desenvolve a partir do capitalismo (Berman), a redefinição das categorias históricas, frente a aparente ausência de unidade político-cultural das grandes cidades, especificamente Viena (Schorske). 1 LE RIDER, Jacques. A modernidade vienense e as crises de identidade. Rio de janeiro : Civilização Brasileira, 1993. 6 As narrativas literárias de fin-de-sècle despertam, no âmago da juventude vienense, a angústia pela unidade, ou como entende Le Rider, pela redefinição de identidades e/ou identificações, em meio a tantas “generalidades modernas”. A busca solitária pela sensibilidade subjetiva do indivíduo, que precisa, por assim dizer se “genializar”, se destacar pelas suas excepcionalidades, lança-o a um movimento de introspecção e, em grande medida, de rompimento com a idéia do coletivo, do público, e consequentemente, com o sentido/necessidade de solidariedade. Pela sensibilidade do artista, homem ou mulher, feminilizado ou masculinizado, judeu ou não-judeu, anti-semita ou sionista, o problema, ou crises da modernidade são, acima de tudo, crises do eu. Neste sentido, a arte (do indivíduo) sobrepõe-se furiosa e absolutamente sobre a cultura, despolitizando-se. O homem-psicológico, ao qual se refere Schorske, em meio a este contexto, não necessariamente revolucionário, mas sincrético, marcado por profundas ambiguidades, volta-se para si, em uma busca desesperada pela auto-superação, pela genialidade. Em épocas de fundamentação do materialismo histórico, com o marxismo, revelase a desigualdade das classes e a dessacralização dos valores, “modernizados” e apropriados, por assim dizer, pelas necessidades do sistema capitalista que, irônica e fatalmente, como constata Bermann, alimenta-se de suas próprias produções, destruindo-as e recriando-as em ciclos intermináveis. É sobre esta perspectiva que se abrem “os olhos dos pobres” de Baudelaire, denunciando um mundo marcado tão somente por “impressões” individuais, o deslumbramento da família miserável (proletários) diante do luxo inatingível, e o desconforto do casal apaixonado (burguesia) diante da desagradável e ameaçante visão da pobreza. Segundo Berman, “Os anos modernos perdem sua inocência (...) a distância entre os amantes não é apenas uma falha de comunicação, mas uma radical oposição ideológica e política”.2 Quando os enamorados entram em desacordo sobre a “dignidade” dos pobres, inconvenientes olhos famintos vidrados sobre os desperdícios do casal, rompe-se o “clima”, pretensiosamente romântico e denuncia-se, mais que diferenças ideológicas, a dessacralização do próprios relacionamentos amorosos, marcados eles mesmos pelas crises da modernidade. O amor romântico é subjugado pela supremacia dos indivíduos (por eles mesmos), seres auto-suficientes, potencialmente bissexuais, como constata Le Rider, ao analisar a teoria da androginia defendida no livro Sexo e Caráter, de Otto Weininger. 2 BERMANN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar : as aventuras da modernidade. São Paulo : companhia das Letras,1992. P.149 7 Segundo tal teoria : “ Num mundo onde a 'dialética do Um e do Outro (cede lugar à) semelhança dos sexos', o individualismo busca caminho de um Eu andrógino que seria auto-suficiente e completo”3 . Este indivíduo, homem, feminilizado ou reforçadamente “macho”, mulher, virilizada, ou reforçadamente “fêmea”, ser desprovido de ação política e do poder, desvirtua-se do espírito da luzes, científico e racional,4, sendo frequentemente identificado pela literatura da época a uma moralidade concebida pela natureza, e não pela ciência. Mas a arte perde seu halo, lembra Bermann ao analisar o modernismo nas ruas, em Baudelaire, confundindo-se ao lamaçal das grandes avenidas, perdendo-se em meio à multidão, sem proeminência institucional, mas inserida na realidade marcada pelas crises. Define-se, então, a categoria artista-proletário que, desprovido da “sagrada” arte, profaniza suas produções, sujeitando suas obras, também enquanto produtos, às leis do mercado. Schorske contextualiza muito bem este “espírito da modernidade”, marcado predominantemente pelo conflito e pela ambiguidade de uma cidade e de uma cultura, neste caso, analisados a partir de muitas variantes. Viena, segundo a leitura do autor, parece adquirir feição própria, independente, podendo ser entendida enquanto entidade (o todo é maior que a soma das partes). Sugere-se por esta análise a superação das ditas “categorias abstratas” (racionalismo e romantismo/individualismo e socialismo/realismo e naturalismo), amparadas em conceitos e idéias que não mais dariam conta da realidade político-cultural vienense, em crise com a própria perspectiva histórica, marcada agora pelo pluralismo cultural e pela descrença na vida política e seus valores liberais. Este contexto de crise da modernidade implicaria inclusive na descrença, ou na falta de sentido atribuída a própria história. A razão e objetividade iluministas, até então centradas, ou legitimadas pela ação humana e seus pressupostos políticos perdem sentido (histórico), dando vazão à subjetividade do indivíduo (psicológico), por vezes irracional e abstracionista, matéria-prima da arte (pela arte). Schorske estaria propondo então, enquanto tese, a superação daquelas categorias e suas postulações prévias através da busca empírica desta pluralidade cultural, evidenciada pelo advento da modernidade, para que se faça possível a identificação de novos “modelos 3 LE RIDER, op.cit.,p. 210. 4 Le Rider analisa, sobre esta questão, especialmente os papéis que os judeus e as mulheres assumiram nestes anos de crises da modernidade, definidas politicamente pela queda do liberalismo. Tanto um quanto a outra, por suas condições de passividade, ausência de poder, estariam neste contexto, desvinculados da racionalidade científica e masculina, herança do século das luzes. Desta forma, estes dois elementos aproximam-se, e os movimentos contrários a eles, encontram um ponto comum, o anti-semitismo equivaleria-se em muitos aspectos ao anti-feminismo, e vice-versa. 8 unitários” de cultura e, em certo sentido, a reafirmação da história, apropriada então de um novo significado. O contexto para a análise evidencia a crise da modernidade vienense e o esfacelamento da cultura da Ringstrasse, símbolo maior do liberalismo. Este, um projeto de planejamento urbano que, segundo seus críticos, não estaria preocupado com a utilidade, mas sim com a autoprojeção cultural, com a “renovação” ou “redesenvolvimento” social, mas tão somente com o embelezamento da cidade. A alta intelectualidade vienense, representada politicamente por liberais alemães ou alemãesjudeus, em meio a este contexto de crise, viu-se pressionada por alguns segmentos da sociedade sem representatividade política : camponeses, artesãos, operários urbanos, sociais-cristãos, pangermânicos, anti-semitas e nacionalistas eslavos. A aristocracia, desprestigiada politicamente, mas apreciada cada vez mais em seus costumes, adquire gradualmente representatividade cultural, em uma época onde a arte fala por si mesma e o discurso histórico, legitimador de uma ordem (em crise), racional e ética, dá vazão agora, não propriamente a uma (nova) ordem, mas a um novo homem, indivíduo seleto, único, provido de sentimentos e em busca por um (novo) sentido (pessoal) de existência. Da ética à estética, os valores (do homem) superam as necessidades políticas de representação, e a arte comanda e orienta as necessidades sutis, inconscientes, instintivas, reprimidas do homem psicológico. Um homem que, não tendo, ou não aceitando mais um representante, representa (narcisicamente) a si mesmo. O espelho de Verita, pintura concebida por Gustave Klimt para simbolizar a Escola Secessionista, representante da arte moderna, não reflete, neste momento, uma unidade cultural vienese, não de maneira clara e bem definida. O que ela espelha perpassa a imagem racional e objetiva, tão necessária às representações da cultura liberal, fragmentando-se em inúmeras e subjetivas imagens. A ausência de uma representação política, ou mesmo artística, única, que centralizasse e “harmonizasse”, como um elemento aglutinador, todas as tendências subjetivas, ideológicas ou não, dando unidade à cultura e sentido à modernidade, enquanto processo histórico, orientou sim, ambiguamente que seja (talvez exatamente por isso), a constituição de um movimento unificador, pela falta e pela discórdia, e não propriamente pelo consenso : o movimento, de cunho artístico e não político, anti-liberal e anti-semita. Marshall Berman, em Tudo que é sólido desmancha no ar : a aventura da modernidade, da mesma forma, ao aproximar narrativas literárias à história, e ao seu conceito de moderno, percebe, com agudez de análise, a explosão de novas categorias históricas, precedentes, cada qual, a sintemas imediatamente opostos. Desta forma, a 9 tragédia faustiniana, por exemplo, e, por assim dizer, o mito do (super)desenvolvimento das forças produtivas a partir da dialética da destruição-criação-auto-destruição se explica em meio ao gradual, mas intenso processo de modernização/urbanização das megalópoles de fin de Sécle, o que sugere grandes deslocamentos populacionais (campo-cidade) e radicais alterações (destruições) no nível social, político, como também no psicológico. O que não implica, necessariamente, no total e irremediável desapego às tradições. O assassinato do casal de velhos Filemo e Báucia na tragédia de Fausto, representantes da velha ordem, sugere, pela análise de Berman, um sentimento de culpa e de angústia por parte do protagonista-mandante do crime-, nostálgico às suas próprias memórias. O conflito que se faz presente entre o “velho” e o “novo”, a “tradição” e o “moderno”, como também nas questões de alteridade, nos relacionamentos inter raciais, interculturais, ou nas relações de gênero não anula uns aos outros, nem deve ser, para o contexto, tão perceptível, muitas vezes aparece simultânea e alternadamente em uma mesma imagem, em uma mesma situação, representando, simbolizando não a predominância de uma categoria histórica sobre a outra e sua clara distinção, mas a mais plena e confusa ambiguidade. Tal qual o símbolo do parlamento austríaco, Nuda Veritas, virgem da Pólis, e sábia protetora. Ao ser representada erguendo um espelho de frente para o “mundo”, o que ali estará refletindo? Os ideais liberais de uma sociedade superdeterminada pelo funcionalismo público e por uma arquitetura racional, objetiva e funcional, ou “a arte” de um artista, despolitizado, gerador e supressor de suas próprias necessidades psicológicas (subjetivas). 2. O método estruturalista, propriamente dito A despeito destas questões levantadas pela modernidade, o estruturalismo, ao analisar narrativas literárias, proura, como se pretendeu demonstrar em tais obras, ir aquém e além dos enredos históricos, decodificando discursos implícitos (inconscientes) às narrativas, categorizando-os e dispondo-os em uma ordem não necessariamente cronológica, mas absolutamente funcional, dedutiva e lógica. Ao se aventurar em análises deste tipo, o pesquisador deve, antes de qualquer coisa, definir para o seu campo de trabalho o conceito de estrutura a ser utilizado. Pois, sabe-se, tal conceito pressupõe genericamente uma imensidão de significados e utilidades. Estrutura, desta forma, em seu amplo conceito, pode representar desde os seres vivos dos 10 biólogos, as moléculas dos químicos, os conjuntos dos matemáticos, até a sociedade dos sociólogos, e, enfim, toda a ciência moderna. O conceito utilizado neste trabalho seguirá a definição proposta por Lepargneur, em Introdução aos estruturalismos, focalizando sua atenção especificamente sobre o estruturalismo aplicável às ciências humanas e fundamentado por Claude Lévi-Strauss, especificamente em sua teorização sobre o mito. O conceito de estruturalismo, portanto, que se utiliza nesta obra, uma introdução ao método, pressupõe, acima de tudo, a inevitabilidade de um sistema de comunicação gerado, em sua essência, pela língua e pela palavra, consideradas isoladamente, para efeitos didáticos, mas que só fazem sentido ao estruturalismo quando em relação de oposição. A comunicação oral produz, e em certa medida também se faz produzida por uma série de códigos linguísticos, assimilados inconscientemente pela língua, que é reproduzida pela coletividade, e que pode ser transformada individual e conscientemente pela palavra. Tais códigos existiriam e sobreviveriam, em sua estrutura, a partir, prioritariamente, de um complexo sistema de combinações não aleatórias e finitas, o que sugere um movimento cíclico em algum momento da história. A estrutura e não o conteúdo histórico-narrativo, propriamente, é o verdadeiro motivo para o estudo de qualquer objeto a partir deste método, portanto. “(...) o código carrega ocultamente certo sistema de valores do grupo, embora só uma pessoa possa perceber um valor como um valor, através de sinais que o inserem na cultura” 5 O estruturalismo tem como objetivo, hipotético mas não “ideológico”, eliminar ao máximo o componente subjetivo de um fenômeno, sem desconsiderá-lo, propriamente. O risco do formalismo é uma possibilidade real e imanente que todo cientista deve considerar ao trabalhar seu objeto através deste método. Por trás, portanto, de toda narrativa histórica humanamente reproduzível deve existir, em tese, unidades constitutivas universais. Exatamente o que Lévi-Strauss procurou verificar em seu o estudo a partir da categorização de um “pensamento selvagem”. Estruturas subjacentes profundas e intocadas pela manipulação consciente das pessoas. A primeira vista tais estruturas podem parecer desconexas, sem sentido. O que Cl. L-Strauss pretende verificar é que, apesar de sua aparente composição caótica, estas estruturas escondem, na relação entre suas unidades constitutivas, uma racionalidade 5 LEPARGNEUR, H. Introdução aos estruturalismos. São Paulo : Herder, 1972.P.15 11 universal que se faz racional antes mesmo da razão consciente e manipulável pelo homem. O pensamento das culturas, por assim dizer, “selvagens”, primitivas em termos de comunicação, seriam mais “simples” de serem estudadas estruturalmente, pois seriam pobres em recursos, ou “disfarces linguísticos”, frutos de manipulações do homem civilizado. A possibilidade de se aproximar mais a uma, com todos os cuidados do termo, “natureza” (inconsciente) linguística, facilitaria a percepção, não dela por ela mesma, mas de sua relação primária com a “cultura”. Lévi-Strauss não pretendia com isto formular um teoria sobre o inconsciente, apenas demonstrar que a constituição da linguagem e todo seu sistema de comunicação, dependem e adquirem sentido, significação, a partir de relações primárias entre a superestrutura (consciência) e a estrutura, em sua natureza (inconsciente), condição a priore da cultura. É relevante considerar a formalização do estruturalismo, que se cientificiza em meio a um contexto histórico da Europa ocidental marcado profundamente pelas descontinuidades. As inovações tecnológicas com a segunda revolução industrial estimulando ideologias do progresso; os processos de modernização/urbanização das grandes cidades e os grandes deslocamentos de populações miseráveis, do campo para estas megalópoles em formação, explicitando ambiguidades sob a forma de diferenças sociais; o reavivamento dos “espíritos nacionais” e a constituição e legitimação dos “ismos”, justificando conflitos étnicos-culturais; o advento de novas formas de percepções do espaço, do indivíduo e da sociedade, corroborando para a fundamentação de uma nova racionalidade e uma nova arte. Momento extremamente fértil em termos de dinâmica histórica, se se considerada, ela mesma, a partir desta dialética de oposição bipolar. Cidade-campo, rico-pobre, progresso-tradição, indivíduo-sociedade, nacional-antinacional, arte-ciência, objetivo-subjetivo. O estruturalismo pressupõe, a priori, um “descentramento do homem” em relação a ele mesmo, enquanto agente, indivíduo histórico-social. Desta forma, tudo o que o constitui isoladamente, em sua composição cultural, etnológica, é entendido a partir de “estruturas” que se pretendem, em certa medida, universais, tornando possível, por exemplo, processos de identificação com o “outro”, seja ele um outro homem, uma outra civilização, ou mesmo um animal. A “estrutura” de Lévi-Strauss remete, além da decomposição de uma totalidade, cuja existência é indiscutível, à interdependência entre as partes constituintes deste todo. Como estes conjuntos se articulam, se agrupam, se relacionam, e, enfim, em função de suas diferenças, como as estruturas podem ser ordenadas. 12 Da modernidade literária, analisada estruturalmente, depreenderá, para interesse específico e prioritário deste texto, o contexto histórico. A História das ciências humanas compreende um campo de conhecimento, obviamente restrito aos interesses e/ou necessidades desta disciplina, baseado em um método que procura, grosso modo, estudar empiricamente a passagem do tempo sob a ação de agentes históricos, genericamente considerados. Tal método, apropriado ele mesmo para contextos específicos, pelas muitas escolas, pressupõe, em todos os seus momentos historiográficos, pela continuidade(permanência) ou pela descontinuidade(ruptura), muitos níveis, constituídos por elementos que se inserem, separada ou simultaneamente, na cultura, na política, na economia, na sociedade e/ou na na religião, a partir de perspectivas micro ou macrocósmicas. O estruturalismo, especificamente o levistraussiano, encontrando sentido nestes processos históricos apenas a partir das transformações/descontinuidades, sem apegar-se ao conceito de tempo, mas ao de discurso, constrói-se enquanto método, utilizando-se como objeto a linguagem (língua ou palavra) e o processo de passagem de informação, o que não pressupõe necessariamente, como já foi dito, uma sequência cronológica, temporal, mas dedutiva e lógica. Aos “níveis” da história sobrepõem-se, ou equivalem-se, no interior das narrativas e restritas ao discurso, as categorias de análise. Tais categorias se manifestam através de um mecanismo inconsciente, mas não aleatório, que guardariam em si, o pressuposto estruturalista, em sua(s) estrutura(s), o(s) sentido(s) intrínsecos da narrativas, revelando por fim, sempre a superação de um contradição(real). Esta “superação”, um estudo heurístico, inicialmente uma hipótese de trabalho, até a sua constatação, com a elaboração de uma estrutura narrativa suficientemente concisa, coerente e lógica, metodologicamente satisfatória, depende a priore de determinadas escolhas, pelos critérios de imanência, de compatibilidade, de pertinência regras básicas para análise estrutural. Encaminhar uma análise da narrativa, em sua sequência lógica e em sua pertinência classificatória, e alcançar a isotopia, é, acima de tudo, uma escolha histórica. O contexto e a cultura determinam prioridades em termos de categorias analíticas, valorando elementos, na constatação de um estrutura, que lhes dê sentido. Greimas, ao descrever passo a passo o procedimento estruturalista na análise do mito do Jaguar, exemplifica um estudo interessante de ser pontuado e descrito, uma vez que se propõe a explicar exatamente esta questão das escolhas diante das muitas possibilidades combinatórias entre os elementos constitutivos de um mito, o que alerta o cientista das estruturas para a necessidade de um procedimento heurístico, antes de 13 qualquer coisa, reservando à interpretação a etapa final, não podendo, sob hipótese alguma, ser tida simplesmente como pressuposto de um processo cognitivo.6 Para efeitos didáticos, valeria a pena descreve-lo (o mito) em breve linhas, afim de acompanhar panoramicamente a construção do código mitológico, para melhor entendê-lo, assim como o processo geral de elaboração de uma isotopia fundamental, feixe organizador de categorias que orienta a constatação e a superação de um contradição, imanente a todo mito. Segundo tal mito, as mulheres de referida aldeia, quando em ocasião de iniciação de seus filhos, vão à floresta colher palmas que servem de confecção de “meias”-protetores de pênis-que são entregues aos rapazes. Um dos meninos segue sua mãe nesta empreitada, às escondidas, e surpreende-a, violando-a. O marido da mulher percebe as palmas arrancadas e suspeita de uma possível “aventura”. Decide então realizar uma dança para descobrir que adolescente possui um ornamento semelhante, ao que ele descobre ser seu próprio filho. Sedento por vingança, envia-o a uma perigosa missão, obrigando-o a ir até o “ninho das almas” e trazer o chocalho da dança(bapo). A avó do “filho-traidor” avisa o rapaz sobre os perigos de tal missão. Ao chegar na morada aquática das almas, o jovem supera este obstáculo com a ajuda de um beija-flor, recomendação de sua vó. A esta sequência seguem-se outras duas, todas ordenadas pelo pai-traído e vingador. O filho, no entanto, sempre retorna, vitorioso. Alcança o chocalho das almas com a ajuda de um juriti (pombo) e, por último, o butoré, guizos barulhentos feitos com cascos de caititu enfiados num cordão e que se enrolam em torno do tornozelo, com a ajuda de um gafanhoto. Tentando romper a narrativa deceptiva e evitar a transformação do filho-traidor em herói, o pai, enfurecido, envia seu filho para uma última missão, ir ao ninho das araras e caçá-las. A avó do rapaz manda-lhe um bastão mágico para evitar uma queda mortal. Ao chegar a encosta da muralha, o pai ergue uma longa vara e ordena o filho a subir nela. Quando este atinge a altura dos ninhos, o homemtraído retira a vara, dando tempo apenas do menino enfiar o bastão em uma rachadura, para em seguida abandoná-lo. O filho, então vítima, alcança um cipó, atingindo terra firme. Com um arco e flecha caça e mata grande quantidade de lagartos e os pendura, o excedente, em sua cintura. Os animais, no entanto, apodrecem exalando um cheiro pútrido, fazendo-o desmaiar e atraindo a atenção dos urubus, que comem a carniça como também as nádegas da vítima. 6 GREIMAS, A. J. Elementos para uma Teoria da Interpretação da Narrativa Mítica. In : BARTHES, R. et al. Análise estrutural da narrativa. Petrópolis : Vozes, 1973.Pp.19-109. 