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CONCURSOS PÚBLICOS
E A EXPECTATIVA DE TRABALHO ESTÁVEL
2015
Rachel Elena da Silva Santos
Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Jorge Amado (Brasil)
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RESUMO
Apresenta-se, neste artigo, como a evolução histórica do ato de trabalhar e a transformação
da sociedade contribuíram para o surgimento de uma nova classe de profissionais – os
concurseiros - que visam trabalhar em órgãos públicos e, consequentemente, ter um emprego
estável. Para compreender esta transformação, analisou-se a influência do trabalho na qualidade
de vida do indivíduo, seus efeitos sobre o tempo, a cultura e o lazer, bem como as consequências
da preocupação acerca do desemprego involuntário e sua contribuição na construção da
subjetividade do sujeito e de seus valores sociais. Analisou-se também as transformações no
modo de ingresso no serviço público e como a alta concorrência pode influenciar a escolha do
curso superior dos jovens da nova geração. Para esta finalidade, utilizou-se a teoria do trabalho e
das organizações e teve como resultado a identificação da importância do trabalho estável para
estruturação da felicidade e da identidade para a vida do sujeito e para a manutenção da sensação
de segurança e capacidade de sobrevivência.
Palavras-Chave: trabalho, estabilidade, subjetividade, identidade.
1. INTRODUÇÃO
As várias transformações no processo produtivo vêm modificando os modos de gestão e de
relações dentro das organizações. O discurso sobre o progresso humano não abarcou as
contingências do mercado de trabalho, e as mudanças trazidas pela globalização e pela tecnologia
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criaram uma tensão social acerca do vínculo empregatício que possa garantir a sustentabilidade
familiar (CASTELHANO, 2005).
Os contextos produtivos da contemporaneidade têm obrigado os indivíduos a se
reestruturarem de acordo com as alterações no processo produtivo. A globalização tem balizado
as relações de trabalho de forma que as novas formas contratuais, mais flexíveis (efêmeras e
precárias em alguns casos), procuram racionalizar a estrutura organizacional, para que a
lucratividade permaneça em crescente expansão, afetando as relações interpessoais, os modos de
trabalho e de vida dos indivíduos (ALBRETCH, 2010).
O crescente desemprego, a alta competitividade e o sentimento de insegurança aliadas às
pressões do mercado tem exigido maior qualificação e aperfeiçoamento técnico, constituindo-se
como demanda essencial para a manutenção do vínculo empregatício (MANCEBO, 2009).
O risco contínuo e a iminência de perda do emprego transformaram a qualificação em
tarefa obrigatória de responsabilidade isolada do sujeito, e ainda assim, não garantem a
permanência em um vínculo sólido e duradouro, capaz de amenizar as incertezas do desemprego
(MANCEBO, 2009).
Mesmo com qualificação adequada, o mercado de trabalho não tem capacidade para
absorver o grande contingente de pessoas em idade economicamente ativa e, com este cenário, o
desemprego aparece como uma possibilidade iminente (MANCEBO, 2009).
Para evitar os infortúnios da ausência de emprego, os sujeitos se sujeitam a atividades cujo
sofrimento pode se tornar naturalizado. O interessante nestes casos, para o trabalhador, não é a
satisfação no trabalho e sim evitar a insatisfação do desemprego.
A solução da contemporaneidade tem sido servir ao governo, que tem se mostrado bom
empregador.
Com esta revisão bibliográfica intenta-se analisar como os empregos públicos se tornaram a
opção dos sonhos para muitos brasileiros que estão em idade ativa para o trabalho. Discute-se
neste trabalho quais características do emprego público chamam a atenção dos jovens e adultos
que procuram emprego e quais as desvantagens da iniciativa privada. Levam-se em consideração
assuntos referentes ao desemprego, à renda financeira e à qualidade de vida para tentar entender
como as carreiras públicas têm atraído tantos candidatos.
Para compreender o contexto, este trabalho procurou trazer um apanhado histórico referente
aos sentidos do trabalho dados tanto na antiguidade quanto na contemporaneidade, bem como a
evolução do funcionalismo público nas principais reformas administrativas.
