AÇÃO EDUCATIVA Inventário dos Achados O olhar do professor–escavador de sentidos AÇÃO EDUCATIVA Inventário dos Achados O olhar do professor–escavador de sentidos Quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado deve agir como um homem que escava. Antes de tudo, não deve temer voltar sempre ao mesmo fato, espalhá-lo como se espalha a terra, revolvê-lo como se revolve o solo. Pois “fatos” nada são além de camadas que apenas à exploração mais cuidadosa entregam aquilo que recompensa a escavação. Ou seja, as imagens que, desprendidas de todas as conexões mais primitivas, ficam como preciosidades nos sóbrios aposentos de nosso entendimento tardio... Walter Benjamin1 AÇÃO EDUCATIVA Sumário Supervisão geral Mirian Celeste Martins Gisa Picosque Coordenação Geral Fábio Coutinho Coordenação de Formação Ação Educativa: território da mediação 5 Arqueologias Contemporâneas: revolvendo a exposição 6 O olhar do professor-escavador de sentidos 7 Camadas de leitura que originam achados 10 Mônica Zielinsky Assistente da Coordenação de Formação Laura Cogo Coordenação Operacional Laura Fróes Assitente da Coordenação Operacional Graziela Salvatori Coordenação de Relacionamento com o Público Emília Viero Assistente da Coordenação de Relacionamento com o público Vivian Paulitsch Divulgadoras Ana Lígia Becker Fernanda Moscarelli Maria Helena Cunha Tatiana Praça Rodrigues Agendadoras Cristina F. Rocha Fernanda M. Hegner Joana Scalco Luciane Padilha Caligrafia da criação Materialidade/Matéria Corpo movente Memória-(In)Temporalidade Supervisora do Espaço Arte-Educação-Cultura Ivone Rizzo Bins Supervisores de Mediadores 4ªBienal do Mercosul Arqueologias Contemporâneas Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul Ação Educativa 4 de outubro a 7 de dezembro de 2003 Porto Alegre/RS Adriana Daccache Alice Bemvenuti Cláudia Zanatta Ilana Peres Azevedo Letícia Lau Maria Helena Gaidzinski Mariângela Felippe Michele Bohnenberger Mônica Hoff Nei Vargas Tania Bondarenco Viviane Gueller Inventário dos achados: o olhar do professor- escavador de sentidos Mirian Celeste Martins Gisa Picosque Concepção e Criação textual O pó dos caminhos: rastros do saber-fazer do professor e seus alunos 26 Convites para novas expedições 30 Referências Bibliográficas e Sugestão de leituras 32 Encarte: Baralho das Arqueologias Contemporâneas > Ação Educativa: território da mediação rte. Essa linguagem de força estranha que ousa, se aventura a falar de tudo, do desconhecido, daquilo que é percebido pelos sentidos, materializando os sentimentos humanos ou os diferentes olhares que o ser humano pousa sobre as coisas. Tal qual a fotografia Novia em Mansión Montes (fig 1) de Martin Chambi, que abre os temas deste caderno. Um olhar sobre o velar e o desvelar, a figura destacada e a figura escondida2, o ritual de passagem do conhecido para o desconhecido, nos inquieta. A Arte não responde. Pergunta. O que perguntam os artistas, o que dizem as obras presentes nas Arqueologias Contemporâneas da 4a Bienal de Artes Visuais do Mercosul? Transformados em sítios arqueológicos para o nosso olhar, os espaços expositivos do Instituto Cultural Santander, do MARGS, do Memorial, da Usina do Gasômetro e dos quatro armazéns do cais no porto, apresentam mostras específicas. Transformando também professores em arqueólogos, a 4a Bienal do Mercosul se oferece como território da mediação. Através do Programa de Ação Educativa, responsável por acionar processos de conhecimento e de pensamento em artes visuais, foram idealizadas e planejadas ações preocupadas com a qualidade de mediação e informação contextualizada a ser oferecida. Privilegia-se, neste processo, o modo como são estabelecidos vínculos com os diferentes públicos, visando sempre fertilizar modos de perceber. A provocação convoca o corpo. Com ele, o perceber, o sentir, o pensar. É este o convite desta 4a Bienal do Mercosul, que se prepara para que o visitante, especialmente aqueles das comunidades das escolas e das ONGs, possa compartilhar e ampliar seu modo singular de mergulhar na experiência estética, por si, cultural e educativa. Dois verbos definem e articulam a proposta da Ação Educativa: Dialogar, porque entendemos o diálogo como um processo humano imediato gerador da comunicação necessária entre arte e público. Aproximar, porque, entre a arte e o público, há ainda fronteiras a serem ultrapassadas a fim de dinamizar a formação cultural como um bem simbólico integrado a vida de crianças, adolescentes e adultos. Para dialogar e aproximar os conceitos de mediação e exMartin Chambi pedição são âncora da proposta Novia em Mansión Montes, 1930 da Ação Educativa, concretizados Fotografia através de: formação de mediaCusco dores e em seu trabalho durante as visitas, produção de materiais de apoio para os estudantes – o catálogo: Aprendiz de arte na expedicão às Arqueologias Contemporâneas, encontros promovidos junto aos professores – Camadas para escavar sentidos: o olhar do professor-pesquisador e deste material de apoio. A ação se complementa também através do Espaço Arte-Educação-Cultura, especialmente criado para a continuidade de um atendimento aos educadores em suas pesquisas e planejamento de projetos, além de saraus culturais. A 4 Como transformar visitas em expedições culturais? Como instigar um olhar investigativo dos grupos escolares visitantes, propondo a visita como possibilidade de pesquisa e estudo sobre a arte contemporânea? Como trabalhar com o discurso expositivo na sala de aula e para além da própria exposição? São estas as questões que desenham o material aqui apresentado, como vestígios da exposição que visam a preservar sua memória para além de seu espaço e de seu tempo: > 17 pranchas para escavar sentidos – tentam capturar o corpo/olhar pela reprodução da obra e por textossuportes de possíveis chaves de entrada que problematizam o olhar a obra reproduzida, trazem a fala do curador com sua visão geral sobre a mostra, oferecem informações e sites complementares, propondo ainda conexões estéticas e interdisciplinares. > um caderno que complementa estas pranchas, propondo a entrada no território da mediação e a investigação do professor-escavador de sentidos pelas camadas de leitura que originam achados. É a partir destas camadas que chega-se aos rastros do saber-fazer do professor e seus alunos. O convite veio da curadoria e nos tornamos arqueólogos para adentrar nos espaços desta 4a Bienal do Mercosul. O convite se estende a todos os aprendizes de arte, nós dentre eles, como arqueólogos-professores-pesquisadores, munidos de atitude poética reflexiva e crítica, como potenciais mediadores suprindo as dificuldades de envolvimento com a arte contemporânea e, zelando pelas futuras ressonâncias. Iniciemos a expedição, que pode se prolongar para além do período da exposição, movidos pelos textos visuais e verbais e nossa própria memória da 4a Bienal do Mercosul visitada. 5 > Arqueologias Contemporâneas: revolvendo a exposição ma palavra e seu sentido são fundamentais para uma exposição contemporânea: curadoria – função normalmente exercida por especialistas na área de arte, que propõem, no processo de organização de uma exposição, as formas de articulação entre os elementos de uma mostra. A curadoria nasce da seleção e combinação de idéias, promovendo um recorte potencializado, gerado pela figura do curador 3. Como curador desta 4a Bienal do Mercosul, reconhecendo-a como um pórtico de entrada latino-americano para todos os eventos internacionais, Nelson Aguilar 4 Assim, a visão cartesiana de que o tempo se arrasta de forma linear, que se perpetua também na freqüente perspectiva com que é vista a História da Arte, encontra nesta 4a Bienal um confronto instigador. A arte moderna rompeu com tradições, impulsionada também pela investigação da própria linguagem da arte, descoberta de outras culturas e outros modos de perceber o mundo. A gravura japonesa, a arte africana, a produção oceânica, a arte bruta, marcaram o impressionismo, o cubismo, o expressionismo, as produções do pós-guerra. Quando Nelson Aguilar articula mostras dentro da idéia de arqueologia em um evento contemporâneo “questiona a concepção linear da história e confirma que a arte toma o elã de tempos e lugares diversos”. Esta visão se desvela nas diversas mostras que compõe a 4a Bienal do Mercosul: As Mostras Icônicas focalizam um único artista em destaque, celebrando os países presentes: Antonio Berni da Argentina; Pierre Verger da Bolívia; Saint-Clair Cemin do Brasil; Roberto Matta do Chile;Lívio Abramo do Paraguai; María Freire do Uruguai e José Clemente Orozco, do México, país convidado. Há uma prancha dedicada a cada um deles, com a reprodução de uma obra significativa. O olhar sobre as origens está representado nas pranchas pela imagem de uma obra da Mostra Histórica Arqueologia das Terras Altas e Baixas e pelo projeto da instalação da Mostra Especial Arqueologia Genética. Dos artistas presentes na Mostra Transversal O delírio de Chimborazo, que atravessa todos os espaços trazendo na figura de Simon Bolívar a força da liberdade e o desejo da união latino-americana, foi selecionada uma obra de Martin Chambi. Para as pranchas das sete Representações Nacionais, que exibem exclusivamente arte contemporânea e envolvem vários artistas, foram reproduzidas obras que tecem um diálogo com a proposta educativa. Em 4 de outubro de 2003, Arqueologias Contemporâneas inaugurada, nos faz lembrar que em todos os outubros, acontece a colheita. Tempo para a preservação que refaz a nossa sobrevivência. Quais achados um professorpesquisador de arte pode coletar na exposição para a sobrevivência cultural de seus alunos? Quais obras podem ser escavadas para gerar nos alunos novas maneiras de olhar o mundo e preservar na imaginação? Por onde então, começar? U foi buscar nas questões sobre a origem o seu mote e na arqueologia, sua porta de entrada. Recupera do pó a palavra, que poderia parecer “mofada” em vitrines museificadas e a submete ao presente. Notícias recentes falam da descoberta de fósseis humanos5 e das novas possibilidades tecnológicas, reafirmando a condição contemporânea dos estudos arqueológicos. Aqui nos são reveladas faces pouco exploradas, produções exibidas na Mostra Histórica Arqueologia das Terras Altas e Baixas. Da mesma forma, Nelson Aguilar subtrai o tempo das inovações científicas, que parecem demorar a ingressar no cotidiano, trazendo a Mostra Especial Arqueologia Genética integrando DNAs e genomas, esteticizados, para um diálogo repleto de interconexões. O jogo da curadoria encontrou também parceiros curadores, responsáveis por cada mostra, desvelando ricas camadas onde tempo e espaço são vestígios do presente assinalando o passado. A pergunta pelas origens permanece incandescente entre os povos da América Latina, a tal ponto que se torna a marca da 4a Bienal de Artes Visuais do Mercosul. Não importa que seus indagadores sejam descendentes de africanos, ameríndios, asiáticos, europeus. Tudo conflui aos tempos míticos do engendramento, aos vestígios materiais das primeiras culturas, à aferição científica que a biologia molecular lança à chegada do homem no continente americano, à agilidade com que os artistas contemporâneos averiguam o começo. Quando a velocidade em que se processa a informação cresce em uma escala vertiginosa, cabe à curadoria de uma mostra artística inquirir a respeito dos primórdios e compor um mosaico que repertoria a arqueologia vista a partir de hoje.