Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa
Lato Sensu em Leitura e Produção de Textos
Trabalho de Conclusão de Curso
O PODER, O SABER E OS SENTIDOS NA ANÁLISE
DO CONTO “FAMIGERADO” DE GUIMARÃES
ROSA.
Autora: Mª Inês Soares de C. Miranda
Orientador: Wiliam Alves Biserra
Brasília - DF
2013
MARIA INÊS SOARES DE CARVALHO MIRANDA
O PODER, O SABER E OS SENTIDOS NA ANÁLISE DO CONTO
“FAMIGERADO” DE JOÃO GUIMARÃES ROSA.
Monografia apresentada ao Programa de
Pós-Graduação Lato Sensu em (Leitura e
Produção de Texto) da Universidade
Católica de Brasília, como requisito
parcial para obtenção do certificado de
Especialista em (Língua Portuguesa).
Orientador: Wiliam Alves Biserra (PHD)
Brasília
2013
Monografia de autoria de (Maria Inês Soares de Carvalho Miranda), intitulada
“O PODER, O SABER E OS SENTIDOS NA ANÁLISE DO CONTO FAMIGERADO
DE GUMARÃES ROSA”, apresentada como requisito parcial para obtenção do
certificado de Especialista em (Leitura e Produção de Textos) da Universidade
Católica de Brasília, em 14 de novembro 2013, defendida e/ou aprovada pela banca
examinadora abaixo assinada:
_________________________________________
Prof. PHD. Wiliam Alves Biserra
Orientador
UCB
__________________________________________
Prof. Dr. Marcus de Jesus Oliveira
Doutor em Sociologia
UNB
___________________________________________
Prof. Dr. Maurício Isolam.
Doutor em Teoria Literária
UCB
Brasília-DF
2013
Ao meu esposo que muito colaborou para
que eu concluísse essa jornada.
A minha filha que tanto me incentivou.
Aos professores e colegas de turma,
E em especial a Deus, por me dar essa
oportunidade de realizar mais um sonho.
RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo proporcionar uma análise no conto
“FAMIGERADO” de João Guimarães Rosa. Serão aplicados os elementos: o poder,
o saber e os sentidos. Inicialmente veremos como o poder se configura dentro da
sociedade e de que forma ele se apresenta, consiste também em focalizar os tipos
de mecanismos utilizados para detectar a existência do poder com o beneficio do
saber. E por fim a análise do conto proporcionará uma compreensão de como uma
palavra é capaz de mudar o sentido de uma situação ou de um contexto.
Palavra chave: Poder. Saber. Sentidos.
ABSTRACT
This paper aims to provide an analysis on the short story "FAMIGERADO" by João
Guimarães Rosa. Will be applied elements: power, knowledge and senses. Initially
will be seen how power is configured within society and how it presents itself, is also
important to focus on the types of mechanisms used to detect the existence of power
with the benefit of knowledge. Finally the analysis of the tale will provide an
understanding of how a single word can change the direction of a situation or a
context.
Key-words: Power. Knowledge. Senses.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...........................................................................................................07
CAPÍTULO 1
O PODER, OSABER, E SUAS RELAÇÕES.
1.1 BIOBIBLIGRAFIA DE MICHEL FOUCAULT......................................................09
1.2 O QUE É O PODER.............................................................................................11
1.3 O QUE É O SABER.............................................................................................13
1.4 RELAÇÃO DE PODER E SABER.......................................................................14
1.5 A CRIAÇÃO DA SEMÂNTICA
1.5.1 A SIGNIFICAÇÃO E O PROCESSO SEMÂNTICO..........................................16
1.5.2 MUDANÇA SEMÂNTICA..................................................................................17
CAPÍTULO 2
ANÁLISES DO CONTO “FAMIGERADO”
2.1 RESUMO DO CONTO.........................................................................................20
2.2 ANÁLISE DO CONTO.........................................................................................22
CONCLUSÃO............................................................................................................28
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..........................................................................29
7
Introdução
Este trabalho pretende fazer um estudo, a respeito do poder e do saber,
mostrando que por meio do poder surge o caminho para a busca de novas ideias e
saberes.
O objetivo é, portanto, apresentar os vários tipos de poderes, que se
configuram dentro de uma sociedade, ou seja, traços inerentes à cultura do poder e
do saber, desde o renascimento até a sociedade atual.
Segundo FOUCAULT, trata-se de ativar saberes locais descontínuos,
desqualificados, não legitimados, contra a instância teórica unitária que pretenderia
depurá-los, ordená-los em nome de um conhecimento verdadeiro.
Este trabalho apresentará em especial uma análise do conto “Famigerado”,
de João Guimarães Rosa. O conto selecionado pertence à obra Primeiras Estórias.
O conto parte do pressuposto de como uma simples palavra pode mudar todo um
contexto. A análise que desenvolveremos baseia-se na observação do uso da
palavra “Famigerado” e as diferenças de seus usos particulares, utilizando a
interpretação dentro da semântica em uma percepção de natureza polissêmica.
A análise do conto será feita por meio da observação dos seguintes aspectos:
O desenvolvimento semântico da palavra que está em evidencia, bem como as
relações de poder entre os significados da palavra, Linguagem, Diferenças sociais.
O primeiro capítulo trata da compreensão do poder existente nas sociedades, a
investigação feita pelo pensador e filósofo Michel Foucault, apresenta-nos o conceito
de poder que diverge da concepção tradicional.
Do ponto de vista do autor, quanto aos estudos e as análises sobre as
relações de poder e saber, ele demonstra as implicações que ocorrem entre saber e
poder. Ele se apresenta não como teórico, mas como pesquisador do poder.
Com base no pensamento de Foucault, em todo o conto impera o fenômeno
do poder, a começar pelos traços do personagem principal, o jagunço Damásio. A
maneira de como ele fala, as expressões que ele usa, apontam para um universo de
total dominação, mesmo sendo uma pessoa sem escolaridade, mas, munido de
muitos elementos de poder. O que configura o que diz (FOUCAULT 2013) “O poder
não
está
localizado
em
nenhum
ponto
específico
da
estrutura
social”.
