REFLEXÃO SOBRE SINGULARIDADES NO ATENDIMENTO
ESCOLAR HOSPITALAR
Amália Neide Covic1 - IOP-GRAACC/UNIFESP
Grupo de Trabalho - Educação, Saúde e Pedagogia Hospitalar
Resumo
A proposta do presente trabalho é descrever singularidades do atendimento escolar hospitalar.
O campo para tal proposta é a pesquisa realizada por professores graduandos, graduados e
pós-graduandos e suas ações de atendimento escolar hospitalar (AEH) uma vez que todas as
pesquisas possuem caráter de intervenção. O grupo pertence à diferente campus de uma
Universidade Federal localizada na região Sudeste de Brasil e suas pesquisas abordam temas
relacionados com o processo de escolarização do aluno afetado por doenças de origem
genética neoplásica ou não neoplásica. A vertente epistemológica é fenomenológicoexistencial para a aprendizagem da docência, a formação em serviço e o AEH provocando o
rompimento da dialética sujeito-objeto em prol de interações intersubjetivas. O gênero
discursivo de apresentação deste texto é o do ensaio. Dentro do cotidiano hospitalar destacouse: a busca de consenso, o aspecto situado das atividades, trabalho multiprofissional, relações
distintas daquelas da escola regular. Em relação ao currículo praticado no AEH este se
distancia dos currículos prescritos, de laudos organicistas e psicologistas propõem conteúdos
para um currículo específico próximo aos temas relacionados com a vida singular de cada
aluno. Existe uma normatividade transcendental, assim fracamente teórica, que orienta os
ajustamentos do currículo praticado. Também se evidenciou a impossibilidade de produção de
conhecimento cumulativo entre as escolas de origem dos alunos e a hospitalar, em que pese
que possuam funcionalidade na mesma regulação política com o mesmo fim educacional. O
AEH situa-se entre polaridades, uma posição incômoda, no entanto é capaz de mobilizar
políticas públicas em atendimento ao direito das crianças e dos adolescentes e também, criar
alternativas curriculares que incrementam o debate da escola para todos. Entretanto, muitos
pontos levantados neste relato solicitam pesquisas ampliadas, principalmente multicêntricas
em Educação e Saúde.
Palavras-chave: Currículo praticado. Relações multiprofissionais no atendimento escolar
hospitalar. Produção de conhecimento no atendimento escolar hospitalar.
1
Mestrado e Doutorado em Educação-Currículo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) Professora Permanente do Programa de Pós-graduação Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da
Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP/Guarulhos. No Instituto de Oncologia Pediátrica - Grupo de
Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer/UNIFESP (IOP-GRAACC/UNIFESP) é Coordenadora da Escola
Móvel/Setor de Atendimento Escolar Hospitalar E-mail: [email protected] e [email protected]
ISSN 2176-1396
32426
Introdução
Ao refletirmos sobre o conteúdo desta mesa, convencionamos que a mim caberia o
desafio de descrever sobre as singularidades da atuação do professor no espaço hospitalar. Por
sua vez, as normas de apresentação de trabalhos sugerem que as mesas contemplem e
promovam discussões de pesquisas desenvolvidas preferencialmente em diferentes
instituições. Com isto o gênero textual desses escritos, em primeira instância, aponta para um
relato de pesquisa.
Dessa forma, a princípio, a tarefa urgente a ser empreendida seria encontrar o fulcro
gerador de cada estudo do grupo de pesquisa ao qual pertenço. Esse nasce de um eixo de
análise que estuda a circulação do professor pelo hospital quando ele vai de encontro ao aluno
gravemente enfermo e perpassa pelas diferentes relações que ocorrem em reuniões de
discussão de casos, nas trocas de olhares em lugares públicos do hospital, nas atuações
multiprofissionais e outros espaços hospitalares.