14 Sem ter como se alimentar, pois o alimento (frutos silvestres) passa direto, sem sua parte traseira, o rapaz lembra-se das histórias de sua avó e decide reconstruir suas nádegas com um massa de tubérculos esmagados. Retorna mais uma vez vitorioso a aldeia, agora um herói com anseios de vingança. De volta à aldeia, presencia uma grande tempestade acompanhada por grande aguaceiro. Por efeito, todos os fogos se apagam, com exceção do de sua vó, o que obriga os aldeães, inclusive a esposa do pai a ser vingado, a pedir brasa. Eis que em determinado momento, já tendo reencontrado seu pai, o herói decide propor, por intermédio de seu irmão mais novo, uma caçada. Ao que ele atocaia o paivítima, disfarçado de cervo e o derruba sobre um lago, habitado por espíritos buiogoê, que o devoram (o pai) sob a forma de peixes canibais. Segundo a análise empreendida por Greimas, a princípio o mito sugere dois eixos narrativos simultaneamente, uma aparente bi-isotopia. Quando da ida do rapaz ao ninho das araras, momento em que ele é abandonado pelo pai e isolado da aldeia, no alto da muralha, junto aos lagartos-podres e aos urubus-canibais, o que se segue à narrativa sugere um eixo analítico a partir do lexema alimentação, que se desmembra nos signos cru X cozido, fresco X podre. Se se considerar no entanto, o momento da aquisição do rapazherói do título de “mestre das águas”, ao superar vitoriosamente todas as três missões ao “ninho das almas”, deferidas pelo seu pai, e o que se encaminha, a tempestade, a falta do fogo, a queda do pai sobre o lago, orienta-se, a partir daí um eixo narrativo encaminhado pelos lexemas água e fogo. A necessidade metodológica de decodificar a sequência narrativa em uma única isotopia fundamental, obriga o cientista a uma análise mais cuidadosa, na tentativa de, não desconsiderando uma interpretação em detrimento da outra, relacioná-las em uma ordem complementar e hierárquica de importância. Assim chega-se a um código que procura articular todos os elementos registrados pelo estruturalista. Em linhas gerais : o código mítico é então orientado, em sua construção, pela alimentação e agregado a todas as categorias, lexemas registrados pelo autor, desde os valores culinários e sexuais, até os signos da água e do fogo, da vida e da morte. De forma que as seguintes equivalências sejam possíveis, dando sentido ao enredo mítico : a oposição fundamental consumidor X objeto consumido desmembra-se simultaneamente em cru (vida) X cozido (morte), um processo que pressupõe a ação do fogo; e fresco X podre, o que pressupõe a ação da água, e assim por diante. De objeto consumido (vítima), e carnívoro, associado nesta sequência à putrefação pela água à consumidor vegetariano (predador-herói), associado à revitalização 15 pelo fogo. Como se sabe, a análise estrutural considera, pelo método comparativo, muitas possibilidade (culturais) de um mesmo mito, analisando também o processo de transformação (histórica) de uma versão a outra, consideração relevante neste momento de explanação metodológica. Esta montagem estrutural específica do mito do Jaguar, realizada e descrita minunciosamente por Greimas, explica-se portanto em termos de “escolhas”, ou determinações culturais e históricas, o que tenta eliminar do método qualquer aleatoriedade. A escolha desta ou daquela figura animal para manifestar códica do conteúdo não depende da estrutura formal, mas constitui entretanto um fechamento do corpus mitológico como se encontra manifestado numa comunidade cultural dada. Isto quer dizer que o inventário lexemático de uma mitologia (..) representa uma combinatória relativamente aberta. Compreende-se deste modo que o mesmo código pode dar conta de diversos universos mitológicos comparáveis, mas manifestados de maneira diferente e que constitui assim, desde que seja bem construído, um modelo geral que fundamenta o comparativismo mitológico.7 3. O estruturalismo de Lévi-Strauss e os mitos da modernidade urbana Como se pode observar pelos textos de referência, o problema da modernidade, e consequentemente da pós-modernidade, remete ao conceito/idéia de cidade (espaço urbano), a modernização e suas crises, que deverão, por sua vez, remeter ao conceito de mito, um pressuposto metodológico. Eis os grandes eixos temáticos que irão nortear a elaboração deste trabalho Os registros, por assim dizer, da realidade urbana de Curitiba, especificamente, serão investigados a partir da literatura. Tal objeto, portanto, será entendido enquanto narrativa ou relato mítico. Para tal, pretende-se respeitar um recorte cronológico que vai desde a década de 1920 até os anos 70. Do literato modernista Sá Barreto, será aproveitada a novela de terror O automóvel 117, escrito nos anos 20. De Dalton Trevisan, serão estudados os contos O vampiro de Curitiba e Chapeuzinho vermelho8,e os Botequins9, produções que ambientam uma Curitiba dos anos 50. Sobre a década de 1960, servirá como fonte, também o roteiro Lance Maior, do cineasta Sylvio Back, escrito sobre este período (1968). Será utilizado, 7 GREIMAS, op.cit. , p.74. 8 TREVISAN, Dalton. O vampiro de Curitiba. Curitiba : Record, 1991. 9 TREVISAN, Dalton. Cemitério de Elefantes. Curitiba : Record,1987. 16 por fim, Trapo, de Cristovão Tezza, o qual descreve o universo curitibano de fins da década de 70. O texto Cortázar, Paz, Sá Barreto : cidade, experiência urbana e estrutura, organizado pelos historiadores Antônio César Santos e Magnus Pereira, vale-se metodologicamente do modelo de Lévi-Strauss de análise do mito, aplicando-o à experiência urbana. Também é o caso do trabalho empreendido pelo antropólogo Roberto da Matta, em seu estudo sobre o conto O diabo no Campanário, de Edgar Allan Poe, cujas análises estruturais seguem este modelo de Lévi-Strauss. O estruturalismo levistraussiano, no entanto, trata as narrativas mitológicas numa perspectiva bastante atemporal, quase a-histórica. Estes autores, contudo, encarregaram-se de adaptar o método, de forma a que passasse a refletir uma perspectiva diacrônica, tornando possível uma investida historiográfica. O presente trabalho pretende espelhar-se nessa perspectiva analítica. Segundo tais análises, o antropólogo francês Lévi-Strauss, ao se debruçar sobre a análise estrutural do mito, parte do pressuposto de que para se entender o conceito de estrutura em qualquer produção literária, narrativa, faz-se necessário, em um primeiro momento, entender a organização mental do homem. Pois o mito, como tal, é uma produção intelectual humana, vinculada a um universo cultural, em suas particularidades sociais. A produção intelectual, portanto, não é homogênea, mas é fruto de apropriações culturais do homem, representante de sua própria sociedade. Daí a importância de se considerar as operações mentais, uma vez que o mito, no interior das narrativas, só pode ser traduzido para uma determinada cultura, uma vez que faz, ou dá sentido àquela cultura. Desta forma, é impossível se chegar a um mito, em sua versão original, pois a sua permanência na história e seu conceito mesmo como mito, depende destas apropriações culturais, e das auto-representações das diferentes culturas. O mito, portanto, passaria por espécies de decodificações culturais ao longo da história, a partir da narrativa, sem, no entanto, perder a sua estrutura original. De geração para geração, de cultura para cultura, o mito pode ser traduzido em qualquer língua, sendo apropriado, e reapropriado a diferentes contextos. Como suporte teórico para a elaboração de seu método de análise, na estrutura narrativa, Lévi-Strauss referencia-se em Ferdinand de Saussure, que estuda os fundamentos da lingüística estrutural, especificamente no que diz respeito a distinção entre os fatos da língua e da fala. É interessante ressaltar que Lévi-Strauss, antes mesmo de trabalhar a questão da estrutura dos mitos, já havia fundamentado a antropologia estrutural a partir do 17 estruturalismo genético, a saber, no artigo “Análise estrutural na lingüística e na antropologia” (1945), e no livro “As estruturas elementares do parentesco” (1949). Para este exercício metodológico, no estudo das narrativas, a partir de uma análise estrutural, a referência a ser seguida será, prioritariamente, o modelo proposto por LéviStrauss para a análise da estrutura dos mitos. A partir dele é possível detectar uma natureza para o mito, percebida somente no interior de uma história narrada, composta por complexas unidades constitutivas (os mitemas), mais abrangentes que os semantemas de Saussure. Os mitemas expressam relações entre unidades menores e organizam o mito em feixes de relações, recorrentes à narrativa, o que os tornam repetitivos, mas que permitem a transmissão da mensagem. O mito pode ser identificado a partir de duas ordens temporais, uma diacrônica (nível sintagmátivo) e uma sincrônica (nível paradigmático – “feixe de relações”). A sua leitura se daria de forma semelhante a uma pauta musical. O campo genérico da história cultural, portanto, será articulado neste trabalho ao método estruturalista levistraussiano, emprestado da antropologia e apropriado ao interesse específico de análise do objeto a que proponho : a literatura sobre a cidade moderna (Curitiba) e suas representações. O método será utilizado de modo a subsidiar a elaboração de um modelo, uma estrutura que seja capaz, enquanto estrutura mitológica, de atender às pretensões deste texto : a identificação e a superação de uma contradição (real), pressuposto de qualquer análise mitológica, e que neste caso implicará no pressuposto do mito da cidade moderna (Curitiba). Tal contradição, avaliada pela estrutura do mito a partir de pares antagônicos (de contrários) deverá orientar, sob a perspectiva do trabalho, um diálogo entre cultura urbana, marcada, neste contexto de produção literária (desde a década de 20, com Sá Barreto até a década de 70, com Tezza), pelos contrapassos e paradoxos da modernidade curitibana, e mito, propriamente dito, enquanto representação social de dada sociedade sobre si mesma. Desta forma, torna-se possível uma investida historiográfica que pretende contemplar analiticamente a apropriação cultural em um universo particular e diferenciado, Curitiba, do pressuposto do mito da modernidade urbana, em seu modelo estruturalista. Santos e Pereira, como já foi dito, sugerem uma linha metodológica interessante às expectativas deste trabalho. Analisar determinadas experiências urbanas das cidades modernas, a partir de uma adaptação do modelo de Lévi-Strauss de análise dos mitos. Da mesma forma, este texto monográfico ambiciona focar sua atenção sobre o urbano, a cidade, desmembrando, decodificando esta “realidade” através da identificação de categorias de análise. 18 Assim como no texto, a abordagem das fontes neste trabalho se dará a partir de um esquema metodológico que pressupõe, a priori, uma aproximação das narrativas com as construções mitológicas, sem tomar, no entanto, o mito como objeto. Neste sentido, faz-se necessário, em um primeiro momento, identificar as unidades constitutivas no interior das narrativas, considerando que cada uma delas tem um significado, expresso normalmente através de uma oração, ou um conjunto de orações, ou um nome. Feito isto, determinar seqüências de acontecimentos a partir da identificação e organização de uma cadeia sintagmática, para que se possa realizar todas as relações possíveis no interior desta cadeia, através de feixes de relação (eixos paradigmáticos). Cada um destes eixos adquire sentido quando dispostos aos pares, evidenciando determinada relação (ora afirmando, ora contrariando uma relação), explicitando, por exemplo, relações de gênero (os papéis dos homens e das mulheres na sociedade curitibana), distinguindo e/ou aproximando os espaços cidade/periferia, privado/público, e assim por diante. Finalmente, após esta investida metodológica, reordena-se texto por texto, realizam-se as leituras, relacionandoas. O presente texto, enquanto uma tentativa de análise estrutural que se aplica a um objeto da história e não da antropologia, procura apropriar-se deste método. O mito, ou a estrutura de análise de um mito, como já foi dito anteriormente, passa por espécies de decodificações culturais, adequando-se de tempos em tempos, ao longo da história, a contextos específicos. As narrativas sobre a cidade moderna sofrem, conseqüentemente, estas mesmas apropriações histórico-culturais, podendo, sob esta perspectiva, serem devidamente historicizadas. O trabalho de análise de uma narrativa implica, além de uma simples definição das assim chamadas unidades constituintes, atribuir-lhes significado, determinando-lhes funções. As unidades, sendo funcionais, podem ser entendidas enquanto segmentos da história que se expressam e adquirem sentido a partir de uma correlação. Desta forma, tudo dentro de uma narrativa pode ser funcional e ter, até os menores detalhes, uma significação. Muitos tipos de funções podem ser determinados em uma narrativa, a medida que muitas correlações se fazem possíveis. O que se procura numa narrativa, através deste exercício metodológico é, em outras coisas, procurar saber o que quer dizer um enunciado que o constitui em unidades funcionais, não a maneira, propriamente, pela qual isto é dito. Este significado constitutivo pode inserir em si significantes diferentes, frequentemente retorcidas. A nível de exemplificação, na análise empreendida por Umberto Eco sobre o 19 romance da série 00710, Cassino Royal, seleciona-se o seguinte enunciado : James Bond viu um homem de cerca de cinqüenta anos, o que se percebe, pela análise, é que esta informação contém ao mesmo tempo duas funções, de pressão desigual. Se por um lado, ela determina a idade do personagem, especificando-lhe um perfil, um retrato, por outro, pressupõe, enquanto significado imediato, a distância entre Bond e este seu futuro interlocutor, ou seja, fica evidente que o protagonista não conhecia, até então, este personagem. A unidade sugere, pois, uma correlação muito clara: a exposição a uma ameaça (Bond não conhecia o interlocutor) e, consequentemente, a necessidade de identificação. O protagonista, segundo o estudioso, quando em guarda no seu gabinete do Serviço Secreto, é sobressaltado pela campainha do telefone, “Bond levantou um dos quatro receptores”. O monema “quatro”, nesta situação, representa sozinho uma unidade funcional, pois remete a um conceito importante, que dá sentido ao conjunto da história, a sofisticada técnica burocrática. O que se procura demonstrar com este exemplo de tentativa de análise estrutural, é que a unidade narrativa não equivale necessariamente à unidade lingüística (a palavra), mas explica-se tão somente pelo seu valor conotado. Ou seja, a palavra quatro, enquanto unidade funcional, não significa apenas quatro. Sua significação extrapola, portanto, não a frase propriamente, mas o nível de denotação. A análise empreendida por Santos e Pereira sobre, especificamente, a novela O automóvel 117 , de Sá barreto, será utilizada a nível de exemplificação. Esta novela de terror expressa, segundo os autores, uma “tensão constitutiva da cidade brasileira moderna”, sendo determinado inicialmente, em cada segmento de ação, pela negação da categoria casa, representada pelo elemento feminino, pela rotina e pelo tradicional. A partir desta constatação inicial, precipitam-se à analise outras categorias. Quais sejam, o centro da cidade, representada pelo elemento masculino, pelo moderno e pelas muitas possibilidades que este espaço implica. O contato com este universo urbano, por sua vez, evidencia outra categoria, a superestimação do moderno, simbolizado pelo atropelamento. O acidente e a conseqüente sensação de mal-estar, com a perda de sangue, vêm representar mais uma categoria, a perda da vitalidade. Tudo em uma narrativa, como já foi dito, pode ser funcional, inclusive, e talvez principalmente, os detalhes. Como acontece neste texto, até mesmo a escolha do número 10 ECO, Umberto. James Bond : Uma Combinatória Narrativa.In : BARTHES, R. et al. Análise estrutural da narrativa. Petrópolis : Vozes, 1973. 20 do automóvel não foi aleatória. O conto, sendo escrito na primeira metade do século XX, recebeu influência das cabalas numéricas, um assunto de grande interesse entre os intelectuais e artistas da época. Na cabala de Atlantes, o 9 representa movimento e o 13 o acaso. O 117 seria produto da multiplicação entre estes números, sugerindo, pois, a ação do acaso sobre o movimento. O número 117 representa o próprio acidente. Em uma segunda etapa de análise, ou em um segundo segmento, observam-se outras categorias, que se contrapõem à primeira, evidenciando uma negação do centro da cidade e a aceitação do mundo feminino. Apesar da situação inverter-se, os resultados inicialmente são os mesmos e, logo em seguida, agravados. Revela-se finalmente, com o desfecho da história, a natureza deste conto, que procura retratar a verdadeira face da modernidade, cruel e perversa, sujeitando o protagonista à perda da razão. Os estudiosos da modernidade de fins de século XIX atestam para estes problemas das grandes metrópoles, identificando estas questões como suposta, teoricamente universais. O que dizer das cidades européias reveladas por Baudelaire, Freud, Goethe, Klimt, Marx, onde as realidades urbanas parecem desvelar-se em inúmeras crises, políticas, étnicas, sociais, espirituais, de gênero. A análise de tais autores, artistas, médicos, cientistas sociais, historiadores, tomados enquanto fontes literárias, evidenciam, assim como se pretende com este trabalho, a temática da modernidade a partir justamente de sua natureza conflitiva e contraditória. Da Matta orienta também uma análise estrutural, seguindo o modelo de LéviStrauss, para entender a realidade urbana. O conto O diabo no campanário, classificado pelo estudioso como humorístico, é decodificado em sua estrutura e identificado pelo seu estilo, enquanto “narrativa do terror”. O autor empreende uma análise sociológica do conto, determinando categorias de análise e seus feixes de relação (homem/mulher, vida cotidiana/vida pública, entre outras) para explicar determinadas relações sociais. A análise empreendida por Da Matta neste conto servirá aqui como mais um exemplo de aplicação do estruturalismo à narrativa. A partir de uma análise inicial da estrutura do Burgo de Vondervotteimittis, identifica-se nesta sociedade a existência de vários domínios que se entrelaçam, cada qual com suas características específicas. A partir daí, inicia-se um processo de decomposição, ou decodificação desta estrutura em categorias de análise. A começar por uma oposição básica entre centro/periferia. Por este eixo paradigmático, o autor foi capaz de identificar outras categorias, como a relação homem/mulher, inserida no conflito autoridade/subordinação, vida pública/vida doméstica e sociedade/natureza. 21 Por esta análise, o autor tenta identificar no conto, certos condicionamentos sociais, expressos normalmente a partir dos costumes e dos hábitos, minuciosamente detalhados na análise. Procurou-se organizar, então, esquemática e estruturalmente todas as tensões sociais, morais, sexuais, presentes entre os habitantes do burgo, na tentativa de determinar as especificidades a as funções de cada grupo social. Isto a partir, por exemplo, da análise das roupas que cada um veste, e da cor destas roupas, das posições que as pessoas ocupam no seu espaço residencial, na utilização ou não do relógio, e com que mão segura-se este objeto, da disposição da torre, no centro da comunidade, e da quantidade de lados que ela possui, e assim por diante. Le Rider, provavelmente, analisaria estas questões a partir de suas categorias psicológicas, seguindo a linha psicanalítica, como fez em seu trabalho sobre a cidade de Viena. O eixo orientador da análise para este estudioso é a sexualidade. Homens e mulheres, em seus papéis de gênero, fundamentam suas identidades e mesmo, orientações políticas, primária e inconscientemente, a partir do desenvolvimento de suas libidos e de seus complexos infantis (castração, Édipo). Há, aqui, uma certa determinação do inconsciente e do psiquismo sobre o indivíduo. Ao passo que na análise de Da Matta, as condições sociais deste burgo holandês é que sobredeteminam toda a existência dos indivíduos. Por aí é possível, mediante o estudo destas categorias e de suas respectivas unidades funcionais, entender, por exemplo, a aproximação que Edgar Alan Poe faz entre mulher/ natureza, mulher/periferia, ou homem/centro, homem/público. A partir deste modelo levistraussiano de análise do mito, e da sua aplicação à experiência urbana, o que não é por si só absolutamente autêntico, pretende-se promover um diálogo, ou diálogos possíveis entre estas narrativas. Deste debate, espera-se, a antecipação da questão sobre as representações urbanas na cidade de Curitiba. Em ambos os autores, cada qual representante de épocas e contextos distintos, é possível detectar pontos comuns nas narrativas, no que diz respeito às categorias de análise e, mais especificamente, aos feixes de relação. Desta forma, tanto em Sá Barreto, quanto em Cristóvão Tezza, ou Dalton Trevisan e Sylvio Back, ao narrarem as especificidades do urbano curitibano, pares antagônicos são evidenciados, como a relação homem/mulher, interior/centro, público/privado, entre outros. Estes elementos, ou categorias urbanas, que aparecem nas narrativas, sugerem a existência de traços, características, comportamentos, perfis, representações e mesmo identidades curitibanas, que traduzem todo um código de conduta e moralidade 22 interessantes de serem estudados, uma vez que são frutos de contextos históricos específicos, e que podem ser historicizados. 23 -A CIDADEO recorte histórico para se entender a constituição urbana da cidade, estende-se, como já foi dito na introdução, desde a década de 1920 até a década de 1980, aproximadamente. Um recorde temático que prioriza, na cidade, o processo de urbanização/modernização, as divisões e as distribuições sociais, por espaço e tempo, subsequentes. Desta forma, CENTRO e PERIFERIA, URBANIDADE e INTERIOR, DIA e NOITE se contrapõem, organizando-se em aparentes pares antagônicos. Aquilo que da literatura sobre Curitiba consegue-se extrair, desde o discurso modernista paranaense dos anos vinte, em seu caráter boêmio e gozador, constatador de uma realidade urbana marcada pelos ideais de progresso, até a “literatura pop”, “linguagem oral, palavrão, registros do banal e do reles, uma escrita antinobre”,11. De Barreto a Tezza, uma Curitiba, ou muitas Curitibas, considerando cada narrativa uma versão diferente, reveladoras de suas própria representações urbanas. Regina Iorio em Intrigas e Novelas : literatos e literaturas em Curitiba de 192012, ao utilizar-se como fonte, em seu estudo, discursos de literatos paranaenses, encontrados geralmente em extratos de jornais e revistas de pequenas circulações, realizou uma descrição panorâmica deste universo curitibano nos anos 20. Quando da chegada do ilustre escritor nordestino, o Coronel Raul de Azevedo, nomeado, nesta ocasião, para exercer o cargo de administrador dos correios do Paraná, observa-se, nesta narrativa um tanto fictícia, mas baseada em relatos, o fascínio pelas construções, fábricas, símbolos da modernidade. Ainda diante dos olhos do digníssimo “estrangeiro”, chaminés e o “perfil elegante dos pinheiro dispersos”, sinais, já nesta época, de desmatamento acentuado. A natureza a favor da modernização. Atento ainda, com os ouvidos para fora do trem (grande símbolo da urbanização européia), prestes a desembarcar, o coronel escuta “o pregão do guri oferecendo o 'Diário da Tarde'” e a movimentação das operárias da fábrica de fósforo. O advento maior da ideologia capitalista, em Curitiba, a produção em série e a formação de uma classe trabalhadora, operária. O “nobre” olhar do nordestino revela, ao mesmo tempo, as maravilhas da civilização moderna -trens, carros, fábricas- e a gradual proliferação dos 11 12 TEZZA, Cristóvão. Trapo.Curitiba : Brasiliense, 1992 conforme atestou Paulo Lemiski no posfácio de Trapo IORIO, Regina, Intrigas e Novelas : Literatos e literatura em Curitiba na década de 1920. Curitiba : UFPR, 2003. (Tese de doutorado policopiada) 24 chamados sub-empregos e a utilização de mão-de-obra infanto-juvenil, como pequenos jornaleiros, mas também como pedintes13. O conforto proporcionado pela tecnologia e a já denunciadora devastação do meio ambiente (pinheiro elegantes, porém dispersos). Caracteriza-se esta geração de literatos pela euforia, impregnados que estão pelo frisson da modernidade e pelo espírito de patriotismo, ainda que diante de um contexto nacional, marcado pelas complicações do governo republicano, marcado, em fins dos anos vinte, por perseguições políticas, encolhimento do mercado de trabalho e crise dos serviços públicos, com os baixos salários e atraso nos pagamentos14. Avante algumas décadas no tempo, nas décadas de 1960-70, sob o regime autoritário da ditadura militar, a análise de uma literatura sobre Curitiba, que se constrói a partir de um contexto marcado por projetos de desenvolvimento urbano, como o plano diretor, elaborado e executado por engenheiro europeu. Momento político e histórico onde se pode perceber uma real preocupação em funcionalizar o espaço público, através da canalização dos principais rios da cidade e a revitalização do centro da cidade, com a abertura de avenidas, e as muitas galerias, que pretendiam escoar a movimentação urbana, ordenando-a através da ligação entre praças e ruas. Enfim, as ambiguidades experimentadas muitas décadas antes na Europa, com o advento da modernização e a formação das grandes metrópoles, aos poucos parecem ser importadas, e assimiladas/adaptadas à realidade curitibana. Uma cidade européia!? Bem, deixemos as fontes falarem por si! 1. A “fria” Curitiba ou os curitibanos “frios”? : o Automóvel 117, Lance Maior e Trapo, sob a perspectiva analítica dos sintagmas Quente X Frio Sá Barreto, em O automóvel 117, descreve a realidade urbana de Curitiba dos anos 20, a partir da comparação com a capital paulista, referência para o fenômeno cada vez mais nacional da metropolização. Trata-se, este texto, de uma novela de terror inspirada nas histórias de Edgar Alan Poe. O autor, juntamente com outros autores paranaenses, foi integrante do movimento modernista no Paraná, na década de 20. 