O ESTILINGUE
arte em movimento
MODA
COMPORT
AMENTO
COMPORTAMENTO
LITERA
TURA
LITERATURA
ARTE
CULINÁRIA
E LOUCURAS AFINS
“Aqui nós depositamos as
nossas esperanças de dias
melhores, viver dias melhores,
cheios de paz e sem medo”.
Ano 2013 / Nº 12
Meses: abril, maio e junho
E
D
I
T
O
R
I
A
L
Nós, do Coletivo de Escritores Periférico de Itajaí,
mais uma vez, não medindo esforços para levar ao nosso querido público leitor mais esse manifesto literário.
Damos voz e vez para a produção artística marginalizada pela sociedade de consumo instantâneo e
massificada. Aqui depositamos as nossas esperanças
de dias melhores, viver dias melhores, cheios de paz
e sem medo. Tomamos este lema como um guia, que
nos norteia nestes conturbados dias de comunicação
mundializada, massificada, tempo da comunicação industrializada. Neste mundo, multi-etnico e multi-polar,
de muitas dúvidas e poucas certezas. Aqui saudamos a
lusofonia, o mundo que fala e escreve em língua portuguesa e as suas muitas possibilidades e oportunidades.
Em especial, nesta décima segunda edição, reverenciamos a nossa mãe África, na fala dos escritores africanos: Eduardo Quive, Amosse Mucavele, Hélder Faife,
Tânia Tomé e Dinis Muhai. Saudamos na certeza de saber de onde viemos, como saudamos os povos indígenas na fala da militante Ana Paula Kalantã, da etnia Indígena Pataxós, na certeza de saber onde fomos parar.
Um forte abraço e uma boa leitura para todos e todas.
Dedicamos esta edição para Delta de Souza Maia
(em memória), João Carlos Pereira (em memória) e
Miguel Maria da Costa (em memória).
O Estilingue
eduardo
QUIVE
O desejo à infinitude é maior para as areias que não se acabam
SAMUEL
da Costa
Todos aqueles que sobraram
primeira parte
“Bata nyonso na mbotama bazali na limeiya pe makok”.
Aristides Maia
O Estilingue
– Monstros!
A afirmação do jovem advogado
Missael Da Maia trouxe Aristo para a
realidade em que vivia. Ambos estavam
estupefatos diante da televisão: são cenas de aviões que se lançavam contra
duas torres, que depois ardiam e explodiam em chamas. Aristo volta seu olhar
para o filho ao seu lado no sofá, bem
queria dizer a tempos para o filho:
– Eu sei, meu filho! Sei que tens
medo... mas estou aqui ao teu lado, e
sempre estarei...
Mas não disse nada. Na verdade,
preferiu não dizer. Parecia que a melhor
forma de se comunicar com o filho era
através do silêncio.
Aristo sentia uma angústia enorme
toda a vez que encarava Missael de frente, pois não via no filho toda a urgência e
toda a emergência, tão comuns a todas
as juventudes, de todos os tempos, em
todos os lugares. O olhar que ele mesmo
tinha quando tinha a idade de Missael.
Queria ver outra coisa, mas não via nada,
não enxergava nada em seu próprio filho.
– Filho! Isso é um ato chocante, não
é? ‘’Te parece” um ato criminoso para ti,
não parece?
Para Aristo Da Maia era tão somente um ato de guerra, tão brutal como um
ato de guerra poderia ser, em seu contexto mais amplo e profundo. Há muito
vivenciara atos tão brutais como aquele
mostrado ao vivo na televisão. Em menores proporções, é claro, mas com toda
a bestialidade que uma guerra poderia
gerar.
O velho soldado bem queria dizer
ao filho que passara parte da juventude e
da vida adulta ouvindo certos rumores.
O Estilingue
Na verdade, eram promessas, ora veladas, ora ditas abertamente em conclaves,
de um ataque frontal ao centro do capitalismo imperialista ocidental. Devolver
todas as agressões perpetradas por séculos e séculos de escravidão, exílios forçados, saques, estupros e massacres. Em
meio a devaneios e divagações, um nome
há muito adormecido em sua mente, ressurge com toda a força do mundo: Natália!
A imagem dela ainda vinha lhe assombrar depois de um longo tempo tentando esquecê-la de vez. Era com ela que
Aristo, um dia, quis casar e ter filhos.
Naqueles anos de guerra subterrânea,
tempos da chamada ‘’Guerra fria”. Que
o apanhou ainda criança na velha África,
quando por diversão cantava, como criança marota que era, hinos da guerrilha
perto de soldados portugueses que patrulhavam as ruas de seu país. Cantava o
hino próximo aos soldados armados de
fuzil para depois sair correndo.
