A DANÇA NA SOCIEDADE DE CORTE: CONTRIBUIÇÕES DE NORBERT ELIAS Ms. Mara Cecília Rafael Centro Universitário de Maringá (CESUMAR) [email protected] Dr. Cezar de Alencar Arnaut de Toledo Universidade Estadual de Maringá (UEM) [email protected] RESUMO: o objetivo deste texto é analisar a dança como parte de um conjunto de comportamentos e coerções corporais inicialmente próprios da sociedade de corte, na Idade Moderna. O período histórico enfocado é o da fundação da Academia Real de Dança no Reinado de Luiz XIV (1661-1715). O documento “Cartas patentes do rei para o estabelecimento da Academia Real de Dança de Paris, verificadas no Parlamento em 30 de março de 1662” é utilizado como fonte primária para as discussões. Para dar suporte à discussão, utilizamos as obras de Norbert Elias (1897-1991), especialmente A sociedade de Corte (1969) e O processo civilizador (1939). A dança teve papel fundamental na criação de novos costumes da sociedade cortesã por meio da incorporação dos gestos comedidos, ritmados e pré-determinados. Tais costumes também compuseram a chamada etiqueta. PALAVRAS-CHAVE: Modernidade. Sociedade Cortesã. Dança. Processo Civilizador. ABSTRACT: The objective of this paper is to analyze the dance as part of a set of behaviors and bodily constraints initially company's own court, in the Modern Age. The historical period is focused on the founding of the Royal Academy of Dance in the Reign of Louis XIV (1661-1715). The document "Letters patent of the king for the establishment of the Royal Academy of Dance in Paris, in the European Parliament on 30 March 1662" is used as a primary source for discussions. To support the discussion, we use the works of Norbert Elias (1897-1991), especially Society Cutting (1969) and The Civilizing Process (1939). The dance was instrumental in creating new ways of court society through the incorporation of restrained gestures, rhythmic and predetermined.These costumes also composed the call tag. KEY WORDS: Modernity. Society Courtesan. Dance. Civilizing Process. A sociedade de corte marcou o Ocidente entre o fim da Idade Média e o início do século XIX, com destaque para o reinado de Luís XIV (1661-1715) na França, ela ditava regras e condutas sociais que eram seguidas por outras monarquias absolutistas. Nessa sociedade, a representação social era fundamental, assim, o corpo tinha papel de destaque. Nesse sentido este texto tem como objetivo analisar a dança em meio a um conjunto de comportamentos e coerções corporais inicialmente próprios da sociedade de corte, partindo a análise do documento que instituiu a Academia Real de Dança (1661). Para dar suporte à análise, utilizamos as obras de Norbert Elias, especialmente A sociedade de Corte e O processo civilizador, nas quais ele analisa o processo de modernização da sociedade ocidental. A consolidação e a manutenção do Estado absolutista dependiam de uma política centralizadora, do cultivo da etiqueta e da propaganda. No entanto, cabem as seguintes questões: qual o significado da dança no processo de curialização da sociedade de corte? Qual o sentido da institucionalização, pelo rei, da Academia Real de Dança? Luiz XIV e a “sociedade de corte” O que Elias denomina de corte era a casa (palácio) cuja economia tratava da vida dos reis e da nobreza. Essas estruturas habitacionais e os costumes da nobreza marcaram as estruturas sociais da sociedade cortesã. O Palácio de Versalhes era a grande estrutura habitacional onde residiam Luís XIV, com sua corte, e o conjunto dos empregados domésticos como serviçais diretos do rei, incluindo os nobres que o serviam. A corte era organizada como a propriedade pessoal do rei e esta funcionava como uma cidade, tendo ao seu redor todos os nobres e aristocratas, além do aparelho estatal organizado numa corte urbana e fixa. A doutrina que predominava era a de que o rei e sua autoridade provinham da vontade direta de Deus, assim, a Igreja era subserviente àquele. Para Elias, a relevância do estudo da Sociedade de Corte era pelo caráter representativo