doi: 10.4025/10jeam.ppeuem.03052 LEITURA DA SOCIEDADE DE CORTE A PARTIR DO FILME VATEL: UM BANQUETE PARA O REI 1 RODRIGUES, Divania Luiza (PPE/UEM-GTSEAM) OLIVEIRA, Terezinha (DFE/PPE/UEM-GTSEAM) Este texto objetiva apresentar algumas reflexões acerca da leitura do livro Sociedade de Corte, de Norbert Elias e do filme Vatel: um banquete para o rei2. O texto emergiu, a partir das discussões realizadas durante o primeiro semestre do ano de 2011, na disciplina Teorias e Métodos em História e Historiografia da Educação, do Programa de Pós-Graduação em Educação - Doutorado em Educação, da Universidade Estadual de Maringá. Dentre as várias possibilidades de estudos suscitadas pela disciplina, objetivamos aqui, refletir sobre a importância da utilização das fontes no ofício do historiador da educação, especialmente, as fontes audiovisuais na pesquisa historiográfica. Propomos o exercício de olhar para o momento da sociedade de corte, o momento do Antigo Regime, na França dos séculos XVI e XVII a partir do filme Vatel: um banquete para o rei, buscar elementos que caracterizaram esta sociedade, os homens e suas relações pessoais e socais e as permanências destas questões. 1 O presente texto foi elaborado como requisito de avaliação na disciplina Teorias e Métodos em História e Historiografia da Educação, do Programa de Pós-Graduação em Educação - Doutorado em Educação, da Universidade Estadual de Maringá. 2 Informações técnicas relativas ao filme. Título original: Vatel; direção: Roland Joffé; gênero: drama; país de origem: França; ano de lançamento: 2000; duração: 119 minutos; Estúdio: Gaumont / Le Studio Canal+ / TF1 Films Productions; Distribuidora: Miramax Films; Roteiro: Jeanne Labrune e Tom Stoppard; Produção: Alain Goldman e Roland Joffé; Música: Ennio Morricone; Fotografia: Robert Fraisse; Direção de arte: Louise Marzaroli; Figurino: Yvonne Sassinot de Nesle; Edição: Noëlle Boisson. Há muitos endereços na internet para a pesquisa de informações técnicas sobre este filme, destacamos aqui dois endereços eletrônicos: http://www.cinemenu.com.br/filmes/vatel-um-banquete-para-o-rei-2000 e http://www.adorocinema.com/filmes/vatel/. O site oficial indicado para este filme é: http://www.vatellefilm.com. No entanto, até o momento, não conseguimos acessá-lo. 1 Partimos do pressuposto de que o cinema é um produto histórico e pode se constituir, para além de recurso pedagógico no ensino, uma fonte de pesquisa para o campo da História e da História da Educação. Entendemos o cinema como instrumento fundamental para novos olhares sobre os diferentes momentos históricos, portanto, importante fonte para novas pesquisas. É a partir desses pressupostos básicos que pretendemos apontar as aproximações entre os estudos de Norbert Elias sobre a sociedade de corte e a forma como os homens se organizam naquela sociedade, a partir de uma produção fílmica, fruto do trabalho de homens da sociedade moderna, expressa no filme Vatel. Considerando nossas perspectivas postas para reflexão, damos ao texto a seguinte estrutura: primeiramente apresentamos algumas ideias de renomados autores a respeito do cinema como fonte de pesquisa histórica; em seguida, a relação entre cinema e ensino de história e, depois, apresentamos possíveis aproximações entre a leitura do livro Sociedade de Corte de Norbert Elias e o filme Vatel: um banquete para o rei. Iniciamos nossas reflexões, esclarecendo, a partir de Costa (2010, p. 198) que as fontes “não ‘falam’ por si só”, o que exige do historiador “interrogá-las, inquiri-las, produzindo história a partir da memória”. A partir de um exemplo iconográfico, este autor nos alerta para um dos problemas na relação do pesquisador com as suas fontes que “podem levar a conclusões precipitadas e errôneas se tomadas isoladas de um contexto que as explique” (Idem). Outro aspecto destacado pelo autor refere-se ao historiador da educação que deve manter uma relação “saudável de desconfiança das fontes”; as quais são “produções humanas”, e não correspondem a uma “verdade absoluta”. Enquanto produções humanas as fontes podem servir a diferentes interesses e ideologias. (COSTA, 2010, p. 202). Com relação ao uso de fontes