Aristo também se recorda de seus
muitos exílios forçados em diferentes países, fugas, prisões e tortura física e psicológica. Nos anos em que viveu na Eu-
ropa e dos amigos e inimigos que fez nesses conturbados anos de luta armada.
Agora, sentado confortavelmente em sua
poltrona no Novo Mundo, revivendo em
sua mente um tempo que, apesar de distante, vem atormentá-lo de forma tão
brutal como as imagens que se passam
na televisão.
– Pai? ‘’Tás” indo pra onde?
Aristo hesita em olhar para trás,
enquanto caminha para a varanda. Temia encarar o filho naquele momento. Era
uma hora muito difícil para ele. Por muito
tempo ficou imaginando como seria aquele ataque, aquela tal afronta ao centro do
mundo capitalista ocidental. Não lhe passava pela cabeça que fosse um ato de
terrorismo puro e simples. Não poderia
ser, não aos seus olhos! Tinha que haver
algo mais. Pensara em algo mais profundo, mais articulado. Agora, um misto de
desespero e uma sensação de vitória tomavam conta de si ao mesmo tempo.
Como soldado que um dia fora, não
poderia tomar o sentimento de vingança.
Tinha que ser algo mais que aquilo.
Lutara internamente para não sentir
essas sensações mas, depois do que
vivenciara, não poderia sentir outra coisa. Já não era mais um soldado em combate ou militante em ação. Era um ser vingado. Afinal, membros de sua própria
família tombaram no meio do caminho,
por causa daquela gente, para que vivessem bem e confortavelmente, longe de
todo o horror que eles mesmos proporcionaram aos outros. Hoje, aquele povo
arrogante que vivia na tranquilidade, poderia sentir o que muitos outros povos
indefesos ao redor do mundo um dia sentiram, e ainda sentem, ver a própria carne arder em chamas, um mundo de horror que eles mesmos construíram, só que
para os outros. Tudo isso transmitido ao
vivo na televisão aos olhos do mundo.
– Como a tua mãe me faz falta numa
hora desta filho... – Aristo não percebe
que falava em Kibundo. Missael não entendeu nada, e preferiu não fazer pergunta
alguma. Conhecia bem aquele tom entristecido do pai, e resolveu deixar o velho pai sozinho consigo mesmo, inerte em
seu próprio mundo. Era o melhor a se
fazer por hora, pois não tinha nada para
dizer ao seu progenitor.
Samuel da Costa é contista, poeta, cronista e militante do movimento negro em Itajaí.
Publicou os livros: Horizonte vermelho versos e Uma flor chamada margarida verso e prosa.
e-mail: [email protected]
a índica forma de dar um
ao mar por intermédio de um poema
Para Eduardo
White, esse poeta
que amou sobre o
Índico
Índico. Cidade mítica escondida no
mar. Uma cidade onde escorem as mãos
dos deuses. Este nosso mar não tem
Deus. Lá do longe, dos pés molhados de
uma criança, nasce o Ocidente. É tudo
uma viagem perdida. Não há barcos que
nos levem a tão longe! Porém há um olhar
nas janelas que se abrem. Há uma distância transparente, para onde o homem
puxa o barco. As cordas nos levarão até
qualquer parte. Penduradas no pescoço
dão-nos a beleza da morte e o sabor da
coragem. Penduradas nas mãos firmes e
negras, tem outro sentido. Já nos foi o
cárcere, agora há muitas milhas por alcançar. O sol aça as costas, mas na costa não há vida, não há Índico. Das areias
por onde a infância passa velozmente,
vêm a mesma sede dos deuses de comer
camarão ou de comer as gentes. Mas lá,
no Índico, há chuva e há vida. Sathana
O Estilingue
O Estilingue
ou Xikwembus. São todos nossos. O
olhar infinito, agudiza a sede do Atlântico
e do Pacífico, mas por onde passam os
navios há caminhos subterrâneos. Os
pássaros nos levarão pelos céus. Do chão
a barco a vela. Velaremos até chegar ao
azul preto e branco das cores do mundo.
O desejo à infinitude é maior para as
areias que não se acabam. Iremos. Iremos. Iremos da Ka Tembe, da Costa do
Sol, para Mussulo à Iracema, passando
pelo Sal e Santana à Praia do Futuro. Este
Índico saudoso nos levará, de peitos fermentados, com sal na mão e manga ver-
de na boca. Da Ilha de Moçambique
olharemos para longe e não mais veremos as luzes. Veremos águas e mais
águas. O Norte é mais distante de perto
que de longe. E os pássaros nos levam,
pelos caminhos podres dos navios, estes
barcos fartos de vida na costa.
Sathana – diabo, satanás
Xikwembus – deuses, espíritos.
Ka Tembe – nome de um distrito da capital moçambicana
Maputo com uma praia do mesmo nome.
Costa do Sol – nome de uma praia da cidade de Maputo.
Mussulo – ilha angolana com uma praia do mesmo nome.
