ROSANE DA SILVA GOMES ENTRE GUIMARÃES ROSA, MANOEL DE BARROS E BARTOLOMEU CAMPOS QUEIRÓS: A CRIAÇÃO DE UMA INFÂNCIA DA ESCRITA Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Letras Belo Horizonte 2011 1 ROSANE DA SILVA GOMES ENTRE GUIMARÃES ROSA, MANOEL DE BARROS E BARTOLOMEU CAMPOS QUEIRÓS: A CRIAÇÃO DE UMA INFÂNCIA DA ESCRITA TESE apresentada ao Programa de Pós–Graduação da Faculdade de Letras da UFMG como requisito parcial para a obtenção do Título de Doutor em Letras: Literatura Brasileira. Área de concentração: Literatura Brasileira Linha de Pesquisa: Poéticas da Modernidade Orientadora: Profª. Drª. Marli de Oliveira Fantini Scarpelli Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Letras Belo Horizonte 2011 2 Ficha catalográfica elaborada pelos Bibliotecários da Biblioteca FALE/UFMG R788J.Yg-e Gomes, Rosane da Silva. Entre Guimarães Rosa, Manoel de Barros e Bartolomeu Campos Queirós [manuscrito] : a criação de uma infância da escrita / Rosane da Silva Gomes. – 2011. 165 f., enc. Orientadora : Marli de Oliveira Fantini Scarpelli. Área de Concentração : Literatura Brasileira Linha de Pesquisa : Poéticas da Modernidade. Tes e (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Letras. Bibliografia : f. 157-165. 1. Rosa, João Guimarães, 1908-1967. – Jardins e riachinhos – Crítica e interpretação – Teses. 2. Barros, Manoel de, 1916- – Crítica e interpretação – Teses. 3. Queirós, Bartolomeu Campos – Crítica e interpretação – Teses. 4. Benjamin, Walter, 1892-1940 – Crítica e interpretação – Teses. 5. Agamben, Giorgio, 1942- – Crítica e interpretação – Teses. 6. Deleuze, Gilles, 1925-1995 – Crítica e interpretação – Teses. 7. Infância – Teses. 8. Memória na literatura – Teses. 9. Tempo na literatura – Teses. 10. Criação literária – Teses. 11. Escrita na literatura – Teses. I. Fantini, Marli. II. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Letras. III. Título. CDD: B869.33 3 AGRADECIMENTOS Aos meus pais, pela vida. Aos meus amigos, pelo incentivo e a força constantes, durante todo o percurso de escrita da tese. À Professora Doutora Marli de Oliveira Fantini Scarpelli, pela orientação da presente tese. Às Professoras Selma Moura, Claudia Ricci, Dília Maria Andrade Glória e Luciana Silva, responsáveis pela direção do Centro Pedagógico da UFMG nos anos de 2007 e 2008, pelo acolhimento na instituição. A Deus, que me ajudou a vencer as muitas dificuldades surgidas no decorrer do curso. 4 Desexplicação Língua de criança é a imagem Da língua primitiva Nas crianças fala o índio, a árvore, o vento Na criança fala o passarinho O riacho por cima das pedras soletra os meninos. Na criança os musgos desfalam, desfazem-se. Os nomes são desnomes. Os sapos andam na rua de chapéu. Os homens se vestem de folhas no mato. A língua das crianças contam a infância Em tatibitati e gestos. Manoel de Barros 5 RESUMO A proposta desta tese é refletir sobre a infância, tendo em vista a problematização de conceitos paradigmáticos sobre o tema, via de regra, impregnados dos sentidos de falta, carência e incompletude. A abordagem cristalizada da infância como um estado precário, provisório e lacunar é equacionada neste trabalho cujo desafio é lançar outras propostas de leitura para o tema, dentre as quais o tratamento da infância como acontecimento, ligado à esfera do novo e da criação. Para tal discussão, este trabalho ancorou-se especialmente nos textos teóricos de autores como Walter Benjamin, Giorgio Agamben e Gilles Deleuze, com o propósito de pensar sobre as possíveis relações entre a literatura e a infância. Tais relações se pautaram nos contos “Jardins e Riachinhos”, de Guimarães Rosa. Para explorar este modo de ver a infância buscamos convergências de narrativas rosianas aqui exploradas com textos de Manoel de Barros e Bartolomeu Campos Queirós. A partir de imagens literárias desses escritores foi-nos possível identificar uma poética da infância ou infância da escrita. Trata-se de escritas tecidas pelo viés de criação e desvelamento, a partir de um contínuo brincar com as palavras. O infantil na literatura foi explorado não somente como um tema, mas principalmente como uma estrutura, ou seja, uma maneira de se escrever e dar a ver a infância em seu contínuo e criativo devir, subvertendo-se, assim, a ideia de que a infância se reduz a um tempo da carência, lacunaridade e insuficiência. Palavras-chave: Guimarães Rosa, Bartolomeu Campos de Queirós, Manoel de Barros 6 ABSTRACT The purpose of this thesis is to produce a reflexion about childhood through questioning some paradigmatic concepts on the subject that are, as a rule, instilled with the sense of failure, lack and incompleteness. The crystallized approach of childhood as a precarious, provisional and incomplete state is equated on this work, that has the challenge to project others reading proposals for the theme, among which include the treatment of childhood as an event linked to the sphere of “the new” and “the creation”. For this discussion, this work was based especially on the theoretical writings of authors such as Walter Benjamin, Giorgio Agamben and Gilles Deleuze, in order to think about possible relationships between literature and childhood. These relations were based on Guimarães Rosa"s tales "Jardins e Riachinhos". His view of childhood is explored through the convergence of texts about the theme writen by Manoel de Barros and Bartolomeu Campos Queirós. From literature images of these writers was possible to us to identify a poetry of childhood or a childhood writing. that´s all about writing commented with relations of creation and discovery from the playing with the words. The childish on the literature was explored not just as a theme, but mainly like a manner to write and figure out the childhood on it´s on going and creative duty overturning at this way the idea on which the childhood gets decrease to a time of necessity, gaping and scanty. Keywords: Guimarães Rosa, Bartolomeu Campos de Queirós, Manoel de Barros 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 9 CAPÍTULO I: OS CONCEITOS DA INFÂNCIA NA MODERNIDADE: UMA ANÁLISE SÓCIO-HISTORIOGRÁFICA ............................................................. 21 1.1 – A contribuição de Philippe Ariès .............................................................................. 22 1.2 -Visões de pensadores sobre a infância: a contraposição à Ariès ............................ 25 1.3 - Locke e Rousseau : a necessidade da formação da criança .................................... 29 1.4 - Henry Jenkins e a construção do conceito de infância: a preservação da inocência ......................................................................................... 33 1.5 – Neil Postman e o desaparecimento da infância ....................................................... 35 1.6 – A infância idealizada da Modernidade e os questionamentos deste conceito na contemporaneidade ............................................................................................................. 38 1.7- Outras infâncias: a experiência do infantil nos contos de Guimarães Rosa .......... 41 1.7.1 - Às margens da vida, nas margens da alegria .............................................. 42 1.7.2 - A absoluta leveza nos Cimos ...................................................................... 47 CAPÍTULO II – ITINERÁRIOS NA LITERATURA: DAS LINGUAGENS SOBRE UMA INFÂNCIA À INFÂNCIA DA LINGUAGEM 53 2.1 – Visões da infância na literatura: uma breve história ............................................ 54 2.1.1 - A infância na literatura brasileira – o papel da memória na reconstituição da infância ................................................................................................................... 58 2.1.2 – O tempo infantil: outras formas de rememoração da infância em Bartolomeu Campos Queirós ............................................................................................................ 65 2.2 – A redescoberta da infância pela linguagem: apontamentos de Walter Benjamin e Giorgio Agamben .............................................................................................................. 70 2.2.1- Benjamin e a concepção da infância instaurada pela/na linguagem ........... 71 2.2.2 - Agamben e a infância como condição da história ....................................... 75 2.3 – “Jardim Fechado” e a descoberta da infância na escrita de Guimarães Rosa ..... 81 8 CAPÍTULO III - O RIACHINHO SIRIMIM: TRAVESSIAS DA INFÂNCIA 3.1- O conceito de devir-criança de Deleuze e Guattari .................................................. 87 3.2 - Literatura menor e uma escrita da infância ............................................................. 95 3.3 - Uma literatura menor: o poder da infância na escrita ......................................... 100 3.4 - Um riachinho, o Sirimim .......................................................................................... 101 3.4.1 – A minoridade em Sirimim .......................................................................... 103 3.4.2- Travessias de Sirimim ................................................................................ 106 3.4.3 - O acontecimento e o tempo aiônico em Sirimim ..................................... 107 CAPÍTULO IV - ENTRE BARROS, BARTOLOMEU E ROSA: CAMINHOS DA INFÂNCIA DA ESCRITA 4.1 - A Infância da Palavra em Manoel de Barros .......................................................... 114 4.1.1. Memórias inventadas: sendas para os achadouros da infância ................... 119 4.1.1.1 - Senda primeira: Comunhão ........................................................... 120 4.1.1.2 - Segunda senda: Canto inaugural ................................................... 126 4.1.1.3 - Terceira senda: Brincar de palavras ............................................. 130 4.1.1.4 - Quarta senda: Agramaticalidade das palavras ............................. 132 4.1.1.5 - Quinta senda: Movimento ........................................................... 135 4.2 - Em voo: os sentidos de expansão e da morte na infância da escrita 4.2.1 - Voos de Bartolomeu Campos de Queirós: uma trajetória em direção à infância ........................................................ 137 4.2.2 - A morte como ausência criadora ............................................................... 141 4.2.3 - As Garças: a morte e a preservação do fluxo da infância na escrita rosiana 146 CONCLUSÃO .................................................................................................................. 151 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................... 157 9 INTRODUÇÃO Não obstante, e ao mesmo tempo, a infância é um outro: aquilo que, sempre além de qualquer tentativa de captura, inquieta a segurança de nossos saberes, questiona o poder de nossas práticas e abre um vazio em que se abisma o edifício bem construído de nossas instituições de acolhimento. Pensar da infância como um outro é, justamente, pensar essa inquietação, esse questionamento e esse vazio ... (LARROSA, 2006, p. 184) Infância: um termo que pode ter um sentido comum, mas também singular. Como etapa da vida humana, a infância mostra-se banal, presente na constituição do humano, fase diferenciada de outros estágios do desenvolvimento biológico, social e psíquico. As características físicas distinguem os indivíduos, mas também os padronizam em faixas etárias, em classificações tipológicas, e em categorias estigmatizadas. A origem biológica do desenvolvimento humano tem sido determinante na forma como o tema da infância vem sendo há séculos investigado. O entendimento que daí decorre tem sido decisivo e coercitivo no trato com a infância. Ao pensar sobre a infância, muitas questões podem ser levantadas, aprofundadas e revistas, com o objetivo de se investigar perspectivas diferenciadas do que é o infantil. Por esta razão, me propus neste trabalho a fazer uma reflexão que desloque os sentidos usuais relativos à infância, de modo a encontrar, no texto literário, uma escrita que se revela infantil. A proposta é estabelecer um diálogo a partir dos estudos filosóficos e da literatura, buscando, neste exercício, outras perspectivas, traçando novas linhas de abordagem sobre uma infância no texto literário. Assim sendo, procuro sempre lançar inúmeros fios que se entreteçam no sentido de se lançarem novos olhares sobre a infância. Durante esse processo, surgiu a necessidade de definir melhor aquilo que se tornou meu campo de pesquisa: o que significa a infância? O que marca a adjetivação infantil? Podemos pensar numa literatura cujos recursos de linguagem guardem correspondência com a inventividade e o caráter inaugural da fala infantil, sem que, contudo, se caia nos estereótipos ou na desqualificação? Embora já muitas vezes se tenha discutido sobre o espaço que a infância ocupa na literatura, parece-me que é importante reacender tal discussão, sobretudo quando se compreende que o infantil pode ser abordado em dimensões diferenciadas das já amplamente abordadas. 10 Da mesma forma, há um aspecto relacionado à “menoridade” da literatura infantil que me inquieta há muito tempo, uma preocupação que se agudizou durante o meu percurso de 24 anos como professora do ensino fundamental (1º ao 5º anos). Esta noção implica fortemente uma desqualificação da produção literária endereçada às crianças. Ao ingressar do curso de Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG, constatei, com um certo espanto, o espaço reduzido que os títulos relacionados à literatura infantil ocupavam na biblioteca dessa faculdade. Fiquei a pensar sobre a quase inexistência dos livros de literatura infantil em uma instituição que empreende pesquisas na área de literatura... Ficariam estes títulos catalogados na Faculdade de Educação? Essas aparentemente simples indagações parecem-nos apontar para uma situação bem incomôda: o papel da literatura identificada com o infantil relacionada diretamente com a função pedagogizante da infância. O que sempre me aproximou da discussão sobre o infantil e a literatura, desde o mestrado (em que escrevi com o objetivo de enfocar a literatura como caminho para uma educação estética, numa lógica invertida, em que propus uma “literalização da pedagogia”) foi a constatação de uma minoração da literatura infantil. Nesse percurso de leitura e pesquisa sobre o assunto, percebi que tal desvalorização relaciona-se diretamente com a visão construída sobre a infância, assim como a desqualificação do adjetivo “infantil”. Isto aparece nas falas dos escritores infantis: “às vezes escrever para crianças é considerado uma arte menor, um artesanato. Ou menos do que isto” (VIGIL, 1995. p.46); “há quem diga que fazer literatura é uma coisa e escrever para criança é outra” (ALONSO, 1995. p. 44). Penso, no entanto, que a literatura infantil não pode estar delimitada em um projeto pedagógico, de maneira utilitária. O que ocorre, seguindo a lógica de que é necessário educar a criança para transformá-la rapidamente em um ser adulto, é que não só há descaso com a livre inventividade da infância, como também com a dimensão estética da literatura infantil. Como diz Alonso: “escrever para crianças é duas vezes literatura. Detesto a ‘pseudoliteratura’ que quer transformar a criança em um animal adestrado: ‘Faça isso, não faça aquilo... ’” (1995. p. 44); Alguns autores chegam a preferir não utilizar a adjetivação infantil para a literatura: “eu apenas escrevo. E, quando escrevo, não estou pensando para quem eu escrevo. Eu me 11 concentro no que eu quero contar e isso já é bastante. Eu escrevo, e pronto. Faço literatura” (NUNES, 1995. p.44). E numa das falas de Bartolomeu Campos Queirós, a respeito de sua produção escrita: Hoje procuro escrever um texto que permita também a leitura dos mais jovens, mas sem esgotar a infância que também persiste nos adultos. Daí acreditar no poder da metáfora para realizar a minha proposição. Não busco uma literatura só para a infância (QUEIRÓS, s/p). Estas ideias fizeram com que me aproximasse de algo que ativa o pensamento, instigando-o à reflexão e à criação. O que surgiu nesta formulação de um pensamento novo foi um encontro com a narrativa de João Guimarães Rosa, um autor consagrado e que jamais foi considerado como um escritor de literatura infantil. Rosa, com sua maneira de escrever sempre criativa e criadora, tornou-se um intercessor desta reflexão, como alguém que produz diferença. Tê-lo como intercessor significou falseá-lo, já que “essas potências do falso é que vão produzir o verdadeiro” (DELEUZE, 1992. p. 157). Desta forma, não tenho a intenção de formular uma pretensa verdade em relação à temática proposta, mas sim buscar na escrita de Rosa algumas pistas que me levassem a resolver as questões sobre uma escrita da infância. Também não se trata de enumerar diferentes questões teóricas para somente aproximar ideias sobre os conceitos de infância, mas de dialogar, interrogar, problematizar essas questões a fim de mostrar como ocorre uma possível formulação da “infância da escrita”. Quando me aproximo de Rosa não diferentemente de quando me debruço nas reflexões de pensadores como Deleuze, Benjamin e Agamben, busco-os no que propõem de inventividade, ludismo e criação, pois, como afirma Schöpke, toda interpretação já é uma criação pessoal, na qual nos misturamos, nos colocamos, tomamos parte. Para a autora, utilizar um teórico, embora com o cuidado de não desfigurá-lo, sempre significa fazê-lo falar mais do que ele próprio disse – não com o intuito “de colocar palavras em sua boca, mas de fazer com que cada palavra se desdobre e diga em que sentido ou sentidos devemos tomá-la” (2004, p.13). A leitura crítica que empreendo neste trabalho não se relaciona com a ideia de infância em si, o que talvez leve à procura de uma subjetividade infantil a ser resgatada, descoberta ou preservada. Relaciona-se antes aos discursos construídos sobre o infantil, a partir de determinadas categorizações, medidas e comparações. Procuro, portanto, entender os mecanismos que vão conformando esse infantil, a partir das sobreposições e contraposições 12 dos diferentes textos que, em um processo constante, vão produzindo novos discursos sobre a infância. De acordo com Corazza, escolher um percurso significa “uma prática de pesquisa que nos ‘toma’, no sentido de ser para nós significativa” (2002, p. 123). Neste sentido, segui à procura de pontos de partida e trajetórias na tentativa de encontrar sentidos a partir não apenas de conceitos, mas também de experiências vividas. Assim, componho uma narrativa como também alguém que conta sobre suas experiências, numa espécie de pesquisadora/viajante. Para Walter Benjamin (1996), o narrador é aquele que possui experiências a transmitir, seja na figura sedentária do camponês que nasceu e sempre viveu em sua terra e que, como ninguém, conhece as histórias e as tradições de sua cultura, seja no marinheiro comerciante, conhecedor de outras terras. A viagem que empreendi, nesta perspectiva, possibilitou muitas travessias... E atravessamentos. Desta forma, voltando a Benjamin, escrevi atravessada pelo sentido da experiência – Erfahrung. A experiência é a passagem da existência, a passagem de um ser que não tem essência ou razão ou fundamento, mas que simplesmente “ex-iste” de uma forma sempre singular, finita, imanente, contingente. Em alemão, experiência é Erfahrung, que contém o fahren de viajar (LARROSA, s/p). O que se intenta neste trabalho investigativo é uma relação entre a infância e aquilo que existe de resistência. Tenta-se romper com os esquemas interpretativos que julgam ter conhecimento pleno sobre a infância e com as maneiras de dominá-la. Por outro lado, são oferecidas outras possibilidades de ler, dizer e escutar a infância, por meio da literatura. Uma infância que se nos apresenta atravessada pela escrita literária. A infância foi sendo inventada através de diferentes conceitos desenvolvidos no decorrer de séculos, o que se fundamenta nos estudos historiográficos que investigam o tema. Nos dois primeiros capítulos desta pesquisa, tentamos mostrar como a infância foi vista no decorrer da história e como é possível pensá-la, como já foi tradicionalmente feito, fora da abordagem cronológica linear e progressiva. Em vez de tentar tão somente apreendê-la por meio das significações atribuídas aos diversos discursos que tentam defini-la histórica ou genealogicamente, intentamos abordá-la preferencialmente enquanto forma de criação, de alternativa outra que não a do ser tutelado pelo adulto. A par dessa mudança de perspectiva, constatamos que as narrativas acerca da infância a descrevem como uma fase reconstituída 13 por adultos que a organizam e dimensionam. No processo de construção narrativa assim concebido os modos de dizer-se criança ou perceber-se infantil geram campos semânticos muito contraditórios. Daí resulta o interesse em focar a linguagem literária que se ocupa da face criativa da infância e de seu devir. Nossa premissa é a de que se trata de um tipo de linguagem que permite o trânsito de sentidos e da multiplicidade de possibilidades interpretativas da infância para além do âmbito da linearidade histórica e temporal. Há uma tradição de estudos sobre a história da infância iniciada com Philippe Ariès em sua conhecida obra História Social da Criança e da Família, publicada originalmente em 1960. Referência paradigmática para as investigações de historiadores e analistas culturais, as proposições de Ariès marcam o início do questionamento da infância como fenômeno natural e universal. A infância passa doravante a ser compreendida como realidade social constituída historicamente. Ariès configura seus estudos em duas teses nas quais tenta, primeiro, interpretar as sociedades tradicionais e, depois, mostrar o novo lugar assumido pela criança e pela família nas sociedades industriais. O lugar marcante dos seus estudos foi reforçado pelas críticas e polêmicas desdobradas em obras posteriores de autores como Pollock (1983), De Mause (1995), Jenkins (1998), Postman (1999), Youf (2002), dentre outros. Entre os estudos de investigadores de língua portuguesa, ressaltam os trabalhos de Jobim & Souza (1994), Kramer (1996, 2000), Del Priore (2000) e Sarmento (2004). Todas essas referências foram apoiadas na pesquisa de Sandra Mara Corazza, nos livros Infância & Educação: Era uma vez... quer que conte outra vez? (2002) e História da infância sem fim (2004). Em contraposição a este conceito de infância formulado histórica e socialmente, no presente estudo apresentamos, no segundo capítulo, uma imagem conceitual da infância que permitisse pensá-la para além da cronologia, seguindo a lógica da experiência e do acontecimento, a partir das ideias de Walter Benjamin e Giorgio Agamben; a seguir, buscaram-se imagens literárias da infância que, ao enfocá-la sem as amarras da linearidade temporal, valorizando sua experiência e seu vir-a-ser enquanto acontecimento, viriam a reconhecê-la como força de criação. Benjamin, desde o texto Experiência, revelou a sua preocupação com os estudos sobre a criança. Criticava duramente o moralismo dos livros infantis e a forma infantilista do adulto 14 se relacionar com a criança. Para o filósofo, “nada é mais ocioso que a tentativa febril de produzir objetos supostamente apropriados às crianças” (BENJAMIN, 1993, p. 237). Alertava que os pedagogos não percebiam como a terra estava repleta de “substâncias puras e infalsificáveis capazes de despertar a atenção infantil” (idem, p.240). Se observarmos uma criança, notaremos como ela se sente atraída pelos detritos: ao visitarem oficinas de costura, carpintaria, atividades de jardinagem elas não raramente vão vasculhar os restos, as sobras, os trapos... A partir dos detritos que recolhem, não imitam o mundo dos adultos, mas colocam os restos e resíduos em uma relação nova e original. A criança cria suas brincadeiras e seus prazeres a partir do “lixo da história”. Se a nossa modernidade já não nos permite mais compartilhar conselhos e experiências, as crianças, de alguma forma, ainda mantêm laços com a tradição, com o povo, com a história. Ao aceitar a investigação inspirada em Benjamin sobre a destruição da experiência, Giorgio Agamben nos propõe um instigante estudo sobre a diferença entre língua e fala e um entendimento da infância como experiência de linguagem. Seu estudo fundamenta nossa investigação a respeito da infância como experiência. Agamben ressalta a relação entre experiência e infância em sua obra intitulada Infância e História. Nela, ao retomar a ideia da pobreza de experiência do mundo contemporâneo explorada por Walter Benjamim, retrata o acúmulo de situações pelas quais temos passado rápida e superficialmente na cotidianidade de nossas vidas em contraposição ao vazio de experiências, já que em nada nos detemos, nada se transforma em relato, nada passa pela palavra, ou seja, nada nos passa. A própria rotina urbana é coberta de elementos, de signos aos quais não dedicamos nossa atenção, sobre os quais não direcionamos nosso pensar e pelos quais passamos indiferentes. É como se o homem contemporâneo tivesse sido privado de sua biografia, como se a ele fosse negada a possibilidade de sua própria experiência. O autor acentua ainda o caráter ordinário da destruição da experiência e demonstra não ser preciso mais que um dia de rotina numa grande cidade qualquer para que se perceba o quanto os afazeres comuns são desprovidos dos sentidos da experiência. Contudo, Agamben sugere que, em vez de lamentar esta realidade, a consideremos a fim de buscar, nela mesma, alguma possibilidade de encontrarmos a “semente em hibernação 15 de uma experiência futura” (AGAMBEN, 2005, p. 10). Para tanto ele recorre à herança benjaminiana “da filosofia do devir” e propõe a preparação de um lugar lógico onde esta semente possa alcançar sua maturação. É, nesse sentido, que a literatura de Guimarães Rosa, sobretudo nos contos finais de Ave Palavra enfoca a infância enquanto criação, e sua linguagem a despontar-se inventiva, icônica, primordial. A partir do terceiro capítulo, traçaremos uma discussão de algumas noções relacionadas ao conceito de infância, pensadas a partir de reflexões do filósofo Gilles Deleuze, sobretudo acerca de “literatura menor” e “devir-criança”. Deleuze, juntamente com Guattari, analisa o conceito de literatura menor não como uma literatura de valor menor, mas como a linguagem literária de uma minoria (colonizados, diaspóricos, a empregar a língua do colonizador ou de uma nova cultura) diante de uma língua, via de regra, hegemônica. No livro Kafka, por uma literatura menor, Deleuze e Guattari invertem o sentido da palavra menor, demonstrando que, em uma literatura menor, tudo é político e relaciona-se com aqueles que utilizam línguas de um “outro”: trata-se, assim, de tornar-se um estrangeiro em sua própria língua e encontrar nessa restrição um uso criador. Pensar o menor como o proposto significa compreendê-lo como aquele que está abaixo da palavra de ordem e que se localiza de forma excludente e, ao mesmo tempo, dessacralizador em relação às imagens impostas pelo poder hegemônico. Além disto, os fundamentos propostos pelos dois pensadores em questão não se fundamentam, como já vimos, em uma categoria de valor, ou seja, uma distinção entre língua menor em oposição a uma língua maior, pois, na concepção de Deleuze e Guattari, a língua menor se realiza sempre dentro da língua maior, tornando-se um mecanismo que gera tensão e desconstrução na língua da maioria. Pensar o menor como proposto por Deleuze e Guattari significa, portanto, compreendê-lo como aquele que está fora das imagens determinadas pela maioria e desafiar a formação de uma norma fechada e única, de uma verdade. Trata-se de traçar linhas de fuga para a linguagem e possibilitar a invenção de novas forças. (...) uma literatura menor ou revolucionária começa por enunciar e só vê e só concebe depois... (...) A expressão deve despedaçar a forma, marcar as rupturas e as ramificações novas. Estando despedaçada uma forma, reconstruir o conteúdo que estará necessariamente em ruptura com a ordem das coisas. Antecipar, adiantar a matéria (DELEUZE, GUATTARI, 1977, p.43). 16 A literatura que tem a força e a criação da infância da escrita torna-se, do mesmo modo, um exercício de alteridade, uma literatura que faz a língua vibrar, preservando o novo e renovando formas de viver e pensar o mundo. Além do conceito de “literatura menor” ainda enfocaremos neste capítulo o conceito de “devir-criança”, ambos em Deleuze. Ao se pensar a infância como devir, há uma força semântica no termo que intensifica as formas do fluxo, do tornar-se, do ‘vir a ser’, ou seja, do modo processual de alteração de um estado. Em linhas gerais, Deleuze e Guattari explicitam o conceito de devir como um processo, mas sem chegar a um estado predefinido, a uma terminalidade fechada: (...) um devir não é uma correspondência de relações. Tampouco ele é uma semelhança, uma imitação, em última instância, uma identificação. (...) Devir não é progredir nem regredir segundo uma série (...) Devir não é certamente imitar, nem identificar-se; nem regredir-progredir; nem corresponder, instaurar relações correspondentes; nem produzir, produzir uma filiação, produzir por filiação. Devir é um verbo tendo toda sua consistência; ele não se reduz, ele não nos conduz a "parecer", nem "ser", nem "equivaler", nem "produzir" (...) Devir é, a partir das formas que se tem, do sujeito que se é, dos órgãos que se possui ou das funções que se preenche, extrair partículas, entre as quais instauramos relações de movimento e repouso, de velocidade e lentidão, as mais próximas daquilo que estamos em vias de nos tornarmos, e através das quais nos tornamos (DELEUZE, GUATTARI, 2007, p.18-19 e 64). Discutiremos ainda, no presente capítulo, uma outra temporalidade, que não se relaciona com a do tempo contínuo e sucessivo. Neste sentido, o conceito de “devir-criança” se coloca na possibilidade de criação de outros espaços e tempos, em que a infância possa ser vista como uma força de recriação. Uma literatura que versa sobre a infância é, considerado esse sentido, uma literatura que aguarda sempre pela novidade, recriando formas de viver e pensar o mundo. Trata-se, enfim, de um “devir-criança” que busque resistir às formatações que conduzem os modos de se pensar o infantil. Em segundo lugar, a partir dos dois conceitos deleuzianos supracitados, enfocaremos neste capítulo os contos finais de Ave Palavra, refletindo sobre o processo de criação da escrita rosiana, buscando identificá-la não somente como uma narrativa sobre infâncias, mas também ressaltando-se a possibilidade de Guimarães Rosa ter inaugurado uma infância da escrita. 17 Por fim, no último capítulo, estabeleceremos um diálogo entre as abordagens dos capítulos 2 e 3, para reconhecer a possibilidade de se pensar uma infância da escrita nas narrativas que abordam a infância do ponto de vista temático e/ou estrutural. Para tanto, traçaremos um paralelo entre os pressupostos analisados no decorrer da tese e algumas obras literárias que, tendo a infância como tema, também são narrativas que revelam uma infância da escrita. Dentre outros autores, destacaremos Manoel de Barros e Bartolomeu Campos de Queirós que demonstram, em sua maneira de escrever uma infância numa outra temporalidade que não a cronológica ou que privilegia o tempo como uma cadeia progressiva e sucessiva de fatos. Em nosso entendimento, e é o que pretendemos demonstrar, eles vão ao encontro de outras formas de menoridade, com uma potência diferenciadora. Pela memória da infância que pode ser inventada e recriada, Barros e Queirós abrem, a exemplo de Rosa, um espaço de transformação, em que o passado e o presente não se isolam, mostrando-se associados por fluxos de experiências que se intercambiam e, portanto, se correspondem. Em muitos de seus poemas que tematizam a infância, Manoel de Barros representa poeticamente a forma como a criança descobre o mundo sem bloqueios. Trata-se de uma gramática da escrita ancorada na liberdade investigatória e formal, que se ressalta na estrofe/poema abaixo. O menino caiu dentro do rio, tibum, Ficou todo molhado de peixe... A água dava rasinha de meu pé. (...) Você viu um passarinho abrido naquela casa que ele veio comer na minha mão? Minha boca estava seca igual do que uma pedra em cima do rio (BARROS, 2000, s/p). Na linguagem poética de Manoel de Barros somos surpreendidos por uma infância que traz juntos a experiência, a história, o pensamento e o mundo para um encontro em que, o tempo “povoado de agoras” (BENJAMIN, 1996, p.229-230) irrompe como gerador de pistas para as construções da linguagem. O fazer poético de Manoel de Barros joga com os sentidos 18 do tempo que passou, tensionado com o presente, contextualizando, dessa forma, os objetos da natureza e fazendo que deles se irradiem novos significados. Nos textos de Bartolomeu Campos Queirós encontramos uma escrita sempre repleta de suspeitas e não certezas, uma composição que se inspira por cuidados. As indagações e os suspenses são, da mesma forma, modos de construção dessas narrativas. Sendo histórias tecidas pela poesia, estas portam lacunas, estabelecem vias de diálogo com o leitor, que é afetado pelo lirismo das palavras dispostas com desvelo. Tais sentidos lacunares propiciam um olhar mais detido, aguçado, só possível em um tempo mais demorado de se deixar levar. Não é um tempo utilitário, tão característico da lógica adulta que se pauta pela máxima Tempo é dinheiro. É uma reinvenção do tempo, que se desvencilha do ordenamento do cronos para experimentar outras formas de se viver o momento. Neste sentido, o conhecimento é visto como criação, não como acumulação de informações. O conhecer que não é norteado pela conservação e acúmulo, sendo, antes, marcado pela perda. Esquece-se, no tempo certo, o que é para se esquecer, mas num outro momento, retoma-se e recorda-se o que é preciso, ou seja, o caminho por-fazer. O grande segredo é não ter a infância como lugar já perdido. É preciso saber reencontrá-la, reinventá-la. Mesmo sabendo que jamais poderei estar novamente na infância posso revivê-la pela força da fantasia. Depois, não basta tentar se infantilizar para conversar com as crianças. É preciso continuar reinventando, e sempre, o cotidiano (QUEIRÓS, s/p). Instaura-se uma outra concepção de tempo, neste caminho do conhecimento atravessado pela experiência. Não é o tempo marcado pela aceleração de compromissos, valorizado pela quantidade de tarefas que se colocam para serem cumpridas. É um tempo de saber como inventividade e sabor, experimentado com curiosidade, numa atitude própria da experimentação infantil. O conhecimento se relaciona com a vida de forma não utilitária, quer dizer, não é um mero facilitador de satisfação das necessidades e exigências do mundo moderno. É um saber que revela e encobre, põe luz, mas também sombras nos caminhos iluminados das verdades objetivas. Trata-se de um conhecimento que revela ao ser suas dúvidas, seus anseios, seus medos - o sentido e o não sentido da sua existência, de sua própria finitude. Um estilo de se viver, demonstrado no modo de se colocar no mundo, num modo de ser infantil. 19 Desta forma, optar por um conhecimento que alie a infância à literatura é estabelecer o diálogo entre o imaginário e o sensível, a realidade e sua tradução poética. As artes, entre elas a arte literária, são, neste sentido, a melhor expressão de um pensar poético. Um modo de pensar capaz de conciliar cognição e sensibilidade. Um meio de se dar sentido à existência em bases intelectivas, estéticas e emotivas. Autores como Guimarães Rosa provocam esta forma de pensar, que interpela os sentidos, propicia maiores e mais intensas experiências de aprendizagem do humano. Não necessariamente querem transmitir conhecimentos, embora provoquem aprendizados. É que, ao criar, eles nos impelem a fazer o mesmo. Portanto, assim como escritores como os que sabem da arte de escrever, podemos assumir a perspectiva infantil sem necessariamente retornarmos à infância. Ou seja, podemos nos ancorar no fluxo do devir-infância da escrita como os que se deixam guiar pela inventividade das palavras literárias. Não pretendemos negar as reflexões já produzidas a respeito da infância, mas manejar o foco de sorte a podermos apreciá-la em sua dimensão poética. Nosso objetivo, nesse sentido, é perceber a infância na singularidade das experiências apresentadas por Guimarães Rosa, Manoel de Barros e Bartolomeu Campos de Queirós em seus escritos literários. Desta forma, partimos em busca de novas concepções de infância cuja força expressiva estaria ancorada em textos literários como os que balizaram este trabalho. Não há dúvida de que, em sua função poética ou literária, a linguagem intensifica e multiplica o sentido das palavras mais do que em outras funções em que é empregada. A força semântica e musical da palavra literária, sua capacidade de livrar-se e de depreender-se dos limites referenciais assemelha-se ao ato infantil de inaugurar sentidos. Esta força da palavra literária que não se deixa aprisionar no âmbito do discurso pragmático é a mesma que faz com que se desterritorialize de seu estado de dicionário e flua em busca de outros sentidos Com a escrita literária, a infância se expressa como algo que não sabemos, que escapa a nossas verdades, que se reveste de novos sentidos a cada vez que é pronunciada. Sua polissemia, suas múltiplas possibilidades interpretativas fazem com que a infância seja, a uma só vez, multifacetada e única para quem a experiencia. Trata-se, portanto, de uma vivência singular e íntima, própria de cada um. “Além disso, posto que não se pode antecipar o resultado, a experiência não é o caminho até um objetivo previsto, até uma meta que se conhece de antemão, mas é uma abertura para o desconhecido, para o que não se pode antecipar nem ‘pré-ver’ nem ‘pré-dizer’” (LARROSA, 2001, p. 28). 20 CAPÍTULO 1: OS CONCEITOS DA INFÂNCIA NA MODERNIDADE: UMA ANÁLISE SÓCIO-HISTORIOGRÁFICA A concepção atual de infância precisa necessariamente ser pensada numa perspectiva histórica e sociológica, tendo como marco inicial o próprio significado da palavra infância. Etimologicamente, o infante é aquele que não tem voz, nele se mostram faltas no pensamento e na ação. O que Ariès chama de Enfant significa o não falante, ou seja, o que não pode falar pela falta dos dentes e, por isso, é constantemente repudiado quando tenta se expressar (2006, p.36). Entendida nesse sentido, como a idade permeada por uma falta, a infância foi alvo de uma concepção estereotipada, marcada por crenças e mitos que fizeram com que as crianças e adolescentes ocupassem um patamar jurídico e político inferior ao dos adultos. Em decorrência desse entendimento, criou-se um estigma de constante falta à condição infante, e ao adulto ficaria destinada a função de corrigir e preencher falhas ou carências. Das raízes etimológicas da palavra infância, um longo processo ocorreu para que se consolidasse o conceito moderno do que é o infantil. A definição da infância ou a necessidade de explicar o que é tipicamente infantil, atribuindo-se às crianças certas características, como sujeitos de interesses e tendências naturais que se manifestam dadas as condições propícias ao seu aparecimento, é um dos inventos da modernidade, consolidando-se, dessa forma, a moderna pedagogia (o que será reforçado posteriormente pelo saber psicológico ou o cognicista). Também a produção de uma racionalidade moderna e natural foi um objetivo central do Iluminismo. Ao conceber assim a criança, a semente da Humanidade – não uma dádiva de Deus, mas um resultado do processo evolutivo – se estava fazendo frente a um processo de distanciamento das explicações religiosas ou míticas da realidade. A religião é substituída pela ciência, vista como instrumento de libertação. As forças do progresso estão, neste caso, ao lado da ciência e da “natureza”. A criança, dessa maneira, poderia ser encarada também como um agente de progresso, e a fase em que vive seria propícia ao desenvolvimento, natural ao processo de evolução das espécies. A partir da construção histórica do conceito ora abordado, este capítulo vai examinar como a constituição da infância na modernidade esteve e está associada à continuada elaboração de um discurso sobre o que significa “ser criança”. 21 1.1 – A contribuição de Philippe Ariès Autores ligados à historiografia procuram identificar, desde seus primórdios, as várias concepções de infância na história ocidental, para melhor compreender os conceitos sobre esse campo, tais quais chegaram à atualidade. O objetivo desses autores em retomar os estudos históricos sobre a infância é estimular a discussão em torno das conveniências da desconsideração e/ou negligência para com a infância e adolescência, cristalizadas no tempo. Um dos primeiros autores a fazer uma investigação mais detida sobre a infância em bases teóricas foi Philippe Ariès. Sua tese pontuou pela primeira vez a temática da infância como um conceito criado na modernidade. O tema da infância, levantado por ele, centra-se na necessidade de ressignificar o sentimento de infância surgido em determinada época, atribuirlhe a importância devida e questionar se este sentimento sempre existiu ou se, por circunstâncias culturais e sociais, deixou de ser desconsiderado. Em sua obra História Social da Criança e da Família, publicada em 1960, o pesquisador francês, aponta que o conceito ou a ideia que se tem da infância foi historicamente construído e que a criança, por muito tempo, não foi vista como um ser em desenvolvimento, com características e necessidades próprias, e sim como um adulto em miniatura. Nesse sentido, a história da infância desencadeou muitas reflexões sobre a forma como a infância vem sendo entendida e que ideias foram cristalizadas a respeito da criança. A discussão sobre o tema da infância, sua importância e a forma como ela é abordada em pesquisas no campo da História, Sociologia, Filosofia, Psicologia, Biologia, Antropologia, Arqueologia, entre outras, torna possível o entrelaçamento de diferentes olhares e autores nesse amplo campo. Justifica-se, portanto, considerá-la como essencial para o entendimento da Modernidade e das instituições de regulação criadas a partir de uma outra configuração da família na sociedade burguesa. Ariès é considerado o precursor da história da infância, pois, através de estudos que ele desenvolveu com base em variadas fontes, como a iconografia religiosa e leiga, diários de família, dossiês familiares, cartas, registros de batismo e inscrições em túmulos, surgem os primeiros trabalhos na área de história, apontando para o lugar e a representação da criança na sociedade dos séculos XII ao XVII. Baseando-se na história das mentalidades, Ariès (2006, p. 26) afirma: 22 (...) é sempre, quer ou não, uma história comparativa e regressiva. Partimos necessariamente do que sabemos sobre o comportamento do homem de hoje, como de um modelo ao qual comparamos os dados do passado, com a condição de, a seguir, considerar o modelo novo, construído com o auxílio dos dados do passado, como uma segunda origem, e descer novamente até o presente, modificando a imagem ingênua que tínhamos no início. Do século XII ao XVII, período eleito por Ariès para focar suas pesquisas, ocorreram grandes transformações históricas, dentre as quais as que decorrerão de uma nova mirada sobre a infância que irá assumir diferentes conotações dentro do imaginário de então, seja nos aspectos sociais, culturais, políticos ou até nos econômicos, conforme cada período histórico. A criança era um ser de valor substituível, alguém que tinha uma função utilitária para a sociedade, pois a partir dos sete anos de idade era inserida na vida adulta e sua utilidade era medida quando realizava tarefas, imitando seus pais e suas mães, acompanhado-os em seus ofícios, cumprindo um papel perante a coletividade. Com relação às etapas da vida humana, a pesquisa de Ariès mostra que a forma de representar sua cronologia passou por várias mudanças. Estas representações eram construídas principalmente a partir das observações dos elementos da natureza, do estudo dos astros, dos aspectos das crenças populares, fenômenos naturais e sobrenaturais, os quais faziam parte de um contexto governado pelas leis da teologia, enfatizado por uma visão mística. Assim, as representações da idade humana eram calcadas em argumentos desprovidos de uma maior objetividade. Além disso, a morte prematura das crianças era bastante comum e elas não chegavam a percorrer todos os ciclos da vida. A partir de relatos e textos dos século XII ao XVIII, o autor demonstra como as pessoas definiam a infância: a primeira idade é a infância que planta os dentes, e essa idade começa quando nasce e dura até os sete anos, e nessa idade aquilo que nasce é chamado de enfant (criança), que quer dizer não falante, pois nessa idade a pessoa não pode falar bem nem formar perfeitamente suas palavras (ARIÈS, 2006, p. 36). Nessa perspectiva, o infante tinha comportamentos esperados, considerados manifestações irracionais. Por esta concepção, a infância se contrapõe à vida adulta, pois os comportamentos considerados racionais, ou providos da razão, seriam encontrados apenas no indivíduo adulto, identificando-se, assim, o adulto como o homem que pensa, raciocina e age, com capacidade para alterar o mundo que o cerca; tal capacidade não seria possível às crianças. Observa-se que a passagem da vida infantil para a vida adulta seria uma condição a 23 ser superada: ”a passagem da criança pela família e pela sociedade era muito breve e muito insignificante para que tivesse tempo ou razão de forçar a memória e tocar a sensibilidade” (ARIÈS, 2006, p. 10). A infância nesse contexto seria comparada à velhice, pois se, de um lado, temos a infância constituída pela falta de razão, por outro, teríamos a velhice marcada pela senilidade, já que “as pessoas velhas já não têm os sentidos tão bons como já tiveram, e caducam em sua velhice (...) o velho está sempre tossindo, escarrando e sujando” (ARIÈS, 2006, p. 37). As demais idades, no caso, a juventude e a vida adulta, caracterizar-se-iam pela sua força, vitalidade e principalmente pelas funções produtivas dentro da vida social e coletiva. Considerando essa questão, percebe-se que, na sociedade atual, tal situação é recorrente, à medida que há uma ênfase na valorização do indivíduo produtivo, excluindo-se crianças e idosos de diversos setores e espaços sociais. Assim, a história da infância pesquisada por Ariès ressalta que as crianças foram tratadas como adultos em miniatura, na sua maneira de vestir-se, na participação ativa em reuniões, festas e danças. Os adultos se relacionavam com as crianças sem um cuidado maior, pois falavam vulgaridades, realizavam brincadeiras grosseiras e todos os tipos de assuntos eram discutidos na frente delas, inclusive a participação em jogos sexuais. Isto ocorria porque não acreditavam na possibilidade da existência de uma inocência pueril, ou na diferença de características entre adultos e crianças: “no mundo das fórmulas românticas, e até o fim do século XIII, não existem crianças caracterizadas por uma expressão particular, e sim homens de tamanho reduzido” (ARIÈS, 2006, p. 51). O autor destaca, ainda, que foram séculos de altos índices de mortalidade infantil assim como de práticas de infanticídio. As crianças eram descartadas e substituídas por outras, na intenção de se conseguir um espécime melhor, mais saudável, mais forte que correspondesse às expectativas dos pais e de uma sociedade que estava organizada em torno dessa perspectiva utilitária da infância. O sentimento de amor materno não existia, segundo o autor, como uma referência à afetividade. A família era social e não sentimental: “uma vizinha, mulher de um relator, tranquiliza, assim, uma mulher inquieta, mãe de cinco pestes e que acabara de dar à luz. Antes que eles te possam causar muitos problemas, tu terás perdido a metade, e quem sabe todos” (ARIÈS, 2006, p. 56). Assim, as crianças sadias eram mantidas por questões de necessidade, mas a mortalidade também era algo aceito com bastante naturalidade. 