13 14 IORIO, Regina, op. cit. , p.10. IORIO, Regina, op. cit. , Pp. 53-59. 25 O enredo, dividido em duas sequências urbanas distintas (São Paulo e Curitiba) fala sobre a vida de Carlos, morador de Curitiba, mas que se viu obrigado a ir para São Paulo para estudar Direito. Eventos estranhos, associados ao automóvel número 117, acontecem na capital paulista, deixando-o desorientado. A personagem forma-se e retorna então a Curitiba, onde é promovido ao cargo de promotor em Colombo. Neste segundo segmento da novela, quando tudo parecia bem, novamente aparece a limousine de número ameaçador, acompanhada agora pela imagem de uma mulher misteriosa. Em uma primeira análise desta novela, percebe-se, entre outras relações, a contraposição antagônica dos seguintes sintagmas, presentes em toda a narrativa : seco X úmido, quente X frio. Logo de início, a ardência da febre leva a personagem central, retirando-se de um ambiente que se pretende seco e seguro, longe da umidade da garoa paulista, e solitário, a aventurar-se pelas ruas de São Paulo, em direção ao centro, região normalmente tumultuada pela multidão. A névoa do fim da tarde, no entanto, garante uma relativa tranquilidade nas avenidas, pois “afugenta as pessoas”, possibilitando o passeio de Carlos, um sujeito que não gosta dos “apertos” das multidões. Do ambiente seco (no interior do quarto da pensão), irrompido pela sensação de calor (pela febre alta)- Carlos dirige-se para a rua enevoada, úmida e fria, em busca de alívio-. Esta mudança de cenário-da pensão para a rua-, contrariando as aparentes intenções do estudante, caracteriza-se, paradoxalmente, por um aumento de desconfortoum acidente de carro, o aparecimento do automóvel de número denunciador, e a perseguição do auto misterioso a sua pessoa. O calor, deduz-se, deve ser amenizado pelo efeito da chuva (alívio)15. A névoa de fim da tarde e a fumaça do cigarro (Liberty), por outro lado, representando, por dedução, a evaporação da água (alívio para a febre), sugerem, ao mesmo tempo, a retomada de um desconforto, que não foi, nesta primeira sequência, anulado propriamente, mas reafirmado. Fora isto, a revelação do número diabólico, 117, reafirma ainda mais, pela sua classificação, o retorno ao calor (febril). Pois o diabo, todos sabem, representante maior do inferno, está permanentemente rodeado pelo fogo. Os elementos antagônicos, portanto, fogo (desconforto) X água (alívio), quando em conjunção, determinam, nesta primeira sequência do conto, pela tendência apavorante e orientadora da narrativa, a possibilidade real e mística, ao mesmo tempo, da evaporação do líquido...e a morte. Carlos, o protagonista, está, ao longo de toda a narrativa, determinado pela 15 É comum, pela medicina popular, a indicação doméstica do banho de água morna-fria para a supressão da febre. 26 presença sempre iminente de uma revelação-o número 117. A natureza destas revelações, representadas pelo elemento feminino16, são desagradáveis, denunciando, pela exposição de signos “diabólicos”17, a mais inevitável e temível de todas as verdades- a morte. Na segunda parte do conto, agora em Curitiba, a percepção da personagem parece sensivelmente distorcida. Eis uma cidade “linda”, onde se encontra Carlos, sobre o “chão enxuto e morno” da praça Santos Andrade, à sombra da Universidade Federal. O que lhe reconforta e lhe enche de felicidade, “nessa simplicidade, nessa calada doçura que não tem a inquietude das grandes cidades”. O desfeche da estória, em Curitiba, marca uma inversão na ordem dos acontecimentos, de perseguido a perseguidor. Carlos investe, insistentemente, a favor da conquista da moça de preto, tão misteriosa quanto atraente. O calor, agora morno e agradável da cidade maravilhosa, sob o efeito do contato com a moça, pálida, fria...cadavérica, apaga, aos poucos, o fogo do galanteador, revelando-lhe a sua verdadeira natureza...a morte. Uma morte que lhe resfria a alma, reaviando-lhe, paradoxalmente, a lembrança, já esquecida, dos episódios com o automóvel 117. Se existe uma continuidade lógica entre uma sequência e a outra, de São Paulo para Curitiba, associando os sintagmas calor X frio, aparentemente invertidos, Carlos poderia, em uma possibilidade analítica, ter se transformado no próprio automóvel, no dono dele. É de se pensar, quando diante da mulher misteriosa e o desejo por um contato mais íntimo, o porquê da sugestiva e conveniente limousine vermelha estacionada diante deles. Um convite para o flerte...e a revelação. Poderia-se pensar aqui em um desejo suicida, porém latente, como os fogos do inferno, que, sob esta análise, sempre estiveram presentes em Carlos, desde sua estadia em São Paulo. De alguma forma, os elementos diabólicos que, na primeira parte da estória, estavam associados aos sintagmas “cor 16 Em referência à mulher misteriosa que aparece pelas ruas de Curitiba, no segundo segmento da novela, envolvente e sedutora. Ela parece demarcar a existência de dois espaços urbanos distintos, a casa, ambiente doméstico, privado, e a rua, ambiente prioritariamente masculino. Na primeira seqüência, estas representações do feminino são rejeitadas pela personagem central, Carlos, que evita permanecer na pensão (entenda-se casa) por muito tempo, e encontra-se distante do seio familiar. No encaminhamento da história, no entanto, em Curitiba, a situação inverte-se, e Carlos, que outrora rejeitara os elementos que representavam o gênero feminino (a pensão, as mulheres, a própria mãe, da qual não se fala), começa a aceitar tais elementos e, mesmo, a persegui-los. PEREIRA, M. R. M.; SANTOS, A C. A.; AZEVEDO; HARA, T. R. Cortazar, Paz, Sá Barreto : Cidade, experiência urbana e estrutura. In : CULTURA E CIDADANIA. Londrina : ANPUH, 1996. Vol.1. Pp.55-84. 17 Em referência ao número denunciador, às cores fortes-peto, vermelho-, e a própria mulher misteriosa. Sobre o primeiro elemento, especificamente, existem alguns estudos a respeito deste mesma novela, como a já citada análise empreendida por Santos e Pereira , que consideram a natureza cabalística do no. 117. Ver introdução, subitem “O estruturalismo levistraussiano e a análise dos mitos”. 27 escura”, calor, parecem ter sido, já na segunda parte do conto, assimilado por ele. De vítima a predador, a perseguição agora se dá em sentido contrário, não mais a morte o assedia, mas ele a procura, e insistentemente flerta com ela, até o momento da revelação. A memória do agradável calor na praça Santos Andrade e o seu doce ideal de “linda Curityba”, ainda não totalmente invadida pelo processo avassalador e inevitável da urbanização, esfria com o toque das mãos esqueléticas da musa curitibana. No início do conto, a ardência da febre alta e os diabólicos elementos associados ao carro de luxo, representantes aqui de um desconforto, ou de uma rejeição à urbanidade, sugerem, por dedução, uma busca pelo reconforto, pelo alívio, a partir dos elementos água e frio, presentes em toda esta primeira parte da narrativa (garoas, chuvas intensas e ventos gelados). O desfeche da estória, exaltando o elemento “frio”, associado à figura esquelética da misteriosa e atraente moça, parece encaminhar o enredo para uma espécie de sublimação de um desejo, a supressão do calor infernal e febril da cidade grande. Só que às avessas, provavelmente porque Carlos, de volta a sua cidade natal, depois de uma estadia em São Paulo, para estudos, parece ter sido “impregnado” por este espírito (demoníaco) da modernidade, ao ponto de, muito provavelmente, e não de maneira consciente, ter se apossado do carro perseguidor e ter se transformado no próprio perseguidor. Enquanto símbolo da modernidade, a luxuosa limousine traz consigo, ao mesmo tempo, a atração inconsciente, sob a forma de delírio, e o medo da morte. A suposta ordem do “desastre casual” é manchada por cores fortes, de luto, de funeral, revelando, sob esta perspectiva, a sua verdadeira natureza : a assustadora e atraente modernização. Em São Paulo, o fenômeno parece já ter invadido a organização espacial da cidade, tomada que está pelo tumulto opressor das multidões, que se amontoam diante de mais uma “fatalidade”, uma casualidade própria dos centros urbanos-os atropelamentos e acidentes de trânsito. Em Curitiba, a descrição da praça Santos Andrade, um ambiente quase bucólico, ainda “simples e doce”, mas “que amanhã será, como as outras (cidades), turbulentas e infernais”(grifo meu)18. Um destino, uma fatalidade, prenunciados pelo aparecimento do automóvel 117. A fuga da morte, por assim dizer, na primeira sequência, e a perseguição e abordagem da mesma, na segunda, indicam dois movimentos urbanos e históricos 18 BARRETO, Octável de Sá. O automóvel n.117...e outras novellas. Curitiba : Empresa Graphica paranaense, 1925. P.44. 28 distintos, mas marcados, ambos, pelas evidências, ou iminências da metropolização. Um fenômeno que, aos olhos e percepção de Carlos, natural de Curitiba, provoca um gradual “aumento da temperatura”, chegando até o insuportável e inevitável calor infernal das grandes cidades. A rua XV, centro nevrálgico da ainda “fria” cidade, mostra sinais do “inferno”. “No meio daquelle movimento de (já) cidade grande”19, Carlos perde sua musa de vista. Ela, como o próprio automóvel fatídico são, definitivamente, representações urbanas. Perde-a na rua XV, para recuperá-la, no dia seguinte, indo em direção ao Batel, onde os “carros parecem voar”. Agora no interior da limousine, o desejo, o beijo e a perda de calor corporal. Neste sentido, um movimento de realização, a rejeição radical, com a morte, da modernidade. Em Lance Maior, roteiro cinematográfico escrito por Sylvio Back, no final da década de 60, e ambientado em Curitiba, as questões da modernidade e dos conflitos urbanos aparecem sob a forma de um romance. A história trata da dupla relação de Mário, um bancário vindo de Antonina para Curitiba com o objetivo de estudar, com Neusa e Cristina. Neusa é uma funcionária de uma loja de tecidos e moradora da periferia pobre de Curitiba, onde não existe acesso a água encanada, esgoto, ou luz. Já Cristina, é uma moça de classe média alta, que estuda Letras na UFPR - só por estudar-. É moradora do Jardim Los Ângeles, que na época era o supremo luxo em região de moradia. A urbanidade aqui, representada pelo frenético movimento dos automóveis, ônibus, expressos, e pelo trem, pode estar sugerindo, pelo atrito destas máquinas modernas com o asfalto das ruas e avenidas (na agitada capital), ou falta dele (na tranquilidade das cidades interioranas), a geração, ou não, de calor. Neste sentido, a fala de Neusa, quando em viagem para Antonina, sobre a sensação de “pureza” nos ares da cidadezinha, e seu súbito desejo de “morar em um lugar assim”, se contrapõe imediatamente à poluição de Curitiba e ao “calor”, não do clima, mas o produzido pela ação física do movimento estático. Do que se pressupõe, assim como se sucedeu com Carlos em “O automóvel 117”, uma repentina rejeição à modernidade. A revolta de Mário em relação às mulheres, de maneira geral, quando ciente de sua doença venérea, faz referência direta ao ato sexual, e indiretamente, também ao fenômeno urbano. Ele teria sido contaminado por prostitutas, um problema milenar, até onde se sabe, 19 BARRETO, opus cit. P. 46. 29 tão antigo quanto às próprias cidades. Um “mal urbano”, portanto. Do que se segue a associação : “...não há uma mulher limpa nesta cidade”, e esta cidade é podre. O sexo (e as mulheres), neste caso, quando comparado à cidade e ao fenômeno da urbanidade, pode também ser explicado estruturalmente pelos sintagmas calor X frio. O ato de prazer corporal, assim como o movimento dos autos, e a própria agitação das pessoas no centro cidade, indo e vindo para o trabalho, ou para o comércio, pela lei da física, produzem “energia”, calor. Uma sensação que deve, neste caso, em função de seus “malefícios” (doenças), ser expurgado do corpo definitivamente, como um prurido nocivo e contagiante. O elemento “frio”, portanto, quando em contraposição ao “calor urbano”, não faz menção às condições climáticas da cidade, propriamente, mas a uma condição implícita à modernidade, a rejeição ao “novo”, à nova ordem. A realidade “infernal” das grandes cidades, na análise do primeiro mito, somado a questão do interior e seu ambiente bucólico e tranquilizante e a denúncia da prostituição e a corrupção dos valores (pelas mulheres), em Lance Maior, representam, ambos, uma tentativa de desacerelação do movimento e, neste sentido, um “resfriamento” dos novos hábitos, costumes e valores. Em Trapo, escrito em 1982, mas revelador de uma Curitiba de 1979, trata a modernidade de forma bastante direta, por assim dizer. Os conflitos inerentes a esta categoria (moderno), aparecem no romance a partir de duas perspectivas radicalmente distintas. A história é narrada por Miguel, professor de português para ensino médio, com uma curta passagem pela UFPR. Um intelectual provinciano e conservador, cuja vida solitária não lhe deixou herdeiros. Teve apenas uma esposa, que morreu ainda na juventude. O enredo, no entanto, ao falar sobre a montagem do romance, escrito pelo professor, acaba revelando a biografia de um jovem viciado, corruptor da ordem e dos bons costumes, que acaba, em função de conflitos psicológicos, de família, por se matar. Toda a história se desenrola em função da visita de Izolda, mulher solteira e dona de pensão, à casa de Miguel. Ela pede ao professor que aceite o material que traz com consigo, poesias, contos e cartas de Trapo, o seu pensionista, o jovem viciado que se suicidou, para que ele analise e publique. O romance se desenvolve, portanto, a partir da investigação de Miguel sobre a vida e o suicídio de Trapo. Tezza descreve a realidade urbana de Curitiba, a partir, prioritariamente, da ação (ou não) do elemento ingerível álcool, o que será explicado melhor em parágrafos posteriores. A isto, sugere-se a dilatação das veias e a consequente sensação de “aquecimento” do corpo, alguns dos efeitos desta substância no ser humano. Tal substância recebe uma importância no enredo, sendo considerada pelas personagens, de maneira geral, como uma 30 eficaz forma de “libertação” social, um estímulo à realização dos desejos individuais, à desinibição, ao prazer, à transgressão, sintomas da modernidade. A análise do livro permite a constatação, assim como nos mitos anteriores, de grandes contradições, consideradas inerentes ao próprio fenômeno urbano : um movimento de aceitação, e mesmo desejo, por esta “nova” ordem, moderna e “quente”; e um movimento de rejeição, representada pelo elemento “frio”. A crônica “Curitiba, a fria” ...(?), escrita, inclusive, em período anterior as narrativas de Back e Tezza, trata sobre estas questões, da cidade, da modernidade e dos cidadãos, a partir de um estilo humorístico. Tal análise, da mesma forma, leva em conta o elemento frio enquanto categoria de análise, ou representante de determinados comportamentos sociais e/ou culturais, específicos á realidade curitibana. Ao mesmo tempo em que a “tribo” dos curitibanos, a partir de um movimento de alienação, parece não acreditar no clima, pois “raríssimas são as casas dotadas de lareiras” e “três em cada quatro pessoas nunca se dão ao esforço de usar um sobretudo ou outro abrigo apropriado”, o frio, mesmo assim é a maior atração turística da cidade. Uma tribo, os “curitibanos-comedores de pinhões”, onde, conforme atesta o cronista, em plena “era moderna” excluem suas mulheres da vida social, as quais não podem sair de suas casas (de família) depois das dez da noite, pois serão certamente confundidas com prostitutas, ou “estrangeiras”20. Ademais, os estudantes vindos de outros estados para concluir seus estudos nesta “capital universitária”, “a rapaziada de fora”, são, assim como as mulheres nativas, expurgados da vida social, “jamais absorvidos”. Os relatos são sempre os mesmos, observa o autor : “Estou aqui há cinco anos-diziam-e continuo sendo tratado como estranho”21. Sem falar nos momentos de divertimento público destes curitibanos, uma “massa humana (que) parece insensível ao ritmo (do carnaval)”22. Alguns passeiam, com “ar grave e compenetrado”, tentando acompanhar a “procissão”, sem muita fé. Outros, estacionam nas calçadas para paquerar. Para, já cansados, depois de percorrerem a rua XV, principal via da cidade, voltarem às suas casas, umas três ou quatro vozes. Enfim, a Curitiba é fria, os termômetros atestam. Mas os curitibanos também os são. Rígidos quanto aos seus valores culturais e de gênero, enrijecidos em relação à 20 21 22 Os estrangeiros, aqui, genericamente falando, são todos os não-curitibanos, aqueles que vêm de fora, de outra cidade, ou do interior. FERREIRA, Fernando Pessoa. Curitiba, a Fria : onde Jânio Quadros comia moscas. In : Livro de cabeceira do homem. Rio de janeiro : Civilização, 1967. P9 FERREIRA, Op. cit, p 11 31 possibilidade de mobilidade social, isolados culturalmente (“xenófobos”), e graves e compenetrados demais para se divertirem. A modernidade chega ao território curitibano. Desajeitados desejos modernos se precipitam, como a construção dos enormes e suntuosos edifícios da Universidade do Paraná. Verbas gastronômicas foram consumidas pela Reitoria, com belíssimas instalações. O que atesta o cronista. A fala do conferencista espanhol, convidado pelos diretório estudantil para dar, na ocasião, um conferência, ao comparar tal universidade com as instituições européias, porém, revela os abusos e a falta de necessidade de tamanhos gastos : “... algumas universidades européias (...) funcionam em feios e velhos casarões. Mas como funcionam!”23. 2. Entre o “centro” e a “periferia”, as classes, os indivíduos e os desejos : uma investida analítica a partir de “Lance Maior” , “Trapo” e “O automóvel 117” A tríade amorosa elaborada por Back, em Lance Maior, entre Neusa- “a empregadinha, pobre, moradora de periferia”-, Mário-banqueiro, estudante de direito - e Cristina-rica, universitária- ao articular simultaneamente, em um mesmo e conflituoso romance, realidades sociais, e, consequentemente, espaços urbanos, aparentemente distintos e inconciliáveis, lança ao ar uma série de possibilidades ao acaso, tal qual uma aposta, uma jogada. Entre sorte e estratégia, entre risco e benefício, este jogo curitibano, do amor e da vida, implica, nesta busca desenfreada pelo enriquecimento e pelo status, levada até as últimas consequências, na superação do próprio “destino”, imperativo das “origens” e das condições sociais, tão declaradamente segregadas em classes, nesta realidade social curitibana. Mário, o bancário, enquanto personagem central da trama, funciona como elo de ligação entre estas realidades, interligando-as. Associados à sua imagem encontram-se os meios de transportes e as representações urbanas. Destes símbolos metropolitanos, o trem e o ônibus nos contatos com Neusa, a moradora de periferia. E nos passeios com Cristina, o carro e tudo o que ele representa em termos de poder aquisitivo e condição social. Na sequência IV, no interior de um vagão de passageiros, tem-se o primeiro 23 FERREIRA, Op. cit, p.10 32 encontro entre o bancário e Neusa, a empregadinha. Mário, nesta ocasião, fala, não somente pelo seu desejo, como um galanteador “barato”, mas também pela sua condição, como funcionário de um banco cujo salário baixo, nem sequer dá para pagar prostitutas de rua. Neusa, por sua vez, inserida neste diálogo, é porta-voz da triste realidade das periferias, onde o minguado salário nos fins de mês lhe garante apenas a humilhante definição de “empregadinha”. Neste primeiro encontro, a combinação entre dois mundos que, quando em contato, parece reafirmarem-se mutuamente, em seus aspectos negativos. O subemprego de Neusa e o baixo salário de Mário. Aquela, originária da periferia, onde geralmente reside uma população mais desfavorecida economicamente. Este, nascido na cidade interiorana de Antonina, região inatingida pela modernidade, sem muitas possibilidades de mobilidade social. A região metropolitana é descrita aqui como um ambiente movimentado, recheado por carros, símbolo de conforto e prestígio social, pertencentes quase que exclusivamente ao poder privado, e ônibus, símbolo de uma ordenação pública, evidenciada por longas filas nos pontos e superlotação, uma movimentação mecânica que sugere poluição. Ainda estão vivas, no entanto, as lembranças de Mário, através da fala repressora e constatadora de seu pai : “precisa estudar”...”mantenha as unhas limpas”.. “já está de barba na cara”... “toma jeito”24. Neste discurso parece não haver muitas possibilidades. “Fazer a vida” implica basicamente em duas grandes jogadas : a formação e o casamento. Dois grandes negócios, tal qual um empreendimento, onde decididamente não há espaço para o desejo, enquanto “sonho de felicidade”, inspiração, sensibilidade, sentimento romântico, porém nostálgico A cena de abertura do filme, Cristina correndo com seu cabelo esvoaçante e loiro, em ritmo quase frenético, ao som de música rock, em uma espécie de desfile de moda25. Logo em seguida, Neusa e Rogério, em clima de noivado, encontram-se em uma praça imagens fixas. Os “diálogos” em off, e novamente a sensação de euforia. Uma sequência de imagens e diálogos que beiram o delírio. Seja pelo sonho de consumo, seja pelo “inocente” sonho do amor romântico, junto ao seu amado, a abertura do filme, segregando classes (a empregadinha e seu noivo pobre), Cristina (a universitária rica), em quadros e abordagens cinematográficas distintas, 24 25 BACK, op. cit. Seqüência III A primeira seqüência do roteiro apresenta uma série de imagens de Cristina, ao estilo de filme de publicidade. A personagem aparece correndo em visível estado de euforia, em vários ambientes. Para cada ambiente, uma roupa diferente. 33 determina, “logo de cara”, desejos possíveis a cada realidade social. Estabelece-se de início, portanto, uma ordem, que se baseia : primeiro, na distinção das classes sociais; segundo, pela sutil contraposição entre o “sonho moderno” e o tradicional sonho de felicidade, onde ainda era possível o romantismo e o culto à inocência dos amantes, junto a paisagens bucólicas e “serenas”. Mário, que não se reconhece propriamente como da classe pobre26, mas que também não pode se dizer que é rico27, decide-se por tentar a sorte grande com Cristina. O “bom negócio”, ou “bom casamento”, ao qual seu pai se referiu, é objetivado pelo protagonista como um empreendimento financeiro, donde definitivamente os fins justificam os meios. Cristina, portanto, enquanto investimento, resume-se nesta empreitada, ao seu carro, a suas roupas, possivelmente ao seu sobrenome, a sua família, e ao prestígio social que porventura ela tenha. Neusa é apenas um desejo fortuito, sem importância, uma vez que não lhe garante nada. Ela é uma empregadinha. Em capítulo próximo, estas questões e a associação imediata à modernidade curitibana, serão trabalhadas mais minuciosamente. Os espaços aqui parecem dispostos em uma ordem de descriminação classista, escondendo códigos morais diferenciados e próprios a cada segmento social e urbano. O conceito, mais do que um espaço, de “periferia”, por exemplo, implica uma série de significados associados, por exemplo, a pobreza e impossibilidade de enriquecimento, a vulgaridade e “acessibilidade” das mulheres (“material de se levar na conversa”), com as quais não se devem, se homem pretendente a ascensão social, “levar a sério”. Restaria, de acordo com uma implícita mensagem narrativa, uma espécie de “solidariedade classista”, o que tornaria viáveis somente casamentos e relacionamentos entre pessoas de mesma condição social e econômica. Em referência novamente à abertura do filme, os sonhos afins (busca pela felicidade), parecem ser possíveis, ou pelo menos, aceitáveis socialmente, somente entre pessoas afins, no caso, entre Neusa e Rogério. Basta lembrar que o relacionamento entre Neusa, representante da periferia, e Mário, aspirante à ascensão social, nunca se mostra publicamente, exceto em momentos de visível crise e iminência de um rompimento (no ônibus, no estádio de futebol). Apesar dos 26 27 O estudante nunca assume o namoro com Neusa, a “empregadinha”. Esta relação poderia reafirmar sua condição como pobre, uma vez que é um rapaz de origem humilde, ao invés de apresentar-lhe socialmente enquanto ascendente. A personagem é caracterizada, ao longo de todo o romance, como uma pessoa endividada, que ainda precisa da minguada ajuda financeira de seu pai para se manter. Ademais, Mário é funcionário de um banco em iminência de entrar em greve, o que, por si só, representa uma constante ameaça ao seu emprego. O estudante não tem dinheiro nem para as prostitutas. 