Oftalmologia - Vol. 35: pp.83-86 Artigo Original Toxina Botulínica Tipo A na Endotropia Residual Rui Fialho1, Ana Silva1, Filipe Braz1, Sara Silva1, Gabriela Varandas2, Maria Lourdes Vieira3 1 Interno do Internato Médico de Oftalmologia do Instituto de Oftalmologia Dr. Gama Pinto 2 Assistente Hospitalar de Oftalmologia do Instituto de Oftalmologia Dr. Gama Pinto 3 Chefe de Serviço em Oftalmologia do Instituto de Oftalmologia Dr. Gama Pinto Instituto de Oftalmologia Dr. Gama Pinto [email protected] Apresentado sob a forma de Comunicação Oral no 52º Congresso Português de Oftalmologia – Vilamoura, Dezembro de 2009 RESUMO Introdução: A correcção do estrabismo convergente, por vezes, necessita de mais do que uma intervenção. Nesses casos pode programar-se uma segunda cirurgia ou utilizar-se a Toxina Botulínica tipo A. Pretende-se analisar os resultados motores obtidos através da injecção de toxina em casos de endotropia residual >10 dioptrias prismáticas, 6 meses ou mais após cirurgia. Material/Métodos: Analisaram-se, retrospectivamente, 27 casos de endotropia residual submetidos a toxina. Quantificou-se o desvio horizontal antes e 6 meses depois da toxina, com correcção óptica, para longe e para perto. Resultados: Obteve-se um desvio para longe <10 dioptrias prismáticas em 63% dos casos. A média de diferenças antes e depois da toxina, para longe, é de 9,48±1,75º, e de 10,67±1,51º para perto (p <0,05). Correlacionou-se a diferença antes e depois da toxina, para longe, com a idade, obtendo-se um coeficiente de Spearman de -0,008 (p = 0,967). Para perto obteve-se 0,134 (p = 0,504). Em ambos a idade não influenciou significativamente os resultados. Posteriormente correlacionou-se a diferença de valores antes e depois da toxina, para longe, com o tempo entre a cirurgia e toxina, obtendo-se um coeficiente de Pearson de -0,217 (p = 0,278). Para perto obteve-se -0,239 (p = 0,229). Em ambos o tempo decorrido não influenciou significativamente os resultados. Conclusões: A toxina diminui de forma significativa o ângulo de desvio horizontal para longe e para perto, tornando-se um procedimento útil nestes casos. A idade e o tempo entre a cirurgia e a toxina, não influenciam significativamente o resultado final. Palavras-Chave Toxina botulínica; estrabismo; endotropia residual; re-intervenção cirúrgica. Botulinum Toxin Type A in residual esotropia ABSTRACT Introduction: The correction of convergent strabismus sometimes needs more than one intervention. In such cases a second surgery or Botulinum Toxin Type A cam be scheduled. Our purpose is to analyze the motor results obtained through the injection of toxin in cases of residual Vol. 35 - Nº 1 - Janeiro-Março 2011 | 83 Rui Fialho, Ana Silva, Filipe Braz, Sara Silva, Gabriela Varandas, Maria Lourdes Vieira esotropia >10 prism diopters, 6 or more months after surgery. Material/Methods: We analyzed retrospectively 27 patients with residual esotropia submitted to toxin. The horizontal deviation was quantified before and 6 months after the toxin, with corrective lenses at distance and near. Results: We obtained a distance deviation <10 prism diopters in 63% of cases. The mean differences before and after the toxin, at distance, is 9.48 ± 1.75 prism diopters, and 10.67 ± 1.51 prism diopters for near (p <0.05). The difference before and after the toxin, at distance, with age, was correlated resulting in a Spearman coefficient of -0.008 (p = 0.967). For near 0.134 (p = 0.504). In both, age did not significantly influence the results. We subsequently correlated the difference in values before and after the toxin, at distance, with the time between surgery and toxin, resulting in a Pearson correlation coefficient of -0.217 (p = 0.278). At near we obtained -0.239 (p = 0.229). In both, the elapsed time did not significantly influence the results. Conclusions: The toxin reduces significantly the horizontal angle deviation at distance and near, making it a useful procedure in these cases. The age and time between surgery and the toxin, did not