Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa Lato Sensu em Leitura e Produção de Textos Trabalho de Conclusão de Curso O PODER, O SABER E OS SENTIDOS NA ANÁLISE DO CONTO “FAMIGERADO” DE GUIMARÃES ROSA. Autora: Mª Inês Soares de C. Miranda Orientador: Wiliam Alves Biserra Brasília - DF 2013 MARIA INÊS SOARES DE CARVALHO MIRANDA O PODER, O SABER E OS SENTIDOS NA ANÁLISE DO CONTO “FAMIGERADO” DE JOÃO GUIMARÃES ROSA. Monografia apresentada ao Programa de Pós-Graduação Lato Sensu em (Leitura e Produção de Texto) da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do certificado de Especialista em (Língua Portuguesa). Orientador: Wiliam Alves Biserra (PHD) Brasília 2013 Monografia de autoria de (Maria Inês Soares de Carvalho Miranda), intitulada “O PODER, O SABER E OS SENTIDOS NA ANÁLISE DO CONTO FAMIGERADO DE GUMARÃES ROSA”, apresentada como requisito parcial para obtenção do certificado de Especialista em (Leitura e Produção de Textos) da Universidade Católica de Brasília, em 14 de novembro 2013, defendida e/ou aprovada pela banca examinadora abaixo assinada: _________________________________________ Prof. PHD. Wiliam Alves Biserra Orientador UCB __________________________________________ Prof. Dr. Marcus de Jesus Oliveira Doutor em Sociologia UNB ___________________________________________ Prof. Dr. Maurício Isolam. Doutor em Teoria Literária UCB Brasília-DF 2013 Ao meu esposo que muito colaborou para que eu concluísse essa jornada. A minha filha que tanto me incentivou. Aos professores e colegas de turma, E em especial a Deus, por me dar essa oportunidade de realizar mais um sonho. RESUMO O presente trabalho tem como objetivo proporcionar uma análise no conto “FAMIGERADO” de João Guimarães Rosa. Serão aplicados os elementos: o poder, o saber e os sentidos. Inicialmente veremos como o poder se configura dentro da sociedade e de que forma ele se apresenta, consiste também em focalizar os tipos de mecanismos utilizados para detectar a existência do poder com o beneficio do saber. E por fim a análise do conto proporcionará uma compreensão de como uma palavra é capaz de mudar o sentido de uma situação ou de um contexto. Palavra chave: Poder. Saber. Sentidos. ABSTRACT This paper aims to provide an analysis on the short story "FAMIGERADO" by João Guimarães Rosa. Will be applied elements: power, knowledge and senses. Initially will be seen how power is configured within society and how it presents itself, is also important to focus on the types of mechanisms used to detect the existence of power with the benefit of knowledge. Finally the analysis of the tale will provide an understanding of how a single word can change the direction of a situation or a context. Key-words: Power. Knowledge. Senses. SUMÁRIO INTRODUÇÃO...........................................................................................................07 CAPÍTULO 1 O PODER, OSABER, E SUAS RELAÇÕES. 1.1 BIOBIBLIGRAFIA DE MICHEL FOUCAULT......................................................09 1.2 O QUE É O PODER.............................................................................................11 1.3 O QUE É O SABER.............................................................................................13 1.4 RELAÇÃO DE PODER E SABER.......................................................................14 1.5 A CRIAÇÃO DA SEMÂNTICA 1.5.1 A SIGNIFICAÇÃO E O PROCESSO SEMÂNTICO..........................................16 1.5.2 MUDANÇA SEMÂNTICA..................................................................................17 CAPÍTULO 2 ANÁLISES DO CONTO “FAMIGERADO” 2.1 RESUMO DO CONTO.........................................................................................20 2.2 ANÁLISE DO CONTO.........................................................................................22 CONCLUSÃO............................................................................................................28 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..........................................................................29 7 Introdução Este trabalho pretende fazer um estudo, a respeito do poder e do saber, mostrando que por meio do poder surge o caminho para a busca de novas ideias e saberes. O objetivo é, portanto, apresentar os vários tipos de poderes, que se configuram dentro de uma sociedade, ou seja, traços inerentes à cultura do poder e do saber, desde o renascimento até a sociedade atual. Segundo FOUCAULT, trata-se de ativar saberes locais descontínuos, desqualificados, não legitimados, contra a instância teórica unitária que pretenderia depurá-los, ordená-los em nome de um conhecimento verdadeiro. Este trabalho apresentará em especial uma análise do conto “Famigerado”, de João Guimarães Rosa. O conto selecionado pertence à obra Primeiras Estórias. O conto parte do pressuposto de como uma simples palavra pode mudar todo um contexto. A análise que desenvolveremos baseia-se na observação do uso da palavra “Famigerado” e as diferenças de seus usos particulares, utilizando a interpretação dentro da semântica em uma percepção de natureza polissêmica. A análise do conto será feita por meio da observação dos seguintes aspectos: O desenvolvimento semântico da palavra que está em evidencia, bem como as relações de poder entre os significados da palavra, Linguagem, Diferenças sociais. O primeiro capítulo trata da compreensão do poder existente nas sociedades, a investigação feita pelo pensador e filósofo Michel Foucault, apresenta-nos o conceito de poder que diverge da concepção tradicional. Do ponto de vista do autor, quanto aos estudos e as análises sobre as relações de poder e saber, ele demonstra as implicações que ocorrem entre saber e poder. Ele se apresenta não como teórico, mas como pesquisador do poder. Com base no pensamento de Foucault, em todo o conto impera o fenômeno do poder, a começar pelos traços do personagem principal, o jagunço Damásio. A maneira de como ele fala, as expressões que ele usa, apontam para um universo de total dominação, mesmo sendo uma pessoa sem escolaridade, mas, munido de muitos elementos de poder. O que configura o que diz (FOUCAULT 2013) “O poder não está localizado em nenhum ponto específico da estrutura social”. 