UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRA MESTRADO EM HISTÓRIA THIAGO LEMOS SILVA FRAGMENTOS BIOGRÁFICOS DE UM ANARQUISTA NA PORTA DA EUROPA: A ESCRITA CRONÍSTICA COMO ESCRITA DE SI EM NENO VASCO 2012 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRA MESTRADO EM HISTÓRIA THIAGO LEMOS SILVA FRAGMENTOS BIOGRÁFICOS DE UM ANARQUISTA NA PORTA DA EUROPA: A ESCRITA CRONÍSTICA COMO ESCRITA DE SI EM NENO VASCO Trabalho apresentado ao Programa de PósGraduação em História, no Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia, como exigência parcial para obtenção do título do Mestre em História, sob a orientação da Profa. Dra. Jacy Alves de Seixas. 2012 2 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Sistema de Bibliotecas da UFU, MG, Brasil. S586f Silva, Thiago Lemos, 1984Fragmentos biográficos de um anarquista na Porta da Europa: a escrita cronística como escrita de si em Neno Vasco. / Thiago Lemos Silva. Uberlândia, 2012. 129f. Orientadora: Jacy Alves de Seixas. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Uberlândia, Programa de Pós-Graduação em História. Inclui bibliografia. 1. História - Teses. 2. Vasco, Neno - Biografia - Teses. 3. Vasco, Neno - Da porta da Europa - Crítica e interpretação - Teses. 4. Anarquismo e anarquistas - Europa - História - Teses. 5. Literatura e história - Teses. I. Seixas, Jacy Alves de. II. Universidade Federal de Uberlândia. Programa de Pós-Graduação em História. III. Título. CDU: 930 3 THIAGO LEMOS SILVA FRAGMENTOS BIOGRÁFICOS DE UM ANARQUISTA NA PORTA DA EUROPA: A ESCRITA CRONÍSTICA COMO ESCRITA DE SI EM NENO VASCO BANCA EXAMINADORA: ________________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Jacy Alves de Seixas– Orientadora (UFU) ________________________________________________________________ Prof. Dr. Alexandre Samis (C.P.II) ________________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Christina Roquette Lopreato (UFU) 4 Para a Fernanda, minha cotoviazinha. Analogamente ao que disse William Blake, nosso amor não é como a cisterna que contém, mas, como a fonte que transborda. 5 AGRADECIMENTOS Agradeço, A Deus, porque como escreveu Simone Weil, “deve haver qualquer coisa de cúmplice neste universo entre aqueles que amam somente o bem”. À minha mãe, Maria de Fátima Silva, e a minha tia-mãe, Maria Aparecida Lemos. Em uma época em que tudo que é mais ou menos sólido parece querer se “desmanchar no ar” (Karl Marx), o amor de vocês se transformou em um ponto sólido a partir do qual pude me inserir e enraizar no mundo. Ao meu avô Antônio Vicente (in memoriam) pela acolhida e porto seguro. Aos meus irmãos, Juliano Eustáquio, Sarah Gabriela e Samira Júlia, pelo carinho a mim devotado. Aos meus tios, Paulo Sérgio, Júlio César e Claúdio Luciano, por sempre teremme “aturado” e entendido. À minha sogra, Márcia Bomtempo, e ao meu sogro, Vaíte Rodrigues, pelo apoio. Aos amigos de ontem, hoje e sempre, Breno Geovane, Wanderli Júnior (Juninho), Wellington Souza, Kelly Cristina, Aline Melo (Janis), Sônia Pinheiro, Paulo Júnior (Belleti), Danielle Nogueira, Maria de Fátima Ferreira, Fabrício Marques, Thiago Marcelino e Laênia Azevedo, pelas experiências partilhadas ao longo de toda uma vida. Aos professores da Escola Estadual Abner Afonso (Patos de Minas – MG), Mônica Azevedo, Maraisa Dámaso, Marizana Simão, Carlos Beti, Fabiana Miranda, Bernadete Cunha e Elizabete Nascimento, que, pelo estímulo, transformaram-me em um “rebelde com causa”. Aos amigos da Biblioteca Municipal João XXIII e Biblioteca do Unipam (Patos de Minas – MG), “minhas primeiras universidades”, por me ajudarem a dar os primeiros passos no campo do saber. À Steffania Paola, pela descoberta do anarquismo através do mundo fanzines. Aos professores do Unipam, Altamir Sousa, Marcos Rassi, Roberto Carlos e Fátima Porto pelos conhecimentos transmitidos; à Antoniette Oliveira pela descoberta do anarquismo no mundo acadêmico. Ao Marcolino Jeremias, Antônio Ozaí, Adonile Guimarães, Nildo Avelino, Rodrigo Rosa, Allysson Bruno, Claúdia Tolentino e Jussara Valéria, que através de 6 conversas “reais” e “virtuais” muito me ensinaram sobre a história do pensamento e movimento anarquistas. Aos companheiros do Coletivo Mundo Ácrata (Uberlândia – MG) Fabrício Monteiro, Munis Alves, Marcelo Silva e Igor Pomini, por acreditarem que é possível construir um mundo livre e igualitário. Ao Fabrício, agradeço ainda pela orientação informal e presteza com que sempre se colocou para ler meus escritos. À Ana Luiza e ao Leonardo Latini, pelo incentivo em tentar o mestrado em História na UFU, pelas acolhidas em sua casa em Uberlândia para poder participar dos seminários do Nephispo e, principalmente, por terem me apresentado à minha orientadora. Ao Daniel Pereira, Jéssyca Rodrigues e Janaina Rodrigues, amigos leais e interlocutores diletos, pelo companheirismo e pelas longas conversas tecidas noite adentro sobre filosofia, direito, psicologia, história e, principalmente, literatura, que muito colaboraram para a feitura deste trabalho. Além é claro, pelos momentos de alegria, que tornaram a minha estadia em Uberlândia mais agradável. À Luana Marques Fidêncio, pela indicação da bibliografia sobre crônica, biografia e escrita de si, a qual contribuiu significativamente para o desenvolvimento da pesquisa. Aos colegas do mestrado, Roberto Camargos, Lígia Perini, Cléber Amaral, Eliete Antônia, Stela Bernardes e Érica Kites, pelas profícuas discussões ao longo das disciplinas; ao Ricardo Vaz, Laura Cordeiro, Maria Antônia e Ana Flávia, que de colegas se transformaram em amigos, não somente pelos conhecimentos socializados, mas igualmente pelo afeto construído. Aos companheiros da Biblioteca Social Fábio Luz (Rio de Janeiro – RJ), Renato Ramos, Milton Lopes, Davi Silva, Rafael Viana e Alexandre Samis, por terem me acolhido generosamente no Rio de Janeiro para obter as fontes necessárias para a realização desta pesquisa. Ao Alexandre, agradeço ainda pela primorosa pesquisa que realizou sobre Neno, sem a qual a minha seria inviável, por ter aceito de modo tão solícito o convite para participar da minha banca de defesa e, por fim, pela sua conduta ético-política, a qual sempre me inspirou sobremaneira. Todos vocês me mostraram que de fato o que “dignifica o homem é a solidariedade” (Franz Kafka). Aos funcionários do Arquivo Edgard Leuenroth-Unicamp (Campinas - São Paulo), pela presteza com que me receberam e orientaram para obter as fontes necessárias para a realização desta pesquisa. 7 Aos professores da linha de pesquisa Política e Imaginário, Josianne Cerasoli, Guilherme Amaral Luz e Joana Muylaert pelos novos enfoques teórico-metodológicos que me trouxeram durante as disciplinas; ao Antônio Almeida, um “tipo antropológico” quase em extinção nesse meio universitário onde impera a “ascensão da insignificância”, como diria Cornelius Castoriadis, pelos valiosos ensinamentos políticos; a Christina Lopreato pela inspiração dos seus trabalhos sobre o anarquismo. A estes dois, agradeço igualmente pelas sugestões dadas durante a qualificação, que foram essenciais para (re)escrita da dissertação. Ao Paulo Almeida, coordenador do Programa de Pós-Graduação em História, pela sensibilidade com que entendeu “meus atrasos”. À minha orientadora, Jacy Alves de Seixas pelos ácidos debates sobre modernidade e pós-modernidade, pelos momentos de bom humor, pelos puxões de orelha e, em especial, pelas (des) orientações ao longo do mestrado, que me permitiram encontrar uma outra perspectiva para realizar este trabalho. Ao Neno, porque “[...] mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação, e [...] tal iluminação pode bem porvir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra”. (Hannah Arendt). 8 “O pessimismo desalentado me soa mal e o azedume me incomoda, só amo os hinos à vida”. Neno Vasco 9 RESUMO Para perscrutar alguns fragmentos da biografia de Neno Vasco, trago à tona neste trabalho as suas crônicas que foram publicadas no livro Da Porta da Europa e na imprensa anarquista e operária do Brasil e de Portugal. A partir de sua escrita cronística, pretendo problematizar como Neno constrói a si (prática de subjetivação) em sua trajetória individual e coletiva. Embora essa escrita fosse prioritariamente uma narrativa, utilizada para informar e debater com os leitores brasileiros e portugueses a respeito da luta cotidiana levada a cabo pelo movimento anarquista e operário em diferentes países da Europa, ela também possibilitou ao nosso biografado uma forma de escrita de si, o que permitiu, da minha parte, encontrar uma chave para abrir não apenas a porta da história do movimento anarquista e operário no continente europeu, mas também, e sobretudo, a porta da sua história de vida. Palavras-chave: Neno Vasco; Biografia; Crônicas; Escrita de si. 10 ABSTRACT In order to investigate some fragments of Neno Vasco‟s biography, I bring up in this work his chronicles that were published in the book Da porta da Europa (“From the Europe’s door”) and in the press anarchist and working in Brasil and Portugal. From his writing chronicler, I intent to question how Neno make itself (a practice of subjectivity) in their individual and collective path. His writings were primarily used to inform and discuss with brazilians and portuguese readers about the daily struggle carried out by anarchist and workers movements in different countries of Europe. Nevertheless his chronicles also enabled Neno Vasco some kind of writing itself (“escrita de si”), which allowed myself find a key to open not only the door of the history of anarchist and workers movements in Europe, but also and above all, the door of his life history. Keywords: Neno Vasco; Biography; Chronicles; Writing itself. 11 SUMÁRIO INTRODUÇÃO.............................................................................................................13 CAPÍTULO I- A República, A Universidade de Coimbra, o bando dos Bonnot e a (não) separação entre Estado e Igreja.........................................................................39 CAPÍTULO II- O movimento anarquista no Brasil, o caso Hervé, o Feminismo e o Congresso de Tomar......................................................................................................68 CAPÍTULO III-A Guerra, a Epopéia Russa e a escrita como ofício e como militância........................................................................................................................95 REFERÊNCIAS...........................................................................................................123 12 INTRODUÇÃO Em 24 de março de 1913, Neno Vasco1 escrevia as seguintes linhas: Eu estou em bem piores condições econômicas [...] e não penso em voltar para o Brasil, apesar dos laços de amizade que ai me prendem [...], mas há para mim ainda outras [razões] muito fortes de ordem moral e intelectual. Apesar do círculo de camaradas e amigos que ai tenho, eu vivia insulado, estranho ao meio, despregado. Aqui tenho as relações de infância e escola e sinto mais a vontade e mais capaz, mais apto, na propaganda2. Nessa missiva endereçada a Edgar Leuenroth, Neno Vasco deixou entrever, entre seus ditos e não ditos, quais foram os motivos que o levaram, dois anos atrás, a deixar o Brasil e retornar para Portugal. No início de 1911, quando Neno decide tomar tal decisão, já era um militante bastante conhecido dentro e fora dos círculos de militância anarquista e operária, já havia se casado com Mercedes Moscoso, era pai de três filhos: Ciro, Fantina, Ondina, e possuía emprego fixo como tradutor de línguas em casas comerciais de São Paulo. Neno sentia-se, contudo, estranho a um meio que inicialmente o acolheu e depois parecia rejeitá-lo. Talvez tenha sido a forte xenofobia contra os imigrantes de origem lusitana em terras brasileiras, algo bastante forte na época, que tenha deixado o anarquista tão insulado a ponto de tornar a sua permanência neste país algo intelectual e moralmente inaceitável. Isso por um lado... Por outro lado... Neno acreditava que o seu retorno a Portugal poderia facilitar o contato com outras figuras anarquistas do continente europeu e que, assim, poderia contribuir de forma mais dinâmica e eficaz com ação e propaganda a nível internacional. Neno sentia que com a queda da Monarquia e instalação da República3, 1 Neno Vasco, na realidade pseudônimo de Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós Vasconcelos, nasceu em Penafiel, norte de Portugal, em 09 de maio de 1878 e faleceu em 15 de setembro de 1920 em São Romão do Coronado perto do Porto. In: Dicionário Histórico-Biográfico do(s) anarquismo(s) no Brasil. VASCO, Neno. Uberlândia, Mimeo, 2000, p103. Neno Vasco passou a utilizar esse pseudônimo somente após o seu ingresso no movimento anarquista e operário em Portugal, por volta de 1900. Antes, atendia pelo seu nome verdadeiro: Gregório. In: Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. VASCONCELOS (Nazianzeno de). Lisboa/Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia Ltda. S/D, p.306. Para evitar anacronismos os trechos onde evoco a trajetória de Neno no período que precede sua “conversão” ao anarquismo, o chamarei de Gregório. 2 Carta de Neno Vasco a Edgard Leunroth, 24/05/1913. Grifos do autor. Para uma melhor fluência do texto a grafia da época foi atualizada. 3 A República portuguesa foi instaurada em 05 de outubro de 1910. FREIRE, João. Estudo introdutório In: VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984, p.40. 13 não deveria adiar a sua volta e, com isso, prorrogar ainda mais um projeto que o perseguia já há um bom tempo. Chegando a Lisboa, Neno não encontrou maiores inconvenientes ao procurar certas personalidades engajadas com o anarquismo português. Na realidade estes eram, em sua grande maioria, seus missivistas de longa data, quando ele se encontrava ainda do outro lado do Atlântico, residindo no Brasil. Foi, aliás, graças a essa correspondência, escrupulosamente mantida ao longo de quase dez anos, que ele conseguiu algum espaço editorial nas primeiras folhas anarquistas de Portugal. Só que a visibilidade que ele iria adquirir nos próximos meses nem se comparava à de outrora. Rapidamente, Neno conseguiu um destaque invulgar e já estava envolto com os principais periódicos de cariz anarquista e operário da imprensa portuguesa. No entanto, isso não significou que sua militância no Brasil tenha findado. Pois, mesmo depois de ter retornado a Portugal, Neno continuou a participar da imprensa anarquista e a interagir com o movimento operário brasileiro. Assim como se fala, escreveu Neno Vasco, de aproximações comerciais e políticas, de missões diplomáticas e intelectuais, assim, nós devemos encarar e realizar uma união - não na forma, muitas vezes vazia, mas no que constitui a essência, a carne, o sangue, dessa aliança - a incessante troca de recursos de toda espécie. Nessa permuta de ideias, de correspondências, de publicações, de contribuições pecuniárias - e sobretudo de homens, para o conhecimento direto e pessoal dos ambientes e indivíduos - muito terão a ganhar o movimento anarquista de Portugal e o do Brasil4. Partindo de tal premissa, ele atuou como uma espécie de “diplomata” entre os companheiros situados do lado de cá e do lado de lá do Atlântico. Através de uma atividade jornalística constante e diversificada em periódicos brasileiros e portugueses, Neno Vasco colaborou para a construção de um lócus de intensos debates envolvendo diferentes estratégias de combate ao capitalismo nos meios anarquistas e operários dos respectivos países, materializando, por assim dizer, uma união inter-nacional entre Brasil e Portugal. Dessa atividade, que compreende ensaios, poesias, peças de teatro, contos, traduções e resenhas literárias, destacam-se suas crônicas, em que ele compartilhou com seus leitores brasileiros e portugueses por quase dez anos sua: [...] apreciação de alguns dos fatos mais salientes da agitada vida social moderna e do período em que Portugal (e Europa) entrou 4 VASCO, Neno. Enquete sobre o movimento operário no Brasil. Guerra Social. Rio de Janeiro, 21/08/1912. 14 (entraram) nestes últimos [...] anos, feita por um critério que não é o dos partidos políticos em luta a volta do poder, nem tampouco o dos céticos pessimistas extra-partidários, deve interessar os próprios adversários sinceros ou pelo menos os espíritos independentes e livres de sectarismos5. Para perscrutar alguns fragmentos da biografia de Neno Vasco, trago à tona neste trabalho suas crônicas que foram publicadas no livro Da Porta da Europa e na imprensa anarquista e operária do Brasil e de Portugal. A partir de sua escrita cronística, pretendo problematizar como Neno constrói a si (prática de subjetivação) em sua trajetória individual e coletiva. Embora essa escrita fosse prioritariamente uma narrativa, utilizada para informar e debater com os leitores brasileiros e portugueses a respeito da luta cotidiana levada a cabo pelo movimento anarquista e operário em diferentes países da Europa, ela também possibilitou ao nosso biografado uma forma de escrita de si, o que permitiu, da minha parte, encontrar uma chave para abrir não apenas a porta da história do movimento anarquista e operário no continente europeu, mas também, e sobretudo, a porta da sua história de vida. *** Na realidade, a ideia de escrever um trabalho biográfico sobre Neno Vasco surgiu em meio à convivência com colegas e professores do Curso de História do Unipam (Centro Universitário de Patos de Minas) e pela oportunidade de participação em alguns seminários do Nephispo6 (Núcleo de Estudos em História Política) do Instituto de História da UFU (Universidade Federal de Uberlândia) no decorrer e após a conclusão de minha graduação em História. Naquele momento, tal convivência permeada por várias discussões, foi inclusive um estímulo para o desenvolvimento e escrita da monografia sobre as relações tecidas entre o movimento anarquista e o movimento operário no contexto da chamada Primeira República Brasileira7. 5 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 1. Embora esta citação remeta ao posicionamento do autor em relação às suas crônicas publicadas até 1913, acredito que este posicionamento era extensivo às suas crônicas publicadas até 1920, data do seu falecimento. 6 O NEPHISPO surgiu com o propósito de discutir as relações tecidas entre razão, sentimentos e sensibilidades no processo de ressignificação da História Política. Nesse sentido, este núcleo sempre abrigou pesquisas e pesquisadores sobre anarquismo. Não por acaso, quando da sua criação em 1994, contou com a presença do anarquista Jaime Cubero, então secretário do Centro de Cultura Social de São Paulo, que foi convidado para palestrar sobre “Razão e Paixão na experiência anarquista”. Desde 2010, a professora Jacy Alves de Seixas, coordenadora do referido núcleo, tem organizado as jornadas de discussão “Noitadas Anarquistas”, voltadas para o debate e reflexão sobre a história e historiografia do anarquismo e sua contemporaneidade. 7 Refiro-me, aqui, especificamente às cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, onde, em maior ou menor medida, os anarquistas eram presentes e atuantes no movimento operário. 15 Em meu trabalho monográfico final8, eu indagava basicamente sobre qual teria sido a posição assumida pelos anarquistas face ao “boom” das organizações sindicais criadas e mantidas pelo jovem proletariado brasileiro, composto por trabalhadores imigrantes e nacionais, na expectativa de levar a cabo sua resistência contra o nascente capitalismo industrial que impunha duras condições de vida à classe operária, tais como: baixos salários, longas jornadas diárias, condições inadequadas de trabalho e, aliado a isso, uma superexploração da mão-de-obra infantil e feminina. Recorrendo a fontes de origem bastante diversificada9, foi possível perceber que os anarquistas sindicalistas e os anarco-comunistas, que formavam “as duas correntes mais expressivas”10 do movimento anarquista junto aos trabalhadores, não estavam totalmente de acordo com as prédicas da Confederação Geral do Trabalho francesa11, que serviram de inspiração para o movimento operário brasileiro e de várias outras partes do mundo. Segundo Jacy Alves de Seixas, os sindicalistas revolucionários franceses acreditavam que: O sindicato é considerado como o terreno por excelência de expressão dos antagonismos de classe, por que ele circunscreve o espaço onde se concretiza a reunião dos produtores assalariados [...]. O sindicato é, em vários níveis, o lugar de encontro dos produtores enquanto tais, noção que é uma dos fundamentos do edifício sindicalistarevolucionário, fazendo uma instituição potencialmente revolucionária. Essa concepção do sindicalismo operário resulta, portanto, na célebre fórmula da dupla tarefa imputada aos sindicatos, que toca ao mesmo tempo o reformismo e a revolução. De um lado a importância atribuída às reivindicações e às lutas parciais, que levam a melhorias imediatas à condição operária, a importância das pequenas lutas organizadas e das greves parciais. Por outro lado os sindicatos são considerados como a mola da revolução proletária, como aquilo que colocará um termo à dominação capitalista, preparando e colocando em obra a greve geral expropriadora12. 8 SILVA, Thiago Lemos. Alcances e limites da ação sindical: ecos da crítica de Errico Malatesta no movimento anarquista brasileiro. Monografia (Graduação em História), Unipam, Patos de Minas, 2007. 9 Tratou-se de uma pesquisa realizada em jornais, revistas, panfletos e brochuras da época, pertencentes à minha, então, orientadora Antoniette Camargo de Oliveira. Oliveira tomou contato com esse material, quando foi bolsista de Iniciação Científica, com o projeto Dicionário Histórico-Biográfico do(s) anarquismo(s) no Brasil, entre 1998 e 1999, sob orientação das professoras Christina Roquette da Silva Lopreato e Jacy Alves de Seixas. Para saber mais sobre esse projeto ver: Anarquismo reconstruído. In: Minas Faz Ciência, nº24, Fev, 2006. Disponível em: http://revista.fapemig.br/materia.php?id=413. Acesso em: Julho de 2011. 10 LOPREATO, Christina da Silva Roquette. O Espírito da Revolta: a greve geral anarquista de 1917. São Paulo: Annablume, 2000, p10. 11 Ver: JULLIARD, Jacques. Aunonomie Ouvrière – Études sur le syndicalisme d‟action directe. Paris : Gallimard Le Seuil, 1988. 12 SEIXAS, Jacy Alves de. Memoire et oubli: Anarchisme et Syndicalisme Revoluttionaire au Brésil. Paris: Editions de la Maison des Sciences de l‟Homme, 1992,p.118-119 16 No Brasil, tanto os primeiros, quanto os segundos, concordavam que a ação sindical, um dos canais por excelência da ação direta13, era de suma importância para que os trabalhadores construíssem sua consciência enquanto classe social. Mas discordavam quanto aos alcances e limites dessa ação. Enquanto os anarquistas sindicalistas acreditavam que os trabalhadores deveriam se engajar nas organizações sindicais para conseguir, além de melhorias imediatas, atingirem seus objetivos revolucionários, os anarco-comunistas demonstravam certa resistência quanto a isso, uma vez que temiam que a organização dos trabalhadores por melhorias imediatas acabasse eclipsando o seu objeto maior, ou seja, viabilizar o processo revolucionário que daria cabo da sociedade capitalista e a sua posterior reconstrução em direção ao socialismo14. Por esse motivo, estes propugnavam ser de fundamental importância a existência de uma organização especificamente anarquista, que deveria atuar dentro e fora dos sindicatos para preservar seu caráter anticapitalista. Os debates que ora aproximavam, ora distanciavam anarquistas sindicalistas e anarco-comunistas, foram de suma importância para que eu pudesse compreender a especificidade da experiência sindicalista revolucionária em terras brasileiras. De acordo com as conclusões às quais cheguei com esse trabalho naquele momento, percebi que o sindicalismo revolucionário brasileiro, diferentemente do seu congênere francês, não poderia ser identificado e reduzido ao seu célebre esquema “o sindicalismo basta a si mesmo”15. Em virtude das “relações de força”16 existentes e atuantes no interior do movimento operário, ou seja, em virtude da “função de contraponto 13 Para uma apreciação da ação direta e seu significado sui generis para o anarquismo, ver: GUIMARÃES, Adonile Ancelmo. Anarquismo e ação direta como estratégia ético-política: violência e persuasão na modernidade. Dissertação (Mestrado em História). UFU, Uberlândia, 2008. 14 Esclareço que por socialismo, entendo o socialismo-anarquista, uma das forças políticas ativas no movimento operário desde o século XIX. Para elucidar essa questão, evoco uma definição do próprio Neno Vasco: “ socialismo-anarquista: – doutrina segundo a qual a anarquia é a forma política necessária da sociedade socialista, o anarquismo é o método de ação e o indispensável instrumento de realização do socialismo, tanto no presente como na expropriação final, assim como a socialização é condição essencial para a possibilidade da anarquia; teoria que defende a organização livre e a livre experimentação social, abolindo a violência quer direta (a que é exercida pelo poder político) quer indireta (a que resulta da privação dos meios de produzir, sujeitando-nos aos patrões”. VASCO,Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas.1913,p.65-66. 15 Tema que retoma e atualiza, no Brasil, o debate entre o anarquista-sindicalista francês Pierre Monatte e o anarco-comunista italiano Errico Malatesta durante o Congresso Anarquista de Amsterdam em 1907 . A esse respeito ver: MONATTE, Pierre. Em defesa do sindicalismo; MALATESTA, Errico. Sindicalismo: A crítica de um anarquista; ambos em WOODCOCK, George. Os grandes escritos anarquistas. Porto Alegre: L & PM. 1981. 16 O conceito de relação de forças é inspirado em: SEIXAS, Jacy Alves de. Memoire et oubli: Anarchisme et Syndicalisme Revoluttionaire au Brésil. Paris: Editions de la Maison des Sciences de l‟Homme, 1992. 17 crítico”17, desempenhada pelos anarco-comunistas, o sindicalismo revolucionário não parece ter cortado, jamais, os laços que o unia ao anarquismo18. A atuação do anarquista português Neno Vasco, considerado à época como o “expositor mais lúcido”19 do sindicalismo revolucionário brasileiro, tornou-se então, o meu “fio de Ariadne”. Embora não se tratasse de uma biografia, sem dúvida alguma a análise sobre sua trajetória ajudou, e muito, a compreender melhor essa experiência da qual ele fez parte. Diferentemente, este trabalho intenta justamente escrever uma biografia, ou melhor, alguns fragmentos da biografia de Neno Vasco. Os recortes teóricos e metodológicos que delimitei neste trabalho para a realização desta pesquisa biográfica sobre Neno Vasco me levaram, portanto, à seguinte questão: qual o lugar ocupado pela biografia no interior da historiografia em geral e da historiografia brasileira do movimento anarquista e operário em particular? O descaso da história em relação à biografia parece ter sido, durante muito tempo, uma opinião compartilhada pelas diversas correntes existentes no interior da historiografia contemporânea. Fortemente tocada pelo marxismo e pela Escola dos Annales20, essa historiografia tendeu a anular os indivíduos privilegiando as grandes estruturas econômicas, demográficas, mentais e culturais. Nesse sentido, não foi por acaso que a crítica à biografia dita tradicional assumiu uma frente importante nos combates contra a história tradicional, que se encontrava naquele momento, atrelada aos acontecimentos, à narrativa factual e às grandes personalidades da política. A despeito das inúmeras diferenças existentes entre historiadores marxistas e historiadores dos Annales, é perceptível que os seus esforços interpretativos se encontram ao privilegiarem o sujeito coletivo como paradigma de análise. Valendo-se 17 SEIXAS, Jacy Alves de. Memoire et oubli: Anarchisme et Syndicalisme Revoluttionaire au Brésil. Paris: Editions de la Maison des Sciences de l‟Homme, 1992, p. 128. 18 Em virtude disso, me afasto da hipótese de Edilene Toledo, que mesmo tendo tido o mérito de destacar que sindicalismo revolucionário não era sinônimo de anarco-sindicalismo, incorre no erro de minimizar o papel dos anarquistas no processo de construção do sindicalismo revolucionário brasileiro. A esse respeito, ver: TOLEDO, Edilene Terezinha. Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário: a experiência de trabalhadores e militantes em São Paulo na Primeira República. São Paulo: Perseu Abramo, 2004. Para uma crítica de Toledo ver: SAMIS, Alexandre Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009. 19 FAUSTO, Boris. Trabalho urbano e conflito social. São Paulo: Difel, 1997, p. 89. 20 A esse respeito cabe um adendo, pois historiadores, de ofício ou não, vinculados às duas escolas historiográficas sempre demonstraram certo interesse pela biografia, mas, esse interesse se justificava apenas na medida em que o indivíduo biografado fosse, mais ou menos, representativo de um grupo, segmento ou classe social, o que posteriormente ficou conhecido por “biografia modal”. Sobre os Annales, ver: DUBY, Georges. Guilherme Marechal ou o Melhor Cavaleiro do Mundo. Rio de Janeiro, Graal, 1987; FEBVRE, Lucien. Martin Lutero: un destino. México: Fondo de Cultura Economica, 1956. Sobre o marxismo ver: BASSO, Lelio. El pensamiento político de Rosa Luxemburg, Barcelona: Península, 1976; MEHRING, Franz. Carlos Marx, História de su vida. Barcelona: Grijalbo, 1983. 18 de conceitos como classe social e mentalidade, tais historiadores colaboraram, direta ou indiretamente, para a construção de um sujeito coletivo que se firmou e se impôs apagando os sujeitos individuais. O que não é de se espantar, uma vez que estes historiadores “estavam interessados em sociedades, e não em indivíduos, e confiavam que se poderia chegar a uma „história cientifica‟ que, com o tempo, criaria leis generalizadas para explicar a transformação histórica”21. Essa situação começaria a mudar somente por volta de 1980. A partir da referida década, passamos a assistir, talvez em escala internacional, a um fenômeno denominado “renascimento” biográfico, que à semelhança de um furacão deixou a história totalmente abalada. Para além do abalo causado, o renascimento biográfico ajudou a perceber a “crise” pela qual a história estava passando22 e obrigou, segundo Lawrence Stone, os historiadores: [...] a voltar ao princípio da indeterminação, ao reconhecimento de que as variáveis são tão numerosas que, na melhor das hipóteses, apenas generalizações de médio alcance são possíveis na história, como sugeriu Robert Merton há muito tempo atrás. O modelo macroeconômico é um castelo no ar, e a „história científica‟ é um mito. Explicações monocausais simplesmente não funcionam. O emprego de modelos de explicação em feed-back, construídos em torno de „afinidades eletivas‟ weberianas, parece oferecer instrumentos de melhor qualidade para revelar algo da verdade fugidia sobre a causação histórica, especialmente se abandonamos qualquer pretensão de que essa metodologia seja, em qualquer sentido, científica23. Portanto, não é nada fortuito que a crise da história tenha coincidido com o renascimento biográfico. Já que “a desilusão com o determinismo monocausal econômico ou demográfico e com a quantificação levou os historiadores a começarem a colocar um leque de questões totalmente novas”. Depois disso, “um número cada vez maior dos „novos historiadores‟ vem tentando agora descobrir o que se passava na 21 STONE, Lawrence. O ressurgimento da narrativa: reflexões sobre uma nova velha história. In: Revista de História, nº 2/3. IFCH, Unicamp, 1991, p. 15. 22 Além da biografia, é mister assinalar que outros objetos, antes relegados pelos historiadores, contribuíram de igual maneira para a percepção da chamada “crise da história”, tais como: a narrativa, a política, o cotidiano, entre outros. Sobre essa questão ver: STONE, Lawrence. O ressurgimento da narrativa: reflexões sobre uma nova velha história. In: Revista de História, nº 2/3. IFCH, Unicamp, 1991. 23 STONE, Lawrence. O ressurgimento da narrativa: reflexões sobre uma nova velha história. In: Revista de História, nº 2/3. IFCH, Unicamp, 1991, p. 24-25. 19 cabeça das pessoas no passado, como era viver naqueles tempos”24. Questões que ajudaram, e muito, a despertar nos historiadores o interesse pela biografia. No entanto, tal renascimento apareceu muitas vezes, disfarçadamente, sobre o nome de “volta”, supondo que a (re)utilização da biografia pela história, significasse uma retomada do método biográfico tradicional. O divórcio entre a biografia e a história tradicional parecia, desse modo, ser um evento difícil, quiçá impossível, de se operar. Nesse sentido, é possível entender, ao menos em parte, a dureza das críticas que Pierre Bourdieu dirigiu aos cientistas sociais, e que sem sombra de dúvida são também extensivas aos historiadores, sobre a utilização do gênero biográfico. Para Bourdieu, estes últimos tombavam frequentemente, no erro de descrever a vida do indivíduo: [...] como um caminho, uma estrada, uma carreira, com suas encruzilhadas [...] seus ardis, até mesmo suas emboscadas. [...] ou como um encaminhamento, isto é, um caminho que percorremos e que deve ser percorrido, um trajeto, uma corrida, um cursus, uma passagem, uma viagem, um percurso orientado, um deslocamento linear, unidirecional. [...] que tem um começo („uma estréia na vida‟), etapas e um fim, no duplo sentido de término e de finalidade („ele fará seu caminho‟ significa ele terá êxito, fará uma bela carreira), um fim da história25. De acordo com o sociólogo francês, essa noção segundo a qual a vida de um indivíduo se insere dentro de um curso linear e contínuo, traz consigo premissas que podem redundar em conclusões bastante perigosas: a existência de um eu individual coerente e harmônico. Analisando a literatura moderna, Bourdieu registra que os grandes escritores, de Shakespeare a Proust, não fizeram mais do que colocar em questão a existência desse eu individual coerente e harmônico. A partir de uma nova apreciação da temporalidade histórica, apresentada no seu caráter intermitente e descontínuo, esses escritores revelaram um eu individual atravessado por contradições e conflitos. Para tornar inteligível esse eu individual contraditório e conflituoso, Bourdieu se apropria do conceito de habitus e faz dele a ferramenta metodológica para esse empreendimento. Homologando as condutas individuais e as condutas sociais, o 24 STONE, Lawrence. O ressurgimento da narrativa: reflexões sobre uma nova velha história. In: Revista de História, nº 2/3. IFCH, Unicamp, 1991, p. 25. 25 BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, Marieta; AMADO, Janaína. Usos e Abusos da História Oral. Rio de janeiro, FGV, 2001, p. 183-184. 20 sociólogo francês concluiu que a diversidade assumida pelas condutas dos indivíduos reflete a diversidade existente nas estruturas da sociedade. Já que: [...] tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outro vínculo que não a associação a um „sujeito‟ cuja constância certamente não é senão aquela de um nome próprio é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto no metrô sem levar em conta a estrutura da rede, isto é, a matriz das relações objetivas entre as diferentes estações26. Em que pesem às contribuições de Bourdieu, que foram de fundamental importância para a problematização das relações tecidas entre biografia e história, pode se perceber algumas limitações de sua conclusão no que concerne à questão aqui perseguida. Hoje, não restam muitas dúvidas de que o objetivo visado pela biografia não é apenas a reconstituição de um contexto individual, mas, igualmente, de um contexto social. Todavia, parece que Bourdieu não concebe a possibilidade de realizar essa empreitada fora do marcos dos conceitos de representação e representatividade, os quais, aliás, estiveram durante muito tempo atrelados a uma historiografia que utilizava, mesmo que de forma desconfiada, o gênero biográfico, através do que posteriormente ficou conhecido como biografia modal. Portanto, através dessa crítica, o sociólogo tende, de acordo com Sabina Loriga, “a homologar as condutas individuais e a reforçar os laços normativos, a força do habitus”27. Procedendo de tal maneira, Bourdieu parece não conseguir encontrar uma resposta satisfatória para a questão do papel que a liberdade do indivíduo assume na sociedade e, por conseguinte, na história. Para Loriga, embora seja absurdo falar na oposição indivíduo-sociedade, não parece menos absurdo falar que as condutas individuais possam ser reduzidas às condutas sociais. Com efeito, é necessário salientar que essa liberdade do indivíduo não é absoluta: mesmo que socialmente construída , ela é, contudo, uma liberdade, liberdade que as brechas existentes em todo e qualquer sistema normativo deixam aos indivíduos. A partir dessa reconsideração no que tange ao papel ocupado pelo indivíduo na sociedade, pode-se vislumbrar outra possibilidade para a utilização da biografia na pesquisa histórica. 26 BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, Marieta; AMADO, Janaína. Usos e Abusos da História Oral. Rio de janeiro, FGV, 2001, p. 189-190. 27 LORIGA, Sabina. A Biografia como problema. In: REVEL, Jacques. Jogos de Escala - a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: FGV, 1998, p. 246. 