Autopercepção da saúde bucal de idosos: Revisão de literatura
Fernanda Zilio1, Lilian Rigo2, Clarice Saggin3, Letícia Simon4, Caroline Solda5,
Emanuela Irber6
(1) Discente da Faculdade de Odontologia, IMED, Brasil. E-mail: [email protected]
(2) Docente da Faculdade de Odontologia, IMED, Brasil. E-mail: [email protected]
(3) Docente da Faculdade de Odontologia, IMED, Brasil. E-mail: [email protected]
(4) Discente da Faculdade de Odontologia, IMED, Brasil. E-mail:[email protected]
(5) Discente da Faculdade de Odontologia, IMED, Brasil. E-mail: [email protected]
(6) Discente da Faculdade de Odontologia, IMED, Brasil. E-mail: [email protected]
Autopercepção da saúde bucal de idosos: Revisão de literatura
Resumo: O acelerado processo de envelhecimento que vem ocorrendo recentemente é um dos maiores
desafios para nossa sociedade juntamente com as questões de saúde bucal que também constituem uma
problemática. Um aspecto importante é a obtenção de dados sobre autopercepção, na qual o próprio
indivíduo percebe suas condições de saúde bucal e as necessidades de tratamento. O objetivo deste
estudo foi verificar a percepção da saúde bucal em idosos, a partir de uma Pesquisa Bibliográfica em
artigos da língua portuguesa. Com esta revisão foi possível concluir que a percepção dos idosos em
relação a sua saúde bucal é positiva, porém as condições odontológicas são precárias, ficando evidentes
as precárias condições de saúde bucal dos idosos, sendo necessária a exigência de políticas públicas
adequadas de atenção à saúde bucal do idoso, de modo a promover saúde e bem-estar para todos.
.
Palavras-chave: Idoso; Autoimagem; Saúde Bucal. .
Abstract: The accelerated aging process that has occurred recently is a major challenge for our society
along with oral health issues are also a problem. An important aspect is to obtain data on perception, in
which individuals realize their oral health status and treatment needs. The aim of this study was to
investigate the perception of oral health in the elderly, from a literature search of articles in Portuguese
language. With this review it was concluded that the perception of the elderly regarding their oral health
is positive, but the dental conditions are precarious, being evident the poor oral health status of the
elderly, necessitating the need for adequate public policies for health care elderly oral, to promote health
and well-being for all.
Keywords: Elderly; Self Concept; Oral Health.
1. INTRODUÇÃO
O acelerado processo de envelhecimento que vem ocorrendo recentemente em alguns grupos
populacionais constitui um dos maiores triunfos da humanidade, mas também um dos maiores desafios
para nossa sociedade. As questões de saúde bucal também constituem uma problemática que até o
momento não tem encontrado resposta adequada no sistema de saúde brasileiro (BENEDETTI et al.,
2007).
Entretanto, o quadro epidemiológico e a ausência de programas voltados para a população idosa brasileira
caracterizam a condição de saúde bucal precária encontrada nesse grupo (SILVA et al., 2005). Fato esse
preocupante, pois Haikal et al. (2011) relatam que o Brasil terá a sexta maior população idosa do mundo,
chegando a aproximadamente 15% da população total em 2025 e a 19% em 20501, enfatizando a
necessidade de políticas de saúde públicas.
Um aspecto importante, é a obtenção de dados sobre autopercepção, pois qualificam as condições orais,
levando em conta a visão do idoso, na qual o próprio indivíduo percebe suas condições de saúde bucal e
as necessidades de tratamento (SILVA et al., 2005).
Entre idosos, a principal razão para não procurar o serviço odontológico é a não percepção da
necessidade, sendo necessária para encorajar a adesão a comportamentos saudáveis (MARTINS et al.,
2010). Além disso, esses indivíduos apresentam, em geral, um grande número de dentes perdidos e
muitos casos em que há necessidade de reabilitações. Acrescenta-se ainda a dificuldade de acesso dos
idosos aos serviços de saúde, revelada por aspectos que vão desde a falta de condução para ir ao posto de
saúde até a falta de dinheiro para comprar as medicações prescritas (REIS; MARCELO, 2006).
O objetivo deste estudo foi verificar a percepção da saúde bucal em idosos, a partir de uma Pesquisa
Bibiográfica.
