Maria de Lourdes Spazziani Pedro G. Fernandes da Silva Planejamento e Avaliação em Projetos de Educação Ambiental Edição revisada IESDE Brasil S.A. Curitiba 2012 © 2006 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ S726p Spazziani, Maria de Lourdes. Planejamento e avaliação em projetos de educação ambiental / Maria de Lourdes Spazziani, Pedro G. Fernandes da Silva. - 1.ed., rev. e atual. - Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2012. 226p. : 28 cm Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-2978-5 1. Educação ambiental. 2. Gestão ambiental. I. Fernandes-da-Silva, Pedro G. II. Título. 12-5026. CDD: 363.7 CDU: 504 16.07.12 31.07.12 037534 Capa: IESDE Brasil S.A. Imagem da capa: Shutterstock IESDE Brasil S.A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br Sumário Impacto Ambiental I.............................................................................................................7 Ecologia e análise ambiental....................................................................................................................7 Histórico...................................................................................................................................................10 Áreas afetadas...........................................................................................................................................14 Desenvolvimento sustentável...................................................................................................................14 Impacto Ambiental II............................................................................................................19 Legislação geral e resoluções do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente)...............................19 Avaliação de Impacto Ambiental (AIA)...................................................................................................20 EIA/RIMA – elaboração...........................................................................................................................21 Manual de Licenciamento Ambiental........................................................................................29 Atividades relacionadas............................................................................................................................29 Esferas de exigência.................................................................................................................................34 Tipos de licença........................................................................................................................................35 Obtenção das licenças...............................................................................................................................36 Procedimentos da Feema..........................................................................................................................39 Recomendações........................................................................................................................................41 Prazos para licenciamento........................................................................................................................42 Funcionando.............................................................................................................................................42 Cancelamento...........................................................................................................................................43 Custos.......................................................................................................................................................43 Responsabilidades e penalidade...............................................................................................................43 Sanções.....................................................................................................................................................44 Estudos de caso I...................................................................................................................47 Abordagem sistêmica................................................................................................................................47 Sistemas agrícolas.....................................................................................................................................50 Estudos de caso II ................................................................................................................59 Localização...............................................................................................................................................60 Caracterização...........................................................................................................................................61 Histórico/problema...................................................................................................................................62 Infrações cometidas..................................................................................................................................63 Proposta de solução..................................................................................................................................63 Possíveis impactos....................................................................................................................................65 ISO 9000...............................................................................................................................67 