UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE – CCS DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO FÍSICA – DEF PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO FÍSICA – PPGEF ORIENTADORA: Dra. MARIA ISABEL BRANDÃO DE SOUZA MENDES HUDSON PABLO DE OLIVEIRA BEZERRA CORPO E SAÚDE: REFLEXÕES SOBRE O QUADRO “MEDIDA CERTA” NATAL – RN 2012 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE – CCS DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO FÍSICA – DEF PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO FÍSICA – PPGEF ORIENTADORA: PROFª. Dra. MARIA ISABEL BRANDÃO DE SOUZA MENDES HUDSON PABLO DE OLIVEIRA BEZERRA CORPO E SAÚDE: REFLEXÕES SOBRE O QUADRO “MEDIDA CERTA” NATAL – RN 2012 HUDSON PABLO DE OLIVEIRA BEZERRA CORPO E SAÚDE: REFLEXÕES SOBRE O QUADRO “MEDIDA CERTA” Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação Física – PPGEF, linha de pesquisa “Estudos Sócio-Filosóficos sobre o Corpo e o Movimento Humano”, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, como requisito para obtenção do título de Mestre em Educação Física. Orientadora: Dra. Maria Isabel Brandão de Souza Mendes. NATAL – RN 2012 Catalogação da Publicação na Fonte. UFRN / Biblioteca Central Zila Mamede Bezerra, Hudson Pablo de Oliveira. Corpo e saúde: reflexões sobre o quadro “medida certa”. / Hudson Pablo de Oliveira Bezerra. – Natal, RN, 2012. 206 f.; il. Orientadora: Dra. Maria Isabel Brandão de Souza Mendes. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências da Saúde. Programa de Pós-Graduação em Educação Física. 1. Educação física – Dissertação. 2. Corpo – Dissertação. 3. Saúde - Dissertação. 4. Mídia – Dissertação. 5. Medida Certa – Dissertação. I. Mendes, Maria Isabel Brandão de Souza. II. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Título. RN/UF/BCZM CDU 796 Dedico este trabalho a minha mãe, Maria Dolores de Oliveira Bezerra, mulher de força, fé e coragem, que sempre enfrentou os desafios impostos pela vida não medindo esforços para proporcionar uma boa educação e formação aos seus filhos. Especialmente durante este processo de formação em nível de mestrado em que lutou de forma incansável pela vida, não desanimando e não me deixando desanimar, mostrando que com amor, fé e união muitos problemas podem ser superados. A ela e a todos pacientes oncológicos que lutam cotidianamente pela vida, dedico este trabalho. AGRADECIMENTOS A Deus, entidade maior de minha fé, ponto de confiança e reconciliação para os problemas enfrentados durante toda a trajetória de formação e demais experiências da vida. A minha mãe Maria Dolores e a minha irmã Poliana Nara, mulheres de minha vida, pelo incentivo, apoio, paciência e por tudo que sempre fizeram e fazem por mim. Não saberei expressar com palavras a admiração e o carinho que sinto por vocês. Aos avós, tios, primos e demais familiares que sempre estiveram na torcida incentivando e apoiando, especialmente nos momentos mais difíceis em que minhas bases de sustentação passaram por abalos. A minha orientadora, Dra. Maria Isabel Brandão de Souza Mendes, que me acompanhou de forma intensa durante todo esse processo, apontando sempre os direcionamentos necessários para a construção de um bom trabalho e de uma formação de qualidade. Aos professores do Mestrado em Educação Física da UFRN que compartilharam seus conhecimentos e produções nas aulas, seminários, eventos, reuniões, entre outros momentos da formação. Ao Departamento de Educação Física da UFRN ao qual agradeço em nome dos professores: Dr. José Pereira de Melo e Dra. Maria Aparecida Dias. Ao Programa de Pós-Graduação em Educação Física da UFRN ao qual agradeço em nome da professora Dra. Terezinha Petrucia da Nóbrega. A CAPES pela concessão da bolsa. Ao professor e amigo Bertulino José de Souza por toda confiança depositada e incentivos prestados para que este sonho pudesse se tornar realidade. Bem como aos professores e amigos da UERN: Themis Cristina, Helder Câmara, Lúcia Lira, Ubilina Maia e Suênia Duarte; que muito contribuíram na minha graduação em Educação Física e que sempre estiveram acompanhando o processo de formação no Mestrado incentivando e se disponibilizando a me ajudar no que fosse preciso. Aos amigos, aqueles com quem compartilhei os bons e os maus momentos. Agradeço a paciência e a força demandada nos momentos em que foram solicitados. Agradeço a todos em nome de dois que se fizeram presentes de forma mais intensa nesse processo de formação: Márcia e Aedson. Aos companheiros da primeira turma do Mestrado em Educação Física da UFRN: Gertrudes, André Igor, André Osvaldo, Radamés, Christiane, Richardson, e de forma bem especial à Rodolfo Pio, Thays Macêdo e Jefferson Eufrásio com os quais convivi de forma mais próxima. Quero guardá-los para sempre! Aos colegas e amigos proporcionados por intermédio do Mestrado: Rayane Nóbrega, Hellyson Ribeiro, Moaldecir, Judson, Aline Prezotto, Hosana, Ingridh, Dianne, Valdemar, Fátima, Mackson, Patrícia, Paula Nunes, Dandara entre outros que no momento posso não ter lembrado. Enfim, agradeço a todas as pessoas que contribuíram e contribuem para a realização dos meus sonhos, sendo o Mestrado um desses, o meu muito obrigado! O homem ocidental aprende pouco a pouco o que é ser uma espécie viva num mundo vivo. (FOUCAULT, 2011, p. 155) RESUMO O cenário atual encontra-se permeado por diversas compreensões a respeito do corpo e da saúde. Estas são frutos de um processo histórico vivenciado pelos homens em diferentes épocas e contextos sociais através dos quais foram sendo construídas. Diante deste cenário, destacamos a mídia como um poderoso meio de informação e formação de ideias no que concerne ao corpo e à saúde. A mídia também, enquanto meio de mediação de informações nos apresenta características do cenário social em que está inserida. Em nossa pesquisa trazemos como objetivo refletir sobre as compreensões, saberes e práticas propagadas a propósito do corpo e da saúde no quadro “Medida Certa” do programa Fantástico da emissora Rede Globo de Telecomunicações, no sentido de identificar como a Educação Física, tem contribuído com a construção dos conhecimentos divulgados. Para tanto, direcionamos nossas análises ao quadro “Medida Certa” exibido pelo Fantástico nos meses de abril, maio e junho de 2011. Os dados para análise foram coletados através dos vídeos exibidos ao vivo no Fantástico e das informações disponibilizadas no blog do referido quadro. Assim, tivemos 14 vídeos exibidos ao vivo, 16 vídeos postados no blog e 97 postagens no blog. Como técnica de análise dos dados utilizamos da análise de conteúdo de Bardin (2011). Sobre o corpo obtivemos como categorias de análise: corpo como sistema operacional; corpo biológico; corpo fragmentado e exterior ao sujeito; corpo quantificado e atrelado a padrões; e, corpo sujeito. Quanto à saúde analisamos as categorias de: saúde baseada em índices de normalidade biológica; saúde associada ao emagrecimento e à padrões estéticos; saúde associada à atividade física e ao controle alimentar; e, por fim propomos uma compreensão de saúde existencial. Portanto, a partir das análises dos dados evidenciamos uma predominância de compreensões, saberes e práticas sobre o corpo e a saúde pautadas nos constituintes biológicos do corpo, na quantificação e classificação em médias e padrões de normalidade, na generalização de formas de cuidado, na associação linear entre atividade física e controle alimentar com a saúde, e evidenciamos que a Educação Física tem contribuído com essas construções, por meio de alguns de seus discursos com ênfase nos aspectos biológicos. Dessa forma, defendemos em nosso estudo uma compreensão de corpo não somente objeto, mas também, enquanto sujeito recortado pelos elementos orgânicos, culturais, históricos e sociais, um corpo vivo, que sente, deseja e antes de tudo se expressa, e a saúde perspectivada como algo do corpo, entrelaçada através dos aspectos biológicos, culturais, históricos e emocionais deste corpo que coexiste em sociedade. PALAVRAS-CHAVE: Corpo; Saúde; Mídia. ABSTRACT The present scenario is permeated by different comprehensions about the body and health. These are the result of a historical process experienced by men in different times and social contexts through which were being built. Faced this scenario, we emphasize the media as a powerful means of information and training ideas regarding the body and health of theses. The media also as a means of mediating information we present characteristics of the social scenario where is inserted. In our research we bring reflects about the comprehensions, knowledge and practices propagated by the way the body and health under "Medida Certa" of the program Fantastico the broadcaster Globo Telecommunications, in order to identify how Physical Education, has contributed the construction of knowledge disseminated. Therefore, we focus our analysis to the table "Medida Certa" exhibited by Fantastico in the months of April, May and June of 2011.The data for analysis were collected through the videos shown live in Fantastic and the information provided in the blog that table. Thus, we had 14 videos shown live, 16 videos posted on the blog, 97 posts in blog. As technique of analysis of the datas used of content analysis of the Bardin (2011). About body obtained as analytical categories: body as operating system; biological body; fragmented body exterior to the subject; body trailer quantified to patterns; subject body. How to health we analyze the categories of health existential: health existential based in biological indices of normality; health existential associated with weight loss and aesthetic patterns; health existential associated with physical activity and nutritional control; and finally we propose a comprehension of health existential. Therefore, from the analysis of the data evidenced a predominance of comprehensions, knowledge and practices about the body and health guided the biological constituents of the body, quantification and classification in medium and normal patterns on pervasive forms of care, in the linear association among physical activity and nutritional control with health, evidenced that Physical Education has contributed to these constructions, through some of his discourses with emphasis on biological aspects. Thus, in our study we advocate an understanding of not only the body as object, but also as a subject clipped by organic, cultural, historical and social elements, a living body, feeling, desire and above all expresses itself, and health viewed as something body, interlaced through the biological, cultural, historical and emotional aspects of this body that coexist in this society. KEY- WORDS: Body; Healt; Media. LISTA DE IMAGENS Imagem 01 - Zeca Camargo, Renata Ceribelli e Márcio Atalla (Página 15) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 02 – Abertura do Quadro Medida Certa (Página 27) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 03 – Márcio Atalla (Página 31) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 04 – Renata Ceribelli (Página 34) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 05 – Zeca Camargo (Página 36) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 06 – Consulta ao Cardiologista Alexandre Carvalho (Página 53) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 07 – O antes e o depois dos apresentadores (Página 56) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 08 – Caminhada Medida Certa (Página 58) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 09 – Livro do Medida Certa (Página 60) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 10 – Aplicativo Medida Certa (Página 61) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 11 – Medidinha Certa (Página 63) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 12 – Medida Certa - O Fenômeno (Página 64) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 13 – Renata Ceribelli e Zeca Camargo se medindo (Página 71) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 14 - Renata Ceribelli em jantar de casamento (Página 82) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 15 – Componentes biológicos do corpo (Página 86) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 16 – Renata Ceribelli no controle alimentar e na prática de atividade física (Página 89) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 17 – Na prática do Remo (Página 97) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 18 – Renata Ceribelli pedala junto ao esposo (Página 123) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 19 – Cardápio do almoço: carne com legumes (Página 126) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 20 – Renata Ceribelli realiza teste de esforço (Página 131) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 21 – Renata Ceribelli enfrenta o desafio de pular corda (Página 142) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 22 – Renata Ceribelli estreia bicicleta presente de aniversário (Página 147) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 23 – Zeca Camargo almoça na casa da mãe Maria Inês (Página 148) Fonte: Medida Certa, 2011. Imagem 24 – Zeca Camargo e Renata Ceribelli antes da realização dos exames bioquímicos no consultório médico (Página 160) Fonte: Medida Certa, 2011. LISTA DE TABELAS Tabela 01 – Comentários postados no blog medida certa Tabela 02 – Postagens realizadas no blog medida certa SUMÁRIO INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 15 CAPÍTULO 01 – O QUADRO MEDIDA CERTA ............................................................. 27 CAPÍTULO 02 – EM BUSCA DO CORPO REPROGRAMADO .................................... 71 Corpo como sistema operacional .......................................................................................... 75 Corpo biológico .................................................................................................................... 84 Corpo fragmentado e exterior ao sujeito ............................................................................... 94 Corpo quantificado e padronizado ...................................................................................... 104 Corpo como sujeito ............................................................................................................. 117 CAPÍTULO 03 – EM BUSCA DA SAÚDE IDEAL .......................................................... 126 Saúde baseada em índices de normalidade biológica ........................................................ 130 Saúde associada ao emagrecimento e à padrões estéticos .................................................. 138 Saúde associada à atividade física e ao controle alimentar ................................................. 144 Por uma compreensão de saúde existencial ........................................................................ 155 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 160 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 173 ANEXOS 15 INTRODUÇÃO Imagem 01 - Zeca Camargo, Renata Ceribelli e Márcio Attala 16 No contexto social contemporâneo, os espaços de comunicação de massa oportunizam constantemente a veiculação de ideias, informações, compreensões, valores, comportamentos, modos de viver, entre outros, sobre os diferentes temas que estão imbrincados nas relações sociais cotidianas. Esta veiculação acontece através da mediação exercida pelos espaços midiáticos, sejam eles revistas, televisão, jornais, rádio e internet, alcançando assim um público numeroso e variado. Diante este cenário, percebemos que as informações difundidas por estes meios possuem grande influência na forma como as pessoas compreendem os diferentes temas abordados, tais como: educação, segurança, saúde, esporte, economia, política dentre outros. Entretanto, focaremos neste estudo dois temas que se configuram como centrais no debate da Educação Física atual: Corpo e Saúde. Partimos do entendimento de que as diferentes compreensões de corpo e saúde subsidiam reflexões e práticas em diferentes áreas do conhecimento: anatomia, fisiologia, filosofia, sociologia, pedagogia, psicologia, antropologia, dentre outras. Todavia, são as reflexões promovidas sobre estes temas que oportunizam uma evolução para compreensões que permitam o uso diferenciado do corpo e da saúde nos espaços profissionais de diferentes áreas do conhecimento, bem como, nas experiências da vida cotidiana. Com base nisto, pesquisadores da Educação Física têm realizado estudos que buscam superar as compreensões difundidas sobre o corpo regidas pelos dualismos, pelas fragmentações e pelos estereótipos padronizados, como também, o entendimento de saúde enquanto a ausência de doenças, associada à padrões estéticos e baseada em modelos (CARVALHO, 1995; NÓBREGA, 2010; MENDES, 2007; PALMA, 2001; SILVA, 2001; etc.). As reflexões oferecidas por esses estudos trazem novos olhares para atuação dos profissionais da área, entretanto, ainda temos muito a desenvolver para que possamos 17 consolidar um campo de conhecimento que reconheça os sujeitos, antes de tudo, a partir de suas experiências vividas no mundo. No que concerne às compreensões de corpo e saúde é necessário pensá-las como fenômenos situados que emergem de diferentes espaços e tempos e que são constantemente reconstruídas e ressignificadas de acordo com as características do contexto social em que se desenvolvem. Neste contínuo, percebemos a interferência de diversas instituições na construção de novos sentidos e significados para o corpo, bem como para a saúde, dentre as quais destacamos a mídia. Segundo Gastaldo (2009, p. 353): Entende-se por “mídia” os “meios de comunicação de massa” [...], ou seja, os veículos de comunicação, tomadas como dimensão tecnológica, que, a partir da produção centralizada, veiculam seus produtos de modo “massificado”, isto é, a um público numeroso e indistinto, sem levar em conta a individualidade de cada um dos participantes deste público. No cenário contemporâneo, percebemos que as instituições midiáticas têm atuado como catalizadoras na construção de novos valores e significados para os acontecimentos das relações sociais. Dentre esses, têm possibilitado através dos seus meios de veiculação de informações, a disseminação e a construção de novos sentidos para as compreensões sobre o corpo e sobre a saúde. Baseando-nos nesta situação, sentimos a necessidade de refletir sobre essas compreensões para que pudéssemos pensar em fundamentos teóricos que contribuem com a atuação da Educação Física e que contemplem significações de corpo e saúde de forma ampliada, superando os reducionismos que por muito tempo estiveram e estão presentes no imaginário social e que são reforçados muitas das vezes pelas informações veiculadas pela mídia. Além disso, este estudo proporcionará contribuições para pensarmos as influências que a mídia possui na veiculação de padrões corporais e de saúde. 18 Dessa forma, nosso estudo busca avançar nas reflexões e análises sobre as compreensões de corpo e saúde veiculadas pela mídia que incitam a adoção de hábitos ditos saudáveis, a busca por padrões corporais, estilos de vida ativo e padronizados, o consumo de bens e serviços associados à aquisição de saúde, entre outros. Portanto, este estudo contribuirá para a aquisição de “novas” compreensões de corpo e saúde, bem como para pensarmos como estas são veiculadas pela mídia. Diante essas considerações, discutimos as compreensões de corpo e saúde veiculadas pela mídia, especialmente a mídia televisiva e a internet. Assim, questionamo-nos como e quais compreensões, saberes e práticas de corpo e saúde são veiculadas nos espaços midiáticos, e como a Educação Física tem contribuído com a construção dos conhecimentos divulgados? Frente a estes questionamentos, o objetivo desta pesquisa foi analisar as compreensões, saberes e práticas propagadas a propósito do corpo e da saúde no quadro “Medida Certa” do programa Fantástico da emissora Rede Globo de Telecomunicações, no sentido de identificar como a Educação Física tem contribuído com a construção dos conhecimentos divulgados. As motivações para a presente pesquisa partem do envolvimento pessoal ao longo da trajetória acadêmica como pesquisador voluntário de iniciação científica e da construção da monografia de conclusão no curso de Educação Física da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN, Campus Avançado “Profª. Maria Elisa de Albuquerque Maia” – CAMEAM, onde traçamos diálogo com a temática da mídia e do esporte. Entretanto, a partir do contato com o Grupo de Pesquisa Corpo e Cultura de Movimento – GEPEC, através programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em nível de Mestrado em Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, possibilitamos uma ressignificação 19 das discussões que envolvem a mídia para o campo das pesquisas sobre o corpo e a saúde, temas esses discutidos pelo grupo de pesquisa citado. Este trabalho faz parte também da pesquisa “Saberes e práticas educativas sobre corpo e saúde” coordenada pela Professora Dra. Maria Isabel Brandão de Souza Mendes e que tem por objetivo analisar, catalogar e arquivar documentos e imagens relacionadas aos cuidados com o corpo em busca de saúde, seja por meio de programas televisivos e da internet, outdoors, panfletos de propagandas, revistas, filmes e periódicos científicos ou espaços das cidades, buscando-se tecer reflexões sobre saberes e práticas educativas sobre corpo e saúde presentes nos materiais analisados, relacionando-os à ideologia do ser saudável e ao cuidado de si. Dentre as pesquisas do GEPEC que oportunizam um debate sobre temas relacionados à mídia destacamos a dissertação de Mestrado de Allyson Carvalho de Araújo (2006) intitulada “Um olhar estético sobre o telespetáculo esportivo: contribuições para o ensino do esporte na escola”, onde o autor citado promove reflexões a partir de uma análise de conteúdo a luz de Bardin (1977) sobre o espetáculo esportivo nos telejornais esportivos. Outra pesquisa de destaque em uma linha mais próxima de discussões com a que aqui apresentamos é a tese de Doutorado de Eduardo Ribeiro Dantas (2007), com o título “A produção biopolítica do corpo saudável: mídia e subjetividade na cultura do excesso e da moderação”. O referido autor promove através da análise de conteúdo de Bardin (1977) reflexões sobre a revista “Saúde!” para pensar a subjetivação de práticas corporais na construção do corpo perfeito, oportunizando debates a respeito dos temas corpo e saúde. Para atingir o objetivo deste estudo, direcionamos os focos de análise da pesquisa sobre o quadro “Medida Certa” do programa Fantástico da emissora Rede Globo. Este quadro foi desenvolvido entre os meses de abril e junho de 2010, e teve como objetivo levar os apresentadores Renata Ceribelli e Zeca Camargo a adotarem um novo estilo de vida através 20 do acompanhamento do profissional de Educação Física Márcio Atalla e de outros profissionais especializados (médicos, nutricionistas etc.) com vista a reprogramar o corpo dos apresentadores para obtenção da medida certa. O período de intervenção profissional sobre os apresentadores foi de 90 dias. Vale ressaltar que no estado da arte1 realizado durante a estruturação da pesquisa não localizamos nenhum estudo semelhante com as temáticas abordadas no espaço indicado para a pesquisa, ou seja, o quadro Medida Certa. Como hipótese para esta ausência visualizamos o fato do quadro em questão ser recente e até o momento da realização do estado da arte não apresentar desdobramentos para sua continuidade. Entretanto durante a construção dos capítulos da dissertação localizamos alguns trabalhos que analisaram o quadro a partir de outros olhares e em área do conhecimento distinta da Educação Física, especificamente da área da comunicação, os quais foram utilizados como referências em nossa dissertação. A escolha do Medida Certa como espaço para realização da pesquisa deve-se ao alcance e a grande representatividade atribuída pelos telespectadores e pela crítica midiática ao programa Fantástico. E o quadro em questão, por oportunizar um diálogo com nossas temáticas de estudo, ou seja, as temáticas de corpo e saúde. Outra característica que contribuiu para a escolha desse espaço de investigação deve-se a oportunidade de articulação existente entre a mídia televisiva e a internet, fato que oportuniza uma interatividade com o público que consome suas informações e a manifestações de opiniões a respeito do que foi recebido. O quadro Medida Certa contou com dois espaços de veiculação, são eles: a mídia televisiva e internet, ambas com grande alcance nos domicílios brasileiros. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, 95% dos domicílios 1 O estado da arte foi realizado no banco de dados de teses e dissertações da Capes, bem como em periódicos da Educação Física de destaque como: Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Movimento, Motriz e Pensar a Prática, durante o mês de abril de 2011. 21 brasileiros possuíam televisão e 38,3% possuíam microcomputadores, sendo que 30,7% deste total estão conectados a internet (IBGE, 2010). Na Televisão, o quadro foi veiculado nos domingos a noite durante a exibição do Fantástico. Foram apresentadas reportagens a propósito do processo de intervenção realizada pelo profissional de Educação Física Márcio Atalla sobre os apresentadores e as mudanças efetivadas ao longo dos três meses. Destacam-se dentre outros assuntos: a rotina e o estado emocional dos apresentadores, as avaliações físicas e médicas realizadas, as dicas de atividade física e alimentação, a receptividade do público ao quadro, os objetivos alcançados, os desafios, entre outros. A internet serviu de um segundo espaço ao quadro, não menos importante, para veiculação de suas informações. Através de um blog, Blog Medida Certa, a internet contribuiu apresentando informações e vídeos que foram exibidos ao vivo no Fantástico, bem como oportunizando a veiculação de informações mais detalhadas sobre a rotina dos apresentadores, dicas alimentares e de exercícios, desafios e resultados alcançados, entre outros, através de textos, imagens e vídeos. Todavia, destacamos que o blog oportunizou um novo olhar sobre as informações veiculadas, especialmente ao trazer em sua configuração a ferramenta de “comentário” onde as pessoas que acessam suas informações puderam expor suas opiniões sobre as informações veiculadas através de comentários realizados sobre as postagens do blog. Com relação aos aspectos metodológicos, nossa pesquisa configura-se a partir de uma abordagem qualitativa. Seabra (2001, p. 55) resume o papel da abordagem qualitativa argumentando que esta “aprofunda-se no mundo dos significados, das ações e relações humanas, um lado não perceptível e não captável em equações, médias e estatísticas”. Trata-se de uma pesquisa documental, visto que segundo Gil (2007, p.164) “os documentos de comunicação de massa, tais como jornais, revistas, fitas de cinema, programas 22 de rádio e televisão, constituem importante fonte de dados para a pesquisa social. Possibilitam ao pesquisador conhecer os mais variados aspectos da sociedade atual”. O referido autor ainda destaca que “os documentos de comunicação de massa são muito valiosos. Entretanto por terem sido elaborados com objetivos outros que não a pesquisa científica, devem ser tratados com muito cuidado pelo pesquisador”. Ainda sobre a pesquisa documental é importante que tenhamos claro que esta “permite a investigação de determinada problemática não em sua interação imediata, mas de forma indireta, por meio do estudo dos documentos que são produzidos pelo homem e por isso revelam seu modo de ser, viver e compreender um fato social” (SILVA et al, 2009, p. 4557). Dessa forma, investigamos o espaço do quadro Medida Certa no meio televisivo através das reportagens apresentadas semanalmente no Fantástico e na internet através do blog Medida Certa. Os dados do meio televisivo foram coletados através de downloads das reportagens exibidas ao vivo durante o Fantástico no site do referido programa, sendo 14 vídeos no total. Os dados da internet foram coletados através do blog Medida Certa. Nele coletamos as postagens realizadas sobre o quadro durante os três meses de desenvolvimento2. Coletamos textos, imagens e vídeos e organizamos todas as postagens separando-as de acordo com a data de postagem. Nessa investigação obtivemos um total de 16 vídeos publicados no blog, além de 97 postagens. Além disso, coletamos também os comentários realizados pelos internautas sobre cada postagem, fato que totalizou 4804 comentários. Estes comentários não constituíram o corpus de análise deste trabalho, no entanto serão arquivados para análise e construção de trabalhos posteriores. Destacamos que toda coleta de dados para arquivamento foi realizada uma semana posterior ao término do quadro, ou seja, 03 de julho de 2011. Utilizamos dessa demarcação 2 Exemplos de postagens em anexo. 23 temporal de uma semana, em virtude da rotatividade dos arquivos virtuais. Posteriormente realizamos a análise dos dados. Segundo Silva et al (2009, p. 4557) “todo esse trabalho com os documentos é compreendido em dois momentos distintos: o primeiro de coleta e o outro de análise do conteúdo”. Assim, realizado o primeiro momento, ou seja, a coleta de dados, passamos aos encaminhamentos para a análise do material coletado. Optamos em nosso estudo pela técnica de análise de conteúdo de Bardin (2011). De acordo com Bardin (2011, p. 37) a análise de conteúdo é “um conjunto de técnicas de análise das comunicações”. Ainda segundo a autora “não se trata de um instrumento, mas de um leque de apetrechos; ou com maior rigor, será um único instrumento, mas marcado por uma grande disparidade de formas e adaptável a um campo de aplicação muito vasto: as comunicações” (BARDIN, 2011, p. 37). Continuando as argumentações sobre a análise de conteúdo, Bardin (2011, p. 44) diz que esta “aparece como um conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza de procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens”. Entretanto, a referida autora esclarece que somente a descrição não é suficiente para oportunizar a especificidade da análise de conteúdo. Dessa forma, “a intenção da análise de conteúdo é a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção (ou eventualmente, de recepção), inferência esta que recorre a indicadores (quantitativos ou não)” (BARDIN, 2011, p. 44). Foi isto que almejamos ao oportunizar um espaço para dialogar com as questões referentes à produção de informações do meio midiático. Segundo as orientações de Bardin (2011), a análise de conteúdo é realizada em três fases: a pré-análise; a exploração do material; e o tratamento dos resultados obtidos e interpretação. 