históricas não-verbais, Cardoso e Mauad (1997, p. 401), destacam que ainda no século XIX, o historiador francês Fustel de Coulanges afirmava que “Onde o homem passou e deixou marca de sua vida e inteligência, aí está a História”. Esta posição foi ampliada, segundo os autores, a partir de 1929 com os fundadores dos Annales, Marc Bloch e Lucien Febvre. A partir de então, a noção de documento e de texto foi ampliada articulada a uma “transformação da ótica tradicional da história”. “Desta forma, os novos textos, tais como a pintura, o cinema, a fotografia etc., 2 foram incluídos no elenco de fontes dignas de fazer parte da história e passíveis de leitura por parte do historiador” (CARDOSO; MAUAD, 1997, p. 402). Marc Ferro – historiador francês do século XX, “da Revolução Russa, dos Estados Contemporâneos” 3 - no artigo intitulado O filme: uma contra-análise da sociedade?4 questiona o papel do historiador e a mudança no uso das fontes, articuladas ou a serviço de uma ordem ou de um sistema, segundo a época. Para o autor, a hierarquia presente naqueles que se “responsabilizaram pela sociedade” - como homens de Estado, diplomatas, magistrados, empresários e administradores - influencia a compreensão da História. Esta mesma hierarquia se expressa na definição do uso de determinadas fontes, tais como: os documentos de Estado, manuscritos, impressos, textos jurídicos e literatura dos viajantes. Neste contexto de relações de poder e de censura o cinema não se insere como fonte de pesquisa, como documento, dentre outros motivos, por seu caráter ficcional, factual e contraditório, em que as imagens não possuem identidade. No entanto, contrário a este posicionamento, para o autor: Resta estudar o filme, associá-lo ao mundo que o produz. A hipótese? Que o filme, imagem ou não da realidade, documento ou ficção, intriga autêntica ou pura invenção, é História; o postulado? Que aquilo que não se realizou, as crenças, as intenções, o imaginário do homem, é tanto a História quanto a História (FERRO, 1975, p. 5). Noma (2006, p. 257) que compartilha da posição de outros profissionais sobre a utilização de uma diversidade de fontes para a análise do objeto educação, destaca o cinema como fonte importante para a pesquisa histórica em educação, por este ser uma “forma de expressão e registro fundamental da vida cultural, intelectual e informativa do homem contemporâneo”. A autora faz alusão ao poder do cinema que potencializa o olhar do espectador e do educador, possibilitando novos olhares e dimensões sobre a vida social. 3 Marc Ferro é assim definido pelo professor José Rivair Macedo (UFRGS) em entrevista-conversa com José Alberto Baldissera (Unisinos), em março de 2004. A entrevista está disponível nos Cadernos IHU em Formação: Idade Média e Cinema, com acesso no seguinte endereço eletrônico: http://www.ihu.unisinos.br/uploads/publicacoes/edicoes/1165410457.21pdf.pdf. 4 Cardoso e Mauad (1997, p. 412) ao esclarecerem que o uso de filmes como fonte para o historiador não é recente, fazem o seguinte esclarecimento quanto a este artigo de Marc Ferro: “o artigo metodológico publicado por Marc Ferro nos Annales e em seguida republicado em 1947 numa obra em três tomos que constitui uma espécie de manifesto do que se costuma chamar de Nova História (e que, a nosso ver, não se deve confundir com as propostas de Bloch e Febvre).” 3 A enorme força do cinema está na faculdade característica de exprimir, por meios técnicos e com um incomparável poder de persuasão, elementos e dimensões da vida dos sujeitos sociais muitas vezes não acessíveis ao olhar do espectador desavisado. Um olhar que, por ser externo àquele que interpreta as imagens, vê e o instrumentaliza a ver. Um olhar que captura, registra, expressa, representa, revela, exatamente por ser um olhar que é visualização do mundo. Um olhar cuja força consiste em inspirar os espectadores (inclua-se o educador) a arrancar a câmera das mãos dos cineastas, apontá-las para si mesmos e, então, dotados de um novo olhar, verem o que antes parecia invisível (NOMA, 1998 apud NOMA, 2006, p. 262). Nesta perspectiva, apesar de longo, destacamos o belo trecho em que Marc Ferro (1975, p. 5) discorre