Universidade do Estado do Pará Centro de Ciências Sociais e Educação Curso de Licenciatura em Matemática Nayra da Cunha Rossy O Laboratório de Educação Matemática da UEPA (LABEM): recortes de uma história a partir do relato de professores BELÉM - Pará 2011 Centro de Ciências Sociais e Educação Curso de Matemática Av. Djalma Dutra S/n 66030-010 Belém - PA Nayra da Cunha Rossy O Laboratório de Educação Matemática da UEPA (LABEM): recortes de uma história a partir do relato de professores Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciatura Plena em Matemática, Universidade do Estado do Pará. Orientador: Prof. Dr. Natanael Cabral Belém – Pará 2011 Dados Internacionais de Catalogação na publicação Biblioteca do Centro de Ciências Sociais e Educação da UEPA Rossy, Nayra da Cunha O Laboratório de Educação Matemática da UEPA (LABEM): recortes de uma história a partir do relato de professores. / Nayra da Cunha Rossy. Belém, 2011. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Matemática) – Universidade do Estado do Pará, Belém, 2011. Orientação de: Natanael Cabral. 1. Matemática – Ensino médio 2. Matemática de laboratório 3. Laboratórios I. Cabral, Natanael (Orientador) II. Título. CDD: 21 ed. 510.7 Nayra da Cunha Rossy O Laboratório de Educação Matemática da UEPA (LABEM): recortes de uma história a partir do relato de professores Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciatura Plena em Matemática, Universidade do Estado do Pará. Data de aprovação: 16 / 01 / 2012 Banca Examinadora ____________________________________ - Orientador Prof. Natanael Freitas Cabral Doutor em Educação Brasileira Universidade do Estado do Pará ____________________________________ Prof. Acylena Coelho Costa Mestre em Educação Matemática Universidade do Estado do Pará ____________________________________ Prof. Neivaldo de Oliveira Silva Mestre em Educação Universidade do Estado do Pará AGRADECIMENTOS A DEUS, meu companheiro e eterno guia. A minha mãe, Elenia, pelo amor incondicional e que fez de sua vida uma luta pelo meu sucesso. Ao meu pai, Wilson, que vibra com brilho nos olhos a cada passo dado em minha vida. Ao meu namorido, Francisco Neto, pelo companheirismo, sabedoria e amor. Ao Cigano, meu outro pai, pelo amor incondicional e por ter me ensinado muito mais do que eu pude perceber. Aos meus irmãos Nayara e Kayan, por estarem presentes nos momentos mais importantes da vida. Aos meus irmãos Renan, Herick e Hector, por me darem alegria e amor que me motivam. Aos meus sogros Francisco Filho e Vera, pela nova família, suporte que me permite cada nova conquista. Ao meu orientador, Natanael Cabral, por acreditar, orientar novos caminhos e minha vida há muito tempo. Ao professor Carlos Miranda, pela disposição, paciência e confiança desde o início de minha caminhada profissional. Ao professor Miguel Chaquiam, por acreditar e motivar meu caminho profissional desde o início do curso. À professora Jeane Silva, a quem devo parte de muitas conquistas e que contribuiu intensamente durante todos esses anos com minha formação. Ao professor Pedro Sá, pelos conselhos, compreensão e sabedoria nos momentos difíceis. Ao professor Rubens Vilhena, pelo apoio e confiança. Aos professores Francisco Júnior, Selma Santalices, Acylena Costa, Neivaldo Silva, Rose Jucá, Gilberto Vogado, Eliza Silva, Glória Lima, Rafael Patrício, Ana Claudia Hage, David Branco, pelas inúmeras contribuições durante todos esses anos. Ao professor Paulo Gurjão, pelo amparo no momento mais difícil. Aos amigos Ilana, Andreza, Talita, Lucival e Edmar, pelos momentos de alegria e companheirismo. RESUMO ROSSY, Nayra. O Laboratório de Educação Matemática da UEPA (LABEM): recortes de uma história a partir do relado de professores, 2011. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Licenciatura Plena em Matemática) – Universidade do Estado do Pará, Pará, 2011. Esta pesquisa busca resgatar recortes da história do Laboratório de Educação Matemática (LABEM) da Universidade do Estado do Pará (UEPA), por meio de entrevistas com os professores que fizeram parte dessa história. Para tanto, foi realizado inicialmente um levantamento bibliográfico acerca da pertinência do ambiente do laboratório, com base nas experiências descritas por interlocutores de cinco universidades brasileiras, reforçando algumas concepções de laboratório e alguns de seus benefícios. No segundo momento da pesquisa, foram realizadas entrevistas com alguns professores da UEPA que participaram ativamente da história do LABEM. Uma vez transcritas, tais entrevistas permitiram o cruzamento de informações que, de maneira linear, constituíram partes de sua história desde a sua fundação até os dias atuais. Ainda neste momento, foi feito um acompanhamento de duas atividades no LABEM em novembro de 2011 com alunos do segundo ano do curso de Licenciatura em Matemática da UEPA. No terceiro momento desta pesquisa foi realizada uma discussão acerca das contribuições do levantamento bibliográfico feito, bem como o resgate de partes da história do LABEM e as atividades acompanhadas em 2011. Todos eles permitiram a enumeração de três saberes práticos adquiridos na formação inicial com práticas desenvolvidas no Laboratório de Educação Matemática: o Laboratório é capaz de promover aos futuros professores o aprendizado de que para ensinar não basta ter conhecimento do conteúdo em um sentido restrito, é necessário aprender a ensinar; oferece também a percepção de que existe uma diferença entre o que se planeja e o que se executa em sala de aula, e com isso é necessário aprender a lidar e adquirir experiências ainda no curso de formação; confere aos futuros professores maior segurança e autonomia para o efetivo exercício docente. Os aprendizados adquiridos ratificaram a importância do Laboratório de Educação Matemática como ferramenta de aquisição de saberes práticos a partir de um trabalho colaborativo contribuindo significativamente para a formação inicial de professores de Matemática. Palavras-chave: Laboratório de Educação Matemática. História do LABEM. Formação inicial. Saberes práticos. ABSTRACT ROSSY, Nayra. O Laboratório de Educação Matemática da UEPA (LABEM): recortes de uma história a partir do relado de professores, 2011. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Licenciatura Plena em Matemática) – Universidade do Estado do Pará, Pará, 2011. This research seeks to rescue the history of clippings Laboratory of Mathematics Education (LABEM) of Universidade do Estado do Pará (UEPA). Through interviews with teachers who were part of this story. To do so, it was initially carried out the literature concerning the relevance of the laboratory environment, based on the experiences described by speakers of five Brazilian universities, reinforcing some conceptions of the laboratory and some of its benefits. In the second phase of this research, interviews were conducted with some of UEPA teachers who actively participated in the history of LABEM. Once transcribed, these interviews allowed the crossing of information that, in a linear way, form part of its history since its foundation to the present day. Even now, were realized two activities in Labem in November 2011 with the second year students of Degree in Mathematics from UEPA. In the third stage of this research was conducted a discussion of the literature made contributions as well as redeeming pieces the history of Labem and activities realized in 2011. All they allowed the enumeration ofthree practical knowledges acquired in training with practices developed in the Laboratory of Mathematics Education: the Laboratory is able to promote to prospective teachers learning to teach that not enough content knowledge in a narrow sense, it is necessary learn to teach, also offers the perception that there is a difference between what is planned and what is executed in the classroom, and it is necessary to learn to cope and stillgain experience in the training course, it gives greater security to prospective teachers and autonomy for effective teaching practice. The learning acquired ratified the importance of the Laboratory of Mathematics Education as a tool for the acquisition of practical knowledges from a collaborative work contributes significantly to the initial training of teachers of Mathematics. Keywords: Laboratory of Mathematics training. Practical knowledges. Education. History of LABEM. Initial SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................ 8 2 A LICENCIATURA E O LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA . 13 2.1 A PROBLEMÁTICA DAS LICENCIATURAS E AS POSSIBILIDADES DO LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES ........................................................................................... 13 2.2 O FUNCIONAMENTO DE ALGUNS LABORATÓRIOS DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA NO BRASIL .......................................................................... 20 2.2.1 UFF – Universidade Federal Fluminense ...................................... 20 2.2.2 UnB – Universidade de Brasília ..................................................... 22 2.2.3 UFPB – Universidade Federal da Paraíba ..................................... 24 2.2.4 Universitas – Centro Universitário de Itajubá .............................. 25 2.2.5 UNAMA – Universidade da Amazônia ........................................... 28 2.3 APROXIMANDO OLHARES ................................................................... 32 3 O LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA DA UEPA: RECORTES DE UMA HISTÓRIA A PARTIR DA MEMÓRIA DE SEUS CONSTRUTORES 36 3.1 O PROJETO DO LABEM ........................................................................ 36 3.2 A GÊNESE DO LABEM DA UEPA A PARTIR DOS RELATOS DOS PROFESSORES NEIVALDO SILVA E JOSÉ SOUZA.................................. 40 3.3 A HISTÓRIA DO LABEM NA PERSPECTIVA DO PROFESSOR PEDRO FRANCO DE SÁ ........................................................................................... 49 3.4 A HISTÓRIA DO LABEM E AS EXPERIÊNCIAS DA PROFESSORA ACYLENA COELHO COSTA ........................................................................ 51 3.5 O LABEM DA UEPA E UM RECORTE DA SUA HISTÓRIA MAIS RECENTE ..................................................................................................... 55 4 DISCUSSÃO ................................................................................................. 64 4.1 O LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA E O SEU RECONHECIMETO PELA LITERATURA NA ÁREA .................................... 64 4.2 O LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA DA UEPA E O SEU RECONHECIMENTO NAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DE ALGUNS PROFESSORES ........................................................................................... 68 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS E NOVAS PERSPECTIVAS ............................ 75 REFERÊNCIAS.................................................................................................79 ANEXOS............................................................................................................81 8 1 INTRODUÇÃO Grande desafio docente é criar ambientes de aprendizagem nos quais os conteúdos escolares sejam percebidos, sobretudo, apreendidos pelos alunos, em uma esfera de múltiplos de significados capazes de lhes proporcionar uma visão mais ampla de si mesmo, do outro e do mundo ao seu redor. Uma aprendizagem que os tornem conscientes de suas escolhas e responsáveis por suas próprias histórias. Infelizmente o cenário educacional contemporâneo acaba refletindo um profundo mal estar, no qual, para Perrenoud (2000), é cada vez mais difícil ensinar e, principalmente fazer aprender. A sensação que se tem, em geral, é que estamos longe de atingir o grande desafio diante da realidade do cotidiano escolar, dos resultados do nosso ensino público desde o pré-escolar, passando pelo ensino fundamental e médio até o ensino de superior, sobretudo dos cursos de formação de professores. Um dos instrumentos que o Brasil dispõe para de avaliar as condições de sua educação, a Prova Brasil, aponta no IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – índices ainda insatisfatórios quanto ao desenvolvimento escolar nos anos iniciais e finais. Mas não é necessário ir tão longe para perceber que a Educação Brasileira precisa de mudanças urgentes desde estruturais físicas até de formação dos professores que compõem as escolas públicas e privadas. Para que a realidade educacional brasileira atinja um nível que se adeque ao que sugerem os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), são necessárias medidas governamentais que abranjam desde a formação dos professores até as condições gerais de funcionamento das escolas. A Matemática exerce papel decisivo na formação cognitiva, cultural e social do aluno, conferindo a ele bases para resolver problemas do cotidiano, desenvolver o raciocínio lógico, possibilitando novos caminhos não só para resolver problemas de cunho matemático, mas conferindo-lhe agilidade e eficiência em lidar com situações do dia-a-dia. Nos diversos ambientes de ensino no Brasil encontra-se o discurso lamentável de alunos e de alguns professores de que a Matemática é ininteligível para a maioria dos alunos e que apenas os melhores conseguem entendê-la. Algumas dessas crenças encontradas no meio escolar quanto à forma de 9 entendimento sobre a Matemática são traduzidas em expressões como: “só os gênios são capazes de descobrir ou criar matemática” e “a matemática é para pessoas criativas; os outros só tentam aprender o que lhes transmitem” (VILA e CALLEJO, 2006, p. 63). Além disso, vale ressaltar a crença sobre sua pobre – ou nenhuma – aplicação, como destacado por Vila e Callejo (2006, p. 60) ao registrarem que “a matemática formal tem pouca ou nenhuma relação com o pensamento real e a resolução de problemas” ou “a matemática aprendida na escola tem pouca ou nenhuma relação com o mundo real”. O contexto escolar é um meio cultural e, como tal, possui suas regras, valores, relações sociais e econômicas que são reflexos da cultura dos indivíduos que o formam. Neste ambiente é que nascem as crenças sobre a “inatingível” Matemática, reforçada dentro da sala de aula, quando a abordagem do professor sobre determinados conteúdos faz jus ao que pensam os alunos. Os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental reconhecem a importância de um ensino de Matemática solidificado e bem estruturado, trazendo benefícios imediatos e em longo prazo para os alunos. Porém, não é essa a realidade com a qual nos deparamos ao entrar em uma sala de aula brasileira: alguns professores são conscientes da importância do aprendizado de Matemática para os alunos, enquanto que os aprendizes (crianças ou não) revelam cada vez mais dificuldades em tal processo, gerando uma grande contradição no processo ensino-aprendizagem de Matemática, vista como a grande vilã da escola. Tal crença é causada, para D’Ambrosio (2011, p. 6), pela “insistência sobre um conceito obsoleto de currículo, baseado em conteúdos e métodos obsoletos e desinteressantes, com objetivos mal definidos”. Fishbein e Azjen (1975, apud CALLEJO, 2006) definem alguns tipos de crenças, dentre elas as descritivas, que são validadas continuamente pelas experiências e que influenciam decisivamente nas atitudes dos indivíduos, como a de que a Matemática não possui aplicação no cotidiano, também comum no ambiente escolar e que também a distancia dos alunos. Grande parte dessas crenças se deve ao ensino tradicional que, ao colocar o professor no centro como “dono do conhecimento” e autoridade cognitiva, limita os alunos ao recebimento de informações, o que gera confusão quanto ao significado do aprendizado com transferência de informações. 10 Sobre isso, Freire (2008, p. 47) defende que: Este saber necessário ao professor – que ensinar não é transferir conhecimento – não apenas precisa ser apreendido por ele e pelos educandos nas suas razões de ser – ontológica, política, ética, epistemológica, pedagógica, mas também precisa ser constantemente testemunhado, vivido. O aluno precisa viver o processo de aprendizagem e estar consciente desse processo de ensino, o que se torna limitado com a metodologia tradicional. Para Fossa (apud SÁ, 2009), um aprendizado com significado está aliado à natureza da aprendizagem humana, isto é, para que a aprendizagem seja significativa, o ensino deve ser consoante com a natureza do aluno, o que é, em boa parte, limitado quando se tem um ensino tradicional. Para Cabral (2010), pensar que ensinar é apenas transferir conhecimento a um grupo de alunos é reduzir à dimensão mais evidente uma atividade tão complexa que é o ato de ensinar. Para Gauthier et al. (apud NACARATO e PAIVA, 2006, p. 14) ratificam que pensar desta forma é “negar-se a refletir de forma mais profunda sobre a natureza desse ofício e dos outros saberes que lhe são necessários”. Segundo D’Ambrosio (2011) o aprendizado em Matemática deve ser uma prática cultural que permita ao aluno manter sua dignidade e desenvolva sua criatividade. A Matemática é, para esse autor, uma via de acesso para que o indivíduo reconheça o mundo. Assim, as novas demandas exigem alternativas que, em oposição ao modelo tradicional de ensino, centrado no conhecimento pronto, já pré-estabelecido, incontestável e de ênfase diretiva, preconizam a ênfase nas interações entre pares, a construção partilhada de conhecimentos, as ações colaborativas e a pesquisa que definem, necessariamente, para o professor, uma nova postura de ação essencialmente mediadora. Uma alternativa apontada neste trabalho para atingir ao que se espera para a educação brasileira é uma melhoria nos cursos de formação de professores. Os cursos de licenciatura no Brasil estão centrados no paradigma da racionalidade técnica e oferecem um aprendizado prático insuficiente para os alunos das graduações, não os deixando, portanto, aptos a agirem de forma segura em sala de aula e preparados para lidar com a realidade escolar de forma adequada. 11 Atitudes inovadoras que busquem o incentivo à reflexão e à criticidade são consequências de uma boa formação. Nesse sentido, é apresentado neste trabalho o Laboratório de Educação Matemática (LEM) como alternativa viável para a formação de professores em uma perspectiva de valorização da aliança entre teoria e prática, com a qual os futuros professores precisam ter contato ainda no processo de formação inicial. Durante o período de graduação, cursei algumas disciplinas que me chamavam atenção para os processos de ensino-aprendizagem aos quais estava sendo inserida. Uma delas foi a disciplina de Instrumentação para o Ensino de Matemática I ministrada pelo professor Dr. Natanael Freitas Cabral, que trata de diversas alternativas metodológicas para o ensino de Matemática, especificamente no ensino fundamental. Nesse período, o Laboratório de Educação Matemática da Universidade do Estado do Pará – LABEM da UEPA – estava inativo e não tive oportunidade de desenvolver trabalhos ligados ao ensino de Matemática naquele ambiente. No entanto, a necessidade que senti de vivenciar algumas experiências propostas pelo ambiente do laboratório me motivou a desenvolver minha pesquisa baseada nas contribuições que um LEM oferece à formação de professores de Matemática. Nessa perspectiva, dividi minha pesquisa em três momentos, apresentados nas seções seguintes deste trabalho. Na próxima seção (seção 2), para reforçar a apresentação do LEM como alternativa para o curso de formação de professores, apresento algumas experiências de laboratório realizadas em cinco Universidades brasileiras com base na pesquisa de Cabral (2010) e na obra de Lorenzato (2009), são elas: UFF, UnB, Universitas, UFPB e UNAMA. Após o levantamento feito sobre os laboratórios das cinco universidades brasileiras citadas e a lista de benefícios aos futuros professores apresentada, inicio, na terceira seção deste trabalho, o resgate de partes da história do Laboratório de Educação Matemática da UEPA, o LABEM, realizando uma análise sobre o contexto no qual o laboratório surgiu bem como a motivação dos professores que o fundaram e o apoio conquistado durante seus quase 20 anos de história. Para tanto, entrevisto quatro professores da UEPA que tiveram alguma ligação com o laboratório, seja como coordenadores do mesmo ou do curso de Matemática, obtendo o resgate de partes importantes da história do Laboratório de 12 Educação Matemática da UEPA desde sua fundação até o período atual, sobre o qual descrevo atividades que acompanhei com uma turma do segundo ano do curso de Matemática da UEPA na disciplina de Instrumentação para o Ensino de Matemática I, com uma posterior entrevista com os alunos que participaram. A seção 4 de meu trabalho trata de uma discussão visando a aproximações e distanciamentos entre o levantamento bibliográfico realizado e o que foi produzido no LABEM da UEPA durante sua história na perspectiva das contribuições do Laboratório de Educação Matemática para o curso de formação de professores. Nas considerações finais elenco alguns pontos importantes obtidos com a pesquisa realizada, bem como perspectivas para o futuro, dando continuidade à pesquisa e aos estudos relacionados ao Laboratório de Educação Matemática como alternativa metodológica para a formação de professores e seus benefícios. 13 2 A LICENCIATURA E O LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA Nesta seção trato de uma abordagem a respeito dos cursos de licenciatura no Brasil, apresentando algumas dificuldades enfrentadas pelos alunos da graduação no que tange aos seus saberes práticos, tomando como base o trabalho desenvolvido por Cabral (2010). Em seguida, realizo um levantamento sobre a atuação de alguns Laboratórios de Educação Matemática nos cursos de Licenciatura no Brasil, como o da Universidade Federal Fluminense, o da Universidade de Brasília, Universidade Federal da Paraíba, Centro Universitário de Itajubá e da Universidade da Amazônia, destacando suas respectivas relevâncias para o curso de Licenciatura e para o desenvolvimento profissional dos futuros professores, discutindo algumas aproximações e distanciamentos entre os trabalhos desenvolvidos e o que aponta a literatura sobre o assunto. Encerro esta seção com um breve relato sobre a minha experiência como aluna da Universidade do Estado do Pará do curso de Licenciatura Plena em Matemática e minhas experiências voltadas para as atividades do laboratório. 2.1 A PROBLEMÁTICA DAS LICENCIATURAS E AS POSSIBILIDADES DO LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES Para Medina e Dominguez (apud GARCIA, 1999), a formação de professores é a preparação e emancipação profissional do docente para exercer uma forma de ensino que promova uma aprendizagem significativa para os alunos de forma crítica, reflexiva e eficaz, atingindo um pensamento-ação inovador e desenvolvendo um projeto educativo comum em equipe com seus colegas. A comparação dessa perspectiva com o que se apresenta da realidade atual dos cursos de licenciatura no Brasil nos dá a impressão de que ainda há muito a ser feito. Pires (apud CABRAL, 2010, p.56) afirma que “o modelo convencional de formação inicial de professores de matemática vem sendo bastante questionado nos últimos anos, sobretudo, por sua ineficiência”. Este autor aponta como um dos motivos para tal situação o fato de a formação de professores estar centrada no paradigma da racionalidade técnica, considerada como uma concepção 14 epistemológica da prática na qual a atividade profissional é dirigida para a solução de problemas por meio de uma rigorosa aplicação de técnicas e teorias científicas, o que acaba diminuindo as possibilidades de aplicações e aprendizados de formas práticas dentro de um curso de licenciatura. Cabral (2010, p. 57) partilha da visão de que: O conhecimento teórico-profissional orienta os espaços singulares e divergentes da prática e sugere a utilização de regras de atuação para ambientes prototípicos e para aspectos comuns e convergentes da vida escolar. Isso significa dizer que os futuros professores, nessa lógica, não são preparados para agir em sala de aula. Uma vez centrado em regras de atuação para ambientes prototípicos da vida escolar, o futuro professor não adquire um nível de experiência prática suficiente para que tome atitudes inovadoras e gestoras de um grupo de alunos potencialmente reflexivos e saiba lidar com as situações diárias do ambiente escolar. Ponte (1998) traz significativa contribuição a este tema ao afirmar que a questão da formação do professor de Matemática é um grande desafio em um mundo que inclui a formação inicial, continuada e especializada, onde figuram modelos, teorias e a investigação empírica, além de estudar as práticas reais dos atores e das instituições, bem como suas experiências inovadoras. Além disso, as Diretrizes (BRASIL, 2001) preveem que a formação inicial deve viabilizar condições ao futuro professor para que exerça o ensino baseado nas práticas investigativas e reflexivas, voltado para a aprendizagem do aluno, utilizando metodologias alternativas que valorizem o trabalho colaborativo. Segundo Cabral (apud PIRES, 2000), pesquisas na área mostram que o modelo convencional dos cursos de formação inicial de professores no Brasil têm se apresentado ineficientes e vêm sido questionados devido à existência de diversos fatores. Dentre eles, aponta o fato de os cursos de licenciatura serem atrelados aos cursos de bacharelado, fazendo com que os cursos de formação de professores não sejam realizados com identidade. Outra problemática enfrentada nos cursos de licenciatura no Brasil é a da cultura escolar trazida pelos alunos em formação de professores, que não são levadas em consideração nas ações de planejamento dos cursos de formação, onde o futuro professor acaba por se tornar reprodutor de informações, distanciando-o 15 cada vez mais das oportunidades de se tornar agente coparticipante de seu próprio processo de aprendizagem. Um aspecto interessante sobre tal problemática foi ressaltado por Cabral (2010) quanto à superficialidade das ações formativas concernentes à relação dos futuros professores com as situações práticas de ensino. Nesta perspectiva, o futuro professor não é preparado para ser um profissional, e sim um “aplicador de técnicas”, principalmente porque não se torna apto o suficiente para tomar decisões acerca de seu próprio aperfeiçoamento. Esse autor também corrobora com a percepção de que a formação inicial deve proporcionar ao futuro professor as condições necessárias para que aprenda Matemática numa dimensão que o possibilite proporcionar aos seus alunos experiências significativas e enriquecedoras com tal disciplina. Defende também que isso só será possível se a formação inicial assumir uma educação que vise ao estímulo do pensamento reflexivo, em detrimento da mera reprodução de informações. Proporcionar experiências enriquecedoras e significativas no ensino de Matemática é uma tarefa que exige conhecimento, disposição, assunção, planejamento e comprometimento com o ensino e com os alunos. Promover situações que estimulem criatividade, investigação, discussão e crítica torna os alunos o centro do processo de aprendizagem. Para Perez et al. (2002) o quadro educacional brasileiro é insatisfatório e é necessário a instalação de uma “nova educação” que não busque capacitar os alunos em habilidades específicas, e sim crie ambientes que preparem cidadãos críticos, livres e questionadores. Ainda para esse autor, o professor é um dos principais elementos de construção dessa nova realidade. No que diz respeito aos alunos dos ensinos fundamental e médio, Lorenzato (2009, p. 25) afirma que Para o aluno, mais importante que conhecer essas verdades matemáticas, é obter a alegria da descoberta, a percepção da sua competência, a melhoria da autoimagem, a certeza de que vale a pena procurar soluções a fazer constatações, a satisfação do sucesso, e compreender que a matemática, longe de ser um bicho-papão, é um campo de saber onde ele, aluno, pode navegar. 16 Assim, num conjunto de possíveis ações para a melhoria da formação de professores no Brasil, isto é, no sentido de promover uma educação mais consistente e adequada às novas demandas, é que o Laboratório de Educação Matemática (LEM) se apresenta, nesse contexto, como excelente alternativa, capaz de proporcionar mudanças significativas no cenário da educação brasileira. Para Turrioni (2009), a existência de um LEM nos cursos de Licenciatura em Matemática no Brasil proporciona ao graduando o desenvolvimento de competências que o levam a tomar atitudes de constante atualização, devido às mudanças que produzem, de criatividade, cooperação, análises críticas, reflexivas e construtivas. Em 2004, a mesma autora classificou o LEM com duas formas de contribuição para “Desenvolvimento a formação Profissional” e de a professores: segunda de a primeira chamada “Formação do de Professor Pesquisador”, o que possibilita o desenvolvimento do futuro professor enquanto pesquisador e enquanto profissional. Para Ewbank (apud TURRIONI, 2009), o Laboratório de Educação Matemática é um lugar estruturado para desenvolver experimentos e outras atividades práticas. Além disso, não define apenas como um espaço destinado a isso. Para o autor, a própria sala de aula pode ser LEM quando o processo de ensino que nela acontece é diferenciado, quando há movimentação, discussão e utilização de materiais didáticos e métodos investigativos em Matemática, que resultam em uma melhora no aprendizado tanto dos indivíduos em formação de professores quanto dos alunos do ensino fundamental e do médio. Perez (2009) aproxima-se de um conceito tradicional de laboratório quando o especifica como um local onde se realizam experimentos com materiais didáticos, concepção que também é reforçada por Oliveira (apud LORENZATO, 2009), que propõe o uso do LEM como um espaço de criação de situações e condições para levantamento de problemas e questionamentos pertinentes a atividade docente, bem como proposição de soluções e análises de resultados. Passos (2009), em uma abordagem mais completa sobre o conceito de LEM, afirma que um Laboratório de Educação Matemática é um ambiente que propicia a futuros professores e os professores dos cursos de formação um conjunto de investigações e explorações matemáticas que objetivam fazer determinadas descobertas matemáticas, observar padrões e regularidades. 