O ESTILINGUE arte em movimento MODA COMPORT AMENTO COMPORTAMENTO LITERA TURA LITERATURA ARTE CULINÁRIA E LOUCURAS AFINS “Aqui nós depositamos as nossas esperanças de dias melhores, viver dias melhores, cheios de paz e sem medo”. Ano 2013 / Nº 12 Meses: abril, maio e junho E D I T O R I A L Nós, do Coletivo de Escritores Periférico de Itajaí, mais uma vez, não medindo esforços para levar ao nosso querido público leitor mais esse manifesto literário. Damos voz e vez para a produção artística marginalizada pela sociedade de consumo instantâneo e massificada. Aqui depositamos as nossas esperanças de dias melhores, viver dias melhores, cheios de paz e sem medo. Tomamos este lema como um guia, que nos norteia nestes conturbados dias de comunicação mundializada, massificada, tempo da comunicação industrializada. Neste mundo, multi-etnico e multi-polar, de muitas dúvidas e poucas certezas. Aqui saudamos a lusofonia, o mundo que fala e escreve em língua portuguesa e as suas muitas possibilidades e oportunidades. Em especial, nesta décima segunda edição, reverenciamos a nossa mãe África, na fala dos escritores africanos: Eduardo Quive, Amosse Mucavele, Hélder Faife, Tânia Tomé e Dinis Muhai. Saudamos na certeza de saber de onde viemos, como saudamos os povos indígenas na fala da militante Ana Paula Kalantã, da etnia Indígena Pataxós, na certeza de saber onde fomos parar. Um forte abraço e uma boa leitura para todos e todas. Dedicamos esta edição para Delta de Souza Maia (em memória), João Carlos Pereira (em memória) e Miguel Maria da Costa (em memória). O Estilingue eduardo QUIVE O desejo à infinitude é maior para as areias que não se acabam SAMUEL da Costa Todos aqueles que sobraram primeira parte “Bata nyonso na mbotama bazali na limeiya pe makok”. Aristides Maia O Estilingue – Monstros! A afirmação do jovem advogado Missael Da Maia trouxe Aristo para a realidade em que vivia. Ambos estavam estupefatos diante da televisão: são cenas de aviões que se lançavam contra duas torres, que depois ardiam e explodiam em chamas. Aristo volta seu olhar para o filho ao seu lado no sofá, bem queria dizer a tempos para o filho: – Eu sei, meu filho! Sei que tens medo... mas estou aqui ao teu lado, e sempre estarei... Mas não disse nada. Na verdade, preferiu não dizer. Parecia que a melhor forma de se comunicar com o filho era através do silêncio. Aristo sentia uma angústia enorme toda a vez que encarava Missael de frente, pois não via no filho toda a urgência e toda a emergência, tão comuns a todas as juventudes, de todos os tempos, em todos os lugares. O olhar que ele mesmo tinha quando tinha a idade de Missael. Queria ver outra coisa, mas não via nada, não enxergava nada em seu próprio filho. – Filho! Isso é um ato chocante, não é? ‘’Te parece” um ato criminoso para ti, não parece? Para Aristo Da Maia era tão somente um ato de guerra, tão brutal como um ato de guerra poderia ser, em seu contexto mais amplo e profundo. Há muito vivenciara atos tão brutais como aquele mostrado ao vivo na televisão. Em menores proporções, é claro, mas com toda a bestialidade que uma guerra poderia gerar. O velho soldado bem queria dizer ao filho que passara parte da juventude e da vida adulta ouvindo certos rumores. O Estilingue Na verdade, eram promessas, ora veladas, ora ditas abertamente em conclaves, de um ataque frontal ao centro do capitalismo imperialista ocidental. Devolver todas as agressões perpetradas por séculos e séculos de escravidão, exílios forçados, saques, estupros e massacres. Em meio a devaneios e divagações, um nome há muito adormecido em sua mente, ressurge com toda a força do mundo: Natália! A imagem dela ainda vinha lhe assombrar depois de um longo tempo tentando esquecê-la de vez. Era com ela que Aristo, um dia, quis casar e ter filhos. Naqueles anos de guerra subterrânea, tempos da chamada ‘’Guerra fria”. Que o apanhou ainda criança na velha África, quando por diversão cantava, como criança marota que era, hinos da guerrilha perto de soldados portugueses que patrulhavam as ruas de seu país. Cantava o hino próximo aos soldados armados de fuzil para depois sair correndo. Aristo também se recorda de seus