24 Outra atitude muito comum da época era entregar a criança para que outra família a educasse. O retorno para casa se dava aos sete anos, se aquela continuasse viva. Considera-se que, nesta idade, a criança estaria apta para ser inserida na vida da família e no trabalho. Nesse contexto, as mudanças com relação ao cuidado com a criança só vêm ocorrer mais tarde, no século XVII, com a interferência dos poderes públicos e com a preocupação da Igreja em não aceitar passivamente o infanticídio, antes tacitamente tolerado. Preservar e cuidar das crianças seria um trabalho realizado exclusivamente pelas mulheres, no caso, as amas e parteiras, que agiriam como protetoras dos bebês, criando uma nova concepção sobre a manutenção da vida infantil, “como se a consciência comum só então descobrisse que a alma da criança também era imortal. É certo que essa importância dada à personalidade da criança se ligava a uma cristianização mais profunda dos costumes” (ARIÈS, 2006, p. 61). Dessa forma, surgiram medidas para salvar as crianças. Para tanto, as condições de higiene foram melhoradas e a preocupação com a saúde das crianças fez com que os pais não aceitassem perdê-las com naturalidade. No século XIV, devido ao grande movimento da religiosidade cristã, surge a criança mística ou criança angelical. A representação da criança mística, aos poucos, vai se transformando, assim como as relações familiares. A mudança cultural, influenciada por todas as transformações sociais, políticas e econômicas que a sociedade vem sofrendo, aponta para mudanças no interior da família e das relações estabelecidas entre pais e filhos. A criança passa a ser educada pela própria família, o que fez com que se despertasse um novo sentimento por ela. Ariès caracteriza esse momento como o surgimento do “sentimento de infância”, que será constituído por dois momentos, um deles chamado de paparicação. A paparicação seria uma nova forma de cuidar decorrente do sentimento familiar despertado pela beleza, ingenuidade e graciosidade da criança. Esta foi uma mudança que propiciou uma aproximação cada vez maior dos pais com os filhos. Assim, os gracejos das crianças eram mostrados a outros adultos, fazendo da criança uma espécie de distração, bichinhos de estimação, como o sugere Ariès (2006, p. 68): (...) ela fala de um modo engraçado: titota, tetita y totata (...) eu a amo muito (...) ela faz cem pequenas coisinhas: faz carinhos, bate, faz o sinal da cruz, pede desculpas, faz reverência, beija a mão, sacode os ombros, dança, agrada, segura o queixo: enfim, ela é bonita em tudo o que faz. Distraio-me com ela horas a fio. 25 Por uma nova necessidade de manter viva a criança, surgem medidas para garantir sua sobrevivência. As condições de higiene melhoraram, e a preocupação com a saúde das crianças fez com os pais não aceitassem perder seus filhos com naturalidade e os que perdiam aceitavam como sendo a vontade de Deus, segundo a orientação religiosa da época. Este sentimento, despertado primeiramente nas mulheres, não era compartilhado por todas as pessoas; algumas ficavam irritadas com a nova forma de se tratar as crianças. Ariès cita, em suas referências, a hostilidade de Montaigne com o novo comportamento adotado: (...) não posso conceber essa paixão que faz com as pessoas beijem as crianças recém-nascidas, que não têm ainda movimento na alma, nem forma reconhecível no corpo pela qual se possam tornar amáveis, e nunca permiti de boa vontade que elas fossem alimentadas na minha frente (MONTAIGNE, apud ARIÈS, 2006, p. 159). O sentimento de apego surge a partir do século XVII, como uma manifestação da sociedade contra a paparicação da criança, e propõe separá-la do adulto para educá-la nos costumes e na disciplina, dentro de uma visão mais racional. Assim, foi dentro desse contexto moral que a educação das crianças se inspirou, através do posicionamento de moralistas e educadores e, principalmente, com o surgimento da família nuclear gerada dentro dos padrões da cúria: o modelo de família conservadora, símbolo da continuidade parental e patriarcal que marca a relação pai, mãe e criança. A preocupação da família com a educação da criança desencadeou mudanças que levam os pais a cuidar com maior zelo de seus filhos. Consequentemente, houve a necessidade de impor regras e normas na nova educação, do que decorrem formações visando à doutrinação da criança, o que atende aos anseios da sociedade que então emergia. Essa nova concepção de sociedade faz com que a criança seja alvo do controle familiar ou do grupo social em que ela está inserida. Com o surgimento de um novo homem, aparecem também as primeiras instituições educacionais, das quais emerge a concepção de que os adultos “compreenderam a particularidade da infância e a importância tanto moral como social e metódica das crianças em instituições especiais, adaptadas a essas finalidades” (ARIÈS, 2006, p. 193). Com a evolução nas relações sociais que se estabelecem na Idade Moderna, a criança passa a ter um papel central nas preocupações da família e da sociedade. A nova percepção, bem como a nova organização social fizeram com que os laços entre adultos e crianças, pais e 26 filhos fossem fortalecidos. A partir deste momento, a criança começa a ser vista como indivíduo social, dentro da coletividade, e a família tem grande preocupação com sua saúde e sua educação. Ariès observa que não existia então o conceito de infância antes do século XVII, período em que havia um evidente descaso com relação à fase inicial da vida, pois não se dispensava um tratamento diferenciado às crianças. Somente a partir do século XVIII, surgem os dois sentimentos de infância apontados pelo autor: o de paparicação e o de controle moral, que irão constituir a base para o conceito moderno da infância. Para Ariès, quando a criança é colocada num patamar de significância, surge também a necessidade de controlá-la e educá-la mais formalmente. É dessa maneira que no século XVII tem início a produção de literatura moral e pedagógica direcionada para a infância, deixando claro desta forma o surgimento do conceito de inocência infantil. O sentimento de um estado particular da vida humana começa a se moldar a partir do surgimento da escola. A criança passa, a partir de então, a ser objeto de atenção da família, merecedora dos cuidados daqueles que deveriam ser os responsáveis não só por colocá-los no mundo, mas também enviá-los à escola. Essa atitude resultou na aproximação das pessoas em torno de um núcleo familiar com a consequente retração da sociabilidade. Assim, a infância, como ideia recorrente até a contemporaneidade, é fruto das mudanças sociais operadas no limiar da Idade Moderna, a partir não apenas da reestruturação das relações familiares, mas também da importância que a escola passou a assumir na educação dos meninos e meninas. A estabilização dessa postura, por volta do século XVII , é influenciada pelos seguintes fatores: 1) emergência de um sistema de educação; 2) mudanças na estrutura familiar; 3) desenvolvimento do capitalismo; 4) surgimento de um espírito de benevolência; 4) aumento da maturidade emocional dos pais. O conceito de infância torna-se mais elaborado durante os séculos XVIII e XIX, quando a criança é considerada um componente essencial da família e da sociedade, passando seus direitos a ser protegidos pelo Estado (CORAZZA, 2004, p.89). 27 1.2 – Visões de pensadores sobre a infância: a contraposição à Ariès Os estudos de Ariès sobre a formação do conceito de infância foram resultado de uma pesquisa documental e iconográfica, cujo objetivo era mostrar que a sociedade ocidental passa a ser “uma sociedade que se fecha em núcleos familiares, e que privatiza a infância e a segrega, através de vários sistemas educativos, implicando-a em regimes autoritários e em restrições disciplinares” (CORAZZA, 2004, p.86). Autores que discordam de Ariès desenvolvem seus pressupostos principalmente a partir de três constatações a respeito do método utilizado por ele para comprovar sua tese. Primeiramente, os mecanismos teórico-metodológicos usados pelo autor, que se baseou principalmente nos documentos iconográficos da época. Em segundo lugar, o estudo da criança, realizado de maneira isolada e voltado para as classes mais abastadas. Por último, uma certa indiferença quanto às particularidades de cada país, já que Ariès ignorou as especificidades das práticas relativas à infância tais quais esta se consolidou em diversas sociedades europeias. DeMause vai opor-se à tese de que não havia um conceito ou uma consciência da natureza particular de infância antes do século XVII. Este crítico afirma que as sociedades do passado reconheciam a infância como um estado distinto da fase adulta, ou seja, um estado com particularidades específicas. No seu livro História da Infância, DeMause se opõe ao pensamento de Ariès de que a infância pré-moderna era mais feliz, pois gozava de uma liberdade maior que se perdeu com o advento da modernidade, a partir do surgimento de mecanismos que, ao diferenciar o infantil do adulto, procuravam adestrá-la para que pudesse atingir à maioridade de maneira apropriada (CORAZZA, 2004, p.96). DeMause cria, com o auxílio de dez outros historiadores, a “teoria psicogenética da história”. Para ele, a mudança histórica não ocorre pela economia ou pela tecnologia, mas “pelas mudanças psicogenéticas da personalidade, resultantes das interações entre pais e filhos em gerações sucessivas” (DEMAUSE Apud CORAZZA, 2004, p.97). Juntamente com Archard, DeMause formula ainda a ideia do "tratamento cruel". Segundo estes autores, a crueldade era uma prática recorrente na relação familiar até o início do século XIX. Questões como o abuso sexual, negligência, maltratos e mesmo o infanticídio eram praticados nos vários períodos da consolidação da Modernidade. Quanto a esta questão, 28 Ariès vai negá-la quanto a sua existência na sociedade medieval, mas vai reafirmá-la como uma realidade na sociedade moderna, descrevendo esse tipo de tratamento como muito mais frequente nas escolas do que nas famílias, embora ocorressem nas escolas com o consentimento das famílias, ou mesmo a pedido destas. Por essa negação do tratamento cruel no período medieval, Ariès vai ser criticado por DeMause. Para ele, na idade medieval as crianças viviam uma situação de “grave abandono afetivo” e, com a chegada da idade moderna, houve um movimento de sua aceitação social, desenvolvendo-se para elas um tratamento mais humanizado (CORAZZA, 2004, p.100). Utilizando-se, em suas pesquisas, da perspectiva psicogenética e progressiva da formação do conceito de infância, DeMause, no intuito de se contrapor às pesquisas de Áries, lança mão de abordagens historiográficas para tentar comprovar seu pressuposto segundo o qual a criança e a infância devem ser concebidas enquanto “entidades históricas” (Apud CORAZZA, 2004, p.103). Contudo, ao defender a evolução do conceito da infância aliado a uma melhoria do tratamento destinado à criança, DeMause não consegue se desvencilhar da explicação histórica de uma genealogia do infantil. Pollock opõe-se também à tese de Ariès, criticando a generalização feita por este a partir de um estudo não representativo de uma única experiência, com foco na classe alta, pertencente à elite francesa. Nesse sentido, Ariès teria ignorado por completo as distinções sociais e culturais existentes entre a criança estudada e a verdadeira representação da infância, que naturalmente não pertencia à realeza, nem à classe alta francesa. A historiadora elabora uma teoria sociobiológica para observar os cuidados entre pais e filhos, utilizando-se de autobiografias e escritos dos séculos anteriores à Modernidade para comprovar que havia um sentimento de infância anterior ao século XVI e que “as práticas de afeto e solicitude nas relações pais/filhos são invariantes que atravessam a cultura humana” (CORAZZA, 2004, p.110). Desta maneira, quaisquer que fossem as distinções com relação ao trato com as crianças, elas poderiam ser interpretadas por Ariès como ausência do sentimento moderno de infância, o que significa olhar para o passado e querer ajuizá-lo a partir dos valores socioculturais da modernidade. Outra crítica realizada por Pollock refere-se ao caminho tomado por Ariès em seu estudo sobre a infância. Segundo a autora, havia um interesse explícito em investigar o 29 conceito aliando-o ao advento da educação moderna, e, por este motivo, Ariès preferiu supor que as crianças pequenas simplesmente não eram levadas em conta, ou seja, eram olhadas com total indiferença, deixando-se de lado a busca por informações que trouxessem evidências substanciais de como as crianças pertencentes a esta faixa etária eram tratadas pela sociedade. A autora admite que a partir do século XVI houve pequenas mudanças no tratamento destinado às crianças, referente a uma nova “natureza de infância” (p. 111). Havia já uma preocupação em educar corretamente os filhos, com métodos de disciplina nem sempre ligados às punições físicas. Mesmo admitindo que existiam muitas variáveis no tratamento destinado às crianças, a tese de Pollock era de que o sentimento de infância já ocorria antes da Modernidade porque se sabia que a criança era um ser dependente dos adultos, e os pais eram responsáveis por sua proteção e socialização (Idem). 1.3- Locke e Rousseau : a necessidade da formação da criança John Locke (1632-1704) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) muito influenciaram a construção da concepção ocidental sobre a infância enquanto estágio distinto da idade adulta. Os dois são autores respectivamente de Some Thoughts Concerning Education (1693) e Emile (1762), os primeiros manifestos sobre a educação centrada na criança. No século XVIII, o clima intelectual desencadeado pelo Iluminismo permitiu uma disseminação da concepção de infância. O Iluminismo proporcionou uma transposição de fronteiras, alcançando, através de seus precursores, diferentes paradigmas. Pode-se que afirmar que as contribuições de Locke e Rousseau, produzidas nessa época, difundiram-se e reafirmaram-se nos dois séculos seguintes. Considerado um dos mais importantes filósofos do empirismo inglês, Locke percebia as crianças como recipientes de uma educação ideal, como folhas brancas a serem preenchidas pela experiência tutelada pelos adultos. A partir da sua teoria da tabula rasa, (GHIGGI, OLIVEIRA, 1995, p.41) afirma que a formação dos pequenos deve torná-los cidadãos virtuosos capazes de um autocontrole racional. Locke vê as crianças como imperfeitas, versões incompletas dos adultos. Os pais devem ter poder sobre os seus filhos pequenos, já que estes não possuem razão e por isso não podem ter os direitos de cidadãos adultos. Em Locke encontra-se uma conexão entre a infância e o material impresso, na medida 30 em que a folha em branco da criança é preenchida quando se encaminha à maturidade. Nessa concepção, não há nada biológico; tudo se constitui num processo de desenvolvimento permeado pela sequencia, segmentação e linguagem. A visão de Locke sobre as crianças pode ser conceituada como utilitarista, resumida na ideia muito determinante da filosofia do protestantismo, da importância da proteção e formação dos menores, para que se tornem cidadãos produtivos e civilizados, alfabetizados e racionais. Locke é um porta-voz da burguesia, classe emergente na Inglaterra, que, para ganhar espaço nas disputas econômicas, precisa basear seus ideais em uma visão mais pragmática do mundo e da sociedade da época (Idem, p.47). Youf (2002) afirma que a concepção de Locke formou-se sobre uma ideia negativa da infância. Para o autor, esta visão influenciou fortemente a concepção moderna de menoridade. Desprovidas de razão, as crianças são vistas como próximas aos animais, por isso a necessidade de que os pais lhes imponham uma disciplina rígida. “A liberdade e a complacência não podem ser boas para as crianças. Como elas não possuem discernimento, precisam de direção e disciplina. As crianças com pouca idade devem ter seus pais como seus senhores, como seus mestres absolutos e que nesta qualidade sejam temidos e por outro lado, em uma idade mais avançada, tenham neles os seus melhores amigos” (LOCKE Apud YOUF, 2002 p.19). Por outro lado, a imposição da disciplina parece ter uma vertente mais abrandada em Locke. O filósofo inglês afirma que as crianças possuem necessidades e interesses próprios e que devem ser chamadas à razão e não simplesmente coagidas ou castigadas. Neste sentido, o modelo de educação proposto pelo autor valoriza a capacidade de apreensão de informação e a sensibilidade da criança. A partir de um processo educativo organizado de forma científica, controlada e racional, a criança seria treinada para se libertar dos seus modos infantis. O modelo teria influenciado o papel do professor como a voz suprema na sala de aula, e os alunos como repetidores de respostas em coro e padronizadas. O filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau tinha uma outra concepção de infância cuja principal crítica residia no desconhecimento das crianças pelos adultos. “Procura-se sempre o homem em miniatura e não as crianças, não se percebem as diferenças do mundo da criança”, afirmou no prefácio de Emílio. Para o autor, a infância é um tempo positivo sem o qual o adulto não seria humano, ou seja, é uma condição da humanidade. Neste sentido, como explica Youf (2002, p.22), a infância não é um fracasso, ou um mal necessário, mas um 31 período extremamente positivo. A criança é considerada por Rousseau não idêntica, mas semelhante ao adulto. Suas maneiras próprias de ver, de pensar e de sentir a diferenciam. O filósofo defende que as crianças têm capacidade de raciocínio sobre as coisas que conhecem e que se referem a seus interesses. Para ele, faz-se necessário pensar seriamente no significado da infância que começa com o nascimento da criança que, por sua vez, deve ser também educada a partir daí. Ou seja: a educação deverá começar a partir do momento em que a criança vem ao mundo. Assim deve acontecer por se tratar da necessidade de formamos o homem, antes que este possa se inserir na sociedade como cidadão. A necessidade da formação da criança fica evidente no Emílio, quando diz o autor que "tudo é certo em saindo das mãos do Autor das coisas, tudo degenera nas mãos do homem" (ROUSSEAU, 2004, p.9). Considerando esta degeneração do homem, que acontece na sociedade, é que se pode pensar no desenvolvimento humano que se deve dar a partir do nascimento do homem. Assim, a infância passa a ser considerada por Rousseau o lugar, ou momento do desenvolvimento humano, em que se pode identificar o ser humano no seu modo de ser mais natural. Pensar, então, a infância deste ser é, na verdade, pensar no momento em que ele pode se formar enquanto homem natural. É este homem natural, identificado na infância, que se estende dos primeiros momentos da vida até os quinze anos, quando se inicia a adolescência, que antecede o cidadão. Este somente poderá ser identificado no homem, quando ele atinge a sua fase adulta. Ao considerar a necessidade de se pensar na formação deste homem natural, que é próprio da infância, Rousseau passa a se perguntar pelo que seria do homem se não lhe fosse dada uma educação conforme a natureza. Ora, tal educação deixa de existir quando o homem passa a se formar de acordo com as determinações do meio social em que está inserido. Todavia, se por acaso para o homem fosse destinada uma formação natural, desvinculada das imposições sociais, ele ficaria desconfigurado. Tal afirmativa é comprovada por Rousseau, quando ele chama a atenção para o seguinte: No estado em que se encontram as coisas, um homem abandonado a si mesmo, desde o nascimento, entre os demais, seria o mais desfigurado de todos. Os preconceitos, a autoridade, a necessidade, o exemplo, todas as instituições sociais em que nos achamos submersos abafariam nele a natureza e nada poriam no lugar dela. Ela seria como um arbusto que o acaso fez nascer no meio do caminho e que os passantes logo farão morrer, nele atendo de 32 todos os lados e dobrando-o em todos os sentidos (Idem, p.9). A teoria de Rousseau parte do respeito à infância para defender uma educação de acordo com a dinâmica própria de cada idade, que não imponha as respostas corretas, mas que auxilie as crianças a resolverem os seus próprios problemas. Para Rousseau, as crianças são inocentes e puras e a educação deveria ter a função de preservar ao máximo estas características. Era uma oposição à sociedade industrializada que surgia na Modernidade, a criança representava a proximidade com a natureza em seu estado mais puro e distante da civilização. Esta visão romântica concebia a criança como importante em si mesma, creditando-a como um cidadão em potencial. Sua natureza sincera, curiosa e espontânea não deveria ser castrada pela educação calcada no autocontrole e vergonha. Os românticos baseavam-se numa ideia do homem próximo ao "estado de natureza", havendo um desprezo total pelos "valores civilizados". A contribuição ideológica de Rousseau foi marcante para a concepção da criança inocente que perdura até hoje. O filósofo discorre em sua obra sobre as fases etárias da infância e sobre o que seria apropriado para cada uma. É possível afirmar que este é o primeiro ensaio surgido em direção à elaboração dos estágios de desenvolvimento progressivo para a idade adulta, que, por sua vez, influenciou a Psicologia nos séculos seguintes, principalmente as teorias cognitivistas de Piaget. Como já dito anteriormente, Locke e Rousseau possuem concepções diferentes sobre a infância. O primeiro ressalta o que falta à criança para esta deixar de ser vulnerável física e intelectualmente, enquanto o segundo prefere enfatizar sua natureza essencialmente pura e sua capacidade de pensar e de querer diferentemente dos adultos. Entretanto, os dois filósofos aproximam-se em um aspecto: expressam o reconhecimento da infância numa perspectiva nova para a época. Esta característica em comum explicita o reconhecimento do caráter imprescindível da proteção e da intervenção dos adultos no processo de formação das crianças. Para Rousseau, esta influência deveria dar-se no sentido de preservar as características naturais das crianças, enquanto, segundo Locke, a educação deveria orientar-se no sentido de levar a criança a preparar-se para gradativamente tornar-se um adulto. 33 1.4 – Henry Jenkins e a construção do conceito de infância: a preservação da inocência Os Estudos Culturais, especialmente em sua vertente voltada para as análises textuais, propiciam a compreensão do caráter inerentemente precário dos significados, da absoluta falta de correspondência entre palavras e coisas e das lutas de poder pelo controle destes mesmos significados. Esta visão preocupa-se com os significados que estão sendo constantemente negociados e que estão conectados a políticas de verdade em ação na sociedade. O desenvolvimento dos Estudos Culturais está ligado ao desenvolvimento curricular e institucional das instituições acadêmicas porque se lhes tornou necessário estabelecer uma relação de interdisciplinaridade mais do que institucional com as ciências sociais e com as “humanidades”. Autores desse campo metodológico também têm-se dedicado à temática da infância, enfatizando a pouca atenção destinada aos sujeitos infantis analisados pelo viés sociológico. Henry Jenkins, em seu livro The children’s culture reader aponta para uma delimitação da infância na pesquisa acadêmica, sugerindo que, enquanto as culturas juvenis têm sido objeto de pesquisa sociológica, a infância tem sido considerada objeto adequado apenas para a Psicologia do Desenvolvimento. O autor afirma que historiadores e, em geral, todos os que pensam historicamente, constroem suas histórias no presente, de acordo com suas teorias ideológicas e seus interesses. O passado ‘histórico’ construído não está relacionado com o passado ‘real’, mas é um passado reformulado em historiografia, como uma construção do presente, como uma referência textual não sobre o quê, mas sobre o que é. A criança é vista numa perspectiva que a diferencia do adulto — um ser em falta, imaturo, que depende das decisões alheias — alguém que precisa adquirir o conhecimento que foi legitimado por outros mais velhos e experientes, por pessoas cujas atitudes podem ser afirmadas através de racionalizações. As crianças passam a ser uma preocupação social: objetos de interesse e temais principais de discursos. São construtos históricos produzidos por condições sociais concretas. Dessa forma, o sujeito infantil é produzido pelos discursos que se enunciam sobre ele: discursos médicos, biológicos, antropológicos, psicológicos, pedagógicos. Tais discursos constroem para as crianças uma posição de sujeito ideal, um sujeito universal, sem cor, sem sexo, sem filiação, sem amarras temporais ou espaciais. 34 A ênfase na infância como um fato biológico — uma preocupação marcadamente pósdarwiniana — baseada na ideia de evolução e de progresso, teve influência sobre todas as explicações a respeito desta fase da vida: da sexualidade à progressão ou desenvolvimento cognitivo, marcando profundamente a compreensão da infância e dos fenômenos a ela associados e, por consequência, na constituição das identidades infantis. Henry Jenkins enfatiza que a concepção moderna de 'criança inocente' é comumente entendida como universal, ou seja, natural à criança, independente do momento histórico e da cultura a que ela pertença. Entendendo a criança como destituída de desejo sexual, desconsideram-se as outras diferenciações, além das de gênero, como as étnicas ou de classe entre as múltiplas crianças no mundo. É como se a noção do infantil existisse apartada do contexto, exercendo, entretanto, um papel importante na regulação de hierarquias culturais, ao separar, por exemplo, a influência negativa da cultura popular sobre as crianças do poder educativo conferido à chamada alta cultura. O autor enfatiza que a concepção moderna de 'criança inocente' se alicerça em uma história, por sua vez elaborada por ideias de diferentes contextos históricos. E, assim sendo, acaba por resultar em sentidos contraditórios (JENKINS, 1998, p.15). Jenkins ainda ressalta que, embora nem todas as afirmações de Ariès estejam corretas, a sua principal contribuição foi ter fundado as bases para o estudo da construção social da noção de infância e, particularmente, das ideias de inocência e pureza comumente associadas a ela. Segundo Ariès, essa concepção moderna resultou em dois tipos principais de comportamento em relação à criança: em primeiro lugar, justificou a atitude de proteção contra as mazelas do mundo adulto e, em especial, contra a sexualidade; e, em segundo lugar, estimulou a ideia de educar a criança, desenvolvendo-lhe o caráter e a razão (ARIÈS, 2006, p.56). Essas duas atitudes anunciam uma concepção já descrita anteriormente em relação à infância: ao mesmo tempo em que se quer proteger as crianças do mundo adulto, procura-se prepará-las para assumi-lo, através da educação. Assim, pode-se afirmar que a ideia de criança natural tem dois desdobramentos que estão ainda hoje muito presentes nas nossas representações do sujeito infantil: o da criança racionalizada — ou sujeito cognitivo — e o da criança inocente. Ao primeiro se ligam aquelas interpretações que colocam a criança como um sujeito que aprende, com uma tendência natural à curiosidade, à investigação, à experimentação, do que se espera uma progressão na capacidade de raciocínio, ficando suposto que, quanto menos interferência, melhor. O 35 segundo está associado à ideia de infância ameaçada, sempre a ponto de desaparecer e que, nesse sentido, precisa ser defendida das dificuldades do mundo adulto. Segundo Ariès (2006), o pressuposto da inocência infantil leva a dois tipos de atitude e comportamento em relação à criança: protegê-la dos problemas e da sexualidade do mundo adulto e fortalecer o seu caráter pelo uso da razão, numa ação que parece ser contraditória: para preservá-la é preciso ao mesmo tempo fazê-la amadurecer (JENKINS, 1998). Na perspectiva apresentada por Ariès estão fortemente imbricadas as duas condições: a da inocência e a da cognição. As crianças, portanto, são vistas como criaturas inocentes que necessitam ser guiadas pelos adultos. Assim, torna-se responsabilidade destes tanto definir os valores morais para os mais jovens quanto impor a eles os limites do que pode ser conhecido. Embora esta ideia de proteção à infância apareça naturalmente, o modo como isso acontece depende de condições materiais particulares, de preocupações ideológicas e de lutas por poder social e político. A infância historicamente tem-se revelado como uma categoria instável, que tem que ser controlada e disciplinada, portanto, seus significados e imagens só podem existir pela ação de um poder que opera para regular o conhecimento. Assim sendo, ver a criança como natural, pura, inocente, curiosa, “descobridora”, não corresponde senão a “mitos” que criamos a respeito delas. “A criança inocente nada quer, nada deseja, nada exige exceto, talvez, sua própria inocência” (JENKINS, 1998, p.1). Tais ideias modernas, ao serem tomadas como universais e descontextualizadas historicamente, encobrem diferenças entre os vários modos de ser do infantil e servem não só para justificar uma maneira de se aplicar coercitivamente o conhecimento à criança, como acabam por legitimar “a ampliação do papel social da classe educada para policiar a cultura dos mais jovens” (JENKINS, 1998, p.15). 1.5 – Neil Postman e o desaparecimento da infância Neil Postman é professor de comunicação da Universidade de Nova York. Com mais de 20 livros publicados, a maior parte trata das conexões entre educação e mídia. O tema é bastante discutido nas áreas de educação e comunicação desde 1963 quando Hellmut Becker fez várias entrevistas radiofônicas com Theodor W. Adorno, nas quais alerta para o papel 36 negativo da televisão ao ideal de formação humano, resgatado pelos ideais iluministas. No Brasil, as posições de Postman sobre as conexões entre educação e mídia podem ser verificadas nos livros como O Desaparecimento da Infância (1982) e o O Fim da Educação (1995). Em O Desaparecimento da Infância, Postman parte do pressuposto de que o modo como entendemos a infância nos últimos cinco séculos está ligado à invenção da prensa tipográfica. Uma concepção de infância, preocupada com a formação dos menores, não existia na Idade Média. Todos compartilhavam o mesmo mundo; não havia segredos entre os maiores e os menores. Mas quando a prensa tipográfica foi criada, as relações entre os maiores e os menores se modificaram. A concepção de infância foi a grande invenção da Renascença, talvez a concepção mais humanista na época em que surgiu. No mundo medieval, a criança como concebemos hoje era invisível. Antes do século XVI não havia livros sobre pediatria, criação de filhos, nenhuma literatura infantil. Isso só passou a existir depois da prensa tipográfica, menos de um século depois. Desta forma concomitantemente à prensa tipográfica, surgem as concepções de fase infantil e fase adulta. Com o aparecimento da prensa tipográfica, o homem letrado - novo adulto – ganha expressão; e, assim sendo, coloca-se a fase da infância em um patamar inferior. Nascia então, uma ideia de infância alijada ao universo adulto. Os jovens, para entrar no mundo da prensa tipográfica, precisavam aprender a ler e escrever e para isso precisavam de educação. (...) a questão é que o domínio sobre o alfabeto e depois o domínio sobre todas as habilidades e o conhecimento que foram organizados para as etapas seguintes constituíam não só um currículo, mas também uma definição do desenvolvimento infantil. “Ao criarem o conceito de uma hierarquia de conhecimento e habilidades, os adultos inventaram a estrutura do desenvolvimento infantil” (POSTMAN, 1999, p.60). A explicação de Postman para o surgimento da infância articula, assim, o surgimento da imprensa, o nascimento de uma cultura letrada e a necessidade de educar as crianças nesta nova exigência de aquisição da leitura e da escrita. E para isso, era preciso entender o mecanismo de alfabetização, e de como se estruturava o desenvolvimento da habilidade de ler e escrever. A segunda parte do livro de Postman trata do desaparecimento da infância. Para o autor, a infância começa a desaparecer com o surgimento de outra tecnologia de 37 comunicação: o telégrafo. Seguindo a sua tese, o autor aponta que o telégrafo elétrico foi o primeiro meio de comunicação que permitiu que a velocidade da mensagem ultrapassasse a velocidade de deslocamento das pessoas. Facilitando a simultaneidade e a instantaneidade, a velocidade elétrica reservou um espaço menor para a expressão da individualidade humana. O telégrafo promoveu a distribuição de notícias, criando o caráter informativo das relações - antes um bem pessoal, agora transformada em mercadoria de valor mundial, sempre fragmentada. A partir das transformações ocorridas devido ao surgimento do telégrafo, as crianças passaram a ter acesso a praticamente qualquer tipo de informação, sem exigências quanto à quantidade e à qualidade, bem como quanto ao momento em que deveriam acontecer. Assim, a família e a escola perderam o controle sobre as informações que poderiam ou não estar chegando ao conhecimento das crianças. Desde a invenção do telégrafo, toda uma série de máquinas de comunicação tem surgido em consequência disso, culminando, nos últimos 50 anos, na invenção da televisão e do computador. No decorrer de sua explanação, Postman ressalta que a televisão é uma das evidências mais marcantes de que a linha divisória entre a infância e a maturidade tem tomado uma outra configuração. Segundo o autor, esta linha vem sendo diluída por esse meio de comunicação, devido a três motivos ligados à acessibilidade indiferenciada entre a população e a televisão. (...) primeiro, porque não requer treinamento para aprender sua forma; segundo porque não faz exigências complexas nem à mente nem ao comportamento; e terceiro porque não segrega seu público com a ajuda de outros meios de comunicação não impressos, a televisão recria as condições de comunicação que existiam nos séculos XIV e XV” (idem, p.94). Assim sendo, ver televisão não requer elaborações, apenas percepções daquilo que é visto pelas imagens. O espectador, independente da idade e nível cultural, fica detido às imagens, que são de enorme variedade e rapidez, sem a necessidade de uma leitura crítica daquilo que está sendo visto (são poucas as pessoas que acabam se detendo em alguma reflexão). Percebe-se, então, que sem a exigência de um preparo anterior para se entender a linguagem televisiva, que não prevê a formulação de pensamentos e comportamentos complexos, a mídia acaba por homogeneizar seu público, não diferenciando os adultos das crianças. 38 Postman também explicita um outro motivo pelo qual a infância torna-se ameaçada perante este contexto: os segredos são inexistentes. Para ele, o segredo é um pré-requisito para que exista a infância. Na Idade Média não havia meio de contar com a informação exclusiva para os adultos; portanto não havia diferenciação no nível de conhecimento e, consequentemente, não havia infância. Contudo, na "Era de Gutenberg", surge este meio, enquanto na "Era da Televisão", ele se dissolve. Tanto a TV quanto o PC são apresentados às crianças em tenra idade, para que elas desvendem o significado das imagens abertas por esses dois aparelhos comunicativos, não se exige o esforço de conquista como na aprendizagem da leitura para desvendar segredos que estão escondidos em um livro. Isso exposto, infere-se que tanto a autoridade do adulto quanto a curiosidade da criança perderam o espaço, pois é nos segredos que as "boas maneiras", os valores e o pudor estão implícitos. O autor sugere que estamos à frente das mesmas condições presentes no século XIV, quando nenhuma palavra era considerada imprópria para a percepção audível de um jovem. “(...) Por definição a idade adulta significa mistérios desvendados e segredos descobertos. Se desde o começo as crianças conhecerem os mistérios e os segredos, como as distinguiremos de outro grupo?” (p.102). Em seus livros, Postman se afirma como um teórico que se coloca contra as condições responsáveis pelo gradativo fim da infância. Com isso, ele faz uma defesa de um mundo culturalmente mais saudável e feliz. Seu discurso carrega muitas tendências de caráter nostálgico, como a defesa de uma infância perdida em razão de imperativos da utilidade econômica, do consumo e da moral tecnológica. Ainda que se possa dizer que Postman não é um moralista, não se pode dizer, na mesma medida, que ele não seja um idealista, pois sua defesa da infância só pode ser suficientemente defendida ao considerar que há uma concepção da infância ideal, que é justamente aquela constituída na Idade Moderna. 1.6 – A infância idealizada da Modernidade e os questionamentos deste conceito na contemporaneidade Pode-se afirmar que a infância – revestida desta aura de pureza, inocência e ingenuidade - consiste numa invenção moderna, que estaria fadada a desaparecer. Alguns pensadores (como Postman) localizam o surgimento e a crise deste conceito em dois marcos 39 históricos específicos: em 1850 e 1950, respectivamente. Em 1850, o trabalho infantil foi abolido das fábricas inglesas, no auge da Revolução Industrial - movimento crucial para a concretização dos interesses sociais burgueses. E o ano de 1950 simboliza a criação e difusão da televisão. Na Pós-Modernidade, a televisão é capaz de simular um ambiente informacional semelhante ao medieval, onde a cultura oral era predominante. Não havia a distinção (surgida pela difusão da escrita) entre o mundo adulto e letrado e o infantil. E para assistir à TV, basta ver e ouvir, adultos e crianças podem fazê-lo sem o desenvolvimento de maiores habilidades sistematizadas, conforme acima comentado. O processo de leitura exige um esforço de aprendizagem que costuma durar anos, e está longe de ser instintivo. Para se aprender a ler, deve-se desenvolver um autocontrole corporal que permita um exercício introspectivo de atenção e concentração. Além disso, memorizar as letras, seus respectivos sons, e depois compreender a estrutura das sílabas, das palavras, das frases também exige uma atitude de reclusão; um comportamento mais solitário. Até atingir uma fase em que o jovem possa entender criticamente o que lê, há um processo longo de aquisição de habilidades específicas. Portanto, a divisão das crianças por idade, nas séries escolares, acaba por ser uma necessidade imposta pela concepção moderna de educação. Como foi levantado por Ariès e retomado por Postman, com o surgimento da infância e a importância dada à educação sistemática, a repressão do comportamento natural da criança, mais disposto à mobilidade e expansão, foi fundamental para a disciplinarização de seus corpos e de suas mentes. Na modernidade, “professores e pais começaram a impor uma disciplina bastante rigorosa às crianças” (POSTMAN,1999, p.60-61). A pedagogia ocidental só fez aumentar a distância que separa a vida de criança da vida de adulto, “não lhe permitido liquidar o passado e assimilá-lo ao conteúdo atual da experiência; ao mesmo tempo em que fortalecia a ideia de que conhecer o infantil o libertava deste modo de ser” (CORAZZA. 2004, p.25). Dessa maneira, criar uma concepção idealizada e carregada de tons nostálgicos, também reforça o sentido de distanciamento da infância, que se perde quando se atinge a maturidade. Para Corazza, a constituição desse Outro, o outro-infantil, serviu para diminuir “uma perigosa alteridade” e assim poder regulá-lo. Neste processo, cria-se um diferente de quem se procurará estar sempre próximo e simultaneamente distante, em um movimento ambíguo de atração e repulsão (p.23). Precisa-se conhecer este outro-infantil para nunca mais se ser como 40 ele. Foi assim que psicologia e pedagogia modernas conceberam e estabeleceram o desenvolvimento da criança, como processual e cumulativo. Dessa forma, reforçou-se a ideologia da carência na infância, considerada enquanto uma fase que precisa ser superada e preenchida através de disciplina e conhecimentos sistemáticos. A infantilidade e o processo de infantilização fundam a verdade de um conhecimento, a possibilidade de uma prática do infantil e um tipo de poder que se exerce sobre quem, produzido por essas mesmas forças, passa a ser visível, enunciável e, acima de tudo, educável (Idem, p.24). Foucault reconhece que os modelos do conhecimento moderno descreverão “a infância como vida original, semente, célula mater, passado anunciando o presente e sentenciando o futuro” (Idem, p.23). Em Vigiar e punir, Foucault descreveu os diversos processos de disciplinarização dos corpos em diferentes instituições, como colégios, fábricas, oficinas, conventos e quartéis, demonstrando que a principal característica de tais instituições é a disciplina corporal. A disciplina é um modo de exercer o poder, uma tecnologia de poder que nasce e se desenvolve na modernidade O objetivo da disciplina é a produção do sujeito sujeitado com a formação dos corpos dóceis (FOUCAULT, 2002, p. 117-120). Foi esse tipo de poder que Foucault chamou de “disciplina” ou “poder disciplinar”. É importante notar nem é um aparelho, nem uma instituição: ela funciona como uma rede que os atravessa, sem se limitar a suas fronteiras; é uma técnica, um dispositivo, um mecanismos, um instrumento de poder; são “... métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que asseguram a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade...”; é o diagrama de um poder que não atua do exterior, mas trabalha o corpo dos homens, manipula sues elementos, produz seu comportamento, enfim, fabrica o tipo de homem necessário ao funcionamento e a manutenção da sociedade industrial capitalista (MACHADO, 1982, p.194). O poder disciplinar tem caráter controlador, isto é, ele apresenta possíveis ações em um determinado espaço a partir de uma norma que distingue o permitido e o proibido, o correto e o incorreto, o são e o insano. Para o controle da infância, haveria a necessidade de uma prática que normatizasse a vida da criança na família e na escola. O cerceamento do corpo infantil torna-se ponto fundamental para a formação de um sujeito dócil e útil para as instituições modernas. Entre a ideia de infância e os saberes e poderes produzidos ao seu redor há uma relação de mútua imbricação. Se, por um lado, a invenção desta infância é a condição para o surgimento desses saberes e poderes subjetivantes e objetivantes das crianças, o que seja uma criança irá se definindo na encruzilhada desses saberes disciplinares e poderes pastorais (KOHAN, 2003, 41 p. 94-95). Com o fim dos sujeitos disciplinados na contemporaneidade, ou seja, com o fim da infância e com a morte da adolescência, surge a preocupação com as práticas e os discursos que constituíram estes sujeitos nos ambientes dos processos da escolarização disciplinadora da modernidade que entraram em crise. O modelo disciplinador já não serve, porém não existem alternativas que controlem a infância no contexto pós-moderno. Entretanto, convém levantar o seguinte questionamento: estaríamos diante do fim da infância ou de novas formas de ser criança? O que parece surgir no cenário contemporâneo é que o modelo conhecido de infância, composto na modernidade e formatado na disciplina dos corpos está se diluindo por causa das novas exigências da sociedade e da cultura pósmoderna. Instituições que tentam preservar os valores humanistas e universais estão, atualmente, em constante conflito com esta nova configuração do ser criança, mas sem saber que outro modelo colocar no posto. 