UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADA DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO CURSO DE BIBLIOTECONOMIA ADRIANA DE ARAUJO RODRIGUES DA CUNHA BIBLIOTECA EM ÁREA DE ASSENTAMENTO RURAL: SEMENTE DO SABER NATAL,RN 2014.2 2 ADRIANA DE ARAUJO RODRIGUES DA CUNHA BIBLIOTECA EM ÁREA DE ASSENTAMENTO RURAL: SEMENTE DO SABER Monografia apresentada ao Curso de Biblioteconomia do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para a obtenção do titulo de Bacharel em Biblioteconomia. Orientadora: Profª Msc. Antonia de Freitas Neta Coorientadora: Profª Dra. Luciana Moreira Carvalho NATAL, RN 2014.2 1 Ficha Catalográfica elaborada pela graduanda em Biblioteconomia/UFRN – Adriana de Araujo Rodrigues da Cunha Cunha, Adriana de Araujo Rodrigues da. Biblioteca em área de assentamento rural: semente do saber / Adriana de Araujo Rodrigues da Cunha. - Natal, RN, 2014.2. 44f. : il. Orientadora: Antonia de Freitas Neta Coorientadora: Luciana Moreira Carvalho. Monografia (Bacharelado) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Sociais Aplicada. Departamento de Ciência da Informação. 1. Biblioteca Comunitária – Monografia. 2. Biblioteca Rural – Monografia. 3. Arca das Letras – Monografia. 4. Assentamento Rosário – Monografia. I. Neta, Antonia de Freitas. II. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Título. RN/UF CDU 027.022 2 ADRIANA DE ARAUJO RODRIGUES DA CUNHA BIBLIOTECA EM ÁREA DE ASSENTAMENTO RURAL SEMENTE DO SABER Monografia apresentada ao Curso de Biblioteconomia do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para a obtenção do titulo de Bacharel em Biblioteconomia. Aprovado em _______/_______/_________. BANCA EXAMINADORA Prof.ª Msc. Antonia de Freitas Neta Universidade Federal do Rio Grande do Norte Orientadora Prof.ª Dra. Luciana Moreira Carvalho Universidade Federal do Rio Grande do Norte Coorientadora Prof.ª Msc. Jacqueline de Araújo Cunha Universidade Federal do Rio Grande do Norte Membro 3 AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus pelo dom da vida e a oportunidade de corrigir meus erros a cada novo amanhecer. Agradeço de coração a oportunidade de ter cursado uma universidade a uma grande incentivadora minha fada madrinha a professora Dra. Amadja Henrique Borges. Aos meus amigos e amigas do Grupo de Estudo em Reforma agrária e Habitat GERAH, aos amigos e amigas do curso em especial ao meu grupo de trabalho nas pessoas iluminadas de Aline Karoline, Jonatas Cosme, Mayane Lopes e Tamires Silva. As famílias do Assentamento Rosário e membros do MST-RN agradeço pela acolhida. A minha orientadora a Profª Msc. Antonia de Freitas Neta e a minha coorientadora a Prof.ª Dra. Luciana Moreira Carvalho pelas dicas de leitura e apoio ao tema, meu muito obrigado. A minha sogra, pois sem ela não poderia estudar, ela foi mãe e avó da minha filha durante o curso, meu muito obrigado. Ao meu companheiro pela força, e a minha tia mãe e minha tia Dulce pelas orações. A minha filha que nos momentos angustiante dos trabalhos me dava beijinhos. 4 “A compreensão crítica da alfabetização, que envolve a compreensão igualmente crítica da leitura, demanda a compreensão crítica da biblioteca”. Paulo Freire. “A biblioteca tem tudo para estar na vanguarda da luta contra a exclusão social”. Elisa Campos Machado. 5 RESUMO Apresenta de forma parcial o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Rio Grande do Norte, com destaque para o Assentamento Rosário. Assegura através da literatura existente a importância da biblioteca como espaço de cidadania em qualquer realidade. Destaca o Programa Arca das Letras como marco inicial por promover o acesso à leitura em áreas distantes como as comunidades indígenas, quilombolas, e assentamentos rurais. Na perspectiva de incentivo à leitura, acesso aos livros e os benefícios, inerentes ao processo, aponta o assentamento Rosário beneficiado com acervo de duas Arcas das Letras, que diante do sub uso dos referidos acervos, sugere como proposta a criação de uma biblioteca geral com um acervo formado com o material já existente na escola, o das Arcas das Letras e doações, e outros gerados pela comunidade. Conclui, sugerindo uma parceria com o Departamento de Ciências da Informação da UFRN para a formação de Auxiliares de Bibliotecas, para atuar na biblioteca contribuindo para gerenciamento da mesma nos serviços meios e fins, somando esforços, junto a liderança do assentamento, instituições e a comunidade, para não deixar a proposta ser desativada. Sugere ainda, a continuação do estudo para elencar os desafios e as causas da desativação das Arca das Letras no Assentamento para que não ocorra o mesmo com a proposta da Biblioteca. Palavras-chave: Biblioteca Comunitária. Biblioteca Rural. Programa Arca das Letras. 6 ABSTRACT Features partially the Rural Landless Workers Movement in Rio Grande do Norte, especially the Settlement Rosary. Ensures through the existing literature the importance of the library as space of citizenship in any reality. Highlights the Ark of Letters Program as starting point for promoting access to reading in remote areas such as indigenous communities, maroon, and rural settlements. In the perspective of encouraging reading, access to books and benefits inherent in the process, says the Rosary settlement benefited with two Arks das Letters acquis, which before the sub use of these collections, suggests proposes the creation of a general library a collection formed with those already available in the school, the Arks of Letters and donations, and other community-generated. Concludes , suggesting a partnership with the Department of Information Sciences of UFRN for the formation of Library Assistants to work in the library management contributing to the same means and ends in service , joining efforts , with the leadership of the settlement, institutions and the community not to let the proposal be disabled. It also suggests the continuation of the study to outline the challenges and causes of deactivation of Letters Ark in the settlement so that there is the same with the proposal of the Library. Keywords: Community Library. Rural Library. Ark of the Letters Program. 7 LISTA DE ILUSTRAÇÃO Figura 1 – Periódicos Nacionais de Ciência da Informação de artigos publicados entre 2006-2011 acerca da temática das bibliotecas comunitárias...........................21 Figura 2 – Imagem do móvel da Arca das Letras......................................................28 Figura 3 - Mapa do Rio Grande do Norte destaque ao município de Ceará-Mirim..29 Figura 4 – Mapa do município de Ceará-Mirim e seus limítrofes..............................30 Figura 5 – Oficina para montagem dos bancos da praça do Assentamento Rosário.......................................................................................................................33 Figura 6 - Oficina para montagem dos bancos da praça do Assentamento Rosário.......................................................................................................................34 Figura 7 – Imagem da Pra do Assentamento Rosário...............................................34 Figura 8 – Imagem da Biblioteca...............................................................................35 Figura 9 – Planta baixa da biblioteca.........................................................................36 Figura 10 – Planta de fachada...................................................................................37 8 LISTA DE SIGLAS BNB – Banco do Nordeste do Brasil DARQ - Departamento de Arquitetura e Urbanismo DECIN – Departamento de Ciência da Informação FETARN – Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Rio Grande do Norte FFCLRP/USP – Faculdade de Filosofia e Ciência e Letras de Ribeirão Preto / Universidade de São Paulo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IDEMA – Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agraria MJ – Ministério da Justiça MST – Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ONG – Organização Não Governamental PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNLL – Plano Nacional do Livro e da Leitura PROLER – Programa Nacional de Incentivo à Leitura PRONERA – Programa Nacional de Educação na Reforma Agraria SEARA – Secretaria de Estado de Assuntos Fundiários e Apoio a Reforma Agraria SEC – Secretaria Extraordinária da Cultura SEJUC – Secretaria de Estado e da Justiça e Cidadania SUS – Sistema Único de Saúde UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação a Ciência e a Cultura 9 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 10 2 MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA ....................... 