34 dissabores da periferia e a falta de melhor expectativa, a ordem continua estabelecida entre Neusa e Rogério, reconhecidos publicamente como namorados. Aparecem, ambos, amando-se num parque, dançando no baile, ainda que aqui se revele também uma tentativa de separação. Para todos os efeitos, Neusa e Rogério, e não Neusa e Mário, formam um casal, selado publicamente pelo compromisso. O reconhecimento de Mário como namorado de Neusa, estabelece-se aqui, mais como uma tentativa de superação da ordem do que outra coisa28. Neste sentido, as falas : “Dê parabéns a Neusa, Com esse ela vai longe”, o “ir longe” significa um rompimento com a lógica dos espaços urbanos (pobre com pobre, casados e residentes na periferia), predeterminados pelas condições sociais. Uma conquista digna de congratulação, porque foge à regra. Mário é tido aqui como um ascendente, ou em melhor condição social que Neusa. O centro da cidade, à luz do dia, mostra-se, por outro lado, aparentemente indiferenciado, em meio a massa composta, ao mesmo tempo, por funcionários públicos, comerciantes autônomos, pedintes, homens sérios-trabalhadores, homens-paqueradores e mau-intencionados, mulheres de família e emancipadas, mulheres pobres e resignadas, mulheres “boas e safadas”. Enfim, uma aparente promiscuidade de gênero, classe, desejos, compromissos e sonhos. Mário, personagem central e ambíguo (bem ao estilo backiano), representa o elo de ligação destes diferentes elementos que compõe a realidade curitibana. O contexto explorado pelo filme remete a uma época marcada pela ditadura militar, pela crise no funcionalismo público, com denunciadores salários baixos e excesso de burocracia, pelo ideal de desenvolvimento urbano, com os projetos de urbanização, de um lado, e pela crescente marginalização social, aumento da violência, devastação ambiental e poluição da cidade, de outro29. Eis o nosso personagem central -Mário-, como o centro da cidade, sintetizando e articulando, dentro do possível, espaços e funções sociais distintos, contaminando e proliferando, com sua doença venérea, o mal-estar da civilização moderna, representada pela solidão dos relacionamentos negociáveis, a frustração dos desejos, pelo recalque dos sonhos de felicidade, em troca de uma busca alucinante pelo enriquecimento, através de 28 29 As colegas de Neusa, funcionárias da mesma loja no centro da cidade, reconhecem o relacionamento entre aquela e Mário enquanto possibilidade de romper com a ordem estabelecida entre pessoas da mesma classe social. Neste sentido, o jovem aspirante à ascendência social é um negócio mais lucrativo para Neusa, do que entre ela e Rogério, mais um pobre. OLIVEIRA, Dennison de. Curitiba e o mito da cidade modelo. Curitiba : Ed. da UFPR, 2000. Pp. 73111. 35 uma formação reconhecida e de um “bom casamento”. A relação (sem compromisso) de Mário com Neusa-a empregadinha-sugere a assimilação, não necessariamente consciente, de uma cultura periférica, marcada, por um lado, pela necessidade primária de sobrevivência, e por outro, pela imperativa ânsia por (boa) apresentação e pelo consumismo. “Passo fome, mas não ando com meia remendada”30. Ao mesmo tempo, o desejo sexual marginal e suburbano, mas revelador de uma realidade tão urbana quanto histórica, a prostituição. Por fim, a negociação de uma (“boa”) vida, através de um projeto de casamento “sério” com Cristina, fundado no compromisso social e público de apresentação da Família, ainda uma tradicional e respeitável instituição curitibana. Neste sentido, Mário, de Back e Trapo, de Tezza se aproximam, ambos esfarrapados pela promiscuidade dos espaços urbanos e pela corrupção das definições sociais. Enquanto aquele define-se, paradoxalmente, pela ambiguidade e, por isso mesmo, pela falta de uma cultura urbana clara e coerente31, este decide-se, em discurso, pela completa anarquização destes espaços e valores sociais, descritos em seus cartas e poesias, praticamente como relatos de alucinações, motivadas por substâncias psicotrópicas. Sob o efeito de uma alucinação, Trapo descreve o centro de uma cidade absolutamente fundida em todas as suas perspectivas. O tempo se mescla entre lembranças de escola (Estadual do Paraná); a revelação de um avenida futurística, “João Gualberto, com suas quatro pistas, semáforos, fileiras amarelas de luzes a mercúrio, um espetáculo marciano de rara beleza”32; o dia, com “o Grupo Tiradentes, o seu pátio de cimento cheio de crianças azuis e professoras imbecis”33, e a noite, com “prostitutas roxas de minissaias, travestis de narizes grandes e joelhos ossudos, motoristas de táxis sonolentos”34. Com uma vista que, pelo seu tamanho e estrutura, deveria ser privilegiada, o Homem Nu da praça 29 de março, com a cabeça entre a densa névoa curitibana, conforme descreve a alucinação de Trapo, indiferencia, quase como uma miopia de enormes proporções, os espaços e determinações sociais. O elemento “vapor”/fumaça/névoa, associado ao elemento álcool, em seu feixe de relações, orienta aqui a narrativa para um 30 BACK, op. cit., seqüência X Ele assume um “compromisso” com Cristina, representante da movimentação urbana e tecnológica da cidade, mas não desiste de Neusa, a empregadinha da periferia. Muito menos das prostitutas do centro de Curitiba. 32 TEZZA, op. cit, p.63. 33 Cf. supra, nota 27 34 Cf. supra, nota 27 31 36 movimento de “transgressão” da ordem. O cigarro tragado simultaneamente com o licor, a cerveja, a cachaça, o uísque, ou a vodca, reafirmam a crise urbana e de suas representações. Estabelecem-se desta forma, e sempre sob o efeito do álcool, ou do café, os muitos pares antagônicos, inseridos sistemicamente a esta lógica dialética dos contrários : Velho/Jovem, dia /noite, animalização/humanização. Desta forma, configura(m)-se a(s) cidade(s), pelos olhos de um “delirante”, e/ou pela apropriação desta “visão alucinada” por parte do professor Miguel. Um homem que, para todos os efeitos, merece respeito, seja pela sua idade, um velho de sessenta anos, seja pela sua condição, enquanto aposentado e viúvo. Morador de uma velha casa que, assim como ele, resiste ao tempo e à modernização do “novo” centro da cidade, revitalizado, replanejado com os projetos de urbanização. A descrição dos espaços físicos encontra-se, aqui, indissociada das sensações, adquirindo, eles mesmos (os espaços), vida própria. As escadas da casa do professor, por exemplo, que têm a idade do proprietário, e se apresentam com um “verniz sebento”, fundem-se ao seu dono, como um “prolongamento de sua pele”. No centro da cidade, “sobrevivendo ao tempo”, resiste a casinha, assim como o próprio aposentado, espremida entre os prédios. Os adjetivos usados pelo intelectual para descrever a sua, assim se imagina, “humilde” residência parece referir-se a ele próprio e não propriamente a construção. Uma casa humilde, “velha”, mal-cuidada com um “quintal ridículo” nos fundos, que serve como depósito de lixo para os “quarenta andares em volta”. Para um residente igualmente velho e mal cuidado, sem mulher, sem filhos, sem família e sem iniciativa. Um homem “ultrapassado”. A urbanização denunciadora, com os prédios e o lixo no quintal, atesta, em um intervalo de menos de quarenta anos, uma quantidade de pessoas que, pelo que se sugere, não mais cabiam em residências. A falta de funcionalidade para os quintais no centro da cidade, que se tornam ridículos nesta época, é um indicativo da ação de projetos urbanos que priorizavam, acima de tudo, o aproveitamento de todo o espaço “útil” de um terreno, o que, evidentemente, exclui “os quintais”. As casas de um único plano, em pleno centro administrativo e comercial da cidade, desperdiçariam, portanto, o aproveitamento dos espaços, que se pretendiam funcionais e não apenas estéticos. Uma descrição de espaço físico que, segundo a percepção do professor Miguel, sugere uma sensação de asfixia, ou sufocamento (quarenta andares em volta de uma velha casinha). E tantos andares, para tantas pessoas trabalharem e morarem. Fora a poluição dos 37 ares, reflexo da modernização. Dióxido de carbono, fumaça de cigarro e escassez de árvores. Este ambiente é definitivamente opressor para o intelectual. Trapo já o considerava libertador, só que sob o efeito de álcool, ou psicotrópicos. Em determinado momento do enredo, logo no primeiro encontro, entre o professor e Izolda, inicia-se lenta e gradualmente, pela ação do álcool, a transformação/subversão de uma ordem, já há muito estabelecida. Eram quase 40 anos, desde a morte de sua esposa, que Miguel vivia a partir dos mesmos costumes. Sem o hábito da bebida, na solidão de um burocrata medíocre e decadente, um homem que nunca foi capaz, ate então, nem de escrever seu próprio romance. Izolda aparece repentinamente e quebra estas regras. A ingestão do licor de butiá pelo professor rompe, temporariamente, esta lógica, até ela ser novamente restabelecida com o café, e a amenização da ressaca. Assim sucessivamente ao longo da narrativa. O álcool transgride, porém, o café, ou a água, também sempre presentes junto aos diálogos, retoma a ordem. Uma narrativa zigue-zagueante, portanto. Entre rejeição e aceitação, ordem e subversão, o estabelecimento de uma série de crises irremediáveis, que culminam com a morte, duas-o suicídio de Trapo e o aborto de Rosane. Neste sentido, acompanhando a percepção daqueles que se habituam a embriagar-se com frequência, a descrição da urbanidade, oscilando entre ordem/desordem, identificação/rejeição, chega a um nível de alcoolização em que as realidades e permissividades sociais (o que se pode e que não pode fazer, o certo e o errado) entram em colapso, confundindo-se, em uma mesma alucinação. Público e privado perdem as suas especificidades, os valores se invertem em uma “brincadeira” juvenil, rompendo as barreiras da moralidade. A “sujeira” e a “purificação” em um mesmo acorde, como o gozo desesperado de dois adolescentes em um depósito de lixo da cidade, fundindo corpos, “purificados” pelo desejo lícito dos romances de cavalaria, e rodeados por cascas de banana. Proposta de casamento e os restos de papéis, aos montes. A veracidade destes acontecimentos, nestas alturas, não tem muita relevância, uma vez que a história transforma-se toda em um romance, misturando ficção, alucinação, e, em última instância, as vidas de Trapo e do professor Miguel. A cidade se desvela, pela percepção delirante de Trapo, confundindo em um mesmo contexto, em termos de representações urbanas, períodos históricos (europeus) sensivelmente distintos. As luzes de mercúrio na avenida João Gualberto, com suas quatro pistas, um espetáculo de rara beleza, representando a esplendorosa modernização. As prostitutas roxas, e a permanência de um problema milenar. Finalmente, as “casas de 38 família” e suas fortificações medievais, simbolizando a organização de uma intimidade que nem moderna é, mas marcada por uma mitologia cristã feudal, com bestas e heróis, que dividem espaço entre a degenerescência e a purificação da alma. A “cidade”, em Trapo, é representada, assim como em “O automóvel 117”, prioritariamente, pela sua região central. A avenida João Gualberto, a rua Treze de Maio, o Setor de Ciências Humanas da Universidade Federal do Paraná, a praça Santos Andrade, a rua XV, a avenida Batel. Ambos, como também Sylvio Back, revelam, cada qual em sua época, os primeiros (década de 20), ou já denunciadores sintomas da modernização (décadas de 60-70). Atraente conglomerado urbano, assim como a bela mulher de Sá Barreto, que seduz, por sua beleza, representada aqui pelo “espetáculo de luzes de mercúrio” nas grandes avenidas, em Trapo, pelo desfile de modas e estilos, em Back, ou ainda pela tecnologia e exuberância de automóveis de luxo, no primeiro. Ao mesmo tempo bela, misteriosa e perigosa, esta musa de Carlos, símbolo da modernidade e, acima de tudo, do centro das cidades, apresenta-se por sua natureza mortífera. A fatalidade (casual, como constata Carlos) dos acidentes de trânsito, como também dos problemas da marginalização, uso e comercialização de drogas, abuso de álcool, da prostituição e proliferação de doenças venéreas. Observa-se, pelas fontes, do centro para a periferia, a existência de um movimento de segregação das classes e o processo de categorização social e moral das mesmas, avaliados normalmente pelo status e pelo poder aquisitivo. Por outro lado, a funcionalização do centro que, aos poucos vai consolidando-se comercial e administrativamente, reservando às moradias, os prédios e os grandes edifícios, construções a partir das quais se esperava um maior aproveitamento dos terrenos. Estabelecem-se, desta forma, culturas específicas a cada espaço. O centro assume a função comercial e administrativa da cidade, “indiferenciando-se” pela modernidade, junto a uma multidão de pessoas, homens e mulheres de família, vagabundos ou prostitutas, todos, perdidos em meio a movimentação contínua e frenética do dia-a-dia urbano. Cristina e Mário, em Lance Maior, e Trapo, de Tezza, parecem estar sendo diretamente associados a esta cultura. Carro, badalação, paquera, desfile de modas, curso superior, prostituição, drogas, sexo antes do casamento. Ao passo que Neusa é categoricamente associada a cultura de periferia. Pessoa humilde e, portanto (relação imediata), inocente (“material de se levar na conversa”), “bobinha”, que, no fundo, ainda sonha com um casamento à moda antiga, fruto de um amor sincero e compromissado. 39 As cenas de abertura do filme, já referenciadas, entre Rogério e a mocinha de periferia, demonstram um pouco esta idéia. No letreiro, falas que beiram ao melodrama : “Neusa espera ansiosamente Rogério”. “Uma dúvida assalta seu apaixonado coração”. Quando Neusa, em off, declara : “prefiro a morte a te perder”. Ao que o noivo, “transbordando de alegria”, confirma : “felizmente a consciência do bem foi mais forte do que a mesquinhez e o preconceito”35. Definem-se os espaços, resta saber donde exatamente residem estes “centros” e “periferias” de Curitiba, que dividem bairros, como também classes, indivíduos e desejos. Mais que espaços geográficos, culturas diferenciadas, à favor ou não da modernidade. Desta forma, é possível evidenciar, em um mesmo contexto : cidadãos de berço pobre com ousadas (“modernas”) ambições; “sobreviventes” aposentados (velhos), ainda que moradores do centro geográfico da cidade, “ultrapassados” e, portanto, à margem do processo da modernização; por outro lado, jovens “marginalizados” pelo álcool e pelas drogas, porém, transgressores da “velha ordem”, fundada na família (sistema), reflexo de uma das grandes crises da modernidade. 3. Curitiba e o interior, entre as fumaças do trem, dos automóveis e das fábricas : análise em Back e Tezza No roteiro de Back, a personagem central da trama, Mário, quando diretamente associado aos meios de locomoção (ônibus, carro, trem), acaba por funcionar, como já foi dito, como ponto de articulação entre diferentes espaços urbanos. Ele promove, desta forma, e não de maneira consciente, uma ligação entre centro e periferia, como também entre cidade e interior. Nas primeiras cenas, onde aparecem Mário e Neusa conversando na plataforma do trem, indo em direção à Antonina, a movimentação da máquina, da cidade para o interior, parece denunciar um caminho inverso ao da modernização. As falas denunciam o percurso de um caminho que sugere uma “regressão” industrial e tecnológica, revelado por um desejo nostálgico, beirando ao bucolismo parnasiano (de Neusa), em “morar em um lugar assim”. Retoma-se temporariamente o desejo quase infantil das personagens por um sonho de felicidade, onde se encontram representações românticas de beleza e bem-estar, como o colorido das flores, a pureza do ar, o amor à primeira vista. 35 BACK, Sylvio, lance Maior. Curitiba : Fundação Cultural de Curitiba, 1968. Seqüência segunda. 40 Tais representações contrapõem-se, ao logo da trama, às sensações produzidas pela metrópole. As quais seriam, dentre outras, poluição, sujeira, prostituição, ritmo acelerado dos automóveis e do dia-a-dia dos cidadãos. Na sequência XVIII, quando Mário e Tales conversam no quarto de pensão, e aquele, “corrompido” pela doença venérea, desabafa : “cidade podre ...será que não tem uma mulher limpa?”, o “podre” da cidade contrapõe-se ao “puro” do interior a partir das associações diretas : Neusa-interior-puro/ prostitutacidade-podre. Nesta mesma sequência, quando Mário e seu amigo Tales andam pelas ruas de Antonina, em direção à casa daquele, esta dicotomia cidade-suja-ruim/interior-limpo-bom, inverte-se. O pai é velho e está doente, enfurnado em uma cidadezinha sem uma equipe médica confiável, longe da civilização, “sem pô nenhuma”. O “verão interiorano” de Mário, onde “tudo isto é tão lindo”, dá lugar à tristeza e à solidão, à velhice e ao “pavor”. Neste sentido, Miguel, o professor aposentado em Trapo, natural da cidade portuária de Paranaguá, ao descrever suas sensações quando na obrigação de visitar a mãe, no interior, identificaria-se com aquela personagem. A capital paranaense, aqui, contrapõese a estas cidadezinhas em relação à mobilidade e desenvolvimento social (ou falta deles). Naquela, tal mobilidade está representada pela população jovem e sua dinâmica, pelo álcool ou pelo sexo. Nestas, a rigidez social está diretamente associada à velhice e seus problemas. O velho professor teve, em certa medida, que romper com esta lógica das idades, e das cidades, para ser inserido, pela identificação e afinidade com seu biografado, junto à Curitiba dos jovens. O álcool lhe serviu como elemento de transformação, ou “libertação”, como diria o próprio Trapo. Até o ponto de apropriar-se da vida do menino pregresso, “adotando-o” mesmo como filho (morto). O bancário, estudante de direito, também natural de cidade interiorana, por sua vez, prostituiu-se e se contaminou. Modernizar-se, ou urbanizar-se, enfim, paradoxalmente, implica, em grande medida, em marginalizar-se. Daí a dedução, a “marginalidade” das grandes cidades é um pressuposto da modernização. Por conseguinte, como será tratado em capítulo próximo, esta dinâmica das grandes metrópoles além de sugerir conforto, luxo, badalação, mobilidade, ou ascensão social, também é um indicativo do processo de corrupção dos valores e da antiga ordem, donde o sonhos de felicidade, que permitiam, outrora, aos amantes e futuros profissionais (universitários), a beleza e a pureza das conquistas, como os ares e as flores de Antonina no verão, coisificam-se e desinstitucionalizam-se. 41 Problemas modernos, até aí uma experiência européia de longas décadas. O que dizer dos grandes centros urbanos em fins do século XIX, da França de Boudelaire à Viena de Freud, de Moscou e São Petesburgo. Incorpora-se à Curitiba, a seus sonhos démodé : “uma casinha em Antonina, um lugar tão bonito no verão e tão puro”36, para um casamento à moda antiga, com a mocinha da cidadezinha de interior, os ideais do progresso - o carro, o clube, o campo de golfe- e as figuras de linguagem da modernidade, ambiguidades, contradições e paradoxos. Entre Curitiba e o interior, a fumaça do trem, de nome Litorina, que vem assobiando e se chacoalhando com seu enorme corpo, cortando as escarpas e perfurando montanhas, como se fossem “túneis do tempo”, que separam décadas de desenvolvimento urbano e social. Os passos cambaleantes de um vesgo alcoólatra, com muito pouca acuidade visual e sanidade, nestas circunstâncias, para reconhecer, sob seus pés, os trilhos percorridos pela máquina, símbolo da modernização (européia). Hélio, o “Heliosfonte”, “amigo-irmão” de Trapo, sem querer, acompanha o movimento ambíguo da urbanização, representando, ele mesmo, o “ar” enebriante da cidade moderna, onde as consciências alteradas pela modernidade e pelo álcool, misturadas às fumaças da máquinas urbanas e dos cigarros, opacam e indiferenciam os espaços, as suas definições e representações 36 Back, op. cit., sequência IV. 42 -A MODERNIDADEOs modelos de análise usados, aqui, enquanto revisão bibliográfica, e que se propõem a aplicar o método levistraussiano sob uma perspectiva diacrônica, para compreender o universo urbano e suas representações, orientam este trabalho para uma hipótese sobre a modernidade curitibana. As categorias mitológicas da modernidade supõem, a priori, pelo menos dois movimentos, contrários e de mesma intensidade. Um movimento em direção à modernização, propriamente, e tudo o que este fenômeno metropolitano representa, a tecnologia, o conforto, o luxo, a ascensão e o prestígio sociais, a revolução dos costumes, hábitos e valores. E outro, contestador, que vem revelar as contradições e fragilidades sociais de momentos históricos específicos, marcados, todos, profunda e essencialmente pela ambiguidade. Enquanto estrutura mitológica, portanto, parte-se do pressuposto que a “modernidade” represente, ela mesma, uma contradição. A qual deve ser superada, ou decodificada, para finalmente ser “lida”, ou entendida. Neste sentido, identificam-se personagens e/ou elementos na modernidade curitibana, implícitos às mensagens narrativas, sob a forma de códigos/signos culturais. A “família”, o “casamento”, ou a “formação”, por exemplo, são instituições que, ao longo da história curitibana, mostram-se de extrema importância, a partir das quais se definem classes, papéis sociais e de gênero. 