1.7- Outras infâncias: a experiência do infantil nos contos de Guimarães Rosa O objeto de discussão neste capítulo é fazer uma breve análise da construção de conceitos da infância no decorrer do tempo, contudo já apontando para uma perspectiva mais relevante que perpassa toda a pesquisa e que é a experiência da infância, a infância como figura do novo, como resistência ao que já está estabelecido. Objetiva-se em tal estudo elaborar uma imagem conceitual da infância que permita pensá-la para além da cronologia, partindo da ideia da experiência e do acontecimento; e paralelamente a isso, pretende-se buscar imagens literárias da infância que a abordem como experiência, que lhe imprimam valor por meio do acontecimento. Trata-se de buscar imagens produzidas através da experiência, o infantil como um lugar de passagem, de travessia e de percurso. Como diz Larrosa, “algo como uma superfície de sensibilidade na qual aquilo que passa afeta de algum modo, produz alguns afetos, inscreve algumas marcas, deixa alguns vestígios, alguns efeitos” (2004, p. 160). Desta forma, importa criar sendas para que se possa continuamente descobrir a infância, não somente como uma etapa de vida, mas considerando-se um modo de ser infantil. É neste sentido que se pensa a infância por meio da literatura, especialmente a escrita 42 de Guimarães Rosa. Parte-se do pressuposto de que a linguagem literária de Rosa, dada sua característica polissêmica, apresenta-se de forma mais aberta, envolvente e inventiva, em consonância com esse tipo de entendimento da infância. Afinal, não há mais a necessidade de acrescentar subsídios às informações já produzidas a respeito da infância, mas localizá-la em sua dimensão poética e, quem sabe, provocar a emersão de novos sentidos para a escrita literária. A infância se expressa, então, como algo de que não se sabe muito, que escapa às verdades, que se reveste de novos sentidos a cada vez que é pronunciada. A escrita rosiana na sua riqueza polissêmica, em suas múltiplas possibilidades interpretativas, faz com que a infância seja, a uma só vez, multifacetada e única para quem a experiencia. Trata-se, portanto, de uma vivência singular e íntima. Nesse sentido, é possível descobrir a infância na linguagem rosiana, por meio da qual ela se apresenta como uma experiência a ser atravessada. Para melhor explicitar esta experiência de atravessamento da literatura pelo viés da infância, passa-se à análise de dois contos de Guimarães Rosa no livro Primeiras Estórias: “As margens da alegria” e “Os cimos”. 1.7.1 - Às margens da vida, nas margens da alegria O conto inicial de Primeiras Estórias fala de uma viagem inventada, de um Menino que vai em direção a um desconhecido, uma cidade que está em construção. A referência “esta é a estória” reforça esta característica de invenção, de sonho. A narrativa de “As margens da alegria” tem uma imbricada relação com o conto último do livro, “Os cimos”. As personagens são as mesmas, o protagonista é o Menino que em ambas estórias tem que realizar uma viagem, para uma cidade em construção. No primeiro conto, toda a atmosfera criada pela viagem do Menino é de êxtase, de perspectivas felizes de um passeio que também será iniciado pelo leitor, através da narrativa. O Menino embarca com os Tios no avião, que os levará para um destino desconhecido para a criança. Apesar de viajar rumo ao desconhecido, o ambiente é de transbordamento: cria-se uma expectativa de sonho e aventura para o Menino. O próprio avião em que embarca o Menino é brinquedo a ser descoberto, as pessoas que lá estão (aeromoças, piloto) ajudam a reforçar o clima de encantamento que envolve o 43 universo infantil do garoto. A esperança do garoto é do “não sabido”, daquilo que viria a ser o melhor da viagem – a própria expectativa do desconhecido. É a experiência que atravessa a vida da criança, aberta à novidade. O lugar da infância do menino é um lugar não fixado, movediço. Rosa reforça essa ideia ao deslocar para o mundo a mobilidade. O mundo visto pela criança, da janelinha do avião, movimenta-se. E é esse o lugar de onde o menino vê o mundo: “Seu lugar era o da janelinha para o móvel mundo” (ROSA, 1994, p. 389). De lá, do alto, o menino traça percursos em seus pensamentos. O Menino é, então, lançado para o espaço em branco, em que cada instante (como o da respiração) precisa ser vivido com toda a intensidade. A mobilidade invade o ambiente inicial do conto, muitas sensações para serem experimentadas de uma vez só. E não há espaço para a falta, o provimento surge antes mesmo da necessidade se manifestar. “Ainda nem notara que, de fato, teria vontade de comer, quando a Tia lhe já lhe oferecia sanduíches” (idem). Por antecipação, o Menino já possuía tudo – as brincadeiras e os passeios – prometidos pelo Tio. Mas também um nada, por não poder caber em sua mente tantas novidades. Ao final da primeira parte do conto já se antecipa uma nuvem na luz que invade a vida do menino naquele momento. E uma outra margem da narrativa já vai sendo delineada, ainda numa visão ofuscada por tantos excessos. Aponta-se para uma futura nesga na expectativa feliz do Menino. Na segunda parte da estória, o Menino já se encontra na cidade que está sendo formada como uma alegoria de um lugar/infância. É um espaço que está sendo desbravado ante as perspectivas de expansão da cidade. O desconhecido é invadido pelas máquinas dos homens, a natureza vai cedendo para o ímpeto humano de civilização. O passeio de jipe quando “o menino repetia-se em íntimo o nome de cada coisa” apresenta a relação de intimidade e afeto entre o menino e seus brinquedos: “A poeira, alvisseira. A malva-do-campo, os lentiscos. O velame-branco, de pelúcia. A cobra-verde, atravessando a estrada. A arnica: em candelabros pálidos. A aparição angélica dos papagaios. As pitangas e seu pingar” (ROSA, 1994, p. 390). Do interior de um local distante surge a cidade. E por dentro da infância do menino surge uma experiência nova de vida. Ao demonstrar a viagem para esses interiores, Rosa usa 44 recursos que colocam a estrutura linguística apoiando o enredo. Através das brincadeiras sintáticas, é possível perceber contentamentos e decepções, encontros e desencontros, margens indeléveis das experiências infantis. Tinha fome, servido o almoço, tomava-se cerveja. O Tio, a Tia, os engenheiros. Da sala, não se escutava o galhardo ralhar dele, seu grugulejo? Esta grande cidade ia ser a mais levantada no mundo. Ele abria leque, impante, explodido, se enfunava... Mal comeu dos doces, a marmelada, da terra, que se cortava bonita, o perfume em açúcar e carne de flor. Saiu, sôfrego de o rever. Não viu: imediatamente. A mata é que era tão feia de altura. E – onde? Só umas penas, restos no chão- “Ué, se matou. Amanhã não é o dia-deanos do doutor?” Tudo perdia a eternidade e a certeza; num lufo, num átimo, da gente as mais belas coisas se roubavam. Como podia? Por que tão de repente? Soubesse que ia acontecer assim, ao menos teria olhado mais o peruaquele. O peru-seu desaparece o espaço. Só no grão nulo de um minuto, O Menino recebia em si um miligrama de morte. Já o buscavam: - “Vamos aonde a grande cidade vai ser, o lago” (idem). Rosa brinca com a linha tênue e arbitrária que distingue as coisas. Com uma linguagem desconcertante, reescreve a própria língua e empresta voz ao que não fala – não apenas a criança, mas qualquer ser sem voz, com a natureza e as coisas todas da vida que não são ouvidas por não serem valorizadas. É assim que conta, detalhadamente, as peripécias da viagem: “O menino via, vislumbrava. Respirava muito. Ele queria poder ver ainda mais vívido – as novas tantas coisas – o que para os seus olhos se pronunciava” (idem, p. 390). São muitas as paisagens que o Menino vê, inúmeras as novidades. Há tantas experiências a serem descortinadas naquele ambiente que também é desbravado por sua mente infantil. Mas existe um componente nesta mobilidade de sensações que se mantém imóvel, guardado na lembrança emotiva da criança: é o peru que foi descoberto no terreiro da casa do Tio. É o único elemento que carrega uma perenidade – “o peru para sempre” (idem). A descoberta do peru é a única sensação que o Menino quer fazer persistir. “Pensava no peru, quando voltavam, só um pouco, para não gastar fora de hora o quente daquela lembrança, do mais importante, que estava guardado para ele no terreirinho das árvores bravas” (idem, p. 390391). Neste ponto, há uma indicação importante a ser ressaltada: o conto “As Margens da Alegria” desenvolve-se em um ritmo de expansão. Do início para a metade da estória observase uma profusão de vivências que estão sendo experimentadas pelo Menino. São tão variadas as sensações, que o garoto consegue absorver todas elas. Os acontecimentos se sucedem, sem qualquer contenção. O ritmo se rege pelo excesso, muitas imagens na mente infantil, que 45 povoam sua imaginação em expansão. Porém, figura nesta profusão de descobertas o peru que o Menino quer reter para si. É a imagem da eternidade que quer se resguardada pelo Menino. Mas ao se revelar a perda do objeto de desejo maior da criança, toda a atmosfera do conto muda completamente: a expansão desmedida da alegria sem limites é margeada pelo fato que nada é para sempre. “Tudo perdia a eternidade” (idem, p. 391). O tempo e espaço se confundem, o que não vigora, também se perde na territorialidade: “O peru – seu desaparecer no espaço” (idem). E nesta descoberta fatal, o instante que pode ser de infinda felicidade também pode revelar a face da terrível tristeza. “Só no grão nulo de um minuto, o Menino recebia em si um miligrama da morte” (idem). A partir deste momento (que se inicia ao final da terceira parte e segue até quase o final da narrativa), o espaço que anteriormente era tão agradável ao Menino se transforma em hostil. A paisagem que ele agora vê do passeio de Jeep muda totalmente. Ele olha pela lente da tristeza e assim tudo se torna de tonalidade acinzentada. Entre a felicidade e a desilusão, o Menino pressente que a vida vai pender sempre mais para tristeza. Delimitada sempre será a alegria, margeada pelos momentos de perda e de dor. Conforme o fim do conto vai se anunciando, mais se agudiza a tristeza do Menino. No sentido primordial da existência, o pensamento do Menino ainda não consegue entender bem as emoções experimentadas. O anoitecer aprofunda mais a tristeza. Mas existe algo no coração do Menino que o faz crescer em alma. O mundo, não se pode conter, como também a permanência do peru. Todas as coisas se esvaem, se perdem na dimensão do tempo. Chega-se também ao final do conto com a sensação de fugacidade, de efemeridade da vida. Esta sensação fica fortemente marcada na figura do vaga-lume. O instante é que importa para ser vivido, não há como guardar todas as experiências e se viver somente pela vivência delas. E também dificilmente se poderá rastrear o futuro, para descobrir indicações do que acontecerá. Passado e futuro perdem o sentido, o tempo para na existência fugaz de um Menino que olha o piscar verde de um vaga-lume. É somente no tempo da infância que se pode aproveitar em totalidade a preciosidade do instante, deliciar-se com o efêmero. A eternidade, então, se circunscreve no breve instante 46 do agora. E a narrativa se abre para dar a possibilidade de tocar novamente na margem da alegria. “Era, outra vez em quando, a Alegria” (idem, p. 392). O conto inicial das Primeiras Estórias também descortina vivências possíveis de serem aproveitadas a cada linha da narrativa. É a experiência da infância em sua expressão maior. A alegoria do vaga-lume sobre as trevas pode também representar o livro que ainda é uma incógnita, mas que pode se deixar conduzir pela mão das indagações infantis a respeito da realidade, sem muitas amarras ou ideias pré-estabelecidas. O conto funciona, então, como preparação para este leitor que irá caminhar pelas demais narrativas do livro. O espírito deve ser como o de uma criança em viagem para um lugar desconhecido, repleta por uma curiosidade acerbada. A narrativa termina, mas não se completa. Existem muitos lances a serem jogados, possibilidades inúmeras de se desvelar o sentido da estória, o sentido da vida. A alegria está próxima, na margem dos acontecimentos, mas a todo momento ela pode se esvair. A sensação é que somente se pode tocar nas margens da alegria, enquanto se viaja no rio da existência. Ou como nas palavras de Heráclito: “O tempo da vida é uma criança, criando, jogando o jogo de pedras; vigência da criança” (HERÁCLITO, 2000, p. 83). No jogo da narrativa de “As Margens da Alegria”, Rosa brinca com as circunstâncias da história que é delineada temporalmente, transpondo para o real um jogo que também pode ser brincado na possibilidade do instante. É como o momento da brincadeira infantil, efêmero e intenso, vivido no prazer da constante descoberta. Guimarães Rosa cria uma expressão verbal profunda na qual a palavra assume um feixe de significações. Buscando traduzir a perspectiva infantil, vê despontar um mundo novo e desconhecido, faz associações raras, emprega metáforas lúdicas, cria palavras e expressões surpreendentes. Inaugura processos de invenção fundamentados nos processos da língua por meio de recursos linguísticos parassintáticos e aglutinadores, entre outros. Rosa modifica o sentido usual das palavras e deixa de atrelar, ao repentino, os modos abruptos que geralmente lhe são atribuídos. Uma mansidão doce vem repentinamente. O fluxo do desejo não precisa se opor à vida. Revela-se, então, uma linha de fuga criadora que traz consigo toda a poesia, toda a leveza da infância da palavra. No fluxo da vida, o menino experimentava infantil e intensamente o instante: “E as coisas vinham docemente de repente, seguindo harmonia prévia, benfazeja, em movimentos concordantes: as satisfações antes da 47 consciência das necessidades” (idem, p. 389). 1.7.2- A absoluta leveza nos Cimos “Outra era a vez” (ROSA, 1994, p. 509). Assim se inicia o conto “Os Cimos”, o derradeiro de Primeiras Estórias. Desde seu começo, anuncia uma relação com a estória primeira na sucessão dos contos do livro. É uma vez que se anuncia, mas que não se mostra circunstancialmente igual, apesar da aparente similitude com o conto “As Margens da Alegria”. O conto é um prelúdio da ausência e do temor. O Menino segue com o Tio para a mesma cidade em construção, mas desta vez por motivos bastante adversos. A sombra da doença da Mãe perpassa as preocupações infantis. A ansiedade que move a narrativa é diferenciada da que aparece na “Margens”: enquanto esta é gerada pela excitação frente ao novo, pela “espantosa felicidade”, em “Os Cimos” são o medo e “derradeira tristeza” que geram a ansiedade. Um índice importante neste conto, que guiará as circunstâncias da narrativa, é o bonequinho-macaquinho que acompanha a viagem do Menino. Um brinquedo que representa a presença da vida deixada para trás, como referência maior de aconchego, enquanto o Menino estiver solitário nesta viagem para o desconhecido. Neste sentido, o que se desconhece é a conclusão do mal que o aflige, que pode ser resolvido satisfatoriamente ou não. Assim como o brinquedo que acompanha o Menino, existem vários elementos que reforçam a ideia de contenção que estrutura esta estória. Tudo é guardado, a começar pela lembrança da Mãe até o pequeno macaco que ele leva no bolso, materialização desta recordação doce de quem se ama muito. “E o menino estava muito dentro dele mesmo, em algum cantinho de si” (idem). Necessário se faz conter a mãe no tempo e no espaço, para que ela não se vá. Este movimento se assemelha muito com a atitude do Menino frente ao peru da primeira estória. O tempo, que estava em movimento em “As Margens da Alegria”, se configura parado, imóvel, lento em “Os Cimos”. Tudo se demorava na tristeza do garoto. E a contenção mais uma vez ocorre, desta vez com relação ao tempo: precisa ser detido para que nada de 48 ruim possa vir a acontecer. A mobilidade de ambiente no avião do conto primeiro paralisa as ações de afastamento do lugar referência, onde está o objeto do desejo do Menino. “O avião não cessava de atravessar a claridade enorme, ele voava o voo – que parecia estar parado... O menino sofria sofreado. O avião então estivesse parado voando – e voltando para trás, mais, e ele junto com a Mãe, do modo que nem soubera, antes, que o assim era possível” (idem). A narrativa pesa, na circunstância da dor da criança, que quer que tudo fique resguardado, que as situações não fujam de seu domínio. Este clima se diferencia totalmente do clima inicial de “As Margens da Alegria”. Diferentemente daquele, neste conto as experiências se expandem, os fatos se sucedem num ritmo colorido de felicidade. O Menino não quer guardar nada para si, as vivências são experimentadas em profusão. No caso do conto “Os cimos”, que fecha as Primeiras Estórias, há uma força que o Menino imprime às situações, para agarrar-se a elas. Nem o brinquedo é permitido, já que nessa distração as coisas ruins poderiam já estar se armando. O universo infantil fica contido e todos os seus esforços se resumem na retenção do tempo e de seus sentimentos. “O calado, o escuro, a casa, a noite- tudo caminhava devagar, para o outro dia. Ainda que a gente quisesse, nada podia parar, nem voltar para trás, para que a gente já sabia, e de que gostava” (idem, p. 510). A narrativa se constrói em direção a uma terminalidade, uma finalização. Como na vida, a estória também caminha inexoravelmente para a morte. Por isso a lentidão do tempo narrativo, que não quer passar, representado no desejo do Menino de fazer que os fatos fiquem contidos, numa suspensão temporal. Sabe-se, porém, que o final é inevitável, conforme as páginas vão passando, o livro segue a seu termo derradeiro. O conflito se desdobra no micro-espaço da experiência do menino que vivencia o contato com a possível perda. É a travessia, exigida pela experiência, que gera a coexistência da alegria e da tristeza daqueles instantes. A alegria que sentira o menino por ter atravessado uma experiência de novidade, reveste-se, agora, de uma intensa tristeza por saber que a experiência não pode ser repetida da mesma maneira. O que resta ao Menino nesta dura experiência de falta é o amadurecimento, já pressentido no primeiro conto, na circunstância da perda do peru. Só que desta vez, o motivo toma dimensões muito maiores: a dor pela possível perda da Mãe transforma a visão de mundo do Menino, que observa e reproduz as experiências de gente grande, ganhando uma “claridade de juízo” (idem). Neste ponto, começa a se delinear uma leveza que foi 49 anteriormente só sutilmente apontada, como na figura da pluma do chapéu do bonequinhomacaquinho. O raiar de um novo dia, prenuncia uma positividade estranha até esta parte da estória. O Menino vai descobrir o gosto daquilo que ainda não tinha experimentado, uma expectativa pelo não esperado. “Se não se espera, não se encontra o inesperado, sendo sem caminho de encontro nem vias de acesso” (HERÁCLITO, 2000, p. 57) O fragmento de Heráclito demonstra uma lógica que parece ser contraditória, mas que resguarda um sentido próprio da esperança no espírito infantil, um sentido novo e inaugural. O inesperado para o Menino de “Os Cimos” é algo que não pode ser esperado, pois o que está inscrito na superfície do conto é o desenrolar para um final infeliz para o garoto. Mas esta configuração se move na superficialidade dos fatos narrados, pois existem índices que assomam da história mais profunda da narrativa que remetem a um laivo de esperança (como a gravata verde do Tio, no início do conto). Desta maneira, abre-se espaço para uma visão diferenciada do conto, que vai se afirmando cada vez mais, a partir do episódio de encontro com o tucano, ao alvorecer. O episódio que se repetirá para o Menino, até a sua partida, consolará sua rotina entristecida. Toda manhã ele irá rever o tucano, ave que se alimenta de frutinhas nos cimos das árvores denominadas “tucaneiras”. É um momento mágico, que devolve as cores ao conto que até este momento pintava-se de tons escurecidos. E assim o Menino conseguia esquecer, por instantes, o sentimento que o aprisionava. Mas o tucano, sem falta, tinha sua soência de sobrevir, todos ali o conheciam, no pintar da aurora. Fazia mais de um mês que isso principiara. Primeiro, aparecera por lá uma bandada de uns trinta deles vozeantes, mas sendo de-dia, entre dez e onze horas. Só aquele ficara, porém para cada amanhecer. Com os olhos tardos tontos de sono, o bonequinho macaquinho em bolso, o Menino apressuradamente se levantava e descia ao alpendre, animoso de amar (ROSA, 512, 1994). Este instante retoma o sentido de fugacidade gerada pela aparição do vaga-lume, no primeiro conto do livro. Um átimo de tempo que necessita ser apreciado. “E, de olhos arregaçados, o Menino, sem nem poder segurar para si o embevecido instante, só nos silêncios de um-dois-três” (ROSA, 1994, p. 513). Nos cimos das tucaneiras, o Menino pode se libertar das limitações que vêm se impondo, desde a partida que o separou da Mãe. Há um movimento de descentramento, em 50 que ele se volta para o outro, liberando a carga de tristeza que carrega até este momento. Encontra uma arma contra a dor, contra o peso da vida que marcha para um triste desenlace. A libertação ocorre pela possibilidade do lúdico, da vivência de uma situação que se repete todos os dias e que não revela qualquer utilidade. Os instantes contemplando o voo leve do tucano fazem que o Menino possa voltar ao prazer de se sentir existindo. O desapego às circunstâncias negativas é possível, o momento ante o espetáculo do amanhecer, prenunciando a aurora de um tempo, se move contra a fixidez, contra os fatos já estabelecidos. Não se pode regular o tempo, impedir que situações adversas possam ocorrer. Para todos, como para o fio da narrativa, há um destino de que não se pode fugir. A morte inevitável pode, porém, ser encarada sob outro prisma, como o da renovação. No ciclo da vida é necessário que algo feneça para que outros possam nascer. Na estória de Guimarães Rosa, o final da narrativa anuncia muitas outras estórias que podem ser escritas na memória do leitor. Da penúltima para a última parte do conto, a sensação de liberdade fica cada vez mais forte. Mesmo sem saber o que acontecerá à mãe, o Menino pode saborear os instantes de leveza no espetáculo do amanhecer. O pássaro representa o dia, a esperança da alegria, que começa a ser tocada, novamente. A contenção é abandonada gradativamente, até que é completamente descartada, quando o Menino perde o seu bonequinho-macaquinho. O coração dele pode transbordar novamente, voltando o sentimento de expansão do conto “As Margens da Alegria”. O Menino pode novamente viver diferenciadas sensações simultâneas, ao recordar as boas lembranças, as únicas que ficam daquela viagem que iniciara tão tristonha. Só na dimensão infantil, então, na dimensão” marginal” da meninice (e da velhice, e da loucura...) em que vige apenas uma lógica (do) eventual, é possível encontrar o sentido momentâneo da existência, entender a sua precariedade em que a morte está de casa: é por isso que a primeira e a última estória nos colocam diante de uma criança aprendendo a viver através da morte, identificando-se e crescendo através do sofrimento e da perda” (FINAZZI-AGRÒ, 2001, p. 65) Desta forma termina a narrativa, e também o livro das Primeiras Estórias. Mas a vida continua. “A vida mesmo, nunca parava” (idem). Descortina-se a possibilidade de outro “era uma vez”, abrindo-se para o espaço do não contido, peculiar característica das obras de Guimarães Rosa. Pistas novas são dadas para revelar o caminho que pode ser traçado pelo 51 leitor, assim como no caminho da vida. É por esta razão que o espírito infantil de curiosidade e de disponibilidade para o novo é referenciado nestes dois contos de Primeiras Estórias. Pode-se também imprimir na narrativa ficcional este sentido de novidade, de renovação, muito próprio do infantil. Assim, a passagem do tempo que não quer se esvair em “Os Cimos” não é uma retenção, mas uma possibilidade de renovação, de retorno ao início. Os significados dançam nas palavras das duas estórias, revelando a mobilidade de sentidos de um conto ao outro. Perde-se a noção dos limites: o livro que começa com as “margens”, termina com os “cimos”, um voo para o infinito. Então, o conto que se constrói na ideia de expansão é paradoxalmente intitulado por margens; já a estória que funciona na contenção pode se abrir para as alturas dos cimos. Dessa forma, Guimarães Rosa incita no leitor o desejo da criação, do voo existencial e literário. Sua escrita não se limita à significação do que está impresso nas linhas narrativas. É uma atitude de uma percepção maior, quase uma recriação. No entrecruzar das linhas escritas, encontram-se as possibilidades de novos caminhos. Ao ler as estórias de Rosa, faz-se a travessia da língua e do microcosmo da linguagem, língua e cosmo que se intercruzam, sobretudo, nos detalhes – desde a aposição de um prefixo ou a colocação indevida de um acento até a sonoridade de uma nova palavra. A escrita rosiana instala nos detalhes aparentemente sem importância efeitos surpreendentes. Rosa inventa uma nova língua mais expressiva, em que as palavras readquiram significados encobertos pelo uso. O lugar da infância do menino é um espaço não cristalizado, é móvel. O menino parece aqui estar num espaço do conhecimento que não se coloca enquadrado no âmbito das representações, que se afasta da dimensão adulta de um saber construído para explicar, posteriormente, algo já dito. É o espaço da experiência infantil, da criança que sente os instantes com toda a intensidade possível. Nada que possa ser informado atrairá mais o menino do aquilo que ele pode experimentar. Guimarães Rosa, ao inventar o menino, inventa também, sob pressão do não representável, expressões novas, tentativas linguísticas de dizer um saber ainda não convencionalizado. É a infância que é representada por esse menino. Uma infância sem nome, sem individualidade, mas com voz e presença. Uma infância ligada às sensações simples do cotidiano. É que Rosa também representa o tempo de maneira infantil, em sua efemeridade, traduzindo-se no voo do vaga-lume. Um inseto que, na sua brincadeira de luzir, alterna luz e 52 sombra. Entre a alternância de claro e escuro demonstra a alegria e a tristeza de uma infância que atravessa um menino e também o seu leitor. 53 CAPÍTULO II – ITINERÁRIOS NA LITERATURA: DAS LINGUAGENS SOBRE UMA INFÂNCIA À INFÂNCIA DA LINGUAGEM A forma de perceber e pensar a infância influi nas atitudes que os adultos adotam em sua relação com as crianças. Assim, o que se escreve sobre a criança, a partir das concepções criadas da infância, também acaba incidindo sobre a produção literária para as crianças. Nessa perspectiva, a literatura sobre a infância, por vezes destinada às crianças, valoriza um conteúdo permeado pela exemplaridade e referência da visão do adulto. A criança delineada nas narrativas está prisioneira de um projeto futuro, negada em um presente narrativo e suas ações orientadas pela censura e pelos fatos passados. Na história da literatura sobre/para crianças criou-se um estereótipo que cristaliza este sentido programático voltado para a infância. A relação do adulto com sua própria infância ou com a de outrem, mas que de alguma forma está distanciada de seu observador, carrega uma configuração ambígua, e isso se expressa quando se tenta materializar uma imagem cristalizada da criança/infância na escrita literária. Este encontra nela uma antiga forma do seu eu, da qual frequentemente se sente saudoso. A criança representa um estado original onde todas as possibilidades estavam abertas. Retornar a sua infância é uma tentativa de escapar ao desenrolar do tempo, ao aprisionamento dos papéis sociais, é sonhar com um re-nascimento. A criança é também o único ser que podemos criar, que gostaríamos de logo modelar para nos prolongar e compensar aquilo que nos faltou. Mas irresistivelmente, ela assume sua autonomia e nos repele em direção a gerações desaparecidas (LAUWE, 1991, p. 2). A memória do tempo da infância funciona, então, como uma tentativa de conciliar o passado com o futuro, produção mediada pelo presente de quem escreve/lê. Nesta forma de representar a infância, tenta se ocultar a tensão dos dois extremos temporais. Porém, esta aproximação de fato jamais poderá acontecer, já que esta representação da criança assume uma forma idealizada, às vezes pincelada por tons dóceis e ingênuos, por outras carregada de cores negativas, sobretudo quando se trata da criança inquieta e insubmissa. Ao estabelecer a relação entre infância e literatura, reconhece-se de que modo se costuma realizar a inserção da criança no tecido social. Nesse sentido, a literatura assume o papel de veículo criador e socializador da linguagem e dos valores que identificam e 54 distinguem a pessoa. Uma das formas de entendimento do caráter humano é a afirmação de uma origem, de uma infância. Assim, quando a ideia de infância surge no cenário ocidental, juntamente com os conceitos modernos de família e de escola, a criança ganha um papel importante na representação literária. Falar sobre e para a infância é reafirmar sua existência, assim como criar mecanismos para sua disciplinarização. O primeiro passo para que essa compreensão se estabeleça é traçar alguns elementos históricos da trajetória da literatura para a infância – onde se delineiam os condicionantes sociais que se desdobram na emancipação da modalidade de um discurso que, ao incorporar a criança, cria também a percepção do que é a infância. 2.1 – Visões da infância na literatura: uma breve história Para desenvolver o tema infância na literatura e seus fundamentos históricos, é importante considerar o conceito de criança por meio da produção literária para esse leitor. Assim, a relação entre história e literatura torna-se relevante à medida que, enquanto a reflexão histórica vai analisando a convivência social da criança em diferentes épocas, a produção literária se afirma como um dos discursos que assume a preocupação com a infância e a partir daí constrói um conceito ou imagem da criança. A literatura constrói diferentes representações da criança que circulam em várias sociedades. Como já foi visto no primeiro capítulo, a infância surge como categoria, a partir do século XVIII. Até então, não se encontra um corpus de conhecimentos, nem tampouco uma área específica de conhecimento que seja capaz de conceituar esse período de desenvolvimento humano. Não havendo conhecimento especializado, nem procedimentos específicos visando a educação, afeto e proteção das crianças, estas participavam da vida da sociedade sem que houvesse cuidados especiais às suas necessidades. Neste mesmo percurso, a literatura pouco se interessou em tematizar a infância, até o final do século XVIII. A infância aparece afastada da existência humana ou, quando ela é descrita, o é negativamente. Alguns textos excepcionais dão imagens positivas, mas somente como objeto de divertimento, de jogo. Os escritores experimentam 55 então o prazer manifestado pela criança que se diverte (LAUWE, 1991, p. 7). Na pesquisa de Lauwe, há uma investigação das representações da sociedade francesa sobre a criança, nos séculos XIX e XX, a partir da imagem da infância nas produções literárias e cinematográficas. No primeiro capítulo de seu livro Um outro mundo: a infância, Lauwe demonstra o percurso das concepções sobre a infância em alguns importantes pensadores do mundo ocidental, desde a Antiguidade. Para Aristóteles, a infância é “uma desgraça ao longo da existência”. O filósofo afirma que a infância remete às emoções irracionais, ao âmbito do desejo. No século V, Agostinho, ao discorrer sobre o “peso do pecado original no início da vida”, enfatiza o caráter de imperfeição da infância. Em Descartes, a “infância é um erro” (p.8). Esta concepção muda bastante, como já visto, com o advento da burguesia e a propagação dos ideais iluministas, principalmente em Rousseau. Por volta de 1850, a personagem infantil aparece de maneira decisiva na literatura. “Os homens descobrem que não existe apenas uma maneira de ser humano, o adulto perde seu prestígio de modelo único” (p.9). Nesta época, os contos populares medievais ganharam versões direcionadas ao público infantil, sendo expoentes nessa época os irmãos Grimm com suas histórias de contos de fadas. Paralelamente, muitos autores escrevem sobre sua infância, reconstruindo uma imagem que desejavam, ou “queixavam-se daquilo que sua infância não foi ou o que ela deveria ter sido, em referência a um momento ideal implícito ou explícito” (LAUWE, 1991, p.10). As primeiras obras destinadas ao público infantil foram publicadas no início do século XVIII; porém, antes disto, durante o classicismo francês, no século XVII, foram escritas algumas obras que viriam a ser incorporadas também como literatura infantil, das quais se pode citar: Fábulas, de La Fontaine (1668-1694), As aventuras de Telêmaco, de Fénelon (lançadas, postumamente, em 1717) e Contos da Mamãe Gansa, de Charles Perrault (1697) (LAJOLO & ZILBERMAN, 1999). Deste modo, pode-se afirmar que o surgimento da literatura infantil está relacionado à constituição de uma nova mentalidade a respeito das crianças, que surge no conceito de infância que se consolidou a partir do século XVII. Charles Perrault, considerado uma pessoa importante nos meios intelectuais franceses, não quis a assinar a primeira edição de Contos da Mamãe Gansa, dando a autoria a seu filho mais moço. Todavia, o livro é dedicado ao delfim da França – país que, por ter um rei ainda 56 criança, é governado por um príncipe regente. Essas situações explicitam como a literatura destinada às crianças tinha uma caráter ambivalente desde o início, pois o gênero denominado “infantil” sempre encontrou dificuldades de legitimação, apesar de muito veiculado na época. Perrault não é somente o responsável pela propagação da literatura infantil, também reuniu as obras de La Fontaine e Fénelon. Seu livro, a partir da publicação de uma produção até então de natureza popular e circulação oral, populariza os contos de fadas como uma literatura identificada com as leituras infantis (LAJOLO & ZILBERMAN, 1999). O surgimento da indústria de literatura infantil fez parte do processo que Ariès denominou a invenção da infância, ou seja, a definição da infância como uma etapa distinta da vida, com determinadas especificidades. Seguindo a linha do cuidado e da moralização decorrentes do surgimento da ideia de infância, no início do século XIX os interesses do leitor infantil eram reconhecidos somente com o objetivo de imposição de regras e hábitos, gerando uma literatura infantil marcadamente pedagógica. A transposição dos contos de fadas da tradição oral para a literatura infantil demonstra como os contos de Perrault foram reformulados para destacar a moral vigente, pois queriam atender às exigências da sociedade do século XVII (LYONS, 2002, p.167). Esse processo de transformação dos textos seguiu sendo adotado pelas casas editoras, sempre com uma preocupação em retirar histórias que mostrassem uma conduta inadequada, violência ou sexualidade explícita. Segundo Lyons, a classe média emergente do século XIX identificavam na leitura uma possibilidade de ascensão social. A leitura passou a ser “ponto central no ethos do progresso pessoal” (2002, p. 170). Assim, a educação através da literatura assumiu um papel de destaque nas práticas de formação do indivíduo, ganhando importância na educação das crianças. Tais representações estavam relacionadas a uma visão utilitarista da leitura que se fortalecia na época. A literatura infantil e a escola estão ligadas desde o começo, já que a aprendizagem depende da capacidade de leitura das crianças, colocando-se em um patamar submisso às práticas educativas (LAJOLO & ZILBERMAN, 1999). Assim sendo, a literatura infantil é marcada, em sua história, por determinadas convenções e práticas que se remetem às representações que os adultos, de um determinado contexto sócio-histórico, entendem como adequadas para as crianças. Em suas pesquisas no campo da infância, Ana Maria Clark Peres não deixa de salientar a inadequação e a imposição de “valores” a que se veem submetidas as crianças, sem 57 que sejam oferecidas prerrogativas às suas necessidades, impulsos ou desejos: “Com base nas pesquisas da área, o autor e o crítico-educador encontram, frequentemente, bases sólidas para a transmissão de normas. Instituem-se saberes, criam-se dogmas: muitas certezas e praticamente nenhuma dúvida quando se trata de afirmar o que é melhor para a infância” (PERES, 1999, p. 170-171). Os irmãos Grimm se empenharam em dar uma caráter mais dócil e menos cruel aos contos populares recolhidos por Perrault. Dessa forma, suavizaram o conflito entre pais e filhos: na versão de João e Maria, não é o casal de pais que os expulsa, mas há a introdução de um pai compreensivo e, na 4ª edição, a figura da madrasta substitui a mãe. Também suprimem as histórias que insinuam que o crime compensa - como no caso do Gato de Botas – e utilizam vários componentes que se repetem, como a presença das lindas princesas, dos caçadores simpáticos, das fadas, entre outros, assim como intensificação dos castigos para os personagens maus. Entende-se, a partir desses exemplos, que, desde os seus primórdios, a literatura voltada para as crianças surge como uma forma literária menor. Tal concepção está intrinsecamente relacionada à ideia do infantil como menor, como aquele que necessita de um desenvolvimento para ser completo. O literário, assim, é somente um caminho para atingir uma finalidade educativa extrínseca ao texto propriamente dito, reafirmando um conceito, já do século XVIII, de A.C. Baumgartner de que ‘a literatura infantil é primeiramente um problema pedagógico, e não literário’” (p. 7). Desta maneira, em sua maior parte, o texto literário infantil visa, sobretudo, que a criança possa se desenvolver na leitura, tutelada pela ação do adulto. A infância trata-se de uma instância menor, anterior à desejada e definidora adultez. O crescimento, este sim, apresenta-se repleto de possibilidades e expectativas de êxito rumo ao posterior plano da maioridade buscada. O adjetivo infantil, dessa maneira, origina uma diminuição do valor artístico da obra, como se, por sua destinação, essa se constituísse uma produção cultural inferior. Chartier, ao analisar os textos ‘populares’, demonstra algumas das estratégias para a transformação dos textos: encurtamento de sentenças e parágrafos, simplificações da linguagem, eliminação de capítulos, fragmentação de capítulos, censura ao que era considerado inadequado, acréscimo de notas, resumos ou títulos, entre outras (2001, p. 210). Assim, recriava-se uma obra para um leitor que, segundo a concepção da época, precisava de uma facilitação do que estava escrito na narrativa. Em outro sentido, para este leitor, não era valorizado o cuidado na elaboração da 58 obra, sendo possível o aparecimento de erros de impressão, clichês e trocas de palavras. O leitor dos livros populares lia de um jeito descontínuo, fragmentado, que, aparentemente, se acomodava às incoerências e lacunas do texto. Outra estratégia utilizada era o uso de ilustrações, as quais, muitas vezes, não tinham relação nenhuma com o texto ou com as intenções do autor, assim como a utilização de repetições de temas. Tudo isto era utilizado para produzir uma compreensão do que se lia, mesmo que esta compreensão estivesse longe do pretendido pelo autor ou editor do livro. Este aspecto relacionado a uma menoridade da literatura infantil é um ponto fundamental pois esta noção implica uma desqualificação da produção literária destinada às crianças. 