Também foi fundamental comparar as disparidades entre a Constituição Federal e a
Consolidação das Leis Trabalhistas no que se refere ao período de experiência/estágio probatório
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e estabilidade/instabilidade na carreira para identificar as diferenças entre o emprego na iniciativa
e privada e na pública.
Por fim, é analisado como a efemeridade das relações de trabalho atual, a crescente ameaça
de desemprego e a competitividade tornaram-se fatores cruciais na busca por um emprego mais
seguro, bem como as possíveis consequências do medo crescente das incertezas laborais.
2. PERCURSO HISTÓRICO DO TRABALHO: O HOMEM QUE TRABALHA
2.1. As Concepções Econômicas do Trabalho
Ao pesquisar sobre trabalho, é possível encontrar informações que remontam os tempos
gregos dos deuses e do império de Zeus sobre os homens. A partir das interpretações dos poemas
de Hesíodo (VII a.C. – VIII a.C.), ou ainda antes, a partir das obras de Homero (XII – VII a.C.) é
possível identificar as mudanças no significado da ação de trabalhar.
Apesar de Hesíodo tratar o trabalho como algo positivo em seus poemas, trabalhar, nesta
época, era visto como algo degradante aos cidadãos e ao espírito. Porém, é importante observar
que este poeta vivia em uma sociedade agrária – longe das primeiras cidades - onde o trabalho
árduo era a fonte do sustento. Esta é a realidade retratada por ele: o orgulho de ser agricultor
(QUINELATO, p.193).
O mito de Prometeu e Pandora veio mostrar que não se deve contrariar o deus dos deuses e,
o trabalho, proveniente do jarro de Pandora, veio como castigo aos homens por tentar enganar
esses seres superiores. Ainda na Grécia antiga (séc. V a VI a.C.), a ideia que se fazia do trabalho
era a de que impossibilitaria o cidadão de exercer atividades políticas, uma vez que não haveria
tempo para exercer a cidadania. Mesmo Aristóteles julgava o trabalho como atividade
perturbadora ao corpo e ao espírito, impedindo o homem de buscar a felicidade. Pode-se dizer,
então, que o significado atribuído ao ato de trabalhar está diretamente ligado aos aspectos
socioeconômicos da sociedade (ZANELLI, BORGES-ANDRADE, BASTOS, 2014, p. 28). Na
Grécia antiga, a forma de trabalho mais comum era através da escravidão, o que já denota uma
degradação do ser humano, por caracterizar esforço excessivo, jornada exaustiva, servidão e,
principalmente, inexistência da dignidade. O homem trabalhador/escravo não era livre nem
cidadão.
Tempos depois, por volta do século XVIII d.C., um novo fenômeno vem trazer mudanças
significativas na concepção de trabalho: a produção excedente. Não se quer dizer aqui, com esta
informação, que apenas um fato mudou toda a ideia acerca de trabalho. É apenas utilizado como
fronteira delimitadora da história da civilização.
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Produzir excedente é produzir para além da subsistência e é preciso escoar aquilo que não
será utilizado. O comércio surge como alternativa, uma espécie de escambo, onde o dinheiro é o
principal objeto de troca. Desta forma, surge a necessidade de negociar; e o lucro obtido
possibilita a compra de novos produtos, frutos do excedente de outra pessoa. Cria-se um circuito
de compra e venda, característica primaz do comércio. Para o indivíduo que não detém os meios
de produção dos produtos, resta-lhe vender sua força de trabalho, como forma de sustento.
Marx (MARX, 1983, p.257 apud ZANELLI, BORGES-ANDRADE, BASTOS, 2014, p.
28), explicando sobre o capitalismo, escreveu sobre como as mudanças nas concepções do
trabalho afetam a dinâmica na organização do trabalho e da sociedade:
[...] a atividade de um número maior de trabalhadores, ao mesmo tempo, no
mesmo lugar (ou, se se quiser, no mesmo campo de trabalho), para produzir a
mesma espécie de mercadoria, sob o comando do mesmo capitalista, constitui
histórica e conceitualmente o ponto de partida da produção capitalista.