de centralidade que a corte ocupava. Durante o reinado de Luís XIV, toda a política da corte francesa se baseava na busca pelo prestígio, em exercer o poder sobre os outros: [...] que isso se manifeste em todos os gestos e palavras. Para Luís XIV, a manifestação pública e a representação simbólica do seu poder eram valores em si. Para ele, os símbolos do poder animam-se e adotam o caráter de fetiches de prestígio. O fetiche de prestígio que melhor exprime o caráter de valor autônomo da existência do rei é a glória (ELIAS, 1987, p. 108). Assim a dramatização dos gestos foi posta em evidencia no seu reinado: O poder manifestado em todos os gestos e palavras se configura na etiqueta que para Luís XIV eram mais do que um cerimonial, mas um meio de dominar os seus súditos. Para Luís XIV, o povo não acredita no poder que não é manifestado: “Precisa de ver para crer. Quanto mais distante se mostra o príncipe, maior será o respeito que o povo lhe testemunha” (ELIAS, 1987, p. 91-92). A desigualdade era a base do antigo regime e tinha como princípio a distinção de classes. As maneiras refinadas tornaram-se distintivos de superioridade. “O que funda a qualidade de nobre é um estilo de vida...” (RIBEIRO, 1998, p. 13). Esse estilo de vida se estendia às práticas sociais “etiquetadas” que definiam atitudes, funções e um lugar a cada um dos atores da corte. Era, por exemplo, o fato de se assistir, sob algumas condições, o coroamento do Rei, o almoço ou o jantar, a hora de dormir ou a de vestir. Os gestos do cotidiano eram instituídos à altura de um ritual. Luís XIV instaurou um ritual centrado na sua pessoa (FLEURDOGE, 2009). Certamente não devemos a criação das etiquetas e das boas maneiras exclusivamente a Luís XIV, no entanto, foi ele quem as evidenciou, aperfeiçoou e pôs em prática durante seu reinado. Dentre os livros que tratam de etiqueta e das boas maneiras, utilizados na análise dos costumes por Norbert Elias, vale destacar o livro de Erasmo de Roterdã o intitulado A civilidade pueril. Para Arnaut de Toledo (2004, p. 92), “a pedagogia erasmiana, ao tratar com acurada atenção a psicologia infantil, 2 prefigurou a pedagogia e a educação modernas. A ligação feita por ele entre educação e moral acabou conformando o gosto burguês e a etiqueta, posteriormente”. Os ideais de educação defendidos por Erasmo eram aristocráticos, destinados aos meninos (nobres). Embora o livro fosse destinado à educação das crianças, ele tratava de um assunto de interesse geral: “o comportamento de pessoas em sociedade e, acima de tudo, embora não exclusivamente, do decoro corporal. A postura, os gestos, o vestuário, as expressões faciais, este comportamento externo de que cuida o tratado é a manifestação do homem interior por inteiro” (ELIAS, 1994, p. 69). Os conselhos de Erasmo, diziam da apresentação do corpo, do vestir, do andar, do olhar, dos gestos, das refeições e do portar-se à mesa, dos encontros, de como se dirigir aos mais velhos, do dormir e do jogo. Essas regras eram provenientes da cultura oral e foram transformadas em livro escolar, uma compilação de regras de comportamento, de regulações da vida social. A polida etiqueta da corte estava intimamente ligada à prática corporal em vários aspectos: a higiene, a moda, o sexo, a dança, dentre outras. Para Elias (1994), a obra de Erasmo não se referia somente às maneiras, mas ao próprio significado de uma época de formação dos costumes ocidentais, em um momento ímpar em que estavam se consolidando as nacionalidades por meio de pontos em comum, como uma mesma língua, uma mesma religião. Nesse sentido, a obra de Elias analisou as marcas de uma sociedade em transição, marcada pela decadência de uma velha nobreza de cavaleiros feudais e pela formação de uma aristocracia de corte (BONNEAU, 1978). Para Elias (1994), foram justamente as lacunas deixadas por essa transição de uma sociedade delineada a partir do final da Idade Média ocidental, que permitiram a um homem como Erasmo ter a oportunidade de prescrever, com sinceridade, franqueza e