13 3 BIBLIOTECA NO ASSENTAMENTO ROSÁRIO ESPAÇO DE CIDADANIA .... 17 3.1 BIBLIOTECA ................................................................................................ 17 3.2 BIBLIOTECA PÚBLICA ................................................................................ 18 3.3 BIBLIOTECA COMUNITÁRIA ...................................................................... 20 3.3.1 Missões da Biblioteca Pública................................................................... 20 3.4 BIBLIOTECA RURAL ................................................................................... 22 4 4.1 5 5.1 O PROGRAMA ARCA DAS LETRAS................................................................ 25 ARCA DAS LETRAS NO RIO GRANDE DO NORTE .................................. 27 O ASSENTAMENTO ROSÁRIO ........................................................................ 29 CONTRIBUIÇÕES PARA O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE UMA BIBLIOTECA PARA O ASSENTAMENTO ................................................................ 35 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 39 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 42 10 1 INTRODUÇÃO O ingresso no Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte despertou em mim o desejo de pesquisar ações em áreas rurais voltadas à leitura. A oportunidade de participar como bolsista do Grupo de Estudo em Reforma Agrária e Habitat -GERAH1, alimentou muito mais, pois promoveu o contato direto com as famílias assentadas e conhecer a realidade vivenciada por eles. A pesquisa tem como tema: Biblioteca em área de Assentamento Rural e traz como subtema semente do saber. A proposta inicial seria realizar uma pesquisa sobre os projetos ou programas sociais em áreas de assentamento rural voltados a promover o acesso aos livros em área rural como resgate de cidadania, tendo como estudo o Assentamento Rosário, localizado no Município de Ceará Mirim-RN. Tendo em vista o tempo exíguo para elaboração da pesquisa, focou-se de forma parcial, o Programa Arca das Letras no Assentamento Rosário e a participação do assentamento neste. O programa Arca das letras é uma das iniciativas de incentivo a leitura nas comunidades rurais, implantado pelo Governo Federal no ano de 2003. O programa forma agentes de leitura voluntários que organizam os empréstimos e promovem o incentivo à leitura nos assentamentos. Os agentes são responsáveis pela guarda da arca, que em muitos casos ficam em suas próprias casas ou em sede das associações dos assentamentos. A problemática destacada neste trabalho é comumente discutida pela área de Ciências Humanas, em especial a de Educação que é promover o ensino e a pratica da leitura. Na Biblioteconomia, ainda há muito o que pesquisar e aprofundar. No assentamento Rosário, há interesse para se efetivar uma biblioteca, cujas especificidades devem ser estabelecidas pelo público a que se deve atingir: crianças, estudantes, assentados, militantes do MST, entre outros. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST vem apresentando seu histórico de luta por Reforma Agrária, que visa o acesso da terra e a políticas públicas de habitação, trabalho, educação, saúde e inserção da mulher nesse 1 O GERAH desenvolve estudos sobre o parcelamento do solo e habitação nos projetos de reforma agrária através da metodologia participante, exercendo atividades de pesquisa e extensão voltadas para a habitação de interesse social no campo. O GERAH faz parte do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 11 contexto de luta e direitos. O MST já recebeu prêmios por seu trabalho contra o analfabetismo dentro dos acampamentos2 e assentamentos3 rurais, por entender que a luta não é apenas por terra, mas pela garantia da permanência dos assentados na terra. O Assentamento Rosário, localizado a 23 km de Ceará-Mirim, é uma das conquista do MST-RN. Sua primeira agrovila fica aproximadamente a 1 km da RN -064 que liga Ceará-Mirim a Touros.4 Recentemente o assentamento Rosário foi cenário de um projeto de extensão, que realizou ações de construção dos espaços livres públicos, dentre eles: uma praça, campo de futebol, quadra de areia e uma biblioteca. Este projeto de extensão, intitulado “O Verso do Reverso na Construção do Habitat do Campo: Gênero, Participação e Cidadania”5, coordenado pela professora Amadja Borges, do Departamento de Arquitetura da UFRN, tem possibilidades de continuidade pelo Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte- DECIN/UFRN, com a realização de um trabalho específico de organização de sua biblioteca, oferecendo um espaço de leitura e lazer às famílias do assentamento Rosário e possibilitando o hábito e o gosto pela leitura, de forma a contribuir na formação de técnicos de biblioteca. O DECIN/UFRN através do projeto de extensão Acessibilidade a Informação: Desafios e Perspectivas na Área da Biblioteconomia coordenado pela Prof.ª Msc. Antônia de Freitas Neta doou para a biblioteca do assentamento 96 livros de literatura. Tem-se como objetivo geral apresentar o Programa Arca das Letras que visa o acesso à informação do homem do campo e observar os resultados alcançados. E como objetivos específicos apresentar o Programa da Arca das Letras no Assentamento Rosário e colaborar com a proposta de uma Biblioteca Comunitária no Assentamento Rosário. Como metodologia utilizou-se a pesquisa bibliográfica em livros, artigos de periódicos da área da ciência da informação, a teses, dissertações e monografias, pesquisa na internet para compreender a problemática da escassez de conteúdo informacional sobre biblioteca comunitária rural e referencias publicadas sobre o programa Arca das Letras no assentamento. 2 Acampamento: casas improvisadas com taipa e lona preta no período da ocupação. Assentamento: quando o imóvel passa a ser denominado área de interesse social, criado por uma portaria. 4 SILVA, Aparecida. Aluna da Pós-Graduação Residência Agrária 2013, parceria entre INCRA e UFRN. 5 Atividade de Extensão da UFRN. Disponível em: <http://www.sigaa.ufrn.br/sigaa/public/docente/extensao.jsf?siape=347134> 3 12 Segundo Cervo, Bervian e Silva (2007, p.61), a pesquisa bibliográfica é o meio de formação que “constitui o procedimento básico para os estudos monográficos, pelos quais se busca o domínio do estado da arte sobre determinado tema.” Severino (2011) evidencia que a pesquisa bibliográfica é o norte para identificar a partir dos registros disponíveis de pesquisas anteriores para utilizar de dados e teorias trabalhadas por outros pesquisadores. “Os textos tornam-se fontes dos temas a serem pesquisados. O pesquisador trabalha a partir das contribuições dos autores dos estudos.” (SEVERINO, 2011, p. 122). O segundo capítulo aborda o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o nascimento do movimento, sua organização nos estados e importância do setor de educação para o fortalecimento da pedagogia no movimento. O terceiro capítulo enfoca sobre a biblioteca como espaço de resgate a cidadania, aqui esta a base do referencial teórico deste trabalho e elencando os tipos de bibliotecas e sua função com a comunidade onde está inserida. O quarto capítulo apresenta o Programa Arca das Letras objeto de estudo da pesquisa. Vendo-o como marco inicial para a democratização e acesso aos livros ao homem do campo. No quinto capítulo discorre sobre o Assentamento Rosário e o Município de Ceará-Mirim região palco da aristocracia açucareira no século XIX, que veio mudando ao longo dos anos, hoje vivencia uma diversificação na produção local. Neste capitulo também traz sugestão para a implantação de uma biblioteca no assentamento. Finalizando no sexto capitulo com as considerações finais do estudo. 