17 É importante ressaltar um detalhe no conceito de LEM para esse último autor. Ao fazer descobertas matemáticas, investigar padrões e regularidades em situações propícias e próximas ao seu meio social, o aluno desenvolve um aprendizado amplo no que diz respeito à Matemática. Tornar o aluno crítico, investigativo e reflexivo é um dos maiores desafios que o professor de Matemática nos dias atuais deve assumir. Atingir tais objetivos é concordar na prática com o que afirma Rêgo (2009, p. 46) ao sugerir o que o professor no ensino de Matemática deve buscar: [...] “levar o aluno a diferenciar o que é uma definição e um conceito, bem como o desenvolvimento de atitudes como ver a matemática como um conhecimento social, em permanente processo de construção”. No trabalho de Turrioni e Perez (2006), esta questão encontra interlocução quando reconhecem a importância de o licenciando desenvolver competências que o levem a adotar uma atitude que consolide a valorização da atualização permanente em função das exigências diante das novas demandas na educação, e, para isso, os autores apontam como alternativa viável o Laboratório de Educação Matemática (LEM). A ideia de um Laboratório de Educação Matemática tem conquistado gradativa atenção de professores e pesquisadores da área, o que se estabelece na medida em que se identificam sua viabilidade, pertinência e utilização nos diversos níveis de ensino, principalmente, nos cursos de formação de professores. No Brasil, o livro organizado por Sérgio Lorenzato intitulado O Laboratório de Ensino de Matemática na Formação de Professores registra a crescente credibilidade dos laboratórios de ensino na perspectiva da formação profissional de futuros professores. Nessa obra há uma grande quantidade de informações e registros com resultados importantes de pesquisas recentes sobre o que se tem chamado de LEM. Para Ewbank (apud TURRIONI e PEREZ, 2006, p. 60), a expressão “Laboratório de Matemática” é usada para representar em geral um lugar, um processo, um procedimento e complementa: [...] Com o sentido de lugar, é uma sala estruturada para experimentos matemáticos e atividades práticas. O termo também é utilizado para caracterizar uma abordagem utilizada em sala de aula, onde os alunos trabalham de maneira informal, movimentam-se, discutem , escolhem seus materiais e métodos e geralmente fazem e descobrem a Matemática por si próprios. 18 Nesse sentido, para esse autor, é inconcebível um bom curso de formação de professores de Matemática sem seu laboratório de ensino. Turrioni e Perez (2006) corroboram com a ideia de que é preciso vencer a concepção reduzida desse laboratório como depósito, destinado a guardar “coisas” para a configuração de um ambiente próprio para pensar, criar, construir e descobrir estratégias de Educação Matemática que visem à melhoria da aprendizagem dessa disciplina. Com efeito, quando se pensa em termos das possíveis contribuições de um LEM para o desenvolvimento da formação profissional de futuros professores, as discussões apresentadas até aqui acabam por indicar, para tal laboratório, uma função geral com duas consequências específicas. Por um lado, esse laboratório deve assumir a função geral de ser o ambiente que funciona como centro de discussão e desenvolvimento de novos conhecimentos dentro de um curso de Licenciatura em Matemática. O funcionamento adequado desse ambiente o aproxima de uma espécie de centro de produção com duas contribuições específicas, a saber: o desenvolvimento da formação profissional do futuro professor e a sua iniciação em atividade de pesquisa. Nesse sentido, é perfeitamente justificável a presença de um laboratório de ensino numa instituição de formação se o licenciando estiver envolvido em projetos e execução de experiências, com oportunidades de correlacionar teorias da psicologia com métodos didáticos, fazendo, assim, a síntese de sua formação teórica e pedagógica numa aplicação simultânea das teorias em situações reais. O aprendizado do licenciando, portanto, passará a ser sentido como fruto de uma conquista própria do seu trabalho acadêmico. Além de se habituar a trabalhar em cooperação com seus colegas, fator imprescindível para seu desenvolvimento profissional, destacado, inclusive, pelas Diretrizes (BRASIL, 2001), fortalecerá uma postura de racionalidade aberta, próxima do que sugere a carta de transdisciplinaridade que foi produzida em Arrábida, Portugal, enunciando 14 artigos que preveem o olhar transdisciplinar que favorece a manutenção de uma mentalidade de atitudes inovadoras. O Laboratório de Educação Matemática deve ser concebido como um agente de mudança, num ambiente onde se “concentram esforços de pesquisa na busca de novas alternativas para o aperfeiçoamento do curso de Licenciatura em 19 Matemática, bem como do currículo dos cursos de ensino fundamental e médio” (LORENZATO, 2006, p. 47). Tendo em vista os aspectos educacionais destacados quando se conceitua um LEM, é possível perceber que a intenção existente na construção de um laboratório em um curso de formação é de torná-lo um ambiente de discussão, envolvimento, experiências e interação, que resultará em grandes contribuições para a própria Universidade, para os alunos em graduação e, principalmente, para os alunos dos ensinos fundamental e médio com os quais os futuros professores irão lidar. Dentre as várias concepções de LEM aqui apresentadas, devo concentrar meu foco em basicamente uma perspectiva: enfatizo, portanto, neste trabalho, a concepção de Laboratório apresentada por Cabral (2010) como um ambiente constituído por ações do professor, como pesquisa, elaboração, aplicação e avaliações de situações de ensino geradas pelas atividades desenvolvidas. Tal concepção “atitudinal” (CABRAL, 2010, p. 118) de laboratório é desenvolvida e justificada pelo autor à medida que responsabiliza o professor pela mediação do processo de construção do conhecimento na sala de aula. Desta maneira, para Cabral (2010, p. 118): O desenvolvimento da atitude que materializa o Laboratório de Educação Matemática conduz o professor naturalmente a uma intencionalidade pedagógica, ou seja, ele precisa saber exatamente aonde quer chegar com aquela(s) atividade(s). Assim, ele evitará descansar permanentemente nos “braços protetores” do livro didático, tão importante como apoio ao planejamento das ações de ensino, sem deixar de considerar suas limitações. Nesse contexto, Cabral (2010) ainda destaca dois aspectos que contribuem para a formação de professores. Por um lado, o laboratório configura-se como um espaço/ambiente capaz de proporcionar ao futuro professor o desenvolvimento da formação profissional e, por outro lado, viabiliza a iniciação desses futuros professores em atividades de pesquisa. Nesse sentido, quando inserido em um processo de criação, discussão, execução de experiências, o aluno adquire condições de desenvolver um aprendizado diferenciado, onde assume a responsabilidade pelo seu próprio aprendizado, como defende Cabral (2010, p. 91) sobre a compreensão da 20 “necessidade de assumir seu próprio desenvolvimento profissional”, o que caracteriza uma nova mentalidade acerca do ambiente de ensino-aprendizagem. Além disso, a necessidade de se produzir atividades de ensino levam naturalmente o futuro professor à prática da pesquisa bibliográfica que subsidiará seus produtos e suas reelaborações mediante suas observações empíricas dos resultados das aplicações dessas atividades com seus alunos escolares. Essas perspectivas podem, também, refletir nos processos de ensino nos diversos níveis escolares (ensino fundamental e médio), pois, uma vez preparados para agirem em sala de aula de forma a tornarem o aprendizado mais significativo, os futuros professores o farão de maneira segura e construtiva. Um aspecto interessante a ser destacado é que apresento o Laboratório como uma alternativa metodológica para um possível aprendizado significativo. Isso não significa que as metodologias tradicionais de ensino não sejam adequadas em determinadas situações, bem como outras metodologias, o que é justificado por Cabral (2010, p. 120) ao afirmar sobre a necessidade de diversificação das possibilidades metodológicas: “Se o processo de ensino-aprendizagem, de fato, é complexo e não linear, então é lógico admitir que não se possa ensinar-aprender todas as coisas a partir de uma mesma metodologia”. No Brasil, diversas Instituições de Ensino Superior desenvolveram experiências com a implantação de um LEM e registraram contribuições significativas para o crescimento qualitativo dos cursos de formação de professores nos quais o laboratório foi desenvolvido quanto para o aprendizado dos próprios estudantes da graduação, o que será relatado nas próximas seções, baseado na pesquisa desenvolvida por Cabral (2010) sobre tais experiências. 2.2 O FUNCIONAMENTO DE ALGUNS LABORATÓRIOS DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA NO BRASIL 2.2.1 UFF – Universidade Federal Fluminense O Laboratório de Ensino de Geometria (LEG) foi fundado em 1994 na Universidade Federal Fluminense e, como o nome sugere, foi desenvolvido em uma perspectiva voltada para estudos de metodologias do ensino de Geometria cujas 21 atividades se relacionaram à utilização de materiais concretos e de ambientes virtuais. O LEG tornou-se um ambiente propício para o desenvolvimento de pesquisas em Educação Matemática voltadas para a Geometria, com o estudo de metodologias alternativas de ensino, sempre buscando a melhoria do ensino e da aprendizagem dos alunos do ensino fundamental e do médio, bem como dos estudantes em formação nos cursos de licenciatura da Universidade. À medida que o LEG objetivava contribuir com a aquisição de novas habilidades para os futuros professores e para os professores em formação continuada, observava-se a mudança no desempenho tanto de atividades matemáticas quanto na atuação profissional, excluindo, portanto, a possibilidade de transformar o LEG em um depósito de materiais didáticos, e sim em um ambiente de criação de materiais representativos de formas geométricas que contribuiriam para a diversificação do ensino e dando significado ao aprendizado. Há duas frentes de trabalho no LEG: uma trabalha com a produção de materiais manipulativos, como ábacos, geradores manuais de polígonos, quebracabeças plano e espacial, dentre outros, enquanto que a outra desenvolve atividades de ensino voltadas para a utilização de materiais e brinquedos já disponíveis no mercado, a exemplo de algum tipo de tangram, material dourado e blocos lógicos. As atividades e materiais produzidos nos 16 anos de LEG são colocadas à disposição da comunidade acadêmica e das escolas da região em exposições públicas no próprio espaço da Universidade com intenção de popularizar a iniciativa e interagir com a comunidade escolar ao promover cursos de capacitação profissional oferecidos aos professores das escolas públicas e privadas, inclusive, com cursos de especialização. A construção de conceitos tem sido enfatizada nas produções do LEG e, Cabral (2010, p. 98), em sua análise sobre tal experiência, afirma que O reconhecimento da necessidade de valorizar a abordagem com ênfase da reconstrução de conceitos e na identificação de certos „nós da aprendizagem‟, responsáveis pelas recorrentes dificuldades à compreensão do objeto matemático, sem dúvida, se constitui num significativo indício de desenvolvimento da formação profissional dos futuros professores que participam dessa experiência. 22 Em outras palavras, a abordagem feita pelo LEG na Universidade Federal Fluminense busca desenvolver materiais didáticos com o objetivo de dispor de diferentes métodos de ensino que visam à transformação da Matemática em algo significativo para os alunos, ao mesmo tempo em que insere os estudantes da graduação em uma esfera de envolvimento com a prática docente, aproximando-os das situações cotidianas e os deixando mais preparados para exercer a futura profissão de forma mais segura e responsável. À medida que o Laboratório de Ensino de Geometria se desenvolveu na UFF, a mudança no comportamento dos alunos do curso de graduação foi facilmente observada, uma vez que passaram a sentir menores dificuldades nos próprios processos matemáticos, além de passarem a sentir maior responsabilidade com a atividade docente, o que revela um maior envolvimento e comprometimento do estudante da graduação com a profissão. Os benefícios trazidos pelo LEG da UFF, sem dúvidas, foram significativos para o desenvolvimento do curso de formação de professores de Matemática, sobretudo para a atuação profissional dos estudantes que dele participaram. As contribuições do Laboratório de Geometria registradas neste texto servem como suporte para justificar a adoção do Laboratório em cursos de Licenciatura no Brasil, cujas limitações já foram discutidas nesse trabalho. 2.2.2 UNB – Universidade de Brasília O Laboratório de Ensino de Matemática da Universidade de Brasília nasceu na década de 1980 e foi utilizado pela primeira vez na realização de um curso de verão para alunos do ensino médio. Inicialmente, o laboratório era utilizado pelos próprios alunos da Instituição como um suporte para disciplinas relacionadas ao ensino fundamental e ao ensino médio e ao estágio supervisionado. Nesse período, o curso de Licenciatura em Matemática da UnB passou por algumas reformulações, dentre elas inserção da disciplina “Estágio em Laboratório de Ensino de Matemática” como obrigatória. As atividades produzidas no laboratório estavam ligadas também à disciplina “Estágio Supervisionado”, na qual os alunos em formação desenvolviam um planejamento e execução de sequências 23 didáticas de ensino a dois alunos do ensino fundamental e do ensino médio e eram acompanhados e orientados pelo então professor da disciplina. Tais atividades objetivavam contribuir para os professores em formação na medida em que entravam em contato com a realidade de aluno com a qual iriam lidar, além de aprenderem a utilizar os materiais didáticos e conhecerem suas limitações e necessidades. Cabral (2010) argumenta que, para que o professor em formação entre em contato com a realidade com a qual irá lidar, é necessário que esteja inserido neste contexto e se sinta responsável pela turma a qual vai ensinar. Apesar disso, o autor considera os objetivos apresentados possíveis de serem atingidos e destaca que este tipo de atividade possibilita que o professor em formação conheça a diferença entre o que ele ensina e o que o aluno aprende, bem como entre o que ele planeja e o que executa. Ao perceber que os alunos da disciplina não apresentavam os resultados esperados pelos professores da disciplina e apresentavam dificuldades, a interação entre eles – os futuros professores – e os professores da disciplina era fundamental para o seu aprendizado. Além de promover este tipo de atividade, o laboratório da UnB busca disponibilizar suas produções como materiais didáticos e atividades de ensino aos professores escolares oferecendo suporte a sua atividade profissional. Procura também criar situações que tornem a Matemática mais acessível e interessante como disciplina para a comunidade em geral. Embora o Laboratório de Ensino de Matemática da UnB não tenha como foco principal o ensino de geometria como na UFF, ambos os laboratórios se aproximam à medida que têm como objetivo a busca de alternativas metodológicas que concedam significado ao aprendizado de alunos, principalmente, do ensino fundamental. A produção de materiais didáticos se apresenta também como uma grande prática dentro do Laboratório e acaba aproximando-se das perspectivas do LEG da UFF ao inserir o aluno em um ambiente prático mais próximo da realidade docente, bem como do que afirma Perez et al. (apud TURRIONI e PEREZ, 2006) sobre a importância da criação de ambientes que visem à preparação para a educação crítica sem investir na figura do professor, sobretudo em sua formação profissional. Nesse sentido, Perez (1999) propõe uma mudança no processo de formação de professores, guiada por uma mudança de concepção do professor 24 inserido em um ambiente delineado por livros didáticos e modelos tradicionais de ensino, contrapondo-se a um professor considerado competente e comprometido que possua liberdade de gerir seu próprio processo de aprendizagem e vivência profissional, bem como os recursos dos quais precisa para tal processo. É nessa mudança de concepção que se adequa a perspectiva do Laboratório de Educação Matemática como uma importante alternativa de consolidação prática da formação profissional dos docentes em Matemática, inserindo possibilidades para uma educação consistente. 2.2.3 UFPB – Universidade Federal da Paraíba O Laboratório de Estudos e Pesquisa da Aprendizagem Científica (LEPAC) da UFPB foi fundado em 1991 e tem como filosofia e política a base na crença de que a construção do saber matemático é acessível a todos e que o baixo desempenho dos alunos brasileiros em Matemática pode ser superado e requer aprendizados externos à Matemática. Além disso, baseia-se em compromissos políticos que envolvem a mudança na escola e a comunidade, na luta por melhores condições de trabalho e o que também merece destaque: a luta por uma formação inicial de qualidade. O LEPAC tem uma peculiaridade interessante em relação aos laboratórios aqui já apresentados: tem um enfoque político. Nessa perspectiva, não descarta os aprendizados significativos em Matemática, a importância de um aprendizado sólido e de qualidade que envolva os alunos em uma esfera crítica e reflexiva, tornando-os partes de uma compreensão mais interessante de mundo e de si mesmos. Além da perspectiva política apresentada, o LEPAC visa ao desenvolvimento de materiais didáticos direcionados para uma melhor compreensão da realidade, além de adequados às escolas públicas brasileiras e busca romper com a concepção tecnicista das licenciaturas do Brasil, em busca de um teor mais prático para o aprendizado dos futuros professores. O LEPAC desenvolve projetos de extensão importantes para a comunidade escolar, como a implantação de clubes e laboratórios de Matemática, montagem de projetos de feiras de ciências na área matemática, promove oficinas, 25 cursos e palestras para alunos e professores, culminando em uma exposição anual, a “Matemática e imaginação” baseada em um modelo francês de exposição. No Laboratório são desenvolvidas linhas de conhecimentos matemáticos relacionados à Educação Matemática, como a de resolução de problemas, jogos e materiais concretos e história da Matemática, às quais o LEPAC já desenvolveu mais de vinte projetos institucionais e realizou exposições e cursos em escolas de ensino fundamental, médio e superior, não só no Nordeste, mas também no Norte. A filosofia do LEPAC encontra interlocução com o que já foi apresentado sobre a educação reflexiva que visa ao aluno como centro de seu processo de aprendizagem, quando Rêgo e Rêgo (2006, p. 40) afirmam que: As novas demandas sociais educativas apontam para a necessidade de um ensino voltado para a promoção do desenvolvimento da autonomia intelectual, criatividade e capacidade de ação, reflexão e crítica pelo aluno. Para tanto, faz-se necessário a introdução da aprendizagem de novos conteúdos de conhecimentos e de metodologias que, baseadas na concepção de que o aluno deve ser o centro do processo de ensinoaprendizagem, reconheça, identifique e considere seus conhecimentos prévios como ponto de partida e o prepare para realizar-se como cidadão em uma sociedade submetida a constantes mudanças. 2.2.4 Universitas – Centro Universitário de Itajubá O LEM do Centro Universitário de Itajubá (Universitas) nasceu no ano 2000 com o desenvolvimento de um trabalho realizado com alunos do curso de Licenciatura em Matemática nas disciplinas de Educação Matemática e Metodologia do Ensino da Matemática. Inicialmente, registrou-se que o LEM enfrentou resistência dos alunos do Universitas, uma vez que não haviam vivenciado experiências de caráter mais prático. Diante dessa situação, os alunos foram orientados e incentivados pela professora a se questionarem sobre o que era uma aprendizagem significativa e sua importância no processo de ensino-aprendizagem, além de conhecer melhor o significado de um trabalho contextualizado. Aprenderam a diferenciar conceitos e significados, por exemplo, o que os deixava mais confiantes para agirem por si sós em determinadas situações. As principais fontes de pesquisa dos alunos da graduação eram revistas pedagógicas, livros didáticos do ensino fundamental e materiais na internet que 26 poderiam ser úteis para a confecção de materiais e atividades a serem desenvolvidas no LEM. O andamento da turma foi entusiasmando os alunos, que cada vez mais, trocavam ideias, sugestões e reflexões acerca do ensino e da aprendizagem em Matemática, contribuindo para o crescimento do LEM daquele Centro Universitário. Os próprios alunos do curso começaram, então a constatar a grande colaboração do laboratório para o processo de ensino-aprendizagem, devido à interação que os alunos conseguiam estabelecer entre a teoria aprendida e a prática vivenciada. Um aspecto interessante merece destaque no contexto do LEM do Universitas: o fato de os alunos terem reconhecido a importância do trabalho em equipe, o que reforça a concepção do crescimento dos professores por meio da colaboração entre pares. Entre os processos de desenvolvimento do LEM deste Centro Universitário, destaca-se a promoção de trabalhos e eventos científicos que registraram as produções dos alunos e suas aplicabilidades, a exemplo da “Primeira Mostra do Laboratório de Educação Matemática”, em 2000, da “I Semana da Matemática” em 2001, a “II Semana da Matemática”, em 2002, cujo tema principal foi “Matemática é Arte”, buscando “Um Novo Olhar Sobre o Ensino da Matemática” (TURRIONI e PEREZ, 2006, p.70). Constatou-se também que o LEM viabilizou o desenvolvimento de competências aos alunos da graduação, como de autonomia, participação, colaboração, capacidade de percepção de princípios, dentre outras não menos importantes para o processo de formação inicial de professores. Houve superação de diversos obstáculos enumerados por Turrioni e Perez (2006), como a falta de motivação dos alunos para trabalhos práticos; resistências e dificuldades em lidar com inovações tecnológicas; visão limitada dos professores do curso; entendimento inadequado sobre o processo de formação; e a falta de oportunidade para o aperfeiçoamento dos próprios professores. Atualmente, o LEM do Universitas tem como objetivos principais a pesquisa e a produção de materiais didáticos que auxiliem, segundo Turrioni e Perez (2006, p. 65), “a aplicação, fixação, aprendizagem e ensino dos conceitos matemáticos”. Além disso, ainda para esses autores, o LEM oferece a oportunidade de desenvolver a consciência crítica, responsabilidade e o gosto pela pesquisa aos alunos que procuram ampliar e solidificar, ou até mesmo tornar práticos, alguns 27 conhecimentos acadêmicos, qualidades destacadas por Turrioni e Perez (2006, p. 66) como “tão importantes para a formação do bom educador”. Os autores descrevem o LEM do Universitas como um espaço com sala própria, contendo com mesas de trabalho para 38 pessoas, além de alguns materiais pedagógicos adquiridos pelo Centro Universitário, jogos e materiais produzidos pelos alunos do curso de Licenciatura em Matemática e pesquisas realizadas por eles. Os computadores se encontram em uma sala à parte. Porém, o LEM não se limita ao espaço físico e às atividades concretas existentes nele: para Turrioni e Perez (2006) o que faz com que o LEM exista é o Projeto de Melhoria da Qualidade de Ensino da Matemática, que transformou o laboratório em um espaço no qual os futuros professores avaliassem e aperfeiçoassem conceitos matemáticos utilizando materiais didáticos diversificados e solucionando problemas direcionados aos objetivos das disciplinas que eram cursadas aliadas ao LEM, de forma livre e construtiva, o que leva, segundo os autores, a uma melhor compreensão da Matemática, consequentemente melhorando seu ensino. O trabalho desenvolvido na Universitas, sem dúvidas, rompeu com um modelo de ensino-aprendizagem tradicional, o que pode ser percebido na resistência enfrentada pelos alunos ao lidarem com um aprendizado de caráter prático. A mudança de paradigma registrada no processo de implantação e desenvolvimento do laboratório desta instituição de ensino superior representa uma importante justificativa da implantação do laboratório como alternativa viável e eficiente para a melhora da formação de professores. Aprender a diferenciar conceitos de significados, por exemplo, foi uma das situações que deixaram os alunos da graduação mais confiantes e viabilizavam maior independência em situações práticas de ensino, o que confere grande contribuição para os cursos de formação de professores que adotam a medida do laboratório. A atitude de disponibilizar as produções do laboratório de educação matemática vem sendo registrada desde a primeira experiência relatada. No entanto, o LEM do Universitas consolidou esta atitude na medida em que houve produções científicas dos alunos que participaram de atividades no laboratório. As perspectivas trabalhadas no LEM se aproximam das experiências das Universidades anteriormente relatadas ao desenvolver atividades que valorizam a 28 aquisição de saberes práticos para os futuros professores. São colocadas em prática situações de ensino que visam ao aprendizado do futuro professor relacionado tanto à pesquisa quanto à produção de materiais didáticos, o que não os limita à execução do modelo de ensino tradicional. 2.2.5 UNAMA – Universidade da Amazônia O laboratório de educação matemática (LEMA) da Universidade da Amazônia – UNAMA – surgiu a partir de duas necessidades integradas: a oferta de três disciplinas diretamente ligadas à existência de um laboratório, Metodologia do Ensino de Matemática, Educação Matemática e Estágio Supervisionado III; e da necessidade por parte dos alunos do curso de Licenciatura em Matemática desta Universidade de cumprir uma extensa carga horária destinada às chamadas atividades complementares, que podem ser obtidas por meio de palestras, cursos, congressos, oficinas, dentre outras atividades. O LEMA da UNAMA passou a oferecer, então, atividades direcionadas ao cumprimento de horas válidas para as atividades obrigatórias complementares, além de complementar as três disciplinas citadas anteriormente de forma mais prática e que possibilitasse maiores discussões entre os alunos e professores. A elaboração de atividades voltadas para situações de ensino passaram a ser mais frequentes dentro do LEMA e aprofundaram-se as discussões acerca de alguns problemas presentes no cotidiano escolar, por meio da produção de textos didáticos que fossem capazes de envolver professor e alunos em uma determinada situação de ensino colaborativo. O professor responsável pelo Laboratório trabalhava em colaboração com os futuros professores, orientando-os a desenvolverem atividades voltadas para a reconstrução de conceitos matemáticos. Inicialmente, eram orientados a proporem uma situação-problema que permitisse com que a atividade buscasse justificar alguns “nós” da aprendizagem. As atividades produzidas eram apresentadas semanalmente em situações denominadas por Cabral (2010) “seções de microensino” e levados a uma posterior discussão e sugestão dos outros alunos e da colaboração do professor da turma. Outra grande colaboração das atividades produzidas do LEMA da UNAMA foi a criação de um projeto denominado “Aprender Ensinando & Ensinar a 29 Aprender Matemática” – AEEAM, onde os futuros professores tinham a oportunidade de lecionar para alunos dos ensinos fundamental e médio visando ao acúmulo de experiências que aproximam teoria e prática. O projeto AEEAM ainda está em funcionamento e cresceu consideravelmente desde sua implantação: os alunos que antes eram apenas de escolas públicas, agora estão somados a alunos de instituições privadas. As contribuições do LEMA da UNAMA merecem um destaque entre as experiências aqui descritas sobre as Universidades no Brasil. Na perspectiva de Cabral (2010), em primeiro lugar, o LEMA possibilitou que fosse desenvolvida uma dimensão social importante, na medida em que viabilizou oportunidades de acesso a aulas de matemática a alunos da comunidade escolar próxima a UNAMA, tanto pública quanto particular. Além disso, essa dimensão gerou o desenvolvimento de outra dimensão, elencada por Cabral (2010) como dimensão de ensino, uma vez que favorece a apropriação de informações, a partir de um trabalho colaborativo, além da obtenção de saberes práticos que favorecem o desenvolvimento profissional dos estudantes da graduação. Por último, o autor destaca uma terceira dimensão: a da pesquisa. Relata que os próprios alunos (da graduação) tendem a transformar suas atividades produzidas como simulações de ensino das atividades desenvolvidas aos sábados com alunos da comunidade escolar em pesquisas acadêmicas, inclusive, como trabalho de conclusão de curso. Entretanto, a principal análise sobre as possibilidades do laboratório está descrita em sua tese de doutorado. Nesse estudo, Cabral (2010) desenvolve sua pesquisa acompanhando um futuro professor em um processo de aprendizado em situações reais de ensino proporcionadas pelas atividades do LEMA/UNAMA a partir do projeto AEEAM apresentado há pouco. O que o autor busca compreender em sua pesquisa são traços de desenvolvimento profissional de um aluno do curso de Licenciatura em Matemática na UNAMA, enquanto participava das situações antecipadas de ensino promovidas pelo projeto AAEAM, no sentindo de antecipar alguns saberes práticos do exercício docente ainda no processo de graduação. A pesquisa foi desenvolvida com a realização de treze situações antecipadas de ensino (SAE), nas quais, as seis primeiras foram realizadas com 30 alguns alunos do curso de Licenciatura em Matemática da UNAMA obtendo orientações denominadas pelo autor como “orientações mínimas”, onde os futuros professores eram orientados, de uma maneira geral, em algumas questões relacionadas à condução das atividades realizadas durante as SAE. As sete SAE seguintes foram conduzidas de maneira diferenciada: as orientações oferecidas foram denominadas de “orientações máximas” e foram direcionadas a apenas um dos futuros professores que participaram das seis primeiras. As orientações máximas tratavam do acompanhamento às SAE ministradas pelo futuro professor, com registro de vídeos e imagens. Além disso, as orientações máximas também incluíram entrevistas realizadas com o futuro professor após cada SAE realizada e orientações relacionadas a formas de condução das aulas e da elaboração de materiais didáticos que serviriam de suporte metodológico ao futuro professor durante a realização das aulas. Poucas vezes o futuro professor foi interrompido para um restabelecimento ou reorganização da aula, uma vez que corria o risco de perder o controle da situação. No decorrer da realização das SAE sob a lógica das orientações máximas, o futuro professor acompanhado apresentou traços de desenvolvimento de formação profissional, registrados paulatinamente na pesquisa de Cabral (2010). Nessa perspectiva, o autor elaborou uma tríade que tratou dos dados coletados nos registros sobre tal desenvolvimento profissional. A tríade elaborada diz respeito à verbalização – sistematização – mobilização. O primeiro elemento da tríade está relacionado à manifestação do futuro professor diante dos questionamentos realizados pelo autor durante a realização das entrevistas posteriores às SAE. Em outras palavras, a verbalização está ligada ao reconhecimento do futuro professor sobre sua necessidade de adquirir saberes que resolveriam diversas dificuldades encontradas naquele exercício docente vivenciado. O segundo elemento da tríade diz respeito à busca pela mudança de comportamento/atitude diante do reconhecimento da necessidade da aquisição de saberes docentes. Para Cabral (2010, p. 137), a mobilização é “caracterizada pelas iniciativas e/ou esforços por meio dos quais [o futuro professor] executou certos ensaios em direção à satisfação dessas necessidades”. 