O que é uma Norma?................................................................................................................................67 A ISO 9000...............................................................................................................................................68 ISO 14000..............................................................................................................................77 O que é uma Norma?................................................................................................................................77 A ISO 14000.............................................................................................................................................77 Implementação..........................................................................................................................................82 Conclusão.................................................................................................................................................84 Agenda 21.............................................................................................................................85 Histórico...................................................................................................................................................85 Propostas...................................................................................................................................................85 Sistemas de integração ambiental.............................................................................................................86 Gerenciamento de riscos...........................................................................................................................90 Conclusão.................................................................................................................................................93 Avaliação de danos ambientais I...........................................................................................95 Saneamento ambiental e ecologia.............................................................................................................95 Controle ambiental da água......................................................................................................................101 Controle ambiental do ar..........................................................................................................................105 Conclusão.................................................................................................................................................110 Avaliação de danos ambientais II.........................................................................................111 Controle ambiental de resíduos................................................................................................................111 Definição...................................................................................................................................................112 Classificação.............................................................................................................................................112 Destinação.................................................................................................................................................114 Controle ambiental de áreas verdes..........................................................................................................123 Modificações ambientais..........................................................................................................................123 Conclusão.................................................................................................................................................123 Áreas degradadas..................................................................................................................125 Áreas urbanas degradadas.........................................................................................................................125 Recuperação..............................................................................................................................................128 Passivo ambiental.....................................................................................................................................130 Conclusão.................................................................................................................................................132 Planejamento de projetos em Educação Ambiental................................................................135 Conceituando planejamento, projeto e Educação Ambiental...................................................................135 Como planejar um projeto em Educação Ambiental................................................................................137 Planejamento estratégico......................................................................................................141 Estratégia, tática e operação em Planejamento Ambiental.......................................................................141 Metodologia de planejamento estratégico em Educação Ambiental........................................................142 Planejamento Participativo (PP)...........................................................................................149 