Universidade Federal do Rio de Janeiro MULHERES DE MIO MARITO: REPRESENTAÇÕES DO FEMININO EM CONTOS DE DACIA MARAINI DANIELLE ROCHA VIEIRA BIOLCHINI 2011 1 MULHERES DE MIO MARITO: REPRESENTAÇÕES DO FEMININO EM CONTOS DE DACIA MARAINI DANIELLE ROCHA VIEIRA BIOLCHINI Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de PósGraduação em Letras, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos, opção: Literatura Italiana). Orientadora: Profa. Dra. Maria Lizete dos Santos Rio de Janeiro 2º Semestre de 2011 2 MULHERES DE MIO MARITO: REPRESENTAÇÕES DO FEMININO EM CONTOS DE DACIA MARAINI Danielle Rocha Vieira Biolchini Orientadora: Professora Doutora Maria Lizete dos Santos Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos, opção: Literatura Italiana). Examinada por: _________________________________________________ Presidente, Profa. Dra.Maria Lizete dos Santos – UFRJ _________________________________________________ Prof. Dra. Maria Franca Zuccarello – UERJ _________________________________________________ Profa. Dra. Annita Gullo – UFRJ _________________________________________________ Prof. Dr. Aníbal Francisco Alves Bragança – UFF - Suplente _________________________________________________ Prof. Dr. Fabiano Dalla Bona – UFRJ - Suplente Rio de Janeiro 2º Semestre de 2011 3 FICHA CATALOGRÁFICA Biolchini, Danielle Rocha Vieira Mulheres de Mio marito: representações do feminino em contos de Dacia Maraini / Danielle Rocha Vieira Biolchini. – Rio de Janeiro: UFRJ/ FL, 2011. 132f. : 30 cm Orientadora: Maria Lizete dos Santos. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Letras, Programa de PósGraduação em Letras Neolatinas, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2011. Referências Bibliográficas: f. 129-131 1. Maraini, Dacia. 2. Mio marito. 3. Narrativa italiana – séc. XX. 4. Feminino. 5. Representações. I. Santos, Maria Lizete. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. III. Mulheres de Mio marito: representações do feminino em contos de Dacia Maraini. 4 RESUMO Mulheres de mio marito: representações do feminino em contos de Dacia Maraini Danielle Rocha Vieira Biolchini Orientadora: Professora Doutora Maria Lizete dos Santos. Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de PósGraduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos, opção: Literatura Italiana). Neste trabalho, objetiva-se analisar as representações da mulher encontradas no livro de contos Mio marito (1968) de autoria da escritora italiana Dacia Maraini. Os subsídios teóricos da análise se ancoram, principalmente, em Aldo Carotenuto (L’anima delle donne), Angela Bianchini (Voce donna) Peter Gay (A educação dos sentidos), Pierluigi Pellini (La descrizione) e Antonio Candido (A personagem de ficção). Palavras-chave: Dacia Maraini – Mio Marito – Narrativa Italiana Séc. XX – Representações do feminino Rio de Janeiro 2º Semestre de 2011 5 RIASSUNTO Mulheres de mio marito: representações do feminino em contos de Dacia Maraini Danielle Rocha Vieira Biolchini Relatrice: Professora Doutora Maria Lizete dos Santos. Riassunto da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de PósGraduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos, opção: Literatura Italiana). Questa tesi ha come intento principale l’analisi delle rappresentazioni della donna nei racconti del libro Mio marito (1968) della scrittrice italiana Dacia Maraini. L’analisi si ancorerà agli studi di Aldo Carotenuto (L’anima delle donne), Angela Bianchini (Voce donna) e Pierluigi Pellini (La descrizione). Serviranno anche come appoggio all’analisi del suddetto libro di racconti testi critici scritti da Peter Gay (A educação dos sentidos) e Antonio Candido (A personagem de ficção). Parole chiave: Dacia Maraini – Mio Marito – Narrativa Italiana Séc. XX – Representações do feminino Rio de Janeiro 1º Semestre de 2011 6 Aos meus pais, Carlos Alberto Biolchini da Silva e Auricelia Rocha Vieira Biolchini, por me ensinarem a correr atrás dos meus sonhos. 7 AGRADECIMENTOS A toda a minha família, em especial aos meus pais Carlos Alberto Biolchini da Silva e Auricelia Rocha Vieira Biolchini, por todo incentivo, força e carinho ao longo de todos estes anos e, principalmente, durante mais esta etapa da minha caminhada profissional. A minha irmã Cristiane Rocha Vieira Biolchini, por sua presença e amizade incondicional em todos os momentos de minha vida. Ao meu namorado, Pedro Ivo Moreira Tavares de Macedo, pela compreensão, cumplicidade, incentivo, amizade e carinho. Aos amigos Fabíola Figueira, Daniele Soares, Luciana Nascimento, Izabel Cordeiro e César Casimiro, por todo o companheirismo e torcida ao longo desta jornada. A minha orientadora e amiga, Profa. Dra. Maria Lizete dos Santos, por abrir as portas de sua casa e com tanta dedicação e prontidão des tin ar in cont ávei s h oras para m e ajudar com a pes quisa e com os eventuais problemas ao longo do caminho. E desta forma tornar possível o presente trabalho. A todos os professores da Pós-graduação em Letras que, de alguma forma, contribuíram para o desenvolvimento desta dissertação. 8 Cuore di donna Ci sono donne che camminano controvento da una vita… Ci sono donne che hanno occhi profondi e sconosciuti come oceani… Ci sono donne che cambiano pelle per amore…. Ci sono donne che donano il loro cuore ...per poi ritrovarsi a raccattarne i cocci da sole… Ci sono donne che in silenzio fanno ballare la propria anima su una spiaggia al tramonto… …se ti fermi un istante le puoi sorprendere… …mentre lottano contro il proprio istinto… …mentre fanno passeggiare il proprio dolore a piedi nudi… …affrontando onde che ad ogni mareggiata sono sempre più minacciose... Ci sono donne che chiudono gli occhi…ascoltando una musica lenta... …che rende ancora più salate le loro lacrime... Ci sono donne che con orgoglio ma con il nodo in gola….rinunciano alla felicità... Ci sono donne che con i loro occhi fotografano quegli splendidi ma così fugaci attimi in cui si sentono abbracciate dall'amore… …sperando di mantenerli vivi e colorati per sempre….. …se apri gli occhi un istante le puoi osservare… ...mentre disseminano briciole di se stesse lungo il percorso verso quel treno che le porterà via... ...mentre urlano la loro rabbia contro vetri tremolanti di una casa diventata prigione... ...mentre sorridono di disperazione a chi le vorrebbe far tornare alla vita di sempre… Ci sono donne che non si fermano davanti a nulla… ...perché non troveranno mai la fine di quel filo… Ci sono donne che hanno fatto un nodo per ogni loro lacrima… ...sperando che arrivi qualcuno a scioglierli…. …non fermare il cuore di una donna….niente vale di più …non far piangere una donna….ogni lacrima è un po' di lei stessa che se ne va… ...non farla aspettare da sola ed impaurita seduta sul confine della pazzia... ...e se la vuoi amare...fallo davvero...con tutto te stesso… stringila e proteggila…lotta per lei…uccidi per lei…piangi con lei... …donale il più bel raggio di sole….ogni giorno… ...tieni sempre accesa quella luce nei suoi occhi… ...quella luce è speranza…è amore…è puro spirito…è vento… ...è la più bella stella di qualsiasi notte… (Chiara De Felice)1 1 http://digilander.libero.it/PensieriInVolo/festadonnapoesie/festa_della_donna_poesie.htm A tradução deste poema encontra-se no fim da dissertação, após as referências. 9 SUMÁRIO INTRODUÇÃO, 11 CAPÍTULO I O QUE QUEREM AS MULHERES?, 12 1.1 Literatura no e sobre o feminino, 13 1.2 Dacia Maraini: um olhar de mulher sobre as mulheres, 21 CAPÍTULO II MIO MARITO: REPRESENTAÇÕES DO FEMININO, 25 2.1 A escolha do gênero: Conto, 25 2.2 Mulheres de Mio marito: 32 2.2.1 “Mio marito”: o olhar míope de Marcella, 34 2.2.2 “Il letargo”: para fugir à solidão, 41 2.2.3 “Madre e figlio”: o fio que não se rompe, 49 2.2.4 “L’altra famiglia”: a dupla vida de Elda, 58 2.2.5 “Il quaderno rosso”: a traição arquitetada, 66 2.2.6 “Il dolore sciupa”: para livrar-se do sofrimento, 72 2.2.7 “Le lenzuola di lino”: para se vingar de uma traição, 79 2.2.8 “Marco”: um refúgio no jardim, 88 2.2.9 “Diario coniugale”: um registro de enganos, 98 2.2.10 “L’albero di Platone”: as folhas em branco, 105 2.2.11 “Maria”: um triste caso de amor, 113 2.2.12 “Le mani”: as ilusões perdidas, 119 CONSIDERAÇÕES FINAIS, 127 REFERÊNCIAS, 129 10 INTRODUÇÃO Este trabalho tem como objetivo examinar as representações do feminino encontradas em Mio marito (1968), livro da escritora italiana Dacia Maraini, composto por doze contos, narrados em primeira pessoa, todos tendo como protagonista uma figura feminina, às vezes anônima, em geral jovem. As narradoras / protagonistas apresentam origens sociais diversas, mas coincidem quanto à angústia existencial que as toma, decorrente da luta pela independência econômica e, principalmente, emocional. São representadas a partir de uma descrição plástica e minuciosa, de sua aparência física e/ ou sua postura diante da rotina da vida doméstica, do trabalho e das relações amorosas, principalmente. Os contos que integram o nosso corpus permitem uma reflexão sobre a condição feminina, na Itália e, por extensão, nos países do mundo ocidental. Para examiná-los, este trabalho será dividido em dois capítulos, detalhados na sequência. No primeiro, que se subdivide em dois capítulos, primeiramente faremos um breve aceno aos movimentos pela emancipação da mulher, através do sufrágio universal principalmente, e, em seguida, apresentaremos a nossa autora, Dacia Maraini. O segundo capítulo segue a subdivisão do anterior: no primeiro subcapítulo, explicaremos o porquê de termos escolhido trabalhar com um livro de contos; no segundo, procederemos ao exame de cada um dos doze contos do livro que compõe Mio marito, procurando traçar o perfil das diferentes personagens / narradoras. Sustentaremos nossa leitura em Peter Gay, Angela Bianchini e Aldo Carotenuto, para a discussão referente à condição feminina; e em Marco Antonio Bazzocchi e Antonio Candido, para a fundamentação referente à construção das personagens. Passemos, pois, a conhecer as mulheres de Mio marito. 11 CAPÍTULO I O QUE QUEREM AS MULHERES? Falei e disse Mulher, Se Deus não criasse você Ele próprio custava a crer... (Baden Powell e Paulo César Pinheiro) A partir da conhecida indagação feita por Freud – “Afinal o que querem as mulheres?” –, que reverbera até os dias atuais, e cuja resposta todas as mulheres conhecemos bem, mesmo quando inconscientemente, neste breve primeiro capítulo, que funciona como uma “moldura” para a leitura que se concentra no Capítulo II, apresentamos uma breve reflexão sobre a condição da mulher, a partir do Século XVIII. Sabemos que à mulher, historicamente, até meados do século XX, coube o papel de “rainha do lar”, mesmo quando trabalhava e garantia o sustento de sua família. Na literatura, ganhava os mesmos contornos sociais: era a musa, a amada, a esposa, a amante. Diante desse contexto, como romper com a tradição e trazer à narrativa múltiplos perfis de mulher, pós-emancipação feminina, na Itália dos anos 1960? Dacia Maraini, em seu livro de contos Mio marito, nos faculta uma resposta, através da caracterização de suas narradoras. Como veremos mais adiante, na leitura dos contos, a maioria das mulheres representadas por Maraini ainda se encontra sem voz, sob o domínio do marido, confinada ao ambiente doméstico, tendo o horizonte limitado e os anseios frustrados. Mas alguma delas, a exemplo da mulher cantada no poema transcrito abaixo, têm procurado traçar corajosamente a sua trajetória de emancipação. Disse no al marito Si infilò le scarpe da ginnastica E andò viaggiando per il mondo Una donna di settant’anni Dai grandi occhi viola2 2 MARAINI, Dacia. Dimenticato di dimenticare. Turim: Einaudi, 1982, p. 23. 12 1.1 Literatura no e sobre o feminino Daremos início à nossa reflexão com textos extraídos do livro A representação das mulheres no discurso dos filósofos: Hume, Rousseau,Kant e Condorcet, de autoria de Adília Maia Gaspar (2009, 12-3): Estamos habituados a considerar que a filosofia e os filósofos cumprem um papel fundamentador e desestabilizador e por isso os admiramos, com a convicção de que nos podem servir de modelos e estimular a nossa capacidade crítica; estamos habituados a pensar que a filosofia ajuda a compreender melhor a nós mesmos e ao mundo que nos cerca; por isso, não poderemos deixar de sentir perplexidade com a leitura de alguns textos, porque neles nem sempre a filosofia cumpre, como seria de esperar, sua promessa libertadora, nem funciona como ferramenta conceitual ao serviço da transformação do mundo. As análises sobre as mulheres que muitos filósofos nos deixaram nem parecem proceder de uma metodologia filosófica rigorosa nem cumprem o propósito desta; em vez de escrutinarem o senso comum do seu tempo e os preconceitos então prevalecentes, limitaram-se a racionaliza-loa, tornando-os mais poderosos e contribuindo decisivamente para que o status quo se perpetuasse. Adília continua seu texto afirmando que, “no ambiente intelectual do século XVIII, quando as luzes da razão serviram para construir a moldura teórica que haveria de enquadrar as reivindicações de liberdade, igualdade e participação política dos homens”, as mulheres foram totalmente ignoradas, sendo relegadas à domesticidade onde deveriam se manter sob a tutela dos pais, maridos ou irmãos. As mulheres foram também proibidas de aceder à educação, de qualificar-se para o exercício de profissões que lhes permitissem a independência econômica. Foram, ademais, espoliadas de bens de herança em favor de irmãos ou de outros parentes do sexo masculino (GASPAR, 2009: 13) É certo que entre os anos de 1792 e 1793, escreve a estudiosa, as mulheres conquistaram alguns direitos: o de casar sem o consentimento paterno, de iniciar um processo de divórcio, de designar o pai de um filho ilegítimo e, também, herdar bens de família. No entanto, “em 1804, com a promulgação do código napoleônico, a 13 ‘festa’ acabou: regressaram à tutela dos pais e maridos” (Id, ib). A educação passou a abranger um número maior de mulheres, mas não as preparava para uma vida produtiva e independente. As disciplinas intelectuais, ciências e filosofia, eram-lhes vedadas. Cabia-lhes aprender música, pintura, bordados, dentre outros dotes decorativos, “tudo pensado em função do seu exclusivo papel de esposas encantadoras e mães devotadas” (GASPAR, 2009: 14). Após tratar dos textos produzidos pelos filósofos mencionados no título de seu livro, Adília Maia Gaspar (2009: 90) afirma que “Condocert foi provavelmente o primeiro pensador verdadeiramente feminista da história”, pois denunciou a injustiça contra a mulher, bem como mostrou e propôs “a solução, que consistiria no reconhecimento às mulheres do acesso à cidadania através do voto”. Condocert levantou a sua voz em favor da luta dos fracos contra os fortes, criticando a ideologia dominante, desmistificando as práticas sociais existentes e, o que é ainda mais importante, apontando o caminho alternativo. A condição de inferioridade efetiva da mulher era vista como natural, necessária e imutável; Condocert mostrou que ela não era natural, mas antes o resultado de condicionalismos culturais e sociais que a criaram e alimentaram; alterados esses condicionalismos e instituídas mudanças políticas, poderia e deveria vir a ser eliminada. (GASPAR, 2009: 91) Angela Bianchini é mais otimista que Adília Gaspar. Em seu livro Voce donna (1996), escreve que a partir da segunda metade do século XIX, a teoria do romantismo social ou o socialismo utópico sobre as condições das mulheres se enriquece com a concepção marxista. Informa que, segundo Marx, existe um nexo entre a emancipação da mulher e o desenvolvimento histórico da sociedade e que, em seu manifesto comunista, junto com Engels, já havia chamado a atenção para a mesquinharia burguesia em considerar a mulher como propriedade privada. Engels atribuía à origem da família a relação entre condição feminina e divisão do trabalho. Afirmava que, como a família representava a forma celular da sociedade civilizada, se oferecia ao estudo das oposições e contradições da economia e da política em geral. O filósofo alemão via no casamento burguês uma conveniência e, 14 frequentemente, uma forma de prostituição por parte da mulher. Enfim, uma família fundada na escravidão da mulher, que tinha o papel do proletariado explorado, enquanto o homem representava o papel de patrão. O social democrata alemão August Ferdinand Bebel, em sua obra A mulher e o socialismo (Apud, BIANCHINI, 1996: 169), afirma que o problema da mulher como escrava já existia antes mesmo do início do sistema escravocrata. Sustenta que a solução da questão da mulher seja idêntica à solução da questão social. Ou seja, o partido socialista é o único que fez que a igualdade das mulheres fosse parte de seu programa. Enfim, o movimento de liberação da mulher ocorre através de toda a segunda metade do século XIX. E com relação à Itália, até o momento em que o fascismo anula as reivindicações, esvaziando assim de significado as suas próprias diferenças. O movimento de mulheres representado por moralistas como Elizabeth Stanton e Susan B. Anthony tinham raízes na América provençal e evangélica e se preocupava mais com o passado do que com o significado que a crescente industrialização havia tido para as mulheres menos privilegiadas. Ou seja, a maior parte do discurso que produziam, embora fosse dirigida às mulheres de todas as classes sociais, tinha foco em seus pares. Mas, talvez, o maior ponto fraco dessas revolucionárias esteja na incompreensão da grande onda de imigrantes que invade a América na segunda metade do século XIX. A emancipação do movimento sufragista não reagiu contra a xenofobia com relação aos imigrantes. Sustentavam que as melhores mulheres do país, ou seja, as burguesas, instruídas, protestantes teriam serventia, caso pudessem votar, para contrabalançar o poder político do crescente número de novos americanos que vinham se formando entre imigrantes. As feministas mais radicais do final do século XIX pertenciam a um mundo cosmopolita e urbano. Daí, possuírem perspectivas mais amplas que as feministas providas de uma moralidade provençal e religiosa. Ou seja, eram laicas e foram as primeiras pessoas a se preocuparem com as mulheres proletárias, na medida em que se preocupavam também com as mulheres burguesas e instruídas. Na América da segunda metade dos Oitocentos, um enorme número de mulheres se dedicou à causa da emancipação, com a mesma força que as jovens 15 revolucionárias russas. Causa que se relaciona tanto com a grandiosa e longa campanha pelo voto quanto com as causas sociais. Enfim, a campanha pelo sufrágio universal durou 72 anos: uma campanha que se iniciou em 1848 com as organizações provençais que se seguiram no Estado de Seneca Falls, além dos primeiros discursos públicos de Frances Wright, em 1820, até 1920, quando o congresso finalmente concedeu o voto à mulher. Somente Antoinette Brown Blakwell (da primeira geração de pioneiras ativistas) chegou a votar na primeira eleição, de 1920. A campanha sufragista permanece como exemplo singular de força de vontade e, também, como inevitáveis diferenças políticas que possam surgir entre grupos feministas. A partir da guerra civil, ocorria na América um curioso fenômeno: um aumento substancial no número de mulheres. Somente em Massachusetts, esse número chegava a 50 mil, entre viúvas, noivas que haviam perdido o namorado na guerra, ou que haviam sido deixadas para trás com a marcha dos homens para o Oeste. Enquanto os homens se dedicavam à exploração do petróleo, das ferrovias, dos minérios e das finanças, as mulheres se ocupavam das áreas intelectuais. Logo, as mulheres na América representavam, como dizia Howells, a aristocracia que nos outros países existe nos dois séculos. Segundo Charlotte Perkins Gilman, autora do tratado Women and economics, o trabalho da mulher na casa permite ao homem criar uma maior riqueza. A mulher seria, então, um fator econômico na sociedade. Mas, assim também são os cavalos. O trabalho do cavalo também permite ao homem produzir mais riqueza. Logo, o cavalo é um fator econômico na sociedade. Mas, o cavalo não é economicamente independente, nem a mulher. No segundo período de sua vida, entre 1909 e 1916, quando a pressão urbana e estrangeira troca a perspectiva feminista, a autora (nasceu em 1860, em Connecticut, e morreu em 1935) dedica à mulher do mundo urbano e industrial uma revista mensal chamada The Forerunner. Tal revista dá soluções aos problemas da mulher como escola em tempo integral, dentre outros. Enfim, no âmbito do feminismo americano, Charlotte Perkins representa um caso singular, de uma mulher dividida entre a vida ativa e a alegria da maternidade. As obras da autora mostram certo ressentimento com relação ao mundo feito pelo 16 homem, no qual a mulher se vê obrigada a viver. Na realidade, o mundo começava a mudar também nos Estados Unidos, e de modo contraditório. Dessa forma, se poderia afirmar que, por seu caráter, a última líder do movimento sufragista, Carrie Chapman Catt (educadora, jornalista, organizadora), tinha tudo para ser escolhida por Anthony a sucedê-lo na presidência da ANWSA. Chapman era mais pragmática que idealista, conforme eram as demais mulheres que a haviam precedido. No entanto, na associação tinha lugar apenas mulheres brancas do Sul, que favoreciam a supremacia racial. Eram excluídas as mulheres negras e as trabalhadoras imigrantes. Nesse meio tempo, a vida privada de muitas mulheres continuava a ser, em muitos casos, injusta. Também, no fim do século, que havia visto o nascimento do feminismo americano, surge na América um tipo de ativismo feminino radical estimulado pelos problemas insolúveis daquela idade dourada. As ondas sucessivas de imigração trouxeram às ruas das cidades estrangeiros de diferentes condições, mas igualmente ignorantes, ingênuos, confusos, sujeitos a serem explorados economicamente e destinados a uma discriminação econômica e social ao mesmo tempo. E assim, nascem os museus e as bibliotecas públicas que os cidadãos provinciais não poderiam jamais imaginar. Entre 1870 e 1900, o número de mulheres que encontraram emprego na grande cidade duplicou. A grande cidade começava a fornecer às mulheres a oportunidade para escapar às regras morais que lhe eram impostas. Ou seja, a mulher apresentava a necessidade de se emancipar, caso quisesse realmente ser livre. Com a sua emancipação, conseguiu atingir a igualdade do sufrágio em alguns poucos estados, além da igualdade econômica. Isto é, a mulher pode escolher a sua própria profissão e trabalho. No entanto, com relação ao ponto de vista físico, a mulher não possuía a força necessária para competir com o homem. A emancipação é um propósito muito limitado para permitir o amor e o êxtase sem limites, contidos na profunda emoção da mulher verdadeira, apaixonada, mãe, em liberdade. (BIANCHINI, 1996: 181). Ao final do século XIX, as mulheres americanas pareciam ter alcançado vários 17 de seus objetivos, mas a miséria era tal que muitas delas, como Sanger ou Jane Addams, preferiram se dedicar a acalmar e suavizar a miséria a construir palácios venezianos ou dar início a grandes coleções de arte. Ou seja, eram mulheres pacifistas, que visitavam as comunidades urbanas de Londres, e possuíam amigos na Inglaterra. Havia entre as mulheres oitocentistas uma amizade, fosse pelo propósito em comum que as ligava, como no caso de Stanton e Anthony; Stone e Antoinette Brown Blackwell que se dedicavam à mesma causa. Decidimos seguir o texto da Angela Bianchini, que narra o percurso de conquistas femininas através das mulheres da América, pela convicção demonstrada pela estudiosa de que: tutte le conquiste delle donne dell’ultimo secolo, perfino negli anni Cinquanta, apparentemente così calmi, anzi torpidi... dipendano dal ricordo e dall’esempio di quelle donne che vissero e sparirono a metà Novecento (BIANCHINI, 1996: 229) Na Itália, contrariamente ao que acontecera na segunda metade do século XIX, a partir da Unità, a mulher italiana torna-se articulada e aprende a verbalizar. Sua voz se faz ouvir fortemente através dos jornais, das revistas, dos livros, conferências e, ainda, epistolário. Revelam-se, finalmente, escritoras e autoras de romances, não de forma isolada, em ambientes fechados, mas em clima de liberdade (BIANCHINI, 1996: 232). Tudo acontece graças ao programa de alfabetização que se realiza, lentamente, mas de forma eficaz. Sede de cultura e necessidade de renovação assumem várias formas, e não somente na questão feminista, na qual coexistiam duas orientações dificilmente conciliáveis: La prima si ispirava principalmente al concetto di uguaglianza tra uomini e donne, e l’altra, sostenendo il principio dell’equivalenza, ‘volgeva in positivo le caratteristiche considerate connaturate alle donne, pretendendo che divenissero i valori guida della convivenza civile e dei rapporti umani in generale’. (BIANCHINI, 1996: 233)3 3 A primeira se inspirava principalmente no conceito de igualdade entre homens e mulheres; a outra, sustentando o princípio da equivalência, “colocava em evidência as características consideradas naturais às mulheres, pretendendo que se tornassem os valores-guia da convivência civil e das relações humanas em geral”. (Tradução da autora) 18 Entretanto, não se pode desconsiderar que, além do emancipacionismo que interessava somente a um número limitado de mulheres e de associações, a Itália vivesse, naqueles anos, um fenômeno cultural importante, que influenciou o clima e as escolhas da nação, o “margheritismo”, que era aparentado ao vitorianismo, mas com características absolutamente italianas e, por isso, conseguindo penetrar no cotidiano e permeá-lo, com efeitos profundos, até e durante o fascismo. O “margheritismo” foi, em essência, uma legenda “benefico-mondanapatriottica-sabauda” que cresceu em 1878, quando da ascensão de Margherita ao trono, e de sua transformação em “primeira rainha da Itália”. Fora criada dez anos antes, nas núpcias de Margherita com o príncipe herdeiro, mas ou menos nos anos em que surgiu uma das primeiras, se não a primeira, revista feminista, La donna. Em 1878, quase simultaneamente à campanha contra a regulamentação da prostituição promovida por La donna, a exemplo do que já acontecia especialmente no mundo anglo-saxão, a editora Fratelli Treves lançou o primeiro número da revista feminina Margherita, anunciada e divulgada como Giornale delle signore italiane di gran lusso, di mode e letteratura. A revista trazia estampada a cabeça da rainha, com o colo adornado por colares de pérolas, anunciava romances originais e oferecia aos assinantes da edição de luxo fotografias dos soberanos. Enquanto isso, La donna, se via forçada a tomar precaução para preservar a identidade de seus assinantes. Ou seja, dois mundos opostos: na Margherita, o culto à soberana, as especulações sobre a infidelidade do rei, Umberto, e sobre as cenas e ameaças feitas pela rainha. A lista das obras culturais e beneficentes patrocinadas pela rainha é longa e indica a direção que, segundo as ideias da época, a mulher devia seguir. E, com a indústria do merletto (bilro), reativada em Burano pela Condessa Adriana Marcello, abrem-se várias iniciativas de trabalho destinadas à mulher, que empregam toda a mão-de-obra feminina que a crescente industrialização havia dispensado das fábricas. Essas mulheres eram contratadas para trabalhos em domicílios, ou em laboratórios-escolas, patrocinados pelas damas beneficentes. Tornam-se famosas as “Industrie Femminili Italiane”, com vistas a: 19 educare il gusto delle operaie con modelli, con disegni e consigli ... nella convinzione di quanto sia utile l’opera della signora che si mette a contatto colle umili operaie, che lavorano al tombolo, al bulino, al telaio, nella casa povera, per inviarci una produzione abbondante, di buon gusto, ispirata al genio dei luoghi. (BIANCHINI, 119: 235) Ou seja, uma moral cristã e social com o objetivo de melhorar as condições materiais das classes menos favorecidas e, ainda, elevar espiritualmente as damas beneficentes. Tais iniciativas tinham também o mérito de manter as mulheres afastadas dos maus exemplos. O fenômeno do “margheritismo” deve ser entendido à luz da “feminização” e domesticação da cultura que permeia todo o século XIX e que, mesmo acentuando os dotes do “anjo do lar”, exalta outras virtudes, não menos importantes pela sua feminilidade e sempre ligadas à defesa da família, do lar, da pátria perenemente assediada pelos inimigos externos. Em lado oposto à vida espiritual italiana encontram-se os movimentos emancipacionistas, com destaque para Anna Maria Mozzoni (1837-1920), uma das primeiras italianas a entender o significado do termo socialismo e, sem dúvidas, a primeira a tornar a questão feminina um aspecto do movimento operário na Lombardia. Afilia-se ao Partido Operário Italiano. Toda a sua concepção de mulher e de família é moderna e atual, fundada na repulsa ao “monacarto famigliare”, ao conservadorismo das relações entre os sexos. A partir de Mozzoni, a atuação das mulheres se intensifica na Itália, tornando-se determinante, e, por isto, uma lista com o nome de várias delas, todas brilhantes e ativistas, poderia ser oferecida e comentada. Mas, não é esse o objetivo do nosso trabalho e, portanto, passaremos imediatamente ao próximo subcapítulo, no qual apresentaremos Dacia Maraini, escritora com intensa luz própria, cujo olhar se volta, especialmente, para questões do feminino. 20 1.2 Dacia Maraini: um olhar de mulher sobre as mulheres Dacia Maraini nasceu em Fiesoli, Florença, em 13 de novembro de 1936. Poetisa, romancista, dramaturga, crítica literária e teatral, é, nos dias atuais, uma das três escritoras italianas mais traduzidas no mundo. Filha da pintora Topazia Alliata e do etnólogo Fosco Maraini, viveu no Japão entre 1938 e 1947, quando seus pais decidiram se afastar da Itália fascista. Entre os anos de 1943 e 1946, a escritora e sua família, juntamente com outros italianos, foram aprisionados em um campo de concentração, por se recusarem a reconhecer oficialmente o governo militar japonês. Daí, em sua coleção de poesias Mangiami pure (1978), Dacia rememorar as atrozes privações e os sofrimentos experimentados naqueles anos. De volta à Itália, a família fixou residência na Sicília, com os avós paternos. Aos dezoito anos, Dacia Maraini mudou-se para Roma, cidade na qual seu pai se estabelecera depois de ter-se separado de sua mãe. Na capital italiana, deu sequência aos estudos de segundo grau e travou contato com renomados escritores. Aos vinte e um anos, associada com outros jovens, fundou a revista literária Tempo di Letteratura e começou a colaborar com diversas revistas, dentre as quais se destacam Nuovi argomenti e Mondo. Em 1962 debutou no cenário literário italiano com a publicação de seu primeiro romance, La vacanza. Nesse mesmo ano, conheceu Alberto Moravia – então casado com a escritora Elsa Morante –, um dos mais importantes romancistas italianos do século XX, com quem Dacia viveria até 1983. No curso dos anos 1960, começou a interessar-se por teatro e, portanto, passou a colaborar com vários grupos experimentais. Segundo a escritora, o teatro é o melhor lugar para informar o público a respeito dos problemas sociais e políticos. Em 1967, fundou, com outros escritores, o “Teatro del Porcospino” e, ademais, intensificou sua produção teatral. Dessa safra, Maria Stuarda e Stravaganza tiveram grande sucesso, inclusive fora das fronteiras italianas. A atriz brasileira Denise Stoklos representou ambas as peças no Brasil e em vários festivais de teatro 21 realizados no mundo. No ano de 1969, fundou o teatro de “Centocelle” e, em 1973, o “Teatro della Maddalena”, a primeira companhia teatral inteiramente mantida e dirigida por mulheres. Enfim, de 1967 até os dias correntes, já escreveu mais de trinta obras teatrais. Atualmente, a multifacetada escritora reside em Roma. A vasta produção poética de Dacia contempla romances, contos, livros dedicados à infância, livros de poesia, textos teatrais, ensaios e entrevistas. Os grandes temas sociais, a vida das mulheres, os problemas da infância são os focos prediletos de sua produção artística, que abaixo se encontra relacionada. a) Romances e contos: • La vacanza (1962) • L’età del malessere (1963) • A memoria (1967) • Mio marito (1968) • Memorie di una ladra (1973) • Donna in guerra (1975) • Storia di Piera (1980) • Il treno per Helsinki (1984) • Isolina (1985). Vencedor do Prêmio Fregene (1985). Foi traduzido em cinco países. • La lunga vita di Marianna Ucrìa (1990). Livro ganhador do Prêmio Supercampiello (1990) e O Livro do Ano de 1990. Foi traduzido em dezoito países e inspirou o filme Marianna Ucrìa de Roberto Faenza. • Voci (1994). Ganhador do prêmio Napole (1995) e Sibilla Aleramo (1995). Encontra-se traduzido em dez países. • Dolce per sè (1997). Ganhador do Prêmio Vitaliano Brancati-Zafferana Etnea (1997) e Internacional pela narrativa Flaianno-Telecom Itália (1997). Está traduzido em três países. 22 • La pecora Dolly (2001), livro de fábulas. • Colomba (2004) • Un sonno senza sogni. Gita in bicicletta a Mongerbino (2006), contos • Il gioco dell’universo (2007), romance • Il treno dell’ultima notte (2008), romance • La ragazza di via Maqueda (2009), romance b) Textos teatrais: • Ricatto a teatro e altre commedie (1970) • Maria Stuarda (1975). Representado em vinte e dois países. • Dialogo di una prostituta con un suo cliente (1978). Representado em vinte países. • Stravaganza (1987). Representado em quatro países. • Veronica, meretrice e scrittora (1991). • Camille (1995) c) Poesias: • Donne mie (1974) • Mangiami pure (1979) • Viaggiando con passo di Volpe (1991). Prêmio Cidade de Penne, 1992. • Storia di Pietra (1980). Escrito com a colaboração de Pietra Degli Sposti. Foi traduzido em dois países. • Il bambino Alberto (1986). Traduzido em dois países. • La bionda, la Bruna e l’asino (1987). • Bagheria (1993). Recebeu os prêmios: Rapallo-Carrige (1993), Scanno (1993). Foi finalista no Prêmio Strega (1993), Joppolo (1994). Está traduzido em cinco países. 