31 O último elemento da tríade elaborada é considerada como a consolidação das mobilizações, em uma mudança sistemática de comportamento baseada na prática adquirida com as SAE. Nesta etapa, o futuro professor passou a gerir ações mais articuladas e objetivas, conferindo, segundo Cabral (2011) maior maturidade para a percepção e satisfação de novas necessidades. Com os dados coletados, o autor delineou em sua pesquisa quatro aprendizagens significativas nos saberes práticos adquiridos pelo futuro professor acompanhado, chamadas Unidades de Desenvolvimento de Formação Profissional (UDFP), que serão listadas a seguir. A primeira UDFP diz respeito ao rompimento do discurso egocêntrico. O futuro professor passou a se preocupar, no decorrer das situações de ensino, com o entendimento de seus alunos sobre o que ele ensinava. Isso gerou uma perceptível mudança de comportamento, relacionada a diversos aspectos: a organização foi a primeira delas, seguida da adoção de recursos didáticos auxiliares para promover o ensino, além de ter passado a se preocupar com a avaliação de seus alunos, bem como passou a se apropriar da fala dos alunos para organização de seu próprio discurso. Para Cabral (2010), o conjunto de mudanças de comportamento do futuro professor fez parte de um rompimento no discurso egocêntrico para discurso descentrado, apesar de ainda com algumas limitações. Ainda nesse processo, o futuro professor sentiu necessidade de realizar uma abordagem conceitual em seu discurso argumentativo em sala de aula. A primeira UDFP serviu como subsídio para o desenvolvimento das UDFP seguintes, sendo a próxima a ser alcançada pelo futuro professor a caracterização de um “discurso descentrado-conceitual” (CABRAL, 2010, p. 233), onde foi percebido o tratamento conceitual em seu discurso, o que favoreceu ao surgimento da terceira UDFP, caracterizada pela valorização do conhecimento pedagógicodisciplinar. Tal valorização foi descrita anteriormente tendo como base meus interlocutores como um dos benefícios do laboratório de educação matemática, tendo, portanto, um registro em uma aplicação prática no LEMA da UNAMA. Finalmente, Cabral (2010) enumera a última UDFP do futuro professor em questão: “a quarta UDFP apontou para os traços de sua autonomia moral e 32 intelectual”, o que para este autor é “desenvolvida mediante um trabalho em colaboração” (CABRAL, apud Lima, 2004, p. 233). Para Lima (2004), o trabalho colaborativo possibilita muitas aprendizagens, uma vez que é necessário aprender a escutar, colocar-se no lugar de seus pares, compreendê-los, além de ter flexibilidade para, em conjunto, produzir diferentes argumentações e eleger a mais consistente. Essas atitudes conferem um aprendizado social significativo para qualquer profissional, além de encontrar interlocução no rompimento do discurso egocêntrico apresentado pelos professores de uma forma geral no Brasil e possibilitar mudanças significativas no cenário educacional. 2.3 APROXIMANDO OLHARES As experiências com laboratórios nos diversos cursos de formação de professores no Brasil tratadas aqui, permitem compreender que são muitos os benefícios adquiridos com sua existência: além das contribuições concernentes à participação ativa do aluno do curso de Licenciatura, tendo possibilidades de discutir acerca dos diversos “nós” do processo de ensino e aprendizagem, o aluno em formação inicial adquire aprendizados em longo prazo. Cabral (2010) enumerou quatro grandes benefícios do Laboratório de Educação Matemática, uma vez que o futuro professor: a) adquire a consciência de que, para ensinar Matemática, não basta ter um grande domínio do conteúdo. É preciso aprender a ensinar. b) participa ativamente em um processo de construção de conceitos matemáticos, experiência não vivida por ele quando aluno na maioria das vezes. c) tem oportunidade de viver “situações antecipadas de ensino” com o intuito de, através de uma interação com o professor formador, adquirir saberes práticos da atividade docente futura. d) é constantemente motivado pelas situações de ensino e produções discutidas com base, principalmente, na colaboração entre pares. Sob a perspectiva colaborativa apresentada até agora, torna-se cada vez mais convincente a influência positiva da existência de um laboratório de educação matemática em um curso de formação. Os benefícios são de curto a longo prazo e 33 geram consequências indiscutivelmente consistentes, uma vez que são capazes de modificar a realidade educacional e tornar os aprendizes de Matemática indivíduos críticos inseridos no meio social de forma significativa. Cabral (2010) considera a colaboração entre pares como uma atitude na qual professores e alunos adquirem experiências de ensino e saberes da profissão que só seriam efetivadas em pleno exercício da profissão, alguns anos após a conclusão do curso de formação. As experiências de Laboratório relatadas nas diversas universidades do Brasil unem-se à concepção de LEM a qual me referi anteriormente, proposta por Cabral (2010), uma vez que apresentam um conjunto de atitudes características de um pensamento e modelo inovadores de educação, onde o aluno se responsabiliza por seu processo de aprendizagem, dando à educação o papel social a ela atribuído. Nessa perspectiva, a existência de um laboratório passa a ter um crescente valor nos cursos de formação de professores, à medida que é capaz de envolver os alunos em uma esfera de reflexão e consequente valorização da profissão docente, a partir do conhecimento de sua complexidade e responsabilidade social. Os atuais cursos de licenciatura no Brasil são, no geral, deficientes no que diz respeito à estrutura pedagógica a ser oferecida e cuja importância toma destaque nesse trabalho. Refiro-me tanto quanto à presença dos Laboratórios quanto à valorização das disciplinas de cunho pedagógico. Isto gera consequências que podem colocar o professor – que foi privado de adquirir tais experiências na graduação – em situações que os deixe inseguro quanto à tomada de atitudes, liderança e até mesmo cause frustração com a profissão. Cada vez mais a presença do Laboratório de Educação Matemática se justifica nos cursos de formação de professores, apresentando possíveis soluções para diversas falhas na aprendizagem docente, geradoras de mais falhas no processo de ensino-aprendizagem dos jovens que estão nas escolas brasileiras. Alarcão (1996) destaca, nesse sentido, a crise de confiança dos profissionais que atribui à falta de preparação adquirida nos cursos de formação. Ressalta que nos cursos de formação, os profissionais são direcionados à tomada de decisões baseada em conhecimentos puramente científicos em uma valorização da ciência aplicada, o que constitui um saber cuja ênfase é teórica e que não responde a todos os problemas da vida cotidiana. Tal situação faz com que os 34 acontecimentos vividos na prática posterior à formação se caracterizem como novidades onde a aplicação do conhecimento técnico aprendido seja em grande parte das vezes em vão. É nesse momento que surgem as frustrações. Como exemplo disso, Cabral (2010) relata sua experiência vivida nos anos 80, quando assumiu uma turma de 7ª série, antes de ter concluído seu curso de formação. Contou na época com a ajuda da diretora da escola e revela que isso foi fundamental para sua não desistência da profissão docente. Considera a colaboração entre pares como uma atitude imprescindível para o crescimento profissional quando afirma que “hoje, interagindo com meus pares, estou convencido de que este é o caminho que produz as mudanças, sem as quais a nossa prática docente é substancialmente infrutífera” (CABRAL, 2010, p. 116). Tendo em vista todas as perspectivas apresentadas quanto aos benefícios do Laboratório de Educação Matemática para os cursos de Licenciatura, bem como suas possibilidades de aliança entre teoria e prática, sua capacidade de oferecer aos futuros professores, experiências significativas em situações antecipadas de ensino, relato minha experiência enquanto aluna do curso de Licenciatura Plena em Matemática da Universidade do Estado do Pará. Identifico essas experiências apontadas por meus interlocutores com as minhas experiências pessoais durante a realização de minha graduação como aluna do curso em Licenciatura em Matemática pela UEPA. Durante o período de graduação, cursei algumas disciplinas que me chamavam atenção para os processos de ensino-aprendizagem aos quais estava sendo inserida. Uma delas foi a disciplina de Instrumentação para o Ensino de Matemática I, que trata de diversas alternativas metodológicas para o ensino de Matemática, especificamente no ensino fundamental. No decorrer do curso de Instrumentação I, desenvolvemos diversas atividades de ensino, a exemplo de um trabalho que apresentei junto ao professor Natanael Cabral sobre operações com frações, utilizando com o aporte visual o “gráfico de barrinhas”. Ao desenvolver este trabalho, nos empenhamos em buscar justificar os processos algorítmicos que os alunos do 6º ano do ensino fundamental desenvolvem para dividir frações. Este trabalho acabou se transformando em um artigo apresentado no X Encontro Nacional de Educação Matemática (ENEM) em 2010. 35 Depois da produção desse trabalho, pude perceber a importância de justificar procedimentos algorítmicos que na maioria das vezes são impostos pelos professores de Matemática para alunos que pouco questionam. Sem perceber, tornei-me mais preocupada com a forma de ensino que escolheria para os meus futuros alunos. Infelizmente este trabalho nunca foi aplicado por falta de oportunidade, uma vez que tínhamos a intenção de fazê-lo no Laboratório de Educação Matemática (LABEM) da UEPA, que na época encontrava-se inativo. Atribuo boa parte dos aprendizados práticos que desenvolvi durante o período de graduação à experiência que tive no projeto do Governo Federal Mais Educação nas escolas públicas. Desde o final de 2008 fui inserida – por indicação de uma professora da disciplina Introdução à Educação Matemática – no programa Mais Educação em uma escola estadual localizada em uma zona periférica da cidade de Belém. Lá, tive oportunidade de lecionar para alunos do ensino fundamental, o que me trouxe algumas contribuições quanto a alguns saberes práticos de minha profissão. Porém, as contribuições do Programa Mais Educação se limitaram a resolução de exercícios, uma vez que não era autorizado aos monitores do projeto substituir professores. Acredito, portanto, que eu poderia ter aprendido mais sobre a arte de ensinar e elaborar materiais alternativos de ensino se eu tivesse recebido a oportunidade de testar minhas produções a partir das atividades de um espaço orientado por um professor da Universidade como de um Laboratório de Educação Matemática descrito pelos meus interlocutores. Com base nos referenciais teóricos anteriormente discutidos e nas experiências relatadas que destacam a relevância da existência de um laboratório de Educação Matemática em um curso de formação de professores, aliados a minha experiência enquanto aluna do curso de Licenciatura Plena em Matemática da Universidade do Estado do Pará (UEPA), descreverei nas próximas seções deste trabalho, partes da história do Laboratório de Educação Matemática (LABEM) desta Universidade. 36 3 O LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA DA UEPA: RECORTES DE UMA HISTÓRIA A PARTIR DA MEMÓRIA DE SEUS CONSTRUTORES Nesta seção, farei um resgate de partes da história do Laboratório de Educação Matemática da UEPA a partir da sua fundação. Faço esse resgate utilizando como instrumento a entrevista com professores que foram coordenadores do LABEM ou do curso de Licenciatura Plena em Matemática. Além disso, utilizei documentos como imagens atuais do LABEM, de atividades realizadas recentemente, bem como atividades catalogadas pela atual monitora do LABEM e o projeto de abertura do Laboratório, elaborado por um dos professores entrevistados. A história do LABEM da UEPA se iniciou com o projeto do Professor Neivaldo Oliveira Silva1, que, aliado ao então coordenador do curso, Professor José Maria de Jesus Souza2, deram início ao LABEM, o que será descrito mais detalhadamente nas próximas subseções. 3.1 O PROJETO DO LABEM O projeto original de reabertura do laboratório foi disponibilizado pelo professor Neivaldo Silva (em anexos) e sem dúvidas contribui para a história do LABEM da UEPA na medida em que resgata as concepções dos professores que tomaram essa iniciativa, bem como reflete a preocupação com a qualidade no processo de formação de professores desta Universidade desde a década de 90. O professor Neivaldo Silva foi o elaborador do projeto intitulado “Laboratório de Ensino de Matemática” que deu origem ao Laboratório de Educação Matemática da Universidade do Estado do Pará. Segundo esse professor, o referido projeto foi implementado em dois momentos: o primeiro, nos anos 90, no ano de 1 Atualmente é professor Assistente III da Universidade do Estado do Pará e pesquisador da Universidade Federal do Pará. 2 Foi Coordenador do Curso de Licenciatura em Matemática da Universidade do Estado do Pará UFPA, Chefe do Departamento de Matemática e Estatística e Coordenador Adjunto do Programa de Interiorização das Licenciaturas ( Matemática) da Universidade da Amazônia - UNAMA. Atualmente é Conselheiro do Conselho de Centro de Ciências Exatas e Tecnologia - CCET/UNAMA e membro da Comissão de elaboração das provas do PSU/UNAMA. 37 inauguração do LABEM e o segundo, em 2002, quando o professor tentou reabrir o laboratório, mas não obteve sucesso. O projeto disponibilizado pelo professor Neivaldo Silva foi o projeto utilizado em 2002 com a intenção de reabrir o LABEM da UEPA. Porém, ainda segundo esse professor, este projeto contém o “mesmo teor” do projeto original, tendo sofrido apenas algumas modificações. Com isso, utilizei as perspectivas adotadas no projeto de 2002 como base para o entendimento de algumas ideias que motivaram os professores que fizeram parte da fundação do LABEM da UEPA nos anos 90. Durante a elaboração do projeto, o professor Neivaldo Silva contou com uma equipe de trabalho formada por três professores especialistas: Osvando dos Santos Alves, Paulo Roberto Souza David e Francisco de Assis Ferreira de Aquino Júnior, além do próprio professor Neivaldo Silva, de um aluno bolsista do curso de Licenciatura Plena em Matemática da UEPA e de um auxiliar. A justificativa do projeto se inicia com uma perspectiva interessante de educação, onde a contínua busca pelo novo passa a ser a principal referência dos professores que o compõem. Nessa perspectiva, o projeto incentiva a busca por uma formação mais adequada no sentido de possibilitar ao futuro professor a construção de concepções que incluíam aspectos sociais, culturais, políticos e históricos, onde a postura que define tal construção fosse sempre reflexiva, sobretudo no ambiente pedagógico. O professor, em seu projeto, ressalta algumas necessidades da formação de professores, dentre elas: a existência de uma articulação entre o “específico” e o “pedagógico”, a iniciação à pesquisa sobre o ensino, o conhecimento, de fato, da realidade escolar, a oportunidade sistemática de discussão e de trabalhos em grupos em colaboração com seus pares ou até mesmo colegas de outros grupos de pesquisa sobre formação de professores, em um ambiente aonde o futuro professor pudesse “exercer o seu fazer pedagógico”. A existência do laboratório de Educação Matemática, para o professor Neivaldo Silva, representara uma alternativa para o aluno da graduação em Licenciatura em Matemática adquirir uma concepção crítica sobre sua atuação profissional. A ausência de alternativas que possibilitem a aquisição de saberes práticos dos futuros professores pode gerar frustrações e até mesmo, segundo o 38 professor Neivaldo Silva, em seu projeto, “se tornar uma barreira quase intransponível para o futuro educador”. Além disso, o professor atribuiu em seu projeto parte dos problemas enfrentados pelos alunos no aprendizado de Matemática na escola à formação limitada dos professores, que, em geral, não os prepara para exercer a profissão de forma adequada. E ressalta: Durante a formação inicial do curso de Licenciatura em Matemática, os alunos não tem a oportunidade de serem preparados para de fato serem educadores matemáticos. O conteúdo matemático é trabalhado de forma dissociada do conteúdo pedagógico, cabendo ao futuro educador matemático 'criar formas' que lhe possibilite trabalhar de forma associada os conteúdos específicos e pedagógicos. Os cursos de Licenciatura em Matemática adotam um modelo de ensino no qual os alunos, primeiramente, aprendem sobre os conteúdos matemáticos, como as geometrias, os fundamentos de matemática elementar, cálculo e álgebra, para depois aprenderem as disciplinas pedagógicas, onde tomam conhecimento de procedimentos de ensino que serão atrelados aos conhecimentos matemáticos já aprendidos anteriormente. Esse processo de formação culmina com a Prática de Ensino – estágio supervisionado, onde os futuros professores acompanham professores que já exercem sua função docente para observação e atuação mínima em sala de aula. Porém, é necessário aliar de forma mais intensa as relações entre teoria e prática, pesquisa e ensino, conteúdos matemáticos e conteúdos pedagógicos, ampliando os conhecimentos e saberes adquiridos na graduação. O Laboratório de Educação Matemática se apresenta, nessa perspectiva, como um importante espaço de culminância entre a aliança necessária entre teoria e prática, onde o futuro professor adquire saberes que lhe conferem habilidades para agir em sala de aula de forma a proporcionar experiências inovadoras e variadas de aprendizagem aos seus futuros alunos, contextualizando a Matemática, inserindo os alunos em um ambiente crítico e reflexivo no qual a Matemática ser (re)significada como um instrumento para a interpretação da realidade e construção de cidadania. O projeto de elaboração do LABEM destaca, já naquele momento, que o aluno do curso de formação de professores de Matemática deveria constituir saberes que o permitisse agir em sala de aula de forma criativa e mais adequada 39 para lidar com as situações do dia a dia, que exigem um conjunto de conhecimentos que visam, principalmente, à construção da cidadania e do ser humano. O Laboratório, portanto, confere oportunidades de transformar o futuro professor em um agente de seu próprio processo de aprendizagem, reconstruindo alguns conceitos importantes a serem trabalhados e dando significado à aprendizagem. É nesse sentido que o projeto disponibilizado pelo professor Neivaldo Silva propõe a execução de atividades do LABEM da UEPA da seguinte maneira: [...] uma alternativa para aprimorarmos a formação do Educador Matemático e nos aproximarmos do que se deseja, seja [...] a proposição de uma programação contínua de atividades, as quais poderiam ser consideradas atividades curriculares aos alunos, no limite mínimo de 30 horas aulas anuais (1º, 2º e 3º anos). O momento no qual o professor Neivaldo Silva elaborou esse projeto foi considerado favorável tomando como base a LDB sobre a obrigatoriedade de 300 horas complementares no curso de Licenciatura. O professor propõe no projeto que o Laboratório, nesse sentido, transforme-se em um ambiente de discussão, pesquisa, extensão e principalmente de testagem de atividades produzidas pelos alunos do curso, buscando cada vez mais, autonomia, e tornando-se preparado para lidar com o dia a dia da profissão docente. Os objetivos apresentados no projeto de (re)abertura do LABEM da UEPA são os seguintes: Possibilitar aos licenciandos de matemática, a participação em projetos diferenciados de ensino; Ser um “locus” de proposição e experimentação de práticas alternativas, em termos de ensino de matemática, que possam vir a ser implementadas no ensino regular; Realizar estudos e pesquisas, cuja implementação e resultados sejam utilizados como parte do processo de formação do licenciando em matemática; Possibilitar aos licenciandos uma interação reflexiva com os saberes matemáticos; Propiciar aos licenciandos em matemática a vivência de uma prática antecipada assistida; Fornecer condições teórico-práticas para a implementação de Iniciação Matemática a alunos do ensino fundamental, médio e superior; Proporcionar a licenciandos do curso de matemática, a fundamentação que lhe possibilite a realização de estudos e pesquisas, além da vivência de práticas alternativas de ensino; Produção, testagem e disseminação de materiais didáticos para utilização no ensino de matemática; 40 Propor a introdução, em nível experimental, de ações didáticas relativas ao ensino de matemática, que possam vir a complementar o Curso de Licenciatura em Matemática. Com tais objetivos, o projeto apresenta como principais resultados esperados o desenvolvimento de atividades no LABEM, mantendo-se aberto para toda a comunidade acadêmica, buscando a formação de grupos de pesquisa e estudos em educação Matemática; a produção de materiais didáticos destinados ao ensino de Matemática em forma de kits para serem distribuídos na rede pública escolar de ensino; o oferecimento de cursos e oficinas para professores da comunidade pública escolar; publicação de resultados das atividades e experiências desenvolvidas no laboratório; além de debates sobre textos relacionados ao ensino de Matemática e de acompanhamento de professores da rede pública escolar para melhor vivência dos alunos da graduação no contexto escolar. O que foi apresentado no projeto de reabertura do LABEM reflete, sem dúvidas, os objetivos e as limitações dos cursos de formação de professores, apresentando o Laboratório como uma alternativa viável para a melhoria desses cursos, uma vez que insere no contexto acadêmico alguns saberes práticos necessários para o exercício da profissão. Além disso, uma vez que o projeto de reabertura do LABEM em 2002 apresentou uma proposta muito próxima àquela apresentada nos anos 90, as ideias apresentadas serviram como base para entender parte do contexto dos cursos de formação de professores e de algumas concepções de ensino-aprendizagem já discutidas desde então e que motivaram o surgimento do LABEM. A proximidade entre os dois projetos existentes na construção da história do LABEM da UEPA me permitiu utilizar o segundo com certa equivalência ao primeiro, o que me possibilitou colocá-lo como parte do início da história do Laboratório de Educação Matemática da UEPA. Nas próximas subseções, momentos da história do LABEM da UEPA serão contados com base nas entrevistas realizadas com professores que passaram pela coordenação tanto do laboratório quanto do curso de Matemática da UEPA. 3.2 A GÊNESE DO LABEM DA UEPA A PARTIR DOS RELATOS DOS PROFESSORES NEIVALDO SILVA E JOSÉ SOUZA 41 Tomando como referência as entrevistas realizadas, o curso de Licenciatura Plena em Matemática da UEPA foi criado nos anos 90, em meio a uma grande instabilidade política no estado do Pará. Segundo o professor José Souza, havia uma divergência entre dois políticos (Jader Barbalho e Hélio Gueiros), onde um agia em favor da criação da Universidade do Estado do Pará, enquanto que o outro acreditava na Fundação Educacional do Estado do Pará. Com isso, a própria instabilidade política da época influenciou na criação do curso de Licenciatura em Matemática e, sem dúvidas na criação do LABEM. Em meio às divergências políticas que existiam acerca da criação da Universidade, o professor José Souza relatou ter conseguido se manter na coordenação do curso de Matemática durante cerca de oito anos – por volta de 1990 a 1998 –, isto é, não foi coordenador do Laboratório de Educação Matemática, e sim do curso de Licenciatura Plena em Matemática. A coordenação do curso de Matemática da UEPA conferiu alguns poderes ao professor José Souza, dentre eles o da criação do LABEM, incentivado pelo professor Neivaldo Silva. Embora fosse coordenador do curso, o professor José Souza enfatizou em sua fala a falta de recursos disponibilizados ao curso de Matemática, quando afirmou: Já viu o que era um curso de Matemática dentro de uma Universidade do Estado assim recém-criada, né? A gente já é discriminado em outros setores, imagine [...]. Tem que fazer as coisas, assim, com muito amor, porque apoio [...] era coisa muito difícil. E o Laboratório de Educação Matemática foi criado depois. (Entrevista realizada em 11/10/2011) A falta de apoio, para o professor José Souza, foi um aspecto determinante para o destino do curso de Matemática daquela Universidade, assim como para o LABEM. As condições, de fato, não eram favoráveis à criação de ambientes pedagógicos que visassem ao desenvolvimento do curso de Matemática: em primeiro lugar, a falta de recursos financeiros disponibilizados impedia que a coordenação do curso investisse em formação dos próprios professores e alunos, a exemplo de um encontro de Matemática no qual trouxeram professores de fora do estado para ministrar palestras, cujo patrocínio foi viabilizado pelos próprios professores do curso, sendo reposto pela Universidade apenas algum tempo depois; em segundo lugar, a instabilidade política já citada anteriormente, dificultava o desenvolvimento do curso e a criação do Laboratório. Em contrapartida, três 42 aspectos foram decisivos para a criação do Laboratório de Educação Matemática na Universidade, que serão enumerados a seguir. Em primeiro lugar, segundo o professor José Souza, alguns professores do curso eram a favor da criação de um Laboratório, pois estudavam linhas de pesquisa de tendências em Educação Matemática e incentivavam a criação do Laboratório, tendo como destaque o professor Neivaldo Silva, que segundo o professor José Souza “atuou mais [...], porque eu acompanhava o que eu podia, eu dava todo o apoio [...] e achava que o Neivaldo Silva era a cara daquele Laboratório [...]”. O segundo aspecto favorável à criação do LABEM da UEPA foi a criação do currículo do curso de Matemática, que foi elaborado em Blumenau, segundo o professor José Souza, por um grupo de educadores matemáticos, junto ao professor superintendente da época, professor Moutinho. Neste currículo, foram introduzidas algumas disciplinas no curso de Matemática, como a “Prática de Ensino e Instrumentação para o Ensino de Matemática”, disciplinas que, segundo o professor José Souza, requisitavam a criação de um Laboratório de ensino de Matemática. Em terceiro lugar, uma característica dos estudos em educação da época que favoreceram ao surgimento do laboratório, segundo o professor Neivaldo Silva, foi o desenvolvimento das linhas de pesquisa em Educação Matemática voltadas, principalmente, para o estudo e produção de materiais concretos, sobretudo por volta da década de 70. Em sua entrevista, afirmou sobre isso: “[...] Então o início do Laboratório aconteceu quando essa ideia do material concreto era o mais forte, digamos assim. Então uma das maiores ênfases era essa, a produção de materiais, de jogos [...]”