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Ampliando um pouco mais a análise do poder, o autor do conto, proporciona uma
atenção para as diferenças Sociais e Culturais entre os personagens. O jagunço
Damásio e o Doutor Farmacêutico. O primeiro apresenta a visão do mundo simples
do homem do campo, mas que dentro da sua realidade possui poder. O segundo um
homem culto, armado de conhecimento, capaz de manipular e se adequar a várias
situações, de maneira que para evitar uma situação violenta, se apossa do saber e
muda toda uma situação contextual.
O estudo teve como objetivo desenvolver o trabalho em dois capítulos: O
primeiro sobre o poder o saber e os sentidos. O segundo apresenta uma análise
sobre o conto “Famigerado”.
Desta forma o trabalho visa a contribuir para os estudos sobre poderes,
saberes e sentidos de uma palavra.
9
CAPÍTULO 1
O PODER, O SABER, E SUAS RELAÇÕES
1.1 BIOBIBLIOGRAFIA DE MICHEL FOUCAULT
Michel Foucault foi um filósofo que nasceu na França em 15 de outubro de
1926. Em uma pequena cidade chamada Poitiers. Filho de família tradicional de
médicos, fez sua opção por rumos diferentes, interessando-se mais pelas ciências
humanas, especialmente história e a filosofia.
O filósofo Michel Foucault possuía uma boa condição financeira, e embora
desagradando a vontade de seus pais, foi com o auxílio de sua mãe que se mudou
para Paris.
Com o fim da segunda guerra em 1945, Michel permanece em Paris e tenta
entrar na Escola Normal Superior, mas foi reprovado, conseguindo finalmente
ingressar no ano seguinte. Já cursando filosofia Michel aderiu ao marxismo, filiou-se
ao comunismo Francês, desistindo pouco tempo depois por não admitir as
intromissões do partido com seus participantes. Homossexual, sentia muitas vezes
culpa e constrangimento, mergulha então em uma profunda solidão, tornando-se
uma pessoa irônica e bastante agressiva o que o levaria a sucessivas tentativas de
suicídios.
Logo a partir desses episódios teve o contato com a psicologia, iniciou-se um
tratamento psiquiátrico. Autodidata gostava muito de ler, aprofundou-se no assunto
lendo Platão, Freud, Marx e mesmo discordando de muitas atitudes que cada um
deles defendia, aprimorou seus estudos tendo-os como importantes referências.
Em 1949, Foucault concretiza sua licenciatura em Filosofia na Sorbonne, e
logo depois concluiu a graduação de Psicologia, consolidando seus estudos
filosóficos com uma tese sobre Hegel.
Foucault ensinou psicologia e filosofia em várias universidades, na Alemanha,
na Suécia, na Tunísia, nos Estados Unidos e outras. Escreveu para diversos jornais
e por algum tempo atuou na área de psicologia atendendo pacientes em prisões e
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hospitais psiquiátricos. Essas experiências irão repercutir em seguida em seus
escritos sobre a loucura. Michel Foucault conheceu boa parte do mundo fazendo
conferências, manteve contatos com pessoas importantes o que possibilitou a
evolução do seu pensamento.
Aos 28 anos publicou “Doença Mental e Psicologia” (1954), mas foi com
“História da loucura” (1961), sua tese de doutorado na Sorbonne, que ele se
consolidou na filosofia, muito embora preferisse ser chamado de arqueólogo.
Michel Foucault publicou mais de 30 livros ao longo da sua vida. Todas as
obras evidenciam um pouco da temática do poder e do saber algumas
implicitamente. É um exaustivo trabalho de arqueologia do saber ocidental, pondo
em evidência as estruturas conceituais que determinam as articulações entre o
saber e o poder.
O objetivo de Foucault era investigar as qualidades históricas e filosóficas das
ciências humanas em relação aos saberes da modernidade. As suas obras podem
ser divididas em três fases fundamentais: *Estudos sobre a loucura no mundo
Ocidental *Estudo sobre a rede conceitual dos saberes *Estudo sobre o poder,
prisões e sexualidade. Foucault fundou o Grupo de Informação sobre as Prisões
(GIP), como forma de intervenção específica sobre a realidade.
Principais obras: sobre poderes, saberes e sentidos:
- Doença Mental e Psicologia. (1954)
- História da Loucura (1961)
- Arqueologia do Saber (1969)
- O poder Psiquiátrico (1974)
- Vigiar e Punir (1975)
- A Vontade de saber (1976)
- Microfísica do poder (1979)
Em cada uma dessas obras Michel Foucault, atentou-se para chamar atenção
no que seria o poder. Nas obras: Doença Mental e Psicologia- Historia da LoucuraPoder Psiquiátrico- O autor mostra o fenômeno da loucura e questiona sobre o
direito de propor uma interpretação neuro-socio-psico sobre a doença.
Quanto às obras: Arqueologia do Saber, e Vontade de Saber. O autor atesta
os impasses em todos os ramos do conhecimento, e rejeita a sociedade que desde
o século passado maltrata com sua hipocrisia.
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No que diz respeito às obras: Microfísica do Poder e Vigiar e Punir, nestas
obras, o autor avalia o poder disciplinador como fundamental nas sociedades
modernas, que utiliza as normas como instrumentos. Ele também esclarece como o
poder deve ser analisado, e explica que o poder funciona em cadeia, mas que
ninguém é dono, e não há lugar certo para sua existência. E finaliza dizendo que
cada pessoa por menor que seja exerce um pouco de poder.
1.2 O QUE É PODER
O ser humano é viciado em poder. A ideia de exercer domínio sobre outras
pessoas parece muito sedutora. Por causa da sensação de poder o ser humano
passa por cima de muitos, quebra princípios, mente, manipula, usa, oprime.