Participação...............................................................................................................................................149 Planejamento de projetos de intervenção socioambiental......................................................159 Definindo intervenção socioambiental.....................................................................................................160 Ambientalização institucional...............................................................................................167 Um conceito de ambientalização..............................................................................................................168 Ambientalização e princípios da responsabilidade social........................................................................168 Enraizamento da Educação Ambiental em diferentes contextos I........................................177 Projetos da esfera pública – contexto nacional.........................................................................................178 Política Estadual de Educação Ambiental ...............................................................................................180 Enraizamento da Educação Ambiental em diferentes contextos II.......................................185 Conferências, congressos e similares.......................................................................................................185 Redes de Educação Ambiental..................................................................................................................186 A formação de educadores ambientais I...............................................................................195 Histórico da Educação Ambiental no Brasil.............................................................................................195 A formação de educadores ambientais II..................................................................................205 O educador na estrutura coletiva: nova percepção do mundo..................................................................205 Perspectivas para educadores ambientais.................................................................................................207 Avaliação de projetos em Educação Ambiental I...................................................................209 Definição e implicações da avaliação.......................................................................................................211 Metodologia de avaliação.........................................................................................................................212 Avaliação de projetos em Educação Ambiental II............................................................................217 Desafios da avaliação................................................................................................................................217 A questão emancipatória...........................................................................................................................220 Organização comunitária..........................................................................................................................220 Impacto Ambiental I Pedro G. Fernandes da Silva* Ecologia e análise ambiental P ara entendermos o que significa Impacto Ambiental (IA) podemos recorrer a vários métodos: dicionário, literatura técnica e, até mesmo, ao senso comum. De acordo com o dicionário Aurélio (FERREIRA, 1986), impacto pode significar “encontro de projétil com o alvo”, “colisão de dois ou vários corpos”, “abalo moral” e, inclusive, “impressão muito forte”. Em qualquer dos significados, o aspecto ambiental não é referido; quando muito, poderíamos imaginar que determinado indivíduo (ou grupo de indivíduos) ficaria com uma “impressão muito forte” ao ver alguma coisa diferente ocorrendo no ambiente. Na literatura técnica, IA pode significar “mudança induzida pelo homem no ambiente natural”. No entanto, ainda na literatura técnica, podemos encontrar algumas pequenas diferenças. Por exemplo, Branco (1998) sugere que impactos ambientais podem ser causados pelo homem, mas também por fenômenos naturais. Em relação ao senso comum, podemos imaginar que quando algo parece não estar funcionando bem já pode ser considerado um IA, independente da origem e/ou causa. Independente das definições acima, poderíamos inferir que, desde que algo esteja em desacordo com uma aparente “harmonia ambiental”, já poderíamos chamar de IA. Em nossa abordagem, utilizaremos a definição de IA como alguma modificação danosa ao meio ambiente, no sentido de interromper um aparente equilíbrio natural, independente de origem ou causa, por ser uma definição mais abrangente. Para uma adequada compreensão desse “equilíbrio natural”, devemos tentar compreender como um ambiente natural funciona, ou seja, como funciona um ecossistema. Utilizando a Teoria de Sistemas, utilizada por Odum (1988), temos que um ecossistema pode ser definido como uma área qualquer (Sistema – S), abastecida de matéria e/ou energia, a partir de um local (ou conjunto de locais) denominado Ambiente de Entrada (AE); essa matéria e/ou energia é que irá sustentar (manter vivos) todos os organismos presentes nesse sistema. Todos os organismos presentes nesse S considerado utilizam a energia e/ou matéria, liberando energia (1.ª e 2.ª leis da Termodinâmica1) e/ou matéria. A energia não é reaproveitada (1.ª e 2.ª leis da Termodinâmica), mas a matéria pode ser (processos de reciclagem – na natureza são os ciclos biogeoquímicos). A matéria e/ou energia que deve sair desse S, por não poder ser reaproveitada, irá para um local (ou conjunto de locais) denominado Ambiente de Saída (AS). Doutor em Ciências, pela Universidade de São Paulo (USP) – Ribeirão Preto. 