ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA
Comitê Dança em Mediações Educacionais – Setembro/2014
CORPOPULAR:
A ESCOLA ENTRE GIROS, PALMAS E SORRISOS
Marlini Dorneles de Lima (UFG)*
Renata de Lima Silva (UFG)**
RESUMO: O presente artigo é um relato do projeto CORPOPULAR: A ESCOLA ENTRE
GIROS, PALMAS E SORRISOS. A partir de uma investigação sobre possíveis relações
históricas, antropológicas e estéticas, a capoeira e o movimento hip hop, numa
perspectiva pedagógica, são colocados em diálogo. Esta discussão perpassa pelo debate
das possibilidades de ensino-aprendizagem da dança e seus desdobramentos no
processo de criação e investigação cênica, ancorados na pesquisa e vivência nas culturas
populares brasileira, enfatizando a construção de um corpo poeticamente crítico.
PALAVRAS-CHAVE: Dança. Educação. Capoeira. Hip Hop.
ABSTRACT: This article is an account of CORPOPULAR project: SCHOOL BETWEEN
TURNS, PALMS AND SMILES. Starting from an investigation of possible historical,
anthropological and aesthetic relations, capoeira and hip hop movement are placed in
dialogue under pedagogical perspective. This argument moves through the discussion of
the possibilities for teaching and learning of dance and its development in the creation
process and scenic study, grounded in research and experience in Brazilian popular
culture, emphasizing the construction of a poetically critical body .
KEY-WORDS: Dance. Education. Capoeira. Hip Hop.
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Introdução: Corpos que se anunciam em movimento
O corpo que se anuncia num giro, que se identifica num sorriso, que grita e se
expressa numa ginga. Este corpo que a todo o instante quer pular, quer se inventar e
reinventar com o outro e que pronuncia o mundo a todo instante dentro e fora da escola.
Essas ideias norteiam as ações do projeto que será apresentado neste escrito, com a
intenção de refletir uma possibilidade de educação que, primeiramente, compreenda os
corpos presentes no ambiente escolar, considerando a complexidade da relação entre
corpo, cultura e suas interfaces com a arte, educação e comunidade.
Entre os aspectos que justificam a intencionalidade deste projeto se evidencia a
necessidade de reflexões sobre a dança no contexto escolar a partir das manifestações
das culturas populares brasileira e de matriz africana, reconhecendo que historicamente a
dança como uma experiência sensível, foi renegada nas escolas, em detrimento de um
ensino pautado em perspectivas pedagógicas restritas as praticas instrumentalistas,
privilegiando o conhecimento analítico, linear e sem sentido, com foco num ideal de
utilidade e, sem dúvida, alheio a diversidade cultural (SILVA e LIMA, 2013).
Destaca-se ainda, a necessidade urgente da escola, mais especificamente das
propostas curriculares, dialogarem de forma mais dinâmica e interessada com a
comunidade, compreendendo-a com um lócus de saberes onde residem processos
formativos intensos que precedem a escola.
Nesse sentido, Vesta (2005, p. 9) celebra a comunidade enfatizando que esta é
“uma viva herança do comprometimento com o mundo”, sendo que a comunidade tem um
potencial de resistência e organização de elementos que podem conduzir praticas
pedagógicas, anunciando transformações a caminho da autonomia.
Se encararmos a comunidade como o lócus de saberes e esses, por sua vez, como
componentes fundamentais de uma educação para diversidade, talvez enxerguemos no
diálogo escola-comunidade uma possibilidade de criação de propostas pedagógicas que
atendam a demandas cada vez mais emergentes de leis e diretrizes que clamam pelo
respeito a diversidade e a equidade de direitos, como é o caso da lei 10.639 que em
2003, tornando obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira na educação
básica.
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Em suma, postulamos aqui três importantes questões que instigam nossa reflexão:
o corpo como foco do processo educacional; o ensino da dança a partir das
manifestações populares brasileiras de matriz africana e a relação escola-comunidade,
partindo do pressuposto que no ato educativo é necessário considerar o potencial crítico e
criativo de seus estudantes bem como de seus contextos de origem.