21 Longe de considerar a biografia apenas como um recurso que, em falta de algo melhor, serviria no máximo para ilustrar uma situação, como se as relações entre o indivíduo biografado e o contexto histórico fossem essencialmente harmônicas. Muito pelo contrário, segundo essa abordagem, a qual a autora chama de biografia coral, a biografia viria justamente romper com as homogeneidades aparentes e revelar os descompassos latentes que existem nas relações entre as partes e o todo. Na sua avaliação: Numa tal perspectiva, elaborada nos últimos anos [...] não é necessário que um indivíduo represente um caso típico; ao contrário vidas que se afastam da média levam a refletir melhor sobre o equilíbrio entre a especificidade do destino pessoal e o conjunto do sistema social [...] Apenas um grande número de experiências permite levar em consideração duas dimensões fundamentais da história: os conflitos e as potencialidades28. As duas dimensões fundamentais da história, acima colocadas pela autora, servem “para se interrogar não apenas sobre o que foi, sobre o que aconteceu, mas também sobre as incertezas do passado e as possibilidades perdidas”29. A princípio, nada pode ser e parecer mais paradoxal do que a pertinência de escrever a biografia de um militante do movimento anarquista e/ou operário. Afinal de contas, como entender o individual dentro de um contexto que destaca, sobretudo, o coletivo. Esse paradoxo se reforça ainda mais, principalmente se for levado em consideração o fato de que o entendimento do proletariado enquanto sujeito coletivo, foi o fio condutor de todas as análises até então promovidas pela historiografia30. Durante muito tempo, em virtude de tal sujeito coletivo, “as individualidades foram simplesmente afastadas ou anuladas da memória operária”31. No entanto, paradoxalmente ou não, muitos historiadores têm voltado a sua atenção para as trajetórias de vida desses homens e mulheres que, de uma maneira ou outra, participaram da organização e das lutas da classe operária. Interesse este que pode ser medido ou aquilatado pela redação e publicação dos inúmeros trabalhos que têm 28 LORIGA, Sabina. A Biografia como problema. In: REVEL, Jacques. Jogos de Escala - a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: FGV, 1998, p. 247. 29 LORIGA, Sabina. A Biografia como problema. In: REVEL, Jacques. Jogos de Escala - a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: FGV, 1998, p. 246-247. 30 Com especial destaque para os seguintes trabalhos: FAUSTO, Boris. Trabalho urbano e conflito social (1890 – 1920). São Paulo: Difel, 1986 e FERREIRA, Maria de Nazareth. A imprensa operária no Brasil: 1880-1920. Petrópolis: Editora Vozes, 1978. 31 SEIXAS, Jacy Alves. Aspectos teóricos do Dicionário Histórico-Biográfico do(s) Anarquismo(s). In: Anais do XI Encontro Regional de História, 1998, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, p. 248. 22 sido editados nas últimas décadas. Logo, aqueles nomes que tradicionalmente se diluíam e se apagavam em virtude do chamado sujeito coletivo, ganharam rosto e personalidade ao terem suas vidas pesquisadas, conhecidas e problematizadas. Amparados no enfoque teórico e metodológico que a biografia trouxe, ainda que partindo de perspectivas as mais diversas, surgiram vários trabalhos apresentando o perfil multifacetado dos militantes anarquistas e operários. Já que, como coloca Seixas: Uma biografia, ou mesmo um conjunto delas, dificilmente pode pretender ser intérprete de um movimento político, de uma época do movimento operário e, principalmente intérprete da ação (muitas vezes marcada pela multiplicidade) de outros militantes.32 Assim sendo, o militante anarquista poderia muito bem ser o sindicalista, como mostra Yara Aun Khoury33 em seu trabalho sobre Edgard Leuenroth e ainda Edilene Toledo34 em seu trabalho sobre Giulio Sorelli. Mas, poderia também ser o anticlerical Oreste Ristori, como aponta Carlo Romani35, ou então a feminista Maria Lacerda de Moura, como indica Jussara Valéria Miranda36. Em alguns trabalhos, o militante anarquista se desloca no interior da sua própria atividade e, com isso, chega até mesmo a assumir mais de um perfil. Como sublinha, por exemplo, Rogério Humberto Nascimento37 em seu livro sobre Florentino Carvalho, que além de um ativista sindical, era professor nas escolas modernas ou racionalistas em São Paulo e Santos. Semelhante é o que se passa com Gigi Damiani. Segundo seu biógrafo Luigi Biondi 38, Damiani militou em organizações operárias, foi um profícuo jornalista e chegou até mesmo a escrever romances com fundo social. Esses trabalhos testemunham fartamente que o movimento anarquista e operário brasileiro foi construído de forma radicalmente plural e heterogênea, a partir da ação de vários e diferentes sujeitos individuais, que não podem, portanto, ser mais reduzidos a 32 SEIXAS, Jacy Alves. Aspectos teóricos do Dicionário Histórico-Biográfico do(s) Anarquismo(s). In: Anais do XI Encontro Regional de História, 1998, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, p. 249. 33 KHOURY, Yara Aun. Edgard Leuenroth: uma vida e um arquivo libertários. In: Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 17, n. 33, p. 113-149, 1997. 34 TOLEDO, Edilene Terezinha. Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário: a experiência de trabalhadores e militantes em São Paulo na Primeira República. São Paulo: Perseu Abramo, 2004. 35 ROMANI, Carlo. Oreste Ristori. Uma aventura anarquista. São Paulo: Annablume, 2002. 36 MIRANDA, Jussara Valéria. Recuso-Me: Ditos e Escritos de Maria Lacerda de Moura. Dissertação (Mestrado em História), UFU, Uberlândia, 2006. 37 NASCIMENTO, Rogério Humberto Zeferino. Florentino de Carvalho: pensamento social de um anarquista. Rio de Janeiro: Achiamé, 2000. 38 BIONDI, Luigi. Na construção de uma biografia anarquista: os anos de Gigi Damiani no Brasil. DEMENICIS, Rafael Borges; REIS, Daniel Aarão. In: História do Anarquismo no Brasil, Niterói: EDUFF, Rio de Janeiro: MAUAD, 2006. 23 um único e homogêneo sujeito coletivo. Não se trata evidentemente de cair no absurdo de negar a existência da relação entre o individual e o social, presente em todo e qualquer trajeto de natureza biográfica, como colocou corretamente Pierre Bourdieu. Mas, sim, de repensar essa relação sem homologar de imediato um e outro, procurando interpelar cada um na sua singularidade e interação, como colocou de modo não menos correto Sabina Loriga no seu diálogo com (e contra) Bourdieu. *** A trajetória de Neno Vasco constitui um caso bastante elucidativo para se compreender a relação (sempre plural e heterogênea) entre as instâncias individuais e coletivas no interior do movimento anarquista e operário a partir de uma perspectiva biográfica. Trajetória, que, em muitos aspectos se assemelha certamente, mas em outros se diferencia sensivelmente da daqueles com quem ele compartilhou a militância seja no Brasil (1901-1911), seja em Portugal (1911-1920), durante os quase vinte anos de sua vida de ativista, permanecendo, a rigor, irredutível a classificações prontas e acabadas. Mas no que ela se assemelha e no que ela se diferencia? Assim como muitos anarquistas engajados com o movimento operário, Neno Vasco defendeu com veemência a necessidade da ação e organização sindical. Entretanto, por causa do seu temperamento avesso a todo e qualquer embate público, ele nunca foi nenhum animador da vida sindical. Como mostra Alexandre Samis39 em seu pioneiro e instigante trabalho sobre este anarquista, Neno não era uma figura presente nas ligas de resistência, nunca pedia a palavra nos meetings públicos e nem era um frequentador assíduo dos congressos anarquistas e operários realizados. Foi, portanto, através dos jornais vinculados à imprensa anarquista que ele marcou sua presença no movimento operário dos dois respectivos países. Dono de uma prosa invulgar, ele se destacou enquanto jornalista , mas, igualmente enquanto autor de peças teatrais, traduções de romances, contos, poesias e crônicas, onde se evidencia o seu ativismo no vasto horizonte abarcado pela ação e propaganda anarquistas: na criação de uma estratégia sindical de ação direta, no engajamento com a causa anticlerical, na construção de uma tribuna antimilitarista, na preocupação com a emancipação feminina, na luta pela pedagogia libertária ou racional, entre outras facetas 39 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009. Deste autor, utilizo também o artigo SAMIS, Alexandre. Uma Fração da Barricada: Neno Vasco e os grupos anarquistas no Brasil e Portugal. Socius Working Papers. n.1, Lisboa, 2004. 24 que colaboraram, e muito, para conferir o tom anarquista que caracterizou o movimento operário do lado de cá e do lado de lá do Atlântico, neste período. E é verdade que Neno Vasco não se deixa classificar facilmente. Ele mesmo deixa escapar uma pista, que, indiretamente, pode fornecer os elementos necessários para se entender as dificuldades em cartografar a sua vida/obra. Vejamos mais de perto no que ela consiste. Em março de 1904, as páginas da revista anarquista do Rio de Janeiro Kultur (1904) registram o início de um assíduo e fervoroso debate entre Elyseo de Carvalho e Neno Vasco sobre o movimento anarquista no Brasil, onde Elyseo de Carvalho arrola e classifica Neno como o líder dos dez mil anarco-comunistas da cidade de São Paulo. A resposta a Elyseo não tardou muito para aparecer. Nela, Neno enuncia o seguinte comentário: Dez mil comunistas! E eu no meio de tanta gente [...] Uff! Deixem me sair, dêem me licença meus senhores. Tenho sempre evitado os ajuntamentos: sofro de falta de ar e o calor e a poeira me incomodam. [...] o melhor seria talvez ter me deixado desclassificado, pairando no vago, no indeciso, nem sim nem não, antes pelo contrário, numa indeterminação de nebulosa, em pleno céu azul sob, sob o sol claro40. Como se pode evidenciar é difícil, quiçá impossível, classificar rigorosamente Neno Vasco. A despeito (ou precisamente em razão) disso pode-se indagar: Será que a originalidade da sua contribuição ao movimento anarquista e ao movimento operário não reside justamente nas tensões que atravessam sua prática e pensamento? Será que sua recusa em aceitar uma classificação, ou melhor, de ser e permanecer um “desclassificado”, não traduz o seu esforço para romper com os esquemas prontos e acabados de ação política? Será que a sua opção por agir em vários lugares e de várias maneiras não significa uma tentativa de diversificar e ampliar o campo da militância anarquista? Nesse sentido, a noção de “excepcional-normal”41 tal como a formula Loriga viria exprimir com justeza o caráter ambivalente contido na trajetória de Neno. Embora ele partilhasse as mesmas estruturas sociais com outros indivíduos com quem militou, o que constitui uma espécie de pano de fundo para o desenrolar de sua vida, ele experimentou de forma singular essas mesmas estruturas, o que sugere que a excepcionalidade se colocou sempre como norma em sua trajetória. 40 VASCO, Neno. Individualismo + Comunismo: (carta dum classificado). In: Kultur, Abril de 1904. LORIGA, Sabina. A Biografia como problema. In: REVEL, Jacques. Jogos de Escala - a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: FGV, 1998, p. 248. 41 25 *** Para além da possibilidade de acompanhar o trajeto de Neno Vasco a partir do seu próprio cotidiano, a escolha das crônicas enquanto fonte privilegiada para a realização desta pesquisa se deu em virtude de a escrita cronística possibilitar ao meu biografado uma forma de escrita de si, permitindo, por sua vez, a este biógrafo encontrar uma chave para adentrar não somente a porta da história do movimento anarquista e operário no continente europeu, mas, também, e, sobretudo, a porta da sua história de vida. As crônicas publicadas no livro Da Porta da Europa em 1913 recobrem o período que vai de 1911 a 1912. Trata-se de uma seleção que se concentrou nos principais órgãos da imprensa anarquista e operária do Brasil e de Portugal, pelos quais circulou boa parte da produção literária de Neno Vasco no período posterior a sua travessia para o outro lado do Atlântico. O roteiro inicial do livro começa com o jornal A Lanterna42 (1911-1916), de São Paulo. Do Rio de Janeiro e de Porto Alegre, temos as crônicas publicadas respectivamente nos jornais A Guerra Social (1911-1912) e O Diário (1909-1912). As crônicas publicadas nas revistas A Aurora (1910-1920), do Porto, e A Sementeira (1908-1913) de Lisboa fecham esse roteiro43. As crônicas publicadas na imprensa anarquista e operária no Brasil e em Portugal recobrem um período maior, que se inicia em 1911, mas se prolonga até 1920. Nesse período, encontramos crônicas publicadas nos mesmos jornais de onde Neno extraiu as crônicas publicadas outrora em seu livro. Porém como alguns deles, tais como: A Lanterna, A Aurora e A Sementeira continuaram circulando no período posterior à publicação do livro, Neno Vasco prosseguiu atuando como cronista neles. As crônicas publicadas nos jornais que iniciaram sua circulação após 1913 aparecem em: A Terra Livre (1913-1913) e A Batalha (1919-1927), ambos de Lisboa, A Plebe (1917-1919) de São Paulo e Spartacus do Rio de Janeiro (1919-1920). Se, de fato, a escrita cronística assume a forma da escrita de si em Neno Vasco, constituindo uma chave que permite adentrar a porta da sua história de vida, resta levantar uma questão que permanece essencial: como manejá-la? Em linhas gerais, a 42 Embora o livro tivesse recebido o mesmo nome que a coluna de crônicas publicadas no jornal A Lanterna: Da Porta da Europa, o livro traz crônicas que foram originalmente publicadas em outros jornais com os quais Neno colaborava. Além das crônicas publicadas nesta coluna, ele também publicava crônicas na coluna Sermões ao Ar Livre, sob o pseudônimo de Zeno Vaz. Diferentemente das crônicas publicadas em Da Porta da Europa, as crônicas publicadas em Sermões ao Ar Livre versavam apenas sobre anticlericalismo. 43 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 01. 26 trajetória histórica percorrida pela crônica evidencia várias significações, abarcando e recobrindo territórios os mais diversos: inicialmente a historiografia, posteriormente, a literatura, e por fim o jornalismo. Já que Neno parece escrever em sintonia com o seu tempo, o que irá nos interessar é a crônica segundo versão moderna. Na sua versão moderna, mais especificamente ao longo do século XIX, o conceito de crônica passa por significativas e substanciais mudanças, que irão incidir tanto na sua forma quanto no seu conteúdo. Em virtude da assimilação dos ideais modernos, os cronistas irão reestruturar seus textos, buscando novas formas que fossem capazes de captar o conteúdo das novas relações sociais, marcadas cada vez mais pela complexidade e fragmentação. Para David Arriguci: A crônica é ela própria um fato moderno, submetendo-se aos choques da novidade, ao consumo imediato, às inquietações de um desejo sempre insatisfeito, à rápida transformação e fugacidade da vida moderna, tal como esta se reproduz nas grandes metrópoles do capitalismo industrial e seus espaços periféricos44. O romantismo se torna, portanto, a pedra de toque identitária da escrita cronística, já que os escritores filiados a este movimento serão os responsáveis pelos novos lineamentos do perfil a partir do qual a crônica passará a ser produzida. Com a valorização desses novos códigos literários, os cronistas passam a dar maior atenção à imaginação, à questão da enunciação, à construção verbal, entre outros fatores que irão ligar e atar definitivamente os cronistas à literatura, transformando, desse modo, o gênero crônica em um gênero literário. Além das mudanças que se deram a nível estético, também se processarão mudanças na forma como a crônica passará a ser publicada. Com a transformação dos jornais em instrumentos de informação e debate, com uma grande tiragem, ela se transforma numa sessão de jornal, cujo único critério para a publicação a ser levado em consideração é a periodicidade. Essa sessão se chama rodapé (como o próprio nome sugere: ao pé da página), no qual a crônica passa a ser publicada ao lado de outros textos: contos, romances e críticas literárias. Segundo Wellington Pereira: 44 ARRIGUCI, David. Enigma e comentário. Ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 53. 27 [...] É no rodapé, já no século XIX, que a crônica passa a ser redefinida. Mas, alguns estudiosos, ou mesmo os escritores que a praticavam confudem-na, ainda mais, como o espaço jornalístico, passando a denominá-la, também, folhetim, pelo simples fato de ambos serem publicados em rodapés45. A crônica passa então a ser confundida, ou melhor, tomada como sinônimo do folhetim. O folhetim nasceu na França e se alastrou para outras partes do globo, numa clara e aberta tentativa de apropriação desta modalidade de arte que surgiu no continente europeu. Destarte, o folhetim trazia consigo a possibilidade de narrar os fatos diários, pressupondo um leitor inserido numa sociedade em vias de industrialização. Nesse momento, ou seja, século XIX, o folhetim se politiza e passa a assumir uma postura crítica e contestadora, utilizada pela burguesia na luta contra a aristocracia, que irá encontrar no jornal o espaço ideal para esse empreendimento. Nos jornais com os quais Neno Vasco colaborou enquanto cronista também havia uma sessão específica voltada para a redação e publicação de textos determinados como literários, apontando, desse modo, a existência de uma filiação com o folhetim francês, tal como foi sublinhado por Claudia Baeta Leal. É certo que essa determinação tem muito a ver com a origem do folhetim e sua relação com o rodapé das páginas dos jornais, constantemente reafirmado, desde o começo do século XIX, na França, como um espaço vazio destinado ao entretenimento. Na imprensa anarquista e operária este aspecto persistiu e o rodapé, sempre que marcado, recuperou a tradição do folhetim francês46. Nesse sentido, é interessante analisar como se dá a inscrição desse espaço na imprensa anarquista e operária, no sentido de trazer à tona os aspectos que a diferenciam e identificam em relação à imprensa burguesa, com que ela evidentemente dialoga, para depois poder se demarcar. Embora sua crônica sempre aparecesse numa sessão específica nos periódicos em que foi publicada, essa sessão, entretanto, nunca ocupou o espaço do rodapé do jornal, espaço que era via de regra destinado à publicação de outros gêneros literários, tais como o romance e o conto, através de folhetins seriados. Diferentemente, ela era publicada em uma coluna vertical situada no centro da primeira ou segunda página, ocupando quase a metade do seu tamanho. É sugestivo, 45 PEREIRA, Wellington. Crônica: a arte do útil e do fútil: ensaio sobre a crônica no jornalismo impresso. Salvador: Calandra, 2004, p. 33. 46 LEAL, Claudia Baeta. Anarquismo em Prosa e Verso: Literatura e Propaganda Anarquista na Imprensa Libertária de São Paulo durante a Primeira República Dissertação (Mestrado em História), Unicamp, Campinas 1999,p. 110. 28 porém não conclusivo, que essa preferência em publicar suas crônicas em um local de maior visibilidade nos jornais se dê em virtude de esse gênero literário figurar como a modalidade de intervenção escrita que se encontraria mais em sintonia com o ritmo da imprensa militante: Longe do andamento figurativo e esquemático do romance humanitário aberto às teses anarquistas (heróis redentores, moralismo purificador, humanismo artificial do locus amoenus), impunha-se o registro da opressão cotidiana que transformava a palavra em instrumento de sobrevivência, experimentando a narrativa curta na percepção do flagrante47. Ao experimentar a narrativa curta, o cronista Neno Vasco consegue perceber o flagrante no momento da sua consecução. Desse modo, o assunto da sua escrita, pode surgir de forma ocasional, e ir preenchendo a pauta do jornal a partir das demandas que, segundo ele, sejam importantes para a militância: [...] a denúncia de maus tratos nas fábricas, a comemoração de um evento revolucionário, o confronto com a repressão, o registro quase expressionista da miséria, a imagem corrosiva da cena burguesa, a caricatura impiedosa dos inimigos da causa, com ênfase para o burguês, o militar e o padre48. Para indagar corretamente sua crônica é impossível não deixar de relacioná-la com o jornal, do qual foi parte integrante enquanto sessão desde o seu nascedouro. Tomado como veículo de informação e discussão política pelo anarquista, é ele que fornece o registro dos acontecimentos cotidianos, que constituem na sua essência, a matéria prima a partir da qual a crônica é feita. N‟ A Entrada do seu livro, essa íntima relação tecida entre a crônica e o jornal é retomada e realçada: Nesta época de transição, de grande e desesperado embate de idéias e de métodos, são úteis todas as contribuições sinceras; e eu entendi que o ponto de vista socialista e libertário, aplicados aos acontecimentos de cada dia, necessita de ser ouvido fora dos débeis e minguados meios de publicidade que constituem o magro quinhão dos ideais servidos por gente pobre, e por isso mesmo privada das essenciais liberdades [...] Se, portanto não é uma obra metódica e coordenada, 47 PRADO, Arnoni; HARDMAN, Foot. Apresentação. PRADO, Arnoni; HARDMAN, Foot; LEAL, Claudia (Orgs). Contos Anarquistas: temas & textos da prosa libertária no Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 16. 48 PRADO, Arnoni; HARDMAN, Foot. Apresentação. IN:PRADO, Arnoni; HARDMAN, Foot; LEAL, Claudia (Orgs). Contos Anarquistas: temas & textos da prosa libertária no Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 20. 29 tem ao menos a desculpa de maior viveza e combatividade a vida de atual escaramuças e às necessidades urgentes da batalha de ideias49. Em virtude de ser feita no e para o jornal, uma vez que se destina inicial e precipuamente a ser lida nele, sua crônica mostrar-se-ia de uma ambivalência incontornável. Enquanto sessão de um instrumento como o jornal ela parece, a princípio, destinada a pura contingência, mas acaba travando com esta um arriscado duelo, do qual, de vez em quando, pode sair vitoriosa. Em razão da sua proximidade com o acontecimento miúdo do dia a dia, Neno se vê às voltas com o dilema de saber como superá-lo. Se não quiser cair no esquecimento junto com ele deve procurar uma saída. Via de regra, essa saída é encontrada pelo nosso biografado na literatura, mesmo que as margens de sua terra firme possam parecer demasiado imprecisas. É que rigorosamente falando a forma que a crônica assume sob a pena de Neno Vasco é bastante problemática, já que o seu caráter amplo e diversificado parece borrar as linhas que demarcam a fronteira com outros gêneros literários. Em alguns momentos a sua crônica se aproxima da crônica histórica, primeira forma que a escrita cronística tomou para si. Incorporando a verve dos cronistas à moda antiga, na realidade os seus antepassados, ele se põe a narrar fatos já distantes no tempo e no espaço, rememorando a fundação da Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores, bem como da participação dos anarquistas neste importante acontecimento50; ou do conto, pela ênfase na objetivação de um mundo recriado imaginariamente. Valendo-se de uma prosa de ficção, Neno propõe ao parlamento português um projeto de lei, em que os deputados sejam pagos apenas pelos seus eleitores51; também da lírica. Aí, é como se o cronista cedesse lugar ao poeta, que canta sobre a beleza das flores desabrochando durante a primavera lisboeta52; ainda das memórias, em que ele relata alguns fatos da sua biografia, tal como a chegada em sua terra natal após um interregno de quase dez anos de ausência53; de igual maneira, da sátira, onde Neno ridiculariza e ironiza o engajamento dos filhos de Eça de Queiroz, autor de várias obras anticlericais, nas campanhas realistas pela revogação da lei que previa o fim da separação entre Estado e Igreja em Portugal. Segundo ele, tal situação se aparentava com o fim do seu romance Os Maias, com um tom grotesco a mais, é 49 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 01. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p.207. 51 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913,p.54. 52 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913,p.22. 53 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913,p.17. 50 30 claro54; e ainda do ensaio filosófico; em que ele, face ao dogmatismo assumido pelos republicanos, tece reflexões profundas sobre a tolerância que, em sua avaliação deveria ser a pedra de toque de todo e qualquer pensamento que aspira à liberdade. Estribado no ceticismo sorridente do “fino e amável rabelesiano” Anatole France, o anarquista situava a tolerância, entre a dúvida e a ação. Em um mundo onde a única verdade absoluta é a de que a verdade absoluta não existe, a dúvida seria a virtude mais condizente com condição do homem. Dessa dúvida, nasceria a ação que viria confirmar ou negar as hipóteses levantadas. A tolerância, por sua vez, seria o laço que uniria a virtude salutar da dúvida, com a suprema necessidade da ação, segundo as normas da convicção previamente formada, porém, gradualmente modificada pela experiência.55; Entre tantos outros gêneros literários de caráter limítrofe cuja fisionomia é difícil de precisar... Esse trânsito entre um gênero e outro, mesmo que esteja escrevendo apenas uma crônica, testemunham as qualidades propriamente literárias do texto de Neno Vasco, que, ao longo da sua trajetória, se destacou não somente enquanto cronista, mas, ainda enquanto contista56, dramaturgo57, poeta58, crítico literário59 e ensaísta60, demonstrando possuir uma concepção estética distinta da dos seus companheiros de militância, tal como ele a expressou numa crônica publicada no jornal lisboeta A Sementeira, quando do falecimento do escritor francês Octave Mirbeau. Mesmo temendo correr o risco “de ofender a opinião dominante” entre seus amigos e, com isso, cair em “seu alto conceito”, Neno releva não ter “excessivo entusiasmo” pelas obras de Emile Zola, cuja preocupação excessiva com a tese acaba criando personagens “ou incompletos, ou excepcionais ou falsos”, como ocorre aliás, em sua avaliação, com os anarquistas representados em seus romances “Germinal, Paris, Roma e Trabalho”61. A este, Neno diz preferir decididamente Octave Mirbeau, em que “não se nota demasiadamente a preocupação da tese, escolho onde vão soçobrar 54 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913p.108. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913p. 164. 56 PRADO, Arnoni; HARDMAN, Foot; LEAL, Claudia (Orgs). Contos Anarquistas: temas & textos da prosa libertária no Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 2011. 57 VASCO, Neno. O Pecado da Simonia. São Paulo: Centro Editor Juventude do Futuro, 1920; VASCO, Neno. Greve dos Inquilinos. Lisboa: Editora de A Batalha, 1923. 58 KHOURY, Yara Aun (Org.). Poesia Anarquista. In: Revista Brasileira de História, São Paulo, nº 15, 1988. 59 Neno Vasco publicou críticas e resenhas literárias na sessão Pelas Publicações, do jornal A Lanterna de São Paulo, durante a segunda fase em que circulou (1909-1916). 60 VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984. 61 VASCO, Neno. Octave Mirbeau. A Sementeira, Lisboa. 12/05/1917. 55 31 tantas tentativas de arte revolucionária”. Segundo ele, Mirbeau parece apenas pintar um quadro da vida social, no qual arremessa para a tela manchelas de tinta, que tende sublinhar as suas taras “com traços caricaturais de extrema violência”. Em seu romance o “O Jardim dos Suplícios” é possível entrever essa vontade de “ferir os esteios da sociedade de rapina e de violência que dispõe o mundo”62. De acordo com o anarquista, no entanto, esses diferentes pensamentos e sensibilidades presentes na mentalidade dos dois artistas acabam gerando uma espécie de dicotomia entre arte e política, entendidas como modos exclusivos de atividade, obrigando-os a escolherem ou pela beleza artística ou pelo engajamento político. Em face desse dilema, Neno confessa: “permito-me preferir as duas coisas”63. Assim entendida, ele acreditava que a arte: [...] mesmo sem pretensões a propaganda nem catequização, colabora com os militantes revolucionários, se é posta ao alcance do povo [...]. Comovendo-nos, aperfeiçoando-nos o sentimento ela torna-nos mais sensíveis e sociáveis criando novas necessidades superiores, delicados e finos sucedâneos dos prazeres brutais e animalescos, fomenta a revolta contra uma organização social em que essas necessidades não são amplamente satisfeitas64. Como se pode evidenciar, as fronteiras entre o artista e o militante não estavam rigidamente delimitadas. Pois, ao empunhar sua pena ele o faria tanto como militante quanto como artista, instâncias que se colaram e se colocaram de tal forma, que se torna hoje quase impossível realizar qualquer tipo de partilha. Constatação aparentemente banal, mas, que se reveste de grande importância na medida em que evidenciamos a originalidade com a qual Neno se apropriou dela, fato pouco sublinhado pela historiografia que se ocupou da produção literária criada e difundida pelo movimento anarquista e operário65. 62 VASCO, Neno Octave Mirbeau. A Sementeira, Lisboa. 12/05/1917, nº. 17. VASCO, Neno. Octave Mirbeau. A Sementeira, Lisboa. 12/05/1917, nº. 17. 64 VASCO, Neno. Octave Mirbeau. A Sementeira, Lisboa. 12/05/1917, nº. 17. 65 De acordo com Antônio Arnoni Prado e Francisco Foot Hardmam, é necessário destacar que, do ponto de vista autoral, o escritor anarquista não é um escritor profissional. Nessa direção, sua obra seria “produto muito mais da experiência coletiva do que propriamente o resultado de uma elaboração estética. No caso do seu trabalho, o que importa não é o texto, e sim a decisão militante que repercute no ato de escrever”. Outrossim, a relação entre o escritor e o texto seria mediada pelo depoimento e a emoção, mais que pela intuição e a escritura, o que leva os autores à conclusão de que para o anarquista “o impulso criador vale mais do que a própria obra”. PRADO, Arnoni; HARDMAN, Foot; LEAL, Claudia (Orgs). Contos Anarquistas: temas & textos da prosa libertária no Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 19-20. 63 32 Por causa de seus méritos literários, os fatos aparentemente destituídos de importância quando entram em contato com a sua pena adquirem uma grandeza insuspeita. Nesse sentido, Neno se torna capaz de fazer uma reflexão sobre a condição humana na sociedade capitalista, analisando o egoísmo dos burgueses durante o morticínio ocorrido em Lena, na Rússia, em que os patrões preferiram fuzilar os trabalhadores ao invés de atenderem às suas demandas66; apontar a existência da luta de classes durante o naufrágio do Titanic, discorrendo sobre a prioridade dada aos membros das primeiras classes, enquanto as outras afundavam junto com o navio, durante o processo de salvamento dos seus sobreviventes67 e problematizar o contraste entre ricos e pobres ao analisar o leilão das jóias da rainha Maria Pia Sabóia, questionando a incapacidade orgânica de o capital produzir tudo para todos68. Talvez isso ajude a entender porque parte de suas crônicas chegaram a ser publicadas em livro, é como se elas resistissem à erosão dos tempos e se revestissem de uma constante atualidade. Sua crônica não se confunde, portanto, com a reportagem. Apesar de se valer do cotidiano como assunto primacial e do jornal como móbil privilegiado de expressão, ela não visa à mera informação. Para além do caráter informacional, o seu objetivo é estabelecer um debate com o leitor. Isso é possível perceber na crônica publicada em 25 de junho de 1911, em que ele inicialmente informa o assunto principal: a abertura dos trabalhos da Assembléia Constituinte portuguesa e as primeiras manifestações políticas decorrentes disso: O fato que mais ocupou em Portugal as atenções do mundo político na semana passada foi a abertura da Assembléia Constituinte, e as suas primeiras sessões. Para festejar a inauguração do parlamento republicano, reuniu-se em Lisboa uma multidão assombrosa, incalculável, que delirou de entusiasmo ante ao pesado casarão legislativo e aclamou com frenético alarido a legalização da Republica, do pavilhão verde-rubro e do novo hino, bem como, a sua passagem, os homens do sol que nasce... Toda aquela imensa, compacta onda humana trepidava, urrava, havia lágrimas em muitos olhos, e a meu lado, num intervalo de clama, um operário gritou a outro com excitação: “O 05 de outubro foi uma grande data; mas a de hoje vale muito mais”69. 66 Após a revolução de 05 de outubro de 1910, a Monarquia foi dissolvida e foi instalado um governo republicano provisório que se dissolveu em 19 de junho de 1911, abrindo A Assembléia Constituite.VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913,p.171. 67 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913.,p.176. 68 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913,p.239. 69 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913,p. 35. 33 Para logo depois chamar o leitor para o debate interpelando se, de fato, a postura da multidão seria procedente, questão que o leva a interrogar se uma simples lei outorgada pela, recém criada República, poderia conter um suposto ímpeto contrarevolucionário por parte dos seguintes monarquistas: E para resistir a loucura contagiosa da multidão e permanecer sereno em tão febril ambiente, era bem preciso repetir a si próprio que a legalização só vem depois do fato consumado e só por ele é forçada, e que, se amanhã a orda do padre Cabral, comandada pelo matoide Couceiro, empunhando carabinas e ostentando no peito medalhas de Maria virgem, nos impusesse de novo sua monarquia jesuítica, um novo parlamento, arranjado de qualquer forma, consagraria e legalizaria, com igual solenidade unânime, o novo fato consumado; repetir a si próprio que este parlamento não vai fazer senão discursos e leis, isto, palavras que o vento leva e papéis que a autoridade rasga...70 Ao colocar este debate, Neno revela a sua face subjetiva, em que se evidencia como os elementos de natureza propriamente pessoais (os seus juízos de valor) acabam por imprimir e modelar o modo como ele apresenta e discute os fatos cotidianos com seu leitor. Nesse sentido, a escrita cronística assume a forma da escrita de si na medida em que toma a subjetividade: [...] como dimensão integrante de sua linguagem, construindo sobre ela a “sua verdade”. Ou seja, toda essa documentação de “produção do eu autoral” é entendida como marcada pela busca de um “efeito de verdade” [...], que se exprime pela primeira pessoa do singular [...] do indivíduo que assume sua autoria. Um tipo de texto em que a narrativa se faz [...] de maneira que nessa subjetividade se possa assentar sua autoridade, sua legitimidade como “prova”. Assim, a autenticidade da escrita de si torna-se inseparável de sua sinceridade.71 É necessário salientar que a escrita cronística assume a forma da escrita de si em Neno Vasco não por se pretender um registro do eu autoral, como seria no caso de uma possível escrita autobiográfica72. Mas, por causa do caráter auto-referencial da sua crônica, uma vez que a inscrição desse eu autoral serve para estabelecer um diálogo com o leitor, ela se transforma em uma chave que permite adentrar a porta da sua 70 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913,p.35-36. Neno faz alusão aqui ao militar Henrique Paiva Couceiro e ao padre jesuíta Luiz Gonzaga Cabral, que estiveram presentes nas campanhas de restauração da Monarquia em Portugal. 71 CASTRO Gomes, Ângela de. Escrita de si, escrita da História: a título de prólogo. In: Escrita de si, Escrita da História. Ângela de Castro Gomes (Org.). Rio de. Janeiro: Editora FGV, 2004, p. 14-15. 72 Sobre o tratamento teórico e metodológico que delineia o perfil da autobiografia consultar: LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008. 34 história de vida, na medida em que traz à tona sua visão pessoal sobre os acontecimentos que enuncia diariamente através do jornal. Ao manejar, entretanto, tal chave é preciso levar em consideração as ponderações de Ângela de Castro Gomes no que se refere às relações entre autor e texto. Segundo a historiadora, durante muito tempo esse debate girou em torno de duas concepções que podem ser, ainda que de modo elementar e esquemático, entendidas como: De um lado, haveria a postulação de que o texto é uma “representação” do seu autor, que o teria construído como forma de materializar uma identidade que quer consolidar; de outro, o entendimento de que o autor é uma invenção do próprio texto, sendo sua sinceridade/subjetividade um produto da narrativa que elabora73. Em tempos mais recentes, vem ganhado espaço nesse debate uma nova concepção, que parte da consideração de que o autor não é nem anterior ao texto, “uma essência refletida por um objeto de sua vontade”, nem posterior ao texto, “uma invenção do discurso que se constrói”. Defende-se sim, que autor e texto se instituem concomitantemente “através dessa modalidade de produção do eu”74, ou seja, que o autor se ( re)cria na medida em que (re)escreve sobre suas experiências individuais e coletivas. Nos dizeres de Beatriz Sarlo, nesse processo (des/re)construção da sua subjetividade o autor se torna: Hábil para manter o que é e mudar, para recuperar o passado e adequá-lo ao presente, para aceitar o estrangeiro como uma máscara que, por ser coerente, não admitiria no momento em que é aceita, é deformada, transformada ou parodiada para sustentar as contradições libertando-se75. No entanto, é mister enfatizar que esta escrita de si não está, de forma alguma, descolada e/ou deslocada de uma escrita do outro, como colocará em evidência Leonor Arfuch remetendo às conceitualizações de Mikhail Bakhtin sobre o caráter eminentemente social da linguagem: [...] a concepção bakhtiniana da linguagem e da comunicação, sua elaborada percepção do dialogismo como momento constitutivo do sujeito, que permite que nos situemos diante dessa materialidade 73 CASTRO Gomes, Ângela de. Escrita de si, escrita da História: a título de prólogo. In: Escrita de si, Escrita da História. Ângela de Castro Gomes (Org.). Rio de. Janeiro: Editora FGV, 2004, p. 15-16. 