2. REVISÃO DE LITERATURA
A preocupação com a qualidade de vida na velhice tem aumentando constantemente, a institucionalização
da população idosa cresce aumentando a necessidade de atendimento e de cuidados, que, infelizmente,
nem sempre são feitos de maneira eficiente, deixando muitos asilados da terceira idade sem um
acompanhamento adequado e consequentemente com situação de saúde mais precária que os não
abrigados. (COSTA et al., 2010).
Segundo alguns autores, ausência de dores orofaciais, mastigação adequada, facilidade de ingestão e
digestão dos alimentos incluem-se como uma boa saúde bucal. Ela também deve contribuir para a
comunicação, que têm o potencial de aumentar a autoestima das pessoas.
O cirurgião-dentista realiza a avalição clínica da condição oral, sendo importante o paciente idoso relatar
os sintomas, os problemas funcionais e sociais decorrentes da saúde bucal. Apesar de a autopercepção
não substituir o exame clínico do paciente, ela permite que se tenha uma visão da real condição do
indivíduo (COSTA et al., 2010).
Estudos epidemiológicos são imprescindíveis para a identificação dos problemas da população, mas
precisam ser associados às pesquisas que investigam os significados de como as pessoas percebem seus
problemas de saúde e se posicionam diante deles, pois permitem identificar valores sociais, culturais e
econômicos que influenciam na sua qualidade de vida (REIS; MARCELO, 2006).
Pesquisa do Núcleo de Estudos em Saúde Pública e Envelhecimento (Nespe), do Ministério da Saúde,
aponta que 73% dos idosos brasileiros dependem exclusivamente do sistema público de saúde.
Considerando que os investimentos direcionados a essa área são historicamente insuficientes e os baixos
rendimentos desses idosos para sua sobrevivência, configura-se uma situação de alta complexidade. Esses
indivíduos apresentam, em geral, um grande número de dentes perdidos e em muitos casos há
necessidade de reabilitações (REIS;MARCELO, 2006).
Por esse motivo faz-se necessária a inclusão da percepção da saúde em estudos, pois esse conhecimento
possibilita o desvelar dos valores atribuídos e o significado conferido pelas pessoas à sua saúde. Estudos
de autopercepção em saúde permitem a participação efetiva da comunidade na formulação de decisões
políticas e sociais, incluindo a saúde bucal, além de tornar possível a abordagem mais efetiva dos
indivíduos pelos profissionais de saúde. (REIS; MARCELO, 2006).
A avaliação da autopercepção da saúde bucal e da condição de saúde bucal são essenciais, pois o
comportamento é modulado pela percepção dessa condição e importância dada a ela. Na Odontologia, a
avaliação da autopercepção da saúde bucal rotineiramente é importante para encorajar a adesão a
comportamentos saudáveis, sendo mais informativa de como a doença afeta a vida dos indivíduos do que
as medidas objetivas da doença. No Brasil a assistência pública odontológica a idosos precisa ser
incrementada, e a identificação da autopercepção de sua condição bucal pode ser o primeiro passo para a
elaboração de programas que incluam ações educativas voltadas para o autocuidado, além de ações
preventivas e reabilitadoras (MARTINS et al., 2010).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e Federação Dentária Internacional (FDI) dizem que pelo
menos 50% dos idosos entre 65 e 79 anos devem ter pelo menos vinte dentes funcionais na cavidade
bucal. No Brasil, apenas 10% desses idosos possuem mais que esse número de dentes, demonstrando o
predomínio do edentulismo (com uma média de 25,8 dentes extraídos, de um total de 32 dentes) (COSTA
et al., 2010).
Em uma pesquisa sobre autopercepção, realizada por Costa et al. (2010) na cidade de Fortaleza, Ceará,
com uma amostra de 96 indivíduos com 60 anos ou mais, dividido em idosos institucionalizados e idosos
não institucionalizados, o índice de edentulismo encontrado foi baixo, apenas seis indivíduos (6,2%) com
mais de vinte dentes. Além disso, apesar de a maioria dos idosos (84,4%) acreditarem que sua saúde geral
está razoável ou excelente, o grupo, como um todo, apresentou um valor total do GOHAI (índice
geriátrico para avaliação de saúde bucal) considerado baixo, comportando uma percepção negativa das
condições de saúde bucal, pois valores menores do que 30 são tidos como a pior situação em termos de
qualidade de vida inerente à saúde bucal para esse índice.