No cotidiano hospitalar o professor encontra-se com: aprendizagens de conteúdos
escolares percorridas por caminhos distintos daqueles que tradicionalmente ocorrem; equipe
de profissionais da escola de origem de diferentes regiões do Brasil; equipe multiprofissional
de saúde; familiares; sistemas computacionais de diferentes ordens e políticas de atuação da
Educação e da Saúde. As regras de circulação em espaços públicos tendem a ser implícitas,
constroem-se na cultura local e o professor quando se encontra no hospital tem em primeira
instância o lugar de estrangeiro, assim, cabe a ele intuir e apreender essas regras já
estabelecidas para sentir, empoderar e colocar sua ação profissional no rol dos processos de
atendimento ao paciente. Por Habermas (1987) ao se compreender a norma, pode-se por meio
de consenso alterá-la e na reconstrução o fazer do professor naturaliza-se. Goffman (2010)
nos diz sobre esse todo que o aspecto situado da atividade pode ser mais substancial que o
situacional, isto quando se pensa na construção das relações institucionais. Refletir sobre o
preço que se pretende pagar para que o Atendimento Escolar Hospitalar (AEH) seja
naturalizado parece contribuir com a liberdade de ajustamento que se tem na aplicação de um
currículo específico para cada aluno do AEH.
No cotidiano hospitalar alunos, professores e familiares facilmente dirigem suas
atenções para o passado uma vez que socialmente a concepção de criança e de jovem
escolarizado está presente no imaginário dos adultos e essa construção sócio-histórica passa
por dois tempos, aquele do convívio familiar e aquele escolar e não está presente o do
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adoecimento. A criança no processo civilizatório vai se distanciando do convívio dos adultos
à medida que se insere no mundo escolar. Esse afastamento tece sua identidade. A escola
desenvolve habilidades escolares e socialmente modela os sujeitos, ela é referencial de vida
em determinada fase de formação. O que nos implica é que no AEH o aluno está fora desse
sistema e a ele retonar sem viver o processo de aprendizagem do meio. Assim, rememorar
esse passado, da mesma forma que criar expectativas para o futuro, insensibiliza para o
presente. O processo de escolarização orientado para resultados valoriza a produtividade e o
controle. No momento da hospitalização estudar implica construir um projeto de vida no
presente, adquirir confiança na vivência de um processo natural com realização de desejos,
ou seja, qualitativamente satisfatório, sem formas de pressão para determinados
direcionamentos. Esse modo de viver o presente durante o AEH está longe de fazer com que o
grupo de atuação se sinta à vontante principalmente por que questiona concepções de
Educação e de Saúde.
Argumentação
Nos projetos de pesquisa dos professores sejam eles graduandos (oriundos da
iniciação científica), graduados (oriundos da especialização modalidade residência) ou pósgraduandos (oriundos do mestrado e doutorado), incluem-se as seguintes temáticas de
investigação: Organização da ação escolar de alunos submetidos aos longos processos de
tratamento; Corpo doente enquanto signo; Repertório de necessidades escolares para o
atendimento escolar hospitalar; Alunos em condições de fim de vida e suas aprendizagens
significativas e Vulnerabilidades éticas, políticas e antropológicas da construção de
identidades dos sujeitos envolvidos com as ações que se relacionam com o aluno gravemente
enfermo. Esse grupo de professores é novo na Educação e Saúde, com isso, pareceu-me que
viver na fronteira é ter uma situação privilegiada de sociabilidade e de troca de saberes. Essa
construção é fortalecida pelo vínculo comunitário que se estabelece, enquanto existencial e
intenso. Cada qual assume, em termos epistemológicos, o que deixar de lado e o que carregar
para a fronteira. Essa experiência do cotidiano no limite exaure.
Entretanto, o grupo de pesquisa envolto com essas problemáticas está em processo e,
com isso, julgo prematuro um relato de pesquisa. O grupo pertence à diferente campus de
uma Universidade Federal localizada na região Sudeste de Brasil e suas pesquisas abordam
temas relacionados com o processo de escolarização do aluno afetado por doenças de origem
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genética neoplásica ou não neoplásica. Proponho um ensaio para apresentar a reflexão que
tem por tema as singularidades da atuação do professor no espaço hospitalar, já que essa
abordagem fica mais próxima do tempo em que vivem os pesquisadores estagiários,
residentes, mestrandos e doutorandos.
Grosso modo, explicito neste espaço do texto que considero a atitude crítica àquela
que em algum sentido se desvia da dominante (SANTOS, 2011). Para por à crítica o tempo do
AEH e a experiência humana vivida pelo grupo, dos escritos de Agamben (2014) trago o aion,
um tempo não mensurável, aquele da zona do individual e subjetivo, e o chronos, um tempo
da história, que pode ser compartilhado e que é responsável por organizar a rede social de
relações. Existe no tempo do professor em AEH, um intervalo entre as polaridades
aion-chronos e a pesquisa e a intervenção acontecem nesse espaço, que é do tempo da
linguagem enquanto ação: o discurso do professor com seu aluno no AEH é uma vivência
única, uma construção curricular que não mais se repetirá. Deste modo, o currículo específico
construído em um tempo entre polaridades avoca o significado da morte da experiência vivida
e compartilhada, daí fecunda e repleta de aprendizagens significativas. Refletir as ações nessa
situação requer a aprendizagem de suspendê-las, revisitá-las para depois retornar ao campo. O
caráter fenomenológico-existencial do tempo orienta a aprendizagem da docência, a formação
em serviço e o AEH provocando o rompimento da dialética sujeito-objeto em prol de
interações intersubjetivas.