74 CASTRO Gomes, Ângela de. Escrita de si, escrita da História: a título de prólogo. In: Escrita de si, Escrita da História. Ângela de Castro Gomes (Org.). Rio de. Janeiro: Editora FGV, 2004, p. 16. 75 SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo/Belo Horizonte: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007, p. 34. 35 discursiva, da palavra do outro, numa posição de escuta compreensiva e aberta a pluralidade. Pluralidade de línguas – heteroglosia -, dialetos, gírias, registros, que, longe de construir compartimentos estanques, se cruzam, criando na sua diferença, um sincretismo das culturas. Pluralidade de vozes - polifonia - que marcam os cruzamentos, as heranças, os valores erigidos pela história que não deixa de falar sua própria voz, mostrando o caráter material da vivência, da necessária inscrição da linguagem no seu registro social76. Assim entendida, a escrita cronística do nosso biografado não será problematizada a partir de uma perspectiva teórica que visa explorar as inclinações narcísicas de um suposto ego exibicionista. Mas, sim entender o processo de construção da sua subjetividade numa rede social de respostas em face das questões colocadas pelo outro, seja a partir de uma relação de aproximação e identificação seja a partir de uma relação de distanciamento e exclusão. É, portanto, no entrelaçamento entre cronista, jornal, leitor e sociedade, que se torna possível inquirir os elementos contidos e expressos em uma escrita de si, permitindo, desse modo, trazer à tona alguns fragmentos da biografia de Neno Vasco. *** Ao fim e ao cabo do processo de seleção e análise da documentação, me vi às voltas com outra questão igualmente (ou até mesmo mais) importante: como escrever este trabalho? Ao bio-grafar Neno Vasco tenho consciência de que eu passarei a ordenar, através da escrita, o desenrolar da sua vida, gesto a partir do qual esta se transformará em objeto e/ou tema histórico. Esse gesto a que faço alusão passa pela construção dos documentos, que o biógrafo seleciona e ordena segundo os seus próprios critérios, colocando em evidência a sua subjetividade. Diante desse fato, aparentemente banal, mas de fundamental importância, Cláudia Poncioni, ao reconstituir o trajeto de pesquisa que efetuou ao longo de sua escrita sobre a vida do socialista francês Louis Léger Vauthier, coloca, de maneira incontornável, as seguintes questões que faço minhas: Evocar uma vida não seria forçosamente empobrecê-la? A simplificação, o ordenamento que a redação de um texto lógico impõe não seriam intrinsecamente redutores? Como dar conta de toda a complexidade, de todas as contradições, sonhos, esperanças, 76 ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea.Rio de Janeiro: Eduerj, 2010,p.259. 36 decepções, desgraças, sofrimentos de uma vida? Como escrever uma vida com tinta, se ela é feita de sangue?77 Questões importantes, que, caso não forem enfrentadas de modo sério, tendem a repetir os equívocos dos trabalhos (vinculados a uma historiografia tradicional) baseados em uma história meramente cronológica, factual e narrativa sobre a vida dos “grandes homens”, produzindo desse modo um resultado artificial e distante da complexidade que encerra a vida humana. Portanto, não basta reunir documentos, ordená-los, refletir sobre eles e apresentar conclusões. É preciso dar vida. E dar vida pressupõe falar de sonhos, como já dizia Shakespeare. Isso exige uma dose certa de imaginação [...]. O biógrafo é forçado a imaginar, a partir de informações que conhece, é bem verdade, os sentimentos do biografado que se torna assim uma personagem78. Tal atitude leva, segundo Poncioni, o biógrafo a se aproximar do romancista e dele pegar algumas técnicas emprestadas, tais como o estilo, a necessidade dos detalhes e dos episódios na criação de um conjunto que apareça verossímil, ainda que os fatos narrados sejam verdadeiros. É claro, contudo, que a adoção de tais recursos não se dá de forma mecânica, uma vez que esse processo pressupõe que os acontecimentos evocados sejam transformados e que o método estético de representação do real seja quase tão importante quanto o próprio relato. A narrativa do presente trabalho foi tramada de modo a pinçar alguns dos fragmentos biográficos de Neno Vasco. Esses fragmentos, uma vez reunidos, procuram criar mais um mosaico do que um quadro. A alusão às duas metáforas me pareceu sugestiva para pensar a composição desse trabalho. Ao invés de criar um quadro global e totalizante, que retratasse todo o rosto de Neno, optei, antes, por montar um mosaico lacunar e incompleto, que pudesse, apenas, retratar alguns dos seus possíveis ângulos, cujos contornos tentarei delinear ao longo da dissertação. Fiel a essa démarche teórico-metodológica, procurei, inspirado pelos trabalhos do artista gráfico holandês Mauritis Cornelius Escher, construir os três capítulos que seguem como uma dos seus mosaicos, em que os fragmentos são colados e colocados 77 PONCIONI, Cláudia. Em busca Louis Leger Vauthier: engenheiro fourierista no Brasil. Texto apresentado no Colóquio “Tramas e Dramas do Político: jogos, linguagens, formas” realizado na Universidade Federal de Uberlândia, entre os dias 18 e 21 de outubro de 2010, p. 06. 78 PONCIONI, Cláudia. Em busca Louis Leger Vauthier: engenheiro fourierista no Brasil. Texto apresentado no Colóquio “Tramas e Dramas do Político: jogos, linguagens, formas” realizado na Universidade Federal de Uberlândia, entre os dias 18 e 21 de outubro de 2010, p. 9-10. 37 em uma perspectiva enigmática, como se formassem um imenso labirinto que desconhece as noções tradicionais de início, meio e fim79. 79 Algumas das figuras de Escher podem ser consultadas no site M.C. ESCHER “THE OFICCIAL WEBSITE”. Diponível em: http://www.mcescher.com. Acesso em: Julho de 2011. 38 CAPÍTULO I - A República, A Universidade de Coimbra, o bando dos Bonnot e a (não) separação entre Estado e Igreja Assim que concluiu a travessia do Atlântico a bordo do vapor holandês Frísia em 04 de maio de 1911, a família Moscoso e Vasconcelos se fixou em Lisboa. Uma vez em terra firme, Neno procurou, logo que possível, restabelecer contato com Hilário Marques, diretor da revista A Sementeira80. Embora, ao que parece, Neno e Marques não se conhecessem pessoalmente, a troca epistolar entre ambos, que remete ao período em que o nosso biografado ainda residia no Brasil, parece ter gerado um grande vínculo de afinidade entre os dois. Foi graças a este contato com Marques, escrupulosamente mantido por quase dez anos, que ele conseguiria granjear algum espaço nas folhas anarquistas e operárias da imprensa portuguesa. Agora, entretanto, ele iria obter uma visibilidade muito maior81. Sem alterar, demasiadamente, a fisionomia ideológica d‟ A Sementeira, ele não encontrou muitas dificuldades para poder se alinhar ao perfil editorial deste periódico mensal, que, naquela conjuntura, já caminhava a passos largos rumo ao movimento sindical. Neno Vasco via nesta revista, assim como viu na revista Aurora82 que dirigiu no Brasil, o caminho mais adequado para a divulgação e difusão do anarquismo junto às classes trabalhadoras: [...] Insistindo neste itinerário, o trabalho executado vinha ao encontro de uma obstinada busca empreendida por ele, a partir da qual a propaganda ideológica (nos sindicatos) associada a uma arguta análise das mudanças [...], unidos todos estes elementos, tornariam possíveis o lançamento das bases para a organização de um movimento anarquista forte e com chances de duradouro protagonismo social83. A partir das longas e proveitosas conversas tecidas tardes adentro na taverna conhecida pelo vulgo de “Feijão Encarnado”84, ponto de encontro dos colaboradores d‟ A Sementeira, Neno ia se inteirando dos principais fatos ocorridos em sua terra natal 80 Sobre A Sementeira ver: FREIRE, João. A Sementeira do arsenalista Hilário Marques. Análise Social, Lisboa, nº. 67/68, 1981. 81 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 249. 82 Revista que Neno Vasco dirigiu em São Paulo durante o ano de 1905. Não confundir com a revista Aurora do Porto que circulou entre os anos de 1910 1920, em que ele também atuou como colaborador. 83 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 258. 84 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 257. 39 durante os quase 10 anos em que esteve ausente. As notícias, antes recebidas apenas por cartas, ganhavam carne e vida a partir dos relatos orais feitos pelos novos companheiros sobre a ebulição gerada na população portuguesa pela implantação do regime republicano em 05 de outubro do ano anterior85. Aos poucos o “atordoamento” gerado pela longa viagem passava e Neno não se sentia mais em “pais estrangeiro”86. Possivelmente, estas conversas se converteram num estímulo para que Neno escrevesse, em 15 de maio de 1911, uma crônica sobre o processo que levou os portugueses a colocarem um fim no regime dinástico que imperou no país por quase oito séculos: [...] o que já pude ver e ouvir não veio senão confirmar a opinião que daí eu trouxe formada quanto a estabilidade da República: que a República tem larga vida e que o século das restaurações monárquicas já passou. A monarquia já não encontraria elementos de vida nem no ambiente interior do país, nem na atmosfera política e social da Europa e do mundo...87 O que, entretanto, levava Neno a acreditar que a República parecia gozar de larga vida, ao passo que a Monarquia já não encontraria mais elementos de vida em Portugal? Ao analisar a correlação de forças políticas entre as classes sociais presentes no processo que possibilitou a construção da República, o cronista argumentava que não existia nenhum outro país no continente europeu em condições mais adequadas para o estabelecimento do novo regime. A classe aristocrática, já havia perdido qualquer capacidade de esboçar alguma resistência. Em virtude, principalmente, do desgaste que a monarquia constitucional vinha sofrendo nos últimos anos, diante da incapacidade de aceitar as reformas reivindicadas pela população, esta classe possuía pouca ou até mesmo nenhuma representatividade junto à sociedade, tendo a monarquia caído mais pela “frieza dos seus defensores” do que pelo “ímpeto dos seus atacantes”88. Nem mesmo as tentativas de contra-revolução levadas a cabo pelo ex-capitão Paiva Couceiro mereceriam qualquer atenção. Este, apesar de demonstrar alguma “valentia nos combates”, era 85 A implantação da República em Portugal foi resultado de um golpe de Estado realizado pelo Partido Republicano com o apoio de outras forças políticas, em 05 de Outubro de 1910, que depôs a Monarquia. Para isso, colaborou a insatisfação da população frente à subjugação de Portugal aos interesses britânicos, o poder da Igreja, os gastos da família real, a instabilidade economia e, sobretudo, a constatação de que Portugal se encontrava em atraso em relação aos outros países europeus. Ver: CATROGA, Fernando. O Republicanismo em Portugal: Da Formação ao 5 de Outubro.Lisboa: Casa das Letras, 2010. 86 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 17. 87 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 17. 88 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 21. 40 “nulo em política”. Couceiro representava em sua opinião “um mal averiguado fenômeno de psicologia política”, presente em quase todos os períodos de transição de regimes monárquicos para regimes republicanos, onde se evidencia uma espécie de “contraste entre o personagem e a época”, em que o “sublime” de ontem transformar-seia no “grotesco” de hoje. Assim, as tentativas de Couceiro, longe de lhe inspirarem qualquer “cólera irreprimível”, suscitariam antes “sorrisos de piedade”89. Segundo Neno, em todos os países onde imperava o capitalismo, a burguesia já havia demonstrado suas predileções pela república em detrimento da monarquia, e se ela ainda não o tinha feito, era precisamente: [...] porque teme que a vitória lhe seja arrancada das mãos pela parte avançada do proletariado industrial. E porque pelo menos receia que, tendo de apelar pouco ou muito para o povo, por mais cuidadosa e disciplinada que seja a revolução, esta ultrapasse os limites de antemão marcados, e surja ameaçadora e firmemente plantada a questão social [...] Onde, porém, a burguesia pode passar incólume o cabo tormentoso da transformação política, que limpou duma vez a máquina do Estado das sobrevivências anacrônicas, entregando-a de todo aos políticos da sua classe, onde ela pode tentar tranquilamente a aventura, graças a inexistência dum proletariado organizado de tendências socialistas, então toda ela adere gostosamente ao regime novo, abandonando as místicas saudades do passado aos palacianos e aos clericais90. Sendo assim, a classe burguesa, embora divida em várias frações, teria sido a classe que mais ajudou e foi ajudada com o novo regime. Por causa do pouco desenvolvimento industrial em Portugal, a alta burguesia lhe parecia “mais ou menos indiferente as novas formas de governo” e os “seus interesses pareciam marchar de acordo com a opinião geral”91. A pequena burguesia, já em processo de proletarização, não parecia proceder de modo diferente. Já para a burguesia média, a situação era outra. Para o cronista, a República “era obra dela e para ela”, uma vez que as reformas concretizadas pelo novo regime teriam correspondido, na sua quase totalidade, aos seus interesses enquanto classe social, seja pela sua “importância numérica”, seja pela “independência material”92. Uma vez que a questão social não estava ainda “firmemente plantada em Portugal”, a classe operária, se deixando “embalar pelas promessas democráticas”, não 89 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 20. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 226-227. 91 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 18. 92 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 19. 90 41 conseguia separar seus interesses dos da burguesia, e, por esse motivo, apoiava desde a virada do século XIX para o século XX a luta dos republicanos. De acordo com ele: O abalo produzido pela insurreição de outubro, as promessas que os republicanos tinham sido forçados a fazer ao povo, a ingênua ilusão popular de maior liberdade, a declaração solene do direito a greve, tudo isso, é certo, contribuiu para o recrudescimento dos sindicatos93. Estas promessas, juntamente com a experiência política que as classes trabalhadoras haviam acumulado durante a luta contra a Monarquia, provocaram entretanto um extraordinário (re)nascimento do movimento sindical e uma geral intensificação dos conflitos entre capital e de trabalho após a proclamação da República. Depois de décadas de apoio aos republicanos, os trabalhadores começavam a lutar pelos seus próprios interesses. Esse era o sinal de que algo havia sacudido a modorra e despertado a consciência de classe daqueles trabalhadores, que, se existente, parecia estar adormecida. Desde 1906, a maior parte dos sindicatos tinha vindo a perder apoio, à medida que os trabalhadores se deixavam absorver pela perspectiva mais excitante da revolução republicana. Significativamente, em 1910, dos quatro sindicatos com mais de cem membros: da Construção Civil do Porto, dos Marítimos e dos Soldadores de Setúbal e dos Operários Têxteis de Lisboa, só um tinha sede em Lisboa.No entanto, o advento da República transformaria sensivelmente este quadro. Em julho de 1911 já existiam 356 sindicatos em Portugal, a maioria dos quais haviam sido fundados ou reanimados depois de Outubro de 1910. A sua distribuição geográfica também passou por algumas transformações.94 Renascimento do movimento sindical certamente: mas, de qual sindicato se trata? Primeiramente, é necessário reter que se não está falando de qualquer sindicato, mas, sim do sindicato tal como é concebido pelo sindicalismo revolucionário, estratégia de luta cujo enraizamento no movimento operário português sem sombra de dúvidas antecede a implantação da República95, mas, cuja processo de irradiação, coincidentemente, se dá com o estabelecimento do novo regime político em terras lusitanas. Durante esse processo de (re)nascimento do movimento sindical , os 93 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 236-237. PULIDO, Vasco. A República e as classes trabalhadoras (Outubro de 1910 - Agosto de 1911). Análise Social. Lisboa, nº 34, 1972, p. 249-250. 95 FREIRE, João. Estudo introdutório In: VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984, p. 20. 94 42 anarquistas desempenharam um papel não negligenciável, tomando à frente das organizações de resistência e ultrapassando rapidamente os socialistas, que até hegemonizavam o movimento operário, mas, que seriam progressivamente isolados e marginalizados pela dinâmica do movimento sindical (doravante chamado de) revolucionário. Os socialistas permaneciam ativos apenas nas poucas organizações mutuais existentes, que se encontravam mais sintonizadas com a sua estratégia reformista, que começava a enveredar pelo parlamentarismo. A passagem de uma estratégia para outra, bem como o papel desempenhado por anarquistas e socialistas nesse processo, é colocada por João Freire do seguinte modo: Com um discurso direto e agressivo (para os patrões e os grandes proprietários de terras) os anarquistas puderam rapidamente fazer crescer sua influência sobre as camadas assalariadas, impulsionando greves e outras ações diretas e propondo aos trabalhadores tomar o seu destino em suas próprias mãos [...] nesse período, em revanche, a influencia dos socialistas diminui consideravelmente: eles irão se tornar claramente minoritários no movimento operário e chegaram as engrenagens do poder político apenas por meio de negociações com os republicanos e não pelo reconhecimento do eleitorado. O Sindicato era a força social era inegavelmente a força social mais ativa do país96. Enquanto anarquista engajado com o sindicalismo revolucionário, que prega, portanto, a ação direta do trabalhador fora do e contra o Estado, o que Neno esperava da recém formada República? O que Neno esperava do novo regime não era que este resolvesse a questão social. Segundo ele, a questão social nunca poderia ser resolvida na sociedade capitalista, independentemente do regime político que esta viesse a assumir. Em sua opinião: [...] nenhuma reforma que respeite o vigente regime de propriedade, que deixe subsistir o salariato e a divisão da sociedade em classes econômicas, poderá ser a solução do problema social, nem a classe que detém o poder econômico e político se despojará a si própria ou se deixará facilmente expropriar dos seus privilégios, certos e seguros, por mais que lhe falem de socialização dos meios de produzir e de reorganização da sociedade para maior proveito de todos97. Segundo Neno, mesmo que os republicanos se ocupassem dela, eles não o faziam senão com o objetivo de engrandecer reformas superficiais, cuja finalidade era 96 FREIRE, João. Influences de la Charte d‟Amiens et du syndicalisme révolutionnaire sur le mouvement ouvrier au Portugal, Miguel Chueca (org.), Le syndicalisme révolutionnaire, la charte d’Amiens et l’autonomie ouvrière, Paris, CNT-RP, p. 94-95. 97 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas. 1913, p. 235. 43 regulamentar e circunscrever direitos que eram duramente conquistados pela ação direta dos trabalhadores. Na realidade, o que Neno esperava da República era que ela respeitasse os direitos democráticos básicos, essenciais ao movimento operário, tais como: [...] a liberdade de reunião, de palavra e de associação (liberdade aliás, bem mesquinha, pela privação dos meios econômicos), o direito a greve não sofismado por intimidantes medidas militares, pela pena de morte aplicada em plena praça sem julgamento pelas violências desorganizadoras sob o pretexto de manter a ordem98. Dito de outro modo: Neno esperava da República o que “ela era [...] e não o que ela não poderia ser”99. Mas, em que medida a República foi o que ela deveria ser segundo o anarquista, quer dizer, em que medida ela respeitou as liberdades democráticas? Assim que as primeiras greves começaram a pulular em Portugal, os republicanos assumiram uma posição oposta no que se refere aos trabalhadores. Mas eis logo os nossos republicanos aflitos, de mãos na cabeça, ei-los a fabricar um regulamento draconiano que, se fosse aplicado, tornaria sempre fatal a derrota dos grevistas, ei-los a empregar todos os meios de coação e intimidação em todos os movimentos importantes100. Esse regulamento draconiano ao qual Neno faz alusão é o decreto que regulamenta o direito à greve. Uma vez instaurado, o novo regime regulamentou o direito à greve101, porém, ergueu uma série de obstáculos que visou circunscrever e controlar o raio de ação dos grevistas. O “decreto burla”, como rapidamente passou a ser conhecido na imprensa anarquista e operária, exigia que os trabalhadores avisassem com pelo menos uma semana de antecedência suas intenções de paralisar o trabalho. Conforme explicitou Neno no trecho que destacamos acima, o decreto não diferia e alterava em quase nada o direito dos trabalhadores à greve. Por um lado, se o decreto fosse obedecido, ele bastaria, por si só, para derrotar os grevistas. Por outro, se fosse desobedecido, o governo intervinha violentamente com o pretexto de defender a lei, beneficiando desse modo diretamente os patrões. 98 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 236. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 236. 100 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 236-237. 101 Durante a vigência do regime monárquico em Portugal, o direito à greve não era legalmente reconhecido. PULIDO, Vasco. A República e as classes trabalhadoras (Outubro de 1910-Agosto de 1911). Análise Social. Lisboa, nº 34, 1972, p. 306. 99 44 Representante dos interesses da classe média, para a República, as classes médias são todo o povo, e os interesses delas são os interesses de todos. A sua república é coisa sacrossanta, e de tal modo representa a liberdade e salvação de todos, para que perturbar levemente o sossego dos que a dirigem e as digerem é cair no mais hediondo crime. Que mais querem? Nós fizemos a República, instrumento de reformas; nós satisfazemos as modernas aspirações da democracia; nós renovamos boa parte do pessoal burocrático e colocamos bom número correligionário de amigos; criamos lugares novos [...] o que mais querem?102 Disso dão o testemunho as greves rurais e urbanas ocorridas durante o biênio de1911-1912, as quais Neno croniciou minuciosamente. De acordo com ele, a partir de junho de 1911 inicia-se em Évora, Santarém, Coruche e outras cidades do interior alentejano um conjunto de greves gerais levadas a cabo por diferentes categorias do proletariado rural, ceifeiros, leiteiros e cavadores, em prol de uma série de reivindicações: prioridade de contratação para aqueles que residiam na localidade em que trabalhavam, fim da carestia de vida, restrição do uso de máquinas agrícolas, redução da jornada de trabalho e a estipulação de um salário mínimo. Dentre todas as reivindicações, a que Neno destacava é aquela alusiva à estipulação do salário mínimo, talvez em virtude das especificidades assumidas pelas relações entre capital e trabalho no Alentejo, região que se encontrava constantemente submetida à crises sazonais, o que impedia com que os trabalhadores obtivessem alguma ocupação regular ao longo de todo o ano. Nesse sentido, acreditavam que a existência de um salário minimamente fixado e pago de modo parcelar, permitiria com que suportassem o outono, estação imprópria para o trabalho e não tivessem que esperar até a primavera, quando as condições climáticas tornariam novamente possível o seu retorno para a lavoura e a colheita103. Ainda na esteira das promessas feitas no período que precedeu ao 05 de outubro, os trabalhadores rurais, crentes de que o governo trataria suas reivindicações de “maneira democrática”, organizaram a greve em conformidade como todos os ditames exigidos pela lei que a regulamentava. Apesar de terem seguido à risca o protocolo, a iniciativa dos grevistas não foi vista com bons olhos pelo governo que desencadeou um feroz processo de repressão e perseguição aos trabalhadores. Numa crônica escrita 102 PULIDO, Vasco. A República e as classes trabalhadoras (Outubro de 1910-Agosto de 1911). Análise Social. Lisboa, nº 34, 1972, p. 32-33. 103 PEREIRA, Ana Paula de Brito. As Greves rurais de 1911-1912 através da imprensa. Análise Social, nº 77/78/79, Lisboa, 1983, p. 487. 45 algum tempo depois, mais precisamente em 04 de fevereiro de 1912, Neno colocaria em evidência, com toda a agudeza que lhe era peculiar, o contraste das atitudes tomadas por um segmento e outro no período imediato à deflagração da greve. Viva a República! E as associações foram logo encerradas. Viva a República! E a cavalaria afugentava da cidade grupos submissos, perseguindo-os durante quilômetros. Viva a República! E os representantes dos grevistas, republicanos de velha data, vinham para as prisões de Lisboa. Viva a República! E varados pelas balas da guarda republicana caíam um morto e vários feridos, um dos quais, em 31 de janeiro de 1891, enfrentara, em defesa da aspiração republicana, a mesmissa repressão como com epíteto monarquista104. Mesmo sob o clima de forte violência pairando no ar, graças às mobilizações grevistas ocorridas em 1911, a reivindicação concernente ao salário mínimo foi atendida. No entanto, nem todos os lavradores cumpriram o que foi acordado. Isso levou os trabalhadores de Évora, onde o pacto não havia sido respeitado, a entrarem em greve novamente em janeiro de 1912. Embora a reivindicação que conduziu a ela fosse a mesma, as coisas passaram-se já em outro plano, principalmente por causa da nova configuração que a relação entre a República e os trabalhadores passou a assumir105. Para isso convergiu a reação violenta do Estado, a experiência acumulada durante a greve realizada no ano anterior, e, igualmente, a aproximação entre os sindicalistas rurais e os sindicalistas urbanos, a partir da mediação de Carlos Rates. Em decorrência das conversações durante a realização do II Congresso Sindicalista, de maio de 1911, foi deliberada uma resolução que previa a criação de uma secretaria de excursão coordenada por Rates, com o intuito de realizar uma tournée de propaganda pelo Alentejo, que contribuiu para que as associações sindicais fossem mais bem estruturadas e outras fossem criadas, conferindo-lhes um perfil mais tendente ao sindicalismo revolucionário106. Em conformidade com as atitudes tomadas até então, o governo desencadeia novamente um sistemático processo de perseguição aos trabalhadores rurais em Évora, fechando sindicatos sem quaisquer justificativas e ameaçando a execução de procedimentos similares em outras associações, que, porventura, permitissem a reunião de grevistas. Por causa da onda repressiva que se abateu sobre os camponeses em Évora, 104 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 138. PEREIRA, Ana Paula de Brito. As Greves rurais de 1911-1912 através da imprensa. Análise Social, nº 77/78/79, Lisboa, 1983, p. 486. 106 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 293. 105 46 os trabalhadores de Lisboa aderiram ao movimento de greve geral em solidariedade com os trabalhadores daquela parte do Alentejo. Movimentos similares surgiram e se alastraram em Setúbal, Coimbra e outras cidades. Face à força que este movimento adquiriu no campo e na cidade, a violência do governo redobrou. Em Lisboa, onde se concentravam o maior número de trabalhadores urbanos em greve, as garantias constitucionais foram suspensas e o Estado de sítio declarado por 30 dias. Em decorrência disso, os trabalhadores, entrincheirados na Casa Sindical, de onde coordenavam a greve, foram cercados por forças do exército que, lançando mão de uma forte artilharia, procurava intimidar os grevistas107. Segundo Neno, a justificativa do governo era a de que Portugal estava passando por um momento em que todos deveriam se sacrificar a fim de que a República tivesse o tempo necessário para se consolidar enquanto instituição. Embora nem “todos estivessem servidos”, ninguém “teria o direito de se servir por suas próprias mãos”, pois, a impaciência era tomada enquanto indícios de “traição monárquica”108. A necessidade que Neno tinha de enfatizar isso não era fortuita. A idéia de que sindicalistas e monarquistas haviam se aliado para (re)construir a Monarquia em Portugal, havia se tornado em um fato (e em um fantasma!) que perseguiu os republicanos durante muito tempo, constituindo, desse modo, a pedra de toque a partir da qual edificou-se a política de repressão do novo regime109. Nesse sentido, o cronista coloca a seguinte questão para o seu leitor: poderia haver alguma ligação entre estes dois segmentos, tão distintos um do outro? Em sua opinião, nenhuma. Mas, entre os monarquistas e os próprios republicanos talvez, já que muitos deles teriam vindo da própria Monarquia, “sem grande esforço e nem profunda mudança”. Isso o leva a conclusão “ a primeira vista paradoxal”, de que os sindicalistas “seriam mais republicanos do que os próprios republicanos oficiais e oficiosos”, por lutarem pelo respeito dos direitos que eles diziam ter concedido, porém os desrespeitavam flagrantemente110. Para reforço da hipótese de que não havia qualquer ligação entre sindicalistas e monarquistas, ele argumentava ainda que os trabalhadores não almejavam: 107 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 294-295. 108 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 33. 109 PULIDO, Vasco. A República e as classes trabalhadoras (Outubro de 1910-Agosto de 1911). Análise Social. Lisboa, nº 34, 1972, p. 311. 110 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p143. 47 [...] o regresso dum tempo de equívocos, quando para fundar a república, o proletariado se esquecia da organização e da luta de classes, ao passo que hoje, desembaraçado o terreno daquela questão política, a experiência em República há de fazer a obra sua111. Estes “equívocos” a que Neno Vasco faz alusão ao mencionar o apoio dado pelos trabalhadores aos republicanos na sua luta contra a Monarquia também foram seus, embora ele próprio não o mencione. Nessa época, ele se aproximou, por volta de 1900, de um grupo cujos esforços se concentravam na crítica do regime monárquico. Esses anarquistas, que ficariam conhecidos pelo epíteto de “intervencionistas”, entendiam que a República era um regime mais “avançado” e, por esse motivo, deveriam se aliar a republicanos, socialistas e outros setores radicais com o objetivo de destruí-la . Essa proximidade justificava-se em virtude da tática anarquista, que ao compartilhar os mesmos espaços com outras ideologias políticas, procurava fazer com que os direitos dos trabalhadores, todos eles inexistentes durante a vigência do regime dinástico112, fossem implementados após a instauração do regime republicano. Ao discutir essa questão cerca de dez anos depois, ele avalia aquela tática como “equivocada” na medida em que ela fazia com que o movimento operário se esquecesse dos seus próprios interesses. Seria pouco produtivo questionar se Neno estaria “certo” ou “errado” no que concerne ao “equívoco” desta tática. O que interessa sim é problematizar a dimensão subjetiva contida e expressa nesta análise. O que, entretanto, aconteceu com o anarquista nestes dez anos e que o levou a compreender essa tática como equivocada? À parte o fato de o primeiro contato de Neno Vasco com o anarquismo ter sido em Portugal, foi no Brasil que ocorreu seu engajamento com o sindicalismo revolucionário, de onde reteve a idéia segundo a qual os trabalhadores deveriam se organizar em sindicatos para lutar diretamente contra as mazelas impostas pela sociedade capitalista, se afastando, portanto, da idéia de que o Estado pudesse ser, ainda que taticamente, utilizado para intervir na questão social, o que acabava levando a um certo colaboracionismo interclassista113. No entanto, não foi somente sua experiência no Brasil que o levou a (re)avaliar essa tática. A seu ver, da República Portuguesa nada se deveria esperar, não somente porque acreditava que ela seria incapaz de resolver a questão social, mas, porque o que haveria de mais positivo em um regime burguês hipoteticamente democrático, que é o 111 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 19. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 87. 113 Conforme veremos no Capítulo II desta dissertação. 112 48 respeito às liberdades básicas, a República Portuguesa parecia ser incapaz de oferecer. Mas, se Neno não esperava que a República resolvesse a questão social, e nem que ela respeitasse as liberdades básicas, haveria ainda algo que se poderia esperar dela? A única coisa que ele acreditava poder esperar da República era a desilusão dos trabalhadores. Fato que parece ter ressoado vivamente entre eles, ao fim e ao cabo das greves rurais e urbanas ocorridas durante o biênio de 1911-1912. Os trabalhadores fartaram-se de confiar em panacéias legislativas e em promessas de patrões e políticos. Sofreram as mais cruéis desilusões. Viram o ruir das utopias democráticas de governo. Verificaram o vazio e a ineficácia das reformas legais. E por isso vão à guerra. Vão à guerra e recebem golpes naturalmente. Mas, também os vibram. Mostram ao mundo desatento, com uma sacudida brutal, a força da sua união, a importância do seu papel social e a justiça da sua causa. Tomam eles próprios consciência do seu valor e do seu poder114 Conforme o diagnóstico do cronista, para além de erradicar toda e qualquer ilusão quanto à República, o conteúdo classista definitivamente assumido pelo novo governo, reforçou e fez avançar a ideia, cara ao sindicalismo revolucionário, de que os trabalhadores não poderiam contar senão com a sua própria ação, direta e autônoma. Em decorrência de tal constatação, é que Neno Vasco irá ingressar e se estabelecer de vez no movimento operário português, encontrando na estratégia sindical de ação direta um móbil para operacionalizar as mudanças sociais que ele e outros anarquistas pretendiam efetivar. *** Durante quase todo o ano de 1911, vários eventos sacudiram a Universidade de Coimbra naquela parte Da Porta da Europa em prol de reformas de seus estatutos. Enquanto arguto comentador dos fatos diários, Neno Vasco não deixou que o assunto em pauta passasse despercebido, devotando-lhe desse modo uma crônica no dia 1º de outubro do ano corrente, na qual ele passou em revista vários tópicos das proposições dos manifestantes, se retendo com especial atenção em um deles: a facilitação pecuniária dos cursos, que visava auxiliar o ingresso dos alunos pertencentes às classes sociais menos favorecidas no ensino de nível superior. Baseados no decreto de 22 de março de 1911, os estudantes reclamavam que era dever do Estado assegurar a todos os cidadãos, sem distinção de classe, o acesso à Universidade, materializando, por assim 114 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 152. 49 dizer, a fórmula de estado Integral de Pasteur, que parte do princípio de que todos os indivíduos devem ter o direito de se desenvolver em sua plenitude. Com a sua habitual ironia, Neno argumenta que a noção pasteuriana de democracia evocada pelos estudantes, demonstrava com meridiana clareza a esperança da população portuguesa no novo regime republicano, que havia sido “maliciosa” e “habilmente” explorada durante a vigência da Monarquia. Essas reivindicações pelas quais se batiam os estudantes eram, segundo ele, puramente ilusórias, isso na medida em que negligenciavam um fato de fundamental importância: Portugal era um país pobre, pouco avançado industrialmente e com parcas oportunidades de trabalho: [...] Nós vivemos num país pobre, sem indústrias e sem trabalho, onde por isso mesmo as classes dirigentes não tem feito um esforço sério para debelar o mal do analfabetismo. A falta de instrução é uma causa de atraso industrial, mas, é mais causa do que efeito. Onde quer que, por circunstâncias favoráveis, se haja introduzida uma industria própria, o analfabetismo tende a desaparecer, porque a produção moderna favorece, e até certo ponto determina e exige, o desenvolvimento da instrução e da educação técnica, ao mesmo tempo que o proporciona aos mais habilitados situações relativamente compensadoras. Comparem-se com outros países industriais, e dentro de cada pais, embora rotineiro (Espanha, Itália, etc...) as regiões industrializadas com as que não são115. Em virtude das condições acima traçadas pelo seu cáustico diagnóstico, ele compartilha com seu leitor a conclusão de que a Universidade de Coimbra era um “reduto da burguesia”, que abrigava apenas os estudantes mais bem aquinhoados da sociedade lusitana e, por esse motivo, não passava de um “manancial” que produzia outra coisa que não “burocratas”, “politicantes”, “intelectuais desocupados” que “corrompiam” tudo que estava a sua volta116. Conquanto a Universidade de Coimbra fosse um “reduto da burguesia”, que abrigava os estudantes mais bem aquinhoados da sociedade lusitana, será que esta foi apenas um “manancial” que produzia “burocratas”, “politicantes”, “intelectuais desocupados” que “corrompiam” tudo que estava a sua volta? Se levarmos em consideração a própria trajetória do nosso biografado nos encontraremos em face de uma resposta paradoxal, pois, é fato que, caso Gregório/Neno117 não tivesse vindo de uma família com alguma expressividade financeira, ele teria pouca ou nenhuma 115 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 71-72. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 68. 117 Ver nota nº1. 