23 • Cercando Ema (1993). Traduzido em dois países. • E tu chi eri? (1998) • Se amando troppo (1998) • Buio (1999). Vencedor do Prêmio Strega. c) Ensaios, Memórias e Entrevistas: • Un clandestino a bordo (1996). Traduzido em três países. • Amata scrittura (2000), sobre a participação da atriz como entrevistadora de programa televisivo. • La neve per Kobe (2001), sobre a viagem feita pela família Maraini até chegar ao Japão. • Piera e gli assassini (2003), entrevista • I giorni di Antigone – Quaderno di cinque anni (2006), ensaios d) Sobre a autora Studi sull’opera di Dacia Maraini / Org. Juan Carlos de Miguel y Canuto. Roma: Giulio Perrone editore, 2010 Dacia Maraini. Ho sognato una stazione. Conversazione con Paolo di Paolo. Roma: GLF Laterza, 2005 Maria Antonietta Cruciata. Dacia Maraini. Fiesole: Cadmo, 2003 Sumeli Weinberg, M. Grazia. Invito alla lettura di Dacia Maraini. Pretoria (ZA): UNISA press (University of South Africa), 1993 Da farta produção de Dacia maraini, como já foi dito na introdução deste trabalho, no segundo capítulo examinaremos os contos do livro Mio marito, propondo, antes, uma breve reflexão sobre o gênero narrativo escolhido pela autora. 24 CAPÍTULO II MIO MARITO: REPRESENTAÇÕES DO FEMININO Neste capítulo, examinaremos detalhadamente os doze contos do livro Mio marito, na sequência de um breve aceno ao gênero escolhido para nossa leitura, conto. Super-homem, a canção Gilberto Gil Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria Que o mundo masculino tudo me daria Do que eu quisesse ter Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara É a porção melhor que trago em mim agora É o que me faz viver Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera Ser o verão no apogeu da primavera E só por ela ser Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória Mudando como um Deus o curso da história Por causa da mulher Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória Mudando como um deus o curso da história Por causa da mulher (Disco: Realce, 1979) 2.1 A escolha do gênero: Conto O conto é um gênero do modo narrativo, assim como o romance, a novela ou a epopéia, informa-nos Carlos Reis (2000, p.79). Ou seja, possui uma configuração material de relato pouco extenso. E devido a essa limitação extensiva, esse gênero possui um esquema temporal restrito, uma ação simples ou, pelo menos, poucas ações separadas, em uma unidade de técnica e de tom. 25 O conto é caracterizado como uma semionarrativa; enraíza-se em tradições culturais que faziam do ritual do relato um fator de sedução e de aglutinação comunitária. Segundo A. Jolles (1972), conto é uma forma simples, isto é, esteve originalmente ligado a situações narrativas elementares, nas quais o narrador, na atmosfera quase mágica instaurada pela expressão “Era uma vez...”, suscitava no auditório fisicamente presente o interesse por ações relatadas em um único ato de narração e que, não raro, tinham, para além dessa função lúdica, uma função moralizante (conto popular). Logo, o conto literário acabou por herdar alguns aspectos dessas dominantes pragmáticas. Essas razões socioculturais são remotamente responsáveis em certa subalternização que pode afetar o conto, em confronto com o romance. A ação, a personagem e o tempo são as categorias da narrativa mais afetadas pela reduzida extensão do conto: a ação baseia-se na concentração, na linearidade e consegue seduzir mais intensamente o receptor quando existe uma intriga com um mistério a resolver; a personagem tende a ser um elemento estático, pouco complexa, identificando-se, eventualmente, com a categoria do tipo, podendo mesmo fundir-se com o espaço; finalmente, o tempo é que baliza o percurso das personagens na ação do conto. Mas, dificilmente o conto concretiza uma representação que privilegie uma duração temporal moldada pelas sinuosas elucubrações patenteadas pela vida psicológica romanesca. O conto popular, assim como no conto literário, se caracteriza por narrativas breves, que põem em cena um número reduzido de personagens escassamente caracterizadas. Não possui suas raízes no mundo letrado da cultura “consagrada”, oficialmente reconhecida, mas nas camadas não hegemônicas da população. Fazem parte da literatura tradicional de transmissão juntamente com os provérbios, as adivinhas, as canções e os jogos de palavras. Ou seja, circulam ordenadamente de geração a geração, assegurando a manutenção. Sem suporte material de fixação (escrita x oralidade), o conto popular é promovido à existência na e pela oralidade. Persiste no tempo, evidenciando de forma clara que a pervivência de um determinado capital cultural não passa inevitavelmente pelo percurso a um código grafemático. Ou seja, não se estrutura 26 apenas em função do código linguístico: institui-se, de fato, na e pela interação de um conjunto de códigos que estão ausentes de construção do conto escrito de intenção e prática literária. Logo, o tipo de comunicação instituída pelo conto popular baseia-se nessa interação entre o código linguístico e os códigos paralelos. Uma comunicação que pressupõe a copresença das instâncias emissora e receptora e a utilização de um canal natural. O estatuto do emissor é bem mais complexo que o do conto literário escrito, na medida em que essas narrativas são discursos anônimos, legitimados pela comunidade em que circulam. De acordo com Jakobson, tal como a língua, também os contos constituem um “tesouro coletivo” armazenado na mente dos membros de uma comunidade. O conto popular cobre um vasto número de narrativas bastante diversificadas do ponto de vista temático: contos de animais, contos religiosos, contos etiológicos, facécias, dentre outros. Do ponto de vista histórico, constituem resíduos de crença e mitos primitivos que se foram progressivamente adaptando a novos cenários culturais. Manifesta certos traços no que diz respeito às personagens e ao plano enunciativo. Quanto às personagens, impera a regra do anonimato. No plano enunciativo, é de referir a recorrência a fórmulas introdutórias, do tipo “era uma vez...”, que situam o conto em um passado indefinido e permanentemente reatualizado. Enfim, essa localização temporal indeterminada, para além de assinalar uma “entrada” no mundo ficcional, permite a generalização de situações acentuando a natureza paradigmática dos eventos narrados. A personagem é o eixo em torno do qual gira a ação, é uma unidade difusa de significação, construída progressivamente pela narrativa; é constituída pela soma de informações facultadas sobre o que ela é e sobre o que ela faz. Assim, aponta-se para uma concepção da personagem como signo, o mesmo que se sublinha o teor dinâmico que de um ponto de vista modal à narrativa, ou seja, entender a personagem como signo corresponde a acentuar a sua condição de unidade discreta, suscetível de delimitação no plano sintagmático e de integração numa rede de relações paradigmáticas. Dessa forma, existem alguns processos que permitem localizar e identificar a personagem: o nome próprio, a caracterização, o discurso. 27 Tais processos conduzem à apresentação de sentidos fundamentais capazes de configurarem uma semântica da personagem (REIS, 2000, 314-16). Logo, pode-se falar em léxico de personagens que muitas vezes contemplam prioritariamente as características psicológicas, sociais e culturais da personagem analisada com o lugar de concentração de sentidos suscetíveis de abstração típica. Enquanto signo narrativo, a personagem é sujeita a procedimentos de estruturação que determinam a sua funcionalidade e peso específico na economia do relato. Ou seja, a personagem define-se em termos de relevo: protagonista (o herói), personagem secundário ou mero figurante: a relevância do personagem depende da força da sua intervenção na ação. A personagem pode relevar também certa composição, podendo ser caracterizada como redonda ou plana. Essa composição também é indissociável da intervenção na ação, da densidade psicológica, da ilustração do espaço social. As potencialidades semionarrativas da personagem definem-se também em função das suas ligações com o narrador e das potencialidades de representação ideológica da narrativa. Ou seja, perante o perfil ideológico-cultural, o narrador pronuncia-se frequentemente em termos muitos variados: afastamento, solidariedade, reserva discreta, crítica violenta, por exemplo. Daí, a importância da personagem, não só enquanto entidade funcionalmente indispensável para a concretização do processo narrativo, como suporte da ação que normalmente é, mas, sobretudo, como lugar de afirmação ideológica (Id, ib). O discurso das personagens aparece sempre inserido no discurso do narrador, pois é o narrador a entidade responsável pela organização e modalização do universo diegético. Genette distingue três modos de representação dos discursos das personagens (récit de paroles) tendo como base o grau de mimesis que preside a sua reprodução: a- o discurso citado, que consiste na reprodução fiel em discurso direto das palavras supostamente pronunciadas pela personagem. Constitui a forma mais mimética da representação; b- o discurso transposto, quando o narrador transmite o que disse a personagem sem, no entanto, lhe conceder uma voz autônoma. É a utilização do discurso indireto; c- o discurso narrativizado, quando as palavras das personagens aparecem como um evento diegético entre outros. 28 A voz das personagens é frequentemente veiculada através do discurso direto e do discurso indireto. No discurso direto, a personagem assume o estatuto de sujeito da enunciação. Esse tipo de discurso pode ser introduzido por um verbo dicendi ou sentiendi , ou ser assinalado por indicadores grafêmicos adequados como dois pontos, aspas ou travessão. Nesse tipo de discurso, encontram-se todas as marcas características do modo de enunciação experimental ou discursiva (enunciação): primeira pessoa, expressões adverbiais deíticas, localização temporal dos eventos em função do agora da enunciação da personagem. Ou seja, dispensam qualquer tipo de marca introdutória. O discurso direto comporta muitas vezes traços idioletais, socioletais, dialetais que contribuem para a caracterização das próprias personagens que o sustentam. Já no discurso indireto o narrador seleciona, resume e interpreta a fala ou os pensamentos das personagens. É a forma menos mimética de reprodução do discurso das personagens. Ocorre uma série de conversões em nível dos tempos verbais, da categoria linguística de pessoas das elocuções adverbiais de tempo e lugar. Enfim, introduz-se a voz da personagem na narração mediante uma forte subordinação sintático-semântica que dá origem a um relato essencialmente informativo, mediatizado, sem a feição teatral e atualizadora do discurso direto. O discurso indireto é um discurso híbrido em que a voz da personagem penetra a estrutura formal do discurso do narrador, como se ambos falassem em uníssimo.Daí, o surgimento de uma voz dual. Ou seja, a terceira pessoa e os tempos da narração coexistem lado a lado com os dêiticos, as interrogações diretas, os traços interjetivos e expressivos, a ausência de reação. Conforme declara Dorrit Cohn, o discurso indireto livre é um discurso suspenso entre o imediatismo da ação e a mediação operada pela narrativa. Logo, este tipo de discurso permite representar os pensamentos da personagem sem que o narrador abdique do seu estatuto de mediador. É, pois, um processo suscetível de incorporar no fluxo narrativo o realismo subjetivo que pode reger a representação do mundo interior da personagem. Qualquer texto narrativo se constrói em termos de concatenação e alternância de discursos do narrador e discursos das personagens. 29 As personagens podem ser caracterizadas como: plana, quando é acentuadamente estática, reincide nos mesmos gestos e comportamentos, enuncia discursos que pouco variam, repete “tiques”, como é o caso da personagem Marcella, a narradora do primeiro conto a ser examinado, que dá título ao livro, Mio marito; redondas, são as personagens que se revestem de complexidade para constituir uma personalidade bem vincada. É uma entidade que quase sempre se beneficia do relevo que a sua peculiaridade justifica. Tal personagem é ao mesmo tempo submetida a uma caracterização relativamente elaborada e não definitiva. Os principais fatores determinantes da sua configuração são a condição de imprevisibilidade, a revelação gradual de seus traumas, vacilações e obsessões. É redonda, por exemplo, a personagem-narradora do conto “L’altra famiglia”, que surpreende de forma convincente. Retomando: o termo conto pode ser empregado com três diferentes significados: para designar qualquer tipo de história centrada sobre uma ou mais personagens, narrada de forma oral ou escrita, em versos ou em prosa, corresponde a texto narrativo, em oposição a texto poético; pode ser utilizado, também, para indicar o enredo ou a trama de uma narração, distinguindo-o de fábula; e, por fim, pode significar o termo que designa um gênero narrativo específico, que é a narração breve, em prosa, centrada sobre um acontecimento particular e com um número limitado de personagens. É essa última acepção, em que o termo se aproxima e muitas vezes é utilizado como sinônimo de novela, que se aplica à narrativa de Dacia Maraini. “A definição do conceito de novela, bem como a análise das dominantes que a caracterizam, são, talvez mais do que em qualquer outro caso, dificultadas pela fluidez semântica que afeta o termo em causa”, explica-nos Carlos Reis (2000, 302). Essa fluidez é atestada pelas diferentes acepções que em diversas línguas se manifestam. Em português, italiano, francês e alemão, por exemplo, os termos remetem para o mesmo conceito; em espanhol e inglês não se verifica o mesmo, pois os termos correlatos (novela e novel) designam romance, existindo “expressões de circunstância ou importadas (novela corta em espanhol; novella em inglês, 30 também, com menor precisão, short-story)“. (REIS, 2000, 302. O grifo é do autor) A novela, na tradição ocidental, configura-se como gênero literário durante a Idade Média, quando começam a se organizar histórias fantásticas da vida cotidiana ou casos curiosos, conforme o argumento. Assim, a novela se distingue da fábula ou de outros tipos de histórias como uma narração mais articulada e complexa, girando em torno de um único acontecimento, verossímil ou imaginário, e com poucas personagens. Somente durante o século XVIII, difundem-se narrações de caráter alegórico e filosófico-moral, que não são mais organizadas em uma moldura, mas, reunidas sem obedecer a nenhuma ordem específica, passando, assim, a ser chamadas de conto. O termo também predominará no século XX, embora alguns escritores italianos, como Pirandello, optem pelo termo novela, ou brasileiros como Guimarães Rosa prefiram histórias. Existem os contos longos, que são considerados romances breves, pois apresentam episódios independentes uns dos outros. Conto é um termo característico dos Novecentos para narrar episódios curtos, enquanto o termo novela apresenta uma conotação ainda clássica. Ao tratarmos do conto literário e da novela, não podemos deixar de citar Giovanni Boccaccio (1313-1375), que foi um dos maiores mestres do gênero. Em sua obra Decameron codificou o novo gênero literário, introduzindo na narrativa uma “moldura”, uma estrutura temporal bem definida para o desenvolvimento das ações. Explicando melhor: na novela introdutória, que funciona como “moldura” (racconto cornice) tem-se a descrição da peste havida em 1348 e do consequente clima de catástrofe e luto. Essa “moldura” não somente introduz as novelas, mas também explica o porquê de dez jovens decidirem passar dez dias isolados, usufruindo das histórias que contam. O Decameron impõe um modelo de narração breve inserida em uma narrativa maior. Esse modelo de novela se tornou uma referência obrigatória para os escritores que adotaram o gênero, como é o caso de Giovanni Verga, Luigi Pirandello, Grazia Deledda, Dino Buzzati, Elsa Morante, Antonio Tabucchi, para citar alguns renomados autores italianos, e da nossa autora. 31 Conforme indicamos no capítulo anterior, Dacia Maraini é uma autora profícua, de uma vasta e importante obra poética, ganhadora de diversos prêmios. Nossa opção pelo estudo de Mio marito deve-se ao fato de que, quando realizamos a leitura do livro, ainda no curso de especialização, ficamos encantados pela unidade atribuída aos contos, todos abordando importantes questões pertinentes ao universo feminino, formando uma única “moldura” com diferentes rostos de mulher. Assim como no Decameron Boccaccio constrói uma galeria com diferentes personagens da Idade Média, Dacia Maraini procura e consegue retratar em Mio marito doze diferentes tipos de mulher italiana da primeira metade do Século XX (mas não só), compondo aquilo que chamamos de afresco que, a seguir será apresentado. 2.2 Mulheres de Mio marito Em Mio marito, obra que constitui o corpus desta pesquisa, Dacia Maraini apresenta doze diferentes personagens femininas, uma em cada conto, o que nos estimula a afirmar que a autora compõe uma espécie de afresco com representações de mulheres italianas. A palavra “afresco” nos remete ao campo das artes plásticas (etimologia italiana fresco - dipingere a fresco, “técnica de pintura mural executada sobre o reboco fresco com cores diluídas em água pura”) e sinaliza o objetivo principal de nossa pesquisa: análise das representações do feminino através das doze personagens apresentadas no livro de contos referido no parágrafo supra. Publicado em 1968, “O ano que não terminou”4 segundo Zuenir Ventura, o ano do “proibido proibir” e de fatos que ainda repercutem na realidade contemporânea, o livro em estudo apresenta, dentre outras, a questão da repressão 4 Título do livro escrito por Zuenir Ventura (1989), que retrata os fatos que marcaram o conturbado ano de 1968, no Brasil e no mundo. 32 das e às mulheres, apesar da propalada emancipação feminina. Em cada conto, a autora-modelo5 dá voz a uma personagem-protagonista feminina: encontram-se, assim, representações de mulheres com baixa autoestima, reprimidas pela sociedade à qual pertencem, alienadas da realidade circundante, com pouca capacidade de percepção do mundo, como é o caso de Marcella – a narradora do conto que dá título ao livro –, que aceita e justifica tudo o que seu marido diz ou faz; ou, no extremo oposto, mulheres como Elda, com um comportamento semelhante ao de muitos homens: mantém duas famílias, uma em Roma e outra em Milão. Essas personagens femininas são compostas a partir de uma descrição plástica e minuciosa, de sua aparência física e/ ou sua postura diante da vida doméstica, principalmente. E, examinando a postura que cada uma delas assume no ambiente em que vive e atua, com seus respectivos maridos, companheiro(a)s, filhos, namorados ou colegas de trabalho, tentaremos montar um painel com as diferentes representações do feminino sugeridas na obra de Dacia Maraini. São doze os contos que compõem o livro Mio marito: “Mio marito” (Meu marido); “Il letargo” (A letargia); “Madre e figlio” (Mãe e filho); “L’altra famiglia” (A outra família); “Il quaderno rosso” (O caderno vermelho); “Il dolore sciupa” (A dor desgasta); “Le lenzuola di Lino” (Os lençóis de linho); “Marco”; “Diario coniugale” (Diário conjugal); “L’albero di Platone” (A árvore de Platão); “Maria”; “Le mani” (As mãos). Todos são escritos em primeira pessoa, tendo sempre como protagonista uma mulher, por vezes anônima, em geral jovem. As mulheres pertencem a classes sociais diversas, e, quase sempre, são marcadas pela mesma angústia existencial, decorrente da luta pela independência material e, principalmente, emocional. Os contos de Dacia Maraini são implacáveis, trazem ao leitor retratos impiedosos, frequentemente cruéis, da condição feminina italiana, e, por extensão de todo o Ocidente, como, a seguir, poder-se-á comprovar. 5 Aqui usamos o termo cristalizado por Umberto Eco em seu livro Sei passeggiate nei boschi narrativi (2007). 33 Não pretendemos empreender um estudo sociológico da condição feminina na Itália, que fugiria ao objetivo deste trabalho, mas, sim, apontar como a escritora Dacia Maraini representa a figura da mulher em sua obra. Aproximemo-nos, então, desses doze contos e ouçamos o que suas narradoras nos têm a revelar. 2.2.1 “Mio marito”: o olhar míope de Marcella No primeiro dos doze contos, aquele que dá título ao livro em exame – “Mio marito” (Meu marido) –, é a voz de Marcella que se faz ouvir. A narradora é representada como uma mulher cuja vida se resume à de seu marido; sua narrativa nos permite compor o “retrato falado” dele, Mario. Ela o descreve fisicamente, enumerará suas virtudes e, ainda, trata do relacionamento dele com os colegas e com ela própria. Assim, se torna possível traçar um perfil da personagem masculina e, principalmente, de Marcella, que demonstra idolatrar o belo marido. Sob seu ponto de vista, Mario veste-se com esmero e é bem-sucedido profissionalmente. Assim ela o descreve: Mio marito è biondo, ha la fronte stempiata, denti freschi, la pelle chiara macchiata di lentigini grosse e brune. Mio marito è un uomo elegante, veste con cura, e ha la testa sempre profumata di sapone alla colonia. Mio marito lavora in una banca, fa il cassiere e guadagna centoventimila lire al mese.” (MM, p. 5)6 Mario tem ascendência sobre Marcella, que o respeita e admira: Quando mio marito parla, io lo ascolto attentamente. La sua voce è velata, opaca, leggermente di testa. Le cose che dice sono sempre 6 Meu marido é louro, tem entradas na testa, dentes sãos, a pele clara salpicada de saradas grandes e escuras. Meu marido é um homem elegante, veste-se com cuidado e tem a cabeça sempre cheirando a sabonete de água de colônia. Meu marido trabalha num banco e ganha cento e vinte mil liras ao mês.” (MM, p. 21) 34 molto precise e giuste. Non gli ho mai sentito dire niente di anormale e di sbagliato. (MM, p. 5)7 Apesar de ela afirmar que nunca o havia visto cometer erros, a sequência de sua louvação ao marido, paulatinamente, revela seu verdadeiro caráter, doentio e abominável. A narradora informa que Mario colecionava selos e dinheiro, hobby que ela valorizava sem questionar a forma como, muitas vezes, ele conseguia obter as peças para sua coleção: Mio marito fa collezione di francobolli. Qualche volta ruba la posta dei vicini per ritagliarvi i francobolli per la sua collezione. Possiede due album grossi come elenchi del telefono, pieni zeppi di francobolli preziosi. Dice che un giorno venderà i suoi francobolli e coi soldi ci faremo una casa in campagna. Oltre ai francobolli, mio marito tiene in quei suoi album dei biglietti nuovi, appena stampati dalla zecca. Dice che il primo biglietto di una nuova serie porta fortuna. Perciò li sottrae di nascosto dalla cassa, li infila dentro le bustine di carta trasparente azzurrina e quindi li incolla con una linguetta di gomma alle pagine dell’album. (MM, p. 6)8 Também, sob o ponto de vista da narradora, Mario tinha sempre palavras precisas e justas; era amado pelos amigos, que o consideravam inteligente, e o procuravam para pedir conselhos e/ ou se confessarem. Mio marito è amato dagli amici, stimato dai superiori. Quando vuole sa anche essere un uomo di mondo. Si siede in mezzo a un circolo di gente e chiacchiera, discute. Difende la verità, modera la foga degli amici, sempre ispirandosi a un perfetto buon senso. (MM, p. 5) Este “bom senso”, como se poderá observar mais adiante, sempre era revestido de crueldade, assim como cruéis eram as “brincadeiras” que fazia com a mulher, que, no entanto, o considerava espirituoso e bem-humorado. 7 Quando meu marido fala, o escuto atentamente. Sua voz é velada, opaca, levemente aguda. As coisas que ele diz são sempre muito precisas e justas. Nunca o ouvi dizer algo de anormal ou de errado. (Tradução da autora) 8 Meu marido coleciona selos. Às vezes rouba a correspondência dos vizinhos para recortar os selos para a sua coleção. Possui dois álbuns tão grandes como um catálogo telefônico, abarrotados de selos preciosos. Diz que um dia venderá os seus selos e, com o dinheiro, construiremos uma casa de campo. (Tradução da autora) 35 Segundo a narradora, Mario era um gozador. Às vezes, a fazia encontrar um sapo na cama; outras vezes, colocava geleia em seus chinelos: “Una volta ha perfino servito a tavola un dolce fatto da lui con dentro un topo morto.” (MM, p. 6)9 Considerava-o muito sábio, dotado de um perfeito bom senso, uma pessoa que sabia argumentar de forma tão precisa e bela que até ela própria, a esposa, se encantava. Sobre o poder de persuasão do marido, conta como ele conseguira convencer um colega a aceitar a traição da esposa com o diretor do banco em que trabalhava. Tal colega, como todos os que pediam conselhos a Mario, fora à casa da narradora, onde o marido fazia seus “atendimentos”, na sala em penumbra, preferencialmente aos domingos. O homem mostrava-se ansioso, confessando que não conseguia dormir e comer por causa de seu problema: sua mulher o estava traindo com o diretor do banco, ou seja, com seu superior. Se reagisse, poderia perder seu emprego. Mario, depois de longa conversa com o colega de trabalho, conseguiu convencê-lo de que o diretor, o amante da mulher, era um anjo. Mais: que ela se tornaria uma pessoa melhor, por ter a oportunidade de conviver com um ser angelical. E perguntava ao companheiro de trabalho se, de fato, havia razão para ele se martirizar com essa traição? “Può un angelo essere accusato di immischiarsi nelle cose umane?” “No. Ma se non fosse veramente un angelo?” “Come, dopo tanti giorni di cura, e dopo avere tanto parlato di lui e delle sue qualità che sono tutt’altro che umane... Credevo che tu ne fossi convinto.” “Io sí. Ma qualche volta mi viene il dubbio...” “I dubbi appartengono ai deboli. L’uomo forte non ha dubbi. L’uomo forte agisce in armonia con se stesso; il suo cuore, la sua testa, il suo fegato, persino gli instestini devono essere in armonia col suo agire. Sei convinto di questo?” “Credo di sí.” [...] “Lui forse è un angelo. Ma mia moglie non lo è affatto.” “Tua moglie non è un angelo. Ma la sua frequentazione con un angelo non può che renderla migliore, piú pura e armoniosa.” 9 Certa vez ele até me serviu um doce feito por ele com um rato morto dentro. (MM, p. 21) 36 “Mia moglie non è armoniosa.” “Tua moglie non è armoniosa, ma potrebbe diventarlo. Vicino ad un uomo armonioso, la sua natura perderà quei carattere di goffezza morale e intellettuale che le sono propri. Piano piano si libereà delle sue debolezze e tu stesso poi stenterai a riconoscerla. Sarà un’altra.” (MM, p.8)10 Mas, a “bondade” de Mario não se ilustra somente com esse episódio. Generosa e desinteressadamente, ele também ajudara um outro colega de trabalho, que vivia em grande angústia, a se matar, empurrando-o do alto de um prédio em construção. Esse colega ia à casa da narradora todos os dias, sentava-se na sala escura e ali ficava até a noite, fumando um cigarro atrás do outro. Não tinha qualquer doença física, não era pobre e nem angustiado como as demais pessoas que procuravam pelos conselhos de Mario; tinha tédio, sentia-se cansado de viver, mas não sabia como dar termo à vida. Mio marito cominciava a soffrire per il caso del suo amico che non riusciva ad uccidersi. Era diventato nervoso. Forse perché dubitava del suo potere. La notte si girava nel letto senza riuscire ad addormentarsi. (MM, p.12)11 10 “Pode um anjo ser acusado de se meter nas coisas humanas?” “Não”. Mas se não fosse realmente um anjo?” “Como, depois de tantos dias de tratamento, depois de ter falado dele e de suas qualidades que absolutamente não são humanas. Eu acreditava que você estivesse convencido.” “Estou. Mas às vezes tenho dúvidas.” “As dúvidas pertencem aos fracos. O homem forte não tem dúvidas. O homem forte age em harmonia consigo mesmo; seu coração, sua cabeça, seu fígado, até seus intestinos devem estar em harmonia com os seus atos. Está convencido disso?” “Acho que sim.” [...] “Ele pode ser um anjo, mas minha mulher, com certeza, não é.” “Sua mulher não é um anjo. Entretanto sua convivência com um anjo só pode torná-la melhor, mais pura e harmoniosa.” “Minha mulher não é harmoniosa.” “Sua mulher não é harmoniosa, mas poderia vir a sê-lo.Junto a um homem harmonioso, sua natureza perderá aquelas características de acanhamento moral e intelectual que lhe são peculiares. Aos poucos se libertará de suas fraquezas e você mesmo terá dificuldades para reconhecê-la. Ela será outra pessoa.” (MM, p. 23-4) 11 Meu marido começava a sofrer por causa de seu amigo que não conseguia se suicidar. Tinha ficado nervoso. Talvez porque duvidasse do seu poder. À noite, na cama, ele se mexia de um lado para outro sem conseguir dormir. (MM, p. 27) 37 Certo dia, Mario e seu colega entediado da vida saíram juntos. Marcella esperou, em vão, o marido chegar para o jantar, pois ele só voltou para casa, e sozinho, bem depois da meia-noite. Ao retornar, contou à narradora que o colega se matara. “Come è successo”, ela perguntou-lhe. Placidamente, ele relatou o ocorrido: após zanzarem pela cidade, subiram em um prédio em construção e se sentaram em uma das paredes erguida pela metade; fumaram durante umas três horas, aproximadamente, em silêncio. Num dado momento, enquanto olhava fascinado para o abismo que tinham a seus pés, Mario fez uma pergunta escabrosa ao colega: “Non vorresti buttarti giú?” Gli ho chiesto. “Vorrei ma non posso”. “Perché?” gli dico. “Perché io stesso non posso fare male a me stesso. È innaturale.” “E allora cosa vorresti?” “Mi dai una spinta?” dice. (MM, 13)12 E Mario deu o empurrão. Ainda, com suas “sábias” palavras, convenceu um outro colega cleptomaníaco a cortar a própria mão, alegando que se a mão do rapaz não conseguia obedecer ao comando do seu cérebro, seria melhor cortá-la. Assim, o rapaz observaria o preceito bíblico. Na opinião da narradora, nada era mais belo do que a expressão de felicidade estampada no rosto de Mario, a expressão de um homem que tinha cumprido o seu dever, quando conseguia convencer um colega. A personagem Marcella, como se observa, coloca o marido em um pedestal e não consegue (ou não quer?) enxergar o comportamento duvidoso e, por vezes, inescrupuloso, que Mario demonstra possuir. Seria possível afirmar que, assim como a narradora anônima do conto “Il letargo”, que será apresentado a seguir, Marcella não quer acordar para a realidade: além de ser maltratada pelo marido, com suas brincadeiras de péssimo gosto, considera normais as inúmeras atrocidades cometidas por ele. A letargia está em seu olhar míope. A personagem representa um tipo de mulher cuja realidade se circunscreve ao ambiente doméstico e que, para 12 “Você não gostaria de se jogar?” perguntei. “Gostaria, mas não posso.” “Por quê?”, pergunto. “Por que eu não posso prejudicar a mim mesmo. Não é natural.” “E então”, digo, “o que você quer?” “Você me dá um empurrão?”, ele diz. (MM, p. 27-8) 38 fugir a essa realidade, prefere permanecer anestesiada, ausente da sociedade, sem voz audível. Como se pode constatar com a leitura do conto, a personagem Marcella jamais se rebela e, ademais, aceita e justifica todos os feitos de seu marido, que revelam seu terrível caráter, além de sua crueldade e cinismo. Ou seja, ela é a caricatura daquela voz feminina que ainda se encontrava impedida de se expressar fora do ambiente doméstico: uma pessoa submissa e subserviente. Enfim, uma ironia com relação a um casal que vivia de aparências. Por trás daquele homem, que parecia ser honesto, trabalhador, admirado pelos amigos e ótimo conselheiro vivia um ladrão de banco, um homem cruel, perverso e completamente fora da realidade. A caracterização da personagem Marcella espelha-se em algumas mulheres da vida real. Quanto a esse espelhamento, recorremos a Antonio Candido que afirma, em seu texto “A personagem do romance”, que quando se fala em cópia do real, não se deve ter em mente uma personagem que seja igual a um ser vivo, pois seria a negação do romance e, no caso, acrescentamos nós, também do conto. Personagem é um ser fictício, inventado a partir de um trabalho de tipo especial sobre a realidade. É o caso de Dacia Maraini (aqui nos ancoramos em Antonio Candido, ao tratar das personagens criadas por Mauriac), pois em seus contos a realidade é apenas um dado inicial, servindo para concretizar virtualidades imaginadas. Na sua obra, a de Mauriac, afirma Candido, há uma relação inversamente proporcional entre a fidelidade ao real e o grau de elaboração. As personagens secundárias, estas são copiadas de seres existentes. Daí, ao afirmarmos que Marcella seria uma caricatura da voz feminina – aquela que ainda se encontrava / encontra sem expressão fora do ambiente doméstico –, poderíamos classificá-la como a personagem inventada a partir de um trabalho especial sobre a realidade que, até bem pouco tempo antes da publicação do livro, talvez se pudesse encontrar em algumas mulheres da vida real. Não espanta, portanto, que a personagem pareça o que há de mais vivo no romance; e que a leitura deste dependa basicamente da aceitação da verdade da personagem por parte do leitor. Tanto assim, 39 que nós perdoamos os mais graves defeitos de enredo e de idéia aos grandes criadores de personagens. Isto nos leva ao erro, frequentemente repetido em crítica, de pensar que o essencial do romance é a personagem como se pudesse existir separada das outras realidades que encarna, que ela vive, que lhe dão vida. Feita esta ressalva, todavia, pode-se dizer que é o elemento mais atuante, mais comunicativo da arte novelística moderna, como se configurou nos séculos XVIII, XIX e começo do XX; mas que só adquire pleno significado no contexto, e que, portanto, no fim de contas a construção estrutural é a maior responsável pela força e eficácia de um romance. (CANDIDO, p. 54- 5). Uma outra perspectiva sob a qual também se pode avaliar a personagem Marcella, além daquela da mulher subserviente, submissa e que tanto idolatra o marido, é a do desequilíbrio mental. Ao compactuar com os atos insensatos do marido, a personagem demonstra ser tão desequilibrada quanto ele. Sentia-se feliz em ver era a expressão de contentamento de Mario, como de quem cumprira o seu dever: “La cosa pìu bella da vedersi sarà la faccia di Mario, pulita e felice; la faccia di un uomo che ha compiuto il proprio dovere.” (MM, p15).13 A autora empírica constrói uma narrativa de estrutura paratática, com frases simples, léxico pouco rebuscado e repetitivo, na tentativa de reproduzir o pensamento da narradora, limitado, sem ilustração. É possível analisar a personalidade de Marcella de duas formas: classificandoa como uma mulher subserviente, submissa, que idolatra seu marido; considerandoa perversa e louca. A personagem vivia para o marido e nada via de errado nem de anormal em sua conduta. Representava um tipo de esposa que já não condizia com a realidade feminina da época em que o livro foi publicado, no ápice do movimento feminista. Em um tempo em que muitas mulheres já começavam a dar sinais de que queriam se libertar do estigma de uma sociedade machista. Marcella vive a vida de Mario, e ausenta-se da realidade. O tema da fuga à realidade será retomado e explicitado com a leitura do próximo conto a ser analisado, “Il letargo”. 