O poder, por sua vez, é complexo enquanto exercício de autoridade no
interior da sociedade política, mas também no campo das mais variadas
organizações e grupos da sociedade civil. O exercício do poder e a produção de
superioridade invadem, portanto, esferas diversas, como a gestação e a afirmação,
a crítica e a contraposição de projetos sociais, as elaborações intelectuais e as
políticas favoráveis, a organização dos diferentes grupos e camadas sociais, a
construção de aparelhos privados de supremacia, o gerenciamento e a
disseminação de sistema de ideias e concepções igualitárias.
Segundo alguns sociologistas, poder é a capacidade de estabelecer a sua
vontade sobre os outros, e existem diferentes tipos de poder: o poder social, o poder
econômico, o poder militar, o poder político, entre outros. Alguns autores importantes
que estudaram a questão de poder foram Michel Foucault, Max Weber e Pierre
Bourdieu. As principais teorias sociológicas relacionadas ao poder são o feminismo,
o campo simbólico entre outras.
Não existe uma teoria formada segundo Foucault, o que existe são
entendimentos constituídos ao longo da história, e que funcionam localizadamente, o
poder é um instrumento criado a partir de suas especificidades. Foucault abandona
a versão tradicional de o poder ser sinônimo de Estado, e revela que o poder pode
ser de caráter positivo e bem aceito na sociedade.
O poder age também de forma natural, conquista o direito de atuar e
comandar, dependendo da conjuntura, exercer o domínio, a soberania, da influência
e força ao mesmo tempo.
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A palavra poder originou-se no Indo- Europeu poti-, que era aplicada para o
chefe de algum grupo social (família, clã, tribo).
Daí derivou o grego pótis, “marido”. E despotés, inicialmente “senhor, chefe
da casa”, mais tarde aplicado aos tiranos orientais e depois aos de todo gêneros.
Em latim, o adjetivo potis significa “poderoso, capaz de”. A partir então o termo têm
sido usados nas mais diversificadas áreas.
Um dos elementos do poder é a disciplina, ela registra os conhecimentos e ao
mesmo tempo em que exerce poder, produz saber. O poder disciplinar não destrói o
individuo, ao contrario fabrica.
Para a política, poder é a habilidade de mandar algo sem escolha para a
desobediência. O poder político quando é reconhecido é tido como autoridade e
muitas vezes levam ao abuso de poder, é o caso das revoluções ou ditaduras.
Considerando que o poder não quer dizer que necessariamente tem que se
usar a força. Assim afirma Foucault:
Ele aparece como um bem, finito, desejável, útil que tem suas regras de
aparecimento, e também suas condições de apropriação e de utilização; é
um bem que coloca, por conseguinte, desde sua existência, (não
simplesmente em suas aplicações práticas). A questão é que o poder é um
bem que é por natureza, um objeto de luta, e de uma luta política.
(FOUCAULT, 2013).
Para o filosofo, não é saber ou ter poder que importa de onde vem também
não interessa, o importante é como exercer esse poder, de que modo ele opera. E
afirma: “O poder não pode ser definido, porque não tem essência, também não pode
ser exclusividade de nenhuma instância social, portanto não há propriamente um
titular.” [...] “Não se sabe ao certo quem o detém, mas se sabe quem não o possui”.
Foucault. (2013 p 138).
As investigações ao longo dos anos 70 em torno da problemática do poder,
além de ser uma riqueza para a filosofia moderna, serviram de estudos para outras
áreas do saber.
Depois de estudar bem a temática do poder, Foucault assume que o poder
não existe enquanto substancia palpável, e posiciona-se com outra concepção de
poder.
O poder não existe, quero dizer o seguinte: a ideia de que existe em um
determinado lugar, ou vem de um determinado ponto, algo que é poder, me
parece baseada em analise enganosa, e que em todo caso não dá conta de
um numero considerável de fenômenos. (Foucault 2004, p 248).
13
Do ponto de vista do filósofo, há uma importante inflexão que leva Foucault a
duas modificações: primeiro deslocar a análise do poder normalizador e da sujeição
para os modos da subjetivação. Em que o sujeito se constitui a partir das práticas
que permitem ao indivíduo estabelecer uma determinada relação consigo mesmo.
Depois de muitos estudos sobre o poder Foucault entende que o poder tem
uma situação central e periférica, é um nível macro e micro de exercício, seu objetivo
era tão somente detectar sua existência e explicar as características de relações de
poder que se diferenciam em uma sociedade, mas não dando ênfase em nenhum
lugar onde o poder se estabelece. Com base nesse estudo Foucault esclarece:
O interessante da análise é justamente sugerir que os poderes não estão
localizados em nenhum ponto específico da estrutura social. Funciona como
um dispositivo ou um mecanismo a que nada ou ninguém escapa. Daí a
importância e polêmica ideia de que o poder não é algo que se detém como
uma coisa, ou como uma propriedade que se possui ou não. Não existe um
lado que os detém o poder e de outro aqueles que se encontram alijados
dele. (FOUCAULT, 2013 p 17).
E mais: segundo ele, o poder não pode ser caracterizado simplesmente, ou
fundamentalmente como repressivo, como algo que diz essencialmente “não” é
preciso perceber seu aspecto positivo, aquele lado que o faz tornar-se bem visto. E
explica:
O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente
que ele não pesa só como força, mas de fato ele permeia, produz coisas,
induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considera-lo como
uma rede produtiva que atravessa todo corpo social muito mais do que uma
instância negativa, que tem como função reprimir. (FOUCAULT, 2013 p 45).
1.3 O QUE É SABER
Foucault explica o aparecimento dos saberes através da positividade,
relacionando o poder e o saber em uma mesma articulação. A partir das obras Vigiar
e Punir de 1975, e A Vontade de Saber de 1976. Estas obras apresentam o poder
como instrumento capaz de explicar e produzir saberes.
No obra Arqueologia do Saber, (2005, p 235), o autor diz: “ao invés de
analisar o saber somente pela positividade, deve-se analisa-lo na direção dos
componentes, das lutas, dos conflitos, das decisões e das táticas”.
Durante muito tempo acreditou-se que deveria se analisar e avaliar o saber e
o conhecimento, mas agora se entende que o verdadeiro problema é a questão do
14
poder. E alega: “Quanto mais eu caminho, mais me parece que o saber tem que ser
analisado a partir das táticas e das estratégias do poder”. (FOUCAULT, 2006 p 224).