116 50 condição de ingressar na Universidade de Coimbra. No entanto, já tendo ingressado no curso de direito, a realidade opressiva existente no interior da referida instituição acadêmica, o levará a refletir sobre as estruturas sociais que a geraram, momento em que se dá seu envolvimento com o anarquismo. Vejamos de modo mais cuidadoso essa questão. Seu pai, o senhor Vitorino Queiroz e Vasconcelos, e sua mãe, Margarida Rodrigues Moreira, eram membros da burguesia local de Penafiel, cidade rural situada no norte de Portugal, que se destacaram no ramo da produção e comercialização de vinho para a exportação, item de grande importância para a economia daquela região a partir de 1870. Após a morte da mãe de Gregório, seu pai, já com uma segunda esposa, decide emigrar para o Brasil. Ao que parece, a crise na produção de vinho, que não parecia mais ir ao encontro minimamente de suas expectativas, somada ao exemplo vitorioso do seu compadre, o Barão de Calvário, português que fez fortuna no outro lado do Atlântico, desempenharam um papel não negligenciável na sua decisão118. Por volta de 1887, os Moreira e Vasconcelos partiam, portanto, para a antiga colônia portuguesa para tentar a sorte. Entretanto, Gregório permaneceria em terras brasileiras apenas por cerca de dois anos, pois seu pai, desejoso de que o primogênito tivesse uma educação mais condizente com o seu status social, o enviou novamente para Portugal a fim de que pudesse concluir os seus estudos ginasiais e, posteriormente, ingressar no curso de direito na Universidade de Coimbra. Para ver satisfeitas as vontades do pai, Gregório retornou cerca de dois anos depois para sua terra natal. Inicialmente se fixou em Amarante, onde, sob a supervisão da avó paterna, Bernardina Júlia, iria cursar o Liceu. Foi durante a sua estadia no liceu que Gregório conheceu aquele que seria, por quase toda sua vida, um dos seus amigos mais íntimos: Teixeira Pascoaes. Para além de compartilharem o mesmo espaço físico das salas de aula no liceu amarantino, ambos nutriam uma profunda paixão pela poesia, notadamente a de João de Deus e a de Guerra Junqueiro. Segundo Samis, a poesia parecia ser para Gregório: [...] um projeto ainda que incipiente para interferir na realidade social. De forma difusa e algo caótica ele estendia aos outros, através dos seus versos, seu mundo interior, no qual o espírito intrépido, ainda que 118 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 29. 51 limitado pela personalidade retraída, enraizava-se [...] a vontade de sensibilizar parte do mundo em que vivia119. Em 1896, um ano após concluir o liceu, Gregório, assim como outros filhos da burguesia lusitana em ascensão, entraria na Universidade de Coimbra para cursar direito. No entanto, a Universidade de Coimbra, em que pese as várias e diferentes reformas realizadas no ensino superior para “modernizá-lo” e “atualizá-lo” em relação aos demais países europeus, ainda demonstrava possuir fortes traços da herança educacional deixada pelos métodos pedagógicos jesuíticos120. Sem mencionar diretamente sua experiência pessoal enquanto ex-aluno de Coimbra, (o já) Neno Vasco faria alusão posteriormente em uma de suas crônicas aos efeitos perversos e insidiosos dessa cartilha educacional no curso de direito: Entregue um dia aos jesuítas, ali deixaram a marca indelével do dogma, mataram a originalidade e o espírito de iniciativa. Sobretudo a faculdade de direito tem exercido uma ação atrofiante sobre a mentalidade portuguesa, perdeu todo o seu crédito e todo o seu prestígio.[...]. A Universidade, especialmente a faculdade de Direito, vive em Coimbra num insulamento egoísta e ignaro, refratária ao moderno espírito, incapaz de acompanhar os progressos científicos dos últimos tempos, teatro de contínuas e ásperas lutas entre as gerações novas e os atavismos medievais121. Desse modo, o material didático utilizado não parecia favorecer e, muito menos, estimular o que nosso biografado parecia possuir de melhor. Muito pelo contrário, o seu caráter, muitas vezes, dogmático e absoluto parecia lhe entediar e, com isso, lhe subtrair toda iniciativa de mostrar qualquer indício de originalidade, uma de suas características mais marcantes. Disso dá o testemunho o seu boletim escolar, onde Gregório não passaria do “nemine discrepante”122. De um lado, se essa infecundidade pedagógica acabava gerando resultados que estavam longe de evidenciar a criatividade de Gregório, de outro, ele acabou se convertendo em um estímulo para que ele procurasse outras de fontes de interesse. Foi assim que nosso biografado começava a perceber que para combater tal prática seria necessário formular uma crítica de maior amplitude, que integrasse, mas, ao mesmo 119 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 70. 120 CARDOSO, Patrícia Domingos. Os jesuítas e o século XVIII: uma reflexão histórica. In: Anais XII Encontro Regional de História ANPUH-RJ 2006, p. 02. 121 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 68. 122 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 74. 52 tempo, transcendesse a Universidade, colocando em questão as próprias estruturas sociais que a geraram. Destarte, a realidade ia gradualmente operando o processo de transformação da sua subjetividade: De uma visão acentuadamente compassiva e estética da sociedade, na qual a poesia parecia ser um ungüento suficiente para curar os males, ele alterava suas concepções para uma condição dificilmente cabível exclusivamente na esfera do lirismo. Aparentemente, um universo mais ideológico vinha substituir a simples esperança de mudança, pela vontade de transformar. E isso não se fazia sem alienação dos ritmos poéticos ou abdicando de preferências literárias, mas, antes disso, as colocava ao serviço de uma causa mais ambiciosa123. Por esses motivos, (o já) Neno Vasco, passava a acreditar que, mesmo se o Estado democrático quisesse se colocar em condições de oportunizar o desenvolvimento de todos individuos, realizando, desse modo, a fórmula pasteuriana, ele nunca realizaria esse projeto na sua integralidade. Pois, subsistindo o modo de produção capitalista, com a sua divisão do trabalho em manual, “inferior”, “escravo” e “pesado”, e trabalho intelectual “superior”, “dirigente” e “agradável” acreditar no contrário não passaria de “pueril ilusão”. Outrossim, a questão educacional passava a ser entendida por ele como atrelada a questão social. Partindo de tal pressuposto, ele inferia que apenas o socialismo anarquista poderia realizar na sua integralidade a fórmula de Pasteur, permitindo a cada indivíduo se desenvolver na sua plenitude. Pois: [...] só uma sociedade sem privilégios econômicos e políticos, na qual tudo seja de todos e a riqueza social a administrem diretamente os interessados; na qual vigore de fato, não na lei, uma igualdade de condições, tendo todos assegurado o necessário, em troca do trabalho manual proporcionando as forças de cada um, sem exceção, tendo executado com a cooperação de todos e o poderoso auxílio das máquinas a breve e aprazível tarefa diária, possa dedicar muitas horas a variadas e gratas ocupações e estudos, aliando-se assim utilmente o exercício muscular ao esforço mental, para maior saúde do corpo e do espírito, e trazendo para os seus estudos teóricos a habilidade prática e para o trabalho seus conhecimentos técnicos, científicos, literários124. *** No início de 1912, Neno Vasco parecia estar bastante satisfeito com os resultados assumidos pelo trabalho desenvolvido pelos anarquistas junto ao movimento 123 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 79. 124 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 74. 53 operário dentro e fora da Porta da Europa125. Afinal de contas, a entrada dos anarquistas no movimento operário, lhes permitiu encontrar no sindicalismo revolucionário a estratégia que acreditavam ser a mais adequada para fazer ruir o edifício da sociedade capitalista e, sobre os escombros desta, erigir a sociedade socialista. Como arrimo do referido, realizava-se, com forte presença dos anarquistas, na capital lisboeta o II Congresso Sindicalista em 07 de maio de 1911, poucos dias após a chegada de Neno em Portugal. Na realidade, as teses ali defendidas retomavam aquelas outrora deliberadas na sua primeira edição, realizada dois anos antes, onde o sindicalismo revolucionário era retomado e reforçado. Segundo Samis: Dentro da tradição federalista o 2° Congresso resolvia fortalecer as Uniões Locais, de ofício ou de indústria, incentivando a formação de Associações mistas, nas categorias em que estivessem dispersas as forças organizativas, contribuindo os militantes para que se efetivassem as Federações Locais, de ofícios e de indústria. A futura Confederação Geral do Trabalho não deveria ainda ser instituída, tendo em vista Portugal encontrar-se ainda para tal em estágio de insuficiente organização operária. Dessa forma, ficava a Comissão Executiva responsável pela coordenação das futuras Confederações. Nas demais teses de “Greves e Arbitragens” e “Legislação Operária”, os princípios revolucionários foram mantidos. A condenação ao diálogo com o Estado, a utilização da greve com deflagração surpresa – contrariando o “decreto-burba” BURLA? -, o anti-militarismo, o apoio a iniciativa pedagógica para reverter a opinião pública e outras mais, constatavam dos textos das referidas teses.126 Contrariando as previsões de Neno, o ulterior engajamento dos anarquistas com o sindicalismo revolucionário em quase todas as partes do globo, não ocasionou, entretanto, o apagamento imediato e completo dos anarquistas terroristas, que, volta e meia, teimavam em (re)aparecer na cena social praticando assassinatos, atentados, roubos e outras formas de “propaganda pelo fato”. Este tema foi o assunto principal da sua crônica escrita em 04 de maio de 1912, em que ele se ocupou do assalto ao banco francês situado na Rua Ordonner, ocorrido em 21 de dezembro do ano anterior, que se notabilizou por ser o primeiro assalto a uma agência bancária em que os autores do ato se evadiram do local utilizando um automóvel, ficando estes posteriormente conhecidos como os “bandidos automobilistas da Rua Ordonner”. Tratava-se, de acordo com ele, de um “fait divers”, um fato corriqueiro entre outros, que, por mais visibilidade que tenha 125 Sobre o sindicalismo revolucionário a nível internacional, ver: COLOMBO,Eduardo. (Orgs) História do Movimento Operário Revolucionário. São Paulo: Imaginário, 2004. 126 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 277. 54 tido por parte da intensa cobertura dada pelos jornais burgueses, não mereceria sequer a “honra” de se converter no assunto de uma crônica “honesta”, isso caso o “o refratário Bonnot”, “líder deste bando”, não houvesse, com a sua ação, envolvido diretamente o pensamento e movimento anarquistas. Nesse sentido, o cronista coloca a seguinte questão para o seu leitor: que relação poderia haver entre o ato terrorista e a teoria anarquista? Em seu ponto de vista, a associação e redução do anarquismo ao puro e simples exercício da violência dever-seia a ignorância generalizada no que concerne aos aspectos mais básicos desta doutrina, empresa para qual os jornais vinculados à grande imprensa em muito colaboraram. Para esclarecer este mal entendido, Neno passa em revista alguns deles, os quais reproduzo na citação a seguir: Socialismo-anarquista – doutrina segundo a qual a anarquia é a forma política necessária da sociedade socialista, o anarquismo é o método de ação e o indispensável instrumento de realização do socialismo, tanto no presente como na expropriação final, assim como a socialização é condição essencial para a possibilidade da anarquia; teoria que defende a organização livre e a livre experimentação social, abolida a violência quer direta (a que é exercida pelo poder político) quer indireta (a que resulta da privação dos meios de produzir, sujeitando-nos aos patrões).127 Disso resulta para o cronista a concepção de que os anarquistas não eram, essencialmente, violentos. Muito pelo contrário, justamente porque eram anarquistas, é que eram contra a violência, assumisse esta a forma direta (dominação política) ou indireta (exploração econômica). Para ele, a violência justiçar-se-ia apenas: [...] para remate da evolução que se realiza no sentido libertário [...] Acham que a força, além de inevitável perante a incapacidade de as classes opressoras, abdicarem. deve ser utilizada para evitar o prolongamento dum mal intensamente mais doloroso. Mas, se o anarquismo não significa apenas insurreição, greve geral, sendo coisas diferentes, embora juntas muitas vezes, com mais razão ainda significa atentado terrorista.128 Se havia anarquistas que o praticavam, não seriam enquanto tais, mas apenas como homens oprimidos, violentados, perseguidos. Não seriam desse modo, atentados anarquistas, mas, sim atos de revolta instintivos, a violência “dos de baixo” em face da violência “dos de alto”, atos, que por sua vez, não se filiariam a doutrina política 127 128 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 65-66. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 86-87. 55 nenhuma, sendo antes efeitos perversos e insidiosos da miséria gerada pelo modo de produção capitalista. Entretanto, por motivos que Neno desconhecia, “satisfação intima” ou “justificação aos seus próprios olhos”, Bonnot e seus correligionários, ao assaltarem o banco da Rua Ordonner, procuraram recobrir suas ações com um sistema doutrinário, mesmo que para isso tivessem que ter adaptado forçosamente a ideia ao ato. Desse modo, eles teriam: [...] aproveitado do anarquismo uma pequena parte crítica, à que incide sobre a legitimidade da propriedade e da lei: mas, as conclusões não eram as do anarquismo - eram as do meio social em que viviam. “Pois, que a propriedade é um roubo, garantido pela lei; pois que o mundo está baseado sobre a exploração e a violência - façamos como toda a gente e não sejamos vítimas”! 129 Para Neno, portanto, o único destino do casamento entre anarquismo e terrorismo não poderia ser outro senão o divórcio, não somente porque os atentados terroristas não se filiavam ao anarquismo, mas, também, e sobretudo, porque eles o contrariavam radicalmente. Se, de fato, o divórcio lhe parecia o único destino para este casamento, como, entretanto, explicar sua realização e longevidade? Numa crônica que lembra pouco a crônica moderna, por tratar-se não de uma narrativa curta abordando fatos presentes, mas, uma narrativa de maior fôlego discutindo eventos passados , ele próprio nos fornece os elementos necessários para perscrutarmos essa questão. Após a derrota da Comuna de Paris130(1871) e a dissolução da Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores por causa do embates entre Marx e Bakunin131(1872), o movimento operário ver-se-ia no centro de uma onda reacionária que invadiu toda a Europa; vários de seus membros foram presos, muitas de suas 129 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 186. Ver: SAMIS,Alexandre. Negras Tormentas: o federalismo e o internacionalismo na Comuna Paris. São Paulo: Hedra, 2011. 131 Em 1871, durante a Conferência de Londres, se consolida e se manifesta abertamente, sob a direção de Karl Marx, a ideia de transformar o conjunto de associações e de agrupamentos heterogêneos, que faziam parte da Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores “num tipo de carro-chefe” de várias correntes, em “um partido político internacional”. Ela preconiza a necessidade da constituição do proletariado enquanto partido político e se bate em favor da unidade de organização, a unidade de ação, a unidade de denominação e,além disso, unidade ideológica”. Em virtude disso, Bakunin e outros anarquistas irão se bater contra Marx, a fim de reforçar a idéia inicial da Internacional que era a de ser um organismo econômico com o fim de aglutinar os trabalhadores autonomamente na sua luta contra o capital fora dos partidos políticos. Como desdobramento disso, Bakunin e outros anarquistas serão expulsos da Internacional em 1872, durante o congresso de Haia, dividindo operário em duas forças políticas rivalizaram até o fim Primeira Guerra Mundial.SEIXAS, Jacy Alves de. Memoire et oubli: Anarchisme et Syndicalisme Revoluttionaire au Brésil. Paris: Editions de la Maison des Sciences de l‟Homme, 1992,p.41. 130 56 organizações foram fechadas e os seus jornais proibidos de circular. Croniciando este período, Neno sublinha quais foram os desdobramentos disso para o pensamento e movimento anarquistas. [...] começaram a formar-se as capelinhas doutrinais, onde se pratica uma espécie de masturbação intelectual e se prega aos convertidos uma espécie de teologia e de misticismo contemplativo. (A partir de então) fabricaram-se silogismos até o infinito. Nasceram as discussões abstratas sobre os miúdos pormenores da doutrina, como em Bizâncio. Acharam-se, em problemas secundários e derivados, sucedâneos para a propaganda e ação principais do socialismo anarquista. [...] o anarquismo, quase desprovido da sua segura base essencial, que é o fim socialista, aproximava-se mais ou menos do liberalismo individualista da burguesia. Em suma, como o gigante Anteu da fábula, que perdia sua força ao perder contato com a mãe terra, o anarquismo, perdendo contato com as massas definhava132. Cada vez mais longe do movimento operário, estes anarquistas irão se restringir a uma propaganda teórica, cujo vínculo com a prática era bastante exíguo. Sob este aspecto, a trajetória percorrida por Kropotkin, é bastante esclarecedora. Percebendo os reveses sofridos pelo movimento operário, ele não via os resultados práticos que esperava quando das suas atividades militantes na juventude. Desse modo, ele começaria a dar progressivamente cada vez mais importância ao caráter evolutivo da mudança social, desvinculando-as dos movimentos revolucionários. Em 1891, por exemplo, ele sugeria que o socialismo poderia ser implementado “com o amadurecimento da opinião pública e sem perturbações políticas”133. O diagnóstico de Neno Vasco não tocava, entretanto, o movimento anarquista como um todo. Ao analisar ainda os desdobramentos destes distanciamentos do movimento operário, colocava que nem todos: [...] haviam perdido a percepção clara da realidade, nem quebrado a continuidade teórica do socialismo anarquista, tal como nos viera de 132 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 207-208. É sugestivo, porém não conclusivo, que os argumentos defendidos por George Woodcock possam validar essa interpretação. De acordo com Woodcock, Kropotkin havia chegado à conclusão que “suas atividades como agitador, que exercera quando mais jovem, não haviam trazido os resultados rápidos que esperara, e, percebendo os constantes contratempos sofridos pelo movimento revolucionário, tornou-se cada vez menos confiante numa vitória em futuro próximo”‟. Woodcock assevera ainda que: “Havia várias razões para que ocorressem essas mudanças na atitude de Kropotkin. Sua saúde cada vez mais frágil exigia uma vida mais tranqüila e isso fez com que sua bondade natural viesse à tona. Voltou o seu interesse para a evolução porque fazia parte da sua natureza moderada, também porque o seu interesse renovado pela ciência fazia com que reagisse contra o romantismo apocalíptico de Bakunin”. WOODCOCK. George. História das Idéias e dos Movimentos Anarquistas. V.1 e V.2. Porto Alegre: Ed. L & PM, 2002,p.238. 133 57 Bakunin e da Federação Jurasiana, sistematização e interpretação das necessidades populares.134 Desse modo, aqueles anarquistas que teriam se mantido “fieis” a Bakunin, teriam lançado a propaganda pelo fato como uma proposta para se tentar superar a pouca efetividade da propaganda oral ou escrita, tal como vinha sendo praticada pelos anarquistas nesse contexto de refluxo do movimento operário. A princípio, a propaganda pelo fato não se referia especificamente à ação terrorista. Diferentemente, ela era tomada como sinônimo de protestos públicos, revoltas coletivas e não como roubo, assassinato e explosões. De acordo com Fabrício Monteiro, a propaganda pela ação era para Paul Brouse, por exemplo: [...] como uma forma mais eficiente de propaganda e agitação revolucionárias que a palavra escrita ou o discurso oral [...] O anarquista Paul Brouse (posteriormente emigrado para Barcelona após o fim da Comuna de Paris) seria um dos primeiros e mais veementes defensores da propaganda pelo fato [...] sugerindo protestos mais ativos por parte das associações revolucionárias como a melhor forma de angariar o apoio das classes trabalhadoras.135 Posteriormente, entretanto, alguns anarquistas se apropriariam dessa tática de modo distinto, chegando ao ato terrorista em si, seja com o uso de bombas, punhais e revólveres136. A partir da década de 1890, registra-se então o início e ascensão de atos terroristas perpetrados por anarquistas contra alvos que, em sua avaliação, simbolizavam e encarnavam o status quo burguês. Em1892, o juiz Benoit era vítima do atentado frustrado de Ravachol; em 1893, o parlamento francês foi o alvo de Auguste Vaillant; no mesmo ano, passadas somente algumas semanas, Emile Henry fez explodir uma bomba no Café Terminus; um ano depois Santo Caserio atravessava seu punhal no peito do presidente francês Sadi Carnot; em 1897 a imperatriz da Austria, Elizabeth, era assassinada por Luigi Lucheni; em 1900, Humberto I, presidente da Itália, caia baleado pelo revolver de Ângelo Bresci137. A partir de então, o anarquismo transformar-se-ia em um fato (e em um fantasma!) a perseguir a burguesia. Nesse processo, a grande imprensa ocupou lugar 134 MONTEIRO, Pinto Fabrício. O Niilismo Social: anarquistas e terroristas no século Annablume, 2010, p. 207. 135 MONTEIRO, Pinto Fabrício. O Niilismo Social: anarquistas e terroristas no século Annablume, 2010, p. 58-59. 136 MONTEIRO, Pinto Fabrício. O Niilismo Social: anarquistas e terroristas no século Annablume, 2010, p. 93. 137 Para um panorama mais amplo dos atentados ver: MONTEIRO, Pinto Fabrício. O anarquistas e terroristas no século XIX. São Paulo: Annablume, 2010. XIX. São Paulo: XIX. São Paulo: XIX. São Paulo: Niilismo Social: 58 seminal. Em Paris, diários como Le Petit Journal, atuaram, às avessas, como uma espécie de cúmplice dos anarquistas na difusão do terror. Ao enunciar manchetes tais como: “O terror reinava em Paris”, argumentando que qualquer um estaria sujeito à dinamite de um anarquista, acabou por instaurar o medo na burguesia francesa. Esse medo difundido pela imprensa era tão forte, que em vários Estados europeus foram criadas várias leis anti-anarquistas, que proibiam apologias às ações consideradas criminosas, associação suspeita de conspiração contra a propriedade e diretamente a propaganda anarquista, visando reprimir os atentados terroristas.138 Essa lei afetava os anarquistas como um todo, sem levar em consideração suas nuances. Nessa época, construiu-se a idéia de que todo anarquista era terrorista. A “propaganda pelo fato” também teve suas ressonâncias no movimento anarquista português, embora tivesse sido apropriada, levando em conta as especificidades da estratégia anarquista naquele momento. Para os anarquistas intervencionistas, o objetivo que se colocava naquele momento, era, entre outros, a luta pela República, regime que julgavam mais “avançado” do que a Monarquia, pelo acesso, ao menos no plano formal, de certos direitos: liberdade de imprensa, reunião, etc. Tendo à frente Heliodoro Salgado, foi fundada a Carbonária Anarquista em1900, com a qual Neno Vasco chegou a travar contato, quando da sua passagem pelo O Mundo (1900-1920)139. De acordo com Samis: [...] No mesmo jornal em que Neno colaborava, estavam infiltrados, como espectros da revolução, os conspiradores anarquistas que, com o que apuravam na venda de folhetos e outras iniciativas com igual objetivo, principiaram a acumular um modesto arsenal de bombas e armas a ser usado na tão esperada revolução em Portugal. Estes, já com inserção nos meios operários, davam ao anarquismo intervencionista um caráter popular e excessivamente virulento. Tal realidade, embora muito subjetivada em função da natureza secreta do grupo, entretanto, não escaparia a percepção de Neno Vasco.140 A propaganda pelo fato, entretanto, não desempenhou senão um papel marginal no movimento anarquista português, onde houve mais boatos do que atentados 138 MONTEIRO, Pinto Fabrício. O Niilismo Social: anarquistas e terroristas no século XIX. São Paulo: Annablume, 2010, p. 76. 139 Apesar de O Mundo ser um periódico de tendência republicana, anarquistas, socialistas e demais setores antimonarquistas eram presenças constantes no referido jornal. A esse respeito ver: SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p.93-103. 140 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 111. 59 propriamente ditos. Mesmo assim, a Monarquia decretava a exemplo de outros países situados na Porta da Europa, uma lei celerada em 1896141. A grande repressão, promovida pelos governos, somada ao diagnóstico sobre a esterilidade da propaganda pelo fato para atingir os objetivos revolucionários, levou muitos anarquistas, como Malatesta por exemplo, a reavaliar sua estratégia. Nesse sentido, a aproximação dos anarquistas dos sindicatos, mostrou ser de fundamental importância142. Ao analisar essa aproximação, Neno Vasco sublinha que: [...] a entrada dos anarquistas, que não tinham perdido a noção de método, nos sindicatos profissionais, vieram, porem reatar a límpida tradição socialista anárquica, restituir ao gigante insulado a sua bela virilidade, reduzir a justas proporções a crítica feita e selecionar o trabalho, aproveitando-lhe os progressos e eliminando as excrescências e infiltrações estranhas143. Tendo como ponto de partida a França, onde o anarquista Fernand Pelloutier144 desempenhava uma papel não negligenciável junto à Federação das Bolsas de Trabalho, enuncia-se então o novo âmbito em torno do qual o anarquismo irá se vincular. Para que a revolução fosse de fato levada a cabo era necessário estar no meio dos trabalhadores e se misturar com eles. Segundo este diagnóstico, não haveria lugar melhor para a realização dessa estratégia do que as organizações operárias, em especial os sindicatos. Neles, os trabalhadores se encontram com seus companheiros e aprendem a lutar em prol dos interesses da sua classe social, construindo, assim, a consciência dos antagonismos entre capital-trabalho, da função do Estado e, por conseguinte, da possibilidade de revolucionar a sociedade capitalista. *** Neno Vasco adentrou a Porta da Europa em plena primavera, com “muitas flores”, “campos verdes” e “céu azul”. Segundo o cronista, naquele delicioso “mês de maio” nada parecia fervilhar, talvez com exceção dos debates suscitados pela lei decretada em 20 de abril de 1911 pelo governo republicano provisório, que segundo seu 141 FREIRE, João. Influences de la Charte d‟Amiens et du syndicalisme révolutionnaire sur le mouvement ouvrier au Portugal, Miguel Chueca (org.), Le syndicalisme révolutionnaire, la charte d’Amiens et l’autonomie ouvrière, Paris, CNT-RP, p. 93. 142 MONTEIRO, Pinto Fabrício. O Niilismo Social: anarquistas e terroristas no século XIX. São Paulo: Annablume, 2010, p. 93. 143 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 209. 144 Ver: JULLIARD, Jacques. Fernand Pelloutier et les origines du syndicalisme d’action directe. Paris: Éditions du Seiul, 1971. 60 autor, o Ministro da Justiça Afonso Costa, intentava separar definitivamente Estado e Igreja. Embora nosso biografado não o mencione na crônica que escrevera em 01 de maio do ano corrente, o assunto em questão já “fervilhava” em Portugal desde há muito tempo. Ainda em 1820, com a instalação da Monarquia Constitucional145, e, posteriormente com a vitória dos liberais no parlamento em 1834, já eram exigidas pelos políticos e setores afinados com estes reformas no clero, sobretudo no que concerne ao fim das ordens religiosas. Se recuarmos ainda mais no tempo, encontraremos as leis decretadas pelo déspota esclarecido Marquês de Pombal em 1775 que previam a expulsão dos jesuítas do território português146. Entretanto, é somente a partir da década de 1860 e 1870 que o laicismo começa a tocar setores mais amplos da sociedade lusitana. Através da realização e difusão de conferências, livros, opúsculos e artigos em jornais, grupos dos mais variados matizes e matrizes, fossem eles republicanos, socialistas e anarquistas uniam suas forças para lutar contra um adversário que possuíam em comum: a Igreja Católica. Foi neste ambiente, aliás, que Neno teve seus primeiros contatos com o anarquismo. Ainda estudante de Direito, o jovem egresso da “rural” Penafiel, começará a respirar “ares mais liberais”, ainda que com que ecos um pouco longínquos, ao entrar em contato com a “urbana” Coimbra, lugar em que a “crença na razão” aliada à “crítica da fé” dava o tom. Nesse sentido, o anticlericalismo não encontrava maiores dificuldades em encontrar adeptos para a sua causa. De acordo com Samis, os últimos anos de Neno Vasco na Faculdade de Direito foram sacudidos por agitações dessa natureza: Ainda em 1900 [...] organizou-se em Lisboa um Congresso Anticlerical, o qual vinha antecedido das manifestações de 1899, em favor de Marquês de Pombal, que provocaram imensos distúrbios em Lisboa. A partir do grupo animador deste evento virá a se formar a Comissão de Resistência Antijesuítica, da qual fizeram parte Heliodoro Salgado e Ernesto da Silva, além de elementos autonomamente vinculados, oriundos da maçonaria. Na mesma época, e organizada por estes anticlericais, deu-se a recepção no Grêmio Lusitano ao presidente do Brasil Campos Sales [...] As investidas de socialistas, republicanos e anarquistas no campo editorial, nas 145 A Monarquia Constitucional foi instaurada em Portugal em 1820 com a revolução liberal, conhecida como “vintismo”. A partir de então, o regime de representação das cortes divididos nas três ordens do reino: clero, nobreza e povo, foi substituído por uma assembléia parlamentar. Ver: SARDICA, José Miguel. O Vintismo perante a Igreja e o Catolicismo. Penélope - Revista de História e Ciências Sociais, n.º 27, Oeiras, Celta Editora, Junho de 2003. 146 CATROGA, Fernando. O laicismo e a questão religiosa em Portugal (1865- 1911). Análise Social. Lisboa, s/n, 1988, p. 211. 61 organizações de Ligas e nos chamados círios civis, foram logo combatidas com uma articulação envolvendo medidas policiais e administrativas147. Se engajamento na luta pela separação entre Estado e Igreja não era aleatória. Assim, como outros anarquistas, Neno se uniu a socialistas, republicanos e demais setores radicais para lutar contra o regime da Monarquia, o que encontrava-se em plena sintonia com a tática intervencionista por eles operacionalizada naquele momento. No entanto, esta luta possuía objetivos que integravam, mas, ao mesmo tempo transcendiam a questão do laicismo. Para além do ataque à Igreja, em virtude do longo tempo em que esta esteve aliada à Monarquia, estes militantes radicalizavam sua crítica, questionando as próprias bases da religião católica. Acreditavam que a Igreja, uma vez apartada do Estado, perderia a sua influência junto às classes proletárias portuguesas, que então teriam condições de (re)construir a sociedade, baseada não na fé, mas na razão. Aqui há uma clara inflexão na luta contra a Igreja em Portugal, pois não se tratava apenas de separar Igreja e Estado, mas, sim de destruir a própria religião católica, já que esta se fundamentava em uma visão de mundo irracional e supersticiosa, incompatível com o espírito das luzes introduzido pela modernidade. As fontes que inspiraram, desse modo, estes militantes anticlericais não podia ser mais o antijesuitismo pombalino ou o anticongreganismo liberal. Mas, sim o cientificismo racionalista. Sem sombra de dúvidas, este último elemento que possibilitou com que grupos políticos tão diferentes entre si pudessem encontrar um consenso mínimo no processo de formulação e encaminhamento das principais estratégias de ataque sofridos pela Igreja Católica na virada dos oitocentos para os novecentos. Segundo Fernando Catroga: A questão religiosa constitui um dos pontos nodais em que mais acentuadamente se concentraram as contradições que estiveram na gênese da sociedade portuguesa que emergiu da paulatina desconstrução do Antigo Regime. Mas, se quisermos perceber o modo como militantismo anticlerical a equacionou, teremos de qualificá-la como sendo filha de um ecletismo anti-religioso, pois pensamos que o enquadramento cientista que a fundamentou lhe conferiu um indiscutível unidade, ainda que compatível com uma grande diversidade de expressões148. 147 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 85. 148 CATROGA, Fernando. O laicismo e a questão religiosa em Portugal (1865- 1911). Análise Social. Lisboa, s/n, 1988, p. 211. 62 Estes militantes postulavam um ideal de revolução cultural que se harmonizava com os princípios políticos de vários grupos sociais que contestavam o status quo. Daí a sua articulação com os anseios de emancipação gerados no contexto de crise da sociedade portuguesa na aurora do século XX. Se a proliferação das organizações anticlericais constitui um fato incontornável já na década de 1860, é igualmente importante o seu crescimento nos anos anteriores a 1910. Será especificamente nessa época que a militância anticlerical encontrará o cimento necessário para fazer irradiar os efeitos da sua contestação. Assim, a jornada lisboeta de 02 de agosto de 1909 pode se converter em um termômetro para mensurarmos a adesão que o anticlericalismo conseguiu obter na capital lusitana. A Junta liberal, liderada por Miguel Bombarda, convocou a população para a realização de uma grande manifestação que deveria acompanhar a entrega de um conjunto de reivindicações que sintetizavam os objetivos que a militância anticlerical intencionava atingir. Ao saber da concentração de 100.000 pessoas promovida pela Junta Liberal, com o apoio dos republicanos socialistas e anarquistas , a Monarquia, mesmo não cumprido as exigências dos manifestantes, se viu forçada a reconhecer que o anticlericalismo força política de caráter incontornável. É neste contexto de descrédito da Igreja que a República se instala em Portugal. Outrossim, logo que Afonso Costa assume o Ministério da Justiça no Governo Provisório, ele lança as bases para o processo de laicização da sociedade portuguesa por meio da referida lei. No entanto, como salienta Catroga: [...] deve-se ver na ação de Afonso Costa e do Governo Provisório da República um ponto de chegada de um longo caminho que, bem vistas as coisas, se confundia com o percurso do proselitismo laico desde o seu grande momento de arranque na década de 1870. Logo, se a Lei de Separação correspondeu ao modo de pensar da Justiça, e se este não estranho à Arte Real, a objetividade da análise nos obriga, no entanto, a defender que as suas decisões de 1911 pretendiam rematar a luta entre dois poderes, isto é, o longo e atribulado processo de legitimação e estruturação do Estado-nação, cuja unicidade de soberania entrava em choque com uma Igreja nostálgica de um poder perdido149. Esta lei previa a expulsão dos jesuítas do país, fechamento das ordens religiosas, abolição do ensino religioso nas escolas, transformação do casamento em contrato civil, proibição da presença das forças armadas em cerimônias religiosas, a regulamentação 149 CATROGA, Fernando. O laicismo e a questão religiosa em Portugal (1865- 1911). Análise Social. Lisboa, s/n, p. 233-234. 63 dos cultos, entre outros. Uma vez promulgada a lei, a questão envolvendo a separação entre Estado e Igreja teria parado de fervilhar? Ao croniciar suas primeiras impressões, possivelmente, para os leitores anticlericais150 d’A Lanterna, Neno se colocou da seguinte maneira: Os leitores já estarão informados que esta separação não é bem uma separação pura e simples... Ao que parece, o pensamento do ministro foi separar o Estado das Igrejas, mas não... Vice-versa... Não sei se me percebem... Até aqui, o Estado e a Igreja marchavam emparelhados: agora as Igrejas são a matilha e o Estado o caçador, a segurar as correntes... Em paga o caçador dá os párocos já atrelados, a títulos de direitos adquiridos, a ração conveniente, para o que duplica a verba orçamental destinada a tal fim.151 Valendo-se da figura do caçador e da matilha, Neno Vasco consegue encontrar uma metáfora que cabe como uma luva para interrogar a relação tecida entre Estado e Igreja, após a lei de separação. Como o Estado (caçador) havia proibido qualquer tipo de contribuição para as despesas da Igreja (matilha), acreditou-se que era conveniente pagar aos padres uma pensão (ração) a fim de que pudessem sobreviver. Surpreendido com tal medida, o cronista levanta a seguinte questão para o seu leitor: como o governo, que se dizia, anticlerical poderia pagar uma pensão para os clericais? Se levarmos a sério a questão colocada por Neno, estaríamos realmente diante de um paradoxo. O ataque à Igreja sempre foi o carro chefe dos republicanos durante a sua longa luta contra a Monarquia, por causa da íntima relação tecida entre ambas instituições. No entanto, após chegarem ao Estado, eles fazem uma concessão a Igreja, pagando uma pensão. De onde, contudo, viria este paradoxo? Segundo o cronista, é no interior das relações (de força) entre Estado e Igreja que este paradoxo pode ser elucidado. Para ele, sempre que surge a possibilidade da extinção de um privilégio, logo em seguida, surgem 150 Em 1909, Leuenroth assumiu a direção d‟ A Lanterna, substituindo Benjamim Mota na tarefa de principal articulador deste jornal, que, após um interregno de cinco anos, voltava a circular nos meios anarquistas e operários da cidade de São Paulo. Desde a sua aparição em 1901, a Igreja Católica sempre foi o alvo privilegiado da pena dos militantes e pensadores envolvidos com a proposta dessa folha. Esse é, sem sombra de dúvidas, um dos elementos que diferenciam e identificam A Lanterna em meio à vasta e heterogênea produção de toda a imprensa anarquista e operária que circulou durante a Primeira República brasileira. Ao fazer da luta anticlerical sua principal bandeira, A Lanterna se converteu num espaço de intervenção das mais diferentes correntes que existiam e atuavam dentro (e também fora) do primeiro movimento operário brasileiro. Ora aproximando, ora distanciando anarquistas, sindicalistas, socialistas e livres pensadores, o periódico possibilitou a construção de uma estratégia comum para a realização de inúmeras ações contra a Igreja Católica no Brasil, com especial destaque para duas delas: a campanha “Onda está Idalina” e “Nossas Escolas”, ambas, ainda que de forma descontínua, ao longo dos primeiros anos da década de 1910. Ver: FRANKIW, Carlos Eduardo. Blásfemos e sonhadores: ideologia, utopia e sociabilidades nas campanhas anarquistas em A Lanterna (1909-1916). Dissertação (Mestrado em História). USP, São Paulo, 2009. 