. Essa afirmação do professor Neivaldo Silva nos revela, portanto, o início das produções desenvolvidas no Laboratório, bem como a motivação que o levou a tal criação. As experiências anteriores vividas pelo professor Neivaldo Silva, sem dúvidas, foram decisivas para a criação do LABEM DA UEPA. Na Universidade Federal do Pará, por exemplo, há 30 anos, esse professor participou de trabalhos que reforçavam a existência do laboratório, ainda enquanto aluno do curso de Matemática daquela Universidade. Esteve presente, inclusive, na fundação do 43 NPADC (Núcleo Pedagógico de Apoio à Iniciação Científica), que na época era chamado “Clube de Ciências”. E completa: Quando eu entrei na UEPA, eu resolvi construir a história, só que eu como professor [e não mais como aluno]. Mas a ideia foi minha, junto com outros alunos. Eu não fui chamado pra fazer o Laboratório. Eu idealizei, chamei alguns alunos, que compraram essa ideia e, junto comigo, construímos o laboratório. (Entrevista realizada em 24/10/2011) A união das três necessidades apontadas anteriormente com as experiências do professor Neivaldo Silva favoreceram à criação do LABEM da UEPA, em 1992, dois anos após a criação do curso de Matemática, ainda na gestão do professor José Souza, cuja coordenação pertencia ao professor Neivaldo Silva, no período de 1992 a 1994. O professor Neivaldo Silva fundou o Laboratório de Educação Matemática da UEPA no contexto político e educacional já descrito anteriormente, a partir de um projeto de implantação que culminou com a cessão de uma sala da Universidade. A estrutura do LABEM no ano de sua fundação foi descrita pelo professor Neivaldo Silva como uma sala vazia e uns armários. A sala fornecida inicialmente para o funcionamento do LABEM, segundo o professor José Souza, “andou mudando de lugar”, havendo momentos em que foi necessário, inclusive, utilizar o Laboratório de Física da Universidade. À medida que o Laboratório entrou em funcionamento, as primeiras produções foram sendo desenvolvidas quando alunos do curso de Matemática junto ao professor Neivaldo Silva começaram a trazer livros e montarem uma pequena biblioteca, que passou a existir no Laboratório. O professor José Souza se aproxima dessa perspectiva quando afirmou que todo o material que havia no LABEM era oriundo do trabalho dos professores em conjunto com os alunos, uma vez que não havia liberação de verba da instituição para a compra de materiais: “não entrava no orçamento, não entrava nada, então era uma dificuldade muito grande”. O que era conseguido para o LABEM era através de patrocínio, colaboração e doação de professores. O professor José Souza relatou que, devido à falta de estrutura no LABEM, foi necessário direcionar os alunos do curso de graduação para a antiga Escola Técnica Federal para assistirem a um curso sobre sistemas de numeração, ministrado pela professora Nilza Bertoni, da Universidade de Brasília. Para este 44 professor, a falta de estrutura e o apoio da Universidade marcaram o desenvolvimento do laboratório. As disciplinas vinculadas ao LABEM eram, na maioria das vezes, Prática de Ensino e Instrumentação para o Ensino de Matemática. Os dois professores entrevistados citaram as duas disciplinas como diretrizes das atividades desenvolvidas no laboratório. O funcionamento do laboratório gerava, no desenvolvimento de tais disciplinas, uma perspectiva voltada sempre para as ideias do laboratório, o que despertou curiosidade em alunos de outros cursos, a exemplo do antigo curso de Formação de Professores, além do curso de Pedagogia da UEPA, que passavam a visitar frequentemente o LABEM. Sobre isso, o professor Neivaldo Silva afirma: Então a gente trabalhava com os alunos, em sala de aula, mas já pensando na ideia do laboratório. E aí alunos do antigo curso de Formação de Professores, que não existe mais, e do curso de Pedagogia começavam a ir lá pro LABEM, pra conhecer, pra saber o que existia e aí nós desenvolvíamos algumas atividades e esses alunos também frequentavam, e o LABEM foi se construindo nesse processo. E tudo que passou a ter, foi resultante do trabalho desenvolvido por nós. (Entrevista realizada em 24/10/2011) Além das duas disciplinas principais desenvolvidas no LABEM, as experiências do professor Neivaldo Silva também relacionaram o laboratório a disciplinas como Fundamentos de Matemática Elementar e Geometria Euclidiana, nas quais também houve produções por meio do trabalho colaborativo entre alunos e professores, o que incentivou outros alunos a frequentarem o laboratório. Na Prática de Ensino, por exemplo, eram desenvolvidas atividades de “microensino”, como relata o professor José Souza, onde os alunos elaboravam aulas para serem ministradas ao professor e aos colegas de turma com objetivo de desenvolver alguns aprendizados práticos do ambiente escolar. Tais experiências eram desenvolvidas no Laboratório para serem levadas ao público escolar das proximidades da Universidade. Para o professor José Souza, as ações de extensão do LABEM da UEPA – nas quais eram trazidos alunos da comunidade escolar (em especial da Escola Vera Simplício) para assistirem aos “reforços” promovidos pelos alunos da graduação – não obtiveram, no geral, êxito. 45 Em contrapartida, para o professor Neivaldo Silva, o objetivo principal do LABEM sempre foi chegar às escolas por meio dessas atividades. Por isso, eram produzidos informativos com a programação do LABEM, que convidavam os alunos das escolas públicas próximas a participarem das oficinas ministradas pelos alunos da UEPA. Deste ambiente, participavam, também, filhos de funcionários da UEPA e filhos de professores. Os informativos buscavam despertar o interesse dos alunos das escolas públicas por meio de anúncios que abordassem a Matemática de uma maneira inovadora. Sobre isso, o professor Neivaldo Silva fala que “a intenção era apresentar a Matemática com uma outra „cara‟. Uma Matemática mais alegre, que despertasse o interesse”. As atividades até então produzidas passaram a incentivar o desenvolvimento de outras perspectivas dentro do curso de Matemática. Um exemplo disso é citado pelo professor Neivaldo Silva como a feira do vestibular, evento no qual o Laboratório passou a ter mais participação e envolvimento, uma vez que os próprios alunos encarregados da feira, utilizavam materiais do laboratório para apresentar o curso de Matemática. Há um aspecto importante e que merece destaque neste texto, sobre o qual os dois professores aos quais me refiro nesta seção concordaram incisivamente: não há informações de que a UEPA tenha apoiado projetos de extensão vindos do LABEM. O professor Neivaldo Silva é enfático ao responder à pergunta sobre o envolvimento da Universidade nas atividades do LABEM: A UEPA? Nunca. Nunca. O LABEM nunca teve – e isso eu digo, assim, com todas as letras – o LABEM nunca teve apoio institucional. A única coisa que pode se dizer de apoio da instituição era o espaço físico. Mas só. (Entrevista realizada em 24/10/2011) O apoio institucional ao qual o professor Neivaldo Silva se refere abrange aspectos tanto financeiros quanto burocráticos. A dificuldade enfrentada pelo professor foi a de a Universidade não direcionar parte da carga horária do professor para o desenvolvimento de trabalhos no LABEM. Tal dificuldade, inclusive, motivou o professor a sair da coordenação do LABEM, o que pode ser claramente observado em sua fala: 46 Até em termos de carga horária, eu deixei o LABEM porque não tinha carga horária para trabalhar no LABEM. Eu fui coordenador do curso de Matemática e, enquanto eu era coordenador do curso de Matemática, eu próprio, utilizava o meu tempo para ficar no laboratório. Quando eu deixei a coordenação, eu ainda fiquei com um tempinho no laboratório, mas isso foi por pouco tempo e aí eu não tinha apoio nem em termo de carga horária. (Entrevista realizada em 24/10/2011) Como a Universidade não financiava pesquisas no laboratório, o professor Neivaldo Silva relatou ter selecionado um grupo de cerca de dez alunos para receberem bolsa de estudos voltados para o LABEM da UEPA. Porém, as bolsas eram financiadas pela CAPES em um projeto vinculado à Universidade Federal do Pará, do qual o professor Neivaldo Silva participava. A situação anteriormente descrita reflete de forma clara a falta de assistência dada ao LABEM da UEPA pela própria instituição, o que favoreceu o enfraquecimento do Laboratório e das pesquisas neles desenvolvidas desde a década de 90. Com o novo grupo de alunos vinculados ao LABEM por meio de bolsa de estudos, novos alunos passavam, então, a frequentar o Laboratório e enxergá-lo como um ambiente de orientação para trabalhos tanto acadêmicos quanto relacionados ao exercício da profissão fora da UEPA, constituindo uma importante ferramenta de formação. A abrangência do LABEM não ficou limitada, portanto, a duas disciplinas. O LABEM passou se transformar pouco a pouco em um ambiente de suporte e discussão para os alunos do curso de graduação tanto de Matemática quanto de outros cursos da Universidade do Estado do Pará. As repercussões do trabalho desenvolvido pelos professores no LABEM foram positivas, segundo o professor José Souza, que afirmou que as situações de “microensino”, por exemplo, aliadas à Prática de Ensino, geraram um desenvolvimento grande no ambiente do Laboratório. Segundo ele, “ficou um desenvolvimento grande ali, os alunos até gostavam [...]”. Para o professor José Souza, as atividades desenvolvidas no Laboratório, sem dúvidas, motivavam os alunos, sobretudo quando aliadas às perspectivas da Prática de Ensino, uma vez que os alunos corrigiam erros, eram avaliados pelos professores e também pelos colegas de turma, ou seja, o Laboratório, nesse sentido, configurava-se em um espaço de construção de alguns saberes práticos por meio da colaboração entre pares. 47 Para o professor José Souza, o laboratório era um espaço utilizado para trocar ideias, buscar um consenso sobre alguns “nós” da aprendizagem em Matemática, muitas vezes enfrentados com dificuldade pelos alunos do curso de graduação, além da existência de simulações de aulas que visavam à correção de alguns equívocos conceituais. Em uma abordagem específica, o professor José Souza citou alguns “nós” do ensino de Matemática enfrentados pelos professores no exercício da profissão, que eram “desvendados” em trabalhos colaborativos no Laboratório, por exemplo, Fatoração, Trigonometria, Álgebra, Frações, que são assuntos que, segundo ele, são mais difíceis de serem ensinados, principalmente por quem não tem experiência, que é o caso dos alunos em formação. Outra dificuldade enfrentada pelos alunos do curso de graduação, segundo o professor José Souza, ainda é a de introduzir alguns “assuntos” em Matemática. Saber lidar com esses “nós” é uma aprendizagem importante porque podem decidir os rumos de toda aula, com sucesso ou não. A construção de conceitos deve, segundo esse professor, ser trabalhada com cuidado no exercício da profissão, e o Laboratório representa um bom espaço para o desenvolvimento desses saberes práticos. Juntamente com o movimento em favor da Educação Matemática associada a materiais concretos e jogos, alguns professores no curso de Matemática da UEPA tiveram destaque ainda nesse período por conta das linhas de atuação em Educação Matemática. O professor Pedro Franco de Sá, considerado pelo professor Neivaldo Silva como uma referência em Educação Matemática desde essa época, desenvolvia trabalhos relacionados à Matemática por meio de Atividades, a exemplo da Redescoberta, além do professor Iran Mendes3, também citado pelo professor Neivaldo Silva em sua fala, que tinha como linha de pesquisa a História da Matemática e promovia discussões acerca deste tema no LABEM. Com isso, o Laboratório, segundo o professor Neivaldo Silva, foi assumindo facetas em função do tipo de trabalho, de atividade e das linhas de 3 Atualmente é professor adjunto i da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Tem experiência na área de Matemática, com ênfase em História e Pedagogia da Matemática. 48 pesquisas estudadas pelos professores da Instituição, sendo reforçado pelo movimento de Educação Matemática que acontecia no Brasil e no Pará. Um questionamento feito aos professores sobre as produções do LABEM foi a respeito do envolvimento científico dos alunos com o Laboratório, ou seja, se os alunos que participavam das atividades desenvolvidas no LABEM produziam trabalhos científicos que relatassem situações ou publicassem materiais produzidos. Para o professor Neivaldo Silva, as produções do LABEM se traduziam em materiais concretos, discussões, situações de ensino, mas não em publicações científicas. Já o professor José Souza acompanhou um grupo de alunos que foram a um evento científico na Bahia apresentar trabalhos realizados com base em experiências desenvolvidas no laboratório. Para o professor Neivaldo Silva, as duas grandes contribuições do LABEM foram o fato de ter permitido a socialização de experiências e conhecimentos entre os alunos das diversas licenciaturas e o envolvimento de alunos das escolas públicas em atividades práticas de ensino. Mais uma vez, a colaboração entre pares tomou, nesse sentido, destaque em um ambiente criado por professores e alunos da Universidade. À medida que o LABEM foi se desenvolvendo, foram se constituindo também, concepções de Laboratório a partir de reflexões sobre a própria prática exercida nele. O professor Neivaldo Silva considera, por exemplo, a existência do Laboratório de Educação Matemática como fundamental nos cursos de formação de professores, uma vez que o laboratório constitui um espaço de integração, onde todos os professores podem participar e envolver a disciplina ministrada de forma adequada com as atividades do Laboratório. E destaca: Eu não penso em atividades do Laboratório como coisa à parte. [...] Não é isso, não é como a gente pensa em informática: aulas teóricas e aulas práticas. Não, eu não vejo o laboratório nessa divisão entre teórico e prático. Eu vejo o Laboratório fazendo parte do teórico e do prático. Teórico e prático em sala de aula e o laboratório fazendo parte disso. (Entrevista realizada em 24/10/2011) Este professor, portanto, continua defendendo a existência de um laboratório, desde que esteja em uma dimensão diferenciada de importância institucional e não represente o interesse específico de um único professor. Para ele, “não pode ser assim, tem que ser uma coisa institucionalizada”. 49 Para o professor José Souza, a existência de um Laboratório no curso de Licenciatura é uma necessidade. Considera o Laboratório como um ambiente que fornece instrumentos que na sala de aula, normalmente o aluno da graduação não tem. Acredita que o Laboratório confere possibilidades de assimilar alguns conceitos que são mais difíceis se trabalhados apenas em sala de aula. Sobre isso, relata suas próprias experiências e dificuldades encontradas enquanto professor ao ministrar alguns conteúdos. E conclui em sua entrevista: “mas eu acho que o Laboratório ele é, em si, necessário, em certos momentos”. 3.3 A HISTÓRIA DO LABEM NA PERSPECTIVA DO PROFESSOR PEDRO FRANCO DE SÁ A experiência do professor Pedro Franco de Sá4 também contribuiu de forma intensa para o desenvolvimento do LABEM, construindo uma parte significativa de sua história. Assim como o professor José Souza, não foi coordenador direto do LABEM e sim, do curso de Matemática da UEPA. O período foi assim especificado por ele: “Estive a frente da coordenação do curso licenciatura em matemática por três vezes: no período de 1998 a fevereiro de 2000, de maio de 2004 a abril 2006 e de maio de 2006 a abril de 2008” (Entrevista realizada em 28/11/2011). Quando assumiu a coordenação pela primeira vez, o professor encontrou o LABEM em um espaço que continha mesas e cadeiras, além de materiais produzidos por alunos em anos anteriores. Esta descrição vai de acordo com o que relatou a professora Acylena quase 10 anos depois, o que será descrito na próxima subseção, apesar de este professor não ter relatado a má conservação do espaço como a professora fez. Em 2004, segundo o professor Pedro Sá, quem coordenava o LABEM era o professor Mario José de Oliveira Thomaz Neto5, que, neste ano, conseguiu um computador para apoiar o LABEM, mas que foi misteriosamente roubado. Isso 4 Atualmente é professor titular da Universidade da Amazônia, da Universidade do Estado do Pará, Revisor de periódico da REVISTA DE MATEMÁTICA, ENSINO E CULTURA. Membro de corpo editorial da Boletim do GEPEM. Membro de corpo editorial da Revista Cocar e Revisor de periódico da Traços (UNAMA). Tem experiência na área de Educação. 5 Foi professor assistente I da Universidade do Estado do Pará. Atuou na área de Educação, com ênfase em Educação Matemática e Informática e Educação. 50 reflete certo descaso da Universidade com algumas instalações existentes, reforçando o que relataram os professores José Souza e Neivaldo Silva sobre a falta de apoio. As tendências em Educação Matemática às quais o LABEM era amplamente voltado eram, segundo o professor Pedro Sá, principalmente as de jogos e ensino por atividades, certamente por ser uma dessas a linha de pesquisa trabalhada por este professor até o período atual. Uma das tendências que o professor Pedro Sá relatou não ser trabalhada no LABEM foi a de Informática, uma vez que o LABINF – Laboratório de Informática da UEPA – se encontrar ao lado do LABEM atendendo à maioria das necessidades das disciplinas vinculadas a esta tendência. No que diz respeito às produções dos alunos, o professor Pedro Sá destaca a produção e socialização de minicursos para a comunidade. Entretanto, citou tais atividades no ano de 2004, enquanto atrelava seu trabalho ao do professor Mario Thomaz. O professor registrou inclusive a existência de tais atividades por meio do apoio e incentivo que exercia enquanto coordenador do curso, além das certificações que viabilizava. O professor Pedro não soube informar se eram produzidos materiais didáticos no LABEM. Sobre o desenvolvimento de trabalhos de aplicação com escolas vinculadas à UEPA, o professor Pedro Sá respondeu que houve e citou um importante item na história do LABEM: O professor Mario Thomaz chegou a desenvolver um projeto denominado 6 de sala de passagem . Nossos alunos ficavam numa sala que foi cedida pela direção da escola Magalhães Barata e os alunos da escola iam espontaneamente tirar suas duvidas com nossos alunos. Parece que o professor Mario publicou um artigo em um evento relatando a experiência. Não tenho certeza se algo semelhante foi realizado na escola Vera Simplício. (Entrevista realizada em 28/11/2011) Observamos, portanto, o envolvimento dos professores coordenadores do LABEM com atividades práticas, de extensão e de monitoria. Há uma notável preocupação com a formação dos professores, relatado também pelos outros professores já entrevistados, como o professor José Souza e o professor Neivaldo 6 Infelizmente não foram encontrados registros desse projeto, uma vez que um vasto material que conta boa parte da história do LABEM se encontra no acervo pessoal do professor Mario Thomaz, já falecido, e até o presente momento não disponibilizado pelos familiares. 51 Silva. Nesta época, segundo o professor Pedro Sá, havia monitores no LABEM e os alunos do curso de Matemática iam periodicamente ao laboratório, também por meio de atividades vinculadas às disciplinas de Instrumentação para o Ensino de Matemática e Prática de Ensino, o que já foi reforçado por todos os professores já entrevistados. Ao contrário do que relataram os professores anteriormente entrevistados, o professor Pedro Sá afirmou apoiar projetos de extensão vindos do LABEM, por meio da coordenação do curso e da direção do Centro de Ciências Sociais e Educação – CCSE. Uma experiência destacada pelo professor Pedro Sá em sua entrevista sobre sua atuação em atividades concernentes ao laboratório foi o sucesso da participação dos alunos que participavam da feira do vestibular da UEPA, que segundo o professor, “o espaço do LABEM estava sempre entre um dos mais procurados”. Infelizmente o professor Pedro Sá também não tem conhecimento sobre publicações de experiências ou atividades relacionadas ao laboratório, nem registros de materiais que foram produzidos lá, como vídeos, imagens e materiais concretos, concordando, nesse sentido, com o que afirma o professor Neivaldo Silva sobre tais publicações. O professor considera importante o laboratório de Educação Matemática, que se configura em um espaço privilegiado para a formação de professores, uma vez que permite o planejamento, a organização e, principalmente, a execução de alternativas metodológicas para o ensino de Matemática durante o curso de graduação, o que confere saberes importantes para o desenvolvimento da atuação docente dos futuros professores. O Laboratório, portanto, na perspectiva do professor Pedro Sá, constituise em um ambiente propício para a realização de diversas atividades que contribuem com a formação profissional de futuros professores. Além disso, para o professor Pedro Sá, o Laboratório constitui um importante elemento de constituição do tripé ensino-pesquisa-extensão, pois viabiliza a publicação em eventos científicos de atividades produzidas no Laboratório, bem como sua aplicação na comunidade escolar, cumprindo, inclusive, uma das exigências da Universidade. 52 3.4 A HISTÓRIA DO LABEM E AS EXPERIÊNCIAS DA PROFESSORA ACYLENA COELHO COSTA A experiência descrita pela professora Acylena Coelho Costa7 traz grande contribuição para a História do LABEM. Embora tenha sido uma experiência de curta duração em relação às outras aqui descritas, foi de suma importância para o enriquecimento da formação de alguns professores. A professora Acylena assumiu a coordenação do LABEM durante o ano de 2007. A indicação da coordenação veio através do chefe de departamento ligado ao laboratório. Em 2007, o LABEM, segundo a professora, dispunha de poucos materiais concretos, muitos deles incompletos, a exemplo do Material Dourado. Destes materiais concretos, a professora Acylena destacou a existência da régua das frações, o tangram e o ábaco, que, segundo ela, estavam “todos mal conservados”. Além disso, encontravam-se muitos livros didáticos antigos do ensino fundamental e materiais que foram anteriormente produzidos por alunos como apostilas contendo biografias de grandes matemáticos, história das civilizações e história de conteúdos matemáticos. Um material interessante registrado pela professora em sua descrição do LABEM ao assumi-lo foi a existência de quadros com a biografia de grandes matemáticos. Com a situação apresentada anteriormente sobre a estrutura do LABEM ao ser assumido pela professora Acylena, fica evidente que o trabalho lá se tornou mais difícil, por exemplo, não havia estrutura que atendesse às diversas tendências em Matemática, pois o que se registrou apenas foi a existência de alguns jogos e materiais concretos provavelmente produzidos por alunos do curso de Matemática da UEPA. Diante dessa situação, a professora Acylena solicitou três bolsistas voluntários ao curso de Licenciatura Plena em Matemática para que a assessorassem nas atividades desenvolvidas durante aquele ano, sob sua orientação. Dentre as experiências desenvolvidas no LABEM, a professora Acylena destacou algumas atividades produzidas ao lado de seus monitores. Uma delas foi a 7 Atualmente é Professor Efetivo da Universidade do Estado do Pará. 53 realização de três oficinas, uma de Geometria, uma Álgebra e uma de Geoplano, preparadas pelos alunos bolsistas do laboratório, sob sua orientação. A preocupação com uma boa formação para os alunos do curso de Matemática aliada ao reconhecimento da importância da valorização das tendências em Educação Matemática, a professora Acylena estabeleceu uma parceria com a professora de Informática do LABINF, Márcia Santos, que ministrava a disciplina de Informática para alunos do 2º ano do curso de Matemática, o que viabilizou o oferecimento de oficinas de Informática baseadas no ensino de Matemática por meio da utilização de softwares. Tais ideias, segundo a professora Acylena, surgiram em uma conversa informal acerca da formação dos licenciandos, culminando na decisão sobre a última avaliação da disciplina de Informática, que seria aliada ao LABEM. Nesta avaliação, os alunos do curso de Matemática elaboraram atividades para o ensino de Matemática por meio da utilização de softwares livres, orientados pela professora Márcia, para posteriormente submeterem suas propostas de ensino ao LABEM, para que fossem ofertadas em forma de oficinas. As oficinas ministradas pelos alunos orientados pelas professoras tiveram sucesso e receberam como público alunos dos cursos tanto de Matemática quanto de Pedagogia e de Ciências. As oficinas ofertadas estão listadas com imagens feitas pela professora: 1. O USO DO SOFTWARE APLUSIX PARA O ENSINO DA ÁLGEBRA Fotografia 1 – Minicurso com alunos sendo orientados pelos monitores 54 Fotografia 2 – Minicurso sobre o software Aplusix 2. INTRODUÇÃO À SINTAXE DO WINPLOT. 3. USO DO SOFTWARE MICROMUNDOS NA CONSTRUÇAO DE FIGURAS GEOMÉTRICAS. 4. O SOFTWARE LIVRE GEOGEBRA 3.0: UMA FERRAMENTA PARA O ENSINO-APRENDIZAGEM DA MATEMÁTICA. Embora fossem desenvolvidas diversas atividades voltadas para o ensino de Matemática em meio a uma preocupação dos professores da UEPA com a formação profissional dos alunos em graduação, a Universidade não disponibilizava recursos para o desenvolvimento de projetos aliados ao LABEM. Com isso, a falta de recursos limitou a atuação do LABEM às produções de alunos e professores, não podendo existir, portanto, a produção de materiais didáticos, por exemplo, além de não terem sido realizadas atividades de aplicação com alunos de escolas vinculadas à UEPA. Nessa perspectiva, o LABEM, durante o ano de 2007, foi sustentado pela parceria entre professores e alunos, que estiveram se mobilizando o tempo todo para não deixar de tornar significativa a atuação do Laboratório. Por isso, o LABEM estava sempre aberto e disponível à comunidade acadêmica e escolar da redondeza. Durante os três turnos (manhã, tarde e noite), havia alunos do curso de Licenciatura Plena em Matemática escalados de forma organizada no LABEM para 55 atenderem a quaisquer necessidades da comunidade no que diz respeito ao ensino e aprendizagem em Matemática, mantendo-o, portanto, sempre aberto. Além das parcerias já descritas anteriormente, as atividades do LABEM eram desenvolvidas durante o curso das disciplinas de Instrumentação para o Ensino de Matemática e Prática de Ensino, oferecidas no 2º e no 3º ano do curso de Licenciatura Plena em Matemática da UEPA e que eram ministradas pela professora Acylena. Porém, a proposta apresentada pelo LABEM em 2007 pela professora não se limitava às disciplinas por ela ministradas, pelo contrário, onde reforça: Mas minha proposta era que todas as disciplinas do curso tivessem a oportunidade de desenvolver atividades no LABEM, porém para que tal situação ocorresse seria necessário ocorrer uma integração entre as disciplinas, o que não se constitui em uma tarefa fácil. (Entrevista realizada em 28/10/2011) A proposta de integração apresentada pela professora Acylena é algo já proposto anteriormente pelo professor Neivaldo Silva e pelo professor José Souza, porém nunca concretizado na história do LABEM da UEPA. Sem dúvidas, a preocupação com a formação dos professores de Matemática é algo presente no dia-a-dia dos professores da UEPA que estiveram à frente do LABEM. Infelizmente, durante o ano de 2007, não houve publicações dos alunos sobre experiências desenvolvidas no LABEM ou em disciplinas ligadas a ele. 3.5 O LABEM DA UEPA E UM RECORTE DA SUA HISTÓRIA MAIS RECENTE A situação do LABEM da UEPA nesta subseção será descrita não apenas com base no seu atual estado, e sim de 2008 a 2011, período no qual estive cursando Licenciatura Plena em Matemática nesta Universidade. Não me limitarei, no entanto, às minhas experiências, pois isso já foi feito na primeira seção deste trabalho; farei nesta subseção uma descrição do que presenciei do estado do laboratório quando ingressei na Universidade até o momento atual. Ingressei no curso de Licenciatura Plena em Matemática da UEPA em fevereiro de 2008 e já na Semana do Calouro, organizada pelo Centro Acadêmico de Matemática (CAMAT), tive o primeiro contato com o LABEM. Os veteranos nos apresentaram a Universidade e todos os setores que influenciariam diretamente na 56 nossa jornada pela Universidade nos quatro anos seguintes: coordenação do curso, protocolo geral, biblioteca, xerox, o próprio CAMAT, além dos laboratórios de Física, o LABINF e bem ao lado, o LABEM. Apresentaram-nos esses dois últimos laboratórios como laboratórios importantes para nosso desenvolvimento acadêmico. Ressalto que, no ano anterior, aqueles alunos haviam participado de diversas atividades com a professora Acylena no LABEM. Especificamente, disseram-nos que o LABINF seria um ambiente onde cursaríamos boa parte de uma disciplina ainda naquele ano de 2008 – Computação. Isso, de fato, aconteceu. Íamos semanalmente ao LABINF acompanhados da professora e de sua monitora na época, que sempre nos orientava nas atividades e nos trabalhos em grupo. Quanto ao LABEM, no dia da apresentação aos calouros, os veteranos não conseguiram a chave para nos apresentá-lo. Apenas disseram-nos que LABEM significava Laboratório de Educação Matemática e que era um espaço importante, uma vez que trabalharíamos nele diversas alternativas metodológicas para o Ensino de Matemática, provavelmente durante o curso das disciplinas de Introdução à Educação Matemática, Instrumentação para o Ensino de Matemática e Prática de Ensino. Descreveram que ali eram produzidos materiais didáticos e eram promovidas situações de ensino diferentes do modelo tradicional. Fiquei com uma boa imagem do curso, e aquela visita, por mais que não tenha visto, de fato, o LABEM, me despertou ansiedade para o curso. Em outra oportunidade, conheci o LABEM e lá, existiam ainda os quadros citados pela professora Acylena Costa com a história de grandes matemáticos, além de dois computadores (em funcionamento) e atividades produzidas por alunos, na maioria, mal conservadas. Havia também algumas carteiras, mesas, um quadro branco e alguns livros antigos de matemática. No primeiro semestre de 2008, nenhum professor trabalhou de forma integrada com o LABEM. No segundo semestre, o LABEM se transformou em um grande depósito de livros. A coordenação do curso havia solicitado diversos livros que seriam enviados para os cursos de Matemática do interior do estado e não conseguiu enviá-los, ficamos sabendo que o motivo era a falta de estrutura dos campi do interior para recebê-los. A partir daí, o LABEM da UEPA teve seu funcionamento comprometido. Ficou inativo para os professores e alunos do curso e 57 a grande quantidade de livros (novos) impossibilitava inclusive, a passagem de alunos por lá. Cheguei a utilizar os computadores daquele laboratório para produção de trabalhos escritos das disciplinas que cursava em 2008 e em 2009, juntamente com outras duas alunas do curso. Pedíamos sempre ao coordenador do curso, professor Rubens Vilhena, a chave do laboratório e ele nos cedia, mas não fazia isso com frequência, nem para todos os alunos, por causa do cuidado que tinha que tomar com os livros que lá existiam. Nessa situação o LABEM permaneceu até o ano de 2011. Desconheço registro de nenhuma turma que tenha tido acesso a atividades que foram produzidas nesse período, nem mesmo ao próprio espaço do LABEM por meio de disciplinas cursadas como Instrumentação e Prática de Ensino. O LABEM esteve, portanto, durante todos esses quatro anos, inativo. Depois que cursei a disciplina de Instrumentação para o Ensino de Matemática I, notei a necessidade do Laboratório como ferramenta fundamental de aprendizagem docente. As atividades que produzimos no curso dessa disciplina foram sem dúvidas significativas e tiveram rica contribuição em meu processo de aprendizagem. Porém, o vínculo com o Laboratório teria enriquecido ainda mais meus conhecimentos teóricos e práticos ainda em meu curso de graduação. No ano de 2010, a professora Jeane Silva, de Prática de Ensino, me ofereceu uma parceria para dar entrada em um projeto de pesquisa que seria financiado pela FAPESPA (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Pará). A primeira ideia que me ocorreu foi de um projeto de reativação do LABEM da UEPA, o qual iniciei, mas devido ao prazo ser curto na época, não consegui concluir a tempo. Nesse projeto, procurei enfatizar a necessidade que senti da atuação de alunos da graduação no Laboratório, reconhecendo sua importância e propondo sua reativação. Durante quase todo o ano de 2011, as únicas experiências relacionadas a um Laboratório de Ensino foram no curso da disciplina Prática de Ensino II, na Escola Tenente Rêgo Barros, onde existe um Laboratório no qual catalogamos diversas atividades de ensino de Matemática e aprendemos que tal ensino está longe de ser limitado ao quadro branco e a aula expositiva. Já no segundo semestre de 2011, o professor Natanael Freitas Cabral assumiu a coordenação do LABEM da UEPA e deu início imediatamente a algumas 58 atividades. Com a ajuda de uma monitora, foram catalogadas algumas atividades e materiais encontrados no LABEM (em anexos), buscando organizá-lo para dar início a atividades práticas. Entretanto, a reforma na sala do LABEM não permitiu que tais atividades acontecessem lá, o que não o impediu de realizá-las. No mês de novembro, ainda no curso da disciplina Instrumentação para o Ensino de Matemática I (do 2º ano do curso), o professor iniciou um trabalho envolvendo os alunos do 2º ano em atividades de laboratório na própria sala de aula. Solicitou à Escola Vera Simplício um grupo de 15 alunos do 3º e 4º anos do ensino fundamental com idade entre 7 e 9 anos que participariam de atividades com alguns alunos do 2º ano do curso de Matemática, orientados por ele (documentos de autorização em anexo). Foram dois encontros realizados, que serão descritos a seguir. A primeira atividade aconteceu no dia 25 de novembro, com 8 alunos alfabetizados da escola Vera Simplício. Neste dia, observei as atividades realizadas e o professor Natanael iniciou o trabalho com ideias sobre as quatro operações fundamentais. No decorrer da aula, percebemos facilmente que os alunos não reconheciam e diferenciavam com certeza os símbolos das quatro operações. Depois disso, o professor trabalhou algumas ideias de adição e começou a relacioná-la com a multiplicação, verificando o conhecimento dos alunos e a capacidade de atenção e acompanhamento do que estava sendo discutido. Um registro desse momento pode ser encontrado na imagem a seguir. Fotografia 3 – Início das atividades orientadas pelo professor Natanael 59 Na segunda parte da aula, os cinco alunos do 2º ano do curso de Matemática assumiram a gestão da turma. Nesse momento, investigaram se os alunos da escola pública associavam com clareza a multiplicação à soma de parcelas iguais. Trabalharam diversos exemplos diretos que envolviam essa associação, sempre orientados pelo professor Natanael Cabral a executarem as somas e multiplicações por meio de desenhos de “bolinhas”. Em seguida, os futuros professores conduziram uma atividade com os alunos, organizando equipes para serem trabalhados pequenos problemas que envolviam adição e multiplicação. Os alunos se envolveram e participaram de toda a atividade, realizada em equipes e na qual se sentiam perceptivelmente desafiados, uma vez que se dedicavam bastante para resolver os problemas propostos sem errar, o que os acarretaria perda de pontos, favorecendo outra equipe. Um registro desse momento está nas imagens seguintes, onde é possível perceber a condução dos alunos da graduação (futuros professores) no decorrer as atividades: Fotografia 4 – Atividades em equipe Na fotografia 4 podemos observar o envolvimento dos alunos com a atividade proposta pelos alunos do segundo ano do curso de Matemática da UEPA. As atividades em equipe notadamente incentivaram os alunos a participarem de maneira mais ativa das atividades realizadas. 