muitos exílios forçados em diferentes países, fugas, prisões e tortura física e psicológica. Nos anos em que viveu na Eu- ropa e dos amigos e inimigos que fez nesses conturbados anos de luta armada. Agora, sentado confortavelmente em sua poltrona no Novo Mundo, revivendo em sua mente um tempo que, apesar de distante, vem atormentá-lo de forma tão brutal como as imagens que se passam na televisão. – Pai? ‘’Tás” indo pra onde? Aristo hesita em olhar para trás, enquanto caminha para a varanda. Temia encarar o filho naquele momento. Era uma hora muito difícil para ele. Por muito tempo ficou imaginando como seria aquele ataque, aquela tal afronta ao centro do mundo capitalista ocidental. Não lhe passava pela cabeça que fosse um ato de terrorismo puro e simples. Não poderia ser, não aos seus olhos! Tinha que haver algo mais. Pensara em algo mais profundo, mais articulado. Agora, um misto de desespero e uma sensação de vitória tomavam conta de si ao mesmo tempo. Como soldado que um dia fora, não poderia tomar o sentimento de vingança. Tinha que ser algo mais que aquilo. Lutara internamente para não sentir essas sensações mas, depois do que vivenciara, não poderia sentir outra coisa. Já não era mais um soldado em combate ou militante em ação. Era um ser vingado. Afinal, membros de sua própria família tombaram no meio do caminho, por causa daquela gente, para que vivessem bem e confortavelmente, longe de todo o horror que eles mesmos proporcionaram aos outros. Hoje, aquele povo arrogante que vivia na tranquilidade, poderia sentir o que muitos outros povos indefesos ao redor do mundo um dia sentiram, e ainda sentem, ver a própria carne arder em chamas, um mundo de horror que eles mesmos construíram, só que para os outros. Tudo isso transmitido ao vivo na televisão aos olhos do mundo. – Como a tua mãe me faz falta numa hora desta filho... – Aristo não percebe que falava em Kibundo. Missael não entendeu nada, e preferiu não fazer pergunta alguma. Conhecia bem aquele tom entristecido do pai, e resolveu deixar o velho pai sozinho consigo mesmo, inerte em seu próprio mundo. Era o melhor a se fazer por hora, pois não tinha nada para dizer ao seu progenitor. Samuel da Costa é contista, poeta, cronista e militante do movimento negro em Itajaí. Publicou os livros: Horizonte vermelho versos e Uma flor chamada margarida verso e prosa. e-mail: [email protected] a índica forma de dar um ao mar por intermédio de um poema Para Eduardo White, esse poeta que amou sobre o Índico Índico. Cidade mítica escondida no mar. Uma cidade onde escorem as mãos dos deuses. Este nosso mar não tem Deus. Lá do longe, dos pés molhados de uma criança, nasce o Ocidente. É tudo uma viagem perdida. Não há barcos que nos levem a tão longe! Porém há um olhar nas janelas que se abrem. Há uma distância transparente, para onde o homem puxa o barco. As cordas nos levarão até qualquer parte. Penduradas no pescoço dão-nos a beleza da morte e o sabor da coragem. Penduradas nas mãos firmes e negras, tem outro sentido. Já nos foi o cárcere, agora há muitas milhas por alcançar. O sol aça as costas, mas na costa não há vida, não há Índico. Das areias por onde a infância passa velozmente, vêm a mesma sede dos deuses de comer camarão ou de comer as gentes. Mas lá, no Índico, há chuva e há vida. Sathana O Estilingue O Estilingue ou Xikwembus. São todos nossos. O olhar infinito, agudiza a sede do Atlântico e do Pacífico, mas por onde passam os navios há caminhos subterrâneos. Os pássaros nos levarão pelos céus. Do chão a barco a vela. Velaremos até chegar ao azul preto e branco das cores do mundo. O desejo à infinitude é maior para as areias que não se acabam. Iremos. Iremos. Iremos da Ka Tembe, da Costa do Sol, para Mussulo à Iracema, passando pelo Sal e Santana à Praia do Futuro. Este Índico saudoso nos levará, de peitos fermentados, com sal na mão e manga ver- de na boca. Da Ilha de Moçambique olharemos para longe e não mais veremos as luzes. Veremos águas e mais águas. O Norte é mais distante de perto que de longe. E os pássaros nos levam, pelos caminhos podres dos navios, estes barcos fartos de vida na costa. Sathana – diabo, satanás Xikwembus – deuses, espíritos. Ka Tembe – nome de um distrito da capital moçambicana Maputo com uma praia do mesmo nome. Costa do Sol – nome de uma praia da cidade de Maputo. Mussulo – ilha angolana com uma praia do mesmo nome. Iracema – nome de uma praia da cidade de Fortaleza, Brasil. Praia do Futuro – Fortaleza, Brasil. Sal – Ilha do Sal em Cabo Verde. Santana – Ilha de Santana, São Tomé e Príncipe. Eduardo Quive é escritor e jornalista. Editor da revista “Literatas – Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona” do Movimento Literário Kuphaluxa, agremiação de que é um dos fundadores. Correspondente em Moçambique do jornal angolano de artes e cultura “Cultura”. O seu primeiro livro de poesia intitula-se “Lágrimas da Vida Sorriso da Morte” (FUNDAC, 2012). [E-mail: [email protected]] [Blogue: www.quivismo.blogspot.com] TEM QUE SER REI Quem defende a dignidade está condenado a carregar os fardos mais pesados da vida. Uma conclusão do balanço dos anos que se passaram que, como saldo, só ficaram as marcas, as amarguras, o ódio e a compaixão. Porque só quem viveu a experiência sabe o quanto é difícil e, no entanto, tem a certeza de que outros virão, ocuparão este mesmo caminho e lutarão pelos mesmos objetivos. E nunca passará de uma luta sofrida por não encontrarem a união entre os verdadeiros homens de bem. Por este motivo, será uma luta sem fim, onde parece que só ven- De João Carlos Pereira Cronista em Itajaí-SC em memória cem os abutres, que com a ajuda dos incautos que se protegem nas asas dos mesmos, alimentando-se apenas dos vermes e deixando toda a carniça para eles, que não vivem sem a podridão da cobiça pelo poder! Tem que ser o Rei, nem que para isso se torne o mais imundo dos animais, pois este animal não precisa abater suas presas. Apenas passar por cima e observar, não sabendo ele que, quem tem dignidade, observa e vê, só que não tem cobiça e não precisa de carniça para sobreviver! Porque a sua dignidade o alimenta. amosse mucavele O Estilingue atravessar o silêncio A memória é um inferno provisório que os nossos dias visitam constantemente, na penumbra de um mar de esquecimento ladeado por flores que brilham ao som do silêncio, ao entardecer. A neve embarca no murmúrio da água que bate nas pálpebras das pedras na solene viagem do nada. E, para além do sal derramado nas margens, os olhos não alcançavam mais nada, pois o cinzento abocanhou a melancolia do céu que outrora fora azul. E difícil é descortinar este lado invisível da distância que nos assiste. A ilha que nos espera é feita de papel que baloiça livremente nos olhos do mar. Mil e uma visões espalhadas no útero do passado, uma música embalada de presentes toca incansavelmente na febre do navio - onde é minha casa? E no colo do futuro procuraremos acender as nossas identidades com o anzol que perdeu-se nas ondas da tempestade. Ao Cláudio Daniel Amosse Mucavele nasceu em 1987 em Maputo onde vive, sonha em ser poeta, ensaísta, antologiador, tradutor, cronista. Director do projecto de divulgação Literária Esculpindo a Palavra com a Língua. Membro da Academia de Letras de Teófilo Otoni-Minas Gerais, membro da International Writer Association (IWA-Ohio-USA). Possui textos publicados em diversos jornais do mundo Lusófono. Representou Moçambique na 1ª Raias Poéticas - Vila Nova de Famalicão - Portugal. Email: [email protected], [email protected] Santos Pereira! Santos Pereira, homem metido a valente, gostava de ser respeitado por todos, principalmente por parentes e amigos. Sua esposa, dona Odette, descendente de europeus, tez clara, olhos azulados, com um e oitenta de altura. Odette nem ligava para o gênio rude de seu marido, ou seja, gostava de deixar alguns homens com os olhares voltados para ela. E para que isso acontecesse, flertava com eles e, com isso, chamava a atenção para si. Não que desejasse leválos para a cama e, sim, para deixá-los ansiosos para tentarem ter algo com ela. Santos Pereira, como todo mundo que trabalha em empresa, tem direito a férias e nosso amigo não poderia deixar não tê-las, já que fazia parte de um grupo de funcionários que trabalhavam em uma das maiores empresas da região. Estando de férias, em