8 Ampliando um pouco mais a análise do poder, o autor do conto, proporciona uma atenção para as diferenças Sociais e Culturais entre os personagens. O jagunço Damásio e o Doutor Farmacêutico. O primeiro apresenta a visão do mundo simples do homem do campo, mas que dentro da sua realidade possui poder. O segundo um homem culto, armado de conhecimento, capaz de manipular e se adequar a várias situações, de maneira que para evitar uma situação violenta, se apossa do saber e muda toda uma situação contextual. O estudo teve como objetivo desenvolver o trabalho em dois capítulos: O primeiro sobre o poder o saber e os sentidos. O segundo apresenta uma análise sobre o conto “Famigerado”. Desta forma o trabalho visa a contribuir para os estudos sobre poderes, saberes e sentidos de uma palavra. 9 CAPÍTULO 1 O PODER, O SABER, E SUAS RELAÇÕES 1.1 BIOBIBLIOGRAFIA DE MICHEL FOUCAULT Michel Foucault foi um filósofo que nasceu na França em 15 de outubro de 1926. Em uma pequena cidade chamada Poitiers. Filho de família tradicional de médicos, fez sua opção por rumos diferentes, interessando-se mais pelas ciências humanas, especialmente história e a filosofia. O filósofo Michel Foucault possuía uma boa condição financeira, e embora desagradando a vontade de seus pais, foi com o auxílio de sua mãe que se mudou para Paris. Com o fim da segunda guerra em 1945, Michel permanece em Paris e tenta entrar na Escola Normal Superior, mas foi reprovado, conseguindo finalmente ingressar no ano seguinte. Já cursando filosofia Michel aderiu ao marxismo, filiou-se ao comunismo Francês, desistindo pouco tempo depois por não admitir as intromissões do partido com seus participantes. Homossexual, sentia muitas vezes culpa e constrangimento, mergulha então em uma profunda solidão, tornando-se uma pessoa irônica e bastante agressiva o que o levaria a sucessivas tentativas de suicídios. Logo a partir desses episódios teve o contato com a psicologia, iniciou-se um tratamento psiquiátrico. Autodidata gostava muito de ler, aprofundou-se no assunto lendo Platão, Freud, Marx e mesmo discordando de muitas atitudes que cada um deles defendia, aprimorou seus estudos tendo-os como importantes referências. Em 1949, Foucault concretiza sua licenciatura em Filosofia na Sorbonne, e logo depois concluiu a graduação de Psicologia, consolidando seus estudos filosóficos com uma tese sobre Hegel. Foucault ensinou psicologia e filosofia em várias universidades, na Alemanha, na Suécia, na Tunísia, nos Estados Unidos e outras. Escreveu para diversos jornais e por algum tempo atuou na área de psicologia atendendo pacientes em prisões e 10 hospitais psiquiátricos. Essas experiências irão repercutir em seguida em seus escritos sobre a loucura. Michel Foucault conheceu boa parte do mundo fazendo conferências, manteve contatos com pessoas importantes o que possibilitou a evolução do seu pensamento. Aos 28 anos publicou “Doença Mental e Psicologia” (1954), mas foi com “História da loucura” (1961), sua tese de doutorado na Sorbonne, que ele se consolidou na filosofia, muito embora preferisse ser chamado de arqueólogo. Michel Foucault publicou mais de 30 livros ao longo da sua vida. Todas as obras evidenciam um pouco da temática do poder e do saber algumas implicitamente. É um exaustivo trabalho de arqueologia do saber ocidental, pondo em evidência as estruturas conceituais que determinam as articulações entre o saber e o poder. O objetivo de Foucault era investigar as qualidades históricas e filosóficas das ciências humanas em relação aos saberes da modernidade. As suas obras podem ser divididas em três fases fundamentais: *Estudos sobre a loucura no mundo Ocidental *Estudo sobre a rede conceitual dos saberes *Estudo sobre o poder, prisões e sexualidade. Foucault fundou o Grupo de Informação sobre as Prisões (GIP), como forma de intervenção específica sobre a realidade. Principais obras: sobre poderes, saberes e sentidos: - Doença Mental e Psicologia. (1954) - História da Loucura (1961) - Arqueologia do Saber (1969) - O poder Psiquiátrico (1974) - Vigiar e Punir (1975) - A Vontade de saber (1976) - Microfísica do poder (1979) Em cada uma dessas obras Michel Foucault, atentou-se para chamar atenção no que seria o poder. Nas obras: Doença Mental e Psicologia- Historia da LoucuraPoder Psiquiátrico- O autor mostra o fenômeno da loucura e questiona sobre o direito de propor uma interpretação neuro-socio-psico sobre a doença. Quanto às obras: Arqueologia do Saber, e Vontade de Saber. O autor atesta os impasses em todos os ramos do conhecimento, e rejeita a sociedade que desde o século passado maltrata com sua hipocrisia. 11 No que diz respeito às obras: Microfísica do Poder e Vigiar e Punir, nestas obras, o autor avalia o poder disciplinador como fundamental nas sociedades modernas, que utiliza as normas como instrumentos. Ele também esclarece como o poder deve ser analisado, e explica que o poder funciona em cadeia, mas que ninguém é dono, e não há lugar certo para sua existência. E finaliza dizendo que cada pessoa por menor que seja exerce um pouco de poder. 