(Aguilar, 2003) Vinha eu envolto no manto de Íris desde onde o caudaloso Orinoco paga seu tributo ao Deus das águas. Tinha visitado as encantadas nascentes amazônicas e quis escalar a atalaia do Universo. Resoluto, segui as pegadas de La Condamine e de Humboldt, e nada me deteve. Alcancei a região glacial, o éter sufocava meu alento. Nenhum pé humano havia calcado a coroa diamantina que as mãos da Eternidade depuseram nas excelsas têmporas do dominador dos Andes. E disse comigo: este manto de Íris, que me tem servido de estandarte, atravessou glebas infernais, sulcou os rios, os mares, galgou os ombros gigantescos dos Andes, e a terra abriu caminho à Colômbia, sem que o tempo pudesse obstar a marcha da liberdade. Se Belona foi humilhada pelo resplendor de Íris, acaso não posso eu assomar às cãs do gigante da terra? Sim, eu posso! E arrebatado pelo ímpeto de um espírito para mim desconhecido, que divino se me afigurava, deixo para trás os vestígios de Humboldt que empanam os cristais eternos à volta do Chimborazo. Subo, compelido pelo animoso gênio, e quase desfaleço ao roçar a cabeça na copa do firmamento: aos meus pés, os umbrais do abismo Um delírio febril embargou-me a mente. Abrasava-me um fogo estranho e superior. Era o Deus da Colômbia que me possuía.(...) O fantasma desapareceu. Quedei-me estendido sobre imenso diamante que de leito me valia, absorto, hirto e como sem sinais de vida. Ouço, então, a tremenda voz da Colômbia a clamar por mim. Ressuscito, levanto-me, abro com as mãos as pesadas pálpebras. Volto a ser homem e descrevo meu delírio. Simón Bolívar, 1823 (tradução de Sergio Faraco) > O olhar do professor-escavador de sentidos Francis Alÿs Zapatos magnéticos, La Havana 1994 1994-2003 Cartões postais, fotografias em cores, vídeo Representação Nacional/México 6 7 omecemos não pelo olhar, mas pelos passos. E os passos são do artista Francis Alÿs. Na Mostra: Representação Nacional/México, os rastros de seus passos e a matéria de sua criação se revelam na sua instalação, composta por fotografias, vídeo e postais. Aqui, vemos o seu incomum par de sapatos magnéticos. Alÿs é um andarilho de cidades que colhe com seus pés pelas ruas uma série de objetos metálicos que passam despercebidos dos habitantes. A obra de Alÿs é construída pelos seus rastros e do que pode pegar com o pé. Antes da matéria’’ se prestar à metáfora artística, ela se mostra em si. Bruta. Lixo. Nessa aventura arqueológica o artista soube cavar uma maneira pessoal de se apropriar dos restos, dos indícios do ambiente econômico e cultural de determinados lugares. É como se Alÿs fizesse uma curadoria da rua por meio de seu receptivo sapato que se deixa imantar pelo jogo do acaso aberto ao intencional do artista. O procedimento de andarilhar e coletar cede lugar ao processo, no que este último pode revelar da intenção de arte perseguida pelo artista: nos deixar pistas para que os olhos vejam vestígios da civilização contemporânea. A imantação poética dos passos do artista Francis Alÿs pode nos conduzir a pisar na poeira do solo do vasto campo de Arqueologias Contemporâneas desta 4a Bienal. Se formos sensíveis ao seu procedimento, o que calçaríamos para coletar/imantar as imagens de arte? Como andarilhos da arte, quais imagens podem compor nossa curado ria do ensinar-aprender arte? Um professor que mantém vivo a curiosidade, que gosta de estudar, investigar imagens para sua prática na sala de aula e levar seus alunos ao encontro com a linguagem da arte sem forçar uma construção do sentido “correto” ou único, veste sandálias de professor-pesquisador, envolvendo com a mais fina atenção sua pele pedagógica, dando sustentação para pisar em terras ainda desconhecidas. Não lida com as certezas, e com reducionismos simplistas, mas com a compreensão e a articulação da complexidade. Por isso mesmo, seu caminhar se dá no futuro, no lugar da pergunta, da questão, da dúvida, movido por passos de andar sinuoso que evitam os caminhos retos porque assim pode traçar sua própria trilha na escavação das Arqueologias Contemporâneas. Nesse modo de caminhar, descobrindo quais trilhas são acessíveis e outras não, o professor-pesquisador é mais afeito à formulação de perguntas do que à elaboração de respostas diante de cada imagem que achar. Afinal, a arte não responde; pergunta! Nessa audaciosa empreitada, quais obras de arte poderiam imantar as sandálias do professor-pesquisador? Seria essa coleta um jogo do acaso? Ou, o critério de escolha é as obras que agradam? Ou as obras que já conhece? Como fazer, porém, para que essa escolha ganhe uma amplitude na intenção de sua coleta? Um conceito que pode orientar o professor-pesqui- sador de arte nessa coleta seria o de curadoria educativa6. O conceito de curadoria aqui é expandido para uma ação educativa que tem como preocupação explorar a potência da arte pela ativação cultural de obras e artistas através da experiência e investigação estética na sala de aula. Ativar culturalmente é fazer circular, é dar acesso, aproximar. É impulsionar a potencialidade de obras e artistas submersos nos livros, nos museus, nos sites, nas reproduções esquecidas que fazem parte de nosso acervo de professores, para além daquelas sempre escolhidas7. Reside nessa ação a formação cultural dos alunos. Formação esta que, enfatizando a habilidade perceptiva e cognitiva para interpretar obras de arte em termos de seu contexto social e cultural, possa ampliar o acervo imaginário de tal modo que obras e artistas passem a integrar o patrimônio pessoal como um bem simbólico interno, um repertório conectado à vida para a leitura do mundo, das coisas do mundo e da própria Arte. Como em toda curadoria, a escolha das imagens faz trabalhar o olhar, um olhar escavador de sentidos. Olhar mais profundo e ao mesmo tempo sem pressa, ultrapassando o reconhecimento, o fim utilitário das imagens, e que se torna um leitor de signos. Nesse movimento do olhar, segundo o filósofo francês Georges Didi-Huberman8, não só olhamos a obra como ela também nos olha. Atento aos sentidos das imagens, tal qual um arqueólogo que escava à procura do desconhecido, o professor-pesquisador é um leitor de imagens que elege aquelas que vão adentrar na sala de aula para o deleite e investigação dos alunos. Nessa tarefa de leitura, as sandálias de professorpesquisador imantam imagens para compor uma seleção, uma combinação de imagens. Seleção é dizer sim e não, sempre é ênfase e exclusão. Combinação é recorte. Todo recorte é comprometido com um ponto de vista que se elege, exercendo a força de uma idéia, de um conteúdo que é desejo explorar ou de uma temática possível de desencadear um trabalho junto aos alunos. Selecionar e combinar são, então, uma interpretação do professor-pesquisador. Não uma interpretação que cria a armadilha de responder questões, mas a interpretação que vai propor aos alunos um processo instigante de novas e futuras escavações de sentido. Interpretação entendida como um encontro ”entre um dos infinitos aspectos da forma e um dos infinitos pontos de vista da pessoa”9 C Pontos de vista que, se socializados num grupo, proliferam em múltiplos sentidos. Foi assim, vestindo sandálias de professor-pesquisador, que realizamos uma curadoria educativa, imantando as 17 pranchas que reproduzem obras do discurso expositivo e que aqui são re-apresentadas nas páginas centrais deste caderno. O mesmo procedimento norteou a seleção das imagens que estão reproduzidas no próximo capítulo Camadas de leitura que originam achados e que foram com- 8 binadas para tematizar quatro investigações estéticas: Caligrafia da criação; Materialidade/Matéria; Corpo Movente e Memória-(In)Temporalidade. Tal qual o artista Alÿs que, com sua curadoria da rua por meio de seu receptivo sapato, persegue sua intenção artística/estética, o professor-pesquisador com sua curadoria educativa revela sua intenção pedagógica a ser perseguida na sala de aula. Para isso, há que se convocar os olhos daqueles que pela primeira vez vão olhar/ler as imagens, seja para saborear ou estranhar o novo, o desconhecido. Mas de que modo convocar o olhar dos alunos para a visualidade das imagens achadas nas Arqueologias Contemporâneas? Como escavar sentidos através de um rico e fértil diálogo entre as imagens e os alunos? pede uma orientação aos olhos, de tal modo que todo o corpo possa “olhar” sentindo, escutando, tateando, pensando. É uma tarefa que convoca o olhar a sair de uma atitude passiva para mergulhar numa atitude ativa, interrogadora, atenta tanto as formas visuais da imagem como as conexões sociais e culturais que associamos a imagem. Nesse trabalho gerador de sentidos e significação, o professor é um perguntador, é aquele que sabe fazer perguntas e levar o olhar a dialogar com a imagem, aguçando a curiosidade e o desejo de olhar o que ainda não foi olhado. Para perguntar aos nossos alunos é importante que antes nós mesmos nos deixemos capturar pela obra. Só uma leitura pessoal da imagem pode nos levar a descobrir o quê perguntar, como perguntar, a fim de roteirizar uma pauta do olhar: uma listagem das hipóteses de perguntas que possam provocar um diálogo dos alunos com a imagem, com eles próprios sobre a imagem e com o próprio professor. Cuidadoso, o professor procura não transformar essa listagem num roteiro rígido como uma seqüência de perguntas tal qual um questionário. Por isso ele é também um leitor das respostas de seus alunos, acompanhando o percurso do olhar que estão fazendo, identificando como eles olham, sentem, pensam e interpretam o que vêem na imagem ao mesmo tempo em que vão sendo enriquecidos pela troca de pontos de vista de cada um do grupo. Provocar diálogo, assim, não é fixar-se em perguntas que podem se tornar entendiantes ou persecutórias, mas perguntas que saibam puxar a prosa, desvelar os saberes e os não-saberes, os conceitos e os pré-conceitos, para que possamos trabalhar sobre eles, alimentá-los, ampliá-los e deixar que a experiência estética se concretize. Como queria Dewey (1949) uma experiência é estética porque a vivemos de forma integral, completa – seja uma experiência intelectual, prática ou artística. “Ação, sentimento e significação são uma só coisa”.12 Mediação: espaço cauteloso e tateante Tem de todas as coisas. Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer maiores perguntas. Guimarães Rosa o contato com a arte, seja através da leitura de obras, seja através do fazer, como professores-pesquisadores nos movemos no território da mediação. Processo delicado que pede uma atenção especial revelada por uma atitude frente à arte e ao outro, seja criança, jovem ou adulto conhecedor ou não do universo artístico. Novas perguntas surgem quando pisamos na seara da mediação. Acreditamos que o outro à nossa frente tem um saber? Confiamos em seu potencial sensível? Compreendemos seus conceitos e pré-conceitos desvelados por sua fala, sua gestualidade? Cremos na multiplicidade de leituras da obra de arte? Sobre isso, Pareyson10 ensina que “a interpretação é sempre, ao mesmo tempo, revelação da obra e expressão de seu intérprete”. E, Panofsky11, diz que “a experiência recriativa de uma obra de arte depende não apenas da sensibilidade natural e do preparo visual do espectador, mas também de sua bagagem cultural”. Não há espectador totalmente ingênuo. Portanto, há marcas culturais tatuadas nas pupilas dos olhos dos alunos que não devem ser desprezadas, mas sim incorporadas e ampliadas durante a leitura para que novas interpretações e construção de sentido possam ser desveladas. Nesse sentido, o professor-pesquisador enquanto mediador é aquele capaz de alterar as fronteiras entre o que é conhecido e o que ainda é desconhecido, fazendo com que as informações transitem acopladas aos valores de seu grupo de alunos. Mas qual procedimento pode auxiliar na leitura a fim de sacudir a percepção provocando um misto de incômodo e encantamento no olhar? Olhar, apreciar, uma imagem da linguagem da arte N Claro que um professor-escavador de sentidos possui informação preciosa sobre as imagens e os artistas que apresenta aos alunos. O perigo é fazer com que essas informações sejam colocadas como a única e correta interpretação da obra, fechando o sentido. Por isso, cada informação que seja adicionada ao diálogo vem para provocar novos arranjos nos modos de perceber dos alunos. Buscando-se assim renovar o significado das interpretações anteriores, modificando o olhar de modo que cada um ganhe mais liberdade e autonomia para construir suas próprias interpretações. Portanto, a informação se difere da interpretação, age como suaves sopros moventes no pó das camadas interpretativas. Contudo, há que se ter delicadeza com o olhar. Antes de qualquer pergunta, a convocação se dá pelo olhar silencioso que mergulha nas sensações que a imagem vai doando ao corpo do leitor. Escavar essas sensações é tocar em camadas de coleta sensorial que “gera o sentido doce. 9 Que sai dessa cavidade e voa. A sensação mergulha portanto no silêncio, receptivo. Entendam isto como uma verdade sensível, como a verdade dos sentidos. A mudez inunda nossos sentidos. O silêncio constrói o ninho, o habitat da sensação. Sem ele, ela não existe”.13 mica de um trabalho com projetos14, mas cabe aqui considerá-lo como uma atitude pedagógica. Um projeto é uma intenção, que precisa ser continuadamente avaliada e replanejada. O escolher, propor, opinar, discutir, decidir, avaliar são ações desenvolvidas durante a processualidade do aprendizado em parceria com o grupo e com o professor. A visita a um dos roteiros desta 4a Bienal ou a leitura de algumas obras apresentadas nas pranchas, neste caderno ou no catálogo criado especialmente para os estudantes visitantes – Aprendiz de arte na expedição às Arqueologias Contemporâneas – podem gerar projetos interdisciplinares ou não, que partem desta 4a Bienal. Pensando o conhecimento como uma construção em rede, que se amplia, se clareia e se aprofunda pelas relações que são estabelecidas entre o que se sabe e o que ainda não se sabe, podemos partir para projetos que não cercam obras únicas, mas que tentam estabelecer diálogos entre duas ou mais obras, em novas curadorias educativas. A noção de teia, de rede, o conceito de rizomaxv, com suas possíveis confluências entre as imagens da exposição e o olhar de múltiplos leitores, alimenta o planejamento de projetos que geram “frutos” de conhecimento diversos, inter-relacionados e, ao mesmo tempo, autônomos e produtores de novas conexões. O pensamento relacional, rizomático, propõe redes que se entrelaçam e germinam novas conexões, novos “links”, instigando o olhar/corpo às camadas interpretativas, regidas por conexões estéticas e interdisciplinares, já anunciadas nas pranchas que compõem este material e ampliadas por novas e ricas configurações de objetos de estudo. Essa ação iniciadora do olhar silencioso é fértil para gestar falas de interpretação e de (inter)penetração entre a obra e o leitor. Em torno dos germes sensoriais da coleta, o leitor constrói pouco a pouco um olhar do detalhe, da nuança, encontrando passagens que amaciam o (con)tato pela imediatez dos sentidos. Forma-se assim, uma parceria vibrante entre o corpo de quem lê e as nervuras da carne da obra que se lê, mesmo que o sentido revelado seja o não-sentido do que parece sem sentido. Propiciar momentos de silêncio, para que cada aluno escreva suas impressões, sensações, idéias, é uma ação de mediação especial que abre espaço para ampliações futuras pelas interpretações compartilhadas. Projetos: um vir-a-ser das conexões estéticas e interdisciplinares Como pode se dar a ressonância da leitura de imagens – seja aquela leitura que aconteceu durante a visita a exposição ou a que se deu em sala de aula através das imagens que compõem este material educativo? A leitura pode ter revelado uma riqueza infinita de coisas para investigação e, ao contrário de se pensar em atividades isoladas, é preciso re-qualificar as questões trazidas para gestar projetos em sala de aula. Não cabe neste material de apoio aprofundar a dinâ- > Camadas de leitura que originam achados teúdos a serem esmiuçados e desenvolvidos analiticamente. Cada temática poderá gerar projetos autônomos ou, a partir de suas possibilidades de agregação, mistura, contaminação com outra, ramificar novo caminho processual de experiências poéticas significativas. Ou mesmo, gerar conexões de caráter interdisciplinar com outras áreas de conhecimento. Para isso, propomos desafios estéticos e jogos de pesquisa através de diferentes perguntas-senhas. A gente descobre que os tamanhos das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Manoel de Barros iante da riqueza arqueológica que cada sítio revela nesta 4a Bienal do Mercosul e dentre múltiplas potencialidades, pode-se trabalhar com camadas de leitura, geradas pela seleção e agrupamento de imagens por temáticas. Escovar cada temática significa potencializar investigações estéticas, que germinam projetos específicos com a linguagem da arte ou projetos interdisciplinares tendo a arte como fio gerador. Propomos quatro camadas de leitura: Caligrafia da criação; Materialidade/Matéria; Corpo Movente e Memória(IN)Temporalidade. Não são receitas ou projetos para serem “aplicados”, mas para aguçar o olhar de educadores e aprendizes e por isso são pretextos que vão além de con- D Caligrafia/traço “Para algo existir mesmo – um Deus, um bicho, um universo, um anjo... – é preciso que alguém tenha consciência dele. Ou simplesmente que o tenha inventado”. Mário Quintana 10 Um esboço experimenta idéias no papel. Não é rascunho a ser passado à limpo, mas obra. Sua força está presente, marcando algo que está na processualidade vivida intensamente por Orozco. O traço é a lápis, diante do papel em branco, limpo, sua escrita desenhante brinca de traços rápidos com a linha em volteios esboçando o corpo de um homem em ação. Escrita cega de Arturo Herrera, não vê bem a direção. O gesto da mão é seu guia dando voltas no espaço, embaraça a visão. León Ferrari faz nossos olhos se perderem num labirinto. Os carrinhos, idênticos, se amontoam, presos como um Minotauro, correndo apressados em um viaduto de onde não é possível sair. Também não se encontra a saída do texto visual criado por José Damasceno. Suas vírgulas em mármore, grafam a caligrafia da pedra, sobrecarregando o chão de intervalos incessantes. É a mão trabalhadora, que faz da arte uma escrita. Textos visuais, tornados visíveis pela caligrafia da criação. Na arte há criação, construção, invenção. Tal qual um jogo de armar, um quebra-cabeça, a arte recria a matéria oferecida pelo mundo da natureza e da cultura. Neste vir-a-ser, vários caminhos são percorridos, várias soluções são experimentadas, hipóteses são testadas. Nesse jogo as regras são inventadas enquanto se joga e por quem joga. A arte é “um tal fazer que enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer”.16 > > > Desafios estéticos para jogos de pesquisa > O que você percebe em seu percurso pessoal de criação? Com quais materiais você trabalha? Quais artistas são referência para o seu processo de criação? Como você se vê mergulhado no caos criador: conflito entre o impulso para criar e a forma desejada? Conflito entre a sua subjetividade e a objetividade da forma? Conflito entre sentimento/pensamento e forma sígnica?. > Quais obras expostas na 4a Bienal do Mercosul nos levam a perceber e refletir sobre os procedimentos artísticos na criação? > Quais percursos criativos podem gerar a experimentação da gestualidade movida pelo lápis no papel, a tinta na tela, a goiva na madeira, o buril no metal, o ferro quente no plástico, o dedo na areia, a pressão ou a delicadeza no barro, a tesoura desenhante? Que outras experimentações seriam possíveis? > O registro fotográfico pode ser um instrumento para a criação artística? De que modo o artista Augusto Ferrari, pai de León Ferrari, no início do século XX, utilizou o registro fotográfico de modelos vivos para estudo da composição de suas pinturas? Hoje, quais artistas fazem o mesmo no seu processo de criação? > Pensando na marca pessoal do artista que mostra sua poética na obra diferenciando-a de outras, o que nos faz identificar uma obra de Matta? De Orozco? De Los Carpinteros? De Chambi? De Berni? De Maria Freire? De Gabriela Zuccolillo? De tantos outros? Há uma intenção em cada gesto, em cada cor, movimento, postura; com alguma intenção, um compositor faz predominar os sons graves sobre os agudos em determinada composição. A ação intencional do autor/ artista é que define seu trabalho, mesmo quando opta pela música aleatória ou por jogar tinta sobre a tela. A letra em Macchi parece escrita lá no alto de um prédio com as pontas dos dedos.Qual a intenção de Macchi transformando pequenos e rudimentares anúncios em outdoor? Proponha que seus alunos inventem outdoors, pesquisando diferentes modos de escrita. O que escreverão, oferecendo algo de si? A escrita dos logos, dos convites de casamento, de formatura, de cartões de visita, de diplomas, das fachadas de lojas. O que revelam? Proponha pesquisas para perceber semelhanças, diferenças e intenções. A pesquisa pode começar com poesias concretas. Proponha aos alunos uma escrita de palavras soltas, sem lógica aparente, como um procedimento para a criação de poesias visuais que podem ser trabalhadas a lápis no papel, com colagem ou mesmo criando no computador. Aproveite o desafio para discutir e refletir sobre o que é o imprevisível e o acaso no processo de criação. No jogo do fazer/construir da criação artística, somos conduzidos e ficamos a mercê da imaginação criadora que busca o “depois”, a mudança do que é para o que será, transformando, inventando. Por quais metamorfoses passam os pequenos seres que a artista Lia Menna Barreto submete à vontade de sua criação? Que transformações as mãos de Maggi causam ao ferir com incisões as pilhas do simples e comum papel branco, formato A4? Proponha que seus alunos brinquem de faz-deconta, metamorfoseando diferentes coisas ou objetos. Em que pode se transformar um lenço, um pau de vassoura, uma cadeira, um abajur, um boné, uma luva ...? A partir do desenho de observação de um objeto, proponha aos alunos a criação de um outro desenho transformando o mesmo objeto. Simplesmente, inventar! O jogo, o mais lúdico, envolve o processo de criação. Que outros desafios podem impulsionar nossos alunos percorrer um percurso de criação? Que outras obras podem ser selecionadas para gerar leitura e reflexão sobre os procedimentos artísticos na criação? 