casa, era um tormento. Era um tal de: - Dona Maria, a senhora não sabe aonde mora o seu João? Santos Pereira atendia e dizia, cheio de si: - Amigo! Aqui não mora Dona Maria, e sim a Senhora Odette! E quanto ao seu João! Se for quem eu penso ser, mora aqui ao lado! E não demorava, vinha outro com a mesma conversa: - Oh! Dona Maria, Dona Maria... E Santos Pereira, não tardava em atendê-los: - Aqui não mora Dona Maria, e sim a senhora Odette. Mas, o que o senhor deseja com ela?Disse Pereira não disfarçando a irritação. - É que soube que ela tem uma casa para alugar! E com isso, Santos Pereira começou a desconfiar: - Que diabos! Dizia ele para si. E quando a bela e assanhada senhora chegou, Santos Pereira não titubeou. - Odette! Quero que você me explique, o que andas fazendo? Para que só venham aqui em casa somente homens e não mulheres! - Ora, Santos! - respondeu Odette calma e tranquila - O problema, você sabe! Como sou bonita e não dou bolas para eles, arrumam um jeito de falar comigo! E desse jeito procuram desculpas para poderem me ver, ou seja: - Dona Maria isso, Dona Maria aquilo... Vivaldo TERRES O Estilingue O Estilingue - Isto que estás dizendo não vai mais acontecer! Até porque, se isso acontecer, não me chamarei mais Santos Pereira! Disse irritado e cheio de orgulho. E não demorou alguns segundos para um jovem, bem vestido, com ares aristocrático, começar a chamar de forma incisiva: - Dona Odette! Dona Odette... - Estranho, Odette! Como é que esse jovem sabe o seu nome correto? Disse Pereira, surpreso. - Lembras, Pereira, aquele sapato Luiz XV que você me presenteou no meu último aniversário? Uma tarde, estava eu andando numa calçada, e pisei em falso. - O que isso tem a ver? Perguntou Pereira já apreensivo. - Aí, é que este moço entra na história! Ao ouvir o meu grito de dor, ele parou o carro e me colocou dentro do mesmo. E perguntou-me se queria ir para o hospital. Eu disse a ele que não, o que mais desejava era uma cama, ele repli- cou se o banco do carro não servia. Eu disse que não! Preferia mesmo a cama. - E depois? Pereira inquiriu a esposa, com o coração em pedaços. - Depois, ele me levou no colo, até a portaria do hotel, pagou o quarto, e me levou para a cama! - E depois? Perguntou novamente Pereira. - Depois? Não sei, não me lembro, não vi mais nada. Vivaldo Terres é cronista, poeta e contista em Itajaí, publicou os livros: Mulher (versos), Contos e encontros (prosa) e Fragmentos (versos). E-mail: [email protected] Biscoito de fubá 2(duas) xícaras de polvilho 1(uma) xícara de fubá 1(uma) xícara de açúcar 1 (uma) colher de sopa de gordura animal (banha) 2 (dois) ovos 1 (uma) colher de sopa de fermento de bolo 1 (uma) colher de sopa de baunilha 1 (uma) colher de canela Sal a gosto Erva doce a gosto Limão a gosto Margarida Maria do Nascimento Rita é cozinheira em Itapema O Estilingue TÂNIA T O M É SONHAMANDO O Estilingue No osso das palavras tem loucos multiplicando as janelas E eu engoli um piano E dentro de mim cantam lírios E a aurora borbulha violenta E espalha-se pelos meus nervos Ai que sabor doce amargo tão estranho, Ahyoeh! Digito inteiro o som das rosas e onde sou vermelha uma asa cede-me a loucura e a noite me engole nesse desespero alucinante amplio-me sou última gota no teu corpo de vinho Ahyoeh! E quantas bocas me pertencem? Quantos rios me atravessam? Quantos olhos navego? E onde estou eu, nas partes todas de mim? E com qual delas te amo? No revérbero da guitarra de Baden Powel? E quantas vezes te amo na metade de mim? E quantas vezes te bebi neste poema que ainda não escrevi? Ahyoeh! O Estilingue Oh amor engoli-te um piano e nasceu-me uma aurora bem na rosácea deste poema Exactamente aqui, nesta sílaba, agorinha mesmo, onde suo enluarada um saxofone prende-se à minha garganta Ahyoeh! Respiro Coltrane na minha cama Nua e sem pétalas, nua de mim, ou de nós, amor, diz-me onde cabem os ossos das palavras que te dou? Onde cabem as duas corcundas de mel que me descubro nos teus olhos, nas tuas mãos que me embriagam do cóccix ao céu? Onde cabem amor? Onde cabem? Onde? Ahyoeh! Tânia Tomé é de Moçambique é cantora, compositora, poetisa ,declamadora e apresentadora