1.2 O QUE É PODER O ser humano é viciado em poder. A ideia de exercer domínio sobre outras pessoas parece muito sedutora. Por causa da sensação de poder o ser humano passa por cima de muitos, quebra princípios, mente, manipula, usa, oprime. O poder, por sua vez, é complexo enquanto exercício de autoridade no interior da sociedade política, mas também no campo das mais variadas organizações e grupos da sociedade civil. O exercício do poder e a produção de superioridade invadem, portanto, esferas diversas, como a gestação e a afirmação, a crítica e a contraposição de projetos sociais, as elaborações intelectuais e as políticas favoráveis, a organização dos diferentes grupos e camadas sociais, a construção de aparelhos privados de supremacia, o gerenciamento e a disseminação de sistema de ideias e concepções igualitárias. Segundo alguns sociologistas, poder é a capacidade de estabelecer a sua vontade sobre os outros, e existem diferentes tipos de poder: o poder social, o poder econômico, o poder militar, o poder político, entre outros. Alguns autores importantes que estudaram a questão de poder foram Michel Foucault, Max Weber e Pierre Bourdieu. As principais teorias sociológicas relacionadas ao poder são o feminismo, o campo simbólico entre outras. Não existe uma teoria formada segundo Foucault, o que existe são entendimentos constituídos ao longo da história, e que funcionam localizadamente, o poder é um instrumento criado a partir de suas especificidades. Foucault abandona a versão tradicional de o poder ser sinônimo de Estado, e revela que o poder pode ser de caráter positivo e bem aceito na sociedade. O poder age também de forma natural, conquista o direito de atuar e comandar, dependendo da conjuntura, exercer o domínio, a soberania, da influência e força ao mesmo tempo. 12 A palavra poder originou-se no Indo- Europeu poti-, que era aplicada para o chefe de algum grupo social (família, clã, tribo). Daí derivou o grego pótis, “marido”. E despotés, inicialmente “senhor, chefe da casa”, mais tarde aplicado aos tiranos orientais e depois aos de todo gêneros. Em latim, o adjetivo potis significa “poderoso, capaz de”. A partir então o termo têm sido usados nas mais diversificadas áreas. Um dos elementos do poder é a disciplina, ela registra os conhecimentos e ao mesmo tempo em que exerce poder, produz saber. O poder disciplinar não destrói o individuo, ao contrario fabrica. Para a política, poder é a habilidade de mandar algo sem escolha para a desobediência. O poder político quando é reconhecido é tido como autoridade e muitas vezes levam ao abuso de poder, é o caso das revoluções ou ditaduras. Considerando que o poder não quer dizer que necessariamente tem que se usar a força. Assim afirma Foucault: Ele aparece como um bem, finito, desejável, útil que tem suas regras de aparecimento, e também suas condições de apropriação e de utilização; é um bem que coloca, por conseguinte, desde sua existência, (não simplesmente em suas aplicações práticas). A questão é que o poder é um bem que é por natureza, um objeto de luta, e de uma luta política. (FOUCAULT, 2013). Para o filosofo, não é saber ou ter poder que importa de onde vem também não interessa, o importante é como exercer esse poder, de que modo ele opera. E afirma: “O poder não pode ser definido, porque não tem essência, também não pode ser exclusividade de nenhuma instância social, portanto não há propriamente um titular.” [...] “Não se sabe ao certo quem o detém, mas se sabe quem não o possui”. Foucault. (2013 p 138). As investigações ao longo dos anos 70 em torno da problemática do poder, além de ser uma riqueza para a filosofia moderna, serviram de estudos para outras áreas do saber. Depois de estudar bem a temática do poder, Foucault assume que o poder não existe enquanto substancia palpável, e posiciona-se com outra concepção de poder. O poder não existe, quero dizer o seguinte: a ideia de que existe em um determinado lugar, ou vem de um determinado ponto, algo que é poder, me parece baseada em analise enganosa, e que em todo caso não dá conta de um numero considerável de fenômenos. (Foucault 2004, p 248). 13 Do ponto de vista do filósofo, há uma importante inflexão que leva Foucault a duas modificações: primeiro deslocar a análise do poder normalizador e da sujeição para os modos da subjetivação. Em que o sujeito se constitui a partir das práticas que permitem ao indivíduo estabelecer uma determinada relação consigo mesmo. Depois de muitos estudos sobre o poder Foucault entende que o poder tem uma situação central e periférica, é um nível macro e micro de exercício, seu objetivo era tão somente detectar sua existência e explicar as características de relações de poder que se diferenciam em uma sociedade, mas não dando ênfase em nenhum lugar onde o poder se estabelece. Com base nesse estudo Foucault esclarece: O interessante da análise é justamente sugerir que os poderes não estão localizados em nenhum ponto específico da estrutura social. Funciona como um dispositivo ou um mecanismo a que nada ou ninguém escapa. Daí a importância e polêmica ideia de que o poder não é algo que se detém como uma coisa, ou como uma propriedade que se possui ou não. Não existe um lado que os detém o poder e de outro aqueles que se encontram alijados dele. (FOUCAULT, 2013 p 17). E mais: segundo ele, o poder não pode ser caracterizado simplesmente, ou fundamentalmente como repressivo, como algo que diz essencialmente “não” é preciso perceber seu aspecto positivo, aquele lado que o faz tornar-se bem visto. E explica: O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como força, mas de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considera-lo como uma rede produtiva que atravessa todo corpo social muito mais do que uma instância negativa, que tem como função reprimir. (FOUCAULT, 2013 p 45). 1.3 O QUE É SABER Foucault explica o aparecimento dos saberes através da positividade, relacionando o poder e o saber em uma mesma articulação. A partir das obras Vigiar e Punir de 1975, e A Vontade de Saber de 1976. Estas obras apresentam o poder como instrumento capaz de explicar e produzir saberes. No obra Arqueologia do Saber, (2005, p 235), o autor diz: “ao invés de analisar o saber somente pela positividade, deve-se analisa-lo na direção dos componentes, das lutas, dos conflitos, das decisões e das táticas”. Durante muito tempo acreditou-se que deveria se analisar e avaliar o saber e o conhecimento, mas agora se entende que o verdadeiro problema é a questão do 14 poder. E alega: “Quanto mais eu caminho, mais me parece que o saber tem que ser analisado a partir das táticas e das estratégias do poder”. (FOUCAULT, 2006 p 224). O poder e o saber são distintos e autônomos. E, é claro, a autoridade do saber