Movido por essas questões e preocupações, o projeto CORPOPULAR: A ESCOLA
ENTRE GIROS, PALMAS E SORRISO teve como objetivos: (re) conhecer e (re)significar
o espaço da escola, como um território fértil para a expressão da dança a partir da
capoeira e do hip hop como manifestações populares; aprofundar as reflexões acerca da
prática docente em dança, bem como, sua articulação com o contexto educacional,
político e social.
Contextualização: corpopular (es)
O curso de Licenciatura em Dança da UFG apresenta no seu projeto pedagógico
entre outras questões norteadoras a formação de educadores para atuarem com a dança,
considerando as possibilidades que surgem nas relações estabelecidas, a partir de uma
articulação ampla e não hierarquizada entre arte, ciência e cultura popular.
O Núcleo de Pesquisa e Investigação Cênica Coletivo 22 - grupo de pesquisa do
Curso de Licenciatura em Dança da UFG configura-se como o encontro de artistaspesquisadores que, através da dança em profunda interação com a música e o teatro,
estudam a performance de manifestações das culturas populares brasileira e compor
trabalhos artísticos a partir da construção de dramaturgias do corpo e na inter-relação da
discussão sobre corpo, cultura e arte, tornando-se um espaço importante de formação e
troca dentro dessa temática e da proposta do curso de dança.
O programa de extensão CORPOPOPULAR: INTERSECÇÕES CULTURAIS, foi
estruturado e desenvolvido pelo Núcleo Coletivo 22, teve início em 2012, financiado pelo
Edital Proext, 2011-MEC/SESu,
o mesmo permitiu de maneira significativa o diálogo
permanente e dinâmico entre a extensão, o ensino e a pesquisa na Universidade Federal
de Goiás (UFG), ao propor o intercâmbio com as tradições e saberes populares,
buscando o diálogo
aberto entre professores, estudantes, mestres de capoeira,
dançarinos, atores, capoeiristas e educadores populares.
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Entre as ações do Programa Corpopular, desenvolvido ao longo de 2012, que teve
como característica geral o fazer cultural e a troca de experiências no coletivo de artistas,
educadores e com a comunidade, que
contribuiu para a construção do projeto
CORPOPULAR: A ESCOLA ENTRE GIROS, PALMAS E SORRISOS, se encontrava o
projeto da (A) Mostra - mostra itinerante de vídeos de curta sobre a cultura brasileira e
oficinas de Capoeira Angola e Danças de Matrizes Africanas, desenvolvida na rede
pública de ensino, conduzida por acadêmicos de diferentes cursos da UFG.
Conforme aponta Silva (2013), associar a vivencia corporal com o audiovisual
surgiu da percepção da dificuldade, muitas vezes encontrada no ambiente escolar, da
identificação dos estudantes com atividades voltadas para cultura popular brasileira,
sobretudo no que diz respeito à cultura negra, seja por preconceito ou desconhecimento.
Para autora, “esse projeto divulgou o desejo de se pensar a relação da educação formal
com a cultura popular e exibiu, além dos filmes, sorrisos de meninos e meninas e o
potencial de estudantes como articuladores da rede universidade e sociedade” (SILVA, p.
115, 2013).
Além das atividades desenvolvidas pelo programa em 2012, outras ações do
laboratório, foram realizadas no decorrer do ano de 2013 e 2014 voltadas para o contexto
da escola: curso de formação para professores de educação básica (estadual e
municipal), tendo como eixo oficinas voltadas as manifestações da cultura popular
brasileira, como Capoeira Angola e Danças de Matrizes Africanas; o evento Ginga
Menina, com atividades especial para os educadores e a circulação da peça de “De lá pra
cá Nzinga vem gingar” de Núcleo Coletivo 22.
Ponto de partida: cultura negra em movimento
Tendo em vista que nos estudos sobre cultura, diferentes conceituações podem
ser utilizadas para se compreender a expressão “popular”, é importante destacar desde
já, sob que perspectiva, olhamos para esse fenômeno. Primeiramente, buscando
reconhecer os contextos subalternos, periféricos e marginais. E, por outro lado, tentando
fugir de definições fechadas, dicotômicas e hierárquicas do que seja popular, ressaltando
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a importância de compreender os trânsitos e sentidos que determinadas manifestações
adquirem para a comunidade.