24 Seguindo as orientações apresentadas acima realizamos após a coleta dos dados a préanálise do material. Organizamos os dados separando cada uma das postagens e, os comentários realizados sobre elas, de acordo com o mês e a semana em que foi realizada a postagem dentro de pastas. O mesmo procedimento foi adotado na organização dos vídeos. Após essa organização prévia dos dados, realizamos a leitura exploratória de todo o material coletado para podermos ter uma noção mais ampliada do que havíamos coletado. Essa etapa pode também ser caracterizada segundo Bardin (2011) por leitura flutuante. Nesta etapa foi essencial estabelecer contato e conhecer os dados a analisar, deixando ser invadido por impressões e orientações. Depois a exploração realizada sobre os dados, passamos a seleção dos documentos a serem analisados, que em nosso estudo foram selecionados os vídeos e as postagens do blog, excluindo para este momento os comentários realizados nas postagens. A leitura e a seleção dos dados oportunizaram também o levantamento de algumas hipóteses, como a predominância dos conhecimentos biológicos e das informações generalizadas, que nos embasaram durante a construção das categorias de conteúdo e da análise dos dados. Nessa fase foram realizadas as transcrições na íntegra de todos os vídeos, conforme pode ser visualizado exemplos em anexo. Ainda na fase de pré-análise dos dados, realizamos a referenciação dos índices. Neste momento destacamos alguns pontos que se sobressaíam quanto aos conceitos de corpo e saúde, e que posteriormente contribuíram para a elaboração de indicadores sobre os conceitos estudados. Nesta fase realizamos também a formatação de todo material de forma padronizada visando facilitar a análise dos dados nas etapas posteriores. Seguimos as orientações de Bardin (2011) quanto à realização das etapas da análise de conteúdo, tanto na pré-análise, quanto nas demais etapas, porém, não como um arcabouço 25 rígido, mas como uma orientação que delimita ações e permite o reconhecimento de características específicas de nossa pesquisa. O segundo momento da análise dos dados caracterizou-se pela exploração do material. Segundo Bardin (2011), esta fase torna-se longa e fastidiosa, consistindo essencialmente de operações para codificação dos dados. Realizamos nessa fase através de fichas de análises a codificação dos dados, sendo que, para isso criamos duas fichas: uma para as reportagens exibidas ao vivo durante o Fantástico e os demais vídeos disponibilizados no blog e, outra para as postagens realizadas no blog3. Na construção das fichas de análise, estipulamos previamente algumas unidades temáticas visando compreender como o quadro se manifesta sobre determinados assuntos: saberes e práticas sobre corpo e saúde; compreensão de corpo; compreensão de saúde; e informações para o público. Além disso, deixamos o espaço em cada ficha para realizar a transcrição do vídeo, uma síntese do vídeo/postagem, e um espaço para outras informações relevantes. Todavia, estas categorias prévias ou unidades temáticas, como são denominadas por Bardin (2011) não encerram as categorias de conteúdo utilizadas neste estudo, outras categorias foram construídas a partir da análise dos dados. É essencial que as categorias de conteúdos mantenham-se articuladas com os objetivos da pesquisa, no entanto, elas “podem ser definidas previamente quando o pesquisador elege antes da análise as informações a serem procuradas no documento ou ao longo do processo de leitura, seguindo uma perspectiva compreensiva, hermenêutica” (SILVA et al, 2009, p. 4561). Em nosso estudo procedemos desta forma, com unidades temáticas prévias e com unidades construídas a partir da análise dos dados. O próximo passo que foi dado se refere ao tratamento dos dados e a interpretação. Esta etapa da pesquisa foi realizada durante a construção dos capítulos da dissertação, onde foram 3 Exemplos de fichas de análises em anexo. 26 firmados os temas centrais de discussão, corpo e saúde, e as unidades temáticas para delimitar de forma mais específica às discussões sobre cada tema. Direcionamos nosso olhar na busca por compreender de forma mais clara como os conceitos de corpo e saúde se difundem. O principal referencial teórico para nossa pesquisa foi advindo do campo epistemológico das ciências humanas: da Filosofia, da Sociologia e da própria Educação Física. Dentre estes destacamos os estudos de Michel Foucault (1985, 1997, 2001, 2004, 2011, 2012), porém, além destes dialogamos com Merleau Ponty (2004, 2006, 2007), Le Breton (2010), Baudrillard (1990), Canguilhem (2011), dentre outros. Nossa dissertação está organizada em três capítulos: o primeiro capítulo abre espaço para apresentação do local de realização da pesquisa, ou seja, o quadro Medida Certa. Neste capítulo aprofundamos nossas discussões teóricas sobre a mídia e as estratégias adotadas para veiculação de informações, especialmente da mídia televisiva e do blog, bem como apresentamos o panorama social no qual estes elementos midiáticos e suas informações estão inseridos. No segundo capítulo analisamos as compreensões, saberes e práticas apresentados durante o quadro sobre o corpo a partir de algumas categorias de análises: corpo como sistema operacional; corpo biológico; corpo fragmentado e exterior ao sujeito; corpo quantificado e atrelado à padrões; e, corpo sujeito. O terceiro capítulo foi utilizado para as discussões concernentes à saúde, também evidenciando as compreensões, saberes e práticas divulgadas durante o quadro e discutimos com base nas seguintes categorias: saúde baseada em índices de normalidade biológica; saúde associada ao emagrecimento e à padrões estéticos; saúde associada à atividade física e ao controle alimentar; e, por fim propomos uma compreensão de saúde existencial. Culminando nosso trabalho apresentamos nossas “conclusões” sobre o que foi analisado e as principais reflexões teóricas realizadas. 27 CAPÍTULO 01 O QUADRO MEDIDA CERTA Imagem 02 – Abertura do Quadro Medida Certa 28 Apresentamos neste capítulo o espaço utilizado para realização de nossa pesquisa bem como o contexto social em que este está inserido. Expomos a seguir algumas das características principais do quadro Medida Certa, especialmente dos seus personagens e das estratégias adotadas para veiculação dos seus objetivos, seja através dos programas exibidos pela televisão ou pelas informações disponibilizadas na internet através do blog Medida Certa4. Sobre o contexto social, refletimos sobre a influência da virtualidade, da valorização da aparência, do consumo e dos conhecimentos técnico-científicos. Antes de adentrar nas especificidades do quadro em análise, apresentamos algumas características do programa que o sustenta, ou seja, o Fantástico. Também denominado de Revista Eletrônica Semanal, o Fantástico estreou no dia 05 de agosto de 1973 e possui como característica importante à união entre a informação e o entretenimento. De acordo com Gomes (2011, p. 278) “o Fantástico estabelece um pacto hibridizado tanto para a conversação social quanto para o entretenimento”. Além disso, “seu caráter informativo de relatar acontecimentos é confrontado com o objetivo de alimentar a conversação cotidiana com vistas à formação da opinião pública sobre a realidade social”. O Fantástico é assim, um programa de grande destaque no cenário televisivo brasileiro, sendo reconhecido pela credibilidade e pelo diferencial no trato das informações. O Fantástico se apresenta como o mais completo meio de informação jornalística da Rede Globo. Ele sintetiza os acontecimentos semanais e mostra detalhes novos sobre esses. No entanto, “em função da variedade de formatos trazidos e da variedade do conteúdo apresentado, dentro de um contexto comunicativo dialógico, marcado pela descontração e leveza, o compromisso com o entretenimento é constantemente verificado” (GOMES, 2011, p. 278). 4 http://fantastico.globo.com/platb/medidacerta 29 Ainda sobre o Fantástico, compreendemos que este vai além do entretenimento e apresenta uma forte predominância dos aspectos científicos e tecnológicos. De acordo com Barata (2006, p. 18) o Fantástico “se destacou na divulgação de temas de Ciência e Tecnologia desde a década de 70 quando mostrava os avanços dos países desenvolvidos e sempre reservou amplas reportagens à questão da saúde”. Através de diferentes reportagens, a saúde foi sempre ponto de pauta das edições do Fantástico, “confirmando também a preferência pelo tema na divulgação científica de jornais e revistas”. Característica essa, que oportuniza espaço para as discussões sobre a saúde no quadro Medida Certa. Quanto ao Medida Certa apresentado pelo programa Fantástico, este desenvolveu suas atividades entre os meses de abril, maio e junho de 2011. O mesmo foi idealizado e comandado pelo profissional de Educação Física Márcio Atalla e para tanto, teve como personagens centrais dessa história, os jornalistas e apresentadores do Fantástico Zeca Camargo e Renata Ceribelli. Para pensarmos de forma mais precisa sobre este duplo papel desempenhado pelos apresentadores no quadro Medida Certa, trazemos as contribuições de Mendes (2011, p. 7) quando fala que: Os jornalistas Zeca Camargo e Renata Ceribelli ora são personagens do quadro ‘Medida Certa’, quando são flagrados em suas atividades físicas, nas horas das refeições e na rotina de trabalho, sendo interpelados pelo educador físico; ora atuam como jornalistas, reportando a sequencia de fatos, organizando a narrativa e convocando o público à ação. Diante destas considerações, compreendemos que ao mesmo tempo em que se tornaram objeto da notícia, os apresentadores também eram responsáveis por, através das narrativas realizadas, noticiar os acontecimentos referentes ao quadro. Estariam assim desempenhando um duplo papel dentro do quadro. Papéis estes permeados pela atividade profissional e pela vida cotidiana fora do espaço de trabalho dos dois. 30 Sobre o quadro, o profissional de Educação Física Márcio Atalla argumenta no episódio inicial que “vai ser um reality, nós vamos acompanhar a vida deles e eu vou tentar incorporar bons hábitos, principalmente através da atividade física regular” (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO BLOG 01). Além do profissional de Educação Física, o quadro também contou com as contribuições profissionais de médicos, nutricionistas, dentre outros. Para o profissional de Educação Física, o quadro Medida Certa teve como objetivo principal incorporar atividade física de maneira regular e melhorar alguns hábitos de vida. Ao fazer uso da palavra, o profissional expressa: “eu vou entrar com atividade física regular, que eles não tem, a gente entra sem medicação, melhorando um pouquinho na alimentação”. Continuando sua argumentação, ele ainda expõe que: “não é uma questão apenas de emagrecimento, a gente vai mostrar o poder que o movimento tem, que a atividade física tem, para ajudar na vida das pessoas” (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO BLOG 03). Para tanto, os apresentadores Renata Ceribelli e Zeca Camargo foram submetidos a 90 dias de intervenção com exercícios físicos e controle alimentar. A jornalista do Fantástico Sônia Bridi argumenta sobre a importância do papel desempenhado pelo profissional de Educação Física Márcio Atalla no quadro auxiliando os apresentadores. Segundo ela, “ele está sempre ali ao lado, mantendo acesa a chama nos dois” (SÔNIA BRIDI, VÍDEO BLOG 13). Embora a jornalista busque evidenciar essa importância, ao se expressar evidencia uma função do profissional de Educação Física limitada a incentivar os jornalistas integrantes do quadro, negando assim, as valiosas contribuições com conhecimentos técnicos solicitados em intervenções sobre o corpo e a saúde. Portanto, compreendemos que o profissional de Educação Física possui um amplo repertório de conhecimentos na orientação das práticas corporais que são de fundamental importância no trato com o corpo e com a saúde. 31 Quanto ao tempo estipulado para a realização das intervenções, Márcio Atalla diz que 90 dias é o tempo mínimo necessário para a obtenção das mudanças esperadas, ou seja, reprogramar o corpo e entrar na medida certa. Segundo ele: Você fazer atividade física e ter boas escolhas na alimentação é para a vida inteira. Os três meses que o Zeca e a Renata vão passar é o tempo mínimo para o corpo se reprogramar, para ele entender que existe uma nova realidade. Os três meses é o tempo que eu consigo colocar no Zeca a consciência da atividade física regular, é o tempo que eu consigo que ele passe a fazer boas escolhas na alimentação e isso vai refletir no corpo, não só para o corpo perceber uma nova realidade, mas como para mostrar os resultados que os dois vão alcançar (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO BLOG 01). Perante essa justificativa, utilizou-se do período de três meses para a realização das intervenções. A jornalista Renata Ceribelli comenta: “nossa copa dura 90 dias, este é o tempo de entrar na medida certa” (RENATA CERIBELLI, VÍDEO FANTÁSTICO 11). Quanto ao desenvolvimento do quadro e sua consequente exposição na mídia, evidenciamos que inicialmente foram apresentados os três integrantes principais (Márcio Atalla, Renata Ceribelli e Zeca Camargo). Imagem 03 – Márcio Attala 32 Começando por Márcio Atalla (imagem 03): “Sou professor de Educação Física, já tem mais de 10 anos que eu venho desenvolvendo esse trabalho com pessoas, que é basicamente incorporar atividade física de maneira regular e melhorar alguns hábitos de vida” (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO BLOG 02). Ao analisarmos a imagem 03 do profissional de Educação Física Márcio Atalla, evidenciamos que esta compõem-se de elementos que alimentam ainda mais o imaginário social sobre o professor de Educação Física, especialmente pelos equipamentos e vestimentas. O halter posicionado em sua mão, assim como toda postura corporal, reforçam a imagem de um profissional preocupado com o trabalho muscular estético e de força, como demonstram as veias que saltam sobre o braço e o antebraço direito. As roupas aparentemente leves acentuam o indicativo da prática de atividade física. Ao mesmo tempo em que seriam mais confortáveis para a realização de movimentos e a transpiração do corpo, elas também colocam a mostra as marcas de um corpo definido e trabalhado esteticamente. O leve sorriso e o olhar convidam os expectadores a também realizarem a prática do levantamento de peso como sendo algo fácil e prazeroso. No site de Márcio Atalla (2012) na internet, ele abre espaço para uma apresentação profissional mais detalhada, segundo ele: Guardei este espaço para me apresentar propriamente. Contar como foi minha trajetória, como educador físico e especialista em saúde e bem-estar, até aqui. Tudo começou na USP, Universidade de São Paulo, onde tive o prazer de estudar e criar minhas bases como professor de Educação Física. Desde essa época, já planejava levar minha filosofia de vida para os outros. Já percebia o quanto as pessoas ignoravam a importância de cuidar da própria saúde, do próprio corpo, que é nosso maior bem. Uma filosofia baseada em hábitos saudáveis, como a prática regular de exercícios e esportes, e uma alimentação inteligente, equilibrada e sem privações. Enfim, uma vida ativa e saudável. Depois de formado, me especializei em treinamento para atletas de alto nível. Atualmente, sou também pósgraduado em nutrição, aplicada à atividade física e a doenças crônicas pela USP. Em 1993, trabalhei com aulas particulares e projetos específicos. Um deles foi preparar a modelo e atriz Claudia Liz, para participar do filme As Meninas, em que ela deveria perder 6 quilos do início ao fim. Em 94, fui 33 para os Estados Unidos, onde trabalhei com atletas profissionais de tênis, entre eles a brasileira Miriam D´Agostini, a grega Christina Papadaki, a holandesa Seda Noorlander. No início de 1999 aceitei o desafio de preparar o campeão olímpico de vôlei, o capitão Carlão, ao lado do parceiro Paulo Emílio, no vôlei de praia. Trabalhei com essa modalidade até o final das Olimpíadas de 2000, em Sydney, quando decidi que era hora de iniciar um novo projeto: de conscientizar as pessoas da importância de adotarem um novo jeito de viver. Em agosto de 2000 criei a marca BemStar, com o portal www.bemstar.com.br, que evoluiu ao longo dos anos para outras mídias, como a revista de bordo BemStar e o livro Segredos do Gnt para o seu BemStar, lançado em dezembro de 2007, e na televisão o programa BemStar do canal Gnt, no ar desde 2006, atualmente reapresentado pelo canal Viva, Globosat. Em 2010 desenvolvi um projeto com a editora Globo, um reality show, chamado Época Saúde, que durante 3 meses se propôs a mudar a vida de 6 pessoas sedentárias que queriam ganhar mais saúde. Foram 13 DVD´s encartados semanalmente pela revista Época. Logo depois, tive o prazer de levar esse mesmo desafio para o programa Fantástico, e trazer mais qualidade para às vidas de Zeca Camargo e Renata Ceribelli, pelo quadro Medida Certa. Esse ano, o desafio Medida certa foi especialmente para crianças, e virou o Medidinha Certa, um serviço excelente para auxiliar pais e filhos, enfim, as famílias brasileiras, a viver melhor, com mais qualidade. Lancei recentemente o livro Sua Vida em Movimento, pela editora Paralela, e o DVD Vida Saudável com Marcio Atalla, pela Sony Music Brasil. Dois ótimos guias para quem quer mudar de vida e não sabe por onde começar. Atualmente, sou colunista da revista Época e da Rádio CBN, diariamente às 7h40 da manhã. Também ministro palestras em diversos eventos. Estou de volta ao Fantástico com o novo Medida Certa, e agora o desafio será ainda maior: Ronaldo Fenômeno. Nos próximos meses você poderá acompanhar e aprender, com dicas eficientes, como ser saudável e viver bem! Até breve, e bons treinos! (MÁRCIO ATALLA, 2011). O perfil apresentado por Márcio Atalla em sua página na internet mostra a grande ligação do profissional com o treinamento desportivo de atletas de alto nível e as diferentes experiências profissionais vivenciadas: personal trainer, empresário, colunista de revista e rádio, entre outros, seja na busca pela perda de peso ou obtenção da saúde por parte dos seus alunos. É importante compreendermos o perfil do profissional de Educação Física presente no quadro, visto que o mesmo acaba representando uma classe, desde os bacharéis aos licenciados, e, no entanto, apresenta especificidades de formação e de atuação profissional que não podem ser generalizadas a todos os profissionais da área. Como exemplo dessa especificidade de atuação, evidenciamos a ligação com o mercado através da venda de produtos, visto que, o nome Márcio Atalla possui uma dupla representação, sujeito e marca. 34 Sobre o profissional, não localizamos o seu currículo lattes, nem vínculo com nenhuma instituição de ensino superior e pesquisa. Com relação à apresentação dos jornalistas no quadro, identificamos que foram descritos diante suas condições corporais. Ambos voltam ao passado para mostrar através de imagens o quanto eram magros e que, com o passar do tempo e as mudanças de hábitos obtiveram alterações na constituição corporal com consequente aumento de peso. Inicialmente, Renata comenta que engordou após a sua gravidez de gêmeos, passando a ter mais de 30 quilos do seu peso anterior, e daí em diante foi sempre uma luta constante para reduzir e manter o peso. Como pode ser visto na imagem 04, o gesto do braço flexionado e de punho fechado reforça o discurso da jornalista de guerra constante contra o peso. A posição descrita, bem como a expressão facial, simbolizam a preparação para a guerra contra a balança. Nessa luta será necessária determinação, conforme evidencia seu o olhar e o lábio ligeiramente mordido. Imagem 04 – Renata Ceribelli 35 No intuito de sabermos mais informações sobre essa apresentadora e jornalista, encontramos no site do Fantástico a seguinte descrição que mostra a sua inserção na Televisão e outros elementos sobre a sua formação profissional. Em 1986, a passagem do cometa Halley causou sensação. A TV de Campinas preparou um programa especial para registrar o evento, mas, na última hora, o apresentador escalado não pôde ir. Foi então que a jovem repórter Renata Ceribelli encarou pela primeira vez as câmeras. Dali para a frente, não parou mais. Coincidência ou não, podemos dividir a carreira de Renata em “antes do cometa” e “depois do cometa”! Mas a história começou bem antes de cometas e afins. Começou em São José do Rio Preto, cidade de São Paulo onde Renata nasceu. Cursou jornalismo na PUC-Campinas e se formou em 1985, quando foi trabalhar como rádio escuta na TV Campinas. “Eu lia todos os jornais, revistas, assistia a todos os noticiários e passava as informações para o pauteiro, na redação”, conta Renata. Depois da grande estreia, passou a fazer reportagens nas ruas. Nessa temporada, ganhou o Prêmio Vladimir Herzog por uma matéria sobre um abrigo para deficientes mentais e uma menção honrosa por outra, sobre o cotidiano dos meninos de rua, viciados em cheirar cola. Esteve por dois anos no SBT e entrou para substituir Leonor Corrêa, irmã do Faustão, no programa Vitrine, da TV Cultura. Agradou tanto que foi parar no Vídeo Show e lá ficou por seis anos. Até que, no início de 1999, entrou para a equipe do Fantástico, em São Paulo (FANTÁSTICO, 2012). O quadro Medida Certa apresentou também as características de Zeca Camargo (imagem 05). O mesmo destaca que sempre foi magro, porém com o passar dos anos foi obtendo um acúmulo de peso, principalmente em decorrência da rotina agitada de trabalho, como podemos perceber durante sua fala no primeiro episódio da série: “então essa é mais ou menos a nossa rotina, comer entre as gravações, sem horários e exercícios só quando o tempo nos permite, mas daqui para frente tudo vai ser diferente” (ZECA CAMARGO, VÍDEO FANTÁSTICO 01). Diante esta situação, os apresentadores se dispuseram a participar do quadro rumo à medida certa. 36 Imagem 05 – Zeca Camargo A imagem 05 do jornalista Zeca Camargo evidencia através da expressão facial, de sobrancelhas arqueadas e leve sorriso no canto da boca, a sua resistência sobre as práticas a serem realizadas durante o desenvolvimento do quadro. Na imagem vemos também um dos grandes aliados do apresentador na realização do desafio, os fones, representantes das músicas que segundo o jornalista são estímulos à sua prática. Torna-se importante destacarmos que tanto na imagem 04 quanto na 05 os corpos dos apresentadores estão refletidos em espelhos. Estes estão presentes nos espaços de avaliação na imagem 04 e nos espaços de realização da atividade física como na imagem 05. Entendemos esses espelhos como um reforço à necessidade da visualização do corpo a partir de suas aparências, funcionando como uma voz da verdade sobre a situação do corpo. Além disso, os espelhos apresentam-se como um reforço a valorização da imagem no contexto de uma sociedade virtualizada e “presa” as aparências. Portanto, eles representam a valorização da 37 percepção visual exterior como negação da percepção corporal mais ampla de cada indivíduo através dos diferentes sentidos. No site do Fantástico também há a descrição do apresentador e jornalista Zeca Camargo, como pode ser observado na citação abaixo: Zeca Camargo é apresentador e repórter do Fantástico. No programa desde 1996, já fez entrevistas com grandes nomes do “showbizz”, como Madonna, Lady Gaga e Gisele Bündchen. Também é conhecido pelas reportagens sobre assuntos ligados ao público jovem, como no quadro “Altos Papos”. Desde 1998, Zeca Camargo desenvolve projetos especiais para o Show da Vida. O primeiro deles foi “Aqui se Fala Português”, uma série sobre os lugares do mundo onde é possível ouvir a nossa língua. O projeto foi realizado para marcar os 500 anos do descobrimento do Brasil. Em 2004, foi a vez de “A Fantástica Volta ao Mundo”, uma viagem de quatro meses, onde o público escolhia por interatividade os lugares que seriam visitados nas reportagens. Em 2009, completou mais uma volta ao mundo, desta vez explorando alguns dos mais interessantes Patrimônios da Humanidade da Unesco. As duas aventuras tornaram-se livros, que estão entre os mais vendidos da coleção Fantástico. Outros projetos especiais incluem “Passado Presente” (2008), série de reportagens pelo Japão para marcar os 100 anos da imigração japonesa; e “Novos Olhares” (2007), uma investigação sobre pensadores da vida moderna. Em 2010, Zeca Camargo realizou a série “MegaCidades”. Para as reportagens, ele visitou algumas das maiores aglomerações humanas do mundo. Com suas reportagens, Zeca Camargo já colecionou visitas a mais de 90 países pelo mundo (FANTÁSTICO, 2012). Conforme apresentamos, os jornalistas possuem uma formação profissional adequada à função que exercem, com experiência no trabalho com uma diversidade de assuntos e situações. No entanto, vale ressaltar que estes estão a serviço de uma empresa que além de objetivar a mediação de informação objetiva também a obtenção de lucros, mantendo forte relação com a comercialização de produtos e marcas, e, desta forma, suas atuações ficam limitadas aos interesses da empresa que estão vinculados. Assim, apresentados os participantes do Medida Certa, bem como, suas descrições a partir das informações profissionais disponibilizadas nos sites de suas instituições de atuação profissional, passaremos a refletir sobre outras especificidades correspondentes ao nosso objeto de estudo. 38 Frente a este cenário inicial, compreendemos que uma das principais características da mídia televisiva para obter visibilidade entre a população é agregar dentro de sua programação a vida cotidiana de pessoas públicas, especialmente aquelas consideradas famosas diante o cenário social, ou mesmo de acontecimentos que provoquem impactos sobre a vida dessas pessoas (MENEZES, 2007). Essa característica pode ser percebia ao utilizar dos apresentadores acima citados para participarem do quadro em questão. Ainda sobre os “personagens”, Márcio Atalla argumenta que todo aluno possui algumas particularidades e apresenta o que conseguiu perceber inicialmente dos dois apresentadores. Sobre Renata Ceribelli o profissional destaca, “eu já percebi que a Renata é super determinada, só tá um pouquinho ansiosa. É só dá um pouquinho de carinho e atenção que ela vai”. Quanto a Zeca Camargo ele comenta, “o Zeca é uma pessoa sem rotina, mas ele já está entendendo que a atividade física vai mudar a vida dele” (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO BLOG 01). Embora tenhamos apresentado Márcio Atalla, Renata Ceribelli e Zeca Camargo como os três personagens principais do quadro Medida Certa, no entanto, percebemos que integra esse grupo um personagem ainda maior, composto pela união de várias pessoas, ou seja, a população. Verificamos assim, como nos fala Zovin (2008, p. 2) que “a vida privada do telespectador brasileiro se confunde com a vida pública que a TV oferta”. Este fato pode ser observado quando a vida dos apresentadores se tornou pública e os telespectadores passaram em sua maioria a vê-los como “iguais” a si, despertando assim um estado de confusão que assemelha a vida privada dos telespectadores à vida pública dos apresentadores. Para a jornalista Sônia Bridi “o quadro é um sucesso, entre outros motivos, por que uma multidão se identifica com o esforço da Renata e do Zeca” (SÔNIA BRIDI, VÍDEO BLOG 13). Durante o quadro foi possível perceber, principalmente através dos comentários postados no blog, que os apresentadores serviram de modelos para a população, 39 especialmente para as pessoas que assim como eles se encontravam acima do peso e necessitavam entrar na “medida certa”. Conforme argumenta Mendes (2011, p. 4) “os meios de comunicação exigem tanto das celebridades quanto das pessoas comuns à adequação do corpo a um padrão estético considerado perfeito”. Ainda segundo a autora: Ancorado em promessas de emagrecimento rápido, o telejornalismo, tal como a publicidade, oferece um farto banquete de informações sobre dietas, atividades físicas e procedimentos estéticos, colocando a disposição do público informações que recomendam como construir um corpo ideal (MENDES, 2011, p. 8) Pensando sobre isto, poderíamos elencar como característica da mídia a veiculação de modelos para população visando à adequação em padrões, especialmente aqueles relacionados à imagem corporal. Desta forma, percebemos que “as narrativas jornalísticas impõem modelos possíveis de imitação, fazendo o indivíduo supor que realiza sua escolha de modo autônomo, mas, na verdade, tal decisão é efeito de uma influência midiática e mercantilizada” (MENDES, 2011, p. 11). Os sujeitos são sempre interpelados por mensagens que lhes dotam de liberdade para realização de escolhas e tomada de decisões, entretanto essa liberdade é em si já delimitada por seleções realizadas previamente por aqueles responsáveis pela produção das informações. Refletindo ainda sobre a veiculação de modelos, compreendemos que este papel é desempenhado frequentemente pela Televisão. Segundo Zovin (2008, p. 2) “na atual sociedade midiática, é principalmente através da TV que as pessoas aprendem a seguir modismos, a conhecer produtos e serviços”. Continuando, a autora ainda argumenta que “tratando-se da televisão, é obviamente intensa e crescente a interferência na modelagem dos padrões de vida da nossa sociedade, afinal a TV é um grande simulador das imagens da vida” (ZOVIN, 2008, p. 3). Certamente essa sensação foi despertada nos telespectadores, visto que 40 as imagens postas dos apresentadores em busca da perda de peso configurar-se-ia como uma representação de “suas” realidades. O envolvimento da população com o quadro deve-se também entre outros motivos às convocações e convites realizados para estarem participando junto com os apresentadores. Estes convites foram feitos com frequência através dos comentários realizados pelos apresentadores e pelo profissional de Educação Física durante as reportagens. Este fato despertou em muitas pessoas a sensação de estarem participando junto com eles, já outros, entretanto, deixaram dicas de que o quadro pudesse também ser realizado com pessoas “normais” e não apenas com os famosos. Essa abertura dos objetivos do quadro à população pode ser compreendida de forma significativa por oportunizar um olhar para atenção ao corpo e ao cuidado com a saúde, além de incentivar a prática de atividade física e a busca por uma alimentação saudável. Entretanto, deve ser refletida em muitos aspectos por atuar na formação de estereótipos corporais, por auxiliar na padronização da saúde, na generalização das prescrições de exercícios e dietas, além de não reconhecer as diferenças individuais e sociais, sejam elas, econômicas, regionais e culturais. As informações apresentadas no quadro trazem significantes contribuições para o esclarecimento e formação das pessoas, porém, como alertamos acima, podem trazer junto alguns efeitos negativos por direcionar-se a grande massa e não reconhecer as individualidades dos sujeitos que as recebem. Como alerta Lima (2010, p. 1) “os dizeres veiculados no universo midiático dispõem de sentidos específicos que negam muitos outros”. Dessa forma, pensando nos sentidos das mediações midiáticas é imprescindível estarmos alertas para compreender os sentidos explícitos e implícitos postos nos jogos de mediação das informações. 