1 GABINETE DE LEITURA DE ITABAIANA (1875-1880): NOTAS PARA A HISTÓRIA DE UMA INSTITUIÇÃO CULTURAL DO AGRESTE SERGIPANO NO SÉCULO XIX Wanderlei de Oliveira Menezes Graduado em História (UFS) e Bacharelando em História (UFS), Pós-graduando em Ensino de História pela Faculdade São Luiz. E-mail: [email protected] Resumo: Este texto trata da primeira instituição cultural do interior sergipano: o Gabinete de Leitura de Itabaiana. Durante o século XIX, disseminou-se pelo Brasil o surgimento dos gabinetes de leitura por todas as províncias do império. Sergipe teve seu gabinete de leitura apenas em 1860, na cidade de Aracaju, e a vila de Itabaiana, foi a segunda a inaugurar um gabinete de leitura, isso no ano de 1875, dois anos antes do surgimento do Gabinete de Maruim, atualmente o único do gênero existente no Estado. Trataremos da história dessa iniciativa cultural que apesar de efêmera representou um importante momento para a história da cultura e educação na província de Sergipe. O texto foi escrito a partir de uma breve e lacônica bibliografia, composta, sobretudo, de relatos de historiadores locais. Nosso objetivo é entender como surgiu e porque teve vida efêmera essa instituição cultural, fundada em 1875 por Manoel Damásio Pereira Leite. Palavras-chave: Cultura, Gabinete de Leitura de Itabaiana, Silêncios da História. 1. Apresentação Ao pesquisar sobre a história de Itabaiana no século XIX, durante os anos de 2005 e 2006, encontrei breves referências sobre um gabinete de leitura inaugurado na outrora vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana no ano de 1875. O desenvolvimento da pesquisa trouxe à tona um questionamento que me tem incomodado desde então: qual a razão de o gabinete de 2 leitura de Itabaiana ter sido vítima de um esquecimento, o qual chega a ser praticamente completo? A constatação do esquecimento, associada à inexistência quase completa de fontes diretamente relacionadas ao tema levaram-me a buscar abrigo nas reflexões de Le Goff, quando afirma que “devemos fazer o inventário dos arquivos do silêncio e fazer a história a partir dos documentos e da ausência de documentos”. (LE GOFF, 2003). A proposta de Le Goff leva o historiador a superar o perigo de uma exagerada dependência em relação à existência de fontes diretas. Quando a não existência das fontes, a ausência do objeto na documentação passam a ser tratadas como objeto de reflexão, temos uma historiografia que vai além do simples levantamento empírico de informações acerca do passado. Questionar o silêncio das fontes implica indagar acerca da intencionalidade presente na construção da memória ou, como sugere Le Goff, para quem “o poder sobre a memória futura, o poder de perpetuação, deve ser reconhecido e desmontado pelo historiador.”(Ibidem, 2003) Nesse sentido, Para Certeau (1982), ”o historiador não é mais o homem capaz de constituir um império. [...] circula em torno das racionalizações adquiridas. Trabalha nas margens. [...] todas elas zonas silenciosas. (CERTEAU, 1982. p.86). E é ainda nessas margens e percorrendo as zonas silenciosas, visto que há ainda lacunas enormes a serem preenchidas/respondidas acerca do objeto em estudo, o Gabinete de Leitura de Itabaiana. As pistas são escassas. Assim, o nosso objetivo é estudar a trajetória do gabinete de leitura de Itabaiana, entendendo sua gênese, existência e esquecimento. Nossa análise focará a figura do Professor Manoel Damásio Pereira Leite, considerado o fundador da instituição cultural, por acreditarmos que sua atuação e morte oferecem indícios para as indagações aqui propostas. 