autoridade, regras e maneiras que deveriam permear essa nova sociedade que se formava e da qual ele fazia parte (BONNEAU, 1978). O processo de civilização consiste, antes de mais nada, na interiorização individual das proibições que fortalece os mecanismos de autocontrole exercido sobre as pulsões e emoções e que faz passar do condicionamento social ao autocondicionamento (ELIAS, 2001, p. 196-168). Esse processo de civilização por meio da etiqueta e do cerimonial da corte não se dava sem conflitos, era, antes de tudo, uma carga pesada para todos os participantes, inclusive para o rei1, mas tal configuração cortesã, com base nos privilégios dos que participavam dela, obstruía a possibilidade de se questionar a tradição. Dessa forma “[...], a etiqueta e o cerimonial de corte garantiam a manutenção do status da nobreza como uma classe social distinta”, assim, a disciplina dos comportamentos na sociedade de corte: [...] é o crisol da fábrica do homem moderno (FLEURDOGE, 2009, p. 11). Uma sociedade, representada pela corte detentora de poder, demonstrava a elitização por meio de suas propriedades, construções públicas, pela sua prática religiosa, festas. O poder da corte era fortificado pela exposição de seus hábitos, costumes, rituais que mantinham uma forte ligação com a arte. A corte de Luís XIV foi responsável pela construção de academias de artes, ciências, pintura, escultura, música e dança. 1 No capítulo V de A Sociedade de Corte, Elias relata as cerimônias do quarto de Luís XIV, o ritual do “acordar” do rei, destacando as diversas entrées (entradas) que os membros da corte faziam ao dormitório real assim que o rei se levantava. Elias descreve minuciosamente a forma de organização das visitas ao rei e quando cada segmento da corte estava autorizado a adentrar o dormitório real. 3 Em relação ao trato com o corpo e a importância conferida a ele, é algo que varia historicamente e, para analisarmos o sentido dado a ele nas danças da sociedade cortesã, é importante recuarmos às características da Idade Média. [...] o corpo no contexto medieval era percebido pela experiência, era experimentado e mantinha relações com todo o universo de significados da Idade Média. Se o corpo continha tudo, era morada do cosmos, era também o veículo de comunicação com Deus e, ao mesmo tempo, continha em si mesmo o sagrado e o profano. Incontido, era o corpo do transbordamento, da abundância, das formas opulentas, da alegria desregrada e carnavalesca. Um corpo que não conhecia ditames alimentares, nem mesmo de contenção ou forma física, bem diferente do modelo corporal que será instaurado no processo de modernidade (BERGER, 2005, p. 54). O carnaval2, por exemplo, era para ser vivenciado e não um espetáculo a ser visto, não se caracterizava intencionalmente como artístico, pois era social, recriava a vida, todos dele podiam participar, assim, não havia distinção entre ator e espectador. Nas festividades “sérias”, promovidas pelas instituições de poder, as hierarquias eram consagradas e a desigualdade era sublinhada. No contexto da corte, o comportamento medieval passou a ser considerado incivilizado e ocorreu nesse processo o que Bakhtin (1987) denomina de “rebaixamento” que se expressa na arte – a transferência ao plano material e corporal de todas as coisas no lugar de tudo que é relativo a um plano elevado, espiritual, ideal e abstrato. A concepção de corpo se modificou no momento em que se instaurou o cânone da etiqueta e da decência, na qual se buscava e se valorizava um corpo alongado, com gestos comedidos, fechado, coberto e minuciosamente treinado. Isso não significa que na Idade Média não havia restrições ao corpo, mas estas, para Elias (1990), não assumiam a forma de autocontrole constante. “A ascensão do conceito de civilidade nas sociedades de corte marca o início da condenação dos excessos corporais valorizados na sociedade tradicional, dentre eles a embriaguez, a comilança, a gordura. Começa a se delinear outro ideal de corpo, contido, refinado, esbelto” (ELIAS, 1990, p. 