11 > O que pode acontecer quando Caligrafia/Traço a experimentação se dá com a Legendas das imagens das páginas 12 e 13. tinta? Pequenos e enormes León Ferrari trabalhos? Pincéis finos e Autopista Del Sur 1980 brochas? Gestos contidos para Copia heliográfica preencher espaços? Gestos 100 x 100 cm que deixam suas marcas? Representação Nacional/Argentina Tintas prontas ou confeccioJosé Clemente Orozco nadas pelos alunos com agluEl Hombre de Fuego 1938-39 tinantes diversos (cola branLápis sobre papel vegetal, ca ou goma arábica, base de 55,4 cm x 38 cm latex, mingau de maisena ou Mostra Icônica/México farinha) e pigmentos (leguArturo Herrera mes e verduras como beterNight before last 2002 rabas e folhas esmagadas ou Tintas s/parede cozidas, terras, café e chás)? 437 x 990 cm > Sementes de urucum, de jeMostra Transversal nipapo, flores e folhas, beJosé Damasceno terraba e pó de café. Como os Entretanto 2003 artistas produzem as cores? Maquete Como as cores são utilizadas? Representação Nacional/Brasil Como a fotossíntese produz mudanças cromáticas? Cores utilizadas diretamente dos potes, ou criadas por superposições, ampliando a sensibilidade para ver as sutis diferenças entre intensidade, brilho, saturação? O olhar também pode focalizar a própria fatura das obras, percebendo as consistências das tintas empregadas, as superposições, as transparências e veladuras, a cor pura, as misturas prévias ou produzidas no ato de pintar, a economia de tons ou a exuberância, os contrastes violentos ou a proximidade de nuances,... > Como a cerâmica também utiliza diferentes tonalidades de barro, provocando um novo modo de colorir, como as usadas pelos artesãos do Vale do Jequitinhonha/MG? Por que há terras de diferentes cores? > Com quais fios já traçaram linhas? Fios de cobre, de alumínio, de barbante, de nylon, fio elétrico, fio de cabelo, fios de corda? Fios, linhas, cordas, cordões.? No tecido, no bordado, trançado, tramado, costurado, suturado? Agulha de metal, agulha de crochê, agulhas de tricô, tear? O que podemos fazer com elas? > Luz do dia, luz da noite, luz de neón, luz negra, luz de outono, luz de inverno, a luz dos faróis noturnos, a luz de velas, a luz das pequenas lâmpadas que iluminam as bacias sobre os grãos de arroz e de feijão, de Lygia Pape. Que cores e luzes transformam o Guaíba? Por quê? Sombras que fazem brilhar a luz? Filtros de luz transformam a obra de Ivens Machado à noite. É diferente olhar o mesmo labirinto de madeira e tijolo à luz do sol... Quais as diferenças entre a luz solar, a luz da tv ou do monitor Materialidade / Matéria Na lata do poeta tudonada cabe Pois ao poeta cabe fazer Com que na lata venha caber O incabível Gilberto Gil s pequenos pontos bordados – “petit-point” – de Carolina Ruff, fazem caber na trama um fingido extintor de incêndio como kit de emergência para espaços de arte. Os fios de cabelo da obra de Solange Pessoa, ganham aparência de trama que escorrega e andarilha pelo espaço como um labirinto. O tecido de Ugalde (prancha ), tramado pelos indígenas de diferentes grupos étnicos que habitam as terras dos andes bolivianos, escorrega pelo espaço como um grande estandarte. O suave aroma de urucum, a penumbra, a fria palavra MET (morte) na entrada para a sala após o labirinto e a força da palavra EMET (esperança, conforme citado no texto da curadora) na saída da instalação, em elegantes letras de alumínio, celebrando antepassados. O silêncio dos objetos tocados, envoltos pela luz da fotógrafa-celebrante, Gabriela Zucollilo evocando os rastros de alguém que por ali passou. Artistas-poetas fazem da vontade da matéria um conduto da visualidade, forma e matéria conjugadas, interdependentes aos desejos e intencionalidades do artista. A intenção domina então a matéria, com persistência, com cuidado, com apuramento técnico. A matéria deixa de ser simples matéria, se tornando signo que carrega em si mesma a potência da materialidade. Bordados, cabelos, sementes de urucum, letras de alumínio deixam de ser matérias ali presentes, para serem idéias e sensações, convites de aproximação ou de afastamento, brincando e iludindo nossas próprias percepções. A materialidade se dobra ao feitiço do artista que encontra nela singularidades especiais camufladas sobre sua aparência. O Desafios estéticos para jogos de pesquisa A matéria, por si mesma, já vem carregada de significações. Hoje você se sente água, ar, terra ou fogo? Você se sente papel de seda, papel vegetal, papel espelho, papel laminado, papel sulfite, papel manufaturado, papel amassado? Você se sente concreto, vidro, tela, argila, ferro, pedra, tecido, cristal,...? > Quais os diferentes materiais utilizados pelos artistas na 4a Bienal do Mercosul? 3 2 1 José Clemente Orozco (1883-1949) Martin Chambi (1891-1973) Vaso de cariátides Piel em azul El Gigante de Paruro cultura tapajônica 1947 Cuzco, 1925 Fotografia Ca. 1000-1600 d.C. 172 x 122 cm Mostra Transversal Mostra Histórica, Arqueologia das Mostra Icônica, México Memorial do RS Terras Altas e Baixas MARGS 6 MARGS 5 4 Jorge Macchi (1963) Antonio Berni (1905-1981) Francis Alÿs (1959) Publicidad Inundacción en el barrio de Juanito Zapatos magnéticos, La Havana 1994 2000 1961 1994-2003 Instalação Óleo, metal e papelão sobre aglomerado Cartões postais, fotografias em cores, vídeo Representação Nacional, Argentina 186 x 124 cm Representação Nacional, México Armazém do Cais, A6 Mostra Icônica, Argentina Armazém do Cais, A6 Santander Cultural. 9 8 7 Saint-Clair Cemin (1951) Joaquin Sánchez (1975) Pierre Verger (1902-1996) Thin Chair Tejidos Diablada, Oruro 1987 2002 Bolívia, 1946 Escultura em bronze com assento em alumínio Instalação Fotografia Mostra Icônica, Brasil Representação Nacional, Bolívia Mostra Icônica, Bolívia Usina do Gasômetro Usina do Gasômetro Memorial do RS Gastón Ugalde (1946) Marcha por la vida 1992-2003 Técnica mista 20 x 6 m Representação Nacional, Bolívia Usina do Gasômetro 14 Região de Santarém (PA) Piroxilina sobre masonite 12 11 10 Pablo Langlois (1936) Roberto Matta (1911-2002) Lia Menna Barreto (1959) La Lectura El dia es un atentado Fábrica 2002-2003 1942 Instalação Óleo sobre tela Instalação Representação Nacional, Chile 76 x 91 cm Representação Nacional, Brasil Mostra Icônica, Chile Armazém do Cais, A5 Armazém do Cais, A4 2003 Santander Cultural 14 13 Maria Freire (1917) Jorge Sáenz (1958) Lívio Abramo (1903-1992) Composición V Fotografio por necessidad Série Paraguay 15 1953 2002-2003 Esmalte sobre aglomerado Fotografia direta em suporte Polaroid SX-70 Xilogravura 122 x 95 cm 70x65x6 cm 39 x 19,5 cm Mostra Icônica, Uruguai Representação Nacional, Paraguai Mostra Icônica, Argentina Santander Cultural Usina do Gasômetro MARGS 1957 do computador, as cores da impressora? Como a luz transforma um objeto? > A escrita da luz, matéria da fotografia, se fortifica no jogo de claro/escuro de Chambi. Imagens são recobertas de tinta pelo artista para deixar brilhar a luz. Como podemos criar espaços dramáticos utilizando lanternas e transformando retro-projetores em fachos de luz, talvez coloridos? > Um objeto, como a lagartixa de plástico de Lia Menna Barreto, se transforma para além de si mesmo, se moldando em outra forma pela ação do aquecimento, do esfriamento, da torção, do furar, do acoplar. Modelar, esculpir, talhar, cortar, dobrar, ferir, juntar, recortar, perfurar, repetir, modular, achatar ou dar volume? Ou o objeto – lagartixa de plástico – traz em si a referência da produção em série, industrializada, vendida nas lojas de “R$1,99”, indo além do universo infantil e adentrando por discussões de globalização, de mercado, que movem a economia e o desejo do consumidor? Sua Fábrica (instalação) produz o que em nós? Quais outros objetos do cotidiano são apropriados pelos artistas? Quais outros objetos poderemos investigar? > “As coisas têm Peso, Massa, Volume, Tamanho, Tempo, Forma, Cor, Posição Textura, Duração, Densidade, Cheiro, Valor, Consistência, Profundidade, Contorno, Temperatura, Função, Aparência, Preço, Destino, Idade, Sentido. As coisas não têm paz. As coisas.” A partir deste poema de Arnaldo Antunes, proponha aos seus alunos desenhos de observação onde estas qualidades estejam presentes. Num segundo momento, proponha a recriação dos objetos desenhados trabalhando a oposição da qualidade expressa. Como pode se dar a metamorfose do peso de um objeto em leveza? Corpo Movente palavra paisagem cinema cena cor corpo luz vulto alvo céu célula detalhe imagem olho Arnaldo Antunes lhar fisgado pela miudeza revela uma imagem que nos parece gigante na fotografia. Frente à obra de Rosana Paulino, o olhar é fisgado pela multiplicidade de figuras miúdas, dialogando entre si, dialogando conosco encasulando nosso corpo. A escuta fisgada pela musicalidade de um corpo sonoro. Diante da obra, ressoam em nosso corpo contemplativo, o diálogo entre as imagens de vídeos que revelam os movimentos expressivos da dança do incenso, da mão trabalhadora, da dança de lutas marciais embaladas pela composição de Tato Taborda tocando sua Geralda. Olhar fisgado pela cor vermelha iluminada no contraste da luz sobre as bacias brancas mergulhado na atmosfera de penumbra do ambiente. Caminhando pela obra, sentese os minúsculos grãos de arroz e de feijão que desenham e se avolumam dançando em volta das bacias. Coreografiadenunciante de que em nosso corpo os traços genéticos são contaminados pelas marcas das diferentes culturas. Olhar, pele, corpo. Corpo movente, corpo contemplativo, corpo virtual, corpo bio-cultural. Corpo pós-orgânico. Corpo-pele, diálogo entre interno e externo, subjetividades... O con-tato com a vida. Seria o corpo um modo de ser ou estar? O Assim como o poeta faz caber na lata o incabível, o artista faz com que qualquer material venha dar corpo às suas perguntas, tornando visível as suas invisíveis idéias artísticas. 