60 Fotografia 5 – Atividades conduzidas pelos futuros professores A segunda atividade aplicada aconteceu na semana seguinte, no dia 2 de dezembro. Neste dia, os futuros professores conduziram toda a aula por meio de atividades com os 11 alunos presentes, dos quais 4 não estavam na aula anterior. Inicialmente, os futuros professores resgataram ideias de adição trabalhadas na aula anterior por meio do desenho de bolinhas, de acordo como foi registrado na fotografia a seguinte: Fotografia 6 – Ideia de adição por meio do desenho de bolinhas 61 Em seguida, os futuros professores trabalharam a ideia de subtração tomando como base o mesmo esquema utilizado na adição, seguido da ideia de divisão. Ao final da aula, os alunos também participaram de uma atividade que envolvia os conceitos trabalhados naquele dia. Como registro, temos a imagem seguinte: Fotografia 7 – Atividade Final As duas atividades desenvolvidas no LABEM na UEPA no ano de 2011 foram significativas para o aprendizado dos futuros professores que delas participaram. Durante a execução das aulas, observei a forma com a qual os futuros professores conduziam a turma, não somente no que diz respeito ao assunto trabalhado, mas ao domínio da turma de uma forma geral. No primeiro dia, por exemplo, o nível de atenção dos alunos permaneceu, segundo o professor Natanael Cabral “extremamente flutuante”. Sobre isso, afirmou durante a aula que é necessário ter experiências sobre gestão de classe, ou seja, saber lidar com os mais variados comportamentos dos alunos. Durante toda a aula, os alunos foram orientados pelo professor Natanael Cabral sobre quais as atitudes adequadas para cada situação que acontecia. No segundo dia de atividades, o professor Natanael Cabral não estava presente, o que fez com que os futuros professores tivessem que conduzir a aula sozinhos. Em vários momentos, os futuros professores perderam o controle sobre a turma, que pedia a toda hora para sair da sala ou estavam desatentas conversando com colegas. 62 Presenciei várias vezes um dos futuros professores questionando “Nossa, como vocês [professores] aguentam?”, ao perder o controle sobre os alunos, que brincavam e gritavam. Neste momento, tentei estabelecer ordem na classe, inclusive acalmando o futuro professor que me questionava. Ao final da aula, reuni os cinco futuros professores para uma pequena entrevista, onde investiguei de forma sucinta quais os saberes adquiridos com aquelas experiências. A primeira pergunta investigou de que forma aquele contato profissional antecipado sob a orientação de um professor experiente poderia influenciar na formação profissional daqueles futuros professores. O primeiro aluno a responder a pergunta, tratado aqui como Aluno 1, destacou a importância da orientação do professor Natanael Cabral ao final das atividades realizadas, uma vez que corrigia erros cometidos, evitando-os no exercício efetivo da profissão. O Aluno 2 complementou a resposta ao afirmar que essas experiências permitem com que os futuros professores cheguem ao final do curso mais preparados. O Aluno 4, por exemplo, relatou ter desistido de sua participação no projeto Mais Educação por não se sentir preparada, e completa: [...] ano passado eu tive uma experiência dessas, eu vi jogos, resolução de problemas e tudo mais, eu fui aplicar no MAIS EDUCAÇÃO e vi que tudo aquilo que eu aprendi, metade era verdade, metade não. Não consegui aplicar assim... 100%, tinha que fazer alguns ajustes, dependendo da turma e dos alunos. (Entrevista realizada em 2/12/2011, grifo meu) O Aluno 1, que havia questionado sobre como os professores aguentam determinadas situações, afirmou que considera importante a aliança entre as disciplinas pedagógicas e o Laboratório de Educação Matemática, pois se não existisse, “acho que ia ser um desastre, o aluno correndo, pulando e brincando e a gente desesperado: “Socorro! Como é que vocês aguentam isso?”. Outro relato importante dos futuros professores foi sobre a forma como eles avaliaram o curso da disciplina Instrumentação para o Ensino de Matemática I ministrada pelo professor Natanael Cabral. Afirmaram que foi realizada de forma diferenciada, pois, ao invés de se limitarem à leitura de textos e apresentação de seminários, como geralmente são conduzidas as demais disciplinas, tiveram oportunidade de criar atividades e propostas de ensino orientadas pelo professor. Para o Aluno 1: 63 [...] a gente mesmo trabalhava com as orientações dele, é claro, e isso estimulou a gente a desenvolver aquele professor dentro da gente, criar novas maneiras pra ensinar alguma coisa, táticas, técnicas, e isso facilitando, com certeza, a nossa vida futuramente. (Entrevista realizada em 2/12/2011) De uma maneira geral, enumerei três aprendizados significativos relatados pelos alunos diante das breves experiências vividas nas duas semanas de aplicação com os alunos da Escola Estadual Vera Simplício. Todos eles estão ligados a uma melhor preparação profissional ainda dentro do curso de formação. O primeiro deles está ligado aos erros: os alunos constataram em suas experiências que o contato profissional antecipado por meio de atividades no Laboratório de Educação Matemática os impede de cometer alguns erros no exercício efetivo da profissão, isto é, os alunos antecipam um aprendizado prático evitando que isso aconteça no dia-a-dia da atuação profissional. O segundo aprendizado registrado é o de reconhecer a importância entre a aliança entre teoria e prática no curso de disciplinas pedagógicas durante o curso de formação. Os alunos reconheceram que uma abordagem unicamente teórica sobre o processo de ensino-aprendizagem pode limitar o aprendizado e a formação profissional dos futuros professores. O terceiro aprendizado adquirido pelos futuros professores está relacionado à percepção entre o ideal e o real. Em apenas duas atividades, os alunos da graduação perceberam uma importante característica da profissão docente, na qual existe uma distância entre o que se planeja e aquilo que se faz em sala de aula. Por mais que a aula esteja bem preparada, os alunos reconheceram que é importante saber ajustar o que se planeja a determinadas situações. A execução de apenas duas atividades no LABEM da UEPA conferiu aos alunos da graduação aprendizados significativos no que diz respeito ao exercício da profissão docente. Ainda no segundo ano do curso de Licenciatura, os alunos tiveram oportunidade de entrar em contato com situações antecipadas de ensino permitindo a aquisição de alguns saberes importantes para a formação profissional. Na próxima seção, entrarei em uma discussão acerca dos benefícios do Laboratório de Educação Matemática no curso de Licenciatura aliados ao que a literatura afirma sobre tais benefícios utilizando como suporte as experiências realizadas nas demais universidades no Brasil e a experiência da UEPA descrita nesta seção. 64 4 DISCUSSÃO Nesta seção, discuto os benefícios do Laboratório de Educação Matemática nos cursos de formação de professores de Matemática tomando como base o levantamento bibliográfico realizado na primeira seção e as experiências sobre LEM descritas tanto nos laboratórios de algumas universidades brasileiras quanto no exemplo específico na UEPA. 4.1 O LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA E O SEU RECONHECIMETO PELA LITERATURA NA ÁREA As ideias trabalhadas na primeira seção deste trabalho apresentaram alguns problemas enfrentados pelos alunos dos cursos de Licenciatura ao se depararem com a necessidade de alguns saberes práticos que não são adquiridos ainda na graduação. Pires (2000, apud Cabral, 2010, p. 56), inclusive, afirma que os cursos de licenciatura adotam um modelo relativamente ineficiente e que, por isso, vem sendo bastante questionado nos últimos anos. O motivo que leva a tal questionamento é o fato de os cursos de licenciatura no Brasil se voltarem para uma perspectiva de racionalidade técnica, isto é, é desenvolvida uma concepção epistemológica onde a atividade profissional está voltada para uma rigorosa aplicação de teorias e técnicas. Isto acaba limitando a participação do futuro professor em seu próprio processo de aprendizagem, impedindo-o de utilizar sua criatividade em situações práticas e que envolvam uma aliança entre a teoria e a prática, necessária para um preparo mais adequado do exercício da profissão docente. Nesse modelo de graduação, a atuação profissional do aluno pode ser comprometida, uma vez que não permite que futuro professor promova de maneira adequada um processo de ensino baseado em práticas investigativas e reflexivas, sobretudo desenvolvidas em um ambiente de colaboração. Para Cabral (2010), fazer com que os futuros professores tornem-se aptos a proporcionar experiências significativas e enriquecedoras aos seus alunos é uma tarefa somente possível se sua formação inicial assumir uma postura que vise ao estímulo do pensamento e não à mera reprodução de informações. 65 Assim, as técnicas aprendidas de maneira teórica nos cursos de graduação necessitam ser aplicadas em situações práticas ainda na formação inicial desses futuros professores. Uma vez não aplicadas, podem gerar frustração aos profissionais da educação ao perceberem a complexidade existente no ato de ensinar, bem como a necessidade de uma boa preparação para isso. Nesse contexto, Perez et al. (2002), em um discurso sobre o atual quadro educacional brasileiro, sugere como possível solução para diversos problemas a instalação de uma “nova educação” e atribui ao professor grande parte dessa tarefa, na qual sugere a criação de ambientes que preparem cidadãos livres e questionadores. A responsabilidade do professor, nesse sentido, entra em uma dimensão social, onde ele deve conduzir processos não apenas de aquisição de informações, mas que conduza ações de descobertas, percepções sobre as mais variadas realidades e compare-as de maneira a buscar um equilíbrio que o permita ao aluno se transformar em um cidadão crítico e reflexivo. É nesse contexto que a formação inicial de professores assume uma grande responsabilidade, ao se apresentar como possível solução para muitos problemas enfrentados na realidade da educação brasileira. Nesse sentido, uma alternativa viável apresentada ainda na primeira seção deste trabalho é o Laboratório de Educação Matemática nos cursos de Licenciatura. Uma análise ampla sobre o conceito de LEM me permitiu adotar a perspectiva abordada por Cabral (2010), que considera o Laboratório como um conjunto de atitudes que visam à educação de uma maneira mais completa, que busque inserir o aluno em seu próprio processo de aprendizagem por meio de uma participação ativa. Neste caso, o professor assume o papel de orientador do processo de ensino-aprendizagem e conduz o aluno a experiências significativas. Dentre as atitudes consideradas características do laboratório, Cabral (2010) destaca a pesquisa, a criação e a execução de atividades que visem, principalmente, ao trabalho colaborativo. Diversas universidades brasileiras desenvolveram um Laboratório de ensino em seus cursos de licenciatura, conforme foi descrito também na primeira seção, onde destaquei as experiências da UFF, da UnB, UFPB, Universitas e UNAMA, nas quais o Laboratório de Educação Matemática teve significativa contribuição na formação profissional dos futuros professores que tiveram oportunidade de desenvolver suas atividades nesse ambiente. 66 Em síntese, o Laboratório de Ensino de Geometria da UFF teve suas produções realizadas em uma perspectiva de construção de conceitos e sobre isso, Cabral (2010) defende que a valorização dessa abordagem representa um significativo indício de desenvolvimento da formação profissional dos futuros professores que participam do processo de aprendizagem do laboratório, ratificando a importância do laboratório em um curso de formação de professores. Na experiência da UnB, por exemplo, o foco trabalhado pelos professores e alunos do curso de graduação era o do trabalho colaborativo: além das produções serem disponibilizadas para os demais alunos e para os professores escolares de uma forma geral, a interação entre professores e alunos (futuros professores) era valorizada no ambiente de ensino-aprendizagem do laboratório, uma vez que eram produzidas sequências didáticas de planejamento e ensino, sempre orientadas pelos professores. As experiências do LEPAC, Laboratório criado na UFPB, tiveram como destaque o enfoque político adotado. Nesse sentido, buscou-se uma educação que visasse à conscientização dos alunos no que diz respeito à sociedade e política, não descartando, com isso, a necessidade de uma aprendizagem significativa em Matemática, defendendo sua importância para o desenvolvimento crítico e reflexivo do aluno. A autonomia intelectual, criatividade e capacidade de ação e reflexão crítica por parte dos alunos constitui de uma maneira geral, a proposta do laboratório dessa universidade. Similarmente ao propôs o laboratório da UFF, o LEM do Universitas valorizou também a abordagem da construção conceitual nas atividades desenvolvidas. Os resultados foram significativamente positivos: o aprendizado sobre a diferença entre conceitos e significados, por exemplo, tornou os futuros professores do Universitas mais confiantes e independentes em determinadas situações de ensino, além de ter incentivado os alunos a desenvolver pesquisas científicas e disponibilizando-as ao meio acadêmico. As atividades da UNAMA viabilizaram grandes aprendizados aos futuros professores, na medida em que visaram também ao trabalho colaborativo. Na pesquisa de Cabral (2010), os alunos participaram de uma série de atividades orientadas ao ensino de conteúdos do ensino fundamental e revelaram significativos aprendizados práticos. 67 Tomando como base o levantamento bibliográfico realizado, bem como as experiências das universidades brasileiras destacadas até aqui, o laboratório ratifica sua importância no ambiente de formação de futuros professores. Em primeiro lugar, porque permite a quebra do paradigma da racionalidade técnica, citado por Pires (2000), uma vez que insere os futuros professores em situações práticas de ensino, permitindo com que eles mesmos analisem e participem ativamente de seus processos de aprendizagem, podendo aliar a teoria estudada em sala de aula à prática desenvolvida no laboratório. Em segundo lugar, a análise das experiências desenvolvidas nas universidades brasileiras juntamente com o levantamento teórico realizado na primeira seção deste trabalho ratifica a importância do laboratório na medida em que há a valorização do trabalho colaborativo. Na UnB, por exemplo, o trabalho colaborativo permitiu com que os alunos daquela universidade desenvolvessem sob a orientação do professor, atividades de ensino que eram simuladas no laboratório em uma aplicação supervisionada pelo professor. De forma colaborativa este trabalho foi desenvolvido e permitiu que os futuros professores adquirissem uma visão diferenciada sobre a profissão docente. Em terceiro lugar, a iniciação à pesquisa científica também é um aspecto valorizado no Laboratório de Educação Matemática. No Brasil, as experiências revelaram que a atitude de disponibilizar as produções feitas no laboratório para a comunidade profissional e acadêmica incentivou tanto ao trabalho colaborativo quanto à pesquisa científica, uma vez que em vários momentos, essa disponibilização se transformou em produções acadêmicas apresentadas em eventos científicos. No caso do Universitas, por exemplo, os futuros professores em um trabalho de colaboração com seus professores e orientadores, promoveram eventos científicos que visavam à divulgação e movimentação das atividades produzidas no laboratório. Alguns deles eram disponibilizados, inclusive, a alunos de outros cursos. Tendo como base os dois suportes utilizados até aqui para a ratificação da importância do laboratório nos cursos de formação de professores, é possível perceber a dimensão que seus benefícios tomam ao longo da formação inicial. No entanto, tais benefícios não são limitados às experiências citadas. A história do LABEM da UEPA, por exemplo, é um grande referencial de conquista para o 68 desenvolvimento do curso de licenciatura. Essa experiência será abordada com mais propriedade na próxima subseção. 4.2 O LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA DA UEPA E O SEU RECONHECIMENTO NAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DE ALGUNS PROFESSORES Nesta subseção, farei um breve resgate dos recortes da história do LABEM da UEPA obtidos com as pesquisas e entrevistas realizadas, buscando organizar em uma sequência temporal os professores que assumiram o laboratório e as produções desenvolvidas durante sua existência. Em seguida, baseando-me nas experiências dos professores e dos alunos da UEPA até o presente ano, ratificarei a importância do laboratório na perspectiva de partes de sua história construída nesta universidade. Conforme foi verificado na segunda seção deste trabalho, a história do LABEM da UEPA começou com uma iniciativa do professor Neivaldo Silva, que elaborou um projeto de abertura no ano de 1992 juntamente com outros professores da UEPA. Com apoio do professor José Souza, o LABEM da UEPA passou a existir em uma sala de aula com poucos recursos físicos e didáticos. Os recursos eram limitados, segundo os professores José Souza e Neivaldo Silva, devido à falta de apoio institucional da Universidade. No entanto, as atividades e oficinas que foram sendo desenvolvidas no ambiente do laboratório foram enriquecendo seus recursos e contaram com o apoio dos alunos do curso de Licenciatura em Matemática e de outros professores que ministravam disciplinas ligadas ao laboratório. Até o ano de 1994, o professor Neivaldo Silva permaneceu na coordenação do LABEM, alegando ter saído devido à falta de apoio da Universidade no que ele considerava necessário para o desenvolvimento do laboratório, como a disponibilização de cargas horárias para o laboratório, recursos didáticos necessários para a aplicação de atividades com alunos da graduação e o apoio institucional a projetos de extensão vindos do LABEM. O professor Neivaldo Silva relatou que o único apoio que a UEPA ofereceu ao LABEM foi o espaço físico. Após o ano de 1994, ainda com o professor José Souza como coordenador do curso de Matemática, o laboratório já não contava com a 69 participação do professor Neivaldo Silva, sendo assumido, segundo ele, pelas professoras Isabel Cristina Rodrigues de Lucena5 e Magali Rocha de Sousa6, com as quais não tive oportunidade de entrar em contato para a obtenção de mais informações. Segundo o professor Neivaldo Silva, em 1994, recém-formada, a professora Isabel Lucena assumiu o Laboratório como professora substituta da UEPA. Desenvolveu atividades durante os dois anos seguintes juntamente com a professora Magali Sousa, saindo em 1996 para cursar uma especialização fora do estado, segundo informações obtidas em seu currículo Lattes. Em 1998, o professor Pedro Sá assumiu a coordenação do curso de Matemática da UEPA pela primeira vez, permanecendo até o ano 2000. Neste período de 1996 até 2000, o laboratório provavelmente esteve abandonado, uma vez que a professora Isabel Lucena já não estava atuando naquela Universidade. Além disso, uma informação que ratifica o período de abandono do LABEM é a entrevista com o professor Neivaldo, que relatou que após a saída da professora Isabel Lucena, o Laboratório ficou periodicamente fechado até a iniciativa do professor Mario Thomaz. No ano 2000, a coordenação do curso de Matemática da UEPA foi assumida pelo professor Gilberto Emanoel Reis Vogado 7, segundo informação obtida na Plataforma Lattes. Este professor permaneceu na coordenação do curso até o ano de 2002, quando o professor Rui dos Santos Barbosa8 assumiu, segundo o professor Pedro Sá, até 2004, período no qual o laboratório ainda estava fechado. No ano de 2004, o professor Pedro Sá reassumiu a coordenação do curso de Matemática da UEPA. Desta vez, relatou ter apoiado projetos de extensão provenientes do LABEM enquanto coordenador do curso, além de ter relatado apoio também da direção do Centro de Ciências Sociais e Educação (CCSE) a tais projetos. Além disso, a coordenação do curso de Matemática a partir de 2004 passou a apoiar o LABEM à medida que incentivava e certificava os minicursos e atividades produzidas à comunidade escolar e acadêmica. No período de 2004 a 2008 (período no qual a coordenação do curso pertencia ao professor Pedro Sá), a professora Acylena Costa retomou, segundo o professor Pedro Sá, as atividades do Laboratório, junto com o professor Mario Thomaz. Nesse período, “o professor Mário Thomaz com a Professora Acylena 70 Costa produziam atividades que depois eram socializadas por meio de minicursos para comunidade” (entrevista realizada em 28/11/2011). Em 2007, a professora Acylena Costa assumiu oficialmente o LABEM. Neste ano, como foi descrito na segunda seção deste trabalho, desenvolveu diversas atividades ligadas às disciplinas de Instrumentação para o Ensino de Matemática e Prática de Ensino. No ano de 2008, a coordenação do curso de Matemática passou a pertencer ao professor Rubens Vilhena Fonseca e o LABEM da UEPA perdeu a coordenação da professora Acylena Costa, ficando inativo até o final do ano de 2011, quando o professor Natanael Cabral o assumiu oficialmente e iniciou suas atividades ligadas à disciplina de Instrumentação para o Ensino de Matemática I. Uma análise sobre a síntese da história do LABEM da UEPA nos permite compreender que este laboratório teve um início marcado por muitas dificuldades devido à falta de apoio institucional exercido pela universidade. Além disso, também foi marcada por uma vontade muito grande dos professores que contribuíram em sua fundação. A confiança na ideia de que o laboratório constituía uma forte alternativa de melhora do curso de Licenciatura Plena em Matemática da UEPA sem dúvidas motivou intensamente o professor Neivaldo Silva, que persistiu durante os dois primeiros anos de existência do laboratório, mesmo diante de todas as dificuldades enfrentadas. O relato do professor Neivaldo Silva e do professor José Souza deixam claro que apenas o espaço físico foi cedido pela Universidade para o funcionamento do Laboratório, que se iniciou baseado unicamente na disposição, experiência e confiança dos professores que o fundaram como um projeto que obteria sucesso. Todas as experiências desenvolvidas foram de grande contribuição para a formação dos futuros professores que puderam participar do ambiente colaborativo e enriquecedor que é o Laboratório de Educação Matemática. A história do LABEM da UEPA pode ser dividida em três fases de funcionamento: a primeira diz respeito ao período de 1992 a 1998; a segunda se refere ao período de 2004 a 2007; e a terceira de 2011 em diante. Durante a primeira fase, a falta de apoio da Universidade ao Laboratório de uma forma geral – a exemplo dos projetos de extensão, aquisição de materiais didáticos e outros recursos, disponibilização de carga horária específica destinada ao LABEM, dentre outros – marcou o desenvolvimento do laboratório. Porém, não 71 apenas o professor Neivaldo Silva esteve presente neste período. Provavelmente, tal falta de apoio também foi uma dificuldade enfrentada pelas professoras Isabel Lucena e Magali Sousa, já que assumiram o LABEM imediatamente depois do professor Neivaldo Silva. Ainda na primeira fase, merece destaque a persistência dos professores na execução de atividades e de produção de materiais, já que a Universidade não os dispunha. Eram realizadas desde então simulações de situações de ensino que já visavam à inserção do futuro professor em seu meio profissional desde seu período de formação. Depois da primeira fase, tivemos um longo período de inatividade do LABEM: por volta de 1998 a 2004, isto é, de quando terminou a participação da professora Isabel Lucena até o professor Mário Thomaz assumir a coordenação do laboratório por volta de 2004, já na gestão do curso de Matemática do professor Pedro Sá. Em 2004, juntamente com a professora Acylena Costa, o LABEM já tinha suas atividades retomadas, iniciando a segunda fase, inclusive com a elaboração de um projeto denominado “Sala de Passagem” que, segundo o professor Pedro Sá, constituía-se em um ambiente no qual os alunos da Escola Estadual Magalhães Barata visitavam para tirar dúvidas sobre diversos conteúdos aprendidos em Matemática com futuros professores. Neste período, o LABEM contava com alguns monitores que assessoravam e participavam da execução das atividades e dos projetos. Até o ano de 2007, o LABEM permaneceu em atividade sendo coordenado ora pelo professor Mário Thomaz, ora pela professora Acylena Costa, sendo esta a última professora que assumiu o laboratório, no ano de 2007, ainda na segunda fase. Provavelmente já na coordenação da professora Acylena Costa, a realidade de apoio institucional da UEPA já havia sido relativamente modificada. Em sua entrevista, a professora relatou que assumiu o LABEM mediante uma indicação do então chefe de departamento, o que já reflete uma maior institucionalização do LABEM dentro do curso de Licenciatura Plena em Matemática. Antes de iniciar a terceira e última fase de funcionamento do laboratório, mais um período de inatividade foi estabelecido na história do LABEM da UEPA. Em 2008, a professora Acylena Costa já não era coordenadora do laboratório e nenhum 72 outro professor o assumiu até o ano de 2011, ficando fechado e abrigando uma grande quantidade de livros pertencentes ao curso de Matemática. Apenas no ano de 2011 foi que se iniciou a terceira fase de funcionamento do LABEM da UEPA, quando o professor Natanael Cabral se tornou oficialmente coordenador do laboratório (em anexo, uma cópia do documento de apresentação deste professor como coordenador do LABEM) iniciando suas atividades no mês de novembro tendo como auxiliar a monitora bolsista Jéssica Matos, do Programa de Monitoria da UEPA exclusivamente dedicada ao laboratório. A realidade vivida pelo professor Natanael Cabral ao assumir o LABEM da UEPA é, de fato, bem diferente da que viveu o professor Neivaldo Silva, quase 20 anos antes. O atual coordenador do laboratório dispõe