1. “Revelação” e “reclusão”, os limites do privado e do público em Curitiba : uma análise em Back, Tezza, Trevisan e Sá Barreto O “automóvel 117” de Sá Barreto, escrito em 1925, já demostra, naquela época, a existência deste conflito característico da modernidade. Entre a inovação urbana, uma “lembrança” paulista, desagradável, diabólica, demarcada sempre no conto, pelo aparecimento do automóvel, e por um desastre (uma casualidade da grande cidade), e o “calorzinho” da quase bucólica praça Santos Andrade, um verdadeiro retiro para uma alma traumatizada pela experiência urbana na capital paulista. Observa-se, na primeira parte do conto, uma considerável instabilidade e 43 fragilidade do estudante, morador solitário de uma pensão que, vivendo apenas para os estudos, parece não ter muito tempo para diversão, ou relacionamento amoroso. Correto em suas obrigações, correspondendo as expectativas de seu pai a respeito das notas acadêmicas, sempre boas, e ao pagamento do aluguel, sempre em dia. Carlos, porém, é caracterizado, nesta primeira sequência, como uma personagem frágil, abatida, que não é capaz de cuidar de sua saúde sozinho. Os infortúnios urbanos na grande São Paulo, com os incidentes da limousine, abateram-no até o ponto de fazer com ele necessitasse recorrentemente da ajuda das pessoas (as funcionárias da pensão, o amigo Barbosa, o próprio médico Moraes). Seja pela roupa encharcada em dia frio, em função da janela que ele mesmo abriu durante a noite, o que piorou ainda mais o seu quadro clínico de febre. Ou o acidente de carro, em função de um “descuido” de Carlos ao atravessar a rua. Enfim, a representação urbana em São Paulo é descrita, entre outras coisas, pela fragilidade, ou fragilização do protagonista, que adoece e se acidenta, e pela ausência, ou quase ausência, do núcleo familiar (biológico). As referências aos elementos familiares são esparsas, e quando presentes fazem menção a um parentesco um pouco mais distante, como a relação entre primos. Na maior parte deste primeiro tempo do conto, na metrópole paulista, Carlos está solitário, recluso para os estudos, e desorientado, pela febre, pelo aparecimento do automóvel 117, pelo desastre com a costureirinha, pelo pesadelo e pelo seu próprio acidente. Não há qualquer referência a um possível envolvimento afetivo com alguma moça, ou a um contato mais familiar, a não ser por cartas, com seu pai. A figura do pai, no caso, surge aqui como uma autoridade, como também um provedor, o qual ajuda financeiramente o filho em sua formação, mas exige a eficiência e competência de um bom aluno, com boas notas. Longe do seio familiar, de suas irmãs queridas, ainda que próximo a um futuro promissor e “tranqüilo”, novamente para junto dos seus, em Curitiba, Carlos, em seu período de formação acadêmica, encontra-se só, no meio do turbilhão infernal da grande cidade, amontoada de pessoas em seu vai e vem diário e dos “desastres casuais” e tão desconfortantes do universo urbano paulista. Um pouco de amparo, talvez, na pensão “familiar” de dona Maria, junto ao melhor amigo, Barbosa, e ao médico, Moraes, “moço ainda, porém denotando na physionomia uma grande intelligencia e um acentuado criterio”37. Se a ordem estabelecida pela 37 SÁ BARRETO, O. O automóvel n. 117...e outras novellas. Curitiba : Empresa Graphica Paranaense, 1925. P.32 44 narrativa, em termos de valores, segurança e referências, está ancorada, prioritariamente, na instituição Família, Carlos não está aqui, nesta primeira parte do conto, completamente desorientado. A pensão é familiar, e dona Maria parece assumir temporariamente o papel de mãe da personagem, preocupando-se com a saúde e com a (boa) alimentação do pensionista (filho), um bom cliente e, acima de tudo, um “doutor”, futuro advogado. O médico, sendo “muito amigo” da dona do estabelecimento, ao visitar o paciente em casa , torna-se automaticamente “médico da família”. Uma família de improviso, é certo, mas, enquanto sistema de relações privadas (dona da pensão-estudante-amigo-médico), parece assumir, temporariamente que seja, a importante tarefa de estabelecer uma ordem. A partir de códigos morais e sociais que se baseiam, não somente em atitudes, ser um “bom pensionista”, um “bom aluno”, mas em percepções visuais, “denota na physionomia” ser um médico competente. Valeria questionar aqui, um pouco sobre esta tal “physionomia” adequada, reveladora de inteligência e capacidade. Em primeiro lugar, a idade do doutor, o fato do substantivo “moço”, na oração elaborada pela dona Maria, ter sido colocado antes do “porém”, indica uma precocidade para o exercício da profissão, algo não muito comum, o que, por si só, sugeriria inexperiência. A tal “physionomia”, no entanto, garante ao jovem médico, não somente a devida competência, como uma certa genialidade. É jovem e ainda assim, apresenta um “acentuado criterio” e grande “intelligencia”. Como seria este Doutor Moraes? Branco, certamente, em um país com nem três décadas de abolição da escravatura. Supõe-se, de “finos tratos”. Talvez em situação parecida com a de Carlos. Pertencente a uma família, não se sabe se paulista ou originária de outros estados, mas com condição de lhe financiar os estudos, e lhe garantir uma formação precoce. Provavelmente, o estudante Moraes não precisou trabalhar para se sustentar, enquanto estudava. A exemplo de Carlos, os estudos certamente tomaram-lhe o tempo quase que integral. Eis o perfil (moderno) do bom moço de família. De “boa” aparência38, estudioso (formação precoce), “familiar” (grande amigo de dona Maria) e trabalhador, em termos de prontidão e responsabilidade. Meia hora depois de solicitado estava junto ao paciente, para examiná-lo. Enfim, tanto Carlos, quanto Barbosa, o doutor Moraes e dona Maria, inserem-se automaticamente em uma mesma (improvisada) família e podem ser classificados, como 38 Pode se estar fazendo referência aqui ao asseio, à roupa, ao porte, aos cuidados com o cabelo e com a barba. 45 efeito, na categoria confiáveis. Ao passo que o ambiente (público) das avenidas, do centro das cidades, sendo representado, na descrição de Carlos, pela “confusão estonteadora de bondes, autos, carros e transeuntes”39, simboliza o perigo (dos acidentes casuais), o desconforto (os “apertos” da multidão) e, consequentemente, a falta de confiança. Começa-se a definir, de maneira mais elaborada, o cenário social e moral que compõe a modernidade dos anos 20. Uma realidade determinada ainda pela ordem da família, em sua constituição privada40, mas que está sendo gradativamente alterada, com o processo de urbanização das grandes cidades, e a sua “má” influência (diabólica). Cidades marcadas ou ameaçadas pela presença desagradável de um turbilhão de pessoas brutalizadas pela banalização da violência (os desastres são casuais) e pela perigosa sedução das novidades e da tecnologia. De São Paulo para Curitiba, o retorno à verdadeira ordem (à família natal). A aquisição do título de promotor de Colombo, e o que isto representa em termos de conforto e segurança. A (aparente) distância dos infernais conglomerados urbanos, quando em comparação à quase bucólica capital paranaense. Pela percepção do narrador, não fosse pelo reaparecimento do automóvel 117 e a permanência de velhos costumes (fumar cigarros da marca Liberty), Curitiba seria radicalmente distinta da capital paulista. Mas a atraente “desconhecida”, em sua fuga, por assim dizer, dos assédios do galanteador curitibano, acaba por revelar uma rua XV, onde o “povo fervilhava”41, e uma avenida Batel, onde os “carros pareciam voar”. Eis que, fatidicamente, ressurge a limousine vermelha, donde, sem muitas apresentações, entram Carlos-o enamorado-, e a moça de preto. E a revelação, a própria morte que, por esta perspectiva, pode muito bem representar aqui a rejeição de Carlos, o curitibano, à modernidade. Pereira e Santos, quando da análise desta mesma novela de terror, sugerem uma estrutura que contrapõe os elementos centro da cidade com a casa, revelando a existência de uma contradição marcada, na primeira parte do enredo, pela negação por parte do protagonista, do feminino, do mundo da rotina, do tradicional, seguida pela afirmação do 39 40 41 SÁ BARRETO, op.cit., p.19. É marcante, ao longo da narrativa, a referência e o comprometimento de Carlos com seu pai e sua família. Como se pode perceber nestas passagens : “Ora, se passasse nos exames o pae ficaria satisfeito; depois, quando voltasse á Curitiba, tinha certeza de arranjar uma colocação. O doutor Moreira da Silva (provavelmente conhecido da família) tinha-lhe promettido uma promotoria” (SÁ BARRETO, op. cit.. p.35) Em muitas passagens da novela, fica clara a aversão (fobia) da personagem às aglomerações populares. Em São Paulo, “(...) a massa popular diminue um pouco. Era melhor : ele gostava mais do desaperto” (SÁ BARRETO, op.cit., p.18).E em Curitiba “na rua XV, o povo fervilhava, Atravessou-a ligeiramente, pois não gostava de agglomerações populares” (SÁ BARRETO, op. cit., p. 49) 46 masculino, “da imersão no mundo de possibilidades”42, do moderno. A exposição a este universo (público e central) representaria a superestimação do moderno, simbolizado com o atropelamento. Ao que se seguiria, a “perda da vitalidade”, o sentir-se mal, a perda de sangue. Na segunda parte da trama, em Curitiba, esta contradição inverteria-se. Carlos estaria determinado, por um lado, pelo movimento de negação deste ambiente urbano e, por outro, pela aceitação do mundo feminino e tudo o que ele representa, em termos de privacidade. Tal análise, em complemento à realizada no trabalho, indica a importação invertida de uma ordem. Da capita paulista, onde sobressai-se a determinação (perseguição) do (calor) público sobre o privado, para a capital paranaense, onde prevalece a sedução (cadavérica e gélida) de uma mulher (representante da ordem privada), sobre à agitação pública. De perseguido a perseguidor, em Curitiba, de volta à terra de seus pais, Carlos reinsere-se novamente à sua família e à lógica da casa e do feminino, como analisaram os autores. Isto porque na cidade natal da personagem ainda encontrava-se : “assim nessa simplicidade, nessa calada doçura que não tem a inquietude das grandes cidades, que não tem o afan dos turbilhões e o barathro dos grandes centros de civilização, mas que tem a graça, o attractivo das cidades que se estão formando, das cidades que amanhã serão, como as outras, turbulentas e infernais” 43 Nos anos 60, quase quatro décadas depois do “automóvel 117” de Sá Barreto ser publicado, os “males” da modernidade parecem já ter invadido permanente e indelevelmente o já conglomerado urbano de Curitiba, definitivamente uma cidade metropolitana. Quem relata esta realidade agora é Mário, o estudante e bancário, aspirante ao prestígio e a uma boa colocação dentro da elitista sociedade curitibana. Vindo do interior, e assim como Carlos, obrigado a se separar de sua família para estudar. Há, porém, neste caso, a necessidade de trabalhar. A minguada ajuda de seu pai não é o suficiente para que ele se mantenha. Suas atividades não se restringem aqui somente aos estudos. Há muito em que se investir. “Boas” moças, riquinhas e de família, a conquistar, “gurias” e prostitutas, nem tão “boas”, de família e de riqueza, mas “boazudas” 42 42 CULTURA E CIDADANIA. Lomdrina : ANPUH, 1996. Vol. 1. Pp. 55-84. SÁ BARRETO, op.cit., p.44 47 de beleza, ou simplesmente “acessíveis”, para se satisfazer sexualmente. O núcleo familiar, ademais, é descrito em Lance Maior, como cenas de segundo plano, não entrando diretamente nas “jogadas do amor”, do casamento e do sexo. Mário é filho de pai velho, doente e morador do interior. Nunca se apresenta às famílias de suas pretendentes, ou namoradinhas. Mora com um colega em uma pensão. Relaciona-se com prostitutas e tem mais de um relacionamento afetivo e sexual por vez. Está com doença venérea, o que o impossibilita de ingerir bebida alcoólica. Poderia-se dizer que ele é quase um depravado, em termos de valores familiares. Mas de qualquer forma, é um homem moderno. Absolutamente individualista, aspirante a uma boa vida social e, aparentemente, desvinculado das tradições. A voz de seu pai, porém, e as recriminações moralistas sobre responsabilidade (“toma jeito”), asseio (“mantenha as unhas limpas”) e planos de vida (o casamento e a formação) estimulam na personagem a angústia central da trama. O sonho de felicidade, como “o amor a primeira vista” por Neusa, tão puro como os ares de Antonina no verão, depara-se contra a ambição pelo enriquecimento e ascensão social. Como em “O automóvel 117”, as personagens de maneira geral, são orientadas por um movimento, uma contradição primária, que contrapõe de um lado, a urbanidade moderna, representada aqui pelo ambiente e movimentação públicos, e de outro, pela família e pela ordem do privado, amparador ainda da tradição e dos bons costumes. Este diálogo entre público e privado aparece no filme no interior das relações afetivas. Os encontros entre Neusa e Mário, por exemplo, geralmente acontecem “às escondidas”, longe do alcance dos olhares repreensivos das pessoas, na plataforma do trem, no bairro de periferia. Aquela parece estar sempre apreensiva nestes momentos, encaminhando os encontros para um desfeche rápido e sigiloso. Um dos poucos contatos entre estes amantes, realizado em ambiente declaradamente público, aconteceu no ônibus, revelando uma discussão iniciada pela “empregadinha”, e seguida de um aparente rompimento. Da mesma forma, no estádio de futebol suburbano, mais uma desavença entre os enamorados, evidenciada publicamente pela traição de Mário, descoberto, nesta ocasião, como noivo (de Cristina). Existe algo de proibitivo nesta relação, que nunca é, ou não pode ser assumida publicamente. Na penumbra do privado, estes amantes não recebem, em nenhum momento da trama, o devido reconhecimento social. Nem pela família de Neusa, nem pelos amigos de Mário. Quase como um lance do acaso, sem boas perspectivas de jogo. Sem o compromisso público, sério e denunciador, resta o desejo privado, fortuito, “jocoso” e 48 “periférico”. Na outra aresta do triangulo, Mário e Cristina, uma relação intermediada pelas convenções e apresentações sociais. Em uma praça central, em um campo de golfe, a passeio no interior de um carro, o casal se esbanja. Costumes refinados e exposição pública. Mais que um desejo44, uma necessidade de inserção e ascensão social, pela proposta de casamento, o “lance maior”. Em Trapo, como já foi dito em capítulo anterior, a sequência do enredo é orientada, em todas as cenas, pela ingestão de bebida alcoólica, normalmente seguida de café, ou água. Um feixe de relações se estabelece em função destes elementos. Os antagonismos JOVEM X VELHO, PRIVADO X PUBLICO, CIDADE X INTERIOR, reafirmam-se e se explicam, contraditórios, orientados pela isotopia do álcool. Duas linhas narrativas se constroem paralelamente, de mesma intensidade e, aparentemente, de sentidos contrários. De um lado o professor Miguel, e tudo o que ele possa representar, em termos de “velha ordem”. Um provincianismo e conservadorismo marcados por uma burocracia decadente, pela passividade (falta de iniciativa) e pela solidão. De outro, a produção desenfreada e caótica do jovem, símbolo maior da crise e do desejo anárquico, que tem como objetivo a subversão e mesmo o assassinato (sob a forma de um “parricídio”) do “sistema”, entenda, as então vigentes e opressoras relações familiares. De início, duas realidades muito bem delineadas e separadas por gerações de distância. Quarenta anos, para se ser preciso. Miguel, o velho careca, bem poderia ser avô de Trapo. Mas o professor sequer teve mulheres, uma apenas e umas poucas experiências sexuais que lhe foram repugnantes, com duas prostitutas. Sua única esposa morreu ainda moça, conservando na memória do viúvo, por três, quatro décadas, seus únicos e bons momentos de juventude. Os bailes, as bebedeiras, um espaço, talvez, para um romantismo, já não mais em voga. Miguel parece ter se aposentado da vida (social) muito precocemente, enterrando junto com Matilde, sua jovem esposa morta, suas “ousadias” de mocidade, sempre presentes sob o efeito embriagante do álcool, como também seus projetos profissionais, o tão desejado romance. Distante quase 100 quilômetros de sua mãe, residente em Paranaguá, não há referências na narrativa, a familiares próximos, como primos, tios ou mesmo irmãos e sobrinhos. Miguel decididamente é um homem só. Até as suas aulas de língua portuguesa 44 Para isto existem as prostitutas e a própria Neusa, ainda que não se evidencie relação sexual entre o casal. 49 para Ensino Médio não mais fazem parte de sua rotina. É um professor aposentado. E, como diria em tom recriminatório, o pai de seu biografado, o bem requisitado doutor Fernando, quem não tem família não precisa se preocupar e nem se responsabilizar por suas explicações. Sem explicações, sem pressões, sem culpa, sem ação. Realmente o pai de Trapo parece ter razão, até a mãe do “frustrado” e “decadente” aposentado já falava, eis um homem sem iniciativa. A súbita, por assim dizer, invasão de dona Izolda a casa de Miguel, com a papelada do falecido, representa categoricamente uma transformação nesta passividade, que é a vida do intelectual. Mesmo contra a sua vontade pelo caso, Trapo aos poucos invade completamente sua privacidade, reavivando-lhe mesmo o antigo e já sepultado desejo de escrever um romance. Não é a obra do rapaz, com suas confusas e desclassificadas poesias que lhe chamam a atenção, mas a vida, ou melhor, a morte do jovem. Talvez, mais precisamente, a ação do suicídio. “Como passei tanto tempo nesta vida (decadente e inativa) sem ter me matado”, identifica-se o professor com o verdadeiro objeto de seu estudo, o suicídio, ou antes disto, a ação (do suicídio). Trapo renegava sua família, Miguel não constituiu uma. Um tirou sua própria vida, o outro permaneceu 60 anos na (quase) absoluta inatividade. Mais uma vez a referência de ordem parece ser a instituição Família. Gradativamente os dois enredos, as duas vidas, as duas gerações vão se aproximando e se reordenando. O professor, não só acaba se identificando com o biografado, como, em determinado momento, adota-o, já morto. “Um filho que veio tarde” e uma “noiva” de improviso que aparece, inconveniente e escandalosa. Mulher, assim como Trapo, também desclassificada-vulgar-, dona de pensão, fumante, apreciadora de bebida alcoólica e que se veste de maneira desapropriada. Mas, que se considerava “mãe” do jovem suicida. Pronto, um pai (Miguel), um filho (Trapo), uma mãe (Izolda), e um irmão (Hélio), o melhor e único amigo de Trapo. Já se estabeleceu novamente a ordem familiar, privada e apresentável. O professor busca sempre, ao longo do enredo, justificativas que expliquem publicamente, primeiro, as frequentes visitas de Izolda à sua casa, segundo, o seu contato, cada vez maior com esta juventude marginalizada, amigos e conhecidos de Trapo. Neste sentido, o álcool lhe garante a superação de uma ordem, da passividade, da solidão e da velhice. Para que o café, logo em seguida, cure-lhe a ressaca e permita-lhe o restabelecimento de uma (nova) ordem, uma (nova) família, estabelecida no improviso, mas apresentável. No estudo do primeiro mito, em Back, o núcleo familiar não aparece como um dos 50 focos principais da narrativa. Mário não chega, em nenhum momento, como já foi dito, a se apresentar às famílias de suas pretendentes. Quando pressionado por Neusa a fazer uma visita a seus pais, o estudante desconversa, e não se compromete. E em um movimento contrário, quando ele questiona Cristina sobre a possibilidade e necessidade de apresentarse a seus parentes, esta é que desconversa. Apenas em conversa com seus pais é que a universitária faz referência a Mário. Mais uma vez Eva (a amiga de Cristina) parece ter razão, os relacionamentos mudaram, da geração dos “velhos”, pais e avós, para as suas, uma grosseira vulgarização e desinstitucionalização dos valores, que não mais se definem, ou se discursam. Perderam a “honra” e outros “trecos”. Em Trapo, esta categoria social e seus valores, não somente estão “ultrapassados”, como, pela percepção do jovem suicida, precisam ser destruídos. Protegidas por fortificações medievais, as famílias curitibanas, na ausência de muitos espaços de socialização públicos, restringem-se, cada qual em seu feudo, amparadas pelas suas condições econômicas, ao elitismo dos clubes (Country, Curitibano), aos bailes, realizados isoladamente nos bairros, à casa de um amigo de determinado grupo, a um barzinho para tomar um chope, somente entre homens. Em “Os botequins”45, de Dalton Trevisan a “embriagues” da modernidade novamente é abordada. O protagonista é caracterizado por um comportamento tipicamente compulsivo. Ir sempre ao mesmo botequim, “um corredor escuro com três ou quatro mesas encostadas e o balcão no meio”46, e, sempre, antes de se pôr a beber, ler um, ou melhor, “o” jornal, sempre o mesmo, já puído nas pontas. A referência visual às formas circulares47 parece reforçar este comportamento patológico de José, evidenciando a permanência, por hábitos e costumes, de um “tempo viciado”, que se repete todas as noites, da mesma forma, do mesmo jeito. Uma forte alusão ao cotidiano do dia-a-dia, e à reclusão do privado. Não fosse pela “invasão” de “raros intrusos”, que se “aventuraram” no botequim, e a “sensação do odor ácido de amoníaco”48 cada vez que alguém entrava, sua noite seria a mesma, e ninguém, nenhuma mulher diria : “Não beba mais, por favor...Pelas cinco Chagas de Nosso Senhor...”49 Nem mulher, nem solidão, o gordo o compreendia. Além do mais, no botequim não havia espelho, e José não gostava de ver sua imagem refletida. Em uma primeira análise, a descrição de um ambiente velho e sujo. O bolor no 45 46 47 48 49 TREVISAN, Dalton. Cemitério de Elefantes. Rio de Janeiro : 8ª. Ed. Record, 1987. Pp.54-7. TREVISAN, op.cit., p.55. Em referência às descrições minuciosa do conto : o círculo do cálice úmido na mesa, a sombra redonda da lâmpada no teto, o gordo de calva brilhosa, provavelmente o dono do estabelecimento. Cf. supra, nota 46. TREVISAN, op.cit., p.56. 51 vidro de pepino, mais a ausência de iluminação adequada, a falta de estrutura do estabelecimento, para receber mais que meia dúzia de clientes e o descaso do dono com sua própria aparência e asseio pessoal, com um aspecto repugnante, um avental sujo e a careca brilhosa de suor. Um lugar que, apesar de visivelmente sujo, velho e úmido, representa para José, este curitibano obsessivo, avesso ao novo, às pessoas, às mulheres, e a si mesmo, uma ordem. Longe da chateação das mulheres, provavelmente sua esposa50, da pressão de seu patrão, sem que ele “corresse atrás”, e, por mais paradoxal que pareça, longe da solidão. No botequim, José tinha o gordo, com o qual ele não conversava, mas que supostamente o “compreendia”. Tem-se nesta narrativa, a demarcação de um tempo cíclico determinado pelos sintagmas complementares ÚMIDO X SECO, e pela REPETIÇÃO (privacidade) X AVENTURA(a exposição). O desejo de “lamber a última gota perdida” que, supõe-se, sempre extravasa do cálice, orienta esta personagem, aparentemente completamente absorvida pela permanência e repetição de seus atos, a uma ação que, por si só, romperia este ciclo vicioso. O mesmo líquido que se fecha em um círculo, desenhado por José com os cálices, garantindo-lhe “sossego” e “reconforto”, extravasa em uma única gota, incitando-lhe um desejo (de lamber a última gota). Tarde da noite o estabelecimento fecha. José retira-se, como sempre paga sua conta e vai embora, em busca por outro botequim. A chuva, no entanto, encharca-lhe a meia. E, “por mais cansado, podia andar a noite inteira na chuva”51. Não mais diante de uma única gota, que extravasa, mas várias. José, porém, não se afugenta delas. É possível deduzir ainda, em um antagonismo entre SUJEIRA X LIMPEZA, uma análise adicional, a ação benéfica da chuva que literalmente lava José daquele ambiente “sujo e pestilento”. O líquido que, no botequim, limita-se aos círculos demarcados pelos cálices, fora deste recinto, escorre pelas cabeças e telhados, esparramando-se, sem forma definida, pelas ruas. Sob esta perspectiva, José pode estar, além de se “limpando” (com a chuva), se “desintoxicando” de um vício, representado aqui pela sua compulsividade obsessiva de repetir ciclicamente sempre as mesmas coisas. Neste sentido, as formas circulares realçam a percepção doentia de José, e o extravasamento da gota e da chuva, procuram romper com este “vício”. O vício de José se explica, no interior da narrativa, por uma tentativa de “fuga” de 50 51 Há referência no conto à presença de figuras femininas na vida de José. Do que se deduz, a personagem tem esposa e família, portanto, ainda que esta esteja em crise..Ver nota 45. TREVISAN, op.cit., p.57. 