Resultados semelhantes foram encontrados em outro estudo sobre autopercepção de Martins et al. (2010)
foram utilizados dados do Projeto SB Brasil, realizado em 2002– 2003. Com uma amostra probabilística
de 5.349 idosos de 65 a 74 anos agrupados em dentados e edentados. Como resultado, nos dois grupos a
autopercepção da saúde bucal foi considerada positiva, apesar das precárias condições de saúde bucal
entre os idosos.
Assim como na pesquisa feita por Henriques et al. (2007) na qual o diagnóstico das condições clínicas
mostrou associação não-significativa com a autopercepção verificando que a maioria dos idosos veem sua
condição bucal de maneira favorável, mesmo em condições clínicas não satisfatórias. A pesquisa
verificou a saúde bucal e a autopercepção de 61 idosos atendidos na FOAR/UNESP, no ano de 2001,
tendo como o Índice GOHAI global de 27,77, característico de uma autopercepção ruim.
Entre os idosos, o valor dado a medições relatadas se torna bastante importante, considerando que os
problemas orais podem ter repercussões nutricionais e psicossociais. Logo, para se diagnosticar as
principais necessidades bucais da população idosa é necessário o conhecimento. Investigações a respeito
da autopercepção da qualidade de vida relacionada à saúde bucal têm sido desenvolvidas especialmente
em países desenvolvidos. No Brasil, algumas investigações acerca do tema foram conduzidas, apesar
disso existe ainda a necessidade de mais pesquisas para melhor compreensão dos fatores, tendo em conta
que a coleta de informações sobre a autopercepção deve ser o primeiro passo para a formulação de
políticas e programas odontológicos. (VASCONCELOS et al., 2012).
Numa lista de valores de vinte queixas mais comuns, as preocupações dos idosos com relação à saúde
bucal se apresentam em décimo quarto nessa faixa etária. Portanto, se faz cada vez mais necessário o
emprego de instrumentos para que a sociedade tenha conhecimento da condição epidemiológica da saúde
bucal da pessoa idosa e possa contribuir, dessa forma, para o desenvolvimento de ações sociais (COSTA
et al., 2010).
Uma explicação para uma autopercepção boa e uma condição clínica insatisfatória, seria pelo fato de que
nos idosos a percepção também pode ser afetada por valores pessoais, como a crença, visto que algumas
dores e incapacidades são inevitáveis nessa idade, o que pode levar a pessoa a superestimar sua condição
bucal (COSTA et al., 2010). A dor nesta fase é vista como algo natural que é decorrente da idade.
Segundo Haikal et al. (2011), acredita-se que os idosos se tornam mais tolerantes com os problemas da
cavidade bucal que surgem ao longo da velhice, passando a ter valores sociais diferentes, não parecendo
se abater ou mesmo se indignar com precárias condições bucais e nem mesmo com as limitações
consequentes destas condições. O que realmente os incomoda e é impactante é a relação de dependência
inclusive para ir ao dentista, a solidão e a proximidade com a morte, minimizando quaisquer outros
problemas.
Outro estudo que podemos demonstrar associação é o de Silva et al. (2005) que avaliou as condições de
saúde bucal clinicamente e a autopercepção em 112 indivíduos com idade acima de 60 anos, moradores
da cidade de Rio Claro. Como resultado, a autopercepção da saúde bucal foi satisfatória, o que não pôde
ser confirmado com as condições clínicas.
Da mesma forma, Benedetti et al. (2007) realizaram questionário aplicado a 875 idosos no munícipio de
Florianópolis. Resultando na discrepância entre os dados sobre percepção de saúde bucal e reais
condições de saúde bucal, como altas porcentagens de falta de dentes e presença de próteses, revela a
maneira singular como o idoso percebe esse aspecto de sua saúde.
Estudo realizado por Vaccarezza, Fuga e Ferreira (2010) coletaram informações sobre sua condição de
vida, e tentando correlacionar o quanto a saúde bucal pode comprometer a qualidade de vida e autonomia
desses idosos de Vila Lobos. A coleta de dados foi realizada por meio de questionário e exame clínico em
60 idosos de ambos os sexos. Os resultados mostram que a perda dentária ou o uso de próteses
inadequadas implicam impactos negativos na qualidade de vida, especialmente no que se refere à
preocupação, estresse decorrente de problemas na boca e à vergonha. Quando é analisada a autopercepção
de saúde bucal a grande maioria avalia como muito boa ou boa. O achado mais importante do estudo foi
que, apesar dos dados obtidos indicarem uma saúde bucal frágil que revela um comprometimento com a
qualidade de vida, a grande maioria dos idosos avaliou positivamente a própria saúde. Isso talvez possa
indicar que, para essa população, a saúde bucal está dissociada da saúde.