de carga horária específica para desenvolver atividades no LABEM, além de contar com o apoio da coordenação do curso tanto para a execução de projetos de extensão quanto o desenvolvimento de outras atividades, como a de disponibilizar um monitor bolsista do Programa de Monitoria da Universidade para auxiliar o funcionamento do laboratório. Ainda em processo de restabelecimento, o LABEM da UEPA desenvolveu uma atividade de contato antecipado com alunos do 2º ano do curso de Licenciatura Plena em Matemática no curso da disciplina de Instrumentação para o Ensino de Matemática I, como já foi descrito na seção anterior deste trabalho. Os resultados dessa atividade representam, portanto, mais uma forma de ratificar a importância do Laboratório de Educação Matemática dentro de um curso de formação de professores. A aquisição de alguns saberes foi registrada nesta seção na análise do levantamento bibliográfico realizado, bem como partindo das experiências relatadas por participantes de laboratórios das diversas Universidades brasileiras que experimentaram o laboratório. Porém, a experiência realizada na UEPA no ano de 2011 comprova a capacidade do Laboratório de Educação Matemática em tornar o aprendizado adquirido em um curso de formação de professores mais significativo. Tomando tal experiência como base, listarei alguns benefícios relatados pelos alunos que participaram dos dois encontros com alunos da Escola Estadual Vera Simplício. Além da importância do trabalho colaborativo no processo de formação de professores já ter sido abordada neste trabalho, bem como a inserção do futuro 73 professor em um ambiente de práticas investigativas e reflexivas e o incentivo à pesquisa científica serem alguns dos benefícios adquiridos com as atividades de laboratório, as experiências desenvolvidas na UEPA permitiram com que os próprios alunos relatassem alguns aprendizados específicos adquiridos com os dois encontros promovidos e orientados pelo professor Natanael Cabral com alunos da Escola Vera Simplício. Desses aprendizados, destaquei três que considero mais significativos. O primeiro aprendizado registrado na entrevista realizada ao final das experiências desenvolvidas com os futuros professores foi o da percepção de ensinar não é uma tarefa fácil. Isto pôde ser evidenciado no relato de alguns futuros professores ao afirmarem que as experiências do Laboratório evitam a frustração de muitos professores que, ao saírem da graduação e se depararem com a realidade profissional, notam que ensinar não é apenas aplicar a teoria aprendida nos anos de formação. O segundo aprendizado é uma consequência do primeiro: os alunos perceberam nas poucas experiências que tiveram no LABEM da UEPA que a teoria estudada nos anos de formação serve como suporte para uma aplicação que deve estar aliada a ela, isto é, determinados saberes práticos devem ser adquiridos ainda no curso de graduação, uma vez que perceberam existe uma diferença entre o que se planeja e o que se executa em sala de aula e que, por isso, são necessários alguns ajustes que só podem ser realizados quando existe experiência docente. O terceiro aprendizado está relacionado à segurança do futuro professor ao final do curso para assumir seu papel profissional: as experiências vividas no laboratório os deixaram mais seguros para agir em sala de aula de maneira autônoma, conferindo maior segurança aos futuros professores quanto à sua atuação profissional. No Brasil, a experiência do Universitas, por exemplo, já citada anteriormente, obteve resultados similares. Nessa Universidade, os futuros professores consideraram o Laboratório como uma importante ferramenta que confere segurança e autonomia profissional aos alunos que dele participam ainda no processo de formação inicial. É importante destacar que os benefícios do laboratório se constituem em contribuições acerca da atuação profissional, mas não representam uma formação terminantemente completa. O laboratório, portanto, representa um excelente suporte 74 para o aprendizado aliado à teoria e à prática docente ainda no curso de graduação, mas não exclusivamente. Desta maneira, o Laboratório de Educação Matemática possui diversos referenciais de sucesso, tanto nas diversas universidades brasileiras quanto nas experiências desenvolvidas na UEPA desde 1992, desde a fundação do LABEM, até os dias atuais. Como pôde ser percebido, o LABEM da UEPA passou por diversas transformações durante sua existência. A perspectiva de trabalho no LABEM permanece no sentido de oferecer saberes práticos aos futuros professores bem como de desenvolver alternativas metodológicas para o ensino de Matemática que visem a um aprendizado significativo e que permita com que o cenário educacional brasileiro se torne cada vez mais próximo do ideal. Nessa perspectiva, o LABEM da UEPA está se desenvolvendo de maneira a contribuir cada vez mais para a formação profissional dos alunos da UEPA e a tendência para os próximos anos é que isso se desenvolva ainda mais. Os alunos devem participar cada vez mais de atividades de ensino em disciplinas que aliem a teoria à prática docente, obtendo benefícios significativos para sua formação e atuação profissional. 75 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS E NOVAS PERSPECTIVAS O cenário educacional brasileiro, carente de diversas mudanças, motiva a maioria de meus estudos na área de Educação Matemática. Entendo que mudanças na escola brasileira não acarretarão somente benefícios limitados ao ambiente escolar, mas, sobretudo, provocará uma grande mudança social. Nesse sentido, iniciei esta pesquisa apresentando alguns problemas enfrentados pelos agentes participantes do cenário educacional brasileiro, especificamente relacionados à Matemática. A dificuldade apresentada por Perrenoud (2000) em ensinar e, sobretudo, fazer aprender, é apontada, assim como a precariedade nas estruturas físicas das escolas brasileiras e na qualidade do ensino. Daí a necessidade que senti de fazer um levantamento sobre as atuais abordagens do ensino de Matemática nas diversas Universidades brasileiras, buscando alternativas que visassem à solução de alguns desses problemas apresentados. O Laboratório de Educação Matemática, nesse sentido, tomou grande espaço em minha pesquisa uma vez que se apresentou como excelente alternativa metodológica para os cursos de Licenciatura no Brasil. O levantamento bibliográfico realizado junto às entrevistas com professores da UEPA que fizeram parte da história do Laboratório de Educação Matemática desta Universidade e as atividades acompanhadas ao final do trabalho me permitiram elencar algumas constatações que ratificam a relevância de minha pesquisa. A primeira constatação foi de que a literatura relacionada ao Laboratório de Educação Matemática o aponta, de uma forma geral, como um ambiente propício para a aprendizagem prática de futuros professores ainda na graduação. De certa maneira, existe uma tendência por parte dos autores da área em defenderem a existência do Laboratório. Na pesquisa bibliográfica realizada nesse trabalho, as críticas ao LEM são muito brandas. Não foram encontradas críticas intensas quanto à implementação e ao trabalho desenvolvido no Laboratório. Pelo contrário, os benefícios foram muitos. Dentre as contribuições do LEM registradas de uma maneira geral, enumerei quatro delas, propostas por Cabral (2010), sendo a primeira a aquisição da consciência de que para ensinar Matemática não é suficiente ter o domínio do 76 conteúdo num sentido restrito, é necessário aprender a ensinar; a segunda está relacionada ao fato de o futuro professor participar ativamente de um processo de construção de conceitos matemáticos; a terceira se refere à oportunidade que o LEM oferece ao futuro professor de vivenciar situações antecipadas de ensino, adquirindo saberes práticos sobre sua atividade profissional futura; e a última contribuição do LEM está ligada à motivação exercida pelas situações de ensino vividas com base principalmente no trabalho colaborativo entre pares. Ainda as situações antecipadas de ensino permitem com que o futuro professor enxergue a aliança existente entre a teoria aprendida em sala de aula na Universidade e a prática docente, o que pode facilmente ser verificado no breve acompanhamento realizado com alunos do segundo ano do curso de Licenciatura Plena em Matemática da UEPA em atividades de Laboratório. O resgate de alguns recortes da história do LABEM da UEPA me permitiu, assim, chegar à segunda constatação na realização desse trabalho: a história do LABEM foi marcada pela persistência de professores. As entrevistas realizadas com professores da UEPA foram importantes para reconstruir partes da história do LABEM. No início dessa história, como foi relatado na seção 2 deste trabalho, a existência do laboratório foi sustentada pela confiança dos professores no trabalho que poderia ser desenvolvido naquele ambiente. O apoio institucional era mínimo enquanto que professores e alunos custeavam e mantinham diversos materiais e atividades produzidas em um ambiente de colaboração e construção de aprendizagem. O professor Neivaldo Silva, que assumiu o Laboratório em uma época na qual o apoio da Universidade não era suficiente para desenvolver projetos de pesquisa e extensão no laboratório. A maioria do que era produzido naquele ambiente provinha da colaboração entre alunos da graduação e professores. Nesse período, a história do LABEM da UEPA foi marcada pelo envolvimento de professores que acreditavam na ideia e no potencial do Laboratório de Educação Matemática como grande ferramenta de ensino para os futuros professores de Matemática daquela universidade. A realidade da falta de apoio institucional da UEPA relacionada ao LABEM foi se modificando com o tempo e já em 2007, com a professora Acylena Costa e com o professor Natanael Cabral em 2011, a Universidade já disponibilizava recursos mais motivadores para desenvolver projetos de extensão – tendo sido, 77 inclusive, um deles, acompanhado para o desenvolvimento de minha pesquisa – e de pesquisa com alunos do curso de Licenciatura Plena em Matemática. Apesar de a Universidade já disponibilizar melhores condições de existência e manutenção do LABEM, este laboratório passou por períodos de abandono, inclusive recentemente, onde foi necessária mais uma vez uma atitude de confiança e crença na potencialidade e nos benefícios do laboratório para promover sua reabertura. Esse foi o caso dos professores Acylena Costa e Natanael Cabral. Mais uma vez a ação de professores que acreditam e gostam do trabalho desenvolvido no Laboratório foi decisiva para a continuidade da história do LABEM da UEPA, reforçando o que foi descrito anteriormente sobre um ponto que marcou sua história: a persistência dos professores que a constituíram. Atualmente, o LABEM da UEPA possui fortes perspectivas de ascensão, já que a realidade institucional proporcionada pela UEPA fornece condições para que o professor Natanael Cabral realize atividades extremamente significativas aos futuros professores. Nos próximos anos, os planos para o LABEM estão ligados ao desenvolvimento de mais atividades similares àquela desenvolvida no mês de novembro deste ano, além de outros projetos de extensão e pesquisa que permitem aos alunos da graduação a aquisição de experiências significativas no decorrer de sua formação inicial. Dentro das perspectivas abordadas onde a busca pelo oferecimento de um melhor curso de formação de professores é a questão norteadora da pesquisa, sinto-me à vontade para lançar novas perspectivas de estudo e desenvolvimento no que diz respeito ao Laboratório de Educação Matemática. Ainda incompleta, a história do LABEM da UEPA, mesmo com a pesquisa desenvolvida neste trabalho, permanece com algumas lacunas impossíveis de serem preenchidas até o presente momento, uma vez que uma significativa contribuição dessa história se constitui nas produções do professor Mario Thomaz, já falecido e que desenvolveu trabalhos frente ao LABEM, cujo acervo não se encontra até o momento disponível pelos familiares. Novos desafios passam a existir em meus estudos, uma vez que pretendo preencher grande parte dessas lacunas históricas no LABEM da UEPA em futuras pesquisas, inclusive naquela que desenvolverei no curso de Mestrado Acadêmico 78 em Educação Matemática pela Universidade Federal do Pará, que será iniciado ainda em 2012. Depois de todas as elaborações para a execução deste trabalho, reforçadas pela literatura apresentada, que defende o Laboratório como espaço de aprendizagem para a formação de professores, encontro-me extremamente envolvida com a grandiosidade desse espaço. Além das lacunas a serem preenchidas na história do LABEM da UEPA, pretendo construir um acervo de atividades mais concreto, fazendo parte de uma história marcada não mais pelo abandono, mas mais ainda pela persistência de professores e alunos que acreditam na proposta que o Laboratório oferece a alunos da graduação, bem como registrar aprendizados concretos de futuros professores que participam constantemente de atividades no Laboratório. Sem dúvidas, as contribuições da história do LABEM da UEPA me permitiram ratificar sua relevância e capacidade de servir como grande agente de mudança na realidade da formação profissional dos alunos do curso de Licenciatura em Matemática, bem como na realidade educacional brasileira como consequência deste processo. Tenho consciência de que as experiências desenvolvidas no laboratório constituem apenas o início de um processo de formação contínuo e interminável, que caracteriza a formação do profissional docente, mas que iniciam, principalmente, um processo de formação que busca desmitificar a Matemática e torna-la parte da vida de quem convive diariamente com ela e a (re)constrói a cada contato orientado pelo professor. A maior das contribuições de um LEM na formação inicial dos futuros professores talvez seja a possibilidade que ele proporciona de ressignificar a Matemática primeiramente para quem irá ensiná-la para, depois, gerar uma consequência sem limites quanto aos benefícios de quem irá aprendê-la. Entender a Matemática como um conhecimento social, em permanente processo de construção, portanto, é um desafio cada vez mais próximo de ser alcançado à medida que se estabelecem métodos ou alternativas para que o desafio seja conquistado. O Laboratório de Educação Matemática, nesse sentido, representa uma grande alternativa. 79 REFERÊNCIAS DENZIN, N.; LINCOLN, Y.S. (eds.). Handbook of Qualitative Research. California: Sage Publications, 1994. MEIHY, J. C. S. B. Manual de História Oral. 3.ed. São Paulo: Loyola, 1998 CABRAL, N. F. Contribuições do laboratório de educação Matemática para a formação inicial de professores: saberes práticos e formação profissional. Tese de doutorado; orientadora: Gilda de La Rocque Palis; co-orientador: José Moysés Alves. –Rio de Janeiro: PUC, 2010. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 40ª reimpressão. São Paulo. Paz e Terra. 2009. LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA. UNESP – São José do Rio Preto / SP. SITE: http://www.mat.ibilce.unesp.br/laboratorio/ Laboratório IME USP. Site http://www.ime.usp.br/lem/ens-mat/combinatoria1.html PASSOS, C. L. B. Materiais manipuláveis como recursos didáticos na formação de professores de matemática. . In: LORENZATO, S. 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Os alunos iam periodicamente ao LABEM? 10. No estudo de que disciplina(s) os alunos eram direcionados ao LABEM? 11. Qual a importância do LABEM para o curso de Licenciatura em Matemática da UEPA? 12. Apenas o curso de Matemática tinha acesso ao LABEM? 13. Você destaca alguma experiência vivida em torno do LABEM/UEPA? 14. Você escolheu dirigir o LABEM ou a Universidade o fez? 15. Linhas de produções foram desenvolvidas neste período? 83 ANEXO B – Transcrição Entrevista 1: Professor José Souza / UNAMA O senhor foi coordenador do laboratório da UEPA LABEM? Não, eu fui coordenador do curso de Matemática. E em que ano o senhor assumiu e saiu dessa coordenação? Olha, eu... não estou precisando assim das datas, tá?... Mas eu devo te dizer que eu passei assim...é... mais de 8 anos na coordenação, porque naquela época havia uma briga entre os governos do Jader Barbalho e o Hélio Gueiros. Então, um primava pela Fundação Educacional do Estado do Pará, que era quem mantinha de fato a hegemonia do ensino superior; e outros pela criação da Universidade do Estado do Pará que era na época na reitoria através da professora Terezinha Gueiros. Então, nesse negócio, vai, muda pra isso, muda pra isso, eu me mantive candidato e consegui permanecer lá até perto da minha aposentadoria. Então eu passei um certo tempo lá, desde noventa... noventa e dois, noventa e três, por aí... E já existia o Laboratório de Educação Matemática nessa época? Não, o curso de Matemática, ele foi quase que criado lá na nossa gestão né... Nós fizemos concurso e a Universidade nessa época só tinha os cursos de biológicas, que era o curso de Medicina, o curso de Enfermagem, o curso de Ed. Física aí depois foram criados os cursos de Pedagogia e também o curso de Matemática, então nós entramos na Fundação do curso, tá... E após uns dois anos foi que eu consegui assumir a coordenação do curso. E a partir daí a gente administrou dentro do possível... Já viu o que era um curso de Matemática dentro de uma Universidade do Estado assim recém-criada, né? A gente já é discriminado em outros setores, imagine lá, né. Tem que fazer as coisas, assim, com muito amor, porque apoio lá era coisa muito difícil. E o Laboratório de Educação Matemática foi criado depois. Você viu que o currículo, né, a grade curricular do curso de Matemática foi feita lá em Blumenau. Então eles se reuniram lá, um bando de educadores matemáticos, juntamente com o primeiro superintendente, que foi o professor Moutinho e foi feito lá, então houve uma inovação, porque era um currículo que de fato a Federal não tinha, né, apareceu ali, além das Práticas de Ensino, Instrumentação para o Ensino, então eram coisas que de fato, requisitavam a existência de um Laboratório e a gente tinha muitas pessoas ali entusiastas nisso que também me incentivaram e a gente acabou criando. Por exemplo, posso citar aqui o professor Neivaldo, que era uma pessoa que se identificava muito com essa linha e em condições não muito favoráveis, o Laboratório tinha coisas assim basicamente que a gente criava, mas que aos poucos... (não sei 84 como é que ele anda agora), acredito que agora esteja melhor do que quando a gente estava. Quando o Laboratório foi criado, ele tinha boa estrutura? Não, não tinha. É como eu estou dizendo, as coisas lá eram feitas assim, olha, pra te dizer aqui que a gente fez um encontro lá de Matemática onde a gente mandou buscar um professor e a divulgação foi uma coisa assim tão fraca, pra te falar a verdade, só pra você ter o registro dessa dificuldade. Então nós fomos criando assim e todo o material que tinha lá era oriundo do trabalho dos professores em conjunto com os alunos porque não tinha uma liberação de verba ‘ah nós vamos fazer isso aqui’, não entrava no orçamento, não entrava nada, então era uma dificuldade muito grande. E nem o senhor, enquanto coordenador do curso, conseguia recursos? É, o que a gente conseguia era através de patrocínio, através de colaboração, doação de colegas, de professores. E esses materiais que o senhor falou, que eram os próprios alunos e professores que produziam, o senhor pode citar pra mim o que vocês produziam? Olha, eu não tenho assim tanta lembrança, tá, desse tipo de material, nós tínhamos ali um..., por exemplo, não era bem uma prática de ensino, era uma coisa que foi criada ali... é microensino é, que chama? Que é você fazer a aula, eu filmo a tua aula, tu vais assistir e tu mesmo vais te avaliar. Era uma coisa assim, aconteciam umas coisas desse tipo, mas se você fosse ver, a máquina, as coisas, eram do professor, sabe, assim, era de fato um exemplo que eu to te dando de uma coisa que era feita. Quem pode te dar de fato também algum material mesmo que tenha sido dos alunos é o Neivaldo, porque ele atuou mais, ele tá muito mais lembrado do que eu, porque eu acompanhava, o que eu podia, eu dava todo o apoio, tudinho, achava que o Neivaldo era a cara daquele Laboratório e então coisas surgiram lá que eu não posso te dizer assim com certeza. E o senhor lembra se eles chegaram a trazer alunos de outras escolas, por exemplo, escola pública, pra participar de alguma atividade? Olha, nós fizemos lá uma experiência que depois não criou muita... não vingou porque nós botamos tipo uma assistência que agora até aqui a UNAMA está fazendo, aliás, já fez, não sei se já acabou esse projeto, mas pegar os alunos e trazer as escolas pra dentro pra gente então dar os reforços com os alunos da graduação. Os alunos da graduação ministrando aula pra eles, isso daí eu me lembro muito bem, os alunos é que construíam os materiais, aí levavam TANGRAM, faziam essas coisas todas. 85 E o senhor lembra se, na época, a Universidade apoiou algum projeto de extensão que apoiasse o Laboratório? É como eu to te dizendo, a gente, depois, nós passamos a ter como superintendente o professor Moutinho, que era gente da área, então evidente que ele fazia gosto pela existência do curso, independente do que foi, como eu te disse, a grade curricular foi feita lá [Blumenau], mas sob influência dele. Claro, eu participei, mas então ele que fazia tudo que era possível lá né... Eu não sei como é agora, mas a carência de recursos era o que dificultava muito, dificultava demais. Essas atividades produzidas serviam como avaliação nas disciplinas? Sim, sim. Os alunos iam sempre ao Laboratório? Olha, a disciplina, eu me lembro muito bem, a disciplina Instrumentação para o Ensino, naquela época também a Prática de Ensino, que era a professora Zelane, ela se ligava bastante nisso, inclusive nessa situação desse microensino. Isso ficou um desenvolvimento grande ali, os alunos até gostavam né, gostavam porque de repente você tinha até um tic, né, corrigir aquelas coisas, de repente até te dão um apelido por causa daquilo, então... [risos] Então o senhor acha que isso estimulava os alunos? Com certeza. Nessas microaulas [microensino], os alunos eram trazidos de outras escolas ou era só o professor e os alunos da turma [graduação]? Não, eram só os professores, só a turma e os professores que iam fazer as avaliações e também ajudar, orientar. As disciplinas ligadas a ele, que o senhor lembra, eram só Prática de Ensino e Instrumentação? É, tinham algumas coisas, por exemplo, muitas vezes, assim... Existem algumas coisas assim... Você vai introduzir um assunto, às vezes a introdução do assunto é uma coisa assim muito difícil, a gente fica assim meio... Hoje não, hoje você já tem experiência, você já trabalhou com aquilo, então a gente fazia umas simulações de uns tipos de aulas. Eu, por exemplo, chego aqui e digo: ‘Vamos ensinar fatoração! Como é o teu modelo de ensinar fatoração? Como é o do outro? Então a gente usava pra trocar ideias, fazer um consenso juntando tudo, o que é que seria?’. A gente fazia isso também. Eu me lembro, muitas vezes ali, Trigonometria. Trigonometria é uma coisa assim, muito... né? ‘Mas vamos deixar de ter medo’, tem muita fórmula, tem questão que o cara tem medo porque ela pode aparecer num momento impróprio, então a gente 86 trocava bastante essas ideias. São coisas assim... Eu me lembro a primeira vez que eu fui ensinar a parte de Álgebra, e Álgebra de primeiro grau, de ensino fundamental, então você dizer o que é uma constante, o que é uma variável, parece assim uma coisa muito difícil, não tem nada a ver, então quebrar aquele gelo, né? Porque no início de uma aula você pode permanecer bem ruim pro resto, né? Se você teve uma aceitabilidade boa, você conduz aquele assunto... né? Então são essas coisas que a gente fazia mesmo, essa prática que, o cara teria que ter na escola aí pegava umas pessoas mais experientes, ou eles mesmos porque já tinham alguns que já estavam ministrando aula e era um fruto das dificuldades enfrentadas por eles mesmos. Qual é a importância de ter um Laboratório no curso de Licenciatura em Matemática? Acho que não é uma importância, é uma necessidade, tem umas coisas que você precisa de fato de instrumentos que, na sala de aula, normalmente, você não tem. Então no Laboratório é onde você talvez até deixe um pouco aquela abstração, uma maneira de desabstrair né, alguns conceitos, algumas coisas. Eu vejo assim, tem algumas coisas que eu não sou assim muito, né... Tem as linhas, eu acho que a Educação Matemática, ela tem que ter, mas tem que ser uma Educação Matemática bem séria, eu acho que o aluno ir pra aula pra brincar, acho que não é, né, brincar ele tem lugar. Então você vê assim, ensinar o que é uma fração, eu acho que é uma coisa que eu não sei como é que se... olha você passa uma continha ali... Olha eu tava ensinando uma coisa de matriz, aí mandei somar duas matrizes, aí ‘um, com menos três’, aí uma pessoa disse ‘olha, não cai na prova’, né professor? Eu disse ‘não, cai sim’. ‘Ah, porque é muito fácil’. Quando eu passei uma outra que tinha três com menos dois quintos, pronto, acabou-se! Ou seja, fração ainda é o terror de muita coisa. Mas uma fração é algo que justifica alguma coisa, algum jogo, assim, sei lá, a pessoa ta vendo, ta dividindo em partes iguais... Então o Laboratório é essencial principalmente em alguns assuntos que são de utilização dele mesmo. Realmente, às vezes, as pessoas sabem até operacionalizar, mas não sabem o que significa, então para o senhor, o laboratório contribui nisso? Isso... isso. Por exemplo, olha, pra você estudar uma proporcionalidade é uma coisa que a vida inteira você vai trabalhar nisso. Então você vê assim o que seriam frações equivalentes, né? Como é que você acha mínimo? Pra quê? Eu acho que lá no Laboratório, isso era uma coisa mesmo característica do Laboratório, como tem outras também, mas eu acho que o Laboratório ele é, em si, necessário, em certos momentos. Só o curso de Matemática que tinha acesso ao LABEM da UEPA ou havia algum outro curso que o utilizava? 87 Só da UEPA, só o curso de Matemática, porque como eu te falei, nós não tínhamos um espaço, uma coisa que, assim, talvez chamasse atenção de outros. Ficava uma coisa muito íntima, só nossa mesmo. Nós, inclusive, precisamos uma vez de ir para a Escola Técnica Federal, para fazer um trabalho lá que era só do Laboratório, porque o nosso Laboratório não tinha condições de realizar. E justamente por ocasião da vinda de uma professora que nós tivemos que fazer algumas coisas...a professora... de Brasília, é conhecida, o pessoal sabe...Nilza Bertoni! Ela veio aqui e foi fazer a criação dos sistemas de numeração, como você escolhia as bases , como você contar nas bases diferentes, né. Ela trouxe um material rústico, mas a gente tinha que ter um negócio melhorado, foi uma dificuldade grande, assim, pra ela demostrar, como você vai fazer uma contagem na base 3, por exemplo, não tinha elementos. A gente ficava à mercê das necessidades, então ficou a restrição do laboratório só nossa. E já era a mesma sala que é atualmente no LABEM da UEPA? Ele mudou de lugar enquanto o senhor estava na gestão? Não sei [se é a mesma]. Andou mudando de lugar, bastante, porque aquilo foi se expandindo, o curso de Matemática surgiu e depois surgiu aquele que veio lá, que os professores foram até absorvidos, de um curso de foi criado lá, não sei se era ISEB, era! Então teve uma dessas greves, dessas coisas, muda pra Universidade, sai pra Fundação Educacional, aí chegou esse outro curso, não sei se era ISEB, mas que era de Educação Básica. E aí tomou o espaço, e lá muda o Laboratório. E aí ficou nesse negócio. Mas eu não me lembro quando foi e também não tô lembrado do Laboratório de Informática. Aliás, o Laboratório de Informática, ele já foi assim, bem aquinhoado, mas o Laboratório de Física era uma necessidade piorada, porque o Laboratório de Física é obrigatório, porque como é que você dá uma disciplina experimental e não tem laboratório? Então a gente algumas vezes usou aquele laboratório, porque lá, não era que a gente não tivesse espaço, mas é que a gente não tinha instrumentação para fazer os tipos de experiência. Então, em alguns momentos, vocês foram para o Laboratório de Física? Isso, aí ficou nessa dificuldade. E o senhor lembra, na inauguração dele, que espaço era, como ele era? Ah, era uma sala de aula. Olha, pra ti ver que naquela época, o Laboratório, por incrível que pareça, era um ou dois setores que tinham computador, PC 286, trabalhava só com a linguagem LOGO, então era um feito, porque não sei como nós conseguimos aquilo ali, talvez até por influência do professor Moutinho, que deixou ele lá pra gente. Nos outros locais, não tinha. Então, ele, na sua existência lá, ele teve... Só que era uma disputa muito grande porque, hoje você vê que todos os setores são informatizados, mas lá era uma 88 necessidade ainda, computador não era tão fácil ainda nessa época, então a gente tinha lá algumas coisinhas que... e a sala, que era uma dependência, e coisa nova, porque aquele prédio tinha sido recém-construído, então, só que faltava muito... Era só um computador? Um computador. Tinham as carteiras, móvel lá, tudo bem. Agora faltavam algumas coisas lá também. E o senhor lembra se os alunos chegaram a produzir, se envolver cientificamente com as atividades do Laboratório? Sim, temos registro lá de alunos que foram defender trabalhos. Nós fizemos, inclusive, eu participar de um encontro, sei lá, Encontro Baiano de Educação Matemática, e eu fui acompanhado de alunos, e eles foram apresentar coisas descobertas lá no laboratório. Outros professores do curso de Matemática utilizavam o Laboratório? Sim, depois foi criando mais corpo, mas as pessoas sempre que necessitassem, iam lá para o laboratório. É o que eu te digo, o problema ali era a carência. Por exemplo, ‘quero fazer tal coisa’, por exemplo, o computador, é uma fartura aqui hoje em dia, mas aqui é só dos professores, mas no laboratório daqui, eles dispõem de muita coisa lá que você pode usar. Nós chegamos a comprar alguns materiais naquela época de geometria, mas hoje acho que não se usa mais porque o computador tá aí pra fazer uma imagem 3D aí tranquilo, por exemplo, era uma dificuldade você pegar aquela parte de geometria, e colocar assim pro cara que um cubo tá inscrito numa esfera e como é que a diagonal do cubo é a relação com o raio da esfera, um bando de coisa... Mas a gente conseguiu adquirir algumas coisas pra lá. Acho que agora deve estar muito mais cheio de acessórios. 