AÇÃO EDUCATIVA
Inventário dos Achados
O olhar do professor–escavador de sentidos
AÇÃO EDUCATIVA
Inventário dos Achados
O olhar do professor–escavador de sentidos
Quem pretende se aproximar do
próprio passado soterrado deve
agir como um homem que escava.
Antes de tudo, não deve temer voltar
sempre ao mesmo fato, espalhá-lo
como se espalha a terra, revolvê-lo
como se revolve o solo. Pois “fatos”
nada são além de camadas que
apenas à exploração mais cuidadosa
entregam aquilo que recompensa a
escavação. Ou seja, as imagens que,
desprendidas de todas as conexões
mais primitivas, ficam como
preciosidades nos sóbrios aposentos de
nosso entendimento tardio...
Walter Benjamin1
AÇÃO EDUCATIVA
Sumário
Supervisão geral
Mirian Celeste Martins
Gisa Picosque
Coordenação Geral
Fábio Coutinho
Coordenação de Formação
Ação Educativa: território da mediação
5
Arqueologias Contemporâneas:
revolvendo a exposição
6
O olhar do professor-escavador de sentidos
7
Camadas de leitura que originam achados
10
Mônica Zielinsky
Assistente da Coordenação de Formação
Laura Cogo
Coordenação Operacional
Laura Fróes
Assitente da Coordenação Operacional
Graziela Salvatori
Coordenação de Relacionamento com o Público
Emília Viero
Assistente da Coordenação de Relacionamento com o público
Vivian Paulitsch
Divulgadoras
Ana Lígia Becker
Fernanda Moscarelli
Maria Helena Cunha
Tatiana Praça Rodrigues
Agendadoras
Cristina F. Rocha
Fernanda M. Hegner
Joana Scalco
Luciane Padilha
Caligrafia da criação
Materialidade/Matéria
Corpo movente
Memória-(In)Temporalidade
Supervisora do Espaço Arte-Educação-Cultura
Ivone Rizzo Bins
Supervisores de Mediadores
4ªBienal do Mercosul
Arqueologias Contemporâneas
Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul
Ação Educativa
4 de outubro a 7 de dezembro de 2003
Porto Alegre/RS
Adriana Daccache
Alice Bemvenuti
Cláudia Zanatta
Ilana Peres Azevedo
Letícia Lau
Maria Helena Gaidzinski
Mariângela Felippe
Michele Bohnenberger
Mônica Hoff
Nei Vargas
Tania Bondarenco
Viviane Gueller
Inventário dos achados:
o olhar do professor- escavador de sentidos
Mirian Celeste Martins
Gisa Picosque
Concepção e Criação textual
O pó dos caminhos: rastros do saber-fazer do
professor e seus alunos
26
Convites para novas expedições
30
Referências Bibliográficas e Sugestão de leituras
32
Encarte: Baralho das Arqueologias Contemporâneas
> Ação Educativa: território da mediação
rte. Essa linguagem de força estranha que ousa, se
aventura a falar de tudo, do desconhecido, daquilo
que é percebido pelos sentidos, materializando os sentimentos humanos ou os diferentes olhares que o ser humano pousa sobre as coisas. Tal qual a fotografia Novia em
Mansión Montes (fig 1) de Martin Chambi, que abre os temas deste caderno. Um olhar sobre o velar e o desvelar, a
figura destacada e a figura escondida2, o ritual de passagem do conhecido para o desconhecido, nos inquieta. A
Arte não responde. Pergunta.
O que perguntam os artistas, o que dizem as obras
presentes nas Arqueologias Contemporâneas da 4a Bienal
de Artes Visuais do Mercosul?
Transformados em sítios arqueológicos para o nosso
olhar, os espaços expositivos do Instituto Cultural Santander, do MARGS, do Memorial, da Usina do Gasômetro e
dos quatro armazéns do cais no porto, apresentam mostras específicas. Transformando também professores em
arqueólogos, a 4a Bienal do Mercosul se oferece como
território da mediação. Através do Programa de Ação Educativa, responsável por acionar processos de conhecimento
e de pensamento em artes visuais, foram idealizadas e
planejadas ações preocupadas com a qualidade de mediação e informação contextualizada a ser oferecida. Privilegia-se, neste processo, o modo como são estabelecidos
vínculos com os diferentes públicos, visando sempre
fertilizar modos de perceber.
A provocação convoca o corpo. Com ele, o perceber, o
sentir, o pensar. É este o convite desta 4a Bienal do Mercosul, que se prepara para que o visitante, especialmente
aqueles das comunidades das escolas e das ONGs, possa
compartilhar e ampliar seu modo singular de mergulhar na
experiência estética, por si, cultural e educativa.
Dois verbos definem e articulam a proposta da Ação
Educativa:
Dialogar, porque entendemos o diálogo como um
processo humano imediato gerador da comunicação
necessária entre arte e público.
Aproximar, porque, entre a arte e o público, há ainda
fronteiras a serem ultrapassadas a fim de dinamizar a formação cultural como um bem simbólico integrado a vida
de crianças, adolescentes e adultos.
Para dialogar e aproximar
os conceitos de mediação e exMartin Chambi
pedição são âncora da proposta
Novia em Mansión
Montes, 1930
da Ação Educativa, concretizados
Fotografia
através de: formação de mediaCusco
dores e em seu trabalho durante
as visitas, produção de materiais de apoio para os
estudantes – o catálogo: Aprendiz de arte na expedicão às
Arqueologias Contemporâneas, encontros promovidos
junto aos professores – Camadas para escavar sentidos: o
olhar do professor-pesquisador e deste material de
apoio. A ação se complementa também através do Espaço
Arte-Educação-Cultura, especialmente criado para a
continuidade de um atendimento aos educadores em suas
pesquisas e planejamento de projetos, além de saraus
culturais.
A
4
Como transformar visitas em expedições culturais?
Como instigar um olhar investigativo dos grupos escolares
visitantes, propondo a visita como possibilidade de pesquisa e estudo sobre a arte contemporânea? Como trabalhar com o discurso expositivo na sala de aula e para
além da própria exposição? São estas as questões que
desenham o material aqui apresentado, como vestígios da
exposição que visam a preservar sua memória para além
de seu espaço e de seu tempo:
>
17 pranchas para escavar sentidos – tentam capturar o
corpo/olhar pela reprodução da obra e por textossuportes de possíveis chaves de entrada que problematizam o olhar a obra reproduzida, trazem a fala do
curador com sua visão geral sobre a mostra, oferecem
informações e sites complementares, propondo ainda
conexões estéticas e interdisciplinares.
>
um caderno que complementa estas pranchas, propondo a entrada no território da mediação e a investigação do professor-escavador de sentidos pelas camadas de leitura que originam achados. É a partir destas
camadas que chega-se aos rastros do saber-fazer do
professor e seus alunos.
O convite veio da curadoria e nos tornamos arqueólogos para adentrar nos espaços desta 4a Bienal do Mercosul. O convite se estende a todos os aprendizes de arte,
nós dentre eles, como arqueólogos-professores-pesquisadores, munidos de atitude poética reflexiva e crítica,
como potenciais mediadores suprindo as dificuldades de
envolvimento com a arte contemporânea e, zelando pelas
futuras ressonâncias.
Iniciemos a expedição, que pode se prolongar para
além do período da exposição, movidos pelos textos visuais e verbais e nossa própria memória da 4a Bienal do
Mercosul visitada.
5
> Arqueologias Contemporâneas:
revolvendo a exposição
ma palavra e seu sentido são fundamentais para
uma exposição contemporânea: curadoria – função normalmente exercida por especialistas na
área de arte, que propõem, no processo de organização de
uma exposição, as formas de articulação entre os elementos de uma mostra. A curadoria nasce da seleção e combinação de idéias, promovendo um recorte potencializado,
gerado pela figura do curador 3.
Como curador desta 4a Bienal do Mercosul, reconhecendo-a como um pórtico de entrada latino-americano para todos os eventos internacionais, Nelson Aguilar 4
Assim, a visão cartesiana de que o tempo se arrasta
de forma linear, que se perpetua também na freqüente
perspectiva com que é vista a História da Arte, encontra
nesta 4a Bienal um confronto instigador. A arte moderna
rompeu com tradições, impulsionada também pela investigação da própria linguagem da arte, descoberta de outras
culturas e outros modos de perceber o mundo. A gravura
japonesa, a arte africana, a produção oceânica, a arte bruta,
marcaram o impressionismo, o cubismo, o expressionismo,
as produções do pós-guerra. Quando Nelson Aguilar articula
mostras dentro da idéia de arqueologia em um evento
contemporâneo “questiona a concepção linear da história e
confirma que a arte toma o elã de tempos e lugares diversos”.
Esta visão se desvela nas diversas mostras que compõe
a 4a Bienal do Mercosul: As Mostras Icônicas focalizam um
único artista em destaque, celebrando os países presentes:
Antonio Berni da Argentina; Pierre Verger da Bolívia;
Saint-Clair Cemin do Brasil; Roberto Matta do Chile;Lívio
Abramo do Paraguai; María Freire do Uruguai e José
Clemente Orozco, do México, país convidado. Há uma
prancha dedicada a cada um deles, com a reprodução de
uma obra significativa. O olhar sobre as origens está
representado nas pranchas pela imagem de uma obra da
Mostra Histórica Arqueologia das Terras Altas e Baixas e
pelo projeto da instalação da Mostra Especial Arqueologia
Genética. Dos artistas presentes na Mostra Transversal O
delírio de Chimborazo, que atravessa todos os espaços
trazendo na figura de Simon Bolívar a força da liberdade e o
desejo da união latino-americana, foi selecionada uma obra
de Martin Chambi. Para as pranchas das sete Representações Nacionais, que exibem exclusivamente arte contemporânea e envolvem vários artistas, foram reproduzidas
obras que tecem um diálogo com a proposta educativa.
Em 4 de outubro de 2003, Arqueologias Contemporâneas inaugurada, nos faz lembrar que em todos os outubros, acontece a colheita. Tempo para a preservação que
refaz a nossa sobrevivência. Quais achados um professorpesquisador de arte pode coletar na exposição para a sobrevivência cultural de seus alunos? Quais obras podem
ser escavadas para gerar nos alunos novas maneiras de
olhar o mundo e preservar na imaginação?
Por onde então, começar?
U
foi buscar nas questões sobre a origem o seu mote e na arqueologia, sua porta de entrada. Recupera do pó a palavra,
que poderia parecer “mofada” em vitrines museificadas e
a submete ao presente. Notícias recentes falam da descoberta de fósseis humanos5 e das novas possibilidades tecnológicas, reafirmando a condição contemporânea dos
estudos arqueológicos. Aqui nos são reveladas faces pouco
exploradas, produções exibidas na Mostra Histórica Arqueologia das Terras Altas e Baixas. Da mesma forma,
Nelson Aguilar subtrai o tempo das inovações científicas,
que parecem demorar a ingressar no cotidiano, trazendo a
Mostra Especial Arqueologia Genética integrando DNAs e
genomas, esteticizados, para um diálogo repleto de interconexões. O jogo da curadoria encontrou também parceiros curadores, responsáveis por cada mostra, desvelando
ricas camadas onde tempo e espaço são vestígios do presente assinalando o passado.