sobre o caráter de contra-análise da sociedade pelo cinema. Não é suficiente constatar que o cinema fascina, que inquieta; eles se apercebem que, mesmo fiscalizado, um filme testemunha. Termina por desestruturar o que várias gerações de homens de Estado, de pensadores, de juristas, de dirigentes ou de professores tinham reunido para ordenar num belo edifício. Ele destrói a imagem do duplo que cada instituição, cada indivíduo se tinha constituído diante da sociedade. A câmara revela o funcionamento real daquela, diz mais sobre cada um do que queria mostrar. Ela descobre o segredo, ela ilude os feiticeiros, tira as máscaras, mostra o inverso de uma sociedade, seus lapusus. É mais do que é preciso para que, após a hora do desprezo, venha a da desconfiança, do temos. A imagem, as imagens sonoras, esse produto da natureza, não poderiam ter, como o selvagem, nem língua nem linguagem. A idéia de que um gesto poderia ser uma frase, esse olhar, um longo discurso, é totalmente insuportável: significa que a imagem, as imagens, esses passantes, essa rua, esse soluço, esse juiz distraído, esse pardieiro em ruínas, essa jovem assustada, constituem a matéria de uma outra história que não a História, uma contra-análise da sociedade. Neste ponto, consideramos que o uso de determinadas fontes em pesquisa histórica influencia a produção do conhecimento científico, bem como o modo de ensinar História. Nesta direção, Noma (2006, p. 267) discorre sobre a utilização do cinema para fins educacionais no Brasil, que data de 1929, “quando Fernando de Azevedo, diretor do Departamento de Educação do Distrito Federal, determinou sua utilização em todas as escolas primárias”. A criação do Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), pelo Ministério da Educação e Saúde Pública, por meio da Lei n. 378 de janeiro de 1937, é destacada pela referida autora, como uma ação importante para fortalecer a relação cinema e educação no país. 4 Resguardadas as distinções históricas entre as duas tendências, Noma (2006) enfatiza que tanto no momento da tendência da Escola Nova como na tendência tecnicista o uso de recursos audiovisuais na educação foi valorizado. No período escolanovista, o debate sobre as funções do cinema considerava dois pontos básicos: “1) um instrumento ou metodologia de ensino que alivia o aprendizado penoso que registra e reproduz as atividades praticadas; 2) forma de combater e atenuar os maus efeitos causados pelo cinema comum” (OLIVEIRA, 2000, p. 90 apud NOMA, 2006, p. 267). No final dos anos 60, os principais argumentos apresentados pelos educadores tecnicistas para o uso didático do cinema foram os seguintes: necessidade de modernizar o ensino equiparado ao desenvolvimento do setor produtivo; aperfeiçoamento, eficiência e eficácia do ensino; memorização e motivação e; individualização do processo de ensino (NOMA, 2006). Kornis (1992, p. 6) destaca o debate acerca da ampliação das fontes na pesquisa histórica, a partir dos anos 60 e 70, em que o sentido de documento é ampliado. A autora afirma que, “Foi somente a partir de meados da década de 1960 que a discussão propriamente metodológica sobre a relação cinema-história passou a existir”, tendo como foco a questão da natureza da imagem cinematográfica. Até então, “a discussão sobre a linguagem cinematográfica esteve restrita aos produtores de imagens – os cineastas – e aos teóricos do cinema”. No contexto educacional, Noma (2006, p. 270) enfatiza que na década de 1970, no Brasil, a influência das teorias crítico-reprodutivistas ressaltou a não neutralidade e os “efeitos dos meios de comunicação, o significado político de sua utilização e manipulação, bem como os processos de alienação e de reprodução ideológica”. A autora situa o período do declínio da Ditadura Militar e o processo de redemocratização, nos anos 1980, como o momento de democratização da cultura e da escola, em que o trabalho com os meios de comunicação “passam a ser considerados como objeto de estudo para a compreensão da sociedade e, portanto, objeto de estudo a ser trabalhado na escola” (NOMA, 2006, p. 270271). Abud (2003, p. 183), no texto intitulado A construção de uma didática para a história: algumas idéias sobre a utilização de filmes no ensino, ao elencar os fatores que tem influenciado o interesse de professores na utilização do cinema como recurso didático, destaca os seguintes: 5 [...] a enorme atração que a produção fílmica ainda exerce, a disseminação e a acessibilidade das fitas de vídeo, tanto em locadoras como nas videotecas de instituições educativas e nas próprias escolas. Por outro lado, a utilização de filmes tem sido facilitada pelas políticas públicas [...] e tem fornecido às escolas os aparelhos para a projeção de programas ligados ao projeto: televisão e vídeocassete, utilizáveis também para a exibição de filmes em fitas de vídeo. Duarte (2009, p. 70), no livro Cinema & Educação, reafirma esta idéia, esclarecendo que “[...] o consumo mais ou menos regular de filmes por parte de alunos e professores e a existência de aparatos técnicos para exibi-los não determinam o modo como eles são utilizados”. Para esta autora, cinema e escola ainda não se reconhecem como parceiros na formação das pessoas e, que as escolas não percebem o cinema como fonte de conhecimento. “Sabemos que arte é conhecimento, mas temos dificuldade em reconhecer o cinema como arte [...], pois estamos impregnados da ideia de que cinema é diversão e entretenimento, principalmente se comparado a artes ‘mais nobres’” (DUARTE, 2009, p. 71). Duarte (2009, p. 71) enfatiza que a maioria dos professores que entendem a produção audiovisual como espetáculo e diversão, “[...] faz uso dos filmes apenas como recurso didático de segunda ordem, ou seja, para ‘ilustrar’, de forma lúdica e atraente, o saber que acreditamos estar contido em fontes mais confiáveis”. Todavia, é necessário reconhecer que o cinema está no universo escolar, uma vez que, como prática social, desempenha papel importante na formação cultural das pessoas. Vale destacar que o gosto pelo cinema deve ser tomado pela escola como possibilidade não só de tratar os conteúdos escolares, mas de compreender o valor e a importância do cinema “para o patrimônio artístico e cultural da humanidade” (DUARTE, 2009). Abud (2003, p. 191), indica que além de recurso didático, o cinema possibilita a construção do conhecimento histórico escolar, visto que o filme promove [...] o uso da percepção, uma atividade cognitiva que desenvolve estratégias de exploração, busca de informação e estabelece relações. Ela é orientada por operações intelectuais, como observar, identificar, extrair, comparar, articular, estabelecer relações, sucessões e causalidade, entre outras. Por esses motivos, a análise de um documento fílmico, qualquer que seja seu tema, produz efeitos na aprendizagem de História, sem contar que tais operações são também imprescindíveis para a inteligibilidade do próprio filme. 6 Duarte (2009, p. 76) insiste que: Filmes não são decalques ou ilustrações para ‘acoplarmos’ aos textos escritos nem, muito menos, um recurso que utilizamos quando não podemos ou não queremos dar aula. Narrativas fílmicas falam, descrevem, formam, e informam. Para fazer uso delas é preciso saber como elas fazem isso. Para Marc Ferro (1975, p. 5) em História é preciso considerar as imagens como elas são, como possibilidade de buscar novos saberes. Assim, “Partir da imagem, das imagens. Não procurar somente nelas exemplificação, confirmação ou desmentido de um outro saber, aquele da tradição escrita”. Este historiador critica o uso excessivo do documento escrito e alerta para a necessidade dos historiadores, na época contemporânea, utilizar documentos que possuem uma nova linguagem para dimensionar o passado (KORNIS, 1992). A partir destes pressupostos, ousaremos realizar o exercício de aproximar aspectos relacionados à leitura da sociedade de corte ao filme Vatel: um banquete para o Rei. O livro Sociedade de Corte, segundo o historiador Roger Chartier5 (2001, p. 10), é datado do início dos anos 30 e publicado em 1969. O livro, que constitui a tese de habilitação não defendida por Elias, foi elaborado quando o autor ocupou o cargo de assistente de Karl Mannheim, na Universidade de Frankfurt. A tese não foi defendida em virtude do exílio de Elias para Paris, e depois para Londres, quando os