Assim, acreditamos que é possível pensar em experiências dialógicas entre “muitos
populares” procurando compreender estes saberes como fonte de aprendizagem para o
campo da arte/educação, o mestre de capoeira, o b.boys e a b.girls, partindo do
entendimento que tais manifestações são significativas no seu contexto e nos sentidos
atribuídos para sua comunidade que as criam, brincam, vivenciam e resignificam a cada
momento. Deste modo, propomos experiências dialógicas entre “corpopulares”,
reconhecendo o hip hop, a capoeira e outras danças urbanas, como manifestações vivas,
que permeiam o corpo de dentro para fora e de fora para dentro, criando sentidos
identitários para as comunidades que as criam, vivenciam e resignificam a cada momento.
A ideia de pensar a cultura negra a partir de manifestações de culturas populares
urbanas surge primeiramente, no trabalho de mestrado de um das autoras desse artigo
que se desafia a pensar a ideia de “tradição” e “populariedade” a partir do seu próprio
contexto – uma cidade cosmopolita atravessada por muitas “tradições”, identidades e,
sobretudo, pela força da indústria cultural e sua cultura de massa.
Em sua dissertação Silva (2004) que discute o processo de criação em Dança a
partir de elementos da cultura popular, problematiza o lugar do hip hop como expressão
negra, produzida e amplamente difundida como produto comercializável, considerando
que ao menos na perspectiva do trabalho de criação, e aqui acrescentamos de arte
educação, “mais do que o limite entre a cultura popular e a cultura de massa, é
importante o receptáculo de simbolismos presentes em determinados fatos sociais” que,
por esse caráter, não podem ser julgados como meros produtos industrializados” (SILVA,
2004 p. 23).
Nesse sentido, a autora compartilha com Coelho Neto (1986) da ideia de que não
há cultura popular, de massa ou erudita, o que existe na prática, não no mundo dos
conceitos, é cultura morta e a cultura viva, isto é, respectivamente uma cultura de
consumo (de bens eruditos ou populares ou operários – entendendo consumir como
matar), e a cultura de produção pelo indivíduo em grupo, com bens seja de que origem
for.
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E ainda, corroborando com essa ideia Carvalho (2000), argumenta dizendo que
temos que distinguir expressões culturais criadas externamente e apenas veiculadas
pelos meios massivos de comunicação (expressões de folclore, de cultura popular, de
cultura erudita), das expressões nascidas no âmbito interno da indústria cultural.
Fugindo de uma ideia folclorizadora de cultura popular, que tende a exotizar as
expressões culturais dos subalternos pensamos as culturas populares com atenção a
complexidade do contexto urbano, aos agenciamentos da cultura de massa e modus de
vida cultural da juventude. Nesse sentido e considerando a heterogeneidade e a
dinamicidade
das
culturas,
abordamos
aqui
as
culturas
populares
por
sua
representatividade sociocultural, o modo com que determinadas expressões culturais
representam o modo de conceber e viver daqueles que os produzem e usam como
sugere Carvalho (2000).
Expressões culturais urbanas, como a capoeira e o hip hop, manifestam uma
grande diversidade de elementos de representação e reelaboram significados para um
imenso arquivo de matrizes corporais e sonoras que podem ser estrategicamente
mescladas ou confrontadas em propostas pedagógicas de arte, aliando técnica e criação.
Deste modo, a partir dos estudos de Silva (2004, p. 41) “consideramos o hip hop e
a capoeira como parentes longínquos que finalmente se encontram e, passam a cohabitar em um mesmo tempo-espaço. O DNA que os identificam como sendo de uma
mesma “linhagem” é o fato de ambos serem manifestações de origem negra e de terem
nascido de uma mesma necessidade de se criar mecanismos coletivos de identificação e
resistência.” Entre outros aspectos que falaremos mais adiante.
Por uma vivência de dança poeticamente crítica
De acordo com Silva e Lima (2012) na dança o corpo é proeminente e a noção de
integridade corporal que deve ser reivindicada na vida e é na dança ainda mais solicitada.