é incomensuravelmente superior á autoridade do poder. São as palavras de Foucault em Genealogia e poder. O saber só funciona em uma sociedade dotada de poder. É como saber que tem poder. “Trata-se de ativar saberes locais, descontínuos, desqualificados, não legitimados, contra a instância teórica unitária que pretende depurá-los, hierarquizá-los, ordená-los em nome de um conhecimento verdadeiro”. E mais adiante continua: Trata-se da insurreição dos saberes não contra os conteúdos, os métodos, os conceitos de uma ciência, mas de uma insurreição dos saberes antes de tudo contra os efeitos de poder. (FOUCAULT, 2013 p 268). Então surge uma das teses fundamentais da genealogia do poder, que concerne o poder como produtor de individualidade, e o indivíduo como produção do poder e saber. A primeira vista, diz o filósofo, parece absurdo que o indivíduo seja um efeito do poder, mas considerando que em uma sociedade moderna o poder não está diretamente ligado somente à força negativa, ele pode ser avaliado como algo criativo no desenvolvimento do saber. 1.4 RELAÇÃODE PODER E SABER Primeiro é preciso apresentar o que entende Foucault sobre cada uma das distinções. De maneira que em Vigiar e Punir, ele afirma. Temos que admitir que o poder produz saber,” e não simplesmente favorecendo-o ou aplicando-o porque é útil”, que poder e saber estão diretamente implicados. Que não há relação de poder, sem constituição de um campo de saber, e nem saber que não constitui ao mesmo tempo relação de poder. Essas relações são comitentes ainda que cada modalidade tenha seu papel fundamental. (FOUCAULT 2005 p 27). A partir da declaração do autor, percebe-se que o sujeito é constituído, ou seja, é o poder que produz o sujeito, e não o contrario. Logo vai contrariar toda uma perspectiva tradicional que idealiza o sujeito e seu conhecimento, como livre das relações de poder. 15 Faz-se necessário apontar uma característica importante no pensamento de Foucault com relação ao caráter positivo da dominação. Dominar significa meios para tornar os corpos mais produtivos. O filósofo ainda avalia que o conhecimento verdadeiro não é definitivo e nem absoluto, varia de acordo com a época. Mais adiante na mesma obra, o autor defende que o conhecimento é como uma luta, por vezes opera uma relação de violência. E diz: “O conhecimento esquematiza, ignora as diferenças, assimila as coisas entre si e isto nem sempre tem nenhum fundamento de verdade”. Para o autor a relação entre poder e saber precisa ser percebida como essencial, foi o que o autor quis confirmar na obra “a vontade de saber”. “Diz o autor:” O poder só exerce com saber, da mesma forma que o saber só tem um bom desempenho com o poder. “(1988 p 71)”. O autor não afirma que saber é poder e que poder é saber, mas garante que entre eles existem relações, é o que ele chama de interface do saber e poder. Para o filósofo, a relação entre o poder e o saber é recíproca, e, ao mesmo tempo, independente. O exercício do poder cria saber, enquanto o saber origina efeitos de poder. Um componente necessário para compreender as relações entre poder e saber é o discurso. Para Foucault a relação saber-poder deve ser analisada da maneira de como vão se alojar no discurso. Diz Foucault. “Justamente no discurso que vem se articular poder e saber”. Ainda com as palavras dele na obra Microfísica do Poder: Que a questão mais elementar e concreta de uma análise principalmente política, deve ser: “em uma sociedade como a nossa, que tipo de poder é capaz de produzir discursos de verdade dotados de efeitos tão poderosos”. (FOUCAULT, 2013). Na obra: A Ordem do Discurso (1970), Foucault faz uma análise sobre o poder e o discurso, é uma reflexão sobre o discurso. Para ele o discurso é uma série de elementos, um dispositivo que opera no mecanismo do poder. Ele defende que na nova sociedade o discurso é usado para manter o controle e muitas vezes desviar seus efeitos. Assim afirma: “por mais que o discurso seja aparentemente pequeno, logo se revela o desejo e a vontade de ter o poder”. Desse modo Foucault apresenta o avanço do poder e seus efeitos que se dão por meio das articulações e com as praticas dentro de uma manifestação discursiva. 16 A explicação é que o poder pode não ser a fonte ou a origem do discurso, mas seguramente contém alguns elementos que fortificam o discurso. 1.5 A CRIAÇÃO DA SEMÂNTICA As palavras são criações humanas, criamos palavras com a finalidade de dar nomes às coisas, seja porque elas ainda não têm, ou porque os nomes que elas têm não mais realizam de modo eficaz sua função que é dupla: cognitiva ou semântica. Uma vez criada à palavra por transferência ou de sentido ou por qualquer outro modo, seu sentido pode evoluir espontaneamente. A semântica é uma disciplina linguística, que tem como objeto a descrição e os significados próprios às linguagens e suas organizações teóricas. O sentido é o campo de estudo da semântica, é um dado imediato e fundamental a nossas experiências cotidianas da linguagem. Com relação às condições morfológicas e sintáticas de uma palavra, nada impede a formação de um sentido novo, desde que seja semelhante no sentido relacionado à interpretação da forma resultante. Contudo percebemos que, do sentido percebido como evidencia ao sentido concebido como objeto linguístico, há um verdadeiro salto conceitual que indica mais ruptura que evolução. O autor Augusto Silva, assim se expressa: O estudo semântico não pode ignorar a experiência e o meio cultural do falante, já que sendo a linguagem um dos instrumentos conceptuais básico do homem, ela tem por função interpretar, organizar fixar e exprimir a experiência humana, própria de um indivíduo ou de uma cultura. (SILVA, 1999 p14) 1.5.1 A significação e o processo semântico. Para o autor Guirand, (1989) significação é o processo que associa um objeto a um ser, uma noção ou um acontecimento a um signo capaz de evocar. Um exemplo disso é quando vemos uma nuvem carregada e logo associamos que possivelmente irá chover. 