4). Etiqueta do corpo pela dança Apresentamos, a seguir, algumas reflexões sobre o documento que marca um dos momentos fundadores da relação entre a dança e o Estado (absolutista), em um recorte no reinado de Luís XIV. Luís XIV institucionalizou a arte da dança no século XVII. A história da dança está também atrelada à institucionalização dessa arte no reinado dele. No Palácio de Versalhes o rei dançava, em bailes palacianos como bailarino e protagonista quando incorporava o Rei Sol, como também era conhecido. A dança de corte assinalava uma nova etapa; sua sistematização e a codificação de sua técnica faziam parte da etiqueta, era apresentada em forma de coreografia e muitas vezes repetida da mesma forma. Devia, assim, ser aprendida por todos os nobres, 2 “[...] durante o carnaval, é a própria vida que representa e, por um certo tempo, o jogo se transforma em vida real. Esta é a natureza específica do carnaval, seu modo particular de existência. O carnaval é a segunda vida do povo, baseada no princípio do riso. É sua vida festiva. A festa é a propriedade fundamental de todas as formas de ritos e espetáculos cômicos da Idade Média" (BAKHTIN, 1987, p. 7). 4 pois, no reinado de Luís XIV, a dança fez parte de um ritual de etiqueta na construção da imagem pública do rei e da nobreza. Luis XIV estabeleceu a Academia Real de Dança em 1661 e a Academia de Ópera em Música e Versos Franceses em 1669, entre tantas outras3. O resultado foi um Luis XIV envolto por biógrafos, artistas, artesãos, alfaiates, escultores, cientistas, poetas, escritores e historiadores; todos unidos em torno de um só propósito: fazer do rei um exemplo, um símbolo público da glória; uma representação fiel de Deus na Terra (SCHWARCZ, 2000, p. 257). Quando inaugurou a Academia Real de Dança, Luís XIV enquadrou a expressão da dança a uma estética considerada bela para o rei, a qual fazia parte de uma política em que o rei, ao governar o Estado, governava até mesmo os atos e os gestos de seus membros. Assim, com a finalidade de formar bailarinos profissionais para realizar espetáculos primorosos de dança, fundou a academia de dança, com treinamento e disciplina, algo que não era possível para os amadores. Para Ribeiro (1998), o embelezamento da vida e a incorporação de normas gentis ou corteses correspondem ao processo pelo qual se reforçam o poder central do rei. Os gestos corteses da dança eram, assim, reservados aos nobres como forma também de distinção, pois “[...] a desigualdade é a base do regime. Não é apenas seu efeito, mas está em seu princípio: é preciso, na monarquia, valorizar a desigualdade” (RIBEIRO, 1998, p. 31). O balé da corte era prática de uma elite que buscava uma diferenciação, como afirma Elias (1998), e a distinção na corte era parte essencial das estratégias de sobrevivência. Dessa forma, a dança fazia parte da educação dos nobres e era essencial para a vida em sociedade. A instituição da Academia Real de Dança (L’Académie Royale de Danse) foi realizada por um documento de 1661, intitulado “Cartas patentes do rei para o estabelecimento da Academia Real de Dança de Paris. Verificadas no Parlamento em 30 de março de 1662”4. O fato da fundação da Academia Real de Dança expressava uma política cultural de Luís XIV, a qual submete essa arte às regras, à etiqueta, aos princípios aristocráticos da corte. Conforme o documento, a Academia Real de Dança foi baseada na Academia de Pintura e Escultura de 1648, a Academia Real de Dança, assim como a Real Academia de Pintura e Escultura5, institui-se sob um estatuto, atividades e hierarquia. Conferiu aos artistas da dança um status social análogo aos demais artistas. O documento assim iniciava: 3 4 5 L’Académie de Peinture et de Sculpture (Academia de Pintura e Escultura), em 1648, L’Académie des Inscriptions et Médailles (Academia de Inscrições e Medalhas), depois denominada de L’Académie Royale des Inscriptions et Belles-Lettres (Academia Real de Inscrições e Belas-Artes), de 1663, L’Académie des Sciences(Academia de Ciências), em 1666, e L’Académie