Iracema – nome de uma praia da cidade de Fortaleza, Brasil.
Praia do Futuro – Fortaleza, Brasil.
Sal – Ilha do Sal em Cabo Verde.
Santana – Ilha de Santana, São Tomé e Príncipe.
Eduardo Quive é escritor e jornalista.
Editor da revista “Literatas – Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona” do Movimento Literário Kuphaluxa, agremiação de
que é um dos fundadores. Correspondente
em Moçambique do jornal angolano de artes e cultura “Cultura”. O seu primeiro livro
de poesia intitula-se “Lágrimas da Vida Sorriso da Morte” (FUNDAC, 2012).
[E-mail: [email protected]]
[Blogue: www.quivismo.blogspot.com]
TEM QUE SER REI
Quem defende a dignidade está condenado a carregar os fardos mais pesados da
vida. Uma conclusão do balanço dos anos
que se passaram que, como saldo, só ficaram as marcas, as amarguras, o ódio e a compaixão. Porque só quem viveu a experiência
sabe o quanto é difícil e, no entanto, tem a
certeza de que outros virão, ocuparão este
mesmo caminho e lutarão pelos mesmos objetivos. E nunca passará de uma luta sofrida
por não encontrarem a união entre os verdadeiros homens de bem. Por este motivo, será
uma luta sem fim, onde parece que só ven-
De João Carlos Pereira
Cronista em Itajaí-SC em memória
cem os abutres, que com a ajuda dos incautos que se protegem nas asas dos mesmos,
alimentando-se apenas dos vermes e deixando toda a carniça para eles, que não vivem
sem a podridão da cobiça pelo poder!
Tem que ser o Rei, nem que para isso
se torne o mais imundo dos animais, pois este
animal não precisa abater suas presas. Apenas passar por cima e observar, não sabendo
ele que, quem tem dignidade, observa e vê,
só que não tem cobiça e não precisa de carniça para sobreviver! Porque a sua dignidade
o alimenta.
amosse
mucavele
O Estilingue
atravessar o silêncio
A memória é um inferno provisório que os nossos dias visitam
constantemente, na penumbra de um mar de esquecimento ladeado
por flores que brilham ao som do silêncio, ao entardecer. A neve
embarca no murmúrio da água que bate nas pálpebras das pedras na
solene viagem do nada. E, para além do sal derramado nas margens,
os olhos não alcançavam mais nada, pois o cinzento abocanhou a
melancolia do céu que outrora fora azul.
E difícil é descortinar este lado invisível da distância que nos
assiste. A ilha que nos espera é feita de papel que baloiça livremente
nos olhos do mar. Mil e uma visões espalhadas no útero do passado,
uma música embalada de presentes toca incansavelmente na febre
do navio - onde é minha casa? E no colo do futuro procuraremos
acender as nossas identidades com o anzol que perdeu-se nas ondas
da tempestade.
Ao Cláudio Daniel
Amosse Mucavele nasceu em 1987 em Maputo onde vive, sonha em ser poeta,
ensaísta, antologiador, tradutor, cronista. Director do projecto de divulgação Literária
Esculpindo a Palavra com a Língua. Membro da Academia de Letras de Teófilo
Otoni-Minas Gerais, membro da International Writer Association (IWA-Ohio-USA).
Possui textos publicados em diversos jornais do mundo Lusófono. Representou
Moçambique na 1ª Raias Poéticas - Vila Nova de Famalicão - Portugal.
Email: [email protected], [email protected]
Santos Pereira!
Santos Pereira, homem metido a
valente, gostava de ser respeitado por
todos, principalmente por parentes e
amigos. Sua esposa, dona Odette, descendente de europeus, tez clara, olhos
azulados, com um e oitenta de altura.
Odette nem ligava para o gênio rude de
seu marido, ou seja, gostava de deixar
alguns homens com os olhares voltados
para ela. E para que isso acontecesse,
flertava com eles e, com isso, chamava a
atenção para si. Não que desejasse leválos para a cama e, sim, para deixá-los
ansiosos para tentarem ter algo com ela.
Santos Pereira, como todo mundo que
trabalha em empresa, tem direito a férias
e nosso amigo não poderia deixar não
tê-las, já que fazia parte de um grupo de
funcionários que trabalhavam em uma das
maiores empresas da região. Estando de
férias, em casa, era um tormento. Era um
tal de: - Dona Maria, a senhora não sabe
aonde mora o seu João?
Santos Pereira atendia e dizia, cheio
de si: - Amigo! Aqui não mora Dona
Maria, e sim a Senhora Odette! E quanto ao seu João! Se for quem eu penso
ser, mora aqui ao lado!