17 Segundo ele cada palavra tem um sentido de base, e um sentido contextual, o contexto é quem especifica o sentido, e cada caso evoca o conceito preciso. Diz o autor: A própria língua elimina as possibilidades de confusão, que poderia se produzir durante o seu desenvolvimento. Isto é uma das causas de mudanças de sentidos. Toda palavra esta ligada ao seu contexto, do qual ela tira o seu sentido, esse sentido contextual pode ser confundido com o sentido de base das palavras técnicas. (GUIRAND, 1989 p 35) Com base no que o autor afirma as palavras tem sentidos e valores estilísticos, para ele, o sentido, valores e o sentido contextual não se sobrepõem, há sempre um único sentido em uma situação dado o sentido contextual. E explica: “A palavra em seu contexto corresponde a uma única imagem conceitual”. Ainda conforme o autor, os valores estilísticos são de dois tipos, por um lado palavras e construções que exprimem emoções, desejos, também as intenções e os julgamentos de quem fala, é assim que se percebe uma intenção. Por outro lado evoca um meio, a palavra seria empregada em uma situação determinada e associada ao contexto. 1.5.2 Mudança semântica As palavras expressam ideias, ações, conceitos, mas podem também ser usadas em sentidos figurados, com diferentes significados. Pode-se dizer que toda palavra ou todo signo linguístico, é constituído por: um significante (a forma) que é a parte concreta da palavra, um significado (a ideia, o conceito). O conteúdo é parte abstrata, a ideia, o conceito é transmitido pela palavra. Por isso que uma mesma palavra pode ter vários significados e formar diversas expressões. A semântica se favorece da polissemia para melhor explicar essas relações. A semântica naturalmente tem muito a ver com seu próprio interesse pela polissemia, mas não apenas porque há ligações entre os vários significados semânticos. A polissemia designa o fenômeno segundo o qual uma palavra apresenta mais do que um significado. Uma mesma palavra pode ter vários significados. É o que difere a polissemia da monossemia. Na monossemia a palavra só pode ter um único significado. 18 A polissemia é o reflexo sincrônico da mudança semântica, e por outro lado a mudança linguística é o reflexo da flexibilidade da linguagem. Do ponto de vista da concepção geral, a polissemia e homonímia se distinguem, pois, pelo fato de que a polissemia envolve uma mesma palavra com vários significados, enquanto que as homonímias são diferentes palavras, consequentemente diferentes significados, mas com a mesma forma. Vejamos o exemplo de banco, que é um objeto de sentar, ou uma instituição financeira. Diz o autor: Em vez de entendermos os significados como processo de criação de sentidos, metaforicamente falando, as palavras não são pacotes de informações, as palavras são antes holofotes que se movem e que, em cada aplicação efetiva, ilumina uma porção particular de todo seu domínio de aplicação. (SILVA, 1999 p 621). Podemos então concluir, que os significados não são propriamente dados, mas construídos, os significados são fundamentalmente, interpretações ligadas ao contexto particular. Dependendo da situação, serão aplicados outros entendimentos, podendo interpretar os vários usos de uma palavra. Com base nisso o autor relata: Todas as palavras possuem uma única significação fundamental, isso quer dizer que todas as palavras são essencialmente monossémicas, pelo menos na mente, o que acontece é que a polissemia não passará de um fenômeno meramente contextual. (SILVA, 1999 p 621) Conforme diz o autor, os problemas da polissemia situam-se fundamentalmente em dois planos: no da definição e no da estrutura. Para ele os problemas da definição dizem respeito a duas distinções: polissemia vaguidade e polissemia homonímia. No primeiro caso a vaguidade, é preciso saber se determinado valor semântico de uma palavra faz parte do conjunto dos significados dessas palavras, ou é uma especificação ou variação contextual de um desses significados. No segundo caso a estrutura tem a ver com a relação que une os diferentes significados de uma palavra, podendo ser distinguido sobre dois aspectos. O qualitativo, que é aquele que a natureza das relações é saber que tipos de relação são os que unem os diferentes significados de uma palavra, qual a relação semântica capaz de determinar fatos de polissemia, e distinguir significado literal, quando a palavra tem seu valor original, ou significado figurado, que são 19 significações subjetivas, efetivas, que vão se acrescentando a uma palavra que depende de uma interpretação. Ou mais um significado básico ou dele derivado. O outro aspecto é o quantitativo, isto são as diferenças de centralidades entre os vários significados. O aspecto quantitativo quanto à estrutura do complexo polissêmico, pressupõe já o reconhecimento das diferenças. 20 Capítulo 2 Análise do conto “Famigerado" Que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros (Rosa, entrevista, 1965). Este capítulo apresenta uma análise sobre o conto “Famigerado” de João Guimarães Rosa e tem como objetivo analisar como o poder se configura dentro de uma sociedade. A análise representada tem como referencial os estudos teóricos de Michel Foucault. Em todo o conto há elementos de relacões de poder, utilizando a linguagem regional característica. O estudo mostra que o poder dentro do conto envolve o vocabulário, e os aspectos culturais evidenciados nessa obra. 2.1 Resumo do conto “Famigerado” é um conto de Guimarães Rosa que em uma estória, cuja trama se passa em um arraial muito pequeno em uma cidadezinha do interior, onde tudo é muito difícil, trabalho escasso, educação e segurança quase não existem. Tem como protagonista um grande assassino conhecido como Damásio, que saiu da serra onde morava, o pior recinto em termos de violência e descaso das autoridades, vindo para o lugar mais próximo em busca de informações. O motivo foi uma pendenga causada por um agente do governo, provavelmente, em alguma discussão. O fato é que o jagunço se sentiu ofendido e como não sabia o significado