151 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 23. 64 os chamados “direitos adquiridos” para neutralizar os efeitos das mudanças em curso e a imporem compensações equivalentes: E é natural, escreveu Neno Vasco, que isso ocorra, pois a mudança de governo e de pessoal governante, pouco sensível em geral, com as adesões e as rotinas de processos, não altera o regime econômico e político da sociedade, nem o valor e a situação das forças que a dominam. Conservam-se as mesmas influências financeiras e econômicas e até as mesmas influencias políticas, vestidinhas de novo com a roupagem da mais sincera adesão. E um governo qualquer não tem como outro remédio senão obedecer-lhes. Não se trata de saber como e porque os direitos foram adquiridos; respeitam-se as forças e as influências, acalmam-se resistências, arranjam-se amizades e apoios. Questão de força, não de direito.152 Conquanto Neno reconhecesse que o objeto visado pelos anticlericais (de Estado) fosse circunscrever e controlar o raio de ação da Igreja Católica, ele ponderava que uma medida de tal natureza, longe de aproximá-los deste objetivo, os afastava cada vez mais. Sob este aspecto é sugestivo, porém não conclusivo, que, já com pouco tempo de existência a tal lei já contasse com o apoio dos próprios padres, que se integravam ao novo regime e se congratulavam com Afonso Costa, tal como testemunha, aliás, a postura tomada pelo prior José Maria Ançã, que dizia preferir pensão, dada pelo Estado às esmolas dos fiéis. Tal constatação vinha ao encontro do que ele pensava , que acreditava que os padres tirariam proveito da própria lei, se desvencilhando dos obstáculos colocados e neutralizando seus efeitos negativos. Não por acaso, ele temia que o ofício sacerdotal pudesse tornar-se emprego público em Portugal. Se Neno Vasco acreditava que a estratégia utilizada pelos anticlericais (de Estado) era pouco eficaz, como, entretanto, deveria ser levado adiante o combate contra a Igreja? Para ele, somente uma revolução que expropriasse completa e definitivamente a Igreja Católica, retirando-lhe, desse modo, o esteio econômico que garante o seu estatuto enquanto instituição dominante, é que seria possível começar a combater o papel nefasto da religião junto às classes proletárias portuguesas: [...] a Igreja pode contar com largos dias de vida, com suficiente força e influência para ir reconquistando as boas graças da autoridade e o esquecimento de certas asperezas legais, e em todo caso, meios de ir vivendo, com certa comodidade, da generosa boa fé de muitos pobres.153 152 153 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 52. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 224. 65 A crença do ministro Afonso Costa de que uma aplicação “pura e simples” da lei de separação levaria ao desaparecimento, não só da Igreja, mas, também, e, sobretudo, da própria religião no interregno de “duas gerações” era tomada pelo nosso biografado, como uma pueril ilusão. Além disso, a ideia de que o Estado fosse estrategicamente utilizado para combater a Igreja lhe parecia de igual modo equivocada, não o reconhecendo enquanto instituição adequada para resolver qualquer questão, fosse ela religiosa ou não. A esse respeito ele escreveu: [...] Imaginemos as associações científicas, educativas, artísticas, técnicas, operárias, filosóficas, partidária – livre-pensadoras, socialistas, anarquistas – fiscalizadas, administradas, regidas pelo Estado, com os seus rendimentos rigorosamente delimitados e restringidos, sujeitos a uma contribuição forçada para um fim que elas podem até considerar vão, hipócrita ou falso, privadas dos seus edifícios. Intolerável abuso não é verdade?154 A crítica de Neno Vasco a Afonso Costa revela, sem sombra de dúvida, o processo de (re)construção da sua subjetividade. Ao abandonar a estratégia intervencionista, Neno se afastou da ideia de que o Estado pudesse, ainda que taticamente, intervir em qualquer questão, inclusive a religiosa. Mas, isso também revela a virada na relação de forças no interior (e no exterior) do movimento operário português, que tinha no anticlericalismo uma frente de luta comum. A esse respeito, uma imagem trazida pelo próprio Neno, quando de sua visita a uma manifestação anticlerical, em 19 de janeiro de 1911, parece-nos sugestiva para pensar essa mutação: Deu caráter à semana, poderia dizer à quinzena, a grandiosa manifestação anticlerical, organizada no domingo último, em Lisboa, Porto, Coimbra e muitos outros centros das províncias pela Associação do Registro (Civil e pela Maçonaria) [...] Assistir à manifestação realizada em Lisboa. Foi a mais imponente que tenho visto aclamadora e entusiasta como um bando de estudantes, tranqüila e grave como uma procissão... Iam no cortejo todos os partidos da República e todos os centros políticos, inclusive o centro “Antônio de José de Almeida” com o seu próprio patrono [...] Lá ia também largamente representada a Maçonaria Portuguesa [...] a tenebrosa Carbonária [...] A burguesia endinheirada também se incorporou e não era das menos numerosas [...] No cortejo anticlerical iam ainda alguns delegados de agrupações operárias, se a maioria faltou não por simpatia a gente sacerdotal, mas, porque julgavam a manifestação fora da sua alçada ou porque não quiseram; sob aquele como sob qualquer 154 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 124. 66 outro pretexto, fraternizar com irreconciliavelmente inimigas.155 classes que ela reputam Ao reformularem suas táticas, parece que de aliados anarquistas e republicanos passaram a adversários. Enquanto anarquista, Neno Vasco continuou engajado com o anticlericalismo, porem passou a entender a questão religiosa levando em conta a questão social. Para ele o combate contra a Igreja era tão importante quanto o combate contra a propriedade e o Estado. 155 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 125-127. 67 CAPÍTULO II – O movimento anarquista no Brasil, o caso Hervé, o Feminismo e o Congresso de Tomar Não faltam lá anarquistas [...] inteligentes, dedicados e sinceros. Não são tão pouco desunidos. Em São Paulo, por exemplo, deixei com profundíssima saudade, um ambiente cordial e amável, e senão isento de pequenas questões sem alcance – o que seria sobrehumano – ao menos desembaraçado de baixas intrigas, franco e acolhedor. Não conheço camarada que o tenha abandonado sem verdadeiro pesar [...]156 Escrevendo estas linhas para uma crônica que seria publicada n‟ A Sementeira, Neno Vasco revelou aos leitores do periódico lisboeta sua consternação ao deixar os companheiros com quem compartilhou por, uma década, a militância fora da Porta da Europa. Como ele próprio diz, não era um ambiente sem conflitos, pois exigir isso seria pedir algo que os homens não podem. Mas, nem por isso deixava de constituir um ambiente “franco” e “acolhedor”, onde os anarquistas “inteligentes”, “dedicados” e “sinceros” se encontravam e reuniam para levar a cabo, junto com os trabalhadores, a luta contra o capitalismo em terra brasilis. Na realidade, Neno Vasco chegou ao Brasil em 1901. Após concluir o curso de Direito na Universidade de Coimbra era seu desejo reencontrar o pai. O reencontro entre pai e filho não parece ter sido muito satisfatório, não pelo menos por parte do senhor Vitorino, que não entendia muito bem a claudicância do filho que, mesmo laureado com um diploma em Direito pela Universidade de Coimbra, desdenhava a titulação que tanto custou a ele financeiramente. Até mesmo uma boa colocação no Fórum Criminal de São Paulo, local de seus contatos profissionais, Neno havia recusado a aceitar. Ao que tudo indicava, “o brilhante futuro”157 que o patriarca dos Moreira Vasconcelos preparava para o primogênito na magistratura havia se frustrado radicalmente. A partir de então Neno passou a acreditar: [...] ser a atividade de advogado inconciliável com a sua militância. Seria então no jornalismo, no trabalho de tradução, de edição de opúsculos, na organização de eventos e redação de teses para apresentação em colóquios operários que investiria todo o seu tempo e energias158. 156 VASCO, Neno. O movimento anarquista no Brasil. A Sementeira. Lisboa. Maio de 1911. Carta de um parente a Cruz Malpique, 01/09/1958, p.1. Trata-se, muito provavelmente, de Adriano Botelho, concunhado de Neno Vasco. 158 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 177. 157 68 Para arcar com as suas necessidades, que aumentaram significativamente após o seu casamento com Mercedes Moscoso159 e o nascimento dos seus filhos Ciro, Fantina e Ondina160, Neno conseguira, “graças a sua facilidade em manejar várias línguas”161, posto garantido como tradutor em algumas casas de comércio em São Paulo, profissão que lhe permitiria prover a sua nova família e, ainda, manter sua coerência política, coisa que a advocacia nunca poderia lhe proporcionar. Para complementar sua renda, ele exerceria ainda a profissão jornalística, enviando regularmente para a imprensa anarquista e operária de sua terra natal crônicas para a publicação. Desde a época de sua militância em Portugal, ele já havia procurado se cercar de alguma informação sobre o movimento anarquista e operário no Brasil. Logo, já devidamente fixado em São Paulo, conseguiu travar contato rapidamente com grupos que naquela altura já apresentavam algum envolvimento com a ação e propaganda libertária. Embora Neno Vasco não fosse uma figura presente nas ligas de resistência, comícios públicos e congressos operários, por causa do seu temperamento, ou melhor, da falta dele, para lidar como os “ajuntamentos”162, é possível notar a existência discreta, porém marcante, de sua presença durante esses primeiros balbucios do anarquismo. Assim, em menos de um ano após a sua chegada nos trópicos, Neno já estava participando ao lado de Edgard Leuenroth, Gigi Damiani e Manuel Moscoso dos primeiros projetos de grande envergadura do movimento anarquista paulistano. Dessa empreitada, resultou a publicação do primeiro periódico em língua portuguesa: O Amigo do Povo em 1902163. A publicação do referido jornal aparece como um evento seminal na história do movimento anarquista e operário no Brasil. Como colocaria o próprio Neno na crônica já aludida: É em língua italiana que [...] se faz há mais tempo propaganda anarquista no Brasil, sobretudo duma maneira seguida e sistemática. E data da fundação do La Battaglia pelo camarada Oreste Ristori, 159 Neno Vasco casou-se com Mercedes Moscoso em 1905. In: Dicionário Histórico-Biográfico do(s) anarquismo(s) no Brasil. VASCO, Neno. Uberlândia, Mimeo, 2000, p. 103. 160 Ciro nasceu em 1908, Fantina nasceu em 1908 e Ondina em 1910. Isso se excetuarmos seu filho Dino, que faleceu logo após morrer em 1909. In: Dicionário Histórico-Biográfico do(s) anarquismo(s) no Brasil. VASCO, Neno. Uberlândia, Mimeo, 2000, p. 103. 161 Segundo João Freire, Neno falava inglês, francês, alemão, italiano e espanhol. FREIRE, João. Estudo introdutório In: VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984, p. 41. 162 VASCO, Neno. Individualismo + Comunismo: (carta dum classificado). Kultur, Rio de Janeiro, Abril de 1904. 163 A esse respeito ver: TOLEDO, Edilene. Em torno do jornal O Amigo do Povo: os grupos de afinidade e a propaganda anarquista em São Paulo nos primeiros anos deste século. Dissertação (Mestrado em História). Unicamp, Campinas, 1994. 69 auxiliado por bons elementos que o tem fielmente acompanhado, o período de maior atividade, continuidade, união e influência a invulgar atividade de Ristori, jornalista e orador sempre ambulante, bem como a energia, coragem e inteligência dele e dos seus colaboradores, deve muito a nossa propaganda entre a considerável população italiana dos Estados de São Paulo, Rio e Minas.164 Em troca, os jornais anarquistas em língua portuguesa teriam percorrido um trajeto mais “irregular” e “vagaroso”, como testemunharia, aliás, o próprio Amigo do Povo. Iniciados e mantidos por alguns militantes brasileiros, portugueses, espanhóis e italianos, os jornais anarquistas portugueses tomariam “um vigoroso impulso” só tardiamente se comparado a outros jornais anarquistas em língua italiana. De acordo com o diagnóstico traçado por Neno à época, a dificuldade encontrada pela imprensa anarquista em língua portuguesa se devia à própria (con)figuração assumida pelo movimento operário naquele momento: A propaganda anarquista [...] no Brasil [...] encontra naturalmente obstáculos mais numerosos que nos países de população fixa, indústria desenvolvida, opinião pública, formada e tradições revolucionárias. A população brasileira tem ainda como predominantes os elementos incultos, provenientes do trabalho agrícola, de caráter colonial, com resbaios de escravatura recentes; e a esses elementos juntam-se nos estados de imigração [...] camadas novas e moveis, das quais apenas uma parte se fixa, quase sempre sem se adaptar inteiramente. Demais, estas camadas instáveis são em grande parte constituídas por trabalhadores rústicos, saídos de regiões atrasadas e miseráveis165. Essa composição heterogênea dificultava a atuação dos anarquistas junto aos trabalhadores. Era necessário superar “o desapego as questões sociais”, “as rivalidades” e “desuniões” 166 que pareciam preponderar no meio operário. Para sacudi-los da apatia e incitá-los a agir, Neno Vasco e seus compagnons de route, acreditavam que deveriam estar junto com os trabalhadores e se misturar com eles. Nesse sentido, jornais como O Amigo do Povo: [...] cumpriram o papel de espaço político deliberativo informal do movimento anarquista nos seus primeiros anos. Forjaram, mesmo na esfera pública burguesa, um lugar definido para o livre debate das idéias, o lócus fundamental para a circulação de teses, traduções e sínteses políticas O “Primeiro Congresso Operário Brasileiro”, de 1906, no Rio de Janeiro, foi, não apenas tributário, mas um dos 164 VASCO, Neno. O movimento anarquista no Brasil. A Sementeira. Lisboa. Maio de 1911. VASCO, Neno. O movimento anarquista no Brasil. A Sementeira. Lisboa. Maio de 1911. 166 VASCO, Neno. Enquete sobre o movimento operário no Brasil. Guerra Social. Rio de Janeiro, 21/08/1912. 165 70 resultados concretos da mobilização, encenada pela imprensa libertária, de iniciativas e energias que se encontravam dispersas167. Entre as diversas teses que circularam neste espaço político foi que se aceitou a tese de que a ação direta, pedra de toque a partir da qual edificou-se o sindicalismo revolucionário, seria a melhor estratégia de luta para essas classes proletárias heterogêneas, uma vez que ela: [...] une a todos e exercitada por todos, nacionais e estrangeiros, homens e mulheres, velhos e menores, a arma enfim que resulta da própria condição de salariado, de operário - a ação direta, isto é a greve geral, a boicotagem, a sabotagem, a manifestação etc... ao sabor das circunstâncias e lugar. A ação direta reveste de mil formas, e é de cada dia exige uma atividade constante, uma aprendizagem incessante, desenvolve todas as energias e capacidades, aplica-se a todos os casos, adapta-se as mil condições de tempo, lugar, clima, indústria etc... Não existe outra mais maleável, nem mais educativa, nem mais eficaz168. Isso só se tornou possível com o boom das organizações sindicais de resistência em 1903169. Essas organizações tinham como finalidade, sustentar, sobre novas bases, o conflito entre capital e trabalho, substituindo os órgãos de tendência mutualista, que eram bastante expressivos até outrora.Nesse sentido, as organizações sindicais criadas e mantidas por essas classes proletárias na expectativa de levar a cabo a ação direta contra a exploração do nascente capitalismo industrial em terra brasilis, receberam não apenas o apoio, mas, a adesão efetiva dos anarquistas que animavam o coletivo editorial do referido periódico. A esse respeito Neno Vasco foi enfático ao argumentar que os anarquistas deveriam tomar: [...] parte ativa no movimento operário. O isolamento levar-nos-ia a esterilidade, ou reduziria o anarquismo a um simples movimento político da extrema liberal, a um torneio filosófico de diletantes em passeio pelos campos floridos da teoria [...] Repudiamos [...] a ação eleitoral e parlamentar, que só serve para reforçar o Estado [...] e adormecer as energias populares. O nosso método é ação direta que [...] tende a despertar a iniciativa e a coragem, leva a agir por conta própria, a unir-se, a viver sem tutela [...] preconizamos (como meios de ação direta) a greve, a boicotagem, a sabotagem, a agitação de praça, o comício, a greve geral, e por fim a insurreição e a 167 SAMIS, Alexandre. Uma Fração da Barricada: Neno Vasco e os grupos anarquistas no Brasil e Portugal. Socius Working Papers. n.1, Lisboa, 2004, p. 08. 168 VASCO, Neno. Enquete sobre o movimento operário no Brasil. Guerra Social. Rio de Janeiro, 21/08/1912. 169 OLIVEIRA, Antoniette Camargo. Despontar, (Des)fazer-se, (Re)viver... a (des)continuidade das organizações anarquistas na Primeira República. Dissertação (Mestrado em História). UFU, Uberlândia, 2001, p. 13. 71 expropriação a que os oprimidos e explorados devem recorrer, se a isso levados pela necessidade e pela consciência da sua própria força.170 Esta citação ajuda a mensurar a inflexão sofrida em sua subjetividade e, ao mesmo tempo, enuncia o novo âmbito em torno do qual ela irá se construir. Vivendo em uma época de intensa e extensa agitação na sociedade brasileira, quando começavam a circular as ideias socialistas, a surgir inúmeros grupos militantes e a serem realizadas as primeiras greves operárias, Neno Vasco retomou e consolidou sua formação militante. Com o passar dos anos aqui vividos, ele (re)construiu sua subjetividade, abandonando a estratégia intervencionista quando do seu engajamento inicial com o anarquismo em terras lusitanas, que previa, ainda que taticamente, a intervenção do Estado na questão social, o que acabava levando a um certo colaboracionismo interclassista. Mas, o que havia no sindicato que o levava a acreditar que ele possuía todo esse potencial revolucionário? O que é essencial no sindicalismo, para ele, é justamente a ação direta dos trabalhadores. Os trabalhadores não aderem ao sindicato porque possuem este ou aquele um ideal de nova organização social, mas porque são assalariados e precisam lutar contra os patrões. Dessa organização, surgiria o emprego de certos meios de ação, tais como o boicote, a sabotagem e a greve. Desses meios de ação direta seriam partidários todos os trabalhadores e, portanto, poderiam se reunir no sindicato para o exercício dessa ação, o que o levava a acreditar que o sindicato era uma instituição potencialmente revolucionária: A luta econômica é a luta essencial, o caminho duma transformação social fundamentalmente econômica. O movimento operário tem um enorme valor de educação e preparação, colocando o salariado em face do patrão e dos seus apoios, no verdadeiro terreno da luta de classes [...] a organização operária reúne, portanto, as forças de combate e reorganização social, e é terreno extremamente propício que tende a abolição das classes e do Estado171. As tarefas por ele conferidas ao sindicato se inscrevem em um duplo registro: hoje local da resistência; amanhã, local da revolução. Como, entretanto, o anarquista realiza esse casamento, cujo destino a princípio não parece ser outro que não o divórcio? Acompanhemos sua argumentação e vejamos no que ela consiste. Segundo ele: 170 171 VASCO, Neno. Generalidades. Terra Livre, São Paulo, 30/12/1905. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 215. 72 [...] a massa não sendo sacudida primeiramente pela ação com fins imediatos, não aprendendo nessa ação, de grande valor moral e educativo, a lutar, a conhecer e encarar de frente os exploradores e seus sustentáculos, a apertar os laços de solidariedade entre os oprimidos, a discutir questões de comum interesse, não só não estará organizada e preparada para a revolução social, mas, não ouvirá sequer a propaganda mais simples neste sentido e muito menos a que lhes servem certos adversários da organização de classe, toda transcendente e própria para intelectuais e semi-intelectuais, que a discutem tranquilamente no café, e para os quase indiferentes que mal a lêem e que a desprezam diante do primeiro abalo da sociedade172. Como se pode evidenciar, o que viria selar o casamento entre reforma e revolução de acordo com o anarquista seria a ação direta. Ao habituar os trabalhadores a lutar autonomamente contra os patrões por reformas, o sindicato prepararia a própria revolução. Nessa concepção de sindicalismo, tal como Neno Vasco a formula, é possível entrever a existência de duas noções diferentes que, ao invés de se excluírem, se complementam: as melhorias imediatas e a ginástica revolucionária. As melhorias imediatas conquistadas e mantidas pelo exercício contínuo da ação direta não deveriam ser encaradas enquanto algo destituído de alcance e importância. Segundo ele, a situação do trabalhador no regime capitalista, oscilaria, dentro de certos limites, que são dependentes da capacidade que estes possuem de impor sua resistência aos patrões. Se o trabalhador se adapta a viver mal e com pouco, se não resiste à exploração patronal, é reduzido a condição mais miserável, a ponto de perder muitas vezes a vontade e a energia de se revoltar; se porém, não pode sujeitar-se à situação de bruto, se tem necessidades de civilizado e se para as satisfazer resiste e organiza a resistência, [...] o operário eleva seu estilo de vida, adquire hábitos que não quererá perder e defenderá com tanta ou mais energia e consciência, quanto mais se tiver acostumado na luta contra o patrão173. Não se trata de aceitar a luta por toda e qualquer reforma.Mas, sim de realizar uma seleção entre as reformas da economia operária, que permitem a redução das horas de trabalho, o aumento do salário, a elevação do consumo, o melhoramento da higiene nas fábricas, a diminuição da autoridade patronal e o respeito da dignidade do trabalhador, e as reformas legais, que tendem ao colaboracionismo entre as classes, fiscalização do estado, aumento de impostos e o cerceamento da ação operária independente. De acordo com Neno, embora as reformas conquistadas e mantidas pela 172 173 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 213-214. Eu sublinho. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 210. 73 ação direta sejam extremamente importantes, elas são, entretanto, incapazes de alterar de modo duradouro e eficaz a sociedade capitalista. Suas crises periódicas, os seus craques financeiros, a emigração dos capitais em busca de salários mais baixos, o levavam a acreditar que as reformas são impotentes para melhorar a condição do trabalhador. [...] se o proletariado se contentasse com essas reformas superficiais, não faria senão girar eternamente num círculo sem saída, começar e recomeçar mil vezes os mesmos esforços e esperanças. A burguesia tem sempre meios – o aumento dos preços, das rendas e dos impostos, o desenvolvimento da maquinaria, sua propriedade exclusiva – para neutralizar e destruir as pequenas vantagens materiais conquistadas pelos operários, tirando com uma mão o que foi obrigada a ceder com outra174. Desse modo, as melhorias imediatas conquistadas diretamente pelos trabalhadores não seriam importantes só pelo seu aspecto material, mas, também, e sobretudo, pelo seu aspecto moral e ético. Aqui chegamos à noção de ginástica revolucionária, onde a ação direta dos trabalhadores é vista como uma preparação para a revolução que permitirá colocar um ponto final na dominação e exploração capitalistas: É esse é o principal valor da ação direta, sobretudo, da ação coletiva, sobretudo da greve, que chama todos a agir, que desperta em todos o interesse direto pela luta, que suscita as mais belas iniciativas. Assim como a queima constante de castelos feudais e arquivos preparou, realizou, caracterizou a revolução francesa, a ação econômica continua do proletariado, prepara e caracteriza a revolução social; e ao contrário das reformas legais ou das concessões patronais aparentemente espontâneas, desenvolve-se a si mesma e faz fermentar a massa175. Ao traçar a genealogia do pensamento e prática militantes de Neno Vasco, Seixas argumenta que foi a partir da sua interação com as correntes anarquistas atuantes neste jovem movimento operário – anarquistas sindicalistas e anarco-comunistas– que o “seu” sindicalismo revolucionário se construiu. Situado no interior dessa encruzilhada, Neno Vasco não se furtou ao diálogo com nenhuma delas, seja incorporando e/ou rejeitando as teses apresentadas e discutidas por seus interlocutores, o que, por sua vez, o impregnou e nutriu profundamente, tornando-o no teórico mais autorizado do 174 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 202-203. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 214. 175 74 sindicalismo revolucionário do país onde ele viveu durante 10 anos. De acordo com ela, Neno reivindica [...] primeiramente, a influência de Malatesta, a atenção que esse último da à organização e ao movimento operário; em seguida a de Pelloutier do qual ele cita, em português, extratos da impecável “Carta aos Anarquistas” e, finalmente a dos sindicalistas revolucionários franceses (sobretudo Pouget, Yvetot, Delessale). Mas a sua adesão ao sindicalismo revolucionário, que para ele representa apenas um “simples eufemismo” de anarquismo operário, não é sem tensões, precisamente em razão da persistência nele da influência malatestiana176. Em virtude dessa influência, ou melhor, desse diálogo com Malatesta, ele nunca depositaria suas confianças nas “virtudes intrínsecas” do sindicalismo, e, muito menos, subscreveria o seu colorário: “o sindicalismo se basta a si mesmo”, como o faziam os anarquistas-sindicalistas. Partindo da premissa de que a organização operária pode ser tanto instrumento de conservação burguesa como de revolução social, ele temia que o “espírito corporativista” pudesse se sobrepor ao “espírito revolucionário”, fazendo com que a “luta de categoria” sufocasse a “luta de classe”177. A exemplo dos anarcocomunistas, ele julgava essencial a existência de uma organização especificamente anarquista, que deveria atuar dentro e fora dos sindicatos com o objetivo de evitar que isso ocorresse; sem, entretanto, se deixar levar pela tentação de impor ali o anarquismo como uma espécie de doutrina oficial. Foi desse modo, que Neno Vasco se pronunciou n‟ A Terra Livre178, jornal que veio substituir O Amigo do Povo em 1905, logo após a realização do Primeiro Congresso Operário Brasileiro, em 1° de abril de 1906. Para o anarquista, a realização do congresso: [...] não foi decerto uma vitória do anarquismo. Não o devia ser. A internacional desfeita por causa das lutas de partido no seu seio deve ser memorável lição para todos. Se o congresso houvesse tomado um caráter libertário, teria feito obra de partido não de classe. O nosso fim não é constituir duplicatas dos nossos grupos políticos. Ainda mesmo que, hipótese pouco provável, o sindicato abrangendo a totalidade ou a quase totalidade de corporação, fosse todos compostos de anarquistas, ele não deveria declarar-se anarquista e fechar as suas portas aos outros trabalhadores, com idéias políticas diversas, mas com interesses 176 SEIXAS, Jacy Alves de. Memoire et oubli: Anarchisme et Syndicalisme Revoluttionaire au Brésil. Paris: Editions de la Maison des Sciences de l‟Homme, 1992, p. 167. 177 VASCO, Neno. Anarquismo ou sindicato. Voz do Trabalhador. Rio de Janeiro, 01/05/1914. 178 Jornal circulou até 1910. 75 econômicos idênticos [...] Mas se o congresso não foi a vitória do anarquismo, foi, porém útil, a difusão de nossas idéias179. Se não cabia aos anarquistas imporem o anarquismo como doutrina oficial nos sindicatos então qual deveria ser sua postura frente a estes organismos operários? Acreditando que os anarquistas não querem emancipar os trabalhadores, mas, sim que eles próprios se emancipem, ele aconselhava que o papel dos anarquistas, quer dentro, quer fora, dos sindicatos seria propagar pelo “exemplo da sua ação” os métodos: [...] conducentes a realização da emancipação integral e, aproveitando, todas as efervescências, todas as circunstâncias, todas as ocasiões em que os ouvidos estão abertos, apontar a solução radical do problema econômico e político - expropriação da burguesia, abolição das organizações governamentais e socialização dos meios de produção180 Se o sindicato viesse confirmar tais premissas, melhor para os anarquistas, todavia, elas deveriam resultar das “lições dos fatos”, “da educação”, “da ação”, da “propaganda”, mas, nunca “duma absurda e impossível ditadura anarquista”181. Como desdobramento disso, foi que ele criou a revista Aurora em 1905. Apesar do seu curto período de existência, tendo durado apenas um ano, sua proposta editorial era a publicação de textos que possibilitassem a reflexão e aprofundamento da teoria anarquista na sua especificidade. Na realidade, Neno acreditava que [...] não deveria descuidar do plano teórico formal. Nos jornais, as colunas mais reflexivas tinham que dividir espaços com os comunicados, anúncios e convocatórias de greves e manifestações. Em uma revista de ensaios, os assuntos muito complexos podiam espalhar nas colunas destinadas a eles, todas as categorias e conceitos necessários ao convencimento dos leitores mais exigentes. [...] uma oportunidade para o trabalhador com alguma instrução militante ampliar seus conhecimentos182. As ideias de Malatesta, autor cuja leitura se deu no Brasil e “foi facilitada pelo convívio dos novos camaradas através de diversos jornais anarquistas italianos, uns 179 APUD SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 196. 180 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 214-215 181 VASCO, Neno. A Terra Livre. São Paulo. 09/01/1908. 182 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 173. Alusão de Neno a tentativa de Marx em transformar A Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores em partido. Ver nota nº 131. 76 contendo colaboração e outros sendo orientados diretamente por ele”183, não constituíam, entretanto, um modelo a partir do qual ele fez uma cópia. Como indica corretamente Samis: O aprendizado de Neno Vasco, e mesmo toda sua copiosa produção teórica posterior, foi marcado por uma estreita relação entre teoria e prática. A radicalização do seu anarquismo obedeceu à sua observação dos fatos e às necessidades singulares que emergiam de demandas muito específicas assumidas por seu grupo de militância. Embora confirmadas, as referidas demandas, por uma situação que extrapolava o campo nacional, a sensibilidade que determinou muito de suas atitudes e opções foi adquirida no seu grupo de afinidades. Assim pensando, as questões que justificaram a urgência das transformações operadas no pensamento do intelectual português, foram apreendidas a partir de uma percepção mais ampla da realidade que o cercava e a intensa subjetividade que os textos, lidos e traduzidos do italiano, produziram nele, já no Brasil, e, em especial, no coletivo editorial de O Amigo do Povo.184 A trajetória de Neno Vasco, sob este aspecto, não revela nada de excepcional. Assim como diversos outros futuros militantes europeus que emigraram para o Brasil, o jovem lusitano consolidaria aqui sua formação política; afastando, já de antemão, qualquer ideia de que o anarquismo e os anarquistas seriam plantas exóticas, de difícil ou impossível aclimatação em solo brasileiro, via de regra representado como ordeiro e pacífico185. Engajando-se nos diferentes campos de ação e de propaganda abertos pela imprensa anarquista no movimento operário, ele deu início a um conjunto de atividades militantes que perdurariam no país por quase vinte anos, pois mesmo depois de ter adentrado a Porta da Europa em 1911, Neno continuava participando da imprensa anarquista e interagindo com o movimento operário no Brasil.Na crônica escrita para A Sementeira, ele nos fornece uma pista de um dos motivos que o levaram a dar 183 Adriano Botelho – memórias & ideário. Carlos Abreu e João Freire (orgs). Região Autônoma dos Açores, Secretaria Regional de Educação e Cultura, 1989, p. 58. Para uma análise mais detalhada e acuida sobre as relações entre Neno e Malatesta ver: SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009. A concepção de Malatesta a respeito do sindicalismo revolucionário pode ser consultada em meu artigo: SILVA, Thiago Lemos. Revolucionário ou reformista? Prós e contras do sindicato segundo Errico Malatesta. In: Revista Urutágua. Maringá: Departamento de Ciências Sociais – Universidade Estadual de Maringá, n° 11, dez/mar 2007. Disponível em: http://www.urutagua.uem.br/011/11lemos.pdf. Acesso em: Julho de 2011. 184 SAMIS, Alexandre. Uma Fração da Barricada: Neno Vasco e os grupos anarquistas no Brasil e Portugal. Socius Working Papers. n.1, Lisboa, 2004. 185 Ver: CARNEIRO, Ricardo São José. Anarquismo e Imaginário na Primeira República: (Des) construindo a representação do Anarquismo como 'Planta Exótica'. Monografia (Graduação em História), UFU, Uberlândia, 1999. 77 continuidade à sua militância junto ao movimento anarquista e operário no Brasil. De acordo com ele: [...] a propaganda (anarquista) naquele vasto pedaço do globo (Brasil) era uma questão nacional, particular, mas, geral. Toda a nossa obra é forçosamente solidária [...] Ora os anarquistas portugueses são dos que mais tem interesses nesta questão [...] Assim como se fala de aproximações comerciais e políticas, de missões diplomáticas e intelectuais, assim, nós devemos encarar e realizar uma união - não na forma, muitas vezes vazia, mas no que constitui a essência, a carne, o sangue, dessa aliança - a incessante troca de recursos de toda espécie. Nessa permuta de idéias, de correspondências, de publicações, de contribuições pecuniárias – e sobretudo de homens, para o conhecimento direto e pessoal dos ambientes e indivíduos - muito terão a ganhar o movimento anarquista de Portugal e o do Brasil186 Partindo de tal premissa, ele atuou como uma espécie de “diplomata” entre os companheiros situados do lado de cá e do lado de lá do Atlântico. Através de uma atividade jornalística constante e diversificada em periódicos brasileiros e portugueses Neno Vasco colaborou, por quase dez anos, para a construção de um lócus de intensos debates envolvendo diferentes estratégias de combate ao capitalismo nos meios anarquistas e operários dos respectivos países, materializando, por assim dizer, uma união inter-nacional entre Brasil e Portugal. *** Faremos a guerra européia? Os ares estão toldados – mas a diplomacia é uma coisa escura e reservada, e eu não me demoro nas barbearias, onde se discutem de modo categórico as proficientes e altas questões internacionais. É possível que todos cheguem a acordo, e os lobos da finança repartam entre si amigavelmente, rosnando e temendo-se uns aos outros, as presas que são objetos das suas variadas cobiças. Mas, parece que não faltam complicações e dificuldades.187 Ao escrever sua crônica de 24 de julho de 1912, Neno Vasco comunicou aos seus leitores, sua preocupação no que se referia à disputa imperialista entre França e Alemanha pela conquista do Marrocos. A possibilidade de um conflito envolvendo os dois países havia se tornado cada vez mais real em virtude da insatisfação da Alemanha frente à partilha efetuada no interior do império marroquino entre a França e a Inglaterra. Em face das oportunidades oferecidas pela fragilidade política do Marrocos, França e Inglaterra colocaram fim a sua a antiga rivalidade, assinando o acordo da Aliança Anglo francesa ou Entente Cordiale. Nesse acordo ficou acertado que a França 186 187 VASCO, Neno. O movimento anarquista no Brasil. A Sementeira. Lisboa. Maio de 1911. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 89. 