de espectáculos e televisão. Licenciada em Economia, e Pos-graduada em Auditoria e Controlo Gestão, exerce actualmente a sua função de chefe de crédito e mitigação de riscos em instituição financeira. É membro da Associação dos escritores Moçambicanos, da Associação dos músicos moçambicanos, da Associação dos Poetas del mundo e membro correspondente da Academia Rio-Grandina de Letras do Brasil. Contato: [email protected] www.taniatome.com www.showesia.com Patrícia O Estilingue Raphael Sair para o jardim Poema 37 Numa manhã, ele veio! Na seguinte também veio... A pobre moça suspirava de felicidade... E em um dia a alegria tranquila e desejada... O moço vinha ao seu encontro... triste! Ele a perdeu! Sair para o jardim A claridade do dia O lado do poente Um quadro esplendido... Diante daquela magnificência Ouvi vozes vindas da rua... Uma mulher falava numa voz suave... Animadamente Uma mistura de rara beleza Que a todos encanta... Doces lembranças... Tenho vivido momentos de infinita alegria Mesmo assim, sinto a necessidade... De experimentar Uma nova vida... Em outro lugar Patrícia Raphael é poetisa e militante do movimento negro em Itajaí. Uma das fundadoras da ONG Núcleo Afro-descendente Manoel Martins dos Passos, é na atualidade aluna da ONG ADACO/Ofearte. Na literatura é fomentadora e colaboradora dos cadernos literários: ‘’O Estilingue” e ‘’Nas Nuvens”. Também publicou textos nos jornais: Diário de Santa Catarina, Diário do litoral, Diário da Cidade, Calidoscópio, Revista Papa Siri além de blogs e sites especializados em literatura. E-mail: [email protected] O Estilingue DINIS Muhai Num banco de areia de metro e meio posso ver o Himalaia! E descuro das técnicas alpinísticas para o escalar A D A bandeira que no cume hasteio carrega a glória de poder espantar os pássaros que se saciam no canteiro do meu quintal. A paz de que necessito assemelha-se a imperatividade de conter o soluço ante a passagem vazia de mercenários a trinta centímetros de mim. C S E A L A Dinis Muhai, vive em Maputo. É co-fundador do movimento literário Oásis (1997). Colaborou na revista literária brasileira Poesia Sempre. É autor da história em quadrinhos Nossos Direitos. Publicou o livro de poesia Rascunhos para uma comunicação improvável (Prêmio T.D.M na Modalidade Poesia, 2008). Contato: [email protected] Ana Paula ~ KALANTÃ POLÍTICA PARTIDÁRIA INDÍGENA As comunidades e organizações indígenas sentem a necessidade de se prepararem melhor para enfrentar com êxito os novos desafios. Além da qualificação de professores e agentes de saúde indígenas, formação política partidária de direitos indígenas e autossustentação, afirmação da cultura indígena e preservação dos valores. É desrespeitoso o tratamento dispensado pela atual administração da Fundação Nacional do Ìndio ao conjunto de povos antes considerados extintos e que hoje cobram reconhecimento de seus direitos. O indigenista Claudio Romero presidente da FUNAI nos anos 90, disse. ‘’- Não é possível que as comunidades pobres do Nordeste pintem a cara e simulem rituais só para serem considerados índios, não podemos aceitar que organizações estimulem comunidades a rei- vindicar a posse de auto afirmação e posse de terra sob a alegação de que são índios sem uma história, a identidade indígena ou tribal, deverá ser tida como critério fundamental para determinar os grupos aos quais se aplicam”. É preciso que o dia Nacional do Índio se torne verdade, é preciso superar a realidade brasileira que continua injusta e discriminatória. A lei proíbe o racismo, mas mantém estruturas sociais e econômicas que o alimentam. As pesquisas confirmam: O Branco Brasil é 2,5 vezes mais rico que o Brasil índio ou negro. Nos últimos anos, as diferenças entre indígenas e branco as aumentaram, cerca de 34% da população brasileira vive em condições de pobreza e 14% em situação de indigência. Os indígenas chegam a ser 64% da população brasileira mais pobre entre indigentes e miseráveis. Enquanto essa realidade não for transformada, a lei que proíbe o racismo continuará sendo letra morta. A sociedade mantém a máscara do respeito à igualdade fundamental de todos mas se organiza de forma que os