13 2 MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST é o resultado da junção de vários movimentos ligados aos trabalhadores do campo que ao unirem-se formam o movimento social e nacional de luta pelos trabalhadores do campo. O MST surgiu da reunião de vários movimentos populares ligados à luta pela terra que promoveram a ocupação de terras na década de oitenta, a fundação do MST aconteceu em janeiro de 1984, na cidade de Cascavel, no Estado do Paraná, por ocasião da realização do 1º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, com 80 representantes de 13 Estados. (COMPARATO, 2003, p. 23). Stedile e Fernandes (2005) Destacam dois fatores da gênese do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST, uma de ser um movimento de caráter nacional que fosse a voz dos camponeses na luta pela terra, outro foi ter surgido em conjunto com as lutas por democracia no país fato que ajudou a dar o caráter político a luta pelo resgate da cidadania do homem e da mulher do campo. Ao longo dos seus 30 anos o MST vem apresentando seu histórico de luta por Reforma Agrária, que visa o acesso da terra e a políticas públicas de habitação, trabalho, educação, saúde e inserção da mulher nesse contexto de luta e direitos. Ser sem-terra em cada um dos momentos da historia do MST tem um sentido diferente, embora todos os sem-terra, de cada uma das gerações que se desenvolvem, devem se sentir herdeiros daqueles primeiros trabalhadores e trabalhadoras que, em determinado momento, decidiram reagir contra a condição social de sem (a) terra, escolhendo a ocupação das terras improdutivas como forma de luta e como símbolo de sua rebeldia social. (CALDART, 2004, p. 96). O MST está organizado em 24 estados, nas cinco regiões do país, em assentamentos e acampamentos. As famílias organizam-se em núcleos que nomeiam os coordenadores e coordenadoras do assentamento ou do acampamento. A mesma estrutura se repete em nível regional, estadual e nacional. Um aspecto importante é que as instâncias de decisão são orientadas para garantir a participação das mulheres, sempre com dois coordenadores, um homem e uma mulher. E nas assembleias de acampamentos e assentamentos, todos têm direito a voto: adultos, jovens, homens e mulheres. 14 A instancia maior de decisões do MST, é o Congresso encontro nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra que ocorre a cada 5 anos. É no Congresso que são definidas as linhas políticas do Movimento e são de avaliados os trabalhos realizados. Outros momentos de decisões ocorrem nos Encontros de Coordenações, e de Setores do MST, como os setores de Produção, Saúde, Gênero, Comunicação, Educação, Juventude, Finanças, Direitos Humanos, Relações Internacionais. Os encontros dos setores colaboram para nortear as linhas de atuação e momento de compartilhar as experiências de cada estado. A organização do MST no RN iniciou em 1989, quando lideranças do movimento do Ceará e da Paraíba chegam ao estado para articular as famílias. Inicialmente os trabalhos foram realizados no Município de Assú e de Santana do Matos ambos não obtiveram sucesso, pois a repressão ao movimento foi forte nestes municípios. Os trabalhos voltam para a região do Mato Grande6 que em 1991 o acampamento Marajó na Fazenda Marajó pertencente ao Município de João Câmara, torna-se o primeiro Assentamento conquistado pela organização do MSTRN, que fortalecido desta conquista amplia as ocupações na região. Fortalecendo-se com essa conquista, o MST passou a dirigir politicamente outras ocupações na região do Mato Grande e em outras áreas do Estado. Como exemplo, podemos citar a conquista do Assentamento Santa Vitoria, em São Bento do Norte, em 1992 e o Assentamento Zabelê, em Touros, em 1993. Não há duvida quanto ao papel importante desempenhado pelo MST no processo de luta pela Reforma Agrária no Estado, as ocupações de terras e desapropriações de áreas para a criação dos Assentamentos tiveram um crescimento significativo a partir da organização do MST no RN. (COSTA, 2005, p.83-84) Para Bergamasco (1997) os assentamentos rurais brasileiros representam uma nova forma de produzir. Uma nova leitura das relações sociais envolvendo a posse da terra, compreendida como ponto de partida para novas relações e práticas sociais. O assentado passa a ser senhor do seu tempo e da sua produção, investindo seus conhecimentos e buscando melhorar a produção. 6 Região do Mato Grande compreende os municípios das microrregiões da Baixa Verde e do Litoral Nordeste. Municípios que compõe a região Mato Grande são :Beto Fernandes, Jandaíra, João Câmara, Maxaranguape, Parazinho, Pedra Grande, Pureza, Poço Branco, Rio do Fogo, São Miguel do Gostoso, Taípu e Touros. 15 O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra adota a luta pela educação, como resultado da mobilização das famílias e das educadoras que levaram o MST assumir a educação nas áreas de assentamento e acampamento. Para Caldart (2003) assumir a tarefa de organizar uma proposta pedagógica ao movimento e formar educadores e educadoras foi formalizada quando o MST cria o Setor de Educação em 1987. A partir de 1987 o conceito educação ampliou o significado para o setor, as primeiras conquistas foram com as escolas de 1ª a 4ª serie, mas a luta se estendeu da educação infantil a universidade, realidade conquistada através do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária - PRONERA a reflexão pedagógica do movimento amplia com o desafio da alfabetização dos jovens e adultos dos acampamentos e assentamentos e no trabalho conjunto a formação da militância. Caldart (2003) aborda que com o setor de educação formado surge um questionamento, que escola, ou que modelo pedagógico combina com o jeito dos Sem Terra e pode ajudar o MST? A resposta vem da pratica no cotidiano de cada assentamento e acampamento aliado à troca de experiências vividas. [...] não existe um modelo ou um tipo de escola que seja próprio para um grupo ou outro, ou que seja revolucionário em si mesmo. Trata-se é de alterar a postura dos educadores e o jeito de ser da escola como um todo; trata-se de cultivar uma disposição e uma sensibilidade pedagógica de entrar em movimento. (CALDART, 2003, p. 63). Ao longo da caminhada dos trabalhadores Sem Terra, eles observam que sozinhos não conseguem construir sua escola, assim como avançar na luta pela reforma agrária, o isolamento político e cultural impedia de avançar para um projeto político maior onde o sujeito como ser social em constante movimento é o propulsor da historia. Segundo Caldart (2003) São os desafios do campo em movimento que multiplicam as lutas sociais por educação. Assim compreendemos que a luta ajuda a conscientizar pelo direito a educação e que aos poucos transforma em dever de lutar por direito a uma educação de qualidade, respeitando o modo de vida do homem do campo. No MST a reflexão é a seguinte: O Movimento educa as pessoas que dele fazem parte à medida que as coloca como sujeitos enraizados no movimento da história, e vivendo experiências de formação humana que são próprias do jeito da organização participar da luta de classes, principal forma em que se apresenta o movimento da história. Mesmo que cada 16 pessoa não saiba disso, cada vez que ela toma parte das ações do MST, fazendo sua tarefa específica, pequena ou grande, ela está ajudando a construir a identidade Sem Terra, a identidade dos lutadores do povo, e está se transformando, se reeducando como ser humano. (CALDART, 2003, p.71). No movimento há uma dinâmica de cultivar e fortalecer os processos de enraizamento humano, seguindo três princípios básicos a memória, a mística e os valores, estes são sempre lembrados fortalecidos dentro das atividades de cada setor do movimento. 17 3 BIBLIOTECA NO ASSENTAMENTO ROSÁRIO ESPAÇO DE CIDADANIA A biblioteca como espaço de cidadania é a oportunidade do homem do campo torna-se incluído e visto como cidadão participante do desenvolvimento da sociedade, atendo seu direito a educação e a informação. Dentro destes tópicos escolhidos o objetivo é mostrar o cidadão como ser impulsionador das ações da biblioteca. No Seminário A Construção da Cidadania na Universidade de Brasília - UNB, que tratou sobre o desafio de distinguir a cidadania do trabalhador rural, aborda que não existem duas cidadanias, mas no que tange ao universo rural pode-se falar em direitos específicos, porem que os direitos ao cidadão urbano sejam estendidos ao cidadão rural. Cidadania tema a ver com liberdade; é uma noção que nasce de um projeto burguês que, espero , transcenda a sociedade burguesa. Só entendo cidadania quando direitos políticos, civis e sociais são naturalizados. Ou seja, no contexto de uma sociedade nacional, o que é direito do cidadão tem de se confundir com direitos humanos. È por isso que digo que aquilo que é conquista da burguesia na verdade deixou de ser puramente burguês; quando digo que direitos de cidadania são direitos humanos, estou simplesmente naturalizando, universalizando aquela conquista da burguesia e fazendo-a uma conquista da humanidade enquanto tal. (REIS, 1986, p.55) Segundo Covre (1993) os direitos assegurados na constituição para os cidadãos é uma grande conquista de projetos igualitários, mas para isto é necessário o confronto político visando garantir a existência da cidadania com a pratica da reivindicação e da apropriação de espaços, na luta para fazer valer nossos direitos. 