2. Os gabinetes de leitura invadem o Império do Brasil Do ponto de vista formal/usual o Gabinete de Leitura é uma instituição que aluga livros, jornais, revistas, dentre outros, por vezes até para a leitura domiciliar. Mas o estudo de um gabinete não é o estudo de uma Biblioteca. A princípio já se pode diferenciar as Bibliotecas Públicas do século XIX com os Gabinetes na questão do empréstimo ou aluguel do livro ou dos periódicos, pois as instituições públicas proporcionavam também a consulta gratuita, mas somente em suas dependências. (SCHAPOCHNIK, 2005) 3 Os gabinetes de leitura eram instituições culturais com alcance social. Nessas instituições debates literários e científicos eram organizados, discursos proferidos e por vezes publicados, produziam-se periódicos, tinham estatutos próprios, sócios contribuintes e remidos, organizavam-se, saraus, colóquios, jogos de baralho, e com uma relação muito próxima com a maçonaria, dentre outros. Os gabinetes de leitura no Brasil foram copiados do modelo português, mas logicamente tinha que ser adaptado à nossa realidade, diferenciando-se do modelo francês, por exemplo, denominados “boutiques à lire”. Aqui os gabinetes funcionavam de forma gratuita tanto para consulta ou empréstimo de livros, e sua implantação foi permeada por forte sentimento de solidariedade e fervor cívico por parte dos seus idealizadores. (MADEIRA, 2005). Foi de suma importância a iniciativa dos homens letrados da época, que viabilizaram, através de suas ações a instalação do gabinete de leitura em praticamente todas as províncias do imenso Império do Brazil. O Real Gabinete Português de Leitura, Real Gabinete Português de Leitura, inaugurado na corte do Rio de Janeiro em 1837, serviu de inspiração para a implantação de gabinetes de leituras nas províncias do Brasil nos idos do século XIX. Segundo Lajolo & Zilberman (1996), foi por volta de 1840, no Rio de Janeiro – sede da monarquia – que começou a se esboçar os traços necessários para a formação e fortalecimento de uma sociedade leitora: estavam presentes os mecanismos mínimos para a produção e circulação da literatura, como tipografias, livrarias e bibliotecas; a escolarização era precária, mas manifestava-se o movimento visando à melhoria do sistema; o capitalismo ensaiava seus primeiros passos, graças à expansão da cafeicultura e dos interesses econômicos britânicos, que queriam um mercado cativo, mas em constante progresso. Apesar do alto índice de analfabetismo que atingia – e ainda atinge - o Brasil no século XIX, havia um interesse dos homens letrados em incutir uma “cultura civilizatória” (ELIAS, 1993) na população através de ações que facilitassem o acesso à leitura; por intermédio de iniciativas como os gabinetes de leitura. Estes intelectuais interessados em civilizar os menos favorecidos seguiam um ideário europeu de formar um cidadão “letrado, trabalhado, higiênico e regrado moralmente” (MADEIRA, 2005). 3. Gabinete de Leitura de/em Itabaiana: nasce uma ideia e um idealizador Em 1860 era fundado em Aracaju o primeiro gabinete de leitura da província de Sergipe. Dezessete anos depois, em Maruim, surgia o mais propalado, influente e duradouro gabinete de 4 leitura de Sergipe. No ínterim desses dois acontecimentos históricos para a cultura de Sergipe, na vila de Itabaiana surgia também um gabinete de leitura. Antes de discorremos sobre o Gabinete de Leitura de Itabaiana se faz necessário estudar a trajetória de vida do fundador desta iniciativa cultural que apesar de efêmera representou um importante momento para a história da educação e cultura de Itabaiana no século XIX. Nos idos da década de 50 do século XIX, nascia Manoel Damásio Pereira Leite, na então vila de Santo Antônio e Almas de Itabaiana, filho legítimo do casal Damásio José Pereira e Josefa Francisca de Araújo Leite. Recebeu o sacramento do batismo do vigário Domingos de Melo Resende na Igreja Matriz de Santo Antônio e Almas de Itabaiana. A família Pereira Leite era tradicionalmente constituída de educadores e sacerdotes. Tinha o pequerrucho por irmãos os professores Olímpio Pereira de Araújo (1854-1875), Manoel Pereira de Araújo Leite, Cassiano Pereira de Araújo, Guilhermina Leite de Araújo, Laurinda Leite de Araújo – todos dotados de muita inteligência e preparo. (SEBRÃO, SOBRINHO, 1941; LIMA JÚNIOR, 1914) Jovem irrequieto, muito moço deixou as saias da mãe e entrou para o seminário. Não chegou a se ordenar padre por motivos desconhecidos. No início da década de 70 voltou à terra natal decidido a ser professor. Sua missão de vida era levar aos compatrícios as luzes do saber. Damásio falava fluentemente o francês. Apesar de muito religioso, a História era sua grande paixão. Em 1874, planeja