13 A coisa mais bonita de se ver será o rosto de Mario, limpo e feliz; o rosto de um homem que cumpriu o seu dever. (tradução da autora) 40 2.2.2 “Il letargo”: para fugir à solidão O segundo conto, “Il letargo” (A letargia), é narrado em primeira pessoa, por uma personagem, que se comparava a um “caracol sem concha” e se mostrava com estrutura emocional frágil. Fino a pochi mesi fa mi paragonavo a una lumaca senza guscio. Infatti io striciavo sulle cose, ferendomi ad ogni movimento, senza riuscire a sollevarmi su di esse. Della lumaca senza guscio avevo i movimenti lenti e orizzontali, il corpo allungato e goffo, inepressivo. [...] In piú ero come scorticata. Quello che striciava urtava e si intrideva delle cose, non era un corpo ben levigato e scivoloso, ma un corpo senza pelle, dalla carne scoperta e dolorante. Per questo io soffrivo e mi aggiravo ciecamente e ottusamente alla ricerca di un riparo senza mai trovarlo.14 (MM, p. 17) O trecho supracitado revela o perfil psicológico da personagem protagonista, traçado por ela mesma: uma pessoa lenta, apática e frágil. Ou seja, trata-se de uma mulher sem expressão, sem desejo manifesto, que nem sentia apetite (não comia) e vivia mais “hipnotizada” que desperta, num constante estado de letargia. Esse estado de letargia da personagem-narradora teve início com o falecimento de seus pais, com os quais vivia. Em sua opinião, somente após a morte dos genitores, que ocorreu quase simultaneamente, ela começou a viver: “Si può dire che ho imparato a vivere proprio nel momento in cui loro morivano”.15 (MM, p. 17). Na verdade, apenas passou a viver sozinha. À beira do leito de morte da mãe, que agonizava, teve uma experiência que lhe foi reveladora. Enquanto velava a moribunda, inesperadamente, começou a sentir que a extrema tensão e o terror que sentia com o que lhe estava acontecendo a 14 “Até poucos meses atrás eu me comparava com um caracol sem casa. De fato eu deslizava sobre as coisas e me feria a cada movimento, sem conseguir me erguer sobre elas. Do caracol sem casca eu tinha os movimentos lentos e horizontais, o corpo alongado e desajeitado, inexpressivo”. [...] “E mais, parecia esfolada. O que deslizava e batia e se amassava nas coisas não era um corpo liso e escorregadio, mas um corpo sem pele, com a carne exposta e dolorida. Por isso eu sofria e vagueava às cegas e procurava obtusamente um abrigo sem nunca encontrá-lo”. (MM, p. 31) 15 “Pode-se dizer que aprendi a viver no exato momento em que eles morriam.” (MM, p. 31) 41 hipnotizavam. Olhando fixamente uma ponta do lençol, se adormentou: “Il mio corpo non dormiva, e neanche la mia mente che continuava a lavorare lentamente e circolarmente come se digerisse cibi pesanti e grassi. Ma i miei occhi dormivano e con loro i miei sensi”.16 (MM, p.18) A narradora diz que permanecera nesse estado, imóvel, por aproximadamente duas horas e que, quando voltou a si, sentiu-se descansada e aliviada. Enquanto dormia, sua mãe falecera. A partir de então, procurou praticar essa modalidade de ausentar-se da realidade: “Da principio è stato difficile, perché non riuscivo a raggiungere quello stato di tensione e di nausea che mi permettevano di dormire da sveglia. Ma dopo lunghi esercizi e faticose prove, sono arrivata quasi a dominare il mio corpo”.17 (MM, p.18) Quando seu pai morreu, ainda não dominava totalmente a sua, digamos, “habilidade”. Na noite de seu falecimento, a narradora alternou breves intervalos de sono hipnótico com dolorosas expectativas. Na manhã daquela longa noite, começou a chorar e: man mano che le lagrime mi scivolavano sulla faccia e sul collo, scoprivo che tutta la forza di cui avevo bisogno era lí, attorno alle palpebre e sotto i globi umidi, fra l’arco delle sopracciglia e setto nasale. Bastava che io raccogliessi quella forza al centro delle iridi e la proietassi fuori di me per liberarmi do ogni dolore.18 (MM, p. 18) Pouco depois da morte do pai, sua vida se transformara. Colocou a casa em ordem; se desfez de alguns móveis velhos, lavou as cortinas empoeiradas, queimou todos os jornais e revistas acumulados pelo pai, se desfez das roupas velhas da mãe. Ou seja, a narradora, metaforicamente, libertou-se da presença de seus pais, 16 [...] meu corpo não dormia, nem a minha mente, que continuava a trabalhar lentamente, em círculos, como se estivesse digerindo alimentos pesados e gordurosos. Mas meus olhos dormiam e com eles os meus sentidos também. (MM, p. 31-2) 17 No começo foi difícil, porque não conseguia alcançar aquele estado de tensão e de náusea que me permitiram dormir acordada. Mas, após longos exercícios e penosas tentativas, quase consegui dominar o meu corpo. (MM, p. 32) 18 Enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto e o pescoço, eu descobri que toda a força de que eu precisava estava ali, ao redor das pálpebras e sob os olhos úmidos, entre o arco das sobrancelhas e o septo nasal. Bastava concentrar aquela força no centro da íris e projetá-la para fora de mim para me libertar de qualquer dor. (Ibidem) 42 na tentativa de passar a viver com autonomia. Não se passaram muitas semanas, e todo o dinheiro que lhe fora deixado como herança pelos pais terminou. Precisou procurar por trabalho. Encontrou uma oferta, nos classificados de um jornal, e se apresentou. Precisaria concorrer com outras vinte candidatas, mas estava certa de que seria a escolhida. Sobressaiu-se já na entrevista, principalmente porque, enquanto as demais candidatas à vaga procuravam se mostrar belas e se distinguirem entre si através de maquiagens e roupas da moda, a anônima narradora não fazia nenhum movimento no sentido de mostrar-se diferente daquilo que era: “una ragazza non troppo giovane né vecchia, non bella né brutta, laboriosa, onesta, attenta, pignola e seria, tutte qualità ideali per una impiegata di un ufficio di collocamento”19 (MM, p. 19) Como previsto, foi escolhida e admitida imediatamente. No início, suas colegas de trabalho não se mostraram tão satisfeitas com ela quanto os seus superiores. Seu silêncio e seus movimentos automáticos as perturbavam. Mas, acabaram por se acostumaram com seu jeito e passaram a ignorá-la. E, algumas vezes, zombavam dela, por causa de sua pontualidade, perfeccionismo, seus olhos absortos e semicegos. A protagonista passou a experimentar dormir, mesmo durante o horário de trabalho: Alle volte il risveglio è improvviso e penoso; soprattutto se qualche compagna mi tocca una spalla o mi urta senza volere o miriade nell’orecchio per farmi dispetto. Allora sussulto e vengo presa da una febbre che dura per fortuna pochi secondi ma che mi lascia spossata e fiacca. 20 (MM, p. 20) Procurava estar sempre ausente do “mundo real”, hipnotizada. Quando não ia ao trabalho, permanecia em casa, sentada na cadeira da cozinha, a dormir. Desse modo, os períodos em que se mantinha acordada eram cada vez mais raros e 19 Uma moça nem muito jovem nem velha, nem bonita nem feia, trabalhadeira, cuidadosa, perfeccionista e séria, qualidades ideais para uma funcionária de agência de empregos. (MM, p. 33) 20 Às vezes o acordar é súbito e doloroso; especialmente se uma colega me toca o ombro, ou esbarra em mim sem querer, ou solta uma risada no meu ouvido para me chatear. Então estremeço e sou tomada por uma febre que, por sorte, dura poucos segundos, mas me deixa esgotada e fraca. (Ibidem) 43 breves. Sempre para fugir a sua dor, evitar o sofrimento, a narradora ausentava-se, dormia. Nos feriados, especialmente, o seu sono aumentava e ela permanecia na cama o dia inteiro, com a janela escancarada e os olhos fixos na casa da frente. Esquecia-se até mesmo de comer: Alle volte mi dimentico di mangiare. Giorni fa sono svenuta per la strada. Per fortuna non ho sbattuto la testa. Mi sono sentita mancare e mi sono appoggiata al parafango di una seicento. Un attimo dopo ho perso la conoscenza. Quando sono rinvenuta ero stesa su un letto del Pronto Soccorso di via Arenula e un dottore mi misurava la pressione. [...] Ho capito subito che era fame. Mi sono ricordata che da tre giorni non avevo più mangiato niente. Il dotttore mi ha fatto una predica e mi ha mandata via con uno schiaffetto bonario sulla guancia.21 (MM, p. 20) Para seguir a recomendação médica e não esquecer-se de se alimentar, espalhou diversos cartazes pela casa, mas tal estratégia, pouco tempo depois, já não funcionava: ho appeso dei cartelli per la casa: un fogliobianco su cui è scritto in rosso: “Mangiare!” Ma mi sono accorta che dopo due o tre volte, non vedevo più i segnali. Allora ho deciso di cambiare ogni giorno il colore della scritta e il formato del cartello. Senonchè, dimenticavo anche questo.22 (MM, p.22) A narradora, então, encontrou uma solução, que considerou engenhosa, para seu esquecimento: “Alla fine ho avuto un’idea ingegnosa. Ho comprato delle scatolette di carne e le ho distribuite di qua e di là sul pavimento di casa, in modo che quando inciampo in una di esse, mi chino a raccattarla e così mi ricordo di 21 Às vezes esqueço até de comer. Há alguns dias desmaiei na rua. Felizmente não bati a cabeça. Senti-me desfalecer e me apoiei no pára-choque de uma Seicento. Instantes depois perdi os sentidos. Quando voltei a mim, estava deitada numa maca do pronto-socorro de via Arenula e um médico estava medindo a minha pressão. (MM, p. 33-4) [...] Logo entendi que se tratava de fome. Lembrei que havia três dias que não comia nada. O médico me fez um sermão e me despediu com um tapinha afável na bochecha. (MM, p. 34) 22 Pendurei cartazes pela casa toda: uma folha branca onde está escrito em vermelho: “Comer”! Mas percebi que após duas ou três vezes, não via mais os avisos. Então decidi trocar diariamente a cor da escrita e o formato do cartaz. Mas eu esquecia disto também! (MM, p. 35) 44 mangiare”23. (MM, p. 22) A solução encontrava pela narradora para se lembrar de comer é, no mínimo, curiosa. Seus períodos de consciência tornavam-se cada vez menos frequentes: Di notte, quando la casa è silenziosa e buia, qualche volta mi sveglio e allora il dolore che provo nel rimettere in moto la mia coscienza è tale che mi sento mancare il respiro. In questi casi mi alzo, accendo tutte le luci della casa e giro la manopola della radio. Il rumore, le luci, la musica, ma soprattutto le voci umane, hanno il potere di farni ricadere nel mio lucido torpore sonnolento. Torno a letto, lasciando le luci accese, appoggio la radio accanto alla mia testa, sul cuscino e chiudo gli occhi.24 (MM, p. 21) Ou seja, não suporta conviver com sua consciência e se mantém distante do convívio humano. Todas as manhãs, às sete horas, quando o despertador tocava, como se fosse máquina, se levantava, vestia-se, ia ao trabalho e ali realizava suas tarefas, mecanicamente. Quando já estava certa de dominar completamente a sua hipnose, a técnica de ausentar-se do mundo, passou por uma experiência que lhe tirou a confiança: Ero seduta al mi tavolo da lavoro e facevo un conto. Ho alzato la testa per caso e per la prima volta ho visto la faccia del mio collega che mi siede di fronte. La bellezza luminosa e malinconica del ragazzo, poiché mi sono accorta in quel momento che era giovanissimo, mi ha comunicato un senso di gioia, come non ne provavo piú da quando ero bambina.25 (MM, p.22) Tal momento de alegria, de tentativa de despertar para a vida, durou pouco, 23 Finalmente tive uma idéia engenhosa: comprei umas latinhas de carne e as distribuí aqui e ali sobre o assoalho da casa, de modo que quando tropeço nelas, me curvo para recolhê-las e me lembro de comer. (Ibidem) 24 À noite, quando a casa está silenciosa e escura, às vezes acordo, e então a dor que experimento em colocar em movimento a minha consciência é tão intensa que sinto falta de ar. Quando isto acontece, levanto da cama, acendo todas as luzes da casa e viro o botão do rádio. O barulho, as luzes, a música mais as vozes humanas têm o poder de me fazer recair no meu torpor sonolento. Volto para a cama, deixando as luzes ligadas, coloco o rádio perto da minha cabeça sobre o travesseiro e fecho os olhos. (MM, p. 34) 25 Eu estava sentada à minha mesa de trabalho e fazia uma conta. Por acaso levantei a cabeça e pela primeira vez vi o rosto de um colega meu que senta na minha frente. A beleza luminosa e melancólica do rapaz, pois percebi naquele momento que era muito jovem, despertou em mim uma sensação de alegria que não experimentava desde a infância. (MM, p.35-6) 45 porque a narradora logo voltou a seu estado de “dormiveglia”. No entanto, à noite, em sua casa, “seduta di fronte alla finestra della cucina, il ricordo della faccia fresca e chiara del ragazzo”26 lhe voltou à memória e a manteve desperta. Procurou lembrarse dele, da forma de seus ombros, de seus dentes, da cor de seus olhos. Mas sua mente estava vazia. O esforço que fazia para se lembrar de aspectos físicos do rapaz a mantinha acordada e perturbada. Não conseguiu dormir naquela noite e comportou-se de forma não usual, improvável para ela: Ho acceso tutte le luci, ho ballato per stancarmi, ho mangiato due scatolette di carne, e ho succhiato tre uova, ho bevuto del vino; infine mi sono messa a letto con la radio accesa sul cuscino; ma le luce, i cibi, le voci, i movimenti, non riuscivano a farmi dormire come succedeva di solito. Allora ho preso un blocco di fogli bianchi e ho cercato di disegnare la faccia del ragazzo come me la ricordavo. Ma ogni volta che ne tracciavo i tratti risultava un viso diverso. Così, riempendo fogli e fogli, ho trascorso la notte intera. (MM, p. 23)27 Na manhã seguinte, vestiu-se mais cedo e chegou ao escritório quando a porta ainda estava fechada e ficou aguardando, no frio. Pouco antes das nove horas, um rapaz baixo e calvo, coberto por uma capa, encostou-se na porta, olhou-a e sorriu. Ela respondeu a seu cumprimento, com a cabeça. E enquanto observava os seus olhos “calmi e larghi, ho capito che il ragazzo che avevo visto ieri e di cui mi ero incapricciata non era altri che lui. Infatti quell’uomo calvo e scimmiesco mi sorrideva allusivamente come si fra di noi ci fosse un’intesa”.28 (MM, p.23-4) 26 Sentei-me em frente à janela da cozinha, a lembrança do rosto jovem e claro do rapaz. (MM, p. 36) 27 Acendi todas as lâmpadas da casa, dancei para me cansar, comi duas latinhas de carne, chupei dois ovos, tomei vinho; finalmente fui para cama com o rádio ligado sobre o travesseiro; mas as luzes, a comida, as vozes e os movimentos não conseguiam me fazer adormecer como sempre acontecia. Então peguei um bloco e folhas brancas e procurei desenhar o rosto do rapaz assim como o lembrava. Mas cada vez que traçava suas feições, saía um rosto diferente. Assim passei a noite inteira, enchendo folhas e folhas. (Ibidem) 28 Calmos e grandes, entendi que o rapaz que vira no dia anterior e que me encantara não era outro senão ele. De fato aquele homem careca e simiesco sorria para mim de maneira alusiva, como se houvesse um entendimento entre nós. (MM, p. 36) 46 O rapaz, jovem e belo, que a narradora pensara ter visto e buscava ansiosamente encontrar só existia em sua imaginação, não pertencia ao mundo real. Ao ver aquele seu colega de trabalho, de estatura baixa, calvo, de aparência grotesca, com a “grossa testa unta”29, decide se ausentar definitivamente do mundo real: Mi sono bastati pochi secondi per cadere in letargo. La sua vista mi è diventata indifferente; era un oggetto in mezzo agli altri oggetti che mi circondavano. Dopo questo episodio penoso, la mia vita ha ripresso meccanica e uguale come prima, con una convinzione di più: quello che io vedo di bello sono i miei sogni, quindi devo stare attenta a non svegliarmi mai.30 (MM, p. 24) A afirmação final – aquilo que ela via de belo eram os seus sonhos e que, portanto, precisava estar atenta para nunca despertar –, revela o despreparo da narradora para enfrentar a realidade, que não aceitava. Ela, que vivia sob a tutela dos pais e não amadurecera, não suportara a dor de vê-los padecer e morrer. Na tentativa de fugir à dura realidade, que não suportava e para a qual não se encontrava preparada, se alienou. Passou a evitar contato até mesmo com as pessoas com as quais, por necessidade de trabalho, precisava conviver. Isolou-se completamente da sociedade e passou a viver somente do seu mundo imaginado. O contato com a realidade, como lhe acontecera no episódio relativo ao colega de trabalho, ocasião em que buscou despertar sua consciência, ver o mundo (passou a noite desenhando, procurando encontrar a face perdida da pessoa que a atraíra), trouxe-lhe desconforto e desequilíbrio, pois perdera controle de sua auto-hipnose. Manteve-se desperta, ansiosa. Um rapaz a desestabilizara. Mas ele pertencia ao “mundo real”, sua figura não correspondia à personagem imaginada pela narradora. Uma fração de segundo, a lucidez. Tudo acontecera de forma repentina e a narradora, certificando-se de que seu sonho não encontrava correspondência na 29 Cabeça grande e gordurosa. (MM, p. 37) 30 Bastaram-me poucos segundos para cair na letargia. Vê-lo tornou-se indiferente: ele era um objeto no meio dos outros objetos que ficavam ao meu redor. Depois deste episódio penoso, minha vida voltou a ser mecânica e igual, como antes, com uma convicção a mais: o que eu vejo de bonito são os meus sonhos, por isso devo tomar o cuidado de nunca acordar. (MM, p. 37) 47 realidade, recolheu-se, voltou a se fechar em seu mundo. A conclusão à qual chegou a narradora – de que aquilo que ela vê de belo é o que está em seus sonhos e, por isto, deveria tomar cuidado para não acordar jamais –, nos remete a outras personagens femininas representadas no livro Mio marito. A permanente letargia na qual se mantinha a narradora, de alienação do cotidiano, sem conseguir perceber o outro com o qual convivia, aproxima-se do estado em que se encontram, por exemplo, a personagem-protagonista Marcella, do primeiro conto apresentado, “Mio marito”, ou da narradora de “Madre e figlio”, o próximo conto a ser examinado. Daí, se formar um fio condutor, que perpassa outros contos, a letargia, em certas mulheres que, procurando fugir à realidade que as cerca, preferem permanecer anestesiadas, ausentes da sociedade, sem voz audível, em total solidão. Como já apontamos, a solidão e certa letargia também perpassam o terceiro conto do livro, “Madre e figlio”. Antes, porém, de examiná-lo, propomos uma pausa para refletirmos sobre a solidão, sem suporte teórico, mas a partir somente da sensibilidade de Vinicius de Moraes, cuja poesia poderá servir como resumo para quanto escrevemos, e ainda escreveremos, sobre o deliberado não enfrentamento do mundo da personagem anônima do conto “Il letargo”. [...] A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre. (Da solidão. In: Moraes, Vinicius. Para viver um grande amor) 48 2.2.3 “Madre e figlio”: o fio que não se rompe O conto “Madre e figlio” (Mãe e filho), que agora passamos a focalizar, aborda um relacionamento doentio entre Adolfo e sua mãe. Tal relacionamento é narrado em primeira pessoa, por uma personagem feminina solteira, que reside no apartamento vizinho ao do Adolfo e que, por viver na solidão, projeta sua vida na desses dois vizinhos. Pode-se dizer, a exemplo da narradora do conto anterior, que essa também apresenta certa letargia. O conto tem início com a narradora explicando o porquê de haver alugado o apartamento no qual residia: além do baixo custo, o imóvel possuía uma “bella vista su un piazzale”31 (MM, p. 23). Diz que o havia mobiliado com esmero, utilizando parte dos móveis de sua casa anterior, mas, também, comprando outros novos. Ao referirse a sua nova cama, informa que era moderna, fresca e agradável, bem diferente da que usava anteriormente, feita de madeira escura, com uma cabeceira de mais de um metro de altura. Comenta que já não poderia dormir em sua velha cama, tampouco na cama que pertencera a seus pais, grande e dourada, na qual tinham falecido “quase ao mesmo tempo”. A referência à morte de ambos os pais aproxima esta da personagem do segundo conto examinado, que encontrou na letargia o lenitivo para sua perda e dor. No apartamento alugado, a narradora, “Da principio ho sofferto un po’ la solitudine. Dopo trent’anni di vita in comune coi miei, in questa casa che mi è estranea, mi sentivo persa”32 (MM, p. 25). É era natural que, no início, sentisse solidão, pois perdera os pais e, ainda, se afastara do espaço físico em que vivera. Mas a narradora logo descobriu que, mesmo vivendo sozinha, poderia participar da vida de seus vizinhos. E, efetivamente, começou a sua participação, de forma indireta, diminuindo assim a sua solidão. Diz: “La parete che divideva il mio appartamento dal loro era talmente sottile che quase non esisteva e questo mi ha 31 uma bela vista sobre uma praça. (MM, p. 38) 32 No começo senti um pouco de solidão. Após trinta anos de vida em comum com os meus pais, eu me sentia como perdida nesta casa que me é estranha. (MM, p. 38) 49 fatto sentire meno sola”33 (MM, p. 25). Ou seja, morando ao lado do apartamento de Adolfo e sua mãe, a narradora passou a acompanhar o dia-a-dia de seus vizinhos, acabando por conhecer toda a rotina da casa dessa pequena família, composta por mãe e filho. E era a voz da mãe de Adolfo que tornara a vida da narradora menos solitária, voz rouca, a que ouvia de forma mais nítida, visto que o filho falava pouco: Adolfo e sua madre si svegliavano presto la mattina, verso le sei e mezza, e appena svegli, andavano in cucina, cosí che io potevo sentirli, restando nel letto, al buio, che parlavano fra di loro. Veramente Adolfo parlava poco. Di solito quella che si sentiva di più era la voce rauca della madre.34 (MM, p. 26) Quase sempre aquilo que a mãe falava durante a movimentação matinal tornava-se meio incompreensível, por interferência dos rumores produzidos na casa: o tilintar dos talheres, o movimento das xícaras, o motor da cafeteira ou o barulho surdo da porta da geladeira, por exemplo. E, também, porque a narradora ainda estava na cama, meio adormecida. Mas, quando se despertava totalmente, a voz “della della madre di Adolfo si schiariva, si faceva solenne, fortissima”35 (MM, p. 26) A narradora acompanhava com interesse, também, depois, a conversa entre mãe e filho, enquanto ela o banhava e vestia. O diálogo, reproduzido parcialmente a seguir, induz a pensar que Adolfo seja uma criança: “Adesso la tua mamma ti mette addosso le mutande”. “Mi fai solletico.” “Ma che solletico. Alza le braccia, da bravo. Adesso la tua mamma ti infila la canottiera. Alza il piede, da bravo. Adesso la tua mamma ti infila i pantaloni. E stai dritto.”36 (MM, p. 27) 33 A parede que dividia o meu apartamento do deles era tão fina que quase não existia e isto me fez sentir menos só. (Ibidem) 34 Adolfo e sua mãe acordavam cedo de manhã, por volta das seis e meia, e ao despertar iam para a cozinha, de modo que da minha cama, no escuro, eu podia ouvi-los conversar. Para dizer verdade, Adolfo falava pouco. Normalmente ouvia-se voz rouca da mãe. (MM, p. 38-39) 35 [...] da mãe de Adolfo ficava mais clara, mais solene, fortíssima. (MM, p. 39) 36 “Agora a mamãe vai lhe pôr as cuecas.” “Você me faz cócegas” “Que cócegas, que nada. Levante os braços, como um bom menino. Agora a mamãe vai lhe enfiar a camiseta. Levante o pé, como um bom menino. Agora a mamãe vai lhe fazer vestir as calças. Fique reto. (Ibidem) 50 Além de ser vestido, como se fosse uma criança ainda sem autonomia, Adolfo ouve advertências aterrorizantes, sobre os possíveis danos que uma postura incorreta provocaria em sua coluna vertebral. O diálogo entre mãe e filho, hilário, traz à reflexão o quanto algumas mães ainda fazem uso de um discurso amedrontador para obter dos filhos aquilo que elas desejam: [...] Se non ti abitui a stare dritto, ti si storcerà la spina dorsale. E dopo dovrai andare in giro con un busto di ferro”. “Un busto di ferro?” “Sí, un busto di ferro. E non potrai neanche sederti, perché la spina dorsale finisce sulle natiche e sarai tutto avvolto nel ferro. Per fare la pupú ti infileranno un tubo di plastica nel sedere.” “Che?” “Sí, un tubo di plastica lungo un metro. E non potrai neanche piegarti per fare la pipí. E te la farai tutta sulle gambe.” “Ahi!” “Macché ahi! Come si vedi che non sai cos’è la guerra. Quando andrai in guerra vedrai cosa vuol dire non avere la mamma vicino.” “Grr.” “In guerra dormirai solo, su un letto di legno, e sarai mangiato dalle cimici e dai pidocchi. Ti verrà la scabbia. Niente di più probabile che in guerra venga la scabbia.” “Che?” “Avrai il corpo rosso e gonfio. Ti si formeranno delle vesciche. E quando ti gratterai, ti si riempiranno le unghie di pus. E poi sarai coperto di croste. Poi ti verrà la dissenteria. Niente di più probabile che in guerra venga la dissenteria. Ti brucerà da morire. E poi cacherai sangue. E ti sentirai torcere le budelle. E io non ci saró.” (MM, p. 27)37 37 “Se você não se acostumar a ficar reto, sua espinha dorsal vai entortar. Depois terá que andar por aí com uma cinta de ferro.” “Uma cinta de ferro?” “Sim, uma cinta de ferro. E não poderá nem se sentar, porque a espinha dorsal acaba nas nádegas e você estará todo envolvido em ferro. Para fazer cocô vão enfiar um tubo de plástico no traseiro.” “O quê?” “Sim, um tubo de plástico de um metro de comprimento.” ‘’E você também não poderá se dobrar para fazer xixi. E vai escorrer tudo sobre as pernas.” “Ai.” “Que ai, que nada! Como se vê que não sabe o que é a guerra. Quando você for para a guerra, verá o que quer dizer não ter a mãe por perto.” “Grr.” “Na guerra você dormirá sozinho, numa cama de madeira, e será devorado pelos percevejos e pelos piolhos. Terá sarna. Nada de mais provável que, que na guerra, se apanhe sarna.” “O quê?” “Você ficará com o corpo avermelhado e inchado. Vã aparecer umas bolhas. E, quando se coçar, as suas unhas vão ficar cheias de pus. E daí vai ficar coberto de crostas. Depois pegará disenteria. Nada de mais provável que pegar disenteria na guerra. O seu traseiro vai arder. Depois você vai cagar sangue. Sentirá suas entranhas torcerem. E eu não estarei lá.” (MM, p. 39-40) 51 “E eu não estarei lá.”, dizem todas as mães, numa autovalorização, porque têm necessidade de mostrar aos filhos quão são importantes para as suas vidas, que somente elas conhecem as necessidades e sabem cuidar de seus rebentos. Essas ameaças terríveis e despropositadas são também risíveis – ou de se lamentar, dependendo do ângulo de observação, se pensamos no Humorismo pirandelliano –, porque Adolfo, como a narradora descobrirá mais tarde, é um homem adulto, de trinta anos. [...] Qualche volta incontravo Adolfo nell’ascensore. E mi stupivo di trovarlo cosí robusto alto e bello. Ogni volta che lui sollevava una mano per premere il pulsante, mi incantavo a guardarla: è una mano da gigante, larga, chiara, tutta cosparsa di vene e di tendini in rilievo, dalle grosse e tozze dita che si muovono senza agilità, con solenne calma. (MM, p. 28)38 A descrição física do rapaz – alto, forte e bonito –, especialmente a observação sobre o movimento de suas mãos, “de gigante”, reforçam a ideia de que se tratava de um homem pacato e meio parvo, que vivia “senza agilità, con solenne calma” (MM, p.28). Daí o domínio exercido pela mãe, que seguia com seu discurso repetitivo e aterrorizante, durante o almoço: “Bevi troppo, tesoro. Diventerai impotenti. Il vino rende impotenti. Diventerai epilettico. Il vino rende epilettici”. “Uhmmmmmm.” “Lo sai o non lo sai. Te l’avrò detto cento volte. [...] La carne, se non si mastica bene, rimane sullo stomaco. Ogni boccone va masticato trenta volte. Se non lo fai verrà l’ulcera e poi sputerai sangue e poi morirai straziato da dolri atrici”.39 (MM, p.28) 38 Às vezes encontrava Adolfo no elevador. Ficava admirada de vê-lo tão robusto, alto e bonito. Toda vez que levantava a mão para apertar o botão, eu a olhava encantada; uma mão de gigante, larga e clara, cheia de veias e tendões em relevo, com dedos grossos e curtos que mexem sem agilidade, com uma calma solene. (MM, p. 40) 39 “Você está bebendo demais, meu bem. Vai ficar impotente. O vinho causa impotência. Você ficará epilético. O vinho causa epilepsia.” “Uhmmmmm.” “Você sabe ou não sabe? Já falei algumas cem vezes. A carne, se não se mastiga bem, cai mal no estômago. Cada bocado deve ser mastigado trinta vezes. Se não o fizer você vai ficar com úlcera e depois vai cuspir sangue e em seguida vai morrer dilacerado por dores atrozes.” (MM, p. 41) 52 A narradora acompanhava com muito interesse essa relação mãe-filho. Aliás, ela, que ficara sozinha após a morte de seus pais, passou a viver em função de seus vizinhos, como afirma: “Ormai vivevo completamente della loro vita. Appena finito di lavorare, mi rinchiudevo a casa e sdraiata sul letto, a occhi chiusi, partecipavo della loro intimità.”40 (MM, p.28) Confessa que estava sempre atenta e já conhecia todos os hábitos de seus vizinhos. O cotidiano é o mundo cíclico, que prende o homem a seus vínculos. O espaço vital da narradora era diminuto; não necessitava de muito para viver. Viver? Afirmava ser capaz de identificar quando a mulher despia ou vestia o filho somente pelos rumores e que, principalmente aos sábados, deitada em sua cama, de olhos fechados, gostava de acompanhar a preparação do banho de Adolfo, que começava com o zanzar da mãe pela casa, a procura do sabão, o mesmo que ela usava ora para lavar as louças, ora para lavar as roupas. Na banheira com água quente, a mulher espremia o suco de dois limões, chamava o filho e o despia, falando-lhe sempre como se fosse um menininho: La tua mamma ti toglie la camicia. La tua mamma ti toglie i pantaloni. La tua mamma ti toglie i calzini. La tua mamma ti toglie le mutande. Come sei bello! Sei proprio ben fatto. Non come tuo padre che era magro e rinseccolito. Sei pieno. Scoppi di salute. Fra le gambe hai um fiore.41 (MM, p. 29) [...] “Zitto amore. Fatti lavare bene. Adesso voltati, che ti insapono il petto e i fianchi.” “Mi fai il solletico, mamma!” “Cosa hai qui in fondo al ventre, un uccellino? Un vermiciatttolo, un serpentello? La tua mamma ti ha fatto proprio bene: sembri un Gesú”.42 (MM, p. 30) 40 “Eu já vivia totalmente da vida deles. Logo após o trabalho eu me fechava em casa e , deitada na cama, de olhos fechados, participava da sua intimidade.” (Ibidem) 41 “Mamãe vai tirar a sua camisa, mamãe vai tirar as suas calças. Mamãe vai tirar suas meias. Mamãe vai tirar a sua cueca. Como você é bonito! Você é mesmo muito bem feito. Não como teu pai que era magro e mirrado. Você é cheinho. Tem muita saúde. Entre as pernas tem uma flor.” (MM, p. 42) 42 “Fique quieto, meu bem. Deixe que eu lave bem você. Agora, vire-se para eu ensaboar o peito e os quadris.” “Você está fazendo cócegas, mamãe!” “O que tem no fundo do ventre? Um passarinho, um vermículo, uma serpentezinha? A sua mãe o fez muito bem mesmo: parece Jesus.” (Ibidem) 53 Como se pode observar no trecho supracitado, há uma relação doentia e de total dependência entre mãe e filho. O filho é sempre cercado de atos e falas da mãe, infantilizado, dominado, paralisado por tanto ativismo. Esse vínculo mãe-filho nem com a morte da mulher é cortado, visto que a narradora decide derrubar a parede que separa os dois apartamentos e assumir o lugar deixado pela mãe de Adolfo. A narradora, que tinha na rotina de seus vizinhos – Adolfo e sua mãe – a motivação para viver, começou a se angustiar, quando, pela primeira vez, do apartamento contiguo ao seu, nenhum ruído lhe chegava aos ouvidos. Não conseguia suportar aquele silêncio, nem cumprir sua rotina: Dall’appartamento dei vicini non proveniva un suono. Ho pensato che fossero partiti. [...] Mi sono alzata lentamente, presa da inquietudine. Ho accostato l’orecchio alla parete. Ma il silenzio continuava, rotto dallo sgocciolio del rubinetto dell’acquaio. Mi sono vestita in fretta, ho infilato il cappotto, le scarpe. Ma non riuscivo a decidermi a lasciare la casa. Mi sono seduta sul letto, immobile, col mio sguardo e svelare il mistero dei vicini. Verso le dieci infine sono uscita per andare in sartoria. Ma ho lavorato male: ero nervosa e inquieta.43 (MM, p. 30-31) Sem conseguir trabalhar, voltou logo para casa. A porta do apartamento vizinho estava aberta, e havia pessoas vestidas de preto na entrada. A narradora olhou para dentro do apartamento e viu o corpo da mulher, que jazia “su un drappo violetto, un rosario fra le dita e un gran mazzo di gladioli sul petto”44 (MM, p.31) Entendera, então, o porquê do silêncio no apartamento vizinho. A partir da morte da vizinha, a vida da narradora “è diventata molto noiosa.” Diz: “Quando finivo il lavoro, non sapevo cosa fare. Mi stendevo sul letto come prima, ma non riuscivo a sertirmi più serena né contenta. Spesso l’unica era il pianto lungo e 43 “Nenhum som chegava do apartamento dos vizinhos. Pensei que tivessem viajado.” “Levantei-me vagarosamente, tomada pela inquietação. Encostei o ouvido na parede. Mas o silêncio continuava, quebrado somente pelo gotejar da torneira da pia.” Vesti-me depressa, enfiei o casaco, os sapatos. Mas não conseguia me decidir a deixar a casa. Sentei-me na cama, imóvel, observando a parede como se pudesse atravessá-la com o meu olhar e desvendar o mistério dos vizinhos. Lá pelas dez