78 reconhecia formalmente o domínio britânico sobre o Egito e o Sudão, e a Inglaterra aceitou a preeminência francesa sobre o Marrocos. Segundo o cronista, o desdobramento disso foi que: A Alemanha não se contentou com as compensações oferecidas, dentro ou fora de Marrocos, sobretudo aos seus financiadores e industriais: a Alemanha parece querer a partilha franca e equitativa do império marroquino, ou então a neutralidade perfeita e garantida do mesmo. Do seu lado, a França [...] não gosta da Alemanha em Marrocos; e como estas duas são as verdadeiras rivais da peça, na sua formidável disputa mundial, é aqui que está o nó da questão, o ponto escuro e perigoso da contenda188 O processo de militarização dos estados pertencentes aos países europeus não poderia ser entendido corretamente se desvinculado do próprio desenvolvimento do capitalismo naquele momento. Para ele havia íntima relação entre um processo e outro, o qual ele retoma e realça numa outra crônica, escrita em meados de 1912. Nos grandes países, industrialmente desenvolvidos, há um poderoso partido favorável as conquistas dos mercados, as expedições coloniais e as guerras para o esmagamento de rivais e concorrentes: e em todos os Estados, grandes ou pequenos, a burguesia que chama Pátria ao seu patrimônio burocrático e financeiro, a expressão política dos interesses econômicos, trata de exaltar o sentimento popular para a defesa desse patrimônio e a garantia desses interesses. Em todos eles igualmente se cria uma forte coligação de grupos interessados em armamentos, na multiplicação de batalhões no desenvolvimento do militarismo.189 As constantes crises de superprodução nas quais o capitalismo se via enredado naquela conjuntura, levavam nosso biografado a hipótese de que, para contorná-las, a burguesia europeia, se colocava a procura de outros mercados, através da aquisição de colônias situadas em países de economia não capitalista, tais como encontraria na África e Ásia, onde havia matéria prima mais abundante e mão de obra mais barata. Para tanto, precisava criar ou alargar o seu poderio militar, possibilitando com que tivesse condições de rivalizar pela aquisição desses novos nichos de exploração econômica, demonstrando seu pendor guerrista. Conquanto Neno reconhecesse a existência de certo seguimento da burguesia que se dizia “antiguerrista”, o seu o próprio conceito de militarismo era seriamente limitado, uma vez que entendiam ser este termo apenas a subordinação do Estado ao 188 189 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 90. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 257-258. 79 Exército. Para ele, em revanche, o militarismo significava a própria existência da instituição militar, estivesse ela acima ou abaixo do Estado. Mesmo se compreendida a partir dessa acepção mais restrita, seu desdobramento seria o mesmo, já que ele resultaria igualmente na expansão do poder do Exército. Se, com efeito, o exército se desenvolve, como quereis que ele não predomine? Como quereis, que ele, aumentada a sua força, se resigne ao simples papel de instrumento manejável? Não é tendência de cada instituição detentora de força e de influencia o alargamento das suas atribuições e do seu poder? Não estão empenhados no contínuo desenvolvimento do militarismo?190 O alargamento e expansão do poderio bélico dos estados situados Porta da Europa adentro colocou na ordem do dia os debates sobre o anti-militarismo, tática compartilhada em que pese suas nuances subjetivas, por todas as forças políticas ativas no interior do movimento operário . Em um destes debates, Neno Vasco entrou em viva polêmica com o socialista francês Gustave Hervé. Hervé havia sido preso e condenado a dois anos de prisão após escrever um artigo no jornal La Guerre Sociale, justificando a resistência à violência perpetrada pelos policiais durante a manifestação do 1° de maio na França no ano de 1911. Durante seu julgamento, Hervé esclareceu que havia escrito o artigo para criticar apenas as funções de repressão política da polícia e, que portanto, sua crítica não tocava as funções da polícia como um todo. Na realidade, Hervé acreditava que a existência da polícia se fazia necessária, a fim de reprimir aquilo que ele enuncia como atos “anti-sociais”, os delitos de direito comum, tais como o roubo, o assassínio, entre outros. Diante da posição Hervé, o cronista coloca a seguinte questão para seu leitor: seria possível operar uma separação no interior da função repressiva exercida pela polícia em relação aos crimes de delito comum e aos crimes políticos? Para o cronista, essa separação era impossível de ser operada, uma vez que o Estado tomava os crimes políticos como sendo mais nocivos do que os crimes de delito comum. Ele chegava a tal conclusão pela apreciação do fato de que o Estado: Tende , naturalmente, por defesa própria, a dar maior importância aos crimes de heresia política, arrogando-se o pretensioso direito de representar o direito de todos e de cada um, e acobertando-se sob os mais especiosos pretextos de defesa nacional e garantia de liberdades. É profunda ingenuidade, portanto, reclamar a extinção desta função 190 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 260. 80 essencial da autoridade. Se alguma concessão pudesse ser feita por um governo, reduzir-se-ia a organizar uma polícia especial – cujo fim muito particular seria, sobretudo, como é de fato, promover e cultivar o delito político, inventar complôs e atentados, para ter ocasião de prestar serviços e justificar a sua existência, mas isso não impediria o governo de aproveitar, se de tal precisasse, a outra polícia comum, como aproveita sempre o exército, embora teoricamente criado para a defesa da pátria.191 Além disso, Neno Vasco criticava Hervé por não colocar em questão o fato, para ele, banal, de que a existência das “escórias sociais” estava, em grande parte, vinculada com a constituição da própria sociedade naquela época, pois seria, em sua avaliação, impossível não levar em conta que: [...] hoje delinqüi-se quase sempre em virtude do antagonismo de interesses, dos ódios que ele produz, das rivalidades que ele suscita, da ignorância e outros frutos da miséria; e rouba-se também porque há direitos e valores de fácil apropriação. Quando se assalta uma casa, ou um viajante, e se emprega, para roubar, o punhal, o revolver ou veneno, é porque se procura dinheiro ou se farejem jóias e riquezas portáteis, com grande valor comercial, facilmente transformáveis no ouro que proporciona prazeres e abre todas as portas ou garantir a vida por algum tempo no ócio soberbo dos ricos, considerados e respeitados por todos, como se trabalhassem e fossem seres úteis. E que admira, se essa ociosidade, dada como prêmio e honraria é por muitos preferida, ao menos secretamente, ao terrível martírio da labuta permanente.192 A existência dos chamados delitos de crime comum eram entendidas, pelo cronista, como desdobramento das contradições sociais geradas pelo capitalismo, que ao proporcionar muito a poucos, e pouco a muitos acaba por conduzir aqueles que, por serem menos aquinhoados, ao roubo, ao assassínio e outras práticas similares. No entanto, a análise de Neno não se esgota na simples enunciação dos fatores econômicos que ajudam a elucidar o fenômeno dos delitos de direito comuns. Para ele, os fatores psicológicos, desempenhariam, igualmente um fator não negligenciável para que esse fenômeno pudesse ser esclarecido, pois, a ideia, fundante na sociedade capitalista, de que o dinheiro é sinônimo de uma vida pautada na realização integral da individualidade, levava os trabalhadores a quererem, ao menos no plano simbólico, equiparar-se à burguesia. 191 192 VASCO,Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 115-116. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 117. 81 A polêmica com Hervé, entretanto, não acabaria em 1911, sendo retomada e atualizada no ano seguinte, a qual teria sido suscitada em virtude de uma possível conversão do membro do Partido Socialista Francês ao anarquismo. De acordo com Neno, essa conversão não teria passado de um mal entendido, criado e difundido pela imprensa burguesa, que tratou do assunto como que um “cego que fala de cores”. Na realidade, explicava Neno, não houve conversão, houve sim uma “retificação de tiro”, como posteriormente esclareceria o próprio Hervé. O que, contudo, havia ocorrido para que Hervé tivesse sido identificado como anarquista, mesmo que à sua revelia? Quando o Partido Socialista Francês começava a enveredar pontualmente para o reformismo, aceitando definitivamente o parlamentarismo como estratégia exclusiva, Hervé insurgiu-se contra os quadros burocráticos do partido e principiou uma aproximação com os anarquistas e sindicalistas revolucionários vinculados a CGT, passando a compartilhar com estes algumas de suas táticas, tais como: o antimilitarismo. Posteriormente, entretanto, Hervé se viu obrigado a “retificar o tiro”, uma vez que percebeu que a tática antimilitarista, tal como vinha sendo concebido pelos anarquistas, não conseguiria dar conta de uma tática insurrecional adequada, sendo necessário reformulá-la. Segundo o próprio Hervé: [...] Como nunca se fez revolução, sem insurreições, queremos conquistar o exército, para o empregar nos nossos fins socialistas e revolucionários. O exército com a sua juventude ardente, com os seus pequenos funcionários mal pagos, que são sargentos, com os seus intelectuais pobres e idealistas que são a maior parte dos oficiais é nosso se lhe sabemos pegar. 193 Uma vez que a insurreição revolucionária não se faria sem o exército, Hervé conclui que seria preciso conquistá-lo. Mas, essa particular estratégia se encontra incluída em uma estratégia geral que prevê a conquista do Estado, fiel à dermache socialista. Neno se aproxima de Hervé ao compartilhar com este a premissa de que não se faz revoluções sem insurreições, porém, se distância dele na medida em que acredita que a estratégia de conquista do exército longe de conduzir ao socialismo, o afasta cada vez mais dele: [...] Conservando-se espírito burguês e militarista, o militar profissional pode aderir superficialmente, aparentemente, ao socialismo, mas, traz um germe de degeneração para a idéia e uma 193 APUD. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 276. 82 ameaça a revolução, que ele tenderá a tomar simplesmente política, como conquista do Estado para reformar do alto a sociedade e reproduzir as formas autoritárias.194 Fiel à demarche anarquista, Neno sugere que em caso de uma insurreição revolucionária, a estratégia a ser utilizada seria a de não conquistar o exército, instrumento do capitalismo, seria, antes destruí-lo. Se de fato, Neno acreditava que seria possível dispensar o exército para fazer avançar a revolução, resta levantar uma questão que permanece essencial: como realizar a insurreição armada? Seriam os próprios grupos civis, segundo ele, que levariam a cabo este processo. De modo distinto do exército, esses grupos civis não se organizariam: [...] autoritariamente, por uma casta militar, de cima para baixo, mas em sentido contrário, pelo livre acordo, pela livre escolha dos técnicos e dos instrutores, com uma disciplina voluntária e consciente. Um grande ideal unindo à todos, haveria realmente o que defender – porque tudo – será de todos. Então [...] o povo trabalhador [...] não terá somente uma vaga aspiração as democráticas promessas dos políticos. 195 O debate entre Neno e Hervé revela a correlação de forças entre as correntes políticas ativas dentro do movimento operário europeu, que ora se distanciam, ora se aproximam. Embora ambos compartilhem da premissa de que a questão militar se torna problema insolúvel se desvinculado da questão social, um e outro apresentam respostas diferentes para essa questão.Dito de outro modo: em uma situação hipoteticamente revolucionária, Hervé quer ver o exército armado, enquanto Neno quer ver as armas na mão do povo. *** Durante o ano de 1913, Neno Vasco acompanhou com atenção a luta encabeçada pelas sufragistas dentro e fora Da Porta da Europa. Em que pese alguma simpatia pelas feministas, ele acreditava que sua luta constituía uma luta menor, não por tratar-se de uma luta que visava resolver a questão feminina, mas por não colocar em questão as relações de dominação e exploração existentes no interior da sociedade capitalista,pois ao lutarem pela conquista do voto, as feministas se propunham a emancipar as mulheres burguesas, e não todas as mulheres. 194 195 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 279. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 281. 83 Através do jornal lisboeta A Terra Livre196, Neno publicou uma crônica intitulada o Feminismo e a mulher proletária, em que ele partilhou com seus leitores a opinião de que essa limitação era tributária da classe social de onde advinham: O movimento das sufragistas é sem dúvida simpático a todos os revolucionários sociais [...] não só pela altiva energia que elas empregam e sem a qual nem ouvidas seriam, mas, ainda porque aos olhos dos que tem em vista a emancipação do ser humano e abolição de todos os privilégios, muito legitimamente reclamam as mulheres o direitos, verdadeiros ou ilusórios concedidos aos homens. Esses direitos, não são aliás inteiramente ilusórios para a classe das mulheres que os reclama, embora não tenha valor para as operárias. Porque o feminismo das sufragistas é um feminismo burguês, que pode interessar as senhoras das classes médias, e mesmo as aristocratas, mas não interessa a mulher pobre, para quem as reivindicações feministas, consignadas em lei não representariam aumento algum de possibilidades econômicas e de liberdade efetiva.197 Os direitos reivindicados pelas sufragistas, tais como o voto, a abolição de certas incapacidades jurídicas, o fim de sua inferioridade legal na família e admissão em certos cargos públicos alteravam, segundo ele, apenas a situação das mulheres burguesas, ao passo que as mulheres operárias, permaneceriam em uma mesma situação. Sob este aspecto o voto teria: [...] valor para a burguesia de ambos os sexos, sobretudo para os pequenos burgueses, eleitores ou elegíveis, pois, que, pelo seu número e pela sua relativa independência econômica, tem grande vantagem eleitoral e podem esperar vantagens sensíveis de certas reformas legais, de medidas tributárias, situações burocráticas. Mas as operárias como os operários só podem confiar na sua força e união. Perante o código civil tem com efeito direitos a fazer valer, inferioridades a suprimir, interesses a salvaguardar. Mas, a pobre? Que dote, que propriedade? Que interesses tem ela Casada ou amancebada, a sua situação é a mesma, iguais as suas garantias. Nada tem que defender.198 Para as mulheres operárias a questão, portanto, era outra. De acordo com o cronista, sua condição econômica as colocava em uma situação onde os direitos formais lhe pareciam in-significantes, pois sem proventos mais generosos, elas não teriam heranças a receber, pensões pelas quais lutar etc, condição que, aliás, elas compartilhariam com seus companheiros. Disso resulta para Neno que as operárias 196 Não confundir com o periódico paulistano A Terra Livre, que foi (co)editado no Brasil entre 1905 e 1910. 197 VASCO, Neno. O Feminismo e a mulher proletária, Lisboa, A Terra Livre, 27/03/1913. 198 VASCO, Neno. O Feminismo e a mulher proletária, Lisboa, A Terra Livre, 27/03/1913. 84 deveriam se unir aos operários e que, juntos, lutassem contras os patrões e as patroas. Como desdobramento disso, ele propugnava que: [...] as operárias não precisavam fazer feminismo, mas, de luta de classes. E nessa luta tem a solidariedade dos companheiros [...] Façam pois as damas o seu pequeno feminismo: a mulher proletária por seu lado, pela sua própria força, caminha de mãos dadas com seu companheiro para uma emancipação que abrange todas as outras e que não fará distinção entre os sexos.199 As críticas de Neno Vasco às feministas demarcam sua posição sobre a questão feminina, a qual passa a ser entendida como indissociável da questão social. Dito de outro modo: para ele a emancipação das mulheres é impossível de ser operada sem a emancipação dos trabalhadores, que ocorreria quando a propriedade privada fosse destruída e os meios de produção socializados. Mas, se Neno entende a questão feminina como algo indissociável da questão social, isso significa que ele não a contemple na sua especificidade? Ao que parece, a questão feminina não era uma questão menor para Neno Vasco. Não por acaso, ele havia debutado na imprensa portuguesa200 nos idos de 1900, com uma crônica onde comentava o repercutido crime praticado por Joaquina Rosa, que, aguilhoada pela miséria, havia assassinado os seus filhos, e, em decorrência disso, foi julgada e condenada pelo tribunal. Através das páginas do diário republicano O Mundo 201 , ele sustentou uma viva polêmica com o médico Máximo Brou, o qual havia saído peremptoriamente no ataque de Joaquina, argumentando que a maternidade possuía um valor absoluto e que, portanto, a mãe que o praticou era uma degenerada. De acordo com,o há pouco, Neno Vasco202: Assustadamente, mas às cegas, com prejuízo para a saúde, para a felicidade, para o amor, todo proletário capaz d‟amar os filhos – sobretudo a maior vítima: a mulher - tenta fugir do horror d‟um lar cheio de filhos e vazio de pão [...] A mulher é maior vítima e escrava de todos os preconceitos. Ela é que na frase de Robin „deve ter, não digo o direito, que já não sei o que significa essa palavra gasta a força 199 VASCO, Neno. O Feminismo e a mulher proletária, Lisboa, A Terra Livre, 27/03/1913. Foi a partir das páginas deste periódico que Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós Vasconcelos passou a ser ( re)conhecido como Neno Vasco. Ver: ver: SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 93-103. 201 Ver nota:139. 202 Ver nota:01. 200 85 do abuso, mas o poder [...] de ser mãe só quando o tiver resolvido após madura reflexão‟203. Embora Neno procure entender o ato de Joaquina levando em conta a questão social, uma vez que a miséria teria constituído um fator não negligenciável para que ela tivesse assassinado seus próprios filhos, por outro, vemos surgir um tema especificamente vinculado à questão feminina: a maternidade voluntária. Desse modo, para além de um lar “vazio de pão”, o fato de este lar ser “cheio de filhos” também deveria ser levado em conta caso quisesse-se elucidar o caso Joaquina. Fazendo seus os argumentos de Emile Zola sobre as teses da fecundidade, ele propugnava o amor livre, condição indispensável para que a maternidade voluntária seja realizada, conferindo à mulher a autonomia de escolher se quer ou não ter filhos. Para além disso, a própria experiência pessoal do nosso biografado revela sua sensibilidade para com a questão feminina. Uma vez casado com a irmã de Manuel Moscoso, militante anarquista que esteve ao seu lado quando da publicação d‟ O Amigo do Povo e d‟ A Terra Livre, ele via nesta relação com Mercedes Moscoso algo a mais do que um simples matrimônio. De acordo com Samis: O casamento havia tocado Neno Vasco profundamente. A vida com uma companheira anarquista, irmã de um grande amigo e ativista da causa servia de linimento a qualquer mal do espírito que pudesse se apossar dele em função das desventuras econômicas ou revezes políticos. Tudo que havia escrito sobre o amor livre, maternidade voluntária as denuncias que fizera das condições enfrentadas pela mulher na sociedade capitalista [...] podiam encontrar na relação com Mercedes uma síntese extraordinária204. Suas posições sobre a emancipação das mulheres possuem, portanto, uma dupla inscrição: a política e a pessoal, as quais refletem muito de sua trajetória. Em relação à primeira, é possível inferir que essa sensibilidade resulta da sua concepção de revolução, na qual ele entreve a viabilidade da emancipação feminina junto com a emancipação proletária. Em relação à segunda, essa sensibilidade resulta do seu próprio casamento com Mercedes, no qual ele vislumbra a possibilidade construir uma relação onde pudesse colocar em prática tudo o que havia escrito sobre o amor livre, a 203 APUD SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 99. 204 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 179-180. 86 maternidade voluntária e as denúncias que fizera das condições enfrentadas pela mulher na sociedade capitalista. Para finalizar essa discussão, uma imagem trazida por Adriano Botelho parece sugestiva para se pensar como Neno constrói sua subjetividade com relação à questão feminina. Se compartilharmos com Botelho a ideia de que é “nas suas relações com a mulher que o homem se mostra mais hipócrita, mais velhaco e mais cruel”, constituindo o domínio a partir do qual se “mede o caráter moral de cada indivíduo”, seríamos forçados a concordar com ele que “a personalidade de Neno seria digna de estudo”205, pela sensibilidade com que trata do tema. *** Em 29 de junho de 1913, o que não faltava para Neno Vasco era assunto para crônica. Afinal de contas, Porta da Europa adentro, o movimento anarquista e operário se via envolto com as investidas da Monarquia espanhola no Marrocos, os soldados franceses eram duramente reprimidos pelo governo por colocarem em questão a hierarquia militar e o conflito balcânico parecia longe de estar resolvido. No entanto, Neno optou por permanecer com os “assuntos caseiros”. Essa escolha por parte do cronista não era, de modo alguma, ingênua. A opção em croniciar um “fait divers” ocorrido em Portugal, se justificava por causa da forte repressão desencadeada contra o movimento anarquista e sindicalista do país naquele momento. Após uma série de tentativas (algumas reais outras nem tanto) contra o ministro da justiça Afonso Costa, a Casa Sindical havia sido fechada e diversos militantes anarquistas e sindicalistas, tais como: Carlos Rates, Alexandre Vieira e Pinto Quartim foram presos e levados para a cidade de Limoeiro, sem qualquer tipo de prova que ratificasse suas respectivas participações nos atentados ocorridos. Com tal atitude, Afonso Costa tinha o objetivo de isolar e, com isso, neutralizar a presença da ala mais radial do movimento operário português.206 Disso testemunha a própria atitude de Costa que, em face das pressões populares, dentro e fora do país, admitia liberar aqueles que possuíssem emprego fixo, porém, manteria presos aqueles que se encontrassem desempregados, justificando tal medida com a alegação de que tratava-se de “desocupados” e “vadios” que incorriam 205 APUD FREIRE, João. Prefácio, In: SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 11. 206 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 325. 87 no crime de ociosidade. Com tal medida, Costa atingia diretamente os militantes que secretariavam algum sindicato ou se encontravam em tournné de propaganda207. Se valendo dessa onda repressiva que havia se abatido sobre a ala anarquista e sindicalista do movimento operário português, os socialistas vinculados à Federação Operária de Lisboa, de cariz reformista convocaram para o primeiro mês do ano subsequente a realização de um Congresso que visava unificar as agremiações sindicais de todo território português. Ao croniciar seus preparativos, Neno argumentava que o fato de o referido colóquio operário ter sido convocado pelos socialistas: [...] inspirou a princípio certa desconfiança da parte dos partidários da perfeita independência do movimento operário, de classe ante todos os partidos políticos. Parecia-lhe um jogo de habilidosos captadores, feito em momento de desorganização sindicalista e de perseguição governamental, tanto mais que os promotores da reunião recusaram a adiar a sua celebração.208 Antes, contudo, de passar ao Congresso, recapitulemos... no período de (re)nascimento do movimento sindical português, ocorrido logo após a proclamação da República, as associações de resistência, tendo à frente os anarquistas, cresciam numericamente em relação às associações mutualistas. Durante este processo de (re)configuração do movimento operário português, os anarquistas isolam e neutralizam os socialistas, cuja presença continua ativa apenas nas associações mutualistas, menores e menos combativas se comparadas com as associações de resistência. Cada vez menos expressivos, no movimento operário, os socialistas portugueses irão adotar a estratégia parlamentarista quase que exclusivamente. A adoção desta estratégia dos socialistas foi ironicamente registrada por Neno em uma de suas crônicas: [...] os socialistas democráticos portugueses já não estão nos primeiros tempos, em que se começava a enveredar pelo parlamento sob ingênuos ou manhosos pretextos de propaganda ruidosa: os nossos sociais democratas entram já maduros, e aqueles ilusórios tempos vão longe...209 Se Neno estiver certo de que o tempo de “ilusões” em relação à estratégia parlamentar anteriormente concebida como um, entre outros, meios de propaganda do socialismo, já havia se passado, então resta levantar uma questão: que objetivos 207 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 325-329. 208 VASCO, Neno. O Congresso de Tomar, A Lanterna, São Paulo, 19/04/1914. 209 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 37. 88 possuíam os socialistas ao entrarem no parlamento? Ao que parece, a adoção da estratégia parlamentar por parte dos socialistas possuía objetivos pontualmente reformistas, que deveriam se materializar na construção de uma legislação operária, prevendo, portanto, a resolução tutelar da questão social, através da mediação do Estado nos conflitos entre capital e trabalho210. Com a ironia que lhe era peculiar, Neno Vasco compartilhou com seus leitores sua opinião sobre como os aspirantes a futuros deputados socialistas deveriam proceder caso quisessem ver alcançado o seu “ambicioso” projeto de criação de uma legislação operária no parlamento português: [...] Fazer a crítica da propriedade privada, do Estado, do exército? Falar-lhes de revolução social, de socialização, de expropriação revolucionária? Credo! Qualquer programa nítido, qualquer afirmação revolucionária dispersaria aquela gente. Ali estava a burguesia média, a maior força eleitoral, pela sua instrução e pela sua relativa independência econômica. Era preciso lisonjeá-los, falar-lhes dos seus interesses, esconder em sua honra o mais rubro do programa. [...] juntar números com vagas afirmações liberais e ribombantes, sobre as quais está todo mundo de acordo [...] aceitar concursos duvidosos, fechar os olhos sobre contingentes comprometedores, levar à cabo combinações e intrigas.211 No entanto, os socialistas nunca chegariam a ocupar qualquer cargo parlamentar por meio de seu público eleitor. Na realidade, apenas por negociações com os republicanos e nunca por meio dos votos obtidos é que eles chegariam às engrenagens políticas do Estado. Disso nos dá testemunho o trajeto percorrido pelo primeiro membro do partido socialista que exerceu o cargo de deputado. Aberta a Constituinte em maio de 1911, foram feitas chamadas para a primeira eleição livre de Portugal, nas quais os candidatos concorreriam aos cargos de deputados. Os socialistas se apresentaram em doze círculos eleitorais: dois em Lisboa, dois no Porto e arredores e um em Penafiel, Coimbra, Tomar, Torres Vedras, Aldeia Galega, Setúbal e Beja. Em conjunto, o Partido Socialista recolheu um total de 4000 votos, dos quais 2600 no Porto e Gaia e 800 em Lisboa, e não conseguiu eleger um único deputado. Mais tarde, por desistência de Nunes da Ponte, que se tornara governador civil do Porto, cargo incompatível com o de deputado, um socialista entrou para o Parlamento: Manuel José da Silva212: 210 PEREIRA, Joana Dias. Sindicalismo revolucionário: a história de uma Idea. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Nova de Lisboa, p. 41. 211 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 38. 212 Logo nas primeiras semanas de trabalhos da Assembléia, entretanto, os republicanos mostrar-se-iam de uma hostilidade incontornável para com ele, isolando-o e, por conseguinte, reduzindo-o a uma apagada impotência. PULIDO, Vasco. A República e as classes trabalhadoras (Outubro de 1910-Agosto de 1911). Análise Social. Lisboa, nº 34, 1972, p. 309. 89 E eis, escreveu Neno Vasco, como o governo republicano respondeu com fina ironia às suposições dos socialistas, dando-lhes os prazeres de uma primeira vitória fácil e presenteando-os com o que se pode bem chamar de uma “entrada de favor” no teatro da representação nacional... Se eles depois não souberem corresponder à gentileza, é porque são dotados de muito mal coração!213 O que explica, entretanto, esse tímido desempenho do Partido Socialista Português nas eleições? Para entender essa questão devemos levar em consideração a relação de forças existente dentro e fora do movimento operário português. Entre os trabalhadores vinculados aos sindicatos de resistência, onde os anarquistas davam o tom, a legislação operária era combatida e afastada enquanto resolução para o problema da questão social, portanto se abstinham de votar nas eleições. Entre os trabalhadores dos sindicatos mutualistas, lugar onde os socialistas poderiam recrutar algum apoio, eram politicamente inexpressivos devido ao seu baixo valor numérico. Além disso, grande parte do contingente populacional que integrava o proletariado português, era analfabeta e, por esse motivo, era impedida de votar214. Entre os membros da burguesia que eram sensíveis à questão social tomavam a dianteira dos projetos de legislação operária e, por esse motivo, não abriam espaço para os socialistas215. Tal constatação leva o cronista à seguinte ilação: [...] os socialistas, podiam ter-se dispensado do parco esforço que fizeram para levar ao parlamento um deputado: Constituinte está cheia de amigos do proletariado que se apressaram a apresentar, na ausência do representante social-democrático, um punhado de projetos e propostas.216 Em virtude dos reiterados insucessos no terreno parlamentar, os socialistas procuravam redimensionar sua estratégia tentando se (re)aproximar do movimento operário português, após chegar à conclusão que sem uma forte base de apoio sindical não poderiam pressionar, ainda que de fora, o Estado para fazer avançar suas propostas de legislação operária; daí a sua chamada para o referido congresso, no qual eles se beneficiariam por causa da ausência da sua ala mais radical 217. Os objetivos dos 213 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 37. PULIDO, Vasco. A República e as classes trabalhadoras (Outubro de 1910-Agosto de 1911). Análise Social. Lisboa, nº 34, 1972, p. 309. 215 PULIDO, Vasco. A República e as classes trabalhadoras (Outubro de 1910-Agosto de 1911). Análise Social. Lisboa, nº 34, 1972, p 308. 216 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 40. 217 PEREIRA, Joana Dias. Sindicalismo revolucionário: a história de uma Idea. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Nova de Lisboa, p. 65. 214 90 socialistas, entretanto, ver-se-iam radicalmente frustrados por causa de dois eventos que ocorreriam nos primeiros meses de 1914: as greves dos ferroviários e a postura do próprio governo que, tendo à frente o presidente Bernardino Machado, procurou apresentar uma proposta de reconciliação nacional, anistiando os anarquistas e sindicalistas que se encontravam presos no Limoeiro218. Ao discutir a nova postura do governo, Neno Vasco não transigia em seu diagnóstico, afirmando que a postura de Bernardino Machado não deveria ser tomada como indício de simpatia pela luta dos trabalhadores. Muito pelo contrário, para ele todos os governantes eram “iguais”, tratar-se-ia apenas de uma diferença de temperamento entre eles. Alguns eram mais “rudes” e “violentos” do que outros, porém, continuavam a operar dentro da mesma lógica. Partindo de tal premissa, ele traçaria um interessante perfil a respeito das diferenças entre Bernardino Machado e Afonso Costa. Ao contrário de Costa, Bernardino era: [...] a cordialidade em pessoa chapelada para a direita à esquerda, apertos de mão à toda gente. A amabilidade deste político chega a ser excessiva e enfastia até os próprios colegas; e a caricatura daquela cortesia política e diplomática, que é a rede viscosa de onde se pesca peixe. 219 Uma vez que os militantes presos voltaram a engrossar as fileiras da ala mais radical do movimento operário português, os anarquistas e sindicalistas concordaram em participar do referido Congresso, procurando, tanto quanto fosse possível, com que este assumisse a feição alcançada pelo II Congresso Sindicalista realizado em 1911. Ficava, desse modo, confirmada a realização do Congresso tendo como palco a cidade de Tomar, no dia 14 de março de 1914, com a adesão de 103 sindicatos e 7 federações220. Para Neno, o referido colóquio operário era o mais importante realizado em Portugal, nem tanto pelos números, que, por si só, justificariam este juízo de valor, mas, também e, sobretudo, pelos debates travados sobre qual seria o método mais adequado que os trabalhadores deveriam usar em sua luta contra os patrões221. 218 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 342. 219 VASCO, Neno. Políticos e Política, A Lanterna, São Paulo, 14/03/1914. 220 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 342. 221 VASCO, Neno. O Congresso de Tomar, A Lanterna, São Paulo, 19/04/1914. 91 Se, com efeito, Neno acreditava que a importância assumida pelo Congresso se devia aos métodos ali debatidos, resta levantar uma questão, aparentemente banal, mas, de suma importância: no que eles consistem? De um lado, os socialistas buscavam tomar a dianteira das organizações sindicais, com o objetivo de transformá-las em uma força para pressionar o Estado a fim de que os projetos de legislação operária fossem aprovados no parlamento. De outro, os anarquistas buscavam reforçar a autonomia dos sindicatos face aos partidos políticos e ao Estado. Qual foi, entretanto, o método que saiu vitorioso? De certa forma, os dois, porque embora o congresso deliberasse que o sindicato possuía autonomia em face dos partidos políticos, tal como é possível evidenciar no seu terceiro artigo222, em revanche, no décimo223, não ficava suficientemente claro se era permitido ou não que um operário que pertencente à administração do sindicato pudesse participar de eleições parlamentares. Como desdobramento disso: [...] O Congresso não agradou inteiramente os ciosos da independência sindical, aos que desejavam um operariado emancipando-se a si mesmo [...] mas esperemos que a atividade e a vigilância dos revolucionários neutralizem esse perigo e que um futuro congresso definitivamente o suprima sem perigo de novas divisões.224 Como se pode evidenciar, as resoluções deliberadas durante o colóquio operário em questão não haviam agradado inteiramente aos anarquistas e sindicalistas, os quais ele identifica vagamente como aqueles que seriam “ciosos da independência sindical”. Mas, para Neno em que medida tais resoluções o agradaram ou desagradaram? Segundo Neno, para que os sindicatos cumprissem seus objetivos presentes ou futuros, no que concerne à luta por melhorias imediatas na sociedade capitalista e, igualmente, viabilizasse a ginástica revolucionária para que os trabalhadores adquirissem a consciência necessária para (re)construir a sociedade num sentido socialista, seria necessário evitar duas opções, que se encontravam intimamente ligadas com a correlação de forças políticas ativas no interior do movimento operário português: [...] o primeiro é a subordinação da organização operária a um partido político ou a adoção duma doutrina oficial, por mais revolucionária que ela seja; o segundo é, com pretexto de independência; suprimir 222 VASCO, Neno. O Congresso de Tomar, A Lanterna, São Paulo, 19/04/1914. VASCO, Neno. O Congresso de Tomar, A Lanterna, São Paulo, 19/04/1914. 224 VASCO, Neno. O Congresso de Tomar, A Lanterna, São Paulo, 19/04/1914. 223 92 dentro do sindicato o franco e leal embates dos métodos e ideais, agindo no terreno e com os meios que o sindicato oferece.225 Ao rejeitar a primeira, ele alude aos socialistas que procuravam instrumentalizar o sindicato para transformá-lo em correia de transmissão da sua ideologia, ignorando o fato de que os operários somente poderiam se impor politicamente caso permanecessem unidos sobre os seus interesses comuns enquanto assalariados, o que significava, portanto, permanecer fora dos partidos políticos e sua luta pelo poder no Estado. Caso essa escolha fosse aceita a autonomia, pedra de toque identitária do sindicalismo revolucionário, ver-se-ia seriamente ameaçada. Para além da confusão gerada entre os trabalhadores, a violação da autonomia sindical poderia redundar em algo ainda mais perigoso devido a um autoritarismo inconsequente: ver as ideias de uma minoria artificialmente transplantadas a uma maioria. A segunda escolha, por ele igualmente rejeitada, remete à correlação de forças no interior do próprio movimento anarquista português, que se encontrava dividido entre anarquistas-sindicalistas e anarco-comunistas, tal como o testemunhava o assíduo e fervoroso debate opondo Emílio Costa e Manuel Ribeiro através do jornal, A Terra Livre no período anterior à realização do congresso226. Entendendo que o sindicalismo revolucionário era a forma histórica assumida pelo anarquismo na modernidade, os anarquistas-sindicalistas, tais como Manuel Ribeiro, concluiam que o “sindicato se bastava a si mesmo” para atingir o socialismo libertário. Em virtude disso, dispensavam a existência de um grupo especificamente anarquista que agisse, enquanto minoria ativa, dentro dos sindicatos para realizar a propaganda anarquista227. Em troca, os anarco-comunistas, tais como Emílio Costa, inferiam que, conquanto o sindicato não devesse adotar o anarquismo como doutrina oficial e se manter aberto a todos os trabalhadores, este “não se bastava a si mesmo” para atingir o socialismo libertário, mesmo que recebendo o adjetivo de revolucionário. Temendo que a tendência reformista dos sindicatos integrasse os trabalhadores na sociedade 225 VASCO, Neno. O Congresso de Tomar, A Lanterna, São Paulo, 19/04/1914. Tema que retoma e atualiza, também em Portugal, o debate entre o anarquista-sindicalista francês Pierre Monatte e o anarco-comunista italiano Errico Malatesta durante o Congresso Anarquista de Amsterdam em 1907 . A esse respeito ver: MONATTE, Pierre. Em defesa do sindicalismo; MALATESTA, Errico. Sindicalismo: A crítica de um anarquista ambos em WOODCOCK, George. Os grandes escritos anarquistas. Porto Alegre: L & PM. 1981. 227 FREIRE, João. Estudo introdutório In: VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984, p. 24-26. 