3.1 BIBLIOTECA Fonseca (2007) ao dar um novo conceito à biblioteca propõe que esta não seja mais uma coleção de livros ou documentos, devidamente catalogados, e sim uma assembleia de usuários da informação. As bibliotecas são classificadas de acordo com as funções que desempenham e o tipo de usuário que utilizam os serviços. Sendo identificadas 18 como bibliotecas nacionais, universitárias, públicas, escolares, especiais e especializadas. A informação nasce conjuntamente com o processo de civilização sendo este sinônimo de desenvolvimento do homem e da nação, e desta forma foi objeto de poder e continua nos tempos atuais onde são crescentes as diferenças sociais e econômicas entre os que possuem informação e aqueles que estão destituídos do acesso a ela. Dentro deste contexto, cabe à biblioteca pública atuar, como instituição democrática por excelência, e contribuir para que esta situação não se acentue ainda mais e que a oportunidade seja oferecida a todos. (FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, 2000). 3.2 BIBLIOTECA PÚBLICA Abordado por Almeida Junior (2003, p. 68), acerca do surgimento das Bibliotecas Públicas. A origem da biblioteca pública não pode ser entendida, simplificadamente, como oriunda dos reclamos das classes populares ou, inversamente, pelas benesses das classes detentoras do poder. Aquele momento histórico (meados do século XIX) leva-nos a reconhecer a influência, a mescla, a intersecção dessas e de outras causas. A biblioteca pública surge, não isoladamente, deslocada dos acontecimentos e da situação da sociedade daquela época. Ao contrário, ela está imersa nas transformações, nas mudanças e alterações daquela época e, assim, deveria continuar participando de cada cenário histórico, cenários não estanques, mas dinâmicos e em constante mutação. A biblioteca pública deve ser reflexo e causa das transformações da sociedade; deve receber influências, interferir, ser início, meio e fim das alterações sociais, numa sequencia interminável. Sua origem esteve sustentada por esse quadro. (ALMEIDA JÚNIOR, 2003, p. 68) Esta conquista surgiu pela transformação da sociedade que visa o acesso a informação, antes mantida apenas nas mãos de uma minoria de usuários. Na reflexão de Almeida Junior, estas bibliotecas que os historiadores apontam no começo da Biblioteca Pública é um modelo tradicional, pois acreditavam que seu único usuário era o alfabetizado e seu suporte os livros serviam para estudo e o lado cultural atendia apenas o erudito. Na história da biblioteca pública percebe-se que nesta trajetória a guarda e preservação dos livros eram o foco principal. Em seguida nasce à disseminação do 19 conhecimento, momento em que o usuário passa ser peça importante para a sustentação de uma biblioteca, assim surgem os estudos de usuários, onde são percebidas as necessidades, a percepção do público que a frequenta, bem como estarem atentas às mudanças da sociedade. O conceito de biblioteca Pública acompanhou as mudanças da sociedade, o espaço da biblioteca passa a ser democrático, entende-se que a missão da biblioteca pública é ser o espaço mediador entre a sociedade é a informação. O Manifesto da UNESCO evidencia que o papel da biblioteca pública é uma instituição democrática de caráter cultural e educacional. A biblioteca pública foi criada na Inglaterra fruto da Revolução Industrial, no final do século XIX, e ao longo do tempo passou por transformações em seu conceito. A evolução do conceito de biblioteca pública foi traçado com os diversos Manifestos da UNESCO publicados ao longo dos anos. O primeiro Manifesto da Biblioteca Pública publicado pela UNESCO ocorreu, em 1949, onde destacava sua função em relação ao ensino. Segundo Suaiden (1995) a primeira biblioteca pública instalada no Brasil, foi, fundada em 4 de agosto de 1811 na Bahia, por iniciativas dos cidadãos, pois as bibliotecas existentes aqui, estavam instaladas nos conventos. Após esta iniciativa, outras bibliotecas públicas surgem no Brasil. Na implantação destas bibliotecas, muitas não tinham sede própria, ocupavam locais inapropriados ao uso da biblioteca, que apenas em 1970 começa a construir prédios adequados as bibliotecas. O que caracteriza a biblioteca pública é o caráter da coletividade de ser um espaço destinado a toda população e de atender a todos os gêneros informacionais, de modo democrático. Desta forma entende-se que a função social da biblioteca pública é manter os laços de convivência com a realidade local e ser intercâmbio de informação, bem como um centro de educação permanente para o indivíduo. Nisto a realidade é bastante contrastante, pois os conflitos urbanos refletem na educação, no lazer, interferindo no hábito pela leitura. Este é o grande desafio das bibliotecas públicas no campo social: fazer com que os excluídos se tornem incluídos dentro da sociedade, incentivando ao desenvolvimento da cidadania de sua comunidade. 20 3.3 BIBLIOTECA COMUNITÁRIA A biblioteca comunitária surge no seio da comunidade é o resultado de pessoas engajadas com a disseminação da informação, também vista como biblioteca popular por disponibilizar um serviço semelhante ao um público comum às duas. Para a Biblioteconomia, elas são tidas como públicas por terem o mesmo entendimento, ou seja, o de democratizar o acesso ao livro e a informação. No Brasil, as bibliotecas comunitárias têm se apresentado como novos espaços de informação e leitura, mas que na maioria das vezes não contam com profissionais da informação a frente de seus trabalhos, mas sim membros dessas comunidades. (BASTOS; ALMEIDA; ROMÃO, 2011). A biblioteca comunitária é um espaço de educação permanente, pois promove a cultura e o lazer e o livre acesso ao livro e a informação, desta forma promovendo os direitos da cidadania, estas iniciativas surgem na ausência do poder público em promover bens culturais de acesso a todos os cidadãos. 3.3.1 Missões da Biblioteca Pública As seguintes missões básicas relacionadas à informação, alfabetização, educação e cultura devem estar na essência dos serviços da biblioteca pública: “1. Criar e fortalecer hábitos de leitura nas crianças desde a mais tenra idade; 2. Apoiar tanto a educação individual e autodidata como a educação formal em todos os níveis; 3. Proporcionar oportunidades para o desenvolvimento criativo pessoal; 4. Estimular a imaginação e criatividade da criança e dos jovens; 5. Promover o conhecimento da herança cultural, apreciação das artes, realizações e inovações científicas; 6. Propiciar acesso às expressões culturais das artes em geral; 7. Fomentar o diálogo intercultural e favorecer a diversidade cultural; 8. Apoiar a tradição oral; 9. Garantir acesso aos cidadãos a todo tipo de informação comunitária; 10. Proporcionar serviços de informação adequados a empresas locais, associações e grupos de interesse; 11. Facilitar o desenvolvimento da informação e da habilidade no uso do computador; 12. Apoiar e participar de atividades e programas de alfabetização para todos os grupos de idade e implantar tais atividades se necessário.” (FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, 2000, p.22). 