41 É necessário também compreendermos que a mídia tem como função primordial a mediação de informações dos produtores para os receptores de forma massificada. Essa característica acaba por acentuar a generalização e a homogeneização de hábitos, comportamentos, valores e atitudes. Entendemos que o excesso de informações ao mesmo tempo em que esclarece, confunde as pessoas, ameaça as “defesas” destas na recepção de informações, especialmente as midiáticas. No entanto, o sujeito é dotado de um conjunto de informações e conhecimentos que lhes permitem inferir sentidos ao conteúdo recebido, muitas vezes rejeitando-os. Em suma, a mídia através de suas veiculações pode interferir nos acontecimentos sociais e consequentemente na vida das pessoas. Entretanto, vale ressaltar que as pessoas guardam em si pontos de resistências que poderão ser manifestados na discordância de uma opinião ou pensamento veiculado pela mídia. Para Dantas (2007, p. 24) “como legítimos educadores informais, os mass média incidem de forma maciça sobre a formação do imaginário coletivo, de forma a cumprirem tanto uma função de padronização dos comportamentos, quanto um papel de emancipação das massas”. Esses diferentes papéis que podem ser desempenhados pela mídia estão imbricados com os objetivos dos produtores das informações, bem como, com os pontos de resistências e aceitação dos que consumem suas informações. De acordo com Menezes (2007, p. 5) “a mídia funciona através do uso de mecanismos cognitivos, onde o cotidiano se torna elemento definidor da condução, incorporação e repertório que alimenta suas programações diárias, fazendo com que o telespectador se identifique com seu conteúdo”. Dessa forma, compreendemos que o cotidiano é o elemento principal das veiculações midiáticas, seja ele em sua realização primária, ou mesmo diante a simulação dos seus acontecimentos através de elementos “cênicos” com vista à construção do espetáculo tão requerido pela sociedade contemporânea. 42 Os elementos “cênicos” dos espaços midiáticos utilizados para simular ou incrementar os acontecimentos cotidianos são em sua maioria oportunizados pelos avanços tecnológicos. Sobre isso, Menezes (2007, p. 3) argumenta que “a mídia utiliza os avanços tecnológicos como forma de garantir a qualidade, acessibilidade, precisão, velocidade e ampliação do raio de cobertura no que concerne à ampliação do poder de persuasão ou de convencimento”. Corroboramos com Malta e Domingos (2007, p. 9) quando afirmam que “a atuação dos meios de comunicação de massa transforma as relações sociais e, portanto, é notável a influência que eles possuem sobre o público, sendo consideradas as mais poderosas instituições culturais do mundo”. Esta transformação é estimulada pelos diferentes meios de comunicação, entretanto observamos que a Televisão enquanto instituição midiática possui um grande destaque neste cenário. Como afirmam Rocha e Aucar (2011, p. 56) “até hoje nenhum outro veículo movimenta mais audiência das massas do que a televisão”. Como características desse destaque podemos elencar que “a recepção de imagens televisivas proporcionam prazer e satisfação, consequentemente cria hábitos, tanto é que a televisão faz parte da rotina dos brasileiros” (ZOVIN, 2008, p. 2). No entanto, é importante compreendermos que o jogo de articulação dos elementos que compõem as informações midiáticas acabam por despertar significados específicos em cada sujeito a partir do encontro destas informações com as experiências de vida que este possui. Assim, a forma de recepção não é unilateral. O sujeito não apenas recepciona de forma passiva as informações, ele é também capaz de rejeitar as informações mediadas. Pensando o destaque do meio televisivo, direcionamos nossa pesquisa as informações mediadas por ele, especificamente através das informações veiculadas no telejornal, também referenciado como revista eletrônica, Fantástico. De acordo com Moroni e Oliveira Filha (2008, p. 5) “no Brasil, o telejornalismo assume o papel de maior fonte de informação da população”. 43 Dentre as características do telejornalismo, destacamos como essencial a sua capacidade de promover a articulação entre o texto e as imagens. Para Moroni e Oliveira Filha (2008, p. 8): Não existe um consenso sobre o que teria maior importância no telejornalismo: o texto ou a imagem. A proposta mais aceita é considerar ambos como parte da linguagem jornalística [...]. Porém, não há dúvidas de que a imagem é o grande diferencial e maior atrativo da televisão em relação aos outros meios de comunicação. Todavia, percebemos que um dos fatores que na maioria das vezes é utilizado para justificar a valorização das imagens em detrimento dos textos diz respeito ao fato de que a imagem tenta trazer a tona a “verdadeira” realidade. A imagem busca colocar para os telespectadores o acontecimento de forma que eles possam acreditar que consomem o acontecimento em sua forma primária, não sendo na maioria das vezes questionada. Como diz o ditado popular, “só acredito vendo”, a imagem teria capacidade de oportunizar a visão dos acontecimentos que o texto não conseguiria, mesmo através de uma boa descrição. Portanto, a imagem promove uma síntese dos acontecimentos, o que demandaria esforços bem maiores para serem descritos através de um texto, ou similares. Em síntese, uma boa imagem seria aquela que consegue despertar no telespectador o desejo de continuar visualizando-a, são aquelas que desestabilizam suas emoções. Outra característica do telejornalismo diz respeito à brevidade que adota na veiculação de informações. Isto acontece dentre outros fatores “em função do imediatismo do tempo, da objetividade necessária e da exigência de que o conteúdo seja compreendido pelo receptor no momento em que é transmitido” (MORONI e OLIVEIRA FILHA, 2008, p. 9). Estas características podem ser evidenciadas no quadro Medida Certa se observarmos que os acontecimentos realizados durante uma semana eram sintetizados e apresentados em reportagens que tinham em média pouco mais de 10 minutos, ou seja, brevemente. 44 Como integrante da mídia, o telejornal, assume os acontecimentos do cotidiano na veiculação de informações. Para Mendes (2011, p. 1): O telejornalismo é um modo de construção da realidade, é possível afirmar que as noticias constituem uma parte do real, estruturada a partir de um principio de verdade que não reside no próprio discurso, mas em seus efeitos, sendo, portanto, um meio fragmentado de reproduzir o mundo. A impossibilidade da construção do real dar-se, dentre outros fatores, pela preocupação demandada sobre os efeitos da reprodução, e não sobre a reprodução em si. Entretanto, é importante percebermos que a reprodução fragmentada do real é consequência da transformação do real em noticia, sendo que, essa transformação acontece mediante a utilização de técnicas de produção jornalísticas, que desempenham dentre outras funções a seleção e a restrição dos acontecimentos. A tentativa do telejornalismo de reconstruir a realidade cotidiana, mesmo que de forma fragmentada, é recortada por inúmeros interesses dos produtores das informações. Segundo Mendes (2011, p. 3) “o telejornalismo enquadra a realidade a partir de um determinado enfoque, operando a seleção de um assunto e a seleção de outros, tendo em vista o perfil do seu público e sem esquecer de que o produto o qual manipula diariamente está inscrito numa ordem de consumo”. Está ordem é orientada a partir de um contexto social onde o consumo de produtos e serviços e exacerbadamente valorizado. Assim, a mídia enquanto meio, acaba divulgando e reforçando elementos de uma sociedade do consumo. Percebemos que essa ordem de consumo está dissipada nos diferentes espaços e relações sociais, e com grande destaque nos cenários de atuação da mídia. Dessa forma, segundo Rocha e Aucar (2011, p. 53): Para compreender o fenômeno do consumo na sociedade modernocontemporânea é preciso perceber que aquilo que chamam “necessidades humanas” não são dadas, naturais ou absolutas, mas sim construídas, 45 elaborada e sustentadas culturalmente. Os significados dos bens materiais são incorporados nas subjetividades, nas identidades sociais e nas relações humanas através de sistemas simbólicos, hierárquicos e discriminatórios. O alerta sobre as necessidades humanas abordadas pelos autores citados acima é importante para pensar que o consumo estimulado pela mídia dar-se a partir de interesses que se relacionam com os objetivos dos responsáveis pela produção das informações e não como algo natural. Percebemos ainda que o consumo dos bens materiais comercializados nestes espaços afeta as subjetividades das pessoas através dos significados que cada produto consegue despertar nelas. Sobre isto, compreendemos que “ao consumir um produto consumimos também seus significados e, com eles, podemos elaborar uma identidade, ser parte de um grupo, se afirmar e se sustentar dentro de um dado cultural” (ROCHA e AUCAR, 2011, p. 54). Quanto ao consumo e os significados que este desperta através dos produtos e serviços consumidos pela população, os autores supracitados complementam: O consumo é um fenômeno que transforma produtos e serviços em um sistema de significação através do qual podem ser elaborados aspectos da subjetividade, traduzidas relações sociais e suprimidas diversas necessidades simbólicas, tornando-se um modo central de interpretação do mundo que nos cerca. O consumo é, portanto, um código capaz de atribuir sentido identidades, sentimentos e relações sociais inserindo-os em um sistema de classificação de coisas e pessoas, cultura material e identidades, indivíduos e grupos (ROCHA e AUCAR, 2011, p. 54). Conforme os argumentos apresentados, consumir produtos e serviços é muito mais do que a aquisição de bens materiais. O ato do consumo trás junto aos objetos consumidos uma rede de significados que nos permitem inferir sentidos aos produtos, bem como aos indivíduos que os consomem. Entendemos dessa forma que vivemos em uma sociedade do consumo. Consumo este que é permeado pelos diferentes sentidos e significados que os sujeitos atribuem aos produtos e serviços consumidos. 46 Estas reflexões a respeito do consumo trazem contribuições importantes para pensarmos os elementos que foram consumidos pelos apresentadores, bem como pela população que acompanhou o desenvolvimento do quadro Medida Certa, especialmente quando relacionadas ao corpo e a saúde. Durante os três meses de desenvolvimento do quadro, os apresentadores tiveram suas rotinas acompanhadas. O dia-a-dia dos apresentadores no trabalho, em casa, no lazer, entre outros, foram registrados e apresentados nas reportagens do Fantástico no domingo à noite, além disso, os vídeos e outras informações foram disponibilizadas no blog do quadro. O blog configurou-se como ponto de apoio essencial para o quadro, haja vista que os apresentadores usaram deste como uma espécie de diário de campo onde expressaram o que sentiam diante as diferentes fases da intervenção, desde os momentos de maiores dificuldades aos momentos de resultados positivos. Além disso, a importância do blog deve-se ao fato deste oportunizar uma interatividade entre os apresentadores, o profissional de Educação Física e o público. No contexto atual verificamos que o blog possui um grande destaque no cenário da mediação de informações. Sobre eles, Silva (2008, p. 78) comenta: “fato é que os blogs tornam-se cada vez mais populares, e diversificados”. Este cenário evoca a presença de uma sociedade que cada vez mais recorre aos espaços virtuais para desenvolver suas relações sociais, sejam elas, afetivas, profissionais e de prestação de serviços. Assim, estamos diante uma sociedade virtualizada que busca através da internet e de seus espaços de veiculação de informações respostas para as necessidades do sujeito. No contexto do quadro Medida Certa, a sociedade recorreu através do blog à informações diferenciadas sobre alimentação e a atividade física. Sobre suas características estruturais e de organização, podemos compreender que o blog foi concebido como um diário na web. Silva (2008, p. 79) destaca que: 47 O blog é uma publicação na forma de uma página da web, atualizada, frequentemente, composta por blocos de textos, chamados posts e apresentados por uma ordem inversa, onde o texto mais recente aparece em primeiro lugar. Estes textos são escritos, normalmente, pelo autor do blog ou por convidados, mas podem ser comentados pelos visitantes, permitindo, assim, a interação entre autor e visitante/leitor. Diante destas características, compreendemos a importância do blog no cenário das comunicações, e consequentemente, sua importância na veiculação de informações referentes ao quadro Medida Certa, especialmente por oportunizar essa interação com o público a partir do espaço destinado aos comentários. Portanto, o blog se configura como uma via de mão dupla, ou seja, permite que a informação seja veiculada pelos produtores, entretanto, abre espaço para que os receptores das informações emitam seus posicionamentos sobre as informações recebidas. Seria uma forma de libertação, mesmo que tímida, das amarras sociais muitas vezes impostas pela mídia. Embora tenhamos uma diversidade de estilos de blogs, percebemos uma predominância no blog da escrita em primeira pessoa, servindo a muitos como diário pessoal. Entretanto, diferente dos diários usados em outras épocas, que seriam “guardados a sete chaves”, os blogs têm justamente a função inversa, ele quer divulgar, quer expor, assim, quanto mais visitado, lido e comentado ele for, maior é a satisfação daqueles que o gerenciam. No blog do quadro Medida Certa verificamos em muitos momentos essa narrativa de si, especialmente nos posts realizados pelos apresentadores. Nestes posts foram expostos os resultados alcançados, os investimentos realizados, as dificuldades enfrentadas, entre outros assuntos. Além disso, percebemos que o blog também despertou os internautas para o exercício da vigilância sobre os novos hábitos adquiridos pelos apresentadores, sejam eles, alimentares ou de exercícios. Voltando ao desenvolvimento do quadro, verificamos também que foram apresentados os processos de avaliação médica aos quais os apresentadores foram submetidos no início, os 48 exames bioquímicos realizados e seus respectivos resultados com diagnóstico e parecer médico. Além disso, os apresentadores foram submetidos a avaliações antropométricas e nutricionais, mostrando a situação em que se encontravam no início do quadro e quais estratégias deveriam ser adotadas na tentativa de levá-los a uma adequação aos padrões de normalidade no período de três meses. O quadro também oportunizou a abertura de espaço para a exposição de dicas sobre a realização de exercícios, o emagrecimento, a alimentação, o sono, a hidratação, dentre outros temas. Percebemos, entretanto, que as dicas sobre exercícios realizadas por Márcio Atalla obtiveram maior destaque. Nelas, ele tirou dúvidas sobre os benefícios da realização dos exercícios, a frequência adequada, a carga correta, entre outros, além de apresentar para as pessoas uma vasta quantidade de exercícios a serem realizados em diferentes locais e com diferentes recursos. Além dos exercícios, verificamos que as dicas nutricionais estiveram presentes com grande frequência. Elas foram expostas através das dicas realizadas pelo profissional de Educação Física, bem como pela participação das nutricionistas Laura Breves e Mônica Dalmácio. Foram exibidas dicas para a seleção dos alimentos, compras no supermercado, preparação dos alimentos, escolhas para o emagrecimento, bem como, para o aumento do peso, entre outros. Ainda foram apresentadas algumas receitas e o modo de preparo como fizeram a cozinheira de Renata Ceribelli, Célia, e a mãe de Zeca Camargo, Maria Inês. Segundo Márcio Atalla “nesse desafio não pode passar fome, não pode fazer dieta radical, pode comer equilibradamente sem precisar abrir mão das boas coisas que todos nós gostamos” (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO FANTÁSTICO 04). As postagens realizadas no blog somaram um total de 975. Estas se direcionaram a diferentes elementos que de uma forma ou de outra se relacionavam ao quadro. As postagens 5 Tabela com título, mês e semana de cada postagem em anexo. 49 feitas no blog nos servem como percurso histórico para pensarmos o desencadeamento das ideias durante o acontecimento do quadro, mostrando a cada momento os resultados alcançados, deixando dicas, apresentando as dificuldades, entre outros aspectos. A tabela em anexo expõe de forma organizada o número, a data e título de cada postagem. A maior parte das postagens realizadas no blog aconteceu durante o primeiro mês do quadro, e nos meses posteriores as postagens diminuíram. O primeiro mês obteve um total de 56 postagens, no segundo mês foram realizadas 19 postagens e no terceiro e último mês um total de 22 postagens, fato que consolida durante os três meses do quadro um total de 97 postagens. Sobre os vídeos referentes ao quadro Medida Certa, coletamos durante nossa pesquisa 14 vídeos que foram exibidos ao vivo com duração total de 2:58:16 (duas horas, cinquenta e oito minutos e dezesseis segundos) e mais 16 vídeos complementares que foram postados no blog com duração total de 0:57:16 (cinquenta e sete minutos e dezesseis segundos). Na somatória do tempo de todos os vídeos coletados para análise obtivemos um total de 3:55:32 (três horas, cinquenta e cinco minutos e trinta e dois segundos). Quanto aos comentários realizados nas postagens no período delimitado para nossa pesquisa, obtivemos um total de 4804. Sintetizamos numericamente os comentários realizados sobre as postagens por mês e semana na tabela a seguir. TABELA 01 – COMENTÁRIOS POSTADOS NO BLOG MEDIDA CERTA MÊS SEMANA TOTAL DE COMENTÁRIOS 1ª SEMANA 2372 2ª SEMANA 693 1º MÊS 3ª SEMANA 284 4ª SEMANA 188 TOTAL 1º MÊS 3537 5ª SEMANA 198 2º MÊS 6ª SEMANA 159 7ª SEMANA 118 50 8ª SEMANA TOTAL 2º MÊS 3º MÊS TOTAL 3º MÊS TOTAL FINAL 9ª SEMANA 10ª SEMANA 11ª SEMANA 12ª SEMANA 3537 + 634 + 633 = 4804 159 634 57 52 129 395 633 4804 Ao analisarmos a tabela 01 sobre os comentários, percebemos que estes obtiveram uma maior concentração durante o primeiro mês de postagens, apresentando assim uma discrepância acentuada dos meses posteriores. Todavia, vale ainda destacar que a primeira semana foi responsável por quase metade de todos os comentários realizados ao longo dos três meses de realização do quadro. É importante também, considerar o fato de que foi no primeiro mês que apareceram o maior número de postagens, e assim, oportunizaram espaço para um maior número de comentários. A propósito dos números expostos referentes aos comentários, poderíamos inferir que o quadro obteve um alcance significativo, especificamente entre os internautas. Nos comentários percebemos um alcance regional diversificado no cenário nacional, apresentando comentários de todas as regiões e seus referidos estados. É necessário também destacar o alcance internacional que o quadro atingiu através das transmissões realizadas pela Globo Internacional. Obtivemos inúmeros comentários de pessoas que moravam em outros países e que evidenciaram estar acompanhando e participando do quadro Medida Certa. Destacamos dentre eles países como: Inglaterra, Espanha, Estados Unidos, Alemanha, Canadá, Portugal, Japão, Austrália, França, entre outros. Percebemos diante dos argumentos expostos acima que o quadro atingiu telespectadores e internautas de diferentes regiões, sejam elas nacionais ou internacionais. Esse fato foi possível graças à união ou mesmo desterritorialização provocada pelas redes 51 informacionais pelo qual foi veiculado, fato que auxiliou na construção de novas relações entre os sujeitos. Essa desterritorialização promovida através das tecnologias informacionais foi o elemento que fez com que as pessoas se visualizassem próximas dos apresentadores nos momentos de lhes enviar comentários, bem como, próximas das demais pessoas que através dos comentários evidenciavam estar participando do quadro. Entretanto, na verdade isso não passava de uma ilusão provocada pelas facilidades oportunizadas pela internet. A proximidade existia apenas no que confere a comunicação mediada, porém à distância física entre eles permanecia estabelecida. De toda forma, consideramos que a união estabelecida entre a mídia televisiva e os blogs se constituiu de grande importância para oportunizar um “diálogo” com a população que recepciona suas informações. Todavia, verificamos que a internet foi a responsável por oportunizar espaço para uma maior interação das pessoas com as informações mediadas. Segundo Malta (2009, p. 40) “podemos dizer que a internet deu o ‘pontapé’ inicial de uma era de interação entre os homens mediada pelas máquinas”. Entretanto, Malta e Domingos (2007, p. 3) argumentam que “outras mídias precisaram servir-se dos meios tecnológicos da digitalização para permitir que o espectador se sinta parte do espetáculo, que carrega em sua essência a característica de interação”. A utilização da internet como aliada da televisão para permitir uma maior interatividade entre os expectadores e os produtores da informação pôde ser observada no desenvolvimento do quadro Medida Certa do Fantástico. Conforme Malta e Domingos (2007, p. 4) “a internet passou a ser um aliado da televisão, já que através de sua plataforma, muitos programas convidam o telespectador a interagirem”. Além disso, observamos que “após o surgimento da internet, um veiculo aberto e que garante ampla interatividade com o usuário, a 52 possibilidade de interagir e participar da produção da mensagem tornou-se uma tendência” (MALTA, 2009, p. 48). Sobre isso, Malta (2009) destaca que o programa Fantástico da emissora Rede Globo foi um dos primeiros a promover a união da televisão com a internet. Essa articulação entre as mídias possibilitou uma maior aproximação entre a informação mediada e os telespectadores. A articulação entre diferentes tipos de mídia é também conhecida por convergência midiática. Segundo Malta (2009, p. 53) “a convergência seria a possibilidade de um mesmo produto fazer uso de diferentes mídias para se promover”. Característica facilmente percebida no quadro Medida Certa que utilizou da televisão e da internet para promover as ideias e os objetivos do quadro. Para os autores Rocha e Aucar (2011), o Fantástico tem se movimentado cada vez mais em direção da convergência midiática. Segundo eles: Isso pode ser notado no formato em prática e nos estudos de outros modelos de programação. Linguagens e quadros que priorizam a participação do telespectador incrementam a programação a cada domingo. O modelo é de um consumidor mais ativo e que ganha maior espaço no portal do programa e nos canais proporcionados pelas redes sociais e pelo telefone. O Medida Certa serve como comprovação a estes argumentos, visto que, o telespectador foi convidado a participar tanto desenvolvendo o mesmo projeto, quanto interagindo através dos comentários para expor opiniões, realizar elogios e críticas. Além disso, o quadro também oportunizou a abertura em redes sociais como no twitter e no facebook, facilitando o acesso das informações aos internautas. Diante essas considerações, corroboramos com Malta e Domingos (2007) quando afirmam que a revolução tecnológica atual tem promovido uma descentralização da informação, visto que ela passou a ser dissipada por diferentes fontes. Para os autores: 53 A interação das mídias produz um continuum informativo que preenche o sujeito intermitente. A tecnologia, desse modo, desenvolveu uma estrutura da comunicação com característica singular: não há mais distanciamento entre o fato e sua transmissão, a descoberta científica e sua divulgação e a noção de tempo e espaço modificou-se com contundência (MALTA e DOMINGOS, 2007, p. 3). No quadro percebemos que os telespectadores ocuparam um duplo papel, o de telespectadores ávidos por informações e dicas, bem como participantes da história construída pelo quadro, como seguidores do projeto. Participação esta estabelecida especialmente através dos comentários realizados sobre as postagens realizadas no blog do quadro. Durante os três meses de desenvolvimento do quadro foram efetivadas avaliações periódicas como podemos observar na imagem 06, para acompanhar os resultados e auxiliar na elaboração de novas estratégias para as intervenções e na obtenção dos resultados esperados. Essas avaliações aconteceram ao final de cada mês e contaram com o auxílio de profissionais da área médica e nutricional, através de exames laboratoriais e de avaliações antropométricas. Os resultados destes foram avaliados a partir de parâmetros de normalidades estipulados por tabelas de referência para cada exame e teste realizado, fato que culminava com a sua posterior classificação ou não nos padrões ditos normais. Imagem 06 – Consulta ao Cardiologista Alexandre Carvalho 54 Essa necessidade de avaliação e medicação através de exames laboratoriais e avaliações antropométricas revelam a preocupação com um “resultado absoluto” cobrado por uma sociedade técnico-científica. Essa sociedade tem apostado nos procedimentos técnicos de base científica como os principais aliados capazes de apresentar a “real” situação do corpo humano. A culminância do quadro aconteceu no dia 26 de junho de 2011. Este momento foi aguardado com grandes expectativas tanto pelos apresentadores quanto por todos os telespectadores que acompanharam o quadro. Para verificação dos resultados alcançados foram realizados novamente exames bioquímicos, testes cardiorrespiratórios, avaliações antropométricas, avaliação médica e nutricional. Os resultados dos exames, avaliações e testes foram divulgados e analisados pelo médico responsável pelo quadro, o cardiologista Alexandre Carvalho, que evidenciou melhoras significativas nos índices avaliados, tais como pressão arterial, glicose, colesterol, resistência cardiorrespiratória, retenção de líquidos, entre outros. Segundo o cardiologista, se os apresentadores pretendiam reprogramar o corpo, eles teriam conseguido. Na avaliação realizada com a nutricionista Laura Breves os resultados também mostraram-se positivos. A nutricionista destacou entre outros pontos as mudanças realizadas pelos apresentadores no que concerne uma maior ingestão de fibras, a redução do consumo de carnes vermelhas, uma maior ingestão de água, a diminuição no consumo de doces e refrigerantes, a realização da alimentação fragmentada, entre outros. Embora os apresentadores tenham obtido bons resultados nas avaliações realizadas, como expusemos acima, o suspense maior foi gerado em torno do peso perdido que não foi divulgado previamente, ficando mantido sobre sigilo para ser apresentado ao vivo no Fantástico. Na exibição do programa, a jornalista e apresentadora Patrícia Poeta comenta sobre os resultados do quadro: “A gente viu que todos os índices melhoraram, agora a gente 55 vai ver o peso e a cintura, mas antes eu quero saber qual é a expectativa dessa dupla fantástica que suou e acompanhou aí durante esses 90 dias”. Em resposta, Renata Ceribelli destacou: “olha, é muito mais curiosidade do que expectativa, a gente viu, a gente está sentindo os resultados em nosso corpo, mas a gente quer ver o número” (PATRÍCIA POETA e RENATA CERIBELLI, VÍDEO FANTÁSTICO 14). Diante do exposto, percebemos que o foco final do quadro direcionou-se aos resultados numéricos do peso dos apresentadores, especialmente os números representativos da perda efetivada no peso. Os novos números referentes ao peso dos apresentadores foram apresentados pelo profissional de Educação Física Márcio Atalla. Quanto à Renata Ceribelli, esta iniciou o quadro com 80,3 kg, após os 90 dias de participação no quadro obteve o peso de 74,4 kg. Entretanto, diante as avaliações do percentual de gordura e percentual de massa magra, foi possível atestar que a apresentadora perdeu neste período o equivalente a 9,5 kg de gordura e obteve um ganho de 3,6 kg de massa muscular. Em relação às medidas de circunferência abdominal, verificamos que a apresentadora tinha inicialmente 96,5 cm e com o passar dos 90 dias de participação no quadro obteve uma redução para 82,7 cm. Diante a exposição dos resultados obtidos a apresentadora demonstrou surpresa e muita satisfação (VÍDEO FANTÁSTICO 14). Sobre Zeca Camargo, verificamos que este iniciou o quadro com peso de 111,4 kg, após os 90 dias de participação no quadro obteve uma redução para 104 kg. Todavia, assim como Renata, diante as avaliações do percentual de gordura e percentual de massa magra, foi possível atestar que o apresentador perdeu neste período 12,29 kg de gordura e ganhou 4,9 kg de massa muscular. Sobre as medidas referentes à circunferência abdominal, o apresentador tinha iniciado o quadro com 110,3 cm e após os 90 dias de participação no quadro obteve uma redução para 99 cm. O apresentador demonstrou surpresa com os resultados positivos alcançados e comemorou junto à apresentadora (VÍDEO FANTÁSTICO 14). 56 A revelação das medidas “finais” e a afirmativa de que os apresentadores atingiram a medida certa simbolizaram o encerramento do quadro. Todavia, os apresentadores deixaram expresso que manteriam as rotinas alimentares e de exercícios que conquistaram durante o processo de reprogramação corporal adquirido com o desenvolvimento do quadro Medida Certa. A imagem a seguir apresenta a imagem do antes e depois dos apresentadores. Imagem 07 – O antes e o depois dos apresentadores A imagem 07 busca sintetizar para os expectadores do quadro os resultados alcançados pelos jornalistas. No entanto, o “antes e depois” apresentados assemelha-se ao tipo de marketing utilizado em várias revistas e propagandas de produtos para o emagrecimento, como causa e consequência, com caráter comercial. E por pensar no vínculo do profissional de Educação Física Márcio Atalla com a empresa Rede Globo, pensamos consequentemente no caráter comercial que está incluído no Medida Certa, se este não for seu principal objetivo. Sobre a imagem 07 ainda podemos identificar algumas características que tentam convencer sobre a eficiência do quadro e a satisfação com os resultados. Como podemos observar, a imagem do antes apresenta sujeitos sérios, de olhares fixos e cabelos descuidados. 