horas saí para ir à alfaiataria. Mas trabalhei mal: estava nervosa e apreensiva. (MM, p. 43) 44 [...] sobre um pano roxo, um rosário entre os dedos e um grande ramalhete de gladíolos sobre o peito. (Ibidem) 54 debole di Adolfo che si trascinava per tutta la notte, senza soste.” (MM, p. 31)45 A voz da mãe de Adolfo se calara e o rapaz sentia-se perdido sem os seus comandos; a narradora, que havia perdido seus pais, era solidária com o sentimento de Adolfo; a solidão os aproximava. Decidiu, então, contratar um pedreiro para abrir a parede que separava os dois apartamentos: Adolfo non si è mostrato molto sorpreso. Si direbbe che se l’aspettava. Mi ha guardata un momento, senza parlare e poi ha preso a frugare nel frigorifero. Neanch’io ho detto niente. Mi sono diretta verso la credenza dove sono ammucchiati i piatti e ho cominciato ad apparecchiare la tavola. Ho acceso il fuoco con la macchinetta sprizzascintille, ho riempito la pentola d’acqua, ho regolato la fuoriuscita del gas. Poi, mentre l’acqua si scaldava, ho aiutato Adolfo a spogliarsi. Gli ho sfilato la giacca, gli ho sbottonato la camicia, i pantaloni, mi sono chinata per slacciargli le scarpe e quindi sono tornata di corsa in cucina perché l’acqua bolliva.46 (MM, p. 32) Ou seja, a narradora, que até então só conhecia a vida de Adolfo por detrás da parede, sai da condição de observadora e passa a viver e fazer, de fato, tudo aquilo que ouvia a mãe do rapaz fazer. Os três últimos parágrafos do conto “Madre e figlio”, acima transcritos, apontam para três personagens solitários, que são tragados pela rotina: a narradora, uma costureira que só encontra alento para sua existência em acompanhar a relação entre Adolfo e a mãe, superprotetora, que não o deixara desenvolver-se, “crescer” como uma pessoa normal. Podemos afirmar que, a exemplo da narradora do segundo conto, Adolfo também vivia em estado letárgico, mas sem autonomia. Esse relacionamento complicado entre mãe e filho não pode ser considerado normal e sadio, e, talvez, possa representar uma caricatura daquilo que os italianos 45 “Quando acabava o serviço, não sabia o que fazer. Ficava deitada na cama como antes, mas não conseguia mais me sentir serena nem feliz. Frequentemente a minha única companhia era o choro prolongado e abafado de Adolfo que se arrastava a noite inteira, sem parar.” (Ibidem) 46 Adolfo não pareceu muito surpreso. Era como se esperasse por isso. Olhou para mim por um momento, sem falar, e em seguida começou a mexer na geladeira. Eu também fiquei calada. Dirigi-me ao aparador onde ficam empilhados os pratos e comecei a arrumar a mesa. Liguei o fogão com o acendedor, enchi uma panela com água, regulei a saída do gás. Em seguida, enquanto a água esquentava, ajudei Adolfo a se despir. Tirei o seu paletó, desabotoei a camisa, as calças, dobrei-me para desamarrar os sapatos e então voltei correndo para a cozinha porque a água estava fervendo. (MM, p. 44) 55 chamam de “mammismo’’, ou seja, a dependência e confiança de um filho adulto diante de uma mãe controladora e “apaixonada”. O domínio exercido pela mãe era marcado por sua voz rouca, repreensiva, controladora, dominadora, solene e fortíssima, que dificultava a autonomia do filho de trinta anos, que já trabalhava. Era uma voz gorda e pesada, contraposta aos grunhidos e monossílabos do filho. Era, também, uma voz tragicômica, quando ameaçava o filho. Com relação à vida da narradora, esta também não deixa de ser uma maneira de permanecer em seu estado letárgico, tentando evadir-se da realidade. Inicialmente, o fato de ouvir pela parede as conversas de seus vizinhos (de Adolfo e sua mãe) não deixava de ser para ela uma maneira de fugir da sua solidão, após ter perdido seus pais. Apesar de ter alugado um apartamento porque tinha uma bela vista para a praça, a narradora muda seu foco de visão para a parede. Enfim, podese afirmar que ela, ao prestar atenção ao cotidiano da casa de Adolfo, não só se transportava para outra realidade (que não a sua) como também permanecia em estado letárgico (ouvindo a conversa alheia e depois quebrando a parede). Ainda é possível afirmar que a letargia é construída a partir de um olhar deturpador da narradora: ela deixa de olhar para fora (a praça) e começa a olhar para uma parede, que a separa do ambiente doméstico de Adolfo. Por fim, assume a maternidade de um homem adulto. Uma resposta para o comportamento da mãe e, posteriormente, da narradora pode, talvez, ser dada por Aldo Carotenuto, que afirma em seu livro L’anima delle donne. Per una psicologia al femminile (2008, p. 17): “nel matrimonio e nella maternità, la donna ha pensato di poter trovare se stessa, la propria felicità e realizzazione47. Ou seja, para algumas mulheres, o casamento se torna uma autêntica missão de vida e possui um valor fundamental. A ideia do casamento como o fulcro da existência é bem representada pelo mito de Juno (a deusa do matrimônio), que mostra até que ponto a união conjugal se 47 No matrimônio e na maternidade, a mulher pensou que poderia encontrar a própria felicidade e realização. (Tradução da autora) 56 revela fundamental para algumas mulheres, ainda nos dias atuais. Escreve Carotenuto (2008, p. 19) que Juno: è simbolo di tutte quelle donne che vivono la loro realizzazione attraverso la maternità, di quella parte del femminile che non riesce a ipotizzare per sé altra strada di espressione creativa al di fuori della dimensione della procreazione. Per queste donne, riuscire ad avere figli – e con essi la prova di poter procreare – significa sentirsi pienamente realizzate, acquisire un valore e uno spazio nella società. In questo non vi è nulla di strano e, soprattutto, non vi è nulla di male giacché essendo la vita umana piuttosto breve, ognuno si affretta per lasciare una propria traccia nel mondo. Per imprimere questa traccia, la prova del nostro passaggio su questo pianeta, è possibile ricorrere a moltissime soluzioni e la procreazione è una di queste. Non sarà dunque necessario creare opere d’arte straordinarie, sebbene la dimensione della creatività appartenga a ognuno di noi e così pure la possibilità di concretizzarla in qualcosa tangibile ed evidente. Ebbene, per molte persone – in genere del sesso femminile – un figlio può rappresentare il concretizzarsi della dimensione creativa.48 A mãe de Adolfo realiza-se representando seu papel materno e vê em seu filho a materialização de sua obra-prima: “La tua mamma ti ha fatto proprio bene: sembri un Gesú”49. A narradora, por sua vez, que não tinha filhos e concentrava-se no relacionamento dos vizinhos de parede, pode realizar-se plenamente ao assumir o papel de mãe. E Adolfo, habituado a uma voz autoritária, acolhe passivamente a nova voz de comando, bem como a mulher que substituirá sua mãe. Segundo Carotenuto (2008, p. 19), a mulher se torna muito mais realizada na procriação do que em outros tipos de atividade. Enfim, é possível se afirmar que, a maternidade constitui uma necessidade instintiva, como no caso da personagemnarradora. 48 É símbolo de todas as mulheres que vivem a sua realização através da maternidade, daquela parte do feminino que não consegue imaginar para si outro caminho de expressão criativa fora da dimensão da procriação. Para essas mulheres, conseguir ter filhos (e com isso a prova de poder procriar) significa sentir-se plenamente realizada, conquistar um valor e um espaço na sociedade. Neste sentido não existe nada de estranho e, principalmente, nada de mal já que sendo a vida humana antes de tudo breve, cada um se apressa para deixar seu próprio traço no mundo. Para imprimir esse traço, a prova de nossa passagem sobre o planeta, é possível recorrer a inúmeras soluções e a procriação é uma delas. Não será, então, necessário criar obras de arte extraordinárias, embora a dimensão da criatividade pertença a cada um de nós e assim a possibilidade de concretizá-la em algo tangível e evidente. E, então, para muitas pessoas, em geral do sexo feminino, um filho pode representar o concretizar-se dessa dimensão criativa. (Tradução da autora) 49 “A sua mãe o fez muito bem mesmo: parece Jesus.” (MM, p. 42) 57 A maternidade e o casamento são temas de “L’altra famiglia”, o quarto conto do livro em exame, que será focalizado a seguir. 2.2.4 “L’altra famiglia”: a vida dupla de Elda No quarto conto, “L’altra famiglia” (A outra família), a personagem Elda narra a sua vida de trabalhadora e mãe de família. Vive entre Roma e Milão e, segundo ela, é a rotina de seu trabalho que a faz permanecer em uma eterna ponte aérea entre as duas cidades. No entanto, à medida que avançamos na leitura do conto, torna-se evidente que, na verdade, não é o trabalho que mais exige a sua presença nessas cidades, mas, sim, as duas famílias que constituíra, uma em cada cidade italiana supracitada, famílias que, de tão opostas, acabam por completar a narradora. Em Roma: seu marido, Giorgio, que é professor, não ganha o suficiente para manter a família e, também, não consegue se impor perante os filhos, Pietro e Paolo, duas crianças indisciplinadas e bagunceiras, que estão sempre destruindo algo pela casa. O primeiro parágrafo do conto e o diálogo que se segue revelam a indisciplina das crianças, que se mostram autoritárias, bem diferentes de Adolfo, personagem do conto anterior: Pietro e Paolo mi svegliano la mattina saltandomi sul petto. Apro gli occhi con un senso di soffocamento. Pietro mi sta seduto sulla pancia, a gambe larghe e va su e giú come se cavalcasse un asino; Paolo mi sta inginocchiato sulle gambe e ride. “Mamma, è l’ora di alzarsi.” “Che ore sono?” “Le sei”. “Posso dormire ancora un po’?” No, devi aiutarci a vestire e poi prepare la colazione. Alzati.” (MM, p. 33)50 50 “Pietro e Paolo me acordam de manhã com um pulo sobre o meu peito. Abro os olhos com uma sensação de sufocamento. Pietro está sentado sobre minha barriga, de pernas abertas, e sobe e desce como se cavalgasse um burro; Paolo está ajoelhado sobre minhas pernas e dá risada. ’’ “Mamãe, é hora de se levantar.” 58 Cabe observar que eles lembram Elda de suas responsabilidades de mãe: precisa ajudá-los a se vestirem e preparar-lhes o café da manhã. São meninos e precisam ser servidos. A narradora, no entanto, consegue ficar um pouco mais na cama, mas logo decide se levantar, preocupada com o silêncio repentino dos dois meninos: estavam colocando fogo no meio do quarto: “mi alzo di corsa, li prendo a schiaffi, ritorno a letto. Ma ormai non riesco piú a dormire. Rimango qualche minuto distesa”51, mas logo se levanta e prepara o café para os meninos e Giorgio. À mesa, o filho mais velho convida o mais novo para uma brincadeira, “si riempie la bocca di latte e glielo spruzza addosso”52. Aceito o convite, começam a cuspir um no outro e, inclusive, na mãe que os ameaçava espancar. Daí, começa uma discussão entre Elda e Giorgio: “Di’ a tuo figlio di smetterla.” “Smettila Pietro.” “Anche Paolo lo fa.” “Smettetela tutti e due.” “Di’ a tuo figlio di smetterla.” “Gliel’ho detto.” “Dagli uno schiaffo.” Pietro scappa prima che faccia in tempo ad acciuffarlo. E quando mi avvicino, correndogli dietro, mi spruzza una boccata di latte caldo sulla faccia. “Picchialo!” “Perché non lo picchi tu?” “Io sono contrario ala violenza, lo sai. Ma tuo figlio è un imbecille.” “È anche tuo figlio.” “È anche mio figlio, ma assomiglia a te. Paolo è più simile a me. Infatti, se non fosse per Pietro, sarebbe diverso, buonissimo.” “Adesso uscite, che è tardi. Dove sono le vostre cartelle?” “La mia cartella si è rotta.” “Come, si è rotta! Dove l’hai messa?” “L’ho buttata. Era tutta rotta.” “Que horas são?” “Seis horas.” “Posso dormir mais um pouquinho?” “Não, você precisa nos ajudar a nos vestir e depois precisa preparar o café. Levante-se.” (MM, p. 45) 51 “Levanto-me depressa, esbofeteio-os, volto para cama. Mas já não consigo mais dormir. Fico deitada por mais alguns minutos.” (MM, p 45-6) 52 “Enche a boca com leite e o borrifa todo sobre Paolo.” (MM, p. 46) 59 “Ma come hai fatto a rompere una cartella di legno?”. “Pietro ci ha giocato a palla.” “Di’ a tuo figlio che è un delinquente oltre che un imbecille”, grida mio marito.53 (MM, p. 34-5) O trecho transcrito acima dá uma dimensão do relacionamento familiar de Elda, em Roma: marido omisso, que a ofende através do filho mais velho (“se parece contigo”, diz Giorgio), filhos travessos e mal-educados. “Pietro sta corrompendo Paolo. Diventeranno due buoni a niente, due delinquenti. Sarà colpa tua.” “Perché mia?” “Perché non li educhi a dovere.” “E tu?” “Io ne ho già abbastanza di educare quaranta ragazzi a scuola. Quando torno a casa sono stanco. Sai che ti dico, abbiamo fatto male a fare dei fifli; non siamo due persone adatte a una famiglia numerosa.” “Forse hai ragione. Avremmo dovuto stare noi due soli, e basta. Ma allora forse ci saremmogià separtati.” “Perché?” “Perché la vita in due è molto noiosa. Ad un certo punto, non si sa piú cosa dire.”54 (MM, p. 37-8) 53 “Diga a seu filho para parar.” (Ibidem) “Pare com isso, Pietro.” “E ao Paolo, também.” “Parem os dois.” “Diga a seu filho para parar com isso.” “Já disse.” “Dê um tapa nele.” “Pietro foge antes que eu consiga agarrá-lo. E quando me aproximo, correndo atrás dele, esborrifa-me o rosto com um bocado de leite quente.” “Bata nele!” “Por que não bate você?” “Você sabe que sou contra a violência. Mas seu filho é um idiota.” “É também filho seu.” “É também filho meu, mas se parece com você. Paolo é mais parecido comigo. Se não fosse o Pietro, seria diferente, muito bonzinho.” “Agora saiam, que é tarde. Onde estão suas pastas?” “A minha pasta está quebrada.” “Como está quebrada? Onde está ela?” “Joguei fora. Estava toda quebrada’’ “Como conseguiu quebrar uma pasta de madeira?” “Pietro brincou de bola com ela.” “Diga ao seu filho que, além de ser um idiota, é também um deliquente” grita meu marido.” (MM, p. 47) 54 “Pietro está corrompendo Paolo. Vão se tornar dos vagabundos, dois delinquentes. E a culpa será sua.” “Por que minha?” 60 Fica evidente que o marido, a exemplo de muitos homens, considera que a responsabilidade da educação dos filhos compete à esposa. Também, se mostra descontente com o fato de Elda ter de viajar com frequência para Milão, e, ademais, sem dias preestabelecidos. Mas, a narradora justifica-se, dizendo que ele não estava sendo justo, porque ela não tinha escolha. Precisava manter o emprego, uma vez que o salário dele, Giorgio, não era suficiente para sustentar a família. O marido, então, lhe sugere: “Qualche volta penso che tu abbia qualcuno a Milano che ti aspetta.” “Chi vuoi che abbia?” “Un altro uomo.” “Che sciochezza!”55 (MM, p. 36) Com a negativa da mulher, Giorgio sorriu satisfeito. Entretanto, suas suspeitas não eram infundadas. Elda ruma para Milão; durante a viagem aérea, dorme: “È l’unico momento in cui mi sento del tutto a mio agio. Il rumore mi stordisce e il leggero movimento dell’apparecchio mi culla. [...] All’aeroporto ormai mi conoscono: appena arrivo, entro nel bar, poso a terra la valigia, prendo un caffè, poi compro un gettone e telefono a casa. “Sei tu Carlo?”56 (MM, p. 38-9) Carlo? Mas, não se chamava Giorgio o seu marido? A narradora o avisa que “Porque você não sabe educá-los.” “E você?” “Eu? Já me basta educar quarenta meninos na escola. Quando volto para casa estou cansado. Quer saber, fizemos mal em ter filhos, não somos pessoas adequadas para ter uma família numerosa.” ‘Talvez você tenha razão. Talvez deveríamos ter ficado só nós dois, e pronto. Mas a esta altura talvez estivéssemos separados.” “Por quê?” “Porque a vida a dois é muito chata. A uma certa altura não se sabe mais o que dizer.” (MM, p. 49) 55 “Às vezes penso que haja alguém que a espera em Milão.” “E quem poderia ser?” “Um outro homem.” “Que bobagem!” (MM, p. 48) 56 “É o único momento em que me sinto totalmente à vontade. O barulho me atordoa e o leve movimento do avião me embala.” “No aeroporto já me conhecem: logo na chegada entro num bar, ponho a mala no chão, tomo um café, compro uma ficha e telefono para casa.” “È você, Carlo?” (MM, p. 50) 61 acabara de chegar. Ele diz que vai buscá-la no aeroporto; ela lhe responde que já chamara um táxi. Em Milão: seu marido Carlo dedica-se a escrever um livro, que não conclui jamais. Com ele, Elda tem dois filhos, Gaspare e Melchiorre, meninos de comportamento exemplar, bem-educados, bem penteados, bem arrumados: Quando apro la porta, trovo Gaspare e Melchiorre in piedi che mi aspettano. Sono ben vestiti, ben pettinati, ossequiosi e servizievoli. “Come state?” “Gaspare ha avuto dei bei voti a scuola.” “Anche Melchiorre ha avuto di bei voti” “Il papà?” “Sta bene. É uscito per andare alla messa.” “Che famiglia pia e ordinata che ho.” “Vuoi mangiare qualcosa mamma?”57 (MM, p.39) Os filhos milaneses são prestativos, educados, e demonstram ter bom desempenho na escola; são absolutamente diferentes dos irmãos romanos. Também, a personagem Carlo é caracterizada como sendo o oposto de Giorgio: sabe educar os filhos, que lhe devotam afeto e respeito. Em Milão, Elda diz passar o dia em seu escritório, tentando dar conta do trabalho acumulado. Volta tarde para casa. Encontra a mesa posta, os dois filhos e o marido sentados à mesa, a esperá-la: “Non dovevate aspettarmi. Dovevate Cominciare.” “Volevamo mangiare con te.” “Hai avuto molto da fare?” “Molto sí. Mi sento stanchissima.”58 (MM, p.40) 57 “Quando abro a porta de casa, encontro Gaspare e Melchiorre de pé, me esperando. Estão bem arrumados, bem penteados, respeitosos e prestativos.” “Como é que vocês estão?” “Gaspare tirou boas notas na escola.” “Melchiorre também tirou boas notas.” “E o papai?” “Está bem. Saiu agora para ir à missa.” “Que família piedosa e ordeira que tenho.” “Mamãe, quer comer alguma coisa?” (MM, p. 51) 58 “Vocês não deviam me esperar. Deviam começar.” “Queríamos comer com você.” “Você teve muito trabalho?” “É, muito. Estou cansadíssima” (MM, p. 51) 62 Estabelece-se um diálogo monótono, no qual a narradora, de forma absorta, repete as frases do marido que, por fim, ordena aos filhos que façam o dever de casa. Os meninos, obedientemente, saem da mesa, de forma educada. Gaspare e Melchiorre, os seus “reis magos”, no quesito escola, também são bem diferentes dos seus “apóstolos” Pedro e Paolo, de Roma, cujo rendimento escolar é baixo e, frequentemente, trocam as aulas por brincadeiras. Após os filhos saírem da mesa, Carlo comenta: “Stanno diventando due ipocriti.” “Chi?” “I tuoi figli.” “Sono anche tuoi.” “Sono anche miei, ma assomigliano a te. Silenziosi e ipocriti. Fingono di essere bravi. Ma ne combinano di tutti i colori. Hanno già imparato a recitare la loro parte alla perfezione. Se ne fregano di me.” “Cosa hanno di tanto terribile?” “Sono finti, ti dico, finti e bugiardi.”59 (MM, p.41) A mulher muda de assunto e pergunta pelo livro que o marido estava escrevendo. Antes de prosseguirmos o diálogo entre marido e mulher, examinemos o diálogo acima transcrito: ao dizer “parecem contigo”, o marido aproxima o comportamento dos filhos ao da mãe e, assim, indiretamente, a chama de hipócrita, fingida, indiferente e mentirosa. Tal comparação, bem como a continuação do diálogo, a seguir transcrito, induz a pensar que ele tivesse conhecimento da dupla vida de Elda: “Allora, hai finito il tuo libro? “No, tesoro. Ma sono a buon punto. Mi mancano solo otto capitoli.” “Che storia è? Non me l’hai raccontata.” “È la storia di un uomo che ha due vite.” “Interessante. Ma perché non ti sbrighi a finirlo? È da molti anni che 59 “Estão se tornando dois hipócritas.” “Quem?” “Os seus dois filhos.” “São seus também.” “São meus também, mas parecem com você. Silenciosos e hipócritas. Fingem ser bons meninos. Mas pintam o sete. Já aprenderam a representar seu papel à perfeição. Estão se lixando para mim.” “O que é que eles têm feito de tão terrível?” “São falsos, estou falando, falsos e mentirosos.” (MM, p. 52) 63 trascini avanti questo libro.” “Perché ci devo pensare sopra. D’altronde, piú ci penso e piú le cose si complicano. Tu credi che un uomo possa avere contemporaneamente, non dico due donne, ma due famiglie?” “Credo di sí.” “Credi che sia morale?” “No.” “Beh, questo è il problema che mi interessa; come conciliare la morale con ciò che è piú vitale e piú profondo in noi, il sesso, il bisogno dell’independenza, il gusto dell’anormale.”60 (MM, p. 41) O romance que estava escrevendo, e não conseguia terminar, reduplicava a vida de Elda que, quando lhe perguntou de onde viera a ideia das “duas vidas”, ouviu como resposta: “Quando ero ragazzo ho amato una volta due donne contemporaneamente. Ma stavo cosí male. Mi sentivo in colpa.” “E com’è finita?” “Male. Non ci si può dividere a lungo. Si diventa malati.”61 (MM, p. 43) Fim da conversa. No dia seguinte, voltaram à rotina: os meninos foram para a escola, Elda para o escritório e Carlo permaneceu trancado, escrevendo o seu romance. Dias depois, a narradora viajou para Roma. Carlo a acompanhou ao aeroporto: “Ciao. Cerca di finire il tuo romanzo”62, disse-lhe ela. “Ci lavoro molto, lo sai. Entro l’anno, conto di finirlo. Dopo sarò io a mantenere te. Ti farò fare la 60 “Então, você terminou o seu livro?” “Não, meu bem. Mas estou bem adiantado. Faltam só oito capítulos.” “Como é a trama? Você nunca me contou.” “É a história de um homem que tem duas vidas.” “Interessante. Mas por que você não se apressa para acabá-lo? Há muitos anos que você arrasta este livro.” “Porque devo pensar bastante. Aliás, quanto mais penso nele, mais as coisas se complicam. Você acha que um homem pode ter ao mesmo tempo, não digo duas mulheres, mas duas famílias?” “Acho que sim.” “Acha isso moral?” “ Não.” “Bom, esse é o problema que me interessa: como conciliar a moral com aquilo que é mais vital e mais profundo em nós, o sexo, a necessidade da independência, o gosto pelo anormal.” (MM, p. 53) 61 “Quando era rapazola, uma vez amei duas mulheres ao mesmo tempo. Mas me sentia tão mal, tão culpado.” “E como acabou?” “Mal. As pessoas não podem se dividir por muito tempo. Acabam doentes.” (MM, p. 55) 62 “Tchau. Procure acabar seu romance.” (MM, p. 55) 64 signora”.63 É Elda a mantenedora da família milanesa; Carlo somente se dedica a escrever e depende financeiramente da mulher. Talvez, por isto, fingisse ignorar a vida dupla da personagem-narradora. Novamente na família de Roma, a narradora encontrou a mesma situação de quando viajara: desordem e o marido que a esperava para punir o filho que colocara fogo em seu escritório. Conforme se pode depreender da narrativa, Elda é a força motriz de ambas as casas: em Roma é ela que faz as lições com os filhos e os pune, quando preciso, além disso, com seu salário reforça o orçamento familiar; vive de forma estressada. Em Milão, a responsabilidade de sustentar a casa é sua. Assim como a protagonista, que usa a desculpa do trabalho para poder estar com suas duas famílias, Carlo e Giorgio também fingem acreditar em Elda. Ambos precisam dela economicamente: o primeiro porque tem um salário baixo, o segundo porque não trabalha. Elda é uma personagem feminina que transgride o código moral, que rompe a ordem simbólica, mantendo duas famílias. Transgride a ordem patriarcal, sendo ela a provedora de ambas as famílias. Mas, em Roma, exerce ainda o papel de “anjo do lar”, na estrutura patriarcal, sendo responsável pela organização doméstica e a educação dos filhos. Ao contrário da personagem do primeiro conto, Marcella, cuja vida se circunscreve ao ambiente doméstico e à idolatria a Mario, Elda trata os seus maridos como iguais; aproxima-se um pouco da narradora de “Il letargo”, no sentido de que trabalha com competência, mas está sempre atenta a sua realidade; afasta-se totalmente da narradora de “Madre e figlio”, que projeta sua vida na dos vizinhos de apartamento. Elda é uma mulher de ação, transgressora. É recorrente que, na sociedade ocidental, homens tenham duas mulheres, como diz a personagem Carlo, mas 63 “Trabalho muito nele, você sabe. Pretendo acabar ainda este ano. Depois vou ser eu a manter você. Vou lhe proporcionar uma vida de grã-fina.” (MM, p. 55) 65 dificilmente terão duas famílias. Dois maridos, vida dupla, este é o fio que liga este ao próximo conto, “Il quaderno rosso”, que leremos na sequência. 2.2.5 “Il quaderno rosso”: a traição arquitetada No conto “Il quaderno rosso” (O caderno vermelho), a narradora-protagonista, Elena, revela sua mais recente descoberta: Lattanzio, seu marido, mantém um diário escondido, no qual faz anotações sobre ela: Mio marito tiene un diario. L’ho scoperto giorni fa mentre rimettevo a posto l’armadio nella nostra camera da letto. In un angolo, sotto la carta fiorata scollata, ho trovato un piccolo quaderno dalla copertina di plastica rossa. Ho preso in mano il quaderno, l’ho aperto e ho letto: “13 gennaio. Oggi niente. Elena è sempre di là, nella sua stanza. Posso sentire il fruscio delle riviste che sfoglia. Non riesco a lavorare bene. Quando si deciderà? Sto quase male per l’attesa.’ (MM, p. 45)64 Elena não consegue compreender o significado daquilo que seu marido havia escrito e se pergunta sobre o porquê de estar sendo observada e sobre o quê estava a provocar tanta expectativa em Lattanzio, a ponto de não lhe permitir trabalhar: “Cosa vuole da me? Mi domandavo. Cosa si aspetta da me con tanta ansia?”65 (MM, p. 45). Descoberto o “quaderno”, quando o marido retorna a casa, à noite, Elena já o enxerga de forma diferente; observa o quanto havia se transformado, inclusive fisicamente. Lattanzio trabalhava em casa e, por isto, pouco se ausentava do ambiente 64 Meu marido mantém um diário. Descobri-o alguns dias atrás, enquanto arrumava o armário de nosso quarto. Num cantinho, embaixo do papel florido e descolado, encontrei um caderninho com a capa de plástico vermelho. ( MM, p. 56) Peguei o caderno, abri e li: “13 de janeiro”. Hoje nada. Elena está sempre lá, em seu quarto. Posso ouvir o barulho das páginas que folheia. Não consigo trabalhar direito. Quando vai se decidir? Quase passo mal com essa espera. (MM, p. 56) 65 O que ele quer de mim? eu me perguntava. O que espera de mim com tanta ansiedade? (MM, p. 56) 66 doméstico. Ademais, mostrava-se sempre atento a tudo o que se passava no lar, controlava todos os passos da mulher: “Elena è sempre di là, nella sua stanza. Posso sentire il fruscio delle riviste che sfoglia”.66 Daí, a narradora, que ficara curiosa para saber o que o marido andava a escrever sobre ela, não tinha oportunidade de ler o diário. Até que, em um momento oportuno, conseguiu descobrir as anotações que Lattanzio fazia a seu respeito. A partir dessa descoberta, transforma-se. As observações escritas por Lattanzio sobre a esposa nos induzem a caracterizar Elena como uma mulher “do lar” e de vida ociosa – estava sempre em seu quarto, a ler revistas –, que contava com os serviços de uma empregada, Amália, este um indício de que o casal possuía uma boa situação econômica. Afinal, dispor de um empregado doméstico na Itália é incomum ainda nos dias de hoje. Também, a própria narradora confessa levar vida ociosa, enquanto seu marido trabalha para garantir o sustento da casa: Mentre lui lavora alla sua matematica, fra i libri di calcolo e gli innunerevoli fogli che si ammucchiano sul tavolo da lavoro, io me ne sto distesa sul divano del soggiorno, le gambe appoggiate sul bracciolo, a fumare e sfogliare qualche rivista. (MM, p. 47)67 Nesse aspecto, de se manter ociosa e ser sustentada pelo marido, ou seja, de ter o papel de uma esposa típica, classe média, do início do século XX, Elena difere radicalmente de Elda, a narradora do conto apresentado anteriormente, que era a provedora das duas famílias, a romana e a milanesa. Também, é a partir da observação da narradora que tomamos conhecimento que ela também saía pouco de casa; às vezes, visitava sua mãe, que estava internada em uma clínica, ou encontrava Aldo, o mecânico que viria a ser seu amante, ou fazia compras: “Qualche volta esco. Vado a trovare Aldo o mia madre all'ospedale o in giro per compere. Prima di uscire mi affaccio di Lattanzio per 66 Elena está sempre lá, em seu quarto. Posso ouvir o barulho das páginas que folheia. (MM, p. 56) Enquanto ele trabalha na matemática dele, entre livros de cálculo e inúmeras folhas de papel que se acumulam sobre a mesa de trabalho, eu fico deitada com as pernas apoiadas nos braços do sofá da sala, fumando e folheando umas revistas. (MM, p. 57) 67 67 salutarlo. ''68 A partir da descrição física, a personagem Elena poderia representar uma mulher moderna, que se veste bem, à vezes de forma sensual, que fuma muito, sente-se atualizada com os acontecimentos, pois está sempre a folhear revistas, que gosta de fazer compras. Diz ao marido que visitará a mãe no hospital, mas, na verdade, aproveita esse momento fora de casa para estar com o amante, um mecânico. Essa forma de vida, principalmente o relacionamento amoroso extraconjugal, induzia Elena a se considerar livre e “moderna”. Não acreditava que seu marido pudesse descobrir o caso mantido com Aldo. Tinha o controle da situação, acreditava. Também, pode-se caracterizar a personagem, numa primeira leitura, como uma mulher controlada pelo marido, que, mesmo fechado em seu escritório, nunca estava desatento ao que ocorria na casa: procurava ouvir suas conversas ao telefone; seguia seus passos, quando ela se movia pela casa. Lattanzio sabia onde Elena se encontrava e o que ela estava fazendo em cada momento do dia. Examinava-a com o olhar, quando ela saía de casa, inquirindo sobre a que horas voltaria, ou porque se havia vestido de maneira tão elegante para visitar a mãe, ou, ainda, porque se havia perfumado. Essa situação se repetiu até Elena encontrar o diário e descobrir o que nele estava escrito a seu respeito Uma outra leitura poderá caracterizar a narradora como uma mulher frustrada, uma vez que ela descobre que aquilo que supunha ser sua manifestação de independência (o adultério) na verdade não passava de mais uma forma de obediência ao marido. Ou seja, Lattanzio desejava que Elena o traísse com Aldo: um jovem mecânico – havia sido abandonado pela mulher e trabalhava na oficina mecânica do ex-sogro – que fora apresentado a Elena pelo próprio Lattanzio. Logo, se ela estava se comportando como queria o seu marido, não podia se considerar livre, conforme pensava ser. Daí, a sua frustração: “E io che credevo di manisfestare la mia indipendenza nell’adulterio, mi accorgevo che dipendevo più che mai da lui, 68 “Às vezes saio. Vou visitar Aldo ou a minha mãe no hospital. Ou vou fazer compras por aí. Antes de sair, apareço rapidamente no escritório de Lattanzio para me despedir.” (MM, pp. 58-9) 68 perchè il mio tradimento non era altro che un compimento della sua volontà”.69 A existência de Aldo, o amante, e o diálogo a seguir transcrito, nos leva a concluir que o relacionamento narradora-Lattanzio estava desgastado ou mesmo falido: “Lo sai da quanti anni siamo sposati?” “Da dieci. Perchè?” “Credi che siamo felici?” “Se non lo sai tu.’’ “Forse ci siamo un po’ stancati l’uno dell’altro.” “Non dire idiozie. Stiamo così bene insieme. E tutto va bene.” “Forse hai ragione tu.” 70 A narradora indaga ao marido se ele acreditava que fossem felizes; sugere que talvez estivessem cansados um do outro. O diálogo permite inferir uma relação doentia, na qual não há confiança, baseada no controle obsessivo (ou seria uma simulação?) de Lattanzio sobre Elena (a movimentação de entrada e saída de casa da esposa; o porquê de ela estar vestindo determinada roupa, usando certo perfume; ouvir as conversas telefônicas da mulher, acompanhar cada passo seu pela casa etc). Por sua vez, Elena, de certa forma, acaba por satisfazer todas as vontades do marido. E se descobre completamente dependente dele. A acomodação demonstrada pela narradora, que nunca falava com o marido sobre sua insatisfação, que jamais discutia os problemas do casal, nos induz a pensar na falência de seu relacionamento com Lattanzio, como também permite entrever a sua personalidade: uma mulher submissa às vontades do marido, que vive para a casa (na verdade, em casa), para a mãe doente. Daí, esse comportamento diverso do previsto pela sociedade do século XX: uma mulher que, para escapar 69 “E eu que acreditava manifestar, com o adultério, a minha independência, percebi que dependia sempre mais de Lattanzio, uma vez que a minha traição nada mais era se não o cumprimento da vontade dele.” (MM, p 61) 70 “Sabe quantos anos faz que estamos casados?” “Dez. Por quê?” “Você acha que somos felizes?” “Se você não sabe...” “Talvez estejamos um pouco cansados um do outro.” “Não diga besteiras. Estamos tão bem juntos. E tudo está bem.” “Talvez você tenha razão.” ( MM, p 57) 69 dessa monotonia e acomodação, acaba por arranjar um amante. Entretanto, se decepciona ao descobrir que esse relacionamento extraconjugal era desejado por seu marido: “Non riesco a lavorare bene. Quando si deciderà? Sto quase male per l’attesa.”, escreve Lattanzio em seu caderno. Attesa de quê?71 Com relação à personalidade de Lattanzio, talvez se possa afirmar que era um homem que simulava sentir ciúme e querer ter controle sobre Elena. O próprio fato de ele sentir prazer em vê-la sair bem vestida e perfumada “somente para visitar a mãe’’ no hospital denuncia a sua simulação de ciúme e controle. Ou seja, talvez tudo não passasse de dissimulação, de um jogo, pois quando Elena saía, assim, atraente, poderia significar que ia encontrar-se com seu amante, exatamente como ele queria. Logo, esse ciúme e controle não eram verdadeiros. De fato, talvez nem sentisse ciúme de sua mulher. Caso contrário, não vibraria cada vez que ela saía de casa. Apenas fingia, simulava ser ciumento e controlador. Outro aspecto que merece destaque é a diferença física existente entre as personagens Lattanzio (o marido) e Aldo (o amante). O marido tem os cabelos grisalhos, o rosto envelhecido, um sorriso falso e é melancólico; o amante, jovem, possui um corpo magro, bem definido, é vivaz e atraente. O contraste entre os dois homens, o marido e o amante, nos remete ao conto analisado no item 2.2.4, “L’altra famiglia”, na oposição entre Giorgio e Carlo, os dois maridos da narradora, Elda: o primeiro, Giorgio, é um homem que não consegue se impor perante os filhos, que delega sempre a organização da casa e a educação dos filhos à mulher; o segundo, Carlo, cuida bem dos filhos, que o respeitam, está sempre a brincar com o gato e se dedica a escrever um romance que lhe é difícil concluir, em função do dilema que vive: como fazer para conciliar a moral com o sexo. O dilema da personagem Carlo também nos redireciona ao conto “Quaderno rosso” e ao fato de Elena ter um amante. Como conciliar moral com aquilo que é mais vital em nós, o sexo? Voltemos, pois, à personagem Elena que, parece, só encontrava o sexo fora 71 Não consigo trabalhar direito. Quando vai se decidir? Quase passo mal com essa espera. (MM, p. 56) 70 do casamento. Ela se dá conta que, desde o início de seu relacionamento com Lattanzio, havia sido ingênua e não percebera que ele a induzira ao adultério, ao apresentá-la ao mecânico Aldo e chamar sua atenção para os atributos físicos do rapaz: “Improvvisamente mi sono ricordata che era stato lui a portarmi la prima volta all’officina dove lavora Aldo, che era stato lui a farmelo notare, così giovane e biondo e asciutto, curvo sul motore di una macchina.”72 (MM, p.50) Lattanzio sabia que Elena voltaria a ler o caderno, e, assim, decide tirá-lo do lugar onde ela o encontrara. Ou seja, o marido provoca e a mulher tenta se rebelar contra o domínio que ele exercia sobre ela: “Come sei cattiva”73“. O texto sugere que Lattanzio estava ciente de que a esposa havia lido o caderno (porque ele o faz desaparecer). Além disso, ele insinua que a visão do caderno não passara de uma divagação de Elena, que percebe que o marido deseja deixá-la confusa. Porque tinha certeza de que ela havia lido o caderno, o rosto dele apresentava uma expressão de contentamento. Afinal, tinha conseguido controlá-la e induzido a ter um amante. Apesar da incontestável falência da relação conjugal, Elena e Lattanzio continuam a viver juntos, como se nada tivesse ocorrido e sem que nada se renove na vida do casal. O adultério tinha sido a forma encontrada pela narradora para escapar de seu casamento falido e da monotonia do ambiente doméstico. Ao procurar Aldo, passa a depositar nele a esperança de um relacionamento diferente daquele vivido com Lattanzio. Afinal, a diferença entre os dois homens começa pelo aspecto físico. Ela sentia prazer em ver o amante trabalhar, “sporco di grasso, avvolto nella tuta blu, il ciuffo biondo ricadente sulla fronte unta e nera.”74, e de lavar-lhe as costas. 