52 uma realidade marcada, de um lado, pelas implicâncias de sua família (ele faz referência a esposa), o que sugere crise, e as perseguições de seu patrão, que “correria atrás dele”. Sem entrar no mérito da questão psiquiátrica, um caso típico de “mania de perseguição”. As “pessoas que entram” no botequim são intrusos e o incomodam. Até mesmo o seu reflexo no espelho causa-lhe fobia. Quando na presença dos “aventureiros” que invadem o estabelecimento do gordo, aquele que lhe entende, José , de chapéu, esconde seu rosto nas sombras. Assim, no interior de um estabelecimento escuro e vazio, longe da família e do trabalho, seus únicos passatempos parecem ser beber, (re)ler o jornal velho e desenhar círculos na mesa. A “invasão” no botequim por pessoas desconhecidas, “raros intrusos”, também demarca um rompimento com esta ordem. A categoria “aventureiros”, dada pela protagonista aos invasores, contrapõe-se automaticamente com a idéia de “permanência”. Para o contexto do trabalho, José é um representante radical de um movimento de rejeição à modernidade. A descrição ultra-realista do botequim, em seus mínimos detalhes e o comportamento visivelmente patológico da personagem, pode revelar, de um lado, o “velho” e viciado “conservadorismo” curitibano, que não se desapega, seja por segurança, por medo, ou por patologia, de seus antigos costumes; e de outro, a iminência do “novo” (a gota que extravasa, a chuva, os invasores), que no final é sempre rejeitada. Em aparente ritmo de aventura, José deixa o estabelecimento em direção à rua, e põe-se a andar debaixo da chuva, não mais preocupado, neste momento, em procurar círculos pelas paredes ou chãos. Poderia andar a noite toda desta forma, ainda que cansado. A necessidade de procurar por um outro botequim, e recomeçar a noite, com os círculos, a bebida, o jornal, no entanto, recobra-lhe a “consciência”, fazendo-o retomar sua velha ordem. Afinal, a chuva é ocasional, os visitantes do bar são raros e intrusos, sua mulher é chata, e seu patrão o persegue. A noite, um ambiente que exclui de seus programas as mulheres, associadas a vida doméstica e à obrigação de se dar explicação. Trata-se aqui, portanto, de uma privacidade exclusivamente masculina. Uma privacidade que alcança um nível patológico, ao se ver permanentemente ameaçada em sua reclusão, por seus quase delírios paranóides. A gota que extravasa, os intrusos que invadem o botequim,o espelho, a chuva. Uma aversão ao público, ao elemento feminino, ao trabalho e à modernidade, levada aos extremos. Definitivamente um legítimo exemplar de um curitibano “chucro”, como diria uma das conhecidas de Trapo. Os espaços públicos, enfim, mostram-se como lugares de revelação e não, 53 propriamente, enquanto momentos de socialização. José, em “Os botequins” não quer ser descoberto, nem ter que dar explicações. O seu medo pela exposição chega ao pânico e à paranóia. Carlos, em “O automóvel 117, sente-se, a maior parte do tempo, perseguido pelo automóvel, representação da urbanidade, como também do público. Quando diante de sua musa, no interior do carro, já no segundo segmento da novela, tal encontro é precedido por uma revelação : a face cadavérica da moça de beleza fatal. O “compromisso” entre Mário e Cristina, da mesma forma, deve ser selado, ou evidenciado publicamente, daí a necessidade de exposição do relacionamento pela praça, no centro da cidade, no campo de golfe, a vista de todos, ou em um passeio de carro, símbolo de ascensão social. Neusa, por outro lado- a empregadinha- Mário leva na conversa. E raramente eles se mostram ao público, enquanto casal. Quando juntos, aparecem quase sempre às escondidas e em rápidos encontros. O professor Miguel, finalmente, vê-se pressionado a se explicar, quando em exposição pública, no barzinho noturno, diante dos passageiros da rodoviária de Curitiba, diante do perigo iminente de ser “descoberto” pela sua empregada, que a qualquer momento pode chegar, e se deparar com a vulgar dona de pensão. Para todos os efeitos, estabelece-se uma família de improviso, através da qual seja possível apresentar-se socialmente. 2. Os “sonhos de felicidade”, entre a tradição e a modernidade : uma análise a partir de Back e Tezza O melodrama inicial do filme de Back, já comentado em parágrafos anteriores, orienta o enredo para um movimento, inocente e um tanto estereotipado, de busca pela felicidade a partir da reafirmação das condições sociais das personagens. Neusa e Rogério, “transbordando de alegria” e com os corações apaixonados, irradiam diante da conquista : “felizmente a consciência do bem foi mais forte do que o preconceito e a mesquinhez”52. Rogério desmanchou um noivado de conveniência, realizado a favor de interesses familiares, para ficar com Neusa, seu grande amor. Ironicamente, esta, mais tarde, tenta romper também com o noivo, em função de sua ambição por vida melhor, ao lado, quem sabe, de Mário, o bancário e futuro advogado, ou de um paquerador de posses que, 52 Cf. supra, nota 35. 54 encantado com seus dotes físicos, renda-se aos seus caprichos e necessidades. O clima de euforia inicial dissipa-se gradativamente, revelando, já na cena seguinte, as armadilhas pregadas pela determinação da individualidade e pelas ambições financeiras e sociais. A “namoradinha encantada” encontra-se, por um acaso, com Mário, sujeito aparentemente descompromissado e de “boas intenções”. Como um trabalhador e estudante que viaja para tratar de negócios de seu pai. Umas terras, que em parte são suas também, ainda que não sejam grande coisa. Um encontro repentino, as flores, a pureza do ar, e a superstimação de um “amor a primeira vista”. A reafirmação de uma condição social, a partir do noivado entre pessoas da mesma classe (Neusa e Rogério), perde o foco para a tentativa de superação desta ordem (Mário e Neusa). O relacionamento entre estes, no entanto, em momento algum da história é reconhecido publicamente. O estudante, ao que se sugere, não queria compromisso algum com a moça, desejando apenas os deleites de uma relação sexual, que provavelmente não se consolida. Quanto a Mário, as ordens de seu pai, claras e imperativas, determinam todo o enredo de sua história : canudo na mão e anel no dedo. Entre o desejo (sexual) e a obrigação (a “boa” formação e o “bom” casamento), um ralo dinheirinho para cobrir as despesas. A face diabólica da qual Carlos tanto temeu, com o “Automóvel 117”, parece revelar, agora, escancaradamente sua face aterrorizadora. A depravação sexual e o corrompimento dos valores familiares com a (provável) transmissão da doença venérea de Mário a Cristina- a moça de família. O protagonista lança-se, como bem aponta o título do filme, a uma ousada empreitada, donde amor, desejo, ambição e sexo confundem-se em um mesmo e grande negócio. O casamento parece não mais fazer parte de um sonho de felicidade, que se torna até ridículo, tal qual um pastelão mexicano. Os valores perdem seu sentido institucional e sagrado, sendo inseridos, eles mesmos, dentro do roldão das produções capitalistas, as quais adquirem, conforme atesta Bermann, também uma durabilidade e um apelo mercadológico. A “honra” e outros “trecos” está meio fora de moda, “ultrapassado”, garantem as universitárias, amigas de Cristina. Se se considerar que esta conversa entre Cristina e suas amigas realizou-se dentro dos limites de uma Universidade, nas rampas da UFPR, a explicação dada para os valores, outrora tão nobres, como a “honra”, a “dignidade” e a “compostura”, não correspondem, decididamente, a definições, nem morais, nem acadêmicas. “Coisa” e “treco”, a corrupção de valores e a vulgarização da língua. Neste sentido, as meninas universitárias de Back 55 bem poderiam ser amigas, ou conhecidas de Trapo, de Tezza. Ambos rebeldes, no discurso e na ação, contrários a uma ordem, vigente e repressora (Trapo), ou “meio ultrapassada” (Lance Maior). Os rapazes “não botam mais a mão no fogo”53 pelas moças, que não são mais virgens, “nem no céu da boca”. E as virgens “enlouqueceram”, como constatam as universitárias. Os relacionamentos, em suas muitas categorias-sério, casual, prostituído, descompromissado- tornam-se parte de um negócio, em favor, em seu sentido mais moderno quanto possível, dos desejos ou ambições individuais-ascensão social, prazer sexual. O sonho pela felicidade e pelo amor romântico, melodramatizado no início do filme, no encontro entre Neusa e Rogério, ao ser contraposto ao quadro em que Cristina aparece correndo em ritmo de euforia, transforma-se em um desejo consumista e desenfreado (a troca frenética de roupas). Individualista, por essência. Um fenômeno, como bem indicou Eva à Cristina, de coisificação das pessoas, e seus relacionamentos. As “amantes”, namoradas, ou pretendentes de Mário não são mais mulheres, com referências familiares e dignas de respeito, mas a “ mulher pra quatro talheres”, a “guria da loja”, “material de se levar no papo”, a qual se está “cozinhando”, aquela “biscate”. A condição social é que conta (“a empregadinha”, “a riquinha”). Mário não é apresentado à família de Cristina, muito menos a de Neusa. E todas, no discurso da personagem, todas as mulheres desta “cidade podre” parecem estar “sujas” e contaminadas (“Será que não tem uma mulher limpa nesta cidade!?”) O espírito da modernidade curitibana segue a passos largos, construindo, inovando, como também rompendo com as tradições e corrompendo os valores. Estes, apesar de estarem neste contexto, em franco processo de decadência, ainda representam os pilares de uma sociedade, cuja base ainda é a família. O desfeche do enredo que, ao longo da narrativa, mistura em um mesmo romance, espaços sociais sensivelmente distintos (de Cristina à Neusa e às prostitutas), com a atuação e prostituição de Mário, parece segregar novamente estas realidades, determinando a cada classe, um destino. Neusa retorna com Rogério, ambos “pobres”. Cristina rompe com Mário, sob o pretexto dele não ser do mesmo “nível”. E Mário termina de “porre” num bar, acompanhado por prostitutas. Evidência de uma ordem moral que ainda sobrevive, apesar das investidas e estratégias individuais (de Mário), as quais se estabeleceram na narrativa como se fossem (a conquista, o namoro e o sexo) uma negociação financeira. 53 BACK, op.cit., seqüência V. 56 O “porre” de Mário, no final do filme, assim como a drogadição de Trapo, ou os “pileques” do professor Miguel, sob o mesmo efeito enebriante da bebida, indicam sentidos contrários para cada narrativa. Em “Lance Maior”, a embriagues é reveladora de uma retomada da ordem, com as segregações das classes sociais e a denúncia de um espírito, ainda que moderno, marcado pela depravação moral. Em “Trapo”, esta mesma embriagues não é indicativa de uma retomada, ou frustração, propriamente, mas de uma “purificação”, como diria o suicida, ainda que as avessas. O professor sente-se mais desinibido, mais sociável e mais humano com o álcool. O pai de Trapo-Paulo necessita do líquido para poder falar e destruir o “muro” de proteção ao arredor de sua “cabeça”. A bebida neste caso, rompe com uma ordem. Neste caso, a tal “felicidade”, um desejo inocente e mesmo ridículo de reafirmação dos antigos sonhos e parâmetros sociais, pelas representações sociais do filme de Back, agora fazem-se possíveis, paradoxalmente, pela transgressão da (velha) ordem, a partir da alteração das consciências, com a ingestão de bebida alcoólica. O trabalho detetivesco de Miguel em busca de pistas sobre a vida de Trapo encaminha, para cada tentativa de ação (investigação), uma revelação. O que implica, como já foi dito, um movimento de rejeição. Trapo, e tudo o que esteja associado a ele, direta ou indiretamente, é sinônimo de marginalização (palavrões, promiscuidade e álcool). E, por outro lado, implica um movimento de identificação. “Izolda é ótima”, suas pernas são bem delineadas, o seu café é uma delícia. Em determinados momentos, o provinciano professor deseja inclusive embebedar-se com Hélio, o alcoólatra. A escatologia do “jovem corruptor”, marginalizado e enjeitado, ao lado do discurso, provinciano e altamente burocratizado, do professor aposentado, orienta, aparentemente, uma dupla narrativa. Em uma primeira análise, as duas histórias parecem caminhar em sentidos antagônicos. Uma em direção à “libertação”, pela corrupção da ordem, em Trapo. É preciso encontrar a purificação e libertação, esbraveja o jovem em suas cartas à Rosana, através do “assassinato” de nossos pais. A outra em direção a esta mesma “libertação”, só que pela manutenção da ordem. O movimento de rejeição de Manuel, no entanto, em relação à pregressa literatura traponiana, desconsiderando a ausência de estilo (ruim), mas a condição do escritor (interessante), contrapõe-se a um movimento de aceitação, identificação. Esta transformação, como já foi pontuado, é marcada, sempre pela, estruturalmente analisável, isotopia do álcool. Todos os encontros, a começar pela visita inesperada de Izolda, a dona da Pensão, 57 à casa do professor, são marcados pela ingestão de bebida alcoólica. Do café, na cozinhaonde não se fala nada sério-à sala, com o licor de butiá- onde se revela “fatidicamente”, uma trama, envolvendo vida e morte, violência e rejeição, depravação e carência. O “cafezinho” marca, geralmente, o reforço de uma ordem pré-estabelecida. Como por exemplo, a (re)ordenação burocrática das informações pelo mestre aposentado, quando diante das revelações sobre Trapo. Do mesmo jeito, ele serve para demarcar espaços, como a distância prática e objetiva que separa a “contemplação” e, por associação, inutilidade da literatura de um professorzinho decadente (“Não se constroem prédios com poesias”) da “ação” de um respeitável pai de família, que lutou muito para conseguir o título de sócio do country cluble, um dos mais requisitados e prestigiosos círculos sociais desta Curitiba de fins da década de 1970. A ingestão de bebida alcóolica, quase como uma “fermentação de valores”, rompe com a ordem do “cafezinho” e permite a informalidade dos palavrões, dos desejos e revoltas declarados. O álcool pode fazer um “animal”, “grosso” e “insensível” pai de família ( em referência ao pai de Trapo), revelar as “fraquezas” e medos de um homem, depois de umas doses de vodca. Agora, alcoolizado, não mais um bicho, mas vitimizado que foi pela sua condição miserável, como trabalhador analfabeto, que aprendeu a ler no exército e que até como pedreiro trabalhou. Ou revelar as aventuras de um “chucro”, professor aposentado que, em sua remota juventude, foi capaz até de tomar iniciativa, contrariando sua mãe. Badernar, brigar e andar em grupos, a bebida alcoólica é capaz, como ele mesmo atesta, de “humanizá-lo”. A cidade e seus espaços diferenciadores, à luz de um mundo urbano e ordenado/segregado, escurecem junto com a noite e, de bar em bar, aos murmúrios caóticos, rebeldes e displicentes, prioritariamente juvenis, de grupos transgressores e transgredidos pelo álcool, atinge outra perspectiva espacial, revelando as sub-realidades do crime e da marginalização. O curitibano sai da toca, de seu isolamento convencional e, quase por um processo de metamorfose ou transmutação, se agrupa, alcoolizado e “destemido”, pronto para revelar os segredos mais íntimos/privados de um animal urbano, de hábitos diurnos. Devidamente “humanizado” pelo efeito da bebida. Quando da intromissão do velho careca- “velho abelhudo”, “polícia”- à um barzinho noturno de clientela jovem, o Bodega, em busca de informações sobre Trapo, revela-se, na personagem, a angústia desses dois movimentos contrários, e de mesma intensidade, beirando ao paradoxo. De um lado, a rejeição declarada a toda esta escatologia traponiana, anárquica, corruptora da (velha) ordem, a partir de uma justificativa pronta, 58 formal e excessivamente burocrática. “Poesia ruim”/gênero inclassificável, adolescente drogado, muitos erros gramaticais. De outro, um gradual processo de identificação com a “subversão” através da “sedução” pelo álcool, um estímulo necessário para o “desbloqueio emocional” de um cidadão já há muito condicionado pela falta de iniciativa (sua mãe já lhe dizia) e velho demais para mudar, em sã consciência, esta ordem. A fumaça do cigarro junto ao efeito inebriante do álcool, ou de drogas alucinógenas, funciona como um dissipador de uma moralidade curitibana, salvaguardada pela “sagrada família” que, como diria Trapo, aprisiona jovens donzelas, doces e inocentes (Rosana) em verdadeiros castelos medievais, protegidos por enormes “bestas negras” (a exemplo das três cadelas negras que foram “mortas” por ele, em sua fantasia alucinada de resgate de sua musa). Os “jovens modernos” de Trapo, com seus “desejos modernos”, apesar de andarem sempre em grupos, reúnem-se a noite, onde a cidade está deserta, promovendo diálogos sem discurso, quase absolutamente corrompidos por palavrões. Orações caóticas, tomadas por gírias e palavras chulas, banhadas, inevitavelmente, pela ingestão de bebida alcoólica, muita bebida alcoólica. E desta forma, com a consciência bastante alterada pela embriagues e pela impressionante vulgarização da língua, a juventude, em contraposição ao velho e ultrapassado, “moderniza-se”. Escarpas de distância, quase em região litorânea, onde os “velhos” ainda permanecem, observa-se a “interiorização” destes mesmos valores, que parecem, ainda que em franco processo de decadência, sobreviver à modernidade. Tanto o pai de Mário, quanto a mãe do professor Miguel, ambos velhos e degenerados pelas doenças da idade, moradores do interior, rememoram, com suas frases imperativas, antigas lições. “Toma jeito, já tá com barba na cara!”, “Mantenha sempre as unhas limpas!”, O negócio é esse! (apontando para o dedo da mão)”, “Você precisa estudar mais!”, “Você não tem iniciativa!”. Mário, ironicamente infectado por doença venérea, contamina muitas mulheres (prostitutas), muito provavelmente, a própria Cristina (moça de família). A voz de seu pai reaparece em sua própria voz. Não somente as unhas precisam ser limpas,... a cidade inteira está suja. De qualquer forma, exime-se da culpa. Não tem nenhuma mulher limpa! A cidade é podre. Trapo, uma década mais tarde, também pretendia casar-se e, ao que parece, também contraiu doença venérea. É Izolda quem confirma, em conversa reveladora com o professor Miguel. Foi encontrado, pela dona da pensão, uma caixa de “Trobicim”, “remédio pra 59 doença de homem” (supõe-se, doença venérea), na gaveta do pensionista. Fora os constantes assédios e, mais que isto, encontros sexuais no interior do pensionato. O que denuncia : primeiro, a mistura de sexos em uma mesma morada (e não pertencentes a mesma família), assunto que será abordado em outro capítulo; segundo, a faixa etária e o nível social dos clientes que, supõe-se, jovens, sem dinheiro para comprar ou alugar uma casa ou apartamento, que provavelmente vêm de outras cidades para morar sozinhos na capital, para estudar ou trabalhar. Ou, em último caso, jovens “excepcionais”, como Trapo, pretendentes a gênios que, em alterada consciência, sempre sob o efeito de alucinógenos, desistem da “confortável” vida assegurada por seus pais, ascendentes profissionais liberais, para “enfurnar-se” em um quarto de pensão e escrever compulsivamente sobre os seus “sonhos de vida”, neste caso extremamente destrutivos, beirando mesmo a escatologia. Dá para se imaginar ainda, uma clientela prioritariamente masculina, e algumas garotas de programa (os assédios são constantes e, conforme assegura Izolda, estas moçasassediadas- “não são flores que se cheirem”. Temática que também será devidamente abordada mais adiante. De qualquer forma, seja como aposentado, dona de pensão, pai de família, estudante universitário, lojista, moradora da periferia, ou simplesmente como um jovem alcoólatra, as “verdadeiras intenções” e a “transparência” de valores destes muitos curitibanos, representantes desta modernidade, decididamente perderam a credibilidade. Destituída de suas “cadeiras institucionais”, fora das supervisões da família e da educação, tal moralidade parece passar por um processo de coisificação, resumindo-se a “trecos e outras coisas”. Como bem analisa Marschall Berman em “Tudo que é sólido desmancha no ar : as aventuras da modernidade”, os valores, quando diantes do turbilhão das produções burguesas, recicláveis e autofágicas, transformam-se fatidicamente em meros objeto de mercado, os quais são negociáveis, podendo, portanto, ser comprados, vendidos, ou simplesmente destruídos. 60 -O GÊNEROAs relações e papéis de gênero representam outro eixo temático importante, abordado pelas fontes. Nesta Curitiba, o espírito da modernidade, em um intervalo de aproximadamente 60 anos, parece aos poucos, como já foi visto, invadir os espaços urbanos e suas representações, redefinindo, ou mesmo corrompendo formas de organização social, e os limites entre o público e o privado. Mulheres e homens, em termos de identidade sexual, orientados por este movimento de individualização, um fenômeno urbano largamente referenciado pela literatura sobre a “Europa moderna” de fins de século, reposicionam-se frente as imposições e necessidades da instituição Família, reavaliando seus planos de futuro, como também seus sonhos de felicidade. 1. “Coisas e outros trecos”, a coisificação do sexo e a manipulação do gênero feminino : análise em Trevisan, Back e Sá Barreto Sob uma outra perspectiva analítica, por exemplo, o conto de Sá Barreto, “O automóvel 117”, quando em referência à luxuosa limousine e a associação, no fim da estória, a atraente donzela de preto, pode estar relacionando a modernidade e o desejo de consumo à atração sexual. A musa, no caso, uma mulher cuja fisionomia não se distingue, no ápice da trama, já no interior do automóvel 117, funde-se ao próprio auto, transformando-se ela mesma em um objeto. Revela-se então a verdadeira natureza das “coisas”, material encantador, belo e sedutor, como todas as maravilhas da modernidade (a própria limousine-símbolo de conforto e riqueza), mas que, quando menos se espera expõe sua verdadeira face, a inevitável morte, ou decomposição da matéria. “Tudo que é sólido se desmancha no ar”, o lema do marxismo, como bem analisa Bermann, prevê as armadilhas preparadas pela modernidade, resumindo ao pó tudo o que se possa produzir e, por efeito, desejar. Se a mulher, enquanto objeto de atração do homem, encontra-se, ela mesma, inserida junto a esta lógica de produção-consumo-decomposição, então o próprio desejo está fadado à destruição. Junto com ele, os valores que, como já foi abordado, acabam por se coisificar e a se dessacralizar, e os sonhos de felicidade, que se confundem aos frenéticos e desenfreados sonhos de consumo. 