57 Nas imagens do depois são apresentados sujeitos alegres, sorridentes que nos demonstram satisfação com os resultados. Além disso, evidenciamos que os cabelos encontram-se arrumados, dando uma melhor impressão a ambas as faces. Nas imagens, para evidenciar ainda mais a diferença, os sujeitos encontram-se na imagem do antes com duas peças de roupa na parte superior, fato que não favorece a demarcação dos contornos corporais. Na imagem do depois evidenciamos apenas uma peça de roupa, estando à mesma mais colada ao corpo, mostrando mais claramente os contornos dos corpos dos apresentadores. A foto também busca sintetizar o fim do quadro e os resultados alcançados. Ao analisar o “pós Medida Certa” questionamo-nos se esse realmente teve fim, ou apenas teria encerrado uma de suas etapas visto que, posteriormente foram lançadas as caminhadas medida certa, o livro medida certa, o aplicativo medida certa, além do programa dedicado a crianças, o Medidinha Certa, e do Medida Certa – O Fenômeno. Este fato demonstra o grande respaldo que obteve entre o público, mostrando a “necessidade” de novas ressignificações. As Caminhadas Medida Certa foram lançadas logo após o final do quadro como forma de incentivar as pessoas a aderirem à prática de exercícios físicos, conforme podemos visualizar na imagem 08, estas envolveram multidões de pessoas que se destinaram a acompanhar os apresentadores juntamente com o profissional de Educação Física. Esta iniciativa aconteceu através de uma parceria realizada entre o Fantástico e o Sesi. A proposta das caminhadas consistia em visitar inicialmente 11 capitais brasileiras (Rio de Janeiro, Belém, Fortaleza, Goiânia, Belo Horizonte, Florianópolis, Recife, Curitiba, Vitória, São Paulo e Brasília) durante os finais de semana de julho com os apresentadores Renata Ceribelli e Zeca Camargo, além dos profissionais de Educação Física Márcio Atalla e André Trombini. 58 Imagem 08 – Caminhada Medida Certa Os moradores das referidas capitais foram convidados a participar das caminhadas junto com os apresentadores e os profissionais de Educação Física em um percurso de 4 km. As caminhadas foram recepcionadas com grande participação do público nas cidades onde foram realizadas, conforme podemos observar na imagem 08 acima. Essa participação “junto” a eles, assim como o quadro apresentado na televisão, também passou pelo auxílio de mediadores. Na situação descrita, os mediadores, diferente dos meios de comunicação, deram-se pelos muitos seguranças que fizeram o isolamento dos apresentadores e profissional de Educação Física do público, conforme podemos observar na imagem 08. Em virtude das solicitações de moradores de outras capitais a proposta da caminhada foi estendida a outras cidades, como Natal. Seriam as caminhadas Medida Certa realizadas nas capitais brasileiras uma ressignificação da campanha “Mexa-se” promovida pela Rede Globo em 1975? Segundo Carvalho (1995, p. 58), a campanha “Mexa-se” implementada pela Rede Globo, definida pela 59 autora como o maior conglomerado de televisão do país, “foi enquadrada em suas origens à pressão, intuitiva ou consciente, para a mobilização da população brasileira no sentido da atividade física, com audiência de cinquenta milhões de pessoas nos horários principais sob patrocínio comercial”. As Caminhadas Medida Certa, assim como a campanha “Mexa-se”, foi uma articulação da emissora Rede Globo para incentivar a população a aderir à prática da atividade física. Como desdobramento do quadro Medida Certa as caminhadas invadiram diversas cidades e se fizeram presente em diferentes espaços midiáticos convidando a população a participar do evento, bem como a adotar as caminhadas como constante em suas vidas, ou outros tipos de atividade física. O livro sobre o quadro Medida Certa de autoria dos apresentadores Renata Ceribelli e Zeca Camargo, e do profissional de Educação Física Márcio Atalla foi publicado posteriormente ao término do quadro. Sobre o título de “Medida Certa: como chegamos lá”, o livro traz para os leitores informações sobre o desenvolvimento do quadro, com depoimentos dos apresentadores e de Márcio Atalla, bem como apresenta as atividades realizadas, as emoções vivenciadas, os medos, os desafios, entre outros. Além disso, o livro apresenta as dicas realizadas pelo profissional de Educação Física sobre alimentação e a prática de exercícios, dentre outras informações sobre o quadro e os resultados obtidos pelos apresentadores. O livro conta ainda com um grande acervo de fotografias dos diferentes momentos do quadro. 60 Imagem 09 – Livro do Medida Certa Ao analisarmos a imagem 09, capa do livro, evidenciamos sujeitos alegres com os resultados obtidos. Conforme apresenta o título “Medida Certa: como chegamos até lá!”, o mesmo busca esclarecer para os leitores o percurso traçado pelos apresentadores para alcançarem a medida certa. A fita métrica entrelaçada em seus corpos demonstra que todas suas partes devem estar adequadas as medidas certas, e que a forma de verifica-las se dá justamente através dos processos de medições. Os olhares, os sorrisos e o imperativo do título convidam os leitores a descobrirem a fórmula, ou fórmulas, de se chegar à medida certa. Posterior ao lançamento do livro, os responsáveis pelo quadro Medida Certa resolveram inovar ainda mais, utilizando dos recursos tecnológicos criaram um aplicativo para Android, iPhone e iPad, e disponibilizaram-no para download para celulares e tablets 61 (Imagem 10). A chamada realizada para a adesão ao aplicativo disponibilizada no blog do quadro dizia: “com a ajuda do aplicativo, você tem 90 dias para reprogramar seu corpo e pode passar pela mesma experiência que os apresentadores Zeca Camargo e Renata Ceribelli viveram na série do Show da Vida”. A utilização dessa ferramenta visava dar acesso às pessoas sobre as informações utilizadas no quadro de forma mais fácil e constante, visto que bastava acessar o aplicativo que você encontraria as sugestões alimentares, de exercícios, dentre outras informações. Imagem 10 – Aplicativo do Medida Certa No aplicativo Medida Certa um dos elementos que mais nos chamou a atenção diz respeito a um espaço destinado ao “desabafo das pessoas”. Quer desabafar? Assim questionava o aplicativo, e as pessoas que assim quisessem deveriam gravar um vídeo e enviar para a produção do quadro que abriria um espaço no blog para postar os desabafos. 62 Seguindo essa lógica, assim como os apresentadores tornaram públicas suas rotinas, as pessoas também exporiam suas realidades, e especialmente suas dificuldades. Sobre o aplicativo ainda encontramos no blog a seguinte afirmação: “o aplicativo Medida Certa cria um programa de treinamentos específico para você, de acordo com seus dados e seus objetivos. Você pode compartilhar seus resultados no Twitter e no Facebook e ainda tem espaço para gravar vídeos desabafando sobre as dificuldades da busca pela Medida Certa”. Embora as relações comerciais e de consumo estivessem presentes durante todo o quadro, destacamos que após o término do quadro, com o lançamento do livro para comercialização e a criação do aplicativo percebemos mais claramente a lógica de consumo objetivada pelo quadro, além das estratégias adotadas para cercar toda a população. Se não acompanhou o quadro ao vivo acesse o blog, se não conseguiu acessá-lo, leia o livro, mesmo assim, se ainda não conseguiu acompanhar as informações do quadro baixe o aplicativo e tenha as informações necessárias juntas a você. Acreditamos que essa seja a lógica adotada. Através das múltiplas estratégias adotadas, percebemos a intenção de fazer o Medida Certa permanecer em evidência para a população. O quadro Medidinha Certa foi outra estratégia lançada pelo Fantástico posterior ao quadro Medida Certa (Imagem 11). Seguindo basicamente a mesma estrutura do quadro desenvolvido com os apresentadores, o Medidinha Certa trás como inovação o direcionamento do quadro para o público infantil. Segundo o blog6 do “novo” quadro “depois do sucesso do quadro Medida Certa, que levou os apresentadores do Fantástico Zeca Camargo e Renata Ceribelli a reprogramarem o corpo em 90 dias, chegou a hora das crianças entrarem nesse projeto em busca de uma vida mais saudável”. Continuando a chamada ainda diz, “sob orientação do preparador físico Márcio Atalla, três crianças, de 9 a 11 anos, sedentárias ou 6 http://fantastico.globo.com/platb/medidinha-certa 63 que estão acima do peso, vão descobrir alternativas para uma alimentação balanceada e como praticar atividades físicas e até brincadeiras que estimulem o corpo”. Imagem 11 – Medidinha Certa Posterior ao Medidinha Certa eis que surge a nova ressignificação do quadro Medida Certa, dessa vez o participante do quadro foi Ronaldo Nazário, “O Fenômeno”. Assim como os jornalistas e apresentadores Renata Ceribelli e Zeca Camargo Ronaldo foi submetido a rotinas de exercícios e ao controle alimentar sobre orientação do profissional de Educação Física Márcio Atalla. O quadro tenta inovar ao trazer um dos atletas de maior sucesso no Futebol brasileiro, duas vezes campeão mundial e artilheiro das Copas do Mundo de Futebol, o ex-jogador possui um currículo invejoso no que concerne vitórias e conquistas de campeonatos nacionais e internacionais. No entanto, com o fim da carreira o jogador aumentou consideravelmente de peso e abandonou a prática de exercícios físicos, e o Fantástico através do “Medida Certa – O Fenômeno” (imagem 12) buscou reorganizar os hábitos do atleta para o retorno a atividade física, melhoria da saúde e o emagrecimento. 64 Imagem 12 – Medida Certa – O Fenômeno Pensando sobre esses acontecimentos relacionados ao quadro poderíamos reconhecêlo como algo mais amplo. A dúvida permanece em saber se este ampliou-se a partir do sucesso do quadro realizado com os apresentadores do Fantástico ou se estes acontecimentos posteriores já haviam sido planejados? Quais serão os novos investimentos em relação ao quadro? Independente da resposta, devemos reconhecer a importância que o quadro obteve na divulgação de saberes e práticas sobre questões que se relacionam ao corpo e a saúde. Portanto, refletiremos de forma mais aprofundada sobre essas compreensões, saberes e práticas nos capítulos a seguir. Apresentadas as características da mídia e do quadro em análise, nos interrogamos que sociedade é essa que nos exige estes tipos de cuidados com o corpo e a saúde apresentados no quadro Medida Certa? Que sociedade é essa que embriagada com as informações midiáticas impulsiona os sujeitos a formas de cuidado com o corpo e com a saúde baseada em informações exteriores e generalizadas? Que sociedade é essa que sente a necessidade de adequar os corpos e a saúde a padrões predeterminados? Que sociedade é essa que valoriza o corpo dos sujeitos a partir das aparências e do consumo exercido sobre ele? Ao longo do 65 capítulo apresentamos características dessa sociedade virtualizada que prioriza a aparência e o consumo, utilizando para sua conquista procedimentos técnicos-científicos. Entretanto, vale ressaltar que “de uma sociedade para outra, a caracterização da relação do homem com o corpo e a definição dos constituintes da carne do indivíduo são dados culturais cuja variabilidade é infinita” (LE BRETON, 2010, p. 30). O convívio social nos oportuniza criar e recriar constantemente as relações sociais, bem como os sujeitos ao estarem inseridos nessas, portanto “a potência coletiva cria uma obra de arte: a vida social em seu todo, e em suas diversas modalidades” (MAFFESOLI, 2010, p. 24). Assim, estamos expostos a uma mudança constante na compreensão do corpo a depender do contexto social, cultural e histórico em que este é reconhecido. Todavia o corpo será sempre o meio de ligação dos seres humanos, no meio social. “O corpo é a interface entre o social e o individual, entre a natureza e a cultura, entre o fisiológico e o simbólico” (LE BRETON, 2010, p. 92). Verificamos que o corpo hoje está sob a luz dos holofotes (LE BRETON, 2010). A ele é dedicado amplos espaços de cuidado e de apresentação para os outros corpos que coabitam em sociedade. Assim, visualizamos que o corpo é: lugar privilegiado do bem-estar e do parecer bem através da forma e da manutenção da juventude (frequência nas academias de ginástica, body building, cosméticos, dietética, etc.), o corpo é objeto de constante preocupação. Trata-se de satisfazer a mínima característica social fundada na sedução, quer dizer no olhar dos outros (LE BRETON, 2010, p. 78). Diante essa constante preocupação com os cuidados com o corpo, evidenciamos que estamos diante uma sociedade que valoriza o corpo e isso pode ser percebido “através da explosão publicitária, pela difusão do vídeo texto, ou das imagens televisivas, uma sensibilidade coletiva está se afirmando, e é inútil querer negligenciar” (MAFFESOLI, 2010, p. 42). De outra forma, poderíamos dizer que estamos diante de: 66 Sociedades “somatófilas”, sociedades que amam o corpo, exaltam-no e valorizam-no. Numa tal perspectiva, direi que o body building ressurgido nos nossos dias não é, de modo algum, um fato individual ou narcísico, mas muito pelo contrário, um fenômeno global, ou, mais exatamente a cristalização no nível (persona) de um ambiente de todo coletivo. Um jogo de máscaras generalizadas (MAFFESOLI, 2010, p. 44-45). Dessa forma, essa sociedade acaba valorizando o somático do corpo, ou seja, aquilo que te constitui e possibilita a visualização pelos outros, especialmente os constituintes que são possíveis de serem visualizados a olhos nus. Além disso, essa valorização mais do que um ato individual isolado é um acontecimento de nível social mais amplo. As pessoas buscam constantemente modificarem seus corpos para sua apresentação social. Como exemplo desse jogo de máscaras, apresentamos as cirurgias estéticas, especialmente aquelas realizadas sobre o rosto. “O acaso de um rosto, sua beleza ou feiúra, seus traços distintivos, seus traços negativos, vai ser preciso concertar tudo isso e fazer algo mais belo que o belo, um rosto ideal, um rosto cirúrgico” (BAUDRILLARD, 1990, p. 52) Verificamos que essa busca constante é estimulada por discursos de verdade que emergem de diferentes instituições sociais, como por exemplo, a mídia. Segundo Foucault (2012, p. 54) “a ‘verdade’ está circularmente ligada a sistemas de poder, que a produzem e a apoiam, e efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem”. Assim, as verdades sobre o corpo estão imbrincadas em relações de poder que a sustentam e que a valorizam. Nessa ação do poder desempenhada sobre o corpo é imprescindível reconhecer que ele vai além da negação, ou seja, o poder não se exerce apenas negando a realização de intervenções, os hábitos, os costumes, entre outros. Segundo Foucault (2012, p. 45) “o que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso”. Dessa forma o exercício do poder deve ser reconhecido em uma perspectiva mais ampla, como produtor de saberes, sensações e discursos que circulam socialmente. 67 Assim, “deve considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir” (FOUCAULT, 2012, p. 45). Ainda, Foucault (2012, p. 278 – 279) argumenta que: Em uma sociedade igual a nossa, mas no fundo em qualquer sociedade, existem relações de poder múltiplas que atravessam, caracterizam e constituem o corpo social e que essas relações de poder não podem se dissociar, se estabelecer nem funcionar sem uma produção, uma acumulação, uma circulação e um funcionamento do discurso. Diante o exposto, percebemos que o poder dissipado no seio social é antes de tudo circulante. O poder não é algo fixo e de comando exclusivo de um sujeito ou grupo, o poder se dá no confronto social das resistências e aceitações, em uma reconstrução constante. No entanto, é imprescindível reconhecer que este está intimamente relacionado e presente nos discursos proferidos pelos sujeitos. No que concerne ao exercício do poder nessa sociedade que ama o corpo, valoriza e exalta, percebemos que a ele tem sido dedicada atenção especial. Através de diferentes saberes e práticas o corpo tem sido trabalhado para ser visto e desejado por outros corpos. De acordo com Maffesoli (2010, p. 36), compreendemos que: Sejam os caixões de isolamento sensoriais, muito na moda nas megalópoles contemporâneas, os diversos body-building, sem esquecer o jogging e, seguramente, todas as técnicas de inspiração oriental, estamos em presença de um corpo que nos dedicamos a “epifanizar”, a valorizar. Notemos, no entanto, que até em seus aspectos mais “privados” esse corpo só é construído para ser visto. É teatralizado ao mais alto grau. Na publicidade, na moda, na dança, só é paramentado para ser apresentado em espetáculo. Pode-se dizer que se trata de uma socialização que é, talvez, específica, mas que não deixa de apresentar todas as características da socialização: a de integrar num conjunto e de transcender o indivíduo. Visualizamos que o corpo no contexto contemporâneo, tem sido perspectivado para a apresentação social, ou seja, ser visto. No entanto, essa perspectiva acaba por valorizar o jogo 68 das aparências, do que é possível de ser visto, e tem negado a este corpo as sensações e os desejos que lhes são inerentes. De acordo com Le Breton (2010, p. 77): A aparência corporal responde a uma ação do ator relacionada com o modo de se apresentar e de se representar. Engloba a maneira de se vestir, a maneira de se pentear e ajeitar o rosto, de cuidar do corpo, etc, quer dizer, a maneira cotidiana de se apresentar socialmente, conforme as circunstâncias, através da maneira de se colocar e do estilo de presença. O quadro Medida Certa se insere nesse contexto ao objetivar a mudança dos padrões corporais de Renata Ceribelli e Zeca Camargo conforme evidencia a imagem 07, com o “antes e depois”, onde a magreza aprece como sinônimo da felicidade. Sob um plano de fundo nos discursos sobre saúde, o quadro apresenta saberes e práticas que o descortinam e o teatralizam sobre a valorização das aparências. Corroboramos com Baudrillard (1990, p. 52) quando argumenta que “estamos em plena compulsão cirúrgica que visa a amputar os traços negativos das coisas e remodelá-las idealmente por uma operação de síntese”. Nesse trabalho desempenhado sobre o corpo na busca pela aparência, verificamos que na contemporaneidade os conhecimentos científicos e tecnológicos têm sido constantemente requisitados. É um processo de constante renovação. Conforme argumenta Le Breton (2010, p. 78) “um mercado em pleno crescimento renova permanentemente as marcas que visam a manutenção e a valorização da aparência sob os auspícios da sedução ou da ‘comunicação’”. Dessa forma, nos vemos diante um contexto de grande valorização da aparência. E alguns discursos da Educação Física, da Medicina e da Nutrição tem colaborado com essa valorização e com a construção de saberes e práticas para atender a esses padrões. “O corpo torna-se parceiro daquele de quem se exige a melhor apresentação, as sensações mais originais, a boa resistência, a juventude eterna, a ostentação das marcas distintivas mais eficazes”. O corpo parece saltar ao próprio sujeito como um parceiro social que lhe colocará diante dos outros a partir de suas aparências. “Em tempos de crise do casal ou da família, de 69 ‘multidão solitária’, e de dispersão de referências, o corpo torna-se um espelho fraterno, um outro eu com quem coabitar” (LE BRETON, 2010, p. 86). Esse contexto nos convence a corroborar com Maffesoli (2010, p. 139) quando afirma que “a vida urbana é mesmo das aparências. O espetáculo cotidiano não está mais acantonado a lugares fechados, capilarizou-se na rede densa do mundo físico e social”. Dessa forma, os diferentes espaços de convívio social são também espaços de valorização das aparências. “Assim, o corpo, como invólucro, não é uma excedente que se possa rejeitar à vontade, uma concha vazia que se possa abandonar; está ao contrário, intrinsicamente ligado ao corpo social” (MAFFESOLI, 2010, p. 147). O corpo é então mais do que um arcabouço, invólucro ou concha vazia, o corpo é o sujeito que coexiste com outros seres em um contexto social, sofrendo influência e influenciando as relações que estabelece. Entretanto, no contexto contemporâneo esse sujeito tem sido exigido socialmente para enveredar no mundo das aparências. Para tanto, deve estar atento às diversas modulações, sejam elas: moda, espetáculo político, teatralidade, publicidade, televisões, entre outros. Conforme apresenta Maffesoli (2010, p. 127) “valorizar a aparência é de um lado, escrever as formas em jogo (estáticas), e é, do outro, apreciar suas articulações (dinâmicas)”. Além disso, Essa prática da aparência, na medida em que se expõem à avaliação de testemunhas, se transforma em engajamento social, em meio deliberado de difusão de informação sobre si, como atualmente ilustra a importância tomada pelo look no aliciamento, na publicidade ou no exercício meticuloso do controle sobre si que as agências de comunicação tentam promover para o uso dos homens públicos (LE BRETON, 2010, p. 87). A aparência é assim submetida ao jogo das avaliações do belo, sendo que estas muita das vezes são impedidas de serem realizadas pelas percepções e sensações que despertam no sujeito e, passam a ser realizadas com base em padrões e parâmetros difundidos socialmente, atreladas ao emagrecimento, a juventude, ao consumo, entre outros. 70 Portanto, somos cotidianamente interceptados por discursos que valorizam o corpo e as aparências. Discursos esses que nos convencem, ou ao menos tentam nos convencer, sobre a importância da adequação aos padrões expostos socialmente. Para isso, somos também apresentados aos diferentes tipos de práticas interventivas que podem ser realizadas sobre ele, sejam cirúrgicas, alimentares, atividade física, estéticas etc. Em nossa pesquisa, pensaremos sobre essas práticas e os saberes sobre o corpo, bem como sobre a saúde, no quadro Medida Certa. 71 CAPÍTULO 02 EM BUSCA DO CORPO REPROGRAMADO Imagem 13 – Renata Ceribelli e Zeca Camargo se medindo 72 Sobre corpo, compreendemos que na contemporaneidade este é detentor de um vasto espaço nos discursos difundidos socialmente, bem como a ele é dedicado uma grande atenção no que concerne a realização de terapias, práticas corporais, entre outros processos interventivos com finalidade de lazer, expressão e cuidados com a saúde. Diante deste contexto, Nóbrega (2009, p. 18) alerta para a necessidade de uma “reflexão acerca dos discursos, práticas e valores atribuídos a essa ‘onda do corpo’, evitando assim uma possível, e já visível, banalização do corpo e do movimento humano”. Muitos são os estudos que se debruçam sobre o corpo na tentativa de compreendê-lo, outros, entretanto, debruçam-se sobre as relações estabelecidas a partir dos seus usos e de suas formas de expressão como no esporte, na dança, nas lutas etc. Nestes estudos, percebemos uma diversidade de compreensões sobre o corpo, visto que, ele foi e é visualizado a partir de diferentes óticas de análise que lhe atribuíram características específicas a depender do contexto e dos instrumentos utilizados na investigação. Em uma breve análise do percurso histórico das compreensões sobre o corpo Nóbrega (2001) verificou que este esteve coberto de características distintas, assumidas de acordo com o contexto histórico, cultural e social em que estava inserido. A ele foram atribuídos “valores como corpo-objeto, corpo-mercadoria, corpo-pecado, corpo-sujeito, corpo-prótese”, entre outros (NÓBREGA, 2001, p. 1). Refletindo sobre o corpo, Nóbrega (2010) chama a atenção para a cultura de consumo que se criou sobre o corpo na contemporaneidade, especialmente a partir da influência das instituições midiáticas. Segundo a autora: Uma nova cultura do consumo se estabelece a partir da imagem do corpo bonito, sexualmente disponível, e associado ao hedonismo, ao lazer, e à exibição, enfatizando a importância da aparência e do visual. Essas imagens de corpo são divulgadas pelos meios de comunicação de massa e mídia eletrônica, exigindo toda uma rotina de exercícios, dietas, cosméticos, terapias, entre outras preocupações com a imagem e a autoexpressão, uma exposição sem limites do corpo (corpo-outdoor) (NÓBREGA, 2010, p. 23). 73 Percebemos então que os discursos sobre o corpo veiculado pela mídia são em sua maioria restritos diante a variedade corporal existente, pois, adotam padrões que devem ser dissipados no imaginário social buscando uma adequação coletiva como sinônimo de felicidade, de beleza, e, acima de tudo, de saúde. Destacamos a necessidade de reflexão sobre o corpo em telas de imagens pela confusão que nos causam de pertencimento e estranhamento. Pertencimento pelo reconhecimento de muitas de suas características como semelhantes a si, ao eu corpo, e o estranhamento consequente da distorção proporcionada pelos aparatos tecnológicos responsáveis pela mediação e transmissão das imagens do corpo. Sobre isso, destacamos as palavras de Baudrillard (1990, p. 63) quando argumenta que: No espaço da comunicação, as palavras, os gestos, os olhares ficam em estado de contiguidade incessante, sem contudo jamais se tocarem. É por que nem à distância, nem a proximidade são as do corpo em relação ao que cerca. A telas de nossas imagens, a tela interativa, a tela telemática são ao mesmo tempo muito próximas e muito distantes: muito próximas para serem verdadeiras [...], muito distantes para serem falsas. Criam assim, uma dimensão que já não é exatamente humana, uma dimensão excêntrica que corresponde a uma desporalização do espaço e uma indistinção das figuras do corpo. A impossibilidade do tocar é consequência do distanciamento oportunizado pela mediação imagética, distância essa que se aproxima na oportunidade de reconhecê-lo enquanto corpo. Portanto, o corpo em telas de imagens deve ser refletido e compreendido na complexidade em que nos representa e se apresenta para nós. Assim, devemos compreender que na veiculação dos discursos sobre o corpo, a mídia assume um papel central. Através dos diferentes espaços da comunicação, sejam eles: jornais, revistas, televisão, internet, entre outros, ela transmite para a população diferentes compreensões, saberes e práticas sobre o corpo. Este fato merece a atenção de pesquisas que 74 se proponham a investigar o corpo e suas influências nos diferentes contextos e espaços sociais, como: escolas, academias, hospitais etc. Portanto, buscaremos aqui pensar como o corpo foi veiculado através das telas de imagens da televisão e do computador no quadro Medida Certa, promovendo a construção de compreensões, saberes e praticas sobre ele, construções estas que muita das vezes acabam por fragmentá-lo, ou seja, desconstruí-lo. Conforme expressa a imagem 13 apresentada na abertura deste capítulo, esse corpo foi essencialmente controlado a partir das medidas. As fitas métricas como mordaça na boca dos apresentadores simboliza o controle alimentar efetivado na busca pela medida certa. É necessário fechar a boca e diminuir o consumo de alimentos para redução do peso e consequente obtenção dos objetivos do quadro. O olhar dos apresentadores demonstra espanto e sufoco sobre essa necessidade do controle alimentar. Neste quadro, o corpo foi o personagem principal. Sobre os corpos foram realizadas intervenções na busca por um aprimoramento fisiológico e estético, bem como de busca pela obtenção de saúde. Todavia, as informações veiculadas não mantiveram uma coerência nas compreensões sobre corpo, manifestando assim elementos que nos permitem visualiza-lo a partir de diferentes características que são discutidas em categorias de conteúdos posteriormente. Diante os dados analisados chegamos as seguintes categorias de análise: corpo como sistema operacional; corpo biológico; corpo fragmentado e exterior ao sujeito; corpo quantificado e padronizado; e, corpo sujeito. Sobre as categorias de conteúdo construídas para a discussão deste tema neste capítulo, é importante deixar claro que a separação ou categorização utilizada não objetiva o isolamento dos conhecimentos de cada uma delas. Ao contrário, é usado como efeito didático para construção textual visando tornar as discussões mais claras para os leitores e evidenciar 75 as características mais fortes em cada uma das compreensões sobre o corpo. Todavia, os conhecimentos apresentados em uma categoria não estão isentos de também estarem presente ou mesmo se relacionar com os conhecimentos apresentados em outras. Corpo como sistema operacional Destacamos dentro desta categoria as compreensões, saberes e práticas que se propuseram a realizar uma reprogramação do corpo. Os termos reprogramar ou reprogramação foram frequentemente utilizados durante todo o desenvolvimento do quadro pelos profissionais da área médica, nutricional e da Educação Física, bem como pelos jornalistas integrantes e pelo público que acompanhou o quadro. Portanto, esta compreensão do corpo foi a que mais se sobressaiu nos discursos do Medida Certa. Em muitos momentos, a ideia da reprogramação foi tomada como conceito base para os objetivos e as intervenções realizadas. Segundo a jornalista Patrícia Poeta o desafio do quadro é “reprogramar o corpo em 90 dias” (PATRÍCIA POETA, VÍDEO BLOG 03). A todo instante se enfatizava a necessidade de reprogramar o corpo. Durante os programas foram apresentados como o corpo estava sendo reprogramado, que benefícios tinham sido alcançados e o que ainda era necessário reprogramar. A associação do corpo a um sistema operacional se deu justamente pela ideia propagada de reprogramar. O termo traz em si a significação de tornar a programar, ou seja, programar algo novamente. De acordo com Ferreira (2000, p. 560) programar é definido como: “1. Fazer o programa de; planejar. 2. Prever ou selecionar, como parte de programa ou de programação. 3. Determina a forma de funcionamento (aparelho, computador), fornecendo programa. 4. Elaborar”. Direcionar o ato de “programar” ao corpo é de forma indireta relacioná-lo a um sistema operacional, que em muitos momentos associa-se a aparelhos como exposto na definição acima, especialmente ao computador. 