72 “De repente lembrei que tinha sido ele a me levar pela primeira vez à oficina onde Aldo trabalha, que tinha sido ele a me fazer reparar nele, tão jovem, loiro e enxuto, curvado sobre o motor de um automóvel.” (MM, p 61) 73 “Como você é má!” (MM, p 62) 74 Gosto de vê-lo trabalhar, sujo de graxa, envolvido num macacão azul, com o topete loiro que lhe cai na testa gordurosa e preta. (MM, p 59-60) 71 Ainda, com relação à questão da falência desse casamento, é possível se estabelecer uma conexão com os outros contos. No já citado, “L’altra famiglia”, a personagem Elda também encontra no adultério uma forma de escapar ao casamento, tanto com Giorgio como com Carlo. Leva sua dupla vida matrimonial e familiar, acreditando que um marido ignorava a existência do outro. Mas ambos, a exemplo de Lattanzio, tinham conhecimento de sua vida secreta. Os três fingem ignorar o adultério, por conveniência, para manter um relacionamento de fachada e, talvez, evitar a solidão e a dor, que desgasta. A dor desgasta, este é o gancho para o exame do próximo conto, o sexto do livro Mio marito. 2.2.6 “Il dolore sciupa”: para livrar-se do sofrimento No conto “Il dolore sciupa” é retratada a vida de uma mulher que, durante o tempo em que vivia com seus pais, considerava ter uma vida perfeita, uma família ideal. A personagem-narradora sentia-se amada pelos genitores e tinha ótimo desempenho escolar, obtendo sempre notas boas. Às vezes, sentia-se deprimida, sofria, mas não entendia o porquê desse sofrimento e nem se questionava; preocupava-se, somente, com o seu dever de filha e de estudante: Tutto era perfetto nella nostra famiglia. Mio padre era un uomo d’affari onesto e laborioso, abile e ricco, mia madre una buona, affettuosa e tradizionale donna di casa. Non litigavano mai fra di loro, non discutevano nemmeno; erano sempre d’accordo. Inoltre si mostravano sempre innamorati e felici. (MM, p. 53)75 Era uma filha amada e mimada, vivendo em um ambiente feliz. Assim, aos olhos dos parentes, amigos e vizinhos, a narradora e a família eram vistas: ela, uma moça bem-educada; eles, pais zelosos, que se amavam e viviam em harmonia, de forma exemplar: 75 Tudo era perfeito em nossa família. Meu pai era um homem de negócios honesto e trabalhador, hábil e rico, minha mãe uma dona de casa boa, carinhosa e tradicional. Nunca brigavam, nem discutiam; estavam sempre de acordo. Além disso, pareciam sempre apaixonados e felizes. (MM, p. 63) 72 Io ero la loro unica figlia. Ero vezzeggiata e amata, ma anche educata con giusta severità. Andavo sempre vestita con dei grembiuli ricamati, dei fiocchi in testa, delle scarpe bianche e, da grande, con dei completi di lana d’angora, delle collane di corallo al collo. Andavo a scuola, ero puntuale, studiavo, prendevo buoni voti. Mio padre e mia madre venivano a prendermi all’uscita delle lezioni, e tutti e tre insieme ci incamminavamo adagio verso casa, consapevoli di raffigurare l’immagine della felicità familiare. (MM, p. 53- 4)76 A partir da morte do pai, no entanto, sua vida começou a desandar. A vida da família, que até então se desenrolara de forma ordeira e serena, sem qualquer tipo de dúvidas ou desordem, sofreu uma reviravolta. Quando è morto mio padre, ci siamo trovate sole, mia madre ed io, senza sapere cosa fare. Io avevo messo su una faccia da vecchia, quase comica nella patetica volontà di apparire soddisfatta ad ogni costo e mia madre, lei addirittura assomigliava a una bertuccia, tutta raggrinzita e disfatta. (MM, p. 54)77 A narradora continuou a morar com sua mãe, ambas desfiguradas pela dor da perda. No entanto, poucos meses depois da morte de seu pai, sua mãe começou a se transformar: Ma in pochi mesi sono successe tante cose che a stento risco a ricordarle. Mia madre, prima di tutto, si è tinta i capelli di rosso. Poi si è trovata un amante con cui ha sperperato tutti i soldi lasciati da mio padre. Quando i soldi sono finiti, il ragazzo se n’è andato e mia madre si è suicidata. (MM, p. 54)78 76 Eu era a única filha. Era mimada e amada, mas também educada com uma justa severidade. E andava sempre bem arrumada com aventais bordados, laços na cabeça, sapatos brancos e, quando cresci, conjuntinhos de lã angorá, colares de coral no pescoço. Ia à escola, era pontual, estudava, tirava boas notas. Meu pai e minha mãe vinham me buscar na saída da escola e os três, juntos, nos dirigíamos lentamente para casa, conscientes de representar a imagem da felicidade familiar. (MM, p. 63) 77 Quando meu pai faleceu, encontramos-nos sós, minha mãe e eu, sem saber o que fazer. Eu tinha adquirido uma cara de velha, quase cômica, devido à patética vontade de parecer satisfeita a qualquer custo. Minha mãe, então, parecia uma macaquinha, toda enrugada, destruída. (MM, p. 64) 78 Mas em tão poucos meses aconteceram tantas coisas, que só consigo lembrá-las com dificuldade. Pra começar, minha mãe tingiu o cabelo de vermelho. Em seguida, encontrou um amante com o qual dissipou todo o dinheiro deixado pelo meu pai. Quando o dinheiro acabou, o rapaz se mandou e minha mãe se suicidou. (MM, p. 64) 73 Como resultado dos atos inconsequentes de sua mãe, que desperdiçara sua herança, a narradora, que ficara sem dinheiro e sem casa, viu-se obrigada a procurar por trabalho. No emprego que conseguiu arranjar, não se relacionava bem com o patrão, especialmente porque ele a fazia lembrar de seu pai. Por isto, não muito tempo depois, pediu demissão. Ero rimasta senza denari e senza casa, perchè il nostro apartamento era stato venduto. Allora mi sono messa a cercare un lavoro e per un breve periodo ho fatto la segretaria in un ufficio di compravendita. Ma non andavo d’accordo con il padrone. Forse perchè mi recordava mio padre. Il fatto è che lavoravo male, svogliatamente, non riuscivo a tenere in ordine le schede nè a scrivere le lettere senza fare una quantità di errori. Infine me ne sono andata, o mi hanno licenziata, non recordo più. (MM, p. 54-55)79 Foi quando se decidiu a morar com Giulia, uma amiga manicura, que, apontando o que via de errado no comportamento da personagem-narradora, recomendou-lhe algumas mudanças em seu modo de encarar a vida. Segundo a manicura, o problema da narradora era de fácil diagnóstico e solução: ela deveria somente aceitar como necessária e inevitável a dor, sem sofrer: “Il dolore sciupa la pelle, te n’eri accorta?” “Non ci avevo mai pensato.” “Per stare bene bisogna non soffrire.” 80 “Non mi era mai venuto in mente.” (MM, p. 55) Giulia afirmava que a dor estraga a pele, envelhece, e que, para se estar bem, é preciso evitar o sofrimento. E, para tanto, seria necessário que a narradora se 79 Quanto a mim, tinha ficado sem dinheiro e sem casa, porque nosso apartamento tinha sido vendido. Pus-me, então, à procura de um emprego e por pouco tempo fui secretária num escritório de compras e vendas. Mas não me dava bem com o patrão. Talvez porque ele me lembrasse meu pai. Para dizer a verdade, eu trabalhava mal, sem vontade, não conseguia manter as fichas em ordem e escrever cartas sem fazer um monte de erros. Finalmente fui embora, ou me despediram, não me lembro mais. (MM, p. 64) 80 “A dor estraga a pele, você já se deu conta?” “Nunca reparei nisso.” “Para se sentir bem, é necessário não sofrer.” “Isso nunca me passou pela cabeça.” (MM, p. 64-5) 74 libertasse de suas dores, bem como de todas as coisas inúteis que atrapalhavam e bloqueavam sua vida: “Pensa a una stanza di roba vecchia e sporca. I vetri sono appannati, il pavimento è coperto di polvere, i mobili sono pieni di oggetti, le tende impregnate di cattivi odori. Ci vivresti tu in una stanza così?” “No.” “Cosa faresti nel caso che ti trovassi costretta a viverci? La puliresti no?” “Certo.” “Beh, immagina che quella stanza è il tuo cuore.” (MM, p. 55-6)81 A narradora e a manicura tinham a mesma idade, porém a segunda aparentava ser bem mais jovem; isso porque, em sua opinião, havia conseguido eliminar o sofrimento de sua vida. “Si vede che non ci hai mai pensato. Dimostri dieci anni di più della tua età.” “Perchè?” “Hai fatto una faccia storta e rattrappita. Io, per esempio, ho la tua età, ma ne dimostro molti di meno.” “È vero.” “Lo vedi? E sai come ho fatto? Ho eliminato la sofferenza dalla mia vita. L’ho abolita.’’ “Ma come si fa?” “Si fa come ti ho detto. Gettando via tutte le cose inutili che ingombrano quella stanza; pulendo e spazzando via le polvere finché ti sentirai come una bella scatola vuota, pulita e ariosa”. (MM, p. 56)82 Fazia-se necessário expurgar o sofrimento da vida: “Devi semplicemente convincerti che questo sentimento è come uno di quei mobili ingombranti e inutili che riempiono le vecchie stanze. Devi liberarsi come ci si libera di un oggetto fastidioso e 81 “Pense em um quarto sujo e cheio de coisas velhas. Os vidros estão embaçados, o chão está coberto de poeira, os móveis estão cheios de objetos, as cortinas cheirando a mofo. Viveria em um quarto desses?” “não.” “Que você faria, caso tivesse de viver nele? Você o limparia, não?” “Com certeza.” “Bem, imagine que aquele quarto seja o seu coração.” (Tradução da autora) 82 “Dá para perceber que você nunca pensou nisso.” “Você parece dez anos mais velha do que é.” “Por que?” “Você criou um rosto retorcido e encolhido. Eu, por exemplo, tenho a sua idade, mas aparento muito menos.” “ É verdade.” “Viu? E sabe como consegui? Eliminando da minha vida o sofrimento. Aboli-o.” “Mas como é que se faz?” “Faz-se como já falei: jogando fora todas as coisas inúteis que estorvam aquele quarto; limpando e varrendo o pó até se sentir como numa linda caixa, limpa e arejada.” (MM, p. 65) 75 inservibile.” (MM, p. 56-7) As palavras de Giulia a impressionaram bastante: “Il dolore sciupa. Me ne sono accorta tardi. Quando ero bambina non me ne curavo. Soffrivo e basta. Mio padre, mia madre, la scuola. Adesso mi sembrano cose remote e incredibili”. (MM, p. 53)83. A ideia de arrancar de dentro de si os sentimentos e, com eles, seu sofrimento, nunca passara por sua cabeça. Procurou seguir imediatamente os conselhos da amiga, mas não logrou muito êxito, especialmente pelo fato de estar apaixonada. E Giulia a aconselhava, dizendo que não deveria se apaixonar, nunca: “Devi semplicemente convincerti che questo sentimento è come uno di quei mobili ingombrati e inutili che riempiono le vecchie stanze. Devi liberartene come ci si libera di un oggetto fastidioso e inservibile.” (MM, p. 57)84 Depois de alguns meses de “tratamento” com Giulia, a narradora mostrava ter passado por considerável transformação, já conseguindo identificar em seu rosto uma expressão de comedimento, anteriormente desconhecida. Também, sua pele repuxada e seca, com tendência a descamar, se transformara; seus olhos febris, dilatados e projetados (como dois globos avermelhados e úmidos), começavam a dar lugar a olhos não mais vermelhos, não mais dilatados, que descansavam quietos e inexpressivos entre as pálpebras firmes. Certo dia, porém, Giulia anunciou à narradora que se casaria e pediu-lhe que encontrasse outra casa para viver: “Ma come, dicevi che non bisogna innamorarsi e adesso ti sposi?” “Mi sposo, ma questo non vuol dire che io sia innamorata.” “E allora perché ti sposi?” “Mi sposo perché ho trovato un marito ricco; con lui non avrò bisogno di lavorare.” “Credi che non soffrirai, senza piú indipendenza?” “Credo di no. Quest’uomo io non lo amo, quindi sono libera lo stesso. La libertà non consiste tanto nell’essere indipendenti, quanto nel vuotarsi ben bene.” [...] 83 A dor desgasta. Percebi isto muito tarde. Quando era criança, não me importava. Sofria e pronto. Meu pai, minha mãe, a escola. Agora me parecem coisas distantes e inacreditáveis. (Tradução da autora) 84 “Você deve simplesmente se convencer que esse sentimento é como um daqueles móveis inúteis que estorvavam os velhos aposentos. Deve livrar-se dele como nos livramos de um objeto inútil que nos incomoda.” (Tradução da autora) 76 “Ma adesso come faccio? Dove vado ad abitare, senza lavoro, senza soldi?” “Ti arrangi. Io ho bisogno della casa e tu devi andartene entro domani.” (MM, p. 57-8)85 Como se depreende da citação acima, a narradora surpreendeu-se com a notícia do casamento da amiga, principalmente porque ela declarara continuar vazia de sentimentos e não estar apaixonada pelo futuro marido; Giulia visava somente seu bem-estar econômico, pois encontrara um pretendente rico. Ou seja, se casaria para se livrar do trabalho e garantir uma vida confortável. A personagem-narradora perguntou-lhe se não sofreria ao abrir mão de sua independência e viver à custa do marido e ouviu como resposta um “não”: “la libertà non consiste tanto nell’essere indipendenti, quanto nel vuotarsi ben bene”,86 disse-lhe a manicura que parecia, de fato, ter conseguido esvaziar-se de todo e qualquer sentimento. Giulia contara friamente que se casaria por conveniência e, implacavelmente, exigira que a narradora saísse imediatamente da casa. La mattina dopo ho fatto le valigie. Giulia mi ha accompagnato fino all’ascensore, abbracciandomi e baciandomi. L’ho guardata per l’ultima volta da vicino, mentre mi stringeva a sé e ho avuto l’impressione che fosse davvero vuota e felice. La sua faccia era pulita, bianca, senza grinze nè macchie, ma senza neanche più vita. (MM, p. 58)87 Desatinada, sem emprego e sem dinheiro, a narradora ficou sem saber aonde 85 “Mas como, você dizia que não devíamos nos apaixonar e agora vai se casar?” “Vou, mas isto não quer dizer que esteja apaixonada.” “Então por que casar?” “Vou casar porque achei um marido rico; com ele não vou mais precisar trabalhar.” “Acha que não vai sofrer, abrindo mão da independência?” “Acho que não. Eu não amo esse homem, portanto estou livre do mesmo jeito. A liberdade não consiste tanto em ser livre, quanto em estar totalmente vazio por dentro.” [...] “Mas agora como é que eu vou fazer? Onde vou morar, sem trabalho, sem dinheiro?” “Vire-se. Preciso da casa e você tem de dar o fora até amanhã.” (MM, p.67) 86 “a liberdade não consistia somente em ser livre, mas, especialmente, em estar totalmente vazia por dentro.” (Tradução da autora) 87 “Na manhã seguinte, arrumei minhas malas. Giulia me acompanhou até o elevador, me abraçou e me beijou. Olhei para ela, pela última vez, de perto, enquanto ela me dava um abraço apertado, e tive a impressão de que ela estivesse realmente vazia e feliz. Seu rosto era limpo, branco e perfeito como uma parede pintada, sem rugas nem manchas, mas também sem vida.” (MM, p. 67) 77 ir. Buscando sustentar-se, trabalhou primeiramente como babá e, a seguir, como secretária de um copista; finalmente, terminou por ocupar o lugar deixado por Giulia no salão de beleza, na loja Parioli, recebendo como salário “settantamila lire al mese” (MM, p. 58) Passado algum tempo, Giulia a procurou no salão e contou-lhe que estava grávida: Ha posteggiato la sua bella macchina davanti al marciapiede e poi è entrata gridando il buongiorno a tutti. “Come stai Giulia?” “Benissimo. Sai che aspetto un figlio?” “Allora hai rinunciato allo svuotamento?” “No. Non ho affatto rinunciato. Tu credi che basti un figlio per riempirsi di nuovo di oggetti imgombranti? Ma lo sai che dentro di me è talmente vuoto che non c’è posto per uno spillo?” “Se è vuoto, il posto c’è.” “Il vuoto, quando è veramente vuoto, assomiglia al pieno, non lo sai?”88 Analisando a conversa tida com Giulia, a narradora concluiu que seu falecido pai e a amiga eram muito semelhantes. O que os distinguia era o fato de que seu pai se utilizara de um expediente antigo para atingir a felicidade, o fingimento, acabando por transformar sua vida em uma odiosa comédia. Giulia, ao contrário, uma mulher moderna e corajosa, conseguira efetivamente se libertar das dores, através da renúncia aos sentimentos e “era lí, bianca e bella come una statua, i grandi occhi azzurri fissi nel vuoto, le mani fredde ed eleganti abbandonate fra le mie e sorrideva, muovendo appena le labbra.”89 Uma estátua, assim a narradora viu Giulia, que já não sofria e se tornara refratária a todos os sentimentos. Estava ausente de si, sem sentimentos, por escolha própria. Vivia ainda? 88 Estacionou seu belo carro em frente da calçada e entrou gritando bom dia para todos. “Como vai, Giulia?” “Muito bem. Sabe que estou esperando um filho?” “Então você renunciou ao esvaziamento?” “Não. Não renunciei de jeito nenhum. Acha que basta um filho para se entulhar novamente de objetos inúteis? Mas sabe que dentro de mim há um tamanho em que não cabe nem um alfinete?” “Se está vazio, o lugar existe.” “O vazio, quando é realmente vazio, parece-se com o cheio, não sabe?” 89 [...] e lá estava ela, branca e bela como uma estátua, com os grandes olhos fixos no vazio, as mãos frias e elegantes largadas nas minhas. E sorria, mexendo levemente os lábios. (MM, p. 68-9) 78 No conto “Il dolore sciupa”, acompanha-se a tentativa feita pela personagemnarradora para se libertar da dor provocada pela tomada de consciência de que sempre vivera uma realidade falsa: sua família não era perfeita, seus pais simulavam ser felizes. A consciência a (nos) torna infeliz(es), fragilizada(os). Não sentir emoções, tornar-se indiferente aos fatos e às pessoas, seria a maneira sugerida à narradora para superar a dor, evitar o sofrimento. O conhecimento da dor90 a angustiava. Em oposição à narradora, encontra-se Giulia, que desenvolvera uma técnica para não sofrer: tornara-se refratária aos sentimentos, ou seja, se ausentava do mundo, tornando-se indiferente a todos e a tudo. Seu comportamento lembra o de um psicopata: ela mostrava-se fria e sem sentimentos genuínos para com as outras pessoas, conforme características apontadas por Ana Beatriz B. Silva em seu livro Mentes perigosas. 91 O comportamento de Giulia, de procurar não sentir emoções, para evitar o sofrimento, encontra eco na personagem Ada, a narradora do próximo conto a ser analisado: “Lenzuola di lino”. 2.2.7 “Le lenzuola di lino”: para se vingar de uma traição No conto “Le lenzuola di lino” (Os lençóis de linho) Ada, a narradora- protagonista, fala de sua relação com o marido, Giorgio, e sua amante, Elena. A protagonista inicia a narrativa contando que encontrara um buraco grande em seus lençóis de linho que, seguramente, tinha sido feito por Elena, com “le sue maledette sigarette”92. Opina que Elena fizera o dano de propósito, porque sabia o 90 O conhecimento da dor (La cognizione del dolore, 19 ) é o título de um romance de Carlo Emilio Gadda. 91 “Tendência à psicopatia pode ser detectada, diz médica”. In: Folha.com. http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u532974.shtml. Acesso em 12 de junho de 2011. 92 “[...] os seus malditos cigarros” (MM, p. 70) 79 quanto ela, Ada, era ciosa de sua roupa de cama e que os lençóis faziam parte de seu enxoval de casamento. E, “appunto perché lo sa, mi fa di questi dispetti”. Em seguida, a protagonista refere-se a seu marido, Giorgio, que “appena sveglio, ha chiamato, come al solito, per il caffè93 (MM, p.61): Io ero già in cucina a prepararlo. “Vengo”, ho gridato e mi sono affrettata a tirare fuori le tazzine della credenza. Ho bollito il latte, ho tagliato quattro fette di pane, ho messo ogni cosa sul vassoio e mi sono avviata verso la camera da letto. Ho spinto la porta col ginocchio. Giorgio e Elena erano a letto e mi guardavano avanzare col vassoio tra le mani.94 (MM, p. 61) Na narrativa ainda não indício de que o costumeiro serviço de café na cama destinava-se a seu marido e à amante; induz a pensar que se trata de uma empregada doméstica a atender seus patrões: “Giorgio era seduto, la testa arruffata appoggiata contro la testiera, il pigiama aperto sul petto peloso. Elena era ancora sdraiata. La sua grossa testa tonda sporgeva dal lenzuolo, ancora rattrappita dal sonno.”95 (MM, p. 61-2) A seguir, a narradora começa a caracterizar Elena, a amante: uma mulher completamente despreparada para a vida, que não possuía qualquer habilidade, não sabia fazer nada, dormia o dia inteiro, fumava muito, e estragava todos os seus lençóis de linho. Aliás, era justamente o fato de Elena destruir os lençóis de linho de que mais incomodava Ada. De resto, segundo a protagonista, era como se não estivesse ninguém ali em sua casa. Mas, percebe-se que Ada dissimulava seus sentimentos, ao demonstrar preocupar-se e sentir ciúme somente de seus lençóis. Assim, como acontece muitas vezes fora do mundo ficcional, no chamado mundo real, a narradora-protagonista não conseguia, ou não queria tomar 93 “É justamente por isso que faz este tipo de coisa só para me chatear.” (Ibidem) 94 Eu já o estava preparando na cozinha. “Já vai”, gritei, e tirei às pressas as xícaras do aparador’’. “Fervi o leite, cortei quatro fatias de pão, coloquei tudo na bandeja e me encaminhei para o quarto de dormir. Empurrei a porta com o joelho. Giorgio e Elena estavam na cama e me olhavam avançar com a bandeja nas mãos. (Ibidem) 95 “Giorgio estava sentado, a cabeça apoiada na cabeceira com os cabelos desgrenhados, o pijama aberto sobre peito peludo. Elena estava ainda deitada. Sua cabeça maciça e redonda aparecia por cima do lençol, ainda encolhida pelo sono.” (Ibidem) 80 consciência de quanto era aviltada pelo marido, que a chamava de “topolino”, contrariando-a: Gli ho detto tante volte di non chiamarmi topolino. Ma lui non tiene conto di quello che gli dico. [...] “Cosa ci fai oggi per pranzo, topolino?” “Ti prego di non chimarmi topolino.” “Sono tuo marito o no?” “Che c’entra?” “Beh, un marito ha il diritto di chiamare sua moglie come vuole.”96 (MM, p. 62) Ela também não conseguia perceber que o marido a tratava com desconsideração e desrespeito. Além de servi-lo, a obrigava a amante. Tomava Ada como uma sua propriedade. Sentia-se no direito de tratá-la e chamá-la como quisesse: “Siediti qui, topolino.” “Ho già mangiato;” “Beh, siediti lo stesso e dimmi cosa hai sognato stanotte.” “Io non sogno mai.” “Non è possibile.” “Mai, mai, mai.” “É un brutto segno.” “Perché?” “Vuol dire che non hai niente dentro”97. (MM, p. 62-3) Nunca sonha. Não sente desejos. Mostra-se conformada com sua condição, anômala. 96 “Já falei um monte de vezes par a não me chamar de ratinho. Mas ele não dá importância àquilo que lhe digo.” “Qual é o almoço que vai fazer para nós, hoje, ratinho?” “Por favor, não me chame de ratinho.” “Sou seu marido. Ou não sou?” “E daí?’’ “Bom, um marido tem o direito de chamar a mulher do jeito que quiser.” (MM, p. 71) 97 “Sente-se aqui, ratinho.” “Já comi.” “Bem, sente-se mesmo assim e me conte o que você sonhou esta noite.” “Eu nunca sonho.” “Não é possível” “Nunca, nunca, nunca” “È um mau sinal” “Por quê?” “Quer dizer que você não tem nada por dentro”. (MM, p. 7) 81 Começa a narrar o momento em que o seu marido a apresentou à amante, sem demonstrar qualquer constrangimento, mas certa euforia: Ricordo ancora il giorno che l’ha portata in casa. Ha aperto la porta tenendola per mano. Era molto allegro ed eccitato. “Ada, ti ho portato un’amica,” ha detto. “Amica di chi?” “Tua e mia. Da oggi abiterà com noi.” “Ma io non la conosco.” “Avrai tempo di conoscerla.” “Dove dormirà?” “Nel letto grande, con me. Ti secca?” “Nel letto grande? Fra le mie lenzuola di lino?” “Se preferisci, comprerò delle lenzuola di cotone.” “No, no. Tiene pure quelle di lino” “Tu puoi dormire in salotto, nel divano letto.” “È molto duro quel letto.”98 (MM, p.63-4) É absurda a reação da protagonista, que, aparentemente se preocupa somente com seus lençóis de linho e o fato de ter de dormir em um sofá-cama duro. Giorgio diz que Elena a ajudaria a cozinhar e a manter a casa em ordem. Ou seja, que a amante lhe seria muito útil. Mas, que teria de ter paciência, porque ela não estava habituada a trabalhar e passava o dia inteiro dormindo. Até esse momento, a narradora-protagonista ainda não havia olhado para a intrusa: L’idea che dovesse adoperare le mie lenzuola di lino, mi irritava. Speravo non guardandola, di farla sparire. Ma era lì, lunga e bianca e scuoteva il capo a ogni parola di Giorgio. Allora ho alzato la testa per osservarla bene. Per prima ho incontrato i suoi larghi e tranquilli occhi azzurri che mi fissavano curiosamente. Eccetto quegli occhi quasi 98 “Lembro ainda do dia em que ele trouxe para casa. Abriu a porta, de mão dada. Muito alegre e excitado.” “Ada, trouxe uma amiga para você’’, falou. ” “Amiga de quem?” “Sua e minha. De hoje em diante vai morar conosco.” “Mas eu não a conheço.” “Você terá tempo para conhecê-la.” “Onde vai dormir?” “Na cama de casal, comigo. Isso lhe aborrece?” “Na cama de casal? Nos meus lençóis de linho?” Se preferir comprarei lençóis de algodão.” “Não, não, pode ficar com os de linho.” “Você pode dormir na sala, no sofá-cama.” “Aquela cama é muito dura.” (MM, p. 720) 82 spropositati, la sua faccia non ha niente di speciale: è tonda, bianca, con ti tratti regolari. Il corpo assomiglia alla faccia: grassoccio, pulito, di taglia normale.99 (MM, p. 64) Mas, quando a olha, examinando-a, com certeza na tentativa de encontrar nela algum atrativo especial, vê uma mulher comum. Naquela noite, o marido ficou em casa para ajudar na preparação de uma torta; abriu um champanhe para festejar o acontecimento. Elena bebeu duas taças, se embriagou e Giorgio a levou para a cama, nos braços. Depois, chamou a mulher para ajudar a desvestir a amante: E così l’ho vista nuda. Col vestito le avrei dato ventotto anni, senza vestito né dimostra dieci di piú. Non so perché, mi ha fatto piacere che fosse piú vecchia di me. Ho dato un ultimo sguardo alle mie delicate lenzuola di lino ricamate a mano e me ne sono uscita lasciandoli soli.100 (MM, p.64-5) Perceber que a amante era mais velha do que ela, lhe dá certo prazer. Afinal, o marido, como acontece com a maior parte dos homens, não seguira a norma social e não a trocara por uma mulher mais jovem. Elena não ajudava Ada em nenhum trabalho da casa: Di solito passa la giornata a leggere i fumetti sdraiata sul letto o a laccarsi le unghie o a spazzolarsi i capelli. Alle volte si addormenta e allora non la sento piú fino alle sette, ora in cui deve rientrare Giorgio. Poco prima che lui arrivi, Elena si veste in fretta e furia, si trucca, si pettina, si infila le scarpe coi tacchi alti e appena lui apre la porta, gli corre incontro con dei gridi di gioia.101 (MM, p. 65) A protagonista trabalha o dia inteiro, enquanto a amante de seu marido 99 “A simples idéia que usaria meus lençóis de linho me irritava. Eu tinha a esperança que, não olhando para ela, poderia fazê-la desaparecer. Mas lá estava ela, comprida e branca, sacudindo a cabeça para observá-la bem. A primeira coisa que vi foram seus olhos azuis, grandes e tranquilos, que me fixavam com curiosidade. Tirando aqueles olhos quase exagerados, seu rosto não tem nada de especial: é redondinho, branco, com traços regulares. Seu corpo se parece com o seu rosto: gorducho, limpo, de estatura normal.” (MM, p. 73) 100 “Foi assim que a vi nua. Vestida, dava-lhe vinte e oito anos; sem roupa me pareceu dez anos mais velha. Não sei por que, gostei de saber que ela era mais velha do que eu. Dei uma última olhada nos meus delicados lençóis de linho bordados à mão e fui embora deixando-os a sós.” (Ibidem) 101 “Geralmente, passa o dia lendo histórias em quadrinhos deitada na cama ou passando esmalte nas unhas, ou escovando os cabelos. Às vezes adormece, então não a ouço mais até as sete, a hora em que Giorgio costuma voltar. Pouco antes da volta dele, Elena se veste depressa, se maquia, se penteia, calça os sapatos de salto alto; assim que ele abre a porta, corre ao seu encontro com gritinhos da alegria.” (MM, p. 73-74) 83 descansa para, mais tarde, se embelezar e receber Giorgio no seu retorno a casa. Às vezes, saíam os três juntos. Giorgio procurava manter as aparências e tratava Ada com simulado respeito, como um fiel e dedicado marido. Andava de braço dado com a narradora, lhe sussurrava coisas divertidas aos ouvidos, por exemplo. Elena ia sempre atrás do casal, devagar, meio emburrada. Quando encontravam algum conhecido na rua, Giorgio apresentava a amante como uma prima viúva de sua mulher. Dizia que ela não tinha outros parentes, justificando o porquê de estar morando com o casal. A amante mantinha-se calada e apenas sorria. No entanto, quando chegavam em casa, tudo voltava ao estado anterior: Giorgio não olhava mais para Ada, quase não lhe dirigia a palavra, exceto para fazer Elena rir, por exemplo quando chamava a esposa de ratinho. E a amante, segura de si, “si sdraia sul letto con i suoi fumetti e pretende che io corra a portarle un bicchiere di latte gelato quando ha sete.”102 (MM, p. 66) A protagonista diz não acreditar que Elena a quisesse expulsar de casa, porque, se isso acontecesse não se sustentaria ali. Afinal, não sabia fazer nada. Mas, confessa que ficava absolutamente aborrecida com o fato de ela queimar seus lençóis de linho. Por isto, às vezes ameaçava ir-se: “Se continui a fare buchi nelle lenzuola di lino, me ne vado di casa”, le ho detto in un momento di rabbia. “Non dirlo. Giorgio se seccherebbe moltissimo.” “Che si arrangi.” “Ma è tuo marito.” “Che può farmi?” “Può denunciarti per abbandono del tetto coniugale.” “Credi che Giorgio si addolorerebbe?” “Non lo so. Ma se te ne vai, io non posso piú vivere con lui.” “Perché?” “Non siamo sposati.” “Beh, che importa?” “Capirebbero subito che siamo amanti.” “E alora?” 