nacional-socialistas tomaram o poder. Chartier adverte que, para os historiadores recentes “preocupados com as sociedades provincianas”, o tema escolhido por Elias pode parecer, a princípio, como apenas um tema histórico clássico e até arcaico. No entanto, esclarece que o objetivo de Elias, neste livro, Não se trata para ele de apreender apenas, ou prioritariamente, a corte como lugar ostentatório de uma vida coletiva, ritualizada pela etiqueta, inscrita no fausto monárquico. O objeto do livro é a sociedade de corte — no duplo sentido do termo. Por um lado, a corte deve ser considerada como uma sociedade, isto é, uma formação social na qual são definidas de maneira específica as relações existentes entre os sujeitos sociais e em que as dependências recíprocas que ligam os indivíduos uns aos outros 5 Roger Chartier faz o prefácio à versão brasileira do livro Sociedade de Corte, de Norbert Elias, intitulado Formação social e economia psíquica: a sociedade de corte no processo civilizador. (ELIAS, 2001). 7 engendram códigos e comportamentos originais. Por outro lado, a sociedade de corte deve ser entendida no sentido de sociedade dotada de uma corte (real ou principesca) e inteiramente organizada a partir dela (CHARTIER, 2001, p. 8). Norbert Elias (2001, p. 28), levanta como problema fundamental na investigação sociológica da sociedade de corte, o seguinte: [...] como se constitui a figuração de homens interdependentes que tornava não só possível, mas também aparentemente necessário, que milhares de pessoas se deixassem governar durante séculos ou milênios, repetidamente e sem nenhuma possibilidade de controle da situação, por uma única família ou por seus representantes. O filme Vatel, cujo título no Brasil foi acrescido de um banquete para o rei, é uma produção francesa, dirigida por Roland Joffé, contendo 119 minutos de duração e lançado no ano 2000. O filme apresenta a França, no ano de 1671, em que o rei Luís XIV – interpretado pelo ator Julian Sands - vive em Versailles. No Château Chantilly, ao norte da França, o Príncipe de Condé (ator Julian Glover), endividado, planeja uma solução para o fim de suas dívidas e para o bem de sua província. Assim, planeja convidar o rei para um grande banquete em um fim de semana, no qual manifestará suas intenções em comandar o exército francês contra a Holanda. O banquete suntuoso é organizado pelo mordomo do príncipe, François Vatel que, durante a trama, se apaixona pela bela Anne de Montausier – interpretada pela atriz Uma Thurman. François Vatel, interpretado pelo ator francês, Gérard Depardieu6, é um mestre de cerimônias, altamente empenhado no ofício que lhe foi atribuído: encantar o Rei com um banquete – nas palavras do Rei: “digno de um imperador romano”. Na verdade, o banquete se trata de um grande espetáculo, planejado para três dias e três noites de celebração. O banquete, uma forma do Príncipe de Condé conquistar privilégios junto ao Rei, é composto 6 Gérard Depardieu é considerado um dos maiores atores franceses, nasceu em Chateauroux, Indre, França, no dia 27 de dezembro de 1948. Participou de mais de cem filmes desde 1964 muitos destes foram premiados. Dentre os filmes mais premiados estão: Green Card – Passaporte Para o Amor (Globo de Ouro de melhor ator de comédia); Cyrano de Bergerac (indicação ao Oscar de melhor ator, prêmio de melhor ator do Festival de Cannes); O Último Metrô (Cesar de melhor ator); Le Retour de Martin Guerre (prêmio de melhor ator pela da Sociedade de Críticos Americanos); Danton – O Processo da Revolução (prêmio de melhor ator no Festival de Veneza de 1985). Outras informações sobre a filmografia de Gérard Depardieu podem ser encontradas em: http://www.webcine.com.br/notaspro/npvatel.htm e http://www.adorocinema.com/atores/gerard-depardieu/filmes-e-premios/. 