76 Sobre este fato, percebemos que quando é realizada a programação no corpo não se devem negar os componentes nele existente, mas é necessário reorganizar os hábitos e costumes para poder atingir os objetivos estabelecidos, no caso do quadro a perda de peso entendida como obtenção da saúde. Podemos perceber isto quando a jornalista Renata Ceribelli apresenta que o objetivo do “reality” é reprogramar o corpo, e que os jornalistas/apresentadores passaram pelo processo de reprogramação mantendo as rotinas de cada um (RENATA CERIBELLLI, VÍDEO BLOG 02). O termo reprogramação corporal nos desperta para uma associação ao sistema operacional de um computador. Dessa forma, o corpo se associaria a este, visto que, seria necessária a “instalação” de novos hábitos, especialmente através da prática regular de exercícios e do controle alimentar, bem como por meio da “remoção” do que não lhe é útil ou do que atrapalha o seu desempenho. Realizar-se-ia uma formatação na busca por um melhor funcionamento. Esse corpo enquanto sistema operacional, assim como os sistemas computacionais, está submetido aos riscos da contaminação dos vírus. Estes vírus seriam provenientes de diferentes fontes, sejam os vírus biológicos estudados e decifrados nos laboratórios pelos profissionais da área da saúde, ou, os vírus sociais, que aqui caracterizaríamos a partir das modas, do consumo, das aparências, entre outros, e que no cotidiano nos infectam ou buscam nos infectar. Para refletir de forma mais detalhada sobre os vírus sociais acima comentados, destacamos o fenômeno das modas. Sobre este, Baudrillard (1990, p. 77) comenta que: Basta considerar o efeito da moda. É um contágio miraculoso das formas, em que o vírus da reação em cadeia prevalece à lógica da distinção. O prazer da moda é, decerto, cultural, mas não seria mais ainda decorrente do consenso imediato, fulgurante nos jogos dos signos? As modas, aliás extinguem-se como as epidemias, quando devastaram a imaginação, e o vírus se cansa. 77 Portanto, verificamos que a moda surge como um efeito viral que contamina as pessoas, contaminação essa que se extinguirá, ou se ressignificará, quando se normaliza dentro do contexto social em que estas vivem. Atrelada ao consumo, a moda serve socialmente como forma de distinção entre os grupos, assim, o efeito da moda mostra a contradição entre a busca pela adequação de todos e a necessidade de distinção seja através dos produtos, marcas, formas de usos, frequentação de espaços, entre outros. No contexto atual a moda cansa quando se torna habitual, fato que demanda a necessidade do surgimento de novas modas. Assim, percebemos que a moda enquanto vírus social atrela-se as relações de poder exercidas socialmente, não um poder centrado em um único sujeito ou grupo, mas um poder que circula através das relações exercidas e vivenciadas por esses. Sobre isso destacamos as palavras de Foucault (2012, p. 284), visto que segundo ele: O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como riqueza ou bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer esse poder e de sofrer sua ação, nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Assim, o poder presente nas modas ao mesmo tempo em que submete os sujeitos as suas ideias é submetido também às ideias e ressignificações dos sujeitos que a recepcionam. No entanto, ao pensar a questão das modas é imprescindível reconhecer que “adoramos ser imediatamente contaminados, sem refletir”. Ou seja, embora tenhamos nossos pontos de resistências é necessários estimulá-los para que nossa contaminação aconteça de forma consciente e crítica. Dessa forma, é necessário que tenhamos claro que “a moda é um fenômeno irredutível por que participa desse modo de comunicação insensato, viral, 78 imediático, que só circula tão rápido porque não passa pela mediação do significado” (BAUDRILLARD, 1990, p. 77). Diante este contexto de uma multiplicidade de vírus, é necessário a “instalação” e utilização de antivírus eficientes (vacinas, reflexões, atividade física, controle alimentar, entre outros) e constantemente atualizados para que possamos resistir às investidas infecciosas destes, sejam eles sociais ou biológicos, e conviver harmoniosamente enquanto corpo. Portanto, esse corpo enquanto sistema operacional é reconhecido nos discursos do quadro, fato que nos leva a refletir sobre uma percepção social mais ampla sobre ele. Conforme argumenta Baudrillard (1990, p. 13): Outrora o corpo foi a metáfora da alma; depois foi a metáfora do sexo; hoje já não é mais metáfora de coisa nenhuma. É o lugar da metástase, do encadeiamento maquínico de todos os seus processos, de uma programação infinita sem organização simbólica, sem objetivo transcendental, na pura promiscuidade consigo mesmo, que é também a das redes e dos circuitos integrados. Essa compreensão do corpo enquanto máquina ressurge nessa associação do corpo aos sistemas operacionais, como descritos acima, em uma programação infinita. Assim, o sujeito enquanto corpo é incitado constantemente a estar se reprogramando para atender as necessidades sociais, sejam elas profissionais, afetivas, sexuais, entre outras. É necessário se atualizar constantemente, ou seja, reprogramar-se. Diante a forte influência dos computadores na resolução dos problemas sociais e nos processos de comunicação e de relacionamento, os seres humanos são em muitos momentos comparados a estes. Conforme apresenta Baudrillard (1990, p. 31) “a revolução cinerbenética leva o homem, diante da equivalência entre cérebro e computador, à interrogação crucial: sou um homem ou uma máquina?”. Essa interrogação que coloca o ser humano diante a inquietação da associação a uma máquina não é recente, no entanto, verificamos ressignificações dessa associação. O corpo 79 que anteriormente foi constantemente associado a uma máquina, sendo esta pensada através das máquinas a vapor, de funções mecânicas, de funções “braçais”, de força, de produção do trabalho. Este, seria visualizado no arcabouço dos seus músculos, ossos e constituintes biológicos que associados entre si possibilitariam o desenvolvimento de trabalho, assim como as máquinas apresentadas acima, sendo um metáfora do outro, ou seja, corpo e máquina. Que máquinas nos possibilitam a associação com os seres humanos na contemporaneidade? Acreditamos diante os discursos evidenciados no quadro, que os seres humanos pensados enquanto máquina assemelham-se as máquinas digitais, virtualizadas e integradas a circuitos de informações, máquinas essas que tentam reproduzir, e muitas vezes reproduzem, funções desempenhadas pelos seres humanos nas relações sociais. Todavia essas máquinas apresentam limitações que as tornam estranhas ao homem. Para Baudrillard (1990, p. 61): O que sempre distinguirá o funcionamento do homem do funcionamento das máquinas, mesmo das mais inteligentes, é a embriaguez de funcionar, o prazer. Inventar máquinas que sintam prazer está ainda, felizmente, fora dos poderes do homem. Todos os tipos de prótese podem concorrer para o prazer dele. Embora invente algumas que trabalham, “pensam” ou se deslocam melhor do que ele ou por ele, não há prótese, técnica ou midiática, do prazer do homem, do prazer de ser homem. Para isso seria necessário que as máquinas tivessem ideias do homem, que pudessem inventar o homem, mas para elas é tarde demais: foi ele quem as inventou. É por isso que o homem pode exceder o que é, ao passo que as máquinas nunca excederão o que são. As mais inteligentes são exatamente o que são, exceto talvez no acidente ou na falha, que sempre lhes podem ser imputados como um desejo obscuro. Elas não tem o excesso irônico de funcionamento, excesso de funcionamento que corresponde ao prazer ou sofrimento, pelo qual os homens se afastam de sua definição e se aproximam do seu fim. A infeliz máquina, nunca excede sua própria operação o que talvez explique a profunda melancolia dos computadores... Todas as máquinas são celibatárias. Os argumentos apresentados na citação acima são de fundamental importância para visualizar as fortes distinções existentes entre o ser humano e a máquina, independente do tipo de máquina. O ser humano enquanto corpo vivo e situado em um contexto está sujeito às sensações, as ressignificações e as reconstruções dos sentidos e modos do viver. As máquinas 80 estão condicionadas e programadas ao desenvolvimento de funções específicas pensadas a partir dos desejos e necessidades de quem as programa, todavia o ser humano não se rende aos desejos “próprios” das máquinas. Pensando os discursos do quadro que compreendem o corpo como um sistema operacional, fica evidente a necessidade de uma reprogramação corporal. Nas análises realizadas fica evidente que a reprogramação deve ser realizada predominantemente de acordo com os conhecimentos técnicos exteriores ao sujeito, de profissionais capacitados, no caso da Medicina, Nutrição e Educação Física. A ideia apresentada acima é sintetizada na fala da jornalista Renata Ceribelli quando realiza a apresentação da proposta do quadro. A jornalista argumenta que: “vou tirar da memória do meu corpo tudo aquilo que me fez engordar no decorrer dos anos, e vou reprogramá-lo em 90 dias” (RENATA CERIBELLI, POSTAGEM 01). Durante o quadro, evidenciamos que os apresentadores perseguiram a perda de peso como objetivo a ser alcançado. Além disso, foram em diferentes momentos abordados os riscos que a obesidade oferece a saúde e o que poderia ser feito para amenizar ou retirá-los dessa situação. Conforme Hauser, Benetti e Rebelo (2004, p. 73) em artigo publicado na Revista Brasileira de Cineantropometria & Desempenho Humano dizem que “para evitar que a prevalência da obesidade continue crescendo, surge à necessidade de adotar-se medidas de prevenção. Estas podem ser através do aumento do gasto calórico pelo exercício ou pela diminuição na ingestão calórica”. Esclarecendo sobre o processo de reprogramação objetivado pelo quadro, a jornalista solicita que os acompanhantes do quadro esqueçam que os participantes estão fazendo dieta, e reconheçam que estes estão reprogramando o corpo. Segundo ela, reprogramar o corpo significa dar um novo padrão de saúde através de mudanças alimentares e da prática de exercícios. Vejamos: 81 Para começar, esqueçam a palavra DIETA. Eu e o Zeca NÃO estamos de dieta. A proposta do Medida Certa é REPROGRAMAR O CORPO em 90 dias. E o que isso significa? Dar um outro padrão de saúde para o corpo através de mudanças nos hábitos alimentares, e principalmente incluindo atividade física DIÁRIA na nossa vida. Assim, o corpo vai entender que ele vai ter que funcionar com novas regras, ou seja: queimando mais gordura, diminuindo o colesterol, melhorando a circulação sanguínea, enfim, ele vai funcionar de maneira mais saudável, melhorando e muito, a qualidade de vida, o bem estar. Como fazer isto? Não adianta eu e o Zeca passarmos para o público um cardápio sugerido por um médico ou nutricionista, pois ele só servirá para nós (RENATA CERIBELLI, POSTAGEM 51). Diante os argumentos expostos verificamos que o corpo nesta reprogramação se torna passivo, visto que as intervenções foram realizadas de fora para dentro não oportunizando a atuação do próprio corpo, que para nosso entendimento não pode ser reconhecido somente como objeto, mas também como sujeito que se modifica. Embora a jornalista defenda a ideia de não estarem realizando dieta, a mesma entra em contradição com outros momentos do quadro, em que claramente afirma e defende a realização de dietas. Para a reprogramação do corpo os discursos apoiam-se na realização de exercícios e no controle alimentar na busca pela perda de peso, ambos com base nos conhecimentos biológicos. De acordo com estudos da área com enfoque biológico, “a combinação de dieta mais exercício proporciona perdas de peso mais eficiente, durante um curto ou longos períodos, do que somente uma destas intervenções” (HAUSER, BENETTI E REBELO, 2004, p. 77). Entende-se desta forma que “uma alimentação equilibrada quantitativa e qualitativamente, aliada a uma prática desportiva, garante o trabalho metabólico normal, que conduz o indivíduo a atingir e manter seu peso ideal” (SERRA e SANTOS, 2003, p. 700). 82 Imagem 14 – Renata Ceribelli em jantar de casamento No controle do peso os hábitos alimentares possuem grande influência. A imagem 14 mostra a jornalista Renata Ceribelli no jantar de um casamento, a mesma apresenta o prato constituído basicamente de fibras e proteína de carne branca. Segundo Serra e Santos (2003, p. 701) “hábitos e práticas alimentares são construídas com base em determinações socioculturais. No mundo contemporâneo, a mídia desempenha papel estruturador na construção e desconstrução de procedimentos alimentares”. Além disso, vale salientar segundo as autoras citadas acima que “as práticas alimentares de emagrecimento inserem-se numa lógica de mercado impregnada por um padrão estético ideal”. Um dos momentos fortes sobre a reprogramação do corpo acontece através do diálogo entre a nutricionista Laura Breves e a jornalista Renata Ceribelli. A jornalista comenta sobre a dificuldade em emagrecer rápido e a nutricionista responde: Quando você inicia um programa de emagrecimento geralmente a pessoa se dedica melhor no primeiro mês [...] por que tá incomodando o peso, depois 83 existe uma adaptação do organismo que é de 30 a 60 dias, onde o corpo se defende também da restrição calórica, então quanto mais for à restrição calórica, maior é essa defesa, tá? Então não é interessante que você faça restrições calóricas muito severas (LAURA BREVES, VÍDEO BLOG 10). Conforme os argumentos apresentados acima, inicialmente o corpo reage de forma significativa aos estímulos postos sobre ele, entretanto com a permanência destes, ele acaba se adaptando. Além disso, a nutricionista fala que o corpo tende a se defender de restrições calóricas muito acentuadas e assim aconselha a não realizá-las severamente. Renata Ceribelli questiona sobre o motivo: “porque o corpo vai te cobrar?”. Em resposta, a nutricionista argumenta: “está me dando pouco, então também não vou gastar, tá? Então aí que entra a atividade física que é fundamental, pois ela obriga o seu corpo a manter o metabolismo alto”. Diante dessas considerações, a jornalista indaga mais uma vez: “então isso é que é reprogramar o corpo?”. A nutricionista afirma: “exatamente, você faz uma restrição que não seja muito severa, e a atividade física entra mantendo o seu metabolismo elevado. Então isso é o que faz você ir emagrecendo, mantendo uma coisa progressiva no emagrecimento” (RENATA CERIBELLI e LAURA BREVES, VÍDEO BLOG 10). Na realização dessa reprogramação corporal fica evidente que os exercícios foram essenciais. Durante o quadro foram realizadas diferentes tipos de atividade física, as quais exemplificamos: vôlei, natação, musculação, corrida, caminhada, musculação, pular corda, remo, ciclismo, dança, ginástica funcional, yoga, entre outros. Os efeitos oportunizados por cada tipo de exercício é diferente, visto que “algumas modalidades de exercícios físicos podem ser mais benéficas que outras em relação ao impacto sobre o balanço de energia. A quantidade de gasto de energia difere de acordo com o tipo de atividade escolhida” (HAUSER, BENETTI e REBELO, 2004, p. 73). Diante dessas considerações, Márcio Atalla fez constantes indicações e esclarecimentos a respeito da 84 escolha correta dos exercícios para cada situação, além de argumentar que a variação dos exercícios intensificaria o gasto calórico. O controle alimentar também é essencial para a obtenção da reprogramação proposta. Ao longo do quadro foram apresentadas inúmeras dicas de alimentos que contribuem para o emagrecimento, como também para o aumento do peso. Receitas de pratos, indicação da alimentação fragmentada de três em três horas, seis vezes ao dia, ingestão de fibras e hidratação, dentre outras dicas. Porém, os conhecimentos fisiológicos e bioquímicos foram os elementos chaves para a reprogramação promovida. O profissional de Educação Física Márcio Atalla destaca que o corpo é uma máquina em funcionamento. Segundo ele, “o seu corpo é uma máquina perfeita, pois sempre vai te dar sinais de quando está exagerando para mais ou para menos. Aprenda a ouvir esses sinais” (MÁRCIO ATALLA, POSTAGEM 88). Fica evidente que nesta categoria de conteúdo o corpo foi compreendido e divulgado pela mídia como um sistema operacional com necessidade de reprogramação, ou seja, de emagrecimento. Sendo que esta foi idealizada através da intervenção com atividade física regular e orientada, bem como do controle alimentar, ambas as práticas com grande influência dos saberes da fisiologia e da bioquímica. Evidenciamos ainda que desta compreensão de corpo enquanto um sistema operacional, temos desdobramento de outras categorias que estão diretamente interligadas, como por exemplo: corpo biológico; corpo fragmentado e exterior ao sujeito; e, corpo quantificado e padronizado. Corpo biológico O corpo compreendido dentro desta categoria obteve grande destaque durante as análises do material do Medida Certa em virtude dos inúmeros discursos que lhe fizeram referência a partir dos constituintes biológicos. Nela, destacamos como o corpo foi 85 predominantemente apresentado a partir dos conhecimentos de base biológica, especialmente pelos saberes de áreas como a anatomia, a fisiologia e a bioquímica. Este corpo na perspectiva de organismo teria então seu funcionamento condicionado às estruturas e componentes químicos articulados entre si. No entanto, vale ainda destacar que cada corpo teria sua configuração subordinada a uma carga genética herdada dos progenitores. Os discursos e imagens analisados apresentam uma compreensão que toma como base o conhecimento sobre corpo a partir dos seus componentes estruturais. As estruturas seriam então conhecidas de forma detalhada através dos estudos da Anatomia. Esta ciência proporcionaria o conhecimento das estruturas do corpo nos diferentes níveis de complexidade, sejam: as células (epiteliais, sanguíneas, nervosas etc); os tecidos (conjuntivo, nervoso, muscular etc); os órgãos (coração, pulmão, fígado, cérebro etc); os sistemas (nervoso, circulatório, respiratório etc). A imagem 15 que apresentamos a seguir expressa um pouco dessa visualização do corpo a partir dos seus constituintes biológicos. Nos painéis informativos dissipados na imagem é possível ver o indicativo de inúmeros constituintes e os valores encontrados de cada um deles. A posição dos jornalistas nos leva a visualização de uma rotação em torno do eixo do próprio corpo, uma forma de mostrá-lo em seus diferentes ângulos. A imagem também se assemelha a muitas cenas de filmes futuristas, onde os sujeitos em foco parecem estar realizando uma viagem, uma transposição para outro espaço e cenário. No quadro, a viagem realizada pelos apresentadores se deu na objetivação da perda de peso, fato que foi demonstrando na imagem 07 quando apresenta o antes e o depois de cada jornalistas. 86 Imagem 15 – Componentes biológicos do corpo Segundo Souza (2005, p. 173) a biologia instituiu uma nova forma de olhar para o ser vivo. “Esse olhar, ao dirigir-se para o interior do corpo e procurar correlacionar as funções dos órgãos e dos sistemas com a anatomia comparada, cria o interno do organismo vivo e, depois os elementos exteriores que integram o corpo, possibilitando-lhe a existência da vida”. Para conhecer o corpo a partir dos seus constituintes biológicos foi necessário o desenvolvimento de instrumentos, dentre eles destacamos o microscópio. Segundo Mendes (2007, p. 74) “com o aperfeiçoamento do microscópio, um mundo novo se descortina, órgãos, tecidos e células revelam o interior do corpo humano vivo. Um corpo que não era possível de ser visto a olho nu”. Continuando seus argumentos a autora destaca que: o aperfeiçoamento do microscópio tornou visível a constante reconstrução das células, mas houve de uma maneira geral uma interpretação reducionista da vida, e a compreensão de corpo humano se estabelece prioritariamente de uma maneira fragmentada, pautada no reducionismo biológico (MENDES, 2007, p. 74). 87 Assim como a autora, compreendemos que este olhar para o corpo a partir dos constituintes biológicos individualizados acarreta uma redução do sujeito e não o compreende no entrelaçamento com outros elementos que estão presente no seu existir, ou seja, compreende-o numa perspectiva reducionista. Com o desenvolvimento tecnológico foram construídos novos instrumentos e desenvolvidas técnicas de maior precisão no esquadrinhamento e conhecimento do corpo. Dentre estas destacamos as técnicas de imagem que passaram a realizar um minucioso trabalho de conhecimento das estruturas e componentes biológicos do corpo. Para Santaella (2007, p. 3) “as técnicas de processamento de imagem atingiram hoje um tal nível de penetração nas mais íntimas cavidades e recessos do corpo que este pode ser milimetricamente esquadrinhado e fatiado sem ser lesado”. Diferente dos estudos anatômicos realizados para o conhecimento do corpo, as técnicas de imagens não necessitam “invadi-lo” e “ferí-lo” para conhecer todos seus caminhos, fato que torna vantajosa sua utilização. Conforme Santaella (2007, p. 3) “os novos aparelhos fazem o rastreamento dos componentes celulares, calculam as dimensões e volumes das estruturas microscópicas, reconstroem em imagens tridimensionais o fatiamento infinitamente milimétrico dos órgãos, surpreendendo-os em pleno funcionamento”. Portanto, não é necessário paralisar ou “matar” o corpo para conhecê-lo, pois estas técnicas oportunizam o seu exame diante o seu funcionamento, assim, “órgãos, tecidos, buracos e reentrâncias, pedaços do corpo são expostos, postos a nu. O que se tem aí é a carne perscrutada em sua crueza, células, moléculas, carne reduzida a si mesma, dessexualizada” (SANTAELLA, 2007, p. 3 - 4). Ainda sobre a constituição do corpo, a categoria do corpo biológico abre espaços para sua composição a partir dos elementos químicos, conhecimentos estes que são tratados pela 88 bioquímica e que no quadro aparecem constantemente associados aos saberes da área médica e aos exames laboratoriais. Essa prevalência dos constituintes biológicos também está presente nos discursos de corpo da Revista Brasileira de Ciências do Esporte, em artigos publicados até a década de 80, conforme é mostrado no estudo de Mendes (2007, p. 75). Para ela: Quando o estudo dos seres vivos é reduzido à análise de seus componentes bioquímicos e genéticos, há um reforço ao reducionismo biológico. Isolando seus elementos e suas características específicas nessas análises, o todo é explicado apenas por essas partes. Visão que refuta a ideia de totalidade e se faz presente neste cenário epistemológico pautado no mecanicismo, não somente em relação aos estudos biológicos. O conhecimento das partes constituintes do corpo é importante para pensar algumas de suas características estruturais e de funcionamento, no entanto o seu isolamento e exclusividade no conhecimento do corpo reduz este a um sistema pautado no mecanicismo e exclui as possibilidades de reconhecimento como sujeito passível de expressão, sensação e desejo. Entretanto, é importante não negarmos os conhecimentos produzidos pela biologia para não cairmos numa “biofobia”. Sobre este termo, Almeida (2009, p. 84) destaca, “a biofobia, isto é horror a tudo que lembra o biológico, marcou durante muito tempo o conhecimento nas chamadas ciências humanas e sociais”. Nóbrega (2010, p. 28) ao refletir sobre as contribuições da biotecnologia no cenário contemporâneo destaca que “a genética tem apresentados contribuições significativas para as novas possibilidades de reconstrução da identidade corpórea”, especialmente a partir dos estudos do Projeto Genoma que busca mapear o DNA humano. No entanto, para a referida autora, “a existência humana não se reduz aos fundamentos químicos. Nessa perspectiva, a visão da biologia molecular torna-se insuficiente, pois, ao considerar que os genes constituem 89 a informação que especifica o ser vivo, reduz o todo à propriedade dos componentes” (NÓBREGA, 2010, p. 29). Na articulação dos conhecimentos anatômicos com os conhecimentos bioquímicos nos deparamos com o campo de saber da fisiologia, que se empenha na compreensão do funcionamento do corpo humano. A compreensão do funcionamento do corpo humano destacou-se constantemente durante o quadro analisado. Diante dos aspectos fisiológicos, ele pode ser pensado a partir do metabolismo, da respiração, da circulação, da reprodução, entre outros. Entretanto, no quadro Medida Certa as questões que envolvem o metabolismo se sobressaíram especialmente por direcionar muitos dos discursos e práticas para as questões que envolvem o emagrecimento. As práticas realizadas sobre esse corpo biológico aconteceram a partir de exames laboratoriais, bem como pelas intervenções realizadas com os exercícios físicos e o controle alimentar, ambos direcionados por profissionais especializados. Imagem 16 – Renata Ceribelli no controle alimentar e na prática de atividade física 90 A imagem 16 apresenta a jornalista Renata Ceribelli diante as intervenções chaves do quadro, o controle alimentar e a prática de exercícios. Na primeira a jornalista apresenta com uma forte expressão de alegria o alimento que será consumido. Mesmo diante a quantidade mínima de alimento, o sorriso é esboçado como forma de mostrar para os expectadores que o controle alimentar pode ser uma prática prazerosa. Na outra parte da imagem a jornalista encontra-se na academia em uma bicicleta ergométrica, a postura curvada do tronco e o olhar para o horizonte evidencia o foco e a determinação da apresentadora na realização do exercício. Ao fundo da imagem é possível visualizar diversas pessoas realizando o mesmo exercício. É interessante notar que os sujeitos encontram-se isolados em suas máquinas, não havendo relações interativas entre eles. A interação fica restrita ao homem e a máquina, fato que evidencia essa valorização de uma sociedade virtualizada. As práticas buscavam oportunizar aos apresentadores, bem como a população que acompanhava o quadro, o desenvolvimento de um estado de equilíbrio do corpo no que concernem os aspectos biológicos, visto que, estes eram os únicos enfatizados. O equilíbrio seria alcançado através de adaptações fisiológicas promovidas pela prática de exercícios e do controle alimentar. Um exemplo disso pode ser localizado quando o profissional de Educação Física Márcio Atalla indica a realização da prática do remo como importante atividade para o trabalho cardiovascular (VÍDEO FANTÁSTICO 10). No quadro, a atenção para o corpo dentro desta perspectiva aconteceu através dos diferentes profissionais envolvidos, tais como: profissional de Educação Física, médicos e nutricionistas. O conhecimento dos aspectos biológicos do corpo foi essencial para pensar estratégias de intervenção sobre ele na busca dos objetivos estipulados pelo quadro. Ao analisarmos as imagens dos vídeos exibidos no Fantástico nos domingos à noite, verificamos que em muitos momentos da reportagem eram expostos através de imagens e texto, alguns componentes do corpo de ordem biológica, como: leucócitos, hemoglobina, 91 hematócrito, hemácias, promielócitos, metamielócitos, glicose, plaquetas, gordura, músculos, sangue, entre outros. Como exemplo desse corpo biológico, destacamos a fala de Zeca Camargo no primeiro episódio do quadro quando diz que: “o ácido úrico é uma substância que é resultado da quebra das proteínas e o colesterol é a gordura no sangue, nenhum dos dois pode ficar muito alto” (ZECA CAMARGO, VÍDEO FANTÁSTICO 01). O corpo nesta perspectiva foi evidenciado em outros momentos do quadro através dos discursos efetivados sobre ele. Márcio Atalla destaca que os homens possuem mais facilidade na perda de peso do que as mulheres, isto como consequência de questões hormonais e fisiológicas (VÍDEO FANTÁSTICO 02). Ao realizar esta afirmativa fica evidente que os únicos parâmetros utilizados são de ordem biológica, não oportunizando espaço para pensar como outras questões sociais também influenciam essa dificuldade feminina na perda de peso. O diálogo estabelecido entre o profissional de Educação Física Márcio Atalla e a jornalista Renata Ceribelli evidencia mais uma vez o corpo na perspectiva biológica. Segundo Márcio Atalla: “o exercício de musculação é muito importante para você proteger suas articulações, a partir dos 30 - 35 anos todo mundo começa a perder massa muscular de forma espontânea, então você manter a massa muscular é importante para manter a autonomia”. Renata complementa: “Isso significa que se minha musculatura continuar firme o meu metabolismo não vai diminuir e com a idade eu vou diminuir essa tendência para engordar”. Márcio finaliza: “Só que a gente precisa também pensar nos ganhos cardiovasculares, no nosso coração, e alinhado aos exercícios aeróbicos” (MÁRCIO ATALLA e RENATA CERIBELLI, VÍDEO FANTÁSTICO 11). O diálogo apresenta como os exercícios físicos auxiliam na manutenção e desenvolvimento de partes e consequentemente funções do corpo, no entanto, desconsidera aspectos importantes que também estão relacionados ao corpo que é muito mais que biológico. Para Czeresnia (2007, p. 23): 92 O corpo biológico foi definido por uma concepção mecanicista que o apreende desconectado das suas interfaces. Não há dúvida de que a biologia pressupõe o corpo em relação, em constante troca com o meio, em constante exercício de funções de assimilação e de excreção. Porém, deixa a desejar a compreensão de como nas interfaces são construídas alguns atributos do corpo biológico e suas fronteiras. A autora supracitada evidencia o isolamento proporcionado por esta compreensão do corpo aos demais elementos que interferem no seu existir. É importante pensar o corpo nas relações que estabelece e nas experiências vividas por ele. Conforme argumentam Mendes e Nóbrega (2004, p. 130 – 131) “o homem é considerado um ser biocultural, sendo totalmente biológico e totalmente cultural”, além disso, “o que é biológico no ser humano encontra-se simultaneamente infiltrado de cultura. Todo ato humano é biocultural”. Portanto, de acordo com as autoras citadas o corpo deve ser compreendido no entrelaçamento da constituição biológica com a cultural, sem hierarquizações ou isolamentos, fato pouco evidenciado nos discursos do quadro. Em outras passagens do quadro, Márcio Atalla fala sobre os benefícios da prática regular de atividade física para depressão e ansiedade. Apresenta como se dá esses benefícios através da liberação de um “coquetel bioquímico” composto por neurotransmissores. Segundo Márcio Atalla: A atividade aeróbica regular reduz a ansiedade e uma caminhada rápida por 20 a 30 minutos é excelente para diminuir o estresse. Os efeitos benéficos proporcionados pela atividade física podem ser sentidos num período de 3 a 4 semanas. Nesse tempo, o indivíduo vê melhorar a sua autoestima e começa a sentir os efeitos benéficos proporcionados pelo corpo em movimento como o aumento da disposição (MÁRCIO ATALLA, POSTAGEM 24). Mais uma vez evidenciamos uma forte presença dos aspectos biológicos, e especialmente de como a prática de exercícios pode contribuir para um equilíbrio dos neurotransmissores do corpo responsáveis pelos estados emocionais. Quanto a isto, Renata Ceribelli destaca que: “a produção de endorfina provocada pelos exercícios seria uma das 93 explicações. A atividade física desencadeia uma secreção de endorfina capaz de provocar um estado de euforia natural, o que alivia o estado da depressão”. Complementando a apresentadora argumenta que “os exercícios também regulam a neurotransmissão da noradrenalina e da serotonina, que aliviam os sintomas da doença. Além disso, uma boa condição física aumenta a autoestima e dá saúde e bem-estar.” (RENATA CERIBELLI, POSTAGEM 38). Apesar de sabermos que os constituintes biológicos são importantes, o quadro oportunizou uma compreensão de corpo biológico numa perspectiva reducionista. Outros estudos no campo da Biologia tem oportunizado uma compreensão diferenciada do corpo, dentre eles destacamos o estudo dos biólogos Humberto Matura e Francisco Varela que tratam do conceito de autopoieses. Segundo Mendes (2002, p. 11) “um organismo vivo, ou seja, autopoiético, é capaz de produzir as partes que o constitui, mantendo-os em ordem operacional por meio de renovação constante”. Ainda segundo a autora: A teoria da autopoiese, capaz de proporcionar o estudo dos seres vivos com o entorno, propõem o entrelaçamento entre as ações biológicas e os fenômenos sociais. Os seres vivos, possuindo organização autopoiética, são capazes de se autoproduzirem continuamente, especificando seus próprios limites à medida que interagem com o meio em que vivem (MENDES, 2002, p. 11). Assim, a compreensão do corpo enquanto autopoiético, ou seja, um corpo autônomo com capacidade de autorganização, entende os aspectos biológicos do corpo numa perspectiva ampliada estando entrelaçado com os acontecimentos sociais. Compreendemos que o corpo é formado por uma dinâmica molecular e, dessa forma, “vai organizando-se e se reorganizando mediante as provocações advindas do ambiente, das pessoas e da sociedade com as quais convivemos, sendo ao mesmo tempo agente perturbador, modificando-as” (MENDES e NÓBREGA, 2004, p. 129). 