Entender essas mudanças econômicas no percurso histórico do trabalho ajuda a
compreender a mudança cultural e a percepção significativa do conceito de trabalho na sociedade
contemporânea.
2.2. Sentidos do Trabalho: valores sociais do conceito de trabalhar
O trabalho remunerado do novo século é uma das atividades centrais na vida do indivíduo.
Diferente da época da escravidão, o mundo capitalista-tecnológico existente hoje trouxe diversas
mudanças não somente no modo de produção, como também nas condições de trabalho e
empregabilidade que afetam diversas esferas da vida do indivíduo, tais como cultura, qualidade
de vida, tempo, lazer e estrutura familiar (AQUINO, MARTINS, 2007).
A Revolução Industrial é culpabilizada pela grande maioria de mudanças ocorridas nas
sociedades, gerando o êxodo rural e o enchimento das cidades, causando no trabalhador a
obrigatoriedade de esforçar-se até o limite para manter sua subsistência (ESCORSIM, 2005).
Desde o século XVIII até os dias de hoje, as formas de trabalho sofreram mudanças
significativas, obrigando o sujeito a qualificar-se cada vez mais para manter-se dentro de um
mercado altamente competitivo, caracterizado por uma dicotomia que,
Se instala para além da divisão entre empregados e desempregados,
trabalhadores qualificados e não qualificados, empregados permanentes e
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temporários, pois o mercado de trabalho da nova economia está dividido em
uma mão de obra nuclear, formada por profissionais que lidam com a
informação, e uma mão de obra descartável, que pode ser automatizada ou
despedida segundo a demanda do trabalho e os custos envolvidos nessa
contratação ou demissão. (GARRIDO, 2006 apud GONDIM et al, 2010).
Essas mudanças das relações de trabalho geram um desvio de responsabilidade da
empregabilidade para o indivíduo – competência, qualificação e capacitação - escondendo
questões sociais mais abrangentes que podem inviabilizar a conquista de emprego.
Problemas sociais ocasionados por uma diversidade de fatores criaram uma grande massa
de trabalhadores que não possuem meios de competir por um emprego que garanta sua
subsistência e acabam por gerar um ciclo que enfatiza o impacto na saúde, nas relações
familiares, no uso do tempo e a relação com a criminalidade. A psicologia social vem se
estruturando para compreender como
Uma multiplicidade de acontecimentos e de práticas que atravessam uma
formação histórica num dado momento, que o social irá ganhar uma
consistência e se constituir como um campo problemático (SILVA, 2004, p.
14).
A sociedade tecnológica mudou substancialmente a cultura, destacando a competitividade,
rivalizando valores como lealdade, reciprocidade e confiança e estimulando outros como o
individualismo, causando um gradual desaparecimento de carreiras estáveis e de vínculos
profissionais duradouros. Os empregos conquistados com o mero objetivo de subsistência do
indivíduo e sua família não são capazes de gerar sentimentos de completude, pois comumente
não dão sentido à vida do trabalhador (MERLO, LAPIS, 2007).
Para os que estão empregados, Castelhano (2005) explica como os vínculos empresariais
modernos têm sido regulados pela relação sujeito-organização em que as relações de poder são
fortalecidas pela utilização de políticas de compensação com a promessa de altos salários,
participação nos lucros e possibilidade de crescimento como forma de antever conflitos. Com
isso, inicia-se uma dominação psicológica fazendo com que o sujeito assuma a organização como
sua. Ao não alcançar o objetivo imposto pela empresa, o psiquismo é envolvido pelo medo, um
sinal de perigo constantemente presente no ambiente laboral (p. 15).
Merlo (2003) explica que o sofrimento psíquico está correlacionado com a baixa existência
de conteúdo significativo da tarefa para o indivíduo. Enquanto portador de uma história, sua
relação com a organização pode sofrer um choque, prejudicando o desempenho da tarefa,
deflagrando a possibilidade de desemprego e desencadeando o medo e o sofrimento psíquico.
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Aliado a isso, os trabalhadores também podem enfrentar situações em que a realização da
atividade, do ponto de vista do conteúdo, é marcada por uma rotina repetitiva e monótona
(setores operacionais, por exemplo) reguladas pelo controle que, não em raras vezes, são
pautadas por ameaças e humilhações.