Na fala do Físico e Professor Marcelo Damy “Um bom professor é um pesquisador
que gosta de contar coisas que faz e, que viu outros fazerem. Eu não conheço nenhum bom
professor que não tenha sido, ou não seja ainda, um pesquisador”, tem-se o conteúdo de um
físico experimental, na realidade o primeiro físico brasileiro nessa modalidade (SCHOBER,
2003, pp. 10-12). Pelo mesmo contorno, nos dizeres de Jasper (1979, p.72) “Devemo-nos
voltar para o que puramente podemos compreender, distinguir e descrever em sua existência
real”, encontra-se a recomendação de base fenomenológica, para o distanciamento
de
situações cotidianas que partem de construções, interpretações e julgamentos. Também nos
escritos de Freire (2000, p.24) “Como educador, mas também como quem se dá ao exercício
crítico e permanente de pensar a própria prática para teorizá-la”, a proposta do educador radial
e crítico-pragmático sugere, como Damy e Jasper, uma estruturação da prática na ação. Essa
argumentação para o espaço do AEH abarca uma visão global e dialética da realidade
educativa e com isso um olhar que se distancia dos currículos prescritos, de laudos
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organicistas e psicologistas e que pesquisa conteúdos para um currículo específico próximo
aos temas relacionados com a vida singular de cada aluno.
O espaço de atuação de alguns profissionais no hospital é experimental, para outros
clínicos e para aqueles da educação pela vertente crítica, compreendo por Sacristán (1998),
que se situa entre as polaridades de teoria e prática. O AEH aproxima-se das reflexões
experimentais na medida em que a ação escolar é refletida intersubjetivamente, entre todos os
envolvidos - professores, alunos, familiares e equipes de saúde. O termo clínico, na
representação social, remete ao atendimento à beira do leito realizado pelos profissionais da
saúde. O paciente busca nesses sujeitos uma escuta para seus males com fim de obter um
alívio de sua dor. É exígua a literatura sobre o papel do professor em meio a essas práticas
clínicas, todavia quando pensado fenomenologicamente, o significado de clínico é aquele de
buscar compreender o sofrimento do outro no aqui-agora da ação profissional e nesse caso,
para compor a intervenção hospitalar o professor necessita significar esse espaço da clínica
uma vez que percorre com os demais profissionais o mesmo tempo e espaço de intervenção.
Essa racionalização contém armadilhas e convoca o professor a constantemente rever como
transforma seu espaço de atuação.
Os professores são formados para atuarem com um currículo normal e os alunos
hospitalares são oriundos de práticas normatizadas e ao voltarem para as suas escolas de
origem a elas retornam. Com isso digo que o professor necessita de elementos formativos, que
dê suporte para superar o conflito da desconstrução-reconstrução dos conteúdos teóricos
apreendidos nos processos formativos em espaços exteriores ao hospital. A essência da
disciplinaridade de base da formação inicial do professor se mantém no AEH e é distribuída
em uma normalidade transcendental que é aquela que se explicita na presença do outro e isso
não significa trabalhar com uma norma majoritária e um currículo prescrito.
Mesmo tratando o significado de transcendente pelas construções heideggerianas,
cabem aqui duas perguntas que permeiam e orientam a prática: Em que medida as
expectativas dos professores se aproxima daquelas dos alunos e seus familiares? O que
legitima o currículo específico produzido no espaço hospitalar? Enfim, argumento ainda, em
termos dialéticos, que o espaço do currículo é um espaço de práticas sociais de Educação e de
Saúde imbuído de contradições; re-argumento que o professor encontra equilíbrio entre essas
contradições quando na pesquisa de sua prática curricular, ajusta o conhecimento da docência
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apreendido, sem que a teoria sobre aquilo que se apresenta, reduza os fenômenos educativos
às marcas de interpretações pré-estabelecidas.