8 das mais saborosas e belas iguarias acompanhadas com diferentes cenários, músicas, apresentações teatrais e fogos de artifício, engenhosamente planejado por Vatel. A primeira cena do filme apresenta o Marquês de Lauzun escrevendo ao Príncipe de Condé uma carta de aceite, em nome do Rei Luís XIV, ao convite para passar um fim de semana no Château Chantilly. O texto da carta é este que segue: Caro Príncipe de Condé, Sua Majestade deu-me a entender que aceitaria com todo o prazer um convite para visitá-lo em Chantilly. A visita terá a duração de três dias. O Rei pediu-me para avisar que não deseja um banquete, pretende apenas desfrutar dos prazeres da vista do campo. Por outras palavras se preza a estima de Sua Majestade não deverá impor limites à pompa e requinte do festim. Irei antecipadamente para verificar todos os preparativos. Marquês de Lauzun ao serviço de Sua Majestade, o Rei Luís XIV da França. Observa-se que junto ao Rei segue a corte, composta por centenas de pessoas. Elias (2001, p. 66) explica que, Isso que designamos como ‘corte’ do Ancien Regime não passa de uma vasta extensão da casa e dos assuntos domésticos do rei francês e de seus dependentes, incluindo todas as pessoas que fazem parte daquela casa, de modo mais ou menos restrito. As despesas com a corte, com esse imenso domicílio do rei, superam as do reino da França como um todo, sendo encontradas nos registros sob a rubrica característica de ‘Maisons Royales’. Em uma das cenas iniciais, O Príncipe de Condé apresenta os aposentos do Château Chantilly ao Marquês de Lauzun – interpretado pelo ator Tim Roth - para hospedagem da corte. Observa-se que a escolha dos aposentos está diretamente ligada à diferenciação de títulos, ou à hierarquia ocupada pelas pessoas na corte, que definem a proximidade ou distanciamento ao rei. Os quartos principais, pertencentes ao Príncipe e à Princesa de Condé, são destinados ao Rei e à Rainha, respectivamente. Em uma passagem do texto de Elias (2001, p. 100), o autor descreve o quarto do rei Luís XIV no palácio de Versailles. O “aposento central do primeiro andar – de onde se podia ver pela janela, em linha reta, todo o caminho de acesso, o Palácio de Mármore, a Cour Royale e ainda a amplidão da Avant Cour – era o quarto de dormir do rei”. O quarto não é apenas um lugar para dormir, mas um local de cerimônias, nas quais figuram a importância e a dominação do rei. 9 O seu quarto era reconhecidamente o palco de um ritual peculiar, quase tão solene quanto uma cerimônia oficial. Nele torna-se visível, imediatamente, o quanto as funções do soberano como senhor da casa e como rei estavam fundidas uma na outra (Idem). O despertar do rei7, o lever, constituía-se em uma cerimônia e um privilégio aos seis diferentes grupos que tinham permissão para entrar no quarto, seguindo uma rigorosa organização com regras bem precisas. Nesta organização “cada atitude revela um sinal de prestígio, simbolizando a divisão de poder da época” (ELIAS, 2001, p. 102). Desta descrição, é importante marcar que a “etiqueta tinha uma função simbólica de grande importância na estrutura dessa sociedade e dessa forma de governo”, uma vez que, “O rei aproveitava suas atividades mais particulares para marcar as diferenças de nível, distribuindo suas distinções, provas de favorecimento ou de desagrado” (ELIAS, 2001, p. 102). O Príncipe Condé encontra-se em uma situação financeira difícil e precisa dos favores do Rei para manter seu status de príncipe. Em uma das cenas, Vatel é cobrado pelos vendedores de mercadorias por falta de pagamento dos produtos para o banquete, observa-se a incapacidade do príncipe em manter suas obrigações, o não pagamento das contas pode indicar a própria incapacidade de manter o título de nobre. Nesta perspectiva, Elias (2001, p. 83) afirma: A coerção de representar o nível social é inexorável. Se falta o dinheiro necessário para isso, o nível social passa a ter uma realidade muito restrita, o mesmo ocorrendo com a existência de seu ocupante na sociedade. Um duque que não mora da maneira como deve morar, e que portanto também não pode mais cumprir as obrigações sociais que seu título supõe, praticamente deixa de ser duque. Outro ponto que merece destaque no filme é o interesse do príncipe em conquistar privilégios pela amizade com o rei. O príncipe via na guerra uma possibilidade de recuperar seu status e prestígio, por isso desejava comandar o exército francês na guerra contra a Holanda. Para isso esperava que o banquete, preparado por Vatel, marcasse o elo para tal conquista. Elias (2001, p. 27) nos lembra que “Nas sociedades de Estado 7 O despertar do rei é apresentado no filme: Absolutismo: A Ascensão de Luís XIV (La prise de pouvoir par Louis XIV). Direção: Roberto Rosselini; País de Origem: França; Gênero: Drama; Tempo de Duração: 94 minutos; Ano de Lançamento: 1966; Estúdio/Distrib.: Versátil. 