A pergunta pelas origens permanece incandescente entre os povos da América Latina, a tal ponto que
se torna a marca da 4a Bienal de Artes Visuais do Mercosul. Não importa que seus indagadores sejam descendentes de africanos, ameríndios, asiáticos, europeus.
Tudo conflui aos tempos míticos do engendramento, aos
vestígios materiais das primeiras culturas, à aferição
científica que a biologia molecular lança à chegada do
homem no continente americano, à agilidade com que
os artistas contemporâneos averiguam o começo.
Quando a velocidade em que se processa a informação cresce em uma escala vertiginosa, cabe à curadoria de uma mostra artística inquirir a respeito dos
primórdios e compor um mosaico que repertoria a arqueologia vista a partir de hoje.(Aguilar, 2003)
Vinha eu envolto no manto de Íris desde onde o caudaloso Orinoco paga seu tributo ao Deus das águas. Tinha visitado
as encantadas nascentes amazônicas e quis escalar a atalaia do Universo. Resoluto, segui as pegadas de La Condamine e de
Humboldt, e nada me deteve. Alcancei a região glacial, o éter sufocava meu alento. Nenhum pé humano havia calcado a coroa
diamantina que as mãos da Eternidade depuseram nas excelsas têmporas do dominador dos Andes. E disse comigo: este
manto de Íris, que me tem servido de estandarte, atravessou glebas infernais, sulcou os rios, os mares, galgou os ombros
gigantescos dos Andes, e a terra abriu caminho à Colômbia, sem que o tempo pudesse obstar a marcha da liberdade. Se Belona
foi humilhada pelo resplendor de Íris, acaso não posso eu assomar às cãs do gigante da terra? Sim, eu posso! E arrebatado pelo
ímpeto de um espírito para mim desconhecido, que divino se me afigurava, deixo para trás os vestígios de Humboldt que
empanam os cristais eternos à volta do Chimborazo. Subo, compelido pelo animoso gênio, e quase desfaleço ao roçar a cabeça
na copa do firmamento: aos meus pés, os umbrais do abismo Um delírio febril embargou-me a mente. Abrasava-me um fogo
estranho e superior. Era o Deus da Colômbia que me possuía.(...)
O fantasma desapareceu.
Quedei-me estendido sobre imenso diamante que de leito me valia, absorto, hirto e como sem sinais de vida. Ouço,
então, a tremenda voz da Colômbia a clamar por mim. Ressuscito, levanto-me, abro com as mãos as pesadas pálpebras. Volto
a ser homem e descrevo meu delírio.
Simón Bolívar, 1823 (tradução de Sergio Faraco)
> O olhar do professor-escavador de sentidos
Francis Alÿs
Zapatos magnéticos, La Havana 1994
1994-2003
Cartões postais, fotografias em cores, vídeo
Representação Nacional/México
6
7
omecemos não pelo olhar, mas pelos passos. E os
passos são do artista Francis Alÿs. Na Mostra: Representação Nacional/México, os rastros de seus
passos e a matéria de sua criação se revelam na sua instalação, composta por fotografias, vídeo e postais. Aqui,
vemos o seu incomum par de sapatos magnéticos. Alÿs é
um andarilho de cidades que colhe com seus pés pelas ruas
uma série de objetos metálicos que passam despercebidos
dos habitantes. A obra de Alÿs é construída pelos seus
rastros e do que pode pegar com o pé. Antes da matéria’’ se
prestar à metáfora artística, ela se mostra em si. Bruta.
Lixo. Nessa aventura arqueológica o artista soube cavar
uma maneira pessoal de se apropriar dos restos, dos indícios do ambiente econômico e cultural de determinados
lugares. É como se Alÿs fizesse uma curadoria da rua por
meio de seu receptivo sapato que se deixa imantar pelo
jogo do acaso aberto ao intencional do artista. O procedimento de andarilhar e coletar cede lugar ao processo,
no que este último pode revelar da intenção de arte perseguida pelo artista: nos deixar pistas para que os olhos
vejam vestígios da civilização contemporânea.
A imantação poética dos passos do artista Francis
Alÿs pode nos conduzir a pisar na poeira do solo do vasto
campo de Arqueologias Contemporâneas desta 4a Bienal. Se
formos sensíveis ao seu procedimento, o que calçaríamos
para coletar/imantar as imagens de arte? Como andarilhos da arte, quais imagens podem compor nossa curado
ria do ensinar-aprender arte?
Um professor que mantém vivo a curiosidade, que
gosta de estudar, investigar imagens para sua prática na
sala de aula e levar seus alunos ao encontro com a linguagem da arte sem forçar uma construção do sentido “correto” ou único, veste sandálias de professor-pesquisador, envolvendo com a mais fina atenção sua pele pedagógica, dando sustentação para pisar em terras ainda desconhecidas. Não lida com as certezas, e com reducionismos
simplistas, mas com a compreensão e a articulação da
complexidade. Por isso mesmo, seu caminhar se dá no futuro, no lugar da pergunta, da questão, da dúvida, movido
por passos de andar sinuoso que evitam os caminhos retos
porque assim pode traçar sua própria trilha na escavação
das Arqueologias Contemporâneas. Nesse modo de caminhar,
descobrindo quais trilhas são acessíveis e outras não, o
professor-pesquisador é mais afeito à formulação de
perguntas do que à elaboração de respostas diante de cada
imagem que achar. Afinal, a arte não responde; pergunta!
Nessa audaciosa empreitada, quais obras de arte poderiam imantar as sandálias do professor-pesquisador?
Seria essa coleta um jogo do acaso? Ou, o critério de escolha é as obras que agradam? Ou as obras que já conhece?
Como fazer, porém, para que essa escolha ganhe uma amplitude na intenção de sua coleta?
Um conceito que pode orientar o professor-pesqui-
sador de arte nessa coleta seria o de curadoria educativa6. O conceito de curadoria aqui é expandido para uma
ação educativa que tem como preocupação explorar a
potência da arte pela ativação cultural de obras e artistas
através da experiência e investigação estética na sala de
aula. Ativar culturalmente é fazer circular, é dar acesso,
aproximar. É impulsionar a potencialidade de obras e
artistas submersos nos livros, nos museus, nos sites, nas
reproduções esquecidas que fazem parte de nosso acervo
de professores, para além daquelas sempre escolhidas7.
Reside nessa ação a formação cultural dos alunos. Formação esta que, enfatizando a habilidade perceptiva e cognitiva
para interpretar obras de arte em termos de seu contexto
social e cultural, possa ampliar o acervo imaginário de tal
modo que obras e artistas passem a integrar o patrimônio
pessoal como um bem simbólico interno, um repertório conectado à vida para a leitura do mundo, das coisas do
mundo e da própria Arte.
Como em toda curadoria, a escolha das imagens faz
trabalhar o olhar, um olhar escavador de sentidos. Olhar
mais profundo e ao mesmo tempo sem pressa, ultrapassando o reconhecimento, o fim utilitário das imagens, e que
se torna um leitor de signos. Nesse movimento do olhar,
segundo o filósofo francês Georges Didi-Huberman8, não
só olhamos a obra como ela também nos olha. Atento aos
sentidos das imagens, tal qual um arqueólogo que escava à
procura do desconhecido, o professor-pesquisador é um
leitor de imagens que elege aquelas que vão adentrar na
sala de aula para o deleite e investigação dos alunos.
Nessa tarefa de leitura, as sandálias de professorpesquisador imantam imagens para compor uma seleção,
uma combinação de imagens. Seleção é dizer sim e não,
sempre é ênfase e exclusão. Combinação é recorte. Todo
recorte é comprometido com um ponto de vista que se
elege, exercendo a força de uma idéia, de um conteúdo que
é desejo explorar ou de uma temática possível de desencadear um trabalho junto aos alunos.
Selecionar e combinar são, então, uma interpretação do professor-pesquisador. Não uma interpretação que
cria a armadilha de responder questões, mas a interpretação que vai propor aos alunos um processo instigante de
novas e futuras escavações de sentido. Interpretação entendida como um encontro ”entre um dos infinitos aspectos
da forma e um dos infinitos pontos de vista da pessoa”9
C
Pontos de vista que, se socializados num grupo, proliferam
em múltiplos sentidos.
Foi assim, vestindo sandálias de professor-pesquisador, que realizamos uma curadoria educativa, imantando
as 17 pranchas que reproduzem obras do discurso expositivo e que aqui são re-apresentadas nas páginas centrais
deste caderno. O mesmo procedimento norteou a seleção
das imagens que estão reproduzidas no próximo capítulo
Camadas de leitura que originam achados e que foram com-
8
binadas para tematizar quatro investigações estéticas: Caligrafia da criação; Materialidade/Matéria; Corpo Movente e
Memória-(In)Temporalidade.
Tal qual o artista Alÿs que, com sua curadoria da rua
por meio de seu receptivo sapato, persegue sua intenção
artística/estética, o professor-pesquisador com sua curadoria educativa revela sua intenção pedagógica a ser perseguida na sala de aula. Para isso, há que se convocar os olhos
daqueles que pela primeira vez vão olhar/ler as imagens,
seja para saborear ou estranhar o novo, o desconhecido.
Mas de que modo convocar o olhar dos alunos para a
visualidade das imagens achadas nas Arqueologias Contemporâneas? Como escavar sentidos através de um rico e
fértil diálogo entre as imagens e os alunos?
pede uma orientação aos olhos, de tal modo que todo o
corpo possa “olhar” sentindo, escutando, tateando, pensando. É uma tarefa que convoca o olhar a sair de uma atitude passiva para mergulhar numa atitude ativa, interrogadora, atenta tanto as formas visuais da imagem como as
conexões sociais e culturais que associamos a imagem.
Nesse trabalho gerador de sentidos e significação, o
professor é um perguntador, é aquele que sabe fazer perguntas e levar o olhar a dialogar com a imagem, aguçando a
curiosidade e o desejo de olhar o que ainda não foi olhado.
Para perguntar aos nossos alunos é importante que
antes nós mesmos nos deixemos capturar pela obra. Só
uma leitura pessoal da imagem pode nos levar a descobrir
o quê perguntar, como perguntar, a fim de roteirizar uma
pauta do olhar: uma listagem das hipóteses de perguntas
que possam provocar um diálogo dos alunos com a imagem, com eles próprios sobre a imagem e com o próprio
professor. Cuidadoso, o professor procura não transformar essa listagem num roteiro rígido como uma seqüência
de perguntas tal qual um questionário. Por isso ele é também um leitor das respostas de seus alunos, acompanhando o percurso do olhar que estão fazendo, identificando
como eles olham, sentem, pensam e interpretam o que
vêem na imagem ao mesmo tempo em que vão sendo enriquecidos pela troca de pontos de vista de cada um do grupo.
Provocar diálogo, assim, não é fixar-se em perguntas
que podem se tornar entendiantes ou persecutórias, mas
perguntas que saibam puxar a prosa, desvelar os saberes e
os não-saberes, os conceitos e os pré-conceitos, para que
possamos trabalhar sobre eles, alimentá-los, ampliá-los e
deixar que a experiência estética se concretize. Como
queria Dewey (1949) uma experiência é estética porque a
vivemos de forma integral, completa – seja uma experiência intelectual, prática ou artística. “Ação, sentimento e
significação são uma só coisa”.12
Mediação: espaço cauteloso e tateante
Tem de todas as coisas. Vivendo, se aprende;
mas o que se aprende, mais, é só a fazer maiores perguntas.