4ª Bienal do Mercosul Baralho das Arqueologias Contemporâneas 17 16 Ari Perez (1954) Marco Maggi (1957) Projeto de Instalação Construccione y demoliciones 2003 2003 Mostra Especial, Arqueologia Genética Instalação, cortes e aberturas sobre papel Armazém do Cais, A7 Representação Nacional, Uruguai lê contempla assiste vê enxerga observa vislumbra avista mira admira examina nota fita olha Desafios estéticos para jogos de pesquisa Que outros desafios podem impulsionar nossos alunos a tornarem visíveis suas próprias idéias? Que outras obras podem ser selecionadas para gerar leitura e reflexão sobre o diálogo entre matéria e materialidade? > O que você percebe em seu corpo quando está diante de uma obra? Como ele reage às ressonâncias visuais, sonoras, táteis? Calafrio, espanto, arrepio na espinha? Encantamento, estranheza, desconforto, respiração alterada? Prazer, coração acelerado? O corpo responde aos desejos de aproximação ou de afastamento? Sentidos aguçados, sensações ... Como em você se dá essa coleta sensorial? > Em quais instalações nossos alunos entraram na visita à 4a Bienal ou em outras exposições? Talvez tenham sido raras as oportunidades de penetrar nessas obras. Obras que nos envolvem, que nos provocam pleno en- Armazém do Cais, A4 19 20 > > > > > > cantamento ou muito estranhamento. Uma fotografia da obra não permite que as sensações sejam vividas com a mesma intensidade. Há de se imaginar dentro para tentar compreender as sensações, a recepção de nosso corpo, de nossos sentidos.Quais lugares despertam sensações? O pátio da escola? A sala da direção? O palco antes da apresentação para a classe? Como o som cria sensações? Pode-se pesquisar as músicas de cada personagem das novelas, de filmes. Qual clima provocam? Em que sentido expressam o pensar/ sentir dos personagens? Pesquisar obras que apresentam sonoridades pode nos levar a compreender mais as relações entre as linguagens. O que sabemos do repertório musical de nossos alunos? O que aconteceria se cada aluno escolhesse uma obra ou um trabalho pessoal e o recriasse pela transposição em sons, ruídos, silêncio? Afinal, o que é som? Dizemos que na arte contemporânea a presença e a interação do corpo do observador é fundamental? Quais os artistas foram os pioneiros em fazer essa proposição? Não é só pelos olhos que se entra na fruição da obra. Diz Ana Cláudia de Oliveira: “no âmbito da recepção artística, a zona privilegiada do visual em nossa cultura ocidental foi perdendo paulatinamente a sua exclusividade. Para dar conta das obras atuais, exige-se do olhar uma articulação de alianças”. Alianças com a percepção também do próprio caminhar, sentindo os pés. Alianças com o corpo que reage à escuridão, ao ambiente fechado. Alianças para ouvir sons, ruídos, o silêncio. Sentidos aguçados. Sensações. Mas, não só as instalações aguçam nossos sentidos, provocando vibrações muitas vezes inquietantes. As obras bidimensionais de Matta e de Maria Freire, entre tantos outros, podem aflorar em nós vertigens, causando desequilíbrio corporal enquanto olhamos a espacialidade contida pela moldura. Mesmo algumas obras que podem parecer em repouso na parede branca do espaço museológico nos enredam num labirinto, como se pudéssemos nos perder num espaço dentro dela que não existe. Quais obras presentes na 4a Bienal do Mercosul trazem a representação do corpo humano? Como nas obras Piel en azul de Orozco (prancha 3) e Pesadilla de los injustos de Berni nos levam a sentir a emoção da dor e do sofrimento? O que podemos investigar sobre a gestualidade presente nos corpos retratados por Chambi? O que podemos investigar no corpo-espetáculo mostrado por Verger? A linguagem do corpo dialoga com a linguagem do corpo das coisas. De quais modos podemos sentar na Thin chair de Saint Clair Cemin (prancha 9)? Quais diálogos visuais, sonoros, cênicos podemos criar entre esta cadeira e tantas outras? Imagine famílias de objetos. Quem são as irmãs, avós, netas das cadeiras? Que ressonâncias causam em nossos corpos? Para nascer, a espécie humana,soma material genético herdado de dois genitores, um feminino e um masculi- no. O ovo-óvulo da vida carrega nossa ancestralidade, invólucro das genuínas células-corpo tecendo cada um de nós. Ovo-óvulo. O enigma da vida é decifrado. DNA. O código genético é apenas um texto, codificado. Inscrito em um suporte bioquímico vira informação. Digitalizados aqui (prancha 17) estampam os artistas sulamericanos mapeando a Arqueologia Genética da criação. Como pesquisar nossos ascendentes? De onde vieram? Como se chamavam? Uma pesquisa com pais, tios, avós pode levar a uma coleta de dados e de fotografias. Como criar uma árvore genealógica pelo olhar da arte? E pelo olhar da ciência? > O artista mexicano Richard Moszka, na obra Um año de basura apresenta por projeções de slides um ano de lixos diários guardados. O que o cheiro do lixo nos faz refletir sobre o modo como o tratamos? Como temos agido diante da poluição das cidades? Sobre a reciclagem de lixo? A sua escola tem participado de projetos com esse tema? O que essa obra pode gerar de discussão a respeito do lixo urbano? De que modo Francis Alÿs (prancha 4) trabalha com este tema? Que outros artistas trabalharam ou trabalham tendo essa questão como um dos focos de sua obra? Se não tivéssemos nenhum problema técnico ou financeiro, que jardim dos sentidos poderíamos inventar? > O que sabemos sobre a segunda pele do ser humano, seus ornamentos? Quando teria ele iniciado suas criações para ornamentar-se? O que dizer do pensar/ sentir sobre tatuagens, esfoliações, pinturas corporais, maquiagens? E sobre chapéus, bonés, ....O que a obra de Solange Pessoa pode nos levar a pensar sobre penteados e cortes de cabelo? E sobre brincos, pulseiras e tembetás de vários povos indígenas, assim como os grandes brincos que aparecem nas estatuetas de cerâmica da cultura tapajônica? E das bijuterias deste ano e dos anos setenta? O que é diferente? O que é semelhante? O que muda com o tempo?Por que não criar ornamentos para o corpo? Para tímidos, para aqueles que querem aparecer muito, para os bravos, para os loucos, para os idealistas, para os tristes, para os românticos, para... podem ser bonés, penteados, roupas, sapatos,... > A partir da criação e do enfoque estético dos personagens Juanito e Ramona de Berni (prancha 5), que reflexões podem ser geradas? Quais outros personagens podem ser pesquisados? Quais outros podem ser criados? O olho olha. O corpo-sentidos é fisgado. O olho-corpo-pele “tem alguém como recheio”, diz Arnaldo Antunes. Que outros desafios podem impulsionar nossos alunos a trabalhar com o corpo, sobre o corpo, a partir do corpo na arte? Que outras obras podem ser selecionadas para gerar leitura e reflexão sobre o corpo e a corporeidade? 22 brotam do solo formando a escultura-instalação da artista Maria Fernanda Cardoso, fazendo referência à casa onde nasceu Simon Bolívar, em Caracas, cujo chão é assentado por tijolos de barro entremeados por ossos bovinos. Um vaso, um recipiente, um animal. Um objeto que indica a identidade da cultura moche, que produziu belos exemplares de cerâmica e ourivesaria na América précolombiana. De quantas camadas temporais se faz o tempo presente? De quantas camadas de lembranças se faz a memória? Ossos, palavras, paisagens, objetos marcam a duração do tempo em intemporalidades. Não seria a obra de arte a possibilidade humana de viver a intemporalidade do tempo? Cada obra nasce em contexto sócio-histórico, mas descolase dele no decorrer dos tempos. Torna-se intemporal. Materialidade/Matéria Legendas das imagens das páginas 20 e 21. Solange Pessoa Sem título 1990/2003 Cabelos, couro, tecidos, cavalos 8 x 20 x 1.6m Representação Nacional/Brasil Cecília Lampo Testigos del conocimiento 2003 Instalação Sementes de urucum, letras de alumínio Representação Nacional/Bolívia Gabriela Zuccolillo Sem Título Veneza 1999 Sem Título Nova York, 1999 Representação Nacional/Paraguai Desafios estéticos para jogos de pesquisa A memória é o registro dos tempos vividos. O que você lembra de seu tempo de meninice? O que deste tempo está presente em você hoje? O medo? A curiosidade? A alegria? A ludicidade? O espanto? A magia? Liberdade ou confinamento? Carolina Ruff Série Sistema de Equipamentos para Galerias, Extintor 2002 Bordado sobre esterilla, técnica petit point 80,5 x 42cm Representação Nacional/Chile > Como a memória e a (in)temporalidade estão presentes nas obras da 4a Bienal do Mercosul? > Qual tradição está presente nos hábitos e costumes de hoje? De que modo? > Investigar a própria moradia nos seus aspectos arquitetônicos, mobiliário, objetos decorativos, os costumes gastronômicos, os hábitos sociais... O que podem revelar sobre as tradições culturais? A qual memória cultura pertencem? > O que nossa memória captura dos tecidos tramados por Ugalde (prancha 8) e dos tecidos tramados por linhas nas xilogravuras de Lívio Abramo (prancha 13)? > A cena familiar pintada por Cosme San Martin (La lectura, 1874) é citada e reciclada por Langlois (prancha12). Nela, a cena familiar se faz vestígio nos lugares vazios à mesa, no corpo, na espacialidade, no clima da luz néon. Assim também, a artista Laura Lima revitaliza o passado retirando de uma tela de autor desconhecido do século XVI a composição, os personagens, as vestimentas, o movimento do baile na corte de Henrique III. Que outras cenas da memória cultural poderiam ser escolhidas no acervo do MARGS? Como poderiam ser re-apresentadas na busca de uma transposição temporal? > Um fragmento do “meu delírio sobre Chimborazo” de Simon Bolívar: “Súbito, apresenta o Tempo, com o venerável semblante de um velho carregado de despojos das idades: taciturno, curvado, calvo, tez engelhada, uma folha na mão.” A partir deste fragmento pesquise sobre a representação do Tempo em obras de arte, na Memória(In)Temporalidade Tempo tempo tempo tempo Compositor de destinos Tambor de todos os ritmos Tempo tempo tempo tempo Entro num acordo contigo Tempo tempo tempo tempo Por seres tão inventivo E pareceres contínuo Tempo tempo tempo tempo És um dos deuses mais lindos Caetano Veloso apturada por um registro no diário de Alexander von Humboldt, a artista Raquel Berwich, nos aproxima da língua extinta dos maypure, preservada pela presença de dois papagaios numa instalação. Os pássaros aprenderam exclusivamente as palavras: yuvi = tempo; sonirri = bom, belo; vasuri = diabo; nunaunari = amigo. Capturando os contornos das paisagem do rio Orinoco, na Venezuela, o fotógrafo Michael Wesely nos apresenta quadros da natureza em elevado grau de abstração que emerge pela prolongada exposição à luz. Raspadas tíbias de bovinos C 23 > O ato de colecionar é uma atitude de preservação da memória, do passado? Por quê? Quem já não andou pela praia juntando conchinhas? Quem não guardou alguma pedrinha que lhe chamou a atenção? Ou deixou secando entre páginas de um livro uma flor? Colecionar, como todos nós fizemos em alguma momento de nossas vidas, sejam conchas ou latas de refrigerantes, caixinhas de fósforo, ou tantas outras quinquilharias, é o que acontece com colecionadores que passam suas vidas colecionando obras de arte, moedas, livros, ... criando acervo que permitem que a história fique registrada. Nossos alunos conhecem algum colecionador? Fazem alguma coleção? Proponha uma exposição de coleções na escola (dos alunos ou de pessoas na comunidade), relendo-as e estudando-as como fontes de informações históricas e sociais. Quais obras da 4ª Bienal do Mercosul pertencem a colecionadores? > Quais expressões idiomáticas usamos no falar cotidiano? Como elas surgiram? O que revelam de arcaico e como foram recriadas? > Como a arte contemporânea incorpora o passado da Arte? E como nos incorporamos o passado que ela nos dá a ver? literatura, na mitologia. De que modo o tempo poderia gerar uma criação cênica, musical e/ou plástica? > Trilhar a cidade, observando as praças, igrejas, casarios, calçadas, paisagismo dos jardins, os monumentos, podem nos aproximar da memória de nossos antepassados, daqueles que foram os pioneiros fundadores. O que sabemos deles? O que as obras de arte revelam sobre eles? > Tijolos ou blocos de concreto? Telhas de barro ou de amianto? Cumieiras, esquadrias, marquises, assoalhos, escadarias, sótão e porão, varandas e alpendres, colunas. Pé direito alto? Que pé é este? Que histórias nos contam? > Que registros fotográficos, guardados por nós mostram nossa origem e a origem de nossa cidade? Fotos coloridas? Em branco e preto? Em álbuns? Fotografias em estúdios ou nas cabines fotográficas que rapidamente revelam nossa imagem em 3 x 4? Quais investigações podemos fazer com esses registros? Que reflexão histórica e social as obras dos uruguaios Juan Angel Urruzola e Patrícia Betancur e da paraguaia Claudia Casarino possibilitam? > Que relações podem ser construídas a partir dos vestígios recolhidos visualmente de uma expedição ao Brique da Redenção? Vidros com botões antigos, chapéus, luvas, bolsas, sapatos, lencinhos, fivelas, a moda, o que podem nos revelar sobre as questões de gênero, isto é, o comportamento social de homens e mulheres através dos tempos? > Quais histórias, “causos”, lendas conhecemos? Como recriá-los em forma de contos, de histórias em quadrinhos, em livros de artista, em rodas de “contação” de histórias, em instalações,...? > Qual o objeto mais antigo que temos em nossa casa? Quem o guardou? Por quê? > Com quais brinquedos e brincadeiras passávamos o tempo das férias? Tempo. Deus inventivo da duração. Compositor da permanência e da memória, fazendo vibrar a (in)temporalidade na vida humana. Que outros desafios podem impulsionar nossos alunos a trabalhar com imagens do tempo, da memória? Que outras obras podem ser selecionadas para gerar leitura e reflexão sobre o diálogo entre memória, temporalidade e intemporalidade? O pó dos caminhos: rastros do saber-fazer do professor e seus alunos atiçaram no chão da sala de aula? Olhar surpreso, de encantamento, de curiosidade? De estranhamento, estranhando o que era familiar e tornando familiar o que parecia estranho? Percebemos o rico conTATO com as obras seja nos espaços expositivos ou na sala de aula? Nosso olhar foi ampliado quando compartilhamos impressões, conhecimentos e visões? Fomos desafiados pelas questões que pautaram a visita, a conversa posterior, a troca no grande grupo? Saímos mais atentos à vida, para o mundo e as coisas do mundo? Quem somos nós senão uma combinatória de experiências, informações, de leitura, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis. Italo Calvino uais vestígios a visita a 4ª Bienal do Mercosul deixam em nós e em nosso alunos? Quais olhares as obras Q 26 Corpo Movente Legendas das imagens das páginas 24 e 25. Tato Taborda Geralda Estrutura multinstrumental 1993 Representação Nacional/Brasil Tato Taborda Geralda Estrutura multinstrumental 1993 Representação Nacional/Brasil (detalhe) Lygia Pape DNA 2003 Instalação com bacias, arroz e feijão Representação Nacional/Brasil Rosana Paulino Tecelãs (detalhe) 2003 Instalação – Terracota, faiança, algodão e fios diversos Representação Nacional/Brasil Refletir sobre a trama dessa experiência é um convite para pinçar fios, investigar urdiduras estruturais, criar novas texturas somando fios dispersos. Como leitores da experiência, podemos encontrar seus significados, nos rastros de nossa sandália de professorpesquisador, soprando o pó dos caminhos percorridos antes, durante e depois da visita a exposição. pela reflexão coletiva sobre a experiência vivida, pela retomada dos desafios que as questões iniciais propunham. E foi nesse momento particular que se revelaram as múltiplas possibilidades de continuidade desse projeto iniciado e deflagrado enquanto uma expedição, envolvendo o antes, o durante e o depois. Estar em frente às obras do roteiro escolhido ou mesmo diante da reprodução das obras capturando imagens, sons, gestos, podem fazer surgir outros memes: uma coleta sensorial. Impulsionados pela leitura, aprendizes e mestres percebem, registram, refletem, questionam, ampliam a compreensão, fazem conexões, projetam... Como arqueólogos, seja na expedição nos sítios arqueológicos da exposição ou mesmo na sala de aula, exercitamos o meme do olhar de escavador de sentidos que se amplia na vida de um grupo que generosamente convive, amorosamente compartilha, pacientemente aprende com o olhar/corpo do outro, com o seu próprio corpo/olhar, com o corpo/olhar das obras que também nos olha. Olhar este que procura desenvolver uma leitura da obra com observação cuidadosa e atenta, construtora de sentidos, investigadora de conexões com a vida presente. Mas pode ser, infelizmente, que o meme que “pegou”, contaminou, foi o do olhar reducionista que se preocupa apenas em saber o que o artista quis dizer? É possível ler obras originais ou reproduções cuidadosas junto com os alunos, sem ainda ter informações, pois poderemos investigar depois. Desta forma, nosso aluno pode aprender a aprender. Potencializar o pensar sobre arte é também trabalhar pesquisando processos de criação e a poética do artista que nos remetem à própria construção da linguagem da arte. Os projetos podem sair de reduções como: sensibilização com a obra, biografia e um trabalho expressivo, e gerar uma série de propostas que acompanham o processo de criação do aluno na construção de conceitos, atitudes e procedimentos, ofertando também modelos – opostos, complementares, semelhantes. Assim, contextualizar é também refletir sobre a linguagem, como por exemplo, as preocupações com a ilusão de profundidade ao longo da história da arte, ou as relações entre matérias e suportes recheados de cargas sígnicas. As questões formais se conectam às de conteúdos; são sustentáculos de possíveis significações. Não é preciso trabalhar apenas com uma obra de um único artista (correndo o risco de valorizar apenas a “biografia” do artista e não investigação de sua poética, de seus processos de criação), mas com muitos artistas buscando camadas interpretativas que possam conectá-los. Entre muitos possíveis, nosso pensamento pode crescer como uma rede puxando fios, ligando artistas, idéias, gêneros, linguagens, tempos, espaços, culturas..., no exercício de um pensar Meme: herança cultural Para essa análise reflexiva, trazemos o conceito de meme, apresentado por Helena Katz no curso de formação de monitores para a exposição Parade17. O autor desse conceito, o biólogo e etólogo Richard Dawkins18 afirma que “quando morremos há duas coisas que deixamos atrás de nós: genes e memes”. Gene é a unidade de transmissão genética. Como máquinas gênicas, nos esquecemos dessa transmissão em três gerações: pouco sabemos sobre o que herdamos fisicamente de nossos tataravós. Por outro lado, os memes são unidades de transmissão cultural. Unidades replicáveis de conceitos e idéias, um replicador de informação cultural, que os homens transmitem entre si num processo de simbiose com o ambiente, e que vão sendo repassados como códigos genéticos. As idéias, assim, se propagam pulando de cérebro em cérebro, por contaminação, e são replicadas e transformadas por nossas próprias maneiras de compreendê-las e operar com elas. A intenção não é a de aprofundar este conceito, mas apresentá-lo como impulsionador da reflexão sobre quais memes foram propagados pela visita a 4ª Bienal e nos projetos desencadeados em sala de aula. Pode ser que, a visita à exposição tenha revelado o meme de excursão para os alunos. Entretanto, se com sandálias de professor-pesquisador preparamos a visita com uma pauta do olhar levantando questões para a investigação dos alunos, pode ser que tenhamos iniciado o contágio pelo meme da expedição. Há uma essencial diferença entre eles – podemos nos lembrar, por exemplo da expedição que trouxe Eckhout e outros estudiosos no período do Brasil Holandês. Mas este meme foi provocado 27 28 por imagens que tenha o meme do rizoma. As conexões estéticas e interdisciplinares constantes das pranchas, são um convite para novos rizomas, assim como o Baralho das Arqueologias Contemporâneas. Nos paradigmas que transcendem a perspectiva cartesiana ou a ambição pela originalidade modernista, há muito para citar, apropriar, recriar. Não como algo novo, que supera o que ficou velho, mas como uma atitude investigativa capaz de perceber como aprendemos e ensinamos e perceber as teorias e práticas que, como memes, se incorporaram à nossa própria prática e teoria. Capaz também de ver o enriquecimento de um trabalho que precisa compreender a vida de grupo como possibilidade de crescer e valorizar também o que é diferente, seja oposto ou complementar. Como professor-pesquisador inquieto, continuamos aprendendo a ensinar com coerência e competência. Muitas vezes nos perdemos nessa tarefa e nos esquecemos que aprender se dá em grupo, juntos. Quando não ouvimos, falamos demais, propondo atividades isoladas em vez de desafiar, problematizar, gerar novos projetos, estamos contaminados pelo meme da escola autoritária onde a voz única do professor silencia as vozes dos alunos. Escolhemos obras, mas nem sempre os critérios estão claros, nem sempre cuidamos para que as várias linguagens da arte estejam presentes, incluindo as obras indígenas, africanas, orientais