Dejours (1999 apud MERLO, 2003) afirma que o medo do desemprego tem quatro efeitos
principais:
“a intensificação do trabalho e aumento do sofrimento subjetivo; a
neutralização da mobilização coletiva; a emergência da estratégia coletiva do
silêncio, cegueira e surdez, no sentido de ‘não perceber’ o sofrimento e a
injustiça infligidos a outrem; e, como quarto efeito, o individualismo”
(p.126).
Os efeitos citados por Dejours podem ser introduzidos no conceito de sistemas de defesa
profissional, criado por Le Guillant na década de 50 para sintetizar as estratégias utilizadas para
amenizar os ferimentos causados pelas condições de trabalho. A reação característica deste sistema
de defesa é a ausência de reflexão sobre a atividade para poder suportar a situação (GUILLANT,
1950 apud CLOT, 2010).
Uma vez que o trabalho constitui um papel central na vida do ser humano enquanto produto e
produtor do meio social, os sentimentos de inadequação e inutilidade causados pela ausência de
sentido no trabalho e a iminente possibilidade de desemprego acarretam insegurança, miséria e
sentimento de vergonha. O labor, então, vai transcender as necessidades de sobrevivência para
gerar oportunidades de inclusão social. Desta forma, o trabalho tem a dupla tarefa de suprir as
necessidades e produzir sentimento de auto-realização (ALBRECHT, 2010).
O sentido do trabalho, nesse caso, pode estar relacionado com a qualidade de vida que este
proporciona dentro e fora do ambiente em que é exercido.
Na contemporaneidade todo o processo de educação/formação para a vida perpassa no
uso do tempo para requerer mais qualidade laborativa e, portanto empregabilidade, em busca de
atividades que remunerem bem o suficiente para que se possam ter condições de usufruir de
benefícios que garantam uma vida mais saudável e feliz. Em contrapartida, para chegar a este
nível de satisfação, é necessário gastar mais tempo estudando e trabalhando, paradoxalmente
ficando sem nenhum tempo para si. As necessidades existenciais caminham em uma reta entre as
atividades laborais o e tempo para si e sua família (AQUINO, MARTINS, 2007).
À parte disto, para aqueles que não utilizam o seu tempo buscando qualificação para
competir em um mundo tecnológico, a possibilidade de desemprego é altamente propícia. Ao
invés de se tratar o desemprego como problema social que precisa de ações governamentais para
ser resolvida, a culpabilidade é toda direcionada para o indivíduo que não quis/pôde se
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especializar. Como consequência pode-se ter um sujeito com baixa autoestima, desvalorizado
socialmente, sem condições de subsistência e com estados afetivos depressivos (GONDIM et al,
2010).
3. O SERVIÇO PÚBLICO NO BRASIL: DAS REFORMAS À ESTABILIDADE
3.1. A reforma de Vargas e de 1967
O modelo atual do serviço público brasileiro começou ainda nos anos 30 com a reforma
administrativa feita por Getúlio Vargas. A crise de 1929 impulsionou a ideia de industrialização
do Brasil. Isto porque o principal produto de exportação da época e fonte de renda da economia
brasileira – o café – teve sua comercialização externa prejudicada com a quebra dos países que
eram os seus principais compradores (COSTA, 2008).
Apesar de possuir uma política de proteção às matérias-primas exportadas, o governo de
Vargas, após desfechar o golpe e instituir o Estado Novo, iniciou fortemente um projeto
desenvolvimentista com vistas à industrialização, criando “a infraestrutura de transporte, a oferta
de energia elétrica e a produção de aço, matéria-prima básica para a indústria de bens duráveis”
(COSTA, 2008, p. 844). Para tanto, precisava reformar o Estado, o governo e a administração
pública.
Ainda segundo Costa (2008), justifica-se com estas mudanças a criação de diversos
mecanismos para que houvesse a racionalização dos procedimentos de administração da
industrialização. É nesta época que são criadas empresas como a Companhia Vale do Rio Doce e
a Companhia Siderúrgica Nacional, hoje já privatizadas.