O poder e o saber são distintos e autônomos. E, é claro, a autoridade do
saber é incomensuravelmente superior á autoridade do poder. São as palavras de
Foucault em Genealogia e poder.
O saber só funciona em uma sociedade dotada de poder. É como saber que
tem poder. “Trata-se de ativar saberes locais, descontínuos,
desqualificados, não legitimados, contra a instância teórica unitária que
pretende depurá-los, hierarquizá-los, ordená-los em nome de um
conhecimento verdadeiro”. E mais adiante continua: Trata-se da insurreição
dos saberes não contra os conteúdos, os métodos, os conceitos de uma
ciência, mas de uma insurreição dos saberes antes de tudo contra os
efeitos de poder. (FOUCAULT, 2013 p 268).
Então surge uma das teses fundamentais da genealogia do poder, que
concerne o poder como produtor de individualidade, e o indivíduo como produção do
poder e saber. A primeira vista, diz o filósofo, parece absurdo que o indivíduo seja
um efeito do poder, mas considerando que em uma sociedade moderna o poder não
está diretamente ligado somente à força negativa, ele pode ser avaliado como algo
criativo no desenvolvimento do saber.
1.4 RELAÇÃODE PODER E SABER
Primeiro é preciso apresentar o que entende Foucault sobre cada uma das
distinções. De maneira que em Vigiar e Punir, ele afirma.
Temos que admitir que o poder produz saber,” e não simplesmente
favorecendo-o ou aplicando-o porque é útil”, que poder e saber estão
diretamente implicados. Que não há relação de poder, sem constituição de
um campo de saber, e nem saber que não constitui ao mesmo tempo
relação de poder. Essas relações são comitentes ainda que cada
modalidade tenha seu papel fundamental. (FOUCAULT 2005 p 27).
A partir da declaração do autor, percebe-se que o sujeito é constituído, ou
seja, é o poder que produz o sujeito, e não o contrario. Logo vai contrariar toda uma
perspectiva tradicional que idealiza o sujeito e seu conhecimento, como livre das
relações de poder.
15
Faz-se necessário apontar uma característica importante no pensamento de
Foucault com relação ao caráter positivo da dominação. Dominar significa meios
para tornar os corpos mais produtivos.
O filósofo ainda avalia que o conhecimento verdadeiro não é definitivo e nem
absoluto, varia de acordo com a época. Mais adiante na mesma obra, o autor
defende que o conhecimento é como uma luta, por vezes opera uma relação de
violência. E diz: “O conhecimento esquematiza, ignora as diferenças, assimila as
coisas entre si e isto nem sempre tem nenhum fundamento de verdade”.
Para o autor a relação entre poder e saber precisa ser percebida como
essencial, foi o que o autor quis confirmar na obra “a vontade de saber”. “Diz o
autor:” O poder só exerce com saber, da mesma forma que o saber só tem um bom
desempenho com o poder. “(1988 p 71)”.
O autor não afirma que saber é poder e que poder é saber, mas garante que
entre eles existem relações, é o que ele chama de interface do saber e poder. Para
o filósofo, a relação entre o poder e o saber é recíproca, e, ao mesmo tempo,
independente. O exercício do poder cria saber, enquanto o saber origina efeitos de
poder.
Um componente necessário para compreender as relações entre poder e
saber é o discurso. Para Foucault a relação saber-poder deve ser analisada da
maneira de como vão se alojar no discurso. Diz Foucault. “Justamente no discurso
que vem se articular poder e saber”. Ainda com as palavras dele na obra Microfísica
do Poder:
Que a questão mais elementar e concreta de uma análise principalmente
política, deve ser: “em uma sociedade como a nossa, que tipo de poder é
capaz de produzir discursos de verdade dotados de efeitos tão poderosos”.
(FOUCAULT, 2013).
Na obra: A Ordem do Discurso (1970), Foucault faz uma análise sobre o
poder e o discurso, é uma reflexão sobre o discurso. Para ele o discurso é uma série
de elementos, um dispositivo que opera no mecanismo do poder. Ele defende que
na nova sociedade o discurso é usado para manter o controle e muitas vezes
desviar seus efeitos. Assim afirma: “por mais que o discurso seja aparentemente
pequeno, logo se revela o desejo e a vontade de ter o poder”.
Desse modo Foucault apresenta o avanço do poder e seus efeitos que se dão
por meio das articulações e com as praticas dentro de uma manifestação discursiva.
16
A explicação é que o poder pode não ser a fonte ou a origem do discurso, mas
seguramente contém alguns elementos que fortificam o discurso.
1.5 A CRIAÇÃO DA SEMÂNTICA
As palavras são criações humanas, criamos palavras com a finalidade de dar
nomes às coisas, seja porque elas ainda não têm, ou porque os nomes que elas têm
não mais realizam de modo eficaz sua função que é dupla: cognitiva ou semântica.
Uma vez criada à palavra por transferência ou de sentido ou por qualquer
outro modo, seu sentido pode evoluir espontaneamente.
A semântica é uma disciplina linguística, que tem como objeto a descrição e
os significados próprios às linguagens e suas organizações teóricas. O sentido é o
campo de estudo da semântica, é um dado imediato e fundamental a nossas
experiências cotidianas da linguagem.
Com relação às condições morfológicas e sintáticas de uma palavra, nada
impede a formação de um sentido novo, desde que seja semelhante no sentido
relacionado à interpretação da forma resultante.
Contudo percebemos que, do sentido percebido como evidencia ao sentido
concebido como objeto linguístico, há um verdadeiro salto conceitual que indica mais
ruptura que evolução. O autor Augusto Silva, assim se expressa:
O estudo semântico não pode ignorar a experiência e o meio cultural do
falante, já que sendo a linguagem um dos instrumentos conceptuais básico
do homem, ela tem por função interpretar, organizar fixar e exprimir a
experiência humana, própria de um indivíduo ou de uma cultura. (SILVA,
1999 p14)
1.5.1 A significação e o processo semântico.
Para o autor Guirand, (1989) significação é o processo que associa um objeto
a um ser, uma noção ou um acontecimento a um signo capaz de evocar. Um
exemplo disso é quando vemos uma nuvem carregada e logo associamos que
possivelmente irá chover.