Guimarães Rosa
o contato com a arte, seja através da leitura de obras,
seja através do fazer, como professores-pesquisadores nos movemos no território da mediação. Processo
delicado que pede uma atenção especial revelada por uma
atitude frente à arte e ao outro, seja criança, jovem ou
adulto conhecedor ou não do universo artístico.
Novas perguntas surgem quando pisamos na seara da
mediação. Acreditamos que o outro à nossa frente tem um
saber? Confiamos em seu potencial sensível? Compreendemos seus conceitos e pré-conceitos desvelados por sua
fala, sua gestualidade? Cremos na multiplicidade de leituras da obra de arte?
Sobre isso, Pareyson10 ensina que “a interpretação é
sempre, ao mesmo tempo, revelação da obra e expressão
de seu intérprete”. E, Panofsky11, diz que “a experiência
recriativa de uma obra de arte depende não apenas da sensibilidade natural e do preparo visual do espectador, mas
também de sua bagagem cultural”. Não há espectador totalmente ingênuo. Portanto, há marcas culturais tatuadas
nas pupilas dos olhos dos alunos que não devem ser
desprezadas, mas sim incorporadas e ampliadas durante a
leitura para que novas interpretações e construção de sentido possam ser desveladas.
Nesse sentido, o professor-pesquisador enquanto
mediador é aquele capaz de alterar as fronteiras entre o
que é conhecido e o que ainda é desconhecido, fazendo
com que as informações transitem acopladas aos valores
de seu grupo de alunos.
Mas qual procedimento pode auxiliar na leitura a fim
de sacudir a percepção provocando um misto de incômodo
e encantamento no olhar?
Olhar, apreciar, uma imagem da linguagem da arte
N
Claro que um professor-escavador de sentidos
possui informação preciosa sobre as imagens e os artistas
que apresenta aos alunos. O perigo é fazer com que essas
informações sejam colocadas como a única e correta interpretação da obra, fechando o sentido. Por isso, cada
informação que seja adicionada ao diálogo vem para provocar novos arranjos nos modos de perceber dos alunos.
Buscando-se assim renovar o significado das interpretações anteriores, modificando o olhar de modo que cada
um ganhe mais liberdade e autonomia para construir suas
próprias interpretações. Portanto, a informação se difere
da interpretação, age como suaves sopros moventes no pó
das camadas interpretativas.
Contudo, há que se ter delicadeza com o olhar. Antes
de qualquer pergunta, a convocação se dá pelo olhar silencioso que mergulha nas sensações que a imagem vai
doando ao corpo do leitor. Escavar essas sensações é tocar
em camadas de coleta sensorial que “gera o sentido doce.
9
Que sai dessa cavidade e voa. A sensação mergulha portanto no silêncio, receptivo. Entendam isto como uma
verdade sensível, como a verdade dos sentidos. A mudez
inunda nossos sentidos. O silêncio constrói o ninho, o habitat da sensação. Sem ele, ela não existe”.13
mica de um trabalho com projetos14, mas cabe aqui considerá-lo como uma atitude pedagógica. Um projeto é uma
intenção, que precisa ser continuadamente avaliada e
replanejada. O escolher, propor, opinar, discutir, decidir,
avaliar são ações desenvolvidas durante a processualidade
do aprendizado em parceria com o grupo e com o professor. A visita a um dos roteiros desta 4a Bienal ou a leitura
de algumas obras apresentadas nas pranchas, neste caderno
ou no catálogo criado especialmente para os estudantes
visitantes – Aprendiz de arte na expedição às Arqueologias
Contemporâneas – podem gerar projetos interdisciplinares
ou não, que partem desta 4a Bienal.
Pensando o conhecimento como uma construção em
rede, que se amplia, se clareia e se aprofunda pelas relações que são estabelecidas entre o que se sabe e o que
ainda não se sabe, podemos partir para projetos que não
cercam obras únicas, mas que tentam estabelecer diálogos
entre duas ou mais obras, em novas curadorias educativas.
A noção de teia, de rede, o conceito de rizomaxv, com suas
possíveis confluências entre as imagens da exposição e o
olhar de múltiplos leitores, alimenta o planejamento de
projetos que geram “frutos” de conhecimento diversos,
inter-relacionados e, ao mesmo tempo, autônomos e produtores de novas conexões.
O pensamento relacional, rizomático, propõe redes que
se entrelaçam e germinam novas conexões, novos “links”,
instigando o olhar/corpo às camadas interpretativas, regidas
por conexões estéticas e interdisciplinares, já anunciadas
nas pranchas que compõem este material e ampliadas por
novas e ricas configurações de objetos de estudo.
Essa ação iniciadora do olhar silencioso é fértil para
gestar falas de interpretação e de (inter)penetração entre a
obra e o leitor. Em torno dos germes sensoriais da coleta, o
leitor constrói pouco a pouco um olhar do detalhe, da nuança,
encontrando passagens que amaciam o (con)tato pela imediatez dos sentidos. Forma-se assim, uma parceria vibrante
entre o corpo de quem lê e as nervuras da carne da obra que se
lê, mesmo que o sentido revelado seja o não-sentido do que
parece sem sentido. Propiciar momentos de silêncio, para
que cada aluno escreva suas impressões, sensações, idéias, é
uma ação de mediação especial que abre espaço para ampliações futuras pelas interpretações compartilhadas.
Projetos: um vir-a-ser das conexões
estéticas e interdisciplinares
Como pode se dar a ressonância da leitura de imagens – seja aquela leitura que aconteceu durante a visita a
exposição ou a que se deu em sala de aula através das
imagens que compõem este material educativo?
A leitura pode ter revelado uma riqueza infinita de
coisas para investigação e, ao contrário de se pensar em
atividades isoladas, é preciso re-qualificar as questões
trazidas para gestar projetos em sala de aula.
Não cabe neste material de apoio aprofundar a dinâ-
> Camadas de leitura que originam achados
teúdos a serem esmiuçados e desenvolvidos analiticamente. Cada temática poderá gerar projetos autônomos ou,
a partir de suas possibilidades de agregação, mistura,
contaminação com outra, ramificar novo caminho processual de experiências poéticas significativas. Ou mesmo,
gerar conexões de caráter interdisciplinar com outras áreas
de conhecimento. Para isso, propomos desafios estéticos e
jogos de pesquisa através de diferentes perguntas-senhas.
A gente descobre que os tamanhos das coisas há que ser
medido pela intimidade que temos com as coisas.
Manoel de Barros
iante da riqueza arqueológica que cada sítio revela
nesta 4a Bienal do Mercosul e dentre múltiplas
potencialidades, pode-se trabalhar com camadas
de leitura, geradas pela seleção e agrupamento de imagens
por temáticas. Escovar cada temática significa potencializar investigações estéticas, que germinam projetos específicos com a linguagem da arte ou projetos interdisciplinares tendo a arte como fio gerador.
Propomos quatro camadas de leitura: Caligrafia da
criação; Materialidade/Matéria; Corpo Movente e Memória(IN)Temporalidade. Não são receitas ou projetos para serem “aplicados”, mas para aguçar o olhar de educadores e
aprendizes e por isso são pretextos que vão além de con-
D
Caligrafia/traço
“Para algo existir mesmo – um Deus, um bicho,
um universo, um anjo... – é preciso que alguém
tenha consciência dele.
Ou simplesmente que o tenha inventado”.
Mário Quintana
10
Um esboço experimenta idéias no papel. Não é rascunho a ser passado à limpo, mas obra. Sua força está presente, marcando algo que está na processualidade vivida
intensamente por Orozco. O traço é a lápis, diante do papel em branco, limpo, sua escrita desenhante brinca de
traços rápidos com a linha em volteios esboçando o corpo
de um homem em ação. Escrita cega de Arturo Herrera,
não vê bem a direção. O gesto da mão é seu guia dando voltas no espaço, embaraça a visão. León Ferrari faz nossos
olhos se perderem num labirinto. Os carrinhos, idênticos,
se amontoam, presos como um Minotauro, correndo apressados em um viaduto de onde não é possível sair. Também
não se encontra a saída do texto visual criado por José
Damasceno. Suas vírgulas em mármore, grafam a caligrafia
da pedra, sobrecarregando o chão de intervalos incessantes.
É a mão trabalhadora, que faz da arte uma escrita. Textos
visuais, tornados visíveis pela caligrafia da criação.
Na arte há criação, construção, invenção. Tal qual um
jogo de armar, um quebra-cabeça, a arte recria a matéria oferecida pelo mundo da natureza e da cultura. Neste vir-a-ser,
vários caminhos são percorridos, várias soluções são experimentadas, hipóteses são testadas. Nesse jogo as regras são
inventadas enquanto se joga e por quem joga. A arte é “um tal
fazer que enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer”.16
>
>
>
Desafios estéticos para jogos de pesquisa
>
O que você percebe em seu percurso pessoal de criação? Com quais materiais você trabalha? Quais artistas são
referência para o seu processo de criação? Como você se
vê mergulhado no caos criador: conflito entre o impulso
para criar e a forma desejada? Conflito entre a sua subjetividade e a objetividade da forma? Conflito entre sentimento/pensamento e forma sígnica?.
> Quais obras expostas na 4a Bienal do Mercosul nos
levam a perceber e refletir sobre os procedimentos artísticos na criação?
> Quais percursos criativos podem gerar a experimentação da gestualidade movida pelo lápis no papel, a tinta
na tela, a goiva na madeira, o buril no metal, o ferro
quente no plástico, o dedo na areia, a pressão ou a delicadeza no barro, a tesoura desenhante? Que outras
experimentações seriam possíveis?
> O registro fotográfico pode ser um instrumento para a
criação artística? De que modo o artista Augusto Ferrari, pai de León Ferrari, no início do século XX, utilizou o registro fotográfico de modelos vivos para estudo
da composição de suas pinturas? Hoje, quais artistas
fazem o mesmo no seu processo de criação?
> Pensando na marca pessoal do artista que mostra sua
poética na obra diferenciando-a de outras, o que nos
faz identificar uma obra de Matta? De Orozco? De Los
Carpinteros? De Chambi? De Berni? De Maria Freire?
De Gabriela Zuccolillo? De tantos outros?
Há uma intenção em cada gesto, em cada cor, movimento, postura; com alguma intenção, um compositor
faz predominar os sons graves sobre os agudos em determinada composição. A ação intencional do autor/
artista é que define seu trabalho, mesmo quando opta
pela música aleatória ou por jogar tinta sobre a tela. A
letra em Macchi parece escrita lá no alto de um prédio
com as pontas dos dedos.Qual a intenção de Macchi
transformando pequenos e rudimentares anúncios em
outdoor? Proponha que seus alunos inventem outdoors,
pesquisando diferentes modos de escrita. O que escreverão, oferecendo algo de si?