102 “[...] se deita na cama com seus gibis e quer que eu corra para trazer-lhe um copo de leite gelado, quando está com sede.” (Tradução da autora) 84 “Non mi va. Cosa direbbero i vicini?” “Io sí. Non mi va di passare per una amorale.”103 (MM, p. 66) Mas era só ameaça, porque a narradora-protagonista não conseguiria viver sozinha. Via-se, somente, como dona-de-casa, a serviço do marido. Com a ameaça de ir-se de sua própria casa, queria, somente, provocar Elena, a “outra”, uma mulher indolente, ociosa. A amante tentou convencer Ada a ficar, dizendo que Giorgio se aborreceria – não por sentir a sua falta, mas porque ela, a amante, também o deixaria – e poderia acusá-la de abandono do lar. A justificativa de Elena é estapafúrdia: teria também de ir-se, porque não gostaria que os vizinhos descobrissem que ela e Giorgio eram amantes. Pausa, para olharmos as personagens, sob o ponto de vista da narradora: a personagem da amante é caracterizada como indolente, ociosa, sensual e falsa moralista, tendo uma formação cultural precária (só lê quadrinhos); a personagem Giorgio é amoral, autoritária, dominadora, desrespeitosa, que vê a mulher como um ser subalterno, inferior. A narradora-protagonista é mostrada como uma personagem feminina que não protesta, não se rebela, não tem paixões, nem ânimo, nem vida; nela observa-se a ausência de moral, a carência de paixão, de determinação, faltalhe consciência. Voltando ao texto, na conversa entre as mulheres fica evidente que era importante a permanência de Ada, na qualidade de serva do marido e da amante. Apesar de toda desconsideração por parte do marido, da humilhação de ter de 103 “Se você continuar a furar meus lençóis de linho, vou embora”, disse-lhe num momento de raiva. “Não diga isto, Giorgio ficaria chateadíssimo.” “Que se vire.” “Mas é seu marido.” “O que poderia me fazer?” “Pode denunciar você por abandono do teto conjugal”. “Você acha que Giorgio ficaria triste?” “Não sei. Mas se você for embora, eu não posso mais viver com ele.” “Por quê?” “ Nós não somos casados.” “E qual é o problema?” “Saberiam logo que somos amantes” “E daí?” “Não me agrada. O que diriam os vizinhos?” “E quem se importa com os vizinhos?” “Eu me importo. Não gosto de passar por uma amoral.” (MM, p. 74-5) 85 suportar e servir a amante dele em sua casa, a narradora considerava que seu lugar era ali: “[...] Giorgio é mio marito e credo che il mio posto sia accanto a lui. Se dico che me ne vado, lo faccio per spaventare Elena. Mi piace per una volta vederla farsi attenta e seria mentre le parlo.”104 (MM, p. 66) Segundo Aldo Carotenuto (2008, p. 27) existe um forte elemento que interfere na relação conjugal e pode obstaculizar a possibilidade de realização da mulher, a traição, “un aspetto doloroso e dibattuto della nostra vita, le cui implicazioni psicologiche sono bene illustrate dall’immagine di Giunone”105. Carotenuto informa que o mito descreve a belíssima Juno como uma mulher colérica e vingativa, características que parecem contradizer a imagem de “Anjo do lar”. De fato, as várias lendas nas quais Juno é protagonista a descrevem como ciumenta e inclinada à vingança, demonstrando que a traição era um desencadeador de sua ira, permitindo-lhe revelar o lado autêntico de sua personalidade. Quando era traída, tinha ataques de ira. Em nome do matrimônio, que para a deusa era uma religião, não hesitava em mostrar seu lado “negativo”. “Il tradimento, osservato da una particolare prospettiva, può rivelarsi funzionale allo sviluppo psicologico di un individuo e, più in particolare, di una donna”.106 A partir da afirmação do supracitado teórico, podemos concluir que Ada não sabia ou queria refletir sobre seu relacionamento, declaradamente falido, não tinha perspectivas para uma vida solo. Como dissera seu marido, ela “não tinha nada dentro”. Com relação à traição, costuma-se falar somente do traidor e de lançar sobre ele toda a culpa. No entanto, o discurso se mostra muito mais complexo: ou seja, é necessário levar em conta o vivido e a situação interna do traído (Idem, p. 30) 104 “[...] Giorgio é meu marido e acho que meu lugar seja ao lado dele. Quando digo que vou embora, é para assustar Elena. Gosto, ao menos uma vez, de vê-la ficar atenta e séria enquanto falo.” (Tradução da autora) 105 “Um aspecto doloroso e debatido de nossas vidas, cujas implicações psicológicas são bem ilustradas pela imagem de Juno.” (Tradução da autora) 106 “A traição, observada sob determinada perspectiva, pode-se revelar funcional ao desenvolvimento psicológico de um indivíduo e, mais em particular, de uma mulher.” (Tradução da autora) 86 E a narradora finge não enxergar que está sendo aviltada e projeta sua indignação no fato de ter seus lençóis destruídos. O desfecho do conto não surpreende. A narradora segue a sugestão dada pelo marido e decide pedir-lhe “che si compri un paio di lenzuola di cotone per il letto dove dorme con Elena” porque não suportava que os seus “lenzuola di lino vengano ridotte a brandelli”.107 (MM, p. 67) Temos, também neste conto, um estado de letargia: a personagem-narradora, que não conhece alternativa à vida conjugal, fecha os olhos aos desmandos do marido. Não produz uma resposta emotiva lógica. Quanto a Elena, que parece ser uma mulher liberada, ao aceitar viver com Giorgio sem demonstrar constrangimento com a presença da esposa do amante, também se mostra uma mulher preocupada com a opinião pública. A mesma preocupação com o possível julgamento da sociedade é verificada em relação a Giorgio que, ao sair com as mulheres, mantém a amante em segundo plano e a apresenta como uma mulher desprotegida, que fora amparada por sua esposa. A traição, tema também dos contos “L’altra famiglia” e “Il quaderno rosso”, ganha em “Le lenzuola di lino” matizes diferentes, mas aponta, novamente, para o desgaste da relação conjugal, para um relacionamento que já não se sustenta. Geralmente, a traição se verifica a partir do momento em que ocorre uma estagnação no relacionamento. E tal estagnação deriva de uma impossibilidade de o casal se comunicar, de uma dificuldade no relacionar-se. Ou seja, aquele que será traído se torna progressivamente menos significativo aos olhos do outro. No entanto, o traído mesmo conseguindo perceber a metamorfose por que seu relacionamento passa, não consegue intervir e mudar a situação, afirma Carotenuro (Ibidem). A traição, uma verdadeira doença, como sustenta Carotenuto (2008, p.35-36) comporta “una sorta di strattone che modifica la situazione in maniera radicale ma 107 “Que compre lençóis de algodão para a cama onde dorme com a Elena.” “[...] lençóis de linho sejam reduzidos a frangalhos.” (MM, p. 75) 87 che, al contempo, apre a nuove possibilità di sviluppo.”108 A mulher que encontra a coragem e a força para superar todo o mal-estar que uma situação drástica (a traição, no caso) comporta, se torna uma pessoa completamente diferente. Ou seja, a mulher que aceita tomar as rédeas da própria vida se encontra em uma situação bem diferente da que aceita passivamente uma relação que não funciona mais, somente para permanecer fiel aos cânones externos (CAROTENUTO, 2008, p.36-7). Ada não procura tornar-se senhora de seu destino, por motivos que somente o teórico Aldo Carotenuto – uma das figuras mais importantes do “Junguismo” internacional – poderá explicar. O teórico (2008, p.35) explica que a nossa dimensão psíquica é composta e multifacetada, constituída de diferentes níveis, mais ou menos evoluídos, arcaicos, primitivos ou elevados. E, entre estes diferentes níveis, existe um que, uma vez atingido, nos coloca a sobrevivência como o único e prioritário valor, custe o que custar. A grande desordem que se experimenta, quando somos traídos, decorre do fato que estamos habituados desde o momento de nosso nascimento a existir em função de algum outro que pensa em nós. Ou seja, até o momento em que nossa existência é materializada na mente de alguém, estamos certos de viver. A personagem Ada continua a viver em função de Giorgio e do seu amor, agora materializado na amante. Encontra um mecanismo de sobrevivência à dor da perda do amor do marido. O mecanismo de sobrevivência à dor de uma perda também será encontrado na personagem Marco, a ser apresentada no conto que se segue. 2.2.8 “Marco”: um refúgio no jardim No oitavo conto, a narradora fala de sua relação conjugal com Marco, com quem se casara quando ele ainda frequentava a universidade, faltando-lhe dois anos 108 “Um tipo de sacudida que modifica a situação de maneira radical, mas que, em compensação, se abre a novas possibilidades de desenvolvimento.” (Tradução da autora) 88 para completar o curso de engenharia. Conta um fato curioso: o rapaz sentia enorme atração pelos pés da narradora, sendo capaz de permanecer imóvel na cama, durante horas, segurando-os sobre o peito, para poder apreciá-los melhor: Io infatti ho dei piedi molto belli, lunghi e duri, come due piccoli cadaveri conservati sotto ghiaccio. Hanno anche la pesantezza e l’immobilità dei cadaveri. Si può dire che cammino con le gambe ma non con i piedi: cioè i piedi si muovono ma come se fossero due pezzi di marmo infissi in fondo alle caviglie. (MM, p. 69)109 Opina Marco que os pés da narradora o faziam lembrar de uma estátua que havia no jardim da Lombardia, no qual passara a sua adolescência: “mi piaceva guardarli” [os pés da estátua]. “Qualche volta, quando ero sicuro di non essere visto da nessuno, mi chinavo a baciarli e li leccavo anche un po’.” (MM, p. 70). Ou seja, Marco mostrava ter fetiche pelos pés da estátua/ narradora. Quando não estava a olhar os pés de sua mulher, o rapaz dormia ou, com os olhos fechados, contava à narradora as suas recordações de infância. “Marco viveva per ricordare”, dizia ela. La sua testa era sempre ingombra di ricordi, memorie, fatti e persone del passato. Al futuro non ci pensava mai e il presente lo stupiva soltanto come una cosa penosa e assurda. Appena poteva, si rivolgeva al passato e si dimenticava completamente di quello che stava facendo in quel momento. (MM, 70)110 Ou seja, era uma pessoa que vivia da lembrança do tempo passado e mal dava atenção à própria mulher. Em função de tantas recordações, memórias, fatos e pessoas do passado, Marco ia mal nos estudos e, por isto, seu pai, um engenheiro, ameaçava reduzir-lhe a mesada. O rapaz não se importava com tais ameaças e continuava a falar de seu 109 De fato, meus pés são muito bonitos, compridos e duros, como dois pequenos cadáveres conservados no gelo. Eles têm até o peso e a imobilidade dos cadáveres. Pode-se dizer que ando com as pernas, mas não com os pés; isto é, os pés se mexem como se fossem dois pedaços de mármore fixados aos tornozelos. (MM, p. 76) 110 Sua cabeça estava sempre entulhada de lembranças, memórias, acontecimentos e pessoas do passado. Nunca pensava no futuro e o presente somente o deixava pasmo, como algo penoso e absurdo. Quando possível, voltava ao passado e esquecia o que estava fazendo naquele momento. (Ibidem) 89 passado, de sua infância, de suas recordações e, principalmente, de sua mãe, que era “la donna della statua, soltanto piú matura. Quando me ne parlava, gli si rallegravano gli occhi”. (MM, p. 70)111 “Sai com’era mia madre? “Lo so, bellissima.” “No. Era senza peso. Quando è venuta la guerra è volata via.” “È morta?” “No. È sparita. Non lo so se è morta. È scomparsa. Ma a quei tempi rassomigliava ancora alla statua. Era giovane e bella. Anche se portava degli orrendi vestiti a fiori neri.” “Che faceva tua madre?” “Niente. Stava sempre sdraiata su uma sedia a strisce e leggeva um giornale o guardava nel vuoto com un’aria insoddisfatta.” (MM, p.71)112 Segundo a narrativa, a mãe de Marco apresentava o mesmo comportamento ocioso das “Elenas”, a de “Il quaderno rosso” e a de “Le lenzuola di lino”, que passavam o dia a folhear revistas ou gibis, denotando que nenhuma delas se inseria no mercado produtivo nem possuía boa formação literária. E todas eram sustentadas pelos maridos. Como Marco decididamente não estudava, teve sua mesada reduzida, por isto, a narradora precisou empregar-se. Sozinho, em casa, quando queria falar com sua mulher sobre suas recordações e alucinações, Marco lhe telefonava. Passava parte de seu tempo olhando para a parede, projetando as suas imagens de passado. Mostrava sentir um amor doentio pela figura da mãe, a qual considerava belíssima. Relata à mulher algumas experiências vividas, bastante eróticas, certamente só acontecidas em sua mente, envolvendo sua mãe. Sugere, por 111 A mulher da estátua, somente mais madura. Quando falava dela, seus olhos brilhavam. (Tradução da autora) 112 “Sabe como minha mãe era?” “Sei. Lindíssima.” “Não. Não tinha peso. Quando veio a guerra, levantou vôo.” “Morreu?” “Não. Desapareceu. Não sei se está morta. Desapareceu, Mas naquela época ainda se parecia com a estátua. Era jovem em bonita. Apesar de vestir roupas horríveis com estampados de flores pretas.” “O que fazia sua mãe?” “Nada. Ficava sempre deitada numa cadeira listrada e lia um jornal ou olhava para o vazio com ar insatisfeito.” (MM, p. 77) 90 exemplo, que, quando menino, ela o deixava excitado com “l’abitudine di mettermi le dita in bocca.” (MM, p.72)113 “Mia madre. Per vedere se avevo messo dei denti nuovi. Io mi vergognavo un po’, specialmente quando lo faceva davanti a mio padre, ma mi piaceva sentire le sue mani grassocce in bocca. Prima infilava un dito, lo faceva scivolare lungo le gengive, tastando, spingendo, poi un altro, poi un altro ancora. Quando tirava fuori la mano tutta bagnata di saliva, diventavo rosso e scappavo. Lei rideva. Mi dava un colpo sulla testa e rideva.” (MM, p. 73)114 E contava, sempre, histórias sobre sua mãe: “Non c’è fine a quello che potrei raccontarti di lei.” 115(MM, p. 73). Sempre que se deitavam, Marco tomava os pés da narradora entre as mãos, os acariciava, beijava, de olhos fechados, como se dormisse. Quando a narradora lhe perguntava: “A che pensi?”, ele respondia: “A quando ero ragazzo”. E ela, então, concluía: Perché non pensi a ora, a me. “Sei un uomo ormai.” (MM, p.74).116 Apesar do apelo da mulher, Marco justificava sua preferência pelo passado: “Perché non pensi a me? Io sono qui. La tua infanzia è morta ormai.” “Certe cose non muoiono mai.” “Io invece non mi ricordo niente di quando ero piccola.” “Tu infatti vivi nel presente e non sei felice. Solo il passato dà felicità.” “Cosa c’è di bello a ricordare?” “È la cosa piú bella del mondo. Quando ricordo vivo, quando non ricordo sto male; mi sembra di essere già morto.” ‘Ma perché?” “Perché il presente è soltanto quello che è, mentre il ricordo è sempre qualcos’altro.” “Ma cosa?” “Una deformazione deliziosa che mi fa girare la testa.” (MM, p. 75)117 113 “[...] com o hábito de colocar seus dedos na minha boca.” (Tradução da autora) 114 “Minha mãe. Para ver se tinha nascido algum dente novo. Eu ficava envergonhado, especialmente se o fazia na frente do meu pai, mas gostava de sentir suas mãos gorduchas na boca. Começava por enfiar um dedo, o fazia deslizar ao longo da gengiva, apalpando, empurrando, depois enfiava outro dedo, depois mais um. Quando retirava a mão toda molhada de saliva, eu ficava vermelho e fugia. Ela ria. Dava-me uma palmadinha na cabeça e ria.” 115 “Não tem fim o que eu poderia contar sobre ela.” (Tradução da autora) 116 “Em que está pensando?” “No tempo de menino.” “Você já é um homem.” (Tradução da autora) “Por que não pensa em mim? Eu estou aqui. A sua infância já morreu.” 117 91 Marco vivia de memória, preso ao passado, deformando a realidade. Certa vez, enquanto estavam deitados na cama, nus, com a personagem masculina em sua costumeira adoração aos pés da narradora, o casal é surpreendido pela presença do pai de Marco, no quarto. Tinham-se descuidado e deixado a porta de entrada da casa aberta. Estabelece-se uma situação tensa. A narradora se cobre rapidamente; Marco permanece na mesma posição, sem moverse, e pergunta o que queria “aquele idiota”. O pai começou a gritar; gritava tanto que dificultava a compreensão daquilo que dizia. A seguir, começou a esmurrar os móveis; quebrou o espelho grande; derrubou a escrivaninha e todos os livros do filho; com uma cadeira na mão, lançou-se contra Marco. “Sei un vecchio idiota.”118, disselhe o rapaz com voz calma e raivosa, fazendo-o parar. “[...] mio figlio è morto,” diceva fra i singhiozzi, “il mio Marco è morto, non lo vedrò piú, è finito tutto.” “Vai a piangere da qualche altra parte, coccodrillo,” gli ha gridato Marco in un orecchio. Il vecchio si è alzato, si è asciugato gli occhi con un lembo del lenzuolo ed è uscito, sempre farfugliando fra i denti che suo figlio era morto ed era finito tutto. (MM, p. 76-7)119 Desde então, o pai cortou completamente a ajuda financeira ao casal, que teve de passar a viver às expensas próprias, isto é, com o dinheiro que obtivesse a narradora, visto que Marco não trabalhava e, também, não se dedicava aos estudos. Durante algum tempo, viveram do dinheiro obtido com a venda dos móveis da casa; depois, a narradora empregou-se em uma agência de viagem, aonde Marco ia todos “Certas coisas não morrem nunca.” “Eu, ao contrário, não lembro nada de quando era criança.” “De fato, você vive no presente e não é feliz. Só o passado dá felicidade.” “O que há de bom em lembrar?” “É a coisa mais linda do mundo. Quando lembro, vivo; quando não lembro, fico mal: parece que já estou morto.” “Mas, por quê?” “Porque o presente é somente aquilo que é, enquanto a recordação é sempre uma outra coisa.” “Mas, o quê?” “Uma deformação deliciosa, que me deixa tonto.” (Tradução da autora) 118 “Você é um velho idiota.” “Meu filho está morto”, dizia entre soluços, “o meu Marco morreu, não o verei nunca mais, tudo se acabou." “Vá chorar em outro lugar, seu crocodilo”, gritou Marco no ouvido do pai. O velho se levantou, enxugou os olhos numa ponta do lençol e saiu, sempre resmungando que seu filho estava morto e tudo tinha se acabado. (Tradução da autora) 119 92 os dias buscá-la na hora da saída. Não estudava. Estava sempre deitado na cama, com o olhar vazio. Um dia, sentiu uma forte dor na cabeça e teve alucinações que o remeteram ao jardim no qual passara sua infância, na Lombardia, com a estátua que lembrava sua mãe. Ficou visivelmente transtornado. Quella sera, quando l’ho visto all’uscita dell’ufficio, venirmi incontro sulla strada, ho capito che stava male. Aveva la faccia storta, gli occhi arrossati e gonfi, le mascelle contratte. “Non vuoi che andiamo al cinema per distrarci un po’?” “No.” “Cosa vuoi fare?” “Andiamo a casa.” “Si sta male in quella piccola stanza, con questo caldo.” “Vieni, voglio mostrarti qualcosa.” A casa, mi ha fatto sedere sul letto e mi ha messo in mano un libro. L’ho aperto. In prima pagina, sotto il titolo, una mano infantile aveva scritto il proprio nome e la data: Marco Annoni, 1° giugno 1942. Sotto, incollata, c’era una fotografia sbiadita; una faccia magra e triste dalla fronte aggrottata; due lunghi occhi chiari e tristi. “Sei tu?” “Non sarò mai piú cosí.” “Perché vorresti essere cosí? Adesso sei meglio. Sei un bell’uomo.” “Mio padre ha ragione; Marco è morto.” “E tu chi sei?” “Un’escrescenza, una cosa che non mi riguarda, un’appendice ridicola.” “E io non esisto?” “Non esistiamo né tu né io. La nostra vita è lugubre, triste, insensata. È comune, simile a tutte le altre. Quando ero bambino ero diverso, ero unico. Adesso faccio schifo.” “Non mi vuoi bene?” Invece di rispondermi, Marco si è seduto per terra, mi ha denudato i piedi, se li è presi in mano e ha cominciato a leccarli. (MM, p.7879)120 120 Naquela noite, quando o vi na saída do escritório, vindo ao meu encontro na rua, me dei conta de que estava mal. Tinha o rosto retorcido, os olhos vermelhos e inchados, o maxilar contraído. “Não quer ir ao cinema, para nos distrairmos um pouco?” “Não.” “O que quer fazer?” “Vamos para casa.” “É chato ficar naquele quartinho, com este calor.” “Venha, quero lhe mostrar algo.” Em casa, me fez sentar sobre a cama e me pôs um livro na mão. Abri. Na primeira página, sobre o título, uma mão infantil tinha escrito seu nome e a data: “Marco Annoni, 1º de junho de 1942”. Embaixo, grudada, havia uma fotografia desbotada: um rosto magro e triste com a testa franzida; dois olhos alongados, claros e tristes. “É você?” “Nunca mais serei assim.” 93 Lambeu os pés da narradora, exatamente como dizia fazer com a estátua, na infância, quando não era observado. Ou seja, Marco associava os pés da narradora aos da estátua que, por sua vez, simbolizavam os pés de sua mãe, os quais ele beijava e, às vezes, lambia. Sofria de podolatria. Dois dias mais tarde, ele contou à mulher que tivera uma grande e terrível alucinação com sua mãe, na qual ela o acusava: “Se tu non fossi cresciuto, piccolo egoista, tutte queste rovine non ci sarebbero state.Tutti questi orrori non sarebbero successi. Adesso sono sfigurata e decomposta. Se tu non fossi cresciuto, tutto sarebbe rimasto come prima”. (MM, p. 80)121 Contou, também, que havia sentido vontade de chorar, de gritar e de assumir a sua culpa, que o atormentava; disse que, caso pudesse, teria dado a própria vida para voltar ao passado e devolver a juventude à mãe. Mas, como não conseguira pronunciar sequer uma palavra, a mãe voltou-lhe as costas, com raiva, e foi embora. A narradora, que ficara apreensiva com o estado físico e mental do marido, decidiu procurar o sogro, para conversar. Mas, antes que pudesse concretizar o seu objetivo, dois dias depois, durante seu expediente, recebeu um telefonema, informando que Marco se matara, jogando-se da janela. Talvez para recuperar o passado, voltando ao jardim de sua infância, sentindo a mão da mãe percorrer-lhe a boca. Ele viveu para o passado; sua esposa, ao contrário, vivia somente para o presente. Depois da morte de Marco, a narradora voltou a morar com a irmã e, como “Por que gostaria de ser assim? Agora é melhor. Você é um homem bonito.” “Meu pai tem razão: Marco morreu.” “Então quem é você?” “Uma excrescência, uma coisa que não me diz respeito, um apêndice ridículo.” “E eu, não existo?” “Nem você nem eu existimos. A nossa vida é lúgubre, triste, insensata. É comum, parecida com todas as outras. Quando era criança era diferente, eu era único. Agora eu sou um traste.” “Você não gosta de mim?” “Em vez de responder, Marco sentou no chão, despiu os meus pés, segurou-os nas mãos e começou a lambê-los.” (MM, p.86) 121 “Se você não tivesse crescido, pequeno egoísta, todas estas desgraças não teriam ocorrido. Agora estou desfigurada e decomposta. Se você não tivesse crescido, tudo teria ficado como antes.” (MM, p. 87) 94 lembrança de seu casamento, guardou apenas o livro com a fotografia do marido, de quando ele era criança. No entanto, ela jamais olhava aquela foto. Dizia não ter memória e que não pensava jamais no passado. Neste conto, a exemplo do “L’albero di Platone”, a memória ocupa um espaço central, juntamente com o conceito de fetiche. Sobre o conceito de memória, recorremos a Walter Benjamin que, em seu livro Ensaios sobre literatura e história da cultura, afirma ser memória a mais épica de todas as faculdades. Ou seja, o autor afirma que somente uma memória abrangente permite à poesia épica apropriar-se do curso das coisas, por um lado, e resignar-se, por outro lado, com o desaparecimento dessas mesmas coisas, com o poder da morte. A partir desse conceito de memória é possível fazer-se uma relação com o conto Marco. A admiração que a personagem sente pelos pés de sua esposa nasce justamente no passado, a partir da memória afetiva que tem pela sua mãe. “A mulher mais bonita do mundo”, em sua opinião. A personagem passava horas a fio fantasiando a beleza de sua mãe aos dezessete anos: Mio padre era un uomo di campagna. Lei veniva da Milano. Aveva un’aria cittadina che intimoriva. Era una bellezza la mamma quando era ragazza e si portava dietro ogni settimana un uomo diverso. Aveva delle gonne larghe che quando faceva un movimento cascavano da una parte denudandole un poco le caviglie. (MM, p. 71)122 É possível observar a importância que o corpo da mãe exerce sobre a vida da personagem, um corpo tão forte que, apesar de morto, continua a dominar e a comandar a memória de Marco. E a memória que ele tem da figura materna será justamente o fio condutor de toda a narrativa, que consiste no eterno recordar da personagem, até chegar a um ponto que a leva à morte. Em contraposição à representação da figura forte da mãe, é possível observar a influência débil que a figura do pai exerce sobre Marco. Ou seja, apesar de estar 122 “Meu pai era um homem do campo. Ela vinha de Milão. Tinha um ar de urbanidade que intimidava. Quando moça, mamãe era uma beleza e arrastava atrás dela um homem a cada semana. Usava saias bem largas que, quando fazia um movimento, caiam de um lado, deixando aparecer um pouco dos tornozelos nus.”(MM, p. 78) 95 vivo e presente, não consegue impor-se. O rapaz via seu pai como um imbecil: “Mio padre è sempre stato uno scemo. Sai come la chiamava quando erano fidanzati? Micina. Si può essere più disgustosi? E credeva che lei lo sposasse per amore. Che idiota!” (MM, p.72)123 Na verdade, o rapaz sentia ciúmes do pai, porque amava sua mãe. Mesmo reprovando a atitude de Marco, que vivia das recordações da infância, da figura da mãe, o pai não era capaz de exigir do filho, que sustentava financeiramente, que se dedicasse aos estudos: “E suo padre, che era un ingegnere e lo manteneva, si arrabiava e lo rimproverava continuamente.” (MM, p. 70)124 Passando ao conceito de fetiche, o conto em estudo mostra a personagem Marco absolutamente ligada à memória da figura materna, com foco especial em seus pés, seu fetiche. Tal afirmação encontra respaldo na obra Delírios e sonhos na gradiva de Jensen, de Freud. O fascínio da personagem pelos pés de sua esposa, que eram idênticos aos de sua mãe, o classifica como um fetichista de pés, sua única fonte de prazer: “Marco si divertiva molto a guardare i miei piedi: era capace di stare immobile sul letto per delle ore, tenendo i miei piedi nudi sul petto e guardondoli da vicino. Io mi annoiavo un po’, ma lo lasciavo fare.” (MM, p.69)125 Ainda trabalhando com o conceito de fetiche, à luz de Freud, se poderia reiterar que a fixação e interesse dessa personagem pelos pés de sua esposa, pés longos e duros como dois cadáveres, se poderia classificar como uma erotomania fetichista. O comportamento de Marco, por conseguinte, acaba por ser diferente do de seres humanos ditos “normais”: não se interessava pela figura de sua mulher, que 123 “Meu pai sempre foi bobo. Sabe como a chamava quando eram noivos? ‘Gatinha’. Dá para ser mais nojento? E ele acreditava que ela estivesse se casando por amor. Que idiota!” (MM, p. 78-9) 124 E seu pai, que era engenheiro e o mantinha, se zangava e o repreendia constantemente. (MM, p. 76-7) 125 Marco divertia-se muito em olhar para meus pés: era capaz de ficar imóvel, deitado na cama, segurando meus pés nus contra o peito e observando-os de perto. Eu me entediava um pouco, mas o deixava à vontade. (MM, p. 76) 96 era o seu presente, mas sim pelos seus pés, o seu fetiche, que o transportavam ao passado: “Non mi vuoi bene?” Invece di rispondermi, Marco si è seduto per terra, mi ha denudato i piedi, se li è presi in mano e ha cominciato a leccarli. (MM, p.79)126 Conforme já foi mencionado, o interesse da personagem pelos pés de sua esposa está intrinsecamente ligado à lembrança de uma determinada estátua que simbolizava a sua mãe: “Marco diceva che i miei piedi gli ricordavano una statua che c’era nel giardino lombardo in cui aveva passato l’adolescenza”. (MM, p.70)127 Uma estátua cujos pés se pareciam com os da sua esposa e eram idênticos aos de sua mãe. Uma estátua “piccola e bianca, grassocia, con due bande di capelli che le coprivano le orecchie, il petto piccolo, le gambe massicce, i piedi bianchi e belli come i tuoi [da esposa], con una piccola gobba di carne sul dorso, proprio come te” (MM, p.70)128, explicava Marco à narradora a atração que sentia por seus pés. “Perchè ti piacevano quei piedi?”, pergunta a narradora, que nos enseja a volta à obra de Freud: A origem e a natureza das fantasias precursoras dos delírios: Elas são substitutos e derivados de lembranças reprimidas que não conseguem atingir a consciência de forma inalterada devido a uma resistência, por meio de mudanças e distorções, a censura da resistência. Uma vez realizada essa conciliação, as lembranças reprimidas transformam-se em fantasias que com facilidade poderão ser compreendidas erroneamente pela personalidade consciente. 129 Como se pode depreender da leitura da citação supra, tal fetiche era o álibi 126 “Não gosta de mim?” Em vez de responder, Marco sentou no chão, despiu os meus pés, segurou-os nas mãos e começou a lambê-los. (MM, p. 86) 127 Marco dizia que os meus pés lhe lembravam uma estátua que havia num jardim da Lombardia, onde tinha passado a adolescência. (MM, p. 77) 128 “[...] pequena e branca, gorduchinha, com duas madeixas lisas que lhe cobriam as orelhas, seios pequenos, pernas sólidas, pés brancos e lindos como os seus, com uma pequena gibosidade no dorso, exatamente como você.” (Ibidem) 129 FREUD, Sigmund. Delírios e sonhos na gradiva de Jensen. In: http://pt.scribd.com/doc/7370116/Sigmund-Freud-vol-09-Gradiva-de-Jensen-e-outros-trabalhos-rtf 97 usado por Marco, para ressuscitar o passado, através de sua imaginação. E a partir dessas imaginações inicia-se todo o processo de delírio do personagem. Ou seja, quando a consciência de Marco começa a se comportar como se, de fato, tivesse uma “dívida a pagar” a sua mãe, ele começa a piorar de seus delírios. É como se a sua consciência compreendesse erroneamente toda aquela fantasia que ele tinha com sua mãe. A partir desse momento, para Marco, somente o passado era verdadeiramente vivo e exprimia o propósito e o valor da vida. Recordar, dizia a personagem, “È la cosa più bella del mondo. Quando ricordo vivo, quando non ricordo sto male; mi sembra di essere già morto.” (MM, p.75)130 Enfim, o fetiche que o leva a viver somente de recordações do passado faz que ele passe a ter alucinações cada vez mais graves que culmina com a sua morte. O fetichismo é uma parafilia. O fetiche pelos pés, como o que sente a personagem Marco, é dos mais comuns na sociedade ocidental. O objeto do fetiche, os pés, é a representação simbólica de penetração, tem conotação sexual. O problema do fetiche é quando se torna a única forma de prazer ou quando se trata de uma obsessão, que leva à loucura e/ou à morte. Após conhecermos a complexa relação conjugal entre a narradora e Marco, passaremos a examinar o nono conto que compõe o nosso corpus, “Diario coniugale”, através do qual tomaremos conhecimento de outra relação conjugal, também bastante complexa. Comecemos, então, a ler esse instigante diário. 2.2.9 “Diario coniugale”: um registro de enganos “Diario coniugale”, o nono conto do livro que compõe o nosso corpus de análise, tem formato de diário. Nele, uma personagem anônima, de vinte e três anos 130 “É a coisa mais linda do mundo. Quando lembro, sinto-me vivo, quando não lembro, sinto-me mal: pareceme já estar morto.” (MM, p. 83) 98 de idade – casada com Giulio, estudante, de vinte e sete anos –, narra sua vida conjugal. No primeiro registro, feito no dia doze de fevereiro de um ano não especificado, a personagem-narradora anota “ci siamo sposati” (MM, p. 83)131. Escreve, também, que o pai de Giulio, que vivia na Sicília, lhes havia endereçado uma carta, amaldiçoando-os pelo casamento, fato ao qual não dera importância; afinal, somente ela trabalhava e, ademais, a casa onde viviam era sua. Na segunda anotação, datada de dezoito de fevereiro, a personagemnarradora descreve o marido, um homem que não trabalhava, a fim de se dedicar exclusivamente aos estudos. De fato, ele estudava horas a fio, mas nunca prestava os exames necessários à conclusão de seu curso; ignorava as cartas enviadas pelo pai, que o sustentava. Quando se comunicava com seu progenitor, o enganava, mentindo sobre o tempo que lhe restava para concluir o curso e sobre os resultados das provas já realizadas: “Per non perdere lo stipendio del padre, Giulio continua a scrivergli che studia, che dà esami. Il padre responde con lunghe lettere che lui butta nel cestino. L’importante è impadronirsi dell’assegno.” (MM, p. 83)132 Apesar de Giulio se dedicar com afinco aos estudos, em casa, nunca comparecia à universidade para realizar as provas. Na época prevista para os exames, sempre ficava nervoso e adoecia; tinha uma febre muito alta. No dia oito de março, ou seja, passados poucos dias de seu casamento, a narradora registra as alterações que verificara no comportamento de Giulio, que demonstrava não se sentir feliz; tornara-se nervoso e preguiçoso; quase não falava e não sentia desejo de fazer sexo. Os dias se seguem e, a cada registro, acompanhamos as descobertas da narradora, que reclama do volume de trabalho que tem e do baixo salário que recebe. Observando o marido, ela conclui que ele é uma pessoa completamente metódica e que faz sempre as mesmas coisas, da mesma forma; não gosta de 131 Casamo-nos. (MM, p.89) 132 Para não perder a mesada do pai, Giulio continua a lhe escrever dizendo que está estudando e prestando exames. O pai responde com longas cartas que ele joga fora na cesta do lixo. O importante é apoderar-se do cheque. (MM, p. 89) 99 mudanças em sua rotina e tampouco aprecia fazer programas culturais ou ter convivência social. Un altro mese. In ufficio le cose vanno male: il lavoro aumenta, la paga resta la stessa. Ho scoperto che Giulio è abitudinario. Gli piace fare sempre le stesse cose. Facciamo una vita regolare, monotona. Lui studia, io lavoro. La sera ceniamo in cucina e poi ci mettiamo davanti alla televisione. Niente amici. Niente cinema. Niente passeggiate. (MM, p. 84)133 Seguindo as anotações feitas pela protagonista, nos vários dias em que registra fatos de sua vida conjugal, descobrimos que Giulio já não lhe dava atenção, pois estudava ininterruptamente: “Se gli dico che è un marito freddo e scostante, non mi risponde. Se gli dico che ho voglia di fare l’amore, mi dice che dopo non riesce a studiare.” (MM, p. 84)134. Diz também que sexo é coisa de animais. Quando, argumentando, a esposa o lembra de que, antes de se casarem, ele não pensava desse modo, Giulio retruca: Prima di sposarci era giusto cosí. L’amore è come la fioritura degli alberi. C’è un momento che gli alberi diventano belli, profumati e si riempiono di fiori. È il momento dell’amore. Poi basta. Per un altro anno, non ci pensa piú. (MM, p.84)135 A narradora rebateu a argumentação, dizendo que eles não eram árvores. No entanto o marido não lhe deu importância, mas afirmou que a amava. Em função de estar sempre imerso em seus estudos, não tinha amigos, não se alimentava, não se banhava, nem comemorava as datas importantes como Natal, Ano-Novo ou os aniversários, dele e da esposa, por exemplo. No dia vinte de novembro, a narradora escreve que havia comemorado seu 133 Mais de um mês. No escritório as coisas vão mal: o trabalho aumenta, o salário continua o mesmo. Descobri que Giulio é habitudinário. Gosta de fazer sempre as mesmas coisas. Levamos uma vida regular, monótona. Ele estuda, eu trabalho. À noite jantamos na cozinha e, depois, sentamos em frente ao televisor. Nada de amigos. Nada de cinema. Nada de passeios. (MM, p. 89) 134 Se lhe digo que é um marido frio e arredio, não me responde. Se lhe digo que estou com vontade de fazer amor, me diz que depois não consegue estudar. (MM, p. 90) 135 Antes de nos casarmos estava tudo certo. O amor é como a florescência das árvores. Há um momento em que as árvores se tornam lindas, perfumadas e se enchem de flores. É o momento do amor. Depois, basta. Por mais um ano, não se pensa mais nisso. (MM, p. 90) 100 aniversário de vinte e três anos, ocorrido no dia anterior, na casa de sua irmã Agostina e que lá conhecera Candido, “che parla molto e fuma come un turco. Ha gli occhi celesti.” (MM, p. 86)136. Ele é pintor e só tinha dinheiro quando conseguia vender algum quadro. Vivia de forma precária. Logo se tornaram amantes. A narradora, diante da falência de seu casamento, procura refúgio em Candido, um homem que a trata de uma maneira completamente diferente de Giulio. Ou seja, Candido quer que ela fique sempre com ele, a enche de beijos, chora, ri e a diverte sempre. Enfim, parecia ser o companheiro ideal, que ela desejara: Candido vorrebbe che io stessi sempre con lui. Ma io devo lavorare. E poi devo badare a Giulio. Che senza di me non mangia, non beve, non dorme. Ma appena posso vado da Candido, nella cantina senza riscaldamento nè bagno. Facciamo l’amore su un materasso steso per terra, sotto una coperta piena di buchi. Mi parla con furore della sua pittura, mi riempie di baci, piange, ride. È un divertimento stare con lui. (MM, p. 86)137 Chega dezembro. Giulio se transformou, tornou-se grisalho. “Ha scritto a suo padre che ha dato quattro esami. Il padre congratula. Manda soldi. Scrive lunghe lettere che Giulio butta via senza leggere”.138 Os meses passam e Giulio já não saía de casa. “È diventato grassoccio e giallo.”139 E, como nunca se banhava, fedia “di sudore e di orina seca140” e a narradora, quando ele adormecia, o limpava exatamente como se limpa um doente acamado: enchia uma vasilha com água morna, umedecia um pano e lhe fazia o asseio. 