E não demorava, vinha outro com
a mesma conversa: - Oh! Dona Maria,
Dona Maria... E Santos Pereira, não tardava em atendê-los:
- Aqui não mora Dona Maria, e sim
a senhora Odette. Mas, o que o senhor
deseja com ela?Disse Pereira não disfarçando a irritação.
- É que soube que ela tem uma casa
para alugar!
E com isso, Santos Pereira começou a desconfiar: - Que diabos! Dizia ele
para si. E quando a bela e assanhada senhora chegou, Santos Pereira não titubeou.
- Odette! Quero que você me explique, o que andas fazendo? Para que
só venham aqui em casa somente homens
e não mulheres!
- Ora, Santos! - respondeu Odette
calma e tranquila - O problema, você
sabe! Como sou bonita e não dou bolas
para eles, arrumam um jeito de falar comigo! E desse jeito procuram desculpas
para poderem me ver, ou seja: - Dona
Maria isso, Dona Maria aquilo...
Vivaldo
TERRES
O Estilingue
O Estilingue
- Isto que estás dizendo não vai mais
acontecer! Até porque, se isso acontecer, não me chamarei mais Santos Pereira! Disse irritado e cheio de orgulho.
E não demorou alguns segundos
para um jovem, bem vestido, com ares
aristocrático, começar a chamar de forma incisiva: - Dona Odette! Dona
Odette...
- Estranho, Odette! Como é que
esse jovem sabe o seu nome correto? Disse Pereira, surpreso.
- Lembras, Pereira, aquele sapato
Luiz XV que você me presenteou no meu
último aniversário? Uma tarde, estava eu
andando numa calçada, e pisei em falso.
- O que isso tem a ver? Perguntou
Pereira já apreensivo.
- Aí, é que este moço entra na história! Ao ouvir o meu grito de dor, ele
parou o carro e me colocou dentro do
mesmo. E perguntou-me se queria ir para
o hospital. Eu disse a ele que não, o que
mais desejava era uma cama, ele repli-
cou se o banco do carro não servia. Eu
disse que não! Preferia mesmo a cama.
- E depois? Pereira inquiriu a esposa, com o coração em pedaços.
- Depois, ele me levou no colo, até
a portaria do hotel, pagou o quarto, e me
levou para a cama!
- E depois? Perguntou novamente
Pereira.
- Depois? Não sei, não me lembro,
não vi mais nada.
Vivaldo Terres é cronista, poeta e
contista em Itajaí, publicou os livros:
Mulher (versos), Contos e encontros
(prosa) e Fragmentos (versos).
E-mail: [email protected]
Biscoito de fubá
2(duas) xícaras de polvilho
1(uma) xícara de fubá
1(uma) xícara de açúcar
1 (uma) colher de sopa de gordura animal (banha)
2 (dois) ovos
1 (uma) colher de sopa de fermento de bolo
1 (uma) colher de sopa de baunilha
1 (uma) colher de canela
Sal a gosto
Erva doce a gosto
Limão a gosto
Margarida Maria do Nascimento
Rita é cozinheira em Itapema
O Estilingue
TÂNIA
T
O
M
É
SONHAMANDO
O Estilingue
No osso das palavras
tem loucos
multiplicando as janelas
E eu engoli um piano
E dentro de mim cantam lírios
E a aurora borbulha violenta
E espalha-se pelos meus nervos
Ai que sabor doce amargo
tão estranho,
Ahyoeh!
Digito inteiro o som das rosas
e onde sou vermelha
uma asa cede-me a loucura
e a noite me engole nesse desespero alucinante
amplio-me
sou última gota no teu corpo de vinho
Ahyoeh!
E quantas bocas me pertencem?
Quantos rios me atravessam? Quantos olhos navego?
E onde estou eu, nas partes todas de mim?
E com qual delas te amo?
No revérbero da guitarra de Baden Powel?
E quantas vezes te amo na metade de mim?
E quantas vezes te bebi
neste poema que ainda não escrevi?
Ahyoeh!
O Estilingue
Oh amor engoli-te um piano
e nasceu-me uma aurora
bem na rosácea deste poema
Exactamente aqui, nesta sílaba,
agorinha mesmo, onde suo enluarada
um saxofone prende-se à minha garganta
Ahyoeh!
Respiro Coltrane na minha cama
Nua e sem pétalas, nua
de mim, ou de nós, amor,
diz-me onde cabem os ossos das
palavras que te dou?
Onde cabem as duas corcundas de mel
que me descubro
nos teus olhos,
nas tuas mãos que me embriagam
do cóccix ao céu?
Onde cabem amor?
Onde cabem?
Onde?
Ahyoeh!
Tânia Tomé é de Moçambique é cantora, compositora, poetisa ,declamadora e apresentadora de espectáculos e
televisão. Licenciada em Economia, e Pos-graduada em Auditoria e Controlo Gestão, exerce actualmente a sua função
de chefe de crédito e mitigação de riscos em instituição financeira. É membro da Associação dos escritores
Moçambicanos, da Associação dos músicos moçambicanos, da Associação dos Poetas del mundo e membro correspondente da Academia Rio-Grandina de Letras do Brasil.