1 1.ª Lei da Termodinâmica – num sistema isolado a energia interna permanece constante. 2.ª Lei da Termodinâmica – a entropia do Universo aumenta numa transformação espontânea e se mantém constante numa situação de equilíbrio. 7 Impacto Ambiental I Ambiente de Entrada (AE) (Local de origem da matéria e/ ou energia que entra no sistema considerado) (ODUM, 1988. Adaptado.) Os conceitos observados anteriormente podem ser visualizados a seguir. Ambiente de Saída (AS) (Local de destino da matéria e/ou energia que sai do sistema considerado) Sistema (S) Aspecto gráfico da definição de ecossistema. A ação conjunta do AE + S + AS, com suas relações (seres vivos entre si e seres vivos com o AE, S e AS), possui características de equilíbrio, em função dos seres vivos que compõem o S e das características presentes nos AE, S e AS. Um exemplo desse tipo de equilíbrio pode ser considerado ao analisarmos os diversos ecossistemas existentes no planeta Terra. Consideremos a Floresta Amazônica: a floresta em si é o S que passamos a analisar, independente de qual porção (ou tamanho) da floresta é analisada. O AE da Floresta Amazônica é constituído pelo Sol (que fornece energia luminosa), pela atmosfera (que fornece CO2, O2 e água) e pelas áreas ao redor, que fornecem material (solo, por exemplo) e indivíduos de algumas populações que conseguem entrar e se manter nesse S. O AS da Floresta Amazônica é constituído pela atmosfera (que recebe CO2, O2 e água) e pelas áreas ao redor, que recebem material (solo, por exemplo) e indivíduos de algumas populações que conseguem sair e se manter fora desse S. Z Y ZX YX Modelo sistêmico geral, com entradas (Z) e saídas (Y). O estado do sistema e o seu comportamento ao longo do tempo dependem da interação da entrada externa Z com a entrada ZX do circuito interno de retroalimentação. Também ocorre dependência da saída externa Y com a saída interna YX. 8 (ODUM, 1988. Adaptado.) Quando analisamos um S natural (que é um S que existe sem necessitar da ação antrópica), a importância dos AE e AS é relativa, uma vez que boa parte da matéria consegue ser reciclada dentro do próprio S; é o que se chama de circuito de retroalimentação (ou reciclagem). Impacto Ambiental I Assim, S naturais de grande porte necessitam de pouca coisa do AE (no caso da Floresta Amazônica, praticamente só a luz do Sol) e liberam quase nada para o AS (relativamente pouco solo é perdido na Amazônia). Os circuitos de retroalimentação são realizados através de processos de reciclagem que, na natureza, são denominados ciclos biogeoquímicos. Esses circuitos são, quando em equilíbrio, tão eficientes que praticamente todo o O2 produzido na fotossíntese da Floresta Amazônica é utilizado na respiração pelos organismos presentes na própria floresta. A situação de equilíbrio encontrada nos ecossistemas naturais pode ser rompida de várias formas, por ações da própria natureza. É o caso do surgimento de vulcões, terremotos, tsunamis (ondas gigantes), queimadas (espontâneas, por raios ou falta de umidade por tempos longos) etc. Dependendo da magnitude do fenômeno natural o S natural pode se recompor em mais ou menos tempo, ou mesmo não se recompor, como foi o caso da região de Pompeia, totalmente destruída pelo vulcão Vesúvio. Wikipédia. Wikipédia. Evidentemente, o equilíbrio encontrado em ecossistemas naturais também pode ser rompido através da ação antrópica; como abordaremos mais adiante neste capítulo. Um exemplo disso é a espuma nos rios causada por produtos não biodegradáveis. Tornado em Union City, Oklahoma – EUA. Vulcão Kanaga no Alaska. Dentro do contexto de equilíbrio dos ecossistemas, observa-se que alterações nesse “equilíbrio” podem gerar os consequentes “desequilíbrios”. A partir da possibilidade de ocorrência desses desequilíbrios, ocasionados pela atividade antrópica, procura-se estabelecer procedimentos para que tais desequilíbrios não ocorram, ou possam ser mitigados (minimizados). A esse tipo de processo damos o nome de análise ambiental que, em poucas palavras, pode ser definida como: avaliação das modificações ambientais, presentes ou futuras, visando evitá-las e/ou mitigá-las, através de bases metodológicas, ou seja, procurar, através da experiência anterior, evitar e/ou minimizar eventuais efeitos deletérios que as 9 Impacto Ambiental I modificações ambientais possam ocasionar. Para isso, a atuação de diferentes áreas é absolutamente necessária, como a Biologia, a Engenharia Civil, a Arquitetura, a Agronomia, entre outras, além da área da Educação, particularmente a da Educação Ambiental, que privilegia a prevenção da ocorrência de danos ambientais por meio da explicação, prática e sociabilidade de conceitos de preservação ambiental, entre outras formas de atuação. Histórico Desde o surgimento da Revolução Industrial, a humanidade experimenta um contínuo crescimento de sua população. Em função desse crescimento, alia-se uma crescente necessidade de bens de consumo, originada pelas facilidades provenientes da Revolução Industrial. Os bens de consumo são originados a partir do uso dos recursos naturais, como matérias-primas para qualquer processo de fabricação. (BRAGA et al., 2002) Essa relação aumento da população uso de recursos naturais leva a uma terceira componente, que é a “sobra” de resíduos, originada a partir dos processos de fabricação e uso dos bens de consumo. Exemplificando: uma indústria gera resíduos no processo de fabricação (refugo de material, esgoto etc.) e a população