226 93 capitalista, ele julgava essencial que os anarquistas organizados e identificados enquanto tal, atuassem dentro dos referidos organismos operários enquanto guardiões da sua consciência revolucionária228. Ao enunciar suas considerações finais na sua crônica sobre O Congresso de Tomar, Neno Vasco coloca em evidência as relações de força entre as diferentes correntes existentes e atuantes no movimento operário português, porém, sublinha que: “Unir as forças não é nivelar as tendências, nem abdicar opiniões. Pelo contrário, a alma da união está na tolerância”, logo o papel dos anarquistas dentro dos sindicatos seria “ conquistar não os estatutos e as declarações oficiais, mas o espírito dos associados e das massas para se traduzir espontaneamente em fatos.229 Apesar dos embates teóricos, as resoluções práticas foram encaminhadas no sentido de unificar “a família proletária” sobre o terreno da luta contra os patrões com os meios que provêm da “força dos produtores” e da “união dos seus braços”. Ficava, assim, informa Neno, constituída a transitória União Operária Portuguesa, a partir da qual deveria ser edificada futuramente a Confederação Geral do Trabalho Português230. 228 FREIRE, João. Estudo introdutório In: VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984, p. 24-26. 229 VASCO, Neno. O Congresso de Tomar, A Lanterna, São Paulo, 19/04/1914. 230 VASCO, Neno. O Congresso de Tomar, A Lanterna, São Paulo, 19/04/1914. 94 CAPÍTULO III-A Guerra, a Epopéia Russa e a escrita como ofício e como militância Durante o debate que travou com os estudantes da Universidade de Coimbra, quando da reforma dos seus estatutos no início de 1911, Neno Vasco argumentava ser esforço baldado querer aprovar a reivindicação que viabilizava a facilitação pecuniária dos cursos para os estudantes pertencentes às classes menos aquinhoadas. Naquele momento, o cronista argumentava que em uma sociedade divida em classes diferentes e antagônicas, a realização da fórmula pasteuriana, que partia do pressuposto de que o Estado deveria oportunizar a todos os indivíduos, sem distinção de classe, as mesmas condições de desenvolvimento integral de sua personalidade, tonarse-ia inexequível numa sociedade onde o Estado, “forma política do individualismo burguês”231, reproduzia a divisão social do trabalho, oferecendo para os filhos da burguesia uma educação para o trabalho intelectual e para os filhos dos trabalhadores, quando oferecia, uma educação para o trabalho manual. Desse modo, ele hipotecava para a futura sociedade, onde inexistiria o princípio individual da propriedade e os meios de produção seriam socializados, a realização da fórmula pasteuriana, deixando os trabalhadores da sociedade presente, carentes de toda e qualquer iniciativa educacional diferente daquela oferecida pelo Estado. Mas, o fato de Neno argumentar que somente na futura sociedade seria possível realizar a educação integral, significa que na sociedade presente seria, em troca, inviável qualquer ensaio de educação integral? Ao que parecia sim e sua própria concepção havia sido alterada, ao menos em parte, sobre este assunto, tal como testemunha a crônica por ele escrita, com o sugestivo título Uma Bela Escola, em 24 de janeiro de 1914. Aqui perto da minha residência, num dos pontos mais elevados de Lisboa, o Largo da Graça, está estabelecida uma instituição de ensino que já ganhou fama e que tem merecido elogios dos competentes e dos profanos – a Escola Oficina n.º 1, da sociedade promotora das Escolas Oficina Ainda recentemente uma comissão estrangeira de estudo, declarando e verificando que as instituições escolares de Portugal estão em grande atraso [....] reconheceu com surpresa a Escola- 231 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 71. 95 Oficinanº1 não só se destaca violentamente do resto,mas, não tem lá fora rival ao seu gênero232 Na realidade, a Escola-Oficina não era uma escola integralmente anarquista. Inicialmente ela havia sido idealizada e implementada por republicanos para proporcionar aos trabalhadores uma educação diferenciada. No entanto, com ingresso ulterior dos socialistas e, principalmente, dos anarquistas houve uma “revolução” naquela escola233. A (co)existência de diferentes forças políticas do movimento operário no interior da Escola-Oficina revela que a questão educacional possuía uma importância de valor incontornável para ambas. Ao lado de outros anarquistas tais como: César Oliveira, Emílio Costa; José Carlos de Sousa; Deolinda Lopes e, principalmente, Adolfo Lima, a pedagogia libertária ou racional, foi sendo progressivamente implementada naquela escola. Adolfo Lima, que se encontrava à frente da sua gestão pedagógica, despertava em Neno a mais profunda simpatia, externada noutra crônica, onde ele se propunha a resenhar os seus, recém publicados, que versavam sobre a Educação e o Ensino, O Ensino de História e O Teatro na Escola. Na sua apreciação: Adolfo Lima não observa, as coisas sobre que escreve, do fundo do seu gabinete, entre rimas de livros volumosos e graves, nem enche os seus escritos de citações e de erudição de compendio. O que lê, assimila-o e da-lhe uma expressão pessoal; e há nele acima de tudo o prático, o técnico, o experimentador de idéias e processos novos – pois que é professor na Escola-Oficina nº 1, a bela instituição de ensino de que já me ocupei neste lugar [...] É um estudioso, um trabalhador, que não chega mesmo a orador, que faz em vez de pregar, que dá boas lições, não só as suas crianças, mas a nós todos, que nos fornece o fruto dos seus estudos e experiências, em vezes de pomposas declamações234. Dessa atividade empreendida pelos anarquistas e outras forças políticas ativas no movimento operário, resultou uma experiência pedagógica singular, principalmente se levarmos em conta o cáustico diagnóstico levantado por Neno sobre o analfabetismo em Portugal quando dos seus debates como estudantes de Coimbra. Esta singularidade poderia ser observada, de acordo com o nosso biografado, nas exposições anuais realizadas sempre no mês de dezembro, onde eram expostos os trabalhos dos seus 232 VASCO,Neno. Uma Bela Escola, A Lanterna, São Paulo24/01/1914. BARREIRA, Luiz Carlos. Educação popular e renovação educacional em Portugal nas primeiras décadas do século XX: o pioneirismo da Escola Oficina Nº1, na ótica de Adolfo Lima. In: Anais do IV Congresso Brasileiro de História da Educação: a educação e seus sujeitos na história, 2006. p. 02. 234 VASCO, Neno. Educação e Ensino. A Lanterna , São Paulo, 16/05/1914. 233 96 alunos. Na realidade, essas exposições eram realizadas como uma espécie de exame público, uma vez que as crianças que ali estudavam não eram submetidas a provas, às quais os anarquistas acreditavam ser um meio didático improdutivo para mensurar o desenvolvimento dos educandos. Afinal de contas, se uma das metas desse modelo pedagógico era, entre outras coisas, colocar em questão a desigualdade social, não era coerente reproduzi-la dentro das salas de aula através de notas Para eles, o sistema de notas não faz mais que reproduzir os lugares sociais, criando desde cedo nas consciências infantis a representação de bem sucedido e mau sucedido. Além de manter a hierarquia, este sistema afetava o desenvolvimento da criança, que acabava introjetando a ideia de capaz e incapaz235. Por esse motivo, anarquistas engajados com a escola do Largo da Graça, optavam pela exposição dos trabalhos como forma alternativa de avaliação. Nestas exposições, ficavam à mostra para o público todos os trabalhos artísticos, científicos e profissionais dos escolares de 07 a 15 anos, produzidos durante as disciplinas ministradas ao longo de seis graus de ensino que ali eram ministrados236. Neno, que esteve presente na exposição realizada em 26 de dezembro de 1914, cronicia as impressões que estes trabalhos deixaram nele quando da sua visita: Fui, pois, ver a exposição deste ano, trás-ante-ontem [...] e tenciono voltar lá hoje. Sou pouco afeito a entusiasmos excessivos. Pois bem: no dia de natal, sai da Escola-Oficina profundamente impressionado ante o resultado dos métodos pedagógicos ali aplicados [...] Sim, lá vemos o erro, o mau, o imperfeito, o desajeitado, o ingênuo; mas isso vai gradativamente afogando e se desfazendo no bom, vai cedendo lugar ao melhor, ao mais perfeito, ao mais seguro, isso encheu-me de confiança e de admiração ante a beleza do conjunto237. Da sua residência, possivelmente ele podia ver a magnitude do prédio onde funcionava a Escola-Oficina. Amplo e dividido em dois andares, ele permitia acomodar salas espaçosas. Nelas, não havia a tabula magister acompanhada do tradicional estrado, o que permitia uma organização descentralizada do espaço, onde era colocada uma grande mesa e várias cadeiras sem lugar marcado238, onde meninos e meninas poderiam se sentar e aprender de acordo com a máxima da co-educação sexual, máxima que era, 235 OLIVEIRA, Leila Floresta. Educação Libertária: paradigmas Teóricos e experiências pedagógicas. Dissertação (Mestrado em Educação). UFU, Uberlândia, 2001, p. 103. 236 VASCO, Neno. Uma Bela Escola, A Lanterna, São Paulo, 24/01/1914. 237 VASCO, Neno. Uma Bela Escola, A Lanterna, São Paulo, 24/01/1914. 238 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 363. 97 aliás, apoiada e reforçada pelos anarquistas em suas experiências pedagógicas. Como entendiam que a mulher era algo a mais que um apêndice do homem, deveria, como ser inteligente e autônomo que é, receber uma educação que possibilite que estas capacidades se desenvolvessem e, para tanto, demandavam que ela recebesse os mesmos conhecimentos que os homens recebiam239. Outro aspecto que não passava desapercebido a Neno na escola do Largo da Graça era a educação física. No espaço externo do prédio, um grande pavilhão foi montado, visando o desenvolvimento de atividades sensoriais e motoras, através de jogos, encenações cênicas, ginásticas e brincadeiras que procuravam estimular a solidariedade e combater a competitividade entre os escolares. No entanto, essa concepção de educação física não se restringia apenas ao exercício do físico propriamente dito. Além deste aspecto, a educação física era entendida também como educação profissional, a qual visava superar a dicotomia entre trabalho manual e intelectual, através de práticas pedagógicas que favoreciam o desenvolvimento harmônico das duas instâncias. Para realizar essa educação integral eram oferecidas tanto disciplinas teóricas: geografia, sociologia, desenho, português, matemática, história, ciências naturais, quanto práticas: marcenaria, latoaria, cerâmica em barro, estofos e costuras240. A reivindicação da educação integral estava condicionada à premissa de que todos deveriam receber um ensino que contemplasse tanto conhecimentos teóricos, quanto conhecimentos práticos, pré-requisito básico para a abolição da divisão social do trabalho existente na sociedade capitalista. Na parte geral, deveria-se ministrar um ensino cujo foco estivesse voltado para o conhecimento a partir da sua perspectiva de conjunto. Essa posição se justificava porque apenas em um segundo momento, quando o aluno já estivesse munido de uma ampla gama de conhecimentos, é que ele estaria em condições de lidar diretamente com uma área específica do saber. Essa divisão se dava em virtude de dois fatores: o primeiro, quando o indivíduo recebe uma visão geral, corresponde ao período em que ele toma conhecimento de todas as ciências, o segundo, onde o indivíduo recebe uma visão específica, corresponde ao período em que ele irá optar pela área onde irá trabalhar. A partir dessa proposta o que se pretendia era superar 239 OLIVEIRA, Leila Floresta. Educação Libertária: paradigmas Teóricos e experiências pedagógicas. Dissertação (Mestrado em Educação). UFU, Uberlândia, 2001, p. 105. 240 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 363. 98 a figura do homem fragmentado, que foi criada e reforçada pela divisão capitalista do trabalho241. Para o nosso biografado, o sucesso de tal instituição era largamente tributário da clareza com que entediam as finalidades da educação, que embora fosse indissociável de uma concepção política, não deveria ser reduzida, tout court, a esta. Segundo Neno, diferentemente de tantas outras escolas fundadas por anarquistas, que eram “ricos de iniciativa”, porém “pobres de aptidões pedagógicas”, a Escola-Oficina se preocupava mais com o ensino do que com a propaganda propriamente dita. Desse modo, as “idéias libertárias” entre os alunos lhes pareciam não o sinal de uma “catequização dogmática”, mas o desabrochar “natural e livre” da educação242. *** Ao passar em revista alguns dos fatos ocorridos durante 1913 para os seus leitores do periódico paulistano A Lanterna, Neno traçava, Da Porta da Europa, um quadro sombrio do ano que se encontrava em vias de se findar: O ano que vai encerrar-se segundo calendário gregoriano daqui a dezesseis dias não foi dos mais felizes para os ideais de liberdade. Não vale a pena recapitular por miúdo os feitos que os distinguiram ou as graves ameaças de retrocesso que durante ele se manifestaram. A crônica nem sempre integralmente registrou as passo a passo. A reação militarista teve na Europa um novo ganho de vitalidade após a carnificina balcânica, precedida e em parte preparada pelas criminosas aventuras de Marrocos e Trípoli. Do mesmo modo se avigoram, recuperando ousadia e insolência a reação burguesa e a repressão antiproletária, a guerra declarada a todas as tentativas de organização e de emancipação da classe trabalhadora243. Este quadro tornar-se-ia ainda mais sombrio no ano seguinte... Corroborando sua hipótese sobre o pendor “guerrista” da burguesia, vem a lume, em 14 de julho de 1914, um conflito bélico envolvendo as potências imperialistas de diferentes países europeus: de um lado do front, estava a tríplice entente, formada por Inglaterra, França e Rússia, de outro lado, Alemanha, Império Austro Húngaro e Itália formavam a tríplice aliança244, Quase um mês após sua deflagração, Neno escreveu: 241 BARREIRA, Luiz Carlos. Educação popular e renovação educacional em Portugal nas primeiras décadas do século XX: o pioneirismo da Escola Oficina Nº1, na ótica de Adolfo Lima In: Anais do IV Congresso Brasileiro de História da Educação: a educação e seus sujeitos na história, 2006, p. 03. 242 VASCO, Neno. Uma Bela Escola, A Lanterna, São Paulo, 24/01/1914. 243 VASCO, Neno. Revista de 1913. Lanterna, São Paulo, 10/01/1912. 244 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 350. 99 A monstruosa conflagração estorou há um mês, e a todos nos parece que os horríveis acontecimentos caminham lentamente, com um vagar doloroso e desesperante, como um pesadelo atroz. Uns só vêem ou so receiam a guerra em si; outros descortinam através delas novos horizontes, claros ou sombrios, conforme seus íntimos desejos e as suas esperanças, e tem pressa de chegar a fim, de ver o resultado... E todos se debatem no meio das dúvidas, das mentiras interessadas, das explicações engenhosas de cada beligerante, das notícias incompletas e contraditórias245. Apesar das incertezas (ou justamente por causa delas!) advindas da recém instaurada guerra, Neno Vasco acreditava que, paradoxalmente ou não, todas as classes que se encontravam presentes no referido conflito, tinham esperança de que algo sobreviesse ao caos resultante dela. Desse modo, os clericais contavam o fortalecimento da fé, os imperialistas contavam com o reforço do seu poderio militar, os monárquicos com o enfraquecimento da república... Mas, e Neno o que ele esperava? Em primeiro lugar, é preciso salientar que ele acreditava que a luta estava sendo travada no terreno “errado”. Em sua avaliação, não deveria haver luta entre as nações, mas, luta entre as classes, não exércitos de soldados operários de diferentes nações guerreando entre si, mas, exércitos de revolucionários de todos os países lutando contra a burguesia A ideia de que os trabalhadores deveriam fazer luta de classes, ao invés de luta de nações, não era modo algum ingênua para o cronista. Enquanto anarquista, Neno Vasco acreditava que a divisão dos territórios através de Pátrias, correspondia à concepção burguesa de Estado, que se valia deste instrumento para estabelecer o seu domínio político sobre os trabalhadores. Baseado em (logo quem?) Karl Marx, essa hipótese é retomada e realçada: Eis porque Carlos Marx proclamou que o “proletário não tem pátria”, isto é, para o assalariado pobre a independência nacional não é a independência econômica e política [...] despojado de tudo pelo proprietário, sujeito ao patrão pela privação dos meios de produzir, oprimido e espoliado pelo Estado, com os seus guardas, os seus impostos, o seu tributo de sangue, o proletário não vive livre e independente naquela que seria sua pátria, não possui nela nem eira e nem beira e vê-se amiúde obrigado a abandoná-la, a abandonar os seus, a abandonar o lar com o coração dilacerado246. Disso resulta, que os trabalhadores não deveriam se solidarizar apenas com os que viviam dentro da mesma fronteira, mas, se solidarizar com os trabalhadores de 245 VASCO, Neno. Incertezas e esperanças, A Lanterna, São Paulo, 19/09/1914. Apesar de publicada nesta data, a crônica foi escrita em 30 de agosto. 246 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 269-270. 100 todos os países. Seria essa, por assim dizer, internacionalização da solidariedade operária que permitiria a união dos trabalhadores para abolir as classes, os Estados e as Pátrias. Se levarmos a sério esta hipótese na nossa análise, somos forçados a levantar a seguinte questão: para Neno Vasco os trabalhadores possuíam ou não pátria? Sua resposta para essa pergunta é, em muitos aspectos, bastante original, principalmente por colocar em evidência a sua dimensão psicológica. Conquanto reconhecesse a existência de um sentimento patriótico entre os trabalhadores, ele opera no interior deste sentimento uma diferenciação entre o “patriotismo político” e o “patriotismo natural”. Para ele, o primeiro corresponderia à manipulação da burguesia, que, através do Estado, tentava fazer passar a ideia de que seus interesses são de toda a sociedade. O segundo, por sua vez, corresponderia à própria experiência dos trabalhadores. No que concerne especificamente a esta questão, ele argumenta que: [...] o proletário ama o torrão natal, o lugar onde cresceu, brincou, amou. Mas que tem que ver esse amor natural, espontâneo, voluntário como o patriotismo político que os seus governantes e exploradores lhe pretendem impingir pela força e pelo embuste [...] Para conhecer o vigor deste sentimento, basta emigrar e senti-lo, e estudar as idéias de quem os sentem247. Como arrimo do referido, ele propugnava que os anarquistas não deveriam, em virtude do seu antipatriotistmo, cometer o “erro”, de “antes de todas e qualquer explicação” atacar esse “forte sentimento natural” que longe de comprometer a edificação da futura sociedade socialista, ela a viabilizaria, tornando-a cada vez mais rica, já que os aportes trazidos pelos diferentes registros culturais poderiam, uma vez interagindo, se exprimir e se imprimir da forma mais libertária possível. Se atendo especificamente a conceituação de “patriotismo político”, ele partia da esperança de que todas as forças políticas ativas do movimento operário europeu fossem resolutamente antimilitaristas e, em decorrência disso, se colocassem contra a guerra. Declarada a guerra ele manteve a postura antimilitarista, porém, argumentou ser possível esperar algum benefício indireto dela, acreditando que o seu prolongamento poderia enfraquecer o capitalismo e deixá-lo vulnerável às investidas revolucionárias. Fazendo suas as posições de um amplo grupo de correntes políticas ativas no movimento operário europeu, que ele enuncia como “revolucionários sociais”, o cronista explicita essa estratégia. 247 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 274-275. 101 Os revolucionários sociais sempre foram inimigos acérrimos da guerra entre as nações, não só como causadora de grandes hecatombes e enormes danos materiais, mas, especialmente como fomentadora do espírito imperialista e retrógrado. E não se arrependem dos seus atos e dos seus sentimentos ante a atual conflagração, fosse embora o abalo formidável causa direta ou indireta duma transformação política ou social. Assim fizeram os revolucionários sociais quanto a guerra pelos interesses capitalistas [...] Mas, desde que a guerra é um fato consumado o que nos resta senão esperar alguns benefícios compensadores e procurarmos alargá-los e provocar-los?248 A amplitude do termo “revolucionários sociais” poderia nos levar a acreditar que, uma vez declarada, todas as correntes políticas ativas no movimento operário Porta da Europa adentro se encontravam em comum acordo com seus diagnósticos sobre a guerra. Longe disso: partindo de várias perspectivas e tomando justificativas as mais diversas, os “revolucionários sociais” construíram diagnósticos tão diferentes quanto contraditórios entre si sobre o conflito bélico que se encontrava em andamento Mas, em que medida, eles se aproximavam e se distanciavam? Os partidos socialistas vinculados à II Internacional249, por exemplo, mantiveram uma atitude em face da guerra que mostrar-se-ia de uma ambivalência incontornável. A social democracia alemã não se mostrou capaz de esboçar qualquer resistência ao ingresso do seu país na guerra. Muito pelo contrário, ela até mesmo o endossou, fazendo com que sua bancada no Reichstag (parlamento alemão) aprovasse unanimemente os créditos necessários para que a Alemanha entrasse na guerra. Partindo da premissa de que a civilização alemã se encontrava em perigo diante das investidas do czarismo russo, Karl Kautsky, julgava mais adequado que o proletariado se unisse à burguesia250. A social democracia russa por sua vez, colocava-se peremptoriamente contra a entrada do seu país na guerra, a qual entendiam como desdobramento da própria dinâmica do desenvolvimento capitalista e, de acordo com Lênin, deveria ser combatida no terreno da luta de classes. Desse modo, as circunstâncias advindas da guerra deveriam ser 248 VASCO, Neno. Lanterna, São Paulo, 03/10/1914. A II Internacional surgiu em 1888, reunindo partidos social-democratas de inspiração marxista em diversos países da Europa, que encontravam no parlamentarismo a estratégia que julgavam mais adequada para realizar a revolução, porém, em alguns casos, como o Alemão, acabou enveredando para o puro reformismo. Com a divisão gerada pelos diferentes posicionamentos dos seus membros em relação à Grande Guerra, acabou encerrando suas atividades até 1918, com o fim da guerra. A esse respeito ver: LOUREIRO, Isabel. Rosa Luxemburg: os dilemas da ação revolucionária. São Paulo: Ed. Unesp; Fundação Perseu Abramo, 2004. 250 LOUREIRO, Isabel. Rosa Luxemburg: os dilemas da ação revolucionária. São Paulo: Ed. Unesp; Fundação Perseu Abramo, 2004, p. 187. Exceção que confirma essa regra é Rosa Luxemburg. 249 102 operacionalizadas para a efetivação de uma ruptura revolucionária251, postura com a qual o próprio Neno Vasco, em que pese sua diferenças com o dirigente do Partido Social-Democrata Russo, compartilhava. Nem mesmo anarquistas se encontravam totalmente de acordo ao construírem seus respectivos posicionamentos sobre a guerra. De um lado, alguns anarquistas encabeçados por Kropotkin, entendiam que, não tendo sido possível evitar a guerra, deveriam tomar partido favorável à tríplice entente contra a tríplice aliança em virtude de a primeira possuir um caráter mais “progressista” do que a segunda. Diferentemente do que ocorria na França, na Alemanha, os ideais democráticos não haviam sido implementados, por causa da revolução “pelo alto” conduzida por Bismarck durante o processo de unificação dos estados prussianos. Por esse motivo, Kropotkin argumentava que sua vitória poderia significar o regresso da Europa ao absolutismo, o que traria conseqüências funestas para o movimento anarquista252. Tendo à frente Malatesta, alguns anarquistas, de outro lado, se puseram contra os dois blocos, ponderando que o referido conflito bélico se tratava de uma luta nacionalista e que por isso acabava desviando o foco da luta contra o seu verdadeiro adversário: a burguesia253. Esse mesmo debate também teve suas ressonâncias em Portugal, o qual se acirrou com o ingresso do país na Grande Guerra ao lado da Inglaterra. Assim como ocorria em escala mais ampla, os anarquistas lusitanos também se viam divididos entre tomar partido ou não de um dos blocos em conflito. Se apropriando dos argumentos de Kropotkin, Emílio Costa, do jornal lisboeta O Germinal, se colocou a favor da tríplice aliança contra a tríplice entente. Fazendo suas as teses de Malatesta, Neno Vasco, por meio do periódico portenho A Aurora, se posicionava tanto contra a tríplice entente, quanto contra a tríplice aliança. Ao discutir os “estragos” causados pela guerra na “família anarquista”, Samis nos traz uma imagem eloqüente para pensar o clima de hostilidade que se colocou entre os anarquistas por causa da tomada de posição de um grupo e outro. De acordo com ele: O conflito rompeu os laços, no lugar da fraternidade a desconfiança. Em contato com as paixões dos homens e a realidade dos fatos, boa 251 LOUREIRO, Isabel. Rosa Luxemburg: os dilemas da ação revolucionária. São Paulo: Ed. Unesp; Fundação Perseu Abramo, 2004, p. 187. 252 GRAUR, Mina. An anarchist rabbi: The life and teaching of Rudolf Rocker. Tese (Doutorado em História), Rice University, 1989, p. 144. 253 GRAUR, Mina. An anarchist rabbi: The life and teaching of Rudolf Rocker. Tese (Doutorado em História), Rice University, 1989, p. 144. 103 parte do idealismo romântico dos anarquistas caia por terra [...] A disputa pela alma dos militantes, entretanto, dava aos anarquistas a perfeita noção do que era pertencer a uma família desfeita254. Neno estava correto quando, inovando na análise, sugeriu que a simples exposição dos fatores econômicos para elucidar o conflito bélico que se encontrava em curso era insuficiente Para entendê-lo corretamente seria preciso levar em conta também os fatores psicológicos, fundamentais para se entender a instrumentalização dos sentimentos patrióticos dos trabalhadores que optaram por uma luta que não seria a sua. Desse modo, além do antagonismo gerado entre as classes por causa da propriedade privada, existiriam: Outras rivalidades entrelaçadas de uma classe para outra ou dentro de cada classe, aqui em torno do ouro e do domínio, ali em volta dum modelo ganha pão; aqui entre cobiçosos do comando e da opulência; ali entre pobres concorrentes, espicaçados pela miséria. A divisão dos Estados, então, com a sua embrutecedora religião patriótica, com o seu gendarme e o seu monstro militarista, ao mesmo tempo que origina novos ódios, e disputas , serve para manter esse absurdo sistema de privilégios e de exploração255 *** Enquanto o front da Grande Guerra ainda se encontrava de pé, bolcheviques256, anarquistas e outras forças políticas ativas no interior do movimento operário russo engajavam-se no processo revolucionário que se iniciava naquele país em 1917. Simultaneamente a tal convulsão social na Porta oriental da Europa, em Portugal aconteciam greves gerais, que faziam a burguesia tremer diante da possibilidade de um evento revolucionário de natureza similar no pai s.Como desdobramento destas greves257, era criada a Confederação Geral do Trabalho Portuguesa (CGT) em 1919, substituindo a UON. Afastando os setores reformistas, representados pelos 254 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 370. 255 VASCO, Neno. A Guerra! Lanterna, São Paulo, 22/08/1914. 256 Os bolcheviques surgiram de uma dissidência do Partido Social - Democrata Russo, quando da iminência da Revolução na Rússia em 1917. Tendo à frente Lênin, estes acreditavam que a revolução deveria realizar o programa máximo (revolução socialista), enquanto os mencheviques advogavam o programa mínimo (revolução democrática). Daí a origem das legendas bolchevique ( máximo) e mencheviques ( mínimo) A esse respeito ver: TRAGTENBERG, Maurício. A Revolução Russa. São Paulo: Faísca, 2007. 257 Sobre estas greves ver: SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 385-391. 104 socialistas258, os anarquistas conseguem manter a autonomia daquele organismo operário, reforçando a idéia, cara ao sindicalismo revolucionário, que os sindicatos não devem se subordinar a nenhum partido político259. Diante da revolução proletária que se lançava como outra possibilidade de de (re)organização social em prol da igualdade e da liberdade, os ímpetos de transformação trazidos pelos ventos russos contagiavam Neno Vasco e os anarquistas portugueses. Primeiramente uma questão elementar: qual foi a posição de Neno perante os acontecimentos na Rússia? A pouca definição dos rumos assumidos pelo processo revolucionário por causa do andamento da guerra, levava nosso biografado a manter uma atitude interpretativa de apoio crítico. Com os olhos na Epopéia, ele escreveu uma crônica para A Batalha260, onde justificava sua posição. Uma vez que o processo revolucionário ver-se-ia sob a ameaça da reação burguesa, ele não vaticinava ao colocar de forma clara e aberta sua solidariedade para com os trabalhadores russos: A burguesia mundial dirige neste momento contra a revolução a tríplice ofensiva geral das armas, da fome e do aleive, antes que se congelem as águas do inverno e se caldeiem pelo os vulcões da solidariedade operária [...] Porque ela vê na convulsão social mais o seu poder de irradiação do que seu valor intrínseco imediato. Por isso, ela acredita que é preciso destruir o exemplo antes que ele frutifique, apagar o foco antes que ele se propague , matar o germe antes que ele desabroche na florescência da vida plena [...] armar a contra-revolução no interior, pagar as guerras no exterior, provocar o terror vermelho, para acusar de terror sanguinário as necessidade da defesa revolucionária [...] estrangular um povo imenso de homens pacíficos, de crianças e de mulheres, com o garrote celerado do bloqueio, para acusar de incapacidade a revolução, privada de todas as fontes e elementos de reorganização social261. No entanto, Neno não confundia o anarquismo com o bolchevismo e tinha consciência das profundas diferenças que afastavam estas duas forças políticas atuantes no interior do movimento operário europeu. Numa outra crônica, publicada no ano 258 Pereira, Joana Dias - Sindicalismo revolucionário : a história de uma Idea. Dissertação ( Mestrado em História), Universidade Nova de Lisboa,p ,.11 259 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 402. 260 Originalmente publicada n‟A Batalha e posteriormente no jornal anarquista fluminense Spartacus, da qual faço uso. A crônica foi publicada com a seguinte nota: Transladamos de A Batalha, de Lisboa, o seguinte artigo de Neno Vasco, redator do importante diário dos trabalhadores portugueses. Neno Vasco, nosso velho amigo, é suficientemente conhecido e estimado em todo Brasil libertário, e não necessitamos recomendar a leitura do seu artigo. Fique este artigo como palavra de segurança orientação para todos nós que acompanhamos, entre entusiastas e angustiados, o desenvolvimento da Revolução Russa”. Spartacus, Rio de Janeiro, 20/12/1919. 261 VASCO, Neno. Com os olhos na Epopéia. Spartacus, Rio de Janeiro, 20/12/1919. 105 anterior, no jornal Aurora, ele revela suas reticências às premissas teóricas que fundamentavam a ação prática dos bolcheviques no que se refere à ditadura do proletariado: Se fosse abolida a propriedade particular e ficasse um governo, esse concederia privilégios para um partido seu e assim faria ressurgir a burguesia ou uma burocracia rica; se fosse abolido só o governo, em breve o capitalismo faria renascer outro, qualquer que fosse o nome, para lhe garantir privilégios262. Diante da iminência de que a revolução poderia ser destruída antes que se consolidasse, Neno Vasco tendia, entretanto, a ver como uma questão secundária os aspectos que singularizavam anarquistas e bolcheviques. Sob este aspecto, ele inclusive endossava o apoio que os anarquistas deram aos bolcheviques a fim de conter o avanço contra-revolucionário263. Em seu ponto de vista, as questões relativas ao método, tática e organização dos dois grupos deveriam ser avaliadas como uma questão interna do bloco revolucionário, devendo, entretanto, serem revistas em um momento posterior à vitória proletária sobre a burguesia. [...] o dualismo entre a força popular, criadora, orgânica, renovadora dos Sovietes, e as tendências centralizadoras, burocráticas, ditatoriais dum novo governo ou duma nova excrescência política é um problema a resolver entre os revolucionários, vencido o inimigo comum ou assegurada a sua derrota264. Embora a Revolução Russa não respeitasse os princípios essenciais que orientavam o pensamento libertário na sua integralidade, Neno acreditava que os anarquistas não deveriam deixar de apoiá-la. Para ele era necessário, que a revolução tivesse tempo para “destruir todas as peias exteriores”, conquistar para a revolução “ampla liberdade de ação e desenvolvimento”, trazer e introduzir possibilidades materiais, para que ela pudesse revelar “todas as suas virtudes”. Isso seria o que a reação burguesa não queria e, em revanche, o que todos os revolucionários ambicionavam “unanimemente” de acordo com nosso biografado265. A posição de Neno não era unânime, não pelo menos no que se refere à apreciação do bolchevismo, revelando as relações de força entre as diferentes correntes 262 APUD SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 396. 263 VASCO, Neno. Com os olhos na Epopéia. Spartacus, Rio de Janeiro, 20/12/1919. 264 VASCO, Neno. Com os olhos na Epopéia. Spartacus, Rio de Janeiro, 20/12/1919. 265 VASCO, Neno. Com os olhos na Epopéia. Spartacus, Rio de Janeiro, 20/12/1919. 106 políticas existentes dentro movimento operário português. Levados pelos ventos que sopravam da Rússia, alguns viam na ação de Lênin e seus correligionários algo a mais do que um potencial aliado na luta revolucionária, que após o afastamento da reação, deveria ser combatido para que posteriormente se efetivassem as transformações num sentido socialista-libertário. Dentre estes, se destacava Carlos Rattes. Através da seção editorial d‟A Batalha, Rattes publicou em 1920 um livro intitulado A Ditadura do Proletariado, onde apresenta e discute os decretos que um Conselho de Comissários, sob a direção da CGT, deveria outorgar em caso de uma hipotética revolução proletária em Portugal. De acordo com Freire, o seu argumento se centrava na constatação de que: [...] insurreições fazem-se muitas entre nós, mas, se o operariado quer, de fato, fazer a revolução social, tem que garantir o seu sucesso por meio de um instrumento: a ditadura do proletariado. Mas, como Rattes conhece bem a situação portuguesa e a sua organização operária, aposta numa forma de ditadura que seria conduzida a partir do sindicalismo e onde o papel do partido guia é ainda nebuloso266. Aparte o fato de Rattes conferir um certo papel aos sindicatos no processo de transformação social, isso não significa, contudo, a ação deste do governo, sob a égide da ditadura do proletariado, não abarque vastas áreas da vida social e política. Muito pelo contrário, as medidas a serem implementadas por estes decretos vão desde a produção e consumo, até o ensino e a saúde, passando pela justiça e a religião. Os desdobramentos dessa concepção prevêem dois efeitos diferentes, mas, que estão intimamente atrelados: com a socialização da indústria, se impõe a sindicalização obrigatória e com a socialização do comércio, a cooperativização obrigatória. Os anarquistas d‟A Batalha que se encontravam mais próximos da posição de Neno em relação à revolução russa, não deixariam seu interlocutor sem um contradito. Vários desses militantes tomaram a palavra neste debate, através das páginas do referido periódico, apresentando uma apreciação dos fatos distinta daquela enunciada por Rattes. Estes reiteravam seu apoio à revolução, porém eram contrários à ditadura do proletariado, pois caso os trabalhadores a aceitassem, estariam assinando seu próprio atestado de óbito. Segundo, ainda Freire: Que o órgão da CGT veicule nas suas páginas posições tão claramente contrapostas, mostra-nos um pouco como a hesitação seria grande 266 FREIRE, João. Estudo introdutório In: VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984,30. 107 entre o operariado organizado sobre se deveria seguir os exemplos dos seus irmãos na Rússia, ou seguir pela segunda vez [...] os discípulos de Bakunin, contra os discípulos de Marx267. No entanto, para dar uma resposta à Rattes e àqueles que se identificavam com suas “fantasias ditatoriais”, era necessário um ensaio de maior fôlego teórico, que fosse capaz de fazer frente às ressonâncias, segundo eles funestas, causadas pela “euforia bolchevique”268. Para tal empreitada, Alexandre Vieira, anarquista de grande visibilidade no interior da CGT, sugeriu o nome do nosso biografado, que parece ter aceitado prontamente. Liberado das responsabilidades que possuía enquanto colaborador permanente d‟A Sementeira, que havia deixado de circular desde o fim de 1918, e diminuído consideravelmente o número de crônicas para A Batalha, jornal com o qual contribuía desde o início de 1919, ele se pôs a “redigir” o seu livro, que se chamaria Concepção Anarquista do Sindicalismo e sairia do prelo pelo núcleo editorial d‟A Batalha, mesma editora que publicou o livro de Rattes. Coloquei “redigir” entre aspas, porque o livro não era de todo inédito. Na realidade, ele recupera grande parte da sua produção cronística que vinha sendo publicada na imprensa anarquista e operária no Brasil e em Portugal durante a última década. Ora, se, em grande parte, o livro recupera sua produção cronística já publicada, em que medida ele poderia constituir uma resposta ao debate com Rattes, debate que se encontrava apenas em vias de se constituir? Com efeito, se levarmos a sério a hipótese de que seu livro é uma resposta a Rattes, seríamos forçados a aceitar que ele não apenas “recupera”, mas, também “atualiza” a discussão sobre a “concepção anarquista do sindicalismo”, tema que lhe perseguiu em grande parte da sua vida e que se encontrava em um momento em que surgiam novas questões que precisavam ser respondidas por causa da agitação revolucionária surgida na Rússia e em outros países. Além disso, se o livro é uma resposta a Rattes, trata-se de uma resposta indireta, e isso se justifica pela simples apreciação do fato de que seu interlocutor é evocado duas vezes ao longo de mais de duzentas páginas. Todavia, na medida em que analisamos de maneira mais detalhada seus argumentos principais, não parecem restar muitas dúvidas de que o seu objetivo era de fato este. Uma vez presente no debate, Neno Vasco acreditava que, caso alguns pontos fossem desenvolvidos com maior clareza, as 267 FREIRE, João. Estudo introdutório In: VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984, p. 31. 