94 Esses aspectos biológicos precisam ser discutidos com reflexões que perpassam a cultura em que estamos inseridos, pautada na produtividade e no consumo de forma exacerbada, características essas que tem gerado problemas de adoecimento nas pessoas por uma busca desenfreada pela adequação aos padrões, consumo de produtos e marcas, e pela busca de rendimentos elevados na produção de produtos e serviços. Assim, entendemos que a compreensão do corpo somente com base nos aspectos biológicos torna-se insuficiente. Corpo fragmentado e exterior ao sujeito Classificamos dentro desta categoria as compreensões de corpo que o visualizam a partir de suas partes, numa constante fragmentação e isolamento. Um corpo que parece estar exterior ao sujeito. Esta categoria contempla o corpo visualizado e definido nas palavras de Albino e Vaz (2008, p. 204), ou seja, “o corpo é, assim, dividido, recortado, esquadrinhado para que nele possa ser realizado um trabalho minucioso e eficiente”. Os discursos analisados não evidenciam uma visão holística dos componentes do corpo, muito menos inter-relações entre eles. Destacamos aqui também os discursos que evidenciam uma fragmentação entre o corpo e o sujeito, e o corpo e a mente, como se esta última não fosse um constituinte do corpo. A mente é compreendida como a entidade lógica do sujeito, que com base na anatomia seria denominada de sistema nervoso central. Esta perspectiva de fragmentar o corpo recorda a outros momentos da história, especialmente ao cartesianismo. Segundo Nóbrega (2010, p. 49) “a tradição cartesiana, que influenciou consideravelmente as abordagens científicas sobre o corpo, limitou-se a considerar apenas dois modos de existência: como coisa ou objeto e como consciência”. Ainda conforme a autora “vários conceitos, advindos das análises clássicas sobre o corpo e influenciadas pelo cartesianismo, especialmente na fisiologia e na psicologia, reduzem a 95 dimensão do universo corporal ao conhecimento de suas partes ou ao direcionamento psíquico” (NÓBREGA, 2010, p. 50). No material analisado percebemos a fragmentação do corpo através dos discursos que evidenciam suas partes: coração, pulmões, músculos, gordura, colesterol, glicose, entre outros. Nesta fragmentação, evidenciamos uma forte presença dos conhecimentos da anatomia, fisiologia e bioquímica, visto que para ela “no momento em que um corpo físico é fragmentado, é cortado em pedaços e, consequentemente objetivado, um conjunto de entendimentos é assegurado para ser moldado e formado” (MEDEIROS, 2011, p. 145). O conhecimento das partes constituintes do corpo é essencial para pensar suas características estruturais e de funcionamento, entretanto conhecê-las de forma isolada trás poucas contribuições na compreensão do sujeito como um todo, bem como, seu comportamento diante as diferentes situações. Para Souza (2005, p. 173): Tal maneira de pensar, conhecer, nomear e explicar o corpo humano, engendrada na discursividade cientifica, vem produzindo formas fragmentadas de pensar em relação a sua constituição, ao seu funcionamento e aos processos que nele ocorrem – como também desvinculada das suas inter-relações com as condições históricas, ambientais e culturais, em que o corpo humano se encontra relacionado. Assim, o corpo nesta compreensão é perspectivado como organismo e seu funcionamento fica condicionado aos aspectos biológicos pensados de forma fragmentada. Esta compreensão de corpo negligencia uma integração de todos os constituintes, especialmente dos que se relacionam aos aspectos culturais e históricos. A fragmentação do corpo pode ser pensada também quando o profissional de Educação Física Márcio Atalla apresentou para os jornalistas Zeca Camargo e Renata Ceribelli a quantidade de gordura eliminada através de um pedaço de borracha de constituição semelhante, como forma de chocar os apresentadores em relação à gordura que tinham 96 eliminado na metade do quadro (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO FANTÁSTICO 07). Ao apresentar a gordura perdida através da borracha percebe-se uma acentuação dos constituintes de forma isolada, sem pensar suas relações com as demais partes e constituintes do corpo. Analisando outro vídeo, nos deparamos com os comentários de Márcio Atalla sobre a jornalista Renata Ceribelli: “Renata reprogramar o corpo, eu vi que você já está reprogramando, show! Agora eu quero reprogramar a cabeça” (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO FANTÁSTICO 06). Os argumentos utilizados evidenciam mais uma vez uma fragmentação do corpo, visto que segundo Márcio Atalla a jornalista tinha conseguido reprogramar o corpo e faltaria a cabeça. Nesta situação questionamos, e a cabeça não corresponde a um dos componentes do corpo? Certamente sim, entretanto percebemos uma frequência e ênfase na fragmentação do corpo, e a cabeça neste contexto simbolizaria o que anteriormente também denominamos de mente. Segundo Silva (2001, p. 12) “a partir do momento em que sou um corpo e uma razão, ou um corpo e uma alma, o corpo sempre vai ocupar um lugar desfavorável, ou menos importante em relação à alma e razão”. Esta fragmentação empreendida sobre o corpo acaba por limitá-lo a uma perspectiva biológica e de objeto, e sendo assim, pode ser fragmentado em suas partes e seus constituintes para serem classificados pela Anatomia e Fisiologia. Reforçamos este entendimento a partir da afirmativa de Medeiros (2011, p. 145), quando argumenta que “essas ciências, sobretudo no modelo anatômico e fisiológico, só vieram a ratificar o valor do corpo como objeto, por meio da fragmentação e isolamento de suas partes”. No trabalho das partes do corpo os exercícios foram constantemente solicitados e aconselhados. Um exemplo disso pode ser destacado quando o profissional faz a indicação da prática do remo (imagem 17). 97 Imagem 17 – Na prática do Remo Segundo ele, “o remo é uma atividade física completa, por que além dele ter um trabalho cardiovascular importante ele também trabalha toda a musculatura de braço, perna, peito, costas, é uma excelente opção” (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO FANTÁSTICO 10). Muitas das vezes os exercícios são realizados visando o trabalho das partes isoladas, como na musculação em que os grupos musculares requeridos variam de acordo com o tipo de exercício realizado. Foca-se nas partes e na maioria das vezes esquece-se do conjunto, ou seja, do corpo como um todo. Durante o quadro, o profissional de Educação Física destaca alguns cuidados que devem ser tomados em relação à musculação, bem como o auxilio que pode prestar na reabilitação de lesões. Segundo ele, a musculação tem: a vantagem de que, ao trabalhar grupos musculares distintos, permite que uma pessoa que sofreu uma lesão em determinado grupo muscular, possa 98 continuar a exercitar as demais regiões do corpo não afetadas. Somente problemas de coluna, principalmente durante as crises, não podem ser tratadas por meio da musculação. [...] Aliada ao alongamento e a fisioterapia, a musculação pode e deve ser incluída no programa de reabilitação e excelente aliada na recuperação de lesões (MÁRCIO ATALLA, POSTAGEM 73). Outro exemplo desse foco direcionado ao trabalho de uma parte isolada é encontrado quando este profissional de Educação Física fala sobre os benefícios do fortalecimento do abdome. Segundo ele “um abdômen rijo promove não só uma melhor aparência estética, como também, somada a uma boa alimentação e a prática de exercícios aeróbicos, melhora a capacidade de digerir alimentos”. Continuando argumenta que “além de melhorar a digestão, um abdômen bem trabalhado também melhora o equilíbrio postural, dá uma maior sustentação as vísceras, aperfeiçoa a respiração, previne contra o traumatismo e também evita a diástase (fenômeno que separa as extremidades do músculo abdominal” (MÁRCIO ATALLA, POSTAGEM 54). Seguindo as análises do material referente ao quadro, localizamos mais indícios de uma compreensão fragmentada de corpo quando é apresentada a ginástica funcional como possibilidade de exercício físico. Sobre esta modalidade é possível compreender que “os exercícios são realizados usando o peso do próprio corpo e através de movimentos mais complexos que proporcionam saúde e beleza ao corpo, além de maior flexibilidade nos membros inferiores e superiores e equilíbrio entre corpo e mente” (MÁRCIO ATALLA, POSTAGEM 65). Como citado, o corpo nesta perspectiva é fragmentado em partes, sejam elas superiores e inferiores, bem como entre o corpo e a mente. No entanto, é necessário superar esta compreensão dualista e fragmentada e para isto é necessário reelaborar nossas compreensões de corpo e de mente. Nóbrega (2010, p. 56) defende que “a concepção de mente é reelaborada no sentido de não se restringir ao racionalismo, não havendo separação entre corpo e mente, razão e emoção”. 99 Ainda para Nóbrega (2010, p. 31) “os fragmentos detonam a possibilidade de novos olhares sobre o corpo, configurando uma nova possibilidade delineada a partir da perspectiva da corporeidade como estesia ou comunicação sensível”. Assim, ao fragmentar o corpo e não reconhecê-lo em sua integralidade, estamos impedindo que novas perspectivas de conhecimento se instaurem sobre ele. No entanto, ainda sobre a fragmentação do corpo Nóbrega (2010, p. 31) destaca que “a racionalidade moderna produziu um saber fragmentado sobre o corpo, muitas camadas superpostas em formas de discursos variados que tentaram silenciar a sabedoria do corpo e sua linguagem sensível”. Dessa forma, verificamos que durante a realização do quadro, o corpo foi em muitos momentos compreendido a partir de uma fragmentação entre suas partes. No entanto, entendemos que essa compreensão não oportuniza um conhecimento mais amplo, visto que, nas situações cotidianas o corpo não se fragmenta, mas está articulado através dos seus diferentes componentes. Nesta categoria destacamos também os discursos que compreenderam o corpo numa fragmentação que exteriorizava o sujeito do seu corpo. Com predominância dos aspectos biológicos na composição e no funcionamento, o corpo foi em muitos momentos do quadro compreendido como uma espécie de objeto que estaria fora ou que não se integraria a pessoa que o possuía. Pelos discursos analisados o corpo restringia-se aos aspectos físicos e químicos de sua composição. Percebemos que de uma forma geral os discursos sobre o corpo nesta categoria de conteúdo acentuam uma separação entre o corpo e os sujeitos. As pessoas não se concebem enquanto corpo com capacidade de sentir, pensar, expressar etc, mas apenas como seres capazes de exercer controle sobre ele. Esse controle ou autocontrole é realizado pelos sujeitos a partir de escolhas que tomam como base normas padronizadas divulgadas socialmente nos discursos das instituições (FOUCAULT, 2001). 100 Ao falar sobre o discurso Foucault (2011, p. 111) comenta: É justamente no discurso que vêm se articular poder e saber. E por essa mesma razão, deve-se conceber o discurso como uma série de segmentos descontínuos, cuja função tática não é uniforme nem estável. Mais precisamente, não se deve imaginar um mundo do discurso dividido entre o discurso admitido e o discurso excluído, ou entre o discurso dominante e o dominado; mas ao contrário, como uma multiplicidade de elementos discursivos que podem entrar em estratégias diferentes. Os discursos são então submetidos às relações de poder exercidas socialmente, visto que as ideias contidas nos discursos desestabilizam as relações entre os sujeitos. “O discurso veicula e produz poder; reforça-o mais também o mina, expõe, debilita e permite barrá-lo” (FOUCAULT, 2011, p. 112). A produção social dos discursos acontece mediante o exercício de controle, seleção e organização dos seus componentes visando o domínio de seus poderes, perigos e acontecimentos aleatórios. Para Foucault (2001, p. 10) “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar”. É importante perceber que a compreensão de corpo exterior ao sujeito acentua uma inferiorização deste e das práticas efetivadas sobre ele. Segundo Silva (1999, p. 11) “em Descartes, o corpo humano é domínio da natureza, o corpo é puramente corpo, assim como a alma é puramente alma”. Complementando a autora diz que “ao separar radicalmente as dimensões corpo e alma, a perspectiva cartesiana reforça a ideia de funcionamento corporal independente da ideia de essência, como uma maquinaria que atua com princípios mecânicos próximos”. Percebemos que a compreensão empreendida por Descartes acaba influenciando muitos discursos e saberes difundidos atualmente sobre o corpo, como evidenciamos no quadro Medida Certa. 101 Sobre esta relação ou separação do corpo com a alma, também denominada de espírito, Merleau-Ponty (2004, p. 42) argumenta: Enquanto a maioria dos homens entendem por espírito algo como uma matéria muito sutil, ou uma fumaça, ou um sopro – seguindo nisso o exemplo dos primitivos – Descartes mostrava limpidamente que o espírito não corresponde a nada de parecido, ele é de uma natureza completamente distinta, já que a fumaça e o sopro são, a seu modo, coisas, ainda que bem sutis ao passo que o espirito não é absolutamente uma coisa, não habitando o espaço, disperso como todas as coisas por uma certa extensão, mas sendo, pelo contrário, completamente comandado, indiviso, não sendo nada mais, finalmente, do que se recolhe e se reúne infalivelmente, que reconhece a si mesmo. Portanto, o espírito ou alma estaria num domínio não pertencente à classificação das coisas. Além disso, Merleau-Ponty (2004, p. 46 – 47) comenta que Descartes “chegou a afirmar que a alma era não apenas o chefe e o comandante do corpo, como o piloto em seu navio, e sim tão estreitamente unida a ele que nele sofre”, mas não foi isso que prevaleceu no pensamento cartesiano. Assim, percebe-se que mesmo diante o dualismo, o corpo e a alma estabelecem uma relação. Nos diálogos do quadro fica evidente em muitos momentos essa separação do corpo e do sujeito, ou seja, do ser humano que não é somente objeto de intervenção. Para exemplificarmos como isto acontece deixamos expostos alguns trechos de falas dos integrantes do quadro. A jornalista Renata Ceribelli ao discutir sobre seus objetivos dentro do quadro comenta “a ideia nem é ser magra, eu quero estar feliz dentro da estrutura do meu corpo” (RENATA CERIBELLI, VÍDEO FANTÁSTICO 11). Em um vídeo postado no blog, a jornalista Renata Ceribelli relata sobre os primeiros dias após a adesão ao quadro. Nele, ela destaca que o corpo está dolorido e que está se sentindo cansada, atribui estes sintomas a uma forma de resistência do corpo, às mudanças efetivadas. Diante disto a jornalista fala que é necessário resistir, pois o corpo está resistindo 102 (RENATA CERIBELLI, VÍDEO BLOG 03). No discurso da jornalista percebe-se que falar dela e “do corpo dela” são coisas diferentes, no entanto se o corpo está resistindo isto indicaria que ela está resistindo. Outra passagem que demonstra essa separação do corpo do sujeito é encontrada em uma postagem realizada por Renata Ceribelli no blog do quadro. Nela a apresentadora fala da relação de uma pessoa com o corpo, especialmente quando pensa as questões estéticas. A apresentadora destaca: “vocês podem imaginar que a relação de uma pessoa com o corpo, quando ele não está exatamente dentro dos padrões de beleza, é um pouco complicado” (RENATA CERIBELLI, POSTAGEM 04). Renata Ceribelli simula um diálogo com seu corpo para pensar a resistência que este oferece quando é retirado da zona de conforto. Desta forma o discurso da jornalista apresenta o corpo como algo exterior ao sujeito, algo que fica fora e que podemos conversar e comandar. O corpo e o sujeito seriam nesta perspectiva dois elementos distintos. A apresentadora destaca: “o diálogo com meu corpo está engraçado”. Simula então um diálogo: “ele diz: estou cansado, pare de fazer tanto exercício! E eu respondo: calma, é só neste começo, é preciso tirar você da zona de conforto! Isso vai ajudar você a ajudar o meu metabolismo e queimar as gorduras que estão sobrando e me fazendo mal” (RENATA CERIBELLI, POSTAGEM 29). Em outra postagem a jornalista reforça mais uma vez essa exteriorização do corpo, só que desta vez enfatiza a resistência do corpo em relação às mudanças alimentares. Segundo ela “meu corpo está resistindo à dieta. Ele me deixa cansada e está me fazendo ter uma fome voraz” (RENATA CERIBELLI, POSTAGEM 31). Outro exemplo do reforço a essa compreensão do corpo pode ser localizada na fala da jornalista: 103 No começo do projeto, dois meses atrás, eu tinha dúvida se conseguiria fazer o percurso que fiz hoje. Como é bom ter o domínio do corpo. Como é bom perceber que seu corpo está mais firme, mais forte, mais condicionado. Ponto para Márcio Atalla, que é o responsável pela nossa preparação física. Eu e meu corpo agradecemos (RENATA CERIBELLI, POSTAGEM 68). Os argumentos apresentados na fala da jornalista destacam como o corpo é compreendido numa ótica de separação, de posse e de exteriorização. Sobre ele deve ser exercida a dominação, pois só assim será possível conquistar os objetivos que se deseja. No entanto, o quadro enfatizava frequentemente que os meios para exercer esta dominação são através da prática regular de exercícios e do controle alimentar. Todavia, uma passagem da citação salta mais forte e vem reforçar os argumentos aqui utilizados: “eu e meu corpo agradecemos”. No caso exposto, a apresentadora e o corpo dela agradeciam ao profissional pelos benefícios conquistados na participação do quadro. Os discursos do corpo como exterior ao sujeito acabam passando para a população que acompanha o quadro a ideia de que o corpo é algo exterior as pessoas, e dessa forma pode ser facilmente realizada intervenções sobre ele. Ele pode ser moldado e esquadrinhado de acordo com a vontade do ser que o governa. Entretanto, os saberes e práticas utilizados nas ações sobre eles são provenientes dos campos de estudo da fisiologia e são aplicados especialmente através da realização de exercícios físicos regulares orientados e do controle alimentar. Diante estes argumentos, reconhecemos a necessidade de ampliar a compreensão do corpo e reconhecê-lo em sua integralidade e coletividade. Para tanto, é necessário visualizar que: O corpo [...] mais do que uma resolução unicamente orgânica, é protagonista, testemunha, mediador e palco não só da existência individual, mas também da esfera coletiva. Nele, e através dele, inscrevem-se os valores socioculturais que denunciam e determinam o pertencimento ou a exclusão de um indivíduo no grupo social, bem como as maneiras pela qual esse grupo cultural está organizado (GUAZZELLI, 2007, p. 69). 104 O corpo é individual, mas também é coletivo, visto que nele estão infiltradas marcas do contexto social e cultural em que está inserido, e são estas marcas que lhe oportunizam um reconhecimento ou não como integrante de um determinado grupo social. Assim, o corpo não é algo exterior ao sujeito, ao contrário é o próprio sujeito em ação, expressão, desejo, sentimento e relação. Corpo quantificado e padronizado Destacaremos dentro desta categoria as compreensões, saberes e práticas do corpo enquanto elemento mensurado e quantificado através dos exames, medições, pesagens, entre outros procedimentos técnicos e atrelados à padrões construídos e impostos socialmente. De acordo com os dados analisados do quadro Medida Certa percebemos que é possível conhecer o corpo diante a sua transformação em números estatísticos que oportunizem uma avaliação e classificação em padrões de normalidade ou não, padrões estes predeterminados que não respeitam as individualidades dos sujeitos. Para isto foram realizados exames, avaliações, testes e medidas pelos profissionais da Medicina, Nutrição e Educação Física, com predominância para os profissionais das duas primeiras áreas de conhecimento. Os discursos apresentados vêm confirmar uma perspectiva que na maioria das vezes esteve atrelada ao conhecimento do corpo humano, ou seja, a sua quantificação. Essa quantificação com grande influência do racionalismo torna-se necessária diante os discursos, pois se considera que somente a partir dos números ter-se-ia o conhecimento exato. Conforme argumentam Prado Filho e Trisotto (2008, p. 216) “os corpos modernos encontram-se presos a uma normatividade sustentada em argumentos científicos”. Assim, é necessário medir, quantificar, pesar, esquadrinhar, enfim, tornar os elementos constituintes do corpo valores numéricos para posteriores análises. 105 O processo de quantificação corporal na Educação Física não é recente. Trazemos as contribuições de Mendes (2007, p. 75) quando reflete sobre a produção do conhecimento nesta área, destacando como a quantificação corporal esteve presente em seus conhecimentos. Segundo ela “no final do século XIX e início do XX, a produção do conhecimento permanece sendo exequível, priorizando-se o corpo fracionado, medido por partes e exposto a quantificações, condição principal para a obtenção do conhecimento científico”. Vê-se assim, que a quantificação do corpo torna-se importante diante o valor científico que esta confere ao seu conhecimento. O conhecimento científico pautado na quantificação foi e ainda é utilizado como verdade absoluta em muitos contextos e situações sociais. Devemos observar que o corpo pensado a partir da sua quantificação em valores numéricos está restrito apenas aos constituintes biológicos, pois, são passíveis de quantificação. No entanto, ao reconhecer o corpo para além da anatomia, bioquímica e fisiologia percebemos que a quantificação é insuficiente para sua compreensão. Como poderíamos quantificar o desejo, os elementos culturais, os sentimentos dentre outros fatores, que permeiam o corpo? Entendemos que esta mensuração é impossível de ser realizada e traduzida em valores numéricos que podem ser reconhecidos por todas as pessoas, no entanto podem ser sentidos por cada um durante o existir enquanto ser social. As críticas à quantificação corporal se devem ao fato de estas parecerem dar conta de todo o conhecimento construído sobre o corpo. Entretanto, acreditamos que conhecer o corpo é muito mais do que sua transformação em números que serão avaliados dentro de padrões estipulados aos grupos através de categorias de referência. Nas ultimas décadas temos assistido uma intensa investigação e quantificação dos constituintes corporais com finalidades diversas. Sobre isto, Pinheiro e Queiroz (2011, p. 22) comentam que: A partir das últimas décadas, no entanto, com o fortalecimento da relação entre a tecnologia e a ciência, passamos a ser confrontados com a 106 manipulação cada vez mais eficiente do corpo, afetando desde a sua aparência externa até o seu interior microscópico, remetendo-lhe as novas configurações a propósito do qual a relação entre corpo e sujeito se modifica, inaugurando uma noção diferente sobre o que é ser humano. Entretanto, é necessário reconhecer as contribuições prestadas pelos exames, testes e medidas para o conhecimento e avaliação de partes ou funções do corpo, especialmente nos espaços de tratamento da saúde. É através dos resultados destes que são traçadas estratégias para melhorar os índices e consequentemente melhorar o funcionamento do corpo. No entanto, não podem ser utilizados como única forma de conhecimento. Compreendemos que essas medições são em sua maioria formas de adequar as pessoas a padrões corporais prédeterminados, negando muita das vezes à percepção corporal como importante para o conhecimento das características e funções do corpo. Os autores Alves e Baptista (2006, p. 5) apresentam algumas utilidades das avaliações realizadas sobre os sujeitos a partir dos exames e medidas. Segundo eles, estas podem servir para “diagnosticar, verificar o progresso do indivíduo, classificar, selecionar indivíduos, manter padrões de performances físicas esperadas com o treinamento, motivar o indivíduo e servir como diretriz para pesquisas”. Assim, a transformação do corpo e dos seus constituintes em valores numéricos contribui aos olhos dos profissionais envolvidos para traçar estratégias e alcançar resultados. Na Educação Física, assim como em outras áreas de conhecimento e atuação profissional, há profissionais que defendem que, “uma vez detectado as potencialidades e as dificuldades do avaliado, o professor terá subsídios para selecionar e adequar um programa de atividade física e os exercícios” de acordo os objetivos estabelecidos para cada sujeito ou grupo de pessoas (ALVES e BAPTISTA, 2006, p. 5). Sobre isto levantamos alguns questionamentos, seriam essas avaliações realmente necessárias? A percepção corporal possibilita o reconhecimento de todas as características, funções e constituintes do corpo? Seria benéfico à articulação entre essas avaliações e a 107 percepção corporal? Respondemos positivamente ao último questionamento, e deixamos os demais como reflexão sobre essas práticas. Durante o quadro, os apresentadores foram submetidos a uma série de exames, testes e avaliações antropométricas. Para tanto foi necessário o auxílio de profissionais da Nutrição, Medicina e Educação Física. Todavia vale ressaltar que o parecer médico assume o lugar de verdade diante os demais e é a partir dele que devem ser pensadas as estratégias de intervenção sobre o corpo. Segundo Alves e Baptista (2006, p. 8) “é necessário e fundamental a realização de um exame médico antes da admissão em programas de atividade física, objetivando detectar algum problema físico e orgânico, que poderá colocar em risco a vida do indivíduo”. Dessa forma, a avaliação médica para os apresentadores antes da submissão ao programa de treinamento físico proposto foi essencial para evitar possíveis danos a estes, bem como auxiliar na escolha de estratégias que facilitem a obtenção dos resultados. De acordo com Pollock e Wilmore (2009), a realização de uma rotina de exames físicos e laboratoriais é parte integrante da avaliação médica. Além disso, os autores recomendam que dependendo dos resultados encontrados deve ser realizada uma avaliação completa da aptidão física, classificando o indivíduo de acordo com os resultados obtidos. Apresentaremos alguns fragmentos de discursos sobre o corpo pensado nesta perspectiva. No vídeo do primeiro episódio do quadro os apresentadores foram submetidos a realização de exames de sangue para aferição dos valores referentes a: leucócitos, glicose, colesterol, plaquetas, entre outros. Além disso, foram também verificadas as quantidades de ácido úrico, pressão arterial e posteriormente foi realizada uma avaliação física com a nutricionista através de medição, testes e pesagens. Segundo Zeca, “tiramos todas as medidas, altura, circunferência abdominal, percentual de gordura”. Já Renata argumenta que “pior momento para mim até agora, hora de tirar as medidas. Primeiro a altura mais fácil né?, um e 108 setenta, agora o peso, socorro! Será que tenho mesmo que contar isso?” (RENATA CERIBELLI e ZECA CAMARGO, VÍDEO FANTÁSTICO 01). Com a aferição das medidas foram realizadas também avaliações como a da circunferência abdominal e do IMC, Índice de Massa Corporal. Segundo Zeca, “essa medida é uma relação entre peso e altura”. Sobre a circunferência abdominal Renata convida os espectadores a realizarem a aferição, “você aí de casa pode entrar nessa. Pegue uma fita métrica e passe um pouco abaixo do umbigo, acima dos ossos da bacia”. Sobre os resultados dessa medida, Zeca comenta que “nas mulheres deve ficar abaixo de 88 cm e nos homens abaixo de 102 cm, se a sua cintura passou dessas marcas está na hora de fazer igual a gente e tomar uma atitude” (RENATA CERIBELLI e ZECA CAMARGO, VÍDEO FANTÁSTICO 01). Além disso, ainda foram realizados outros testes/exames com o cardiologista, do qual destacamos o teste de esforço e o eletrocardiograma. Percebemos que o corpo a partir da sua tradução em valores numéricos foi constantemente solicitado no decorrer do quadro, visto que, sobre ele foram realizadas intervenções com exames, testes e medidas na tentativa de compreendê-lo. Diante disso, compreendemos que a verdade sobre o corpo que se sobressai no quadro Medida Certa é aquela proveniente dos