A escrita dos logos, dos convites de casamento, de formatura, de cartões de visita, de diplomas, das fachadas
de lojas. O que revelam? Proponha pesquisas para perceber semelhanças, diferenças e intenções.
A pesquisa pode começar com poesias concretas. Proponha aos alunos uma escrita de palavras soltas, sem
lógica aparente, como um procedimento para a criação
de poesias visuais que podem ser trabalhadas a lápis
no papel, com colagem ou mesmo criando no computador. Aproveite o desafio para discutir e refletir sobre o
que é o imprevisível e o acaso no processo de criação.
No jogo do fazer/construir da criação artística, somos
conduzidos e ficamos a mercê da imaginação criadora
que busca o “depois”, a mudança do que é para o que será,
transformando, inventando. Por quais metamorfoses
passam os pequenos seres que a artista Lia Menna Barreto submete à vontade de sua criação? Que transformações as mãos de Maggi causam ao ferir com incisões
as pilhas do simples e comum papel branco, formato
A4? Proponha que seus alunos brinquem de faz-deconta, metamorfoseando diferentes coisas ou objetos.
Em que pode se transformar um lenço, um pau de vassoura, uma cadeira, um abajur, um boné, uma luva ...? A
partir do desenho de observação de um objeto, proponha
aos alunos a criação de um outro desenho transformando
o mesmo objeto.
Simplesmente, inventar!
O jogo, o mais lúdico, envolve o
processo de criação.
Que outros desafios podem impulsionar
nossos alunos percorrer um percurso de
criação? Que outras obras podem ser
selecionadas para gerar leitura e reflexão
sobre os procedimentos artísticos na criação?
11
> O que pode acontecer quando
Caligrafia/Traço
a experimentação se dá com a
Legendas das imagens das páginas 12 e 13.
tinta? Pequenos e enormes
León Ferrari
trabalhos? Pincéis finos e
Autopista Del Sur
1980
brochas? Gestos contidos para
Copia heliográfica
preencher espaços? Gestos
100 x 100 cm
que deixam suas marcas?
Representação Nacional/Argentina
Tintas prontas ou confeccioJosé Clemente Orozco
nadas pelos alunos com agluEl Hombre de Fuego
1938-39
tinantes diversos (cola branLápis sobre papel vegetal,
ca ou goma arábica, base de
55,4 cm x 38 cm
latex, mingau de maisena ou
Mostra Icônica/México
farinha) e pigmentos (leguArturo Herrera
mes e verduras como beterNight before last
2002
rabas e folhas esmagadas ou
Tintas s/parede
cozidas, terras, café e chás)?
437 x 990 cm
> Sementes de urucum, de jeMostra Transversal
nipapo, flores e folhas, beJosé Damasceno
terraba e pó de café. Como os
Entretanto
2003
artistas produzem as cores?
Maquete
Como as cores são utilizadas?
Representação Nacional/Brasil
Como a fotossíntese produz
mudanças cromáticas? Cores utilizadas diretamente dos
potes, ou criadas por superposições, ampliando a sensibilidade para ver as sutis diferenças entre intensidade, brilho, saturação? O olhar também pode focalizar a própria fatura das obras, percebendo as consistências das tintas empregadas, as superposições, as
transparências e veladuras, a cor pura, as misturas prévias ou produzidas no ato de pintar, a economia de tons
ou a exuberância, os contrastes violentos ou a proximidade de nuances,...
> Como a cerâmica também utiliza diferentes tonalidades
de barro, provocando um novo modo de colorir, como as
usadas pelos artesãos do Vale do Jequitinhonha/MG? Por
que há terras de diferentes cores?
> Com quais fios já traçaram linhas? Fios de cobre, de
alumínio, de barbante, de nylon, fio elétrico, fio de
cabelo, fios de corda? Fios, linhas, cordas, cordões.? No
tecido, no bordado, trançado, tramado, costurado,
suturado? Agulha de metal, agulha de crochê, agulhas
de tricô, tear? O que podemos fazer com elas?
> Luz do dia, luz da noite, luz de neón, luz negra, luz de
outono, luz de inverno, a luz dos faróis noturnos, a luz de
velas, a luz das pequenas lâmpadas que iluminam as
bacias sobre os grãos de arroz e de feijão, de Lygia Pape.
Que cores e luzes transformam o Guaíba? Por quê? Sombras que fazem brilhar a luz? Filtros de luz transformam
a obra de Ivens Machado à noite. É diferente olhar o
mesmo labirinto de madeira e tijolo à luz do sol... Quais
as diferenças entre a luz solar, a luz da tv ou do monitor
Materialidade / Matéria
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
Gilberto Gil
s pequenos pontos bordados – “petit-point” – de
Carolina Ruff, fazem caber na trama um fingido
extintor de incêndio como kit de emergência para espaços
de arte. Os fios de cabelo da obra de Solange Pessoa,
ganham aparência de trama que escorrega e andarilha pelo
espaço como um labirinto. O tecido de Ugalde (prancha ),
tramado pelos indígenas de diferentes grupos étnicos que
habitam as terras dos andes bolivianos, escorrega pelo
espaço como um grande estandarte. O suave aroma de
urucum, a penumbra, a fria palavra MET (morte) na entrada para a sala após o labirinto e a força da palavra EMET
(esperança, conforme citado no texto da curadora) na saída
da instalação, em elegantes letras de alumínio, celebrando
antepassados. O silêncio dos objetos tocados, envoltos pela
luz da fotógrafa-celebrante, Gabriela Zucollilo evocando
os rastros de alguém que por ali passou.
Artistas-poetas fazem da vontade da matéria um
conduto da visualidade, forma e matéria conjugadas, interdependentes aos desejos e intencionalidades do artista. A intenção domina então a matéria, com persistência,
com cuidado, com apuramento técnico. A matéria deixa de
ser simples matéria, se tornando signo que carrega em si
mesma a potência da materialidade. Bordados, cabelos,
sementes de urucum, letras de alumínio deixam de ser
matérias ali presentes, para serem idéias e sensações,
convites de aproximação ou de afastamento, brincando e
iludindo nossas próprias percepções. A materialidade se
dobra ao feitiço do artista que encontra nela singularidades especiais camufladas sobre sua aparência.
O
Desafios estéticos para jogos de pesquisa
A matéria, por si mesma, já vem carregada de significações. Hoje você se sente água, ar, terra ou fogo? Você se
sente papel de seda, papel vegetal, papel espelho, papel laminado, papel sulfite, papel manufaturado, papel amassado? Você se sente concreto, vidro, tela, argila, ferro, pedra, tecido, cristal,...?
> Quais os diferentes materiais utilizados pelos artistas
na 4a Bienal do Mercosul?
3
2
1
José Clemente Orozco (1883-1949)
Martin Chambi (1891-1973)
Vaso de cariátides
Piel em azul
El Gigante de Paruro
cultura tapajônica
1947
Cuzco, 1925
Fotografia
Ca. 1000-1600 d.C.
172 x 122 cm
Mostra Transversal
Mostra Histórica, Arqueologia das
Mostra Icônica, México
Memorial do RS
Terras Altas e Baixas
MARGS
6
MARGS
5
4
Jorge Macchi (1963)
Antonio Berni (1905-1981)
Francis Alÿs (1959)
Publicidad
Inundacción en el barrio de Juanito
Zapatos magnéticos, La Havana 1994
2000
1961
1994-2003
Instalação
Óleo, metal e papelão sobre aglomerado
Cartões postais, fotografias em cores, vídeo
Representação Nacional, Argentina
186 x 124 cm
Representação Nacional, México
Armazém do Cais, A6
Mostra Icônica, Argentina
Armazém do Cais, A6
Santander Cultural.
9
8
7
Saint-Clair Cemin (1951)
Joaquin Sánchez (1975)
Pierre Verger (1902-1996)
Thin Chair
Tejidos
Diablada, Oruro
1987
2002
Bolívia, 1946
Escultura em bronze com assento em alumínio
Instalação
Fotografia
Mostra Icônica, Brasil
Representação Nacional, Bolívia
Mostra Icônica, Bolívia
Usina do Gasômetro
Usina do Gasômetro
Memorial do RS
Gastón Ugalde (1946)
Marcha por la vida
1992-2003
Técnica mista
20 x 6 m
Representação Nacional, Bolívia
Usina do Gasômetro
14
Região de Santarém (PA)
Piroxilina sobre masonite
12
11
10
Pablo Langlois (1936)
Roberto Matta (1911-2002)
Lia Menna Barreto (1959)
La Lectura
El dia es un atentado
Fábrica
2002-2003
1942
Instalação
Óleo sobre tela
Instalação
Representação Nacional, Chile
76 x 91 cm
Representação Nacional, Brasil
Mostra Icônica, Chile
Armazém do Cais, A5
Armazém do Cais, A4
2003
Santander Cultural
14
13
Maria Freire (1917)
Jorge Sáenz (1958)
Lívio Abramo (1903-1992)
Composición V
Fotografio por necessidad
Série Paraguay
15
1953
2002-2003
Esmalte sobre aglomerado
Fotografia direta em suporte Polaroid SX-70
Xilogravura
122 x 95 cm
70x65x6 cm
39 x 19,5 cm
Mostra Icônica, Uruguai
Representação Nacional, Paraguai
Mostra Icônica, Argentina
Santander Cultural
Usina do Gasômetro
MARGS
1957
do computador, as cores da impressora? Como a luz
transforma um objeto?
> A escrita da luz, matéria da fotografia, se fortifica no jogo
de claro/escuro de Chambi. Imagens são recobertas de
tinta pelo artista para deixar brilhar a luz. Como podemos criar espaços dramáticos utilizando lanternas e
transformando retro-projetores em fachos de luz, talvez
coloridos?
> Um objeto, como a lagartixa de plástico de Lia Menna
Barreto, se transforma para além de si mesmo, se
moldando em outra forma pela ação do aquecimento, do
esfriamento, da torção, do furar, do acoplar. Modelar,
esculpir, talhar, cortar, dobrar, ferir, juntar, recortar,
perfurar, repetir, modular, achatar ou dar volume? Ou
o objeto – lagartixa de plástico – traz em si a referência
da produção em série, industrializada, vendida nas
lojas de “R$1,99”, indo além do universo infantil e
adentrando por discussões de globalização, de mercado, que movem a economia e o desejo do consumidor?
Sua Fábrica (instalação) produz o que em nós? Quais
outros objetos do cotidiano são apropriados pelos
artistas? Quais outros objetos poderemos investigar?
> “As coisas têm Peso, Massa, Volume, Tamanho, Tempo,
Forma, Cor, Posição Textura, Duração, Densidade,
Cheiro, Valor, Consistência, Profundidade, Contorno,
Temperatura, Função, Aparência, Preço, Destino, Idade,
Sentido. As coisas não têm paz. As coisas.” A partir
deste poema de Arnaldo Antunes, proponha aos seus
alunos desenhos de observação onde estas qualidades
estejam presentes. Num segundo momento, proponha
a recriação dos objetos desenhados trabalhando a
oposição da qualidade expressa. Como pode se dar a
metamorfose do peso de um objeto em leveza?