Na dança a consciência corporal opera no sentido de unir: o sentir e a ação (sensação); a
imagem e a ação (imaginação), o criar e a atividade (criatividade), embalados
potencialmente de autonomia e ousadia. Ousadia essa que identificamos no processo
histórico e atualidade das danças urbanas e da capoeira, que invertem pontos de vista
nas bananeiras e paradas de mão, empoderando corpos que se arriscam no ar,
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afirmando de forma precisa e indubitável seus lugares, suas comunidades, suas
identificações.
Silva
(2004,
2011),
aponta
algumas pistas para
aproximar
estas duas
manifestações como a malandragem (urbanidade, marginalidade), violência (violência
simbólica), o enfrentamento e a afirmação da negritude (africanidades), são importantes
pistas para a elaboração de uma proposta educativa que propõe trabalhar na perspectiva
de diversidade cultural e para além do lugar confortável de meramente reproduzir
movimentos codificados. Como um b.boy ou b.girl pode assimilar a ginga a partir da ideia
de africandidade? Como um capoeira pode reinventar uma ataque a partir de um Up rock
? Que tal experimentar a ginga ao som do rap? E o free style ao som do berimbau? Que
jogo que dá? O que aproxima e diferencia ambas as práticas?
Na
esteira
destes
questionamentos e possibilidades de subversões e processos dialógicos entre as duas
manifestações, é importante considerar, no ato de ensinar que “a capoeira se faz no
corpo que faz a capoeira” como apontou Silva (2004) a partir do depoimento de Mestre
Pavão (Eusébio Lobo da Silva), destacando a capoeira como uma técnica complexa e
extremamente elaborada de pratica corporal, que, por outro lado, apresenta a sutiliza do
improviso e do jogo, em que o corpo em ato cria sua própria identidade. Neste novo
contexto, somos levados a refletir, por exemplo, como “break se faz no corpo que dança
break”; “como a capoeira se faz no corpo que dança break” e como o “o break se faz no
corpo que faz a capoeira”.
Tais questionamentos nos levam a refletir sobre o jogo entre autonomia criativa e
estruturas de poder que agenciam os corpos na dança através de estilos, tendências e
modismos.
Corpos que aprendem ensinando: corpopular(es) que se descobrem cultura
O projeto Corpopular: a escola entre giros, palmas e sorrisos surge
partir da
perspectiva de uma educação transformadora que vise uma espécie de resistência à
hegemonia de estruturas engessadas na escola, quando pensamos em proposta
curricular. Neste sentido, pensar em uma educação dos sentidos, da organização social
que anuncia a partir do corpo, a diversidade cultural, a urbanidade e a cultura popular, de
forma a possibilitar o corpo a sua autonomia de criação, de expressão e de denuncia.
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O projeto procura potencializar o contexto, fazendo surgir da realidade local às
necessidades coletivas, da identidade dos corpos dos estudantes, deflagrar os processos
de conformismo presente no cotidiano escolar, para então propor um trabalho de corpo e
movimento, de ginga e esquivas, ataques e giros, de melodias, nem sempre harmônicas,
e que têm a experimentação das técnicas da capoeira e do break e do dancehall como
parte do processo e preparação corporal e criação, tendo como objetivo proporcionar
processos
de
sensibilização
corporal,
de
descobertas
das
singularidades
e
potencialidades de cada estudante, de sua ginga pessoal, que aliadas ao conhecimento
do estudo das qualidades do movimento auxiliam na construção e criação. Assim o jogo,
o lúdico e o processo de improvisação auxiliarão nas dinâmicas das aulas, bem como,
aulas de vídeos, documentários e apresentações também farão parte das estratégias de
aula.
Outro aspecto importante é a postura do artista educador enquanto um
pesquisador em lócus, presente e disponível corporalmente, se apresentando juntamente
com os estudantes pesquisando, questionando, descobrindo e inventando. Pois parte-se
do princípio que tal descoberta se instala no corpo e se pronuncia no mundo, como já
dizia Paulo Freire.