indígenas continuem social e economicamente discriminados. Tudo o que pode favorecer a superação de qualquer preconceito e discriminação deve ser apoiado para que consigamos construir relações em que as pessoas se enriqueçam com os diferentes e as diferenças. O Conselho Mundial de Igrejas, afirma que ninguém pode em nome do Evangelho, condenar ou discriminar o direito das comunidades negras ou indígenas como idolátricas e demoníacas e esquecem de como Jesus respeitou e valorizou pessoas de religiões diferentes da sua. Ana Paula Kalantã, da etnia Indígena Pataxós. É natural de Pau Brasil interior da Bahia, mas naturalizada em Salvador. Filha e neta de nativos indígenas, formada em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Faz palestras e escreve sobre os costumes, luta e cultura dos povos indígenas.E-mail: [email protected] O Estilingue O Estilingue Peixeirus Musicales A música em Itajaí respira ares românticos com fundamentos bem estruturados Aqueles que possuem dotes artísticos geralmente tem dificuldade em lidar com operações mecânicas e rotinas, visto que seu potencial criativo e emotivo sobressaise a todas as habilidades. “A formiga só trabalha porque não sabe cantar” já dizia o saudoso Raul. Temos um celeiro de es- trelas correndo por nossas ruas. Aqueles que vivem e respiram música em nossa cidade são transbordados de cenários inspiradores que transformam Itajaí em referência nacional. Ao tempo que não há o reconhecimento suficiente. Enumere em poucos instantes o nome de bandas ou músicos que tocam em seus IPods e nas rádios. Não há relação quanto ao seu sucesso financeiro, mas sim em prestigiar nossos artistas. O Festival de Música de Itajaí é o único momento que a música é celebrada. Não vemos movimentação suficiente de eventos nas praças, bairros e festas populares. Isso que contamos com os mais variados estilos sendo representados. Blues, Rap, Rock, MPB, Jazz, Sertanejo, Samba, Gospel, enfim, uma gama de talentos que podem satisfazer todos. O conservatório de música de Itajaí é uma incubadora de talentos e a prova viva da continuidade cultural que as gerações futuras vão herdar. O que precisa então? Principalmente, uma revolução cultural. De todas as clas- ses. Em todos os segmentos. Perdemos anos sem a Casa da Cultura, em uma reverencia direta de que enquanto suas portas estiveram fechadas a cultura de Itajaí não existiu. O exercício criativo fez movimentar patrimônios históricos municipais para o dom da música. Andar e respirar é o percurso da percussão, comer tainha com blues é opção. Parafraseando (literalmente) o título do último disco da Banda Peixeira Tribuzana (recomendo!) vamos cantar nossas canções! Moacir Veiga Kienast é comunicador em Itajaí [email protected] Twitter: @quersurfar e @moacirvk facebook.com/moacirvk Skype: moacir.quersurfar O Estilingue Um guarda aguarda que a guarda esteja baixa. E guarda Não aguarda Lança sua arma. Palavras certeiras Frases rasteiras Perspicácia afiada Luana Santos de Oliveira giordanozaguinifurtado daFazenda à Brava Este desentendimento astral que move a humanidade sob a harmonia cíclica, Vence-se à luz do sol para se decifrar algo inócuo, um corpo para um sentido, Uma matéria para aquilo que se conceituará, uma forma ao espírito. D O R S O à luz do sol, no costão, o lagarto lagarteia, sob a serenidade de ter na sua cabecinha as coisas em ordem, desfrutando da paz naquilo que sempre existiu. Sabedoria, plena e exposta, anunciando o fácil exemplo a ser seguido. A N D A R sob às ondas encostadas num molhe muito louco, que se arrastam pelo muro e pés de galinhas gigantes que dividem o rio do mar, que oficialmente permite a entrada e saída de mercadorias, e num detalhe, numa distração, num aproveitamento, diverte-se a tribo regionalista sob a condução da planta emacumbada, a prancha desenhada e a gargalhada, como a de um lagarto que lagarteia, à luz do sol. O U V I R e temer o silêncio que atrai ao ventre da caverna, o úmido do seu ar, como se estivesse fecundando um monstro, um mamífero de asas, que tanto assombrou as noites dos anjos do augusto, e viverá nas custas de nossos medos, renascendo aos nossos sustos. G A L A N T