2.1.1 - A infância na literatura brasileira – o papel da memória na reconstituição da infância Nos últimos cem anos, a Literatura Brasileira tem acumulado um grande acervo de literatura infantil, muitas vezes de cunho memorialista. Há desde obras de escrita autobiográfica até narrativas que envolvem crítica ou que se utilizam da ironia para realizar esta crítica (como as obras de Monteiro Lobato que tratam de memórias). No primeiro caso, as escritas sobre a infância têm dado uma contribuição no sentido de se conhecer a história das mentalidades no Brasil, como também para se analisarem as transformações que ocorreram na escrita sobre a infância no decorrer dos tempos. Já no segundo caso, o que se tenta é uma reformulação da literatura escrita para as crianças, tentando subverter o discurso mais tradicional e de caráter pedagógico. Mas isso nem sempre ocorre. De início, as histórias que envolviam a infância, abordadas a partir da visão memorialística de um adulto, insistiam na veracidade das memórias, valendo-se do texto como um depositário de lembranças referenciais e objetivas. A tradução de Cuore do autor italiano De Amicis foi bastante divulgada no fim do século XIX e constituiu o primeiro exemplo de literatura infantil memorialística, de caráter instrutivo. Narrada em primeira pessoa, sob a forma de diário, tal narrativa apresenta uma sucessão de episódios que transcorrem em ambiente doméstico e escolar. Neste relato que se propõe como de uma 59 verdade passada na vida de um menino, verifica-se a pretensão de ensinar o respeito e amor aos mais velhos e à pátria, sendo a questão da nacionalidade bastante valorizada (LAJOLO, ZILBERMAN, 1988, p. 33). Podemos constatar, a partir desta época, que os textos que falam sobre as reminiscências de uma infância também apontam para pedagogização da leitura, assim como para a valorização do cenário onde os protagonistas passaram sua infância, relevando-lhes a origem e exaltando-lhes a identidade nacional e/ou regional. A presença de uma personagem infantil é um dos procedimentos mais comuns da literatura infantil. A imagem da criança em tais textos é formatada conforme a lição que se quer passar na narrativa. E mais o contundente é essa adequação da personalidade da personagem quando o texto é de caráter autobiográfico com a utilização de um personagem/narrador: A presença de um protagonista criança é um dos procedimentos mais comuns da literatura infantil. Via de regra, a imagem da criança presente em textos dessa época é estereotipada, quer como virtuosa e de comportamento exemplar, quer como negligente e cruel. Além de estereotipada, essa imagem é anacrônica em relação ao que a psicologia da época afirmava a respeito da criança (LAJOLO, ZILBERMAN, 1988, p. 34). Em textos cuja produção não estivesse necessariamente voltada para a recepção infantil, podemos também detectar uma escrita sobre a infância preocupada com a orientação por interesses que controlam a escrita da memória. Como exemplo observamos o livro Memórias de Taunay, em que o narrador relata em sua história pessoal fatos que ocorreram na política e na sociedade da época. Nesta forma de contextualização da infância em um universo histórico, ressalta a intenção de se objetivar o texto passado, impregnando a escrita da infância de elementos referenciais. As Memórias representam uma infância descrita como um tempo de felicidade, e, ao mesmo tempo, de formação cultural daquele que cresce e se identifica com os valores do Império. Os privilégios concedidos pelo convívio com a família imperial são decisivos para a formação do narrador protagonista, num tempo em que os sinais de mudança política assinalavam uma nova ordem. Taunay relata alguns conflitos quando criança, quase sempre resolvidos pelo pai e/ou o Imperador. Todavia, o menino considerava-se, na maioria desses episódios de conflito ou 60 tensão, superior aos que lhe contrapunham as opiniões. Os pais, além de privilegiarem a harmonia doméstica, são responsáveis por uma educação rígida centrada nos estudos e na disciplina do corpo, treinando o menino para o trabalho intelectual. A educação é um dos pontos mais importantes dessa parte das Memórias, sendo decisiva para que se possa compreender a dimensão de um certo tipo de violência paterna, que o obrigaria a estudar horas e horas, até alcançar o máximo de rendimento. Nesse tempo de Jurujuba, já estava eu às voltas com os estudos, começando o do latim na História Sagrada, de Lhommd. O tal Epítome, apesar de toda a simplicidade mais que elementar, dava-me trabalho enorme, provocando da parte de meu pai contínuas recriminações, no meio de exclamações de cólera e indignação - “Tu n’es qu’un imbécile!” era afirmação que voltava a cada instante. Às vezes a lição interrompia-se com as minhas lágrimas, e minha Mãe vinha, com toda a solicitude, procurar ajudar-me (TAUNAY, 2005, p. 12). Como já dito anteriormente, Rousseau apontou para a compreensão e difusão da “ideia da infância como felicidade”, considerada uma novidade na Europa, em fins do século XVIII. Taunay, de uma forma bastante peculiar, vale-se de estratégias textuais para que a infância, recordada como felicidade plena, esteja vinculada à construção de um sujeito completo e feliz. E essa condição é obtida pelo esforço nos estudos e na procura por uma índole saudável e disciplinada. Paralelamente a esta preocupação de se escrever literariamente uma infância pretensamente realista, a Literatura Brasileira está povoada de vários exemplos de uma perspectiva nostálgica do tempo passado, reafirmando uma visão idealizada da criança, tendência esta verificável inclusive na atualidade. Como exemplo máximo desta tendência, podemos destacar o poema “Meus Oito Anos”, de Casimiro de Abreu. O idealismo que permeia a produção literária dessa época vê na fuga para a infância um modo de representação do espírito romântico do século XIX. A infância assim representada revela um espaço distante e até estranho ao adulto que precisou abandonar a vida de “cores” e “amores”. É a fase da vida idílica, aquela a que todos querem retornar, mas que, infelizmente, não é mais possível. Oh ! Que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras, À sombra das bananeiras, 61 Debaixo dos laranjais! (ABREU, s.d., p. 19) Durante o romantismo, esse mito da infância assoma como nacional, ultrapassando o plano individual e revela a força da imagem primitiva, pela qual, mais uma vez, a criança e o povo vão ser positivamente assimilados, por um momento. A linguagem que a expressa corresponde à exposição de desejo numa sociedade de contornos rígidos e estreitos, de normas que a constrangem e impedem a emergência do espontâneo, do natural (LAJOLO, ZILBERMAN, 1988, p. 43-44). Uma escrita memorialista que oferece versões diversas de uma mesma vida, procurando integrar os fragmentos passados, alternando os pontos de vista de um mesmo eunarrador é o romance Menino de Engenho, de José Lins do Rego. A infância de Carlinhos, protagonista desse romance, estava "dividida" entre o "bem e o mal", ou seja, na companhia de sua tia seu comportamento era mais terno, já quando convivia com os primos era extrovertido e libertino. Com a morte de Lili, tia Maria ficou toda em cuidados comigo. Proibiu-me da liberdade que eu andava gozando como um libertino. Passava o dia a me ensinar as letras. Os meus primos, esses, ninguém podia com eles (REGO, 2001, p. 46). Nessas memórias infantis, a visão tende para uma idealização em tons de saudade, melancolia e dores. Muitas outras narrativas seguiram este modelo de idealização, que por um lado demonstrava o ser criança como a fase mais desditosa da vida e por outro revelava as agressões que o infante sofria, por estar numa situação de submissão e, portanto, em desvantagem com relação ao poder adulto. Neste último caso a valorização ocorria justamente na contraposição de forças, que revelava a criança como o lado mais frágil e que, por isso, deveria estar alheia aos sofrimentos que lhe impigem. Há um estado nostálgico, melancólico nesse livro de um menino abandonado. José Aderaldo Castello sublinhou lucidamente esse aspecto, de uma tristeza difusa, de uma profunda saudade. A evocação da infância termina com a ida para o colégio (VILLAÇA, 2001, p. 25). Em outros autores que escreveram sobre a infância em forma de recordação podemos encontrar um narrador, mesmo que adulto, contando suas experiências infantis com a voz e o olhar voltados para o menino que participa das ações. A linguagem então toma outro fio narrativo, e o léxico contribui para uma discussão mais profunda em torno das memórias 62 infantis. Graciliano Ramos soube relatar suas recordações de maneira dramática, do ponto de vista do menino que ele foi e que aparece ficcionalmente representado em seu romance Infância. Nesse romance, o narrador produz o seu discurso sob o influxo da traumática experiência da criança que é tão vítima das interdições paternas quanto das interdições e despreparo da escola. O foco se desloca e traduz a perspectiva do menino. A adoção da perspectiva infantil, possibilita ao narrador diminuir a distância entre o menino que foi e o adulto que relata suas reminiscências. No livro há uma exposição das impressões do menino em sua formação. O narrador procede como um mediador, cuja principal qualidade é a de construir a narrativa de forma nebulosa e fragmentada em correspondência com o caráter impreciso e lacunar da memória. Trata-se, então, de um personagem-narrador rememorando experiência vivida no passado a um leitor no presente, e essa narrativa é possibilitada pela sua inclusão numa relação tensa entre passado/presente e delimitada em um pacto de credibilidade para com o leitor. Datam desse tempo as minhas mais antigas recordações do ambiente onde me desenvolvi como um pequeno animal. Até então algumas pessoas, ou fragmentos de pessoas, tinham-se manifestado, mas para bem dizer viviam fora do espaço. Começaram pouco a pouco a localizar-se, o que me transtornou. Apareceram lugares imprecisos, e entre eles não havia continuidade. Pontos nebulosos, ilhas esvoaçando no universo vazio (RAMOS, 1975, p. 12). Os acontecimentos que compõem a narrativa ocorrem em um contexto onde, à criança, não é permitido sequer tomar parte das conversas dos adultos e muito pouco é revelado pelas palavras. As lembranças, quase sempre dolorosas, correm fundo nos silêncios do menino, produzidos na linguagem lacônica, lacunar, com elipses que parecem propositalmente construídas, para desafiar a participação crítica do leitor. A notícia veio de supetão: iam meter-me na escola. Já haviam falado nisso, mas nunca me convencera de que realizassem a ameaça. A escola, segundo informações dignas de crédito, era um lugar para onde enviavam as crianças rebeldes. Eu me comportava direito: encolhido, morno, deslizava como sombra. As minhas brincadeiras eram silenciosas. E nem me afoitava a incomodar as pessoas grandes com perguntas (Idem, p. 111). Há o entendimento, então, de que a memória do escritor não recuperou os fatos 63 exatamente como aconteceram, pois não seria isso possível, dada a distância temporal entre o momento em que os fatos ocorreram e o momento em que estão sendo rememorados por meio da escritura. Mesmo que, no trabalho de rememoração, haja lapsos e omissões, não deixa de ser possível a retomada de alguns fatos, ainda que o mais plausível seja a recriação sobre o vivido. Não há a necessidade de uma similitude total entre o escritor que rememora os fatos e o personagem da narração que os viveu no período da infância ou da adolescência. Contudo, há várias semelhanças que merecem e podem ser consideradas. É o pensamento também do narrador de Infância ao iniciar o relato dos primeiros acontecimentos da vida evocados pela lembrança: A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta. Ignoro onde vi, quando o vi, e se uma parte do caso remoto não desaguasse noutro posterior, julgá-lo-ia sonho. Talvez nem me recorde bem do vaso: é possível que a imagem, brilhante e esguia, permaneça por eu ter comunicado a pessoas que a confirmaram. Assim, não conservo a lembrança de uma alfaia esquisita, mas a reprodução dela, corroborada por indivíduos que lhe fixaram o conteúdo e a forma. De qualquer modo a aparição deve ter sido real (Idem, p.7). De acordo com o que se vê no trecho acima, o narrador não parece se importar muito em apresentar argumentos que confiram credibilidade ao seu relato. Até coloca em dúvida a própria verdade dos fatos narrados. Isso indica que o pacto ficcional entre o leitor e o conteúdo narrado precisará ser elaborado por outros meios: a verossimilhança interna dos elementos da narrativa, a construção do conjunto de acontecimentos, que vão sendo introduzidos de maneira articulada, o conjunto de ideias bem construídas e, conforme tem apontado a crítica, uma espécie de impessoalidade analítica por parte do narradorpersonagem. Então o menino constrói a sua história por aquilo que vê e sente, e nesse aspecto não se verifica a presença da infância idealizada como espaço idílico que já se foi. Da mesma forma, não há uma vitimização da criança que sofre na crueza de sua vida, pois não se demonstra o julgamento do narrador, criticando as ações dos adultos que cercavam esta criança. Dessa forma, o escritor traz para o tempo da narrativa o exame de marcas da 64 experiência vivida no tempo de menino, que parecem conformar a maneira de se ver e de perceber a realidade: Ia refugiar-me, zonzo, na companhia das moças. (...). Essas moças tinha o vezo de afirmar o contrário do que desejavam. Notei a singularidade quando principiaram a elogiar o meu paletó cor de macaco. Examinavam-no sérias, achavam o pano e os aviamentos de qualidade superior, o feitio admirável. Envaideci-me: nunca havia reparado em tais vantagens. Mas os gabos se prolongaram, trouxeram-me desconfiança. Percebi afinal que elas zombavam, e não me susceptibilizei. Longe disso: julguei curiosa aquela maneira de falar pelo avesso, diferente das grosserias a que me habituara. Em geral me diziam com franqueza que a roupa não me assentava no corpo, sobrava nos sovacos. Os defeitos eram evidentes, e eu considerava estupidez virem indicá-los. Dissimulavam-se agora num jogo de palavras que encerrava malícia e bondade. Essa mistura de sentimentos incompatíveis assomorava-me e pela primeira vez ri de mim mesmo (...). Guardei a lição, conservei longos anos esse paletó. Conformado, avaliei o forro, as dobras e os pespontos das minhas ações cor de macaco. Paciência, tinham de ser assim. Ainda hoje, se fingem tolerar-me um romance, observo-lhe cuidadoso as mangas, as costuras, e vejoo como ele é realmente: chinfrim e cor de macaco (idem, p.185). Esta mudança de perspectiva sobre a infância marca um desvio da trajetória literária do regionalismo produzido até então no Brasil. Permite que, mesmo mantida a orientação do falar adulto sobre o passado infantil, a força do foco na visão da criança pese para que se estabeleça uma escrita diferenciada. Desta forma, o discurso memorialista empregado por Graciliano em Infância cede ao narrador a perspectiva infantil que tenta compreender-se como personagem infantil, com os sentimentos e percepções que esta óptica consegue elaborar. De acordo com Antonio Candido, que analisou as obras de Graciliano Ramos, o oscilar entre a ficção e a confissão foi um desdobramento necessário na arte deste autor. Cândido denomina as obras de Graciliano Ramos como livros pessoais, pois abordam a experiência do autor, mesmo que por um viés ficcional (CÂNDIDO, 1992, p. 42). No caso do livro Infância, não só são verificadas as características pessoais do autor, como também seu estilo literário é melhor compreendido: a obra lança pistas a respeito da vocação literária que desde cedo brotou no menino, assim como a persistência de um sentimento de “humilhação e machucamento” (Idem, p. 51) em muitos de seus livros. Para Cândido, aquele menino, personagem principal de Infância, é o embrião de vários outros personagens surgidos nos romances de Graciliano Ramos (Idem, p. 52). O que importa 65 é a experiência pessoal para haver a possibilidade de uma escrita. Por isso, as obras de Graciliano Ramos são tocantes, pois aliam a trama ficcional com o testemunho, conferindo uma ficcionalidade às experiências de infância do autor. “Assim, ficção e confissão constituem na obra de Graciliano Ramos polos que ligou por uma ponte, tornando-os contínuos e solidários” (Idem, p. 68, 69). Mesmo assim, na obra de Graciliano Ramos se evoca o caráter da realidade para a composição de suas memórias. As instituições sociais como a família e a escola são culpabilizadas pela infelicidade, pela impossibilidade de uma infância feliz porque limitada pela ação destas instituições. Assim, não há a realização plena da escrita literária da infância, pois, na narrativa memorialista de Graciliano, ainda se invoca a infância guiada pela força dos que se impuseram ao protagonista em sua infância, ou seja, uma experiência pessoal ainda se interpõe fortemente na ficção. Naquele tempo a escuridão se ia dissipando, vagarosa. Acordei, reuni pedaços de pessoas e de coisas, pedaços de mim mesmo que boiavam no passado confuso, articulei tudo, criei o meu pequeno mundo incoerente. Às vezes, as peças se deslocavam – e surgiam estranhas mudanças. Os objetos se tornavam irreconhecíveis, e a humanidade, feita de indivíduos que me atormentavam, perdia os característicos (RAMOS, 1974, p. 13). 2.1.2 – O tempo infantil: outras formas de rememoração da infância em Bartolomeu Campos Queirós A infância hoje vive uma série de paradoxos, difíceis de serem equacionados, pois estão presentes nas concepções sobre a infância e nas formas de agir com a criança. Um desses paradoxos relaciona-se diretamente ao tempo da criança, do limite da infância, a fase circunscrita em que se considera o ser como infante e em processo de desenvolvimento. Os conhecimentos advindos das pesquisas históricas e os pressupostos fundados pela psicologia moderna têm contribuído para delimitar a infância em uma certa temporalidade, seja ela de longa ou de curta duração. Torna-se fundamental, quando se define um tipo de infância, também localizá-la num determinado contexto, em uma temporalidade cronológica. Instala-se uma ruptura com o modo dominante de pensar a infância, e da mesma maneira em que se concebem as relações temporais . Geralmente associa-se a infância à 66 primeira idade, pois está implícito que os indivíduos passam por estágios, etapas, fases em seu desenvolvimento. Este desenvolvimento está impregnado da noção de progresso. No momento em que se pretende pensar outros modos de infância, passa-se também a construir outros modos de conceber o tempo. Os antigos gregos usavam variados termos para conceituar o tempo. Um desses termos é chrónos, a continuidade de um tempo sucessivo. A raiz das palavras cronologia, crônico e outras que remetem na língua portuguesa a Cronos; em inglês passam a chronology e chronic, como em Chronos. Vale lembrar que o radical crono-, em português, deriva do grego. khrónos = ‘tempo’ (HOUAISS, 2005). Ora, Cronos, o tempo de Cronos, é o presente, só o presente existe. Um presente extensivo, no qual o passado e o futuro fazem parte de um presente mais vasto, o presente de deus, queremos dizer, o que para nós é passado ou futuro é sempre presente para deus, em deus. O nosso tempo crónico é uma sequência de presentes limitados num presente maior, infinito. E este presente é corporal, é o tempo das misturas, da acção e das paixões (o passado e o futuro serão, assim, o resto de uma paixão no corpo) (SILVA, 2010, p. 28). Há um mundo em movimento, o mundo que se quantifica e que se denomina chrónos. Aristóteles, preocupado apenas com “este” mundo, define chrónos, sem modelo, como “o número do movimento segundo o antes e o depois” (Física IV, 220a). Cronos, então, é o tempo do número, do quantificável, que se dá nos limites. O ser em cronos é fixo, mensurável, definido em fases. Desse modo, identifica-se com a ideia de infância como primeira fase, aquela desprovida de experiência. Ser fixos é enredarmo-nos no presente, vivendo presentes entrelaçados, ser em Cronos, o que realmente parece ser o nosso estado natural, “tal sujeito tem tal grandeza, tal pequenez em tal momento” (DELEUZE, 1974, p.1). Existe também o tempo Kairós, que significa ‘medida’, ‘proporção’. É um tempo existencial, da oportunidade. Kairós é um tempo mais pessoal e tem a ver com valores e qualidades em seu uso (LIDDELL, SCOTT, 1966, p. 859). Um outro termo relacionado a tempo é Aión, que designa a intensidade do tempo da vida humana, um destino, uma duração, uma temporalidade não numerável nem sucessiva, intensiva (LIDDELL, SCOTT, 1966, p. 45). É o tempo da duração, diferente do cronos que é o tempo da limitação. 67 Mas sobre este tempo outro tempo insiste, sobre o presente crônico insistem um passado e um futuro. O Aion é, pois, do instante que subdivide o presente; e é bem assim, nesta perversão do presente, que o Aion se diz dos acontecimentos incorporais que preenchem o presente (SILVA, 2010, p. 30). Tempo aión, tempo do infantil, alternando entre passado e futuro, sempre se esquivando do presente, eternamente o que acaba de passar e o que quase vai passar, está por vir que remete ao passado e ao futuro simultaneamente e que se contrapõe ao cronos, que representa o tempo em relação ao presente. O tempo infantil pode ser representado na narrativa literária. Verifica-se o aion, em um tempo brincante, quando se entra em contato com as histórias de Bartolomeu Campos Queirós. Heráclito diz que “aión é uma criança que brinca, seu reino é o de uma criança, infantil”. E a contagem do tempo no livro Antes do Depois (2006) demonstra de forma divertida a passagem dos anos, numa rememoração totalmente diferenciada de uma infância. Assim, pode-se pensar que existem duas infâncias, uma da continuidade cronológica, das etapas do desenvolvimento, a infância em que, desde Platão, se educa segundo um modelo e que segue o tempo da progressão sequencial: seremos primeiro bebês, depois crianças, adolescentes, jovens, adultos e velhos. E a infância que habita outra temporalidade, a infância como experiência, como acontecimento, como ruptura da história, como resistência e como criação. Pensar o que pode ser a infância como potência e possibilidade real. Para Benjamin, para que algo não se perca no achatamento de um puro presente, de um agora unidimensional, o tempo precisa inflar-se de muitos “agoras”, precisa ser um presente inchado, “grávido”, de outros tempos, de todos os tempos. Precisa ser salvo na medida em que é reconhecido pelo historiador (que é o do materialismo histórico) como “um tempo saturado de agoras”. Para isso, Benjamin pensa num tempo que interrompe o contínuo da história, instituindo uma história intensiva, que ele denomina Jetztzeit, o “tempo-de-agora”. Para Benjamin (1994, p. 229) “a história é o objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de agoras”. Nessa concepção de tempo benjaminiana, o passado contém o presente, o Jetztzeit – “Tempo de agora” ou “Tempo atual”. Em uma das variantes da tese XIV, o Jetztzeit é definido como sendo um “material explosivo” 68 que associado ao materialismo histórico constitui o estopim, no sentido de fazer explodir o continuum da história com o auxílio de uma concepção do tempo histórico que o percebe como pleno, cheio, carregado de momentos explosivos “atuais”, com alto teor subversivo. Nesta Tese XIV, pode-se perceber que o tema do idêntico no novo, do velho no novo, e do novo no velho é fundamental para a concepção de Benjamin sobre a história. Nessa mesma vertente de Benjamin, Gagnebin diz: “Cada história é ensejo de uma nova história, que desencadeia uma outra, que traz uma quarta, etc; essa dinâmica ilimitada da memória é a da constituição do relato, com cada texto chamando e suscitando outros textos. Mas também um segundo movimento, que, se está inscrito na narração, aponta para mais além do texto, para a atividade da leitura e da interpretação” (GAGNEBIN, 1996, p. 13). Assim, vemos como a escritura da história está enraizada na arte (no prazer) de contar. E esse prazer de relatar os fatos que ocorreram no passado, pode estar saturado de agoras, não seguidor de uma lógica linear ou de uma força progressiva. Essa forma de narração pode ser verificada na escrita de Queirós: Nasci com 57 anos. Hoje, tenho 118. Foi em agosto, dizem, mês de vento e desgosto. Dia do Soldado. (...) Cheguei com 57 invernos. 34 pais + 23 mães = 57 filhos. Peguei o trem na última estação. A primavera, primeira estação, começa em setembro. E só quem nasce na primavera pode colher primaveras (QUEIRÓS, 2006, p. 9,14). Este trecho parece indicar, entre muitas coisas, que o tempo da vida não é apenas questão de movimento numerado e que esse outro modo de ser temporal pode ser pensado como um modo de ser infantil, de criança. Se uma lógica temporal – a de chrónos – que segue uma ordenação, surge outra – a de aión – que brinca com os números e infantiliza o movimento. A narrativa do livro Antes do Depois é ordenada pela rememoração de um tempo afetivo. Não segue qualquer lógica temporal – os fatos são contados de acordo com os temas mais relevantes para o narrador. Inicia-se com o nascimento aos 57 anos, numeral que representa a soma das idades do pai e da mãe quando o personagem-narrador surgiu no mundo. A matemática surge como um suporte a sugerir que o tempo que passa é um amálgama de somas e subtrações. Paralelamente a esta noção de perda e ganho, há fortemente pontuadas as sensações de 69 permanência e fugacidade. A ideia de permanência está relacionada com o duplo sentido da gravidade, o peso do tenente Josué e as obrigações civis com a Pátria, um “precioso patrimônio” (Idem, p. 9). O narrador também sente o peso dessas obrigações, de uma carga que carrega e que o impede de subir as escadas, para não perder o fôlego (idem, p. 10). Em outras passagens, a fugacidade é demonstrada pelas imagens de leveza. A existência é leve ou pesada, como diz o narrador: “Tem instantes que nem existo, sou algodão doce. Em outros, existo demais, sou chumbo. Não conheço borracha para apagar a memória” (ibidem). A memória vigia e transborda (idem, p.10). E a enumeração dos fatos lembrados de uma infância são capturados num fluxo da capacidade criativa. Para nosso autor, a história não pode ser aquela que aprisiona os acontecimentos num encadeamento linear, que lhe dá definitivamente um antes e um depois, uma causa e seu efeito. Os fatos devem ser compreendidos como pontos, livres para serem conectados e desconectados de contextos possíveis, potenciais. A partir da página 11, a narrativa se orienta pelo dia do batizado do menino. No decorrer da narrativa, porém, muitas observações se intercalam, sempre retornando o tal acontecimento. E dentre essas observações, sempre são usadas as figuras de permanência e fluidez na história. Pai e mãe são associados ao sal e o açúcar, ambos suscetíveis ao desmanche pela água. “No meio daquela conversa eu me vi dividido em dois: um do sol e outro da lua, um doce e outro azedo. Um do meu pai e outro da minha mãe. Um feito de açúcar e outro de sal. E a água derretia os dois” (Idem, p. 17). O narrador se sente, ao mesmo tempo cindido e duplo – “sou mesmo um dois” (idem, p. 21) - buscando por meio da memória uma forma de não ficar “tão aflito diante do tempo” (idem, p. 17). Contudo, a memória não resgata as impressões da infância de maneira ordenada e lógica. Os fatos se precipitam no descontínuo das emoções: o que permaneceu se imprime de forma fluida, não fixada na narrativa de Queirós. O autor reorganiza o tempo para além da continuidade. O tempo da narrativa queirosiana entra em convergência com o de Walter Benjamin: não é mais o da necessidade, mas o das “possibilidades”, do que pode ser criado (LÖWY, 2001, p. 120). Ficar na memória significa conservar. Mas o que angustia o narrador são justamente estes fatos guardados a pesar na existência. Ao narrar suas reminiscências infantis e brincar 70 com elas, o narrador reverte o sentido fixo e contínuo, fazendo com que as lembranças fiquem mais leves. O que está guardado na memória é tanto o que se deseja, o que se quer esquecer, ou o que se quer lembrar: “Memória não deixa nada acabar” (idem, p. 43). A seleção dos fatos a serem narrados não obedece a uma temporalidade definida. E assim o narrador o faz, imaginando seu passado. “Sempre gostei de imaginar o dentro das coisas. O dentro é um lugar que a gente só chega imaginando” (QUEIRÓS, 2006, p. 20). Imaginar aquilo que se passou só é possível por meio da linguagem literária. Queirós instaura um tempo infantil em sua escrita, totalmente brincante e travesso. O fio da narrativa se compõe pelo jogo de palavras e pela associação das ideias que elas trazem em seus duplos sentidos. O narrador expressa seu sentimento de cisão e duplicidade também quando escolhe as palavras para exprimir o que aconteceu em sua infância. Foi um pesadelo. Deve ser por causa do peso de Josué. (...) Tudo que existia já tinha nome. Eu não podia dar nome a nada, nem a mim mesmo. Passava o tempo procurando o que ninguém conhecia para inaugurar com uma palavra nova. Mas era em vão. Até na minha casa tinha um vão. (...) Muitos dizem que menino é uma meia pessoa. As bonecas de meia eram inteiras (idem, p.23, 27, 31). Ao contar as experiências de uma infância imaginada, Queirós segue as proposições de Benjamin, pois não interessa aos autores “contar sua infância ou resguardar lembranças felizes” (GANEGBIN, 1997, p.181). O que interessa é estabelecer uma certa experiência com a infância: “A experiência da infância é a experiência daquilo que poderia ter sido diferente” (Ibidem). Uma recordação que se permite imaginada, recriada, ao ser narrada. Na certidão estão registrados os nomes do meu pai, da minha mãe, dos meus quatro avós, dos meus padrinhos. Todos já partiram sem deixar endereço. A data do meu batizado continua errada. Nasci com 57 anos. Sou a soma de 34 com 23. Quando olho o papel, amarelado pelo tempo, eu cismo em nascer de novo. Então brinco de faz-de-conta e escrevo (QUEIRÓS, 2006, p. 46). 2.2 – A redescoberta da infância pela linguagem: apontamentos de Walter Benjamin e Giorgio Agamben 2.2.1- Benjamin e a concepção da infância instaurada pela/na linguagem 71 Em seus escritos sobre a infância, Walter Benjamin revela a visão da criança e sua sensibilidade perante o mundo. O autor escreve com comoção e imaginação criadora, ao mesmo tempo em que promove uma discussão sobre os pressupostos educacionais que orientaram a educação de crianças e jovens no processo de constituição da sociedade burguesa. As advertências a respeito da educação alemã ocorrem na época em que a educação dos jovens se tornava objeto do interesse do regime fascista que se instaurava na Alemanha. Nesse contexto, os escritos benjaminianos assumem um sentido político revolucionário, no tocante sobretudo à valorização da vida infantil vinculada claramente a uma nova leitura da história, que objetiva retomar a tradição e a memória do que foi reprimido no processo de constituição da modernidade. Ao procurar compreender a experiência infantil, Benjamin questiona as formas de educação modernas para tentar uma reformulação teórica condizente com uma nova prática política revolucionária. Como já discutido no decorrer deste trabalho, por causa de discursos construídos a respeito do que é o infantil, o papel da infância na sociedade é relegado a um plano menor, de pouca importância, por considerar-se, então, a criança um ser incompleto, em formação. Contudo, refletindo sobre a obra de Benjamin, pode-se construir um pensamento diferenciado sobre a infância, ressignificando as qualidades que a ela são atribuídas. Ao abordar o conceito de infância em Benjamin, a autora Jeanne Marie Gagnebin explica que para o autor a criança não é inocente, mas tem uma certa inabilidade para lidar com o mundo adultificado. A fraqueza infantil aponta para uma realidade “que mostra a experiência preciosa e essencial ao homem, de seu desajustamento ao mundo, a sua insegurança primeira, enfim, da sua não soberania” (GAGNEBIN, 1994, p. 98). Desta forma, a não soberania da criança é que lhe possibilita reinventar o mundo, ressignificar a linguagem, redescobrir nos detritos a singularidades fundamentais do ser. As crianças se sentem “atraídas por detritos, onde quer que eles surjam – na construção de casa, na jardinagem, na carpintaria”. Por detritos, entende-se qualquer detalhe ou fragmento que possam ser utilizados pelas crianças para a construção de “seu mundo de coisas” e de ideias (BENJAMIN, 2005, 104). Por não estar presa às verdades do mundo adulto, a criança brinca com o que a cerca, sejam as coisas, sejam as palavras. Gagnebin mostra, a partir do pensamento de Benjamin, uma outra configuração para o prefixo negativo ”in” na palavra infância: é o espaço que possibilita o “desnudamento e a miséria, no limiar na existência e da fala” (GAGNEBIN, 72 1994, p.98). Assim, o ”in” não significaria negação, mas uma incompletude, lacuna que abre espaço a criações. A criança, que ainda não se submeteu às contingências do mundo adulto, está aberta à recepção das semelhanças sensíveis, e sua formação como indivíduo se traduz como aprendizado na recriação do mundo. Dessa maneira, a experiência infantil da brincadeira, da expressão mimética e lúdica, se constitui como a semente do novo que se opõe à experiência do adulto, adaptado às condições do mundo regido pela forma moderna de produção e de representação. A faculdade mimética na infância vai além da simples imitação, pois estabelece, a partir dos jogos infantis, uma relação nova e original com as coisas no processo de conhecimento do mundo. As crianças são sensíveis às afinidades, apreendem a multiplicidade de formas e redefinem os sentidos retirando as coisas do contexto do adulto para dar-lhes uma nova significação. Nessa relação, as crianças se sentem atraídas fortemente com os restos, onde quer que eles estejam, nas construções, jardins, oficinas. “Nesses detritos, elas reconhecem o rosto que o mundo das coisas assume para elas, e só para elas. Com tais detritos, não imitam o mundo dos adultos, mas colocam os restos e resíduos em uma relação nova e original”. (BENJAMIN, 2005, p. 104). Dessa maneira, elas constroem e formam seu próprio mundo, em uma produção de semelhanças e diferenças que podem ser reconhecidas nas brincadeiras, porque a criança estabelece outra relação com o tempo (e com o espaço). É neste processo de formação/produção que ela vivencia o seu tempo, o preciso momento da criação de um brinquedo. A mimesis é, assim, o processo pelo qual a criança aprende a lidar com uma ordem temporal. Ao dissertar sobre a alegoria na obra “A origem do drama barroco alemão”, Benjamin revela que é, no “choque entre o desejo e a consciência aguda da precariedade do mundo”, que se pode extrair a inspiração alegórica. “A alegoria se instala na intimidade entre o efêmero e o eterno” (BENJAMIN apud SOUZA, 2009, p. 196). Os fragmentos que compõem a obra “Infância em Berlim” são um bom exemplo de uma escrita de onde se extrai uma inspiração alegórica. E dessa inspiração pode surgir uma experiência singular de infância, que é dada na e com a linguagem (SOUZA, 2009, p. 197). Mas, diferentemente dos exemplos citados neste capítulo, em que os autores tentavam falar de uma infância particular, por meio da rememoração, Benjamin não se dispõe tão somente a 73 falar de sua vida de quando era criança. Não é “sua propriedade subjetiva”, que estaria encerrada nela mesma e “incapaz de transcender a esfera daquele mesmo que lembra” (ANDRADE, 2009, p. 284). Para ele, todo escritor de verdade, antes de escrever para si próprio ou para outrem, escreve para a própria linguagem. Para Benjamin, nem mesmo escrever sobre sua infância escaparia disso. Sua escrita não tem este ou aquele alvo, ela não está a serviço de nada que não a própria linguagem. Falar da infância é, neste sentido, buscar, no interior da própria linguagem, o contato com uma experiência da linguagem diferente da que usualmente temos – e com a qual, diga-se de passagem, dificilmente fazemos qualquer experiência real. Nos momentos em que fala de sua infância, portanto, Benjamin busca aproximar-se de uma experiência da linguagem que, embora já esteja perdida no passado, pode voltar a ser encontrada, ainda que não exatamente como foi, dentro da própria linguagem como experiência atua (ANDRADE, 2009, p.284). Há na criança um tipo diferenciado de experiência que está sempre desajustada em relação ao mundo, ou seja, uma experiência de um saber que se sabe em constante recriação. A característica que a criança tem de não compreender o que certas palavras significam e de manusear os objetos dando-lhes usos e significações ainda não fixados pela cultura mostra que tanto os objetos como as palavras estão no mundo para serem constantemente ressignificados por meio das ações. Palavras e objetos, como criações humanas, não são fixos, nem imutáveis. A infância, portanto, pode ser vista alegoricamente como elemento capaz de redescobrir o que pode ser ainda construído, o que não deixa de representar uma crítica ao progresso e à razão utilitária da modernidade. Não diferentemente, a infância da linguagem surge como um elemento também móvel, passível de uma constante criação. Benjamin rememora um jogo popular alemão, em que o jogador recebia um grupo de palavras e precisava organizá-las em um texto “de tal modo que a sua ordem não fosse alterada. Quanto mais curto o texto, quanto menos elementos mediadores contivesse, tanto mais notável seria a solução”. O autor sugere que uma criança organizaria um texto ligando as palavras - rosquinha, pena, pausa, queixa, futilidade da seguinte maneira: “O tempo se lança através da natureza feito uma rosquinha. A pena cobre a paisagem e se forma uma pausa que é preenchida pela chuva. Não se ouve nenhuma queixa, pois não há nenhuma futilidade” (BENJAMIN, 1995, p.271-272). O nexo que se instaura entre as palavras é da ordem da essência espiritual e não de uma coerência lógica, destinada somente à comunicação. Esse texto criado pela criança teria, segundo ele, mais afinidade com os textos sagrados. 74 Por isso, quando se reflete sobre a literatura que tenta retratar a infância, pelo viés da leitura benjaminiana, pode-se questionar os textos que somente falam de uma personagem infantil ou de alguém que rememora a infância. O que estes textos mostram, como já exemplificado na primeira parte do capítulo, é um tipo de infância que foi cristalizado como ideia na modernidade. O próprio Benjamin toca diretamente neste assunto quando critica o uso de que se faz das fábulas para uma doutrinação moral. Segundo ele, “as crianças se divertem muito mais com os animais que falam e agem como homens do que com os textos ricos em ideias” (BENJAMIN, 2005, p.58). E, nem por isso, elas deixam de construir seu próprio mundo. A partir desses conceitos, a infância não se apresenta mais como uma etapa inicial de encadeamento cronológico e linear, mas como uma categoria social, histórica e cultural, que recria a experiência vivida. Ao sentido de falta e incompletude do infantil para compreender a realidade, Walter Benjamin contrapõe a tese de que a criança reconstrói o mundo a partir de seu olhar infantil. Também a história poderia ser assim reconstruída, a partir de uma infância da linguagem, como também o postula Claudia Maria de Castro, a partir de Benjamin: A radicalidade de sua ideia de infância, como vimos, provoca uma tripla destruição: uma destruição do espaço como lugar vazio em que encontramos as figuras já dadas pela percepção consciente; uma ruptura do tempo em sua linearidade cronológica, homogênea e vazia; e um esfacelamento das significações habituais da linguagem, uma “des-semantizacão das coisas e das relações”. Este incêndio simultâneo do espaço, do tempo e da linguagem é, em Benjamin, a forma autêntica da revelação onde uma nova subjetividade, mais livre, pode ser construída. E a infância, enquanto encarnação da própria filosofia, faz desta última uma arte de caçar borboletas (CASTRO, 2009, p.215-216). Da mesma maneira que Benjamin demonstra alegoricamente as rupturas feitas às convenções estabelecidas sobre tempo, espaço e linguagem, a partir de uma ideia radical de infância, Guimarães Rosa exemplifica na literatura como ocorre esta nova subjetividade, que em sua obra pode ser construída. Pois, muito além de se ocupar de uma fala sobre a infância, ou com a utilização das personagens infantis, Rosa faz uma redescoberta desta linguagem infantil, “compondo uma língua onde espaço e tempo se imbricam” (CASTRO, 2009, p. 214). 75 2.2.2- Agamben e a infância como condição da história Giorgio Agamben, inspirado nas ideias de Benjamin, formula uma série de questões relacionando infância, linguagem e experiência. Em Infância e história discorre sobre o fracasso da experiência na vida moderna. Contudo, pondera que não há destruição da experiência para haver a não-experiência, e sim outro tipo de experiência, mais no âmbito da experiência com a linguagem. O filósofo italiano vai ao encontro de algo próximo a uma “infância da experiência”, tentando relacioná-la com a linguagem. A infância se instaura na linguagem, na cisão entre língua e discurso, entre o semiótico e o semântico, entre o sistema de signos e o discurso. O sujeito da linguagem é o fundamento da experiência e do conhecimento, e a origem transcendental da linguagem se localiza, portanto, na infância do homem, a pura língua do discurso humano. “A infância se constitui num experimentum linguae desse gênero (...) ela é entendida como possibilidade de pura expressão” (SOUZA, 2009, p. 192). Na visão de Agamben, infância e linguagem estão intimamente ligadas, uma se remete à outra em um círculo no qual a infância é a origem da linguagem e a linguagem a origem da infância. Nesta linha de pensamento, a infância não representa apenas um período da existência humana, mas coexiste originalmente com a linguagem, “constitui-se, aliás, ela mesma na expropriação que a linguagem dele efetua, produzindo a cada vez o homem como sujeito” (AGAMBEM, 2005, p. 59). A infância seria o inefável, a transcendência, o que surge nessa passagem do signo ao discurso. O humano se constitui na e pela linguagem, e isso não ocorreria se não fosse uma condição infantil. A espécie humana não nasce sabendo falar: aprende a falar. Há, portanto, um determinado momento em que ela é não-falante, é infante, aquela que não fala. Para Agamben, a “pura língua é, em si, anistórica” (2005, p. 64), isto é, natureza, que não necessita de uma história. Se as pessoas nascessem falantes, seriam já natureza, não haveria algo do qual devessem se apropriar. Seriam um ser sem infância, não necessitando descobrir ou construir suas experiências, ou seja, um ser sem história. Eis aqui o fundamento da historicidade do ser humano. Ao discorrer sobre a concepção benjaminiana de infância, Solange Jobim Souza, defende que, Sendo um momento na história do homem, que se repete eternamente, manifesta, nesse eterno retorno, aquilo que essencialmente permanece como 76 fato humano. É nesse sentido que tal concepção de infância não é algo que pode ser compreendido antes da linguagem ou independente dela, pois é na linguagem e pela linguagem que o homem constitui a cultura e a si próprio (SOUZA, 2009, p. 192). Existe a história porque os homens foram não-falantes e se constituíram como falantes. Assim, abre-se a possibilidade de pensar que os falantes podem permanecer infantes na medida em que, aprendendo a falar e a serem falados, a historicidade do ser humano se constitui numa contínua construção. Para Agamben, este movimento é o da experiência. Assim, os humanos são essencialmente experiência, ou seja, se constroem na proporção em que estão disponíveis a deixarem de ser não-falantes para se tornarem falantes. A infância pressupõe, portanto, a condição de inacabamento dos seres em permanente processo de constituição do “si mesmo”. Conscientes dos limites, os adultos podem se reconhecer como infantes, ao se assumirem como inacabados. Assim, infante é todo aquele que está aprendendo a falar, que está se constituindo como sujeito da linguagem ao dizer “eu”, permitindo-se a experiência (AGAMBEN, 2005). Dessa maneira, a infância não significa apenas uma etapa cronológica da existência humana, e sim a própria condição para que se possa continuar na vida como agente transformador do cotidiano, da não-fala em língua e discurso capaz de colocar-se numa atitude de criação. A infância pode-se tornar uma condição, destinada não somente às crianças, mas também aos adultos que procuram conservar a própria condição infantil. A condição infantil permite assumir uma perspectiva de inacabamento de seres sempre prontos a aprender a dizer o mundo, a enfrentar positivamente o desafio de recriar e refazer as respostas que, na cultura e por causa do desenvolvimento da vida, é elaborado no cotidiano da história. Entretanto, não se trata de reconstruir as vivências apenas a partir das atitudes controladoras da condução progressiva da história, mas também de refazê-las a partir das experiências, do sonho, do desejo, da imaginação, dos sentimentos sobre os quais não há um total controle, mas com os quais se constrói uma relação com os fatos da vida comum. Nesse sentido, a linguagem é constituída mais por uma atitude de experimentação do que por uma ação corretiva, já que o processo em que ela é adquirida na infância ocorre tanto para o seu uso como para a exploração de novos sentidos e outros sons. É o que diz Agamben: 77 A infância age, com efeito, primeiramente sobre a linguagem, constituindo-a e condicionando-a de modo essencial. Pois o próprio fato de que exista uma tal infância, de que exista, portanto, a experiência como limite transcendental da linguagem, exclui que a linguagem possa ela mesma apresentar-se como totalidade e verdade. Se não houvesse a experiência, se não houvesse uma infância do homem, certamente a língua seria um jogo, cuja verdade coincidiria com o seu uso correto segundo as regras lógico-gramaticais (AGAMBEN, 2005, p. 62). Giorgio Agamben observa na infância uma imagem de algo que surge. Em sua reflexão sobre a linguagem, o autor aponta que ela desempenha a mediação deste processo, entre o (ainda) não-falante e a potencialidade que ele traz em si e que poderia transformá-lo em um falante. Uma experiência originária, longe de ser algo de subjetivo, não poderia ser senão aquilo que, no homem, está antes do sujeito, ou seja, antes da linguagem: uma experiência "muda" no sentido literal do termo, uma in-fância do homem, de que a linguagem deveria, precisamente, indicar o limite (Idem, p. 62). Por meio da escrita rosiana podemos detectar esta aproximação entre linguagem e infância, já que as palavras usadas são o tempo todo desafiadas a novos sentidos, uma experimentação de outras sonoridades, em outras experimentações. Tendo em vista que nunca se tem o domínio total de uma linguagem, ressalta-se o fato de que os seres humanos mostram-se serem sempre aptos a aprender palavras novas. A experiência da infância acontece na linguagem e permanece na existência humana, sem correlação imediata com uma etapa cronológica. O contato com a linguagem se faz em constante experimentação, podendo, desta maneira, enfraquecer a ideia de progressão evolutiva para a aquisição de uma língua pronta e acabada. É um percurso que não se extingue jamais, e que se pode abrir a novos caminhos. Por isso a história não pode ser o progresso contínuo da humanidade falante ao longo do tempo linear, mas é, na sua essência, intervalo, descontinuidade, epoché. Aquilo que tem na infância a sua pátria originária, rumo à infância e através da infância, deve manter-se em viagem (AGAMBEN, 2005, p. 65). Importante ressaltar a interessante distinção benjaminiana entre experiência e vivência, que aqui é referenciada por Agamben. Nas palavras de Walter Benjamin, Erfahrung é a experiência (real ou acumulada), sem a intervenção da consciência. É o conhecimento obtido 78 através de uma experiência que se acumula. Etimologicamente, o termo experiência, no sentido de Erfahrung, vem do latim ex-periri, que quer dizer provar, experimentar. A raiz indo-europeia é per, “à qual se liga a ideia de travessia e, secundariamente, esta de prova”, diz Philippe Lacoue-Labarthe (1997, p. 30). Trata-se de uma travessia arriscada. Também no alemão, Er-fahrung, que contém os semas de travessia (fahren) e de perigo (gefahr). Não devemos confundir o conceito de Erfahrung com o de Erlebnis (traduzido por vivência), que não tem consequências poéticas, nem “resto”. Na vivência, encontramos somente uma experiência vivida, evento que é assistido pela consciência. O sentido de Erfahrung pressupõe uma experiência quando o escritor experimenta esta travessia. Na história humana, igualmente não há progresso linear e contínuo, como pressupôs, sobretudo no século XIX, o historicismo de linhagem positivista. Se há uma experiência e uma infância, esta não pode ser encarada como linear e contínua. A infância escapa à temporalidade e mesmo a uma sequencialidade diacrônicas. Nesse sentido, é preciso aceitar o risco do envolvimento com o desconhecido, com o não presumível, pois não se consegue delimitar ou contornar todos os possíveis caminhos. Assim, a infância deixa de ser um momento, uma etapa da vida e passa a ser uma condição de possibilidade da existência humana. O que não significa uma desconexão total com relação com este estágio da vida humana, mas sim com a ampliação deste sentido (KOHAN, 2003, p.244). Ao relacionar a escrita de Guimarães Rosa com a infância, pode-se verificar a ampliação do sentido de infância. A linguagem de Rosa também escapa, não se mostra vinculada a nenhuma forma delimitadora, não segue uma linearidade contínua. Da mesma forma, a infância se situa na sua escrita como um modo de rompimento daquilo que já está fechado, um tempo cristalizado em suas sucessões de etapas progressivas. Na passagem abaixo, Kohan descreve a infância enquanto um estado que pode ser reconhecido no modo como Rosa o representa em suas ficções. Ela [a infância] deixa de estar associada à debilidade, à precariedade, à inferioridade. Ela não é mais medida pela categoria do progresso, numa temporalidade contínua; ela é descontinuidade, irrupção do pensamento, do possível, do porvir. Assim, o conceito de infância proposto por Agamben tem duplo impacto na forma dominante de pensar a infância. Por um lado, ela deixa de estar necessariamente associada a crianças, e a sua visão concomitante como seres humanos pequenos, frágeis, tímidos. Por outro lado, ela passa a ser condição de rupturas, experiências de transformações e sentido das metamorfoses de qualquer ser humano, sem importar sua idade (KOHAN, 2003, p. 246). 