instrumentos e testes de mensurações, e consequentemente dos valores numéricos obtidos. No vídeo apresentado, na metade do quadro, Renata destaca que “chegou a hora de verificar se está dando certo, fita métrica, balança, consultório médico, [...] quero saber se estamos chegando na medida certa”. No mesmo episódio é mostrado o encontro dos apresentadores com a nutricionista Laura Breves, ou seja, “a hora da verdade”. Para tanto, Zeca comenta que “só tem um jeito de saber, que venha a fita métrica”. Na ocasião, a nutricionista destaca a situação do apresentador e os benefícios já alcançados na redução do peso e das medidas. Renata comenta sobre as mudanças de hábitos que realizou, comenta que quer “ver o efeito disso nas medidas”. Aponta 109 as perdas nas medidas de braço, circunferência abdominal, etc, entretanto demonstra ansiedade no que concerne ao peso: “chega a hora da tão temida balança, vou até jogar a roupa para pesar e depois descontar” (RENATA CERIBELLI e ZECA CAMARGO, VÍDEO FANTÁSTICO 07). No contexto da Educação Física no final do século XIX e início do século XX foram observados uma grande predominância dos conhecimentos matemáticos nos conhecimentos da área, o que possibilitou visualizar que “a análise antropométrica contribuiu com o conhecimento do corpo humano, através de um processo de quantificação. Altura, peso e diâmetro do tórax são medidas que colaboram com a determinação de cada corpo humano e com a classificação das populações” (MENDES e NÓBREGA, 2008, p. 211 – 212). Embora, empreendendo técnicas de avaliações e mensurações diferentes, evidenciamos uma relação entre a forma de tratamento de alguns conhecimentos da Educação Física, especialmente na matematização dos corpos, com as compreensões, saberes e práticas apresentadas no quadro. Uma passagem significativa nesta compreensão do corpo através dos números, ou seja, de sua quantificação, é encontrada na fala da jornalista Renata Ceribelli. Segundo ela, “por mais que a gente esteja sentindo os resultados em nosso corpo, aquele numerozinho da balança, aquele da fita métrica, a gente fica esperando” (RENATA CERIBELLI, VÍDEO FANTÁSTICO 13). A afirmativa da jornalista deixa expresso à importância que os números adquirem no conhecimento do corpo, mesmo sentindo, percebendo é indispensável o conhecimento do corpo através dos valores numéricos. Ao final do quadro, os resultados obtidos pelos jornalistas/apresentadores do Fantástico foram expressos através dos valores numéricos dos exames, testes e avaliações realizados sobre eles. No último episódio, a jornalista e apresentadora Patrícia Poeta comenta: “vamos direto aos números, acho que o Brasil inteiro quer saber”. Dessa forma o profissional de Educação Física Márcio Atalla apresenta os resultados atingidos pelos apresentadores ao 110 longo dos 90 dias de intervenção proposto pelo quadro. Dentre esses números destacamos os valores referentes ao peso. O profissional expõe os valores conquistados pelos apresentadores: “Renata você começou o programa com 80,3 kg [...] agora depois de muito suor, de três meses, Renata seu novo peso é 74,4 kg”, “o Zeca começou esse programa com 111,4 kg [...] agora 104 kg”. Entretanto Patrícia Poeta comenta “Atalla não é só o número da balança que vale né? Acho que é importante a gente dizer pro pessoal de casa que está nos assistindo nesse momento”. Dessa forma, Márcio Atalla responde “o número da balança para mim conta menos, o quê que é importante? Eles entraram num programa que a atividade física é o carro chefe e eles não tiveram nenhuma dieta restritiva” (MÁRCIO ATALLA e PATRÍCIA POETA, VÍDEO FANTÁSTICO 14). Percebemos diante dos argumentos apresentados uma contradição. Embora seja enfatizada durante todo o quadro uma relevância aos números, bem como a perseguição para sua conquista, o profissional de Educação Física finaliza dizendo que o número é o que conta menos neste processo. Entendemos seu argumento final, porém percebemos que este não é alimentado durante o quadro. Outro momento que verificamos nesse discurso contraditório é quando Márcio Atalla comenta “a balança não é o retrato fiel do que está acontecendo no corpo de vocês” (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO FANTÁSTICO 4). Portanto, a situação nos coloca diante duas possibilidades: contradição no discurso do profissional ou superação das ideias inicialmente propostas. Perante o exposto, entendemos que o corpo reduzido aos processos de quantificação dos seus constituintes estaria reduzido a uma objetivação que negaria a sua complexidade e a sua atuação nos diferentes espaços de convívio. Assim, entendemos que os exames, testes, medidas e avaliações são importantes para o conhecimento de elementos integrantes do corpo, no entanto, não podem ser utilizados como única e verdadeira forma de conhecimento sobre este, visto que negaria o seu existir enquanto sujeito. 111 Entendemos ainda, que o processo de quantificação do corpo e sua posterior avaliação e classificação em padrões de normalidade com base em índices e tabelas de referência acaba por propagar determinados padrões como corretos em detrimento de outros. Dessa forma, os seres humanos deveriam buscar se adequar aos padrões impostos como forma de facilitar sua aceitação e inserção nos diferentes espaços de convívio social. O corpo preconizado seria dessa forma o padronizado. Os discursos do quadro mostraram constantemente uma busca pela adequação corporal aos padrões de magreza. Os jornalistas foram submetidos a esse programa de intervenções em consequência do aumento de peso que obtiveram com o passar dos anos, conforme apresentado no primeiro episódio. Diante esse aumento no peso e consequentes problemas de saúde ocasionados por este, os mesmos se dispuseram a participar. No entanto, estes não ficaram sós e convidaram a população a também participarem do desafio. Pensar o corpo a partir dos padrões é algo que nos remete as questões culturais de uma sociedade. Nos diferentes contextos sociais verificamos no imaginário das pessoas uma necessidade de efetuar julgamentos e a categorização dos elementos que o constituem entre o bom e o mal, feliz ou triste, bonito ou feio, entre outros. Dessa forma, verificamos que o corpo também é passível dessas classificações e são com base nelas que se busca uma adequação em padrões que lhe permitam conquistar adjetivos positivos. Conforme argumentam Albino e Vaz (2008, p. 199) “os corpos estão a mostra como nunca, provocando desejos e anseios, sobretudo de alcançar promessas de liberdade, felicidade e sucesso que se encontram encarnadas nas aparências tidas como belas e saudáveis”. Assim, verifica-se que socialmente tem-se convencionado determinados padrões que permitem o reconhecimento do corpo como adequado ou não, especialmente no que concernem as questões de beleza. Estes corpos belos irão buscar apoio em diferentes espaços sociais, visto que estes “têm como território os salões de beleza, as academias de ginásticas e 112 musculação, os consultórios nutricionais e de cirurgia plástica, alastrando-se para as residências, locais de trabalho e confundindo-se com os espaços de lazer” (ALBINO e VAZ, 2008, p. 200). Para adequação aos padrões é necessário atitude. Conforme argumenta o profissional de Educação Física Márcio Atalla, esta deve ser manifestada através do desprendimento para a realização de exercícios e controle alimentar. “Quem quer faz, quem não quer arruma desculpa” (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO FANTÁSTICO 08). No entanto, não é fácil ter a atitude de buscar adequar-se aos padrões impostos socialmente. Conforme argumenta Renata Ceribelli “as pessoas querem ser emagrecidas, elas não querem emagrecer, elas querem que o remédio emagreça, que a cirurgia plástica emagreça. Não é possível que você não goste de uma atividade física, escolha uma e faça! Você vai ver os benefícios”. Finalizando a jornalista ainda diz “não tem sacrifício, é só fazer tudo na medida certa” (RENATA CERIBELLI, VÍDEO FANTÁSTICO 09). Diante os argumentos expostos acima, percebemos uma responsabilização dos indivíduos sobre as mudanças a serem efetivadas em seu corpo e consequentemente adequação aos padrões determinados. Dessa forma, corroboramos com Gomes (2006) quando fala que as receitas para a obtenção da felicidade através do corpo perfeito insistem na responsabilidade individual. No cenário atual verificamos também um grande arsenal de informações a respeito de como cuidar do corpo. Conforme Oliveira (2010, p. 44) “na fabricação do corpo, o mercado é inesgotável”. A esse respeito Figueira e Goellner (2005, p. 88) comentam que: Esta profusão de informações interpelam diferentes sujeitos de diferentes formas provocando o despontar de várias e sutis questões relacionadas ao seu corpo, sua aparência e seu comportamento, pois pensar o próprio corpo é, na atualidade, pensar sobre si mesmo e sobre a identidade de cada um. Ter um corpo perfeito, trabalhado, esculpido à imagem e semelhança do desejo de cada um é uma tendência que vem se firmando, fazendo parecer serem normais, inerentes, essenciais, portanto, “naturais” do viver a identidade 113 contemporânea. Já não basta apenas ser saudável: há que ser belo, jovem, estar na moda e ser ativo. Há que ter um estilo criado e valorizado consoante as possibilidades e as informações disponíveis a quem quiser acessá-las. A opção é individual e depende do esforço, da dedicação, da disciplina e dos cuidados de cada um para construí-lo. De acordo com a citação realizada acima percebemos que ao ser humano é colocada à responsabilidade de cuidar do seu próprio corpo, no entanto, para isso é disponibilizada uma séries de saberes dos quais ele deverá servir-se para alcançar os objetivos propostos. Isso pode ser evidenciado no quadro a partir dos saberes e práticas disponibilizados aos apresentadores para alcançarem a “medida certa”, ou seja, um padrão corporal desejado. Este padrão corporal imaginado pelos sujeitos é costumeiramente nominado de “corpo perfeito” e povoa o imaginário social da população e alguns discursos científicos. Segundo Guazzelli (2007, p. 69) o corpo perfeito “vem impregnado pela promessa de felicidade e realização por um lado, e expressa, por outro, os signos de saúde e funcionalidade, aspectos tão valorizados nos discursos médicos”. Assim, “o corpo perfeito pode ser comprado, a vista ou a prazo, trazendo consigo, a semelhança de outros produtos, um sem número de promessas, entre elas a saúde, o vigor e o bem estar”. Os argumentos utilizados no quadro evidenciam a necessidade de atitude para efetivar as mudanças corporais e deixam expresso que o corpo necessita em sua maioria adequar-se aos padrões de magreza. Essa situação seria diferente apenas para aqueles que fossem magros em demasia e que buscassem o objetivo inverso, ou seja, engordar. Segundo Albino e Vaz (2008, p. 205): A imoralidade atrelada à apresentação de um corpo que não esteja em forma é algo que é potencializado contemporaneamente. O corpo em toda sua superfície deve ser mostrado, exibido, para que possa na mesma medida ser apreciado, desejado, invejado, ou apenas e tão somente ser notado, contanto que esteja adequado para isso. 114 Diante a ideia apresentada, fica evidente que o corpo na sociedade contemporânea deve ser exposto, no entanto, a exposição fica restrita aos corpos adequados aos padrões estéticos convencionados como belos. Sobre esta compreensão de corpo é essencial um olhar sobre os elementos culturais em que ele se insere, pois, os padrões corporais não são fixos e se modificam na fluidez das características históricas e culturais. No entanto, na busca pela adequação dos corpos aos padrões que permeiam o imaginário social foram utilizados os saberes da fisiologia e bioquímica, especialmente através da nutrição e dos exercícios físicos. É importante ainda destacar que embora se viva “um momento de exacerbado culto ao corpo, contraditoriamente há uma enormidade de pessoas que não incorporam qualquer prática de exercícios físicos no seu dia a dia, que não estabelece rotineiramente a alimentação considerada pelos especialistas e, quiçá, são obesas” (OLIVEIRA et al, 2010, p. 37). Ainda sobre a padronização do corpo em medidas pré-determinadas, a jornalista Patrícia Poeta define Márcio Atalla como “o homem que conseguiu colocar Renata Ceribelli e Zeca Camargo na Medida Certa” (PATRÍCIA POETA, VÍDEO FANTÁSTICO 14). Qual seria a Medida Certa? A Medida Certa seria individual ou coletiva? Esta Medida Certa é fixa ou é fluida? Sobre a primeira pergunta, verificamos que embora o quadro propague a ideia de busca por uma Medida Certa ele não define claramente qual seria esta medida. Diante disto, refletimos se esta medida seria coletiva ou individual, ou seja, a medida certa propagada pelo quadro seria uma medida geral exposta para as pessoas de fora para dentro a qual deveriam se adequar ou a medida certa seria única para cada pessoa de acordo com as individualidades de cada um. Portanto, defendemos uma perspectiva de compreensão que não define uma medida padrão como certa. 115 O quadro em alguns momentos expressa respeito a essas individualidades e propaga a ideia de uma medida certa de acordo com cada um, no entanto ele também aponta para uma medida padronizada que todos devem se adequar. Sobre isto, Moroni e Oliveira Filha (2008, p. 3) dizem que: “com facilidade e frequentemente, os estereótipos descartam a individualidade das pessoas, tornando-o um aspecto desprezado e inexistente”. Porém, as reflexões tecidas vão além da mensuração em valores numéricos, pois ela está carregada dos elementos culturais e históricos, ou seja, de um conjunto de símbolos e significados no contexto social em que se insere. De acordo com Mendes (2007) compreendemos que o conceito de medida possui diferentes conotações a depender do contexto em que ele é utilizado. Para a autora, ao abordar o referido conceito é possível entender que na Antiguidade Greco-Romana ele era pensado a partir da capacidade que cada corpo pode suportar e do que era adequado para cada um. Já no contexto do século XIX a medida era pensada a partir da classificação em uma média mínima, que receberia o status de normal. Na contemporaneidade, a medida é propagada através de uma ideologia que oportuniza padrões que devem ser alcançados pelas pessoas não reconhecendo as individualidades de cada sujeito. No entanto, ao pensarmos o corpo enquanto sujeito inserido em um contexto social, a medida deve ser pensada por cada pessoa de acordo com suas características pessoais, sociais e culturais. Quanto à estabilização ou não dessa medida, os discursos apontam para uma fixação. O quadro estabelece 90 dias para atingi-la, entretanto, os discursos denotam que passados os 90 dias não seria necessário os mesmos cuidados. Verifica-se assim um grande engano, pois, assim como antes, os apresentadores aumentarão de peso em consequência dos descuidos com o corpo, passado o prazo do quadro se não derem continuidade aos cuidados voltarão à mesma situação. 116 Durante o quadro foram evidenciados também alguns desejos de expectadores para aumentar de peso. Diferente dos jornalistas, algumas pessoas enviaram solicitações de dicas para o aumento do peso. Nesse fato, localizamos também uma busca de adequação aos padrões, visto que, um peso excessivamente baixo pode não agradar socialmente. Sobre este fato Márcio Atalla faz algumas considerações: Quem está nesta situação que precisa ganhar peso, precisa ficar mais forte. Vai ter que fazer uma atividade de ganho de massa muscular, e aí ela pode escolher: musculação, pilates, ginástica funcional, ginastica localizada. Tem que fazer de quatro a cinco vezes na semana, tem que dar esse estímulo para o músculo e tem que comer mais calorias do que o que gasta, o inverso do Zeca e da Renata que estão gastando mais do que consumindo. O importante é dar o estímulo de ganho da massa muscular e comer bem. E aí é importante falar assim, as pessoas acreditam que para ficar mais forte tem que comer muita proteína, isso também é um mito. O nosso corpo tem uma Zona ideal de aproveitamento da proteína, pega o nosso peso multiplica por 1,8 é a quantidade de proteína ótima pra você ganhar massa muscular. Não é quanto mais melhor até por que o nosso corpo não tem um estoque de proteína, o tipo de alimento é o mesmo, carboidratos, preferir os integrais, é fruta, proteína, escolher as proteínas mais magras, existem alguns suplementos que as pessoas podem consumir mais isso depende, o suplemento de proteína, depende se a ingestão dela, se o que ela está comendo não é suficiente, mas proteínas que seriam leites, carnes, tem proteínas vegetal como feijão, então proteína é bom e gorduras, boas gorduras, acho que o padrão de alimentação pode seguir o do Zeca mais vai ter que comer mais, ao contrário do Zeca que tem que comer menos (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO BLOG 13). Apesar dessa busca desenfreada por um corpo padronizado, acreditamos que a definição de uma medida certa não pode ser tomada de forma generalizada e imposta de fora para dentro, deve antes respeitar as individualidades dos sujeitos e ser compreendida dentro de uma fluidez visto que a medida compreendida como certa hoje poderá não ser a mesma amanhã. Portanto, isto dependerá de uma série de fatores como os desejos, sentimentos, objetivos e contextos sociais de cada sujeito nos diferentes momentos históricos de sua vida. 117 Corpo como sujeito De forma mais tímida durante o quadro foi possível perceber elementos que fizeram referência ao corpo enquanto sujeito. Embora não tenhamos encontrado uma defesa clara sobre esta compreensão em relação às demais, foi possível a localização de discursos e atitudes que visualizaram o corpo antes de tudo como um sujeito que é e que se expressa através dos seus movimentos. Nestes momentos evidenciamos um tratamento sobre o corpo lhe reconhecendo como sujeito vivo, com capacidade de sentimento, memória e desejo. Visualizamos a presença desta compreensão quando o corpo foi tratado como sendo o próprio sujeito que realizava os movimentos e os cuidados alimentares propostos pelo quadro. Para tanto, levou-se em consideração os desejos e as experiências já vivenciadas em outros momentos pelos jornalistas e os sentimentos que cada manifestação lhe despertava. Não sendo fragmentado em partes e nem nos dualismos que sempre predominaram. Este corpo sujeito é assim reconhecido na integralidade dos aspectos biológicos com os elementos culturais e históricos do contexto em que viveu ou que vive. É um corpo que permite o entrelaçamento dos diferentes fatores que se fazem presente na vida de um ser humano, sem buscar sua classificação ou julgamento. Para Mendes e Nóbrega (2004, p. 128) “nosso corpo possui historicidade tanto na estrutura orgânica quanto nas interações com a cultura em que vamos convivendo, o que desmistifica a ideia de que só os estudos culturais reconhecem a historicidade do corpo”. Complementando esta ideia, trazemos as contribuições de Sampaio (2006, p. 82) quando afirma que “o corpo concebido dentro de um contexto sócio-cultural, no qual está inserido, não pode mais ser visto a partir dos seus aspectos biológicos dissociados das questões culturais e simbólicas que o constitui na história”. Assim, essa compreensão reconhece o corpo como um conceito vivo em movimento. É a representação e a expressão do homem durante o seu existir. Ele é o entrelaçamento de diferentes elementos, sejam eles biológicos, culturais, históricos, sociais e emocionais. 118 Entretanto, essa configuração complexa e fascinante, faz do corpo um sujeito enigmático e mutável, especialmente no que concernem as compreensões, os saberes e as práticas que agem sobre si. Além disso, este corpo sujeito é constituído nas relações que estabelece com os demais integrantes dos espaços sociais, ou seja, é necessário estar com para ser (CYRULNIK, 1997). Além disso, compreendemos conforme Cyrulnik (1997, p. 92) que o ser humano é um indivíduo poroso. Segundo ele, “o indivíduo é ao mesmo tempo indivisível e poroso, suficientemente estável para ser o mesmo quando o biótipo varia é suficientemente poroso para se deixar penetrar a ponto de se tornar ele mesmo um bocado de meio ambiente”. Finalmente, “de todo os organismos, o ser humano é, provavelmente, o mais dotado para a comunicação porosa (física, sensorial e verbal), que estrutura o vazio entre dois parceiros e constitui a biologia do ligante”. Pensando sobre este corpo enquanto sujeito inserido em um determinado contexto social e cultural, com capacidade para agir autonomamente sobre eles, Le Breton (2010, p. 7) argumenta que: Moldado pelo contexto social e cultural em que o ator se insere, o corpo é o vetor semântico pelo qual se evidencia a relação com o mundo, é construída atividades perceptivas, mas também expressão dos sentimentos, cerimoniais dos ritos de interação, conjuntos de gestos e mímicas, produção da aparência, jogos sutis de sedução, técnicas do corpo, exercícios físicos, relação com a dor, com o sofrimento, etc. Assim, o corpo se apresenta diante uma grande complexidade de fatores e com capacidade de significações diversas. Ainda segundo o autor, “do corpo nascem e se propagam as significações que fundamentam a existência individual e coletiva; ele é o eixo da relação com o mundo, o lugar e o tempo nos quais a existência toma forma através da fisionomia singular de um ator” (LE BRETON, 2010, p. 7). 119 Além disso, devemos compreender o corpo como sujeito em relação com outros corpos, visto que, “os outros contribuem para modular os contornos de seu universo e dar ao corpo o relevo social que necessita, oferecem a possibilidade de construir-se inteiramente como ator do grupo de pertencimento” (LE BRETON, 2010, p. 9). Identificamos como as características desta compreensão de corpo apareceram durante o desenvolvimento do quadro. Destacamos algumas passagens que referenciaram o corpo como sujeito nos discursos expostos pelos jornalistas Renata Ceribelli e Zeca Camargo e pelos demais profissionais envolvidos no quadro, bem como pelos saberes e práticas empenhados sobre ele. Um dos momentos que revela o corpo como sujeito que sente e que reage as experiências vividas é percebido quando o jornalista Zeca Camargo relata durante o quadro o mau humor e a irritação que tem sentido diante as mudanças provocadas na rotina de alimentação e prática de exercícios. Este fato mostra que o corpo é um ser com autonomia, que além de receber informações exteriores, o corpo também possui a capacidade de reação (VÍDEO FANTÁSTICO 03). Assim, compreendemos o corpo dotado de autonomia para se organizar, expressar, modificar a si e aos outros, além de ser recortado pelos aspectos históricos das experiências vivenciadas. Dessa forma, entendemos que: Desde que nascemos, nosso corpo traz a história que nos concebe como indivíduos da espécie humana. Dando continuidade à historicidade do corpo, vamos construindo outra história, mediante nossas experiências de vida, de acordo com a sociedade em que convivemos. Nosso corpo, portador da mesma organização dos seres vivos, possui estrutura diferente e vai adquirindo originalidade à medida que interage com o entorno. Formado por uma dinâmica molecular, organiza-se e reorganiza-se mediante as provações advindas do ambiente e das pessoas com as quais convivemos, sendo ao mesmo tempo agente perturbador, modificando o ambiente e as pessoas (MENDES, 2002, p. 15). Diante o exposto percebemos que o corpo não é somente um objeto passível, no qual se podem realizar intervenções sem reações adversas, ao contrário é dotado de capacidade de 120 assimilação das informações que lhe despertam inúmeras reações, a depender das experiências vivenciadas por cada sujeito. Além disso, o corpo possui a incrível capacidade de aprender e se adaptar a novas experiências, porém sempre será influenciado pelo entrelaçamento dos fatores que o compõem, seja eles biológicos, históricos, culturais etc. Para Prado Filho e Trisotto (2008, p. 116) “o corpo [...] não tem nada de natural – em rigor, não existe ‘corpo natural’, espontâneo e livre, ‘pura potência’ anterior a qualquer trabalho da cultura – ele é sempre resultado de investimentos de poder e de enunciações por saberes”. Outra demonstração de sensação empreendida pelo corpo sobre os investimentos realizados sobre ele é apresentada pelo jornalista Zeca Camargo quando relata a sensação de culpa por ter “saído da linha”, ao antecipar uma “folga alcóolica”. O jornalista comenta: “achei que fiz bem, pois a bebida caiu bem com a endiva assada e a costela de cordeiro [...]! Só que no dia seguinte, quando eu acordei, bateu um arrependimento – e forte!” (POSTAGEM 21). O discurso do apresentador revela um corpo que sente e deseja, bem como responde aos investimentos realizados sobre ele. Para Lacroix (2006, p. 38) “o individuo só é ele mesmo [...] a partir do momento em que pode sentir e exprimir as emoções que nos agitam”. O sentir, o emocionar-se são dessa forma elementos inerentes ao ser humano e estão entrelaçados neste, em todas suas configurações e experiências vividas ao longo do seu existir. “Ao nos abandonarmos a nossas emoções, reaprendemos a ser o nosso corpo. Sentimos o delicioso afloramento da fisiologia sob o envoltório cultural” (LACROIX, 2006, p. 41). Assim, o corpo guarda em si as experiências vivenciadas sejam positivas ou negativas, e fará uso das informações e aprendizagens proporcionadas por estas em outros momentos quando requeridas. Um exemplo disso pode ser reconhecido na fala de Márcio Atalla quando aborda a importância da aprendizagem de movimentos na infância para a posterior utilização do repertório de movimentos na vida adulta. Segundo ele, “quem constrói esse acervo de 121 movimentos na infância, jogar vôlei, futebol, depois quando vai jogar lembra. [...] é importante até como socialização, a criança fazer atividade física, por que quando ela for adulta ela vai poder participar de muitos eventos, porque ela tem habilidade para aquilo” (MARCIO ATALLA, VÍDEO FANTÁSTICO 07). Um exemplo do resgate de movimentos já realizados em outros momentos pelos sujeitos é exposto quando Zeca faz opção por praticar a dança indiana após um longo tempo sem vivenciá-la. A professora de dança indiana destaca a importância da memória do corpo, sendo que esta é compreendida como sendo os conhecimentos já adquiridos em outros momentos da vida do sujeito (VÍDEO FANTÁSTICO 11). O corpo expressa através dos seus movimentos, conhecimentos, sentimentos, desejos, entre outros aspectos. Para Sampaio (2006, p. 76): O corpo em seu movimento cotidiano, através de diversas linguagens, anuncia seus desejos e sentidos. Criando cultura, cultivando projetos e sonhando horizontes proclama a vida com dignidade, afirma sua saúde na contramão de um sistema que multiplica as formas do morrer. Desse modo, a cultura será compreendida como uma construção social significativa para os seres humanos a partir de suas relações, o que exige que se considere a diversidade e pluralidade como sua marca fundamental. Dessa forma, percebemos que o corpo sujeito é dotado de inúmeros significados sociais e culturais a partir das relações que estabelece com os demais. No entanto devemos considerar que a expressão dos significados construídos no/pelo corpo se devem aos movimentos realizados por este. Para Sampaio (2006, p. 77), devemos “considerar o movimento dos corpos para afirmar sentidos significativos de suas relações com potencial de criar cultura”. Além disso, a autora complementa “o corpo em seu movimento acolhe os anseios e sentidos da existência possibilitando a re-significação de linguagens fortes e importantes que carregam a afirmação da identidade de um grupo social”. 122 Diante desses argumentos, a jornalista Renata Ceribelli ao comentar sobre a adaptação conseguida diante da nova rotina, reconhece-se como ser corporal. Segundo ela “a impressão que eu tenho até agora é que eu dou mais conta das coisas, eu estou mais ativa mesmo no meu dia a dia” (RENATA CERIBELLI, VÍDEO FANTÁSTICO 09). A fala da apresentadora diferente de outros momentos no quadro evidencia uma aceitação do corpo enquanto sujeito e não um distanciamento ou exteriorização do sujeito do seu corpo. Assim, ao reconhecer o corpo enquanto sujeito, a jornalista também reconhece sua capacidade de sensação, e sobre isso destaca no decorrer do quadro sentir as mudanças no corpo. A jornalista ressalta que “a gente está sentindo os resultados em nosso corpo” (RENATA CERIBELLI, VÍDEO FANTÁSTICO 14). Esta compreensão do corpo enquanto sujeito vivo e desejoso é visualizada também na fala da jornalista Renata Ceribelli quando diz que é “hora de ouvir o corpo e dar o que ele está pedindo” (RENATA CERIBELLI, POSTAGEM 46). Ao oportunizar espaço para ouvir o corpo ela reconhece este com capacidade de sensação e expressão. Ouvir o corpo é ouvir a si mesmo. No o quadro foi enfatizado que é essencial escolher exercícios que proporcione prazer a quem irá praticá-los. Dessa forma, as práticas empreendidas sobre o corpo devem ser condizentes com os desejos deste e com as sensações que lhe desperta. Renata comenta sobre a prática da bicicleta junto com o esposo e as boas sensações alcançadas (imagem 18). Para Renata Ceribelli “a atividade física nos tira da conversa chata do dia a dia de todo casal, diminui o estresse que sempre carregamos do trabalho para casa, e nos traz mais disposição, bom humor e autoestima” (RENATA CERIBELLI, POSTAGEM 61). 