produz resíduos a partir da utilização dos bens de consumo (aparelhos estragados, embalagens etc.). Esses resíduos não podem ficar dentro do sistema em que vivem os seres humanos, sob pena de gerar problemas de saúde, contaminação de água etc. A terceira componente pode, então, ser denominada de poluição, sob os mais variados aspectos. As relações descritas acima compõem um triângulo, como pode ser visto a seguir. População Recursos naturais Poluição Relações entre população – recursos naturais – poluição, onde um vértice afeta diretamente o outro. Deve-se notar que, em função da atividade humana, um vértice do triângulo afeta o outro diretamente e ainda traz efeitos sobre si próprio. Por exemplo, se a população usa demais os recursos naturais, corre-se o risco de que os mesmos acabem e/ou não tenham mais a mesma qualidade, de forma que a população passe a sofrer a escassez de matéria-prima, deixando de usufruir dos bens de consumo. Essas relações não foram notadas durante muito tempo, uma vez que se tinha a ideia errônea de que os recursos naturais eram “infinitos”; evidentemente, com o crescimento populacional essa ideia mudou. O cerne da questão está em que o crescimento populacional não pode ser infinito, qualquer que seja o sistema considerado. A questão de crescimento populacional pode ser abordada usando-se o conceito de capacidade de suporte, emprestado da Ecologia que, resumidamente, diz: “uma população qualquer não pode crescer indefinidamente, sob pena de esgotamento dos recursos naturais como abrigo, alimento, problemas de doenças, parasitismo, entre outros”. Significa dizer que, na prática, todo e qualquer sistema tem um limite de recursos, denominado capacidade de suporte, além do qual uma população passa 10 Impacto Ambiental I a experimentar um decréscimo na sua quantidade de indivíduos, ou seja, começa a ocorrer a morte dos indivíduos dessa população em função da depleção dos recursos naturais. Capacidade de suporte Ultrapassou Máxima K K1 (ODUM, 1988) O conceito de capacidade de suporte pode ser mais bem evidenciado na figura a seguir, que mostra o comportamento de uma população ao longo do tempo. Conforme aumenta o seu número de indivíduos, essa população se aproxima da capacidade de suporte do sistema considerado. Ultrapassando esse limite, principia o declínio populacional (mortes), até que essa população atinja níveis populacionais (número de indivíduos) que estejam abaixo da capacidade de suporte. Pode (ou não) ocorrer uma estabilização do número de indivíduos, ou uma flutuação, abaixo ou ao redor, respectivamente, da linha de capacidade de suporte. Faixa de variação Tamanho Ótima Tempo Gráfico ilustrando o conceito de capacidade de suporte de uma população, mostrando a relação do tamanho da população ao longo do tempo. A gradativa mudança da ideia de que os recursos naturais não são infinitos passou a ocorrer em função de diversos Impactos Ambientais, que podem ser definidos como os efeitos ecológicos, econômicos e sociais que podem advir de fenômenos naturais e/ou da implantação de atividades antrópicas. A origem dos IA pode ser por causas naturais (tsunamis, furacões, terremotos, entre outros) e/ou por causa antrópicas (assoreamento de mangues por ocupações irregulares, assoreamento de rios, acidentes com navios petroleiros – caso do Exxon Valdez, no Alasca – lixões, queimadas, entre outros). Uma diferença é que o homem tem a capacidade de produzir os IA em maior quantidade, e por um tempo mais longo (IA crônico) em função de algumas de suas atividades, o que é raro para os IA de causas naturais. Uma vez que as modificações antrópicas são mais frequentes, a preocupação ambiental passou a fazer parte das discussões entre membros da comunidade científica, da comunidade jornalística e, por fim, atingiu a esfera política. A seguir, apresentamos os principais eventos de IA produzidos pela ação antrópica e algumas das principais ações políticas decorrentes desses IA (DIAS, 2001). 1920 – O pau-brasil é considerado extinto. 1952 – Smog (junção das palavras em inglês smoke = fumaça e fog = neblina, ou seja, uma “neblina de fumaça”) em Londres. Mais de mil pessoas morrem. 11 Impacto Ambiental I 1962 – Livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, nos EUA, sobre a poluição cumulativa causada por pesticidas. Algumas espécies de aves colocavam seus ovos sem uma casca endurecida, devido à ação cumulativa do inseticida DDT (diclorodifeniltricloretano), o que acabava matando seus filhotes durante o período de incubação. 1968 – Fundação do Clube de Roma, um grupo financiado por um milionário italiano para realizar estudos internacionais sobre a crise ambiental prevista. 1969 – Aprovada a NEPA (National Environment Policy Act) nos EUA (equivale à nossa Política Nacional de Meio Ambiente – PNMA). Institui-se a execução da primeira Avaliação de Impacto Ambiental (AIA), resultando em um documento denominado Environmental Impact Statement (EIS), equivalente ao nosso Estudo de Impacto Ambiental (EIA). Importante ressaltar que a execução do AIA passa a ser de caráter interdisciplinar para projetos, planos e programas de intervenção no meio ambiente, contando com a participação da sociedade civil (pela primeira vez), por meio de audiências públicas. 