E I A lua cheia e tremenda, sob a estática e morta água do saco da fazenda. Giordano Zaguini Furtado é poeta a advogado em Itajaí contato: [email protected] O Estilingue HÉLDER faife Beijar Beijar é muita fome os lábios ciosos de um mendigo de querer um no paladar do outro Devorar e deixar-se engolir como um pão dá à sua secura Hélder Faife é poeta em Maputo O Estilingue Cássio UBIRAJARA Só por hoje, talvez Não sei se é a noite Talvez a espera de um milagre O auge do desespero ou a insanidade sensata O hoje o agora ou o sempre Todos juntos em mesmo sentimento As palavras se derramam na angústia do ser O descontrole tão habitual da sociedade vem à garganta como ácido São três e dezoito e o sono já se foi O cansaço não atormenta meu raciocínio O colapso do mundo que vivo é só o único mundo que há A alegria que encharca minha alma não somente é a sensação de dever cumprido Pois justamente saber que ainda há muito por se fazer Fico em paz e tranqüilo. Cássio Ubirajara é poeta em Itajaí contato: [email protected] O Estilingue Cláudia Telles O Estilingue Capturar a imagem de alguma insignificância que voa, um vento que passa, um corpo que brinca de alegria, uma agonia de dor, lamentos de amantes, saudades, solidão. Caso você não tenha este ingredientes a sua disposição, imagine-os, que é a mesma coisa. Coloque tudo e vá adicionando e misturando palavras. Cuidado como exagero; Servir quente ou fria, tanto faz Excelente para todas as ocasiões sempre que sentir vontade ou que doer o ferimento ou cicatriz; Receita de poesia Cláudia Regina Telles, poeta natural de Luis Alves/SC, pesquisa diversas linguagem artísticas, graduada em Letras pela UNIVALI, cursou Artes Cênicas na UDESC. Depois de andanças na busca de conhecimento, reside em Itajaí desde 2007, onde atua como arte educadora, educadora popular, contadora de histórias, performer, artista visual e ensaia suas primeiras curadorias. contato: [email protected] www.claudiareginatelles.blogspot.com/ http://www.escritasfemininas.blogspot.com/ http://contarecantarcomarte.blogspot.com.br/ O Estilingue Rua Joaçaba, nº 724 bairro São Vicente, Itajaí Fone: 9126.4134 [email protected] E–mail: [email protected] (48) 8447.9800 / 9909.0555 Editor: Samuel da Costa direção de arte: Anderson Jamaica da Silva Revisão: Amariles Campos conselho editorial: Moacir Veiga Kienast, Vivaldo Terres e Patrícia Raphael Apoio Cultural: Fone: (47) 9988.4407 [email protected] Sumário: Editorial - 01 / Eduardo Quive - 02 - 05 - 28 / Samuel da Costa - 03 - 25 / João Carlos Pereira - 07 / Amosse Mucavele - 08 / Vivaldo Terres - 09 / Margarida Maria do Nascimento Rita - 11 / Tânia Tomé - 12 / Patrícia Raphael - 14 / Dinis Muhai - 15 / Ana Paula Kalatã - 16 / Moacir Veiga Kienast - 17 / Luana Santos de Oliveira - 18 / Giordano Zaguini Furtado - 19 / Hélder Faife - 21 / Cássio Ubirajara - 22 / Cláudia Telles - 23 / VINHETA, ANUNCIO, CRIAÇÃO DE ÁUDIO, EDIÇÃO DE VÍDEOS E MÚSICOS PARA CASAMENTOS, FORMATURAS, ANIVERSÁRIOS E EVENTOS SOCIAIS. (47) 9604.4551 / 8434.6637 [email protected] SAMUEL da Costa Todos aqueles que sobraram segunda parte ‘’Oh Sereia dos e dos lagos... Doce serpente... a banhar-se e mirar-se nas águas. Vem me seduzir! Embair-me!Oh Quianda sagrada! Quero naufragar e morrer em teus braços! No Pelágio mais profundo quero sumir. Quero sumir e morrer em teus braços... Ouvir teu canto mais sagrado. Viver e morrer em teus braços... ‘’ Para David Souza Maia e Delta Souza Maia (em memória) Os olhos verdes do pai se voltam para confrontar os olhos castanhos e puxados do filho. A tez branca de Aristo contrastava com a pele amendoada de Missael. - Pai, ‘’tás’’ indo pra praia? Aristo dá uma risada discreta, pois estava cansado de falar para o filho que não lhe devia explicações dos seus atos. Pelo menos nisso o filho lhe desobedecia. Aristo, enfim, se convence que o filho não era um caso perdido, afinal de O Estilingue contas. Havia ali pelo menos uma centelha de rebeldia. - Não se meta na minha vida, já te disse isso várias vezes. E não me espera para o almoço! — Era ríspido e amargo o tom de voz do velho soldado para com o filho, Missael. Ao descer as escadas da casa, um