17
Segundo ele cada palavra tem um sentido de base, e um sentido contextual, o
contexto é quem especifica o sentido, e cada caso evoca o conceito preciso. Diz o
autor:
A própria língua elimina as possibilidades de confusão, que poderia se
produzir durante o seu desenvolvimento. Isto é uma das causas de
mudanças de sentidos. Toda palavra esta ligada ao seu contexto, do qual
ela tira o seu sentido, esse sentido contextual pode ser confundido com o
sentido de base das palavras técnicas. (GUIRAND, 1989 p 35)
Com base no que o autor afirma as palavras tem sentidos e valores
estilísticos, para ele, o sentido, valores e o sentido contextual não se sobrepõem, há
sempre um único sentido em uma situação dado o sentido contextual. E explica: “A
palavra em seu contexto corresponde a uma única imagem conceitual”.
Ainda conforme o autor, os valores estilísticos são de dois tipos, por um lado
palavras e construções que exprimem emoções, desejos, também as intenções e os
julgamentos de quem fala, é assim que se percebe uma intenção. Por outro lado
evoca um meio, a palavra seria empregada em uma situação determinada e
associada ao contexto.
1.5.2 Mudança semântica
As palavras expressam ideias, ações, conceitos, mas podem também ser
usadas em sentidos figurados, com diferentes significados.
Pode-se dizer que toda palavra ou todo signo linguístico, é constituído por: um
significante (a forma) que é a parte concreta da palavra, um significado (a ideia, o
conceito). O conteúdo é parte abstrata, a ideia, o conceito é transmitido pela palavra.
Por isso que uma mesma palavra pode ter vários significados e formar diversas
expressões.
A semântica se favorece da polissemia para melhor explicar essas relações.
A semântica naturalmente tem muito a ver com seu próprio interesse pela
polissemia, mas não apenas porque há ligações entre os vários significados
semânticos.
A polissemia designa o fenômeno segundo o qual uma palavra apresenta
mais do que um significado. Uma mesma palavra pode ter vários significados. É o
que difere a polissemia da monossemia. Na monossemia a palavra só pode ter um
único significado.
18
A polissemia é o reflexo sincrônico da mudança semântica, e por outro lado a
mudança linguística é o reflexo da flexibilidade da linguagem.
Do ponto de vista da concepção geral, a polissemia e homonímia se
distinguem, pois, pelo fato de que a polissemia envolve uma mesma palavra com
vários significados, enquanto que as homonímias são diferentes palavras,
consequentemente diferentes significados, mas com a mesma forma. Vejamos o
exemplo de banco, que é um objeto de sentar, ou uma instituição financeira. Diz o
autor:
Em vez de entendermos os significados como processo de criação de
sentidos, metaforicamente falando, as palavras não são pacotes de
informações, as palavras são antes holofotes que se movem e que, em
cada aplicação efetiva, ilumina uma porção particular de todo seu domínio
de aplicação. (SILVA, 1999 p 621).
Podemos então concluir, que os significados não são propriamente dados,
mas construídos, os significados são fundamentalmente, interpretações ligadas ao
contexto particular. Dependendo da situação, serão aplicados outros entendimentos,
podendo interpretar os vários usos de uma palavra. Com base nisso o autor relata:
Todas as palavras possuem uma única significação fundamental, isso quer
dizer que todas as palavras são essencialmente monossémicas, pelo
menos na mente, o que acontece é que a polissemia não passará de um
fenômeno meramente contextual. (SILVA, 1999 p 621)
Conforme
diz
o
autor,
os
problemas
da
polissemia
situam-se
fundamentalmente em dois planos: no da definição e no da estrutura. Para ele os
problemas da definição dizem respeito a duas distinções: polissemia vaguidade e
polissemia homonímia.
No primeiro caso a vaguidade, é preciso saber se determinado valor
semântico de uma palavra faz parte do conjunto dos significados dessas palavras,
ou é uma especificação ou variação contextual de um desses significados.
No segundo caso a estrutura tem a ver com a relação que une os diferentes
significados de uma palavra, podendo ser distinguido sobre dois aspectos.
O qualitativo, que é aquele que a natureza das relações é saber que tipos de
relação são os que unem os diferentes significados de uma palavra, qual a relação
semântica capaz de determinar fatos de polissemia, e distinguir significado literal,
quando a palavra tem seu valor original, ou significado figurado, que são
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significações subjetivas, efetivas, que vão se acrescentando a uma palavra que
depende de uma interpretação. Ou mais um significado básico ou dele derivado.
O outro aspecto é o quantitativo, isto são as diferenças de centralidades entre
os vários significados. O aspecto quantitativo quanto à estrutura do complexo
polissêmico, pressupõe já o reconhecimento das diferenças.
20
Capítulo 2
Análise do conto “Famigerado"
Que não me submeto à tirania da
gramática e dos dicionários dos outros
(Rosa, entrevista, 1965).
Este capítulo apresenta uma análise sobre o conto “Famigerado” de João
Guimarães Rosa e tem como objetivo analisar como o poder se configura dentro de
uma sociedade. A análise representada tem como referencial os estudos teóricos de
Michel Foucault. Em todo o conto há elementos de relacões de poder, utilizando a
linguagem regional característica. O estudo mostra que o poder dentro do conto
envolve o vocabulário, e os aspectos culturais evidenciados nessa obra.
2.1
Resumo do conto
“Famigerado” é um conto de Guimarães Rosa que em uma estória, cuja trama
se passa em um arraial muito pequeno em uma cidadezinha do interior, onde tudo é
muito difícil, trabalho escasso, educação e segurança quase não existem. Tem como
protagonista um grande assassino conhecido como Damásio, que saiu da serra
onde morava, o pior recinto em termos de violência e descaso das autoridades,
vindo para o lugar mais próximo em busca de informações.