21 A missão da biblioteca pública se adéqua a biblioteca comunitária bem como a outras unidades informacionais, pois a missão de garantir acesso à informação aos cidadãos é tarefa que compete a todas as bibliotecas. Estas iniciativas em muitos casos são promovidas por movimentos sociais, e organizações não governamentais - ONG e também de cidadão comprometidos com a formação de novos leitores vem estimulando a muita comunidade carente de espaços culturais a ter o contato com os livros, a roda de leitura e inserir nestes cenários o estimulo e habito pela leitura. MACHADO (2008) afirma que diante da escassez de literatura sobre biblioteca comunitária, essa terminologia vem sendo empregada pela sociedade em geral , como sinônimo de biblioteca popular, isto pela carência de literatura sobre o assunto. A temática da biblioteca comunitária como estudo é muito pouco disseminada, ou melhor, discutida nos periódicos da ciência da informação segundo artigo do periódico, Informação e Sociedade abordado por Basto, Almeida e Romão (2011). A biblioteca comunitária vem suprir uma necessidade informacional, cultural e de lazer nas comunidades onde são instaladas, independente da classe social. Conforme Basto, Almeida e Romão (2011) a temática da biblioteca comunitária na área da ciência da informação é pouco discutida, esta informação foi verificada após observar a figura 1 sobre os artigos acerca do tema nos periódicos especializado da área, comparados a outras tipologias, como: bibliotecas escolares, universitárias e públicas. . Figura: 1 - Periódicos Nacionais de Ciência da Informação e relação de artigos publicados entre 2006-2011 acerca da temática das bibliotecas comunitárias Fonte: Inf. & Soc.:Est., João Pessoa, v.21, n.3, p. 87, set./dez. 2011 22 A figura 1 é para ilustrar que a temática da biblioteca comunitária necessita ser mais estudada, ou melhor, discutida na área da ciência da informação, pois esta surge do distanciamento dos espaços informacionais e as comunidades. [...] os objetivos das bibliotecas comunitárias está a preocupação em atender às demandas da comunidade a que se destinam. Portanto, esse tipo de biblioteca se destaca em função dos interesses dos cidadãos em conhecer, buscar informações para o desenvolvimento e domínio das habilidades de pensar, ler, escrever, e de entrar em contato com textos escritos que estejam disponíveis em contextos motivadores da leitura. (MADELLA, 2010, p.51-52). Segundo Madella (2010, p.49) a característica da biblioteca comunitária esta no “espaço indissociáveis do processo de inclusão e de formação de um cidadão leitor, ultrapassando a aquisição de informação e criando oportunidades para sua apropriação e ressignificação”. Prado (2010) compara a biblioteca comunitária a um território de memória, atuando como sujeito ativo, espaço ideal de leitura, educação, organização social, espaço de cidadania. É possível visualizar a biblioteca comunitária como denúncia do pouco interesse estatal pela cidadania. Pois ela está desempenhando de forma criativa e diversificada gama de atividades e ações permanentes e esporádicas na comunidade, desenvolve a função de disponibilizar livros para consulta local e empréstimo, assim como o oferecimento de oficinas diversas. (MADELLA, 2010, p.142) Afirmar que a biblioteca comunitária é um espaço de cidadania é reafirmar o que o manifesto da UNESCO diz em relação a biblioteca pública que esta é uma instituição democrática de caráter cultural e educacional o diferencial aqui é que a comunidade é o gestor do processo. 3.4 BIBLIOTECA RURAL Para melhor compreensão sobre a biblioteca rural que esta inserida no contexto das comunidades rurais o conceito sobre comunidade faz-se necessário. “Comunidade conjunto de habitantes de um mesmo Estado ou qualquer grupo social cujos elementos vivam numa dada área, sob um governo comum e irmanados por um mesmo legado cultural e histórico”. (HOUAISS; VILLAR, 2001, p) 23 Para descrever uma comunidade rural, a definição de comunidades rurais usado por Soares e Carneiro (2010, p. 16) é a que melhor se adéqua ao estudo. [...] pode ser usada para os povoados e núcleos rurais, para as localidades de residência e trabalho de agricultores familiares, os aglomerados rurais dos parcelamentos de terra, os assentamentos da reforma agrária, as comunidades de remanescentes de quilombos, as indígenas, ribeirinhas e os agrupamentos de famílias trabalhadoras e residentes em grandes propriedades agrícolas. As comunidades rurais têm entre 10 a 150 famílias e muitas se encontram em localidades de difícil acesso . (SOARES; CARNEIRO, 2010, p.16) Soares e Carneiro (2010) aborda que as comunidades rurais são localidade de difícil acesso, esta é a realidade de muitos municípios no Brasil rural, onde uns estão distantes de áreas urbanas, assim como outros municípios que se assemelham a comunidades rurais, pela sua produção de bens, pois nos centros encontramos produção de consumo e serviço e no campo a produção de alimentos. Os trabalhadores rurais organizados e mobilizados tem fortalecido o Brasil rural quanto as políticas de acesso à terra e ampliação de projetos e créditos governamentais as famílias do campo, isto em virtude da luta dos movimentos sociais e dos sindicatos que fortaleceram as ações de ocupação de terras, conquistando projetos e proposta de reforma agrária que ampliam as condições dos trabalhadores no campo. Planejar uma biblioteca rural para as comunidades do campo é importante compreender as necessidades financeiras e estruturas públicas existentes, conhecer a cultura local para pensar conjuntamente na instalação de uma biblioteca rural, pois bem sabemos da situação em que se encontram a bibliotecas públicas urbanas, para compreendermos as deficiências encontradas nas pequenas cidades. Uma boa proposta é mobilizar a comunidade local para um trabalho em conjunto buscando parcerias que possam doar os livros. O Programa de Bibliotecas Rurais Arca das Letras criado em 2003, pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário- MDA vem atender as comunidades rurais, com o objetivo de facilitar o acesso aos livros e incentivar a leitura no meio rural brasileiro, por meio da instalação de bibliotecas e de formação de agentes de leitura. (SOARES, CARNEIRO, 2010, p. 18). Dentro do perfil de biblioteca comunitária, estão às bibliotecas comunitárias rurais instaladas nos assentamentos. Em local escolhido pela comunidade, e de fácil 24 acesso aos moradores e o atendimento não se destina somente a estudante, mas a todos da comunidade, este é o compromisso que os agentes de leitura abraçam ao receber a Arca das letras. O programa é uma semente no resgate de cidadania as famílias do campo. Para Freire (2001) a biblioteca representa um centro cultural e não um amontoado de livros sem expressões, incapazes de fornecer subsídios para várias atividades culturais com capacidade. Representa uma forma de desenvolver um belo trabalho em regiões populares e, sobretudo as comunidades do campo. . 25 4 O PROGRAMA ARCA DAS LETRAS Fruto da luta dos movimentos ligado ao homem do campo às políticas públicas voltadas ao meio rural vem melhorando a permanência deles no campo com projetos voltados as necessidades apontadas por eles. “As políticas públicas resultam de um conjunto de intervenções que expressam os conflitos de interesses das camadas e classes sociais, como instrumento de uma luta pela detenção da hegemonia de um determinado campo da sociedade.” (NOVAES, 2007, p.3). Apontado por Almeida (2012) ao se referi as políticas publicas voltadas ao meio rural, ele aborda o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária – PRONERA criado pelo Instituto de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, este destinado a promover educação no campo. Criado com base nas solicitações dos movimentos sociais e sindicatos dos trabalhadores rurais vêm promovendo a inserção de jovens filhos de assentados nos cursos técnicos e superior com convênios entre as Universidades e os Institutos Federais. De acordo com Rodrigues (2010) o governo brasileiro tem desempenhado esforços em promover políticas publicas que visam o acesso ao livro e a leitura. Os programas tem o objetivo de formar leitores, melhorar os acervos, assim incentivar mais a leitura. Estas iniciativas buscam garantir um melhor acesso aos livros e a informação, elementos essenciais à educação e à cidadania. Um dos programas nacional para promoção da leitura foi o Programa Nacional de Incentivo à Leitura/PROLER da Fundação Biblioteca Nacional/MinC , criado em 13 de maio de 1992 por decreto presidencial. Este foi o primeiro programa do governo federal voltado para a leitura. O objetivo central do PROLER é o de assegurar e democratizar o acesso à leitura e ao livro a toda a sociedade, com base na compreensão de que a leitura e a escrita são instrumentos indispensáveis na época contemporânea. (FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, 2007). Com o objetivo de incentivar a leitura as famílias de áreas rurais no Brasil, O MDA lança o Programa de Bibliotecas Rurais Arca das Letras em 2003, democratizando o acesso aos livros nas comunidades de assentados da reforma agrária, comunidades do Programa Nacional de Crédito Fundiário, comunidades ribeirinhas, quilombolas, indígenas e pescadores, assistidas pelo programa. O programa está vinculado ao Plano Nacional do Livro e da Leitura – PNLL do 26 Governo Federal que juntos tem a capacidade de organizar redes de bibliotecas rurais, com