10 dinásticas, com suas elites de cortes, a unidade relativamente grande entre interesses pessoais e oficiais ou profissionais ainda é, em larga escala, algo evidente, que faz parte da vida social”. Deste modo “[...] Alianças e rivalidades familiares, amizades e inimizades pessoais agiam como fatores normais no tratamento dos assuntos do governo, assim como em todos os outros assuntos oficiais” (Idem). Com relação às inimizades, vale destacar uma cena em que Vatel impede que um garoto de sua cozinha seja levado como pajem ao irmão do rei e é advertido com relação ao que ele e a própria província poderão sofrer. A partir de então, Vatel sofre escárnio e violência por parte do irmão do rei. Elias esclarece que na sociedade de corte a vida não é pacífica, há lutas constantes por privilégios e prestígios, por isso, intrigas, escândalos e conflitos são constantes. Cada um dependia do outro, todos dependiam do rei. Cada um podia prejudicar o outro [...] Cada um tinha de procurar associações com outros, se possível com indivíduos que ocupassem um nível superior, e evitar inimizades inúteis, planejando precisamente a tática da luta com inimigos inevitáveis, dosando do modo mais exato a distância e a aproximação no comportamento em relação aos demais de acordo com a própria posição e valor corrente (ELIAS, 2001, p. 120). As cenas que apresentam os dias de banquete ao Rei impressionam pela grandiosidade e pelo luxo. O luxo, se considerado pelo olhar atual, pode representar algo desnecessário, no entanto, para aquele momento histórico não se constituía como algo supérfluo, mas necessário. Elias (2001, p. 83), referenciando Veblen8 - que apresenta o luxo como “consumo ostentatório” - afirma que: “Numa sociedade em que cada manifestação pessoal tem um valor socialmente representativo, os esforços em busca de prestígio e ostentação por parte das camadas mais altas constituem uma necessidade de que não se pode fugir”. Segue o autor, nesta sociedade, o luxo é “indispensável à autoafirmação social”, uma vez que os participantes lutam por status e prestígio. Vatel planejou como foco o “sol” para os três dias de banquete e explica ao príncipe e a Lauzun a sua programação. 8 Segundo Monasterio (2005) Thorstein Veblen, em 1899, publicou A Teoria da Classe Ociosa (abreviada por ATCO). Nesta obra trabalhou os conceitos de ócio e consumo conspícuos, disseminados nas ciências sociais. Para maiores informações conferir o texto do autor no seguinte endereço eletrônico: http://www.ihu.unisinos.br/uploads/publicacoes/edicoes/1158330209.73pdf.pdf 11 No primeiro dia, a glória do sol as benesses da natureza, árvores, pássaros, borboletas, frutos e flores. No segundo dia, no lago, fogos de artifício, em que a noite será banida pelo sol. Na sexta-feira, o banquete de peixe será apresentado num mar de gelo, a homenagem de Netuno a Hélios, o deus Sol (VATEL, 2000). O sol, símbolo de Luís XIV, o Rei-Sol, visto constantemente como o maior símbolo de soberano absoluto, que contraditoriamente, fazia parte de uma rede específica de interdependência, em virtude de sua posição de rei. Elias (2001, p. 29) indica que, mesmo no momento do absolutismo, o poder do rei não era tão absoluto. Assim, Luís XIV [...] fazia parte de uma rede muito específica de interdependências. Ele só podia manter o espaço de atuação de seu poder com auxílio de uma estratégia muito bem articulada, prescrita pela figuração particular da sociedade de corte, e da sociedade francesa como um todo, em sentido mais amplo. A corte real ou sociedade de corte era constituída por muitos indivíduos, ou uma “figuração de indivíduos”. Para Elias (2001, p. 155), o conceito de figuração é neutro, uma vez que, “[...] pode se referir a relações harmoniosas, pacíficas e amigáveis entre as pessoas, assim como a relações hostis e tensas. A sociedade de corte é carregada de