79 O infante é aquele que não tem voz e está aprendendo a falar. Nesta visão diferenciada da relação entre infância e linguagem, apontada por Agamben, a incapacidade da fala pode transformar-se em habilidade. O infante então é aquele que não consegue falar tudo, por isso possui a habilidade de não saber tudo, possibilitando a atitude de uma constante experimentação da fala, do mundo. Abre-se um caminho para aquilo que ainda não foi pensado ou falado, como se cada vez fosse a primeira vez. A história não se fecha, há a possível reconstrução da vida, em suas reapresentações. A infância se manifesta na escrita rosiana como esse instante da criação, abertura para uma experiência diferenciadora da linguagem, uma ação tecida no desejo de vir a ser como um jogo, uma brincadeira. A narrativa nunca se encontra acabada, limitada, pois não se diz tudo na linguagem de Rosa, há sempre outros sentidos a serem descobertos. A criação não se fixa nem se modela, está sempre em processo. Desta maneira, a escrita se instaura em uma outra temporalidade, em que “o sistema binário não se mantém mais na oposição da sincronia e da diacronia” (AGAMBEN, 2005, p. 101), ponto de coincidência que se estabelece nos momentos de passagem, como o nascimento e a morte. Ao discorrer sobre a história e os mecanismos de fixação do tempo e da destruição do calendário, através das máquinas do rito e do jogo, Agamben se debruça novamente sobre a fase infantil do humano para mostrar como a “oposição significante entre diacronia e sincronia é rompida” (p. 102). As crianças representam a descontinuidade e a diferença entre o mundo dos vivos e dos mortos. Elas são significantes instáveis que não pertencem nem à diacronia nem a sincronia, mas que estabelecem o tempo humano e a história (p. 104). Assim sendo, a infância se realiza numa passagem, em um movimento que se destina a construir a história, ligando os tempos sincrônicos e diacrônicos. A continuidade histórica se estabelece ao aceitar os movimentos de descontinuidade, jogando com eles e assumindo-os, de forma a restituí-los ao passado e transmiti-los ao futuro (Idem, p. 106). Por isso, ao se escrever a história, ao voltar-se ou tornar-se outra coisa num tempo sucessivo, não se segue um modelo. No momento em que se coloca a infância como a potencializadora desta passagem, não é para ser uma criança, nem sequer retroceder à própria infância cronológica por intermediação da memória. É possibilitar um encontro com a infância de forma intensiva, em uma escrita sem passado, presente ou futuro; um sentido que 80 una sincronia e diacronia, em uma outra perspectiva temporal (KOHAN). 1 No espaço de escrita de Guimarães Rosa, há recriação das relações entre os tempos na narrativa, uma reelaboração do fluxo temporal, que se liga ao cotidiano pelo viés da experiência. Para viver esta nova cotidianidade do tempo que não é puro crónos, faz-se uma ineludível necessidade de reatualizar sua gramática. Neste aspecto, a escrita rosiana se mostra diferenciadora, uma referência para se analisar esta infância da escrita. 2.3 – “Jardim Fechado” e a descoberta da infância na escrita de Guimarães Rosa O conto “Jardim Fechado” faz parte do livro Ave Palavra, uma publicação póstuma da editora José Olympio, de 1962. O próprio Rosa classificou este livro como “miscelânea” (RONÁI, 1962 s/n). Trata-se de textos de variados gêneros, como “notas de viagem, diários, poesias, contos flagrantes, reportagens poéticas e meditações” (Idem), fruto de seu trabalho durante duas décadas em jornais brasileiros. “Jardins e Riachinhos”, segundo o comentário de Rónai na nota introdutória, são cinco crônicas que fariam parte de um indez de um livrinho. Estas histórias acabaram por ser adicionadas ao final do livro Ave Palavra. Para adentrar no jardim fechado, é necessária a atitude similar à do menino que investiga um local abandonado: vai por pura descoberta, uma investigação que desvela mistérios e que o faz adentrar outros enigmas com os quais jamais se tinha confrontado anteriormente. Esta passagem do conto rosiano não se restringe a um espaço e um tempo delimitados, apesar da ideia, contida no título, de um lugar fechado. O uso deste adjetivo para o jardim de fato evoca no leitor o desejo de investigar lugares ainda não explorados. Por esta razão, a narrativa é encaminhada por meio de uma troca viva entre o interior e o exterior, o de dentro e o de fora, o envolvido e o envolvente, entre se deixar ser afetado e a expressão. A referência de que só um jardim fechado permite a exploração de um local desconhecido pode levar à reflexão sobre o modo como a escrita rosiana se estabelece no 1 http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0184.html, acesso em 2/04/2010. 81 conto. Sabe-se que uma língua traz em si um sistema que se caracteriza tanto pela necessidade de um hermetismo para a sua permanência, quanto às possibilidades de recriação desta mesma língua. No conto rosiano, a escrita se revela a princípio fechada, embasada em regras gramaticais. Mas à medida que a história se desenrola, percebe-se como o autor se utiliza de mecanismos para dar uma abertura a outras formas de formalizar a narrativa, criando vocábulos novos e tornando inabitual a estruturação da linguagem. O jardim, atrás da grade. O encoberto pela vegetação que se aninha espessamente traz um aspecto de mistério e ao mesmo tempo suscita o desejo de se vasculhar este impenetrável. O interior convida a adentrar o universo verde, de minúsculos seres que ainda não são vistos. Pelas palavras, chega-se até este espaço. A primeira presença materializada pela linguagem é a dos cheiros, o olfato surgindo como sentido primeiro. Depois, o que se impregna na memória é a mistura dos odores das várias flores que habitam o jardim (ROSA, 1994, p. 1167). Até este momento, não se sabe quem adentra o jardim. Os leitores é que são os primeiros intrusos em um ambiente povoado de verdor. Outras intromissões acontecem neste lugar onde pulula a vida: “bruscas espécies” vêm pelo ar, sementes que se dissipam e se instalam no jardim “ a daninha formosa, a meiga praga, a rastejante viçosíssima, os capins que entrementes pululam” (idem). Envolvidos por esta atmosfera, há a impressão que esta intromissão não é tão brusca. Neste instante (2º parágrafo), o texto se colore de muitas expressões, que demonstram a vida brotando debaixo da aparente tranquilidade. A linguagem se enche de tons brincantes, ao discorrer sobre os pequenos animais que ali vivem. Tudo é movimento, sob uma falsa calma: o jogo das palavras se estabelece para apontar as ações de cada pequeno animal. O local está repleto de entes que passeiam: “tatuzinho que se embola”, “abelha faz e passa”, “passarinho principiava”, “borboleta ia passando manteiga no ar”. Os animais brincam num jogo próprio do jardim, bem caracterizado pelos vocábulos aliterantes: “Antes a vida, ávida. A vida – o verde. Verdeja e vive até o ar, que o colibri chamusca” (ROSA, 1995, p.127). O espaço não é restrito, pois os seres que passeiam pelo jardim dão a força da amplitude do lugar. Do ponto de vista do ser vivente no jardim, tudo é imenso, vasto ambiente de verde vida. Desta maneira, o jardim pode ser considerado um oceano, pois cada animal ínfimo é destacado na paisagem, aumentando a sensação de um espaço muito maior do que o normal, como demonstra a passagem abaixo: 82 Tudo fogoso e ruiniforme: do que nas ruínas é repouso, mas sem seu selo de alguma morte. Antes a vida, ávida. A vida – o verde. Verdeja e vive até o ar, que o colibri chamusca. O mais é mágica tranquilação, mansão de mistério. Estância de doçura e de desordem. (...) O jardim – quase um oceano. A verdidão arregalava olhos e aves. As outras árvores no enorme crescer: o inconscienciocioso. (ROSA, 1995, p.1167). O tempo também não se restringe. De fato, parece que a força vital é percebida como algo atemporal, o mesmo instante que dura do tempo aiônico. O mundo é sempre e só este, do momento agora. A cada instante ele está recomeçando, é um outro mundo, eternamente refazendo-se, autogeração contínua, permanente gestação que a cada vez projeta-se para fora de si mesma. Diz o fragmento 52 de Heráclito que “o tempo é uma criança que brinca, joga o jogo de oposições, o reino de uma criança” (HERÁCLITO, 2000, p. 35). O ser é uma totalidade fragmentada em movimento, uma totalidade no tempo e este mostra-se como o brinquedo da criança que constrói e destrói constantemente. Então, o menino surge no jardim para compor o cenário, resignificando este tempo/espaço, como um agente que reforça a importância dos seres minúsculos, assim como de cada instante do tempo. “Esse tempo em que a criança reina em Heráclito mostra uma nova possibilidade do espírito; tira a criança do tempo cronológico, que ocupa um lugar de debilidade e a situa em outro tempo, em que ocupa o espaço máximo de poder e é soberana” (KOHAN, 2007, p.114). No jardim, o menino é soberano entre os seres, mas sem agir de forma autoritária, sua autoridade se delineia pela exploração sem reservas do mundo natural. É a força da experiência infantil em relação ao tempo, desconectada da lógica sucessiva do tempo cronológico, “mas como uma afirmação intensiva de um outro tipo de existência”(idem). O menino em seu reino, brincando no jardim, cujo cenário está montado. Neste ponto o diálogo com o texto acontece por meio do protagonista, pois a partir de sua chegada, as impressões serão advindas de suas experimentações e sua perspectiva. O menino se escondia lá, fugido da escola. Subia a uma árvore: no alto, os pensamentos passavam como o vento. Aprendia a durar quieto, ia ficando sonâmbulo (ROSA, 1995, p. 1167). Veio acompanhando aquilo e, no fim, deu com o argolão, ao pé das bocas-delobo. Depois, a vez em que ia pondo mão em galho, quando, em cima de lá, se pulou um clarãozinho, alumiado com estalo, de aviso, feito o se acender de um isqueiro (Idem, p. 1168). 83 Provavelmente, o jardim só estava à espera do menino imprevisto, que surge, fugindo da escola. Interessante apontar que ele é uma criança que foge do tempo e espaço limitantes de uma sala de aula. E no jardim, tudo aparece em um tempo suspenso no ar, como uma vida que, embora em aparente repouso, pulula e se metamorfoseia o tempo todo. Isto é ao mesmo tempo episódico, instantâneo, como igualmente duradouro. Pois este momento se percebe no agora, porém, no momento seguinte, já não mais é passível de captura. A sensação é de que aquele jardim existia desde sempre, envolto na calma. Em verdade, a sensação jamais pode ser efetivamente apreendida: qualquer captura, apreensão, percepção da coisa faria escapar esta força da experimentação de quem adentra um jardim em viva desordem pela primeira vez, como se pode ler nesta passagem: Sem gente, virara-se em matagalzinho, sílvula, pequena brenha. À expansa, nos canteiros, surgiam bruscas espécies, viajadas no ar: a daninha formosa, a meiga praga, a rastejante viçosíssima, os capins que entrementes pululam. As próprias nobres plantas, de antes, desdormiam e deslavavam-se , ameaçadas em sua fresca debilidade (ROSA, 1995, p. 1167). Esta é uma perspectiva que se mostra com força no conto: de que o jardim está sendo desvelado aos poucos e a narrativa toda é construída neste sentido. É por meio do contato experimental com a narrativa que os leitores se tornam exploradores do texto/jardim. Mas esta experiência ocorre na perspectiva da linguagem infantil – compreendendo que esta significa uma atitude da criança frente à experiência. A linguagem infantil não é apenas uma característica da etapa inicial da vida, “mas a condição da própria experiência” (KOHAN, 2007, p. 113). Alguns vocábulos no conto são empregados de maneira a intensificar a ideia da experiência na condição infantil. Como já foi salientado antes, o movimento de descoberta é constante na trama do texto, como na composição de alguns vocábulos. Mas esta descoberta é uma exploração de quem não tem pretensões classificatórias ou de caráter científico. É, antes, uma atitude de quem investiga por divertimento, sem compromissos, um jogo de perder e achar, encobrir e revelar. O uso de várias palavras com o prefixo -dês (desdormiam, deslavavam-se, desordem, desquis, desmoitado) demonstra esta flexibilização do termo, pois em um momento pode representar um determinado estado e, logo depois, passar para um 84 estado diferente. Pode-se explorar diferentes formas de se ler o texto, assim como desvelar muitas sensações ante o ambiente/escrita de pura descoberta. Em um fragmento de Heráclito esta força da descoberta do texto pela experiência infantil pode ser melhor explicitada. Ele diz: “Se não espera o inesperável, não encontrá-lo-á, dado que é inencontrável e sem caminho”(HERÁCLITO, 2000, p. 62). Esperar o inesperável parece uma contradição simples, clara, própria de alguém que não compreende a existência das coisas no mundo. De fato, o fragmento é um jogo de contrastes e negações – quem poderia esperar o que o que não se pode esperar? Talvez uma criança, que fora do tempo linear, não sabe que não se pode esperar o que aparentemente não se pode esperar. Ou seja, à criança é dada a possibilidade de, se não podendo crer que não se pode esperar aquilo que todos dizem, não se pode esperar. Abre-se espaço na lógica monolítica com a qual as coisas são apresentadas como são (KOHAN, 2003, p.148-149). Um comportamento atento para a recriação de sentidos vários numa narrativa que brinca com as palavras, estabelecendo com elas esta atitude de se esperar aquilo que não se pode esperar... “Não havia o quem que fosse, mas havia o por se achar ” (ROSA, 1995, p. 1169) é o que diz o conto, no momento em que o menino sai à procura deste inesperado no jardim. Esperar o inesperado é, desta maneira, estar aberto a diferenciadas formas de se conhecer o mundo e de se expressar nele. Também existe a ideia de que nada é concebido de forma definitiva na narrativa, há um trânsito de concepções, sentidos e outras histórias com os sentidos tramados no conto. Muitas são as expressões de que as coisas se presenciam (ou se escondem) pelo ar, em um movimento de voo: “surgiam bruscas espécies, viajadas no ar” (...) “um pássaro, vindo de voos” (...) [o cheiro dos] “guaimbés, apenas de tardinha saído a evolar-se” (...) “os pensamentos passavam com o vento” (p. 1167). Verifica-se que se realça a passagem das coisas pelo ar, inclusive a presença de um fio de “cabelo de uma menininha muito loira” (p. 1168). Este trânsito aéreo, de algo que pode se dissipar a qualquer momento pode nos remeter à possibilidade de diálogos com outro mundos, outros espaços – e quem sabe outras histórias em outros textos... “e [em] todos os jardins [que] se falam” (p.1169). O menino é levado a uma exploração mais atenta do jardim, quando ouve uma voz – firme e velha – e não sabe de onde vem. E é deste lugar da narrativa que ele se lembra do ponto em que se perdeu em sua memória: foi o gato quem tinha o levado pela primeira vez ao jardim. É uma espécie de epifania, daí por diante o menino começa a se recordar, e fatos que antes pareciam não ter relação nenhuma passam a ser conectados na memória. Os mistérios 85 teriam alguma outra explicação? As lembranças todas juntas se ordenam por meio da rememoração e a dimensão diacrônica e a sincrônica se unem também neste ponto da escrita. É um nó narrativo, que une as pontas do conto e apresenta uma nova fase na trama da história. O menino procura por sete vezes de onde vem a voz misteriosa e nada encontra! Era como se o jardim estivesse encoberto para ele “se encapuzava” (p. 1169). E ninguém sabia de nada, “só a soledade”... (p. 1169). Interessante aqui destacar esta palavra que se desdobra em várias, como um jogo de significantes a mais da narrativa rosiana. Não é saudade, não é solidão, é soledade, palavra que se remete à origem na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" (Do lat. solitáte, «solidão», CUNHA, 1986, p. 708; 728). Usada neste contexto, intensifica ao mesmo tempo em que desmente tanto a solidão como a saudade. E antes da palavra soledade vem o só, que também pode ser o somente como uma intensificação da solidão. O menino está sozinho nesta busca, um solitário a procura do ponto em que suas rememorações iriam chegar. Saudades daquilo que já foi, ou de algum fato que ainda não veio a acontecer? Porém um bem-te-vi denuncia o ser mágico que fala, diminuto homem, em larga idade. Inicia-se um diálogo entre o menino e este pequeno ser, o Pequeno-Mindinho: - “Tulipas! Este pássaro delator...” – curvando-se, petulou, saudava. O gato, nem passo. O menino disse: - “Como você chama?” – gago. – “Te disse: não me dê nome...” – retrucou o fantamasgo. – “ Ou então, dê-me muitos nomes: Mirlygus, Mestrim, Mistryl, Mirilygus. Sou teu amigo.”(ROSA, 1995, p. 1169). Na passagem acima colocada, pode-se perceber a potencialidade que um nome pode ter, em suas variações. O tom inventivo, de criação de vocábulos tão característico do estilo rosiano, aqui se mostra bem claro nas inúmeras opções para a denominação do ser fantástico. E esta também é uma característica do pensar infante, que está sempre numa constante brincadeira de criar nomes para as coisas que acaba de descobrir. Neste sentido, a linguagem infantil se aproxima da linguagem poética. A criança, quando começa, experimenta esta luta incessante que é transformar afetos em sons compreensíveis para o outro cúmplice de suas demandas. Para o poeta, transformar a palavra esquecida e ao mesmo tempo almejada em palavra escrita, é experimentar o vazio que antecede a criação, ou seja, em passo atrás nem direção à pura expressão (SOUZA, 2009, p. 192). 86 Todas as interferências do menino são perguntas, questões ao homenzinho. O menino quer descobrir, mas sem a intenção de entender tudo o que estava se passando, ou nem mesmo acreditar naquilo que estava sendo dito. A atividade de pensar de um infante tem esta característica de buscar sobre os mistérios, mas sem a preocupação com uma lógica que tudo explique. O que fica “no ar” amplia as questões do menino, podendo ter na resposta de Mirilygus várias outras abordagens. Muitos aspectos poderiam ser destacados deste diálogo entre o menino e Mirilygus, mas nesta abordagem o destaque é para o sentido de potência que a infância tem, desde sempre. Quando o menino questiona ao mago se ele era velho, a resposta revela algo que podemos pensar como a presença da infância em todos os momentos de vida do humano. Vista desta maneira, a infância não somente se restringe aos primeiros anos de vida, todavia é uma atitude que perdura no tempo, como aquele instante vital, de potência. Pois se já é o que vai ser no número de anos, o infantil já guarda em si o que homem será, mas também o homem do porvir tem em si a condição infante da experiência. Há mundo novo, nova criação, transformação mesmo nas coisas antigas e aparentemente cristalizadas porque há infância, porque é possível frutificar o acontecimento que leva consigo cada nascimento. A infância é o modo de se pensar o mundo “como se”, em “faz-de-conta”, dos questionamentos que não necessitam ter uma resposta coerente, só necessitam ser formulados. Neste aspecto, existe na escrita de Guimarães Rosa, exemplificado no conto “Jardim Fechado”, uma condição para o infantil, na medida em que sua narrativa é igualmente cheia de questionamentos sem possíveis respostas, mas que não deixa de se perguntar, de se investigar, de criar, no uso de palavras recriadas e na colocação de expressões que se remetem a outras histórias, a outros mundos. De alguma maneira, a infância na escrita de Rosa não é objeto, mas sujeito, já não é uma forma de se refletir sobre, mas a própria reflexão. E por esta abordagem, a literatura pode ser pensada e reinterpretada pela infância, e não tão simplesmente a infância representar um conteúdo relevante para a literatura. Os sentidos e os significados na narrativa são menos arbitrários, porque existe uma possível criação a todo instante. Desta maneira, recupera-se o dom epifânico da palavra, sua 87 força ambígua de desvelamento e ocultação. Retorna-se a infância, sem os olhares nostálgicos, mas pelo “sem-sentido das coisas infantis” (LEAL, 2004, p.24). 88 CAPÍTULO III - O RIACHINHO SIRIMIM: TRAVESSIAS DA INFÂNCIA 3.1- O conceito de devir-criança de Deleuze e Guattari Deleuze e Guattari reconhecem o tempo como virtual, uma junção heterogênea de durações. Diferentemente, o tempo que caracteriza a historiografia positivista tende a ser concebido como um tempo cronológico, linear e sucessivo na linha diacrônica de passado, presente e futuro. Por sua vez, o “devir” é uma construção do presente, não correspondendo, assim, a uma transformação temporal que se materializasse ao longo do tempo histórico. Não se define como passagem de uma forma a outra, mas como movimento que tensiona as formas. Deleuze e Guattari distinguem o devir de outras noções com as quais poderia ter alguma correspondência, como identificação, imitação, metamorfose, desenvolvimento ou produção. (...) um devir não é uma correspondência de relações. Tampouco ele é uma semelhança, uma imitação, em última instância, uma identificação. (...) Devir não é progredir nem regredir segundo uma série (...) Devir não é certamente imitar, nem identificar-se; nem regredir-progredir; nem corresponder, instaurar relações correspondentes; nem produzir, produzir uma filiação, produzir por filiação. Devir é um verbo tendo toda sua consistência; ele não se reduz, ele não nos conduz a "parecer", nem "ser", nem "equivaler", nem "produzir" (...) Devir é, a partir das formas que se tem, do sujeito que se é, dos órgãos que se possui ou das funções que se preenche, extrair partículas, entre as quais instauramos relações de movimento e repouso, de velocidade e lentidão, as mais próximas daquilo que estamos em vias de nos tornarmos, e através das quais nos tornamos (DELEUZE, GUATTARI, 2007, p. 18). Em Deleuze e Guattari verifica-se que o conceito de devir possui uma carga semântica maior que outros termos tais como “mudança” ou “movimento”, por destacar os modos do acontecer. E, mais do que isso, o devir é pensado no sentido em que o emprega Deleuze – não como uma correspondência de relações – o que poderia relacionar a ideia de devir a uma certa previsibilidade ou vinculação antecipável de ocorrências – mas como uma variação imprevisível de elementos. O sentido de “devir” não é unívoco. É usado às vezes como sinônimo de “tornar-se”; às vezes é considerado o equivalente de ‘vir a ser’; outras vezes é empregado para designar de um modo geral o mudar ou o mover-se (que, além disso, costumam ser expressos por meio do uso dos substantivos correspondentes: ‘mudança’ e ‘movimento’). Nessa multiplicidade de 89 significações parece haver, contudo, um núcleo significativo invariável no vocábulo ‘devir’: é o que destaca o processo do ser, ou o ser como processo. O enfoque cronológico mediante o qual a infância foi historicizada ignorou seu devir. Nessa perspectiva, as crianças foram deslocadas para o mundo adulto, onde permanecer infantil, sem assumir responsabilidades, passa a ser tido como uma característica de incapacidade e de menor valor. Devir criança, então, não é ter com a criança uma relação de semelhança, nem passa pela esfera da imitação. Trata-se muito menos de regredir a uma etapa anterior do desenvolvimento. O devir não corresponde a uma ordem classificatória ou de filiação. O devir não é uma forma, um modo de identificação, imitação, mas produz uma zona de vizinhança, ou de indiferenciação, de tal maneira que se torna difícil distinguir outros devires. O devir está sempre "entre" ou "no meio". Os devires potencializam conexões com múltiplas formas e modos de aprendizagem, que estão se desenvolvendo e que buscam cruzamentos com outras referências, trocas de experiências, inter-relações sociais e individuais. “Enfim, devir não é uma evolução, ao menos uma evolução por dependência ou filiação. O devir nada produz por filiação; toda filiação seria imaginária. O devir é sempre de uma ordem outra que a da filiação. Ele é da ordem da aliança” (DELEUZE, GUATTARI, 2007, p. 19). O devir não se faz por evoluções verticais, mas através de alianças, desterritorialização e fuga das formas, fazendo com que outros territórios possam ser constituídos. O conceito de “devir-criança” carrega uma ideia de criança que persiste no adulto como virtualidade. Assim se mostra a filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari: o que importa não é partir nem tampouco chegar, mas colocar-se no meio, num ambiente do devir propriamente dito. O devir não é visto como consequência de uma transformação, de uma passagem de uma forma, de um estado ou de um lugar a outro. Ele é o próprio processo, um caminho. Quando Deleuze e Guattari falam em devir não querem estabelecer uma linha de evolução, de progresso ou de desenvolvimento, mas, em outro sentido, buscam os signos de uma involução. Mas não se trata de regressão a antigas formas. O que define o devir é uma atividade no meio molecular, denso e invisível, que subsiste entre as formas visíveis: “o devir é involutivo, a involução é criadora (...) involuir é formar um bloco que corre seguindo sua própria linha, entre os termos postos em jogo, e sob relações assinaláveis” (DELEUZE, GUATTARI, 2007, p.19). 90 O conceito de devir não visa a explicar as formas. Para Deleuze e Guattari, o devir surge, diferentemente, como uma espécie de involução, pois ele é justamente um movimento de dissolução das formas criadas. “Preferimos então chamar de involução essa forma de evolução que se faz entre heterogêneos, sobretudo com a condição que não se confunda involução com regressão” (DELEUZE, GUATTARI, 2007, p.19). A partir dos trabalhos de Deleuze e Guattari, identifica-se algo que é próprio ao devircriança, ou seja, algo que dá conta de sua especificidade em relação aos demais devires, como o devir-animal e o devir-mulher, que também fazem parte do repertório desses autores. A criança não pode ser colocada fora da realidade ou alienada, uma vez que ela realiza experiências de pensamento com o corpo todo e não busca estados de equilíbrio solidamente estáveis. Seus movimentos são constantes e ela está sempre aberta às novidades, às aventuras. A criança é o que se liga nas possibilidades de trajeto e traça cartografias de expedição. Inventa línguas para o que vê, sente e faz. Não se compõe com “permanências”, arrasta suas viagens para outras terras. A criança se diferencia do adulto na medida em que este prefere mapas que indicam os percursos a seguir, localizando o território onde se encontra. Por seu turno, a criança mapeia sua viagem, prefere o viajar. Ela descobre novos lugares em sua própria cartografia assinalando seus conhecimentos e se movendo pelo produto de encontros e acasos, produzindo a si mesma. No texto “O que as crianças dizem?”, Deleuze afirma: “a criança não para de dizer o que faz ou tenta fazer: explorar os meios, por trajetos dinâmicos, e traçar o mapa correspondente” (1997, p.73). Ora, a criança cartógrafa acessa um meio que transborda o mundo dos objetos. Este é feito de qualidades, substâncias, potências e acontecimentos, que configuram uma multiplicidade movente, instável, sempre longe do equilíbrio, uma espécie de matéria fluida. O mapa que a criança traça, e que configura seu método ou programa de ação, confunde-se então com este meio em movimento que ela explora. O mapa do movimento é por isto mapa em movimento. Suas regras são locais e temporárias e seu meio de ação composto de variações materiais invisíveis, imprevisíveis e inapreensíveis pelas estruturas históricas e pela representação. Estão no meio do mundo, constituindo o fluxo que corre entre as formas, que transborda dos objetos e das formas conhecidas. Futuro e passado não têm muito sentido; o que conta é o devir-presente: a geografia e não a história, o meio e não o começo nem o fim, a grama que está no meio e que brota pelo meio, e não as árvores que têm um cume e raízes. Sempre a grama entre as pedras do calçamento (DELEUZE, PARNET, 1998, p 33). 91 O conceito de devir deve ser pensado como o espaço do “entre”. Quem “devém” não está à procura de um fim definido, pretendido, prefixado, ou seja, não está buscando algo, nem sabe que “devém”, nem sabe onde vai dar. O “homem se apresenta como uma forma de expressão dominante que pretende impor-se a toda matéria, ao passo que mulher, animal ou molécula têm sempre um componente de fuga que se furta à sua própria formalização” (DELEUZE, 1997, p.11). O devir-criança se atualiza nos vários momentos e situações que povoam a vida; o devir disponibiliza a possibilidade de deslizar, de inventar, de explorar meios e formas de relações consigo mesmo e com os outros. A constituição da subjetividade é processual, é fluxo, é devir; assim, os devires são múltiplos, eles se encadeiam, misturam-se uns aos outros compondo linhas de reflexão, de invenção, bem como facilitam novos acoplamentos, aprendizagens e subjetivações. A criança, de acordo com Deleuze e Guattari, é um modo de potências em devir (1996, p.26, 27, 44). A marca da criança é sua expressão por intensidades e sua aprendizagem pela experimentação e pelo jogo. A criança realiza o encontro entre real e imaginário. O imaginário infantil, com o qual ela se compõe o tempo todo, pode estar em diferentes sintonias, realizar diferentes interações com outros elementos de sua vida. O que as teorias e os adultos tentam fazer é diminuir essa potencialidade da criança, fazendo dela um projeto de adulto, devolvendo-a sempre às compreensões únicas e verdadeiras, interpretando suas atitudes e condutas, de acordo com referenciais determinantes de comportamento. Um devir-criança é uma atividade cartográfica, produto das potências capazes de desafetar e ser afetado. O devir não é imitar. Um homem não se torna criança, mas se estabelece uma relação de afetação mútua entre ele e a criança, em que um se alimenta do outro, proporcionando o que Deleuze denomina de evolução a-paralela: “os dois formando um único devir, um único bloco, uma evolução a-paralela, de modo algum uma troca, mas ‘uma confidência sem interlocutor possível’” (DELEUZE, PARNET, 1998, p. 11). Este encontro não é uma troca, mas uma mescla, uma vizinhança. Não existem negociações, mas uma conspiração, uma confidência, um segredo, uma revolução silenciosa. A infância é estado decorrente de um nascimento, evento que desestabiliza o cotidiano, irrompendo a ordem que regula a vida. No acontecimento da infância, as pessoas se sentem envolvidas pelo movimento de sua passagem. Assim, a infância não está ordenada em uma linha cronológica, até porque “infante é todo aquele que não fala tudo, não pensa tudo, 92 não sabe tudo” (KOHAN, 2005, p.246) independente de sua idade. Não pensar o que todos pensam, não falar o que todos falam, viver a infância como descontinuidade, como descontinuidade, como devir. Ou seja, a infância vista como acontecimento. Dessa forma, a infância pode ser pensada como início, não implicando, necessariamente, em concebê-la como etapa inicial de um processo de crescimento rumo ao ser adulto. O início que a infância inaugura pode ser pensado como o princípio de algo surpreendente, algo novo, ainda não realizado. Este iniciar faz perceber que o nascimento não é um fato único na vida de cada um, mas recorrências possíveis na vida humana. Assim também é possível pensar em múltiplos nascimentos. Neste ponto, encontram-se natalidade e devir. É uma imagem do devir que não representa um devir adulto, paradigmático, modelar. É, no entanto, um sentido simbólico de um devir que não se sabe, que ainda está por vir. Uma representação de natalidade, o nascimento para um mundo que não é conhecido. De certa forma uma estranheza diante das coisas. Uma posição dupla de estranhar as coisas e suas denominações. O devir-criança surge e faz antecipar estas formas velhas, pois tem capacidade de pular, de saltar sobre algumas histórias desagradáveis da condição humana. Vai traçando atalhos, abrindo picadas, de forma que, neste sentido de devir, as crianças mostram os caminhos possíveis. Há um sentido de pura novidade na criança. Ela irrompe nos lugares ordinários, ultrapassa o que lá estava: “instante da absoluta descontinuidade, da possibilidade enigmática de que algo que não sabemos e que não nos pertence inaugure um novo início (...) aquilo que irrompe toda a cronologia” (LARROSA, 1998b, p. 234). Certas características de um devircriança podem ser então elaboradas na medida em que, pensando nas qualidades até então vistas, proporciona-se uma espécie de composição, um entremeado frágil e perene, mas que pode deixar pistas importantes para seguir e perseguir. Deleuze e Guattari dizem que as crianças vivem intensamente. Para viver intensamente, a condição de infância indicaria que se deveria esquecer os guias; deixar de lado os caminhos já conhecidos e percorridos. Uma criança talvez mostre que um itinerário jamais é passível de ser percorrido uma segunda vez, por que a cada vez é um novo trajeto que se dá. Uma criança tem a capacidade de ser levada, alavancada pelas coisas que lhe chegam; está sempre naquilo que lhe sucede, não se afasta, não se separa, não se destaca e distancia. Ela vai sendo conduzida por um ritmo inesperado, mas sempre compassado por 93 eventos, e ela nem se precipita, pois é a mestra da passagem, a sua medida é a própria passagem. E é esta sua passagem feita de intensidades que constitui um mapa, composição inusitada das velocidades dos afectos que o percorrem, composição efêmera dos afectos que o sustentam. O devir não se faz por subidas verticais, mas por alianças, desterritorialização e fuga das formas, fazendo com que outros regimes e outros territórios possam vir a ser constituídos. Mas é preciso ter cuidado em não definir o devir por aquilo que ele pode vir a criar. Devir não pode ser confundido com metamorfose. Não é passagem de uma forma a outra, pois o que o caracteriza não são pontos de parada ou de desaceleração, nem um termo final qualquer. Os devires são geografia, são orientações, direções, entradas e saídas. Há um devir-mulher que não se confunde com as mulheres, com seu passado e seu futuro, e é preciso que as mulheres entrem nesse devir para sair de seu passado e de seu futuro, de sua história. Há um devir-revolucionário que não é a mesma coisa que o futuro da revolução, e que não passa inevitavelmente pelos militantes. Há um devir-filósofo que não tem nada a ver com a história da filosofia e passa, antes, por aqueles que a história da filosofia não consegue classificar. Devir é jamais imitar, nem fazer como, nem ajustar-se a um modelo, seja ele de justiça ou de verdade. Não há um termo de onde se parte, nem um ao qual se chega ou se deve chegar. Tampouco dois termos que se trocam. A questão "o que você está se tornando?" é particularmente estúpida. Pois à medida que alguém se torna, o que ele se torna muda tanto quanto ele próprio. Os devires não são fenômenos de imitação, nem de assimilação, mas de dupla captura, de evolução não paralela, núpcias entre dois reinos. As núpcias são sempre contra natureza. As núpcias são o contrário de um casal. Já não há máquinas binárias: questão-resposta, masculino-feminino, homemanimal etc (DELEUZE, PARNET, 1998, p. 10 e 11) Deleuze faz uma distinção entre o devir e a memória: O devir é uma anti-memória. Sem dúvida há uma memória molecular, mas como fator de integração a um sistema molar ou majoritário. A lembrança tem sempre uma função de reterritorialização. (...) Opõe-se desse ponto de vista um bloco de infância, ou um devir-criança, à lembrança de infância: ‘uma criança’ molecular é produzida... ‘uma’ criança coexiste conosco, numa zona de vizinhança ou num bloco de devir, numa linha de desterritorialização que nos arrasta a ambos – contrariamente à criança que fomos, da qual nos lembramos ou que fantasmamos, a criança molar da qual o adulto é o futuro (DELEUZE, GUATTARI, 2007, p.92). O devir é o movimento, a linha que se opõe ao ponto da memória. Ele constitui uma “zona de vizinhança e de indiscernibilidade” (idem, p.91). Ao citarem Virgínia Woolf, os autores dão força ao sentido de uma infância, que não é específica, porque não opera na 94 presença majoritária da memória: é um bloco de infância, formando devires entre as coisas. A única maneira de sair dos dualismos, estar-entre, passar entre, intermezzo, é não parando de devir. Novamente, em referência à escrita de Virgínia Woolf, Deleuze e Guattari demonstram como a literatura pode traçar linhas abstratas para se opor aos pontos cristalizados em polos dicotômicos como homem/mulher, adulto/criança. “A única maneira de sair dos dualismos, estar entre, passar entre, intermezzo, é o que Virgínia Woolf viveu com todas suas forças, em toda sua obra, não parando de devir” (idem, p. 69). Ao pensar em uma vida de pura imanência, em que só há entre-tempos, entremomentos e “a imensidão do tempo vazio no qual vemos o acontecimento ainda por vir e já ocorrido” (DELEUZE, 2002, p. 14), não há como delimitar as fases da vida, demarcando a criança e o adulto. E, ainda que tais sejam consideradas como partes de uma vida, não há contradição nessas afirmações. Mesmo Deleuze e Guattari, afirmam que “somos segmentarizados por todos os lados e em todas as direções” (DELEUZE, GUATTARI, 1996, p. 83). Contudo, eles ressaltam um modo mais flexível de ver e de tratar as segmentações, demonstrando que os elementos de um segmento passam por outros segmentos, se misturam e se combinam de diversas formas. Assim, algo se passa de um segmento a outro. Algo se passa entre a infância e a adultez que não está nem em uma nem na outra. Assim sendo, as fases da vida, como a infância e a maturidade, são, ao mesmo tempo, acontecimentos passados e futuros, que segmentam o presente ao infinito, rejuvenescem e envelhecem a um só tempo, se inventam, se reinventam e escapam ao estado de coisas. Deslizam pela história reordenando-a, propiciam desterritorializações para seguir percursos, em velocidades e direções variadas, que levam uma para a vizinhança da outra e as dispõem sempre no meio de multiplicidades sinuosas, permeáveis e casuais. Logo, nem infância nem adultez estabelecem acordos com as “noções estáticas de essência e de ‘ser’ já–e-para-sempre constituído” (SILVA, 2003, p.5), não são “formas que se organizam em função de uma estrutura” ou “que se desenvolvem em função de uma gênese” (DELEUZE, PARNET, 1998, p.140), não são qualidades ou propriedades físicas que ocupam um corpo, e não são, a bem dizer, senão forças e devires que passam por um corpo e compõem “singularidades soltas, de nomes, sobrenomes, unhas, animais, pequenos acontecimentos: o contrário de uma vedete” (DELEUZE, 1992, p.15). A fim de alcançar a forma de expressão e de conteúdo da pura matéria intensa de tais 95 acontecimentos, é preciso “abrir as palavras, as frases e as proposições, abrir as qualidades, as coisas e os objetos” (DELEUZE, 1988, p. 62), é preciso extrair da língua enunciados, é necessário dirimir o que é evidente. Pode-se ainda dizer que infância e adultez são constituídas tanto “por conteúdos e expressões formalizados em graus diversos, assim como por matérias não formadas” (DELEUZE, GUATTARI, 1977, p.13) possibilitando que elas escapem em várias direções. Diante disso, quando se trata de expressar multiplicidades, os verbos no infinitivo possuem mais valor do que os substantivos ou os adjetivos, pois não indicam substâncias, mas ações; não demonstram identidades, mas singularidades. Assim, em vez do uso dos substantivos infância e adultez, que remetem à interioridade dos corpos e estão subordinados ao verbo ser, utilizam-se os verbos infanciar e adultizar, que enfatizam o que se faz e o que perpassa na superfície, indicam devires e processos. O verbo ser fica oscilante, quando, ao invés de dizer que alguém é adulto, usa-se o verbo adultizar... Esta maneira de se expressar indica um “devir em si mesmo que está sempre, a um só tempo, nos esperando e nos precedendo como uma terceira pessoa do infinitivo, uma quarta pessoa do singular” (DELEUZE, PARNET, 1998, p. 78). Pode-se compreender, aqui, que dizer a infância e a adultez, compará-las ou explicálas, não é possível, por que não há idade, identidade ou essência que abarquem suas multiplicidades. Elas não se configuram como identidades fixas, capturáveis ou prédeterminadas, mas fluem como novidade no mundo, se constroem, se diferenciam sempre de si mesmas e transcendem qualquer finalidade. Nessa perspectiva, fica impossibilitada qualquer tentativa de prever a infância e a adultez, ainda que se tenham investigado os contextos e as condições em que tais estados são produzidos. Ser criança ou adulto se delineia em função de uma geografia e não de uma história, ou seja, não se constitui segundo uma forma ou uma função que a anteceda ou a dite. Qualquer forma ou função que venham a assumir só será definida pelas relações de movimento e repouso, de velocidade e lentidão estabelecidas entre suas partículas e não o inverso. Nas proposições de uma vida imanente, o que importa é o devir, o meio e não o começo ou o fim. Então, de novo as imagens-lembrança, as lembranças de infância e as referências às histórias de família estão sob um outro plano que não o plano do tempo crônico que dita as verdades. Porque, nessas situações, o real implícito é confirmado por sua continuidade e as relações temporais são localizáveis, passando por processos de sucessão 96 contínua. Referem-se, portanto, a um tempo cronológico, no qual não há lugar para rupturas em proveito de outras relações ou potências. As lembranças remetem ao subjetivo e ao objetivo. Diferenciam-se nesse ponto, mais uma vez, da imagem-tempo ligada ao devir, que dissolve qualquer subjetivismo ou objetivismo, e se situa sempre numa zona de indiscernibilidade e indeterminabilidade, onde não se distingue mais real de imaginário, nem se sabe mais quem “devém” quem. A infância, por sua vez, está para o tempo crônico, desde que ela se faz sempre mais ou menos que o real, nunca igual, tornando o verdadeiro e o real não passíveis de serem capturados e constituindo uma “imagem-cristal” que “nunca para de (ao mesmo tempo) absorver e criar seu próprio objeto” (DELEUZE, 1990, p. 88). Desta maneira, replica a história e sempre captura algum fragmento do passado puro, a dar-lhe visibilidade sem conduzi-lo ao presente que ele foi e sem submetê-lo ao presente imediato para o qual ele é passado. É essa diagramação que dá conta de entrelaçar o visível e o enunciável da infância, abordar uma infância universal, do mundo, da vida, de ninguém em particular, gozar uma infância que contagia e transita livremente e, por fim, mapear as partículas infantis que se ramificam, se esparramam por todos lados e traçam linhas variáveis e provisórias. 