1972 – O Clube de Roma publica o relatório “Limite do crescimento”. Conferência de Estocolmo (ONU), na Suécia – primeira discussão internacional sobre as questões políticas, sociais e econômicas, geradoras de impacto ambiental, com perspectiva de produzir medidas corretivas e de controle. “Reintrodução” do pau-brasil. Primeira Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) no Brasil: usinas hidrelétricas (UHE) de Sobradinho e Tucuruí necessitam de EIA/ RIMA para serem produzidas. O interessante é que primeiro as usinas começaram a ser construídas, e só depois da construção (na realidade, perto da conclusão das obras), é que foi necessário produzir os devidos EIA/RIMA. 1973 – Fundação da Secretaria Especial de Meio Ambiente (SEMA), sob direção do Prof. Dr. Paulo Nogueira-Neto – considerado por muitos como o mentor do movimento ambientalista brasileiro. 1977 – Conferência em Tbilisi (Geórgia, antiga União Soviética); prolongamento da conferência de Estocolmo. Definição de conceitos, objetivos, características e princípios para a Educação Ambiental (entendimento do meio ambiente na sua totalidade). Os trabalhos objetivaram a análise do Meio Ambiente tanto em seus aspectos “naturais” quanto nos criados pela humanidade. 1980 – Promulgação da Lei 6.803, sobre zoneamento industrial, já prevendo os primeiros EIA/RIMA para indústrias químicas e afins (polos petroquímicos, cloroquímicos, carboquímicos e instalações nucleares). 12 1981 – Lei 6.938 é sancionada (lei sobre a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), seus fins e mecanismos de formulação e aplicação). Impacto Ambiental I E também a Lei 6.902, que dispõe sobre a criação de estações ecológicas, áreas de proteção ambiental e dá outras providências. 1984 – Estabelecimento do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Vazamento de gás metil-isocianato (altamente tóxico) na Índia, com mais de duas mil mortes. Esse acidente é considerado o início do período moderno da política ambiental, para que fatos como esse não ocorram mais. 1986 – Aprovação da Resolução 001 do Conama, que estabelece responsabilidades, critérios básicos e diretrizes gerais para uso e implementação da Avaliação de Impacto Ambiental (AIA), como parte da PNMA, estabelecendo a implantação dos estudos de impacto ambiental (EIA) e Relatório de Impacto Ambiental (RIMA). Acidente nuclear de Chernobyl, na União Soviética. 1987 – Divulgação do relatório Nosso Futuro Comum, da Comissão Brundtland, fruto da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada em 1983, na Suécia. Definição formal (mesmo tímida) de desenvolvimento sustentável. A comissão Brudtland foi criada com o objetivo de reexaminar os principais problemas do ambiente e do desenvolvimento, em termos mundiais, de formular propostas realistas para solucioná-los e de assegurar um progresso sustentável, através do desenvolvimento, sem comprometer os recursos para as futuras gerações. Na verdade, esse objetivo acabou se transformando na “primeira” definição de desenvolvimento sustentável. Acidente nuclear com Césio 137, em Goiânia. 1988 – Nova Constituição Federal do Brasil, considerada, até hoje, a mais avançada em questões ambientais. 1989 – Criação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama (fusão dos extintos Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), Superintendência para o Desenvolvimento da Pesca (Sudepe) e Superintendência da Borracha (sudhevea) o gênero da seringueira é hevea, na Amazônia). Acidente do superpetroleiro Exxon Valdez, no Alasca; 42 mil toneladas de óleo cru vazam, e o prejuízo é da ordem de US$ 1 bilhão. 1990 – Conferência Mundial sobre o Clima, em Genebra. Promulgação do Decreto 99.274, que regulamenta as Leis 6.902/81 e 6.938/81, além de estabelecer o Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama). 1992 – Conferência Rio/92 (Eco 92). Lançamento da Agenda 21 e definição formal de desenvolvimento sustentável. É corroborada a Conferência de Tbilisi. 13 Impacto Ambiental I A Agenda 21 é um conjunto de intenções entre os países, que devem ser posteriormente discutidas em maiores detalhes, transformadas em leis e realizadas as suas implantações para o “terceiro milênio” (século XXI). 1994 – Conferência sobre População e Desenvolvimento, no Cairo. Essa conferência objetiva melhorar a qualidade de vida dos pobres, por meio do controle populacional. 1997 – Conferência de Kyoto, sobre controle de emissão de poluentes atmosféricos, causadores do efeito estufa (CO2, CH4, NOx – óxidos de nitrogênio – entre outros). Há uma concordância teórica na necessidade de redução desses gases, em aproximadamente 5% (relativos a 1999), até 2008/2012. 1998 – Assinatura da Lei 9.605, sobre os crimes ambientais. 1999 – Regulamentação da Lei 9.605, através do Decreto 3.179. 2001 – Ratificação do Protocolo de Kyoto, com exceção dos Estados Unidos. Os Estados Unidos são responsáveis por cerca de 42% da emissão de gases que contribuem com o efeito estufa do planeta, principalmente o CO2, originado nas fábricas (queimam carvão e petróleo como fonte de energia), nos veículos (utilizam petróleo como combustível), em residências (utilizam carvão para aquecimento, durante o inverno rigoroso), entre outros. O principal motivo alegado para a não ratificação do Protocolo de Kyoto é um provável desaquecimento da economia do país, uma vez que as fábricas não teriam como se adequar a outras fontes de energia, em um tempo tão curto. 