89 ANEXO C – Transcrição Entrevista 2: Professor Neivaldo / UEPA O senhor foi coordenador do Laboratório de Educação Matemática da UEPA? Sim. Em que ano o senhor assumiu e saiu dessa coordenação? O Laboratório foi criado acho que dois anos depois que o curso de Matemática foi criado. O curso de Matemática foi criado em 90, o Laboratório foi criado em 92 e eu devo ter ficado de 92 a 94. E quando o senhor assumiu, em que condições esse laboratório estava? Quando eu assumi, eu criei o Laboratório. Eu elaborei o projeto do Laboratório e nós implantamos o Laboratório. Nós tivemos a cessão de uma sala e aí nós começamos. Inicialmente, só existia uma sala, vazia, uns armários, nós conseguimos uns armários, e aí aos poucos nós formamos uma equipe: eu, juntamente com alunos, aí eu trouxe alguns livros que eu tinha, os alunos traziam também livros deles e a gente foi montando uma pequena biblioteca. A gente começou a usar a disciplina ‘Instrumentação para o Ensino de Matemática’ como forma, também, de viabilizar as ações do PARFOR. Então a gente trabalhava com os alunos, em sala de aula, mas já pensando na ideia do laboratório. E aí alunos do antigo curso de Formação de Professores, que não existe mais, e do curso de Pedagogia começavam a ir lá pro LABEM, pra conhecer, pra saber o que existia e aí nós desenvolvíamos algumas atividades e esses alunos também frequentavam, e o LABEM foi se construindo nesse processo. E tudo que passou a ter, foi resultante do trabalho desenvolvido por nós. E aí eu lembro que, ainda no ano de 94, eu participava de um projeto lá pela Federal... era um Laboratório, um projeto que foi feito pra financiamento pela CAPES e eu consegui dez bolsistas. Os nossos, os meus alunos daqui da UEPA, passaram a ser bolsistas. Como eu trabalhava lá, eu consegui envolver os alunos aqui da UEPA. E aí a gente fez um processo seletivo e ficaram dez bolsistas por um determinado período. Depois, quem assumiu o Laboratório foi a Magali e a Isabel. A Isabel foi nossa aluna, e ela participou do Laboratório como aluna, e aí ela fez seleção logo que ela terminou o curso, ela fez seleção e entrou para ser professora substituta. E atuou aqui acho que uns dois anos, e aí decidiu fazer o Mestrado e o Doutorado em Natal e quando retornou, não vaio mais para cá, foi pra Federal. 90 Era só em Instrumentação ou havia outras disciplinas que eram trabalhadas no Laboratório? Eram, basicamente, a Instrumentação, mas nós discutíamos com alunos de várias disciplinas. Então, por exemplo, uma disciplina que eu lembro de coisas que foram feitas por alunos foi Fundamentos de Matemática e Geometria Euclidiana também. Então tinha aluno que ia, participava, porque a partir do momento que nós passamos a ter o Laboratório e um grupo de alunos, muitos outros alunos também frequentavam. Mesmo não sendo bolsistas, iam, e aí pediam orientação pra desenvolver qualquer tipo de trabalho. Não ficou limitado. E a própria Prática de Ensino? Também. Depois eu assumi a Prática de Ensino. O Professor Souza me relatou que as micro-aulas dessa disciplina eram realizadas no laboratório. É, depois do que eu te contei, do início da história, uma pessoa que ficou muito ligada ao Laboratório foi a professora Acylena. Depois que saiu a Magali e a Isabel, o Laboratório ficou fechado um tempo e aí, depois, a Acylena tomou a iniciativa de ‘ah, poxa, tem o laboratório aí, vamos retomar’ e aí ela foi, ficou um tempo, trabalhou, desenvolveu algumas atividades. No seu período, produziam materiais didáticos também? Produzíamos. Atividades que atendessem às linhas de tendência em Educação Matemática, por exemplo, vocês trabalhavam tais linhas com os alunos? Sim, sim. A gente tem que entender que pra entender o processo do Laboratório e como eram desenvolvidas as atividades, quais os tipos de atividades, a gente tem que pensar na Educação Matemática e em como ela foi evoluindo. Uma característica muito forte da Educação Matemática ali pelos anos 70, isso ficou durante muito tempo, era o trabalho com materiais concretos. Então o início do Laboratório aconteceu quando essa ideia do material concreto era o mais forte, digamos assim. Então uma das maiores ênfases era essa: a produção de materiais, de jogos... Eu diria que essa era a principal linha. Eu posso te dizer também que o Pedro Sá também era uma referência em termo de Educação Matemática e o Iran, e aí o direcionamento do Iran sempre foi História da Matemática. Então discutia-se coisas relacionadas à História da Matemática, discutia-se coisas relacionadas a atividade de Redescoberta, que era uma vertente que o professor Pedro Sá gostava muito de trabalhar. Então o laboratório foi assumindo facetas em função do tipo de trabalho dos professores, em função da característica dos 91 professores, e em função também desse movimento de Educação Matemática que aconteceu no Brasil e aqui no Pará. Então, embora o senhor fosse o coordenador, não era só o senhor que trabalhava com os alunos. Vários professores também trabalhavam? Sim. E um detalhe importante: o fato de não ter o envolvimento com o laboratório não significa que as ideias não eram desenvolvidas no laboratório, porque na medida em que alguém se envolvia com a Educação Matemática, as discussões também passavam pelo laboratório. Então esses trabalhos todos seguiam nas várias linhas. Foi desenvolvido algum trabalho de aplicação de alguma escola vinculada, por exemplo, a escola Vera Simplício, como é hoje vinculada à UEPA, vocês traziam alunos dessas escolas para o Laboratório? É assim: a nossa intenção sempre foi chegar às escolas. Esse era nosso objetivo básico. E nós sempre convidávamos alunos pra virem. Nós tínhamos um informativo do LABEM. Nesse informativo, nós colocávamos a programação. Às vezes vinham filhos de funcionários, filhos de professores, na medida em que eles se interessavam pelas atividades desenvolvidas. E a Magali e a Isabel tiveram projetos, elas é que poderiam falar mais sobre isso, mas acho que teve um projeto que foi aprovado na CAPES e que envolvia uma escola, para ser trabalhado dentro do Laboratório. Mas aí quem estava à frente eram a Maria Isabel e a Magali. Então eu não tenho muita informação de como o trabalho se deu. E quando esses alunos vinham das escolas, que vocês informavam a programação, a programação continha o quê? O que vocês ofereciam? E aí eu, falando, também estou lembrando que, uma das coisas que passaram a ser canalizadas pelo Laboratório e, mesmo que o Laboratório continuou fazendo isso aqui na UEPA, é aquela feira do vestibular que acontece. Então sempre eram convidados alunos para apresentarem algumas atividades na área de Matemática, e na maioria das vezes eram pegadas coisas do Laboratório e atividades que lá tinham pra levar pra feira do vestibular. Sempre era um espaço muito visitado pela criançada, que era um momento, também, de divulgar o laboratório. E a Universidade do Estado do Pará apoiava projetos de extensão vindos do LABEM? A UEPA? Nunca. Nunca. O LABEM nunca teve – e isso eu digo, assim, com todas as letras – o LABEM nunca teve apoio institucional. A única coisa que pode se dizer de apoio da instituição era o espaço físico. Mas só. 92 Até em termos de carga horária, eu deixei o LABEM porque não tinha carga horária para trabalhar no LABEM. Eu fui coordenador do curso de Matemática e, enquanto eu era coordenador do curso de Matemática, eu próprio, utilizava o meu tempo para ficar no laboratório. Quando eu deixei a coordenação, eu ainda fiquei com um tempinho no laboratório, mas isso foi por pouco tempo e aí eu não tinha apoio nem em termo de carga horária. Isabel e Magali era por conta própria também, até porque elas eram professoras substitutas, mas elas tinham interesse em estar no Laboratório e eu não sei te dizer se a Acylena teve carga horária no Laboratório. O senhor destaca alguma experiência vivida, algo que o senhor considere importante pra falar, ou qualquer experiência que seja relacionada ao laboratório? Eu acho que a grande experiência, não experiência específica em termos de ensino, mas a grande experiência do laboratório foi permitir a socialização entre os alunos das diversas licenciaturas. Então os alunos de Licenciatura em Matemática, desenvolvendo atividades juntamente com alunos do curso de Pedagogia, alunos do curso de Formação de Professores. Então essa, pra mim, foi a experiência mais importante, foi a coisa mais legal da criação do Laboratório. E também o envolvimento de alunos das escolas públicas, foram os aspectos mais positivos e mais interessantes. Na verdade, não dá nem pra dizer qual que é mais importante, porque o fato de os nossos alunos de Licenciatura terem um Laboratório pra discutir o ensino também é uma coisa muito interessante. Qual é a importância de ter um Laboratório de Educação Matemática no curso de Licenciatura? Pra mim seria fundamental. Eu continuo defendendo a existência do Laboratório, mas precisaria de o Laboratório estar em outra dimensão de importância institucional, não mais como um interesse específico de um professor. Não pode ser assim, tem que ser uma coisa institucionalizada. Então, para o senhor, poderia entrar na grade curricular do curso sem problema nenhum? Eu diria o seguinte: eu não penso em atividades do Laboratório como coisa à parte. Eu penso o Laboratório fazendo parte das atividades das várias disciplinas. Um espaço de integração, um espaço que todos os professores poderiam lançar mão para desenvolver as suas disciplinas, não como carga horária específica só para laboratório. Não é isso, não é como a gente pensa em informática: aulas teóricas e aulas práticas. Não, eu não vejo o laboratório nessa divisão entre teórico e prático. Eu vejo o Laboratório fazendo parte do 93 teórico e do prático. Teórico e prático em sala de aula e o laboratório fazendo parte disso. Então, para o senhor, é importante porque ele alia teoria e prática em um ambiente que vai ser trabalhado em todas as disciplinas que forem possíveis? Exatamente, é isso. Você conseguiu sintetizar. O senhor que escolheu dirigir o Laboratório ou alguém que lhe entregou tal coordenação? Não, fui eu que lancei a ideia, porque eu, antes de trabalhar na UEPA, eu trabalhei, e continuo trabalhando há 30 anos, na Federal no que hoje é o IEMCI. Antes era chamado de NPADC ( Núcleo Pedagógico de Apoio à Iniciação Científica), mas antes era chamado simplesmente de Clube de Ciências. E foi criado há 30 anos, eu também ajudei a criar, só que lá eu era aluno. Quem estava à frente era a professora Therezinha. Então eu ajudei na criação como aluno. Quando eu entrei na UEPA, eu resolvi construir a história, só que eu como professor. Mas a ideia foi minha, junto com outros alunos. Eu não fui chamado pra fazer o Laboratório. Eu idealizei, chamei alguns alunos, que compraram essa ideia e, junto comigo, construímos o laboratório. E vocês se envolveram cientificamente com isso naquela época na UEPA, por exemplo, haviam produções relacionadas ao laboratório? Quando a gente fala em científico, isso pressupõe uma orientação. E quando a gente pensa na orientação, a gente pensa muito na formação. Quem faz pesquisa nos dias de hoje são os doutores, e os mestres como uma forma de iniciação, digamos assim, à pesquisa. Quando eu criei o laboratório, eu era especialista, não tinha mestrado, não tinha doutorado, então pensar na pesquisa nessa perspectiva, uma pesquisa científica, criteriosa, nesse sentido, nós não tínhamos. Mas nós tínhamos, sim, a ideia da pesquisa na prática. Então nós fazíamos um tipo de pesquisa que é resultante da prática. Uma pesquisa com embasamento teórico, mas não credenciada ou reconhecida como tal. Então nós fazíamos sim pesquisa, mas isso não se traduzia em publicações. Você tem algum arquivo, foto, produção, material, que possa me passar, qualquer tipo de registro dessa época do laboratório? Não tenho. Infelizmente, e aí essa resposta condiz com respostas anteriores. Como eu era sozinho enquanto professor, como eu não tinha carga horária, na verdade eu tinha muito pouco tempo pra registrar as coisas sobre a forma de fotografias, ou registros escritos. Então, pouquíssima coisa foi escrita. A única coisa que eu lembro é de ter escrito um artigo, que foi publicado em um jornal da UNAMA, mas eu também não guardei esse registro histórico do LABEM. 94 Fora isso, o que eu tenho são os projetos de Laboratório que foram elaborados. Eu tenho nesse computador aqui, o projeto do LABEM, o projeto original. E depois a gente tentou reestruturá-lo e eu até fiz algumas modificações, que eu lembro que o Osvando é que incentivou a Acylena a retomar o LABEM. E aí ele me solicitou que refizesse o projeto para novamente reviver o LABEM. E aí eu refiz os projetos e eu os tenho aqui. É só você me mandar um e-mail e eu mando. 95 ANEXO D – Transcrição Entrevista 3: Professora Acylena / UEPA 1. Em que ano a senhora assumiu/saiu da coordenação do LABEM? 2007 2. Descreva o laboratório quando o assumiu. Haviam poucos matérias concretos no laboratório (muitos deles incompletos, como por exemplo o material dourado). Também encontrei alguns livros didáticos de ensino fundamental muito antigos, junto com apostilas (biografias de matemáticos, história dos conteúdos matemáticos e história das civilizações) produzidas por alunos em anos anteriores, bem como verifiquei a existência de muitos quadros referentes a biografia de matemáticos. Dentre os matérias concretos encontrei o material dourado, a régua das frações, o tangran, o ábaco, todos mal conservados. 3. O LABEM possuía estrutura para atender às diversas tendências em Educação Matemática, tais como informática, jogos e materiais concretos? Não, só existiam alguns jogos e materiais construídos “aparentemente” por alunos. 4. O que foi desenvolvido no que diz respeito a atividades com os discentes do curso de Matemática? A senhora tem algum registro deles? Nesse ano de 2007 desenvolvi 3 oficinas (1 de geometria, 1 de álgebra e 1 de geoplano – ver arquivos em anexo no e-mail). Tais oficinas foram preparadas pelos bolsistas voluntários do LABEM e sob a minha orientação. Também fizemos um ciclo de palestras em parceria com a profa. Marcia Santos que ministrava a disciplina de Informática para os alunos que estavam cursando o 2º ano da licenciatura em matemática, bem como oferecemos para os alunos do centro (CCSE) oficinas de matemática com a utilização de softwares. A idéia de oferecer essas oficinas surgiu de uma conversa informal entre nós acerca da formação dos licenciandos e então decidimos que a última avaliação da disciplina de informática seria a elaboração de atividades para o ensino da matemática utilizando softwares livres, após a elaboração das atividades as equipes submetiam suas propostas para o LABEM e então ofertávamos as oficinas. Nessas oficinas tivemos a participação de alunos tanto da licenciatura em matemática, quanto da pedagogia e do curso de ciências. Segue abaixo a lista das oficinas que ofertamos em parceria com a profª. Marcia Santos: 1. O USO DO SOFTWARE APLUSIX PARA O ENSINO DA ÁLGEBRA. 2. INTRODUÇÃO À SINTAXE DO WINPLOT. 3. USO DO SOFTWARE MICROMUNDOS NA CONSTRUÇAO DE FIGURAS GEOMÉTRICAS. 4. O SOFTWARE LIVRE GEOGEBRA 3.0: UMA FERRAMENTA PARA O ENSINO-APRENDIZAGEM DA MATEMÁTICA. 96 FOTO: Minicurso O USO DO SOFTWARE APLUSIX PARA O ENSINO DA ÁLGEBRA FOTO: Minicurso O USO DO SOFTWARE APLUSIX PARA O ENSINO DA ÁLGEBRA 97 FOTO: Minicurso O USO DO SOFTWARE APLUSIX PARA O ENSINO DA ÁLGEBRA 5. Foram produzidos materiais didáticos? Não, pois não havia recursos de projetos naquele período. 6. Foi desenvolvido algum trabalho de aplicação com alunos de alguma escola vinculada (ou não) à UEPA? Não. 7. A Universidade apoiou projetos de extensão vindos do LABEM/UEPA (se houve)? Não houve naquele período. 8. Foi desenvolvida alguma atividade de avaliação com os discentes da UEPA por meio de atividades no LABEM? NÃO ENTENDI A PERGUNTA, QUE TIPO DE AVALIAÇÃO VOCÊ SE REFERE? 9. Os alunos iam periodicamente ao LABEM? Sim, haviam 3 turnos (manhã, tarde e noite) em que o LABEM ficava aberto e os bolsistas voluntários ficavam escalados nesses turnos mantendo o LABEM aberto para a comunidade (alunos de qualquer curso). 10. No estudo de que disciplina(s) os alunos eram direcionados ao LABEM? Como eu ministrava as disciplinas de Instrumentação e Prática de Ensino, direcionava as atividades dessas disciplinas para o laboratório. Mas minha 98 proposta era que todas as disciplinas do curso tivessem a oportunidade de desenvolver atividades no LABEM, porém para que tal situação ocorresse seria necessário ocorrer uma integração entre as disciplinas, o que não se constitui em uma tarefa fácil. 11. Qual a importância do LABEM para o curso de Licenciatura em Matemática da UEPA? Na minha visão, o laboratório se constitui em um ambiente no qual se tem disponível recursos pedagógicos que podem auxiliar os professores na estruturação de suas aulas, principalmente no que se refere aos aspectos metodológicos possibilitando que a atuação docente se torne de fato eficaz. Além disso, o LABEM pode se caracterizar como um fator de estímulo para os alunos que cursam a licenciatura em matemática, uma vez que pode-se criar nesse ambiente um espaço para reflexão sobre o papel do professor, bem como o processo de ensino e aprendizagem da matemática, instigando no licenciando o espírito investigativo. 12. Apenas o curso de Matemática tinha acesso ao LABEM? Durante o período que assumi o LABEM ficava aberto a todos (alunos de outros cursos superiores e de escolas secundárias). 13. Você destaca alguma experiência vivida em torno do LABEM/UEPA? A QUE TIPO DE EXPERIÊNCIA VOCÊ SE REFERE, ACADÊMICA OU DE OUTRO TIPO? 14. Você escolheu dirigir o LABEM ou a Universidade o fez? O chefe de departamento fez a indicação. 15. Você tem algum trabalho, publicação, relacionado ao LABEM da UEPA ou qualquer outra Laboratório de Educação Matemática? Não. 99 ANEXO E – Transcrição Entrevista 4: Professor Pedro Sá / UEPA 1. Em que ano você assumiu/saiu da coordenação do LABEM? (Se tiver sido coordenador do curso, especifique o período também) Estive a frente da coordenação do curso licenciatura em matemática por três vezes: no período de 1998 a fevereiro de 2000, de maio de 2004 a abril 2006 e de maio de 2006 a abril de 2008. 2. Descreva o laboratório quando o assumiu. Era uma espaço composto por materiais produzidos pelos alunos nos anos anteriores e mesas e cadeiras. Em 2004 o coordenador do Labem era o professor Mario Thomaz naquele ano conseguimos instalar um computador que infelizmente foi misteriosamente roubado. 3. O LABEM possuía estrutura para atender às diversas tendências em Educação Matemática, tais como informática, jogos e materiais concretos? É difícil responder a essa perguntar devido estar vinculada a criatividade das pessoas. Sei que para a tendencia de informática não, em virtude do Labinf ser bem ao lado do Labem. Para as tendências de jogos e ensino por atividades certamente sim, devido o Labem ter sido sempre voltado para essas tendências. 4. O que foi desenvolvido no que diz respeito a atividades com os discentes do curso de Matemática? A senhor tem algum registro deles? No período de 2004 a 2008,foram desenvolvidas varias atividades! O professor Maio com a Professora Acylena produziam atividades que depois eram socializadas por meio de minicursos para comunidade. Talvez ela ainda tenha algum registro dessas atividades que eram apoiadas, incentivadas e certificadas. 5. Foram produzidos materiais didáticos? Não sei informar! 6. Foi desenvolvido algum trabalho de aplicação com alunos de alguma escola vinculada (ou não) à UEPA? Sim, o professor Mario Thomaz chegou a desenvolver um projeto denominado de sala de passagem. Nossos alunos ficavam numa sala que foi cedida pela direção da escola Magalhães Barata e os alunos da escola iam 100 espontaneamente tirar suas duvidas com nossos alunos. Parece que o professor Mario publicou um artigo em um evento relatando a experiência. Não tenho certeza se algo semelhante foi realizado na escolaVera Simplício. Nesta época havia monitores para o Labem. 7. A Universidade apoiou LABEM/UEPA (se houve)? projetos Sim,por meio da coordenação do curso dadireçaõ do CCSE. de extensão vindos do de licenciatura em matemática e 8. Foi desenvolvida alguma atividade de avaliação com os discentes da UEPA por meio de atividades no LABEM? Creio que sim por meio das disciplinas que utilizavam o Labem. 9. Os alunos iam periodicamente ao LABEM? Sim! 10. No estudo de que disciplina(s) os alunos eram direcionados ao LABEM? Instrumentação para o ensino da matemática! Prática de ensino! 11. Qual a importância do LABEM para o curso de Licenciatura em Matemática da UEPA? Em minha opinião a importância do LABEM para o curso de Licenciatura em Matemática da UEPA se dar em virtude de ser um espaço privilegiado para formação de professores de matemática por permitir o planejamento, organização, execução de alternativas metodológicas para o ensino de matemática durante toda a licenciatura o que terá implicações positivas no desenvolvimento das atividades docentes do licenciando. Além, disso as atividades do Labem permitem também a o desenvolvimento de pesquisas que viabilizam a produção de publicação em anais de congressos e periódicos, completando dessa forma o tripé ensino, pesquisa e extensão que é uma exigência para uma Universidade. 12. Apenas o curso de Matemática tinha acesso ao LABEM? Sim! Alem dos participantes dos minicursos que eram oferecidos pelo laboratório. 13. Você destaca alguma experiência vivida em torno do LABEM/UEPA? 101 As experiências vividas foram muitas entre eles podemos destacar o sucesso que todo ano a participação, dos estudantes por meio do Labem, tinha na feira do vestibular onde o espaço do Labem estava sempre entre um dos mais procurados. 14. Você escolheu dirigir o LABEM ou a Universidade o fez? Eu era responsável pelo LABEM coordenador do curso. como conseqüência da função de 15. Você tem algum trabalho, publicação, relacionado ao LABEM da UEPA ou qualquer outra Laboratório de Educação Matemática? Infelizmente não! 16. Você tem algum material que tenha sido produzido lá (fotos, vídeos, atividades, qualquer tipo de registro)? Não! 102 ANEXO F – Transcrição Entrevista 5: Alunos do 2º do curso de Matemática da UEPA 1 – De que forma esse contato profissional antecipado que vocês tiveram sob a orientação de um professor mais experiente pode influenciar na formação de vocês? Aluno 1 – eu acho que esse contato é muito importante porque primeiramente a gente tem esse contato com o aluno e depois, com o professor, ele fica orientando a gente de maneira que a gente não erre, como o que aconteceu agora, a gente pegar nossos pontos que a gente está errando e corrigir, pra futuramente, quando a gente for fazer de verdade, valendo, a gente não ter esses mesmos erros. Então evitar que esse erro ocorra já no exercício da profissão? Aluno 1 – isso, isso. Aluno 2 – mais ou menos assim, aqui na academia, a gente fica vendo teorias, vê métodos, só que a gente fica só na teoria, na teoria, e quando a gente sair daqui é um universo diferente. Então é interessante pra gente, ainda aqui na academia, ir pra prática, interagir com os alunos, ver como é que é, pegar uma turma, ensinar as operações, foi o exemplo, já interage antes, já pega um pouco da prática, alia à teoria pra chegar lá fora mais preparado. Aluno 4 – assim, eu acho muito importante, porque, como ele falou, a gente vive aqui na academia, muita teoria e ano passado eu tive uma experiência dessas, eu vi jogos, resolução de problemas e tudo mais, eu fui aplicar no MAIS EDUCAÇÃO e vi que tudo aquilo que eu aprendi, metade era verdade, metade não. Não consegui aplicar assim... 100%, tinha que fazer alguns ajustes, dependendo da turma e dos alunos. Então tu aprendeste que a teoria não é uma fórmula para ser colocada... Aluno 4 – Isso, isso... tem que adaptar, de acordo com o aluno, de acordo com a turma, e é muito bom aprender isso antes de chegar lá, do que chegar lá e quebrar a cara. 2 – O que você acha desse casamento entre as disciplinas pedagógicas, nesse caso, a Instrumentação, e o Laboratório de Educação Matemática? Aluno 1 – Eu não sou muito fã disso, desse casamento, dessa aliança, só que eu acho que é importante pra ajudar a gente até mesmo na sala de aula, que é o que aconteceu agora, se a gente não tivesse essa disciplina, acho que ia ser um desastre, o aluno correndo, pulando e brincando e nem prestando atenção na gente e a gente desesperado: “Socorro! Como é que vocês aguentam isso?” 103 Mas tu não és fã porque te coloca em situação de apuros, é isso? Aluno 1 – é isso, porque essas coisas de muita teoria não é muito minha praia. 3 – Como é que você avalia o curso da disciplina Instrumentação, o que vocês acharam da forma como Instrumentação foi trabalhada durante o ano? Aluno 1 – Achei muito diferente, porque o professor, ele colocou a gente pra trabalhar e nós mesmos criarmos nossa maneira pra trabalhar algo, no caso, passava tarefas pra gente e a gente mesmo trabalhava com as orientações dele, é claro, e isso estimulou a gente a desenvolver aquele professor dentro da gente, criar novas maneiras pra ensinar alguma coisa, táticas, técnicas, e isso facilitando, com certeza, a nossa vida futuramente. Aluno 4 – eu acho bem mais produtivo do que só ler livro, assistir a aula do professor, porque ele já passa: “olha, esse ponto aqui é um nó, os alunos sempre tem essa dúvida nesse tipo de questão” e quando a gente for a gente já vai tentar consertar aquilo, desenvolver aquilo, e não cair no mesmo erro, como se não soubesse, chegasse lá e se deparasse com aquela situação. Então vocês consideram que tiveram oportunidade de criar? Aluno 3 – É porque o professor Natanael, na primeira sexta-feira, ele disse que já tava tudo combinado, já tava tudo planejado, e aí a gente chegou aqui e foi uma realidade totalmente diferente. Aí ele falou assim: “olha gente, é desse jeito. Vocês vão encontrar esses obstáculos, mas vocês tem que saber contornar essa situação”. Então são importantes essas experiências. Aí a gente ficou assim: “e agora o que é que a gente faz?” Aí ajeitou daqui, dali, e deu tudo certo no final. Pra isso que serve. 105 ANEXO G – Projeto de Reabertura do LABEM – Professor Neivaldo Silva PROJETO LABORATÓRIO DE ENSINO DE MATEMÁTICA - LABEM Belém/Pa 2002 106 LABORATÓRIO DE ENSINO DE MATEMÁTICA Elaboração: Neivaldo Oliveira Silva 1. TÍTULO: Laboratório de Ensino de Matemática 2. UNIDADE: Curso de Licenciatura em Matemática EQUIPE DE TRABALHO: - Coordenador: Prof. Ms. Neivaldo Oliveira Silva - Executores: Prof. Esp. Osvando dos Santos Alves Prof. Esp. Paulo Roberto Souza David Prof. Esp. Francisco de Assis Ferreira de Aquino Júnior - Bolsistas: 01 aluno do Curso de Licenciatura em Matemática. - Auxiliar: 01 3. JUSTIFICATIVA Não é possível, nesse mundo que continuamente se renova, nos prendermos a referenciais fixos e imutáveis e, como esses referenciais necessitam de fortes vínculos com os sujeitos da ação, a busca contínua do novo passa a ser nossa principal referência. O trabalho pedagógico gira em torno de múltiplas questões e dependendo das concepções que se tem sobre ensino e sobre essas múltiplas questões essa prática assume características específicas. É necessário, então, na formação do futuro educador construir e fortalecer concepções firmes sobre aspectos sociais, culturais, políticos, históricos, para que a ação pedagógica seja uma ação fruto de uma postura de reflexão. Falta ou é insuficiente: a existência de uma teoria que articule o específico-pedagógico; a iniciação à pesquisa no ensino; o conhecimento da realidade real; a oportunidade sistemática de discussão e de trabalhos em grupos com colegas do próprio curso ou de outros grupos que trabalham na formação do profissional do ensino onde o educador matemático irá exercer o seu fazer pedagógico.... Estas questões, dentre outras, dificultam ao futuro educador tomar uma posição mais critica frente aos problemas de ensino e aprendizagem e ter noção das 107 dificuldades que encontrará quando estiver exercendo a docência. A busca desse novo que se renova acaba por se tornar uma barreira quase intransponível para o futuro educador. A matemática é e deve ser entendida como uma prática humana e, como tal, resultante de construção histórica. As mudanças são próprias do movimento humano e das direções apontadas para as orientações de mundo. A compreensão da matemática e de seu ensino está fortemente ligada a compreensão do próprio homem e, assim sendo essa compreensão deve estar ligada sempre a um contexto particular. Porém, parece que essa compreensão não tem acontecido, pois a realidade tem nos apresentado altos índices de repetência, reprovação e até mesmo de evasão da rede escolar. São questões que vem sendo, há algumas décadas, motivo de inúmeros debates e de reflexões por educadores matemáticos e outros profissionais envolvidos e sensibilizados com a questão do ensino da matemática. Essa aversão e dificuldade em relação à Matemática tem, no nosso ponto de vista, um agravante seríssimo ao atingir de modo especial os alunos da rede pública de ensino, bem como os alunos universitários, independentemente da natureza do curso, que encontram sérias dificuldades em acompanhar disciplinas de conteúdos matemáticos oferecidas em seus respectivos cursos. A Matemática é realmente difícil de ser aprendida ou apenas uma pequena parcela da população tem o privilégio de aprendê-la? Será que está aversão e dificuldade de aprendizado em Matemática pela maioria dos jovens e adolescentes não é devida à maneira como os professores de Matemática do Ensino Fundamental e Médio - por nós formados desenvolvem o ensino da Matemática? Este último questionamento, nos leva, como Formadores de Professores, a fazermos a seguinte reflexão. Será que, a formação proporcionada por nós, Formadores de Professores de Matemática, propiciou condições aos docentes do Ensino de Matemática darem conta do seu fazer pedagógico como Educadores Matemáticos? Durante a formação inicial do curso de Licenciatura em Matemática, os alunos não tem a oportunidade de serem preparados para de fato serem educadores matemáticos. O conteúdo matemático é trabalhado de forma dissociada do conteúdo pedagógico, cabendo ao futuro educador matemático 'criar formas' que lhe possibilite trabalhar de forma associada os conteúdos específicos e pedagógicos. 