Corpo Movente
palavra
paisagem
cinema
cena
cor
corpo
luz
vulto
alvo
céu
célula
detalhe
imagem
olho
Arnaldo Antunes
lhar fisgado pela miudeza revela uma imagem que nos
parece gigante na fotografia. Frente à obra de Rosana
Paulino, o olhar é fisgado pela multiplicidade de figuras
miúdas, dialogando entre si, dialogando conosco encasulando nosso corpo. A escuta fisgada pela musicalidade de
um corpo sonoro. Diante da obra, ressoam em nosso corpo contemplativo, o diálogo entre as imagens de vídeos
que revelam os movimentos expressivos da dança do incenso, da mão trabalhadora, da dança de lutas marciais embaladas pela composição de Tato Taborda tocando sua
Geralda. Olhar fisgado pela cor vermelha iluminada no contraste da luz sobre as bacias brancas mergulhado na atmosfera de penumbra do ambiente. Caminhando pela obra, sentese os minúsculos grãos de arroz e de feijão que desenham e
se avolumam dançando em volta das bacias. Coreografiadenunciante de que em nosso corpo os traços genéticos são
contaminados pelas marcas das diferentes culturas.
Olhar, pele, corpo. Corpo movente, corpo contemplativo, corpo virtual, corpo bio-cultural. Corpo pós-orgânico. Corpo-pele, diálogo entre interno e externo, subjetividades... O con-tato com a vida. Seria o corpo um modo de ser ou estar?
O
Assim como o poeta faz caber na lata o incabível,
o artista faz com que qualquer material
venha dar corpo às suas perguntas, tornando
visível as suas invisíveis idéias artísticas.
4ª Bienal do Mercosul
Baralho das
Arqueologias
Contemporâneas
17
16
Ari Perez (1954)
Marco Maggi (1957)
Projeto de Instalação
Construccione y demoliciones
2003
2003
Mostra Especial, Arqueologia Genética
Instalação, cortes e aberturas sobre papel
Armazém do Cais, A7
Representação Nacional, Uruguai
lê
contempla
assiste
vê
enxerga
observa
vislumbra
avista
mira
admira
examina
nota
fita
olha
Desafios estéticos para jogos de pesquisa
Que outros desafios podem impulsionar nossos
alunos a tornarem visíveis suas próprias idéias?
Que outras obras podem ser selecionadas para
gerar leitura e reflexão sobre o diálogo entre
matéria e materialidade?
> O que você percebe em seu corpo quando está diante de
uma obra? Como ele reage às ressonâncias visuais, sonoras, táteis? Calafrio, espanto, arrepio na espinha?
Encantamento, estranheza, desconforto, respiração alterada? Prazer, coração acelerado? O corpo responde
aos desejos de aproximação ou de afastamento? Sentidos aguçados, sensações ... Como em você se dá essa
coleta sensorial?
> Em quais instalações nossos alunos entraram na visita
à 4a Bienal ou em outras exposições? Talvez tenham
sido raras as oportunidades de penetrar nessas obras.
Obras que nos envolvem, que nos provocam pleno en-
Armazém do Cais, A4
19
20
>
>
>
>
>
>
cantamento ou muito estranhamento. Uma fotografia
da obra não permite que as sensações sejam vividas
com a mesma intensidade. Há de se imaginar dentro
para tentar compreender as sensações, a recepção de
nosso corpo, de nossos sentidos.Quais lugares despertam sensações? O pátio da escola? A sala da direção? O
palco antes da apresentação para a classe?
Como o som cria sensações? Pode-se pesquisar as músicas de cada personagem das novelas, de filmes. Qual
clima provocam? Em que sentido expressam o pensar/
sentir dos personagens? Pesquisar obras que apresentam
sonoridades pode nos levar a compreender mais as relações entre as linguagens. O que sabemos do repertório
musical de nossos alunos? O que aconteceria se cada
aluno escolhesse uma obra ou um trabalho pessoal e o
recriasse pela transposição em sons, ruídos, silêncio?
Afinal, o que é som?
Dizemos que na arte contemporânea a presença e a
interação do corpo do observador é fundamental? Quais
os artistas foram os pioneiros em fazer essa proposição?
Não é só pelos olhos que se entra na fruição da obra. Diz
Ana Cláudia de Oliveira: “no âmbito da recepção artística, a zona privilegiada do visual em nossa cultura
ocidental foi perdendo paulatinamente a sua exclusividade. Para dar conta das obras atuais, exige-se do olhar
uma articulação de alianças”. Alianças com a percepção
também do próprio caminhar, sentindo os pés. Alianças
com o corpo que reage à escuridão, ao ambiente fechado.
Alianças para ouvir sons, ruídos, o silêncio. Sentidos
aguçados. Sensações. Mas, não só as instalações aguçam
nossos sentidos, provocando vibrações muitas vezes inquietantes. As obras bidimensionais de Matta e de Maria
Freire, entre tantos outros, podem aflorar em nós
vertigens, causando desequilíbrio corporal enquanto
olhamos a espacialidade contida pela moldura. Mesmo
algumas obras que podem parecer em repouso na parede
branca do espaço museológico nos enredam num labirinto, como se pudéssemos nos perder num espaço dentro dela que não existe.
Quais obras presentes na 4a Bienal do Mercosul trazem a
representação do corpo humano? Como nas obras Piel en
azul de Orozco (prancha 3) e Pesadilla de los injustos de
Berni nos levam a sentir a emoção da dor e do sofrimento? O que podemos investigar sobre a gestualidade presente nos corpos retratados por Chambi? O que podemos
investigar no corpo-espetáculo mostrado por Verger?
A linguagem do corpo dialoga com a linguagem do corpo das coisas. De quais modos podemos sentar na Thin
chair de Saint Clair Cemin (prancha 9)? Quais diálogos
visuais, sonoros, cênicos podemos criar entre esta
cadeira e tantas outras? Imagine famílias de objetos.
Quem são as irmãs, avós, netas das cadeiras? Que ressonâncias causam em nossos corpos?
Para nascer, a espécie humana,soma material genético
herdado de dois genitores, um feminino e um masculi-
no. O ovo-óvulo da vida carrega nossa ancestralidade,
invólucro das genuínas células-corpo tecendo cada um
de nós. Ovo-óvulo. O enigma da vida é decifrado. DNA.
O código genético é apenas um texto, codificado. Inscrito em um suporte bioquímico vira informação. Digitalizados aqui (prancha 17) estampam os artistas sulamericanos mapeando a Arqueologia Genética da criação. Como pesquisar nossos ascendentes? De onde
vieram? Como se chamavam? Uma pesquisa com pais,
tios, avós pode levar a uma coleta de dados e de fotografias. Como criar uma árvore genealógica pelo olhar
da arte? E pelo olhar da ciência?
> O artista mexicano Richard Moszka, na obra Um año de
basura apresenta por projeções de slides um ano de lixos diários guardados. O que o cheiro do lixo nos faz
refletir sobre o modo como o tratamos? Como temos
agido diante da poluição das cidades? Sobre a reciclagem
de lixo? A sua escola tem participado de projetos com
esse tema? O que essa obra pode gerar de discussão a
respeito do lixo urbano? De que modo Francis Alÿs
(prancha 4) trabalha com este tema? Que outros artistas trabalharam ou trabalham tendo essa questão
como um dos focos de sua obra? Se não tivéssemos nenhum problema técnico ou financeiro, que jardim dos
sentidos poderíamos inventar?
> O que sabemos sobre a segunda pele do ser humano,
seus ornamentos? Quando teria ele iniciado suas criações para ornamentar-se? O que dizer do pensar/
sentir sobre tatuagens, esfoliações, pinturas corporais,
maquiagens? E sobre chapéus, bonés, ....O que a obra de
Solange Pessoa pode nos levar a pensar sobre penteados
e cortes de cabelo? E sobre brincos, pulseiras e tembetás
de vários povos indígenas, assim como os grandes
brincos que aparecem nas estatuetas de cerâmica da
cultura tapajônica? E das bijuterias deste ano e dos
anos setenta? O que é diferente? O que é semelhante? O
que muda com o tempo?Por que não criar ornamentos
para o corpo? Para tímidos, para aqueles que querem
aparecer muito, para os bravos, para os loucos, para os
idealistas, para os tristes, para os românticos, para... podem ser bonés, penteados, roupas, sapatos,...
> A partir da criação e do enfoque estético dos personagens Juanito e Ramona de Berni (prancha 5), que reflexões podem ser geradas? Quais outros personagens podem ser pesquisados? Quais outros podem ser criados?
O olho olha. O corpo-sentidos é fisgado.
O olho-corpo-pele “tem alguém como recheio”,
diz Arnaldo Antunes.
Que outros desafios podem impulsionar nossos
alunos a trabalhar com o corpo, sobre o corpo, a
partir do corpo na arte? Que outras obras podem ser
selecionadas para gerar leitura e reflexão sobre o
corpo e a corporeidade?
22
brotam do solo formando a escultura-instalação da artista
Maria Fernanda Cardoso, fazendo referência à casa onde
nasceu Simon Bolívar, em Caracas, cujo chão é assentado
por tijolos de barro entremeados por ossos bovinos. Um
vaso, um recipiente, um animal. Um objeto que indica a
identidade da cultura moche, que produziu belos
exemplares de cerâmica e ourivesaria na América précolombiana.
De quantas camadas temporais se faz o tempo presente? De quantas camadas de lembranças se faz a memória?
Ossos, palavras, paisagens, objetos marcam a duração do
tempo em intemporalidades. Não seria a obra de arte a possibilidade humana de viver a intemporalidade do tempo?
Cada obra nasce em contexto sócio-histórico, mas descolase dele no decorrer dos tempos. Torna-se intemporal.
Materialidade/Matéria
Legendas das imagens das páginas 20 e 21.
Solange Pessoa
Sem título
1990/2003
Cabelos, couro, tecidos, cavalos
8 x 20 x 1.6m
Representação Nacional/Brasil
Cecília Lampo
Testigos del conocimiento
2003
Instalação
Sementes de urucum,
letras de alumínio
Representação Nacional/Bolívia
Gabriela Zuccolillo
Sem Título
Veneza
1999
Sem Título
Nova York, 1999
Representação Nacional/Paraguai
Desafios estéticos para jogos de pesquisa
A memória é o registro dos tempos vividos. O que
você lembra de seu tempo de meninice? O que deste tempo está presente em você hoje? O medo? A curiosidade? A
alegria? A ludicidade? O espanto? A magia? Liberdade ou
confinamento?
Carolina Ruff
Série Sistema de Equipamentos
para Galerias, Extintor
2002
Bordado sobre esterilla,
técnica petit point
80,5 x 42cm
Representação Nacional/Chile
> Como a memória e a (in)temporalidade estão presentes nas obras da 4a Bienal do Mercosul?
> Qual tradição está presente nos hábitos e costumes de
hoje? De que modo?
> Investigar a própria moradia nos seus aspectos arquitetônicos, mobiliário, objetos decorativos, os costumes gastronômicos, os hábitos sociais... O que
podem revelar sobre as tradições culturais? A qual
memória cultura pertencem?
> O que nossa memória captura dos tecidos tramados por
Ugalde (prancha 8) e dos tecidos tramados por linhas
nas xilogravuras de Lívio Abramo (prancha 13)?