Uma escola sem a estrutura tradicional - sala de aula, sinalização quando a aula inicia
e tem seu término, horário pré-estabelecido, avaliação global e externa, conhecimento
distribuído, entre outros - forja novos componentes formativos para a docência. Procuramos
com isso demonstrar que existe na interrupção das atividades habituais da vida de um aluno
gravemente enfermo o
que Aganbem (2010), em seus estudos sobre o mundo
contemporâneo, atribui o valor de situação no “ainda não” e no “não mais” e, de igual forma,
é a circunstância em que se encontra o aluno e a aluna em AEH - fragmentada, instável,
desigual. O intervalo entre estes dois espaços “do ainda não e do não mais” é o que considero
como lugar de estudo em ambiente hospitalar. Esse esclarecimento indica a necessidade da
desconstrução do currículo normal praticado nas escolas de origem dos alunos hospitalizados
e esse é um ponto nevrálgico de toda a problemática apresentada já que aponta para uma
desfamiliaridade, entretanto o AEH está entre as atividades de vida diária das crianças e
adolescentes, e a familiaridade com a vida justifica sua existência. Pensar esse caráter de
vanguarda como uma armadilha me remete a um dos objetivos da teoria crítica que é ela
própria, a crítica enquanto modo de consensos compartilhado. As questões que se apresentam
no AEH não encontram sustentação se pensadas isoladamente daquelas das escolas de
origem.
Diante desse cenário, não se trata, obviamente, de um acordo transparente entre
escolas situadas em espaços diferentes, questões de ordem prática e teórica se impõem perante
a temática aqui abordada. Na impossibilidade de pensar os artefatos escolares de forma
cumulativa, esse ensaio não comporta tal empreendimento,
volto o olhar para o
conhecimento da docência, de igual forma plural e dependente da proposta de classificação
do pesquisador. Entre eles opto pela reflexão proposta por Shulman (1986, 1992) relacionada
com o conhecimento didático do conteúdo que se preocupa em categorizar como os
professores transformam o que conhecem em enunciados que podem ser entendidos por seus
alunos. Associo aos estudos de Schulman aquele produzido por Masetto (1998), que
reconhece como um conhecimento para a docência aquele que transita na competência da área
política. Acrescento também, uma competência de saberes antropológicos, que põe em
circulação o conhecimento que o professor adquire ao se empoderar do espaço hospitalar
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conquistado para compor com os demais profissionais modos de atendimento não
convencionais ao hospital.
A desconstrução anteriormente abordada envolta pelas habilidades anunciadas
possibilita ao professor hospitalar dar voz ao aluno e a si mesmo enquanto representante
escolar por meio das mediações que estabelece entre a instituição escolar e a hospitalar. O
caráter antropológico empresta uma identidade ao professor e isso ao mesmo tempo em que o
distingui dos demais profissionais da saúde e da educação normatizada, o aproxima dos
alunos, familiares e escola de origem, uma vez que representa um elo com o cotidiano da
tradição infanto-juvenil.
Também é premente a questão que se coloca como um desafio à formação do
profissional que atua no AEH, bem como as suas formas de atuação em ambiente hospitalar.
Pois embora haja um esforço teórico para dissociar a escola convencional da escola em
ambientes alternativos, deve-se assumir, todavia, que ambas caminham amparadas pela
mesma legislação e são balizadas pelo mesmo arquétipo epistemológico. As diferenças que
essas assumem devem-se à força dos fatores situacionais onde ocorrerá a escolarização. A
escola convencional permanecerá como modelo ideal que segue o currículo prescrito de onde
suas estruturas se fundirão aos diversos espaços onde se pretenda o fenômeno da
escolarização. A
escolarização em ambientes alternativos é uma das consequências da
universalização do ensino, do direito à escola, previsto pela legislação que entendemos
trabalha com um currículo fracamente prescrito, ou como considerei de normatividade
transcendental.
Outro componente que não pode ser ignorado pelo professor hospitalar é a sua relação
com a família. É por meio do contato com esta que ele, no seu papel de professor, ampliará
seu potencial de aproximação aos interesses e dificuldades do aluno. Ao observamos a
literatura, a escolarização não é a principal preocupação dos alunos doentes ou dos seus
familiares no momento do diagnóstico ou início do tratamento da doença. Todavia, ela
aparece logo após as primeiras intervenções clínicas; assim, os professores hospitalares
assumem junto com os alunos e familiares, esse primeiro momento do tratamento. (COVIC,
2008; ZEBRACK, et.al. 2002; HUDSON, et.al.2003).
