CAPÍTULO I MAIGRET BRINCAVA, iluminado por um sol de março ainda um tanto frio. Não brincava com cubos, como fazia quando era menino, mas com cachimbos. Havia sempre cinco ou seis em cima de sua mesa e, a cada vez que ia encher um, escolhia-o segundo seu humor. Seu olhar estava parado, os ombros contraídos. Acabara de decidir sobre o resto de sua carreira. Não se arrependia de nada, mas sentia certa melancolia. De maneira mecânica, com toda seriedade, arrumava os cachimbos em cima do borrador de modo a formar figuras mais ou menos geométricas, ou que lembrassem algum animal. Sobre a mesa, à direita, acumulava-se o correio da manhã, com o qual não tinha a menor vontade de se ocupar. Ao chegar à Polícia Judiciária, um pouco antes das nove horas, encontrara uma convocação do diretor da Chefatura de Polícia, o que era raro, e fora ao Boulevard du Palais perguntando-se o que aquilo significaria. O diretor o recebera sem demora, cordial e sorridente. – O senhor não adivinha por que eu quis vê-lo? – Confesso que não. 12 SIMENON – Sente-se. Acenda seu cachimbo. O diretor era jovem, beirando os quarenta, e frequentara as melhores escolas. Era elegante, talvez um pouco demais. – O senhor não ignora que o comandante da Polícia Judiciária se aposenta no mês que vem, depois de doze anos no cargo... Discuti ontem sua sucessão com o ministro do Interior, e concordamos em oferecer ao senhor esta responsabilidade... O diretor sem dúvida esperava ver uma expressão de alegria no rosto de seu interlocutor. Maigret, pelo contrário, tornara-se taciturno. – Trata-se de uma ordem? – perguntara, quase rabugento. – Não, é claro que não. Mas o senhor deve saber que se trata de uma promoção importante, a mais importante que um funcionário da P. J. possa esperar... – Eu sei. No entanto, prefiro continuar à frente da Brigada Criminal. Peço ao senhor que não interprete minha resposta da maneira errada. Faz quarenta anos que me dedico à polícia ativa. Para mim, seria difícil passar os dias dentro do gabinete, estudando dossiês e me ocupando de questões mais ou menos administrativas... O diretor não escondia sua surpresa. – O senhor não acha que deveria tomar um tempo para pensar e me dar sua resposta dentro de alguns dias? Talvez também possa consultar a sra. Maigret? – Ela me entenderia. – Eu também o entendo e não quero insistir... Havia, mesmo assim, certo despeito em seu rosto. Ele entendia sem entender. Maigret sentia necessidade dos contatos proporcionados por suas investigações e, muitas vezes, fora censurado por não dirigi-las de seu gabinete, mas por participar delas ativamente, encarregando-se de tarefas em geral reservadas aos inspetores. MAIGRET E O SUMIÇO DO SR. CHARLES 13 Agora brincava, com a mente vazia. Os cachimbos, na última disposição que fizera, lembravam uma cegonha. A janela brilhava de sol. O diretor o reconduzira até a porta e apertara amigavelmente sua mão. Maigret sabia que seria malvisto nos altos escalões. Acendeu com vagar um de seus cachimbos e fumou a pequenas baforadas. Acabara, em alguns minutos, de decidir sobre um futuro que não seria mais tão longo, visto que em três anos se aposentaria. Pelo menos, diabos, que o deixassem empregar aqueles três anos como quisesse! Precisava escapar de seu gabinete, respirar o ar da rua, descobrir, a cada nova investigação, mundos diferentes. Precisava dos bistrôs, onde com frequência esperava, ao balcão, bebendo uma cerveja ou um calvados, dependendo das circunstâncias. Precisava, quando dentro de seu gabinete, lutar pacientemente com um suspeito que não queria falar e, às vezes, depois de horas, obter uma dramática confissão. Sentia-se maculado. Tinha medo de que, depois de deliberarem, o obrigassem de uma maneira ou de outra a aceitar aquela nomeação. Mas não a queria por preço nenhum, apesar de representar uma espécie de bastão de marechal. Olhava fixamente para os cachimbos que às vezes mudava de lugar, como as peças de um jogo de xadrez. Sobressaltou-se quando ouviu batidas discretas na porta que comunicava seu gabinete ao dos inspetores. Sem esperar resposta, Lapointe entrou. – Desculpe incomodá-lo, chefe... – Você não me incomoda nem um pouco... Fazia cerca de dez anos que Lapointe entrara na P. J., e todos haviam se acostumado a chamá-lo de pequeno Lapointe. Era alto e magro na época. Depois, encorpara 14 SIMENON um pouco. Casara. Tivera dois filhos. Mas não deixara de ser o pequeno Lapointe, e alguns acrescentavam: o favorito de Maigret. – Tenho, em meu gabinete, uma mulher que insiste em falar com o senhor pessoalmente. Não quer me dizer nada. Continua ereta em sua cadeira, imóvel e decidida a conseguir o que quer. Aquilo era comum. Algumas pessoas, por causa dos artigos nos jornais, insistiam para vê-lo pessoalmente e muitas vezes era difícil fazer com que mudassem de ideia. Alguns, inclusive, que conseguiam Deus sabe como o endereço de sua casa, iam bater no Boulevard Richard-Lenoir. – Ela disse o nome? – Aqui está o seu cartão. Senhora Sabin-Levesque Boulevard Saint-Germain, 207 B – Ela me parece estranha – disse Lapointe. – Tem o olhar parado e uma espécie de tique nervoso que faz descer o canto direito de seus lábios. Não tirou as luvas, mas dá para ver que seus dedos estão crispados. – Faça-a a entrar e fique aqui. Pegue seu bloco de estenografia, para o caso de precisar. Maigret olhou para os cachimbos e soltou um suspiro de pesar. O recreio terminara. Quando a mulher entrou, ele se levantou. – Queira sentar-se, senhora... Ela o olhava fixamente. – O senhor é de fato o comissário Maigret? – Sim. – Imaginei-o mais gordo. Ela usava um casaco e um gorro de pele. Seria vison? Maigret não entendia nada do assunto, pois a mulher de um MAIGRET E O SUMIÇO DO SR. CHARLES 15 comissário de divisão na maioria das vezes se contenta com coelho ou, no melhor dos casos, lontra ou doninha. O olhar da sra. Sabin-Levesque passeava lentamente pelo gabinete, como se fizesse um inventário. Quando Lapointe se instalou na ponta de escrivaninha, com bloco e lápis, ela perguntou: – Este jovem vai ficar aqui? – Claro. – Ele vai tomar notas de nossa conversa? – É a regra. Sua fronte se enevoou e seus dedos se crisparam sobre a bolsa de couro de crocodilo. – Pensei que poderia ter com o senhor uma conversa confidencial. Maigret não respondeu. Observava sua cliente e, como Lapointe, achava-a no mínimo estranha. Ora seu olhar era de uma fixidez incômoda, ora parecia ausente. – Imagino que o senhor saiba quem sou... – Li seu nome no cartão. – O senhor sabe quem é meu marido? – Sem dúvida, deve usar o mesmo nome que a senhora. – É um dos notários mais importantes de Paris. Sempre aquele tique, o canto dos lábios que descia estremecendo. Ela parecia ter dificuldade em manter o sangue-frio. – Continue, por favor. – Ele desapareceu. – Nesse caso, não é comigo que a senhora deve falar. Existe um serviço especial que se encarrega dos desaparecimentos. Ela esboçou um sorriso irônico, sem alegria, e não se deu o trabalho de responder.