CIRCUITOMATOGROSSO CIDADES PG 4 CUIABÁ, 19 A 25 DE ABRIL DE 2012 www.circuitomt.com.br AGRICULTURA FAMILIAR Triste realidade do pequeno produtor Em visita a Cuiabá para o lançamento do MT Sem Miséria, ministra nega renegociação de dívidas com pequenos produtores. Por Andhressa Sawaris. Fotos: Mary Juruna. Assentados em área de APP não conseguem plantar no período das chuvas. Conflito, sobrevivência e abandono são palavras que retratam a situação da agricultura familiar em Mato Grosso. É só passar os olhos pelas estatísticas. Das 174 mil pessoas em condições de miserabilidade, 100 mil estão no campo. Mas o agricultor não é um agente passivo das ações ou da inatividade do Poder Público. Ao contrário, desenvolve estratégias de sobrevivência e se submete a jornadas duplas, pois além de cuidar da Jaci Conceição morava em um barraco no Pedra 90 e hoje diz que, apesar das dificuldades, as condições estão melhores plantação ainda busca emprego em grandes propriedades do agronegócio ou na indústria urbana. É o caso da família de Jaci Conceição, moradora há sete anos do Assentamento 21 de Abril próximo do Pedra 90. Seu marido, além de cuidar do plantio que é a base da alimentação dos sete netos, dois filhos e da nora, ainda trabalha como pedreiro em uma construção no Bairro Industrial. No entanto, a família não é titular da terra. Como grande parte dos trabalhadores assentados ali, eles pegaram a terra de terceiros por meio de um contrato de gaveta em que concordam em pagar a dívida do “dono” anterior para que, ao final, a posse seja transferida para os agricultores. Legalmente o acordo não tem validade, mas Jaci reconhece: “a terra não é bem nossa, é do banco, mas aqui a gente tá bem melhor do que antes”. De acordo com ela, a família morava em um barraco no Bairro Pedra 90 e lutava contra a fome. “Pelo menos hoje a gente tem o que comer, porque pode plantar, antes da Gleba 22 de abril passava necessidade constituída de 1.700 mesmo”, diz. hectares na região do O membro da Pedra 90, se tratando de Federação dos área devoluta não sendo Trabalhadores da registrada em nome da Agricultura (Fetagri), União, Estado, Município Ademir Moura é presidente ou de particulares, de do Assentamento 21 de acordo com o próprio Abril e conta que 70% dos Instituto de Terras de Mato agricultores não têm a Grosso (INTERMAT). posse da terra e estão Porém, desde 12 de abril endividados de 2005, uma pelos decisão empréstimos judicial “Das 174 mil junto ao reconheceu o Programa direito pessoas em Nacional de possessório da condições de Fortalecimento área ao da proprietário miserabilidade, Agricultura da fazenda 100 mil Familiar São Júlio, (Pronaf) que Gabriel Júlio estão no financia de Matos campo.” projetos Muller. A ação individuais desabrigou ou coletivos aos 153 famílias (cerca de 300 agricultores familiares. A pessoas) de trabalhadores crítica dos trabalhadores é rurais que estão de receberam verba, mas acampados hoje na divisa não assistência técnica ou da fazenda. Há seis anos treinamento para trabalhar acampados, sem água, com aquele tipo de solo o luz, transporte ou qualquer que levou à baixa estrutura por parte do produtividade e ao Estado, os que ainda consequente resistem, como José endividamento. Gonçalves, da Associação Com nome dos Pequenos Produtores semelhante, mas de Rurais da Gleba 22 de realidade mais Abril, tiveram uma reunião preocupante é a situação com o Governo do Estado e, de acordo com José Gonçalves, o secretário chefe da Casa Civil, José Lacerda garantiu “95% de chances de regularizar a área”. O agricultor relatou que, de acordo com o secretário, não há previsão, pois ainda depende de cálculos para realizar a desapropriação. “Não estamos totalmente dentro da área por falta de recurso e respeitando a decisão judicial”, diz. Apesar de não ter nenhuma garantia legal ou compromisso por escrito da parte governamental quanto à regularização da área, José Gonçalves se mostra esperançoso. “A gente acredita que o Governo e a Prefeitura vão nos ajudar”, conta. O que resta aos moradores é continuarem acampados esperando uma ação do Estado ou o próprio Estado está dando esperanças para que com o tempo, os moradores fiquem desmobilizados e desocupem totalmente a área. O que já está ocorrendo, pois muitos já abandonaram o local para buscar emprego nos centros urbanos, ou seja, a pobreza só mudou de lugar. Áreas improdutivas viram assentamentos A reportagem do Circuito MT constatou que no Assentamento 21 de Abril o Intermat assentou famílias em Área de Preservação Permanente (APP) às margens do Rio Aricá. Além de ilegal (de acordo com a Lei 4.771/ 1965 que instituiu o Código Florestal e pela Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente Nº 369/2006) as áreas destinadas às famílias não é produtiva, exatamente por se tratar de margem de rio com alagações no período das chuvas. A situação levou diversos trabalhadores e suas famílias a abandonarem o local e buscarem outras fontes de renda como trabalhar em grandes propriedades rurais. As APPs são áreas protegidas cobertas ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem estar da população humana. Outra inconsistência A agricultura familiar ainda possibilita ao trabalhador ter sonhos, mas a realidade está cada vez mais árdua Mato Grosso Sem Miséria Ademir Moura, presidente do Assentamento 21 de Abril e membro da Fetagri por parte do governo do Estado está no projeto anunciado por Silval Barbosa na última segunda (16) chamado “Água Para Todos” que tem como objetivo instalar poços para abastecer os produtores rurais. No entanto, no assentamento 21 de Abril os poços que deveriam ter sido instalados há 6 anos ainda não foram ou ficaram inacabados o que tem dificultado a vida daqueles que estão afastados das nascentes. No último dia 16 (segunda), a Ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, participou do lançamento do Plano Mato Grosso Sem Miséria, no Cenarium Rural em Cuiabá. A previsão é que o MT Sem Miséria arrecade R$ 71 milhões através do Fundo de Erradicação da Pobreza. De acordo com Campello, o número de pessoas em situação de miserabilidade no País é de 16,2 milhões, e em Mato Grosso são 174 mil, sendo que 100 mil estariam no campo. O Circuito MT perguntou à ministra se terá renegociação das dívidas dos pequenos agricultores, uma vez que são 100 mil em condição de miserabilidade e endividados. A resposta foi negativa. O Programa contempla novos créditos. Contudo, o MT Sem Miséria não toca nas questões essenciais que são as condições que levaram esses trabalhadores à miséria. O lado bom é que eles prometem investimento na Empaer e Embrapa para fornecer técnica aos trabalhadores da agricultura familiar.