> A cena familiar pintada por Cosme San Martin (La
lectura, 1874) é citada e reciclada por Langlois (prancha12). Nela, a cena familiar se faz vestígio nos lugares
vazios à mesa, no corpo, na espacialidade, no clima da
luz néon. Assim também, a artista Laura Lima revitaliza o passado retirando de uma tela de autor desconhecido do século XVI a composição, os personagens, as
vestimentas, o movimento do baile na corte de
Henrique III. Que outras cenas da memória cultural
poderiam ser escolhidas no acervo do MARGS? Como
poderiam ser re-apresentadas na busca de uma transposição temporal?
> Um fragmento do “meu delírio sobre Chimborazo” de
Simon Bolívar: “Súbito, apresenta o Tempo, com o venerável semblante de um velho carregado de despojos
das idades: taciturno, curvado, calvo, tez engelhada,
uma folha na mão.” A partir deste fragmento pesquise
sobre a representação do Tempo em obras de arte, na
Memória(In)Temporalidade
Tempo tempo tempo tempo
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Caetano Veloso
apturada por um registro no diário de Alexander von
Humboldt, a artista Raquel Berwich, nos aproxima da
língua extinta dos maypure, preservada pela presença de
dois papagaios numa instalação. Os pássaros aprenderam
exclusivamente as palavras: yuvi = tempo; sonirri = bom,
belo; vasuri = diabo; nunaunari = amigo. Capturando os
contornos das paisagem do rio Orinoco, na Venezuela, o
fotógrafo Michael Wesely nos apresenta quadros da
natureza em elevado grau de abstração que emerge pela
prolongada exposição à luz. Raspadas tíbias de bovinos
C
23
> O ato de colecionar é uma atitude de preservação da
memória, do passado? Por quê? Quem já não andou
pela praia juntando conchinhas? Quem não guardou
alguma pedrinha que lhe chamou a atenção? Ou deixou
secando entre páginas de um livro uma flor? Colecionar, como todos nós fizemos em alguma momento de
nossas vidas, sejam conchas ou latas de refrigerantes,
caixinhas de fósforo, ou tantas outras quinquilharias, é o
que acontece com colecionadores que passam suas vidas colecionando obras de arte, moedas, livros, ...
criando acervo que permitem que a história fique registrada. Nossos alunos conhecem algum colecionador? Fazem alguma coleção? Proponha uma exposição
de coleções na escola (dos alunos ou de pessoas na
comunidade), relendo-as e estudando-as como fontes
de informações históricas e sociais. Quais obras da 4ª
Bienal do Mercosul pertencem a colecionadores?
> Quais expressões idiomáticas usamos no falar cotidiano? Como elas surgiram? O que revelam de arcaico e
como foram recriadas?
> Como a arte contemporânea incorpora o passado da
Arte? E como nos incorporamos o passado que ela nos
dá a ver?
literatura, na mitologia. De que modo o tempo poderia
gerar uma criação cênica, musical e/ou plástica?
> Trilhar a cidade, observando as praças, igrejas, casarios, calçadas, paisagismo dos jardins, os monumentos, podem nos aproximar da memória de nossos antepassados, daqueles que foram os pioneiros fundadores. O que sabemos deles? O que as obras de arte
revelam sobre eles?
> Tijolos ou blocos de concreto? Telhas de barro ou de
amianto? Cumieiras, esquadrias, marquises, assoalhos, escadarias, sótão e porão, varandas e alpendres,
colunas. Pé direito alto? Que pé é este? Que histórias
nos contam?
> Que registros fotográficos, guardados por nós mostram
nossa origem e a origem de nossa cidade? Fotos coloridas? Em branco e preto? Em álbuns? Fotografias em
estúdios ou nas cabines fotográficas que rapidamente
revelam nossa imagem em 3 x 4? Quais investigações
podemos fazer com esses registros? Que reflexão histórica e social as obras dos uruguaios Juan Angel Urruzola
e Patrícia Betancur e da paraguaia Claudia Casarino
possibilitam?
> Que relações podem ser construídas a partir dos vestígios recolhidos visualmente de uma expedição ao
Brique da Redenção? Vidros com botões antigos, chapéus, luvas, bolsas, sapatos, lencinhos, fivelas, a moda,
o que podem nos revelar sobre as questões de gênero,
isto é, o comportamento social de homens e mulheres
através dos tempos?
> Quais histórias, “causos”, lendas conhecemos? Como
recriá-los em forma de contos, de histórias em quadrinhos, em livros de artista, em rodas de “contação” de
histórias, em instalações,...?
> Qual o objeto mais antigo que temos em nossa casa?
Quem o guardou? Por quê?
> Com quais brinquedos e brincadeiras passávamos o
tempo das férias?
Tempo. Deus inventivo da duração. Compositor
da permanência e da memória, fazendo vibrar a
(in)temporalidade na vida humana.
Que outros desafios podem impulsionar nossos
alunos a trabalhar com imagens do tempo, da
memória? Que outras obras podem ser
selecionadas para gerar leitura e reflexão sobre
o diálogo entre memória, temporalidade e
intemporalidade?
O pó dos caminhos: rastros do saber-fazer
do professor e seus alunos
atiçaram no chão da sala de aula? Olhar surpreso, de encantamento, de curiosidade? De estranhamento, estranhando o que era familiar e tornando familiar o que
parecia estranho?
Percebemos o rico conTATO com as obras seja nos
espaços expositivos ou na sala de aula? Nosso olhar foi
ampliado quando compartilhamos impressões, conhecimentos e visões? Fomos desafiados pelas questões que
pautaram a visita, a conversa posterior, a troca no grande
grupo? Saímos mais atentos à vida, para o mundo e as
coisas do mundo?
Quem somos nós senão uma combinatória de
experiências, informações, de leitura, de imaginações?
Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um
inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde
tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de
todas as maneiras possíveis.
Italo Calvino
uais vestígios a visita a 4ª Bienal do Mercosul deixam
em nós e em nosso alunos? Quais olhares as obras
Q
26
Corpo Movente
Legendas das imagens das páginas 24 e 25.
Tato Taborda
Geralda
Estrutura multinstrumental
1993
Representação Nacional/Brasil
Tato Taborda
Geralda
Estrutura multinstrumental
1993
Representação Nacional/Brasil
(detalhe)
Lygia Pape
DNA
2003
Instalação com bacias,
arroz e feijão
Representação Nacional/Brasil
Rosana Paulino
Tecelãs (detalhe)
2003
Instalação – Terracota,
faiança, algodão e fios diversos
Representação Nacional/Brasil
Refletir sobre a trama
dessa experiência é um
convite para pinçar fios,
investigar urdiduras estruturais, criar novas texturas
somando fios dispersos.
Como leitores da experiência, podemos encontrar seus
significados, nos rastros de
nossa sandália de professorpesquisador, soprando o pó
dos caminhos percorridos
antes, durante e depois da
visita a exposição.
pela reflexão coletiva sobre a experiência vivida, pela
retomada dos desafios que as questões iniciais propunham. E foi nesse momento particular que se revelaram as
múltiplas possibilidades de continuidade desse projeto
iniciado e deflagrado enquanto uma expedição, envolvendo
o antes, o durante e o depois.
Estar em frente às obras do roteiro escolhido ou
mesmo diante da reprodução das obras capturando imagens, sons, gestos, podem fazer surgir outros memes: uma
coleta sensorial. Impulsionados pela leitura, aprendizes e
mestres percebem, registram, refletem, questionam, ampliam a compreensão, fazem conexões, projetam... Como
arqueólogos, seja na expedição nos sítios arqueológicos da
exposição ou mesmo na sala de aula, exercitamos o meme
do olhar de escavador de sentidos que se amplia na vida
de um grupo que generosamente convive, amorosamente
compartilha, pacientemente aprende com o olhar/corpo
do outro, com o seu próprio corpo/olhar, com o corpo/olhar das obras que também nos olha. Olhar este que
procura desenvolver uma leitura da obra com observação
cuidadosa e atenta, construtora de sentidos, investigadora
de conexões com a vida presente. Mas pode ser, infelizmente, que o meme que “pegou”, contaminou, foi o do
olhar reducionista que se preocupa apenas em saber o que
o artista quis dizer?
É possível ler obras originais ou reproduções cuidadosas junto com os alunos, sem ainda ter informações, pois
poderemos investigar depois. Desta forma, nosso aluno
pode aprender a aprender. Potencializar o pensar sobre arte
é também trabalhar pesquisando processos de criação e a
poética do artista que nos remetem à própria construção da
linguagem da arte. Os projetos podem sair de reduções
como: sensibilização com a obra, biografia e um trabalho
expressivo, e gerar uma série de propostas que acompanham o processo de criação do aluno na construção de
conceitos, atitudes e procedimentos, ofertando também
modelos – opostos, complementares, semelhantes.
Assim, contextualizar é também refletir sobre a linguagem, como por exemplo, as preocupações com a ilusão
de profundidade ao longo da história da arte, ou as relações
entre matérias e suportes recheados de cargas sígnicas. As
questões formais se conectam às de conteúdos; são
sustentáculos de possíveis significações. Não é preciso
trabalhar apenas com uma obra de um único artista (correndo o risco de valorizar apenas a “biografia” do artista e
não investigação de sua poética, de seus processos de
criação), mas com muitos artistas buscando camadas interpretativas que possam conectá-los. Entre muitos possíveis, nosso pensamento pode crescer como uma rede puxando fios, ligando artistas, idéias, gêneros, linguagens,
tempos, espaços, culturas..., no exercício de um pensar
Meme: herança
cultural
Para essa análise reflexiva, trazemos o conceito de
meme, apresentado por Helena Katz no curso de formação de monitores para a
exposição Parade17. O autor desse conceito, o biólogo e
etólogo Richard Dawkins18 afirma que “quando morremos há duas coisas que deixamos atrás de nós: genes e
memes”. Gene é a unidade de transmissão genética. Como
máquinas gênicas, nos esquecemos dessa transmissão em
três gerações: pouco sabemos sobre o que herdamos fisicamente de nossos tataravós. Por outro lado, os memes
são unidades de transmissão cultural. Unidades replicáveis de conceitos e idéias, um replicador de informação
cultural, que os homens transmitem entre si num
processo de simbiose com o ambiente, e que vão sendo
repassados como códigos genéticos. As idéias, assim, se
propagam pulando de cérebro em cérebro, por contaminação, e são replicadas e transformadas por nossas
próprias maneiras de compreendê-las e operar com elas.
A intenção não é a de aprofundar este conceito, mas
apresentá-lo como impulsionador da reflexão sobre quais
memes foram propagados pela visita a 4ª Bienal e nos
projetos desencadeados em sala de aula.
Pode ser que, a visita à exposição tenha revelado o
meme de excursão para os alunos. Entretanto, se com
sandálias de professor-pesquisador preparamos a visita
com uma pauta do olhar levantando questões para a
investigação dos alunos, pode ser que tenhamos iniciado o
contágio pelo meme da expedição. Há uma essencial
diferença entre eles – podemos nos lembrar, por exemplo
da expedição que trouxe Eckhout e outros estudiosos no
período do Brasil Holandês. Mas este meme foi provocado
27
28
por imagens que tenha o meme do rizoma. As conexões
estéticas e interdisciplinares constantes das pranchas, são
um convite para novos rizomas, assim como o Baralho das
Arqueologias Contemporâneas.