268 FREIRE, João. Estudo introdutório In: VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984, p. 31. 108 questões sobre A Concepção Anarquista do Sindicalismo poderiam elucidar grande parte dos impasses nos quais os anarquistas se encontravam em face do sucesso da proposta bolchevique na União Soviética. Ao estabelecer, no presente livro, os aspectos que diferenciam e identificam a metodologia utilizada entre “anarquistas” e “bolcheviques” num contexto revolucionário, Neno esclarece que: Nos primeiros, a força não figura senão como meio revolucionário e não se emprega senão contra a violência – do capitalismo, do Estado ou da contra-revolução –, contra a violência que procura manter ou restaurar a escravidão das massas impor-lhes criminosamente a vontade de uma minoria exploradora. No mais, um programa libertário não exprime senão o que um partido lançar, pela força do exemplo e da propaganda, no cadinho efervescente onde se elaboram as formas sociais. É a ação livre duma tendência, é uma contribuição, não uma imposição. Ao contrário disto, um programa ou plano autoritário é uma camisa de forças que uma facção pretende vestir a revolução ou a sociedade, seja embora com a convicção ou o pretexto de a salvar, em geral, porém, com o resultado de a deter e a conservar sob novo disfarce a estrutura antiga269 Diferentemente dos bolcheviques, os anarquistas enfatizavam que, se no período transitório, os trabalhadores entregassem ao Estado, mesmo que este levasse o nome de proletário, todas as fontes da vida econômica e política da sociedade, isso significaria a morte da revolução. Pois, para atingir seus objetivos, esse novo Estado necessitaria do auxílio de um corpo burocrático formado por intelectuais que se colocariam acima das massas populares, criando, assim, novamente uma sociedade dividida em classes sociais. Os anarquistas acreditavam, portanto, que a revolução deveria ser levada a cabo pelos próprios trabalhadores, que, organizados em seus sindicatos e não em partidos políticos, deflagariam um movimento de amplas greves que se generalizariam por toda a sociedade, sendo procedidas por atos insurrecionais que garantiriam o avanço da revolução. Em relação a este aspecto, Neno Vasco argumenta que a greve não dispensa a insurreição, muito pelo contrário, ela a reforça e a complementa. Tal compreensão era por ele reforçada pelo movimento revolucionário italiano durante “A Semana Vermelha”: Não basta a greve geral econômica pura e simples, mesmo com a sua nova feição de greve exclusivamente dirigida contra a burguesia e tendendo a imediata expropriação. Essa ação não é suficiente para 269 VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984, p. 170. 109 desorganizar e dominar as forças do estado, que largamente apetrechado e monopolizando os instrumentos de guerra, de comunicação e de propaganda, pode prontamente refazer-se e suprir as falas ocasionadas pela classe inimiga. A greve geral tem de se juntar sem perda de tempo à insurreição armada, que não pode ser obra da organização operária, nem mesmo dos partidos revolucionários, mas resulta da cooperação duma parte do exército e dos grupos civis autônomos. É a lição das revoluções da nossa época, como já tinha sido da Semana Vermelha de junho de 1914 na Itália: greve geral, ação dos grupos revolucionários, adesão do proletariado fardado e armado, do exército recrutado a força pelas classes dominantes270. No desenrolar do processo revolucionário, a burguesia deveria ser expropriada, os meios de produção socializados e diretamente administrados pelos trabalhadores, através de seus próprios órgãos, os quais, livremente federados, se articulariam com a finalidade de substituir o Estado que, depois da revolução, seria destruído e desalojado da tarefa de gerir o corpo social. De acordo com Neno, o sindicato constituiria o elo de ligação entre a sociedade do presente e a do futuro, dando continuidade à produção guiada durante o processo de transição da sociedade capitalista para a sociedade socialista. Como já vimos, Neno não acreditava que esse processo seria conduzido de modo automático, pois se os sindicatos tinham suas virtudes, também tinham seus vícios. O sindicato, portanto, não deveria, em caso de vitória para a revolução, ser transplantado [...] para sociedade comunista livre tal como ela está. Hoje mesmo modifica-se continuamente, na sua natureza profissional e no seu método de organização sob a ação dos progressos técnicos e das idéias libertárias. Imagina-se, pois, a diferença, quando a produção, em vez de ser governada por uma classe em seu proveito, for diretamente administrada pelos produtores em benefício de todos, quando forem suprimidos os parasitismos e serviços inúteis ou nocivos, quando a técnica, posta ao serviço de todos e dispondo das forças de toda sociedade tomar um vôo prodigioso271. Sob o impacto do papel desempenhado pelos conselhos operários durante as convulsões sociais na Rússia, Alemanha e Itália, Neno vislumbrava formas de reorganização da sociedade que integravam, mas, ao mesmo tempo, transcendiam a estrutura corporativa do sindicato. Constituídos no próprio no lugar da produção e conhecedores do terreno em que operavam, os conselhos, em seu ponto de vista, 270 271 VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984, p. 160. VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984, p. 133-134. 110 poderiam tornar-se preciosos instrumentos técnicos, dando à ação sindical maior amplitude, intensidade e elasticidade. Em caso de uma hipotética vitória do proletariado, Neno não entendia que a sociedade comunista poderia ser implantada do dia para a noite. Não aceitava a tese de que há abundância na produção como marxistas e alguns anarquistas, e pensava que, naquele momento, haveria certamente muitas dificuldades. A revolução não chegaria ao comunismo imediatamente e seria necessária uma preparação para este “período intermediário”, que chega a chamar de “período de transição”. Esse período de transição não significava, entretanto, se organiza em um partido, tomar o Estado e defender a ditadura do proletariado . Uma vez que ele não entendia que a sociedade pós revolucionária seria uma sociedade da abundância, acreditava ser impossível a implementação imediata do modelo comunista, acreditando ser mais prudente a adoção de um regime misto, onde a fórmula comunista pudesse coexistir ao lado da formula coletivista. De acordo com Neno Vasco, os produtos de primeira utilidade deveriam ser distribuídos conforme a necessidade, tal como preconizava a fórmula comunista, e os outros provisoriamente adquiridos por meio de uma taxa suplementar de trabalho, tal como preconizava a formula coletivista, até que se tornassem abundantes. Ainda que concordando com o sistema misto, Neno argumenta que os anarquistas não deveriam se esforçar para implementar o comunismo, que continuava a ser ainda o modelo a ser perseguido pelos anarquistas. Destarte, na medida em que o socialismo libertário fosse desenvolvendo-se, ele deveria buscar o comunismo como forma de distribuição dos produtos do trabalho. Estando esta sociedade ainda em fase de construção, haveria uma série de problemas herdados da sociedade anterior, os anarquistas, sozinhos, se mostravam impotentes para reorganizá-la. Como uma minoria não pode organizar a vida social senão pelo processo autoritário, ditatorial e burocrático, os anarquistas, com o fito de manter a coerência da sua proposta, pensam em: [...] uma tendência livre no seio do povo e das organizações, atuando sem coação. Fermento da massa. Força propulsora de todos os movimentos conscientes a caminho da liberdade. Motor de ação e organização diretas populares. Fator de iniciativas que não esperam ordens. Sentinela vigilante contra qualquer tentativa de restaurar a tirania abatida ou de restabelecer sob o disfarce enganador de novas vestes272. 272 VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984, p. 179. 111 A morte prematura de Neno Vasco em 15 de setembro de 1920, o impediu de concluir o primeiro livro e de iniciar o segundo. Embora incompleto, o livro traz o fundamental da sua Concepção Anarquista do Sindicalismo, naquele momento. Mas, em que medida o livro atingiu o seu objetivo, quer dizer em que medida ele serviu para que os anarquistas portugueses pudessem construir sua própria opinião sobre a Revolução Russa e o papel desempenhado pelos bolcheviques? Apesar de previsto para ser publicado em 1920, o livro só sairá em 1923. É sugestivo, porém não conclusivo, que esse adiamento da publicação do livro encontre sua razão de ser na própria correlação de forças no interior do movimento operário português. Como já vimos, os membros da CGT não se encontravam em total acordo no que se refere a essa questão. Se voltarmos A Batalha, iremos perceber como o referido periódico, oscila entre posições contrárias nesse período. De acordo com Freire: Há por exemplo as regulares crônicas de Augustin Hamon, grande número delas sobre a Rússia, onde se espelha uma posição de apoio crítico, próxima da que teria Neno Vasco. [...] notícias e avisos referentes às reuniões preparatórias do lançamento do Partido Comunista Russo, porventura mais numerosas do que as dos grupos anarquistas [...] é por exemplo significativo que ao mesmo tempo que começam já a surgir nas suas páginas notícias vindas da Rússia que falam das perseguições aos anarquistas pelo novo poder273. Nesse sentido, a hipótese de Freire sobre a existência de forças políticas, mais simpáticas à estratégia bolchevique, que tentava silenciar a voz de Neno Vasco no interior da CGT parece-nos bastante plausível. Sob este aspecto, é sintomático que Rates e outros antigos membros da referida agremiação operária, estivessem entre os futuros co-fundadores da União Maximalista Portuguesa, em 1919, e do Partido Comunista Português, em 1921. No entanto, a partir do momento em que outras notícias, ou pelo menos outras versões destas, chegam até Portugal, a CGT começa oficialmente a elaborar um diagnóstico distinto sobre a natureza do regime bolchevique. Essas outras versões sobre um mesmo fato, ou até mesmo apreciação de outros, tais como a repressão dirigida por Trotsky aos marinheiros de Kronstadt, no golfo da Finlândia, e ao exército maknovista, na Ucrância, que exigiam, em que pesem suas singularidades, a autonomia dos sovietes no processo de construção da sociedade 273 FREIRE, João. Estudo introdutório In: VASCO, Neno. Concepção anarquista do sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984,38 112 socialista, acabou por tornar insustentável a aliança, ainda que tática, entre anarquistas bolcheviques274. Em 17 de Julho de 1921, na “Em face dum novo Partido Político”, a CGT demarca sua posição, se afastando do bolchevismo: “o proletariado, a caminho da sua emancipação pela libertação da tutela dos senhores de hoje, não quer criar novas cadeias onde os prendam, amanhã, novos senhores”275. Como mais tarde refere A Batalha, “a nota oficiosa da CGT a propósito do manifesto de apresentação do Partido Comunista Português, parece não ter agradado a certos elementos”276. O conflito instala-se nas várias organizações, sendo expulsos dos seus cargos alguns militantes que ingressaram no PCP, havendo outros, contudo, que pela confiança que mereciam das suas células, se mantiveram no meio sindical277. No III Congresso Nacional Operário, em 1922, é confirmada a preponderância anarquista, onde a CGT reafirma os postulados básicos do sindicalismo revolucionário, anteriores à Revolução Russa, e adere à Associação Internacional de Berlim, que reunia várias associações sindicalistas revolucionárias e procurava fazer um contraponto à III Internacional, sediada em Moscou, que reunia associações sindicalistas alinhadas aos Partidos Comunistas278. No ano seguinte, A Batalha publica A Concepção Anarquista do Sindicalismo, mostrando que o livro de Neno Vasco poderia e deveria servir de estímulo teórico para os desafios que os anarquistas passariam a enfrentar durante esse processo de (re)construção do sindicalismo revolucionário em Portugal. *** O retorno de Neno Vasco para Portugal não significou que sua militância no Brasil tenha findado. Pois, mesmo depois de ter retornado a Portugal, Neno continuou a participar da imprensa anarquista e a interagir com o movimento operário brasileiro. Para além das questões militantes, as questões profissionais também desempenharam um papel não negligenciável na escolha de Neno Vasco em manter suas relações com o 274 SAMIS, Alexandre.Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009423 275 APUD Pereira, Joana Dias - Sindicalismo revolucionário : a história de uma Idea. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Nova de Lisboa, p. 155. 276 APUD Pereira, Joana Dias - Sindicalismo revolucionário : a história de uma Idea. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Nova de Lisboa, p. 155. 277 Pereira, Joana Dias - Sindicalismo revolucionário : a história de uma Idea. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Nova de Lisboa, p. 155. 278 Pereira, Joana Dias - Sindicalismo revolucionário : a história de uma Idea. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Nova de Lisboa, p. 155. 113 Brasil. Na realidade, antes que partisse para Portugal, Edgard Leuenroth tratou de formalizar com ele uma relação envolvendo a escrita e envio de crônicas e demais materiais para a publicação nos jornais vinculados à imprensa anarquista e operária no Brasil279. Tal tarefa, segundo Samis: [...] deveria servir para gerar algum recurso para Neno, uma vez que ao desembarcar no país natal ver-se-ia sem ocupação fixa ao menos por alguns meses. A preocupação com rendimentos não o abandonava, o auxilio prestado pelo pai, afinal um homem integrado ao sistema, era de fato embaraçador. A opção militante, tendo que fazer frente às enormes despesas, o colocava em sutil contradição com aquilo que pretendia viver plenamente. Isso de fato o perturbava280. Se teoricamente o objetivo dessa relação era proporcionar temporariamente a Neno Vasco a renda necessária para que, em face da dificuldade de encontrar um emprego no momento imediato ao desembarque em Portugal, ele e sua família obtivessem uma renda para fazer frente às primeiras despesas financeiras que teriam, essa relação na prática acabaria perdurando por muito mais tempo. Ao que parece, o progressivo afastamento do pai, que continuou residindo no Brasil com a nova família que constituíra após a morte da mãe de Neno, parece ter forçado o anarquista, que havia recebido do senhor Vitorino a promessa de lhe ajudar financeiramente após sua chegada no outro lado do Atlântico, a encarar o jornalismo de modo distinto daquele que estava habituado. Fato aparentemente banal, mas que se reveste de importância na medida em que indagamos a sua produção jornalística e de que modo devemos entendê-la: tratar-se-ia de uma atividade militante ou tratar-se-ia de uma atividade profissional? Quando inquirido por Leuenroth em carta se daria continuidade à sua contribuição em Guerra Social, folha anarquista fluminense pela qual não era pago, Neno esclarece: Continuarei a colaborar com a Guerra Social é claro. Recebo dinheiro porque esse é o único meio de poder dedicar o meu tempo à propaganda. Repartirei a minha colaboração gratuita pela Guerra Social, A Sementeira e A Aurora. Se depois a Guerra Social ficar desafogada melhor para mim e para ela. Depois de amanhã vai mais um pouco de original281. 279 Apesar de todo material ser enviado para Leuenroth, ele não era previamente produzido para ser publicado somente n‟ A Lanterna, mas, sim nos outros jornais supracitados. 280 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 241. 281 Carta de Neno Vasco a Edgard Leunroth, 24/09/1911. 114 A afirmação de que ser remunerado por sua produção era uma condição indispensável para a sua realização, não pode ser tomado como um exagero por parte de Neno Vasco. De um lado, ao fazer do jornalismo um ofício, ele passou a contar apenas com a sua pena para obter os rendimentos necessários para arcar com as despesas do seu núcleo familiar, que tinha aumentado mais ainda desde a sua chegada em Lisboa. Além de seus filhos e esposa, ele tinha, agora, sob o seu encargo suas cunhadas, Ângela e Francisca, e sua nora, Aurora. De outro lado, Neno se viu livre de um trabalho formal, onde teria que cumprir um horário fixo todos os dias. Sem ter que se submeter a um patrão, ele ficava desse modo disponível para se dedicar à militância. Foi graças à atividade profissional que Neno pode se dedicar à atividade militante. No entanto, o inverso dessa equação também deve ser levado em conta, já que o anarquista somente poderia ter atuado como jornalista profissional, pelo menos nestes jornais, porque era um jornalista militante, cuja escrita estava fundamentalmente voltada para o debate ideológico. A fronteira, portanto, entre o profissional e o militante na atividade jornalística de Neno é separada por uma linha bastante tênue, que não permite demarcar claramente onde começa um e termina o outro. Neno não viveu apenas do jornalismo, mas, igualmente, viveu para o jornalismo. A escolha de uma carta, ao invés de uma crônica, para problematizar essa questão não foi fortuita ou ingênua. Embora as experiências individuais e coletivas forneçam a base auto-referencial para a realização e exercício de sua escrita cronística, é interessante notar que Neno constrói sua subjetividade apenas na dimensão pública e quase nunca na sua dimensão privada. Tal hipótese nos obriga a levar em conta a seguinte constatação: se de fato sua escrita cronística é uma escrita de si, fornecendo uma chave que permite adentrar a sua história de vida, é forçoso aceitar que ela abre apenas algumas dessas portas; as outras permanecem cuidadosamente fechadas. Assim sendo, suas cartas, por constituírem uma forma de escrita de si, me fornecem uma chave mais adequada para abrir essas portas outrora fechadas, permitindo que seja possível adentrar o domínio privado da sua história de vida, domínio que se apresentava até então, em maior ou menor medida, imperscrutável. A escrita de cartas se consolida no ocidente junto com a modernidade, onde se evidencia um maior grau de autonomização do individuo frente à sociedade. Essa autonomização irá resultar na construção de novos códigos de intimidade, permitindo mais espontaneidade nas formas de expressão dos sentimentos entre os indivíduos nas suas relações sociais. Segundo Gomes: 115 Tal como outras práticas de si, a correspondência constitui, simultaneamente, o sujeito e seu texto. Mas, diferentemente das demais, ela possui um destinatário específico com quem ele vai manter relações. Ela implica uma interlocução, uma troca, sendo um jogo interativo entre quem escreve e quem lê282. Sob essa ótica, escrever cartas é mostrar-se a si e ao outro, permitindo uma forma de relação íntima entre destinatário e remetente. Nesse sentido, há sempre uma razão para a escrita da carta: informar, pedir, agradecer, desabafar, rememorar, consolar, etc. No nosso caso, o objetivo da correspondência entre Neno Vasco e Edgar Leuenroth era alusivo a questões militantes e profissionais. A princípio, essa relação não sugere qualquer relação de intimidade entre remetente e destinatário, porém na medida em que avançarmos na discussão iremos ver um Neno Vasco diferente daquele que aparece publicamente em suas crônicas. Mas se Neno não viveu apenas do jornalismo, mas, igualmente, viveu para o jornalismo, quais foram os desdobramentos dessa sua escolha durante seu trajeto pela Porta da Europa? Do ponto de vista militante, a atividade jornalística conferiu a Neno um papel singular na imprensa anarquista e operária dos dois respectivos países, permitindo que ele pudesse contribuir de maneira mais dinâmica e eficaz com a ação e propaganda anarquista a nível internacional. Do ponto de vista profissional, a atividade jornalística não trouxe a Neno a estabilidade financeira, tal como ele esperava. Desse modo, os problemas financeiros continuavam a crescer e a perturbá-lo. Na correspondência de Neno Vasco e Edgar Leuenroth, escrupulosamente mantida ao longo de cinco anos, vemos o cronista queixar-se constantemente ao diretor d‟A Lanterna sobre suas dificuldades financeiras. Na realidade, O Diário de Porto Alegre saldou apenas a dívida referente ao primeiro mês e A Guerra Social, teve que fechar mesmo antes de começar a remunerá-lo. D‟Aa Voz do Trabalhador, nada poderia esperar, já que colaborava gratuitamente, do mesmo modo com que fazia com A Sementeira, A Aurora e A Terra Livre. Restava, assim, somente o dinheiro recebido d‟A Lanterna, de onde ele tirava o seu sustento. Assim, quando os 30 fortes283 mensais enviados por Leuenroth pelo trabalho prestado na folha anticlerical chegavam a suas mãos, ele tinha que fazer malabarismos para pagar as dívidas: “dava um pouco a este, um pouco aquele e pedia paciência a 282 CASTRO Gomes, Ângela de. Escrita de si, escrita da História: a título de prólogo. In: Escrita de si, Escrita da História. Ângela de Castro Gomes (Org.). Rio de. Janeiro: Editora FGV, 2004, p. 19. 283 Moeda portuguesa. 116 outro e ficava sem um vintém”284. Com o senhorio, no entanto, não era possível negociar. Em virtude da Lei do Inquilinato, o aluguel da casa deveria ser pago impreterivelmente no primeiro dia de cada mês. Por isso, Neno recomendava a Leuenroth para que todo o mês mandasse sem falta: [...] na segunda feira do mês [...] um terço (do pagamento) para que o dinheiro chegue aqui no fim do mês e eu possa pagar a verba mais importante e que não espera [...] Imagino que amanhã não tenho um vintém e nem a quem pedir – e torturo-me a dar voltas ao miolo e a pensar no que fará o senhorio...285 Como confessa o anarquista, às vezes lhe faltava até mesmo dinheiro para poder arcar com as despesas mais essenciais, tais como alimentação, vestuário e moradia. Nessas circunstâncias de extrema penúria, o crédito parecia ser a melhor saída a curto prazo, porém a longo, percebia que não, já que chegavam até mesmo a cobrar o dobro do valor. Em virtude disso, se recebesse num dia já ficava sem um vintém por causa dos atrasos. Por isso, não se atrevia a gastar com nada mais, mesmo que sobrasse, temendo que amanhã lhe faltasse algo. Disso resultava que Neno Vasco mal podia sair de casa sem correr o risco de encontrar alguns dos seus credores. Era o padeiro, o leiteiro, o talheiro... que ficavam a rosnar de impaciência em sua porta, incomodando ele e os demais membros de sua família por causa da demora nos pagamentos. É uma tortura absorvente, deprimente, bestializante, desabafou ele. Isto de viver, não só na penúria constante, mas ainda em pleno regime de empréstimos e de expedientes, de dúvidas e de queixas, aniquilame, tira-me todo o gosto de trabalhar e de viver, avilta-me. Não é perder a dignidade o ter de passar, aos olhos do amigo, que não faz outra coisa senão recorrer a este e aquele e amiúde tem de faltar às promessas de restituição em determinado prazo?286 Conforme explicita Samis, “o problema que se colocava não era apenas de ordem material”. Com efeito, o suicídio do seu cunhado Manuel Moscoso, o silêncio de Antônio Orelhana, seu concunhado, e o afastamento definitivo de seu pai, o senhor Vitorino Vasconcelos, que haviam lhe prometido ajudá-lo financeiramente durante os primeiros anos após a sua partida eram fatos que “adicionavam à sua penúria um 284 Carta de Neno Vasco a Edgard Leunroth, 15/09/1912. Carta de Neno Vasco a Edgard Leunroth, 31/031912. 286 Carta de Neno Vasco a Edgard Leunroth, 27/10/1913. 285 117 extenuante componente psicológico”287, que o deixava completamente vulnerável quanto ao seu estabelecimento definitivo em Portugal. Entretanto, nem mesmo o trabalho prestado para A Lanterna poderia ser tomado com fonte segura de rendimento, já que a perseguição política sofrida pela folha anticlerical impedia que Leuenroth mantivesse a periodicidade necessária aos pagamentos. Neno temia que as jornadas de protesto encampadas pelo referido periódico, no início dos anos de 1910, contra o Orfanato Cristovam Colombo, por causa do desaparecimento da pequena Idalina, pudessem render a Leuenroth sua prisão. Sem saber ao certo o que estava acontecendo, Neno lhe escreveu uma missiva temendo que o fato já houvesse se concretizado: Esta semana de São Paulo só recebi uma carta de Victorino Correa dizendo-me que estavas ameaçado de prisão. Como não recebi jornais e nem carta tua, estou inquieto por ti e por mim... Porque estou sem nenhum vintém em caixa e tenho dividas urgentes a pagar e empréstimos a restituir288. Os constantes reveses financeiros pelos quais o periódico passava constituíam outro impeditivo para que o diretor d‟A Lanterna colocasse em dia o pagamento do cronista. Mesmo tendo um número significativo de assinantes, aceitando anúncios e tendo sido transformada, em um curto período, em diário durante o ano de 1913289, a folha anticlerical não conseguia se estabilizar do ponto de vista econômico. Ao que parece, os impactos da Grande Guerra de 1914-1918 incidiram diretamente sobre a circulação do referido periódico, cada vez mais irregular, principalmente a partir do primeiro ano do conflito bélico, por causa do progressivo encarecimento dos materiais necessários para a sua impressão. Escuso de te dizer que muito me penaliza a tua situação, assim como da Lanterna, não só pelas desgraçadas conseqüências que daí me advêm, mas porque me afeiçoei ao jornal e acho-o muito útil [...] Os meus problemas de dinheiro põem-te em embaraço e só sacrificando o jornal podes enviar-me pequenas quantias. Mas, na situação em que estou o que eu ei de fazer?290 287 SAMIS, Alexandre. Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos. Lisboa: Letra Livre, 2009, p. 307. 288 Carta de Neno Vasco a Edgard Leunroth, 03/07/1912. 289 FRANKIW, Carlos Eduardo. Blásfemos e sonhadores: ideologia, utopia e sociabilidades nas campanhas anarquistas em A Lanterna (1909-1916). Dissertação (Mestrado em História). USP, São Paulo, 2009. 290 Carta de Neno Vasco a Edgard Leunroth, 24/03/1915. 118 “Mas, na situação em que estou o que eu ei de fazer?” Frase sugestiva, que serve de ponto de partida para interrogarmos, a um só tempo, quais eram as opções e quais foram as escolhas feitas pelo anarquista. Segundo o próprio Neno, a situação d‟A Lanterna o colocava em face do seguinte dilema: “abandonar a propaganda (o que seria doloroso) ou as idéias (o que seria impossível)”291. O caráter pouco claro contido nessas expressões nos força a inquirir cada uma delas. Quando Neno fala em “abandonar a propaganda”, provavelmente está se remetendo à possibilidade real de ter que abandonar a profissão de jornalista para voltar à profissão de tradutor, ofício que exerceu durante os dez anos em que viveu no Brasil. Para além de dolorosa, essa alternativa não mudava em nada sua situação, haja vista que se voltasse para um escritório receberia 30 fortes mensais, mesmo valor que recebia pelo trabalho que vinha prestando para A Lanterna292. Uma vez consumada, Neno acreditava que ela o afastaria quase por completo da propaganda, já que as responsabilidades enquanto empregado formal lhe subtrairiam o tempo necessário para se dedicar à militância293. Já quando fala em “abandonar as idéias”, Neno não traz muito elementos nas cartas que trocava com Leuenroth. A despeito disso, arrisco a hipótese de que ele estaria aludindo à possibilidade um tanto quanto vaga de fazer valer o seu diploma de Direito em Coimbra e atuar como advogado. Trago à tona essa hipótese pela reação de Neno, que julga impossível essa alternativa. O que, entretanto, impossibilitava Neno Vasco de abandonar o jornalismo, profissão pela qual era parcamente remunerado e mal conseguia sobreviver financeiramente, e abraçar a advocacia, ocupação que poderia lhe trazer proventos mais generosos e livrá-lo das dificuldades econômicas? Ao contrário do que poderia parecer em um primeiro momento, as constantes queixas feitas pelo cronista ao diretor d‟A Lanterna sobre os pagamentos atrasados poderiam nos levar a acreditar que Neno se preocupava demasiadamente com o dinheiro. Destaco, porém, que Neno nunca aspirou a fortes remunerações quando procurou se estabilizar financeiramente enquanto jornalista, se assim não fosse ele teria exercido o ofício de advogado desde quando se formou. Neno nunca o fez porque acreditava que o exercício simultâneo da militância anarquista e do ofício de advogado lhe soava como algo irreconciliável. 291 Carta de Neno Vasco a Edgard Leunroth, 29/03/1914. Carta de Neno Vasco a Edgard Leunroth, 27/10/1913. 293 Carta de Neno Vasco a Edgard Leunroth, 27/10/1913. 292 119 Tudo parecia as opor, não somente porque o advogado ajuda a reforçar leis que defendem a classe dominante contra a classe dominada, mas, igualmente, porque o próprio advogado, pelos salários que recebe, acaba se tornando um membro da própria classe dominante. Por um lado, se a opção em trabalhar como jornalista acabava colocando Neno em uma situação que, do ponto de vista econômico, estava longe de ser satisfatória. Por outro lado, ela permitia a ele manter a coerência que possuía com os ideais que acreditava. Em outubro de 1916, em razão do agravamento dos motivos já expostos, A Lanterna deixava de circular, encerrando a sua segunda fase. Em junho de 1917, parte do grupo responsável pela edição e publicação da folha anticlerical encetou uma iniciativa, ainda tendo à testa Edgard Leuenroth: a publicação do jornal A Plebe, cuja fisionomia se aparentava à d‟A Lanterna. Como é possível evidenciar mediante a leitura do editorial constante em seu primeiro número294, esta folha era continuadora direta d‟A Lanterna, se diferenciando talvez um pouco em virtude de suas prioridades, mais voltadas para a luta dos trabalhadores, que se encontrava em ascenso naquela conjuntura295. Dentre os membros que o animavam, se encontrava o nosso biografado, preenchendo a mesma função outrora ocupada em A Lanterna, só que agora colaborando gratuitamente. No entanto, a periodicidade dessa colaboração era bastante irregular. Uma vez que, com o fechamento d‟ A Lanterna, Neno se viu obrigado a voltar a trabalhar como tradutor num escritório296, tendo que deixar um pouco de lado a militância. Às voltas com os mesmos problemas financeiros, ele e grande parte do seu núcleo familiar se viam, agora, acometidos por uma terrível moléstia: a tuberculose. A primeira a ser furtada do convívio da família Moscoso e Vasconcelos foi Mercedes, sua esposa, em 26 de janeiro de 1920. Na nota “Os que nos deixam”, os articulistas d‟A Plebe noticiavam o acontecido: Por notícias chegadas de Lisboa soubemos a triste notícia da morte da boa e dedicada companheira Mercedes Moscoso Vasconcelos, extremosa esposa do nosso estimado camarada Neno Vasco e mãe 294 A que viemos. A Plebe. São Paulo, 09/06/1917. Ver: LOPREATO, Christina da Silva Roquette. O Espírito da Revolta: a greve geral anarquista de 1917. São Paulo: Annablume, 2000. 296 In: Dicionário Histórico-Biográfico do(s) anarquismo(s) no Brasil. VASCO, Neno. Uberlândia, Mimeo, 2000, p. 103. 295 120 dedicada de três interessantes crianças, Ciro, Fantina e Ondina. A saudosa senhora deixou de existir [...] após padecimentos intensos, minada pela tuberculose que há três anos a fazia sofrer atrozmente [...] Ao nosso querido companheiro Neno Vasco, alta inteligência a serviço de um grande coração, e a seus queridos filhos [...] a expressão dos nossos mais sentidos pêsames297. A pobreza, a dor pela morte de sua esposa e, somando-se a isso, um histórico já existente de doenças pulmonares, tornaram Neno Vasco a próxima vítima da tuberculose. Por indicação médica, ele foi obrigado a abandonar o emprego e a se internar num asilo na cidade de São Romão do Coronado, no Minho, onde, antes dele, ficara Mercedes, para poder se curar da doença. Quando da sua internação, os articulistas d‟A Plebe iniciaram uma campanha que possuía a finalidade de angariar fundos para o seu tratamento médico e as despesas financeiras do seu núcleo familiar. Na referida nota afirmavam que as subscrições já se encontravam abertas e apelavam para que todos os companheiros colaborassem com essa iniciativa prática para ajudá-lo, se justificando da seguinte maneira: Este nosso camarada que aqui viveu tantos anos e que aqui desenvolveu tanta atividade fundando e redigindo O Amigo do Povo, A Terra Livre e a revista Aurora acha-se em Lisboa em [má] situação econômica e especialmente de saúde [...] Nós todos que com ele aprendemos e convivemos e todos aqueles que tem bebido em seus escritos notáveis, conselhos e observações de tática e de doutrina [...] temos o dever iniludível de não o abandonar neste transe difícil e doloroso de sua vida, indo em auxilio duma criatura que é um dos espíritos mais sensatos, mais dedicados [...] de que o anarquismo pode com razão se orgulhar de produzir e de possuir em suas fileiras298. Pouco mais de dois meses após a publicação dessa nota, outro jornal, o português A Batalha, noticiava a morte de Neno, ocorrida em 15 de setembro de 1920, escrevendo um epílogo para a sua história de vida. Tampouco a tuberculose pouparia alguns anos mais tarde a vida de dois de seus filhos: Ciro e Fantina, tendo sobrevivido apenas Ondina299. Nos vários necrológios escritos no periódico aludido, anarquistas e sindicalistas se revezavam para render uma última homenagem a Neno: Mental e moralmente ele foi - tanto quanto é possível dentro das condições deste meio maldito em que somos forçados a viver - um anarquista de fato e pelo fato. Pelo fato sim, porque Neno Vasco não 297 Os que nos deixam. .A Plebe. São Paulo, 28/02/1920. Neno Vasco, A Plebe. São Paulo, 03/07/1920. 299 In: Dicionário Histórico-Biográfico do(s) anarquismo(s) no Brasil. VASCO, Neno. Uberlândia, Mimeo, 2000, p. 103. 298 121 se limitou a divulgar teorias anarquistas, mas esforçou-se por as praticar, por as propagar também pela ação e pelo exemplo [...]. Compreendendo que, sendo essa sociedade um charco em que a lama é constituída pelos próprios homens, a forma de a limpar é extraindolhe essa lama, ele contribuiu para essa limpeza, saindo ele próprio do charco. Compreendendo que se o homem é o produto do meio, e o meio é a conseqüência do que são os homens, ele preferiu modificarse a si próprio para modificar o meio, a pôr-se a espera que o meio o transformasse a ele300. Ao ser um anarquista de fato e pelo fato, Neno se recusava a construir sua subjetividade enquanto um militante que propaga a teoria sem praticá-la. Talvez isso ajude a entender grande parte das dificuldades financeiras por ele enfrentadas ao longo da vida em virtude da sua opção militante, que o afastou do exercício do ofício de advogado, que poderia ter lhe rendido proventos mais satisfatórios. Apesar de Neno Vasco ter compartilhado o mesmo destino do escritor português Silva Pinto301, que “morreu miseravelmente” e foi “miseravelmente enterrado”, parece que em vida o mesmo não ocorreu. Ao contrário do que se passou com o seu conterrâneo, parece que a personalidade do anarquista não “se desconjuntou e se descoloriu na mesquinha tarefa de comentar dia-a-dia [...] os raquíticos e fastidiosos sucessos do ramerrão político e social [...] pela obrigação cotidiana do ganha pão”. Pois, o “árido amargor” desta tarefa parece ter sido compensado pelo “sopro vivificante” das “idéias largas e modernas” que o anarquismo trouxe, o que permitiu a ele manter-se otimista em face dos desafios que lhe eram colocados: “O pessimismo desalentado me soa mal e o azedume me incomoda, só amo os hinos à vida”302, escreveu ele. 300 Um anarquista de fato e pelo fato, A Batalha, Lisboa, 17/09/1920. António José da Silva Pinto (Lisboa, 14 de abril de 1848- Lisboa, 4 de novembro de 1911), foi um escritor português, crítico literário, ensaísta, dramaturgo naturalista, contemporâneo de Neno. Quando do seu falecimento ele devotou-lhe uma crônica fazendo um pequeno balanço da sua vida e obra. VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 109. 302 VASCO, Neno. Da Porta da Europa. Lisboa: Biblioteca Libertas, 1913, p. 109. 301 122 REFERÊNCIAS: Imprensa Operária O Amigo do Povo, São Paulo, 1902-1904. A Guerra Social, Rio de Janeiro, 1911-1912. A Lanterna, São Paulo, 1909-1916. O Libertário, Rio de Janeiro, 1904. Novo Rumo, Rio de Janeiro, 1906-1907. A Plebe, São Paulo, 19017-1919. A Terra Livre, São Paulo, 1905-1908; 1910. A Voz do Trabalhador, Rio de Janeiro, 1908-1909; 1913-1915. Aurora, São Paulo, 1905. A Aurora, Porto, (1910-1920) Kultur, Rio de Janeiro, 1904. 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