a participação social e política que visam fortalecer as ações culturais no campo. As primeiras bibliotecas Arca das Letras foram implantadas como projeto piloto em cinco comunidades rurais do semiárido de Pernambuco, Paraíba e no estado do Rio Grande do Sul entre maio e junho de 2003. (SOARES, 2010, p. 4). Esta iniciativa alcançou mais de dez mil bibliotecas rurais implantadas dentro de dez anos de sua criação. A proposta da biblioteca rural foi idealizada pela bibliotecária Cleide Cristina Soares, especialista em gestão cultural pelo Programa de Pós-Graduação do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC) e em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília (UnB). A missão do programa Arca das Letras é promover o acesso ao livro à leitura possibilitando a participação cidadã, contribuindo para o fortalecimento do meio rural. (BRASIL, 2013). A biblioteca é um instrumento mobilizador da comunidade por promover a participação cidadã e o acesso ao livro às famílias em áreas rurais. O Programa Arca das Letras vem suprindo a lacuna existente no campo em relação a equipamentos culturais perenes em comunidades rurais e, graças ao grande numero de bibliotecas já instaladas e à qualificação de agentes de leitura como agentes culturais, apresenta-se como política de leitura capaz de instituir espaços adequados para intensificar a atuação em outras áreas da cultura. (SOARES, 2010, p. 16). A dinâmica para o êxito das bibliotecas foi a capacitação de agentes de leitura, voluntario da comunidade que são os responsáveis pela gestão da biblioteca como mediadores da leitura, responsáveis pelos empréstimos e pela guarda dos livros. Para isto o mesmo tem que ter boa relação com a comunidade que facilita o acesso aos materiais. O Agente de Leitura é a peça chave para que as ações da biblioteca Arca das Letras obtenham êxito. São capacitados quanto aos procedimentos metodológicos em relação aos cuidados com os livros e o empréstimo. Recebem, também, orientações sobre como mobilizar a comunidade em prol de ações culturais. (BRASIL, 2013, p.31). A biblioteca Arca das Letras chega à comunidade contendo cerca de 200 livros como literatura infantil, literatura para jovens e adultos, livros técnicos e didáticos para as pesquisas escolares. O acervo é organizado pela equipe nacional 27 de coordenação do Programa. Eles são carimbados e tem identificação do programa com a papeleta para devolução e classificados com etiquetas coloridas distinguindo o material como etiqueta branca são os livros de literatura infantil, etiqueta laranja os livros para jovens e adultos, etiqueta verde os livros didáticos e de referencias em geral e os de etiqueta azul os livros técnicos e especializados nas áreas de interesse e necessidade da comunidade. (RODRIGUES, 2010) 4.1 ARCA DAS LETRAS NO RIO GRANDE DO NORTE No Rio Grande do Norte o programa é executado pelo governo do Estado, através da Secretaria de Estado de Assuntos Fundiários e de Apoio à Reforma Agrária - SEARA e entidades parceiras. O RN é o terceiro estado com maior número de Arcas no Brasil. De março de 2004, período de sua implantação no Estado, já foram distribuídas 659 bibliotecas com quase 90 mil livros, dos quais 70 mil já foram lidos pelos 117.800 leitores cadastrados pelos 1.069 agentes de leitura capacitados pela SEARA. O móvel da arca é fabricado na marcenaria da Penitenciária Agrícola Mário Negócio, em Mossoró-RN. 7 (RIO GRANDE DO NORTE, 2014). Para uma comunidade receber a Arca das Letras, ela necessita mobilizar a comunidade para aderir ao programa, mobilizando as lideranças locais. Fazer com que todos possam refletir sobre a importância de uma biblioteca na comunidade, a função desta e as contribuições culturais e sociais que podem surgir com este trabalho. O segundo passo é o preenchimento do formulário que traça o perfil das famílias beneficiadas quanto aos aspectos culturais, educacionais e econômicos e com a definição do responsável, ou melhor, o agente de leitura na comunidade, este é nomeado na reunião com todos da comunidade, pois este terá que ser uma pessoa que tenha acesso a todos da comunidade. O formulário encontra-se disponível no site: www.mda.gov.br/arcadasletras O agente de leitura passa por uma capacitação com a equipe de coordenação do programa arca das letras, para uma melhor gestão da biblioteca na comunidade, este fica responsável pela guarda e o controle do empréstimo dos materiais. Ele também tem a tarefa de forma outros agentes na comunidade, formando uma gestão coletiva na biblioteca em caso de desistência do agente o 7 SEARA: http://www.seara.rn.gov.br 28 mesmo deve informar a comunidade para que outro seja nomeado e possa assumir os trabalhos e receber a arca. Os agentes de leitura devem ficar atentos aos diversos editais de apoio à cultura, à leitura e ao desenvolvimento de bibliotecas para ampliarem suas atividades e conquistarem melhor condições de trabalho. O Ministério da Cultura, o banco do Nordeste, o Itaú Cultural, UNICEF, Banco do Brasil e caixa Econômica Federal são exemplos de instituições que sempre publicam editais de interesse para as bibliotecas e para leitura. (SOARES, 2010, p.9) Para a fabricação das arcas são realizadas parcerias com o Ministério da Justiça – MJ, que viabiliza a construção nas marcenarias de projetos sociais como os sentenciados de penitenciarias. No RN o Programa Arca das Letras conta com a parceria do Banco do Nordeste do Brasil - BNB, Secretaria Extraordinária da Cultura – SEC, Secretaria de Estado e da Justiça e Cidadania – SEJUC (Penitenciaria Agrícola Mario Negocio – Mossoró/RN), Fundação Jose Augusto – FJA, Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente - IDEMA.(ALMEIDA, 2012) Figura 2 - Imagem do móvel da Arca das Letras Fonte:http://cazadoresdebiblioteca.blogspot.com.br/2013/08/arca-das-letras-feira-empresidente.html 29 5 O ASSENTAMENTO ROSÁRIO O município de Ceará-Mirim abrange uma área de 724,381 km² que corresponde a 1,37% da superfície estadual, limita-se ao norte com Pureza e Maxaranguape, ao sul com São Gonçalo do Amarante e Ielmo Marinho, a leste com o Oceano. Atlântico e com o município de Extremoz, a oeste com Taipu. Figura 3 - Mapa do Rio Grande do Norte destaque ao município de Ceará-Mirim Fonte: IBGE 2014 cartograma As figuras 3 e 4 vem ilustrar para uma melhor clareza sobre o espaço geografico mencionado , sua area e seus limitrofes. 30 Figura 4 - Mapa do municipio de Ceará-Mirim e seus limítrofes Fonte: wikimedia.org.8 A historia de Ceará-Mirim está ligada aos índios Potiguares que viviam as margens do rio Ceará-Mirim e que de forma clandestina comercializavam o paubrasil com os franceses e espanhóis, em troca de especiarias. Antonio Felipe Camarão o índio (Poty) juntamente com os portugueses organizaram um povoado, fundando um convento na aldeia do Guajiru numa área de 8 http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cear%C3%A1-Mirim_%28RN%29_e_munic%C3%ADpios_lim%C3%ADtrofes.svg?uselang=pt 31 terras concedida aos padres da Companhia de Jesus, construíram uma igreja e a câmara municipal. (MONTENEGRO, 2004). Uma Carta Régia do Marquês de Pombal proibiu sumariamente, sem qualquer motivo nem explicação, a participação de jesuítas na organização administrativa e de ensino do povoado. Com o afastamento dos jesuítas, os índios pressionados pelos colonizadores acabaram negociando suas terras com estranhos. Nessa época, chegaram os negros vindos da África, e com eles começava o trabalho cativo e formação dos engenhos de cana-deaçúcar, que vieram a comandar a economia e a história do vale do CearáMirim. Nascia, assim, uma civilização própria com base nos senhores de engenho, conscientes do domínio econômico que exerciam, e de uma fidalguia poderosa e elegante. Era o final do século XIX, o vale prosperava e crescia com a produção canavieira. (INSTITUTO, 2014). O Vale de Ceará-Mirim foi palco da aristocracia açucareira. Que teve inicio na segunda metade do século XIX, quando iniciou o cultivo da cana-de-açúcar as margens do rio Ceará-Mirim. (AQUINO, et al, 2014). Montenegro (2004) aborda que Ceará-Mirim no período de 1884 a 1910 foi um dos mais importantes municípios potiguares, chegando a produzir 60% do açúcar de todo o Estado. Neste período o açúcar proporcionou uma geração abastarda os senhores de engenho enviavam seus filhos para estudar na Europa, em Pernambuco, na Bahia ou em São Paulo. A cana de açúcar foi um componente importante para a formação social e econômica do Vale de Ceará-Mirim, porem veio experimentar um declínio com as mudanças econômicas ao longo dos anos e a perda de auxílios proporcionados pelo governo federal, que diversificou a cultura econômica na região. O município conta com duas bibliotecas uma a Biblioteca Publica Municipal Dr. José Pacheco Dantas e Biblioteca Especializada em Direito do Fórum Desembargador Virgilio Dantas. Em 18 de março de 1998 os imóveis: Fazenda Santa Maria/São Sebastião/Rosário com área de 1.550,6251ha é denominado de imóvel de interesse social para fins de Reforma Agrária. O Projeto de Assentamento Rosário foi criado pela portaria publicada no D.O.U em 19 de março de 1998, beneficiando 120 famílias. (SINEDINO, 2003). O Assentamento Rosário está localizado no Município de Ceará-Mirim-RN, distante 23 km da sede municipal, o acesso que liga o assentamento a sede municipal dar-se pela RN-064 que liga Ceará-Mirim a Touros, sua primeira agrovila fica aproximadamente 1 km da RN-064. 