Nos paradigmas que transcendem a perspectiva cartesiana ou a ambição pela originalidade modernista, há
muito para citar, apropriar, recriar. Não como algo novo, que
supera o que ficou velho, mas como uma atitude investigativa
capaz de perceber como aprendemos e ensinamos e perceber as teorias e práticas que, como memes, se incorporaram
à nossa própria prática e teoria. Capaz também de ver o
enriquecimento de um trabalho que precisa compreender a
vida de grupo como possibilidade de crescer e valorizar também o que é diferente, seja oposto ou complementar.
Como professor-pesquisador inquieto, continuamos
aprendendo a ensinar com coerência e competência. Muitas
vezes nos perdemos nessa tarefa e nos esquecemos que
aprender se dá em grupo, juntos. Quando não ouvimos, falamos demais, propondo atividades isoladas em vez de
desafiar, problematizar, gerar novos projetos, estamos
contaminados pelo meme da escola autoritária onde a voz
única do professor silencia as vozes dos alunos. Escolhemos obras, mas nem sempre os critérios estão claros, nem
sempre cuidamos para que as várias linguagens da arte
estejam presentes, incluindo as obras indígenas, africanas,
orientais e as esquecidas manifestações populares, produ-
zidas por homens e mulheres em
Memória – (In)Temporalidade
tem-pos e lugares muito distintos.
Legendas das imagens das páginas 28 e 29.
Esquecemos que essa escoRaquel Berwich
lha pode ser movida pelo meme da
may-por-e
Instalação com papagaios,
curadoria educativa. Curadoria
Amazona aestiva vivos
que, ao ativar culturalmente as
Mostra Trasnversal
obras de arte, estará contaminanMaria Fernanda Cardoso
do os alunos com memes de imaEl mármol americano (detalhe)
1992
gens de arte que vão adentrar em
Escultura-instalação com ossos
seu acervo imaginário, ampliando
Mostra Transversal
o repertório e a formação cultural.
Cultura Mochica ou Moche
Por isso mesmo, acreditaRecepiente
mos que é desse rico conTATO
200 a.c. – 700 d.c.
Mostra Histórica:
com as obras presentes na 4ª
Arqueologia das terras
Bienal que rastros das sandálias
altas e baixas
de professor-pesquisador estão e
Michael Wesely
continuarão deixando memes
Série Orinoco
2000
estéticos no corpo sensível de
Fotografias
seus alunos através do “corpo
100 x 50 cm
informe” da arte que, como diz
Mostra Transversal
19
Claudia Amorin é “um corpo
sem sede forma ou verdade; um corpo menos específico,
sem gênero, etnia ou classe. Este seria o corpo da arte: um
instrumento de pensar conciliador.” Combinatórias de
experiências compartilhadas, este é o sonho desta Ação
Educativa na expedição ao território da mediação.
Museu Histórico Municipal de Dois Irmãos
Acervo: objetos de famílias de imigrantes e
descendentes, abrangendo os séculos XIX e XX,
fotografias, documentos, móveis, livros,
instrumentos de trabalho, indumentária,
quadros, objetos sacros, jornais, instrumentos de
produção artesanal e instrumentos musicais /
Av. São Miguel, 1658 Centro / Dois Irmãos
93950-000 / [email protected] /
(51) 564 1277 R212
Museu Municipal Casal Moschetti
Acervo: móveis, obras de arte, quadros e pinturas,
esculturas, fotografias, diplomas e homenagens,
louças e porcelanas / Rua Rui Barbosa, 49 Centro
/ Farroupilha 95180-000 / [email protected]
/ (54)268 1611 R 182
Museu de Ciências Naturais da Ulbra
Acervo: botânica, zoologia, paleontologia,
geologia, mineralogia / Rua Miguel Tostes, 101,
Canoas, [email protected]
(51) 477 4000 R 2350
Memorial do Rio Grande do Sul
Acervo: imagens virtualizadas, uma linha de
tempo impressa em ‘ploters’, além de colunas
enfocando personagens da história do Rio
Grande do Sul / Rua 7 de Setembro, 1020 Centro,
Porto Alegre 90010-191 / [email protected] –
www.memorial.rs.gov.br (51)3224 7159
Museu de Arte Contemporânea do Rio
Grande do Sul – Mac
Acervo: arte contemporânea nacional e
internacional / Casa de Cultura Mário Quintana /
Rua dos Andradas, 736-6o andar / Porto Alegre
90020-004 / (51)3221 5900
Museu de Arte do Rio Grande do Sul
Ado Malagoli – Margs
Acervo: obras de arte / Praça da Alfândega, s/nº
Centro-Porto Alegre 90010-150 /
[email protected]
www.margs.org.br / (51)3227 2311
Museu de Ciência e Tecnologia – Pucrs
Acervo:científico, em torno de cinco milhões de
peças, e experimentos interativos / Av. Ipiranga,
6681- Porto Alegre -90690-000 / [email protected] /
www.mct.pucrs.br / (51)3320 3597 ou
(51)3320 3697
Porto Alegre 90010-283 / (51)3221 3959 e
(51)3221 5946
Museu de Paleontologia da Ufrgs
Acervo: material lítico, cerâmica,mapas e fotos /
Av. Bento Gonçalves, 9600 Campus do Vale
UFRGS Prédio 43 n 322 / Porto Alegre 90540-000
/ (51) 3316 7169 e (51)3316 6860
Acervo: invertebrados, paleobotânica, vertebrados
e micropaleontologia / Av. Bento Gonçalves, 9500
Agronomia / Porto Alegre – 91509-900 / (51)3316
7000
Museu Joaquim José Felizardo
Acervo: objetos de uso cotidiano desde a última
década do séc. XIX, acervo fotográfico, acervo
bibliográfico (história de Porto Alegre,
museologia, arqueologia e coleção Walter
Spalding), acervo arqueológico – fragmentos e
peças coletadas através de pesquisa e escavação
/ Rua João Alfredo, 582 Cidade Baixa – Porto
Alegre- 90050-230 / [email protected] –
www.prefpoa.com.br/cmc/default.htm /
(51)3221 6622 R 253
Museu Júlio de Castilhos
Acervo: armaria, arquitetura, arreios, arte náutica,
bandeiras, bibliografia, condecorações,
documentos, escravatura, etnologia, filatelia,
heráldica, iconografia, indumentária,
numismática, objetos decorativos, objetos de uso
pessoal, regionalismo, sigilografia, tesserologia,
utensílios domésticos e viaturas / Rua Duque de
Caxias, 1205 / 1231 Centro
30
Museu Universitário de Arqueologia e
Etnografia – Muae-Ufrgs
Santander Cultural
Acervo: obras de arte; cédulas e moedas
nacionais e estrangeiras, documentos históricos /
Rua Sete de Setembro, 1028 Centro / Porto Alegre
90010-191 / [email protected] –
www.santandercultural.com.br / (51)3287 5500
Museu do Instituto Anchietano de
Pesquisas
Acervo: arqueologia, estatuárias missioneiras /
Rua Brasil, 725 / São Leopoldo 93010-030 /
[email protected] / (51) 590 8409
Museu Municipal de Caxias do Sul
Acervo: peças referentes ao cotidiano dos
colonizadores da região, na maioria, imigrantes
italianos e da aculturação com outros grupos
vizinhos / Rua Visconde de Pelotas, 586 / Caxias
do Sul 95020-180 / (54)221 2423
Acervo: arqueológico, indígena e histórico /
Rua Tiradentes, 264 Centro / Porto Lucena
98980-000 / (55)3565 1300
Acervo: trabalho, educação, som e imagem, arte,
mobiliário, político-administrativo, história
natural, artesanato, fotografia, numismática,
missões, vestuário, pré-história, religião, filatelia,
arquivo histórico, armamento, história oral / Rua
Antunes Ribas esquina A. Manoel Centro / Santo
Ângelo 98801-630 / (55)3312 0175
Museu de Artes Dr Carlos Nelz
Acervo: artes plásticas / Rua São Pedro, 369
Centro Municipal de Cultura / Gramado
95670-000 / [email protected] / (54) 286-4323
Museu e Arquivo Histórico Municipal de
Guaporé
Museu das Missões
Acervo: imagens sacras das Missões /
Rua São Luiz s/n Centro / São Miguel das Missões
98865-000 / [email protected] /
(55)3381 1291
Acervo: objetos da colonização italiana: arte
sacra, indumentária, ferramentas épicas,
mobiliário, objetos de cozinha (o mais antigo de
1742), artesanato, documentos pessoais,
fotografias e objetos históricos do município,
joalheria, pipas, equipamentos industriais, peças
de fundição, bancada de trabalho, banco de
ourives / Av. Alberto Pasqualini, 931 Centro
Guaporé 99200-000 / (54) 443 4880
Museu Municipal de Cachoeira do Sul
Museu de Ciências Naturais do Centro
Universitário – Univates
Museu de Arte Sacra de Rio Pardo
Acervo: botânica, paleobotânica,zoologia,
ecologia, geologia, arqueologia, sensoriamento
remoto / Rua Avelino Tallini, 171 CP 155
Universitário / Lajeado 95900-000 /
[email protected] – www.univates.br /
(51)3714 7000 R 504
Parque Aldeia do Imigrante – Aldeia
Histórica Alemã
Acervo: caça, guerra, artes visuais,
cinematografia, objetos pecuniários, construção,
trabalho, lazer, esporte, insígnias, objetos
cerimoniais, comunicação, transporte, objetos
pessoais, castigo, penitência / Rua Dr. Silvio
Scopel, 502 Centro
Cachoeira do Sul 96506-630 /
[email protected] / (51) 3722 2525 R 217
Acervo: peças sacras, artesanato indígena,
vestidos de noiva, paramentos, objetos religiosos
/ Pç. São Francisco, 277
Rio Pardo 96640-000 / [email protected]
/ www.riopardo.rs.gov.br / (51)3731 1225 R 220
Museu Colégio Mauá
Acervo: arqueológico, histórico e etnográfico /
Rua Marechal Floriano, 274 Centro / Santa Cruz
do Sul 96810-000 /
(51)3715 0496
Museu de Artes de Santa Maria
Acervo: artes plásticas, pintura, escultura,
gravura, cerâmica, arte de artistas regionais,
nacionais e latino-americanos / Av. Presidente
Vargas (Centro Integrado Evandro Behr), 1400
Centro / Santa Maria 97015-030 /
(55) 222 8300 R 29
Museu Educativo Gama D’Eça
Acervo: artefatos e vestígios arqueológicos,
fragmentos cerâmicos, documentos
arqueológicos / Estrada RS 020 Km 58
Taquara 95600-000 / (51) 542 1553
Acervo: artes, ciências, história, paleontologia,
arqueologia / Rua do Acampamento, 81 Centro /
Santa Maria 97050-001
[email protected] –
www.ufsm.br/misc/museuedu / (55) 221 9693
Museu Municipal Padre Jerônimo Martini
Museu Municipal Aparício Silva Rillo
Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul
Acervo: histórico (arte sacra, objetos relacionados
à agricultura, documentos e fotos) / Praça Três de
Maio, s/nº Centro
Fortaleza dos Valos 98125-000 /
[email protected] /
www.fortalezavalos.famurs.com.br /
(55)3328 1133 e (55)3328 1145