3.2 - Literatura menor e uma escrita da infância A noção de literatura menor formou-se a partir das contribuições de Deleuze e Guattari, que ampliaram o sentido de menor para além da condição de inferioridade e desvalorização. No texto ‘Kafka: por uma literatura menor’ (1977), estes autores realizam uma inversão do conceito “menor‟, entendendo uma literatura menor não como uma literatura que tenha um valor diminuído, mas como uma língua de uma minoria diante de uma língua maior, sendo que uma de suas características é um forte componente de desterritorialização. Nesta perspectiva, em uma literatura menor, tudo é político e relaciona-se com o povo: tratase, assim, de tornar-se um estrangeiro em sua própria língua e encontrar na pobreza da língua um uso criador. Uma literatura menor, portanto, está associada a um devir-minoritário, traçando linhas de fuga para a linguagem e possibilitando a invenção de novas forças. Pensar 97 o menor como proposto aqui significa compreendê-lo como aquele que está abaixo da palavra de ordem e que se localiza fora das imagens impostas pela maioria. Além disto, salienta-se que não se trata de uma ideia fundamentada em um binarismo entre língua menor x língua maior, pois, em uma concepção deleuziana, a língua menor se realiza sempre dentro da língua maior, constituindo-se como uma estratégia geradora de tensão na língua da maioria. Uma literatura menor não é a de uma língua menor, mas antes a que uma minoria faz em uma língua maior. No entanto, a primeira característica é, de qualquer modo, que a língua aí é modificada por um forte coeficiente de desterritorialização (idem, p. 25). Os autores também destacam que, nas literaturas menores, tudo é político e sempre adquire um valor coletivo: a literatura está relacionada com o povo. É escrever em uma língua que não é a sua, ser um estrangeiro, encontrando na pobreza da língua um uso criador, escrevendo “como um cão que faz seu buraco, um rato que faz sua toca” (idem, p. 28). Desta forma, as línguas são composições atravessadas por variações, que acontecem de maneira rizomática e não arborescente. Elas não se caracterizam por ramificações arrumadas hierarquicamente, elas reproduzem-se, sem um maior controle, atravessando e sendo atravessadas por inúmeras varáveis, criando novas possibilidades. É próximo ao que acontece às composições musicais: existe o tema e suas variações e, muitas vezes, o tema vira a própria variação. É o que Deleuze e Guattari chamam de um cromatismo generalizado da língua: “são línguas cromáticas, próximas a uma notação musical” (1995, p. 41). Uma variação contínua da língua é denominada de estilo. Os diferentes estilos de uma mesma língua são propagações rizomáticas, que vão surgindo através de várias conexões (e as conexões são sempre acontecimentos que não podem ser previstos). O estilo não é uma simples invenção. O estilo surge por meio de agenciamentos coletivos de enunciação por isso não se conforma como uma simples criação individual. Eles usam Kafka e Beckett como exemplos de autores que estiveram sempre na fronteira das línguas que usaram e que muitas vezes eram bilíngues, sendo seu estilo resultado desta mistura linguística. A questão discutível na abordagem linguística é a opção por atuar em um modo maior, desvalendo o cromatismo das línguas. Como dizem Deleuze e Guattari: A linguística ainda não abandonou uma espécie de modo maior, um tipo de escala diatônica, um estranho gosto pelas dominantes, constantes e universais. Durante este período, todas as línguas estão em variação contínua imanente: 98 nem sincronia nem diacronia, mas assincronia, cromatismo como estado variável e contínuo da língua. Por uma linguística cromática, que dê ao pragmatismo suas intensidades e valores (1995, p. 41). Ao contrário dessa perspectiva da linguística, Deleuze e Guattari pensam na possibilidade de um uso menor da língua, um uso de resistência e revolucionário, que faça a língua falar de outra maneira. Fazer a língua gaguejar é produzir variações infinitas, que fazem com que ela escape do modo maior que a aprisiona. Esta ideia fica ainda mais clara em um ensaio de Deleuze (Gaguejou...), escrito tempos depois e publicado em Crítica e Clínica: Não se trata de uma situação de bilinguismo ou multilinguismo. Pode-se conceber que duas línguas se misturem, com passagens incessantes de uma a outra; cada uma continua sendo um sistema homogêneo em equilíbrio, e a mistura se faz em falas. Mas não é desse modo que os grandes escritores procedem, embora Kafka seja um tcheco escrevendo em alemão e Beckett um irlandês escrevendo (com frequência) em francês, etc. eles não misturam duas línguas, nem sequer uma língua menor e uma língua maior, embora muitos deles sejam ligados a minorias como ao signo de sua vocação. O que fazem é antes inventar um uso menor da língua maior na qual se expressam inteiramente; eles minoram essa língua, como em música, onde o modo menor designa combinações dinâmicas em perpétuo desequilíbrio. São grandes à força de minorar: eles fazem a língua fugir, fazem-na deslizar numa linha de feitiçaria e não param de desequilibrá-la, de fazê-la bifurcar e variar em cada um de seus termos, segundo uma incessante modulação [...] É um estrangeiro em sua própria língua: não mistura outra língua à sua, e sim talha na sua língua uma língua estrangeira que não preexiste. (DELEUZE, 1997, p. 124125). Este trecho traz a imagem diferenciada da gagueira: trata-se de ser gago não na sua fala, mas da própria linguagem, constituindo-se como um estrangeiro em sua própria língua, traçando para a linguagem uma espécie de linha de fuga. Para ele, “devemos ser bilíngues mesmo em uma única língua, devemos ter uma língua menor no interior de nossa língua, devemos fazer de nossa própria língua um uso menor” (DELEUZE, 1998, p.12). Defende, assim, um devir-minoritário, que possibilite a invenção de novas forças ou novas armas no uso literário que autores como Kafka e Beckett fazem da língua “maior”. A forma de pensar o menor como dizem Deleuze e Guattari implica em compreendê-lo “como aquele que está abaixo da palavra de ordem, o que escapa à Lei, ao Significante, ao Édipo” (TADEU, CORAZZA, ZORDAN, 2004, p. 85). Assim são menores as linhas de fuga, que fogem das representações homogêneas, operando desterritorializações e abrindo passagem para devires. Considerar que “o menor está do lado de fora não significa que o 99 mesmo esteja excluído, mas que se localiza fora das imagens formadas pelas maiorias, desafiando a imposição de um só dogma, de uma imagem de verdade” (idem, p. 86). Assim, o sentido de menor amplia-se, passa a funcionar de outros modos: se, por um lado, coloca-se como condição de inferioridade e desvalorização, por outro, mostra-se como potência, criação, algo que está no limiar do impossível, que se constitui como algo que está sempre disposto a se fazer. Quando uma língua opera em modo menor (ao minorar o uso de uma língua estabelecida) ocorre um uso político da língua. De maneira geral, as minorações são agenciamentos coletivos de enunciação, mesmo que sejam produtos do trabalho de um determinado escritor, como os exemplos de Kafka e Beckett. Mas se verifica também minorações da língua em usos coletivos feitos por determinados grupos sociais, que fazem gaguejar a própria língua, fazendo funcionar novas possibilidades. Ao fazer proliferar as minoridades linguísticas, transfigura-se um ato de poder. É um jogo de poder constante, com afirmações e resistências, refluxos e contra-fluxos, O que só faz propagar os usos da língua. Assim, os autores que o fazem reafirmam que não se trata de dois tipos de línguas, as maiores e as menores, mas sim de dois tratamentos possíveis, de dois usos ou de duas funções para uma mesma língua. Uso maior e uso menor da língua se opõem e, às vezes, entram em conflito, no jogo político; mas não são excludentes. Uma língua só pode ser maior quando está formatada em regras, mas o faz justamente para regular e tentar impedir seus usos menores. Assim, um devir-menor da língua só é possível frente ao exercício de sua maioridade: elas não são mutuamente excludentes. Uma minoração da língua mostra-se por uma dupla tendência: por um lado, fazer acontecer como um “empobrecimento” da língua, um esgotamento da forma, uma simplificação da sintaxe; mas, por outro lado, este mesmo “empobrecimento” potencializa as variações, as mudanças, fazendo uma distensão ao máximo destas possibilidades. Subtrair e colocar em variação, diminuir e colocar em variação, é uma só e mesma operação. Não existe uma pobreza e uma sobrecarga que caracterizariam as línguas menores em relação a uma língua maior ou padrão; há uma sobriedade e uma variação que são como um tratamento menor da língua padrão, um devir-menor da língua maior. O problema não é o da distinção entre língua maior e língua menor, mas o de um devir. A questão não é a de reterritorializar em um dialeto ou em um patuá, mas de desterritorializar a língua maior. Os negros americanos não opõem o black ao inglês, fazem com o americano, que é sua própria língua, um black-english. (DELEUZE, GUATTARI, 1995, p. 51). 100 Ao instaurar línguas menores, devires minoritários da língua, estratégias de resistência e contra-poderes dentro da língua maior, que é um instrumento do poder e da dominação, fazse surgir o sentido do estrangeiro em sua própria língua. Segundo Deleuze e Guattari (1995), podemos distinguir a língua maior, as línguas menores e os devires minoritários da língua maior. As línguas menores não existem em si: existindo apenas em relação a uma língua maior, são igualmente investimentos dessa língua para que ela se torne, ela mesma, menor. Cada um deve encontrar a língua menor, dialeto ou antes idioleto, a partir da qual tornará menor sua própria língua maior [...] É em sua própria língua que se é bilíngue ou multilíngue. Conquistar a língua maior para nela traçar línguas menores ainda desconhecidas. Servir-se da língua menor para por em fuga a língua maior. O autor menor é um estrangeiro em sua própria língua. Se é bastardo, se vive como bastardo, não é por um caráter misto ou mistura de línguas, mas antes por subtração e variação da sua, por muito ter entesado tensores em sua própria língua. (DELEUZE, GUATTARI 1995, p. 51). Uma língua maior luta para ser modelo e para manter-se modelo. Como estado de poder e de dominação, ela se afirma por meio da sistematização e do esquematismo. Porém, no espaço da língua menor a situação é diferente. O devir minoritário é a potência de criação, que se contrapõe a um estabelecido que já não pode criar. É por isso que a língua menor precisa de línguas menores: mesmo para manter-se enquanto tal, para estar viva, ela precisa ser atravessada pelos devires minoritários, pelos potenciais criativos. É também por esta razão que não se pode falar em um “devir-maior”: se o majoritário é o sistema homogêneo, então ele já o é de antemão, não pode vir a ser. Ao contrário, o minoritário por justamente não ser o sistema homogêneo, o estabelecido, pode devir, pode vir a ser, pode criar e recriar. O devir minoritário é, segundo Deleuze e Guattari (1995), a autonomia: Há uma figura universal da consciência minoritária, como devir de todo o mundo, e é esse devir que é criação. Não é adquirindo a maioria que se o alcança. Essa figura é precisamente a variação contínua, como uma amplitude não cessa de transpor, por excesso e por falta, o limiar representativo do padrão majoritário. Erigindo a figura de uma consciência universal minoritária, dirigimo-nos a potências de devir que pertencem a um outro domínio, que não o do Poder e da Dominação. É a variação contínua que constitui o devir minoritário de todo o mundo, por oposição ao fato majoritário de Ninguém. O devir minoritário como figura universal da consciência é denominado autonomia. Sem dúvida não é utilizando uma língua menor como dialeto, produzindo regionalismo ou gueto que nos tornamos revolucionários; é utilizando muitos dos elementos de minoria, conectando-os, conjugando-os, que inventamos um devir específico autônomo, imprevisto (DELEUZE, GUATTARI, 1995, p. 53). 101 Assim é possível “infectar” uma língua maior para fazê-la gaguejar, produzindo devires menores da língua, línguas menores. Nesta luta de poderes, há o Poder Maiúsculo que luta para manter-se, assim como poderes minúsculos que fogem o tempo todo, proliferando outras possibilidades. A língua é instrumento de poder. Língua maior homogênea que opera por palavras de ordem; línguas menores heterogêneas que gaguejam, que fazem gaguejar a língua maior. 3.3 - Uma literatura menor: o poder da infância na escrita Uma língua pode ser desdobrada numa literatura multiplicada, que pode tornar-se infantil, explorando a linguagem, capturando da própria língua uma literatura menor, salientando as tensões interiores de uma linguagem adulta. Uma literatura identificada com a infância tem como desafio movimentar o imaginário em sua maior potência, ao mesmo tempo em que precisa lidar com o limite do discurso. Essa literatura menor está sempre atravessada por variações, significando a possibilidade de invenção de novos mundos, experimentando o que ainda não foi dito. Deste modo, uma literatura menor não segue uma linha reta que vai do conteúdo à expressão, mas começa por enunciar e só consegue ver e conceber mais tarde – a palavra não é da ordem de algo que se vê, mas que se inventa, que antecipa a matéria (DELEUZE, GUATTARI, 1977). A literatura menor possibilita agarrar o mundo, não para acariciá-lo ou expulsá-lo, mas para fazê-lo fugir (DELEUZE, GUATTARI, 1977). As coisas aparecem e desaparecem, fazendo, para usar as palavras de Deleuze e Parnet (1998), “um sistema vazar como se fura um cano” (p. 50). A análise volta-se, assim, não para uma ideia de infância em pessoalidade, o que remeteria a uma essência infantil que deva ser resgatada, descoberta ou preservada, mas para como a literatura exprime o infantil. Por esta razão, escolheu-se um percurso que possibilita uma visão para o que está entre a literatura e o infantil, sem construir uma relação de hierarquia ou subordinação. Como afirma Corazza, escolher um percurso significa “uma prática de pesquisa que nos ‘toma’, no sentido de ser para nós significativa” (CORAZZA, 2002, p. 123). 102 Ao indagar sobre o que acontece entre a literatura e o infantil, considera-se, acompanhando Deleuze e Guattari (2007), que uma linha de devir não se define pelos pontos que ela liga ou pelos pontos que a compõem, mas só tem um meio, sendo que o meio não é a média, mas aceleração, velocidade absoluta. Como afirmam Tadeu, Corazza e Zordan (2004), não há pontos, mas justo uma linha que percorre um mesmo continuum: um passo para um lado e iremos para um ponto, um passo para o outro lado e iremos para o outro; entretanto nunca estamos parados em um ponto. Deste modo, entre a literatura e o infantil, produz-se uma criança molecular, salientando-se que, para Deleuze e Guattari (2007), os devires são sempre moleculares; enquanto os organismos são formas molares e estratificadas, moleculares são as linhas de fuga, as quais escapam às imagens homogêneas. Entre a literatura e o infantil, dois termos que expressam um aparente dualismo, há uma comunicabilidade e inseparabilidade, deslizamento constante de uma mesma multiplicidade. A partir disto, como o afirmam Corazza e Tadeu (2003), do infantil só se pode afirmar sua existência. “Ser infantil não é significar nada nem ser suscetível de descrição. O sentido da infância se dá no ato de o infantil existir: ser infantil é saber-lhe o sentido, que é existir” (p. 119). Na análise até agora traçada, a partir da filosofia de Deleuze e Guattari, falou-se muito em trajetos e pontos de partida na tentativa de encontrar um fio para ir ao encontro de uma narrativa da infância, buscando-se, assim, atravessá-la. É importante considerar que viajar e narrar são ações entrelaçadas, a partir das quais afirma-se como fomos subjetivados e produzimos sentidos sobre as experiências vividas. Assim, nesta narrativa, busca-se organizar o percurso da tese, como um alargamento do olhar, em tentativas constantes de ver o Outro/o Infante sem transformá-lo. Para tanto, enfocamos na escrita rosiana estes sentidos da infância. Alguns caminhos alternativos surgiram no percurso da elaboração de ideias pela força das palavras. É neste sentido que ocorreu uma aproximação entre a concepção de travessia, tema subjacente da obra de Rosa, e o conceito de infância. 3.4 - Um riachinho, o Sirimim O “Riachinho Sirimim”, segundo conto do adendo “Jardins e Riachinhos”, ao final do livro póstumo Ave Palavra, de João Guimarães Rosa, é uma história singular de um pequeno 103 rio com pequenas singularidades. Sirimim aparece como personagem e linha da narração, descrito ao mesmo tempo em que suas experiências são narradas. Em Sirimim surge fortemente o sentido de uma generalidade em uma individualidade. Para tal, pode-se dizer que a escrita rosiana deste conto faz uma crítica à imagem convencional da subjetividade. O pensamento de Deleuze, em convergência com a poética de Rosa, apresenta-se como um caminho, como uma saída, que permitem pensar a “subjetividade” não mais como idealização ou como cristalização. Diferentemente, ela tornase produção ativa do ser, composição de forças, nomadismo, construção. A escrita de Rosa é uma escrita nômade. Ele escreve como alguém que se encontra num plano móvel, necessário aos seus projetos de fuga. Desta forma, essa é uma escrita que se afasta de uma subjetividade criada em uma lógica racionalista. Ao percorrer o curso de Sirimim, o narrador reformula poeticamente uma ideia de infância constituída histórica e culturalmente, advinda de uma subjetividade infantil, como uma invenção do mundo da criança. De fato, o riacho surge como uma linha de fuga, uma narrativa-rio que busca suplementar com novas palavras o esvaziamento do eu lírico, da prepotente subjetividade, até alcançar o esfacelamento da identidade humana em contínuo devir juntamente com a paisagem. O rio, ao mesmo tempo em que é movente, não sai do lugar. Na sua imobilidade, se faz nômade. Contudo, é este modo particular, este jeito próprio de ser um rio, que faz com que, em vez de contê-lo numa forma comum de riacho, o projeta de modo nômade e anárquico por diferentes tempos e lugares. Intenso e fugaz, ele é representado em toda a narrativa como um personagem em movimento. “Ele é só ali, de mais ninguém” (ROSA, 1994, 1171). No início do texto já se vê o sentido de não pertencimento a um espaço específico, o Sirimim é um riacho e um lugar sem maiores especificações. É uma representação revestida de forte impessoalidade, ao mesmo tempo em que dota a escrita de sua singularidade. Deleuze cria conceitos que entram em homologia com esta escrita rosiana. Com o filósofo, vê-se uma alternativa às modalidades dominantes de pensar e representar a subjetividade. Conceitos como hecceidade, impessoalidade, devir, território, rizoma, dobra, 104 linhas moleculares, linhas de fuga servem para combater o primado da fixidez, da essencialidade, do ser. Da mesma forma, pode-se pensar na desconstrução do sujeito criança, aquele que se assujeitou aos moldes criados na modernidade, a fim de ser educado e formado. Esta ideia da criança abstrata e universal tem o seu declínio, no pensamento contemporâneo, quase definitivo e não reversível. A crítica a uma subjetividade essencialista e a uma interioridade absoluta indica que o sujeito é despossuído de seu “eu”, isto é, do seu lugar, como centro da identidade, estável e inabalável. É essa ideia de infância centrada por meio da identidade e da semelhança que se coloca em questão. A filosofia do sujeito detém os devires, regula o movimento e impõe estabilidade através de identidades molares, pois estas “propagam as ondas do mesmo até à extinção daquilo que não se deixa identificar” (DELEUZE, GUATTARI, 1996, p. 45-46). (...) A vida do indivíduo é substituída por uma vida impessoal, embora singular, que produz um puro acontecimento livre dos acidentes da vida interior e exterior, ou seja, da subjetividade e da objetividade do que acontece. “Homo Tantum” por quem todo mundo se compadece e que atinge a uma certa beatitude. É uma hecceidade, que não é mais de individuação, mas sim de singularização: vida de pura imanência, neutra, além do bem e do mal, já que só o sujeito que o encarnava no meio das coisas a tornava boa ou má. A vida de tal individualidade se apaga em benefício da vida singular imanente a um homem que não tem mais nome, embora não se confunda com nenhum outro. Essência, singular, uma vida... (DELEUZE, 1997, p.17-18). É importante ressaltar nesta análise o caráter de singularidade do riachinho Sirimim, que não carrega uma caracterização pessoal, sendo, portanto, livre de uma individuação, mas repleto de uma “vida de pura imanência”. Em Sirimim pode-se verificar, assim, uma característica muito própria da obra rosiana: dos eventos que geram a universalidade da obra, ao mesmo tempo em que vislumbram a singularidade de experiências comuns. 3.4.1 – A minoridade em Sirimim O riachinho Sirimim aparece logo após o conto “Jardim Fechado”, na seleção de textos que formam o final de Ave Palavra, chamado de “Jardins e Riachinhos”. A palavra riacho significa um rio pequeno, um pouco mais volumoso que um regato (FERREIRA,1986, 105 p. 1508). Este sentido do menor é realçado quando o autor chama o Sirimim de riachinho, no diminutivo. Sirimim também é um vocábulo que naturalmente poderia estar no diminutivo. Observa-se em várias obras de Guimarães Rosa a preferência pelo sufixo im, inclusive nos nomes de personagens famosos como Miguilim e Diadorim. Este morfema diminutivo coloquial é inúmeras vezes encontrado ao longo do conto “O Riachinho Sirimim”, fazendo inclusive parte de um refrão que é repetido na narrativa. A primeira ocorrência do refrão que reforça o caráter poético da narrativa, brincando com este sentido do diminutivo, aparece do quarto parágrafo: “... e inavegável a um meioamendoim, de amor um mississipinho, tão sem fim. Ele já é o Sirimim” (ROSA, 1994, p. 1171). Ao longo da narrativa que conta/descreve o Sirimim da nascente à foz, estas inserções quase musicais surgem como elementos que reforçam a singularidade do riachinho. Os refrões repetidos no conto exercem a função do coro nas tragédias clássicas, como se fossem um ator que comenta regularmente a história representada, exprimindo o caráter poético do conto. O autor explora recursos próprios da poesia, como aliterações, ecos, sonoridades e rimas. Em Guimarães Rosa, "a lírica e a narrativa fundem-se e confundem-se, abolindo intencionalmente os limites existentes entre os gêneros" (BRAIT, 1990, p.140). A seguir, mais alguns exemplos deste refrão cantado no decorrer do conto. No sétimo parágrafo: “Sonso, o leito todo dele é um berço – é sempre assim – o Sirimim” (Idem); no décimo parágrafo: “O próprio, primitivo Sirimim, batizado num jardim” (Idem, p.1172); no décimo sétimo parágrafo: “o lugar onde se planta o amendoim – que vem quase à margem, fim. Separa-se para outra horta, a da dona do encanto. Sirimim...” (Idem, p.1173); no último parágrafo: “... toda a vida, todas as vidas, sim” (Idem). Tais inserções surgem sempre no final dos parágrafos, em tom brincante. Repetem o sufixo “im”, fazendo eco constante ao Sirimim. A narrativa de “O riachinho Sirimim” apresenta uma linguagem que utiliza recursos morfológicos, sintáticos e semânticos que reproduzem bem a expressividade da linguagem infantil. A poesia no conto tem um caráter lúdico, com inúmeras palavras no diminutivo. Nos parágrafos encontram-se inúmeros vocábulos em tom menor, das mais diversas classes gramaticais: grotinhas, pouquinho, lapinha, matinha, mississipinho, pocinho, biquinha, cabritinhas, Bolinha, pequenininha, barrigudinhos, olhinho-d’água, essezinho, partezinha, rosinha, reguinhos, açudinhos, praguinha, repolhinhos, estradinha, abandonadinha, fundozinho, bezerrinha, Sirimimzinho. Algumas dessas palavras têm a forma diminutiva 106 reforçada, tanto morfológica quanto semanticamente. São vocábulos que já significam algo menor, como pouco/pouquinho, pequena/pequenininha, parte/partezinha, rego/reguinho, e o próprio Sirimimzinho, o riachinho. Tudo parece remeter à minoridade de Sirimim, mas o tom menor, como numa música, não tem um caráter de coisa de menor importância ou pouco qualificada. O riachinho Sirimim ganha uma força justamente em sua minoridade, naquilo que valoriza por ser pequeno. Ao preferir o uso das palavras no diminutivo, Rosa escreve de forma desviante, como um modo de inscrever-se no mundo no diapasão de uma literatura menor. As condições revolucionárias da literatura rosiana em meio ao que se considera a grande literatura ou literatura estabelecida é o que a faz menor. Rosa, escritor erudito, poliglota e profundo conhecedor da língua portuguesa, escreve de forma balbuciante, como um infante que está experimentando a palavra. Sua literatura, uma literatura menor, como diria Deleuze, não é por estar fora ou alijada, mas por estar dentro e, de dentro, atuar diferentemente. A literatura de Rosa se faz única em seu estilo, na maneira inventada de utilizar sua própria língua. Em “O Riachinho Sirimim” verifica-se esta literatura menor, que é também balbuciante. Uma literatura que se aproxima da fala infantil, cheia de indecisões, rupturas e de novos usos para a língua. Uma literatura que procura um processo criador de várias possibilidades, em uma realidade marcada por um pensamento dicotômico. Uma literatura que não se afirma na essência, mas que busca tornar o múltiplo substantivo, pois pensar no múltiplo como adjetivo é subordiná-lo “ao Um que se divide ou ao Ser que o engloba” (DELEUZE, PARNET, 1998, p. 71). A narrativa de Rosa então se constrói neste espaço do entre, no lugar de constante mobilidade entre literatura e infância. O entre é o espaço da fronteira, um ponto onde não se é nem uma coisa nem outra, mas se está entre os dois. Pensar a literatura e a infância a partir disto significa problematizá-las justamente no que se refere a este encontro entre a estética e o ser infantil, acompanhando seus movimentos, buscando entradas e saídas múltiplas. 3.4.2- Travessias de Sirimim 107 O conto é todo movimento, o rio que flui em seu caminho até a foz. Não existem elementos fixos, sedentários na narrativa. Há uma mescla de descrição e narração neste movimento que acompanha o curso do riacho, ressaltando os elementos naturais que se confundem aos fatos do cotidiano de personagens comuns como Pedro, Joaquim, Inácio e Maninho. É importante destacar que esses personagens não são mostrados com um grau de importância maior que os animais, plantas, águas e pedras no conto. Todos compõem um mosaico que de fato quer realçar o riacho Sirimim. No início da narrativa, o Sirimim é só um “molhado na pedra”, “fiapos d´`água”(ROSA, 1994, 1171). Ele nasce pequeno, mas doce, pois há uma colmeia de abelhas oropa instalada em sua nascente. É bastante forte a sensação de docilidade, assim como o uso de palavras que reforçam a impressão de umidade deste ponto onde surge o Sirimim. O ambiente revela um lugar propício para o surgimento de Sirimim, simples, pequeno e doce: “O mel também mereja, daquela pedra, junto do lugar que nasce a água”; “Simples, sem-par” (Idem). Ao ler o conto sobre o Sirimim, não se veem unicamente as palavras, também se nota uma pintura multissensorial, cheia de cores, sons e movimento, desenhando cuidadosamente imagens nas quais o riachinho mesmo brinca, devagarinho, contando os bichos, as árvores, as gentes. As gentes, nesse conto, fazem parte do universo de Sirimim. Personagens que se confundem com o percurso do riacho, integradas ao curso das águas. As pessoas surgem ao longo da narrativa da mesma forma que aparecem os elementos da natureza, não havendo uma referência ou explicação mais detalhada sobre elas. No terceiro parágrafo, Pedro surge porque é na lapinha onde nasce o Sirimim que ele caçou o tatu; Maninho foi picado pela abelha naquele lugar onde há o enxame de abelhas e onde Inácia coou o mel (ROSA, 1994, 1171). Os personagens não narram sua própria vida, antes se destacam como componentes desta paisagem por onde passa o Sirimim. Mais adiante, Pedro aparece novamente porque se especializou em plantar inhames cujas folhas lhe servem de base para beber a água do Sirimim (quinto parágrafo). Dessa forma, o ato de plantar inhames não visa à alimentação, mas antes se presta à alternativa de 108 substituir o “copo” como instrumento para pegar a água do riachinho. Assim sendo, Sirimim é o protagonista, para o qual convergem todas as ações, sempre em movimento, do conto. É no processo de travessia de Sirimim que se produz a narrativa. A travessia de Sirimim no sentido figural, além do sentido geográfico de deslocamento de um lugar para outro, demonstra a imagem da situação extrema de deslocamento: o local onde o ser poético é colocado à prova, lugar de passagem, onde o mais importante não é o início nem a chegada, mas a travessia mesma, o lugar/espaço de intervalo em que a própria língua é uma trama que se desdobra. É nessa movência que se difundem e se compartilham as cintilações do sentido. O riachinho de Rosa mostra a infância no sentido simbólico da inventividade, da radicalidade do novo. A infância que se apresenta não como fase vivida por uma criança, mas como um desafio a ser transposto: a travessia do riacho que a recebe e que a relaciona às experiências da linguagem. É uma travessia verbal, da infância das coisas e dos modos de dizê-las. A ânsia infantil de apreensão e controle do sentido último da realidade – o que resulta, paradoxalmente, no impossível humano e no reconhecimento dos limites do conhecimento – implica a travessia. 3.4.3 - O acontecimento e o tempo aiónico em Sirimim Guimarães Rosa preferia as narrativas curtas, optando pela terminologia “estória” para denominar os seus escritos. Para definir este gênero, há a citação do próprio autor, na introdução-epígrafe do livro Tutaméia, Terceiras estórias: “A ESTÓRIA não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota” (1994, p.519). Observa-se um tipo de narrativa curta que não quer vincular-se a uma realidade de fundo histórico, factual. A estória faz um corte no contínuo temporal, preservando somente os elementos essenciais à narrativa. Paulo Rónai, no prefácio à 10ª edição de Primeiras estórias (1977, p. xxvi), afirma que as estórias rosianas têm como núcleo um acontecimento, porém não com sentido geral de ocorrência. As narrativas de Rosa geralmente capturam os momentos únicos, instantes de percepção da existência na sua totalidade. Rónai entende que o autor descreve um 109 acontecimento que reflete um tempo singular em um espaço definido no cotidiano dos personagens. " A quarta solução, adotada por ele, consistia em deixar as formas, rodeios e processos da linguagem popular infiltrarem o estilo expositivo e as da língua elaborada embeber a linguagem dos figurantes" (Idem, p.xli). Assim é composta a narrativa do conto “O Riachinho Sirimim”. Para melhor abordar tal conto, tomamos de empréstimo expressão de Deleuze, segundo o qual o “acontecimento é o próprio sentido” (Deleuze, 1969, p. 34). o conceito de acontecimento é assim abordado por Deleuze em Lógica do sentido: O acontecimento se encarna em um estado de coisas, um indivíduo, uma pessoa, aquele que é designado quando se diz: pronto, chegou a hora; e o futuro e o passado do acontecimento só são julgados em função desse presente definitivo, do ponto de vista daquele que o encarna. Mas há, por outro lado, o futuro e o passado do acontecimento tomado em si mesmo, que esquiva todo presente porque está livre das limitações de um estado de coisas, sendo impessoal e pré-individual, neutro, nem geral nem particular, eventum tantum...; ou antes que não tem outro presente senão o do instante móvel que o representa, sempre desdobrado em passado-futuro, formando o que convém chamar de contra-efetuação. Em um dos casos, é minha vida que me parece frágil demais para mim, que escapa num ponto tornado presente numa relação determinável comigo. No outro caso, sou eu que sou fraco demais para a vida, a vida é grande demais para mim, lançando por toda a parte suas singularidades, sem relação comigo nem com um momento determinável como presente, salvo com o instante impessoal que se desdobra em aindafuturo e já-passado (Idem,177-178). Pode-se afirmar que nas obras de Rosa o acontecimento é o ponto primordial de sua escrita poética. A escrita rosiana está sempre em busca do Acontecimento, daquilo que não se trata de fatos e dados dispostos em uma corrente linear. É algo que não se esgota, por ser imaterial, incorporal e virtual. Desta forma, verifica-se que não há “um sentido fixado numa direção única, mas um sentido que sobrevoa os acontecimentos na espera de sua efetuação” (SILVA, p. 5). O Sirimim é mais que uma localização, existe por si só, tudo acontece em função do riozinho. A história se desenvolve no mesmo compasso que o Sirimim percorre seu curso, desde a nascente até a foz. Ele se configura como um espaço que é criado narrativamente com a força de uma impessoalidade, mas levando em si, em seu curso, variadas singularidades que se desdobram no decorrer da narrativa. Em correspondência ao que já dito acima, na citação de Deleuze, o Sirimim é o espaço “que não tem outro presente senão o do instante móvel que 110 o representa, sempre desdobrado em passado-futuro”. As singularidades, caracterizando-se como anti-generalidades excluem toda relação a uma forma individual e pessoal. “Ele é só ali, de mais ninguém”. Pode-se notar, desde o início do conto, o sentido conferido ao Sirimim é criado numa generalidade, mas conservando uma forte relação de identificação com o leitor. Este riacho surgido de uma porção de grotinhas, no alto de uma pedreira, é um riacho igual a milhares, uma “singularidade anônima, nômade impessoal, préindividual” (DELEUZE, 1969, p. 125). Assim, o acontecimento torna possível à linguagem dotar-se de uma poética em constante devir, com suas cargas apreendidas, com seu potencial de fazer enunciar, com a sedução que vai conduzindo o desejo e transmutando-o em palavra, conceito e poeticidade. Ao percorrer o fluxo do Sirimim, os leitores navegam também no fluxo da narrativa rosiana, devolvendo a leitura à sua correnteza, ao fluxo que faz emergir na poesia. Eis um momento de fulguração em que o movimento poético paralisa o tempo e sua transmutação em dobras da existência. Ao se frear o tempo, imprime-se um vigor à linguagem, capaz assim de modular muitos outros encontros que vão surgindo sob o influxo do acaso. Desta maneira, nasce uma linguagem por meio da qual se é capaz de tensionar tudo que está implicado no redemoinho do acontecimento. Trata-se de fazer renascer o riacho continuamente, toda vez que alguém abre o livro e dispõe-se a explorar o cenário por onde flui incessantemente o Sirimim. É um movimento que livra a escrita de uma lógica discursiva linear, inaugurando uma nova estética: a de tentar quebrar o cristalizado, buscando-lhe as multiplicidades intensivas, aquilo que surgiu na ordem do intempestivo. O Sirimim surge como acontecimento, enquanto modo ou singularidade. Logo no início do conto, o narrador contador de estórias estabelece uma relação de aproximação singular com seus leitores: “Só a vocês eu vou contar o Riachinho Sirimim” (ROSA, 1994, 1171). É uma certa intimidade, que se intensifica quando não se usa a preposição para se referir ao Sirimim (vou contar o Sirimim e não sobre o Sirimim). Neste sentido, o riacho que poderia ser um regato qualquer, ganha uma singularidade no processo narrativo. O Sirimim se coloca, portanto, em meio de um “neutro”, o lugar do Impessoal ou o Plano que o Impessoal desdobra. O Impessoal é atravessado por um outro tempo. Este não é mais visto como ser, como “é”, mas como “entre”, a possibilidade de percorrer o “entre”. 111 Mesmo quando houver apenas dois termos, surge a conjunção ‘e’ entre ambos, que não é mais nem um, nem outro, nem um que se torna o outro, mas que constitui, precisamente, o Impessoal, a multiplicidade, como passagem abaixo nos ajuda a constatar. O que a define é o E, como alguma coisa que ocorre entre os elementos ou entre os conjuntos. E, E, E, a gagueira. Até mesmo, se há apenas dois termos, há um E entre os dois, que não é nem um nem outro, nem um que se torna o outro, mas que constitui, precisamente, a multiplicidade. Por isso é sempre possível desfazer os dualismos de dentro, traçando a linha de fuga que passa entre os dois termos ou os dois conjuntos, o estreito riacho que não pertence nem a um nem a outro, mas os leva, a ambos, em uma evolução não paralela, em um devir heterocromo. Ao menos não é dialética (DELEUZE, PARNET, 1998, p. 29). Em termos deleuzianos, pode-se dizer que este estado tem relação com o devircriança. O movimento do riachinho Sirimim é um modo contínuo de devir, o que importa é o que se coloca entre nascente e foz, ou entre as múltiplas possibilidades de apreensão do sentido de ser riacho. Por isso, a escrita rosiana exemplificada no conto, apesar de íntima relação com o infantil, não necessariamente faz referência a uma infância específica, ou alguma criança. Neste caso, o personagem conceitual representado no Sirimim tem a força de recriar os sentidos do infantil, mesmo não sendo propriamente uma criança. Para Rosane Neves da Silva, o personagem conceitual é uma presença intrínseca ao pensamento, uma condição de possibilidade do próprio pensamento (p.11). Como expressa Deleuze em O que é filosofia, o personagem conceitual é uma espécie de operador para o exercício do próprio pensamento. O personagem conceitual força o pensamento: vai em direção às singularidades por meio das diferenças. Assim, não há um infantil pessoal, mas singular – em Rosa, o jardim e o riacho de “Jardins e Riachinhos” funcionam como personagens conceituais em direção à invenção do conceito de infância. Não se trata, então, de imitar uma “criança molar”, que necessariamente chegará a uma idade adulta, nem uma simples identificação com a criança (DELEUZE, GUATTARI, 2007, p.4-5). Esse devir-criança, linha de fuga na correnteza do Sirimim, relaciona-se com uma involução criadora que se afasta da lógica da evolução, assim como do tempo progressivo. Um movimento contínuo, que não cessa, mas que nunca é o mesmo, pois não vem a se tornar alguma coisa. Pensar na criança como devir, no devir criança, anterior a toda a forma, inclusive à forma criança. Pois o que interessa a Deleuze é o sujeito larvar, o 112 embrião que pode mais que qualquer forma, porque pode fazer o que hoje o organismo não pode mais: movimentos impossíveis (ALBUQUERQUE, 2007, p. 237). “Nos mesmo rios entramos e não entramos, somos e não somos” (HERÁCLITO, 2000, p. 92). Recorremos a Heráclito para melhor refletirmos sobre a predileção de Rosa por neologismos cujos significados não são fixos, mas cambiantes, conflitantes, e, desse modo, eficazes no sentido de ampliar indefinidamente as opções de seus possíveis significados. Opção que, conforme a entendemos, gera algo de uma permanência impossível. Nietzsche escreve sobre o entendimento que possuía Heráclito acerca do mundo, por ele concebido como algo que “nada mostra de permanente, nada de indestrutível, nenhum baluarte no seu fluxo (NIETZSCHE, p.10). Assim como o rio de Heráclito, assim como o mundo de Heráclito, no qual “entramos e não entramos, somos e não somos”, as palavras, e mais especificamente neste caso a figura do riacho, estão em constante devir, em constante fluxo e não possuem uma identidade fixa, um significado único e estático. Esse curso indefinido não tem, ele próprio, momentos por mais próximos que estejam uns dos outros, mas apenas entre-tempos, entre-momentos. Ele não sobrevém nem sucede, mas apresenta a imensidão do tempo vazio no qual vê-se o acontecimento ainda por vir e já ocorrido, no absoluto de uma consciência imediata (DELEUZE, 2003, p. 14). Deleuze e Guattari explicam melhor esta relação com o termo hecceidade. As hecceidades designam a singularidade dos acontecimentos. Assim, por exemplo, as estações, horas, datas são hecceidades porque são dotadas de “uma individualidade perfeita à qual não falta nada”, mesmo que não possamos defini-las nem como coisas nem como sujeitos. Sua individualidade consiste numa determinada “relação de movimento e de repouso entre moléculas ou partículas” que implica num determinado” poder de afetar e de ser afetado” (DELEUZE, GUATTARI, 2007, p.50). A hecceidade mostra um tipo de individuação bem diferente daquele de uma pessoa, um sujeito, uma coisa ou uma substância. Ainda que os tempos sejam iguais, a individuação de uma vida não é a mesma que a individuação do sujeito que a carrega. É o tempo Aión, o indefinido do acontecimento, linha flutuante que só conhece velocidades e, ao mesmo tempo, não cessa de produzir divisões. É algo que simultaneamente representa o que vai se passar e acaba de se passar. Um tempo que se coloca no infinitivo, se opondo aos “valores cronológicos ou cronométricos” (Idem, p. 51). 113 Liga-se ao acontecimento pela intensidade do instante (Aión). Uma hecceidade não tem origem nem um destino, está sempre no meio. É neste sentido que os acontecimentos “possuem uma verdade eterna e seu tempo não é nunca o presente que os efetua e os faz existir, mas o Aion ilimitado, o Infinitivo em que eles subsistem e insistem” (Idem, p. 56). É, portanto, um lugar-entre, um passar entre, onde não há espaço para dualismos e contraposições, é o devir. E quando se pensa em devires, abrem-se caminhos para um tipo de individuação muito diferente da individuação de uma pessoa, de um sujeito, ou de algo que se identifica com a ordem do desenvolvimento, com o plano que tem a ver com as limitações e os contornos, com o tempo cronológico. É neste sentido que os acontecimentos “possuem uma verdade eterna e seu tempo não é nunca o presente que os efetua e os faz existir, mas o Aion ilimitado, o Infinitivo em que eles subsistem e insistem” (O que é filosofia, p. 56)... Os acontecimentos são efeitos das relações entre os corpos. Deleuze não nega a multiplicidade de sentidos de um acontecimento, mas admite a existência dos acontecimentos nas suas efetuações espaço-temporais. Não é a linguagem que os cria, mas ela que os expressa (SCHÖPKE, 2004, p.141142). Na escrita de Rosa é bastante marcante esta característica de um tempo em suspensão que não é delimitado, que não começa ou não acaba, que pode ser o agora e o sempre. Por esta razão, muitos identificam o sentido arcaico e originário na narrativa rosiana. Mas tal sentido não está relacionado a um tempo perdido, mas a algo que pode estar em sempre constante renovação. Recusa da linguagem existente sabendo que é impossível escrever em uma língua reduzida à estupidez instrumental. O mundo produzido por Rosa com os destroços da linguagem existentes é poeticamente bárbaro e arcaico. A nostalgia que se pode ainda sentir de sua inteireza épica não é a de nenhuma mítica e regressiva unidade perdida, mas simplesmente a que nasce do pensamento da nossa existência que ainda não veio (NUNES, 2007, p.31). O escrever poético de Rosa relaciona-se com o criar conceitos de Deleuze. O riachinho Sirimim surge como personagem para pensar em outros modos de infância. Em vez de essências cristalizadoras, um fluxo de forças que aponta para o devir. Assim, surge a necessidade de subverter a língua, de brincar com a sintaxe e a semântica. Rosa lança na escrita uma linha de fuga, pois procura sempre outros significados possíveis nas palavras que 114 recria. “Sirimim traspassa agosto, setembro a abril, chovido fevereiro, dezembro e tudo, flui, flui. (...) Sirimim atravessa uma noite e um luar, muito claros, os vaga-lumes vindos, os curiangos cantando, perto e longe, por cima do mundo inteiro” (ROSA, 1994, p.1173). A invenção na escrita rosiana força uma atitude de experiência poética. É a tensão gerada por um pensar a infância não mais numa escala temporal definida, sequencial e ordenada, mas na forma de um conjunto de acontecimentos entrecruzados, confronto que nos conduz a uma gama de questões que, por sua vez, direcionam este trajeto investigativo. 115 CAPÍTULO IV - ENTRE BARROS, BARTOLOMEU E ROSA: CAMINHOS DA INFÂNCIA DA ESCRITA 4.1 - A Infância da Palavra em Manoel de Barros Quando representada na linguagem poética de Manoel de Barros, a infância remete a uma experiência diferenciada no mundo, em que o tempo cronológico não ordena a captura das memórias de uma infância passada. As construções da linguagem brincam com o tempo passado, com uma memória inventada. O fazer poético de Manoel de Barros joga com os sentidos do tempo que se passou, fundindo-o com o presente, contextualizando os objetos da natureza e fazendo que deles se irradiem novos significados. Assim como Guimarães Rosa, Manoel de Barros compõe uma linguagem inovadora, povoada de neologismos e, ao mesmo tempo, resgata as raízes da língua portuguesa, em busca de uma escrita originária. As poesias são construídas no ritmo da liberdade, da inovação linguística. O minimalismo, o lúdico, e o coloquial são aspectos bastante recorrentes em sua obra. Ele escreve pelo exercício poético, como diz Larrosa, de fazer insólito o cotidiano e cotidiano o insólito (2002, s/p). Quando Manoel de Barros recria a língua, igualmente faz ressurgir um outro mundo, muitas vezes invisível aos olhos daqueles que estão insensíveis às coisas simples e pequenas. Para tanto, opta por elementos como ao resíduos, os fragmentos, uma poética da pequeneza. Assim, sua escrita inverte os sentidos habitualmente conferidos a tais elementos. Manoel de Barros constrói sua obra partindo dos refugos e dos vestígios, tal como fazem as crianças em suas brincadeiras, valorando os restos. Brincando, as crianças fazem saltar de um “simples pedacinho de madeira, uma pinha ou uma pedrinha as mais diferentes figuras” (BENJAMIN, 1984, 69-70). Barros valoriza em sua poesia os objetos e as coisas sem valor de mercado (como latas e parafusos velhos, cisco, lagartixas e formigas). Ao valorizar a simplicidade, atribui-lhe relevo, dando a entender que as pequenas coisas ganham uma dimensão maior quando associadas à brincadeira e à invenção. Meu desagero é de ser Fascinado por trastes. (BARROS, 2001e, p.53) 116 É um olhar para o ser menor, para o insignificante que eu me criei tendo. O ser que na sociedade é chutado como uma barata – cresce de importância para o meu olho. (BARROS, 2001d,p.27) A criança, que geralmente não tem sua voz legitimada no mundo adulto, permeia grande parte da obra de Manoel de Barros de Barros. Ao observar como é a lógica do mundo adultizado, com a supervalorização de um sujeito amadurecido e forte, Manoel de Barros verifica na linguagem infantil a possibilidade de quebrar paradigmas e inventar outras escritas. Só as palavras não foram castigadas com a ordem natural das coisas. As palavras continuam com os seus deslimites. (BARROS, 2001d, p.77) Na linguagem infantil, podem ser encontrados os deslimites da palavra, que, na forma de liberdade própria da poesia, se esgarçam para recriar a escrita. A identificação do poeta com a infância se sustenta no fato de que ambos fazem uso da linguagem como a maneira de experimentar não só o vivido, mas também o imaginado. A palavra recriada pela criança pode transfigurar a realidade: Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças. (BARROS, 1999, s/p.) No descomeço era o verbo. Só depois é que veio o delírio do verbo. O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos. A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som. Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira. E pois. Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos – O verbo tem que pegar delírio. (BARROS, 2001b, p. 15) A língua é transgredida em sua formalidade, pois só assim se possibilita a renovação, experimentando novas formas de sentir o mundo, como uma criança que experiencia tudo, entre séria e lúdica, como num jogo de descobertas. 