fundar na sede da vila um gabinete de leitura, ideia ousada e um tanto quanto progressista para uma terra tão descuidada com a educação. Só para se ter noção do descaso do poder público com a educação, nesse mesmo ano a Assembleia Provincial expediu a Resolução 962 que determinava a extinção da cadeira de ensino elementar de Itabaiana que fosse menos freqüentada. Muitos itabaianenses ficaram sem ir a sala de aula. Assim, com modesta festividade e sem a presença das elites políticas e econômicas, em 28 de fevereiro de 1875, foi inaugurado o Gabinete de leitura de Itabaiana, um dos primeiros da Província de Sergipe. A sede da iluminista instituição situava-se na outrora Rua das Flores, atual Barão do Rio Branco. (SEBRÃO, SOBRINHO, 1941) A empolgação e idealismo do jovem Damásio conseguiu congregar mais 24 pessoas no seu projeto de vida. Eram os membros fundadores do gabinete: Professor Manoel Damásio Pereira Leite (185? -1881), Alferes Joaquim José de Oliveira Mesquita (1846-1879), Tenente Manuel Álvares Teixeira (?-1906), Antonio de Oliveira Bezerra (1849-1922), Tenente Antonio dos Santos Leite (1835-1907), Capitão Manuel Joaquim de Carvalho Lima, Tenente José Teles de Góis, Professor Olímpio Pereira de Araújo (1854-1875), Alferes Antonio Joaquim de Oliveira Noronha (1840-1901), Guilhermino Amâncio Bezerra (1847-1909), José Amâncio Bezerra, José 5 Martins Fontes (1829-1895), Tenente Marcelino de Melo Cardoso, Esperidião Zamiro de Sousa Lopes, Tenente José da Costa Fontes (1848-1880), Capitão Francisco Julião de Lemos, Dr. Francisco Dias César (1840-1875), Tenente-coronel Antonio Carneiro de Menezes (1813-18?), Samuel Pereira de Almeida (1853-1892), Antonio Cornélio da Fonseca (1845-1922), Tenente José Caetano de Távora, Alferes José Verano de Carvalho Lima (1841-1915), Francisco Farias de Barreto Freire, Antonio Pinheiro de Melo e Salustiano de Carvalho Lima. Os gabinetes de leituras eram instituições que visavam fomentar o gosto pela leitura. O atraso cultural de Itabaiana era tão grande que o Gabinete era mais uma escola que uma instituição cultural para a elite intelectual. Primeiro, pensavam os fundadores do gabinete, deviase instruir a mocidade para depois se pensar em fomentar o gosto pela cultura. Segundo o pesquisador Sebrão sobrinho, o gabinete de Itabaiana tinha por objetivo facilitar aos seus membros a instrução pela leitura dos bons livros e jornais, especialmente os nacionais. Porém, a principal função era oferecer o ensino básico à juventude itabaianense. Nessa época Itabaiana vivia o apogeu da cultura algodoeira. A “febre do algodão” contaminava toda a vila. O atual agreste sergipano era a região da província de Sergipe com a maior produção de algodão. Era um momento de grande efervescência econômica. (LIMA JÚNIOR, 1914; CARVALHO, 1973) 4. Do bom começo à decadência e esquecimento A instrução pública era privilégio de pouquíssimos e, principalmente, dos bem-nascidos. O gabinete era a mais democrática instituição de ensino surgida em Itabaiana. Jovens pobres tinham o mesmo direito de receber os rudimentos do saber que os mais abastados. Os melhores e mais talentosos professores de Itabaiana estavam no Gabinete, motivo que enciumou muita gente, principalmente a retrógrada classe dirigente e os professores particulares. Para indignação dos opositores e “agourentos”, grande foi a procura pela iniciante instituição: mais de 70 alunos matriculados nas sete aulas que o gabinete oferecia, número espantoso para a época. No primeiro ano de atividade havia quatro professores, a saber: Olimpio Pereira de Araújo, Guilhermino Bezerra, Damásio Leite e Antonio Joaquim de Oliveira Noronha. As disciplinas ofertadas eram: Primeiras letras (professor Olímpio); Matemática elementar, Língua, Literatura nacional e Catecismo (Guilhermino Bezerra); História do Brasil, Geografia Moderna e 6 Língua francesa (Damásio Leite) e Música (maestro Antonio Joaquim de Oliveira Noronha). (CARVALHO, 2009) Os dois primeiros anos foram de sucesso e grande entusiasmo. Só uma grande baixa: a morte do professor Olimpio Pereira de Araujo, em junho de 1875. Mas o gabinete seguia seu caminho