O motivo foi uma pendenga causada por um agente do governo,
provavelmente, em alguma discussão. O fato é que o jagunço se sentiu ofendido e
como não sabia o significado da ofensa que o agente havia lhe feito, não cuidou de
fazer algo bem perverso sem antes certificar-se do que se tratava, uma vez que ele
ainda não sabia o significado da palavra “Famigerado”. Astucioso, Damásio primeiro
providenciou conhecer o verdadeiro sentido da mesma; pensou em perguntar ao
padre da cidade, mas lembrou-se que o padre não gostava das coisas bárbaras que
ele fazia e atribuiu que não seria confiável a resposta do padre.
De modo que, para ele, a figura mais importante da cidade seria o Doutor da
farmácia, que além de sabido era também de confiança, resolveu então lhe fazer
21
Uma visita, com a intenção de que ele resolvesse o seu problema. Apoiado
por mais três cavaleiros, o líder conhecido como Damásio, chega à casa do doutor,
equipado com todos os pertences que possui um bom jagunço cruel e sanguinário,
um cavalo arreado e corredor, no cinturão uma arma de fogo, enquanto que na sela
que montava uma gereba papuda Uruguaiana, mais conhecida como espingarda.
A princípio, tudo que ele queria era intimidar o Doutor, colocar medo,
aterrorizar bastante para que depois ele não tivesse outra opção a não ser colaborar
com o jagunço. Para melhorar seu entrosamento, o bandido achou por bem se
apresentar primeiro; assim, uma vez que o Doutor soubesse que ali se encontrava
Damásio, o tão temido bandido, com dezenas de assassinatos, trataria logo de
atendê-lo, antes mesmo que ele se fadigasse.
Apavorado, o Doutor convidou-o para entrar em sua casa e em seguida dar
início a consulta, mas, estupidamente foi interrompido pelo jagunço que lhe disse
não precisar dos serviços de doutor, ele Apenas queria lhe fazer uma pergunta, já
que era o homem mais sabido do arraial. E afirma “Lá, e por estes meios de
caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem tem o legítimo - o livro que aprende as
palavras” (p.58). Por isso que resolveu procurar o Doutor, para esclarecer uma
dúvida. Veja como ele fez a pergunta. ”Vosmecê agora me faça à boa de querer me
ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... Faz-megerado... Falmisgeraldo...
Familhas –gerado...?”
Foi aí que o Doutor entendeu que se foi dito pelo homem do governo a uma
criatura perigosa como Damásio é óbvio que o sentido seria de xingamentos aos
atos atribuídos à ruindade do bandido, mas, deduziu que ele jamais poderia saber a
verdade do significado da palavra, “Famigerado”. Temendo estar dando sua própria
sentença de morte ou a do homem do Governo, como ele assim o chamava, o
farmacêutico teve uma ideia, usar o significado como exaltação, e não no sentido
pejorativo que certamente seria o verdadeiro sentido utilizado naquela ocasião.
Afirmou então que a palavra se tratava de afamado, famoso, notável. Insiste,
no entanto o jagunço, se isso é desaforo, caçoável, nome de ofensa e pediu para o
Doutor dizer em fala de pobre o que quer dizer isso. O Doutor respondeu: “isso quer
dizer importante, que merece respeito é tudo que engrandece uma pessoa”. (p. 58).
Satisfeito com a resposta e confiante com seus novos atributos, Damásio se
despede dizendo:- “Não há como que as grandezas machas duma pessoa
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instruída!” (p.59). Bebeu uma água, quis apertar-lhe a mão, agradeceu,
esporou-lhe o alazão e foi embora.
2.2 A análise do conto
O conto “Famigerado” começa com uma pergunta: “Quem pode esperar coisa
tão sem pés nem cabeça?” É que nas narrativas de Primeiras Estórias de João
Guimarães Rosas, todas causam essa mesma impressão, são histórias contadas
por meio de uma linguagem fora do comum, comportamentos aparentemente
inexplicáveis e bastante inusitados.
No conto “Famigerado”, o objeto deste estudo, o autor usou como recurso um
homem completamente munido de poder, desde suas características físicas até a
linguagem utilizada, o que significa que a força e o poder estão presentes em todo o
conto, a própria linguagem é um elemento de poder, e tem o saber como
instrumento de diferenciação social. Conforme o pensador:
O poder e o saber têm relações sim porque sempre se exerce um sobre o
outro. O poder às vezes passa por forças, enquanto que o saber passa por
formas. O poder é segundo um exercício. O saber é um regulamento.
(FOUCAULT. 2013).
É possível diferenciar os tipos de poderes e saberes empregados em cada
um dos envolvidos no conto. O Doutor, por exemplo, representado pela classe social
escolarizada, possui outros níveis de conhecimentos, além da formação escolar, tem
uma melhor percepção com relação ao mundo em que vive, mas para tanto teve que
usar do saber-conhecer, e se apropriar do artifício do conhecimento para melhor
avaliar.
Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado,
de banda, tudo num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O
cavaleiro esse_ o oh- homem- oh _ com cara de nenhum amigo. Sei o que é
influência de fisionomia. Saída e viera aquele homem, para morrer em
guerra. Saudou- me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um
alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida. (ROSA,
2005 p 55).
O Doutor, mesmo sendo mais instruído, cria seu juízo de valor em relação ao
jagunço, e percebe que naquele momento quem detém o poder nas mãos é o
jagunço. E avalia: “Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da
rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de
resguardo”. (ROSA, 2005 p 55).
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Neste momento podemos notar que, o pensamento de Foucault em relação a
várias análises atuais, que consiste em dizer:
O poder é essencialmente repressivo. O poder é o que reprime a natureza,
os indivíduos, os instintos, uma classe. O poder como repressão não é
novidade. Hegel foi o primeiro a dizer, depois Freud e Reich também o
disseram. (FOUCAULT, 2013 p 274).
Quando o jagunço falou que não estava doente, e nem veio pra consulta, e
que o motivo da sua visita era fazer-lhe pergunta, o Doutor percebeu que o poder se
invertia, e usou o elemento saber para intimidar, e exercer a supremacia do poder
que naquele momento lhe era favorável.