117 A infância para Barros não é uma categoria de ingenuidade ou incompetência, mas como uma inquietude inventiva e transgressora, um estado capaz de criar uma língua menor inserida numa língua maior, tal como o pensamento de Deleuze, já explicitado no capítulo anterior. Dentro do pensamento deleuzeano, o estilo de Manoel de Barros fica evidente através da menção do filósofo a Proust: “Os belos livros estão escritos em um espécie de língua estrangeira” (DELEUZE, 1997, p. 8). A língua menor está abaixo da palavra de ordem e se localiza fora das imposições da língua da maioria. O estilo de Barros se aproximaria dessa língua menor dentro da língua maior, como um devir outro da língua, uma minoração delirante da língua maior. O poeta, ao valorizar uma escrita que não se importa com a lógica, está produzindo tal minoração da língua, de caráter delirante. Dessa forma se afasta do pensamento racionalizante - característico do adulto. A poesia de Barros, então, presta mais atenção à fala infantil, já que a criança tem uma habilidade de segmentar, lacunarizar e reinventar a linguagem. A racionalidade própria do adulto, via de regra apoiada sobre um discurso de verdades incontestáveis, força a desvalorização da imaginação em contraposição à razão. Jobim & Souza (1994, p. 89) afirmam que “a criança emprega suas mágicas usando metamorfoses múltiplas, Só ela dispõe tão bem da capacidade de estabelecer semelhanças. Esse dom a separa dos adultos, cuja imaginação se encontra tão bem adaptada à realidade”. Desta forma, o mundo adulto força a perda do potencial criador que tem a palavra. Faz-se, então, necessário, reinventar uma linguagem ou resgatar algo que nela está perdido. Jobim entende que a linguagem infantil é expressão crítica da modernidade, vendo a infância como caminho para a recuperação da pura expressão, no contexto de uma sociedade capitalista que tudo cristaliza. Nesse contexto, a linguagem e a atitude infantil ameaçam as convenções validadas pelos adultos. Manoel de Barros viola a língua padrão, a norma culta, para compor poesia com o modo de falar da criança, articulando oralidade e escrita. Em Poeminhas pescados de uma fala de João (2001c, s/p.), o eu lírico é a voz de uma criança que não aprendeu a conjugar os verbos irregulares e fala por onomatopéias: “Nain remou de uma piranha. Ele pegou um pau, pum!, na parede do jacaré... Veio Mariapreta fazeu três araçás pra mim. Meu bolso teve um sol com passarinhos... Você viu um passarinho abrido naquela casa que ele veio comer na minha mão?” 118 Manoel de Barros toma como matéria de poesia aqueles aspectos característicos da escrita infantil que professores e estudiosos da língua consideram falhos ou incorretos. É o reconhecimento de que as palavras, na escrita infantil, não é apenas um instrumento de comunicação, mas também um campo de exploração, um jogo com as palavras, em constante experimentação. É bastante comum à infância os jogos de linguagem em que esta é empregada para além de seus usos codificados e estabelecidos. A linguagem da criança tornase, dessa forma, uma referência para se considerar a não arbitrariedade do signo lingüístico. É palavra sobre palavra, um circuito lúdico interno ao sistema lingüístico. Para Manoel de Barros de Barros, naquilo que o adulto considera desrazão, absurdo e insensatez, é que se pode encontrar a poesia. O eu lírico do poema abaixo rememora sua infância, mostrando nas brincadeiras de que participava a possibilidade de imaginação e criação. Eras Antes a gente falava: faz de conta que este sapo é pedra. E o sapo eras. Faz de conta que o menino é um tatu. E o menino eras um tatu. A gente agora parou de fazer comunhão de pessoas com bicho, de entes com coisas. A gente hoje faz imagens. Tipo assim: Encostado na Porta da Tarde estava um caramujo. Estavas um caramujo – disse o menino. Porque a Tarde é oca e não pode ter porta. A porta eras. Então é tudo faz de conta como antes? (BARROS, 2001a, s/p.) Ao ler estas linhas da poesia de Barros, verifica-se que já é tarde demais para se resgatar as vivências do menino que recriava o mundo pelo “faz-de-conta”. Mas, de fato, ao reverter a ordem temporal e jogar com os sentidos da palavra “eras”, o eu poético recupera, através da linguagem, a possibilidade de renovar a infância, cada vez que o leitor desliza seu olhar por suas (de Barros) linhas poéticas. O mundo se recria transfeito, transfigurado numa linguagem ludicamente poética. A escrita também se reinventa em contato com a realidade em devir. Ela é o ritmo da ludicidade do ser em devir, como o sugere a passagem abaixo: Eterno Retorno do Infantil que produz a novidade e a diferença, o Ser do 119 devir-criança é um sistema do múltiplo, que não se detém nunca no jogo de sua própria proliferação, e que é unívoco, não no sentido da unidade platônica, mas porque, no jogo ideal do acaso, é Ser jogado todo de uma vez (TADEU, CORAZZA, 2003, p. 94). As mudanças surgem na poesia em que o brincar infantil transforma as coisas ínfimas e inúteis da natureza em linguagem poética da reinvenção. O resultado é um texto que registra a interpenetração das propriedades naturais. Desse modo, árvores, animais, pedras comungam com os seres humanos, a vida se potencializa na diversidade da natureza. Ao entrar em contato com a poesia de Manoel de Barros ressurgem os desejos de “rachar o vento”, de “entrar dentro de um inseto”, de “aprender o idioma das árvores”, de ter um “bolso cheio de sol com passarinhos”. Uso a palavra para compor meus silêncios Não gosto das palavras fatigadas de informar ... Queria que a minha voz tivesse um formato de concha. Porque não sou da informática: eu sou da invencionática. Só uso a palavra para compor meus silêncios (BARROS, 2003, O apanhador de desperdícios). 2 Não é somente um exemplo de nostalgia ou de saudades da infância, mas do entendimento de que as palavras podem reinventar uma outra infância, por meio dos silêncios que se estabelecem entre as linhas poéticas. Ao falar que os “cheiros de infância” representam um dos sedimentos das palavras, Manoel de Barros mostra os vestígios da criança que se conservam no adulto: Remexo com um pedacinho de arame nas minhas/ memórias fósseis./ Tem por lá um menino a brincar no terreiro/ entre conchas, osso de arara, sabugos, asas de caçarolas, etc./(...) / O menino também puxava, nos becos de sua aldeia, por um barbante sujo, umas latas tristes./ (...) O menino hoje é um homem douto que trata com/ física quântica./ Mas tem nostalgia das latas./ Tem saudades de puxar por um barbante sujo/ umas latas tristes.(...) Aos parentes que ficaram na aldeia esse homem/ encomendou uma árvore torta.../ Para caber nos seus passarinhos./ De tarde os passarinhos fazem árvore nele (BARROS, 2001b, p. 47). 2 caixas. As referências são indicadas pelo nome do poema, pois a obra é composta por folhas soltas dentro de 120 O poema vem mostrar que a vida humana não se desenvolve em uma temporalidade em uma linha reta, mas em um entrecruzamento de tempos. Haverá sempre uma sombra da infância, das brincadeiras de criança nos atos dos adultos. É uma saudade que não se detém no passado, mas que cria a partir desses vestígios do infantil. 4.1.1. Memórias inventadas: sendas para os achadouros da infância Em três datas distintas — 2003, 2006 e 2008 — Manoel de Barros publicou uma trilogia cujos volumes se intitulam respectivamente A Infância, A Segunda Infância e A Terceira Infância. Em 2010, volta a publicar o livro Menino do Mato, em que retoma o tema da infância. A trilogia Memórias inventadas, publicada pela editora Planeta, vem dentro de uma caixinha em forma de presente, onde os textos são ilustrados por iluminuras feitas pela filha do poeta, Martha de Barros. As poesias reinventam a infância do autor, carregada de lirismo, levando à descoberta da poesia, dos animais e da sexualidade e provando que um quintal é maior que o universo. As três obras são prefaciadas pelo texto “Manoel por Manoel”, em que o autor se autodefine em sua função de poeta. Menino do Mato também é prefaciado por esse mesmo texto, mas é publicado pela editora Leya, e no formato tradicional do livro. Por sua vez, o título Memórias Inventadas lança uma indagação causada por uma certa estranheza: se são memórias, como podem ser inventadas? A invenção é da ordem do novo, daquilo que ainda não aconteceu. E as memórias relacionam-se com lembranças do que, de alguma forma e com alguns limites, já existiu. É que no plano da infância as coisas acontecem de outra maneira: tudo pode ser inventado. A frase de Barros, “noventa por cento do que escrevo é invenção; só dez por cento é mentira” (BARROS, 2003, p. 45), reforça o valor da invenção na criação do novo. E como nada escapa a esta potência criativa, até as memórias são inventadas. Uma escrita do que foi experimentado no passado pode ser desdobrada em múltiplos sentidos. O livro Memórias inventadas. A infância mostra uma outra concepção da memória, que não se constrói pelas rememorações do real. Geralmente a memória é considerada como “algo da ordem do não-inventado, da desinvenção. Ao contrário, a invenção parece indicar 121 algo novo, que se inicia, que começa, portanto impossível de ser lembrado... A memória e a invenção andariam em direções contrárias, desentendidas” (KOHAN, 2007, p. 56). E é justamente nesta contradição que Manoel de Barros cria a sua poesia, voltando-se para o passado e reinventando o tempo da infância. A linguagem poética é o diapasão que regula e afina esse processo polifônico que constrói, com os cacos da infância, os novos sentidos escondidos nas dobras das palavras. Nestas contradições, são abertas possibilidades de se repensar o processo de criação. É algo que traduz um corte com a ordem contínua e sucessiva do tempo. Uma memória inventada está numa dimensão outra, que não comporta nem passado, nem presente, mas um instante contínuo de experimentação, algo muito próprio do imaginário infantil. A maioria das histórias contadas pelos adultos sobre a sua infância não representa o mundo infantil em toda sua potência criadora. As infâncias, tais quais narradas em muitos textos biográficos, não conseguem traduzir a experiência do universo infantil. A poesia de Manoel de Barros não sofre dessa limitação. Na imaginação do autor, a infância é descrita como um poema, ele brinca com as palavras, criando imagens inusitadas em suas composições. Ao inventar suas memórias, o poeta apresenta uma forma outra de se experimentar a infância, que não é referencial nem verificável, mas singular em suas vivências criadoras. A intimidade com os objetos de brincadeira infantil, a simbiose com os elementos naturais fazem do poeta um artesão que, na correnteza da linguagem, assinala sua singularidade. Este diferencial instaura relações novas com o mundo ao redor. As coisas pequenas e ínfimas são valoradas, ganhando espaço na poética de Barros. Manoel de Barros escreve um faz-de-conta da infância, rompendo com os clichês e os valores cristalizados, uma escrita em expansão, traçando linhas em que passado e presente se cruzam. O futuro então aparece como possibilidade nas recordações e nas vozes silenciadas pelo tempo. Ao compreender o texto poético de Manoel de Barros como uma infância da escrita, abrem-se vias, por meio da linguagem, para que muitas experiências possam ser experimentadas. As memórias afetivas seriam grafadas por um registro inaugural e originário de sensações que talvez nunca poderiam ser vivenciadas no período da infância. As memórias 122 podem então ser criadas, no reino da “invencionática”. Um desenho novo se delineia, como as lembranças de uma infância que jamais existiu, como aquelas evocadas por Barthes: Do passado é minha infância que mais me fascina; somente ela , quando a olho, não me traz o pesar do tempo abolido. Pois não é o irreversível que nela descubro, é o irredutível: tudo o que ainda está em mim, por acessos; na criança, leio a corpo descoberto o avesso negro de mim mesmo, o tédio, a vulnerabilidade, a aptidão dos desesperos (felizmente plurais), a emoção interna, cortada, para sua infelicidade, de toda expressão (BARTHES, 2002, p.34). Na poesia de Manoel de Barros, também se verifica esse irredutível de que Barthes fala. O que importa são os caminhos que se abrem, acessando pela palavra poética uma infância. No quintal em que se brincou na infância, o poeta revelou os “achadouros”, buracos que os holandeses faziam para esconder suas moedas de ouro. A partir desta história que uma descendente de escravos contava, Barros reflete sobre os “achadouros de infância”. Ao cavar buracos nos quintais das memórias, se podem construir caminhos até a redescoberta de uma infância, como no poema “Achadouros” (BARROS, 2003). O quintal é o lugar onde as coisas ganham importância pelo grau de intimidade que se tem com elas. Retorna-se a um tempo através das lembranças que se valorizam pela carga emotiva estabelecida entre passado e presente. Assim percebida, a infância não se reduz a um tempo pessoal e imutável, podendo funcionar como um laboratório para repensar e ampliar sensibilidades e virtualidades não desenvolvidas, conforme postulação de Konder: Todo passado está carregado de possibilidades de futuro que se perderam e que teriam (ou têm?) para nós uma significação decisiva: Benjamin sublinhava a importância desse “futuro do pretérito” na rememoração histórica.(...). É aí que o tema da infância assumia um papel fundamental: cada um de nós tem a possibilidade de rememorar sua própria infância, que é uma história que lhe é íntima, que pode lhe abrir segredos preciosos, que pode funcionar como um centro especial de treinamento para o sujeito desenvolver sua sensibilidade e sua capacidade de resgatar significações obscurecidas que ficaram no passado (KONDER, 1988, p. 55-56). Para Manoel de Barros, a infância é lugar privilegiado. Na sua escrita, há sempre um futuro do pretérito, algo que se passou, mas que pode ser continuamente recriado. O empenho do eu poético ocorre no sentido de buscar os achadouros, abrindo caminhos em direção à infância, não diferentemente do que faz o narrador do romance Dom Casmurro cujo evidente fim é reencontrar o tempo antigo e redescobrir o frescor da juventude, ou, nas palavras dele, 123 “atar as duas pontas de vida, e restaurar a velhice na adolescência” (MACHADO DE ASSIS, 1959, p.730). Em Barros, lemos:“Vou meio dementado e enxada às costas a cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos” (BARROS, 2003). O poeta não quer somente buscar o menino que ele foi, mas uma infância propícia à criação. Um reencontro constante com essa infância que torne os leitores uns “apanhadores de desperdícios”. É a maneira de resgatar a criança que imagina, inventa, valoriza os “inutensílios” e, por vezes, transgride a ordem adulta. De acordo com o Dicionário Michaellis da Língua Portuguesa, há as seguintes definições para a palavra senda: 1 Caminho desviado, estreito, para pedestres; atalho, vereda. 2 O caminho que se segue na vida, quer praticando a virtude quer o vício. 3 Hábito, praxe, rotina. 4 Modo de proceder. 5 Via moral. Tendo tal sentido em vista, também aqui se abrem sendas para descobrir uma infância da escrita na obra de Guimarães Rosa. São atalhos ou veredas que se estendem a uma poética infantil, percurso mediado pela “invencionática” de Manoel de Barros. E igualmente abre-se a possibilidade de pensar outras formas de proceder literariamente. 4.1.1.1 - Senda primeira: Comunhão No prefácio incluído nas últimas quatro obras de Barros, o autor tenta se definir, reportando ao modo de ser menino. Eis o que diz o autor: Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto. Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um 124 orvalho e sua aranha,de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores (BARROS, 2003, Manoel de Barros por Manoel de Barros). A infância é descrita como o tempo das descobertas, do contato e comunhão com a natureza, espaço e tempo em que tudo se nos afigura uno, e o desprezível passa a ter valor, a merecer destaque. Manoel de Barros remexe com as possibilidades múltiplas do escrever, ou seja, demonstra o quanto criativo e libertador pode ser o trabalho poético. Essa possibilidade resulta sobretudo da comunhão, intermediada pela natureza, entre a infância e a escrita poética. Na infância, há uma maior receptividade das coisas que são naturais, há mais comunhão com seres e linguagens primevas, pois a criança experimenta sempre, como se fosse a primeira vez, cada emoção, cada contato com a terra, com as árvores, com os bichos, enfim, com o mundo. Conforme defende Linhares, na poética de Barros há uma interação do eu-atual e do eu-do-passado: “Ele busca fazer a comunhão entre a criança que foi com o adulto que é, mas sem conseguir desvencilhar-se da visão que nesse um conjugam-se dois” (2006, p.65). Assim, não há espaço para a comparação entre ser adulto e criança, pois pela escrita poética, instaurase uma comunhão entre ambos, ou seja, entre tempos ou fases da vida que, via de regra, são considerados excludentes entre si. Existe também uma relação íntima entre o menino e a natureza. O limite entre os dois é quase indistinguível: a criança se integra à natureza, torna-se natureza, comunga com ela. Isso se torna possível porque, ao compor seu mundo de brincadeiras, a criança nulifica os limites entre interioridade e exterioridade, dentro e fora, natureza e cultura. Além disso, o espaço na natureza é propício ao brincar e ao diluir fronteiras: nele, há comunhão da criança com as coisas, bichos e plantas. Pode-se, ademais, entender o quintal da infância representada 125 na poética de Barros como o espaço em que, criativas, as crianças constroem um mundo sem a intervenção, a limitação ou o direcionamento de adultos. Esta senda da comunhão que Manoel de Barros abre para a compreensão da escrita poética infantil, leva em direção ao Sirimim rosiano. A comunhão para a qual aponta Barros ocorre pela retomada de uma singularidade que, através das palavras, se transmuta na criança e na fusão dos elementos da natureza. Tudo germina, cresce, transforma-se com uma escrita poética. Trata-se de uma poesia/vida que promove, na escrita da infância, um encontro cuja dimensão está fora do tempo sucessivo e linear. Em toda a narrativa de “Recados do Sirimim”, de Guimarães Rosa, percebe-se a comunhão entre poesia, natureza e o modo infantil de agir/imaginar/escrever infantil. Encontram-se muitos exemplos que materializam sensações que podem ser experimentadas pelo leitor quando este percorre o riacho Sirimim. Por meio da escrita de Rosa, é possível se reportar à infância nas imagens criadas, ou desejá-la como uma infância que poderia ser vivida por qualquer pessoa. Assim, experimentando sensações e compartilhando imagens, pode-se viver de forma inaudita uma infância pessoal e peculiar, mas ao mesmo tempo bem universal. As experiências ou vivências forjadas na imaginação propiciam sensações que nos aproximam de realidades possíveis que se presentificam através do discurso. Em “Recados do Sirimim” surge o narrador em primeira pessoa. Parece um aprofundamento gradual que se estabelece na relação entre o narrador e o leitor. Aos poucos, conforme se institui um maior contato com a narrativa rosiana, tece-se uma intimidade do leitor com a história do riachinho. “Nosso riachinho vai, vai. Dou a vocês notícias dele, nesse tempo de amores. De lá, o mundo é lúcil, transparente. É julho” (ROSA, 1994, 1175). Os elementos da natureza se conjugam nesta paisagem invernal, compondo um mosaico sutil que sempre tem como personagem principal o próprio Sirimim. As “raízes crianceiras” citadas por Barros aparecem aqui em cada detalhe do cenário que vai se concretizando, como a neblina que se torna fiapos. “Com o sol, ela já dá de se esfiapando, subindo – os penachos de neblina” (ibidem). Tudo está em comunhão na paisagem de Sirimim: as pedras, a neblina, as árvores, os animais, as pessoas. Neste sentido, as coisas de importância menor são ressaltadas na composição da natureza que circunda o riachinho. É assim que ocorre na gradação em que é apresentado o Sirimim, pois na sequência dos três contos (“Riachinho Sirimim”, ‘Recados do 126 Sirimim” e “Mais meu Sirimim”) aos poucos são inseridos os personagens humanos. O riacho é o eixo principal, em torno dele, em total comunhão, estão outros elementos da natureza e os seres humanos, sem que haja uma relevância maior para qualquer um desses componentes. Como Manoel de Barros, Rosa humaniza as coisas e os humanos, colocando-os num mesmo patamar. Em “Recados do Sirimim”, a escrita de Rosa revela a comunhão entre os seres, entre as possibilidades. O sujeito é dissolvido na paisagem, não aparece nem como agente, nem como observador. Para o autor, o importante não está em grandes, mas em pequenos acontecimentos da vida. Descobre nos eventos locais uma valoração da simplicidade do viver. Essa atitude poética só acontece quando a escrita se constrói a partir de uma visão infantil, em homologia com estas palavras de Barros: “Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore” (BARROS, 2003, Manoel de Barros por Manoel de Barros). Não é necessário vivenciar ou experimentar diretamente esta realidade para se identificar com a experiência de uma infância no Sirimim. Na verdade, experimenta-se, por meio da poesia, uma vivência do Outro, uma imaginação do Outro, da criação ou recriação da mente que “vê, revê e transvê” (BARROS, 2000, p. 75). Nesse sentido, citando Lopes (2007, p. 87), o mundo e a paisagem “implodem o sujeito” através da escolha de termos que evidenciam a pluralidade que integra a formação de uma singularidade: a comunhão, senda aberta para a compreensão da infância da escrita em Rosa, ocorre por uma distinção não de uma coisa fora de si mesma, mas distinta em si. As palavras em Rosa estão povoadas de sensações, em uma comunhão sinestésica. Indistintos sentimentos podem brotar de expressões como “Pedro raiava feliz”, “o calor estava pesando forte”, “barulho de nino de água” (ROSA, 1994, p. 1175- 1176). Nesta comunhão de sensações, é muito forte a impressão de materialização do que parece impalpável, o que é próprio do infantil: Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que tentara pegar na bunda do vento – mas o rabo do vento escorregava muito e eu não conseguia pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado e disse que eu tivera um vareio da imaginação. Mas que esses vareios acabariam com os estudos. E me mandou estudar em livros. Eu vim. (BARROS, 2008, Soberania). 127 A necessidade de concretude deste ato é concomitante ao instante em que o menino tenta agarrar algo inconsistente. E a escrita poética deriva mesmo destas tentativas de captar aquilo que é impalpável, difícil de ser definido concreta e semanticamente. É o ritmo fluido da poesia. Os personagens misturam-se ao ambiente que os cercam. A vivência e a comunhão entre os seres parecem completas, simbióticas, um amálgama. Como já visto anteriormente, não são priorizadas as narrativas dos personagens habitantes das margens do Sirimim. Não se conta uma história sobre a vida deles. O que ganha relevância é justamente essa comunhão das pessoas com os elementos naturais. São os olhos d’água no terreiro de Joaquim, o formigueiro na casa de Antonio, as plantações de Pedro, as rãs de Irene (ROSA, 1994, p. 1175-1177). Ao mostrar as histórias do Sirimim, Rosa logra também a comunhão entre os personagens e a natureza ao redor. Ao capturar o riacho em seu curso, o autor não quer somente assemelhar pessoas à natureza, mas transmutá-las na própria natureza. Manoel de Barros, em entrevista à Martha Barros, diz que (...) é preciso evitar o grave perigo de uma degustação contemplativa dessa natureza, sem a menor comunhão do ente com o ser. Há o perigo de se cair no superficial fotográfico, na pura cópia, sem aquela surda transfiguração epifânica. A simples enumeração de bichos, plantas (jacarés, carandá, seriema, etc.) não transmitem a essência da natureza, senão que apenas a sua aparência. Aos poetas é reservado transmitir a essência. Vem daí que é preciso humanizar de você a natureza e depois transfazê-la em versos” (BARROS, 1996, p.315). É pela escrita poética que Barros, assim como Rosa, constrói uma singularidade, numa série de aproximações e distanciamentos, nas coisas em si. Assim, costura seu processo de identificação juntando permanência e singularidade, corporiedade e incorpóreo. Demonstra o ser no mundo e com o mundo, de forma que a essência se realiza na existência humana, não podendo ser entendido como tal, se fossem furtadas suas experiências de interação e descobertas com a natureza, com as pessoas, com os seres naturais. Assim sendo, nessas interações e descobertas, estão potencializadas as motivações que o conduzem ao poético. 4.1.1.2 - Segunda senda: Canto inaugural O sentido da poética da Manoel de Barros reconhece em seus temas variações do 128 mesmo, como o encantamento da palavra inaugural: “Transforma-se em poeta de um só tema: a palavra a ser inventada e, com ela, toda a realidade” (CASTRO, 1991, p.12). O poeta busca nas palavras, nomeando o ser nas coisas que brotam e emergem, conferindo-lhes presença na vida do poema. A palavra é original e originante. Manoel de Barros, encantador de palavras, comunga da visão a partir do horizonte das coisas, pois “o que desabre o ser é ver e ver-se” (BARROS, 2003, p.23). Manoel de Barros cria o instante poético de uma infância que perdura na memória do adulto. O que não é, porém, uma simples recordação do passado infantil. O processo de revitalização da infância se estende além da rememoração, pois se vincula a um modo de constante criação e transformação. Recuperam-se os instantes vividos da infância pela imaginação criativa de uma memória poética, como nos sugere a seguinte passagem: Meditar na origem da existência humana, recordar o tempo de infância significa poetizar a gênese da vida [...] A origem não é o início, mas o princípio dinâmico da vida, que assegura a sua razão de ser [...] O mundo da existência renasce porque mergulha as suas raízes no universo da infância (MELO E SOUZA apud CASTRO, p. 114). O movimento poético de Barros, então, é o de “escovar as palavras”, para que se possam escutar os “clamores antigos” (BARROS, 2003, Escova). São as palavras-concha, lugares que se desdobram em inúmeras possibilidades para inaugurar sentidos outros. A palavra poética de uma infância resgatada nas grutas pela memória desconhece a disciplina da ordem estabelecida pelo mundo adulto. Assim, também desconhece o sentido arbitrado para o que é útil e o que não é. A poesia de Barros se estabelece pelos “nomes que fertilizam a linguagem”, abrindo caminhos de “volta aos primórdios”, para “o início dos cantos do homem” (BARROS, 2006, Nomes). Descarta as coisas úteis, redescobrindo funções poéticas nas inutilidades. Todos os nomes se unem na direção da gênese da poesia. Palavra, terra, infância, inutilidades, memória – elementos que surgem encantados pela magia da poesia que fala dos começos. Barros se satisfaz em brincar com as palavras, virá-las e revirá-las em seus usos e sentidos. Usa, assim, “os fósseis linguísticos que acha para renovar sua poesia” (Idem, Aprendimentos). A natureza não é somente um lugar para a contemplação, mas para a formação das palavras: 129 Fomos formados no mato – as palavras e eu. O que de terra a palavra se acrescentasse, a gente se acrescentava de terra. O que de água a gente se encharcasse, a palavra se encharcava de água. Porque íamos crescendo de em par. Se a gente recebesse oralidades de pássaros, as palavras receberiam oralidades de pássaros. Conforme a gente recebesse formatos de natureza, as palavras incorporavam as formas da natureza (BARROS, 2008, Formação). Assim como Barros, Rosa não busca na natureza uma simples enumeração de bichos e plantas, mas resgata a essência das coisas simples, procurando a “semente da voz, a metáfora” (ibidem). “A poesia nasce de modificações das realidades linguísticas” (ROSA, 1973, s/p). Conforme Coutinho, na linguagem poética, “a palavra não é um meio, mas um fim em si mesmo, ela deve transcender o conceito sugerindo muito mais do que basicamente significa” (1983, p.204). A escrita de Rosa pondera sobre a palavra ou construção da língua utilizadas por ele, ao recobrar a expressividade originária das palavras que, desgastadas com o uso ao entrarem no âmbito da linguagem corrente, perderam seus significados poéticos e passaram a ser puros significados conceituais. Ao compor a sua escrita, Rosa não cria uma língua nova, mas faz, a partir da afirmação de Coutinho, “explorar as possibilidades latentes dentro do sistema da língua com que está lidando e conferir existência concreta àquilo que existia até então como algo meramente em potencial” (COUTINHO, 1983, 205). Guimarães Rosa, ao revitalizar a linguagem, não somente doou novos significados às palavras da língua portuguesa, mas também construiu novos significados para a realidade, transformando a maneira de se pensar as coisas no mundo. (...) se alguém altera a organização habitual dos vocábulos e rompe com a estrutura sintática da sentença, estará inevitavelmente transformando o mundo percebido através dela (...) Para Guimarães Rosa, é mediante a criação da linguagem que o poeta renova o mundo. E, deste modo, todo verdadeiro poeta é também revolucionário, porque, ao libertar a língua da estrutura tradicional, estará automaticamente libertando o homem de suas categorias arcaicas de pensamento e o estará induzindo a enxergar a nova realidade de seu tempo (COUTINHO, p. 207-8). Guimarães Rosa afirma, em entrevista, que seu método “implica na utilização de cada palavra como se ela tivesse acabado de nascer, para limpá-la das impurezas da linguagem cotidiana e reduzi-la a seu sentido original” (LORENZ, 1973, p.81). Por isso, ele prefere a língua falada no Brasil, pois não está tão saturada, como o português falado na Europa. 130 A escrita de Rosa, então, está sempre procurando uma espécie de linguagem em estado nascente, que se instaura junto com a estória que está sendo narrada. Na trilogia do riachinho Sirimim, o autor faz referência às origens do riacho, às águas primordiais. Dessa forma, também se reporta a uma busca pelo sentido originário das coisas no mundo. “Vamos vir ao começo: aquela grande pedra manânime, ninfal. Donde o Sirimim primeiro nasce” (ROSA, 1994, p. 1175). Ela é o berço, fonte dos eventos primordiais. Ao criar novas formas de demonstrar os sentidos da expressão poética, Guimarães Rosa quase sempre inaugura novas palavras e expressões. Isso pode ser mais claramente verificado no trecho em que é narrada a brincadeira do patinho atrás de uma libélula, em “Recados do Sirimim”: Parece que queria pegar uma libélula. O patinho veio nadando, subindo o Sirimim, por todas as retas e curvas, contra a correnteza, tão pequenino e douradinho, entrequequanto. Veio parar antes da ponte, no bambuzinho adonde um ninho de sabiá. Ali, estreita. Ali, ele gostou, nadava em volta de si, e parafusava com a cabeça, dentre o d´água. No que estava, porém, entre capins, se assustou e voou. Se assustou, sem duas vezes, com algo do mato. Voou para baixo e para cima dos bambus. Voou para o rio certeiro, voltou voando para perto da pata, sua mãe, na foz: e a marreca, com seus sete marrequinhos, mergulharam então para fugir, para o rio, além (ROSA, 1994, p. 1179). Rosa faz brincadeiras com as palavras, para acentuar o sentido lúdico da aventura do patinho atrás de uma libélula. Carrega de tons infantis a escrita que se descobre sempre nova, cantada em sons inaugurais. Isso faz com que se busquem novos possíveis significados “para além do puro aspecto denotativo da expressão” (COUTINHO, 1983, p.206). Ao criar expressões como “entrequequanto”, Rosa inventa um termo que tenta dar conta do sentido de um lugar no tempo e no espaço deslizantes que continuamente se colocam numa região intermediária. O patinho nada feliz em algum lugar entre as margens do Sirimim, num átimo de tempo intenso de ludismo antes de pegar a libélula. Além disso, produz uma palavra — entrequequanto — que remete sonoramente ao grasnar do patinho. A omissão de verbos de ligação no trecho — “Veio parar antes da ponte, no bambuzinho adonde um ninho de sabiá ali, estreita” — salienta ainda mais o sentido imediato decorrente da brincadeira do patinho. A experiência lúdica era para ser vivida no ali e no agora, dada a força intensiva do momento singular. Um tempo que é único, sem passado ou futuro. O tempo quase em suspensão da infância. 131 A força da escrita poética de Rosa manifesta-se neste pequeno espaço do Sirimim e advém do exemplo da criança. O autor se identifica com a infância, com os primórdios. É a criação original: evocação e recriação de algo que está na origem dos tempos e no fundo de cada homem, algo que se confunde com o tempo e o humano, e que, sendo de todos, é também único e singular. A frase poética é tempo vivo, concreto; é ritmo, tempo original, perpetuamente se recriando. É pela voz da infância que o poeta alcança a linguagem primordial. A liberdade do dizer inaugural não pode ser submetida a uma estruturação rígida da língua. A proposta do poeta de representar a infância é coerente com o desejo de traduzir uma fala inaugural. É na criança que habita o segredo do poeta. 4.1.1.3 - Terceira senda: Brincar de palavras A escrita de Manoel de Barros é uma descoberta renovada, como as infinitas possibilidades da poesia, que nascem de um descompromisso com a formalidade da língua. É uma poesia de quem experimenta ver o mundo sob uma ótica inaugural, com a da criança. A par da descoberta e da novidade, o poeta “não gosta das palavras engavetadas”, “aquela que não pode mudar de lugar”. A procura da palavra incontaminada, renovada ou musical leva o poeta “a gostar mais das palavras pelo que elas entoam do que pelo o que elas informam” (BARROS, 2003, Cabeludinho). As palavras se tornam objetos lúdicos, com os sentidos desregrados e livres da prisão referencial. E geram um enorme contentamento, uma alegria de quem brinca, sem a preocupação com os compromissos e as formalizações. Esta atitude brincante, tão própria do infantil, é bem caracterizada no poema “Jubilação”: Tenho gosto de lisonjear as palavras ao modo que o Padre Vieira lisonjeava. Seria uma técnica literária do Vieira? É visto que as palavras lisonjeadas se enverdeciam para ele. Eu uso essa técnica. Eu lisonjeio as palavras. E elas até me inventam. E elas se mostram faceiras para mim. Na faceirice as palavras me oferecem todos os seus lados. Então a gente sai a vadiar com elas por todos os cantos do idioma. Ficamos a brincar brincadeiras e brincadeiras. Porque a gente não queria informar acontecimentos. Nem contar episódios. Nem fazer histórias. A gente só gostasse de fazer de conta. De inventar as coisas que aumentassem o nada. A gente não gostava de fazer nada que não fosse de brinquedo. Essas vadiagens pelos recantos do idioma seriam só para fazer jubilação com as palavras. Tirar delas algum motivo de alegria. Uma alegria de não informar nada de nada. Seria qualquer coisa como a conversa 132 no chão entre dois passarinhos a catar perninhas de moscas. Qualquer coisa como jogar amarelinha nas calçadas. Qualquer coisa como correr em cavalo de pau. Essas coisas. Pura jubilação sem compromissos. As palavras mais faceiras gostam de inventar travessuras. Uma delas propôs que ficássemos de horizonte para os pássaros. E os pássaros voariam sobre o nosso azul. Eu tentei me horizontar às andorinhas. E as palavras mais faceiras queriam se enluarar sobre os rios. Se ficassem prateadas sobre os rios falavam que os peixinhos viriam beijá-las. A gente brincava no prateado das águas. A mais pura jubilação! (Idem, 2008, Jubilação) Qual não seria o modo de contar do Sirimim, se não pela senda da pura vadiação? Para Rosa, não importa contar episódios ou dar informações técnicas sobre o riachinho. Nem mesmo se faz uma história do Sirimim. O que acontece é o júbilo com as palavras, o motivo de se tirar alegria. Na narrativa de “Mais meu Sirimim”, vê-se como o riachinho vence a ordem do utilitarismo frente à natureza, quando, via de regra, se extrai sua fartura em benefício do ser humano. É assim como pensa Joaquim, irmão de Pedro. Desde o início, é mostrado como o senhor que quer explorar tudo que está à volta do Sirimim. Joaquim briga com as formigas que insistem em passar até mesmo pela água, teima em plantar as laranjeiras em local úmido, onde algumas já até morreram (ROSA, 1994, p.1173). E ele nem olha para a revoada de pássaros que comem o arroz de rebroto após as colheitas, aquele que não serve para consumo humano (idem, p.1177). Joaquim representa o oposto do descompromisso infantil do Sirimim: “Joaquim é homem sério, estrito e correto demais, não gosta da natureza para os olhos.”; “tudo ele pega, presa, mede, apreça – o Joaquim” (idem, p.1183). É um senhor carrancudo e prepotente, que tenta disciplinar e administrar a natureza, visando unicamente aos resultados de sua produção. A fartura é o que mais importa a Joaquim. A vadiação é o que mais o incomoda. Para ele, o Sirimim representa a vadiação, riacho que sai por aí, correndo e cantando, sendo, portanto, motivo de seu aborrecimento. E Sirimim jubila, no correr de suas águas, depois de transpor o território de Joaquim (idem). O Sirimim, então, insiste em inventar “inutilidades” e brincar com a natureza ao redor. “O meu Sirimim no descuidoso imprestar-se: a lânguida água à lengalenga e a ternura em aventura” (idem, p. 1184). Há uma escrita lúdica nesta frase repleta de aliterações, assonâncias, musicalidade. A linguagem brinca com os sentidos de “imprestar”: ao inventar o vocábulo, ele mostra a dupla ideia do riacho que se doa e o faz sem nenhuma serventia ou 133 utilidade. Uma força inaudita que revela uma infância da escrita, uma “ternura em aventura”. O autor explora intensamente a inutilidade, fazendo parecer que nada de muito importante se pode identificar no Sirimim. Voltando às sendas abertas pela poética de Barros, verifica-se que também em Rosa as palavras “saem a vadiar por todos os cantos do idioma”. 4.1.1.4 - Quarta senda: Agramaticalidade das palavras Que os poetas aprenderiam — desde que voltassem Às crianças que foram Às rãs que foram Às pedras que foram. Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar a língua. (BARROS, 2009, p. 64). Mais além da proposição expressa na epígrafe sobre a agramaticalidade das palavras, Manoel de Barros propõe uma volta à infância da palavra, numa visão primordial do mundo. “Um novo estágio seria que os entes já transformados falassem um dialeto coisal, larval, pedral, etc. Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural” (idem). A poética marcada pelo diálogo entre a criança e o universo onírico instaura em Manoel de Barros um discurso produtor de inquietações, sobretudo quando ele propõe uma estética cuja linguagem corresponda a uma “língua errada”. Tal estética poderia ser considerada uma estética do erro, aproximando-se daquilo que a criança exprime quando tenta dizer as coisas a seu modo, quando está aprendendo a falar. A poesia também brinca com essas variações do dizer. A língua do poema decalca significados variados nas pedras-palavras. Esta senda poética instala uma agramaticalidade quase insana, pois com a linguagem poética o movimento mais importante é o da reinvenção. Com esta, toldam-se as relações entre as palavras, proporcionando outras formas de se compreender a escrita de Barros. A arte literária se renova a partir de outras formas, o que inclui novas palavras. E reconhece-se a autoridade do escritor, nos domínios da linguagem, motivo pelo qual os usos e inovações na literatura são aceitos. Assim, é muito comum encontrar em Manoel de Barros e 134 Guimarães Rosa o uso de neologismos e estruturas inusitadas. Ambos os escritores “catam” palavras e criam outras novas, dando-lhes diferenciados sentidos. A agramaticalidade quase insana (BARROS, 2009, p. 62) é a expressão da radicalidade transgressora de postura do poeta pantaneiro ante a língua, ordenada por uma rígida lógica das leis gramaticais. Quando constrói seus versos, o poeta prefere ousar na liberdade de criar e, assim, romper com os limites impostos à língua. Para tanto, é preciso fraturar as regências e libertar-se das palavras dicionarizadas. Ele inventa, desrespeita e até ironiza as formas fixas, permitindo-se ser seduzido pelo desafio de inventar palavras e sintaxes. E assim se considera um arrombador de gramáticas. Sua poesia desdenha os cânones formais, abarca todas as margens e enfatiza os deslimites da palavra. O poema enfeitiça a palavra, infundindo-lhe significados exalados da combinação de realidades oníricas que subvertem as margens da linguagem. As imagens poéticas não apenas estão mais perto da infância, como também estão mais perto dos sentidos do que a linguagem regida pela gramática busca a ordenação lógica e a correção ortográfica. Por isso, autores como Manoel de Barros e Guimarães Rosa se voltam à linguagem dos sentidos, própria a uma língua pré-formal e pré-formatada. Na primeira parte do livro Compêndio para o uso dos pássaros, “De meninos e pássaros”, ao prestar atenção no filho João, Manoel de Barros redescobre a fala de sons e imagens da infância: “O menino caiu dentro do rio, tibum” (BARROS, 1961, p.127); “escuto o meu rio: / é uma cobra / de água andando / por dentro do meu olho”. E observando a filha Martha: “E o passarinho com uma porcariínha no bico se cantou” “Quis pegar / entre meus dedos / a Manhã. / Peguei vento” (idem, p.130). Manoel de Barros torce e retorce as frases e as ideias. Na linguagem figurada, os termos permutam sentidos. No livro Em matéria de poesia (1974), Manoel de Barros afirma que a poesia se alimenta de “tudo aquilo que a nossa / civilização rejeita, pisa e mija em cima” (p.180). Ao recorrer à quebra das expectativas convencionais, Barros demonstra que o lugar do homem perante a natureza e o meio-ambiente não deve ser de soberania e manipulação ou regido pela lógica do progresso destrutivo, mas de um tipo de sabedoria que reconhece a igualdade entre os seres e as coisas. Esse conhecimento recai sobre a linguagem, ao criar uma maneira poética de se relacionar com as coisas simples e sem valor. 135 Essa mudança vocabular calcada na agramaticalidade que é empregada em seus textos proporciona surpresas e estranhezas. As metáforas utilizadas, no entanto, não estão relacionadas somente com as palavras, pois tal processo transcende a simples mudança do sentido vocabular, e se relaciona com todo o conteúdo, metaforizando todo o poema. Para Manoel de Barros, “um desvio no verbo pode produzir um assombro poético” (BARROS, 1996, p.318). O autor preocupa-se com o modo de dizer e conduz o leitor ao âmbito do não familiar, do estranho, do deformado. Dentre outros recursos, a poética de Barros investe na experimentação e na inovação da língua por meio de um laborar lúdico com as palavras. A infância na poesia de Manoel de Barros não se reduz à cronologia dos primeiros anos de vida de uma pessoa ou mero jogo de ser, mas na utilização do lúdico como gratuidade do acontecer no mundo, das coisas e das pessoas, unindo-se ao espírito libertário da infância. Assim, Barros busca uma linguagem que obedece à desordem das falas infantis, em contraposição às ordens gramaticais (2006, Aula). Trata-se de palavras tomadas muito mais pelo fluxo onomatopaico e musical da natureza do que pela organização gramatical. Não diferentemente, ao adentrar o universo de Sirimim, Rosa faz surgir muitas expressões formadas na linguagem da natureza. A “paisagem sólida” do Sirimim no inverno é cheia de “alegrias direitinhas”. Nela, “o clarear é curto, para se assistir ao madrugar”. As corujas, que são duas, fazem seus barulhinhos diferenciados. “Dado o dia, bem guardam-se”. Várias aves são apresentadas, os galos, as galinhas, os pintainhos, melros, cambaxirra com seu “trinadozinho tristris”. A ordem neste lugar é deixar mamão maduro para os pássaros comerem. A árvore de flor amarela para onde vão os anus pretos, está “enchida de lagartas” (ROSA, 1994, p. 1181). O que acontece neste espaço dos primeiros parágrafos de “Mais meu Sirimim” exige a presença do leitor, sua receptividade ao texto, sua participação. Há uma evidente ruptura com a lógica gramatical, por meio da qual Rosa continua a brincar com a linha tênue e arbitrária que distingue as coisas. Com uma linguagem desviante, reescreve a própria língua e dá voz ao que não fala – não apenas a criança, mas qualquer sujeito sem voz, até mesmo a natureza e as coisas todas da vida que não são ouvidas por não serem pronunciadas dentro de um código convencional. 136 A arte literária encontrada nestas linhas demonstra a independência da palavra em relação ao vocabulário ou à gramática normatizante. A força semântica da palavra literária, sua capacidade de livrar-se, de depreender-se dos limites assemelha-se ao ato infantil de inaugurar sentidos. Esta força da palavra literária que não se deixa aprisionar no âmbito do discurso é a mesma que faz com que ela flua. As noções de tempo linear, de localização histórica e territorial, bem como de gramaticalidade da língua parecem inúteis, neste caso. Tais referenciais restam irrelevantes e improdutivos, na medida em que não correspondem às experiências intensas e atemporais que são descortinadas na passagem do riachinho; “Agora escuto o barulho do muçum, pelo sol: a bulha da água remexida” (ROSA, 1994, p. 1181). Em suas leituras críticas da literatura rosiana, Eduardo Coutinho ressalta a relação entre significante e significado, que apesar de arbitrária, possui uma carga expressiva no início, quando as palavras são criadas. Com o tempo, porém, essa expressividade se perde. Desgastados que são pelo uso, os significados tornam-se puramente conceituais: “A missão do poeta é, então, revitalizar a palavra, fazê-la recobrar a sua expressividade originária.” (COUTINHO, 1983, p.204). É a criação de uma língua desviante, de um modo de inscrever-se no mundo, de uma “literatura menor”, que, em termos deleuzianos, é o “que uma minoria faz em uma língua maior” (DELEUZE, GUATTARI, 1977, P. 25). A natureza poeticamente representada nesses contos ocupa espaços fronteiriços, que surgem às margens e enfeitam o curso do rio. A intensidade da escrita de Rosa dá força ao literário como objeto simultaneamente lingüístico e estético. Sua arte literária desenha formas gráficas, cria significados, gera significantes, inventa meios de expressão. Ao provocar uma outra ordem da escrita, ele se esforça na criação de pensamentos novos, infantis, balbuciantes. Para isso, vai na contra-corrente da gramática convencional, sempre escrevendo de maneira ousada e instigante. 