tensões, mas isso não prejudica em nada seu caráter como uma figuração específica de indivíduos”. Dentre vários aspectos que podem ser destacados da leitura da sociedade de corte, a título de conclusão, destacamos ainda o amor vivido por Vatel e Anne de Montausier. Os personagens expressam-se, de certo modo, como prisioneiros naquela sociedade. Ele como um mordomo do príncipe, um serviçal, trabalha muito e não pertencia à corte propriamente e, ela presa à corte, como uma das damas de companhia da rainha e uma das amantes do Rei. O amor naquele momento histórico possui uma conotação de diminuição da espontaneidade, de distanciamento e de civilização, é o “desenvolvimento das relações amorosas românticas”. Na interpretação de Elias (2001, p. 245) o amor romântico [...] marca a transição de uma afetividade relativamente simples e pura para uma afetividade complexa e compósita, o que podemos relacionar à transição, na pintura, do uso de cores relativamente puras para as cores elaboradas e freqüentemente obtidas pela mistura. 12 O final surpreendente do filme nos indica a possibilidade de liberdade, quando Vatel, liberta o pássaro, que durante o filme aparece preso a uma corrente dourada. Naquela sociedade viver o brilho e o requinte da sociedade de corte possui uma condição: não ser livre, mas viver o jogo de interdependência. No caso, a morte representa uma das formas de liberdade para Vatel e para Anne a esperança de buscar a sua liberdade, no entanto, sem ter ao certo qual o caminho a seguir. Desse modo encerramos com as palavras do autor em estudo: Aprendemos a entender melhor o contexto social de nossa própria vida quando nos aprofundamos no de pessoas pertencentes a uma outra realidade. A investigação da sociedade de corte revela, com mais clareza do que se estudássemos apenas nossa própria sociedade, que nossa escala de valores constitui um elo na corrente de interdependência a que estamos submetidos (ELIAS, 2001, p. 93). Ressalvadas as diferenças que caracterizam a sociedade de corte e o momento atual, o que nos parece pertinente é observar as permanências dos “rituais de corte”, em muitos aspectos. Em uma sociedade que, mesmo regida por leis, se orienta por interesses particulares e por privilégios para a manutenção de um poder estabelecido. O cerimonial ainda se faz presente como distinção de uma hierarquia na sociedade republicana. Tomemos como exemplos, o cerimonial de posse de presidentes, de magistrados, as estruturas de habitação ou local de moradia dos grandes administradores do poder nesta sociedade, as vestimentas, a alimentação, as festas, os que usufruem de privilégios por pertencer aos grupos que exercem o poder, a pouca definição entre interesses sociais e pessoais. Estamos certos de que muitas outras questões emergiram das leituras tanto do livro quanto do filme, as quais não foram abordadas aqui. Entendemos que o cinema é uma forma de expressão e registro da cultura do homem desta sociedade, por isso, uma importante fonte para a análise da educação e para a pesquisa histórica em educação. Neste caso, o exercício a que nos propomos constitui-se como desafio e que requer novos ensaios. Assim, esperamos que o filme Vatel possa inspirar e potencializar os leitores a novos olhares à sociedade de corte e à esta sociedade. 13 REFERÊNCIAS ABUD, Katia Maria. A construção de uma didática para a história: algumas idéias sobre a utilização de filmes no ensino. História. São Paulo, 22 (1), 2003. CARDOSO, Ciro Flamarion; MAUAD, Ana Maria. História e imagem: os exemplos da fotografia e do cinema. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (Orgs.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997. p. 401-417. CHARTIER, Roger. Prefácio. In: ELIAS, Norbert. A sociedade de corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte. Tradução de Pedro Süssekind. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 7-25. COSTA, Célio Juvenal. Fontes jesuíticas e a educação brasileira. In: COSTA, Célio Juvenal; MELO, José Joaquim Pereira; FABIANO, Luiz Hermenegildo (Orgs.). Fontes e métodos em História da Educação. Dourados, MS: Ed. UFGD, 2010. 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