e as esquecidas manifestações populares, produ- zidas por homens e mulheres em Memória – (In)Temporalidade tem-pos e lugares muito distintos. Legendas das imagens das páginas 28 e 29. Esquecemos que essa escoRaquel Berwich lha pode ser movida pelo meme da may-por-e Instalação com papagaios, curadoria educativa. Curadoria Amazona aestiva vivos que, ao ativar culturalmente as Mostra Trasnversal obras de arte, estará contaminanMaria Fernanda Cardoso do os alunos com memes de imaEl mármol americano (detalhe) 1992 gens de arte que vão adentrar em Escultura-instalação com ossos seu acervo imaginário, ampliando Mostra Transversal o repertório e a formação cultural. Cultura Mochica ou Moche Por isso mesmo, acreditaRecepiente mos que é desse rico conTATO 200 a.c. – 700 d.c. Mostra Histórica: com as obras presentes na 4ª Arqueologia das terras Bienal que rastros das sandálias altas e baixas de professor-pesquisador estão e Michael Wesely continuarão deixando memes Série Orinoco 2000 estéticos no corpo sensível de Fotografias seus alunos através do “corpo 100 x 50 cm informe” da arte que, como diz Mostra Transversal 19 Claudia Amorin é “um corpo sem sede forma ou verdade; um corpo menos específico, sem gênero, etnia ou classe. Este seria o corpo da arte: um instrumento de pensar conciliador.” Combinatórias de experiências compartilhadas, este é o sonho desta Ação Educativa na expedição ao território da mediação. Museu Histórico Municipal de Dois Irmãos Acervo: objetos de famílias de imigrantes e descendentes, abrangendo os séculos XIX e XX, fotografias, documentos, móveis, livros, instrumentos de trabalho, indumentária, quadros, objetos sacros, jornais, instrumentos de produção artesanal e instrumentos musicais / Av. São Miguel, 1658 Centro / Dois Irmãos 93950-000 / [email protected] / (51) 564 1277 R212 Museu Municipal Casal Moschetti Acervo: móveis, obras de arte, quadros e pinturas, esculturas, fotografias, diplomas e homenagens, louças e porcelanas / Rua Rui Barbosa, 49 Centro / Farroupilha 95180-000 / [email protected] / (54)268 1611 R 182 Museu de Ciências Naturais da Ulbra Acervo: botânica, zoologia, paleontologia, geologia, mineralogia / Rua Miguel Tostes, 101, Canoas, [email protected] (51) 477 4000 R 2350 Memorial do Rio Grande do Sul Acervo: imagens virtualizadas, uma linha de tempo impressa em ‘ploters’, além de colunas enfocando personagens da história do Rio Grande do Sul / Rua 7 de Setembro, 1020 Centro, Porto Alegre 90010-191 / [email protected] – www.memorial.rs.gov.br (51)3224 7159 Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – Mac Acervo: arte contemporânea nacional e internacional / Casa de Cultura Mário Quintana / Rua dos Andradas, 736-6o andar / Porto Alegre 90020-004 / (51)3221 5900 Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli – Margs Acervo: obras de arte / Praça da Alfândega, s/nº Centro-Porto Alegre 90010-150 / [email protected] www.margs.org.br / (51)3227 2311 Museu de Ciência e Tecnologia – Pucrs Acervo:científico, em torno de cinco milhões de peças, e experimentos interativos / Av. Ipiranga, 6681- Porto Alegre -90690-000 / [email protected] / www.mct.pucrs.br / (51)3320 3597 ou (51)3320 3697 Porto Alegre 90010-283 / (51)3221 3959 e (51)3221 5946 Museu de Paleontologia da Ufrgs Acervo: material lítico, cerâmica,mapas e fotos / Av. Bento Gonçalves, 9600 Campus do Vale UFRGS Prédio 43 n 322 / Porto Alegre 90540-000 / (51) 3316 7169 e (51)3316 6860 Acervo: invertebrados, paleobotânica, vertebrados e micropaleontologia / Av. Bento Gonçalves, 9500 Agronomia / Porto Alegre – 91509-900 / (51)3316 7000 Museu Joaquim José Felizardo Acervo: objetos de uso cotidiano desde a última década do séc. XIX, acervo fotográfico, acervo bibliográfico (história de Porto Alegre, museologia, arqueologia e coleção Walter Spalding), acervo arqueológico – fragmentos e peças coletadas através de pesquisa e escavação / Rua João Alfredo, 582 Cidade Baixa – Porto Alegre- 90050-230 / [email protected] – www.prefpoa.com.br/cmc/default.htm / (51)3221 6622 R 253 Museu Júlio de Castilhos Acervo: armaria, arquitetura, arreios, arte náutica, bandeiras, bibliografia, condecorações, documentos, escravatura, etnologia, filatelia, heráldica, iconografia, indumentária, numismática, objetos decorativos, objetos de uso pessoal, regionalismo, sigilografia, tesserologia, utensílios domésticos e viaturas / Rua Duque de Caxias, 1205 / 1231 Centro 30 Museu Universitário de Arqueologia e Etnografia – Muae-Ufrgs Santander Cultural Acervo: obras de arte; cédulas e moedas nacionais e estrangeiras, documentos históricos / Rua Sete de Setembro, 1028 Centro / Porto Alegre 90010-191 / [email protected] – www.santandercultural.com.br / (51)3287 5500 Museu do Instituto Anchietano de Pesquisas Acervo: arqueologia, estatuárias missioneiras / Rua Brasil, 725 / São Leopoldo 93010-030 / [email protected] / (51) 590 8409 Museu Municipal de Caxias do Sul Acervo: peças referentes ao cotidiano dos colonizadores da região, na maioria, imigrantes italianos e da aculturação com outros grupos vizinhos / Rua Visconde de Pelotas, 586 / Caxias do Sul 95020-180 / (54)221 2423 Acervo: arqueológico, indígena e histórico / Rua Tiradentes, 264 Centro / Porto Lucena 98980-000 / (55)3565 1300 Acervo: trabalho, educação, som e imagem, arte, mobiliário, político-administrativo, história natural, artesanato, fotografia, numismática, missões, vestuário, pré-história, religião, filatelia, arquivo histórico, armamento, história oral / Rua Antunes Ribas esquina A. Manoel Centro / Santo Ângelo 98801-630 / (55)3312 0175 Museu de Artes Dr Carlos Nelz Acervo: artes plásticas / Rua São Pedro, 369 Centro Municipal de Cultura / Gramado 95670-000 / [email protected] / (54) 286-4323 Museu e Arquivo Histórico Municipal de Guaporé Museu das Missões Acervo: imagens sacras das Missões / Rua São Luiz s/n Centro / São Miguel das Missões 98865-000 / [email protected] / (55)3381 1291 Acervo: objetos da colonização italiana: arte sacra, indumentária, ferramentas épicas, mobiliário, objetos de cozinha (o mais antigo de 1742), artesanato, documentos pessoais, fotografias e objetos históricos do município, joalheria, pipas, equipamentos industriais, peças de fundição, bancada de trabalho, banco de ourives / Av. Alberto Pasqualini, 931 Centro Guaporé 99200-000 / (54) 443 4880 Museu Municipal de Cachoeira do Sul Museu de Ciências Naturais do Centro Universitário – Univates Museu de Arte Sacra de Rio Pardo Acervo: botânica, paleobotânica,zoologia, ecologia, geologia, arqueologia, sensoriamento remoto / Rua Avelino Tallini, 171 CP 155 Universitário / Lajeado 95900-000 / [email protected] – www.univates.br / (51)3714 7000 R 504 Parque Aldeia do Imigrante – Aldeia Histórica Alemã Acervo: caça, guerra, artes visuais, cinematografia, objetos pecuniários, construção, trabalho, lazer, esporte, insígnias, objetos cerimoniais, comunicação, transporte, objetos pessoais, castigo, penitência / Rua Dr. Silvio Scopel, 502 Centro Cachoeira do Sul 96506-630 / [email protected] / (51) 3722 2525 R 217 Acervo: peças sacras, artesanato indígena, vestidos de noiva, paramentos, objetos religiosos / Pç. São Francisco, 277 Rio Pardo 96640-000 / [email protected] / www.riopardo.rs.gov.br / (51)3731 1225 R 220 Museu Colégio Mauá Acervo: arqueológico, histórico e etnográfico / Rua Marechal Floriano, 274 Centro / Santa Cruz do Sul 96810-000 / (51)3715 0496 Museu de Artes de Santa Maria Acervo: artes plásticas, pintura, escultura, gravura, cerâmica, arte de artistas regionais, nacionais e latino-americanos / Av. Presidente Vargas (Centro Integrado Evandro Behr), 1400 Centro / Santa Maria 97015-030 / (55) 222 8300 R 29 Museu Educativo Gama D’Eça Acervo: artefatos e vestígios arqueológicos, fragmentos cerâmicos, documentos arqueológicos / Estrada RS 020 Km 58 Taquara 95600-000 / (51) 542 1553 Acervo: artes, ciências, história, paleontologia, arqueologia / Rua do Acampamento, 81 Centro / Santa Maria 97050-001 [email protected] – www.ufsm.br/misc/museuedu / (55) 221 9693 Museu Municipal Padre Jerônimo Martini Museu Municipal Aparício Silva Rillo Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul Acervo: histórico (arte sacra, objetos relacionados à agricultura, documentos e fotos) / Praça Três de Maio, s/nº Centro Fortaleza dos Valos 98125-000 / [email protected] / www.fortalezavalos.famurs.com.br / (55)3328 1133 e (55)3328 1145 Museu de Artes Visuais Ruth Schneider Acervo: arte gaúcha contemporânea e brasileira / Av. Brasil Oeste, 758 Centro / Passo Fundo 99010-000 / (54) 312 3656 R 4 e (54) 316 8585 Museu Antropológico Diretor Pestana Acervo: arqueológico, material lítico e cerâmico, indígena: armas, artesanato, objetos rituais, música, vestuário e uso doméstico,imigração/colonização, agricultura, processos produtivos, transporte, comunicação, indústria e comércio, energia, serviços, música, lazer, esportes, educação, religião, usos e costumes e moradia / Rua Germano Gressler, 96 Museu da Gravura Brasileira Acervo: gravuras, fotografias, esculturas em bronze e cerâmica / Rua Coronel Azambuja, 18 Centro / Bagé 96400-710 (53) 242 8244 R 225 Museu Público Municipal Museu Municipal José Olavo Machado Acervo: construção de antigos prédios históricos em estilo enxaimel removidos de diversas localidades do interior do município, demonstrando a estrutura e funcionamento de uma aldeia de imigrantes alemães entre os anos de 1875 e 1910 / Av XV de Novembro, 1966 Centro / Nova Petrópolis 95150-000 / turismo@novapetrópolis.com.br – www.novapetrópolis.com.br / (54)281 1254 e (54)281 1222 Convites para novas expedições São Geraldo / Ijuí 98700-000 / [email protected] – www.unijui.tche.br/museu (55)3332 7063 e (55)3332 0243 Acervo: antropológico, arte missioneira, numismático e tradição gaúcha / Travessa Albino Pfeifer, 84 Centro / São Borja 97670-000 / (55) 431 3839 Museu de Arte Didacta Acervo: reproduções de quadros e esculturas de artistas da antiguidade ao séc. XX, livros de arte e catálogo de artes, reproduções de esculturas das civilizações maia, inca e asteca / Rua Santana esquina Duque de Caxias / Uruguaiana 97510-470 / (55) 412 1633 / 411 5720 Centro Cultural Pasquale Marchese Acervo:objetos, móveis, obras de artistas plásticos locais e regionais, documentos e pertences relativos à história de Pedro Osório – Praça Antonio Satte Alam, s/nº Centro – Pedro Osório 96360-000 – [email protected] ou [email protected] – (53) 255 1332 / 255 1333 Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo Acervo: pintura, escultura, gravura, desenho, objetos e móveis do patrono do museu / Rua Félix da Cunha, 818 Centro / Pelotas 96010-000 / malg@ ufpel.tche.br – www.ufpel.tche.br/ila/malg / (53) 225 9144 Museu do Charque Itinerante Acervo: desenhos e obras de Danúbio Gonçalves sobre as charqueadas, acervo Alvarino Fontoura Marques e fotos de Riopardense de Macedo