satisfatoriamente, mesmo sem a ajuda do poder público. José Martins Fontes, juiz de Direito e posteriormente Presidente da Província, foi eleito presidente da instituição. Acreditavam os associados que sua influência pessoal poderia ajudar a instituição. Contudo, estavam errados. O presidente mostrou-se omisso com o gabinete. Em 1877 tornou-se sóciofundador do Gabinete De leitura de Maruim, o único do gênero ainda existente em Sergipe, e esqueceu-se da agremiação que lhe outorgou o cargo máximo. Quando assumiu as rédeas da província de Sergipe (1877-1878) não fez nada pelo Gabinete de Itabaiana. Resolveu o ingrato presidente prejudicar a benemérita instituição cultural. Tirou, por ato oficial de 02 de março de 1877, Damásio Leite de Itabaiana. O jovem professor havia sido nomeado para a escola da povoação de Nossa Senhora Dores dos Enforcados, atual cidade de Nossa Senhora das Dores. Teve que deixar o gabinete e seguir seu destino de coração partido como um supliciado em direção ao patíbulo. Mas foi... Sempre que podia Damásio vinha a sua terra natal e o primeiro local que visitava era o gabinete. (SEBRÃO, SOBRINHO, 1941) Os infortúnios só estavam começando para Damásio. Passado o mandato do ingrato José Martins Fontes, era a vez do bacharel Teófilo Fernandes dos Santos ascender ao posto de presidente de província e dar sua contribuição pessoal para o arruinamento do Gabinete. Por razões políticas perseguiu ferrenha e impiedosamente ao nosso idealista. Por ato de 19 de março de 1879 o deixou mais longe do Gabinete ao transferi-lo para a vila de Itabaianinha, no extremo sul da província, cinicamente com o argumento de “conveniencia do serviço publico”. Suspeito que tal ato discricionário teve o “dedo” dos políticos do partido conservador de Itabaiana. Damásio se uniu a jovens dissidentes do partido conservador, os irmãos Bezerra, e era um liberal moderado. No novo lugar de trabalho o jovem professor sofreu na pele os ranços da politicagem mesquinha. Os jornais da época noticiaram o drama do desafortunado Damásio. É de comover até os mais insensíveis os ultrajes sofridos. (SEBRÃO, SOBRINHO, 1941) Ao voltar a Itabaiana, no crepúsculo do ano de 1879, durante as férias, adoeceu ao ver o gabinete quase fechado. Os sócios mais ativos saíram de Itabaiana para ocupar cargos públicos (a exemplo de Antonio Cornélio da Fonseca, Guilhermino Bezerra e outros) e os mais displicentes fizeram vistas grossas ao arruinamento da instituição cultural. Por tudo isso, O Gabinete De leitura de Itabaiana estava com seus dias contados. 7 A elite política retrógrada queria Damásio mais longe ainda de Itabaiana. A Resolução Provincial Número 1156, de 30 de abril de 1880, do deputado provincial Germiniano Rodrigues Dantas, estipulava uma licença para encerrar seus “estudos em qualquer seminário do Império” durante três anos. Damásio não gozaria da “bondade” da Assembleia Provincial. A 10 de janeiro de 1881 dava seu último suspiro o professor Damásio Leite, desgostoso, pobre e doente de beribéri. Morreu em Itabaiana, buscando a cura da sua enfermidade com a mística da Serra de Itabaiana e a alegria de ver o letreiro do Gabinete que anos atrás ele havia fundado. Viu o desditoso professor, dias antes de falecer as portas do seu Gabinete De leitura fechadas. A sociedade itabaianense, omissa e descuidada com a cultura, calou-se frente à agonia do Gabinete. A morte de Damásio representou a morte do Gabinete. O enterro do fundador do Gabinete ocorreu no cemitério das almas, atualmente situado no fundo da Matriz de Santo Antonio e Almas de Itabaiana. O mesmo Domingos de Melo Resende que o batizou celebrou as exéquias. Este sacerdote era delegado literário, vigário da freguesia e influente político, ou seja, um dos homens que poderia ter dado seu contributo ao Gabinete e, no entanto, foi omisso e conivente com os críticos da instituição. A família Bezerra, entusiastas e sócio-fundadores do Gabinete, tornou-se forte politicamente nos últimos anos da década de 80, mas isso não foi o suficiente para ser reativado o sonho de Damásio. Em 28 de agosto de 1888, Itabaiana foi elevada à condição de cidade. Nessa época ainda restava a fachada do Gabinete com os dizeres: Gabinete Litterario de Itabaiana. O século XX veio impiedoso e matou um a um os sócios-fundadores da instituição que em 1875 levou cultura ao povo de Itabaiana. Até a década de 40 do século passado existia a última marca dos tempos de glória do Gabinete: o apagado letreiro. Acredito que a geração iletrada do início do século XX perguntava o que havia sido aquela instituição. 