sentimento lhe invade a alma. Era como um chamado. Tinha que ir à praia de qualquer jeito, como se alguém ali o esperasse. Desde criança, na velha África, escutava essa história sobre a Quianda e seu canto sagrado, metade mulher e metade peixe. Cantava, seduzia e matava. Era essa a história que ouvia de pescadores e marinheiros de Benguela, Bengo e Luanda. Também ouvira a mesma história dos ribeirinhos do rio Cuango e do rio kwanga. Na orla da praia, começou como uma brisa fresca, bem típica da beira mar, mas agora esse zunido que se transformara em um canto finalmente nos ouvidos do velho soldado. Aristo, ateu convicto, temia estar enlouquecendo naquela altura da vida. Talvez a falta da esposa amada, que acabara de falecer de câncer, fosse a explicação plausível: — “Preferia ter partido primeiro! Como queria ter tomado o teu lugar Yara meu amor! Não queria ficar só neste mundo’’. Com os pés descalços, que mergulhavam na areia quente do meio da manhã, a brisa que lhe acariciava o rosto, Aristo sente uma sensação de paz a lhe invadir: — “Deus, esse cheiro de flores! As mesmas do dia do casamento com a Yara! Só posso estar louco!” Aristo não sabia o porquê de estar pensando em Kibundo. Fazia tempo que não falava com um patrício sequer. Ao longe, uma figura etérea, de uma mulher, que se aproximara de Aristo, o atormentou. Ela parecia flutuar enquanto andava. Uma mulher de pele alvíssima e roupas coloridas, muito extravagantes: — Uma Romani, com toda certeza. — Aristo conheceu alguns na Europa e uns tantos no Brasil. Mas aquela era diferente. Na medida em que aquela mulher se aproximava, uma certeza tomava conta do velho soldado. Era como nos tempos das incertezas que precediam um conflito. Aristo estava em guerra de novo: não sabia se ficava contente ou triste ao mesmo tempo. - Aristo, como vai! — A voz soava como um canto que penetrou na mente do velho soldado com muita força. - Por que falas a minha língua, mulher? Aonde aprendesse o meu dialeto? —Aristo fala em português com a Romani. - Já que queres falar a língua dos estrangeiros, está bem. - O que queres de mim, afinal. Já não penei o suficiente nessa vida? Vou ter que sofrer na outra vida, também? É isso Romani? - Por que falas assim, se não acreditas em outras vidas além dessa, soldado? - O que queres de mim, afinal de contas? - Lembra-se das palavras de Carlos para o teu comandante, herr Markus Wolf? - Inferno! O que queres de mim mulher? Não lembro! Pare de me assombrar com essas coisas mortas! - ‘’Um dia, quando perdermos a guerra, quando a gente for derrotado e não sobrar mais nada, vamos todos dar as mãos, camarada ‘Mischa’. Aí, todos aqueles que sobraram vão se reunir em canto escuro qualquer do planeta, para atacar aqueles imperialistas malditos. Vamos fazê-los pagar um preço alto Mischa, eu juro’’. Não foram estas as palavras soldado? - Também falas alemão, Romani? Sim, foram estas as palavras! Eu estava lá quando Ramírez disse para o comandante estas mesmas palavras. Fui testemunha disso tudo e muito mais. Ouvi este discurso em várias línguas a minha vida toda. Mas não quero ouvir mais estas juras. Fiz a minha parte, estou onde estou, falando a língua que falo. Vou perguntar de novo: o que queres de mim, mulher? Por que me assombras deste jeito mulher? - Não percas a esperança, meu amor, e logo estaremos juntos de novo, Ari, meu bem! — Proferiu essas palavras em português bem claro e típico de quem nasceu no norte. Aristo não sabia o que dizer ou pensar. Aquela mulher acabara de falar com a voz de Yara. - Tenho que ir, soldado. Já dei o meu recado! A mulher andou em direção ao mar para sumir em meios às ondas. Era incrível, mas ela parecia não se molhar ao adentrar no oceano. Samuel da Costa é contista em Itajaí. O Estilingue O Estilingue MANIFESTO A D POR E Q UMA U A NOVA E D A PISTA DE SKATE EM ITAJAI, O QUE É DE EXTREMA IMPORTÂNCIA PARA MOSTRAR À PREFEITURA A FORÇA DO ESPORTE NA CIDADE E CONQUISTAR A SONHADA SKATE PLAZA, QUE SERÁ UMA REFERÊNCIA NACIONAL E SERVIRÁ COMO PLATAFORMA PARA A EVOLUÇÃO DO ESPORTE EM TODA REGIÃO. eduardo QUIVE Lá do longe, dos pés molhados de uma criança, nasce o Ocidente. É tudo uma miragem perdida!