108 A matemática foi e é considerada, por parcela significativa dos alunos, como sendo uma das disciplinas mais difíceis, possível de ser compreendida e apreendida apenas por poucos. A respeito disso, Ponte(1993: 206-207) afirma: “(...) têm certamente a sua explicação histórica. Formaramse no período em que predominava o ensino fortemente elitista. O domínio da matemática importava apenas a um número reduzido de pessoas e esta ciência podia funcionar como um filtro seletivo(...)a noção de que a matemática é só para gênios está também ligada a uma concepção pedagógica sobre o papel do aluno na aprendizagem.(...) difundida muitas vezes pelos próprios matemáticos, e nós complementaríamos dizendo algumas vezes por professores de matemática.” É importante que o educador matemático ofereça ao aluno um ambiente, no qual sua interação com a matemática não seja traumática, mas estimulante, e o ajude no seu desenvolvimento tanto intelectual quanto pessoal e profissional, qualificando-o para o exercício da cidadania .(GONÇALVES, 1981). Acreditamos, no entanto, que cabe aos cursos de Licenciatura, através de nós Formadores de Professores, irmos em busca de alternativas outras procurando proporcionar uma melhor formação ao educador. MORAES (1992) conclui em sua pesquisa sobre professores bem sucedidos que é importante a participação do sujeito em projetos diferenciados de ensino para que se forme um "impulso para a frente" de busca de aperfeiçoamento e de desenvolvimento profissional também diferenciado. A respeito de uma formação adequada dos professores, NÓVOA (1995) diz que não há ensino de qualidade, nem reforma educativa, nem inovação pedagógica, sem uma adequada Formação de Professores. Em relação à formação do educador matemático, este problema se sobressai frente aos demais profissionais da educação, no ensino do nível fundamental e médio, devido à importância da matemática, não só para quem pretende seguir uma carreira universitária mas, principalmente, para o cidadão que vive numa sociedade onde a matemática está fortemente presente. Acreditamos que, por meio de uma educação adequada - e nesse aspecto a educação matemática tem um papel destacado - poderão ser formados cidadãos críticos e conscientes, almejando uma sociedade com mais justiça social. No entanto, para 109 que isso ocorra torna-se necessário repensarmos em alguns aspectos o tipo de formação de educador matemático que estamos proporcionando na formação inicial. Para que o educador matemático ofereça o que acima defendemos devemos proporcionar-lhes uma prática de docência real a partir do momento em que este aluno ingresse no curso de licenciatura. A prática antecipada que defendemos é, no entanto, uma prática assistida (GONÇALVES, 2000), significando que o professor universitário precisa estar acompanhando e orientando essa prática. Fica claro na nossa avaliação, que as Universidades precisam ampliar seu trabalho de formação do educador matemático. É necessário proporcionar ao futuro educador matemático uma formação inicial que lhe possibilite condições de prosseguir em busca de uma formação continuada, enquanto profissional atuando e se desenvolvendo na educação matemática; que seja um profissional sempre em busca de meios para proporcionar aos seus alunos (estes que são, na verdade a razão da existência de qualquer profissional da educação) um ensino de matemática agradável, interessante e significativo. O modelo empregado no Curso de Licenciatura em Matemática segue o seguinte princípio: primeiramente, „ensinam-se‟ os fundamentos da matemática, as geometrias, os cálculos, as álgebras, entre outras; posteriormente, „ensinam-se‟ as disciplinas pedagógicas, das quais derivam os procedimentos a serem empregados, para „aplicar‟ os conhecimentos específicos adquiridos na primeira fase do curso, quando no exercício da profissão; por último, o Estágio Supervisionado, em forma de Prática de Ensino, onde o discente vai ver como se aplicam na prática, os conhecimentos das disciplinas específicas e pedagógicas que lhes foram „ensinadas‟ nos cursos de graduação. É necessário, no entanto, buscar novas relações entre: teoria /prática; pesquisa e ensino; conteúdos pedagógicos e conteúdos matemáticos, o que requer ir além do conhecimento dos fatos ou conceitos, de modo a ampliar esse conhecimento. Esse conhecimento deve capacitar o futuro professor a refletir sobre as possibilidades que os princípios teóricos e práticos possuem e sobre as alternativas que possui para resolver um problema real. Gonçalves (1981) acredita que o futuro educador matemático deva ser preparado para que tenha a capacidade de vir a proporcionar aos seus alunos várias experiências significativas em relação à disciplina matemática e ao seu aprendizado, relacionando, 110 quando possível, com o meio ambiente no qual estão inseridos, para que haja por parte dos alunos o desenvolvimento de habilidades e atitudes, proporcionando-lhes, segurança diante dos desafios em situações novas, principalmente com a globalização aí presente, cujo contexto e implicações não podem ser ignorados. O importante é que o Curso de Formação possibilite aos alunos oportunidades de aprender e de pensar criativamente, posicionar-se criticamente frente a problemas do dia-adia, discutindo soluções e construindo a sua cidadania. Isso só poderá ocorrer a partir do momento em que seja dada aos alunos a oportunidade de serem agentes ativos no seu processo de ensino aprendizagem, quando tiverem o direito de acertar e de errar, mas que o erro seja um momento rico do processo educativo, possibilitando a ocorrência de uma aprendizagem significativa. É evidente a necessidade de se formar, adequadamente, o educador matemático para o Ensino de Matemática, e para que isso possa vir a ocorrer, o curso de Licenciatura em Matemática precisa mudar pedagógica, epistemológica e curricularmente. Há necessidade de uma Licenciatura em Matemática que supere as tradicionais dicotomias entre conteúdos específicos e pedagógicos, entre teoria e prática e entre pesquisa e ensino. Segundo Fiorentini, Souza Jr. e Melo (1998:332) “ Aquilo que outrora era considerado apenas como ponte entre a formação especifica e pedagógica deve ser, na verdade, considerado como eixo principal da formação profissional do professor. Este eixo, portanto, é aquele que articula a teoria e a prática do ensino e promove atividades que contribuem para a formação do professor pesquisador numa perspectiva de formação contínua. A pesquisa ou a reflexão sistemática sobre práticas pedagógicas podem contribuir(...) ao longo de sua formação” Uma outra questão de fundamental importância na formação inicial do professor de matemática, diz respeito a que conteúdos (saberes) profissionais são fundamentais ao professor de matemática? Sabe-se que o conteúdo matemático, sozinho, não basta e que os conhecimentos pedagógicos „neutros‟ de nada ou muito pouco ajudam na tarefa docente. Como desenvolver conhecimentos profissionais, durante o curso de formação inicial? Que estratégias/atitudes de formação seriam necessárias, tanto por parte do formador, quanto do estudante universitário? Acreditamos que a vivência, na prática, de práticas alternativas, o envolvimento com questões relativas ao ensino, originário de discussões sobre o tema e a reconstrução do 111 conhecimento que advém do ato de pensar, produzir idéias, instrumentos e recursos para o ensino de matemática, seja uma das formas de se oportunizar a formação plena do professor de matemática. Há necessidade, portanto, da existência de organismos que fomentem essa prática no interior das Instituições formadoras de profissionais ligados ao ensino. Dentre as propostas que visam assegurar a qualidade do professor de Matemática considerando os princípios que hoje são fundamentais nessa formação, está a implantação de Laboratórios de Ensino, o que tem sido levado a efeito em várias universidades brasileiras. O Laboratório é, por excelência esse espaço, tendo em vista a visão dinâmica que norteia a ação no seu interior, pois a experiência é, talvez, a única maneira de se obter uma orientação permanentemente renovada e que possibilita re-orientações de práticas. A existência de um Laboratório de Ensino de Matemática já é um fato na própria Universidade do Estado do Pará. Vislumbramos, então, que uma alternativa para aprimorarmos a formação do Educador Matemático e nos aproximarmos do que se deseja, seja a retomada e incremento das atividades do Laboratório de Ensino de Matemática (LABEM), com a proposição de uma programação contínua de atividades, as quais poderiam ser consideradas atividades curriculares aos alunos, no limite mínimo de 30 horas aulas anuais (1º, 2º e 3º anos). Nesse sentido, é importante mencionar que toda a experiência acumulada, fruto do trabalho desenvolvido em anos anteriores, e a necessidade de impulsionar e ampliar a continuidade desse trabalho dão respaldo e justificam a proposição da implementação do LABEM. Além disso, o momento atual torna-se favorável à realização de inovações curriculares destinadas a conhecer a prática pedagógica do ensino fundamental e médio, em função do que determina o artigo 65 da nova LDB, que torna obrigatória a carga horária de, no mínimo, 300 horas de atividades. Essa carga horária pode ser desenvolvida no interior do LABEM. Assim, a proposta é que o LABEM possa tornar-se um espaço de discussão, pesquisa, estudos, proposição, produção e testagem de atividades e materiais voltados ao ensino de matemática. Enfim, um espaço de reflexão e experiência profissional assistida e orientada, buscando atender as novas propostas de formação do educador matemático e os novos rumos preconizado pela LDB - há algum tempo em pauta - de que a formação profissional de professores se inicie o mais cedo possível durante o curso de formação inicial, de modo a propiciar que o sujeito professor se constitua progressivamente um 112 profissional reflexivo-pesquisador com alguma autonomia já no decorrer desse curso.(GONÇALVES; 2000) A criação de um espaço apropriado à testagem de ações relativas ao ensino se configura em uma forma de estimular a discussão sobre a questão educacional e seu papel no interior da sociedade. Essa discussão pode ser perfeitamente implementada tendo como pano de fundo a Educação Matemática, que hoje se materializa como uma ampla área de conhecimento. Nesse sentido, a existência de um Laboratório de Ensino de Matemática no interior da Universidade, traz para o ambiente universitário um dos focos de discussão. A importância desse espaço, portanto, reside no fato de que, desse modo, as alternativas de mudanças, comuns em um mundo que continuamente se renova, a serem implementadas no âmbito do curso destinado à formação de professores de matemática, possam ser convenientemente elaboradas, implementadas e testadas, o que certamente aumentaria a possibilidade de êxito. O envolvimento de licenciandos, ou de outros estudantes de graduação, em atividades que objetivam a reflexão e a ação, de modo articulados, é também um aspecto que o Laboratório de Ensino de Matemática deverá permitir, o que justifica plenamente sua existência. 5. OBJETIVO GERAL E ESPECÍFICOS: O LABEM deverá ser um espaço de discussão, estudos, pesquisa, produção, e testagem de ações relativas à tríade ensino-pesquisa-extensão, na área de matemática, nos diferentes níveis existentes, como forma de possibilitar a articulação entre os diversos componentes na formação de educadores matemáticos. Ele deverá: Possibilitar aos licenciandos de matemática, a participação em projetos diferenciados de ensino; Ser um “locus” de proposição e experimentação de práticas alternativas, em termos de ensino de matemática, que possam vir a ser implementadas no ensino regular; Realizar estudos e pesquisas, cuja implementação e resultados sejam utilizados como parte do processo de formação do licenciando em matemática; matemáticos; Possibilitar aos licenciandos uma interação reflexiva com os saberes 113 Propiciar aos licenciandos em matemática a vivência de uma prática antecipada assistida ; Fornecer condições teórico-práticas para a implementação de Iniciação Matemática a alunos do ensino fundamental, médio e superior; Proporcionar a licenciandos do curso de matemática, a fundamentação que lhe possibilite a realização de estudos e pesquisas, além da vivência de práticas alternativas de ensino; Produção, testagem e disseminação de materiais didáticos para utilização no ensino de matemática; Propor a introdução, em nível experimental, de ações didáticas relativas ao ensino de matemática, que possam vir a complementar o Curso de Licenciatura em Matemática. 6. RESULTADOS ESPERADOS: Desse trabalho deverão fazer parte inicialmente alguns docentes do Departamento de matemática que, de alguma forma, já trabalham na perspectiva acima explicitada e se propõem a desenvolver atividades no laboratório. Porém, o espaço se manterá aberto à participação de todos aqueles que se mostrarem interessados. Espera-se que O LABEM venha a envolver, diretamente, especialmente os professores da UEPA ligados à área de matemática e afins, além de alunos do curso de licenciatura em matemática da UEPA ou afins e externamente, professores e alunos de outras instituições, dos diferentes níveis de ensino. A implementação do Laboratório deverá, possivelmente, apontar para direções não idealizadas inicialmente. Porém, espera-se como resultado: A formação de Grupos de Estudos e Pesquisas; A produção de material instrucional destinado ao ensino de matemática, sob a forma de kits, a ser disseminado na Rede Escolar do Estado; A realização de Cursos a professores que atuam na Rede escolar do Estado (capital e interior do Estado); O registro e publicação de resultados de estudos e pesquisas, ações e experiências didáticas, sob a forma de revistas e/ou boletins; 114 A abertura de campo para estágio de alunos de graduação. Algumas atividades, necessariamente pela natureza da criação do laboratório, serão desenvolvidas, tais como : a) leituras e debates de textos relacionados ao ensino de matemática. b) observações do contexto escolar de aula. c) desenvolver projetos de pesquisa junto a professores em exercício, na escola, buscando desenvolver saberes profissionais oriundos da prática escolar do ensino fundamental – incluindo as séries iniciais - e o ensino médio ; d) estudar e debater aspectos históricos e filosóficos, psico-sociológicos e didáticos relativos a tópicos de conhecimentos matemáticos trabalhado nas escolas, como ponto de referência para a elaboração de materiais pedagógicos quando possível e necessário. e) verificar e analisar o modo como o saber matemático é transformado em conhecimento escolar, através de análise de livros didáticos, dos PCN e dos guias curriculares da SEDUC e da SEMEC. A avaliação - do Curso de Licenciatura, do professor e dos alunos - será realizada como resultado das atividades que ocorrerão no LABEM. 7. ATIVIDADES PROPOSTAS: Serão previstas diversas atividades regulares no LABEM, a serem desenvolvidas por professores e alunos. Cada uma delas deverá compor um Programa específico, articulado às demais. A implementação do trabalho previsto neste Projeto ocorrerá após discussão incluindo a comunidade que integra o Curso de Licenciatura em Matemática da UEPA e o início das atividades previstas poderá acontecer a partir do mês de setembro do ano 2002. 115 8. PROGRAMA DE CURSOS 8.1.JUSTIFICATIVA: A disseminação da Educação Matemática no ensino fundamental e médio é o maior objetivo de uma Universidade. Isso será efetivado, na medida em que o licenciado oriundo da UEPA começar a atuar profissionalmente. Porém, é possível interferir no processo que está em curso e a melhor forma de atingir esse objetivo é atuar junto ao profissional que está exercendo a função do magistério. O professor em exercício é, portanto um dos elos da corrente que faz mover o ensino de matemática no Estado. E é aí que a proposição de Cursos de extensão se justifica, como forma de alcançar a disseminação que se pretende. A proposição de Cursos direcionados a alunos, sob a forma de recuperação paralela ao trabalho escolar, ou de cunho experimental buscando articular o saber escolar com o saber do cotidiano, são também atividades extremamente necessárias, tanto para atender a comunidade, como para possibilitar a vivência sob a forma de prática assistida por parte do licenciando em matemática. É, também, uma justificativa para a proposição. 8.2.OBJETIVOS GERAIS E ESPECÍFICOS OBJETIVO GERAL: Implementar um programa de Cursos visando o aprimoramento dos professores em exercício, a prática assistida de licenciandos e a disseminação da Educação Matemática no Estado. OBJETIVOS ESPECÍFICOS: Propiciar o aperfeiçoamento a professores de matemática em exercício, no Estado; Subsidiar a ação docente de professores que atuam na área de ensino de matemática; Oportunizar a atuação, em forma de prática assistida, a licenciandos em matemática; 116 Propiciar a iniciação matemática e/ou recuperação paralela a alunos do ensino fundamental e médio; Proporcionar aos licenciandos e professores, a vivência de metodologias alternativas para o ensino de matemática. 8.3.RESULTADOS ESPERADOS: Serão oferecidos cursos com carga horária de 20 e 40 horas-aula, conforme o programa de cada curso, a professores da Rede Escolar do Estado e cursos com carga horária de 40 horas-aula a alunos do ensino fundamental e médio de escolas públicas de Belém. Esses cursos terão enfoque teórico-práticos e serão voltados ao ensino de matemática. Os cursos a professores deverão ser ministrados pelos professores lotados com carga horária no LABEM, acompanhados por Licenciandos do Curso de Matemática da UEPA. Esses cursos serão abertos à participação de alunos da UEPA ou outros interessados. Os cursos a alunos do ensino fundamental e médio serão ministrados por alunos de licenciatura, assistidos pelos professores das disciplinas Prática de Ensino e Instrumentação para o Ensino de Matemática. O número de participantes por curso deverá variar entre 25 a 40, de acordo com a característica de cada um deles. Pretende-se realizar um curso por quinzena, durante o período de 08 meses, totalizando 16 cursos anualmente. Estão previstos inicialmente os seguintes cursos: Metodologia do Ensino de Matemática. Ensino de Aritmética (2) Diferentes técnicas para o ensino de frações (2) Álgebra para o ensino fundamental (2) Ensino de Geometria (2) Ensino de Trigonometria (2) Matemática e a construção de modelos. Projetos no ensino de matemática. Etnomatemática e ensino de matemática. Ensino de matemática financeira (2) 117 Oficinas de produção e utilização de material didático. Obs: (2) – Dois tipos de cursos. Sendo um dirigido a professores e outro a alunos do ensino fundamental ou médio. 8.4. ESTRATÉGIAS PARA IMPLANTAÇÃO DO PROGRAMA Haverá um período de planejamento para os cursos. Desse planejamento deverão participar os professores lotados no LABEM e poderão participar alunos do Curso de Licenciatura em Matemática. Os alunos participantes do planejamento poderão atuar conjuntamente com os professores. Em seguida, será feita a divulgação do programa, inclusive para a SEDUC e as inscrições para participação em cada um dos cursos. A participação nos cursos dará direito a recebimento de certificado. Os participantes deverão, ao final de cada curso, avaliar o evento. Os cursos deverão ser sistematizados sob a forma de produção escrita, podendo ser incluídos nas publicações previstas pelo Programa de Editoração. 8.4.Cronograma anual Atividade 1.Planejamento Fev Mar Abr Mai Jun x Ago Set Out Nov x 2.Divulgação x x x x x x x x 3.Realização dos cursos x x x x x x x x x x x x x x x x 4.Avaliação do Programa x Dez x 118 9. CICLO DE PALESTRAS, SEMINÁRIOS E GRUPOS DE TRABALHO 9.1. JUSTIFICATIVA: O Curso de Licenciatura em Matemática da UEPA apresenta um currículo composto quase que apenas pelas disciplinas que integram sua grade curricular. No entanto, a comunidade que faz parte do Curso sente extrema necessidade da inclusão de outras atividades complementares, tendo em vista a formação generalista que hoje se espera do profissional de educação. Nesse sentido, a inclusão um programa regular de atividades sob a forma de palestras, seminários e grupos de trabalho, pode ser a alternativa ideal para suprir essa carência acusada. 9.2. OBJETIVOS GERAIS E ESPECÍFICOS OBJETIVO GERAL: Implementar um programa de atividades de ensino visando a complementação e diversificação da formação do licenciando em matemática da UEPA. OBJETIVOS ESPECÍFICOS: Propiciar aos licenciandos do Curso de Matemática, a contínua reflexão sobre questões relativas à educação e ao ensino; Oportunizar a apresentação e discussão de idéias e propostas relativas ao ensino de matemática; Produzir, divulgar idéias e debater questões de interesse da comunidade que faz a UEPA, em torno da Educação Matemática. 119 9.3. RESULTADOS ESPERADOS: Serão oferecidas atividades quinzenais sobre variadas temáticas, de acordo com sondagem a ser realizada no seio da comunidade do Curso de Matemática da UEPA. Com carga horária variando de 02 (duas) a 04(quatro) horas as atividades previstas no programa deverão se configurar em momentos de apresentação de idéias, materiais e propostas de ensino elaboradas no âmbito do LABEM (ou externamente), como forma de testar e socializar os produtos obtidos resultantes dos vários programas idealizados e implementados no LABEM. 9.4. ESTRATÉGIAS PARA IMPLANTAÇÃO DO PROGRAMA Inicialmente será feita a sondagem de interesse de alunos e professores do Curso de Matemática da UEPA, em relação às temáticas a serem abordadas nas atividades. De posse dos resultados dessa sondagem será feito um planejamento para a implementação do programa. Desse planejamento deverão participar os professores lotados no LABEM e poderão participar alunos do Curso de Licenciatura em Matemática. A divulgação, através de cartazes e Boletins, deverá ser o passo seguinte. As atividades, além da participação de alunos, será aberta à participação de outros interessados. Os participantes deverão inscrever-se previamente e aos presentes será dado o direito a recebimento de certificado. Cada atividade será avaliada pelos participantes. Esta ação do LABEM estará articulada ao Programa de Editoração. Para isto, cada atividade programada deverá incluir, sob a responsabilidade do seu responsável, material escrito sistematizando o trabalho desenvolvido. Dessa maneira, as produções oriundas das Palestras, Seminários e Grupos de Trabalho poderão fazer parte dos Boletins e/ou Revistas constantes no Programa de Editoração. 120 9.5. Cronograma anual Atividade Sondagem Fev Mar Abr Mai Jun x x Realização das Atividades x x x x x x x x x Set Out Nov x x x x x x Dez x Planejamento Avaliação do Programa Ago x x x 10. PROGRAMA DE ESTUDOS E PESQUISAS 10.1. JUSTIFICATIVA: A característica do trabalho pedagógico que normalmente é desenvolvido nas disciplinas oferecidas pela Universidade apresenta ênfase quase que exclusiva no ensino. No Curso de Licenciatura em Matemática da UEPA isto é uma realidade que talvez ocorra em função das formações dos professores que aí militam, que tiveram uma formação também com ênfase no ensino. A tentativa de incentivar a inclusão da pesquisa como parte desse trabalho deve passar por um momento no qual o trabalho de pesquisa possa ser focalizado mesmo que de modo exclusivo. O LABEM pode ser um espaço para que esse momento de transição aconteça. A proposição de um Programa de Estudos e Pesquisas é idealizado, portanto, com a perspectiva inicial de possibilitar a vivência à pesquisa, para posteriormente, subsidiar e favorecer um trabalho pedagógico que associe ensino e pesquisa. 121 10.2. OBJETIVOS GERAIS E ESPECÍFICOS OBJETIVO GERAL: Implementar um programa de Estudos e Pesquisas visando a discussão e compreensão de diferentes aspectos que interferem na prática pedagógica do professor, em termos de Educação Matemática. OBJETIVOS ESPECÍFICOS: Possibilitar a compreensão de múltiplos aspectos relativos à matemática, considerando aspectos históricos, epistemológicos, ...; Propiciar aos licenciandos do Curso de Matemática, a contínua reflexão sobre questões relativas à educação e ao ensino; Oportunizar a discussão de idéias e propostas relativas ao ensino de matemática; Realizar Estudos e Pesquisas sobre questões e problemas relativos ao ensino e à aprendizagem de matemática. 10.3. RESULTADOS ESPERADOS: As atividades desenvolvidas no LABEM, como cursos, seminários, palestras ou grupos de trabalho, devem gerar questões e serem um pouco mais discutidas e compreendidas. Essa ação também poderá ser resultante do trabalho desenvolvido em disciplinas. Espera-se, então, que essas questões venham a organizar, em torno de si, pessoas interessadas em um maior aprofundamento temático, o que os levará à realização de estudos e pesquisas que, certamente, deverão apresentar como resultados um conhecimento mais apurado de questões que envolvem a Educação Matemática no Estado. Esse conhecimento deverá envolver, tanto os diferentes aspectos que envolvem o trabalho pedagógico e suas determinações e reflexos, assim como o trabalho desenvolvido em escolas da Rede de Ensino de Belém e de Municípios do Estado. 122 10.4. ESTRATÉGIAS PARA IMPLANTAÇÃO DO PROGRAMA A implantação do Programa deverá ser resultante dos demais Programas existentes no LABEM. No entanto, o incentivo ao seu desenvolvimento acontecerá através das publicações do LABEM, informando as principais questões debatidas e os possíveis direcionamentos apontados. É nossa intenção incluir um espaço fixo nessas publicações, com esse fim. 11. PROGRAMA DE PRODUÇÃO DE MATERIAL DIDÁTICO 11.1. JUSTIFICATIVA: O ensino de matemática, por sua característica essencialmente abstrata, necessita muitas vezes do auxílio de recursos facilitadores da aprendizagem. Esses recursos compreendem desde uma produção teórica apontando ou ilustrando uma possibilidade pedagógica, até instrumentos materiais. O LABEM é um espaço propício à discussão, proposição e testagem de alternativas de ensino. Assim, e como forma de viabilizar a realização do Programa de Cursos e difundir propostas gestadas no seu interior, propõe a implementação de um Programa de Produção de Material Didático. O Programa deverá ser resultante do trabalho que já vem ocorrendo nas Disciplinas Instrumentação Para o Ensino de Matemática e Prática de Ensino, ou de outras disciplinas que venham a implementar trabalhos dessa natureza. 11.2. OBJETIVOS GERAIS E ESPECÍFICOS OBJETIVO GERAL: Implementar um programa de produção, testagem e disseminação em escolas do Estado de materiais didáticos voltados ao ensino de matemática. 123 OBJETIVOS ESPECÍFICOS: Produzir e/ou adaptar materiais didáticos voltados ao ensino de matemática; Testar materiais didáticos produzidos em através de atividades desenvolvidas pelo LABEM; Disseminar materiais didáticos para o uso por professores no ensino de matemática. 11.3. RESULTADOS ESPERADOS: O Material Didático produzido, resultante do trabalho desenvolvido no interior das disciplinas do Curso de Matemática ou de outras atividades como cursos ou seminários, entre outras, deverão ser disseminadas através dessas mesmas atividades, entre professores e alunos. Poderão, ainda, de acordo com interesse da SEDUC, ser disseminados sob a forma de kits didáticos a escolas da capital e interior do Estado. 11.4. ESTRATÉGIAS PARA IMPLANTAÇÃO DO PROGRAMA A produção de material didático será uma ação que se dará exclusivamente em função das demais atividades a serem implementadas no LABEM. Assim, o planejamento dessa produção se dará na medida em que as diferentes ações constantes nos demais Programas estiverem sendo planejadas e desenvolvidas. A avaliação dos materiais, entretanto, será uma atividade específica, devendo para isso, ser produzida uma ficha com as características esperadas e pretendidas para cada material. A disseminação ocorrerá após essa avaliação e de acordo com interesse e programa a ser definido para esse fim, caso haja interesse da SEDUC. 124 12. CARGA HORÁRIA DE PROFESSORES: A implementação das atividades previstas no projeto e dos programas idealizados deverá exigir o envolvimento dos professores inclusos, seja na Coordenação ou na execução do projeto, no limite mínimo de 10 horas semanais. 8. ORÇAMENTO: Elemento de Despesa Material de Consumo Equipamentos e Material Permanente Bolsas (01) Outros Serviços de Terceiros - Pessoa Jurídica TOTAL GERAL Valor Anual (em R$) 1.310,50 4.407,00 1.440,00 100,00 7.257,50 125 8.1. Material de Consumo: Especificação Unidade Papel A4 Papel cartão Cartolina Cola de madeira Cola plástica Lápis de carpinteiro Lápis nº 2 Clipes Grampo 26/6 Cola de bastão Papel milimetrado Papel quadriculado Papel vegetal Fita adesiva Par de esquadro médio Disquetes 3½” Cartucho de tinta(preta)p/ imp. HP DESKJET 692 Cartucho de tinta (color) p/ imp. HP DESKJET 692 Quantidade Resma Folha Folha Quilo Tubo Unidade Unidade Caixa Caixa Caixa Bloco Resma Folha Rolo Unidade cx. com 10 unidade unidade Valor Unitário (R$) Valor Total (R$) 11,00 0,80 0,30 3,00 1,20 0,50 0,15 0,90 0,80 1,80 3,50 14,00 1,20 1,20 11,00 8,30 89,00 89,00 110,00 16,00 6,00 30,00 24,00 10,00 7,50 9,00 4,00 36,00 35,00 70,00 24,00 24,00 110,00 83,00 356,00 356,00 1.310,50 10 200 200 10 20 20 50 10 5 20 10 05 20 20 10 10 04 04 Total 8.2. Bolsas: Especificação Bolsista - 09 meses Unidade unidade Quantidade Valor Unitário (R$) Valor Total (R$) 01 160,00 1.440,00 126 8.3. Equipamentos e Material Permanente: Especificação Esquadro Paquímetro Fita métrica Tesoura média Tesoura grande Escalímetro Nível Régua T Banco de tampo regulável Grampeador grande Perfurador de papel Refiladora RC36 Guilhotina Computador completo Impressora Scanner 19.200 DPI 8.4 Serviços de Terceiros - Pessoa Jurídica: Especificação Serviço de Impressão de Certificados (Gráfica) Unidade unidade Quantidade Valor Unitário (R$) 3 2 15 5 2 2 1 2 05 2 2 1 1 1 1 1 15,00 140,00 2,00 9,00 16,00 11,00 12,00 47,00 35,00 31,00 25,00 175,00 185,00 2.200,00 700,00 300,00 Total Valor Total (R$) 45,00 280,00 30,00 45,00 32,00 22,00 12,00 94,00 175,00 62,00 50,00 175,00 185,00 2.200,00 700,00 3000,00 4.407,00 Quantidade Valor Unitário (R$) Valor Total (R$) 1000 0,10 100,00