Pela problemática até aqui posta, vivemos em processo, e me proponho agora a
colocar essa questão à crítica, não caminho só em tal ousadia, trago de Santos (2011) algumas
categorias. Viver em processo é estar entre “trop de désuétude” e “effervescence
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préparatoire”, assim sempre se constituindo em ritmos desiguais, em face disso, para expor
sobre o estado processual proponho três categorias. Em primeiro lugar as escolas de forma
geral procuram desenvolver currículos que objetivam a emancipação, a formação de sujeitos
protagonistas de suas vidas, para tal materializam essa pretensão com instrumentos tais como
- adaptação de materiais, articulação entre professores de sala regular e professores
especialistas, chamamento à comunidade, atendimento domiciliar e outros. Entendo que
parece impossível estabelecer modos de atuação que escapem às normas, uma vez que o
atendimento às especificidades parece condenado a transformar-se em regra geral. A escola
hospitalar tem se apresentado como nova, trabalha pelas bordas do sistema, e isso tem
possibilitado ao professor criar em um terreno a princípio muito árido, a pergunta é até
quando? Ou ainda como coexistir enquanto escolarização universal sem perder esse fôlego de
vertente utópica?
A segunda categoria complementa essa primeira, do caráter utópico, ela fala da autoreflexibilidade, que em tese orienta processos. O AEH quanto ao seu funcionamento é
transparente à comunidade, atua junto com os parceiros de outras profissões, nas escolas
regulares há uma opacidade. Tem-se assim um limite no dialogo entre a produção de
escolarização nessas comunidades. Nem sempre o que se diz sobre os eventos tem a extensão
do que se conhece sobre eles, mesmo para os envolvidos. A tendência é que cada um coloque
no rol de elementos de reflexão aquilo que pertence ao seu contexto de produção, provoca-se
uma separação entre sujeito e objeto de estudo. Ou seja, a auto-reflexibilidade, na busca de
entendimento de como se constroem aprendizagens escolares é dupla quando se trata de
espaços tão distintos. Corre-se o risco que a posição curricular dominante prevaleça e não
aquela que emerge das especificidades dos educandos.
A terceira categoria é aquela da medida do desvio processual. Ao resumir a
problemática do AEH ao eixo das políticas públicas corre-se o risco de criar um estado de
exceção que se torna regra. O poder que nasce desse estado interfere biopoliticamente na vida
dos sujeitos envolvidos (AGANBEM, 2004). Todos os controles aparecem - faltas, notas,
suspensão de cotas de leite, de bolsa família, rematrícula - associados à regra do desenvolver
habilidades escolares no hospital. Como coexistir com essas duas escolas?
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Considerações Finais
Recuperando a intencionalidade: refletir sobre as singularidades da atuação do
professor no espaço hospitalar. Ao revisitar o texto a cada instante emergem singularidades,
de um ponto final abrem-se bifurcações. Reconheço como uma tarefa que não posso concluir
apenas alinhavar significações produzidas pelas pesquisas do grupo em AEH.
Singularidade trata do que é singular, do que se distingue dos demais, entendo após as
argumentações apresentadas que o conhecimento posto em circulação na aprendizagem da
docência é voltado para a reflexão na ação, diferentemente daquele voltado somente para
reflexão. As investigações buscam a resolução de problemas que nascem da prática. O
produto final do AEH tende para uma visão global e dialética da realidade em que se atua,
com isso fortemente situado. No AEH não se percebe a busca de uma teoria para justificar a
prática, nem a prática é considerada a aplicação de teoria, tem-se um encurtamento do
binômio teoria-prática.
O currículo se apresenta como aquele que é constantemente reconstruído, a cada
encontro, a situação de vida dos alunos provocam os ajustes, e esses partem sempre de
construções já estabelecidas. A fim de que esse ajustamento não tenha uma constituição
delirante, professores e alunos tendem a observar um currículo de normalidade transcendental.
Por fim, aloco o AEH entre polaridades - como o binômio “vida-morte” - essa posição
é incomoda, entretanto, tem mobilizado políticas públicas em atendimento ao direito das
crianças e dos adolescentes e também, criado alternativas curriculares que incrementam o
debate da escola para todos. Entretanto, muitos pontos levantados neste ensaio solicitam
pesquisas ampliadas, principalmente multicêntricas em Educação e Saúde.
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