Contato: [email protected]
www.taniatome.com
www.showesia.com
Patrícia
O Estilingue
Raphael
Sair para o jardim
Poema 37
Numa manhã, ele veio!
Na seguinte também veio...
A pobre moça suspirava de felicidade...
E em um dia a alegria tranquila e desejada...
O moço vinha ao seu encontro... triste!
Ele a perdeu!
Sair para o jardim
A claridade do dia
O lado do poente
Um quadro esplendido...
Diante daquela magnificência
Ouvi vozes vindas da rua...
Uma mulher falava numa voz suave... Animadamente
Uma mistura de rara beleza
Que a todos encanta...
Doces lembranças...
Tenho vivido momentos de infinita alegria
Mesmo assim, sinto a necessidade...
De experimentar
Uma nova vida...
Em outro lugar
Patrícia Raphael é poetisa e militante do movimento negro em Itajaí. Uma das fundadoras da ONG Núcleo Afro-descendente
Manoel Martins dos Passos, é na atualidade aluna da ONG ADACO/Ofearte. Na literatura é fomentadora e colaboradora
dos cadernos literários: ‘’O Estilingue” e ‘’Nas Nuvens”. Também publicou textos nos jornais: Diário de Santa Catarina,
Diário do litoral, Diário da Cidade, Calidoscópio, Revista Papa Siri além de blogs e sites especializados em literatura.
E-mail: [email protected]
O Estilingue
DINIS
Muhai
Num banco de areia de metro e meio
posso ver o Himalaia!
E descuro das técnicas alpinísticas
para o escalar
A
D
A bandeira que no cume hasteio
carrega a glória de poder espantar
os pássaros que se saciam
no canteiro do meu quintal.
A paz de que necessito
assemelha-se a imperatividade
de conter o soluço
ante a passagem vazia
de mercenários
a trinta centímetros de mim.
C
S
E
A
L
A
Dinis Muhai, vive em Maputo. É co-fundador do movimento literário Oásis (1997).
Colaborou na revista literária brasileira
Poesia Sempre. É autor da história em
quadrinhos Nossos Direitos. Publicou o livro
de poesia Rascunhos para uma comunicação
improvável (Prêmio T.D.M na Modalidade
Poesia, 2008). Contato:
[email protected]
Ana Paula ~
KALANTÃ
POLÍTICA PARTIDÁRIA INDÍGENA
As comunidades e organizações indígenas sentem a necessidade de se prepararem melhor para enfrentar com êxito os novos desafios. Além da qualificação de professores e agentes de saúde
indígenas, formação política partidária de
direitos indígenas e autossustentação, afirmação da cultura indígena e preservação
dos valores.
É desrespeitoso o tratamento dispensado pela atual administração da Fundação Nacional do Ìndio ao conjunto de
povos antes considerados extintos e que
hoje cobram reconhecimento de seus direitos.
O indigenista Claudio Romero presidente da FUNAI nos anos 90, disse.
‘’- Não é possível que as comunidades
pobres do Nordeste pintem a cara e simulem rituais só para serem considerados índios, não podemos aceitar que organizações estimulem comunidades a rei-
vindicar a posse de auto afirmação e posse de terra sob a alegação de que são
índios sem uma história, a identidade indígena ou tribal, deverá ser tida como
critério fundamental para determinar os
grupos aos quais se aplicam”.
É preciso que o dia Nacional do
Índio se torne verdade, é preciso superar a realidade brasileira que continua injusta e discriminatória. A lei proíbe o racismo, mas mantém estruturas sociais e
econômicas que o alimentam. As pesquisas confirmam: O Branco Brasil é 2,5
vezes mais rico que o Brasil índio ou negro. Nos últimos anos, as diferenças entre indígenas e branco as aumentaram,
cerca de 34% da população brasileira
vive em condições de pobreza e 14% em
situação de indigência.
Os indígenas chegam a ser 64% da
população brasileira mais pobre entre indigentes e miseráveis.
Enquanto essa realidade não for
transformada, a lei que proíbe o racismo
continuará sendo letra morta. A sociedade mantém a máscara do respeito à igualdade fundamental de todos mas se organiza de forma que os indígenas continuem social e economicamente discriminados.
Tudo o que pode favorecer a superação de qualquer preconceito e discriminação deve ser apoiado para que consigamos construir relações em que as
pessoas se enriqueçam com os diferentes e as diferenças.
O Conselho Mundial de Igrejas,
afirma que ninguém pode em nome do
Evangelho, condenar ou discriminar o
direito das comunidades negras ou indígenas como idolátricas e demoníacas e
esquecem de como Jesus respeitou e
valorizou pessoas de religiões diferentes
da sua.