Há a necessidade de se trabalhar cada vez mais a fim de que haja uma reformulação no serviço público
odontológico em todos os grupos etários para se evitar/prevenir o endentulismo na população de idade
avançada. (COSTA et al., 2010). Fato esse que reflete na conscientização da saúde oral, pois a população
idosa foi apontada como maior usuário de serviços médicos e maior não usuário de serviços
odontológicos. (Haikal et al., 2011),
Adicionado a isso, é importante ressaltar que o tratamento do idoso deve ser realizado de maneira
diferenciada em virtude das mudanças fisiológicas decorrentes do envelhecimento, presença de doenças
sistêmicas e crônicas e alta incidência de deficiências físicas e mentais (COSTA et al., 2010).
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir desta revisão foi possível concluir que:

A percepção dos idosos em relação a sua saúde bucal é distante da realidade encontrada, ou seja,
positiva, porém as condições odontológicas são precárias.

Ficam evidentes as precárias condições de saúde bucal dos idosos, sendo necessária a exigência de
políticas públicas adequadas de atenção à saúde bucal do idoso, de modo a promover saúde e bemestar para todos.

Porém, o fato dos idosos não terem um julgamento apropriado do estado de sua saúde bucal, traz
preocupação, pois a autopercepção é a compreensão do paciente acerca de sua saúde sendo
essencial na elaboração de um programa que inclua ações educativas, voltadas para o
autodiagnóstico e autocuidado, além de ações preventivas e curativas.

Por outro lado, o não conhecimento da existência de problema de saúde bucal se constitui em
barreira ao acesso ao serviço odontológico, considerando que o idoso não é simplesmente mais
um paciente e sim um indivíduo que exige do profissional um preparo prévio para poder atender às
suas reais necessidades com muita paciência e dedicação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BENEDETTI, T.R.B.; MELLO, A.L.S.F.; GONÇALVES, L.H.T. Idosos de Florianópolis: autopercepção das
condições de saúde bucal e utilização de serviços odontológicos. Ciência & Saúde Coletiva, v. 12, n. 6, p. 16831690, 2007.
COSTA, E. H. M.; SAINTRAIN, M.V.L.; VIEIRA, A.P.G.F. Autopercepção da condição de saúde bucal em idosos
institucionalizados e não institucionalizados. Ciência & Saúde Coletiva, v. 15, n. 6, p.2925-2930, 2010.
HAIKAL, D.S. et al. Autopercepção da saúde bucal e impacto na qualidade de vida do idoso: uma abordagem
quanti-qualitativa. Ciência & Saúde Coletiva, v. 16, n. 7, p. 3317-3329, 2011.
HENRIQUES, C. Autopercepção das condições de saúde bucal de idosos do município de Araraquara – SP.
Ciência Odontológica Brasileira, v. 10, n. 3, p. 67-73, 2007.
MARTINS, A.M.E.B.L. et al. Autopercepção da saúde bucal entre idosos brasileiros. Revista Saúde Pública, v. 44,
n.5, p. 912-22, 2010.
REIS, S.C.G.B.; MARCELO, V.C. Saúde bucal na velhice: percepção dos idoso, Goiânia, 2005. Ciência & Saúde
Coletiva, v. 11, n. 1, p. 191-199, 2006.
SILVA, D.D.; SOUSA, M.L.R.; WADA, R.S. Autopercepção e condições de saúde bucal em uma população de
idosos. Caderno Saúde Pública, v. 21, n. 4, p. 1251-1259, 2005.
VACCAREZZA G.F; FUGA, R.L; FERREIRA S.R.P. Saúde bucal e qualidade de vida dos idosos. Revista de
Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo, v. 22, n. 2, p. 134-137, 2010.
VASCONCELOS, L. C. A. Autopercepção da saúde bucal de idosos de um município de médio porte do Nordeste
brasileiro. Caderno Saúde Pública, v. 28, n.6, p. 1101-1110, 2012.
Download

Autopercepção da saúde bucal de idosos: Revisão de literatura