“O conhecimento esquematiza, ignora as diferenças, assimila as coisas entre si e
isto nem sempre tem nenhum fundamento de verdade”. (FOUCAULT. 2005)
O fato é que o Doutor que nem nome tinha, compreendeu que o diploma lhe havia
dado um poder diferenciado, e justifica o que diz o pensador.
“Quando o poder é ligado ao saber, faz dele um instrumento positivo, faz
com que a ação sobre o outro seja aceita. [...]. É o poder que produz o
sujeito e não o contrário”. (FOUCAULT, 2013)
Mesmo sabendo que coragem, valentia e braveza são valores dos mais
prezados pelo jagunço e em contrapartida covardia, prostração e fragilidade tem
conotação negativa, não poderia mostrar-se amedrontado.
Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não
tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no
i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito
agudo. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar. (ROSA, 2005
p 56).
Sabemos que o conhecimento é um elemento necessário que envolve as
relações entre poder e o saber. “O poder e o saber são distintos e autônomos. E, é
claro, a autoridade do saber é incomensuravelmente superior á autoridade do
poder”. (FOUCAULT, 2013)
Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo,
jagunço até na escuma do bofe.
Sua voz se espaçava, querendo se calma; a fala de gente de mais longe,
talvez São Francisco. (ROSA: 2005 p. 55-56).
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Acontece que no momento que o jagunço aparece na porta do farmacêutico
pedindo lhe esclarecimentos, a maneira como agia o jagunço, com cara de nenhum
amigo, o jeito de falar, dava a entender para o farmacêutico que se tratava de um
homem cruel, e mais, sem nenhuma noção do que vinha procurar. Enquanto falava
demonstrava nervosismo reação típica de uma pessoa aparentemente perigosa.
As expressões e o tipo de vocabulário usado eram típicos de uma região, logo
o Doutor percebeu que se tratava de gente bem difícil, pois, conhecia o lugar de
onde ele falou que vinha. O Doutor neste momento percebeu que o poder se invertia
logo ele seria o possuidor dele, aliado ao conhecimento, prosseguiu com a conversa,
permitindo que o jagunço falasse pra que veio. E pergunta o jagunço:_”Vosmecê
agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é
Fasmigerado... faz-me-gerado...falmisgerado...familhas-gerado...?”(ROSA. p 57).
O interessante da análise é justamente sugerir que os poderes não estão
localizados em nenhum ponto específico da estrutura social. Funciona como
um dispositivo ou um mecanismo a que nada ou ninguém escapa. Daí a
importância e polêmica ideia de que o poder não é algo que se detém como
uma coisa, ou como uma propriedade que se possui ou não. Não existe um
lado que os detém o poder e de outro aqueles que se encontram alijados
dele. (FOUCAULT, 2013 p 17).
Ao tomar conhecimento da possível intenção do jagunço caso ele seja
contrariado, o farmacêutico usa do elemento saber que estabelece o campo onde o
poder deverá ser exercido e mantido.
Desta forma, percebemos que o pensamento de Foucault se aplica na
conduta do Doutor, ele se apodera das informações, para constituir um raciocínio e
uma identificação com relação à palavra, utilizando-se do recurso da polissemia para
assim evitar uma atitude violenta e sangrenta, reduzindo a forma original da palavra,
no seu sentido figurado.
Mais adiante no conto, o jagunço prossegue a conversa demonstrando mais
uma vez que o conceito de poder é subjetivo. Baseado nas análises do autor, o
poder não pode ter força sem antes ter o conhecimento do saber antecipando o
resultado. Caso contrário o poder será fracassado.
-Saiba vosmecê que saí ind’hoje da serra, que vim, sem parar, essas seis
léguas, expresso direto pra mor de lhe perguntar a pregunta, pelo claro. [...].
- La, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem tem
o legítimo_ o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta,
por se fingirem de menos ignorâncias... (ROSA, 2005 p 57,58).
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Outro aspecto interessante nesse conto é que Guimarães Rosa apresenta
entre as palavras usadas, outras que nos leva a buscar seu significado e induz o
leitor para isso, vejamos na fala do jagunço ao médico:
Saiba vosmecê que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço
do governo, rapaz meio estrondoso... saiba que estou com ele à revelia... cá
eu não quero questão com o governo, não estou com saúde e nem idade...
O rapaz muitos acha que ele é de seu tanto esmiolado... (ROSA: 2005 p.
57).
Este conto gira em torno da ignorância de um jagunço, que chamado de
“Famigerado” por um funcionário do Governo, deduz que seja uma forma de insulto,
ofensa, contra sua pessoa, mas, na dúvida procura um Doutor para que esse então
explique o significado da tal palavra misteriosa. De acordo com Pierre Guirand:
Toda palavra esta ligada ao contexto, do qual ela tira o seu sentido, esse
sentido contextual pode ser confundido com seu sentido de base. O sentido
e o valor da palavra não se sobrepõem. Há sempre um único sentido, O
contexto é quem especifica, e em cada caso evoca o conceito preciso”.
(GUIRAND, 1989).
O nível pré-conceitual da palavra “Famigerado” Nos remete a dois sentidos
distintos e opostos, de um lado o sentido colocado seria o dos dicionários
significando uma exaltação. Por outro lado o sentido oposto, com base no figurado e
com noção pejorativa.
Vê-se que não se trata de omitir ou enganar na análise, o que se propõe é
que uma palavra pode ter simultaneamente dois significados diferentes: Um sentido
dicionarizado, outro uma decifração mais sutil no caso a polissemia, ela autoriza a
hermenêutica a descobrir outro sentido.
O Doutor de posse da informação que a palavra poderia causar e temendo
estar dando a sua própria sentença de morte ou a do moço do Governo como assim
o jagunço chamava, optou por falar o significado no sentido de exaltação e não
pejorativo.