e objetos de charqueadas / Bento Martins, 1639/ 201 / Pelotas 96010-430 / (53) 222 8117 Museu da Cidade do Rio Grande Acervo: mobiliário, fotografias, documentos, indumentária, armaria, artes gráficas, artes plásticas, brinquedos, condecorações, arquitetura, maquinaria, viaturas, montarias, peças aeronáuticas, arqueologia / Rua Riachuelo, s/nº Centro-Rio Grande 96200-390 / [email protected] / (53) 232 6111 Museu da Cidade de Rio Grande – Coleção Arte Sacra Acervo: paramentos, alfaias religiosas, objetos de culto, móveis de devoção, esculturas religiosas / Rua Marechal Floriano, s/nº Capela São Francisco de Assis / Rio Grande 96207-390 / (53) 231 1457 Museu Cel. Tancredo Fernandes de Mello Acervo: mamíferos fósseis do quartenário costeiro, material arqueológico lítico, cerâmico e histórico / Rua Barão do Rio Branco, 760 esq. Campos Neutrais / Santa Vitória do Palmar 96230-000 / (53) 263 1400 R 2249 Museu Municipal de Tapes Acervo: objetos doados pela comunidade, fotos, obras de artistas locais,jornais antigos, instrumentos musicais, móveis, fósseis / Rua João Ataliba Wolff, 559 Centro / Tapes 96760-000 / (51) 672 1788 R 210 Associação Vêneta Acervo: documentos genealógicos, arte sacra, fotografias, mapas, utensílios históricos da imigração italiana / Rua Vale Vêneto / São João do Polesine 97230-000 / (55) 221 1651 Museu Paleontológico e Arqueológico Prof. Walter Ilha Acervo: arqueologia e fósseis animais e vegetais / Rua Fernando Ferrari, 164 / São Pedro do Sul 97400-000 / (55)3276 2955 Museu de Arqueologia e Artes Dr. José Pinto Bicca de Medeiros Acervo: pintura, desenho, escultura, gravura, artes gráficas / Praça Getúlio Vargas, 158 Centro / Alegrete 97542-570 / [email protected] / (55) 422 3318 / 422 3059 R 34 31 Fonte: Guia de Museus do Rio Grande do Sul/ Sistema Estadual de Museus da Secretaria Estadual da Cultura RS. Porto Alegre: SEMRS, 2002. Referências Bibliográficas e Sugestões de leitura Los Carpinteros Edificio Retiro Médico 2003 Escultura em madeira compensada laminada em cedro 280 x 60 x 84 cm AGUILAR, Nelson (org.) 4a Bienal de Artes Visuais do Mercosul. Porto Alegre: Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, 2003. BARBOSA, Ana Mae. Tópicos utópicos. Belo Horizonte: C/Arte, 1998. ____ (org) Arte-educação: leitura no subsolo. São Paulo: Cortez, 1997. ____ (org) Inquietações e mudanças no ensino da arte. São Paulo: Cortez, 2002. BENJAMIN, Walter. Escavando e Recordando. In: ___Obras Escolhidas II. São Paulo: Brasiliense, 2000. CHIARELLI, Tadeu. Grupos de Estudos em Curadoria. São Paulo, Museu de Arte Moderna de São Paulo, 1999. DAWKINS, Richard. O gene egoísta. Belo Horizonte: Itatiaia, 2001. DELEUZE e GATTARI. Mil platôs. São Paulo: Editora 34, 1995. DEWEY, J. El arte como experiencia. Mexico: Fondo de Cultura Economica, 1949. ____ Tendo uma experiência. In: VITOR CIVITA. Textos selecionados. São Paulo, Abril Cultural, 1974, p.247-263. (Col. Os Pensadores, vol. Xl) DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: 34, 1998. FERRAZ, Maria Heloísa & FUSARI, Maria Felismina. Arte na educação escolar. São Paulo, Cortez, 1992. ___ Metodologia do ensino da arte. São Paulo, Cortez, 1993. FRANZ, Terezinha S. Educação para a compreensão da arte – Museu Victor Meirelles. Florianópolis: Insular, 2001. GARDNER, Howard. Educación artística y desarrollo humano. Barcelona: Paidós, 1994. ____ Mentes que criam. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. GREINER, Christine e AMORIM, Claudia. Leituras do Corpo. São Paulo: Annablume, 2003. HERNÁNDEZ, Fernando. Cultura Visual, Mudança Educativa e Projeto de Trabalho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999. MANGUEL, Alberto. Lendo imagens. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. MARTINS, Mirian Celeste. Expedições Culturais. In: Guia Educativo de Museus do Estado de São Paulo. São Paulo: Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, 2003. ___ e PICOSQUE, Gisa. Catálogo: Aprendiz de arte na expedição às Arqueologias Contemporâneas. Porto Alegre: Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, 2003. ___ e GUERRA, M.Teresinha. Didática do ensino de arte – A língua do mundo: poetizar, fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998. PILLAR, Analice Dutra (org). A educação do olhar no ensino das artes. Porto Alegre: Mediação, 1999. PAREYSON, Luigi. Os problemas da Estética. São Paulo: Martins Fontes, 1989. PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 1979. ROSSI, Maria Helena Wagner Imagens que falam. Porto Alegre: Mediação, 2003. ____ A compreensão das imagens da arte. In: Arte & Educação em Revista. Porto Alegre. 1:27-35, 1995. SALLES, Cecília Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: Annablume, 1998. SANTAELLA, Lúcia. A percepção: uma teoria semiótica. São Paulo: Experimento, 1993. ____ e NÖTH, Winfried. Imagem: cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras, 1999. SCATAMACCHIA, Maria Cristina Mineiro. Arqueologia: 15.000 anos de artes visuais. In: AGUILAR, Nelson (org.). Mostra do Redescobrimento: arqueologia. São Paulo: Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000, p.118-119. SEKEFF, Maria de Lourdes (org). Arte e Cultura: estudos interdisciplinares. São Paulo: Annablume: FAPESP, 2001. SERRES, Michel. Os cinco sentidos: Filosofia dos corpos misturados – 1.Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. TEIXEIRA COELHO, José. Dicionário Crítico de Política Cultural. São Paulo: FAPESP e Iluminuras, 1999. VERGARA, Luiz Guilherme. Curadorias Educativas, A Consciência do Olhar: Percepção Imaginativa – Perspectiva Fenomenológica aplicadas à Experiência Estética. In: Anais ANPAP 1996, Congresso Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, p. 240-247. WOLFF, Theodore e GEAHIGAN, George. Art Criticism and Education: disciplines in Art Education – contexts of undestanting. Chicago: University of Illinois Press, 1997. WOODFORD, Susan. A arte de ver a arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. YENAWINE, Philip. How to look at Modern Art. New York: Harry Abrams, 1991. Notas 1 BENJAMIN, Walter. Escavando e Recordando. In: ___Obras Escolhidas II. São Paulo, Brasiliense, 2000, p.239. 2 Procure a figura quase escondida na fotografia de Chambi que está nesta página. 3 “Embora nem sempre o grande público se dê conta, por trás de uma exposição de arte existe todo um trabalho conceitual e operacional, envolvendo profissionais das mais diversas áreas encabeçados, costumeiramente, pela figura do curador. Em tese, o curador de qualquer exposição é sempre o primeiro responsável pelo conceito da mostra a ser exibida, pelas escolhas das obras, da cor das paredes, da iluminação, etc. No entanto, para que suas idéias viabilizem-se de maneira satisfatória no espaço de exposição, é fundamental o diálogo intenso com outros profissionais que atuem na instituição onde ocorrerá a mostra, sempre no sentido de tornar possível, na realidade do espaço disponível, os conceitos que aquele profissional tem por objetivo apresentar”. Tadeu Chiarelli. In: Grupos de Estudos em Curadoria. São Paulo, Museu de Arte Moderna de São Paulo, 1999, p.12. 4 Formado em Filosofia pela USP, com pósgraduação em Estética e História da Filosofia Moderna em Paris, o também docente Nelson Aguilar (Usp e Unicamp), traz em sua bagagem fortes experiências como curador, como a Mostra do Redescobrimento/2002 em São Paulo e itinerâncias, a 22a. e 23a. Bienal de São Paulo, “Parade, 19012001”, além de exposições no exterior. 32 5 Notícias recentes são divulgadas pelos jornais, evidenciando pistas sobre o povoamento das Américas, entre ouros achados. 6 Este termo tem sido utilizado por Luiz Guilherme Vergara em seu trabalho frente ao Museu de Arte Moderna de Niterói, no Centro de Arte Helio Oiticica/RJ. Leia mais em: VERGARA, Luiz Guilherme. Curadorias Educativas, A Consciência do Olhar: Percepção Imaginativa – Perspectiva Fenomenológica aplicadas à Experiência Estética. In: Anais ANPAP 1996, Congresso Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, p. 240-247. 7 Nem sempre estamos atentos às reproduções de arte que estão entre nossos guardados. Como diz Perrenoud (In: Práticas Pedagógicas, Profissão Docente e Formação: perspectivas sociológicas. Lisboa: Dom Quixote, 1993.) o educador é um bricouleur que utiliza resíduos e fragmentos de acontecimentos, o que tem à mão, o que guarda em seu “estoque” e com eles cria novas situações de aprendizagem. 8 DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: 34, 1998. 9 PAREYSON, Luigi. Os problemas da Estética. São Paulo: Martins Fontes, 1989, p.167. 10 Idem, p.173. 11 PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 1979, p.36. 12 DEWEY, J. El arte como experiencia. Mexico: Fondo de Cultura Economica, 1949, 16. (Há uma edição em português do terceiro capítulo deste livro: Tendo uma experiência. In: VITOR CIVITA. Textos selecionados. São Paulo, Abril Cultural, 1974, p.247-263. Col. Os Pensadores, vol. Xl) 13 SERRES, Michel. Os cinco sentidos: Filosofia dos corpos misturados – 1.Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. 14 Sobre projetos leia, entre outros: HERNANDEZ, Fernando. Cultura Visual, Mudança Educativa e Projeto de Trabalho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999; MARTINS et al. Didática do ensino de arte – A língua do mundo: poetizar, fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998 15 A idéia de rizoma formulada por Deleuze e Guattari toma de empréstimo um termo do vocabulário da botânica – é um processo de ramificação aberta, que se expande em direções móveis e indeterminadas. “Num rizoma, cada traço não remete necessariamente a um traço lingüístico: cadeias semióticas de toda a natureza são aí conectadas a modos de codificação muito diversos, cadeias biológicas, políticas, econômicas, etc., colocando em jogo não somente regimes de signos diferentes, mas também estatutos de estados de coisas”. DELEUZE e GATTARI. Mil platôs. São Paulo: Editora 34, 1995, p.15. 16 PAREYSON, Luigi. Os problemas da Estética. São Paulo: Martins Fontes, 1989, p.32. 17 Parade é o título de uma pintura de Picasso – um pano de boca para um espetáculo de dança de 1917 – e nomeou a exposição de cem anos de arte francesa na Oca, Parque do Ibirapuera, 2001-2. 18 DAWKINS, Richard. Memes: os novos replicadores. In: ______ O gene egoísta. Belo Horizonte: Itatiaia, 2001, p. 211-222. 19 AMORIN, Cláudia. A arte como território livre. In: GREINER, Christine e AMORIM, Claudia. Leituras do Corpo. São Paulo: Annablume, 2003, p.25. 4a Bienal do Mercosul Ação Educativa Rua dos Andradas, 1234 10º andar – Sala 1004 – Centro 90020-008 – Porto Alegre – RS Brasil Telefone: (51) 3228 4074 Patrocinadores Masters Patrocinador Apoiadores Apoio Institucional Secretaria da Educação do Estado do Rio Grande do Sul Secretaria Municipal da Educação de Porto Alegre