61 Sob esta perspectiva, consome-se, realiza-se e, consequentemente, assassina-se o desejo. Para que se produza, assim como os próprios produtos, novos desejos, e assim por diante. Os relacionamentos, desta forma, desinstitucionalizam-se, materializam-se e, por consequência, perdem a fantasia do amor eterno e sagrado. Por outro lado, a construção da cena inicial entre Neusa e Rogério, em Lance Maior, que beira ao pastelão, denuncia um desejo por felicidade um tanto inocente e démodé. Palavras excessivamente melodiosas (em off) e o ambiente bucólico de um parque (em imagens fixas), quando contrapostos ao desfile de moda de Cristina, que movimentase em ritmo de crescente euforia, sugerem mesmo a ridicularização dos antigos valores, associados a um ideal romanceado e, para este contexto, bastante ingênuo de casamento. Este, um assunto sério, um negócio ao qual se deve pensar cuidadosamente, como uma importante estratégia de mercado. Não propriamente enquanto um sonho romântico, de amantes apaixonados, mas enquanto uma real possibilidade de se alcançar ascensão e se obter prestígio social. As mulheres, com o advento da modernidade, invadem aos poucos o mercado de trabalho, emancipando-se social, como também sexualmente. Basta lembrar o contexto de revolução sexual na década de 1960 e a sua repercussão para a sociedade brasileira, de modo geral. A invenção da pílula anticoncepcional e a possibilidade das relações sexuais antes do casamento. Em certo sentido, a tentativa de desmistificação sobre este assunto, que passa a ser motivo de diálogos também entre as moças de família (Cristina e suas amigas). Desmistificação ou coisificação, os valores relacionados a este ato (o sexo) vão gradualmente desapegando-se, enquanto obrigação social, da instituição Família, atingindo também os bares (entre os homens-Mário e seus colegas), os clubes, o elitista campo de golfe (com os assédios de Mário à Cristina, na frente de todos), a universidade, como também os recintos de trabalho (loja onde Neusa trabalha). Uma exposição que denuncia, por pressuposto, a afirmação, ou busca por uma sexualidade não necessariamente centrada nas questões da família. Não propriamente enquanto códigos morais familiares, sagrados e indeléveis, mas enquanto desejos individuais e relativamente flexíveis, os quais podem ser, assim como o emprego, os imóveis, as roupas, e o próprio casamento, negociados. “ Não sejamos puritanas”, justifica Eva ( em conversa com Cristina, sobre “intimidades”), complementando “Essas coisas de honra e outros trecos está meio ultrapassado”. Não se pode, no entanto, “generalizar”, como afirma Cristina, pois afinal de contas, se se permite demais estas “intimidades” com o rapaz, o “território explorado” perde seus “mistérios”, e a moça (de posses) acaba como 62 uma “empregadinha” qualquer. Os papéis de gênero não estão, aqui, associados à família e aos seus valores, mas às condições sociais e econômicas das mulheres. A condição de “empregadinha”, funcionária de baixa renda, geralmente moradora de periferia, define a moça, no caso a Neusa, como uma “qualquer”, o que equivaleria dizer, como uma prostituta. Cristina, por outro lado, ainda que, muito provavelmente (ela e não Neusa) tenha se relacionado sexualmente com o bancário e, supõe-se, contraído doença venérea, continua sendo definida (por Mário) enquanto “assunto sério” (pretendente a casamento), na qual se deve realmente investir. No conto de Trevisan, “Chapeuzinho vermelho”, escrito em 1974, esta questão sobre as identidades sexuais e, no caso, a manipulação do gênero feminino pelo homem, são retomadas. A partir da fábula dos irmãos Grimm, escrita sob outro contexto (europeu), desenrola-se a estória ao modelo curitibano. As personagens clássicas, a menininha, o caçador, a vovozinha e o lobo, são apropriadas à realidade (moderna) da cidade paranaense, transformando-se, declaradamente, em amantes. Percebe-se, no início da narrativa, dois movimentos contrários (de ataque-investida sexual e de defesa-repressão), entre o rapaz e Maria. Diante dos assédios de Nelsinho, “apressado” por saciar seu desejo sexual, a moça o repreende, “antes, peça perdão”. Ao que ele se esguia, “a culpa foi sua”. E o debate prossegue, “tem que pedir desculpa”, resiste Maria. Ao que, “arrebatado de fúria”, o jovem, bêbado, a empurra. E constata, “é velha demais”. A cena que se pretendia de prazer, termina com a “fuga” do amante, que se “perde” entre os corredores da casa e acaba entrando em um quarto, marcadamente feminino. Cor de rosa, penteadeira oval, bonecas de luxo, o “reino das bonecas”, com “ar adocicado de incenso, pó-de-arroz e esmalte de unha”. Sentada na cama, uma gorda senhora com um sorriso nos lábios. Por que este sorriso tão grande? Poderia ter perguntado o fugitivo (Chapeuzinho?). Mas ele abstém-se, e questiona tão somente sobre a sua relação de parentesco com a namorada. É parente da Maria? A mãe de Maria, identidade então revelada, oferece ao rapaz “perdido” um bombom licoroso, na ponta de sua língua. A avozinha, ou o próprio lobo? Indaga-se Nelsinho que, logo mais, já sentado em sua cama, entrega-se aos encantos da gorda. “ Nada de avozinha, é mesmo o lobo.”, parece reconforta-se o amante, que reconhece nela(e) a sua beleza (“ainda é bonita” e, apesar de velha, tem o seio durinho). Decididamente, mais interessante que sua filha (que já era velha para ele). 63 O então “chapeuzinho vermelho” parece ter sido absolutamente capturado pelo lobo. Uma relação que se sugere homossexual, portanto. Os disfarces da gorda, “balofa, sem sobrancelhas, o cabelo ralo” em seu esteriótipo de menina-moça excessivamente feminina, uma descrição que beira ao ridículo, é menos assustadora, sob a encorporação do lobo, que o encontro com Maria, uma mulher autêntica (e pudica), para todos os efeitos. O elemento feminino mais uma vez é descrito como algo ameaçante (“é velha demais”), sob a ótica masculina. Menos perigoso seria restabelecer uma ordem, em termos de papéis de gênero, entre um homem e uma mulher, que, neste caso, incorporasse os valores masculinos, transformando-se em um outro homem. Uma relação entre iguais, que simplesmente elimina (ingere, come, destrói), portanto, o gênero oposto. A filha e namorada, Maria é deixada para o lado de fora do quarto trancado. Quando diante da revelação (a sugestão de uma relação sexual entre o seu “namorado” e sua “mãe”), aos gritos e murros na porta, sucede o silêncio ordenador. “Ficaram bem quietos, a filha parou de soluçar, toda a casa em sossego”. Maria, a caçadora, parece desistir da caçada, mesmo porque a “fuga do Chapeuzinho” é dela própria, e não propriamente do lobo. Este já devorou sua mãe (a vozinha) e está prestes a devorar também seu namorado. O herói, pela estória original, inverte aqui sua função (de caçador à vítima), como também seu gênero (de homem à condição de “filha”). De “atacada” (assediada), no início da trama, a personagem passa à perseguidora (reveladora), no desfecho do enredo. As outras duas, ou melhor, três personagens (a avozinha, o chapeuzinho e o lobo) na privacidade e luxuosidade do quarto, parecem restabelecer uma ordem que atribui, pelo imaginário masculino, as características e definições, ainda que estereotipadas, de uma menininha- que corresponderia à verdadeira Chapeuzinho, pelo clássico da literatura. Extremamente feminilizada, porém pervertida. O lobo disfarçado, neste caso, poderia estar assumindo também as características não só da velha, como também da própria Chapeuzinho. As insinuações partem do lobo-avozinha-chapeuzinho, no entanto, ela(e) permanece o tempo inteiro sentada(o) na cama, como que a espera de seu parceiro. A sedução por parte de uma mulher (no caso pervertida pelas manipulações de um homem/macho, o lobo), por mais “bizarra” que possa parecer, em sua descrição (velha sem sobrancelhas,...em um quarto de menininha), estabelece-se dentro de uma lógica (masculina), aceitável. Tudo acaba em “sossego”. A mulher, santa mãe ou filha de família, ao atravessar a porta de saída de sua casa, 64 em busca por empregos e por diversão, perde a sua condição sagrada, transformando-se, ou sendo transformada, pela perspectiva da misoginia cultural curitibana, em “bens duráveis”, assim como um cigarro, um cafezinho, um chop. O sagrado profaniza-se e comercializa-se, ou negocia-se. A invasão feminina dos espaços públicos parece corromper com a ordem masculina, incitando nos homens uma tentativa de retomada de poder. Daí necessidade de transformá-las, as gurias e senhoras, em “material de se lavar na conversar”, “prato pra quatro talheres”, ou simplesmente em comida de lobo que, para todos os efeitos, é macho. Melhor mesmo seria “destruir”, ou “perverter” este gênero feminino, perigoso e poluído. Assim como fez o lobo com a avozinha e com a própria Chapeuzinho, ao engolilas e digeri-las, para depois, disfarçado, reconstruir uma nova ordem, a partir do imaginário masculino. 2. “Filhos de família”, “filhas da cidade”, uma discussão a partir dos elementos “sujeira” X “pureza” : análise em Trevisan, Back e Tezza Pelas falas preconceituosas e absolutamente misóginas de Mário, em Lance Maior, todas as mulheres parecem responder pela falta de asseio das prostitutas, com as quais o protagonista se envolveu. “Será que não há uma mulher limpa nesta cidade?” desabafa o estudante. Não só as “empregadinhas”, por condição social, ou as “mulheres da vida”, por profissão, mas todas as mulheres parecem estar contaminadas, sujas. E, por conseguinte, toda a cidade também está “podre”. Mário, por sua vez, promíscuo e descuidado, onde a ação em busca pelas garotas de programa, considerando-o também agente transmissor da doença, parece não responsabilizar-se pela sua parte na “sujeira”. Estas mulheres (sujas) da cidade (podre) que são a causa para o seu problema. Por dedução, a emancipação sexual das mulheres, representantes, no caso, de uma mobilidade social que, em tese, lhes garantiu conquistas, sob esta ótica estritamente masculina, define-as, todas, como veículos de contaminação de sujeira. As sujeiras da cidade moderna. “As unhas devem ser limpas”, conforme bem lembra o pai de Mário, morador do interior, e distante quase 100 quilômetros do conglomerado urbano. Mas seu filho foi contaminado em outra partes,... e por mulheres. A intimidade masculina, simbolizada aqui pela ordem da limpeza e do asseio, vê-se ameaçada pela emancipação feminina, suja, podre. 65 Neste sentido, o professor Miguel concordaria com Mário, ao se ver invadido em sua privacidade pela inconveniente e extravagante dona de pensão, Izolda. “Uma mulher vulgar, de cabelos pintados, maquiagem carregada e uma calça apertada no traseiro”, por associação imediata, uma prostituta. “Mulheres de rua”, a esta categoria, tradicionalmente associada à prostituição, parece somar-se uma série de outras, por assim dizer, profissões, ou funções femininas, associadas ao ambiente público. A modernidade e a urbanidade das grandes metrópoles, como Curitiba, ofereceram às mulheres, em seu desenvolvimento histórico, a possibilidade de ascensão social e emancipação sexual. Cristina não precisaria de Mário para sustentá-la. Além do mais, em seus passeios com o namorado, ela é quem dirige o automóvel. O bancário, ao que tudo indica, nem possui carro. Neusa, da mesma forma, ainda que uma “empregadinha”, tem também seu próprio emprego, fora de casa. As “mulheres de Tezza”, igualmente, com exceção das que se mantêm, ou são mantidas nas fortalezas medievais, que são as tradicionais casas de família curitibanas, conforme revela Trapo em suas digressões delirantes, sob os domínios do rei (chefe de família-pai/marido), também são descritas pelas suas atividades “na rua”, fora da privacidade do lar. Seja como dona de pensão, profissão que exige determinação, prontidão, iniciativa (que o professor decididamente não tem e que, a priore, seriam qualidades masculinas), ou como estudantes de letras, com as quais, inclusive, o aposentado (“velho abelhudo”) se identificou. A casa de Miguel, em sua própria descrição, parece fundir-se ao seu corpo (velho), revelando a sua natureza prioritariamente doméstica : “Desço a escada que tem a minha idade, que range como eu, e vou passando a mão por este verniz sebento, já um prolongamento da minha pele. Como eu, minha casa resiste ao tempo...”54. Como aposentado e viúvo, o intelectual, que também é um homem, parece assumir uma atitude e uma personalidade tipicamente/culturalmente feminina. A reclusão no interior de sua privacidade, já invadida pela modernização dos prédios, que o espremem entre quarenta andares, e pelo despautério de uma “mulher de rua”, que veio de fora, revelam a sua vergonhosa (a careca fica vermelha) passividade. Dona Izolda pode ser vulgar e denunciar-se como prostituta, pelas suas roupas, linguajar e costumes, no entanto, “é limpinha”, conforme reconhece a mãe de Miguel. A casa do filho, agora sob os cuidados da pensionista, nunca havia sido encontrada pela velha 54 TEZZA, op. cit, p.8. 66 em tão bem estado de limpeza e organização. Este, cuja atitude deveria ser ativa e responsável, o que se esperaria de um “pai de família”55, revela-o solitário, profundamente passivo, resignado a uma vida de contemplação e reclusão. Sua casa é suja, o verniz sebento do corrimão funde-se ao seu corpo velho. O quintal da residência acumula o lixo dos quarenta andares que se encontram em volta. Miguel, pelo que se sugere, é representado junto ao ambiente doméstico. Ao passo que Izolda, ainda que confundida com uma prostituta, enquanto uma personagem que “vem de fora”, da rua para dentro da casa, representa a ação (masculina) da vida pública, do comércio. Os papéis de gênero aqui, se invertem. O professor, mesmo quando diante de um grupo de jovens desconfiados e de linguajar ofensivo, em um bar noturno, admite a sua incrível capacidade de suportar humilhação e a terrível dificuldade de se impor. Não fosse a bebida e a gradual identificação com tudo o que Trapo começa a representar em sua vida, ele não teria porque estar ali. Em sua fala, a bebida alcoólica o humanizaria, este bicho “chucro” e excessivamente introspectivo no qual ele se transformou. A agressividade dos diálogos e a súbita intromissão das mulheres em sua vida (Izolda, sua própria mãe, as universitárias) parecem pressioná-lo a tomar uma atitude, como homem. E a bebida é a sua porta-voz. Enfim, Miguel humaniza-se, como também se masculiniza, tomando finalmente uma iniciativa, a de escrever o tão prorrogado romance, o que implica admitir a possibilidade de uma noiva (ainda que o “compromisso” seja apenas uma justificativa que explique publicamente as frequentes visitas de dona Izolda à sua residência) e se expôr (apresentar-se e explicar-se aos pais de Rosane e do próprio Trapo). Trevisan, da mesma forma, no conto O vampiro de Curitiba, como em tantos outros, avalia brilhantemente as questões de gênero em Curitiba. Valeria, pela sua complexa possibilidade analítica, empreender aqui um estudo que considere também, complementais aos elementos orientadores do subtítulo sujeira X limpeza, outros sintagmas, os quais serão analisados individualmente, mas devidamente articulados ao texto nos parágrafos que se seguem. O conto orienta, já pelo seu título, uma isotopia determinada por substância líquida, representada pelo fluido vital-o sangue- e suas muitas variantes, que pressupõem, em seu interior, uma constituição aquosa. Um elemento que simboliza, de uma forma ou de outra, 55 O pai de Trapo- Paulo, é quem denuncia a natureza prioritariamente feminina do professor, comparando-o mesmo a sua esposa, Gláudia, que em momentos de lucidez, apreciava, assim como o intelectual, a leitura e as poesias. 67 a vitalidade, ou a falta dela. Seja pela virgem que precisa ser abrasada, e que derrama o mel no bico de colibris, com pernas recheadas de sonhos, seja pela “bebedeira da arara”56 , ou pelos “conhaques” que, por ventura, o vampiro precise beber, caso não consiga o sangue fresco de uma virgem. De qualquer forma, a narrativa orienta-se por um feixe de relações, determinado, prioritariamente, pela necessidade (vital), mais que um desejo, de “matar a sede”. Um movimento que pressupõe, estruturalmente, e a priore, a existência dos seguintes sintagmas : ELEMENTO AQUOSO X AUSÊNCIA DE LÍQUIDO (SECO), e por conseguinte, VITALIDADE X MORBIDADE. A busca pelas virgens, enquanto necessidade de saciar a sede (com o líquido) e/ou por prazer (com seus corpos), revela uma percepção (masculina) marcada, ora pela realização, ora pela frustração do desejo, o que implica, além da abstinência sexual, na perda da vitalidade e, em último caso, na própria morte. “Não sobrevivo até a noite”, sem o sangue de uma virgem, reconhece o vampiro, diante de sua condição, e das dificuldades de sua empreitada. “Sou eu nuvem ou folha seca ao vento?”, revolta-se o predador quando ignorado pelos olhares indiferentes de uma presa em potencial. Nuvem que se dissipa, e folha que se esfarela,...seca, como a presença da virgem (frígida?). Até onde a dedução pode levar, sem recair em elucubrações. A ausência do líquido na folha, leva, por associação lógica, à possível falta de secreção corporal de uma moça que, decididamente “não sabe o que é gemer de amor”. “Desgraçada!”, “maldita feiticeira”. A constatação que se segue, pela boca de um vampiro, personagem não dos mais cristãos, sugere, a princípio, uma paradoxal inversão de valores. A virgindade da moça, símbolo religioso de candura e pureza, transforma-se em seu imediatamente oposto, uma “feiticeira”. Ao passo que ele, homem-vampiro, quando frente a frustração do desejo (necessidade) pelo sangue, e/ou pelo corpo de uma jovem (perversa), justifica-se : “exibe as graças, ao invês de escondê-las”... “Sempre se enfeitando, se pintando, se adorando no espelhinho da bolsa. Se não é para deixar assanhado um pobre cristão por que é então?” (grifo meu). Desta forma, revela-se o vampiro curitibano, pela necessidade de sucção de jugulares, até aí um desejo inato e implícito à sua natureza. A irrealização deste desejo, no 56 Na fala de Nelsinho há, ao longo de toda a narrativa, referência a animais-bicho cabeludo, borboletas, araras,lobisomem, morcego, andorinhas, gatos, o que pode estar sugerindo uma transformação zoomórfica do vampiro. Considera-se a relação de gêneros aqui descrita, enquanto uma realidade marcada pela “profanização” moral dos valores. Desta forma, a mulher, representada enquanto feiticeira, em seus muitos disfarces sociais bem poderia estar “enfeitiçando” os homens (pobre cristãos), transformando-os em várias categorias de animais. 68 entanto, deferido “contra”, ou “a favor” de jovens damas virgens, parece determinar, como uma estaca ou bala de prata em seu coração, a “vergonha” do pecador, pobre cristão. Se se considerar, portanto, o caráter figurativo e/ou simbólico deste desejo, pode-se e deve-se colocá-lo no plural. Os desejos de Nelsinho, desta forma, desdobram-se entre o literal e o conotativo, contradizendo-se aparentemente. Se por um lado, a vontade e a necessidade natural, justificam o ato ( o ataque às jugulares e o fim da sede), a escolha das presas, jovens virgens-vítimas, e o anseio sexual por elas, desclassifica-o como “profano” e “vergonhoso”, só que para as mulheres (desgraçadas, malditas feiticeiras, sedutoras), e não propriamente para ele (um pobre cristão). “No fundo de cada filho de família dorme um vampiro”, revela o vampiro-cristão. Porém, prossegue advertindo, “olhe as filhas da cidade, como elas crescem...”(grifos meus), como que “fantasiadas”, com a roupa da cozinheira, à caça de soldado pela rua ou, se viúva, “furiosa, recolhe o leiteiro e o padeiro”,... “E muita noite revolve-se na cama do casal”. A urbanidade, um “mal” das cidades grandes, está associado aqui, assim como em Lance Maior de Back, e Trapo de Tezza, à dinâmica social feminina. As conquistas das mulheres, em termos de mercado de trabalho e emancipação sexual, sob as óticas masculinas, tanto de Mário, quanto do professor Miguel, ou do vampiro Nelsinho, revelam, em ambos, um movimento de vulgarização destas mulheres urbanas, filhas da cidade, e desapagadas dos valores da família. A “sujeira” está aqui diretamente associada ao elemento “rua”. O trabalho das mulheres na rua, fora de casa, implica, necessariamente, sob esta percepção misógina, na depravação moral e sexual das mesmas. Assim elas se contaminam, contaminando os homens. E perdem a condição sagrada como mães e filhas da família cristã. Profanizam-se portanto, pecadoras, e dissimuladas, as “filhas da cidade”. Izolda, viúva, dona de pensão é automaticamente associada, pelo processador mental de Miguel, à figura depreciativa de uma prostituta. Moralmente desclassificada, invasora e desrespeitadora do legítimo direito do intelectual (um homem aposentado) à sua privacidade. Neusa, uma “empregadinha”, que também trabalha fora de casa, é definida por Mário como um “material de se levar na conversa”, objeto fortuito de um desejo sexual. E as “virgens” de Nelsinho, que exibem suas graças pelas ruas da cidade, são decididamente uma farsa, em termos de valores cristãos. Feiticeiras sedutoras e disfarçadas, corruptoras dos desejos masculinos. Um vampiro sedento por sangue, “filho de família”, sai pelas ruas da cidade em 69 plena luz do dia (onze da manhã), quando a “safadinha”(filha da cidade), cujo coração “negro de ameixa” não tem piedade, mas exibe as graças, ignora-o. Feiticeira desgraçada, esbraveja o “cristão”. Eis, por trás da imagem de uma virgem, aparentemente intocada pelos vícios do corpo e sacralizada pela “pureza” divina (translúcida como água cristalina, e clara como luz celestial), uma personagem malévola, que pela mitologia, tal qual uma bruxa, veste-se de roupas escuras e caminha (ou voa) à noite (“Muita noite revolve-se na cama do casal”). “Elas fizeram o que sou”, vitimiza-se o pobre, “oco de pau podre, onde floresce aranha, cobra, escorpião”. Estas filhas da... cidade, disfarçam-se durante o dia, metamorfoseando-se em “cozinheiras”, “viúvas”, “virgens”. Quando, no verdade, o que fazem é desfilar durante a claridade do dia, divertido-se a “seduzir o adolescente”. “Toda de preto, meia preta, upá lá lá”, regojiza-se o vampiro. Ela está de quarentena, “a quarentena do nojo”, com um véu que esconde as espinhas que, “noite para o dia, irrompem no rosto”. “Um sarampo da viuvez”, marca de juventude, vitalidade e sangue, que concentra-se, vermelho, ao redor destas inflamações cutâneas. O respeitável luto de uma jovem senhora, revelado pela luz do dia, e, ao mesmo tempo, “Ai, uma liga roxa que aperta a coxa fosforescente de brancura”. Desfalecendo-se de necessidade (do sangue) e de desejo (sexual), o herói curitibano apieda-se perante Deus. “Tem piedade, Senhor, são tantas, eu tão sozinho”. Todas disfarçadas de azul e branco. Quando diante de um salão de espelhos, no entanto, “Oh mãe do céu”, proclama o moribundo, todas desfilando com meia preta e liga roxa. As mulheres urbanas de Trevisan, tornadas profanas com o movimento da modernidade e a consequente “invasão” feminina dos espaços públicos, são, assim como nas obras de Tezza e Back, associadas genericamente a categoria “mulheres de rua”, uma definição que faz referência, por tradição, às prostituas e ao período em que elas trabalham, a noite. As cores escuras no conto de Trevisan, assim como a própria noite, revelam a, por assim dizer, desclassificação do gênero feminino. As mulheres da cidade são tidas, então, enquanto corruptoras dos valores e da intimidade masculinas e propagadoras de doenças (venéreas). Esta “urbanização feminina”, por necessidade, ou por opção, em busca por empregos fora dos lares, e a consequente ascensão social e emancipação sexual, com o advento da modernidade, teriam, pela percepção destas personagens masculinas, denegrido a imagem sagrada da mãe de família, como também desonrado, e desorientado a função pública do homem, um pobre cristão. Seja como um adolescente, em sua virilidade juvenil; um professor 70 aposentado e sua ineficiência burocrática; um pai trabalhador e chefe de família; ou como um funcionário público e futuro advogado, a condição masculina, em ambos os casos, está ameaçada pela presença (vulgar, constrangedora, sedutora, ou repressora) de um mulher. 