Para fazer toda essa máquina administrativa funcionar, Vargas cria em 1935 uma
comissão mista de reforma econômico-financeira para “estudar a possibilidade de um
reajustamento dos quadros do serviço público civil” (WAHRLICH, 1975:10 apud COSTA,
2008). Com isso, a primeira lei de reforma de pessoal foi criada em 28 de outubro de 1936 – a
Lei n° 284: Lei do Reajustamento - estabelecendo a nova classificação de cargos e fixando
normas básicas; bem como o Conselho Federal do Serviço Público Civil. Tal conselho era
responsável por determinar, entre outras coisas, quando seria cobrado certificado de conclusão de
nível médio ou de nível superior. Esta prática deu início à utilização de um dos princípios
fundamentais do recrutamento e seleção públicas utilizados na contemporaneidade: o princípio
da isonomia.
Já nesta época o serviço público possibilitava aos seus servidores a chance de ter um
estilo de vida mediano, impedindo que o funcionário flutuasse entre as classes altas e baixas da
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sociedade. Mas não se deve com isso acreditar – ainda que o princípio da isonomia engatinhasse
– que qualquer cidadão pudesse se candidatar. O apadrinhamento ainda era a melhor forma de
ingresso no serviço público (ALBRETCH, 2010).
A reforma de 1967 trouxe novas mudanças à política da administração pública tendo como
principais norteadores:
1. Planejamento, descentralização, delegação de autoridade, coordenação e
controle;
2. Expansão das empresas estatais, de órgãos independentes (fundações) e
semi-independentes (autarquias);
3. Fortalecimento e expansão do sistema de mérito;
4. Diretrizes gerais para um novo plano de classificação de cargos;
reagrupamento de departamentos, divisões e serviços em 16 ministérios
(JUNIOR, 1998, p.13).
É no artigo 77 da constituição de 67 que se estabelece a estabilidade pelo menos para os
funcionários que tivessem no mínimo cinco anos de serviço público. Apesar disto, ainda não
havia a profissionalização do servidor público nem um método específico de seleção deste
pessoal. Somente em alguns casos utilizava-se “concursos públicos”, com a aplicação de um
exame específico de habilidades (JUNIOR, 1998, p.14).
Apesar da violência que marcou a época, a ditadura militar impulsionou a expansão do
Estado, com a criação de mais 68 agências e de 267 empresas públicas.
Apesar de parecer um crescimento positivo, estas mudanças não consideraram a realidade
brasileira – baseando-se em teorias europeias de governo - não estavam voltadas para políticas de
instrumentação do serviço público e faltou estratégia que viabilizasse projetos (MARCELINO,
1987:24 apud JUNIOR, 1998).
3.2. Serviço Público na Constituição de 88: A legalidade do trabalho
A constituição de 1988 veio regularizar a entrada dos brasileiros no serviço público,
definindo seu concurso, salários, direitos e deveres. Não está definido neste quais as aptidões
necessárias para o cargo, apenas descreve um método isonômico de entrada. Remetendo ao início
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do século XX, Clot (2010) explica como métodos de seleção não valorizavam as aptidões dos
trabalhadores e sim a adequação da pessoa em função do trabalho.
Comumente na história do trabalho, da revolução industrial e do capitalismo vê-se o
interesse do aumento da lucratividade do patrão em detrimento do esforço do trabalhador, que
tem apenas direito a um salário fixo normalmente independente de sua produtividade. A maioria
dos trabalhos disponíveis à população ativa se caracteriza pela repetição diária de esforços, que
intensifica o processo de exploração – não criminalmente visto, obviamente – e alienação, pois
não exige do trabalhador uma crescente evolução do pensamento gerencial e criativo. Vê-se,
então, no trabalho braçal um adestramento dos indivíduos para que a tarefa seja cumprida
(BORGES, YAMAMOTO, 2014).
Não se pode dizer com estas afirmações que no serviço público é diferente. Conhecido
como trabalho burocrático, trabalhar para o governo pode acabar sendo mais uma forma de
mecanização do trabalhador. Sua rotina repetitiva demonstra como a máquina do governo
funciona para que o atendimento à população seja igualitário – ao menos em teoria – e que a
finalidade principal dos atos da administração seja alcançada: o bem da coletividade.