32 Abordado por Sinedino (2003) que o MST realizou o trabalho de organização das famílias o qual durou nove meses resgatando famílias das comunidades vizinhas da região do Mato Grande e do Litoral Potiguar, para a ocupação da área. No período da mobilização das famílias para a ocupação da Fazenda, o MSTRN estava atravessando um momento de expulsão de membros da sua direção, estes estavam também empenhados na conquista da terra. Fato que provocou a formação de dois grupos de lideranças na área ocupada. Ficando a formação de um grupo especifico ligado a estes membros que tinham sido desligados do MST, totalizando o grupo com 40(quarenta) participantes, sendo a seguinte a constituição do espaço: de um total de 120 pessoas, 80 seguiam a orientação do MST e 40 pessoas com este grupo dissidente. (SINEDINO, 2003, p.2). Após conquista da terra, começa o processo de desarticulação das famílias que inicialmente estão ligados a uma associação, forma de organização orientada pelo INCRA para a tomada de decisões com os creditos que serão beneficiados. Num primeiro momento foram criadas três associações duas com 40 famílias cada e com representantes do MST e do Sindicato Rural ligado a FETARN e outra com 40 famílias ligadas ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ceará-Mirim e de Maxaranguape ambas ligadas a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Norte – FETARN. Ao longo dos anos novas entidades vão surgindo na luta pelo domínio do território, são membros das outras associações que se juntam formando novas lideranças. Passando o Assentamento a ter cinco associações uma delas formadas por mulheres que trabalham com artesanato utilizando o junco como matéria prima. (SINEDINO, 2003). Segundo (REBOUÇAS, LIMA) 2013 o Assentamento está organizado em duas agrovilas: Rosário e Canudos, as famílias representadas pelo MST permanecem na agrovila Rosário nome dado em homenagem à fazenda ocupada por eles, às famílias representadas pelo sindicato, nomeou a agrovila de Canudos, homenageando a comunidade homônima situada no estado da Bahia. A produção agrícola consiste da agricultura familiar no cultivo de mamão, abacaxi, banana, caju, acerola, goiaba, manga, coco, macaxeira, milho, pimentão, além da produção de tilápia e pecuária de pequeno porte. Para atender a demanda escolar das crianças, jovens e adultos, o espaço do clube de mães e da casa de farinha, é utilizado como sala de aula, uma funcionando 33 como creche e o outro como sala de aula da educação infantil da 1ª a 4ª serie nos turnos matutino e vespertino ambos num mesmo espaço Os demais alunos das series mais avançadas se deslocam para outro município como Maxaranguape/RN ou nas escolas do município de Ceará – Mirim /RN. (REBOUÇAS, LIMA, 2003). Para Montenegro (2004) antes da condição de assentados os homens e mulheres responsáveis pelo sustento da família, já trabalhavam na agricultura. E que em sua maioria não mudou de atividade após estar assentado . Na definição de Bergamasco e Norder (1996) apud Montenegro (2004) assentamento rural pode ser definido como criação de novas unidades de produção agrícola, por meio de políticas governamentais, visando o reordenamento do uso da terra; ou a busca de novos padrões sociais na organização do processo de produção agrícola. Numa ação de extensão da UFRN do Departamento de Arquitetura e Urbanismo, coordenados pela Profª Dra. Amadja Henrique Borges, o assentamento recebeu um projeto de construção dos espaços livres, onde foram construídos uma praça, um campo de futebol, uma quadra de areia e uma biblioteca, estas ações foram do projeto intitulado O verso do reverso na construção do habitat do campo: Gênero, participação e cidadania. Nas figuras 5 a 8 estão ilustrados os trabalhos realizados no Assentamento Rosário e nas figuras 9 e 10 são a planta baixa e a planta de fachada do espaço construído destinado à biblioteca do Assentamento Rosário. Figura 5 – Oficina para montagem dos bancos da praça do Assentamento Rosário. Fonte: Arquivo do GERAH 34 Figura 6 - Oficina para montagem dos bancos da praça do Assentamento Rosário. Fonte: Arquivo do GERAH Figura 7 – Imagem da Praça Fonte: Arquivo do GERAH 35 Figura 8 – Imagem da Biblioteca Fonte: Arquivo do GERAH 5.1 CONTRIBUIÇÕES PARA O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE UMA BIBLIOTECA PARA O ASSENTAMENTO É chegada a hora de pensar uma política de leitura. “Uma política é uma ação constante do Estado. Não é uma campanha, não é um evento e nem pode ser apenas uma série de acontecimentos espalhados no tempo’’. (FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, 2007). Aqui entendemos que uma política não se configura com uma ação pontual de distribuição de livros num gesto do Estado ou de uma empresa publico ou privada, mas de um trabalho de mobilização com condições e de forma continuada para assim manter a chama acessa. Temos duas ferramentas fortes para tornarmos uma sociedade de leitores críticos consciente do nosso espaço como cidadão. Estas ferramentas são o Programa Nacional de Incentivo a Leitura – PROLER e o Plano Nacional do Livro e Leitura – PNLL e junto a estes o Programa Arca das Letras voltado ao meio rural. Estas vem proporcionar o acesso aos livros, tanto na cidade como no campo. Com elas poderemos reverter às estatísticas da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 36 realizado pelo Instituto Pró-Livro em 2011, que nos coloca nos índices mais baixos de leitura e compreensão de textos. [...] uma política de leitura tem que ser permanente, tem que contar com investimentos públicos e tem que funcionar apoiada em uma articulação interministerial e institucional. E isto é o que o PROLER tenta fazer: há 15 anos é um programa que, ao promover uma articulação do Estado com a sociedade, assume a leitura como uma questão fundamental e definitiva para a cidadania, para a formação do cidadão-leitor. Mas o PROLER se ressente da falta de investimento público. É como se tivéssemos a receita do bolo, mas não o dinheiro para comprar os ingredientes . (FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, 2007, p.3, grifo do autor). O Assentamento Rosário foi contemplado com duas arcas das letras uma em cada agrovila, porem não mais funcionando como no início da implantação. Com o projeto de extensão do DARQ/UFRN o assentamento ganhou um espaço para uma biblioteca que necessita agora mobilização das famílias para realizar parcerias para montar toda a infraestrutura necessária para o funcionamento. Figura 9 - Planta Baixa da Biblioteca Fonte : Arquivo do GERAH 37 Figura 10 - Planilha das Fachadas da Biblioteca Fonte: Arquivo do GERAH Em reuniões quando o projeto de extensão o “verso do reverso na construção do habitat do campo”, estava atuando no assentamento, as famílias relataram o desejo de ter um espaço de lazer para as crianças e os jovens, e que os livros que receberam estavam na escola do assentamento que funciona na casa de farinha. Resultado do trabalho de extensão Acessibilidade a Informação: Desafios e Perspectivas na Área da Biblioteconomia do Departamento de Ciências da Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - DECIN/UFRN coordenado pela Prof.