Ana Paula Kalantã, da etnia Indígena Pataxós.
É natural de Pau Brasil interior da Bahia, mas naturalizada em Salvador. Filha e neta de nativos indígenas,
formada em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Faz palestras e escreve sobre os costumes, luta e
cultura dos povos indígenas.E-mail: [email protected]
O Estilingue
O Estilingue
Peixeirus Musicales
A música em Itajaí respira ares românticos com fundamentos bem estruturados
Aqueles que possuem
dotes artísticos geralmente
tem dificuldade em lidar com
operações mecânicas e rotinas, visto que seu potencial
criativo e emotivo sobressaise a todas as habilidades. “A
formiga só trabalha porque
não sabe cantar” já dizia o
saudoso Raul.
Temos um celeiro de es-
trelas correndo por nossas
ruas. Aqueles que vivem e respiram música em nossa cidade são transbordados de cenários inspiradores que transformam Itajaí em referência
nacional. Ao tempo que não
há o reconhecimento suficiente. Enumere em poucos instantes o nome de bandas ou
músicos que tocam em seus
IPods e nas rádios. Não há
relação quanto ao seu sucesso financeiro, mas sim em
prestigiar nossos artistas.
O Festival de Música de
Itajaí é o único momento que
a música é celebrada. Não
vemos movimentação suficiente de eventos nas praças, bairros e festas populares. Isso
que contamos com os mais
variados estilos sendo representados. Blues, Rap, Rock,
MPB, Jazz, Sertanejo, Samba, Gospel, enfim, uma gama
de talentos que podem satisfazer todos.
O conservatório de música de Itajaí é uma incubadora de talentos e a prova viva
da continuidade cultural que as
gerações futuras vão herdar.
O que precisa então?
Principalmente, uma revolução cultural. De todas as clas-
ses. Em todos os segmentos.
Perdemos anos sem a
Casa da Cultura, em uma reverencia direta de que enquanto suas portas estiveram fechadas a cultura de Itajaí não
existiu.
O exercício criativo fez
movimentar patrimônios históricos municipais para o dom
da música. Andar e respirar é
o percurso da percussão, comer tainha com blues é opção.
Parafraseando (literalmente) o título do último disco da Banda Peixeira
Tribuzana (recomendo!) vamos cantar nossas canções!
Moacir Veiga Kienast é comunicador
em Itajaí
[email protected]
Twitter: @quersurfar e @moacirvk
facebook.com/moacirvk
Skype: moacir.quersurfar
O Estilingue
Um guarda
aguarda
que a guarda
esteja baixa.
E guarda
Não aguarda
Lança sua arma.
Palavras certeiras
Frases rasteiras
Perspicácia afiada
Luana Santos
de Oliveira
giordanozaguinifurtado
daFazenda
à Brava
Este desentendimento astral que move a humanidade sob a harmonia cíclica,
Vence-se à luz do sol para se decifrar algo inócuo, um corpo para um sentido,
Uma matéria para aquilo que se conceituará, uma forma ao espírito.
D
O
R
S
O
à luz do sol, no costão, o lagarto lagarteia, sob a serenidade de ter na sua
cabecinha as coisas em ordem, desfrutando da paz naquilo que sempre existiu.
Sabedoria, plena e exposta, anunciando o fácil exemplo a ser seguido.
A
N
D
A
R
sob às ondas encostadas num molhe muito louco,
que se arrastam pelo muro e pés de galinhas gigantes que dividem o rio do mar,
que oficialmente permite a entrada e saída de mercadorias, e
num detalhe, numa distração, num aproveitamento,
diverte-se a tribo regionalista sob a condução da planta emacumbada,
a prancha desenhada e a gargalhada, como a de um lagarto que lagarteia, à luz do sol.
O
U
V
I
R
e temer o silêncio que atrai ao ventre da caverna, o úmido do seu ar,
como se estivesse fecundando um monstro, um mamífero de asas,
que tanto assombrou as noites dos anjos do augusto,
e viverá nas custas de nossos medos, renascendo aos nossos sustos.
G
A
L
A
N
T
E
I
A
lua cheia e tremenda, sob a estática e morta água do saco da fazenda.
Giordano Zaguini Furtado é poeta a advogado em Itajaí
contato: [email protected]
O Estilingue
HÉLDER
faife
Beijar
Beijar é muita fome
os lábios ciosos
de um mendigo de querer um
no paladar do outro
Devorar e deixar-se engolir
como um pão
dá à sua secura
Hélder Faife é
poeta em Maputo
O Estilingue
Cássio
UBIRAJARA
Só por hoje, talvez
Não sei se é a noite
Talvez a espera de um milagre
O auge do desespero ou a insanidade sensata
O hoje o agora ou o sempre
Todos juntos em mesmo sentimento
As palavras se derramam na angústia do ser
O descontrole tão habitual da sociedade
vem à garganta como ácido
São três e dezoito e o sono já se foi
O cansaço não atormenta meu raciocínio
O colapso do mundo que vivo é só o único mundo que há
A alegria que encharca minha alma
não somente é a sensação de dever cumprido
Pois justamente saber que ainda há muito por se fazer
Fico em paz e tranqüilo.