As ações do projeto têm como público alvo os estudantes na faixa etária de (9 a 12
anos) da rede pública de ensino da Cidade de Goiânia – GO, depois de uma tentativa de
aproximação com a rede municipal de educação no primeiro semestre de 2014, a qual
ficou prejudicada devido a uma greve que acabou inviabilizando o desenvolvimento do
projeto em escolas do município, procuramos então o Centro de Ensino e Pesquisa
Aplicada à Educação-CEPAE-UFG, que nos recebeu e viabilizou as ações naquele
contexto. Assim atualmente estamos inseridos na primeira fase do ensino fundamental
com quase 30 crianças que de forma voluntaria comparecem ao projeto no contra turno
de suas aulas.
Os docentes da escola e os discentes do curso de Dança da UFG, também
constituem o público alvo do projeto, sendo convidados para participarem de eventos
promovidos pelo grupo de pesquisa, viabilizados pelo PROEXT 2013, como no evento
Ginga Menina, onde foi realizada uma oficina de capoeira exclusiva para os professores
da rede pública e acadêmicos, assim como outras oficinas de samba de roda, os bolsista
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e estudantes do curso de dança, também estão em processo de formação via ações
extensionistas, neste sentido entendemos que este se configura como
um viés
importante oportunizado pela extensão no processo de formação destes acadêmicos e
futuros professores e professoras. Na equipe executora do projeto temos uma professora
da Universidade Estadual de Goiás-UEG e da rede pública, duas professoras do Curso
de Dança da UFG , uma acadêmica do curso de Dança do Instituto Federal de Goiás de
Aparecida de Goiânia, e dois estudantes do curso de Dança da UFG.
Nas ações, invenções, (de) formações que são realizados pela equipe do projeto,
partimos do entendimento que é vital proporcionamos momentos com leituras e
discussões, experiências e vivencias corporais com trocas, criações e diálogos entre as
manifestações estudadas no projeto (capoeira, break outras danças urbanas) são
realizados um encontro por semana da equipe executora, com os laboratórios de
vivências e trocas de experiências entre a equipe, tem como proposito estabelecer
diálogos pautadas na práxis buscando (re) conhecer as consonâncias e dissonâncias
entre as dinâmicas corporais que orientam as praticas corporais estudadas, assim como
promover discussões sobre a contribuição dos elementos que circunscrevem
as
manifestações culturais e sua contribuição para pensar praticas pedagógicas em dança
que propõe trabalhar com a diversidade cultural, com a alteridade, com as questões
étnicos-raciais buscando um corpo com autonomia de movimento, de expressão e de
postura frente ao mundo e aos outros.
Considerações finais
Corpopulares que pronunciam o mundo
em palavras e gestos
Corpos que aprendem ensinando,
descobrindo juntos
Corpos que jogam, brincam
Que se descobrem cultura
Caminhos, experiências embalados pela ginga
pela malandragem, mandinga.. saltos e giros
sempre caminhando
e construindo passagens para o sensível...
(Marlini Dorneles de Lima)
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A trajetória do Programa Corpopular- Intersecções Culturais e especificamente do
projeto “Entre giros e palmas...” nos oferecem algumas pistas para a reflexão sobre as
possibilidades de ensino-aprendizagem da dança bem como o processo de criação a
partir de elementos da cultura popular urbana.
Um dos elementos importante é a postura do artista educador, que se assemelha a
perspectiva proposta por Hernandez (2011, p.43), de “processos de indagação”, no caso
do nosso projeto, em específico o professor propõe a si mesmo e aos estudantes, um
estado de indagação, de questionamentos, o qual emerge potencialmente práticas
geradas por esta postura, praticas estas que perpassam desde os elementos que
provocaram desdobramentos pedagógicos quanto para o processo de investigação e
criação corporal.
O autor ainda pontua que o artista educador que parte desta postura pode
desenvolver uma pratica pedagógica, que estimule o estudante a aprender a partir de si
mesmo, dos outros e do mundo, tecendo relações críticas, no sentido de questionar as
relações hegemônicas estabelecidas, institucionalizadas no sentido de subversão das
praticas oriundas dessas relações, criando e transgredindo a partir de um corpo que tece
cultura a todo o momento.
Partindo da hipótese de que nas culturas populares encontramos
um valioso
reservatório de simbologias e recursos técnicos que podem ser utilizados no ensino da
dança para a descoberta do próprio corpo articulando identidade pessoal e cultural,
valorizando um processo pedagógico atento as discussões sobre diversidade, sobretudo
no que diz respeito a cultura afro-brasileira.