O que atrai os trabalhadores a este tipo de emprego alienante, de uma forma geral, nada
tem a ver com o funcionamento do trabalho. Embora alguns trabalhos públicos requeiram uma
especialização do sujeito e, com isso, acabam por oferecer o trabalho dos sonhos de um grupo
seleto de sortudos, a maioria considera interessante os benefícios “extra trabalho”, ou os fatores
que podem favorecer sua felicidade subjetiva.
Enquanto em uma empresa privada o trabalhador, de acordo com o artigo 445, parágrafo
único da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não pode passar por mais de noventa dias de
período de experiência, o servidor público passa por três anos de estágio probatório para ser
estável. E eis que está a diferença! Não há garantias de empregabilidade para o trabalhador que já
ultrapassou o período de experiência em uma empresa privada. Mas, para aquele que venceu o
estágio probatório, a garantia de um emprego durável é quase que certa. Exceto quando o sujeito
aja ilegalmente, o servidor público poderá contar com sua remuneração todos os meses até
completar setenta anos (BRASIL, 1988).
As mudanças nas relações de trabalho têm diminuído os laços emocionais dentro das
empresas, expressão nova do medo do desemprego gerado pela alta competitividade. Para Freud
(1921, apud CASTELHANO, 2005) quando o medo é engrandecido, o indivíduo se preocupa
consigo mesmo, fazendo com que os laços emocionais deixem de existir. Desta forma, isolado, o
indivíduo se sujeita às exigências da empresa mais facilmente, acirrando a competição interna da
organização.
A possibilidade de não ter que enfrentar o desemprego e suas consequências pode ser o
principal atrativo do serviço público no Brasil. O medo do desemprego agrava o sofrimento
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mental e produze doenças que podem se arrastar ao longo da vida do sujeito (CASTELHANO,
2005).
O salário, acima da média das empresas privadas, também é visto como um dos
benefícios do serviço público. Enquanto um auxiliar administrativo – que exige nível médio pode ganhar em média uma salário mínimo e meio com carteira assinada (DATAFOLHA, 2014),
um técnico administrativo do serviço público, dependendo da esfera em que trabalhe, pode
ganhar cerca de quatro salários mínimos e meio1 ou mais.
4. SENTIDOS DO TRABALHO E ESTABILIDADE
Seidl e Zannon (2004) oferecem uma análise acerca do conceito de qualidade de vida.
Segundo elas, a qualidade de vida somente pode ser avaliada a partir da perspectiva do próprio
indivíduo, através da análise de aspectos como estado de saúde e aspectos não-médicos em que o
prazer e a satisfação tenham sido alcançados.
A multidimensionalidade do conceito de qualidade de vida tem dificultado estudiosos a
achar métodos eficazes de avaliação do que seria, em âmbito geral, ter uma vida com qualidade.
A organização Mundial de Saúde (OMS), em um estudo que tentou avaliar em nível
internacional a qualidade de vida definiu-a como “a percepção do indivíduo sobre a sua posição
na vida, no contexto da cultura e dos sistemas de valores nos quais ele vive, e em relação a seus
objetivos, expectativas, padrões e preocupações” (THE WHOQOL GROUP, 1995 apud SEIDL;
ZANNON, 2004).
Na sociedade vigente, qualidade de vida está diretamente relacionada com uma
estabilidade financeira e do trabalho, que permite ao sujeito garantir para si e sua família maiores
possibilidades de consumo. Em uma era voltada para as capacitações e com a competitividade
cada vez mais alta, a estabilidade em empregos formais ficou cada vez mais difícil. Isso faz com
que mais pessoas procurem alternativas que garantam uma renda mensal maior e mais
prolongada.
Os concursos públicos no Brasil têm, mesmo que de forma indireta, o duplo objetivo de
suprir os déficits de funcionários para atender às demandas da população e de oferecer a
possibilidade de um trabalho bem remunerado e de período prolongado em que cabe apenas ao
servidor a sua manutenção (ALBRECHT; KRAWULSKI, 2011).