da ofensa que o agente havia lhe feito, não cuidou de fazer algo bem perverso sem antes certificar-se do que se tratava, uma vez que ele ainda não sabia o significado da palavra “Famigerado”. Astucioso, Damásio primeiro providenciou conhecer o verdadeiro sentido da mesma; pensou em perguntar ao padre da cidade, mas lembrou-se que o padre não gostava das coisas bárbaras que ele fazia e atribuiu que não seria confiável a resposta do padre. De modo que, para ele, a figura mais importante da cidade seria o Doutor da farmácia, que além de sabido era também de confiança, resolveu então lhe fazer 21 Uma visita, com a intenção de que ele resolvesse o seu problema. Apoiado por mais três cavaleiros, o líder conhecido como Damásio, chega à casa do doutor, equipado com todos os pertences que possui um bom jagunço cruel e sanguinário, um cavalo arreado e corredor, no cinturão uma arma de fogo, enquanto que na sela que montava uma gereba papuda Uruguaiana, mais conhecida como espingarda. A princípio, tudo que ele queria era intimidar o Doutor, colocar medo, aterrorizar bastante para que depois ele não tivesse outra opção a não ser colaborar com o jagunço. Para melhorar seu entrosamento, o bandido achou por bem se apresentar primeiro; assim, uma vez que o Doutor soubesse que ali se encontrava Damásio, o tão temido bandido, com dezenas de assassinatos, trataria logo de atendê-lo, antes mesmo que ele se fadigasse. Apavorado, o Doutor convidou-o para entrar em sua casa e em seguida dar início a consulta, mas, estupidamente foi interrompido pelo jagunço que lhe disse não precisar dos serviços de doutor, ele Apenas queria lhe fazer uma pergunta, já que era o homem mais sabido do arraial. E afirma “Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem tem o legítimo - o livro que aprende as palavras” (p.58). Por isso que resolveu procurar o Doutor, para esclarecer uma dúvida. Veja como ele fez a pergunta. ”Vosmecê agora me faça à boa de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... Faz-megerado... Falmisgeraldo... Familhas –gerado...?” Foi aí que o Doutor entendeu que se foi dito pelo homem do governo a uma criatura perigosa como Damásio é óbvio que o sentido seria de xingamentos aos atos atribuídos à ruindade do bandido, mas, deduziu que ele jamais poderia saber a verdade do significado da palavra, “Famigerado”. Temendo estar dando sua própria sentença de morte ou a do homem do Governo, como ele assim o chamava, o farmacêutico teve uma ideia, usar o significado como exaltação, e não no sentido pejorativo que certamente seria o verdadeiro sentido utilizado naquela ocasião. Afirmou então que a palavra se tratava de afamado, famoso, notável. Insiste, no entanto o jagunço, se isso é desaforo, caçoável, nome de ofensa e pediu para o Doutor dizer em fala de pobre o que quer dizer isso. O Doutor respondeu: “isso quer dizer importante, que merece respeito é tudo que engrandece uma pessoa”. (p. 58). Satisfeito com a resposta e confiante com seus novos atributos, Damásio se despede dizendo:- “Não há como que as grandezas machas duma pessoa 22 instruída!” (p.59). Bebeu uma água, quis apertar-lhe a mão, agradeceu, esporou-lhe o alazão e foi embora. 2.2 A análise do conto O conto “Famigerado” começa com uma pergunta: “Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça?” É que nas narrativas de Primeiras Estórias de João Guimarães Rosas, todas causam essa mesma impressão, são histórias contadas por meio de uma linguagem fora do comum, comportamentos aparentemente inexplicáveis e bastante inusitados. No conto “Famigerado”, o objeto deste estudo, o autor usou como recurso um homem completamente munido de poder, desde suas características físicas até a linguagem utilizada, o que significa que a força e o poder estão presentes em todo o conto, a própria linguagem é um elemento de poder, e tem o saber como instrumento de diferenciação social. Conforme o pensador: O poder e o saber têm relações sim porque sempre se exerce um sobre o outro. O poder às vezes passa por forças, enquanto que o saber passa por formas. O poder é segundo um exercício. O saber é um regulamento. (FOUCAULT. 2013). É possível diferenciar os tipos de poderes e saberes empregados em cada um dos envolvidos no conto. O Doutor, por exemplo, representado pela classe social escolarizada, possui outros níveis de conhecimentos, além da formação escolar, tem uma melhor percepção com relação ao mundo em que vive, mas para tanto teve que usar do saber-conhecer, e se apropriar do artifício do conhecimento para melhor avaliar. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, de banda, tudo num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse_ o oh- homem- oh _ com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saída e viera aquele homem, para morrer em guerra. Saudou- me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida. (ROSA, 2005 p 55). O Doutor, mesmo sendo mais instruído, cria seu juízo de valor em relação ao jagunço, e percebe que naquele momento quem detém o poder nas mãos é o jagunço. E avalia: “Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de resguardo”. (ROSA, 2005 p 55). 23 Neste momento podemos notar que, o pensamento de Foucault em relação a várias análises atuais, que consiste em dizer: O poder é essencialmente repressivo. O poder é o que reprime a natureza, os indivíduos, os instintos, uma classe. O poder como repressão não é novidade. Hegel foi o primeiro a dizer, depois Freud e Reich também o disseram. (FOUCAULT, 2013 p 274). Quando o jagunço falou que não estava doente, e nem veio pra consulta, e que o motivo da sua visita era fazer-lhe pergunta, o Doutor percebeu que o poder se invertia, e usou o elemento saber para intimidar, e exercer a supremacia do poder que naquele momento lhe era favorável. “O conhecimento esquematiza, ignora as diferenças, assimila as coisas entre si e isto nem sempre tem nenhum fundamento de verdade”. (FOUCAULT. 