136 [...] fala muito e fuma como uma chaminé. Tem olhos azuis. (MM, p. 91) 137 Candido gostaria que eu ficasse sempre com ele. Mas eu tenho que trabalhar. E também devo cuidar de Giulio. Que sem mim não come, não bebe, não dorme. Mas logo que posso vou visitar Candido, no porão sem aquecimento nem banheiro. Nos amamos sobre um colchão estendido no chão, sob um cobertor cheio de buracos. Ele me fala com entusiasmo de sua pintura, me enche de beijos, chora, dá risada. É divertido estar com ele. (MM, p. 92) 138 Ele escreveu a seu pai contando que havia prestado quatro exames. O pai se congratula. Manda dinheiro. Escreve longas cartas que Giulio joga fora sem ler. (MM, p. 91-2) 139 [...] gorducho e pálido (Ttradução da autora) 140 [...] a suor e a urina seca. (MM, p.94) 101 A narradora encontra-se com Candido, após seu expediente de trabalho. O marido não percebia, ou fingia não perceber, que a mulher chegava cada vez mais tarde em casa. Vinte de fevereiro. A narradora fala sobre o amante com Giulio, que lhe pede para “non rompergli le scatole, che deve studiare. E basta.” (MM, p. 87)141 Junho. Aproxima-se o período de exames. Giulio fica febril. Fra poco cominciano gli esami. Giulio non dorme quase più. È intrattabile. Beve caffè. Ha i capelli sporchi. Gli ho detto di lavarseli. Mi ha tirato una pantofola in testa. Non mangia. I panini al prosciutto che gli porto mentre studia li trovo dopo nel cestino della carta straccia. (MM, p. 85)142 Dia vinte e cinco de junho, têm início os exames. Giulio banhou-se e vestiu-se com esmero. Pegou seus livros, os cadernos e saiu. Ao voltar para casa, tinha um rosto cadavérico. Disse que havia feito as provas, mas, pelo seu abatimento, a protagonista pode perceber que não falava a verdade. Queria enganá-la, como fazia com o pai, ela anotou no diário. Julho, dia três: chega-lhes uma carta do sogro, na qual comunicava que os visitaria para comemorar os bons resultados do filho nos exames. Giulio reagiu mal à notícia, “ha cominciato a tirare calci ai mobili, alle sedie, al letto. Ha buttato per aria la casa intera. Poi si é addormentato, seduto sul cesso. La faccia incrostata di lagrime di rabbia.” (MM, p. 90)143. No dia sete, o rapaz expediu um telegrama para o pai, na tentativa de evitar a sua visita. Alegou que não se sentia bem. Resultado: no dia seguinte seu pai bateu à sua porta. Hospedou-se em um hotel na via Veneto, mas toda manhã telefonava para a narradora e, às 13 horas, ia visitar o filho, levando-lhe doces ao creme e vinho licoroso. 141 [...] não lhe encher o saco, porque precisa estudar. E só. (Tradução da autora) 142 Daqui a pouco começa a sessão de exames. Giulio quase não dorme mais. Está intratável. Toma café. Seu cabelo está sujo. Falei para ele lavá-lo. Atirou-me um chinelo na cabeça. Não come. Enquanto estuda, levo-lhe uns sanduíches de presunto, que encontro, depois na cesta do lixo. (MM, p. 91) 143 [...] começou a dar pontapés nos móveis, nas cadeiras, na cama. Jogou a casa inteira pelos ares. Depois adormeceu sentado na privada. O rosto encardido de lágrimas de raiva. (MM, p. 95) 102 Giulio continuava sua farsa, dizendo que em outubro se graduaria, visto que prestara os últimos exames. O pai acreditava, ou fingia acreditar no que o filho dizia. Mês de agosto. O pai de Giulio, que ainda se encontrava em Roma, traçava projetos para o filho, que, em sua opinião, deveria assumir um bom emprego no ano seguinte, logo após receber seu diploma. Paralelamente, Candido, o amante da protagonista, continuava a pintar quadros, que ninguém comprava. Por isto, estava passando fome e a narradora lhe emprestou dinheiro. No dia 22 de agosto, almoçaram juntos a narradora, Giulio e o pai. Depois do café, o rapaz disse que sairia para comprar um livro e não mais voltou. Procuraramno em todos os hospitais. Nada. A narradora conta a verdadeira situação do marido na universidade ao sogro, mas este não se mostra surpreso e dá a entender de que sabia de tudo. Dois de setembro. Doze dias após seu desaparecimento, o cadáver de Giulio foi encontrado, no rio Tevere. O pai fez o reconhecimento do corpo. Il corpo di Giulio è stato trovato nel Tevere, all’altezza dela Magliana. Io non sono andata a riconoscerlo. Non ci tengo a vederlo conciato com’è. Ci ho mandato il padre. Col suo vestito di lino bianco e il suo cappello di rafia. (MM, p. 128)144 Il funerale, i fiori, la chiesa, il cimitero. C’eravamo solo noi due: mio suocero ed io. Dove sono gli amici? Mi fa lui. Ma quali amici? Giulio non ha mai avuto amici, gli dico. Porta sempre il solito vestito bianco che mi fa venire i nervi. E il cappello di rafia con la striscia di seta nera. Spero che adesso se ne torni al suo paese. Solo a guardarlo mi viene il mal di pancia. (MM, p. 92)145 Terminam, assim, as observações escritas sobre Giorgio: um funeral acompanhado por somente duas pessoas, seu pai e sua mulher. Quanto à narradora, uma mulher jovem, moderna, trabalhadora, que não 144 “O corpo di Giulio foi encontrado no Tibre, na altura da Magliana. Eu não fui para o reconhecimento. Não faço a menor questão de vê-lo no estado em que se encontra. Mandei o pai. Com seu terno branco e o chapéu de ráfia.” (MM, p. 97) 145 O enterro, as flores, a igreja, o cemitério. Presentes, só nós dois: meu sogro e eu. “Onde estão os amigos?”, diz ele. Mas que amigos? “Giulio nunca teve amigos”, respondo eu. Veste o mesmo terno branco de sempre que tanto me irrita. O chapéu de ráfia com a faixa de seda preta. Espero que agora se mande para sua terra. Só olhar para ele, me dá dor de barriga. (Idem) 103 entendia o porquê de toda a farsa engendrada por Giorgio, passa a viver com seu amante. No entanto, a felicidade desse casamento, que de início parecia perfeito, dura pouco tempo. Candido trai a narradora com Estera, uma autora de história em quadrinhos. E, no final do conto, a narradora descobre que não gosta mais de Candido e sim de Amedeo, um jovem ator que conhecera na casa de Estera: Candido è tornato. Abbiamo fatto l’amore. Ma ormai è finito. Non ho più nè amore nè desiderio per lui. Adesso mi piace Amedeo, un ragazzo che ho visto una volta in casa di Estera, che fa l’attore . È giovane e magro come una sardina salata. Ha gli occhi gialli , le guance celesti, i capelli neri, le labbra verdi e una gran voglia di far l’amore.’’(MM, p. 94-5)146 Neste conto, a sexualidade tem presença relevante, ainda que vivida de forma quase inconsciente. A protagonista gosta de fazer sexo e, com a falência de seu casamento – sem sexo, carinho ou atenção, pois o marido dedica-se neurótica e exclusivamente aos estudos, sem obter resultados satisfatórios –, arranja um amante. Mas não o mantém em segredo, como acontece nesses casos. Fala ao marido sobre sua relação extraconjugal. Com a morte do marido, passa a viver com o amante, que a traí com uma amiga. Decide, então, terminar esse casamento e passa a viver com um jovem ator, que adorava fazer sexo. Temos a representação de uma mulher com mais consciência de si, que aprecia fazer sexo e é protagonista de relacionamentos pouco convencionais, com homens sem êxito profissional. Na sequência, examinaremos um conto no qual predomina a ausência da protagonista, como forma de alienação, L’albero di Platone. 146 “Candido voltou. Fizemos amor. Mas já está tudo acabado. Não sinto mais amor nem desejo por ele. Agora gosto de Amedeo, um rapaz que vi uma vez na casa de Estera , que é ator. É jovem e magro como uma sardinha salgada. Tem olhos amarelos, bochechas azuis, cabelo preto, lábios verdes e um grande desejo de fazer amor.” (MM, p. 100) 104 2.2.10 “L’albero di Platone”: as folhas em branco No conto “L’albero di Platone” apresenta-se uma narradora angustiada, que afirma ter pouca memória e, por isto, precisar fazer uso de um diário com um elenco minucioso de todos os fatos que preenchem o seu dia-a-dia. Io non ho memoria. Ma in compenso sono molto pignola e meticolosa. Per dare un ordine alla mia vita che tende a svanire come acqua al sole, ho sempre tenuto un diario, con l’elenco minuzioso di tutti i fatti che riempiono le mie giornate. (MM, p. 97)147 Certo dia, a narradora encontrou duas páginas de seu diário vazias: “Ho trovato due pagine vuote’’ (MM, p. 97)148. E não conseguiu se lembrar o que exatamente havia acontecido nesses dois dias. Daí, a sua angústia durante toda a narrativa, desejosa de descobrir o porquê dessas páginas em branco: “I giorni quatro e cinque settembre mancavano completamente: erano delle pagine bianche.’’ (MM, p. 97)149 A protagonista-narradora garante que, em quinze anos, nunca saltara um dia sequer do seu diário, exceto uma única vez, quando operara uma úlcera e, por prescrição médica, ficara impedida de escrever. Esforçou-se, inutilmente, para recuperar os fatos ocorridos nos dias quatro e cinco de setembro, mas, como advertira no início do conto, sua memória era tão efêmera, que não retinha nada, por mais que fosse exigida. A questo proposito, nella prima pagina del mio diario c’è scritto: “Letto per consiglio di Milena uno strano libro: i dialoghi di Platone. Noioso quanto mai. Non l’avrei finito se non avessi trovato ad un certo punto una osservazione che pareva riguardarmi direttamente. Dice Socrate che la memoria può essere di due tipi: come la pietra che una volta incisa rimane lí per sempre; e come un albero coperto: 147 “Eu não tenho memória. Mas, em compensação, sou muito meticulosa e persistente. Para dar certa ordem à minha vida, que tem tendência a esvanecer como água ao sol, sempre mantive um diário, com a relação minuciosa de todos os fatos que preenchem os meus dias.” (Tradução da autora) 148 “Achei duas páginas em branco.” (MM, p. 101) 149 “Os dias quatro e cinco de setembro faltavam totalmente: eram páginas em branco.” (Ibidem) 105 al primo soffio di vento o alla prima goccia, i ricordi volano via e l’albero resta nudo. Non c’è dubbio che io ho una memoria di questo tipo. E i miei ricorsi sono provvisori e indipendenti come quegli uccelli di Platone”150 (MM, p. 97-8) Releu atentamente os fatos que tinha registrado nos dois dias que antecederam aquelas páginas em branco, “para encontrar uma solução ao enigma, mas não o encontrou”. E, a partir daí, o leitor começa a tomar conhecimento de tudo o que havia acontecido com ela um dia antes de deixar as tais páginas em branco. Ou seja, a leitura da página relativa ao dia três de setembro, que estava totalmente escrita e com algumas palavras rabiscadas, possibilita ao leitor retratar a personalidade e o tipo de vida desta anônima narradora. Primeiramente, descobre-se que a protagonista era casada com Carmelo – um porteiro de profissão, que mantinha uma outra família, com Tina –, e que eles, a narradora e o marido, haviam discutido bastante naquele dia. A briga tinha sido ocasionada porque a narradora deixara um sabonete desmanchar na água, durante a noite: “tre settembre, ore otto. Discussione con Carmelo per via di un sapone che secondo lui io ho lasciato tutta la notte a sciogliersi nell’acqua” (MM, p. 98)151. Em segundo lugar, os relatos desse dia também indiciam um pouco da personalidade de Carmelo: um homem nervoso, que reclamava da comida, tinha dois filhos provenientes da sua relação com Tina, e, como mal tinha dinheiro para manter as duas famílias, comia sempre mal. Segue a leitura do dia três de setembro: Ore una: retorno a casa. Ripresa la lite con Carmelo. Sempre per il sapone. Lui dice che l’ho fatto apposta per provocarlo. Naturalmente non è vero. Non mi ero nemmeno accorta che il sapone fosse caduto 150 Falando disso, na primeira página do meu diário está escrito: ‘Li por conselho de Milena um livro estranho: os diálogos de Platão. Chato como ele só. Não o teria terminado se não tivesse encontrado a uma certa altura uma observação que parecia dizer respeito diretamente a mim. Diz Sócrates que a memória pode ser de dois tipos: como a pedra, que uma vez esculpida permanece ali para sempre; e como uma árvore coberta de pássaros. Ao primeiro sopro de vento ou à primeira gota, as aves levantam vôo e a árvore fica nua. Não há dúvida que eu possuo uma memória desse tipo e que minhas lembranças são provisórias e independentes como aqueles pássaros de Platão. (MM, p. 101/102) 151 “Três de setembro, oito horas. Briga com Carmelo por causa de um sabonete que, na opinião dele, eu teria deixado a noite toda se derretendo na água.” (MM, p. 102) 106 nell’acqua. Ci siamo seduti a tavola. Lui ha mangiato un pezzo del lesso di ieri e poi ha buttato il piatto per terra. Dice che è filaccioso. Per forza, il lesso, quello buono, costa tremila lire al chilo, quello che compro io solo milletrecento. Ha detto che non può masticarlo, che gli va tutto nei denti. Gli ho detto che vada dal dentista. Gli ho detto che se i soldi non ci sono è per colpa sua; ha voluto due famiglie, adesso le mantenga! Ha detto che sono cretina.’’(MM, p. 99)152 Na hora do almoço, ainda brigam por causa do sabonete. Carmelo reclama da carne, que está dura. A narradora explica que, para economizar, compra produtos mais baratos; diz ao marido que lhes falta dinheiro porque ele tinha outra família. Ainda não terminara de almoçar, quando Giacinta buzinou para avisar que a estava esperando. Saiu rapidamente e, já no carro da amiga, viu que o marido a controlava da janela: “voleva controllare che io fossi uscita per correre a telefonare a Tina”153, anotou no diário. Às dezesseis horas o chefe a chamou e lhe disse que era muito distraída e que, se continuasse assim, a demitiria. Justificou-se, falando de sua falta de memória. A narradora ouviu que não receberia encargos complexos e teve de baixar a cabeça, pois precisava manter o emprego, visto que o salário de Carmelo não era suficiente: “Con quello che guadagna Carmelo come usciere non possiamo certo mantenere due famiglie, la nostra e quella di Tina coi due bambini.’’ (MM, p. 100)154 A exemplo de outras narradoras já apresentadas anteriormente neste trabalho, ela também contava com seu trabalho para ajudar a manter a sua família. Mais, para ajudar a manter também a família de Tina. Às dezoito horas: Martelli, um colega de trabalho lhe deu um presente, um 152 “Uma hora: volto para casa. Retomada da briga. Sempre por causa do sabonete. Diz que fiz de propósito só para provocá-lo. Naturalmente não é verdade. Nem tinha percebido que o sabonete tinha caído na água. Sentamos à mesa. Ele comeu um pedaço do cozido de ontem e, em seguida, jogou o prato no chão. Diz que é fibroso. Lógico, o cozido bom custa três mil liras o quilo, aquele que eu compro só mil e trezentas. Ele disse que não consegue mastigá-lo, que entra tudo no meio dos dentes. Disse-lhe para ir ao dentista. Ele disse que não há dinheiro para ir ao dentista. Disse-lhe que se não há dinheiro é por culpa dele; quis duas famílias, agora que as mantenha! Ele disse que sou uma cretina.” (MM, p. 102-103) 153 “Queria verificar se eu realmente tinha saído para ir, às pressas, telefonar para Tina”. (MM, p. 103) 154 “Com aquilo que Carmelo ganha como contínuo não podemos manter duas famílias, a nossa e a de Tina com duas crianças.” (MM, p. 103) 107 embrulho todo enfeitado. Como, naquele mesmo dia, já lhe havia oferecido uma caneta, a protagonista começa a achar que o colega estava apaixonado por ela, pois a olhava com “seus olhos azuis maliciosos e ternos”. Enquanto abria o pacote, pensava que gostaria muito dele, mesmo sendo gordo, e que o amaria como nunca amara em toda sua vida. Mas, quando conseguiu abrir o pacote, encontrou dentro um enorme falo de borracha: Sono arrossita credo, fino agli occhi. E tutto l’ufficio era li che mi guardava, compreso il capufficio. E Martelli era scomparso. Tutti sono scoppiati a ridere. Allora Martelli è ricomparso ridendo. Aveva la faccia tutta rugosa per il ridere, i suoi occhi celesti erano gonfi di lagrime. Sembra strano che non ho provato rabbia contro di lui. (MM, p. 100)155 Não se aborreceu com Martelli e, em casa, às 20 horas, tentou interpretar o sentido da brincadeira feita pelo colega. O marido ainda não chegara e ela tinha certeza de que ele estava com Tina, a amante. Às 21 horas, Carmelo finalmente chegou e retomou aquela história do sabonete, da qual a narradora já nem se lembrava. Durante o jantar, novamente reclamou da comida preparada pela mulher; a narradora alegou que eles tinham pouco dinheiro para gastar com bons alimentos e que, ademais, dispunha de pouco tempo para cozinhar, porque trabalhava tanto quanto ele. Lembrou-lhe que contribuía efetivamente para o orçamento familiar. Carmelo se fechou e, Per farlo ridere, gli ho raccontato lo scherzo del colega Martelli. Stavo con la testa chinata sul piatto quando ho sentito una fitta sul dorso della mano. Ho alzato gli occhi. Carmelo stava tentando di ficcarmi una forchetta nella carne. Ho ritirato la mano sanguinante e mi sono riparata sotto la tavola. Ha cominciato a gridare ‘cagna, ‘cagna’ e a tirare dei calci contro il muro. Poi è uscito sbattendo la porta. (MM, p. 101-02)156 155 “Acho que corei até os olhos. Todo o escritório estava ali me olhando, inclusive o chefe. E Martinelli havia desaparecido. Todos desataram a rir. Então Martinelli reapareceu rindo. Tinha o rosto todo enrugado de tanto rir, seus olhos azuis estavam cheios de lágrimas.” “Parece estranho, mas não senti raiva dele.” (MM, p. 104) 156 “Para diverti-lo, contei-lhe da brincadeira do colega Martinelli. Estava com a cabeça inclinada sobre o prato quando senti uma fisgada no dorso da mão. Levantei os olhos. Carmelo estava tentando cravar um garfo na minha carne. Retirei a mão ensanguentada e me refugiei embaixo da mesa. Começou a gritar ‘cadela, ‘cadela’ e a dar pontapés contra a parede. Depois saiu batendo a porta.” (MM, p. 105) 108 A reação de Carmelo o caracteriza como uma pessoa violenta, que comete ofensas e agressão física contra sua mulher. Essa foi parte da descrição de como havia sido a jornada da narradora, antes daqueles dois dias que se encontravam sem registro em seu diário. Às vinte e quatro horas, já adormecida, a narradora sentiu uma perna de Carmelo enfiar-se entre as suas e a língua dele molhar a sua orelha. Fizeram amor. Há três meses não tinham sexo: Quando abbiamo finito, è rimasto disteso su di me e mi ha chiesto scusa per il colpo di forchetta sulla mano. Gli ho detto che non ci pensavo piú. Ha detto di no, che lui era una bestia e che io dovevo dirgli ‘ti perdono con tutto il cuore’. Gli ho detto che lo perdonavo. Ha insistito che aggiungessi ‘con tutto il cuore’. L’ho fatto. Ha detto che in questo período è um po’ nervoso. Gli ho chiesto se era per via di Tina o dei bambini. Mi ha detto di no, che Tina e i bambini stanno bene; ma lui è nervoso lo stesso. Allora gli ho chiesto se era nervoso perché no ci sono soldi. No, ha detto, non è per quello. Gli ho detto che se voleva andare a vivere con Tina, non l’avrei trattenuto. Ha cominciato a gridare che io sono sua moglie, che dobbiamo stare insieme tutta la vita, qualsiasi cosa succeda. Ha ricominciato a baciarmi. Poi si è addormentato, sempre disteso su di me. (MM, p. 102)157 Carmelo tinha uma amante e dois filhos, mas descontrolou-se ao saber da brincadeira feita pelo colega de trabalho da mulher. Possivelmente, sentiu ciúmes porque, depois de tanto tempo, a procurou para fazer sexo e a obrigou a jurar que o perdoava, porque era seu marido e deveriam continuar juntos, para sempre. Continuar juntos, mesmo sem amor, desrespeitando-se, como aconteceu com a narradora do conto “Le lenzuola di lino”. Concluída a leitura atenta das anotações feitas naquele dia três de setembro, transcritas por causa dos muitos borrões encontrados na página, a anônima 157 Quando acabamos, ele ficou deitado em cima de mim e me pediu desculpas pela garfada na mão. Disse-lhe que já não pensava mais nisso. Disse-me que não, que ele era um animal e que eu devia lhe dizer ‘eu o perdôo de todo coração’. Disse-lhe que o perdoava. Ele insistiu para que eu acrescentasse ‘de todo coração’. Eu o fiz. Ele me disse que neste período está um pouco nervoso. Perguntei-lhe se era por causa de Tina e das crianças. Disseme que não, que Tina e as crianças estão bem; mas ele se sente nervoso da mesma forma. Então perguntei se estava nervoso pela falta de dinheiro. ‘Não’, disse , ‘não é por isso’. Disse-lhe que se quisesse ir viver com Tina, eu não o deteria. Começou a gritar que eu sou sua esposa, que devemos permanecer juntos por toda a vida, aconteça o que acontecer. Voltou a me beijar. Depois adormeceu, ainda estendido em cima de mim. (Ibidem) 109 narradora não conseguia encontrar pistas. “Ecco, questa era la giornata del tre settembre. E il quatro e il cinque? Non lo so. Non riesco a ricordare niente.” (MM, p. 102)158. Em sua opinião, os dois dias deveriam ter transcorrido exatamente como os demais, seguindo a rotina de sempre. Ou, talvez, não. Sentia dúvidas, porque se não tivesse havido novidades em sua vida, teria anotado. As páginas em branco indicavam que havia acontecido algo que ela não tinha podido ou querido transcrever. Mas o que teria sido, indagava-se: Ci ho pensato tanto che mi facevano male i muscoli della faccia. Cercavo di concentrarmi, di ricordare. Ma la memoria, piú la costringo e piú si svuota. Solo qualche volta, quando sono del tutto inerte e distratta, può capitarmi di rivivere un ricordo; il passato mi cade addosso come un sacco pieno di patate e mi lascia senza fiato. Per questo mi sono lasciata andare, ho cercato di distrami, di non pensare a niente, di non evocare niente, di dedicarmi ad altro. Ma neanche questo è servito. Come gli uccelli dell’albero di Platone, i miei ricordi erano volati via spaventati e non sarebbero tornati che chissà quando, a capriccio (MM, p. 102-03)159 E assim era a memória da narradora: com lembranças provisórias e independentes como aquelas da imagem formulada por Platão. A protagonista confessou que se sentia muito triste e tomada pelo medo. Decidiu não ir ao trabalho e passou o dia inteiro sentada em uma cadeira, olhando para a parede que estava a sua frente. Somente à noite, ao tocarem a campainha, percebeu que Carmelo estava atrasado e que, também, não viera para o almoço. Deduziu que estivesse com Tina, mas se indagava o porquê de ele não ter voltado para casa. Esta pergunta ligava-se 158 “Pronto, este é o dia três de setembro. E os dias quatro e cinco? Não sei. Não consigo lembrar de nada” (MM, p. 105) 159 Pensei tanto nisso que os músculos do meu rosto doíam. Procurava me concentrar, lembrar. Mas minha memória, quanto mais a solicito, mais ela se esvazia. Só algumas vezes, quando estou totalmente inerte e distraída, pode me acontecer de reviver uma lembrança, o passado cai em cima de mim como um saco cheio de batatas e me deixa sem fôlego. Por isso relaxei, procurei me distrair, não pensar em nada, não evocar nada, me dedicar a outra coisa. Mas nem isso adiantou. Como os pássaros da árvore de Platão, minhas lembranças tinham levantado vôo assustadas e voltariam quem sabe quando, assim, ao seu capricho. (MM, p. 106) 110 a outras, todas relativas às páginas em branco no diário, que desarranjavam a ordem de sua vida e a deixara cega, literalmente. Voltou a sentar-se na cadeira, onde passou a noite, inerte, tomada pelo pânico. De manhã, quando sentiu o sol em suas pernas, foi até a cozinha, tateando, e percebeu que uma das portas do armário estava aberta. Ao abaixar-se para fechá-la, descobriu: il corpo morto di Carmelo, raccolto su se stesso, le gambe piegate fino al mento, come nel grembo di sua madre. Sono caduta per terra. Sono rimasta lí, inebetita, frugando nella memoria, adesso affannosamente e velocemente, per trovare un segno, un indizio che mi chiarisse il passato. Carmelo era morto. Ma com’era successo? Ero sicura che le due pagine bianche volevano tacere proprio questo. E per quanto mi sforzassi, non riuscivo, proprio non riuscivo a ricordare niente. (MM, p.104-05)160 Policiais, movimentação de pessoas estranhas, interrogatórios. A narradora recobra a visão. O delegado afirmou que se tratava de suicídio: Carmelo colocara a cabeça dentro de um saco plástico e se asfixiara. No funeral, a narradora viu Tina e os filhos: os meninos se pareciam com Carmelo; a mulher era baixa, gordinha e envelhecida; não era uma pessoa dotada de atrativos físicos: “Non so cosa ci trovasse Carmelo in lei.”, pensou a narradora. Os filhos ficaram de pé durante o tempo todo, parados, tranquilos; a amante se aproximou da narradora, chorando, e a abraçou: Adesso tutto è sistemato e sembra che dovrei essere contenta. Ma non lo sono. C’è qualcosa che mi inquieta. Io so che se veramente Carmelo si fosse suicidato, l’avrei scritto sul diario. Per nessuna cosa al mondo io avrei tralasciato di scrivere il mio diario, lo so per esperienza. (MM, p. 106)161 160 O corpo morto de Carmelo, todo encolhido, as pernas dobradas até o queixo, como no ventre de sua mãe. Caí no chão. Fiquei ali, apática, buscando na memória, agora ansiosa rapidamente, para encontrar um sinal, um indício que me esclarecesse o passado. Carmelo estava morto. Mas como tinha acontecido? Tinha certeza que as duas páginas em branco queriam silenciar exatamente isto. Por mais que me esforçasse, não conseguia, realmente não conseguia me lembrar de nada. (MM, p. 107) 161 Não sei o que Carmelo via nela. Agora tudo está arrumado e eu deveria estar contente. Mas não estou. Há algo que me perturba. Sei que se Carmelo tivesse realmente se suicidado, eu teria registrado o fato no diário. Sei por experiência que por nenhuma razão no mundo teria deixado de escrever o meu diário. (MM, p. 108) 111 Carmelo estava morto e, provavelmente, esses dois dias sem anotações no diário da protagonista estavam relacionados à morte do marido. A narradora sentia dúvida se era, ou não, culpada por aquela morte: “Ora, io mi chiedo: Carmelo si è davvero suicidato e perché? O per caso sono stata io a ucciderlo?”162 Não sabe se é inocente ou culpada, no caso da morte de Carmelo. Não encontrava resposta para sua indagação. A questa domanda non riesco a trovare una risposta. Finchè quelle due pagine resteranno bianche, nel mio passato mancherà qualcosa di essenziale e io non saprò se considerarmi inocente oppure no. Niente in me potrebbe parlare meglio di questo diario che ha una forma mentre la mia coscienza non ne ha, che è composta di un passato e di un presente, mentre la mia coscienza è fuori del tempo, che è piena di ricordi-testimoni mentre la mia memoria è vuota e inerte. (MM, p. 106)163 O conto é narrado não a partir da restituição da memória, mas, ao contrário, da ausência dela, representada pelas páginas em branco. Diferentemente da personagem Marco, examinada no item 2.2.8, que tinha nas recordações da infância o único motivo para sua vida, a narradora de “L’albero di Platone” vive somente o tempo presente. Seu passado só existe no diário. Marco se suicida, por não suportar o presente; a narradora de “L’albero di Platone” talvez tenha cometido homicídio, mas, como é desmemoriada, não consegue recuperar seu passado. Suicídio, homicídio. O tema da memória e da morte perpassa esses dois contos. No que se segue, “Maria”, o tema da morte voltará a ser abordado, com uma reflexão sobre a intolerância social. 162 Ora, eu me pergunto: “Carmelo suicidou-se de verdade? Por quê? Ou, por acaso, não fui eu quem o matou?” (MM, p. 108) 163 Não consigo encontrar uma resposta para esta pergunta. Enquanto aquelas duas páginas permanecerem em branco, algo de essencial faltará no meu passado e eu não saberei se devo me considerar inocente ou não. Nada em mim poderia falar melhor que este diário que tem uma forma, enquanto a minha consciência não a tem. Esta forma é constituída de um passado e de um presente, enquanto a minha consciência se encontra fora do tempo; ela está cheia de lembranças–testemunhas, enquanto a minha memória está vazia e inerte. (MM, p. 108) 112 2.2.11 “Maria”: um triste caso de amor No conto em análise, a protagonista narra seu cotidiano com Maria, a companheira: Quando mi alzo la mattina per andare a lavorare, Maria dorme ancora. Scivolo dal letto senza fare rumore, per non svegliarla, prendo il mucchietto dei panni che stanno appoggiati sulla sedia e me ne vado a vestirmi nel bagno. Chiudo la porta dietro di me, piano senza fare sentire lo scatto e mi avvio nel corridoio gelato. La nostra casa non ha termosifoni; teniamo delle stufe a gas che però hanno l’inconveniente di scaldare solo un pezzo d’aria per volta. Così la casa é divisa in blocchi caldi e freddi che non si mescolano mai fra di loro. (MM, p. 107)164 O trecho supracitado nos orienta quanto à caracterização da narradora e da personagem Maria, que enfrentam o cotidiano de maneira absolutamente oposta. A descrição da casa na qual vivem, “divisa in blocchi caldi e freddi che non si mescolano mai”, pode ser estendida às duas personagens. A protagonista anônima representa a mulher operária, que tem de cumprir dupla jornada, e se desdobra para realizar com competência suas atribuições, as laborais e as domésticas. Trabalha durante oito horas por dia, no escritório de uma fábrica, mas não se acostuma com o forte barulho produzido pelas máquinas: Alle nove sono in ufficio. Per i primi cinque minuti rimango inebetita dal rumore e mi chiedo come ho fatto a sopportarlo fino ad oggi. Non riesco ad abituarmi. (MM, p. 107)165 [...] Il mio ufficio è un cubo di vetro piantato in mezzo ad un enorme stanzone di una fabbrica di automobili. Con me lavorano altre cinque persone: tre uomini e due donne. Ormai convivo con loro da piú di sei 164 Quando me levanto de manhã para ir ao trabalho, Maria ainda dorme. Deslizo para fora da cama sem fazer barulho, para não acordá-la; pego a pilha de roupa que está na cadeira e vou me vestir no banheiro. Fecho devagar a porta atrás de mim, evitando o barulho da fechadura, e caminho pelo corredor gelado. Nossa casa não tem aquecimento central; usamos aquecedores a gás, que têm o defeito de aquecer só um pedaço de ar por vez. Assim a casa fica dividida em blocos quentes e frios que nunca se misturam. (MM, p. 109) 165 Às nove horas estou no escritório. Nos primeiros cinco minutos fico abobalhada devido ao barulho e me pergunto como pude suportá-lo até hoje. Não consigo me acostumar. (Idem, ibidem) 113 anni, ma non posso dire di conoscerli. Io parlo poco. Loro chiaccherano, ma non riesco a sentirli: il rumore copre le loro voci. Per farsi sentire, bisogna appiccicare la bocca all’orecchio dell’interlocutore [...] (MM, p. 108)166 Maria é filha de um camponês residente em Urbino167. Ela o julga “[...] un conservatore piú conservatore dei proprietari per cui lavora. È uno stupido egoista che non pensa che a mettere da parte denaro”. (MM, 112-113)168 A personagem Maria é caracterizada como uma mulher que passa o tempo a divagar sobre seus pensamentos; dorme até tarde; é ociosa e desleixada; não colabora para manter a casa arrumada e, como se não bastasse, deixa sempre o banheiro alagado. Fuma. É dona de uma voz muito bela. Também não contribui para o orçamento da casa e nada faz para auxiliar a narradora nas tarefas domésticas. Gosta de sentar-se ao sol e ficar falando, enquanto sua companheira arruma a casa: Quando torno a casa, Maria si è appena alzata. La casa è in disordine. La stanza da letto puzza di sigarette, il letto è sottosopra, il bagno allagato, la cucina piena di fumo e gelata. [...] Comincio a mettere in ordine. Maria gira per la casa in una vestaglia giapponese, fumando una sigaretta dopo l’altra. Mi viene dietro mentre sbrigo i lavori di casa, parlando. (MM, p. 109)169 Também, é possível caracterizar o ambiente doméstico: a casa está dividida em blocos quentes e frios, que nunca se misturam. E essa separação pode ser lida como uma metáfora às personagens femininas, a narradora e Maria, duas mulheres 166 O meu escritório é um cubo de vidro situado em um galpão enorme de uma fábrica de automóveis. Trabalham comigo mais cinco pessoas, três homens e duas mulheres. Convivo com eles há mais de seis anos, mas não posso dizer que os conheça. Eu falo pouco. Eles tagarelam, mas não consigo ouvi-los: o barulho encobre suas vozes. Para se fazer ouvir, é preciso grudar a boca no ouvido do interlocutor [...] (MM, p.109-110). 167 Comuna italiana da região das Marcas, província de Pesaro e Urbino, com a população estimada em 15.128 habitantes. 