Baseado no salário oferecido pelo edital do concurso público para o Tribunal de Justiça da Bahia em 2014 –
R$3.091,00.
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A competitividade neste tipo de trabalho não está relacionada ao seu exercício, e sim à
sua entrada. O processo de conquista do trabalho é árduo e concorrido devido à quantidade de
profissionais que procuram pela segurança de trabalhar para o governo. O termo “segurança”
aqui é utilizado propositalmente para enfatizar que, neste tipo de serviço, o trabalhador tem a
garantia de manutenção do seu salário pelo resto de sua vida, com um valor acima da média,
permitindo que adquira bens materiais e usufrua de momentos de lazer sem a preocupação de
ficar desempregado (ALBRECHT; KRAWULSKI, 2011).
A possibilidade de trabalhar para o governo e a dificuldade de inserção neste trabalho
criou um novo fenômeno de estudantes, denominados concurseiros, que estão sempre em busca
de um órgão governamental melhor para trabalhar. Essa nova classe de estudantes possui a
experiência para nortear a realização das provas (DOUGLAS, 2008).
Os concurseiros são especialistas em aprovação em concursos públicos e chegam a ser
aprovados em mais de cinco concursos, sempre buscando o melhor remunerado. Sua preparação
pode começar cedo, ainda antes da graduação, quando a escolha do curso de nível superior é
norteada pelo órgão do governo em que se quer trabalhar.
Não existem garantias de que este emprego trará felicidade. O conceito de felicidade é
relativo e também está diretamente ligado à cultura e aos valores das sociedades. Segundo
Barbosa (2006):
[...] se por um lado podemos inferir que, em última instância, o que todo
homem quer — e isso vale para todas as épocas — é ser feliz, o mesmo não
podemos dizer sobre o que se considera como felicidade, para homens de
épocas distintas (p. 150).
Porém, no século XXI a felicidade está enraizada no conceito filosófico de utilitarismo,
com o máximo de prazer e o mínimo de dor – física ou emocional.
O que se pode inferir a partir da elevação da busca da estabilidade é a possibilidade de
manutenção da posição de provedor – válido para homens e mulheres na conjuntura
contemporânea da sociedade – pelo maior tempo possível, com uma renda que permita um
mínimo de usufruto de bens materiais e de momentos de lazer economicamente engendrado pelo
modelo atual do capitalismo.
Justifica-se nesta busca por segurança o que Le Guillant chama de ressentimento ou,
melhor explicando, o “re-sentimento” – o sentimento sobre o sentimento (GUILLANT, 1950
apud CLOT, 2010). Clot (2010), em seu texto sobre a clínica da atividade cita como Le Guillant,
ainda na década de 1950, identifica que o trabalho é uma condição social do indivíduo. Com isso,
alerta sobre como a alienação no trabalho pode gerar psicopatologias da profissão.
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Ao fazer esta análise, Le Guillant estava pesquisando as empregadas domésticas, mas sua
teoria abarca o trabalho de uma maneira geral. Ao afirmar que o sujeito, enquanto em serviço,
não é um sujeito, é um instrumento, identifica o cerne da doença mental provocada pelo trabalho
(GUILLANT, 1950 apud CLOT, 2010).
O estresse, que pode ser provocado por estímulos que irritam e/ou amedrontam a pessoa é
uma reação psicológica experimentada pelo sujeito e que podem ter origem tanto no trabalho
quanto em situações do dia-a-dia (JACQUES, 2003). Considerando que o trabalho é a atividade
ocupante da maior parte do dia do indivíduo, esta reação psicológica é mais relacionada a tal
atividade, podendo causar doenças como a síndrome de burnout ou síndrome do esgotamento
profissional.
Pode-se, desta forma, relacionar o estresse – fenômeno relativamente novo – ao que Le
Guillant já estudava cerca de 60 anos atrás. O sujeito trabalha, alienado, utilizando como
estratégia o “sistema de defesa profissional” (GUILLANT, 1950 apud CLOT, 2010) ou agir sem
pensar para não sofrer.