significantly influence the final result. Key Words Botulinum Toxin; strabismus; residual esotropia; surgery re-intervention. INTRODUçãO MATERIAL E MéTODOS A cirurgia do estrabismo convergente apresenta uma elevada incidência de bons resultados, sendo as complicações mais frequentes a hipo, principalmente, e a hipercorrecção. Desta forma, por vezes são necessárias uma ou várias cirurgias para atingir o alinhamento. Não há consenso sobre a percentagem de casos submetidos a reintervenção, mas segundo um estudo esse valor varia entre 5 e 47%.2 Nesses casos de estrabismo residual pode planear-se uma nova cirurgia ou, mais recentemente, fazer-se uso da aplicação de toxina botulínica tipo A (TBA). As vantagens e desvantagens da re-intervenção cirúrgica já foram amplamente estudadas, pelo que o objectivo principal deste trabalho é analisar os resultados motores obtidos através da injecção de TBA a doentes previamente operados a estrabismo horizontal e que apresentam endotropia residual, superior a 10 dioptrias prismáticas, 6 meses ou mais após a cirurgia. Os objectivos secundários são: relacionar os resultados obtidos com o desvio inicial e com a idade de tratamento com TBA e relacionar os resultados obtidos com o desvio inicial e com o tempo decorrido entre a cirurgia e a TBA. Foi realizado um estudo observacional, retrospectivo, com consulta aos processos clínicos da Consulta de Estrabismo do Instituto de Oftalmologia Dr. Gama Pinto (IOGP), respeitantes ao período entre Janeiro de 1992 e Janeiro de 2000. O estudo obteve consentimento da Comissão de Ética da instituição e decorreu ente Julho e Setembro de 2009. Os processos clínicos incluídos no estudo respeitavam os seguintes critérios: casos de endotropia submetidos a cirurgia de estrabismo horizontal no IOGP; desvio horizontal residual superior a 10 dioptrias prismáticas (DP), 6 meses ou mais após a data da cirurgia; aplicação de TBA no(s) músculo(s) recto(s) interno(s) (RI) realizada no IOGP. Excluíram-se os casos sem reavaliação 6 meses após TBA, estrabismos verticais (≥4DP), síndromes alfabéticos, nistagmo e ambliopia profunda. A aplicação da TBA no músculo RI decorreu sob anestesia tópica ou geral (inalatória com óxido nítrico), sem controlo electrosonomiográfico. A dose de fármaco utilizada variou entre 2,5 e 7,5UI (Botox®, Allergan). Da consulta aos processos clínicos registaram-se os seguintes dados: idade na cirurgia (anos); idade na TBA (anos); ângulo de desvio antes da TBA, com correcção óp- 84 | Revista da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia Toxina Botulínica Tipo A na Endotropia Residual tica (cc), para longe (pl) (L_antes) e para perto (pp) (P_ antes); ângulo de desvio, 6 meses depois da TBA, cc, pl (L_depois) e pp (P_depois). As medições dos desvios foram executadas com a correcção óptica actualizada, usando o método de cover alternado com prismas a 0,33 metros e 6 metros e, em doentes pouco colaborantes, o método de Krimsky. Dos dados colhidos calcularam-se as seguintes variáveis: tempo entre cirurgia e TBA, em meses (Tempo_CT); diferença dos desvios pl, antes e 6 meses depois TBA (Dif_L); diferença dos desvios pp, antes e 6 meses depois TBA (Dif_P). Definiu-se sucesso terapêutico a obtenção de um ângulo de desvio inferior a 10 DP, cc, pl. A avaliação estatística fez uso do teste T-student para amostras emparelhadas, dos coeficientes de correlação de Spearman e Pearson. O limiar de significância foi estabelecido para p=0.05. RESULTADOS Obtiveram-se 27 casos, com idades compreendidas entre os 4 e os 20 anos no momento TBA. A média de idades na cirurgia é 6,11 (anos) e na TBA é 10,56 (anos), sendo que a média do tempo decorrido entre as duas técnicas é 52 (meses). Obteve-se sucesso terapêutico em 17 casos (63%). A média da diferença entre L_antes e L_depois é 9,48 DP, com desvio padrão de 1,75. A média da diferença entre P_antes e P_depois é 10,67 DP, com desvio padrão de 1,51 (Gráfico 1). Aplicando o teste T-student para amostras emparelhadas, constatou-se que essas diferenças são