Cássio Ubirajara é poeta em Itajaí contato: [email protected]
O Estilingue
Cláudia
Telles
O Estilingue
Capturar a imagem de alguma insignificância que voa,
um vento que passa,
um corpo que brinca de alegria,
uma agonia de dor, lamentos de amantes,
saudades, solidão.
Caso você não tenha este ingredientes a sua disposição,
imagine-os, que é a mesma coisa.
Coloque tudo e vá adicionando e misturando palavras.
Cuidado como exagero;
Servir quente ou fria, tanto faz
Excelente para todas as ocasiões
sempre que sentir vontade
ou que doer o ferimento ou cicatriz;
Receita de poesia
Cláudia Regina Telles, poeta natural de Luis Alves/SC, pesquisa diversas linguagem artísticas, graduada em Letras pela
UNIVALI, cursou Artes Cênicas na UDESC. Depois de andanças na busca de conhecimento, reside em Itajaí desde 2007,
onde atua como arte educadora, educadora popular, contadora de histórias, performer, artista visual e ensaia suas primeiras
curadorias.
contato: [email protected]
www.claudiareginatelles.blogspot.com/ http://www.escritasfemininas.blogspot.com/
http://contarecantarcomarte.blogspot.com.br/
O Estilingue
Rua Joaçaba, nº 724
bairro São Vicente, Itajaí
Fone: 9126.4134
[email protected]
E–mail: [email protected]
(48) 8447.9800 / 9909.0555
Editor: Samuel da Costa
direção de arte: Anderson Jamaica da Silva
Revisão: Amariles Campos
conselho editorial: Moacir Veiga Kienast, Vivaldo Terres e Patrícia Raphael
Apoio Cultural:
Fone: (47) 9988.4407
[email protected]
Sumário:
Editorial - 01 / Eduardo Quive - 02 - 05 - 28 / Samuel da Costa
- 03 - 25 / João Carlos Pereira - 07 / Amosse Mucavele - 08 /
Vivaldo Terres - 09 / Margarida Maria do Nascimento Rita - 11 /
Tânia Tomé - 12 / Patrícia Raphael - 14 / Dinis Muhai - 15 / Ana
Paula Kalatã - 16 / Moacir Veiga Kienast - 17 / Luana Santos de
Oliveira - 18 / Giordano Zaguini Furtado - 19 / Hélder Faife - 21
/ Cássio Ubirajara - 22 / Cláudia Telles - 23 /
VINHETA, ANUNCIO, CRIAÇÃO DE ÁUDIO,
EDIÇÃO DE VÍDEOS E MÚSICOS PARA CASAMENTOS,
FORMATURAS, ANIVERSÁRIOS E EVENTOS SOCIAIS.
(47) 9604.4551 / 8434.6637
[email protected]
SAMUEL
da Costa
Todos aqueles que sobraram
segunda parte
‘’Oh Sereia dos e dos lagos...
Doce serpente... a banhar-se e mirar-se nas águas.
Vem me seduzir! Embair-me!Oh Quianda sagrada!
Quero naufragar e morrer em teus braços!
No Pelágio mais profundo quero sumir.
Quero sumir e morrer em teus braços...
Ouvir teu canto mais sagrado.
Viver e morrer em teus braços... ‘’
Para David Souza Maia e Delta Souza Maia (em memória)
Os olhos verdes do pai se voltam
para confrontar os olhos castanhos e puxados do filho. A tez branca de Aristo
contrastava com a pele amendoada de
Missael.
- Pai, ‘’tás’’ indo pra praia?
Aristo dá uma risada discreta, pois
estava cansado de falar para o filho que
não lhe devia explicações dos seus atos.
Pelo menos nisso o filho lhe desobedecia. Aristo, enfim, se convence que o filho não era um caso perdido, afinal de
O Estilingue
contas. Havia ali pelo menos uma centelha de rebeldia.
- Não se meta na minha vida, já te
disse isso várias vezes. E não me espera
para o almoço! — Era ríspido e amargo
o tom de voz do velho soldado para com
o filho, Missael.
Ao descer as escadas da casa, um
sentimento lhe invade a alma. Era como
um chamado. Tinha que ir à praia de
qualquer jeito, como se alguém ali o esperasse. Desde criança, na velha África,
escutava essa história sobre a Quianda e
seu canto sagrado, metade mulher e metade peixe. Cantava, seduzia e matava.