É inegável que o trabalho também pode ser fonte de auto-realização, de reconhecimento e
de pertencimento a um determinado grupo, quando a atividade transcende o valor econômico e
resulta na felicidade e gozo pela execução e benefícios que a atividade proporciona
(ALBRECHT, 2010).
Para os servidores públicos, ainda segundo Albrecht (2010), o serviço público torna-se
atraente pela sua possibilidade de estabilidade, então - dependendo do órgão em que se trabalhe,
podendo ser um serviço burocrático e chato - o sistema de defesa profissional vai atuar
fortemente contra a desmotivação e descomprometimento com o trabalho. A remuneração e
estabilidade são, nestes casos, agentes compensadores de um trabalho sem perspectiva.
Então, apesar de ser necessário utilizar estratégias para que o trabalho não se torne fonte de
esgotamento psicológico, a pesquisa realizada por Albrecht em 2008 constatou que os agentes
motivadores para os servidores públicos são justamente às relacionadas à segurança pela
estabilidade e benefícios não encontrados na inciativa privada, tais como ritmo de trabalho,
flexibilidade de horário e uma melhor remuneração.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ter qualidade de vida é um importante aspecto na vida do sujeito. Disto depende sua
felicidade, sua saúde física e mental.
Dependendo da cultura em que está inserido, diversos podem ser os aspectos que
engendram a felicidade do indivíduo, mas, de uma maneira global, o trabalho é um importante
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fator de construção da percepção subjetiva e multidimensional dele. Existe nesta construção uma
concepção não intencional de sentido que contribui na estruturação da identidade do sujeito.
Na pesquisa realizada em 2008 em Santa Catarina por Priscila Albretch, que buscava
entender os sentidos do trabalho para graduados em processo de preparação para concursos
públicos, identificou-se que existe um duplo sentido do trabalho para essas pessoas: a
possibilidade de ser provedor e ter meios de subsistência; e ter como satisfazer as necessidades
psicológicas, permitindo uma auto-realização humana.
Embora o serviço público brasileiro possa ser burocrático e acabe por mecanizar o
trabalhador, são as possibilidades de realização, a estabilidade que afugenta o desemprego e os
salários acima da média que podem garantir a sobrevivência e a segurança de si e de sua família,
portanto, o critério utilizado para a escolha do trabalho são os atributos do vínculo empregatício e
não às atribuições do trabalho, que afugentam a possibilidade de desemprego.
O acirramento pelo “trabalho dos sonhos” possibilitou o surgimento de uma nova classe de
estudantes – os concurseiros – que se especializam em ser aprovados em processos seletivos
públicos, normatizados pela Constituição Federal de 1998.
O ingresso no serviço público torna-se uma estratégia para o não enfrentamento das
consequências de estar desempregado e para a manutenção de uma estabilidade financeira que
compensem a burocratização da atividade exercida.
A decepção com dificuldade de inserção profissional e a crescente impossibilidade de se
manter em um emprego na iniciativa privada por um período prolongado de tempo são os
principais motivos utilizados pelos sujeitos para justificar sua escolha pelo serviço público. São
os sentimentos de vulnerabilidade e a desconfiança que têm configurado o dia-a-dia dos
trabalhadores. Outras dificuldades apontadas por Albretch (2010) que justificam a escolha pelo
serviço público são as dificuldades de se inserir no mercado de trabalho, risco iminente do
desemprego, contratos de trabalho frágeis, baixa remuneração, sobrecarga e más condições de
trabalho e desgaste emocional.
Neste sentido, a desejada estabilidade característica dos serviços públicos possui uma
dimensão psicológica de segurança, tranquilidade e de possibilidade de planejamento futuro,
possibilitando a construção e gestão de sua própria carreira.
Após estas análises, fica claro que a inserção no serviço público tornou-se uma estratégia
sobre a instabilidade do perfil de trabalho contemporâneo, abarcando também o alcance de uma
remuneração acima da média, possibilitando a subsistência e a realização pessoal a partir de um
planejamento futuro. A efemeridade do mundo do trabalho privado, para quem é aprovado no
concurso, é abandonada, afastando o medo do desemprego e da ausência de remuneração.
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