2002 – Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, em Johannesburgo, na África do Sul (Rio + 10), para efetiva implantação da Agenda 21. Segundo vários autores, um fracasso. Áreas afetadas A ação antrópica, como já discutido, é capaz de alterar as características de um sistema, provocando seu desequilíbrio. Esse desequilíbrio pode ser constatado na utilização dos recursos naturais, que passa a ser prejudicada, seja pela falta ou pela alteração na qualidade desses recursos. Vários exemplos podem ser tomados, sendo que os principais são a perda de solo fértil por processos de erosão, decorrentes de ocupação irregular de uma dada área, contaminação de lençol freático, deposição inadequada de resíduos sólidos, queimadas etc. Desenvolvimento sustentável Como já mencionado anteriormente, a primeira tentativa de definição do que seja desenvolvimento sustentável ocorreu em 1987, através da Comissão Brundtland. Formalmente, a definição: “Desenvolvimento sustentável é o que 14 Impacto Ambiental I satisfaz as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade de as gerações futuras satisfazerem as suas” (UNESCO, 1999). Antes de esse raciocínio ser atingido, a humanidade trabalhava com um modelo de desenvolvimento que, para ser sustentado, deveria possuir os seguintes pré-requisitos (BRAGA et al., 2002): suprimento inesgotável de energia; suprimento inesgotável de matéria; capacidade infinita do meio ambiente reciclar a matéria e absorver os resíduos. Com relação à energia, o primeiro pré-requisito pode ser considerado correto, uma vez que a principal fonte de energia de todos os ecossistemas existentes no planeta Terra é o Sol, uma estrela que, ao que tudo indica, ainda pode fornecer energia luminosa pelos próximos 5 bilhões de anos (BRAGA et al., 2002). Já para os dois outros pré-requisitos, sabe-se que a matéria é finita e sua quantidade é conhecida, assim como se pode perceber que os diversos sistemas sofrem profundas modificações com relação ao seu poder de absorver e reciclar os tipos de resíduos liberados pelas diversas atividades humanas (BRAGA et al., 2002). Dessa forma, como já visto, um contínuo crescimento populacional humano, associado também a uma contínua exploração dos recursos naturais, rompe com a capacidade de um crescimento contínuo e vigoroso da população humana e de suas necessidades. Se não houver uma mudança, os recursos fatalmente irão se esgotar e/ou perder a sua qualidade de aproveitamento. Deve-se repensar esse modelo “perverso”, sob pena de colapso do planeta, com as inevitáveis consequências para a população humana. De acordo com uma nova forma de pensamento, o desenvolvimento sustentável só pode ser atingido a partir do momento em que utilizarmos de forma racional e objetiva os recursos naturais, bem como, de alguma maneira, seja possível haver algum controle do crescimento populacional e as necessidades apresentadas pelos seres humanos. De uma maneira resumida, esse novo modelo de desenvolvimento sustentável deve seguir os seguintes pré-requisitos (BRAGA et al., 2002): dependência de suprimento externo e contínuo de energia (Sol); uso racional da energia e da matéria, com ênfase à conservação, em contraposição ao desperdício. Esse pré-requisito é particularmente importante quando se refere ao atual tipo de energia que desenvolve a humanidade, do tipo fóssil, ou seja, finita (petróleo e carvão, principalmente); promoção da reciclagem e da reutilização dos materiais; controle da poluição, gerando menos resíduos para serem absorvidos pelo ambiente. Quando não for possível a geração de uma menor quantidade de resíduos, deve haver a implantação de medidas tecnológicas de controle e/ou atenuação desses resíduos; controle do crescimento populacional em níveis aceitáveis, com perspectivas de estabilização da população. 15 Impacto Ambiental I De forma sucinta, um dos pilares do desenvolvimento sustentável é a prática dos três “R”: reutilizar, reciclar e reduzir (o consumo). A prática dos três “R” deve ser utilizada em toda a cadeia produtiva, desde a exploração dos recursos naturais, passando pelas etapas de processamento e transporte, até o seu consumo final. Esses aspectos podem ser visualizados na figura a seguir. Energia Uso de recursos Processamento Modificação Recursos Transporte Recuperação Consumo (BRAGA et al., 2002) O sistema sustentável para os humanos de recursos Impacto minimizado pela restauração ambiental Modelo de Desenvolvimento Sustentável. Como pudemos perceber, as relações dentro de um ecossistema são intrincadas e dependentes umas das outras. Uma alteração provocada em um determinado local pode afetar outro, mesmo que não percebamos isso de uma forma direta. Independente desse fato, podemos chamar a essas alterações de impactos ambientais. O uso dos recursos naturais deve ser feito com parcimônia, para evitarmos uma degradação ambiental que, de alguma forma, poderá afetar as nossas atividades. Se alteramos significativamente o ambiente, eliminando alguns de seus componentes, devemos atentar para, na medida do possível, recompor e/ou criar metodologias que substituam esses componentes, como é o caso das usinas de reciclagem. Pesquisar em jornais e na internet sobre as formas de reciclagem existentes em indústrias, bairros etc. Analise o envolvimento da sociedade com a prática da reciclagem e compare com a prática exercida pelas empresas. BRANCO, Samuel M. Energia e Meio Ambiente. São Paulo: Moderna, 1990. 16 Impacto Ambiental I BRAGA, Benedito et al. Introdução à Engenharia Ambiental. São Paulo: Prentice Hall, 2002. BRANCO, Samuel M. O Meio Ambiente em Debate. São Paulo: Moderna, 1998. DIAS, Genebaldo F. Educação Ambiental: princípios e práticas. São Paulo: Gaia, 2001. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. LOPES, Sônia G. B. C. Bio. São Paulo: Saraiva, 1997. v. 3. MAURO, Claudio A. (Coord.). Laudos Periciais em Depredações Ambientais. São Paulo: IGCEUNESP, 1997. ODUM, Eugene P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988. UNESCO. Educação para um Futuro Sustentável: uma visão transdisciplinar para ações compartilhadas. Brasília: IBAMA, 1999. 17 Impacto Ambiental I 18