Era essa a história que ouvia de pescadores e marinheiros de Benguela, Bengo
e Luanda. Também ouvira a mesma história dos ribeirinhos do rio Cuango e do
rio kwanga. Na orla da praia, começou
como uma brisa fresca, bem típica da
beira mar, mas agora esse zunido que se
transformara em um canto finalmente nos
ouvidos do velho soldado. Aristo, ateu
convicto, temia estar enlouquecendo naquela altura da vida. Talvez a falta da esposa amada, que acabara de falecer de
câncer, fosse a explicação plausível: —
“Preferia ter partido primeiro! Como
queria ter tomado o teu lugar Yara meu
amor! Não queria ficar só neste mundo’’.
Com os pés descalços, que mergulhavam na areia quente do meio da manhã, a brisa que lhe acariciava o rosto,
Aristo sente uma sensação de paz a lhe
invadir: — “Deus, esse cheiro de flores!
As mesmas do dia do casamento com
a Yara! Só posso estar louco!”
Aristo não sabia o porquê de estar
pensando em Kibundo. Fazia tempo que
não falava com um patrício sequer. Ao
longe, uma figura etérea, de uma mulher,
que se aproximara de Aristo, o atormentou. Ela parecia flutuar enquanto andava.
Uma mulher de pele alvíssima e roupas
coloridas, muito extravagantes: — Uma
Romani, com toda certeza. — Aristo conheceu alguns na Europa e uns tantos no
Brasil. Mas aquela era diferente. Na medida em que aquela mulher se aproximava, uma certeza tomava conta do velho
soldado. Era como nos tempos das incertezas que precediam um conflito.
Aristo estava em guerra de novo: não
sabia se ficava contente ou triste ao mesmo tempo.
- Aristo, como vai! — A voz soava
como um canto que penetrou na mente
do velho soldado com muita força.
- Por que falas a minha língua, mulher? Aonde aprendesse o meu dialeto?
—Aristo fala em português com a
Romani.
- Já que queres falar a língua dos
estrangeiros, está bem.
- O que queres de mim, afinal. Já
não penei o suficiente nessa vida? Vou
ter que sofrer na outra vida, também? É
isso Romani?
- Por que falas assim, se não acreditas em outras vidas além dessa, soldado?
- O que queres de mim, afinal de
contas?
- Lembra-se das palavras de Carlos
para o teu comandante, herr Markus
Wolf?
- Inferno! O que queres de mim
mulher? Não lembro! Pare de me assombrar com essas coisas mortas!
- ‘’Um dia, quando perdermos a
guerra, quando a gente for derrotado e
não sobrar mais nada, vamos todos dar
as mãos, camarada ‘Mischa’. Aí, todos
aqueles que sobraram vão se reunir em
canto escuro qualquer do planeta, para
atacar aqueles imperialistas malditos.
Vamos fazê-los pagar um preço alto
Mischa, eu juro’’. Não foram estas as
palavras soldado?
- Também falas alemão, Romani?
Sim, foram estas as palavras! Eu estava
lá quando Ramírez disse para o comandante estas mesmas palavras. Fui testemunha disso tudo e muito mais. Ouvi este
discurso em várias línguas a minha vida
toda. Mas não quero ouvir mais estas
juras. Fiz a minha parte, estou onde estou, falando a língua que falo. Vou perguntar de novo: o que queres de mim,
mulher? Por que me assombras deste jeito
mulher?
- Não percas a esperança, meu
amor, e logo estaremos juntos de novo,
Ari, meu bem! — Proferiu essas palavras em português bem claro e típico de
quem nasceu no norte. Aristo não sabia
o que dizer ou pensar. Aquela mulher
acabara de falar com a voz de Yara.
- Tenho que ir, soldado. Já dei o
meu recado!
A mulher andou em direção ao mar
para sumir em meios às ondas. Era incrível, mas ela parecia não se molhar ao
adentrar no oceano.
Samuel da Costa é contista em Itajaí.
O Estilingue
O Estilingue
MANIFESTO
A
D
POR
E
Q
UMA
U
A
NOVA
E
D
A
PISTA
DE
SKATE
EM
ITAJAI,
O
QUE
É DE EXTREMA
IMPORTÂNCIA
PARA MOSTRAR
À PREFEITURA A FORÇA
DO
ESPORTE
NA CIDADE E CONQUISTAR A SONHADA
SKATE PLAZA, QUE SERÁ UMA REFERÊNCIA
NACIONAL E SERVIRÁ COMO PLATAFORMA PARA A
EVOLUÇÃO DO ESPORTE EM TODA REGIÃO.
eduardo
QUIVE
Lá do longe, dos pés molhados de uma criança, nasce
o Ocidente. É tudo uma miragem perdida!
Download

do arquivo