5. Considerações finais Em 1936 é criado o primeiro grupo escolar de Itabaiana. A honra de denominar a instituição de ensino é de Guilhermino Bezerra, um dos sócios-professores do Gabinete. Passados treze anos, a Lei Número 190, de 30/06/1959, cria a Biblioteca Pública Municipal de Itabaiana. Muito merecia Damásio emprestar o nome para a biblioteca, mas o escolhido foi o farmacêutico e rábula Dr. Florival de Oliveira (1889-1965). As escolas municipais de Itabaiana, 8 há décadas atrás, receberam nomes curiosos e até hilários, por exemplo, Escola Panamá (povoado Malhada Velha), Egito (povoado Igreja Velha), Costa do Marfim (povoado Zanguê), Grécia (povoado Estreito), Jamaica (povoado Flexas) e até Líbia (povoado Congo)!!! Mas a Damásio nenhuma singela homenagem... Faz-se necessário mencionar que na década de 90 do século passado a escola do povoado Queimadas, atualmente bairro, tinha o nome de Olímpio Pereira de Araújo, irmão de Damásio e sócio-professor do Gabinete. Até a última lembrança dos dias do Gabinete foi extirpada. Dos gabinetes de leitura do século XIX e início do século XX só existe em Sergipe o de Maruim, em degradante estado, e dividindo espaço com uma agência da Caixa Econômica. Em discurso pronunciado nas comemorações do cinquentenário do Gabinete de Leitura de Maruim (21 de agosto de 1927), Joel Aguiar, intelectual maruinense, profetizou com extrema precisão o futuro da outrora desenvolvida urbe da Cotinguiba e o valor ulterior do Gabinete para a cidade: se a fatalidade lançar algum dia sobre nós as malhas do regresso, obrigando-nos a palmilhar e a perlustrar a tenebrosa estrada da decadência, esta cidade não morrerá de todo, porque será sempre lembrada como terra propagadora das lettras (...) se o destino nos levar à triste situação de um lugarejo, onde não se houve o ruído do progresso e a harmonia da justiça, forçando-nos a olharmos entristecidos para as quietas águas do Ganhamoroba, esta cidade não morrerá de todo, porque um pharol brilhará sempre à vista de quem aqui pizar, encadeando de alegria a retina do viajor. (AGUIAR, 2004). Em Itabaiana, os ruídos do progresso se fazem sentir fortemente, porém o título de terra propagadora das letras os itabaianenses não ostentam desde que o Gabinete de Leitura foi extinto. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 9 AGUIAR, Joel. Traços da História de Maruim. Escorço histórico do Gabinete de Leitura de Maruim – 1877-1977. 2 ed. Aracaju: Secretaria de Estado da Cultura, 2004. P. 77-190; CARVALHO, Vladimir Souza. Santas Almas de Itabaiana Grande. Itabaiana: Edições “O Serrano”, 1973; ___________. A Vila de Santo Antonio de Itabaiana. Aracaju: J. Andrade, 2009. p.241-250; CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982; ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. v.2; LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1996; LE GOFF, Jacques. História e memória. 5ª ed. Campinas-SP: Editora da Unicamp, 2003, p. 108-109; LIMA JÚNIOR, F. A. de Carvalho. Monografia histórica do município de Itabaiana. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, v.2, n.4, 1914. p.144-145; MADEIRA, Maria das Graças de Loiola. O “gabinete de leitura” e suas implicações na cultura escolar do império: notas sobre a instituição no Nordeste brasileiro. In: XXIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA. 17 a 22 de Julho de 2005. Londrina-PR; SCHAPOCHNIK, Nelson. A leitura no espaço e o espaço da leitura. In: ABREU, Márcia; SCHAPOCHNIK, N. (Orgs). Cultura letrada no Brasil: objetos e práticas. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2005; SEBRÃO, Sobrinho. Tobias Barreto, o Desconhecido: gênio e desgraça. Aracaju: Imprensa Oficial, 1941. 1 vol. P. 153-159.