Museu de Artes Visuais Ruth Schneider
Acervo: arte gaúcha contemporânea e brasileira /
Av. Brasil Oeste, 758 Centro / Passo Fundo
99010-000 /
(54) 312 3656 R 4 e (54) 316 8585
Museu Antropológico Diretor Pestana
Acervo: arqueológico, material lítico e cerâmico,
indígena: armas, artesanato, objetos rituais,
música, vestuário e uso
doméstico,imigração/colonização, agricultura,
processos produtivos, transporte, comunicação,
indústria e comércio, energia, serviços, música,
lazer, esportes, educação, religião, usos e
costumes e moradia / Rua Germano Gressler, 96
Museu da Gravura Brasileira
Acervo: gravuras, fotografias, esculturas em
bronze e cerâmica / Rua Coronel Azambuja, 18
Centro / Bagé 96400-710
(53) 242 8244 R 225
Museu Público Municipal
Museu Municipal José Olavo Machado
Acervo: construção de antigos prédios históricos
em estilo enxaimel removidos de diversas
localidades do interior do município,
demonstrando a estrutura e funcionamento de
uma aldeia de imigrantes alemães entre os anos
de 1875 e 1910 / Av XV de Novembro, 1966 Centro
/ Nova Petrópolis 95150-000 /
turismo@novapetrópolis.com.br –
www.novapetrópolis.com.br /
(54)281 1254 e (54)281 1222
Convites para novas expedições
São Geraldo / Ijuí 98700-000 /
[email protected] –
www.unijui.tche.br/museu
(55)3332 7063 e (55)3332 0243
Acervo: antropológico, arte missioneira,
numismático e tradição gaúcha / Travessa Albino
Pfeifer, 84 Centro / São Borja 97670-000 /
(55) 431 3839
Museu de Arte Didacta
Acervo: reproduções de quadros e esculturas de
artistas da antiguidade ao séc. XX, livros de arte e
catálogo de artes, reproduções de esculturas das
civilizações maia, inca e asteca / Rua Santana
esquina Duque de Caxias / Uruguaiana
97510-470 / (55) 412 1633 / 411 5720
Centro Cultural Pasquale Marchese
Acervo:objetos, móveis, obras de artistas plásticos
locais e regionais, documentos e pertences
relativos à história de Pedro Osório – Praça
Antonio Satte Alam, s/nº Centro – Pedro Osório
96360-000 – [email protected] ou
[email protected] –
(53) 255 1332 / 255 1333
Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo
Acervo: pintura, escultura, gravura, desenho,
objetos e móveis do patrono do museu / Rua
Félix da Cunha, 818 Centro /
Pelotas 96010-000 / malg@ ufpel.tche.br –
www.ufpel.tche.br/ila/malg / (53) 225 9144
Museu do Charque Itinerante
Acervo: desenhos e obras de Danúbio Gonçalves
sobre as charqueadas, acervo Alvarino Fontoura
Marques e fotos de Riopardense de Macedo e
objetos de charqueadas / Bento Martins, 1639/
201 / Pelotas 96010-430 / (53) 222 8117
Museu da Cidade do Rio Grande
Acervo: mobiliário, fotografias, documentos,
indumentária, armaria, artes gráficas, artes
plásticas, brinquedos, condecorações, arquitetura,
maquinaria, viaturas, montarias, peças
aeronáuticas, arqueologia / Rua Riachuelo, s/nº
Centro-Rio Grande 96200-390 /
[email protected] / (53) 232 6111
Museu da Cidade de Rio Grande –
Coleção Arte Sacra
Acervo: paramentos, alfaias religiosas, objetos de
culto, móveis de devoção, esculturas religiosas /
Rua Marechal Floriano, s/nº Capela São Francisco
de Assis / Rio Grande 96207-390 / (53) 231 1457
Museu Cel. Tancredo Fernandes de Mello
Acervo: mamíferos fósseis do quartenário
costeiro, material arqueológico lítico, cerâmico e
histórico / Rua Barão do Rio Branco, 760 esq.
Campos Neutrais / Santa Vitória do Palmar
96230-000 / (53) 263 1400 R 2249
Museu Municipal de Tapes
Acervo: objetos doados pela comunidade, fotos,
obras de artistas locais,jornais antigos,
instrumentos musicais, móveis, fósseis / Rua João
Ataliba Wolff, 559 Centro / Tapes 96760-000 /
(51) 672 1788 R 210
Associação Vêneta
Acervo: documentos genealógicos, arte sacra,
fotografias, mapas, utensílios históricos da
imigração italiana / Rua Vale Vêneto / São João
do Polesine 97230-000 / (55) 221 1651
Museu Paleontológico e Arqueológico
Prof. Walter Ilha
Acervo: arqueologia e fósseis animais e vegetais /
Rua Fernando Ferrari, 164 / São Pedro do Sul
97400-000 / (55)3276 2955
Museu de Arqueologia e Artes Dr. José
Pinto Bicca de Medeiros
Acervo: pintura, desenho, escultura, gravura, artes
gráficas / Praça Getúlio Vargas, 158 Centro /
Alegrete 97542-570 /
[email protected] /
(55) 422 3318 / 422 3059 R 34
31
Fonte: Guia de Museus do Rio Grande do Sul/
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Edificio Retiro Médico
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Escultura em madeira compensada
laminada em cedro
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Perspectiva Fenomenológica aplicadas à Experiência
Estética. In: Anais ANPAP 1996, Congresso Nacional de
Pesquisadores em Artes Plásticas, p. 240-247.
WOLFF, Theodore e GEAHIGAN, George. Art Criticism
and Education: disciplines in Art Education – contexts of
undestanting. Chicago: University of Illinois Press,
1997.
WOODFORD, Susan. A arte de ver a arte. Rio de Janeiro:
Zahar, 1983.
YENAWINE, Philip. How to look at Modern Art.
New York: Harry Abrams, 1991.
Notas
1 BENJAMIN, Walter. Escavando e Recordando. In: ___Obras Escolhidas II. São Paulo, Brasiliense,
2000, p.239.
2 Procure a figura quase escondida na fotografia de
Chambi que está nesta página.
3 “Embora nem sempre o grande público se dê conta,
por trás de uma exposição de arte existe todo um
trabalho conceitual e operacional, envolvendo
profissionais das mais diversas áreas encabeçados,
costumeiramente, pela figura do curador. Em tese,
o curador de qualquer exposição é sempre o
primeiro responsável pelo conceito da mostra a ser
exibida, pelas escolhas das obras, da cor das
paredes, da iluminação, etc. No entanto, para que
suas idéias viabilizem-se de maneira satisfatória no
espaço de exposição, é fundamental o diálogo
intenso com outros profissionais que atuem na
instituição onde ocorrerá a mostra, sempre no
sentido de tornar possível, na realidade do espaço
disponível, os conceitos que aquele profissional
tem por objetivo apresentar”. Tadeu Chiarelli. In:
Grupos de Estudos em Curadoria. São Paulo, Museu
de Arte Moderna de São Paulo, 1999, p.12.
4 Formado em Filosofia pela USP, com pósgraduação em Estética e História da Filosofia
Moderna em Paris, o também docente Nelson
Aguilar (Usp e Unicamp), traz em sua bagagem
fortes experiências como curador, como a Mostra do
Redescobrimento/2002 em São Paulo e itinerâncias,
a 22a. e 23a. Bienal de São Paulo, “Parade, 19012001”, além de exposições no exterior.
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5 Notícias recentes são divulgadas pelos jornais,
evidenciando pistas sobre o povoamento das
Américas, entre ouros achados.
6 Este termo tem sido utilizado por Luiz Guilherme
Vergara em seu trabalho frente ao Museu de Arte
Moderna de Niterói, no Centro de Arte Helio
Oiticica/RJ. Leia mais em: VERGARA, Luiz
Guilherme. Curadorias Educativas, A Consciência
do Olhar: Percepção Imaginativa – Perspectiva
Fenomenológica aplicadas à Experiência Estética.
In: Anais ANPAP 1996, Congresso Nacional de
Pesquisadores em Artes Plásticas, p. 240-247.
7 Nem sempre estamos atentos às reproduções de
arte que estão entre nossos guardados. Como diz
Perrenoud (In: Práticas Pedagógicas, Profissão
Docente e Formação: perspectivas sociológicas. Lisboa:
Dom Quixote, 1993.) o educador é um bricouleur
que utiliza resíduos e fragmentos de
acontecimentos, o que tem à mão, o que guarda em
seu “estoque” e com eles cria novas situações de
aprendizagem.
8 DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos,
o que nos olha. São Paulo: 34, 1998.
9 PAREYSON, Luigi. Os problemas da Estética.
São Paulo: Martins Fontes, 1989, p.167.
10 Idem, p.173.
11 PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais.
São Paulo: Perspectiva, 1979, p.36.
12 DEWEY, J. El arte como experiencia. Mexico: Fondo
de Cultura Economica, 1949, 16. (Há uma edição
em português do terceiro capítulo deste livro:
Tendo uma experiência. In: VITOR CIVITA. Textos
selecionados. São Paulo, Abril Cultural, 1974,
p.247-263. Col. Os Pensadores, vol. Xl)
13 SERRES, Michel. Os cinco sentidos: Filosofia dos
corpos misturados – 1.Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2001.
14 Sobre projetos leia, entre outros: HERNANDEZ,
Fernando. Cultura Visual, Mudança Educativa e
Projeto de Trabalho. Porto Alegre: Artes Médicas,
1999; MARTINS et al. Didática do ensino de arte –
A língua do mundo: poetizar, fruir e conhecer arte.
São Paulo: FTD, 1998
15 A idéia de rizoma formulada por Deleuze e Guattari
toma de empréstimo um termo do vocabulário da
botânica – é um processo de ramificação aberta,
que se expande em direções móveis e
indeterminadas. “Num rizoma, cada traço não
remete necessariamente a um traço lingüístico:
cadeias semióticas de toda a natureza são aí
conectadas a modos de codificação muito diversos,
cadeias biológicas, políticas, econômicas, etc.,
colocando em jogo não somente regimes de signos
diferentes, mas também estatutos de estados de
coisas”. DELEUZE e GATTARI. Mil platôs.
São Paulo: Editora 34, 1995, p.15.
16 PAREYSON, Luigi. Os problemas da Estética.
São Paulo: Martins Fontes, 1989, p.32.
17 Parade é o título de uma pintura de Picasso – um
pano de boca para um espetáculo de dança de 1917
– e nomeou a exposição de cem anos de arte
francesa na Oca, Parque do Ibirapuera, 2001-2.
18 DAWKINS, Richard. Memes: os novos replicadores.
In: ______ O gene egoísta. Belo Horizonte: Itatiaia,
2001, p. 211-222.
19 AMORIN, Cláudia. A arte como território livre.
In: GREINER, Christine e AMORIM, Claudia.
Leituras do Corpo. São Paulo: Annablume, 2003,
p.25.
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