Segundo o professor, Evanildo Bechara, em sua “Moderna Gramática
Portuguesa” (Bechara 2000 p 400). “Famigerado” é notável, célebre, famoso. Com a
ideia de faminto no sentido popular, pode ser notável nos seus atos positivos ou
negativos quando atribuídos a más qualidades.
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O conto apresenta duas opções: Uma certamente instiga a violência, outra
seria optar por aquela que, sem deixar de ser verossímil e verdadeira, atende às
necessidades do jagunço.
Embora omita o provável sentido que foi dito pelo funcionário do governo.
Isso só pode acontecer pelo fato do jagunço ser totalmente carente do verdadeiro
sentido da palavra, e auxilia o doutor para que invertesse os valores atribuídos,
adequando aquela ocasião, o que lhe era seguro de responder.
De acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001).
“Famigerado”, tanto pode ser adjetivo, “que tem muita fama, célebre, notável”,
quanto no sentido pejorativo, “tristemente afamado”. E baseado na fama do jagunço,
o Doutor aproveita-se de sua posição em relação ao jagunço para optar por uma
definição de valor positivo, o que mostra a superioridade da palavra em relação à
força bruta.
Damásio, ao tomar conhecimento do que a palavra “Famigerado” expressava,
começa a imaginar como é difícil não ter informações, e percebe que conhecimento
e cultura são coisas importantes na vida de um homem. Entretanto, de onde ele vem
todos possuem a mesma realidade, onde o poder é obtido através da força bruta, é
o que diz o jagunço Damásio quando afirma que: “tem nenhum ninguém ciente” [...]
“é gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias”, (p.58).
Também não há nenhuma segurança, haja vista o jagunço ter algumas dezenas de
mortes e nunca ter sido punido por nenhuma delas.
Segundo os pensamentos de Foucault em relação ao Poder ele diz:
As posições do sujeito se definem igualmente pela situação que lhe é
possível em relação ao outro. Para ele é preciso somar as posições que o
sujeito pode ocupar em determinadas situações, para saber se é o
momento de tirar o proveito certo. (FOUCAULT, 2013).
A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no
aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei? (ROSA: 2005 p.58).
Muda-se o sentido e a palavra assume outras significações, como as
possíveis modificações ou as substituições dos sentidos da palavra gerando outro
conceito, originário ou derivado do sentido figurado.
- Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me
diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsânia? Nome de
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ofensa? - Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia de - semana?. (Rosa: 2005 p.58).
O jagunço reconhece a falta que faz o conhecimento, e percebe que viver na
ignorância não é apenas limitar o seu mundo, é ficar de fora de boa parte das coisas
que acontecem nele, também se admira da sabedoria do Doutor, e lamenta quanta
besteira pode-se fazer por não entender uma conversa, a falta de informação do
jagunço mostra como as pessoas são veneráveis a serem ludibriadas por pessoas
de posse do poder e tem como arma o saber.
Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruídas!” E disse
“A gente tem cada cisma de dúvida boba dessas desconfianças... Só pra
azedar a mandioca... (ROSA, 2005: 59).
O Doutor Farmacêutico percebeu que poderia dar a resposta favorável para
todos, e que não estaria assim contrariando o verdadeiro sentido da palavra, e sim
dando uma nova significação, além de assegurar a paz no final da história,
confirmam os ensinamentos de Foucault quando diz que:
O importante creio, é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder,
a verdade é deste mundo; e ela produz múltiplas coerções, e efeitos
regulamentados de poder. [...]. Os mecanismos as instâncias que permitem
distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se
sanciona uns aos outros; as técnicas, os procedimentos que são
valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o
encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. (FOUCAULT, 2013 p 52).
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CONCLUSÃO
Neste trabalho, o estudo sobre o poder, o saber e os sentidos, foi constituído
nas instâncias dos conhecimentos Foucaultianos e semânticos, o objetivo foi
analisar os elementos do poder, do saber e dos sentidos dentro do conto
“Famigerado”.
A pesquisa demonstra que segundo o pensamento do autor:
Poder e saber estão presentes em todas as instâncias, e que não tem lugar
fixo, e nem classe social, não é obtido por herança, e nem por grau de
instrução, é adquirido por exercício e conquistado ao longo de uma história.
(FOUCAULT. 2013).
Desta forma foi constatado que o poder e o saber se apresentam tanto nas
áreas acadêmicas como nas áreas periféricas, demonstra que o poder tem relações
sim com o saber, pelo simples fato de que um depende do outro para existir.
Visto que todas essas relações também dependem de alguns elementos, e
com base nas influências e costumes de uma sociedade, o papel principal do poder
é dar voz ao sujeito através do saber, utilizando das formas de conhecimento para
fabricar e exercer o poder, ou por meio da força, já que toda relação de força é uma
relação de poder.
“Famigerado”, conto de Guimarães Rosa, objeto de análise desse trabalho, é
um exemplo de que o conhecimento e a força são os elementos principais das
relações entre o poder e saber. O conto relaciona-se com a semântica dando um
belo exemplo dos vários sentidos que uma palavra apresenta em uma história que
aparentemente parecia uma tanto complicada.
Todo o conto “FAMIGERADO” mostra mudanças e as alternâncias de
sentidos dentro do contexto. Há ocasiões em que o poder está nas mãos de quem
possui a força, em outros momentos vimos que o poder se inverte e passa para
quem usa as formas, os regulamentos. É como diz Foucault, “É o poder que produz
o sujeito e não o contrário”.
Por fim, a realização desse trabalho, teve também como intuito analisar as
relações de poder, do saber, e as relações dos sentidos que a palavra
“FAMIGERADO” apresenta no conto utilizando-se da polissemia como instrumento
de análise.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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abordagem cognitiva em semântica lexical. São Paulo: Edição Fundação Calauste
Gulbenkian. Fundação para a Ciência e Tecnologia. Novebro 1999.
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FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. 7. Ed.
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______. Microfísica do poder. Organização, Introdução e revisão técnica de Roberto
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______. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Trad. de Raquel Ramalhete.
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______. História da sexualidade I: A Vontade de saber, tradução de Maria Thereza
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1988.
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Maria Inês Soares de Carvalho Miranda