d’Architecture (Academia de Arquitetura), de 1671. “Lettres patentes du roy, pour l’établissement de L’Académie royale de danse en la ville de Paris. Verifiées en Parlement le 30 mars 1662” (tradução de Dominique Normand). “A fundação da Real Academia de Pintura e Escultura, solicitada em 1648, quando Luís XIV tinha dez anos, associava-se às figuras do Rei e seus poderosos ministros, Richelieu primeiro e depois Mazarino. Vinculava-se, portanto, ao processo de fortalecimento do poder centralizador e absoluto do rei de França, Luís XIV, que se iniciara no reinado de Luís XIII, de acordo com as diretrizes políticas traçadas por Richelieu e que continuaram a ser seguidas por Mazarino” (MELLO, 2002, p. 14-15). 5 Luís, pela graça de Deus, Rei da França e de Navarra, a todos os presentes e aos que virão, nossa saudação. Apesar de a Dança ter sido sempre reconhecida como uma das artes das mais honestas e necessárias para a formação do corpo e lhe dar as primeiras e mais naturais disposições para todo tipo de exercícios, como aqueles das armas, entre outros, e sendo, em consequência, uma das mais vantajosas e úteis aos nossos Nobres, bem como aos demais que têm a honra de se aproximar de nossa pessoa, não apenas em tempo de guerra, em nossos exércitos, mas também em tempo de paz, no entretenimento de nossos Balés (TEIXEIRA, 2012, p. 2). Afirmava a centralidade do papel da dança como treinamento de habilidades físicas e que serviria de base para todas as outras atividades físicas, incluindo o porte de armas. A dança era apresentada como vantajosa para a nobreza tanto na guerra, pelas habilidades com as armas e o desenvolvimento da agilidade física, quanto nos tempos de paz, como forma de entretenimento, nas festas e cerimônias da corte. O documento sinaliza a proposta de diferenciação da dança partir de “[...] meios para aperfeiçoar essa Arte, corrigir os abusos e defeitos que possam se introduzir nela [...]” (TEIXEIRA, 2012, p. 3). Para o rei, esses abusos poderiam levar à ruína da arte da dança e os que poderiam realizar esse feito seriam os ignorantes, ou seja, a dança da corte necessitava ser aprendida, todos deveriam fazer aulas para poder dançar, o que não era necessário nas danças camponesas6. Como para ser admitido na corte era necessário, junto com todas as outras etiquetas, saber dançar, a profissão de mestre de dança se expandiu. A dança da corte pressupunha conteúdo específico, ensino e treinamento. Na visão do rei, poucos eram aqueles que poderiam fazer parte dessa arte: “[...] em nossa Corte e séquito, vejamos poucas pessoas capazes de ingressar em nossos Balés e outros divertimentos de Dança, qualquer que seja nossa intenção para tanto” (TEIXEIRA, 2012, p. 2). Assim como a justificativa de prover os bailarinos a fim de restituir a perfeição original da dança, o rei institui na cidade de Paris a Academia Real de Dança. Como há necessidade em prover esses bailarinos, e é de nossa vontade restabelecer essa Arte na sua perfeição original e promover seu desenvolvimento na medida do possível, achamos conveniente estabelecer em nossa boa cidade de Paris uma Academia Real de Dança, segundo o exemplo daquela de Pintura e de Escultura, composta de treze Veteranos dos mais experientes nessa Arte, para que eles, numa casa ou outro lugar de sua escolha naquela cidade, pratiquem todo tipo de Dança de acordo com os Estatutos e Regulamentos que fizemos redigir num total de doze principais artigos (TEIXEIRA, 2012, p. 2-3). A Academia Real de Dança, assim como a Real Academia de Pintura e Escultura, tinha como propósito diferenciar os artistas das organizações corporativas medievais e se legitimava com a proteção do rei e por valores humanistas. Essa diferenciação ocorreu pelo estatuto social conferido aos artistas, pelos seus apurados domínios da técnica, o que os fazia desvincularem-se dos amadores ou artesãos (MELLO, 2002, p. 18). Para garantir a elevada técnica da dança, o rei convidava 13 dos mais experientes mestres de danças e estabelecia regras de funcionamento