2005) O fato é que o Doutor que nem nome tinha, compreendeu que o diploma lhe havia dado um poder diferenciado, e justifica o que diz o pensador. “Quando o poder é ligado ao saber, faz dele um instrumento positivo, faz com que a ação sobre o outro seja aceita. [...]. É o poder que produz o sujeito e não o contrário”. (FOUCAULT, 2013) Mesmo sabendo que coragem, valentia e braveza são valores dos mais prezados pelo jagunço e em contrapartida covardia, prostração e fragilidade tem conotação negativa, não poderia mostrar-se amedrontado. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar. (ROSA, 2005 p 56). Sabemos que o conhecimento é um elemento necessário que envolve as relações entre poder e o saber. “O poder e o saber são distintos e autônomos. E, é claro, a autoridade do saber é incomensuravelmente superior á autoridade do poder”. (FOUCAULT, 2013) Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Sua voz se espaçava, querendo se calma; a fala de gente de mais longe, talvez São Francisco. (ROSA: 2005 p. 55-56). 24 Acontece que no momento que o jagunço aparece na porta do farmacêutico pedindo lhe esclarecimentos, a maneira como agia o jagunço, com cara de nenhum amigo, o jeito de falar, dava a entender para o farmacêutico que se tratava de um homem cruel, e mais, sem nenhuma noção do que vinha procurar. Enquanto falava demonstrava nervosismo reação típica de uma pessoa aparentemente perigosa. As expressões e o tipo de vocabulário usado eram típicos de uma região, logo o Doutor percebeu que se tratava de gente bem difícil, pois, conhecia o lugar de onde ele falou que vinha. O Doutor neste momento percebeu que o poder se invertia logo ele seria o possuidor dele, aliado ao conhecimento, prosseguiu com a conversa, permitindo que o jagunço falasse pra que veio. E pergunta o jagunço:_”Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é Fasmigerado... faz-me-gerado...falmisgerado...familhas-gerado...?”(ROSA. p 57). O interessante da análise é justamente sugerir que os poderes não estão localizados em nenhum ponto específico da estrutura social. Funciona como um dispositivo ou um mecanismo a que nada ou ninguém escapa. Daí a importância e polêmica ideia de que o poder não é algo que se detém como uma coisa, ou como uma propriedade que se possui ou não. Não existe um lado que os detém o poder e de outro aqueles que se encontram alijados dele. (FOUCAULT, 2013 p 17). Ao tomar conhecimento da possível intenção do jagunço caso ele seja contrariado, o farmacêutico usa do elemento saber que estabelece o campo onde o poder deverá ser exercido e mantido. Desta forma, percebemos que o pensamento de Foucault se aplica na conduta do Doutor, ele se apodera das informações, para constituir um raciocínio e uma identificação com relação à palavra, utilizando-se do recurso da polissemia para assim evitar uma atitude violenta e sangrenta, reduzindo a forma original da palavra, no seu sentido figurado. Mais adiante no conto, o jagunço prossegue a conversa demonstrando mais uma vez que o conceito de poder é subjetivo. Baseado nas análises do autor, o poder não pode ter força sem antes ter o conhecimento do saber antecipando o resultado. Caso contrário o poder será fracassado. -Saiba vosmecê que saí ind’hoje da serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe perguntar a pregunta, pelo claro. [...]. - La, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem tem o legítimo_ o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... (ROSA, 2005 p 57,58). 25 Outro aspecto interessante nesse conto é que Guimarães Rosa apresenta entre as palavras usadas, outras que nos leva a buscar seu significado e induz o leitor para isso, vejamos na fala do jagunço ao médico: Saiba vosmecê que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço do governo, rapaz meio estrondoso... saiba que estou com ele à revelia... cá eu não quero questão com o governo, não estou com saúde e nem idade... O rapaz muitos acha que ele é de seu tanto esmiolado... (ROSA: 2005 p. 57). Este conto gira em torno da ignorância de um jagunço, que chamado de “Famigerado” por um funcionário do Governo, deduz que seja uma forma de insulto, ofensa, contra sua pessoa, mas, na dúvida procura um Doutor para que esse então explique o significado da tal palavra misteriosa. De acordo com Pierre Guirand: Toda palavra esta ligada ao contexto, do qual ela tira o seu sentido, esse sentido contextual pode ser confundido com seu sentido de base. O sentido e o valor da palavra não se sobrepõem. Há sempre um único sentido, O contexto é quem especifica, e em cada caso evoca o conceito preciso”. (GUIRAND, 1989). O nível pré-conceitual da palavra “Famigerado” Nos remete a dois sentidos distintos e opostos, de um lado o sentido colocado seria o dos dicionários significando uma exaltação. Por outro lado o sentido oposto, com base no figurado e com noção pejorativa. Vê-se que não se trata de omitir ou enganar na análise, o que se propõe é que uma palavra pode ter simultaneamente dois significados diferentes: Um sentido dicionarizado, outro uma decifração mais sutil no caso a polissemia, ela autoriza a hermenêutica a descobrir outro sentido. O Doutor de posse da informação que a palavra poderia causar e temendo estar dando a sua própria sentença de morte ou a do moço do Governo como assim o jagunço chamava, optou por falar o significado no sentido de exaltação e não pejorativo. Segundo o professor, Evanildo Bechara, em sua “Moderna Gramática Portuguesa” (Bechara 2000 p 400). “Famigerado” é notável, célebre, famoso. Com a ideia de faminto no sentido popular, pode ser notável nos seus atos positivos ou negativos quando atribuídos a más qualidades. 