71 -CONCLUSÃOAs análises empreendidas até então favorecem, em todas as suas decodificações estruturais, em termos de valores e representações sociais, uma hipótese central, que é justamente o “mito da cidade moderna”. A promoção da capital a condição, em fins do século XX, de modelo de urbanização e civilização para o restante do país, ou do Estado, choca-se de frente com esta “estrutura” sócio-cultural, a qual se pretendeu elaborar com o estudo das narrativas. Uma “cidade européia”, revela-se Curitiba pelo senso comum. Em função de que se basearia tal constatação? Do movimento migratório de povos (italianos, polacos, alemães, ucranianos, entre outros), que se instalaram aí, trazendo consigo a sua bagagem culturalhistórica (européia), ou pela ordenação espacial de suas ruas, avenidas, parques os quais se pretendem muito bem articulados entre si, com os expressos, ônibus, táxis e automóveis. Reflexo de “modernos” projetos de urbanização, como o plano diretor. A periodização “moderno”, e a constatação “européia”, pressupõem, acima de tudo, o desenvolvimento de uma história, em sua vivência, transformações e continuidades, similar a ocorrida no velho mundo. Não caberia aqui rememorar, por motivos de enfoque analítico, a história do Brasil e seus parcos 500 anos, ou mais especificamente a história do Paraná e de Curitiba, em seus três séculos de existência. O que dizer das cidades européias, como as cidades italianas, ou as germânicas, com milhares de anos de experiência urbana até poderem ser reconhecidas como “modernas”. Esta “modernidade curitibana” portanto, ainda que recorrentemente comparada a realidade urbana européia, não foi, em momento algum, entendida aqui enquanto período histórico propriamente, mas tão somente enquanto categoria de análise. Há, no entanto, muitas referências nas fontes a periodização histórica européia, comparando-a à realidade da Curitiba. Mais, acredita-se, em termos de mentalidade e “sensações” (euforia, rejeição, medo) descritas também no universo “moderno” europeu, do que outra coisa. “Antiga”, “feudal”, “moderna” Curitiba, a cidade, com menos de três séculos, traz em suas entranhas, ruas, casas, quintais, avenidas e praças, as referências a uma história (cristã) européia de quase dois mil anos. Imagina-se que no improviso de seus imigrantes, cada qual restrito a sua própria colônia, muito provavelmente devido a incomunicabilidade entre as línguas e as divergências culturais, estabeleceu-se uma sociedade curitibana, ou 72 sociedades curitibanas, a partir da construção e funcionalização dos espaços urbanos, certamente através da apropriação de uma arquitetura européia há muito existente. Neste sentido, devem ter se construído novas significações/representações sociais, condizentes com o novo contexto, não mais europeu, mas brasileiro, curitibano. De qualquer forma, a modernidade apresenta-se. Um conceito que pressupõe, a priori, uma “tradição”, ou “velha ordem”. Este par antagônico, quando em contraposição, implica, pelo estruturalismo, um movimento dialético e, por conseguinte, a constituição de uma série de relações (sintagmas) : cidade X interior (“que vem de fora”); centro X periferia; masculino X feminino; privado X público. Do que se conclui, a contradição, inerente ao estruturalismo, faz-se implícita também a própria categoria “Moderno”. Neste sentido, a modernidade, de uma maneira geral, curitibana ou européia, adquire certa universalidade, um pressuposto metodológico que permite a elaboração de uma estrutura de análise. E neste sentido, as representações e identidades urbanas (“modernas”), devidamente apropriadas ao contexto curitibano, destacam-se, pelo enfoque do trabalho, e se permitem historicizáveis. São personagens, então, que vêm representar espaços e/ou funções urbanas distintas, especialmente em sua natureza sócio-cultural. Curitiba, neste período de aproximadamente 60 anos, da década de 1920 aos anos 80, até onde as produções literárias referenciam, a metropolização e o consequente processo de urbanização, fazem surgir, juntamente com o, por assim dizer, esteriótipo de “cidade modelo”(Dennison), certamente também perfis de “cidadãos modelos”, ou no caso, “cidadãos modernos”. Enquanto categoria, no entanto, a “modernidade”, ao ser abordada pelo método estruturalista, revela as contradições, e todas as figuras de linguagem inerentes à sua natureza. Le Rider, Schorske e Bermann, ao analisarem a realidade das grandes cidades européia e americana, já haviam detectado estes problemas, constitutivos do próprio conceito de “moderno”. O “novo”, em termos de sensibilidades, “humanidades”, racionalidades, não implica, propriamente, na extirpação do “velho” (ordem “contestada”), como já foi dito. Na verdade, sob esta ótica estruturalista, aquele não existe mesmo sem a contraposição deste, pois desta forma, cessaria-se o movimento da modernidade, que se baseia na dialética. Da mesma forma, os tais “cidadãos modernos” curitibanos avaliados aqui, não poderiam existir sem a permanência, ou continuidades históricas (os cidadãos mais “provincianos” e conservadores, por assim dizer). Não raras vezes, este movimento 73 dialético ocorre no interior de um único indivíduo, como duas forças contestadoras. Ao mesmo tempo em que Mário, em Lance Maior, “lança-se” a promiscuidade de relacionamentos, sem a garantia de fidelidade e respeito, apenas enquanto uma negociação de desejos e aspirações sociais, parece reproduzir, por outro lado, a fala recriminatória de seu pai, denunciando as mazelas de um cidade contaminada pela poluição, e por “mulheres sujas”, transmissoras de doenças. O Professor Miguel, de igual forma, ao mesmo tempo em que se vê condicionado pelo discurso de sua mãe, o qual atesta sobre a sua ineficiência enquanto homem, um sujeito que teve apenas uma mulher, está aposentado e, decididamente, não tem iniciativa, sente-se gradativamente seduzido pela vida de Trapo, um jovem marginalizado pelo álcool e pelas drogas, “assassino” em potencial de sua família, como de qualquer outra. A emancipação das mulheres e a “súbita invasão” dos espaços públicos pelo gênero feminino, um sintoma da modernidade, também evidenciado em cidades européias, chocase violentamente com o universo misógino e, neste sentido, absolutamente conservador de Curitiba. As “virgens” de Trevisan, ninfetas ainda no puerpério, sob a ótica do vampiro Nelsinho, estão todas “disfarçadas”, escondendo por trás de sua aparente “candura” de meninas intocada pelo desejo e pelo ato sexual, a verdadeira natureza profana, demoníaca das feiticeiras. Em “O automóvel 117”, a representação feminina também aparece sob a forma (literal) da mulher fatal. Misteriosa e envolvente, a musa inspiradora de Carlos revela-se e desfalece-se na sua frente sob a forma aterrorizadora de uma caveira- a própria morte. A sua imagem encontra-se associada ao movimento urbano (rua XV, avenida Batel). Neste caso, ademais, ela pode estar representando valores e papéis sexuais importados da outra cidade, a metrópole paulista. De qualquer forma, a personagem funciona como transmissora (de São Paulo à Curitiba) de um mal (estar), típico (casual) dos grandes conglomerados urbanos. E se há um movimento de rompimento da (velha) ordem, há também a tentativa de retomá-la. Ainda sobre a questão do gênero, em “Chapeuzinho vermelho”, por exemplo, o homem (Nelsinho), de alguma forma vê-se ameaçado por uma mulher (sua namorada“velha demais”), o que o leva a um encontro, aparentemente inusitado, com outra mulher, a mãe de Maria (por lógica, mais velha ainda). A revelação, no entanto, da verdadeira identidade desta-o lobo disfarçado-parece “acalmá-lo” (ele se entrega à sedução da avozinha-lobo, mantendo com ele, ao que se sugere, relação sexual). Maria é mantida para fora do quarto (trancado), e tudo volta ao sossego. A ordem, desta forma, ainda que a partir 74 de uma “relação homossexual”, se restabelece, sob a predominância absoluta do elemento masculino (Nelsinho e o lobo). A avozinha foi engolida e Maria está fora do quarto. O desfecho de Lance Maior, do mesmo jeito, indica o esforço pela (re)afirmação de uma segregação urbana entre classes e suas representações sociais. Cristina rompe com Mário, sob a justificativa dele não pertencer ao mesmo “nível” que o dela e de sua família. Neusa retoma o namoro com Rogério, ambos “pobres”, moradores da periferia. Mário, a personagem central e mais ambígua da trama, termina o enredo em uma pista de boliche, na companhia dos amigos e de prostitutas, embriagado, revoltado e solitário. Perdedor em suas apostas afetivas. Em Trapo, o desenvolvimento da estória, com a crescente identificação do intelectual aposentado com o suicída e tudo o que esteja ligado a ele, parece reconstituir, no final, também a antiga e convencional ordem familiar. Ao improviso, que seja, (res)tabelece-se uma família, donde Trapo é o filho (morto), Miguel, o pai, Izolda, a mãe e Hélio, o irmão. Pela análise empreendida no conto de Sá Barreto, igualmente, a sensação de febre do protagonista, na primeira parte do conto, e a associação do automóvel 117 com o inferno, ao revelar a contraposição dos sintagmas CALOR X FRIO, indica, no final, a superação desta contradição, com, o que se deduz, a realização de um desejo- o resfriamento (mortal) deste desagradável calor corporal. Como também em “Os botequins” de Trevisan, a (velha) ordem se restabelece no final do enredo. O desejo de José pela sugestiva “última gota” que extravasa (sempre) do cálice, rompendo com a circularidade das formas e de acontecimentos, juntamente com a “invasão” dos “raros intrusos” ao botequim e o passeio (a ermo) pela chuva, enquanto tentativas de rompimento com velhos e condicionados costumes, rapidamente são desconsideradas. A obsessiva personagem parece recobrar a (antiga) consciência e retorna fiel e resignada a procura de um outro botequim, onde possa começar outra vez, como sempre, a mesma rotina. Desta forma, é possível pensar em uma estrutura analítica comum a ambas as produções, donde o movimento da modernidade (curitibana) segue, resumidamente, a seguinte orientação : SUPERAÇÃO (velha ordem) -REJEIÇÃO(nova ordem)- TENTATIVA DE RETORNO (velha ordem). E assim, sucessivamente. Um movimento portanto, assim como “Os Botequins” de Trevisan, que se pretende cíclico. Diante das inevitáveis transformações sociais e sexuais, que irrompem os espaços urbanos desta cidade, corrompida ou inovada, com o movimento de urbanização, as ordens 75 (velhas e novas) se adaptam como podem. Se não há, por exemplo, mais possibilidade de se pensar um relacionamento “sossegado” entre um homem e uma mulher, então recria-se este gênero, a partir de um imaginário absolutamente masculino (o lobo “da” Chapeuzinho vermelho-de Trevisan, digere a vozinha e tranca-se com “o” chapeuzinho num quarto, a sós). Se não há como distinguir, dentre a população feminina, as “limpas” das “sujas”, como se questiona Mário, então, para todos efeitos, todas são potencialmente transmissoras de doença (sexual), e, portanto, “podres”, como a cidade. A cidade oferece o conforto dos carros e táxis, a segurança de uma equipe médica que, certamente garantiria uma maior qualidade de vida ao pai de Mário, ou à mãe de Miguel (moradores do interior). Permite aos jovens a possibilidade de universidades, onde as mulheres também, aos poucos, vão tendo acesso. O divertimento nos clubes, para quem tem poder aquisitivo e prestígio social, ou “barezinhos”, para quem costuma, jovens em grupos (o que inclui as meninas), ou homens solitários, beber e fumar. Por outro lado, esta mesma cidade é palco para a marginalização de vidas em frangalhos (aos “trapos”), consumidas pela drogasdição, pelo álcool, pela prostituição e pela perda dos valores familiares, que se vulgarizam junto a profusão de palavrões e à ausência de discurso, resumindo-se a “trecos e coisas”. A resistência a estas transformações da modernidade parecem “ridículas”, como o quintal da velha casa do (velho) professor Miguel, espremido em meio a quarentas andares de prédios e edifícios, no centro da cidade. Ou a descrição, por Trapo, das nobres famílias curitibanas, que em meio a toda esta agitação urbana e conquistas sociais modernas, mantêm-se enclausuras em “feudos”, como que protegidas por grandes fortificações, aos modelos dos castelos medievais. Sem falar na descrição grotesca da cena de amor entre Nelsinho, o vampiro curitibano, e “avozinha-lobo”, em Chapeuzinho Vermelho. Uma senhora gorda, balofa, sem sobrancelhas e com cabelo ralo, vestida em “quimono fulgurante de seda”, “sentadinha” em um quarto cor-de-rosa excessivamente feminilizado. O “reino das bonecas”, com “ar adocicado de incenso, pó-de-arroz, esmalte de unha”, insinuando-se com um punhado de bombom licoroso na ponta da língua. Na verdade, o próprio lobo travestido. Esta relação “sossegada”, longe das ameaças de Maria é tão ridícula quanto a casinha do professor Miguel, ou os castelos medievais de Trapo, ou mesmo o comportamento obsessivo de José, em “Os botequins” e suas repetições patológicas. Observa-se, de maneira geral, aquém da superação de uma ordem estabelecida, uma radical rejeição à modernidade e um consequente maniqueísmo analítico. Ou se destrói a 76 família e o sistema, ou mata-se a si mesmo. Ou subjuga-se a mulher em castelos medievais ou “engole-a” inteira, “recriando-a” totalmente sob o imaginário masculino. Ou inseminaa, ou se é contaminado por ela (prurido venéreo). Ou se é profundamente provinciano, em seus hábitos e costumes, ou se é corrompido pelo álcool e por ambiente degradante. Enfim, entre uma coisa ou outra, uma incapacidade por parte do curitibano em lidar com estas transformações da cidade, o que evidencia a existência de muitas crises de identidade. O tão consagrado “pai de família” quase não aparece de forma direta nas fontes consultadas. Com exceção de Trapo, onde esta figura emblemática é centro de referência nas cartas do jovem suicida, confundindo-se à idéia de “sistema”, contra qual, porém, se deve lutar fervorosamente para se alcançar a “purificação” e a “libertação”. Um papel com adjuvante, no entanto. De maneira geral, “este homem” é velho e só aparece em referências citadas por parte de uma outra personagem. Seja o pai de Mário, um senhor fragilizado pela idade, e morador do interior, quanto o pai de Rosane, ou Cristina, sobre o quais sabe-se apenas que são cidadãos de posses. Ou mesmo o progenitor de Neusa, o qual tem uma pequeníssima participação no filme, ambos são representados, não pelas suas ações nos enredos, mas pelas suas condições sociais e econômicas. O primeiro é pobre, mas tem uma “terras”, cujos “cablocos queriam ser donos”; os segundos, podem dar automóveis para suas filhas desfilarem pela cidade, ou contratarem motorista particular para protegê-las do assédio de algum pretendente indesejado. O último é pobre e não pode oferecer nada, nem para a filha, muito menos para um possível genro. Os relacionamentos “modernos”, por assim dizer, parecem não mais exigir o consentimento do “chefe de família”. Mário mantém dois envolvimentos ao mesmo tempo, desconsiderando as prostitutas, o que por si só já seria um desrespeito à moralidade cristã. Além do mais, nunca se apresentou aos pais, nem de Cristina, muito menos de Neusa. O pai daquela, em conversa familiar, apenas pergunta à filha sobre o rapaz com o qual ela estava saído, sem mais delongas. Não há mesmo, em nenhuma cena de nenhuma obra, este contato formal entre namorado, ou genro e o pai da moça. Do que se conclui, não há mais, o que se observa por estas tentativas de representação urbana da cidade, pretensão de namoro, enquanto uma apresentação das (boas) intenções. As intenções perderam o seu sentido, em termos de valores e, mesmo, de moralidade. A “consciência do bem”, sobre a qual Rogério, em sua fala melodramatizada (no início do filme), refere-se, dirigindo-se à Neusa, é tão somente, como já foi dito, um melodrama de novela. A “honra”, conforme afirma Eva, amiga de Cristina, está meio 77 “ultrapassada”, não passando, pela definição da universitária, de “trecos” e “outras coisas”. O negócio do casamento, desta forma, atinge outra significação, descentrando-se dos valores da família. Neste sentido, o seu representante maior, o pai, chefe desta instituição em crise, perde também, acompanhando o gradual e lento processo da modernidade, a sua função. O homem curitibano é representado enquanto um “bicho” (vampiro, lobo, “chucro”, “animal”) que, ameaçado, primeiro pela perda de sua função na família, e segundo, pelas alterações nos papéis de gênero com a emancipação sexual e social feminina, recolhe-se à sua privacidade (os castelos medievais, a casinha velha e resistente ao tempo, o botequim, longe da chateação da mulher e da perseguição do patrão, e, em certo sentido, também as prostitutas que, apesar de tudo mantêm-se com uma profissão tão antiga quanto a própria história das cidades). Tão encalacrado em seu “cazulo”, rígido em seus valores, absolutamente misógino em suas colocações, “tímido”, e com “muros ao redor de sua cabeça”, que não o deixam falar livremente, este homem curitibano e animalizado necessita de um subterfúgio para se libertar, o que é representado recorrentemente, em todas as obras, pela bebida alcoólica. Tem-se, então, o já citado pai de família, senhor não mais tão respeitado, mas ainda temido. Alvo das rebeldias juvenis dos filhos, reprimidos e anarquizados, como Trapo. Ou das revoltas histéricas das, normalmente, tão resignadas esposas, donas de casa, que ainda não gozaram o direito por suas conquistas sociais e sexuais, com o advento da modernidade. Falam por elas, as mães de Trapo, de Rosane, de Mário (brevemente citada), do próprio professor Miguel. Faz-se pertinente lembrar a reação da suposta “sogra” de Trapo, quando da descoberta da gravidez da filha. As deduções, mais que elucubrações do professor, descrevem uma cena donde a mulher, em estado de desespero, com “a mão em garra súbita nos cabelos, para matar, sacudindo Rosana de um lado a outro-”, profere : sua vagabunda! sua puta!” Ao que se segue, o aborto e a tentativa de suicídio da menina, que retalha seu corpo com um estilete. Ou, ainda, as reclamações da velha senhora parnanguara, mãe de Miguel, quando diante de tantas mulheres na casa do filho, assim que ela “subiu à Curitiba”. Especificamente contra Izolda, a dona de pensão (que fuma, bebe e pinta os cabelos), mulher vulgar, “desta laia”, e noiva de improviso do professor, a velha contesta o que vê, inconvenientemente, mas em seu direito (lícito) como mãe. “Minha mãe tem razão”, acaba concordando Miguel que, na obrigação (moral) em dar “desculpa”a todas (mãe, amigas de 78 Trapo), justifica a presença constante de Izolda em sua casa com a invenção do noivado. A própria mãe de Trapo, isolada no interior das fortificações (medievais) de sua casa, segundo o depoimento de seu marido ao professor, desistiu precocemente de seus sonhos de juventude e enlouqueceu. “Cláudia se fechou, envelheceu, silenciou, meio que morreu”, vivendo a base de comprimidos “até hoje”. “Se ela não estivesse louca ia gostar de você (professor Miguel)”. Sabia até tocar piano, falar francês, ler poesias. Quando ela, porém, a mãe-louca, esposa-morta, tentou ensinar ao filho (Paulo) seu conhecimento, o marido (e ele mesmo reconhece) a recriminou, sob a justificativa de “afrescalhar” o menino. Cláudia perde a autenticidade em sua função como mãe/educadora, “resignando-se” à educação imposta pelo marido.“Quando Paulo fez quinze anos (...) eu levei ele pras putas”, mas ele “fracassou”, conforme relata o pai. Como se a tal educação feminina fosse mais “correta”, e “masculinizante”, vindo de uma prostituta, do que da própria mãe. Esta, no caso, está há muito, praticamente morta. O professor, ademais, na boca do doutor Fernando, é comparado, irônica e depreciativamente, à sua mulher, com suas “frescuras” de francês, piano e poesias. Do que se sugere, a inatividade do primeiro, a sua falta de iniciativa e de família, reafirma-se aqui pela sua condição feminina, como “agente passivo” de uma história, onde os homens, para serem homens, precisam agir e, acima de tudo, serem viris. O que não se aprende escrevendo poesias, ou dando “aulinhas” de literatura. De qualquer forma, a manifestação destas mulheres, “mães de família”, neste universo ambíguo da modernidade (curitibana), geralmente apresenta-se de forma agressiva, descontrolada, beirando mesmo a histeria, ou de forma inconveniente. Isto quando elas não enlouquecem e são absolutamente anuladas em suas funções na família e na sociedade, como o que se sucedeu com Cláudia, a mãe de Trapo. Resta às mulheres curitibanas (“modernas”), a possibilidade das atividades fora do ambiente familiar, na “rua”, onde elas podem, em tese, gozar pelas suas conquistas sociais. Representadas aqui enquanto estudantes universitárias e comerciantes, esta parcela da população feminina, no entanto, sob a ótica das personagens masculinas, independente de suas profissões, seus discursos ou moralidades, parecem ser categorizadas genericamente como “mulheres de rua”, ou “filhas da cidade”. Um título carregado por uma concepção misógina e, neste sentido, preconceituosa. Daí a associação direta e imediata : “mulheres que trabalham na rua”-”mulheres de rua”-”filhas da cidade”- “prostitutas”. As prostitutas legítimas, “de carterinha”, no caso, por sua condição histórica, tão antiga quanto a própria noção de sociedade, não poderiam, por estas razões, ser 79 consideradas enquanto um elemento de desordem da cidade e de seus espaços urbanos, propriamente. Elas servem e sempre serviram aos homens. A “invasão”, no entanto, das mulheres, de maneira geral, ao espaço público (tradicionalmente masculino), é um indicativo, a partir de uma perspectiva misógina, de uma incômoda alteração nesta ordem. Transformaram-se portanto as “doces donzelas” -aquelas dos castelos medievais, as quais se referia Trapo em suas cartas delirantes-em cruéis feiticeiras, disfarçadas sob o manto da castidade, ou do trabalho honrado (aliás, esta virtude-a honra-, como lembra Eva, amiga de Cristina, em Lance Maior, resume-se agora a “trecos e outras coisas”). As qualidades (cristãs), enfim, mantenedoras dos valores da família e da sociedade, com esta “socialização indevida” das mulheres, que aparecem em público, aos olhos de todos (os homens), vulgarizam-se, profanizam-se, entrando em uma profunda e, ao que tudo indica, irremediável crise. A juventude curitibana, por sua vez, é retratada geralmente em grupos, em meio a um mar de palavrões e gírias, e à fumaça indiferenciadora dos muitos cigarros, tragados compulsivamente junto a bebida alcoólica, elemento de forte “socialização” desta Curitiba “moderna”. Indivíduos “extraordinários”, pela sua (pretensa) genialidade, como Trapo, aparecem dispersos, como os pinheiros da cidade. No caso de Trapo, de alucinação em alucinação, de bebedeira em bebedeira, a revelação (alucinada) de seu gênio incompreendido. Na verdade, a morte lhe confere atenção e, não, propriamente, pela sua obra, mas pela sua condição, enquanto jovem enjeitado, apaixonado e suicida. Características, ademais, com as quais o professor, aposentado e sem família, um provinciano e decadente funcionário público, se identificou. Os jovens de Back, segregados pelas suas condições sociais e econômicas, procuram o destaque na sociedade, a partir, prioritariamente, de boas “negociações”, em termos de casamento e formação. O público, neste caso, aparece como um espaço de revelações, onde o que conta, verdadeiramente, é o poder aquisitivo e os símbolos sociais (status, influência, prestígio, “nome”). Curitiba, entre a cidade e as representações, desvela-se, pela literatura e pelo cinema, denunciando-se enquanto espaço urbano profundamente marcado pela ambigüidade, contradições e paradoxos. Até aí, condições inerentes à categoria Modernidade. Eis aqui, narrativas que se baseiam em um universo, real e que povoa o imaginário do cidadão, seja ele nascido nestas terras, ou vindo de fora (em referência a Sylvio Back e Cristóvão Tezza, ambos naturais de Santa Catarina). Cidadãos, neste caso, prioritariamente masculinos e que, independente de suas origens, se na capital, no interior, 80 ou em outro estado, vivenciaram, de uma forma ou de outra, a experiência da urbanidade e, por consequência, da modernização. A cidade, nestes termos, uma experiência universal, é apropriada ao contexto que se apresenta, Curitiba entre as décadas de 1920-80, sendo, para fins históricos, representada em seus códigos sociais e morais, sob o pressuposto do “mito da cidade moderna”. Este, uma hipótese metodológica que, em seu processo de decodificação estrutural, acabou por revelar, juntamente com a descrição físico-espacial de uma cidade e seus espaços urbanos, definitivamente marcados pela gradual metropolização, profundas crises em seu sistema de representações e, por consequência, em suas identidades sociais, com também sexuais. 81 Fontes : BACK, Sylvio. Lance Maior. Curitiba : Fundação Cultural de Curitiba, 1968. BARRETO, Octávio de Sá. O automóvel n.117...e outra novelas. Curitiba, Empresa Graphica Paranaense, 1925. TEZZA, Cristóvão. Trapo. São Paulo : Rocco, 1998. TREVISAN, Dalton. O vampiro de Curitiba. Rio de Janeiro : Record, 1991. ______________.Cemitério de elefantes. Rio de Janeiro : Record,1987. 82 Bibliografia : BARTHES, Roland. Elementos de semiologia. São Paulo : Cultrix, 1974. ________________. Introdução à Análise Estrutural da Narrativa. In : BARTHES, R. et al. Análise estrutural da narrativa. Petrópolis : Vozes, 1973. BERMANN, Marshall. 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