da Academia Real 6 A dança camponesa do século XV foi a origem de todas as danças desse gênero que se encontram na Europa. Era uma dança animada, cuja principal característica era a de ser dançada por um par e em que o rapaz procurava cortejar a moça. Ela fingia fugir, depois voltava a provocá-lo e fugia de novo, enquanto o rapaz se entregava a toda espécie de saltos graciosos ou cômicos para tratar de conquistar a moça. 6 de Dança7. Assim, os 13 integrantes tinham como responsabilidade: “[...] opinar e deliberar a respeito dos meios para aperfeiçoar essa Arte, corrigir os abusos e defeitos que podem se introduzir nela, manter e reger essa Academia segundo e conforme os Estatutos e Regulamentos [...]” (TEIXEIRA, 2012, p. 3). A dança, como arte, é elevada na corte perante as outras artes, mas esse reconhecimento não se explica somente pelo fato de que Luís XIV era um bailarino e tinha prazer pessoal na realização de ballets e bailes8. Nas análises de McClary (1998), a dança no reinado de Luís XIV foi projetada para funcionar como propaganda e, assim, promover as agendas do Estado, auxiliando-o a consolidar seu poder. Promoveu a dança, mas, em contrapartida, detinha o controle político da produção artística especificamente em Versalhes. Com sua oficialização, algumas danças passaram a ser denominadas “danças da corte” e “balés da corte”. As danças da corte tinham passos determinados, executados em uma sequência coreográfica e eram dançadas pelos nobres geralmente em pares. O balé da corte era uma mistura de teatro, canto, poesia e dança, apresentado como espetáculo constituído com cenário, roteiro, música e figurino. O balé da corte geralmente tinha como tema a mitologia na qual o rei sempre desempenhava o papel principal da divindade vencedora. Uma maior elaboração e refinamento das normas sociais, bem como o aumento da pressão social sobre as expressões das emoções, levavam, conforme nos diz Elias, ao autocontrole da sexualidade, agressividade e das emoções. Assim, a dança, com seus códigos padronizados no absolutismo de Luís XIV, tinha como objetivo não a expressão, mas a repressão de sentimentos em prol de uma conduta que garantisse, ao nobre, prestígio e posição social. Esta etiqueta do corpo, expressa pelos códigos da dança, correspondia, conforme Elias, ao ethos da sociedade de corte. Na sequência dessa carta, como forma de garantir a oficialidade da dança na corte e nos seus arredores, havia o estatuto, dividido em 12 artigos, os quais, de forma geral, estabeleciam regras para o funcionamento da academia e centralizavam o controle por meio de uma avaliação dos bailarinos oficiais das danças que poderiam ser apresentadas na corte. A dança, longe de ser uma arte na corte com liberdade de expressão, era oficializada sob os desígnios do rei. Sob o poder do rei, a dança foi desqualificada como arte e se tornou uma manifestação de adulação e obediência ao poder, destituída de sua capacidade criativa. A regulação dos gestos não permitia que a dança expressasse uma estética artística. A dança era uma mera repetição ou uma expressão humana. Na corte de Luís XIV, a vida tornou-se um espetáculo. Para Ribeiro, “sabe-se que importância tinha a dança no Antigo Regime: era como a esgrima e a equitação, uma das atividades em que os nobres mais se adestravam” (1998, p. 43). O governo do rei apresentava um significado na dança, era ele quem definia os passos a serem dados, as figuras que seriam executadas, o ritmo da música, sempre de forma previsível. Como na dança a forma de governar era pré-determinada pelo rei, não havia espaço para opiniões individuais ou improvisações. O rei governava até mesmo a dança a ser executada na corte e que deveria assim ser aprendida por todos que desejavam participar dela. 7 “[...] são eles os Srs. François Galland Sieur du Désert, Mestre regular de Dança da Rainha, nossa muito querida Esposa, Jean Renauld, Mestre de Dança de nosso muito querido e único irmão o Duque de Orleans, Thomas le Vacher, Hilaire d’Olivet, Guillaume Quéru, Jean e Guillaume Reynal, irmãos, Nicolas de l’Orge, Jean François Piquet, Jean Grigny, Florent Galland Désert e Guillaume Renauld” (TEIXEIRA, 2012, p. 3). 