168 “[...] um conservador mais conservador do que os patrões para os quais trabalha. É um ignorante egoísta, que só pensa em guardar dinheiro.” (Tradução da autora) 169 Quando volto para casa, Maria acaba de se levantar. A casa está desarrumada. O quarto de dormir fede a cigarro, a cama está toda bagunçada, o banheiro alagado, a cozinha cheia de fumaça e gelada. Começo a arrumar. Maria zanza pela casa num robe japonês, fumando um cigarro atrás do outro. Segue-me, falando, enquanto faço as tarefas da casa. (MM, p. 110-11) 114 com personalidades diametralmente distintas: a narradora é aquela que faz os serviços da casa, tem um emprego, coloca em ordem a bagunça deixada por sua companheira. É provedora. Exerce o papel destinado tradicionalmente ao homem na relação conjugal. Maria, a provida, é ociosa, indolente e desordeira. Representa o tipo de mulher que comumente chamamos “dondoca”, ou seja, a que não faz nada, é improdutiva e sustentada pelo marido. Enfim, as personalidades das duas personagens, de tão diversas, não se misturam, assim como os ambientes da casa. Quanto ao ambiente de trabalho da narradora, é descrito como algo estanco que separa bem um trabalhador do outro. Apesar de seu escritório ter a forma de um cubo de vidro, ela era ignorada pelos operários que circulavam nas demais dependências da fábrica. Sabia pouco sobre os companheiros de “cubo”, três homens e duas mulheres, com os quais trabalhava há mais de seis anos. Afinal, o barulho ensurdecedor era um fator de impedimento para qualquer tipo de comunicação entre eles. A descrição física de Maria nos é revelada por associação a outra personagem feminina, uma operária que atrai a atenção da narradora, na fábrica, no intervalo para o almoço: Seguo con gli occhi una ragazza che passa con l’aria indaffarata, il grembiule nero sbottonato sulla gonna corta, le gambe muscolose e forti chiuse dentro i calzettoni a scacchi rossi. La guardo perché di faccia assomiglia Maria: ha gli zigomi sporgenti, le mascelle larghe, gli occhi obliqui e stretti, le sopracciglia nere; un’espressione leggermente mongoloide. (MM, p. 108)170 Maria possui um rosto bem delineado e olhos oblíquos, como a Capitu machadiana, mas esses não são dissimulados. A narradora, que sempre almoçava em casa, ao chegar, encontrava Maria acabando de se levantar da cama. Enquanto colocava a casa em ordem, aproveitava 170 Sigo com os olhos uma moça que passa com ar atarefado, o avental preto desabotoado sobre uma saia curta, as pernas musculosas e fortes cobertas por meias três quartos de xadrez vermelho. Observo-a porque, de rosto, se parece com Maria: tem as maçãs do rosto salientes, os maxilares largos, os olhos oblíquos e estreitos, as sobrancelhas pretas; uma expressão ligeiramente mongolóide. (Tradução da autora) 115 para conversar um pouco com a companheira, que, segundo a narradora, muitas vezes, lhe falava “come se no ci fosse”171 (MM, p. 109). A exemplo da personagem Marcella do conto “Mio marito”, a narradora julga sua companheira, que é dotada de uma bela voz, muito inteligente: “Spesso non riesco nemmeno a seguire i suoi ragionamenti che sono profondi e complicati, ma mi perdo dietro la sua voce che è pulita e sonora e leggera come un uccello”172 (MM, p. 109). Como se depreende dessa citação, a narradora considerava que sua capacidade intelectual era inferior à de Maria, que é um bom garfo: “[...] mangia con appetito tutto quello che le metto dentro il piatto.”173 (MM, p. 109). Durante certo almoço, Maria aborda a relação conjugal vivida com a narradora: “Hai mai pensato cosa sia l’amore fra due donne?’’ “No.” “Ci deve essere una ragione, non credi? ’’ “Non lo so. ’’ “Perchè io dovrei amare te anzichè un uomo?’’ “Perché dovrei fare l’amore con te anzichè con un uomo?’’ “Non lo so. Perchè ti piace.’’ “ Ma perchè mi piace?’’ “Non lo so. Perchè mi vuoi bene.’’ “Brava scema. Ma perchè?’’ “Non lo so proprio. ’’ (MM, p. 109-110)174 Na sequência, depois de servir-se de um generoso pedaço de bacalhau, Maria 171 Como se eu não estivesse presente. (Tradução da autora) 172 Frequentemente nem consigo seguir seu raciocínio que é profundo e complicado, mas fico enlevada por sua voz limpa, sonora e leve como a de um pássaro. (MM, p. 111) 173 [...] come com vontade tudo aquilo que lhe ponho no prato. (Idem, ibidem) 174 “Você já pensou no que seja o amor entre duas mulheres?’’ “Não.” “Deve haver uma razão, não acha?” “Não sei.” “Por que deveria amar você e não a um homem? Por que deveria preferir fazer amor com você a fazer amor com um homem?” “Não sei. Talvez porque goste.” “Mas por que gosto?” “Não sei. Talvez porque você me queira bem.” “Muito bem, sua boba. Mas por quê?” “Não sei mesmo.” (Idem, ibidem) 116 continuou, em tom raivoso, seu discurso, então sobre não-violência e exploração aos trabalhadores, afirmando que a narradora não tinha consciência política e era, por isto, violentada pelos donos da fábrica onde trabalhava: “Tu lavori e loro rubano. Questa è la verità. Ti rubano giorno per giorno, ora per ora. E tu ti lasci rubare, anzi sei contenta. Non è pazzesco?”175 (MM, p.111). A narradora procurou ignorar a provocação de Maria, afirmando não sentir vontade de discutir porque, em poucos minutos, deveria retornar ao trabalho e, antes, pretendia deitar-se para descansar um pouco. No entanto, aborrecida porque queria que a companheira se mantivesse sentada, olhando-a e ouvindo aquilo que dizia, Maria afirmou: “Tu non hai coscienza politica. Ti perdi nelle cose, nei fondi di caffè, nella polvere da lavare, nel baccalà, nell’uva fragola, nelle lenzuola sporche. E non pensi al mondo, alle ingiustizie. Ti rifiuti di giudicare. Per te va tutto bene. Sei peggio di un animale.” (MM, p. 111)176 A personagem Maria também possui temperamento explosivo. “Você é pior do que um animal.” Esta frase violenta, dita exatamente pela personagem que propunha a não-violência, bem como a acusação de ser indiferente às injustiças sociais e se ocupar somente de aspectos irrelevantes do próprio cotidiano – que lhe eram caros, como a limpeza e o provimento da casa –, deixaram a narradora ofendida e triste: “Quando parla cosí mi rattristo. Mi sento improvvisamente stanca. Non ho piú voglia di fare niente. Guardo la sua faccia dura e bella, tanto bianca da fare paura.” (MM, p. 112)177. Mas a ofensa e a tristeza desaparecem, quando, logo a seguir, enquanto está deitada a descansar, a narradora sente “le labbra di lei che mi toccano la fronte, il 175 “Você trabalha e eles roubam. Esta é a verdade. Dia após dia, hora após hora, eles roubam você. E você se deixa roubar, aliás, fica satisfeita. Não é coisa de louco? (Idem, ibidem) 176 “Você não tem consciência política. Perde-se em coisas como a borra do café, o sabão em pó, o bacalhau, as uvas, os lençóis sujos. E nunca pensa em algo que diz respeito a todos nós e não só a você. Você não pensa no mundo, nas injustiças. Recusa-se a julgar. Para você tudo vai bem. Você é pior do que um animal”. (MM, p. 113) 177 Quando fala assim, eu fico triste. De repente, me sinto cansada. Não tenho mais vontade de fazer nada. Olho para seu rosto duro e belo, branco a ponto de assustar. (MM, p. 113) 117 mento, la bocca.”178 (MM, p. 112) Certo dia, na hora do almoço, a narradora encontrou Maria furiosa, porque havia recebido a visita do pai. Contou-lhe que havia descoberto a relação amorosa delas e, diante disso, ele, um homem conservador e camponês, prometera interná-la em um manicômio. Preferia fazê-la passar por maluca do que por anormal. “Mio padre è venuto a sapere che abito con te e vuole farmi rinchiudere in un manicomio.” “E perchè?” “Piuttosto che sapermi ‘anormal’ come dice lui, preferisce farmi passare per pazza. ” “Ma l’hai visto? ” “Sì, è venuto stamattina mentre tu non c’eri.” “E che ha detto?” “Ha detto che si vergogna di me. Che al paese dicono che sono anormale, e invece lui ha spiegato che sono pazza. E che mi farà rinchiudere in un manicomio”. (MM, p. 113)179 Ou seja, ele sentia-se envergonhado, pois, na cidade na qual morava, as pessoas, preconceituosas e conservadoras, diziam que Maria era anormal; ele, não aceitando a opção sexual da filha, tentando escamotear a verdade, afirmava que ela era louca. Enfim, Maria é internada à força em um manicômio: Um sábado, ao voltar do trabalho, na hora do almoço, a narradora não encontra a companheira em casa e dois dias depois vem “a sapere che è stata portata in manicômio (MM, 114)180. A narradora visita a companheira que lhe garante que não ficaria internada durante muito tempo: “Non ti preoccupare per me. Uscirò prestissimo. Tutti sanno che sono sana.” (Id, ib)181 178 [...] seus lábios que tocam a minha testa, o queixo, a boca. (Tradução da autora) 179 “Meu pai ficou sabendo que moro com você e quer me trancar num manicômio.” “Por quê?” “Prefere me fazer passar por louca que me ver como uma ‘anormal’, como ele diz.” “Mas você o viu?” “Vi. Veio hoje de manhã enquanto você não estava.” “E o que ele disse?” “Ele disse que tem vergonha de mim. Que na aldeia dizem que sou anormal, mas ele explicou que sou louca. E que vai me internar num manicômio.” (MM, p. 114) 180 “acabo sabendo que foi levada para o manicômio”. (MM, 115) 118 De fato, uma semana depois dessa visita, quando a narradora volta ao manicômio, recebe a notícia de que Maria já não se encontrava lá: Mi dicono che se n’è andata. Faccio per tornarmene a casa contenta, quando si avvicina un ragazzo grasso e biondo che mi dice che Maria si è suicidata. Subito dopo scoppia in una risata tetra e stupida. Non so se credergli. Poi, da come la suora lo prende per il polso e lo trascina via sgridandolo, capisco che è vero. (MM, p. 115)182 Havia se suicidado; não suportara ficar presa no manicômio, no meio das pessoas sem consciência, que obedeciam as ordens dos médicos e enfermeiras, sem qualquer tipo de questionamento. O preconceito de seu pai e da sociedade à qual pertencia a levou ao suicídio. Era tida como anormal, porque decidira assumir sua homossexualidade e a intolerância a levou a um triste fim. Fim. Chegamos, finalmente, ao último dos doze contos do livro Mio marito, “Le mani”. 2.2.12 “Le mani”: as ilusões perdidas “Le mani”, o último e mais extenso conto do livro Mio marito, é escrito em forma de diário. A protagonista-narradora, de vinte e sete anos de idade, casada, trabalha em uma fábrica. É caracterizada como uma pessoa batalhadora e trabalhadeira, porém desafortunada, pois, apesar de se esforçar muito, falta-lhe dinheiro até para a comida. A narrativa tem início numa quarta-feira do mês de novembro de um ano qualquer, com a indicação de que o salário recebido pela personagem-protagonista não era suficiente para o seu e o sustento de seu marido, Tano, um desempregado indolente: 181 “Não se preocupe comigo. Logo logo vou sair. Todos sabem que sou sã.” (MM, p. 115) 182 Dizem-me que foi embora. Estou para voltar contente para casa, quando um rapaz gordo se aproxima e me diz que Maria se suicidou. Logo em seguida dá uma risada tétrica e boba. Não sei se devo acreditar nele. Depois, pelo jeito com que a irmã o pega pelo pulso e o arrasta, chamando-lhe a atenção, entendo que é verdade. (MM, p. 116) 119 Patate bollite e uova sode. Siamo a metà settimana e non c’è una lira in casa. Stanotte ho sognato un tacchino che correva sbattendo le ali. Poi gli si é aperta la pancia e tutte le castagne venivano giù dal cielo. Io spalancavo la bocca, ma non riuscivo ad afferrarne nemmeno una. Dopo mezz’ora che stavo con la bocca aperta, che mi facevano male le mascelle, me n’è capitata una fra i denti. Era una pallina di merda. (MM, p. 117)183 A narradora, que havia comido batatas e ovos cozidos durante toda a semana, sonha com um peru recheado de castanhas. No entanto, a realidade se fez fortemente presente, no sonho, quando, ao invés de castanha, uma bolinha de fezes do peru cai em sua boca, despertando-a. Sexta-feira. No segundo dia registrado no diário, lê-se que a refeição do dia havia sido um caldo feito com tablete e massinha, insípido. Lê-se, também, que Tano, o marido, dissera que necessitava de comida mais gordurosa, por causa do frio, e que a narradora se comprometera a preparar-lhe, no dia seguinte, dobradinha com molho. Nesse dia, a narradora refere-se a duas outras personagens, Giorgio e Marta. Sábado, dia de pagamento: a narradora compra cordeiro e dobradinha, com vistas a preparar uma refeição mais substancial para o marido. Depois de pagar as despesas com o açougueiro, o padeiro, a luz e o gás, restaram-lhe somente duas mil liras, que deveriam render até o fim da semana seguinte. “La paga. Ho comprato l’abbacchio e la trippa per Tano. Pagato il macellaio, il panettiere, la luce, il gas, mi sono rimaste duemli lire. Che devono durare fino a sabato prossimo. Marta mi telefona: Dov’è Giorgio? E che ne so. Non faccio mica la balia a Giorgio. Sarà uscito con Tano. In fabbrica per fortuna fa un gran caldo. E c’è anche puzza. Ma dopo cinque minuti ci si abitua. Dovrei comprarmi un paio di scarpe nuove.” (MM, p. 118)184 183 “Batatas e ovos cozidos. Estamos na metade da semana e não há uma lira em casa. Esta noite sonhei com um peru, que corria batendo as asas. Depois, a barriga dele se abriu e todas as castanhas caíam do céu. Eu escancarava a boca, mas não conseguia pegar nenhuma. Depois de ficar meia hora de boca aberta, com os maxilares doendo, uma caiu entre os meus dentes. Era uma bolinha de merda.” (Tradução da autora). 184 “Dia de pagamento. Comprei o cordeiro e a dobradinha para Tano. Depois de pagar o açougueiro, o padeiro, a luz e o gás, sobraram duas mil liras. Marta me telefona: “Onde está Giorgio?”. E eu sei? Terá saído com Tano. 120 Domingo. Ela dorme até tarde e, quando desperta, é procurada por Tano, para fazer sexo. Quarta-feira. Giorgio lhe telefona, para participar o seu casamento com Marta. Na fábrica, há o anúncio de uma possível greve. Sexta-feira. Novamente Giorgio lhe telefona, para dizer que brigara com Tano e a narradora constata a impossibilidade de existir amizade entre um empresário e um desempregado. Ela e o marido não comiam há três dias, pois nenhum comerciante lhe queria vender fiado. Na terça-feira, através de uma carta, intera-se que o sogro estava mal de saúde. Com o dinheiro emprestado por Giorgio para ir visitar o pai moribundo, na Calábria, Tano parte, sem prazo para a volta. A narradora envergonha-se de suas mãos, destruídas em função de seu trabalho. Desejava poder sair da fábrica e trabalhar como manicura, assim como sua amiga Marta, cujo marido – Giorgio – era proprietário de um salão de beleza. E a narradora começa a ter relações sexuais com esses amigos, por supor que, satisfazendo o desejo do casal, conseguiria empregar-se no salão e exercer a profissão sonhada. Giorgio mi telefona che vuole vedermi. Ma che vuole? Al negozio? No, dice, fuori. Ci vado, dopo la fabbrica. Tano adesso é sempre fuori, e torna a casa dopo le dieci. Cosa vuole quel cretino? Rifarei il gioco a tre, con Marta e lui. Gli dico di no. Ma perché? ti fa schifo? Sí. Ma non è vero. Mi fa disgusto lui. E non gliel’ho detto, per tenermelo buono. Un giorno o l’altro lascio la fabbrica e gli chiedo di prendermi come manicure nel suo negozio. La libellula. È un nome che fa pensare alla campagna. L’ha trovato in un libro giallo185. Mi piacerebbe lavorare alla Libellula”. (MM, p. 124) 186 Por sorte na fábrica faz bastante calor. E também mau cheiro. Deveria comprar um novo par de sapatos’’(MM, p. 117) 185 Giallo: É sinônimo de romance policial, na Itália. 186 Giorgio me telefona dizendo que quer me ver. Mas o que quer? No salão? “Não, fora”, diz. Vou depois da fábrica. Agora Tano está sempre fora e volta para casa depois das dez. O que quer aquele cretino? Retomar o jogo a três com Marta e ele. Recuso. Mas por quê? Sente nojo? Sim. Mas não é verdade. É ele que me dá nojo. Não disse a ele porque quero mantê-lo como amigo. Um dia destes, deixo a fábrica e lhe peço de me empregar como manicure no salão dele. Libélula. É um nome que lembra o campo. Ele o encontrou num livro policial. Gostaria de trabalhar na Libélula.” (MM, p. 123) 121 A narradora se deixa seduzir por Giorgio, mesmo sem gostar dele. Ele a presenteia com um disco, que traz uma canção intitulada ‘Sempre te amarei’, e, como ela não possui toca-discos, vai à casa do amante, com o pretexto de ouvir o disco recebido. Lá faz amor com o casal. Ou seja, a narradora se submete aos caprichos dos “amigos”, mesmo os considerando antipáticos: In casa di Giorgio a fare l’amore. Con Marta che appena lui la tocca comincia a piagnucolare. E con me che sono fredda come un ghiaccio. Perchè Giorgio non mi piace. E Marta nemmeno. Dopo un po’ mi sono alzata e me ne sono andata. Loro stavano abbracciati e non se sono neanche accorti. Mi usano per eccitarsi. L’idea è quella. E io li mando a farsi fottere tutti e due. Mi sono antipatici. Giusto perchè penso alla Libellula e al lavoro di manicure. (MM, p. 127)187 Mês de dezembro, segunda-feira. Marta telefona para avisar à narradora que iria comer com ela, mas que levaria tudo, ou seja, um ovo e um tubo de maionese. Giorgio também aparece para jantar e os três acabam na cama. Na fábrica, há ameaça de greve, o que aumenta na narradora o desejo de se demitir daquele ambiente e trabalhar no salão de beleza. No entanto, Giorgio não desejava empregá-la em seu estabelecimento. Alegava que, além de a narradora não saber falar corretamente, suas mãos – inchadas, comidas pelo ácido, vermelhas, sem pelos e cortadas – não combinavam com o trabalho de manicura. Daí, a frustração e raiva da narradora com relação a esse casal. Quarta-feira. Tano retorna à casa de péssimo humor, porque o pai não morrera. Domingo. A narradora prepara cordeiro com cebolinhas, que o marido devora, deixando-lhe uma porção pequena, insuficiente para saciar seu apetite. 187 Na casa de Giorgio para fazer amor. Com Marta que, quando ele a toca, logo começa a choramingar. Comigo que fico fria como gelo. Porque não gosto de Giorgio. E nem de Marta. Depois de um tempo, levantei-me e fui embora. Eles estavam abraçados e nem perceberam. Usam-me para se excitar. A ideia é esta. Fodam-se os dois! Acho-os antipáticos. É só porque penso na Libélula e no emprego de manicure. (MM, p. 127) 122 Terça-feira. A narradora vai cedo para a fábrica. Tano dorme: Lui si alza verso le undici e poi va a spasso. Dice che cerca lavoro. Ma non fa un corno. Gira. Aspetta che uno lo ferma e gli dice: scusi lei vuole lavorare con me e guadagnare un sacco di soldi senza faticare? (MM, p.121)188 Na verdade, Tano espera que o pai morra, para herdar a pequena quantia que o progenitor conseguira economizar. Na saída da fábrica, Giorgio espera pela narradora e a presenteia com novo disco. Sábado. A narradora vai ao salão visitar Marta, que se mostrava preocupada com a saúde de Giorgio. O marido começara passava mal há três dias, depois de ter comido camarões. Domingo. Tano volta para casa com uma carteira cheia de dinheiro que, segundo ele, encontrara no chão, próximo do cinema: “Chi ci crede! Andiamo subito in trattoria a mangiare tagliatelle e filetto al sangue. Da quando mi sono sposata non ero mai stata in trattoria”. (MM, p. 122)189 Terça-feira. É deflagrada greve na fábrica e há um grande tumulto. Quinta-feira. Giorgio telefona para comunicar à narradora que já sentia melhor. Domingo. Viaja com Giorgio e Marta e gasta quase todo o salário com boa comida. Sexta-feira. Sente-se mal, mas não deixou de ir ao trabalho, porque, apesar de ser estafante e insalubre, precisava preservá-lo; não podia ser demitida. O diário não traz indicação de tempo. Não se sabe em que mês ou ano, a trama se realiza. Tampouco há sequência nas anotações, talvez para indicar que a vida da narradora seguia sempre da mesma forma, no mesmo ritmo, sempre tudo igual: trabalho na fábrica, péssimo relacionamento com o marido, um amante que a engana e não a satisfaz, tédio. Tano, a personagem que representa o papel de marido da narradora, é 188 Ele levanta por volta das onze e depois vai passear, Diz que procura emprego. Mas não faz nada de nada. Zanza. Espera que alguém o pare e lhe pergunte: “ Desculpe, quer trabalhar comigo e ganhar um monte de dinheiro sem se cansar?” (MM, p. 121) 189 Quem acredita? Vamos logo para uma trattoria comer talharins e filé mal-passado. Desde que nos casamos, nunca tinha entrado numa trattoria. (MM, p. 122) 123 caracterizado como um homem que gosta de ser sustentado pela mulher, que fuma, é ocioso, não tem emprego e, por isso, rouba. Além de, às vezes, desaparecer de casa, que cospe em sua mulher. Em conseqüência de seus furtos, acaba indo parar na prisão: “Tano é in prigione. Me l’ha mandato a dire con un carabiniere. Pare che ha svaligiato un negozio di stoffe e chiedono sei anni.” (MM, p. 129)190. A complicada relação conjugal entre Tano e a narradora é explicitada na narrativa. Citamos, o item sexo – “Dormito fino a tardi. Appena mi sveglio Tano vuole fare l’amore. Ma a me non mi piace la mattina. La sera poi, quando ho voglia io, lui non se la sente.’’ (MM, p. 118)191 – e a forma como ambos ganham dinheiro: ela, trabalhando à exaustão, na fábrica; ele “encontrando” carteiras cheias de dinheiro, ou casacos de pelica, por exemplo. A maior parte da trama do conto se desenrola na fábrica, na qual a narradora trabalha e conhece os dois homens com os quais mantém relações sexuais, Romolo e Liberio: “C`è uno in fabbrica che mi piace. È da due giorni che lavora con me alle vasche. Va piano. È lento. Non sa reggere i pezzi. È entrato in fabbrica solo da pochi giorni. Non ha ancora vent’anni. É magro che sembra metà di un uomo. È bello. Troppo bello. Me ne accorgo che tutte le altre se lo mangiano con gli occhi. Ma lui non guarda nessuno. È vanitoso. Appena può si ammira in uno specchietto che tiene in tasca.” (MM, p. 131)192 [...] 190 “Tano está preso. Mandou-me avisar por um policial. Parece que saqueou uma loja de tecidos e pode pegar seis anos.” (MM, p. 129) 191 “Dormi até tarde. Assim que acordo, Tano quer fazer amor. Mas eu não gosto, de manhã. E à noite, quando tenho vontade, ele não está disposto.” (MM, p. 118) 192 “Há um fulano na fábrica de quem gosto. Está trabalhando há dois dias comigo nos tanques. Faz tudo devagar. É lento. Não sabe como segurar as peças. Entrou na fábrica há poucos dias. Não tem ainda vinte anos. É tão magro que parece metade de um homem. É bonito. Bonito demais. Percebo que as outras o comem com os olhos. Mas ele não olha para ninguém. É vaidoso. Quando possível, admira-se no espelho que guarda no bolso.” (MM, p. 130) 124 “Adesso ne ho due: Romolo e Liberio. Con Liberio vado a ballare e a fare l’amore fuori. Gli ho detto che a casa ho il marito. Romolo viene da me due o tre volte alla settimana di sera e rimane tutta la notte.” (MM, p. 147)193 Enquanto procura dar conta dos dois jovens amantes, tem de ir à prisão visitar Tano, receber em casa Marta e Giorgio e aturar a mãe do marido, que se instala por um tempo em sua casa. A narradora sente-se esgotada, sempre mais doente por causa dos venenos inalados na fábrica, uma vez que teve sua solicitação de transferência de departamento atendida muito tardiamente. Um dia, a narradora se acidenta no trabalho e perde um dedo. A partir daí, sente-se absolutamente desanimada, até para escrever seu diário, isola-se e recusa-se a estar com as pessoas, até mesmo Romolo: “Ieri mi hanno cambiato di nuovo di reparto. Mi hanno affidato un tornio. Ho messo in moto il motore e trac, mi sono tagliata un ditto. Sono svenuta. Mi sono svegliata all’infermeria con una che mi faceva l’iniezione nella vena. Mi hanno dato dieci giorni di riposo. Ma chi se ne frega. Non ho bisogno di riposo, ma del mio dito. Già che con le mani io sono proprio disgraziata. Sempre nuovi guai.” (MM, p. 152)194 A narradora que ambicionava somente ser manicura, ao ter o dedo amputado, vê seu sonho se desmanchar. Trabalha em local insalubre, sustenta o marido vagabundo, que a maltrata, e se submete aos caprichos do casal amigo, na esperança de conseguir ser admitida no salão de beleza. Não se sente culpada pelo relacionamento extraconjugal, com Giorgio e, também, com os dois colegas de trabalho. “Le mani” é um diário frio e cruel, pontuado pela busca obsessiva de comida, de dinheiro, de afeto, de perspectivas. Traça o perfil de uma mulher amoral, que se 193 “Agora tenho dois homens: Romolo e Liberio.Com Liberio vamos dançar e transar fora. Disse-lhe que em casa tenho marido. Romolo vem me visitar duas ou três vezes por semana, no fim do dia, e fica a noite toda.”(MM, p. 143) 194 “Ontem me mudaram novamente de setor. Confiaram-me um torno. Pus o motor em movimento e trac, cortei um dedo.Desmaiei. Acordei na enfermaria enquanto uma mulher me aplicava uma injeção na veia. Deram-me dez dias de repouso.Mas estou me lixando. Não preciso de repouso, mas sim dO meu dedo. A verdade é que com as mãos eu sou mesmo uma infeliz. Sempre mai s desgraças.”(MM, ps. 147-148) 125 avilta para conseguir melhores condições de vida. Seu sonho de tornar-se manicura se perde, juntamente com o acidente em que teve um dedo amputado. É um conto tão dramático quanto os anteriores, que representam mulheres sem identidade, embrutecidas pela aceitação de uma condição subserviência aos maridos; mulheres que são alijadas da sociedade, quando declaram sua homossexualidade; ou mulheres que reduplicam o comportamento masculino, mantendo duas famílias. Enfim, são doze representações de mulheres que podem ser encontradas ainda hoje, na Itália e inclusive no Brasil. 126 CONSIDERAÇÕES FINAIS Talvez, agora, possamos esboçar uma resposta para a pergunta formulada por Freud em carta a Marie Bonaparte, e que, neste trabalho, a exemplo da pesquisadora Adélia Bezerra de Meneses195, a título de provocação, citamos na abertura do primeiro capítulo: as mulheres queremos ser respeitadas, tanto no campo afetivo quanto profissional; queremos fazer ouvir a nossa voz, a exemplo da escritora Dacia Maraini, que tem seu olhar voltado para o mundo feminino e produz narrativas que dialogam com as mulheres do mundo inteiro. No primeiro capítulo do trabalho, vimos que a voz feminina foi-se tornando cada vez mais forte e audível com o decorrer do tempo, em especial, a partir do final do século XIX, quando as mulheres norte-americanas pareciam ter alcançado a maior parte dos objetivos que estabeleceram como meta. E partir daí, a luta feminina foi-se propagando pelos demais países. Embora o movimento de emancipação da mulher tenha ocorrido através de toda a segunda metade do século XIX, acabou por ser anulado, durante o período do fascismo, na Itália. Em consequência dessa anulação, nos anos 1960, apesar de integrarem o mercado de trabalho italiano, constituindo inclusive mão-de-obra em fábricas, poucas mulheres tinham conseguido alcançar a sonhada emancipação. Muitas se mantinham sem luz própria, sob a tutela do pai ou do marido, exercendo o papel de “anjo do lar”, às vezes aviltada; aquelas que ousavam transgredir a ordem estabelecida eram marginalizadas pela sociedade. Essas mulheres, submissas ou transgressoras, às vezes ociosas e indolentes, são representadas, como vimos no segundo capítulo deste trabalho, no livro de contos Mio marito, da escritora italiana Dacia Maraini. O exame do livro Mio marito nos possibilita traçar uma cartografia do feminino de todo o século XX, uma vez que as vozes das doze protagonistas-narradoras dos contos ainda hoje repercutem e se confundem com as de muitas mulheres dos dias 195 MENESES, Adélia Bezerra de. Figuras do feminino na canção de Chico Buarque. 2ª ed. São Paulo: Ateliê, 2001. 127 atuais, e não somente na Itália. São muitas as mulheres que ainda se comportam como a narradora Marcella que, podemos afirmar, representa um tipo de mulher alienada: vive sob a tutela do marido, a quem idolatra; seu olhar sobre a realidade é míope, não sendo capaz de perceber o comportamento duvidoso demonstrado por seu marido, que se revela desonesto e perverso, inclusive com ela. Não raras, também, são as mulheres que se comportam como a personagem anônima do conto “Madre e filho”, sem vida própria, solitárias, prontas a “adotar” e cuidar de um homem carente e desprotegido. Vivem para representar o papel de mãe, às vezes superprotetora. Também encontramos com frequência mulheres que apresentam o mesmo comportamento da narradora Ada, do conto “Lenzuola di lino”, que querem manter o marido a qualquer custo, fingindo ignorar ou simulando não se importar com a vida extraconjugal que ele possa ter. Ada, a narradora, desloca seu olhar do casamento fracassado para os seus lençóis de linho, que estavam sendo estragadas pela amante de seu marido. Na outra ponta, encontramos personagens que tentam transcender o estereótipo de mulher, de esposa, de mãe, procurando representar outros papéis. São mulheres que transgridem o código social, formando duas famílias simultaneamente, como no caso da narradora do conto “L’altra famiglia”, ou, desafiando os valores da sociedade patriarcal, como vimos no “Maria”, conto de triste desfecho, conseguente da intolerância. Enfim, são doze narradoras, doze retratos de mulher que nos são mostrados, sem julgamentos moralizantes ou qualquer tipo de condenação. São apenas mostrados. Talvez em alguns deles identifiquemos traços do nosso rosto. Esperamos que esta dissertação possa contribuir para os estudos na área de italianística e, também, estimular outros trabalhos sobre a obra poética de Dacia Maraini. 128 REFERÊNCIAS: Bibliográficas: BERNARDELLI, Andrea. La narrazione. 4a ed. Milão: Laterza, 2006. BIANCHINI, Angela. Voce donna. Piacenza: Frassinelli, 1996. BIRMAN, Joel. Cartografias do feminino. São Paulo: Ed 34, 1999. CANDIDO, A. A personagem do romance. In: Candido, A. et al. A personagem de ficção. SP: Perspectiva, 1985. CAROTENUTO, Aldo. L’anima delle donne. 5ª ed. Bolonha: Bompiani, 2008. CAVALLINI, Giorgio. Momenti, tendenze, aspetti della prosa narrativa italiana moderna e contemporanea. Roma: Bulzoni, 1992. ECO, Umberto. Sei passeggiate nei boschi narrativi. 7ª ed. Milano: Bompiani, 2007. _____. Seis passeios pelos bosques da ficção. Trad. Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. _____. Sulla letteratura. Milano: Bompiani, 2002. FERRONI, Giulio. Storia della letteratura italiana: dall’ottocento al novecento.Vol. III, Milano: Einaudi Scuola. 1991. FREUD, S. “Gradiva” de jensen e outros trabalhos. V. IX (1096-1908). In: http://pt.scribd.com/doc/7370116/Sigmund-Freud-vol-09-Gradiva-de-Jensen-e-outrostrabalhos-rtf GASPAR, Adília Maria. A representação das mulheres no discurso dos filósofos: Hume, Rousseau, Kant e Condorcet. Rio de Janeiro, UAPÊ, 2009. GAY, Peter. A experiência burguesa da rainha Vitória a Freud: a educação dos sentidos. Tradução de Salter. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. GOTLIB, Nádia Battella. 2ª ed. Teoria do conto. São Paulo: Ática, 1985. ISER, Wolfgang. O fictício e o imaginário. Perspectivas de uma antropologia literária. Tradução de Johannes Kretschmer. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1996. MARAINI, Dacia. Mio marito. Milano: Scala,1999. 129 ________. Meu marido. Trad. Francesca Cavalli. São Paulo: Berelndis & Vertecchia Editores, 2002. PELLINI, Pierluigi. La descrizione. Bari: Laterza, 1998. PIGLIA, Ricardo. Formas breves. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. PIGOZZI, Elena; DE PRETIS, Susi. Letteratura al femminile: l’anima dell’altra metà del cielo. Verona: Ed. Demetra, 1998. REIS, Carlos; LOPES, Ana C. M. Dicionário de narratologia. 7a ed. Coimbra: Almedina, 2000. REIS, Carlos. Técnicas de análise textual. 3a ed. Coimbra: Almedina, 1981. ROCCELLA, Eugenia. La letteratura rosa. Roma: Ed Riuniti, 1998. ROSA, Alberto Asor. Scrittori e popolo. Roma: Samonà e Savelli, 1975. pp.13, 2022. ______. Sintesi di storia della letteratura italiana. Firenze: La Nuova Italia, 1981. SALINARI, C; RICCI, C. Storia della letteratura italiana. 5v. Bari: Laterza, 1980. SCARAFFIA, Lucetta Scaraffia; BRAVO, Anna [et al.]. Storia sociale delle donne nell’Italia contemporanea. Turim: Mondadori, 2002. SALINARI, C: RICCI, C. Storia della letteratura italiana. 5v. Bari: Laterza, 1980. SEGRE, Cesare. Avviamento all’analisi del testo letterario. Turim: Einaudi,1985. _______. Tempo di bilanci. Turim: Einaudi, 2005. STARA, Arrigo. Letteratura e psicoanalisi. Bari: Laterza, 2001. TURCHETTA, Gianni. Il punto di vista. Bari: Laterza, 1999. Sítios conexos: • http--www.mestradoletras.ufjf.br-profs-textos-textoma3.pdf.url 10/12/2007) • http://www.italiadonna.it/public/percorsi/biografie/f105.htm. 14/12/2007) 130 (Visita (Visita em em • http://www.comune.empoli.fi.it/biblioteca/iniziative/autori/maraini2/maraini.htm (Visita em 14/12/2007) • http://www.geocities.com/Athens/parthenon/8132/Il_sito_delle_streghe/p_scrit tura_maraini.html (Visita em 14/12/2007) • http://books.google.com/books?hl=pt-BR&lr=&id=Fl9a1ytVLsC&oi=fnd&pg=PP10&dq=Dacia+Maraini&ots=kGzJ-QOy5&sig=cSqEavWdwI9Iyn73scvMI8mJsfE#PPA9,M1(14/12/07) • www.dacia maraini.it (Visita em 10/12/2007) • http://spectrumgothic.br/literatura/glossario.htm • http://libriblog.com/autori/biografia-di-dacia-maraini/. (Visita em 12/05/2011) • http://digilander.libero.it/PensieriInVolo/festadonnapoesie/festa_della_donna_ poesie.htm 131 “Cuore di donna” Coração de mulher Existem mulheres que caminham contra o vento uma vida inteira... Existem mulheres que possuem os olhos profundos e desconhecidos como os oceanos... Existem mulheres que trocam pele por amor... Existem mulheres que doam seu coração... ... para depois pegar-se a apanhar os restos do sol... Existem mulheres que em silêncio fazem dançar a própria alma sobre uma praia ao pôr-do-sol... ... se paras um instante poderá surpreendê-las... ... enquanto lutam contra o próprio instinto... ... enquanto fazem a própria dor passear com os pés descalços ... enfrentando ondas que a cada tempestade tornaram-se sempre mais ameaçadoras Existem mulheres que fecham os olhos... escutando música lenta... ... que torna ainda mais salgadas as suas lágrimas Existem mulheres que com orgulho, mas com um nó na garganta renunciam à felicidade... Existem mulheres que com os seus olhos fotografam os esplêndidos, mas tão fugazes momentos em que se sentem abraçadas pelo amor... ... esperando mantê-los vivos e coloridos para sempre... ... se abrires os olhos um instante a podes observar... ... enquanto disseminam fragmentos de si mesmas ao longo do percurso em direção àquele trem que a levará... ... enquanto gritam a sua raiva contra os vidros tremulantes de uma casa que se tornou uma prisão... Enquanto sorriem de desespero para quem as quer fazer voltar à vida de sempre Existem mulheres que não param diante de nada... ... porque não encontrarão nunca o fim daquele fio... Existem mulheres que fizeram um nó para cada lágrima sua... ... na esperança que chegue alguém que os desate Não pare o coração de uma mulher... nada vale mais... ... não faça uma mulher chorar ... cada lágrima é um pouco dela mesma que se vai... ... não a faça esperar sozinha e amedrontada sentada no limite da loucura... ... e se a queres amar... ama... com todo o teu ser... Segure-a e proteja-a... lute por ela... mate por ela... chore com ela... ...dá-lhe o mais belo raio de sol ..cada dia... ... tenha sempre acesa aquela luz em seus olhos... ... aquela luz é esperança... é amor... é puro espírito... é vento ... é a mais bela estrela de qualquer noite... http://digilander.libero.it/PensieriInVolo/festadonnapoesie/festa_della_donna_poesie.htm 132