4.1.1.5 - Quinta senda: Movimento (...) uma língua estrangeira não é escavada na própria língua sem que toda a linguagem por seu termo sofra uma reviravolta, seja levada a um limite, a um fora ou um avesso que consiste em Visões e Audições que já não pertencem a língua alguma. Essas visões não são fantasmas, mas interstícios da linguagem, nos desvios de linguagem. Não são interrupções do processo, mas paragens que dele fazem parte, como uma eternidade que só pode ser revelada no devir, uma paisagem que só aparece no movimento. Elas não estão fora da 137 linguagem, elas são o seu fora. (DELEUZE, 1997, p. 16) Em muitos de seus poemas, Manoel de Barros reafirma o poder das palavras em movimento. Para isso, ele cria os substantivos verbais: “lesmas e lacrais também eram substantivos verbais porque se botavam em movimento” (BARROS, 2006, p, Nomes). O poeta faz com que os nomes ganhem mobilidade, fazendo-os esticar nas possibilidades de se tornarem ações. E os verbos se ocupam em emendar os nomes. Para Barros, a palavra precisa estar sempre transitando entre os diversos sentidos. Em Aula (BARROS, 2006), pode-se ler: “O que eu não gosto é de uma palavra de tanque. Porque as palavras de tanque são estagnadas, estanques, acostumadas. Ou podem até pegar mofo. Quisera um idioma de larvas incendiadas. Palavras que fossem de fontes e não de tanques”. As palavras em desvio de Manoel de Barros, em suas “Memórias Inventadas”, estão, como diz Deleuze, nos interstícios da linguagem. Sempre em formação (DELEUZE, 1997, p.16). Seu estado, como o da criança, é móvel, pois não se conformam com o confinamento de um tanque, querem sempre jorrar como fonte. A própria edição da trilogia de Barros, colocada em caixas, em folhas que não estão presas, reforça esta ideia de mobilidade. É possível ler os poemas soltos, sem necessariamente seguir uma ordem, o que apenas existe é a numeração dos capítulos. É algo que escapa ao planejamento, a uma arrumação prévia que determina o modo de ler. O fluxo da vida está delineado nos versos de Manoel de Barros, assim como na correnteza da prosa de Rosa. Trata-se de uma linha de fuga criadora que traz consigo toda a poesia, toda a leveza da infância da palavra, de sua sonoridade e movimentação. “Não são interrupções do processo, mas paragens que fazem parte dele, como uma eternidade que apenas pode ser revelada no devir, uma paisagem que apenas aparece no movimento” (ibidem). Tal paisagem se localiza antes da significação, antes do emprego e da função, antes da correção gramatical, antes do discurso. Assim é que, no fluxo do ler experimenta-se o infantil e intensamente o instante. “Quisera o canto jubiloso/que corresse por dentro de minhas palavras/como um rio destampado corresse para os campos” (BARROS, 2010, p.75). O Sirimim, riacho, é a força suprema deste fluir sem fim, da escrita que escorre e que se renova nas mesmas águas, a língua. A alegria, em seu fluir, desloca-se na intensidade dos vários elementos da natureza nas margens difusas entre tristeza e alegria, encantamento e 138 decepção, prazer e dor. Intensos e fugazes são os encontros com gente, animais e plantas em volta da correnteza do Sirimim. Nas linhas traçadas por esses encontros e nos movimentos que o fluxo da vida imprime, experimentam-se sentimentos, diverte-se com as brincadeiras do riachinho travesso, encanta-se com os coloridos impressos nas flores e aves. Mas a mobilidade de tudo abre espaços para desvios, atalhos, diferentes vias e acessos múltiplos. Entre gente, lugares e sentimentos, há a recorrente imagem da travessia que reforça a ideia do percurso necessário para que movimentos se realizem. “Enquanto o Sirimim por ali se vai sempre a cair – no oceano sonho. Nunca mais, mesmo que se acabe o mundo, deixará de haver, para vocês e em mim, o riachinho Sirimim” (ROSA, 1994, 1179). Um desdobramento desta transitividade poderia ser pensado para a linguagem, que não corresponde a uma regra determinada, obedecendo à lógica adulta. “O saber não vem das fontes?” (BARROS, 2005, s/p). Uma linguagem que é transitiva, transitória, em trânsito. Entre os tempos, os lugares e as linguagens. Móvel, movente, mobilizadora. Em constante devir. Uma infância da palavra (idem, 2010, p. 19). 4.2 - Em voo: os sentidos de expansão e da morte na infância da escrita 4.2.1 - Voos de Bartolomeu Campos de Queirós: uma trajetória em direção à infância Muitas das obras de Bartolomeu Campos Queirós permitem um voo em que a literatura abre caminhos e possibilita variadas linhas de leitura. Uma das obras do autor, Até Passarinho Passa, publicada em 2003, é uma dessas produções que desliga o leitor do chão formal da leitura e o leva para descobrir novos modos de ler. O livro reúne muitos dizeres que se reafirmam continuamente na trajetória autoral de Bartolomeu. São temas que, retomados, ganham força lírica nesta produção recente. Para dar conta de muitas dores, o autor escreve Até passarinho passa e lança voo em direção a outras possibilidades de escrita, ao compartilhar de penas experimentadas por um menino que se vê diante da morte. Quem abre o livro para começar a ler é atraído para sair do espaço real, próprio da retenção, e mergulhar no espaço livre da escrita literária, como um pássaro desprendido do chão. Menino e passarinho se conjugam neste desejo de estar voando, liberdade possível no universo da fantasia e da imaginação. 139 O pássaro é o ser que representa em si o sentido da liberdade, tão desejada pelo homem. Na possibilidade do voo, a ave pode seguir caminhos diversos, seguir em rumos desligados dos impedimentos do chão. Na terra, o peso amarra a direção seguida pelo andarilho, pode-se até tropeçar se o caminhante não estiver atento aos obstáculos no chão. No ar, o mundo está em constante expansão. Como ser aéreo, o pássaro está também livre, estendendo-se em direção ao infinito. O voo é a ação própria do ser que sonha. Pelo movimento imaginário, o ser se desprega da terra, tornando-se leve, flutuante. Em O Ar e os Sonhos, Bachelard desenvolve os temas produtores da imagem do pássaro. O ser que voa é feito de matéria aérea, dotado de movimentos livres. “No reino da imaginação criadora aérea, o corpo do pássaro é feito do ar que o cerca, e sua vida do movimento que o arrebata” (BACHELARD, 2001, p. 69). Tal imaginação criadora é muito própria do infantil. Uma criatividade que parte da ideia de uma permanente instabilidade criativa, em constante movimento em direção a uma outra possibilidade, como em um voo. Em termos deleuzianos, é uma variação imanente atirando as formas estabelecidas em uma tensão de futuro, sem que se possa assegurar a nova forma que se confecciona, apenas que ali algo se cria e se inova. Um dinamismo criativo da linguagem que seria da ordem do virtual (DELEUZE, 1993, p.139). São linhas de fuga que orientam a busca deste aspecto criativo da linguagem em um sistema aberto, cuja instabilidade é imanente e produtiva, criando possibilidades gramaticais, lexicais e prosódicas diferenciadas. Em outro livro de Bartolomeu Campos Queirós, intitulado Para criar passarinho, o pássaro representa mais incisivamente o sentido da liberdade do ser em estado de constante expansão e fuga. Escrito em forma de um manual para criar passarinho, o sujeito da enunciação prescreve vários procedimentos para o cuidado de uma ave. E todas as predições descritas no manual remetem à liberdade inerente ao pássaro, animal mais emblemático do ar. É bom para o criador de passarinhos “ter asas na alma”, uma “imensa inveja dos voos” e viver “leve como as penas” (QUEIRÓS, 2003, p. 7). A leveza deve ser um valor importante para aquele que cuida de pássaros. Com esta atitude, há uma constante garantia de liberdade, de poder alçar voo. A expansão do céu é o único lugar possível para se “prender” um passarinho. Retê-lo, só na única maneira de se conservar sua total liberdade: no ar inteiro, um “espaço pequeno 140 para a ligeireza das asas” (idem). E a liberdade de movimentos não é a forma exclusiva de se criar o pássaro, é preciso também deixar livres as suas escolhas em relação ao refúgio e suas buscas em direção ao espaço desconhecido. Em um outro nível de leitura do texto, a criação pode ser vinculada à ideia de inventividade, além do sentido de cuidado. Criar passarinho é saber que, no texto literário, o único modo de criação do texto é na liberdade. ... é preciso ter ao alcance das mãos a linha o horizonte para escrever poesia para passarinhos cantarem. E isso se torna possível soltando o olhar para o bem depois das montanhas, dos mares, deixando o carinho murmurar rascunho de poema (idem, p. 18). No livro Até passarinho passa, o local criado imaginariamente, rememorado na infância de um menino que amava os pássaros, o símbolo vegetal encontrado não é o de uma velha árvore frondosa, com raízes que se aprofundam por anos numa terra segura. Isto mostraria uma fixidez que desvia do sentido de fugacidade a envolver a narrativa desde o início. O pé de maracujá não está fixo na terra, também é um índice aéreo, localizado no telhado, limite com o céu. Os galhos são mais importantes que as raízes, reforçando o caráter de expansão da cena. Nas folhas seguintes, outros elementos são dispostos nesta composição de voo. Aparecem as borboletas, as abelhas, as cigarras saídas da terra - pois que cantam -, os vagalumes, os insetos miúdos dançando em volta das lâmpadas acesas. Animais que surgem ao entardecer, trazendo em seu adejo as cores, os sons, os cheiros da natureza que se prepara para a noite. O céu é um espaço bastante presente na imagem criada, vista da varanda da casa. Apesar da fala do narrador, dizendo de um céu muito distante, o ambiente descrito preenchese por esta matéria fugidia, o ar que toma conta do espaço, aproximando as figuras celestes da terra. A varanda está repleta de um “nada transparente e concreto”, o vento que varre o mundo, a brisa que afaga a natureza (idem, p. 7). No encontro às tardes, pássaros devolvem às reminiscências da personagem um calor. Mas também carregam em si uma poesia sem cantos e palavras, essa poesia aérea vinda de suas passagens pelo céu, delineada pelas possibilidades de se evadir na imaginação. Para Bachelard, a figura do pássaro “faz esquecer o tempo, arranca às viagens lineares da terra para nos arrastar numa viagem imóvel que as horas não soam mais, a idade não pesa” (2001, p. 70). 141 Em Até passarinho passa, os pássaros fazem o elo entre o céu e a terra, e, nos instantes em que eles pousam na varanda da casa, trazem à vida do menino um significado diferenciado do que é o tempo/espaço de quem vive sem limites. Não se encontrava “sinal de tristeza na existência dos passarinhos. Um sempre contentamento brilhava entre suas penas” (QUEIRÓS, 2003, p. 12). Os pequenos visitantes passavam pela extensão do alpendre só pelo prazer de andar. Seu destino era guiado pelo desejo. Nesta passagem do livro de Queirós, o deslimite é metaforizado pelos passos e gestos dos passarinhos. Seus pés, com passos miúdos percorriam os quatro cantos do alpendre pelo prazer de andar, sem conhecer a rosa-dos-ventos. O norte estava onde o desejo apontava. Só exercitavam as asas quando a distância era longa e o vazio era muito largo (idem, p. 13) Desta maneira, o tempo suspenso da infância e o espaço limitado do alpendre ganham uma visão que se estende, como um voo na infinitude do céu. É a companhia dos pássaros que traz ao menino a sensação de felicidade na pequena tristeza fria que sentia na chuva fina trazida. O “absurdo do presente” alongava-se na caminho dos pássaros, aquecendo o solo limpo e frio da varanda. Se o destino pode vir a ser descortinado, instaura-se o domínio de um espaço criador. O voo também carrega o sentido da liberdade, do que não se pode prender. Por isso a imagem do pássaro ser tão presente nas narrativas de Bartolomeu Campos Queirós. O caminho traçado pelo voar do pássaro não tem linha determinada, todo o espaço aponta para variadas direções. Todas estas imagens de evasão, retratadas nas metáforas de voo, remetem ao processo de escape proporcionado pela imaginação e pela memória. “Escrever não tem o seu fim em si mesmo, precisamente porque a vida não é qualquer coisa de pessoal. Ou antes, a finalidade de escrever é levar a vida ao estado de um poder não pessoal” (DELEUZE, PARNET, 1997, p. 61). A escrita, a literatura não são simples ficção. Elas o são pelo contrário, revela Deleuze, no sentido de criar vida, de inventar linhas de vida possíveis, de abrir à vida novas possibilidades. Não é o resgate de uma reminiscência pessoal, presa a uma vida específica, a do autor. Quando Queirós fala da experiência de um menino qualquer na varanda de sua casa, não se refere a uma infância pontual. Está, ao contrário, apontando para procedimentos de liberdade impessoais. Essas passagens ou “devires” não são expressões do vivido, não são as percepções, as 142 recordações e as opiniões privadas do artista transfiguradas pela imaginação e retratadas por escrito. Ao contrário, são “visões” ou “sensações” de uma vida já não pessoal, poderes de uma vida impessoal ou de uma possibilidade existencial distinta dos estados vividos, da experiência de uma outridade, de um devir-outro como despersonalização do sujeito. A liberdade criadora, própria da infância da escrita, aproxima-se do sentido da atividade literária sempre em expansão, em direção ao outro. E esse outro pode ser uma infância recriada, não necessariamente a infância rememorada do autor. Não são lembranças, mas memórias inventadas em uma infância repleta de imaginação e esquecimentos. A escrita de Bartolomeu Campos Queirós não se ocupa de uma criança empírica, mas do imaginário ficcional das vivências de uma criança solitária na varanda de uma casa. 4.2.2 - A morte como ausência criadora E o meu exercício de vida tem sido o de estar procurando o que não foi feito ainda, o que ainda não sei fazer. Só me interesso pelo que me falta. (...) Criar, para mim, é a alternativa derradeira para abrandar o peso do não-sabido. Bartolomeu Campos Queirós Quando se observa ao redor, pode-se constatar que todos os seres vivos têm um fluxo em comum: nascem e morrem. Enquanto estão vivos passam por transformações que são comumente chamadas de desenvolvimento. Assim tem ocorrido continuamente, um ser só nasce e morre concretamente uma vez. O que chama a atenção para este processo são justamente as transformações, condicionadas por espaço e tempo. Assim como as águas de um rio não passam duas vezes no mesmo lugar nem ao mesmo tempo, a existência também é condicionada ao tempo que flui e ao espaço, que se amplia ou se retrai. A marca da perda e da ausência é uma realidade constante no desenrolar da vida. Procurar estar sempre em contato com os outros e preencher os tempos vazios com distrações são modos de aliviar a angústia das perdas que acompanham a existência humana. Em Até Passarinho Passa, toda a história perpassada pela atmosfera da morte. Todavia, a sensação da perda ganha uma dimensão diferenciada, se identificando com a ideia de um vazio esperançado. O protagonista dessa narrativa é solitário. Há pouquíssimas citações 143 que poderiam revelar a presença de outras pessoas convivendo com o menino. Mesmo a idade passa por uma indecisão: supõe-se que se trata de uma criança principalmente pelo modo como ela interage com a natureza e os amigos passarinhos. Na figura das crianças, Queirós se inscreve como interlocutor dos questionamentos acerca da falibilidade da vida. São personagens infantis que entram em contato com o medo da ausência e da morte, da solidão e da falta. A solidão do menino que espera seu amigo passarinho chegar todos os dias na varanda em Até Passarinho Passa não se reduz a um significado de vazio que representa somente um nada, a nulidade do tudo. O encontro é mais envolvente quando, sozinho, o menino estabelece contato com o pássaro. Na tranquilidade do alpendre frio e limpo, a personagem aprende como lidar com seu amigo. Não há necessidade de materialização do carinho, o toque se dá pelo olhar (QUEIRÓS, 2003, p. 19). A proximidade se estabelece mediante o respeito à liberdade do pássaro, à sua natural não contenção. Mas, apesar de juntos, o pássaro e o menino estão sempre sozinhos. Ao passo que o menino era um ser do espaço contido, da certeza da finitude, desprovido de asas, ligado à segurança da terra, o passarinho era o ser da expansão, do espaço aéreo, infinito em seus voos, delicado em sua não fixidez. A amizade se dava pelo respeito à distância e às diferenças que tanto os aproximava, quanto os afastava. “Nossa felicidade era maior: estar face a face, sem susto ou posse” (idem, p. 20). O pássaro era também um animal de suspeitas. Não se sabia seu endereço certo, partia de improviso, nunca dizia adeus. Levava em seu voo o senso da eternidade, pois desconhecia sua origem e seu fim. Nele, a mortalidade era fugidia, sua presença aquecia o real frio e limpo da varanda de ladrilho xadrez: “Assim vivíamos. Nossa varanda era um lugar de visitas. Nela, a natureza, em surdina, floria, crescia, mudava de acordo com as estações. E o meu amigo passarinho aquecia, com seu amor, a paisagem fria e limpa” (idem, p. 22). O retorno contínuo, seu ritornelo3 fazia parte deste movimento do pássaro que voltava à varanda. Estava sempre em estado de devir. Só retorna o que passou pela enésima potência, “o que passa no outro e se torna idêntico” (Deleuze, 1988, p. 85). A união do homem com as coisas se dá na distância proporcionada pelo retorno (idem, p. 103). O “Eterno Retorno” é a “proximidade das 3 Do italiano ritornello: significa refrão, estribilho. Atualmente significa a repetição de um trecho musical (HOLANDA, 1986, p. 1513). 144 distâncias” (idem, p. 386). A imagem da espiral é mantida nessa relação. O contato entre menino e pássaro reforçava ainda mais um caráter distinto de tempo e espaço, não medido pelas contingências, não mensurável por exigências, mas único e eterno na profundidade da experiência de encontrar-se, conservando suas solidões. O tempo não era medido numa ordem formal vazia, classificatória. O voo do pássaro era uma fuga que sempre fazia retornar, que sempre retomava ao lugar necessário, em uma atitude de estrangeiro, pois mesmo que o pássaro voltasse para a mesma casa, não era mais o mesmo – a estrangeiridade se dá por esta impossibilidade de um reconhecimento pleno na retomada, afinal de contas, ela nunca será a mesma. Cada reencontro era singular, uma novidade de quem experimenta com intensidade os instantes. O movimento espiral operado pelo ritornelo garante um território, como se estivesse “em casa”, ao mesmo tempo que possibilita a fuga do mesmo. Não significa somente sair de algum lugar para se chegar a outro. A própria concepção de território já se mostra como um elemento de passagem, um território que é sempre transitório, que sempre é aberto ou se abre para novos agenciamentos. O destino era composto pelas relações em que o silêncio era um trato entre os dois amigos. Era composto de hiatos, de vazios, portanto. O diálogo silenciado, o toque pela distância, o destino ignorado do amigo são indicações do vazio que acolhe, na amizade estabelecida entre menino e pássaro. A angústia de um desaparecimento aparece em toda a história de Até Passarinho Passa, uma ausência que se anuncia na limpeza e frieza do ladrilho da varanda. Havia nesta atmosfera uma certa antecipação de tristeza. O frio constantemente perpassava os deslumbramentos do personagem diante da natureza: Eu possuía, já naquele tempo, alguma pequena tristeza trazida pela chuva fina (...) A beleza me sufocava (...) Minhas penas não cobriam o corpo nem aqueciam meus pesares. Apenas esfriavam meu coração.(...) Ele apreciava em silêncio minha varanda e a amava pelo que havia nela de frio, limpo e quietude (QUEIRÓS, 2003, p. 12, 20). Em um quase alvorecer, o menino acorda com o pressentimento de que aquele frio sempre anunciado se tornou inverno. A perda é acompanhada de susto, neste primeiro instante, em que ele vê o amigo morto no chão. Aquele pássaro, que sempre trazia promessas de eternidade, agora jazia inerte na fria varanda envolvida pelo vazio. 145 O movimento ascendente da narrativa, que tinha seu ápice nos encontros do menino com o passarinho, muda de direção e ganha um caráter de descida. Os elementos na cena ganham peso e o destino da terra se confirma na finitude do passarinho – “do pó vieste, ao pó retornarás”. O menino passa a ser, assim, quase uma folha a cair. Isso é mais do que o instante da folha que cai. É o fluxo do cair, a verdade da vida que se mostra no contraste com a morte. A vida que se mostra em raios, em feixes de luz, já que não se deixa ver inteira. O limite da varanda e do mundo representa a indiscernibilidade das margens entre alegria e dor, entre intensidade e fugacidade, entre vida e morte. Um vazio foi tomando conta do mundo do protagonista, como se ele mesmo tivesse morrido junto com o seu pássaro. A morte, fato externo a sua vivência até aquele instante, se apodera de seu mundo interior. O que alimentava de afetos as suas tardes não poderia nunca mais aquecer seus temores. O menino precisaria enfrentar a fria tristeza provocada pela certeza de que a vida termina. Tristeza que não permitiria que a vida fosse mais completa. Faltava sempre uma coisa sem resposta, alguma interrogação sem desconfiar da pergunta. Era um incômodo capaz de tornar adoecida a felicidade. Minhas penas não cobriam o corpo nem aqueciam meus pesares. Apenas esfriavam meu coração (QUEIRÓS, 2002, p. 12). No entanto, a ausência do pássaro na vida do menino torna-se a presença eterna do amigo em seu coração. É preciso um pouco de dúvida, de falta, de vazio, de incômodo para que a presença seja possível. Já a morte, ausência derradeira, falta definitiva, desnuda o ser em suas mínimas inquietações rotineiras e o transporta para outros espaços. Não tem nada mais democrático que a morte. Acho que a morte inaugura a vida. Ela criou a vida para depois exercer a sua foice. A morte precisa do nascimento para exercer o corte dela... para mim, a morte é a coisa mais exagerada que existe no mundo. Ela é muito indecifrável (idem, 2001, p. 2). A morte é o fato mais indecifrável que existe na existência humana. Mas o indecifrável, além de causar a sensação de dúvida e incômodo, estimula a criação. As circunstâncias que ninguém consegue explicar são as que movem o destino em direção da transformação, do possível no impossível. Aquilo que é difícil de ser entendido faz criar o próprio desejo. Nesta perspectiva, o vazio se torna a possibilidade de ser. 146 A vida precisa de vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas pessoas que se acham cheias de verdades e sabedoria falam sem parar... Bonitas são as pessoas... cheias de vazio. E é no vazio da distância que mora a saudade (ALVES, 2001, p. 102). Nos vazios inscritos entre as palavras também se instaura um indecifrável que leva ao desejo de criar. Eles deixam uma sensação de ausência que precisa ser suplementada. E de certa forma é saciada por uma escrita que se deixa tocar pelos desejos. Porém, ao se bordarem os espaços da narrativa de Até Passarinho Passa com o lirismo, nunca se consegue estar pleno, satisfeito, já que a escrita poética nunca se completa definitivamente, encerrada em uma só interpretação. “E só a arte é capaz de inaugurar aquilo que não existe ainda, mas que a fantasia faz concretizar. Pelo texto, tento adivinhar o obscuro” (QUEIRÓS, 2003, p.1). A palavra escrita literariamente encanta porque conserva entre as linhas o vazio sempre disposto a ser suplementado. Há uma possibilidade contínua de uma outra invenção, até para compensar o vazio deixado pela perda. É, também, o microespaço da solidão de uma experiência, conforme sugere a seguinte passagem: A palavra humana, uma palavra múltipla que abriga em seu interior a expressão do indizível, o silêncio, nos conduz a uma educação (po)ética. Uma educação na qual a palavra humana expressa uma dimensão inexprimível. Essa dimensão na qual o dizer não pode ser dito é a condição da ética, da alteridade, do nascimento e da novidade (MÉLICH, 2001, p. 278-279). O que nos sugere o texto queirosiano é a morte de um tipo de infância. E, ao mesmo tempo, a definição de uma outra experiência de infância. Triste, o menino se surpreende com a fugacidade da vida, pois entende que não pode ser possuidor de um pássaro, ícone da liberdade. Da mesma forma, a infância é um tempo fugaz, que não pode ser retida e paralisada na lógica sucessiva do crescimento. Contudo, por meio de uma escrita poética, sempre podemos cenarizar mais uma vez o espaço/tempo da infância. 4.2.3 - As Garças: a morte e a preservação do fluxo da infância na escrita rosiana O aprendizado da morte, da perda, da ausência, da finitude da vida em chocante tensão com a intensidade da experiência de vida é o que expõe o conto que passaremos a comentar. A 147 beleza das aves, ponto focal do conto “As garças”, mostra-se frágil em meio às contingências da natureza. A vulnerabilidade conflitava com a explosão de vida exibida pela garças. Aliás, este contraste entre a pulsão de vida e de morte é uma presença constante no conto, que desde o início colore de branco e negro os tons determinantes da narrativa. A alvura das garças conflita com a negritude da cachorra, Nigra, provavelmente a responsável pelo machucado da garça que acabou fenecendo no quintal de Joaquim. E a brancura, assim como a volatilidade das garças são imagens da finitude da vida e da beleza. As garças já eram bastante conhecidas dos habitantes do Sirimim. Voltavam todo ano no inverno, no mesmo sentido de retorno do passarinho que vinha visitar o menino na varanda da história de Até passarinho passa. Era certa a visita do par, esperada ano após ano no vale do riachinho. O casal devia “estar de amores” (ROSA, 1994, p. 1185). Muitas das palavras utilizadas a seguir pelo autor reforçam o caráter de ingenuidade e inocência das garças: “meiga”, “exageradamente cândida, a noiva”, “entre si alvas”, “elas- as brancas”, “faziam maio, júbilo, virgens, jasmim, verdade, o branco indubitável”, “grosso leite”, “alvinevar (idem, p. 11851187). São, ademais, referências da candura e da castidade da nubente, vestida de branco. As meninas Lourinha e Lucia são as que mais se atentavam com a chegada das garças. Loura e Luz, a claridade infantil nos nomes das meninas. Uma delas, porém, não era branca, a contradição é dita de maneira brincante por Rosa “Deixavam o brinquedo Lourinha e Lucia – a que, ao contrário, era muito pretinha” (idem, p. 1185). A diversão de todo inverno para aquelas meninas era o casal de garças cuja posse elas desejavam. Da mesma forma que o menino da varanda que desejava que o passarinho fosse seu. “E elas vão ficando mansas, querem morar mais com a gente?” (idem), seriamente imaginava Lourinha. Mas a liberdade se apresentava como a característica mais forte das aves, que sempre voltavam, em ritornelo, mas da mesma maneira partiam, fugazes, para outro destino. Também podemos destacar os vocábulos que mostram este caráter fugidio e veloz das garças, que não eram seres fixados na paisagem do Sirimim: “Por súbito: somente é assim que as garças se suscitam”, “após, olhava-as, lá acima, céleres”, “sumiam-se e surgiam, nódoas, 148 vivas, do compacto”, “Zape! – o zás - ... o chofre”, “incerta celeradeza”, “saque da sofreguidão”, às súbitas” (idem, p. 1185-1186). As garças não se fixavam, nem em um espaço, nem em uma definição. Pelo desejo infantil de ter as garças para si, Lourinha tenta defini-las, pensando assim que poderia, de certa forma, retê-las. Contudo, ao tentar defini-las, fá-lo por oposição: “E elas são o contrário da jabuticaba?” (idem, p. 1186). Explosão de vida presente na natureza do Sirimim que intensificava seus sentidos e percepções de diferentes modos de vida naquelas aves. A morte das garças cruzava o curso de uma experiência e lançava as meninas, de súbito, na conflitante relação entre vida e sobrevida - a necessidade da morte como garantia de outra vida. Às meninas, impotentes diante da imposição da morte, restava apenas lamentar que jamais as garças seriam de pertencimento de qualquer pessoa, nem mesmo delas. Contudo, inevitavelmente, acontecia um súbito e cruel aprendizado: o da fugacidade e da irreversibilidade de um tempo medido cronologicamente. A morte gradual foi vivida pela expectativa de Lourinha e Lucia. Agora, pensava Lourinha, a garça com apenas uma asa ficaria para sempre ali no Sirimim, pela impossibilidade do voo. Toda a tarde, a gente ia-a buscar. Fez-se-lhe um ninho de palha, no barracão da porta-da-cozinha. – “E agora, ela vai mais embora, ficou da gente, da casa...” – jurava Lourinha, a se consolar. (...) Lourinha e Lucia trouxeram-na, por uma última vez, Lucia carregando-a, fingia que ela estivesse ainda viva, e que ameaçava dar súbitas bicadas nas pessoas, de jocoso (ROSA, 1994, p. 1188). Rosa trata da infância, tanto em seu procedimento de escrita, como nas personagens que cria. Contudo, ele não reterritorializa a infância. Ele a desterritorializa em fluxos de linguagem que intensificam as relações e permitem pensar vida e morte de modo difuso. Infância e morte aparecem juntas neste e em muitos dos contos das Primeiras Estórias, como se fossem instâncias indiscerníveis e íntimas de um movimento recíproco de interrupção e continuidade. Experienciar a morte de animais, plantas ou entes queridos parece afirmar a vida existida e mesmo a vida que resiste e permanece à medida que é narrada. Assim, Rosa 149 também produz vácuos, intervalos de palavras, suspensão de entendimentos. E, mais, provoca uma instabilidade, de algo que necessita sempre ser preenchido. Ler e escrever, afinal, produzem um tipo de vazio, de solidão. Retirar-se para tais tarefas é estabelecer uma separação com o ordinário da vida, da mesma forma que provoca outras sensações. É a palavra que liberta da circunstância que limita e circunda as experiências. Durou dois dias Morreu no terceiro. Ora, dá-se que estava coagulada, dura, durante a tarde, à boa beira d´água, caída, congelada, assaz. Morreu muito branca. Murchou (idem, p.1188). A morte imprime uma forte carga de fixidez, bem diferente de todo o clima de mobilidade do voo das garças em vida. Dura, congelada, coagulada, a morte paralisa a paisagem sempre em movimento do Sirimim. Estas expressões revelam a abrupta conformidade com a morte, a aceitação de sua força, o lamento diante do inevitável. “A gente pensava nelas duas. De que lugar, pelo rio, do norte, elas costumavam todo ano vir? A garça, as garças, nossas, faziam falta, tristes manchas de demasiado branco, faziam escuro” (idem). Assim, imprime-se a escuridão advinda da falta. O espaço vazio deixado pela ausência de outras palavras amplia seu sentido. Intrigantemente Rosa parece opor a escuridão ao branco, à luz, geralmente associada ao conhecimento produzido pelo homem. Ele apresenta a escuridão, mas ela se afasta do sentido normatizante que a opõe à pureza da virtude e do saber. A treva parece tomar parte do percurso incerto da experiência. Associa-se, por vezes, à dor, a uma dor que não se sofre. A vida em volta do riachinho Sirimim está inserida na demasia do mundo, misto de luz e treva. A morte, deixada acontecer por Rosa, era uma espécie de preservação do fluxo de infância que não pode ser detida ou aprisionada. A liberdade da escrita, essencial na laboração rosiana, é associada ao sentido de constante liberdade e expansão da infância. Não há como deter a imaginação e a atividade infantil, ao passo que as garças morrem a fim de conservar uma infância. É uma escolha de Rosa, na tentativa de conservar em si e em seus leitores, uma disposição para a infância e seu sentido inaugural. Em vez de essências estáticas, um fluxo de forças. Por isso, surge a necessidade de subverter a língua, de brincar com a sintaxe e a semântica. Dessa forma, Rosa surpreende o devir-criança no ato de escrever e, em consequência, 150 segue rumo a uma infância das coisas, a uma infância da escrita que quer se expressar em sua constante novidade. Uma palavra cheia de cheiros, ruídos e cores. Uma palavra que não passa apenas pelo inteligível. Ele escreve a infância, muito mais na maneira como organiza linguisticamente a narrativa do que nos personagens infantis que cria. Com Rosa, Bartolomeu e Barros verifica-se esta possibilidade de que poemas e narrativas poéticas traduzam um modo outro de escrita, o que o próprio Manoel de Barros chama de “infância da palavra”. Uma escrita com uma força transgressora frente à língua, que se valora por ser singular e criativa, por ser estrangeira numa língua majoritária. Na criação literária, as escritas da infância inauguram uma infância da escrita. 151 CONCLUSÃO Ao chegar ao final desta tese, como quem chega à foz do riachinho Sirimim, sentimos que muitas das questões relativas à infância e à literatura poderiam ser desdobradas em outras perspectivas e abordagens. Contudo, a formulação do conceito de infância da escrita, proposta mais relevante deste trabalho, atingiu, em nosso entendimento, os objetivos propostos. Durante este exercício, trilhamos vários caminhos, ora deixando-nos conduzir, ora direcionando os corpus teórico e ficcional que permearam nossa pesquisas. Esses textos estão colocados em uma equivalência de planos, seguindo as indicações de Deleuze, que considera “a filosofia, a arte e a ciência como espécies de linhas melódicas estrangeiras umas às outras e que não cessam de interferir entre si” (1992, p. 156). Ao formular a hipótese de uma infância da escrita, permitimo-nos relativizar um enfoque mais convencional da literatura, para propor que, em muitas situações, a literatura pode ser considerada infantil, se a entendermos como uma língua minoritária e de devir. A escrita poética está sempre neste movimento de traçar uma linha de fuga para a linguagem, uma escrita que pode estar identificada com o infantil, na medida em que está constantemente desafiando o poder maioritário da língua. Então, como chegar a falar sem dar ordens, sem pretender representar algo ou alguém, como conseguir fazer falar aqueles que não têm esse direito, e devolver aos sons seu valor de luta contra o poder? Sem dúvida é isso, estar na própria língua como um estrangeiro, traçar para a linguagem uma espécie de linha de fuga (DELEUZE, 1992. p. 56). A palavra literária, neste enfoque, talvez pudesse livrar- nos das especificidades e exatidões do discurso adulto, minimizando, assim, as amarras das certezas. Ela pode nos reportar a uma condição infantil na qual as situações ainda são difusas e transmutáveis. Uma disposição anterior àquela na qual já sabemos de antemão o que querem dizer as palavras. Um estado originário, anterior à compreensão não questionável das afirmações seria aquele estado que é, a um só tempo, comum e singular da experiência humana. Uma experiência de inacabamento. Não é possível, portanto, falar em infância sem a consciência de uma condição de seres inacabados. Condição que faz com que os indivíduos estejam disponíveis ao mundo, curiosos, inquietos, criativos, capazes de pensar um outro mundo, de construir uma outra 152 história; de serem sujeitos da experiência. Experiência como infância. Uma infância que não nos abandona, que insiste em nos acompanhar por toda a vida. Ela é condição. Não há como abandonar a infância, não há ser humano inteiramente adulto. A humanidade tem um sôma infantil que não lhe abandona e que ela não pode abandonar. Rememorar esse soma infantil é, segundo Agamben, o nome e a tarefa do pensamento (KOHAN, 2003, p. 245). Com Walter Benjamin, procuramos reconhecer uma outra concepção de experiência, aquela pela qual somos tocados, de onde saímos transformados: “esta pode ser hostil ao espírito e aniquilar muitos sonhos que florescem. Todavia é o que existe de mais belo, intocável e inefável, pois ela jamais será privada do espírito se nós permanecermos jovens” (1984, p. 25). Buscamos compreender a experiência como um modo de ser e de estar no mundo, o que supõe disponibilidade e abertura ao que a ela se oferece, ao mesmo tempo em que permanece sujeito às influências do desejo, das necessidades, da imaginação e da paixão. Uma experiência que se aproxima da infância. Por essa razão, a experiência é caracterizada também pela singularidade, pela heterogeneidade, pela imprevisibilidade, pela incerteza e pelo descontrole. Como define Larrosa (2004, p. 154), experiência é: O que nos passa, ou o que nos acontece, ou o que nos toca. Não o que se passa, ou o que acontece, ou o que toca. Mas o que nos passa, o que nos acontece ou nos toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos passa. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos passe. Com base no conceito de infância, defendido por Agamben em sua obra Infância e História, pudemos compreender a infância como condição da existência humana e não apenas como uma etapa passageira do desenvolvimento. Para aquele, a ausência de voz – en-fant – não significa uma falta, e sim uma condição, uma vez que é na infância que nos constituímos como sujeitos na e pela linguagem. O ser humano é o único animal que aprende a falar, e não o faria sem a infância, pois é nela que se introduz a descontinuidade entre aquilo que é natureza e aquilo que é cultura, entre língua e discurso. Na realidade, é uma condição para que o próprio homem continue a viver, transformando, no cotidiano, a língua em discurso capaz de colocá-lo na situação de criador de cultura: (...) a infância que aqui está em questão, não pode ser simplesmente algo que precede cronologicamente a linguagem e que, a uma certa altura, cessa de 153 existir para versar-se na palavra, não é um paraíso que, em um determinado momento, abandonamos para sempre a fim de falar, mas coexiste originalmente com a linguagem, constitui-se aliás ela mesma na expropriação que dela efetua, produzindo a cada vez o homem como sujeito (Agamben, 2005, p. 59). Historicamente, a infância foi associada à imagem da criança, ou mais especificamente, a uma determinada etapa cronológica do desenvolvimento humano, fruto de perspectivas biologistas e psicologizantes, como apresentamos no primeiro capítulo da tese. Esta imagem esteve quase sempre relacionada a um ser imaturo, dependente, que pouco sabe e que precisa, portanto, ser educado para se tornar um cidadão no futuro. Uma imagem quase sempre marcada pelo caráter pueril, ingênuo, simples e prematuro, como afirma Kohan (2005, p. 233). Ser chamado de infantil, em alguns contextos, significa inclusive um insulto, por tal adjetivo estar impregnado de um sentido pejorativo, de desvalorização e depreciação da infância, dessa forma considerada algo menor, sem importância. Intentamos subverter, por esta razão, o conceito de menor, tornando-o potente. O infantil deixa de ser uma adjetivação, tornando-se substantivo, um bloco de infância que atravessa a experiência. Conforme afirma Corazza e Tadeu (2003), a infância não é mais compreendida como natural, comum, empírica ou mesmo como produção cultural e histórica, mas passa a ser ‘artistagem’. O grau zero de infância é condição para que uma nova linguagem e um novo quadro artístico sejam criados, a fim de configurar uma outra infância nascida ao mesmo tempo da crítica das infâncias anteriores e de um plano virgem: autoreferida, desprovida de sentido, a ser artistada (CORAZZA, 2003, p. 117). O vazio desta infância artificial não traz o prenúncio do que ela irá tornar-se ou a predeterminação de alguma outra infância, mas afirmação de uma outra estética: a da infância. Pensar o bloco de infância, como propõem Deleuze e Guattari (1996), significa considerar que não se trata de ser criança ‘antes’ de ser adulto, mas uma estreita convergência entre o adulto e a criança. Nesta direção, toda literatura pode ser infantil, na medida em que se tratar de uma “literatura menor”, conforme conceito de Deleuze. Uma literatura tomada por um devir-criança. O intuito desta tese foi compor uma reflexão sobre a infância, sob a ancoragem de 154 teorias nela investidas. E, paralelamente, por meio da escrita literária, propor novas formas de abordá-la. Os meus muitos anos de docência já saturaram todos os conceitos do que é o infantil, pela via da educação. Não é mais meu desejo somente educar uma criança para que ela rapidamente deixe sua infância para trás. Por isso, minha opção pela literatura. Pela arte literária, é possível sempre se aproximar da infância, mesmo que, do ponto de vista cronológico, criança não sejamos mais. Deste modo, conforme afirmam Tadeu, Corazza e Zordan (2004), não há pontos, mas uma linha que percorre um mesmo continuum: um passo para um lado e iremos para um ponto, um passo para o outro lado e iremos para o outro; entretanto nunca estamos parados em um mesmo ponto. Deslizamos nas águas do Sirimim, continuamente, a correnteza nos leva a situações que talvez nunca antes experimentamos. O conto nos sugere que para nos aproximar da infância é necessário deixar-nos levar, em fluxos, até ela. E fugir, portanto, das concepções cristalizadas do que é uma criança. Trata-se este de um movimento que não descreve pontos de saída e nem de chegada. Essa infância que a escrita de Rosa demonstra ter encontrado não é uma infância que se opõe ao adultez, mas que se afirma como infantil na própria maneira de compor a narrativa. E assim, sempre nos reencontramos com uma infância. Não aquela infância nossa, perdida em algum ponto de uma existência própria. Mas aquela em que “‘uma’ criança coexiste conosco, numa zona de vizinhança ou num bloco de devir, numa linha de desterritorialização que nos arrasta a ambos – contrariamente à criança que fomos” (DELEUZE, GUATTARI, 2007, p.92). Foi preciso fazer emergir uma escrita infantil que inaugure as coisas no momento de suas aparições, uma escrita que seja de novo uma inscrição no mundo, um modo de apresentação de sentimentos e ideias autênticas, uma escrita que agregue, em torno da palavra, expressões da intensidade da vida. Com Rosa, compreendemos que a narrativa pode jorrar, infinita e sem uma destinação final. E, com ele, reinventamos o curso da história. O trabalho literário de Guimarães Rosa consiste em desafiar os modos usuais de entendimento e os esquemas interpretativos comumente utilizados para a compreensão das coisas no mundo. O jardim e o rio – figurações expressivas de uma infância por vir – é que nos forçou a pensar uma infância em sua força criadora e inventiva. A poesia, mais que a história, nos conduz à recuperação dos processos afetivos, nas epifanias acumuladas ao longo de um percurso, já que, com sua força expressiva, pode reconstituir o roteiro em que se inscrevem os passos da trajetória – um mapa afetivo – em uma caminhada única e plural. Rosa percorre 155 uma geografia afetiva, criando imagens de lugares, fenômenos e experiências. De um lugar imaginado, de um espaço privilegiado de onde se pode construir uma narrativa, coexistem pessoas, fatos, cenários, objetos, animais, circunstâncias, vegetais. São coisas que se justapõem, que se misturam à descoberta do menino em um jardim, às peripécias de uma riacho em seu curso. E é desta profusão de coisas que surge uma escrita singularmente infantil. Esta escrita se remete a infâncias de um pensar, infâncias de um sentir. Autores como Guimarães Rosa, Manoel de Barros e Bartolomeu Campos Queirós provocam este pensar, interpelam os sentidos, propiciam maiores e mais intensas experiências de aprendizagem do humano. Ao criarem suas poesias/narrativas, eles nos desafiam a fazer o mesmo. No devirinfância da escrita encontram-se aqueles que se deixam levar pelo fluxo sensível das palavras literárias. Mas a infância não se restringe à figura da criança. Os autores escolhidos para tal análise, com o foco mais detido em Guimarães Rosa, não privilegiam a infância somente com a utilização de personagens infantis. É por essa via que mais se investiu nossa intenção de contribuir com uma visão renovada acerca da infância, da escrita da infância e da infância da escrita. Analisamos os elementos como o rio, o jardim, o pássaro, a natureza na condição de personagens conceituais, em termos deleuzeanos. Quando Deleuze afirma que a filosofia é uma arte de criar conceitos, ele destaca a força contida num encontro contingente com algo que nos impele a pensar. Este pensar, intenso e móvel, carece, por conseguinte, de personagens que configurem uma melhor definição dos conceitos que serão elaborados (DELEUZE, GUATTARI, 1992, p. 82). Em todas as obras analisadas, são vários os encontros que nos impele a pensar sobre a infância. Em “Jardins e Riachinhos”, de Guimarães Rosa, há um menino que se encontra consigo mesmo no jardim fechado; da mesma forma, o Riachinho Sirimim nos leva a deslizar pela correnteza, experimentando o encontro com a natureza em estado vivo e vivente. De maneira similar, existem os encontros promovidos pelo fazer poético de Manoel de Barros, sempre em busca de um conceito primordial para a palavra materializada pela sua poesia. Também verificamos no encontro do pássaro com o menino em Até Passarinho Passa, de Bartolomeu Campos Queirós, uma constatação para a fugacidade da existência humana, e o quanto a infância precisa se reinventar sempre, a cada novidade da vida. 156 A pretensa familiaridade de quem se encontra no mundo, há muitos anos, traz a sensação falsa de que tudo é muito conhecido, atitude própria do adulto. Mas o mundo é novo e estranho para quem o percebe de maneira infantil, procurando sempre a novidade. Aquele que sensivelmente tenta entender as coisas e é capaz de expressar, com esmero e dedicação, a partir de um feitio próprio, de algum engenhoso artifício, esse entendimento, também ilustra a infância, também se faz criança. É assim que arte e infância coexistem no processo de criação. Na criação literária, são escritas da infância que inauguram uma infância da escrita. Infância da escrita é o que marca a obra de Guimarães Rosa, Manoel de Barros e Bartolomeu Campos Queirós. Em seu devir-criança, em suas escritas literárias, esses autores assumem, em não raras vezes, uma composição fluida de infância. É assim que, por meio da arte literária, a inventiva escritura de tais escritores se mostra capaz de transformar a simplicidade da criança na epifania da infância. 157 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABREU, Casimiro de. Poesias Completas. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. ALBUQUERQUE, Paulo Germano. Sobre literatura, animais e crianças. In: LINS, Daniel(org). Nietzsche / Deleuze: imagem, literatura educação. Rio de Janeiro: Forense Universitária; Fortaleza: Fundação de Esporte, Cultura e Turismo, 2007. ALLIEZ, Eric. Deleuze Filosofia Virtual. São Paulo: Editora 34, 1996. ALMEIDA, Júlia. Estudos Deleuzianos da Linguagem. Campinas: Editora da Unicamp, 2003. ALVES, Rubem. Por uma educação romântica. Campinas: Papirus, 2002. ______. Quando eu era menino. Campinas: Papirus, 2003. AMARAL, Lígia Assumpção. 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