8 Com 12 anos, Luís XIV se apresentou no ballet da corte pela primeira vez e, a partir de então, participou de 26 bales como primeiro bailarino. 7 Considerações finais A dança em Versalhes tornou mais visível a estrutura hegemônica do poder político do rei. Os corpos dançavam sincronizados, assim como o comportamento da sociedade cortesã. A disciplina tinha um apelo à bon goût, os gestos eram comedidos, leves, ritmados, coreografados e simbolizavam que esses homens eram capazes de conter seu lado animalesco em prol de um homem civilizado. Portanto, a disciplina corporal não foi imposta de forma bruta, mas com uma ideologia que convenceu a sociedade cortesã de que aprender a dançar, falar, andar, comer com elegância e minúcia lhe traria reconhecimento de nobres e civilizados. Assim, a institucionalização da Academia Real de Dança, os bailes em que os cortesãos dançavam ou em que assistiam aos espetáculos sinalizaram que os ideais da sociedade cortesã se realizavam na expressão da dança. A formação do Estado no absolutismo, conforme as análises de Elias, envolvia esse conjunto de transformações afetivas e psíquicas como forma de pacificação do espaço social, que era baseada em um código de comportamento no qual a dança tinha papel fundamental na criação do novo habitus da sociedade cortesã por meio da “natureza incorporada”. Referências ARNAUT DE TOLEDO, Cézar de Alencar. Erasmo, o humanismo e a educação. Linhas, Florianópolis, v. 5, n. 1, p. 85-95, jan./jun. 2004. BAKHTIN, Michail. A cultura popular na Idade Média e Renascimento: o contexto de Rabelais. São Paulo: HUCITEC, 1987. BERGER, Mirela. Corpo e Identidade. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, PPGAS/USP, 2005. BONNEAU, Alcide. Os livros de civilidade desde o século XVI. In: A Civilidade Pueril. Lisboa: Estampa 1978. ELIAS, Nobert. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1990. ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. ELIAS, Norbert. A sociedade de corte. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. FLEURDOGE, Denis. O protocolo e a precedência nas representações ritualizadas do Presidente da República Francesa: de uma forma de comunicação política a uma representação simbólica do poder. Revista FAMECOS, Porto Alegre, n. 38, p. 10-15, abr. 2009. McCLARY, Susan. Unruly Passions and Courtly Dances.Technologies of the Body in Baroque Music. In: SARA, E.; MELZER, Kathryn Norberg (Eds.). From the Royal to 8 the Republican Body: incorporating the Political in Seventeenth - and Eighteenth Century France. Berkeley: University of California Press, 1998. P.85-112 MELLO, Celina Maria Moreira de. O modelo literário humanista e a legitimação do pintor artista na França do século XVII. Revista ANPOLL, Brasília, n. 12, p. 13-35, jan./jun. 2002. RIBEIRO, R. J. A etiqueta no Antigo Regime: do sangue a doce vida. São Paulo: Brasiliense, 1998. SCHWARCZ, Lilia K. Moritz. Resenha do livro de Peter Burke. Revista de Antropologia, São Paulo, USP, 2000, v. 43, n. 1, p. 256-261, 2000. TEIXEIRA, Ana Cristina Echevenguá. Academia Real de Dança (1661) e Academia de Ópera em Música e Versos Franceses (1669): tradução das duas cartas oficiais deliberadas pelo Rei da França, Luís XIV, que institucionalizaram a arte da dança no século XVII. In: CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA, 2. Anais, São Paulo: Comitê Memória e Devires em Linguagens de Dança, jul. 2012. p. 1-9. Cezar de Alencar Arnaut de Toledo Universidade Estadual de Maringá, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes, Departamento de Fundamentos da Educação. Av. Colombo, 5790 Jd Universitário 87020-900 - Maringa, PR - Brasil Telefone: (44) 30114853 URL da Homepage: http://www.ppe.uem.br Mara Cecília Rafael Centro Universitário de Maringá Departamento de Educação Física Av. Tiradentes, 84, Zona 1, CEP 87013260 – Maringá, PR – Brasil Telefone (44 ) 3222-0223 9