Nesse sentido, o projeto se propôs potencializar à relação escola-comunidade, já
que a capoeira e o hip hop são manifestações possíveis de se encontrar ao entorno da
escola. Neste sentido Barbosa (1991, p.34) salienta a importância “de reforçar a herança
artística dos alunos com base em seu meio ambiente e o universo cultural da
comunidade”.
Ao desvelar nossas práticas, seja em dança, capoeira ou hip hop, questionando as
posições de poder sobre as quais o conhecimento construído se estabelece, estamos
agindo diretamente sobre nossas escolhas metodológicas, pois, “não é qualquer proposta
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metodológica que propõe a construção de redes de relações abertas que tenha como
pressuposto a leitura crítica da dança/mundo” (MARQUES, 2010, 52). São nossas
escolhas metodológicas que irão determinar nossas posições políticas a respeito do
conhecimento construído, são caminhos escolhidos e não há neutralidade. E ao fazer tais
escolhas, deixamos claro a qual sociedade estamos servindo, a concepção de educação
e sujeito pretendemos formar.
Em uma época de fragmentação e de alienação de corpos anestesiados, que se
tornam manipuláveis frente as ações dominantes estabelecidas pela indústria cultural, que
modelam as corporeidades “de fora pra dentro”, parece-nos relevante buscar alternativas
de sensibilização, que impulsione a a construção de um corpo poeticamente crítico, num
processo que compreenda que as narrativas pessoais dos estudantes, assim como as
dos educadores são construídas, atravessados por essa indústria massificadora e buscar
ali linhas de fuga que se articulam a metodologias da arte-educação para
“malandramente”, como fez o hip hop e a própria capoeira, negociar entre conformismo e
resistência.
Referências
BARBOSA, Ana Mae (org.) Arte-Educação: leitura no subsolo. São Paulo: Cortez,1997.
CARVALHO.José Jorge “O Lugar da Cultura Tradicional na sociedade Moderna”. In
Revista O percevejo - revista de teatro, critica e estética. N. 8. Rio de Janeiro: UNRIO,
2000.
HERNANDEZ, Fernando. A Cultura visual como um convite à deslocalização do olhar e ao
reposicionamento do sujeito, In: Martins, r. Tourinho, I. Educação da cultura visual:
conceitos e contextos. Editora UFSM, 2011. (p31 a 49.)
MARQUES, Isabel. Linguagem da dança: arte e ensino, 1ª. Ed. – São Paulo: Digitexto,
2010.
SILVA, Renata de Lima. Mandinga da rua: a construção do corpo cênico a partir de
elementos da cultura popular urbana. Dissertação de Mestrado. Programa de Pósgraduação em Artes do Instituto de Artes da Unicamp. Campinas, SP: [s.n.], 2004.
SILVA, Renata de Lima. Corpo Limiar e Encruzilhada: processo de criação em dança.
Goiânia: Ed, UFG, 2012.
SILVA, Renata de Lima. O corpo Limiar e as Encruzilhadas: A capoeira Angola e os
sambas de Umbigada no processo de criação em Dança Brasileira Contemporânea. Tese
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Doutorado. Programa de Pós-graduação em Artes do Instituto de Artes da UNICAMP.
Campinas,SP [s. n.] 2010.
VESTA, A.H. Daniel. Componentes da Comunidade atuando como Fontes Pedagógicas,
Apresentado, In: XV Confaeb – Congresso da Federação de Arte Educadores do Brasil,
Funarte, Rio de Janeiro, Tradução: Leda Guimarães, 2005.
*Marlini D. de Lima é docente do Curso de Licenciatura em Dança-UFG, Doutoranda no
Programa de Artes- UNB, pesquisadora e bailarina integrante do Núcleo de Pesquisa e
Investigação Coletivo 22.
[email protected].
**Renata Lima- [email protected], Doutora em Artes pela Unicamp, Docente do
Curso de Licenciatura em Dança-UFG, Coordenadora e diretora do Núcleo de Pesquisa e
Investigação Coletivo 22;
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