estatisticamente significativas (p = 0,000 < 0,005). Gráf. 1 | Médias dos desvios pL e pP, antes e depois da TBA Correlacionando a diferença de valores antes e depois da TBA, pL, com a idade, usando os coeficientes de Correlação de Spearman, obtem-se um valor de -0,008 (p = 0,967). Sendo que não existe evidência estatística para afirmar que a idade está associada ou influencia o ângulo de desvio pL. Correlacionando a diferença de valores antes e depois da TBA, pP, com a idade, usando os coeficientes de Correlação de Spearman, obtem-se um valor de 0,134 (p = 0,504). Novamente sem evidência estatística para afirmar que a idade está associada ou influencia o ângulo de desvio pP. Correlacionando a diferença de valores antes e depois da TBA, pL, com o tempo decorrido entre a cirurgia e a TBA, usando os coeficientes de Correlação de Pearson, obtem-se um valor de -0,217 (p = 0,278). Sendo que não existe evidência estatística para afirmar que o tempo decorrido entre a cirurgia e a TBA está associado ou influencia o ângulo de desvio pL. Correlacionando a diferença de valores antes e depois da TBA, pP, com o tempo decorrido entre a cirurgia e a TBA, usando os coeficientes de Correlação de Pearson, obtem-se um valor de -0,239 (p = 0,229). Mais uma vez sem evidência estatística para afirmar que o tempo decorrido entre a cirurgia e a TBA está associado ou influencia o ângulo de desvio pL. DISCUSSãO Para além de poder corrigir o defeito residual, a TBA evita a formação de mais tecido cicatricial em olhos já operados, pode ser repetida várias vezes, permite estudar o componente vertical anulando ou minimizando o desvio horizontal, pode ser efectuada em ambulatório a partir de determinada idade e em caso de insucesso a opção cirúrgica continua a ser válida. Por isso é uma técnica que tem vindo a ser cada vez mais utilizada na endotropia residual, embora existam ainda poucos trabalhos sobre o tema. Os resultados obtidos evidenciam a eficácia da técnica na diminuição do ângulo de desvio, resultados esses semelhantes a outros estudos3,4 com igual definição de sucesso terapêutico e mesmo tempo de follow-up. Apurámos que a idade não influenciou significativamente a redução do ângulo de desvio, o que não acontece em outros estudos realizados com amostras de maior dimensão, que demonstram que quanto menor a idade melhor o resultado.2 Os nossos resultados não obtêm significância estatística para afirmarmos que a TBA é mais eficaz se aplicada precocemente após a cirurgia, provavelmente devido ao tamanho Vol. 35 - Nº 1 - Janeiro-Março 2011 | 85 Rui Fialho, Ana Silva, Filipe Braz, Sara Silva, Gabriela Varandas, Maria Lourdes Vieira reduzido da amostra, o mesmo acontece com um dos trabalhos analisados.5 Porém, noutros a eficácia é maior para a aplicação dentro de 6 meses após a cirurgia e maior ainda se realizada dentro de 3 meses.2,6 O estudo apresentado revela algumas limitações, como sejam o facto de se tratar de uma análise retrospectiva, o tamanho reduzido da amostra e de apresentar um followup limitado. Não figurava nos objectivos deste estudo, mas seria interessante analisar, se a TBA é mais eficaz nos pequenos desvios do que nos grandes desvios, se a eficácia se relaciona com o número de cirurgias prévias, qual a relação com a dose de fármaco utilizada e em que medida a eficácia do tratamento se relaciona com a sensorialidade. CONCLUSãO Na endotropia residual o uso da TBA é eficaz porque diminui significativamente o ângulo de desvio e evita uma segunda cirurgia quando há eficácia terapêutica (63% dos casos). Conclui-se também que não há relação significativa entre a eficácia da sua acção e a idade e, do mesmo modo, não há relação significativa entre a eficácia da sua acção e o tempo decorrido entre a cirurgia e a TBA. 86 | Revista da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia BIBLIOGRAFIA 1. Biglan AW, Burnstine RA, Rogers GL, Saunders RA. Management of strabismus with botulinum A toxin. Ophthalmology 1989;96:935–43. 2. 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