26 O conto apresenta duas opções: Uma certamente instiga a violência, outra seria optar por aquela que, sem deixar de ser verossímil e verdadeira, atende às necessidades do jagunço. Embora omita o provável sentido que foi dito pelo funcionário do governo. Isso só pode acontecer pelo fato do jagunço ser totalmente carente do verdadeiro sentido da palavra, e auxilia o doutor para que invertesse os valores atribuídos, adequando aquela ocasião, o que lhe era seguro de responder. De acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001). “Famigerado”, tanto pode ser adjetivo, “que tem muita fama, célebre, notável”, quanto no sentido pejorativo, “tristemente afamado”. E baseado na fama do jagunço, o Doutor aproveita-se de sua posição em relação ao jagunço para optar por uma definição de valor positivo, o que mostra a superioridade da palavra em relação à força bruta. Damásio, ao tomar conhecimento do que a palavra “Famigerado” expressava, começa a imaginar como é difícil não ter informações, e percebe que conhecimento e cultura são coisas importantes na vida de um homem. Entretanto, de onde ele vem todos possuem a mesma realidade, onde o poder é obtido através da força bruta, é o que diz o jagunço Damásio quando afirma que: “tem nenhum ninguém ciente” [...] “é gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias”, (p.58). Também não há nenhuma segurança, haja vista o jagunço ter algumas dezenas de mortes e nunca ter sido punido por nenhuma delas. Segundo os pensamentos de Foucault em relação ao Poder ele diz: As posições do sujeito se definem igualmente pela situação que lhe é possível em relação ao outro. Para ele é preciso somar as posições que o sujeito pode ocupar em determinadas situações, para saber se é o momento de tirar o proveito certo. (FOUCAULT, 2013). A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei? (ROSA: 2005 p.58). Muda-se o sentido e a palavra assume outras significações, como as possíveis modificações ou as substituições dos sentidos da palavra gerando outro conceito, originário ou derivado do sentido figurado. - Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsânia? Nome de 27 ofensa? - Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia de - semana?. (Rosa: 2005 p.58). O jagunço reconhece a falta que faz o conhecimento, e percebe que viver na ignorância não é apenas limitar o seu mundo, é ficar de fora de boa parte das coisas que acontecem nele, também se admira da sabedoria do Doutor, e lamenta quanta besteira pode-se fazer por não entender uma conversa, a falta de informação do jagunço mostra como as pessoas são veneráveis a serem ludibriadas por pessoas de posse do poder e tem como arma o saber. Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruídas!” E disse “A gente tem cada cisma de dúvida boba dessas desconfianças... Só pra azedar a mandioca... (ROSA, 2005: 59). O Doutor Farmacêutico percebeu que poderia dar a resposta favorável para todos, e que não estaria assim contrariando o verdadeiro sentido da palavra, e sim dando uma nova significação, além de assegurar a paz no final da história, confirmam os ensinamentos de Foucault quando diz que: O importante creio, é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder, a verdade é deste mundo; e ela produz múltiplas coerções, e efeitos regulamentados de poder. [...]. Os mecanismos as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns aos outros; as técnicas, os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. (FOUCAULT, 2013 p 52). 28 CONCLUSÃO Neste trabalho, o estudo sobre o poder, o saber e os sentidos, foi constituído nas instâncias dos conhecimentos Foucaultianos e semânticos, o objetivo foi analisar os elementos do poder, do saber e dos sentidos dentro do conto “Famigerado”. A pesquisa demonstra que segundo o pensamento do autor: Poder e saber estão presentes em todas as instâncias, e que não tem lugar fixo, e nem classe social, não é obtido por herança, e nem por grau de instrução, é adquirido por exercício e conquistado ao longo de uma história. (FOUCAULT. 2013). Desta forma foi constatado que o poder e o saber se apresentam tanto nas áreas acadêmicas como nas áreas periféricas, demonstra que o poder tem relações sim com o saber, pelo simples fato de que um depende do outro para existir. Visto que todas essas relações também dependem de alguns elementos, e com base nas influências e costumes de uma sociedade, o papel principal do poder é dar voz ao sujeito através do saber, utilizando das formas de conhecimento para fabricar e exercer o poder, ou por meio da força, já que toda relação de força é uma relação de poder. “Famigerado”, conto de Guimarães Rosa, objeto de análise desse trabalho, é um exemplo de que o conhecimento e a força são os elementos principais das relações entre o poder e saber. O conto relaciona-se com a semântica dando um belo exemplo dos vários sentidos que uma palavra apresenta em uma história que aparentemente parecia uma tanto complicada. Todo o conto “FAMIGERADO” mostra mudanças e as alternâncias de sentidos dentro do contexto. Há ocasiões em que o poder está nas mãos de quem possui a força, em outros momentos vimos que o poder se inverte e passa para quem usa as formas, os regulamentos. É como diz Foucault, “É o poder que produz o sujeito e não o contrário”. Por fim, a realização desse trabalho, teve também como intuito analisar as relações de poder, do saber, e as relações dos sentidos que a palavra “FAMIGERADO” apresenta no conto utilizando-se da polissemia como instrumento de análise. 29 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SILVA, Augusto Soares Da. A Semântica do Deixar. Uma contribuição para a abordagem cognitiva em semântica lexical. São Paulo: Edição Fundação Calauste Gulbenkian. Fundação para a Ciência e Tecnologia. Novebro 1999. GUIRAND, Pierre. A Semântica. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil.S.A. 1989. ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. Ed. 1 especial. 2005 FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. 7. Ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005. ______. Microfísica do poder. Organização, Introdução e revisão técnica de Roberto Machado. 26. Ed. São Paulo: Graal, 2013. ______. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Trad. de Raquel Ramalhete. 30. Ed. Petrópolis (RJ): Vozes, 2005. ______. História da sexualidade I: A Vontade de saber, tradução de Maria Thereza da Costa Alburquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1988.