ª Msc. Antônia de Freitas Neta foram doados, para o assentamento 96 livros de literatura. Como proposta para o assentamento a ideia é firmar uma parceria com o Departamento do DECIN para realizarmos uma oficina com os jovens e as lideranças do assentamento para formar técnicos de bibliotecas que venham dar continuidade ao projeto da biblioteca comunitária do assentamento. Buscar parcerias para doar a biblioteca as estantes, mesas e cadeiras e uma nova campanha de doação de livros. Um exemplo de projeto pontual é o Leitura de Barraco, trabalho do Curso de Ciência da Informação e Documentação da Faculdade de Filosofia e Ciências e letras de Ribeirão Preto (FFCLRP/USP), realizado no Assentamento Mario Lago em 38 Ribeirão Preto-SP, a proposta foi a construção de uma biblioteca itinerante no assentamento. O projeto "Leitura de Barraco" organiza uma biblioteca itinerante em caixotes de frutas e legumes, que circulam nas 400 famílias que vivem no Assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto - SP. Este projeto, inclusive, ganhou um prêmio do Conselho Regional de Biblioteconomia do Estado de São Paulo como o melhor trabalho acadêmico de 2010. "Leitura de Barraco: efeitos de leitura em uma biblioteca itinerante" garantiu a Adelino Alves, aluno formado pelo curso de Ciências da Informação e Documentação da USP, o "9º Prêmio Laura Russo". O trabalho teve orientação da professora Lucília Maria Souza Romão, criadora do "Leitura de Barraco". Para Márcia de Araújo, educadora sementeira, o projeto abre novos horizontes para os assentados pois “lendo a gente conhece outros mundos e se identifica com eles, com outras vidas ou com outra parte da vida dele mesmo, em que ele se engaja. (...) Então é o ler, o estudar, o conhecer, o entender para se 9 libertar”. (MST, 2010) Organizar uma biblioteca comunitária no assentamento é uma oportunidade para a universidade estabelecer um diálogo, uma troca de saberes é unir a técnica a pratica, com os assentados em busca de troca de conhecimentos. O campo não produz só alimento, do campo nascem poetas, cordelistas, mamulengueiros, técnicos agrícolas, técnicos ambientais, doutores, historiadores e pedagogos, o campo tem fome de conhecimento. 9 http://www.mst.org.br/node/10315 39 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS A pesquisa partiu do objetivo de estudar o Programa Arca das Letras que vem oportunizando acesso à informação ao homem do campo. E como objetivo específico conhecer o funcionamento da Arca das Letras no Assentamento Rosário. Os objetivos, podemos chamar de inquietações para saber o que estava sendo desenvolvido na área da ciência da informação para as comunidades do campo. Para uma área de assentamento rural o objetivo de uma biblioteca comunitária é de promover momentos de lazer e de cultura e também de opor-se a exclusão social. Num primeiro momento é apresentado de forma breve o nascimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e de sua organização e abrangência nacional. Sua luta pela educação nos acampamentos e assentamento, a formação técnica e o ensino superior aos filhos e filhas de assentados da reforma agrária. No RN com o êxito da ocupação da fazenda Marajó na região do Mato Grande, surge à primeira conquista do movimento que fortalecido organiza outras ocupações na região. Num segundo momento a abordagem voltada para a biblioteca como espaço de cidadania, processo de inclusão e de formação de um cidadão, um território de memória. A biblioteca pública e a comunitária apresentam suas similaridades, mas destacam diferença na gestão. O surgimento da biblioteca comunitária como forma de acesso a informação, caso das comunidades rurais que vem ganhando destaque graças às conquistas das organizações e movimento que trabalham para garantir os direitos do homem do campo. Num terceiro momento o foco da pesquisa é o Programa Arca das Letras, voltado às comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e de comunidade de assentamentos rurais. A ideia era conhecer o funcionamento do programa como este chegava às comunidades e o processo de formação dos agentes de leitura. Num quarto momento discorre sobre o Assentamento Rosário localizado no município de Ceará-Mirim e as contribuições para o processo de instalação de uma biblioteca no assentamento. Verifica com o objetivo geral que o programa tem alcançado um numero expressivo de bibliotecas nas áreas proposta pelo programa, e que vem promovendo a democratização do acesso aos livros a estas comunidades. Porem algumas atribuições aos agentes de leitura proposto no Programa Arca das Letras, 40 descrita no manual, não condizem com a realidade de muitas áreas de assentamento rural, tais como a grau de escolaridade do agente e disponibilidade de internet no assentamento para este tomar conhecimento de novos editais para renovar o acervo da biblioteca, outro fator observado é o de que o agente após a formação recebida pela equipe de coordenação do Programa o torna capaz para formar outros agentes. Estas atribuições melhor se adéquam a coordenação estadual do programa uma vez que dispõe de condições para tal, em vista que o agente doa o tempo disponível e o espaço de sua residência em alguns caso para acolher os leitores fora as atividades particulares de cada agente. Nos momentos das oficinas do Grupo de Estudo em Reforma Agrária e Habitat referente ao projeto de extensão O Verso do Reverso na Construção do Habitat do Campo: gênero, participação e cidadania, projeto do departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFRN identificou que na área estudada, a biblioteca Arca das Letras foi desativada e seus livros, foram para a sala de aula que funciona no assentamento, mudando o foco de comunitária para escolar. Esta mudança vai de encontro com a proposta do Programa Arca das Letras que é de promover e estimular a leitura através dos agentes de leitura. Mas entendemos que mesmo estando na escola os livros estão disponíveis a comunidade e sua função atendida. Constata com a desativação da biblioteca Arca das Letras no Assentamento Rosário, que o agente de leitura não conseguiu capacitar outro agente para dar continuidade aos trabalhos e que houve ausência de encontro de avaliação nesta comunidade, importante para detectar as fragilidades no andamento dos trabalhos. Conclui que para instalar uma biblioteca comunitária no assentamento o trabalho tem que atingir não somente seus lideres, mas toda a comunidade, pois a gestão de uma biblioteca comunitária é de responsabilidade de todos os que estão inseridos nela atuando de forma participativa para manter sempre ativa a biblioteca Uma parceria do Departamento da Ciência da Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte com o Assentamento Rosário atende aos desejos da comunidade em promover espaços de lazer e de cultura às famílias do assentamento. Desejos que foram atendidos em parte pelo GERAH/DARQ/UFRN, na construção de um espaço destinado a uma biblioteca no assentamento dentre outros que o projeto de extensão atendeu. A parceria do DECIN/UFRN ajudara a organizar uma biblioteca no assentamento e formar auxiliares de biblioteca que possam dar continuidade aos trabalhos da biblioteca, uma Biblioteca Comunitária 41 instalada no centro do assentamento aberta a todos da comunidade, com materiais produzidos pela comunidade e de doações das famílias assentadas Este trabalho foi importante para entender o funcionamento do Programa Arca das Letras, mas que abre caminho para novas pesquisas, e contribuições ao programa na possibilidade de unirmos esforços para que o programa possa ampliar e que na equipe conste com profissionais bibliotecários para estar presente e poder assessorar os agentes ou futuros técnicos de bibliotecas do campo. 42 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Edson Marques. Programa de bibliotecas rurais arca das letras no Rio Grande do Norte. 2012. 54 f. Monografia (Graduação) - Curso de Biblioteconomia, Departamento de Ciências da Informação, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2012. ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Biblioteca Pública: Avaliação de Serviços. Ed. Eduel. Londrina, 2003. ARQUINO, A.F. et al. O etanol da cana de açúcar: possibilidades energéticas da região de Ceará-Mirim-RN. HOLOS, Ano 30, V. 01. fev./2014. Disponível em: <http://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/HOLOS/article/view/713 >. Acesso em 13. nov.2014. BERGAMASCO, Sonia Maria Pessoa Pereira. A realidade dos assentamentos rurais por detrás dos números. Estudos avançados. São Paulo. vol.11n.31set./dez.1997. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010340141997000300003>. Acesso em: 09 de Nov. 2014. BASTOS, Gustavo Grandini; ALMEIDA, Marcos Antonio; ROMÃO, Lucília Mª Sousa. 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