123 Imagem 18 – Renata Ceribelli pedala junto ao esposo Nesta compreensão de corpo sujeito ganha destaque a compreensão fenomenológica de Merleau-Ponty. Esta compreensão entende inicialmente que “tudo aquilo que sei do mundo, mesmo que por ciência, eu o sei a partir de uma visão minha ou de uma experiência do mundo sem a qual os símbolos da ciência não poderiam dizer nada” (MERLEAU-PONTY, 2006, p. 3). Para a fenomenologia de Merleau-Ponty (2006, p. 14) “o mundo é não aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo; estou aberto ao mundo, comunico-me indubitavelmente com ele, mas não o possuo, ele é inesgotável”. Ainda segundo o autor citado acima “a aquisição mais importante da fenomenologia foi sem dúvida ter unido o extremo subjetivismo ao extremo objetivismo em uma noção do mundo ou da racionalidade” (MERLEAU-PONTY, 2006, p. 18). Diante este entendimento percebemos que o corpo foi pensado na união da objetividade com a subjetividade. Para tanto, 124 dizemos, assim que nosso corpo, como uma folha de papel, é um ser de duas faces, de uma lado, coisa entre as coisas e, de outro, aquilo que as vê e toca; dizemos, por que é evidente, que nele se reúne essas duas propriedades, e sua dupla pertença à ordem do “objeto” e à ordem do “sujeito” nos revela entre as duas ordens reações muito inesperadas (MERLEAU-PONTY, 2006, p. 18). Nesta dupla pertença o corpo não é somente objeto, mas também, assume-se como vivo, como sensível, como desejante e atuante nos diferentes cenários sociais. Com base na compreensão fenomenológica de Merleau-Ponty, Nóbrega (2010, p. 15) defende o corpo como aspecto primordial da existência humana, ele “é a medida de nossa existência no mundo”. Desta forma, “o corpo não é uma coisa, nem ideia, o corpo é movimento, gesto linguagem, sensibilidade, desejo, historicidade e expressão criadora” (NÓBREGA, 2010, p. 15). No contexto do quadro, verificamos que esse corpo como sujeito acaba sendo na maior parte do tempo negado, embora como apresentamos, em alguns momentos possamos de forma tímida reconhecê-lo nos discursos dos participantes. Essa negação se dá em consequência do biopoder exercido sobre ele, ou seja, o controle sobre os elementos biológicos do corpo. O quadro Medida Certa busca reprogramar o corpo, e para isso, utiliza técnicas racionais e instrumentais, impulsionadas pela tecnologia e pelos discursos midiáticos assumidos como verdade. Demonstrando assim a influência da sociedade técnico-científica em que está inserido. Sociedade essa que assume discursos de verdade produzidos e divulgados por entidades científicas de cunho majoritariamente técnicos. Assim, compreendemos que o corpo enquanto sujeito ao relacionar-se com outros corpos em sociedade é submetido a relações de poder, exercendo ou recebendo intervenções deste. Conforme Foucault (2012, p. 284 - 285): Efetivamente, aquilo que faz com que um corpo, gesto, discursos e desejos sejam identificados e constituídos enquanto indivíduos é um dos primeiros efeitos do poder. Ou seja, o indivíduo não é o outro do poder: é um dos seus 125 primeiros efeitos. O individuo é um efeito do poder e simultaneamente, ou pelo próprio fato de ser um efeito, seu centro de transmissão. O poder passa através do individuo que ele constitui. De acordo com a citação acima, o corpo seria um dos primeiros efeitos do poder, bem como um dos seus centros de transmissão. Poder compreendido de forma circular e não apenas restrito a uma esfera social. Dessa forma, ao exercerem-se tentativas de controle sobre o corpo através da busca de uma adequação corporal padronizada em suas formas, medidas, entre outros constituintes, verifica-se que o corpo possui em si um contrapoder que lhe permite aceitar ou mesmo rejeitar as imposições ou orientações apresentadas a ele. Essa capacidade de aceitação ou rejeição está diretamente articulada com as experiências pessoais vivencias ao longo do existir. Portanto, compreendemos diante os argumentos apresentados nesta categoria que o corpo deve ser antes de tudo compreendido no entrelaçamento com os diferentes aspectos que se relacionam ao seu entorno. O corpo expressa os desejos, sentimentos, medos, afetos, emoções, de cada ser humano. É um ser relacional e entrelaçado que reage às investidas realizadas sobre ele. É deste modo, um corpo construído e recortado por aspectos biológicos, culturais, históricos e sociais. 126 CAPÍTULO 03 EM BUSCA DA SAÚDE IDEAL Imagem 19 – Cardápio do almoço: carne com legumes 127 Abrimos espaço neste capítulo para tratarmos das compreensões, saberes e práticas sobre a saúde veiculadas e defendidas pelos apresentadores/jornalistas Renata Ceribelli e Zeca Camargo, bem como pelos profissionais da Educação Física, Nutrição e Medicina envolvidos no quadro Medida Certa. Ao realizar um estudo epistemológico do conceito de saúde percebemos que esta foi e é compreendida a partir de diferentes referenciais, além disso, para ela foram desenvolvidos inúmeros saberes e práticas através dos conhecimentos biológicos, fisiológicos, anatômicos, mas também a partir de conhecimentos provindos da filosofia, psicologia, dentre outros. De acordo com Carvalho (2001, p. 13) “o conceito de saúde está historicamente associado ao de doença”. Segundo a autora: O conceito de saúde ao longo do tempo, significou: ausência de doença (visão simplista), completo bem-estar físico-psíquico-social (visão idealista), está em um padrão “normal” (visão relativista), ou ainda disposição de superação das adversidades físicas, psíquicas e sociais (visão subjetivista) (CARVALHO, 2001, p. 13). De acordo com os argumentos utilizados acima, evidenciamos que a saúde assumiu diferentes compreensões ao longo do seu processo histórico, no entanto, uma coisa parece consenso em todas as compreensões apresentadas, ou seja, a sua inerência aos seres humanos. Diante disso, visualizamos que a compreensão de corpo utilizada contribui para a defesa de uma concepção de saúde, visto que, corpo e saúde estabelecem relações circulares. Ao analisar as compreensões, saberes e práticas sobre a saúde no quadro Medida Certa evidenciamos que estas estão diretamente relacionadas à uma compreensão de corpo com características específicas. Portanto, verificamos que de forma direta ou indireta a saúde sempre esteve relacionada ao corpo, seja este corpo visualizado sobre a ótica do corpo objeto, corpo máquina, ou mesmo a compreensão de corpo enquanto sujeito. Assim, podemos afirmar que a compreensão de corpo influenciará diretamente na forma como a saúde é compreendida. 128 Entretanto, é necessário considerar que no cenário contemporâneo somos influenciados também quanto à compreensão de saúde a partir das influências das informações midiáticas. Conforme argumenta Dantas (2007, p. 27), “os discursos da mídia agem como uma prática pedagógica” e enquanto esta, tem oportunizado a divulgação e produção de uma série de conhecimentos sobre o corpo. Caracterizando-o como “objeto de diferentes pedagogias culturais, o corpo encontra particularmente na pedagogia da mídia, a emergência de uma certa pedagogia do corpo saudável”. Portanto, ao divulgar informações sobre hábitos saudáveis, dentre outras informações, os espaços midiáticos acabam por reforçar o desenvolvimento dessa pedagogia de um corpo saudável. Sobre os saberes relacionados à saúde, verificamos que ao longo da história se constituíram com grande predominância da área médica. Inicialmente, falar e discutir sobre saúde era algo que ficaria restrito aos médicos. Eram os médicos os detentores do conhecimento da área da saúde, eles quem dominavam seus discursos e suas práticas (FOUCAULT, 2004). Todavia, evidenciamos que os discursos e práticas sobre a saúde passaram por ressignificações e oportunizaram espaço de atuação para outras áreas, dentre as quais destacamos a Educação Física (MENDES, 2007). Nessa “descentralização” da saúde da Medicina, Dantas (2007, p. 145) argumenta que a própria mídia tem contribuído na promoção de uma maior informação dos indivíduos que deixam de ser tão dependentes da instituição médica e de seus códigos. Segundo ele, “as redes de informação sobre saúde, fazem com que o individuo tenha mais detalhes para decidir sobre sua saúde ou o seu tratamento, que resultam em uma melhor discussão com os médicos”. Entretanto, a veracidade das informações divulgadas pela mídia será de fundamental importância neste processo, bem como, as fontes de onde estas são provenientes. 129 Embora tenhamos conseguido ampliar o campo de conhecimento e atuação sobre a saúde, percebemos que até os dias atuais os saberes médicos ainda têm grande influência sendo em muitos casos exclusivos e hegemônicos. Entretanto, o desenvolvimento de estudos realizados em outras áreas têm buscado a afirmação de novos campos de saberes e práticas sobre esta. Portanto, assim como o corpo, a compreensão de saúde, bem como seus saberes e práticas, também não tiveram um percurso linear na sua constituição, nela foram realizadas rupturas e continuidades que lhe permitiram em momentos distintos ser caracterizada como ausência de doenças, associada aos padrões estéticos, pensada apenas a partir dos elementos biológicos, uma saúde individualizada, institucionalizada através da Organização Mundial de Saúde (OMS), ou mesmo pensada a partir de uma perspectiva existencial (MENDES, 2007). Atualmente verificamos que a saúde se tornou objeto de consumo, sendo que este é efetivado a partir da aquisição de bens e serviços veiculados constantemente nos espaços midiáticos. O espaço na mídia para a discussão dos temas da saúde tem aumentado consideravelmente nos últimos tempos, fato que contribui para a caracterização da chamada “geração saúde”. Diante do quadro “Medida Certa” do Fantástico, elencamos as seguintes categorias para discussão das compreensões, saberes e práticas de saúde que são: Saúde baseada em índices de normalidade e biológica; Saúde associada ao emagrecimento e à padrões estéticos; e, Saúde associada a atividade física e ao controle alimentar. Todavia, é válido salientar que embora tenhamos a separação destas categorias as mesmas estabelecem diálogos em muitas das compreensões, saberes e práticas sobre a saúde. Assim, não devemos visualizá-las como antagônicas e sem possibilidade de relação. Diante as categorias de conteúdos analisadas propomos ao final deste capítulo uma compreensão de saúde existencial que oportuniza ressignificações dos saberes e práticas aplicados em sua busca da saúde. 130 Saúde baseada em índices de normalidade biológica Apresentamos nesta categoria os discursos do quadro Medida Certa que referenciam a saúde a partir dos elementos biológicos constituintes do corpo humano em um estado de equilíbrio, ou seja, nos seus índices de normalidade. A saúde nesta perspectiva foi visualizada como equilíbrio do corpo no que se refere aos seus processos fisiológicos e sua composição bioquímica. Nas reflexões realizadas por Canguilhem (2011) encontramos respaldo crítico para essa compreensão de saúde associada a uma normalidade biológica. Segundo o referido autor, o médico, reconhecido socialmente como principal responsável pelo cuidado com a saúde, “tira a norma do seu conhecimento da fisiologia, dita ciência do homem normal, de sua experiência vivida das funções orgânicas, e da representação comum da norma em um meio social em dado momento”. Ainda segundo o autor, “as constantes fisiológicas são, portanto, normais do sentido estatístico, que é um sentido descritivo, e no sentido terapêutico, que é um sentido normativo” (CANGUILHEM, 2011, p. 77). Essa compreensão de saúde restrita a normas biológicas é refletida e criticada pelo autor citado diante a impossibilidade de apreensão dos diversos constituintes e significados que a saúde desperta na vida dos sujeitos. Compreendemos que a constituição biológica do corpo e o funcionamento dos seus componentes são essenciais na conquista da saúde dos seres humanos, entretanto esta não deve servir como único parâmetro de análise em sua aquisição. Assim, reconhecemos a relevância dos componentes biológicos, mas entendemos que a saúde como algo que acontece/existe no ser humano trás em si uma complexidade maior, pois os aspectos biológicos não se isolam dos acontecimentos sociais que este participa, da cultura, da história e das sensações que experimenta. 131 No entanto, no quadro Medida Certa evidenciamos uma exacerbação dos aspectos biológicos como essenciais, e em muitos momentos como únicos responsáveis, para a aquisição da saúde. Esta compreensão de saúde relaciona-se diretamente com a compreensão de corpo enquanto biológico demasiadamente enfatizada no quadro. Nesta compreensão de saúde, enfatiza-se a composição corporal e a estabilização dos elementos biológicos, ou seja, o equilíbrio ocasionado entre os componentes bioquímicos e anatômicos e seus respectivos processos fisiológicos como forma de melhorar a estabilidade do corpo. Essa estabilidade seria conseguida diante a adequação em índices de normalidade dos diferentes constituintes, como os verificados através dos exames que os apresentadores foram submetidos. Na imagem 20 podemos evidenciar a jornalista Renata Ceribelli realizando o teste de esforço. Imagem 20 – Renata Ceribelli realiza teste de esforço 132 Ao analisar a imagem 20, evidenciamos a apresentadora sendo submetida ao teste de esforço, a expressão de exaustão visível na face da jornalista demonstra todo o esforço demandado na realização do exercício. Os eletrodos fixados ao corpo buscam captar todos os efeitos sofridos pelo corpo e traduzir esses efeitos a uma linguagem compreensível pela medicina. Verifica-se mais uma vez a prevalência dos conhecimentos técnicos-científicos. No entanto, entendemos que o esforço em toda sua completude não pode ser mensurado, pois envolve outros aspectos como a situação de cada indivíduo que não pode ser apreendida por uma classificação em padrões. Os valores numéricos e os índices pré-estabelecidos são essenciais dentro desta compreensão. Essa configuração da saúde compartilha da ideia apresentada por Chammé (1996, p. 65) quando argumenta que “enquanto a sociedade vai se tornando mais instrumentalizada, mais mecanizada, o corpo vai passando a ser visto sob a ótica das novas descoberta das ciências físico-químicas, tecnológicas e biológicas”. Retornando ao “Medida Certa”, em um dos momentos do quadro, a nutricionista Laura Breves ao avaliar o jornalista Zeca Camargo refere-se a ele afirmando que “você passou do índice considerado normal”, para tanto a mesma diz que utiliza parâmetros de saúde para esta avaliação, não especificando quais (LAURA BREVES, VÍDEO FANTÁSTICO 01). A afirmativa da nutricionista deixa expresso o entendimento de que a obtenção da saúde está estabelecida através de parâmetros, sendo estes predominantemente expressos através dos valores numéricos. Os índices de normalidade são verificados através dos exames bioquímicos, das avaliações médicas, dos testes físicos, das pesagens e medições realizadas, além dos cálculos matemáticos e da estatística. Segundo Chammé (1996, p. 67) “o pensamento estatístico foi adquirindo conotações que puderam demonstrar a importância e a potencialidade dos números: eles servem para revelar ou para ocultar”. De acordo com o quadro, compreendemos 133 que em se tratando da saúde, os números podem reconhecer os seres humanos como saudáveis ou não a partir de índices de referência. Em outro momento do quadro, o cardiologista Alexandre Carvalho avalia os exames realizados pelos jornalistas Renata Ceribellli e Zeca Camargo ao final do quadro. Segundo ele, ao se referir à Renata, diz que “com relação a sua saúde você melhorou mais ainda. O seu colesterol bom aumentou, seu colesterol ruim caiu, ou seja, o que estava bom ficou melhor”. O cardiologista argumenta que estes benefícios são “efeito de exercício, não tem como a gente negar isso” (ALEXANDRE CARVALHO, VÍDEO FANTÁSTICO 13). Sobre Zeca Camargo o cardiologista Alexandre Carvalho afirma que “hoje você é uma pessoa normal quanto ao seu colesterol”. Sobre os motivos que levaram os índices de colesterol do apresentador a baixarem, o cardiologista comenta que foi consequência de “mais vegetais, colocou mais fibra, tirou um pouco daquela gordura saturada, isso naturalmente inverte e, obviamente colocou o exercício físico para consumir essa coisa toda”. Finalizando o diagnóstico clínico do jornalista o cardiologista ainda afirma: “você tinha um alto fator de risco para ter um problema no coração, seja um AVC, um infarto. Você tinha seis fatores de risco, mas hoje você ainda tem dois fatores de risco. 1 – obesidade, 2 – sedentarismo, 3colesterol alto, 4 – a sua glicose que também caiu”. Além disso, complementa apresentando os dois outros fatores de risco: “a idade e o antecedente familiar a gente não tem como mexer nisso, tirando isso, todos os outros fatores que são modificáveis você conseguiu” (ALEXANDRE CARVALHO, VÍDEO FANTÁSTICO 13). Os argumentos apresentados acima evidenciam mais uma vez uma compreensão de saúde que está atrelada aos padrões e índices de normalidade, especialmente no que concernem aos constituintes biológicos do corpo. Além disso, demonstra a grande influência do saber médico, o dono do veredito final. 134 Verificamos uma relação dessa compreensão de saúde com o que comenta Canguilhem (2011) sobre a saúde pensada como absoluta e perfeita. Segundo o autor “a saúde considerada de modo absoluto, é um conceito normativo que define um tipo ideal de estrutura e de comportamentos orgânicos; neste sentido, é um pleonasmo falar em saúde perfeita, pois a saúde é o bem orgânico” (CANGUILHEM, 2011, p. 90). Essa idealização de saúde trás concomitantemente uma idealização dos constituintes biológicos e do funcionamento do corpo. No entanto, o mesmo autor nos alerta para os riscos que corremos na constituição ideológica de um homem perfeito, visto que ao tratarmos da ideia de normalidade, especialmente associada aos constituintes biológicos, podemos restringi-la ao que está no meio, ou seja, entre os valores máximos e mínimos. Conforme argumenta, “a determinação das constantes fisiológicas, pela elaboração de médias experimentais obtidas apenas no âmbito de um laboratório, corre o risco de apresentar o homem normal como um homem mediano” (CANGUILHEM, 2011, p. 112). A saúde visualizada através dos componentes biológicos ganha destaque nos discursos pela credibilidade que o visível, mesmo que através de exames médicos, possui no imaginário das pessoas. Os componentes biológicos do corpo oportunizam o parecer sobre sua saúde, desde que tudo esteja na “medida certa”. Em um dos episódios do quadro, o jornalista Zeca Camargo relata sobre a sua avaliação e os resultados dos exames realizados. Comenta sobre os resultados negativos obtidos em seus exames de sangue, no teste de resistência e a retenção de líquido no tornozelo, e demonstra argumentos de constituintes biológicos fora dos índices de normalidade. Segundo o jornalista, ele possuía vários “índices incômodos, colesterol ruim alto, colesterol bom baixo, glicose dois pontos do aceitável” (ZECA CAMARGO, POSTAGEM 15). 135 O quadro enfatiza a necessidade do equilíbrio dos constituintes químicos do corpo, e que sua falta ou seu excesso prejudicam o funcionamento normal do mesmo. Sobre isso, destaca que a falta de alguns nutrientes acabam ocasionando problemas como: falta de memória, cabelos e unhas fracas, vontade de comer doce, retenção de líquido, intestino preso, entre outros (POSTAGEM 34). De acordo com Canguilhem (2011, p. 121) “considerar os valores médios constantes fisiológicas humanas como a expressão de normas coletivas de vida seria apenas dizer que a espécie humana, inventando gêneros de vida, inventa ao mesmo tempo, modos de ser fisiológicos”. Percebemos que, ao buscar uma adequação biológica à padrões de normalidade os seres humanos acabam afirmando a necessidade de um padrão fisiológico e bioquímico do corpo humano. Em uma das postagens realizadas no quadro fala-se da saúde a partir dos benefícios oportunizados pelas “gorduras do bem”. O profissional de Educação Física Márcio Atalla comenta que a gordura é frequentemente associada à características negativas, como problemas no coração. No entanto, as gorduras trazem inúmeros benefícios, pois estas são conhecidas como as “gorduras do bem”. Assim, Márcio Atalla destaca as funções das gorduras no corpo e diferenciam àquelas que oportunizam benefícios das que são prejudiciais ao corpo humano (POSTAGEM 71). Diante das considerações feitas, é necessário compreendermos que “o verdadeiro papel da fisiologia, suficientemente importante e difícil, consistiria em determinar exatamente o conteúdo das normas dentro das quais a vida conseguiu se estabilizar, sem prejulgar a possibilidade ou a impossibilidade de uma eventual correção dessas normas” (CANGUILHEM, 2011, p. 123-124). Assim, embora estabeleçam normas, ou melhor, orientações, sobre índices que facilitariam o bom desempenho do corpo na realização de suas 136 atividades diárias é necessário que estejamos abertos a modificações e em muitos casos adaptações do corpo a índices diferenciados. Nesta compreensão de saúde percebemos que prevalecem os saberes da área médica, especialmente quando fazem uso dos conhecimentos produzidos pela anatomia, bioquímica e fisiologia. Nela, não verificamos abertura para o reconhecimento das influências culturais, sociais e históricas impregnadas em cada ser humano. Verificamos a influência do saber médico em algumas passagens do quadro, por exemplo, quando argumenta que: “o que a medicina recomenda a quem tem varizes e quer praticar musculação, é que utilizem menos carga e executem um número maior de repetições” (MÁRCIO ATALLA, POSTAGEM 77). A citação apresentada deixa evidente o saber, ou mesmo veredito, médico em relação a temas que outras áreas teriam mais propriedades para falar, como neste caso, a prática de musculação. De acordo com Prada Filho e Trisotto (2008, p. 116) “o corpo objeto tradicional das modernas ciências médicas é o corpo biológico, natural, sede de processos fisiológicos, solo firme, positivo, onde se instaura a doença”. Assim, o corpo saudável é aquele que adequa-se a uma normalidade dos constituintes biológicos e cujo saber deve ser de domínio predominante da medicina. A categoria também apresenta uma referência à saúde como ausência de doença. Ou seja, ter saúde é não ter doença, assim, o que é doença? Diante os discursos e a sua base nos conhecimentos biológicos, à doença seria o desequilíbrio dos constituintes biológicos do corpo e dessa forma o funcionamento estaria comprometido. Segundo Czeresnia (2007, p. 20) “a doença na sociedade ocidental é compreendida mediante o conceito de organismo, formulado com base em uma concepção mecanicista de corpo”. A autora ainda argumenta que “o conceito moderno de doença constitui-se por meio da análise da estrutura material do corpo, estudada pela anatomopatologia”. Além disso, “tem 137 como marca uma redução que encobre as relações em movimento, as emoções, a singularidade dos sujeitos” (CZERESNIA, 2007, p. 21). Pensar a saúde enquanto ausência de doença trás também como ponto negativo a visualização da doença e não do sujeito doente. Assim, acontece um isolamento do que é doentio no sujeito não considerando que a doença está imbrincada em uma complexidade maior, ou seja, o ser humano. Corroboramos com Canguilhem (2011, p. 141) quando afirma que “o organismo sadio procura, sobretudo, realizar sua natureza, mais do que se manter em seu estado e em seu meio atual”. O ser humano deve entregar-se a aventura de viver, a sua constante desestabilização, em vez de ficar preocupado e se manter numa busca exacerbada por padrões de normalidade. Portanto, é preciso ter claro que “o homem sadio não foge diante dos problemas causados pelas alterações – as vezes súbitas – de seus hábitos, mesmo em termos fisiológicos; ele mede sua saúde pela capacidade de superar as crises orgânicas para instaurar uma nova ordem” (CANGUILHEM, 2011, p. 141). Assim, pensar sobre a saúde é dar capacidade ao corpo para reagir e adequar-se as “crises orgânicas” enfrentadas nas instabilidades do viver, gerando novas ordens fluidas e modeláveis de acordo com o ambiente e suas relações. De acordo com Palma (2001, p. 24) “tratar de saúde é, em última instância, compreender as tramas sociais que se desenrolam nos projetos e políticas públicas. Parece ingênuo aceitar o determinismo biológico, como razão única, para conferir as análises sobre o processo saúde-doença”. Corroboramos com o autor ao reconhecer as limitações dos aspectos biológicos como definidores da saúde do corpo humano. O referido autor ainda nos alerta para os riscos de centrarmo-nos apenas nos aspectos individuais, visto que, “considerar, então, um foco individual pode ser insuficiente, já que a sociedade é mais que um agregado de indivíduos” (PALMA, 2001, p. 35-36). 138 Saúde associada ao emagrecimento e à padrões estéticos Apresentamos nesta categoria as discussões e reflexões sobre a saúde associada ao emagrecimento e à padrões estéticos. Para isso analisamos os discursos proferidos no quadro Medida Certa que referenciam a associação linear entre um corpo magro e a saúde. Inicialmente, o quadro Medida Certa apresenta como objetivo maior do seu desenvolvimento a busca pela obtenção da saúde dos apresentadores. No entanto, durante o seu desenvolvimento, além dos saberes e práticas utilizados, verificamos uma predominância da busca pela perda de peso, ou seja, do emagrecimento. Embora o quadro defenda uma busca por saúde para os apresentadores e para o público envolvido, o mesmo em quase todas as reportagens exibidas referencia a saúde através das questões referentes ao peso, especialmente no que concerne o seu controle em uma medida certa. Segundo a repórter Sônia Bridi “o resultado é o mesmo, chegar na medida certa” (SÔNIA BRIDI, VÍDEO BLOG 13). Assim, se a proposta do quadro é definida como uma busca pela saúde e referenciam a todo instante a adequação do peso corporal a um padrão ideal, poderíamos entender a saúde como a simples adequação a um peso específico? Que peso seria esse, visto que todos querem chegar a essa medida certa? Quais fatores são levados em consideração para esta obtenção? A desejada e propagada medida certa se apresenta confusa, e nesta reportagem quando a repórter Sônia Bridi expressa que o objetivo de quem quer ganhar é o mesmo, é entrar na medida certa, deixa expresso uma noção de que a medida certa é algo exterior aos quais os seres humanos devem se adequar não reconhecendo a importância das características individuais e culturais As reflexões promovidas trazem a tona uma valorização de um padrão corporal considerado belo, referenciado a partir da magreza. Conforme argumenta Carvalho (2001, p. 20) nós “vivemos em uma sociedade dominada pelo fascínio de corpos repartidos pela fama e 139 riqueza e pela exclusão de corpos condenados pela pobreza ou que não coincidem com os modelos”. Dessa forma, corroboramos com a autora e percebemos que o quadro atua na reprodução dos modelos e na afirmação do poder manifestado através do corpo. Ao reconhecer o sujeito a partir dessa compreensão estaremos reduzindo-o e impedindo-o de manifestar-se como possuidor de uma história, expressivo, sentimental e desejante. Isso é exposto por Carvalho (2001, p. 10) quando diz que “o ‘lugar’ destinado ao sujeito, ou o entendimento que prevalece a respeito do sujeito, está caracterizado por uma ‘figura’ que muitas vezes não pensa, não sente, não experimenta emoções, desejos, não carrega consigo sua própria história de vida”. Os discursos apresentados pelo quadro acabaram por colaborar com essa compreensão reducionista de corpo, visto que, os investimentos em sua maioria foram realizados de fora para dentro sem o reconhecimento das características de cada um. No inicio do quadro os jornalistas foram apresentados mediante a sua constituição corporal e as mudanças efetivadas na obtenção do ganho de peso, especialmente de gordura, com o passar dos anos e com as rotinas as quais estavam submetidos. Dessa forma, através de comparativos com anos anteriores, os jornalistas foram convocados a entrarem no quadro e se submeterem a um programa de exercícios físicos e a um controle alimentar com objetivo de perder peso. Assim, o mesmo deixou exposto uma forte associação entre o emagrecimento e a obtenção da saúde, como pode ser visto na imagem 07. Ao refletir sobre o acúmulo de peso alcançado pelas pessoas em virtude do estilo de vida que levam na contemporaneidade, Gomes (2006, p. 56) fala sobre a obesidade. Segundo ele, “a obesidade e suas pequenas adjacências (as gorduras localizadas) se constituem num dos focos de batalha individual para se alcançar os intermináveis padrões de beleza (intermináveis embora magros!), enfrentados cotidianamente através das escolhas”. Assim, cada ser humano deveria através de suas escolhas alcançar o emagrecimento corporal. 140 Apesar dessa predominância no quadro Medida Certa, em um dos episódios o profissional de Educação Física Márcio Atalla alerta, mesmo contrariando essas ideias, que ser magro não é sinônimo de ser saudável, abrindo espaço para reflexões que questionem e contradigam esta associação (VÍDEO FANTÁSTICO 08). No entanto, no decorrer do quadro ficaram expostos discursos que promovem uma associação linear entre perder peso e ganhar saúde, ou seja, emagreça e você estará saudável. Assim, para emagrecerem os seres humanos estariam constantemente guerreando contra a balança, como declara a jornalista Renata Ceribelli, “tem horas que parece uma batalha sem fim contra a balança, dá raiva” (RENATA CERIBELLI, VÍDEO FANTÁSTICO 02). Embora concordemos com os malefícios provocados pelo acúmulo de gordura, entendemos que a visão apresentada se torna restrita para a grande complexidade que representa a saúde. Para conseguir essa adequação corporal e consequentemente saúde, Renata Ceribelli aconselha: “acho que a primeira dica é rir de você mesmo. Rir da vergonha do peso, rir do medo da balança, rir e rir. Assim, fica mais leve a luta pela medida certa!”. (RENATA CERIBELLI, POSTAGEM 04). Dessa forma, possuir um corpo gordo é caracterizado como vergonhoso, motivo de riso e antes de tudo prejudicial à saúde. Diante dos argumentos utilizados ficou entendido que o corpo deve ser magro, no entanto a magreza em excesso também não seria saudável. Ocorre assim à necessidade de adequação aos padrões corporais, e o quadro por constituir-se como um espaço de mediação para os telespectadores e internautas acaba veiculando também padrões corporais que devem ser consumidos pela população. Essa adequação torna-se uma exigência e a responsabilidade de sua conquista é individual. Corroboramos com Carvalho (1995, p. 121) quando argumenta que “esta é uma época ‘neurotizada’ pela ideia da atividade física como saúde associada à beleza estética como o único caminho para o sucesso, para a felicidade e para o dinheiro”. É nesta mesma época que 141 as instituições responsáveis pelo “ordenamento social” atribuem ao ser humano a responsabilidade pelo cuidado com a sua saúde. Um exemplo é a saúde pública que: reforça a ideia de que o individuo é o responsável pela degradação de sua qualidade de vida. A sua mensagem se fundamenta no pressuposto de que as enfermidades são causadas pela negligência do indivíduo com relação ao seu corpo. Está constantemente lembrando à população o seu compromisso com os cuidados alimentares, o excesso de bebida, o fumo e a necessidade de atividade física para a promoção da saúde (CARVALHO, 1995, p. 124). O ser humano seria o responsável pela não aquisição da saúde. No entanto, para consegui-la deveria se adequar de forma obediente as proposições feitas pelas instituições sociais, como no caso citado as instituições responsáveis pela saúde pública. Dentre as proposições, destacamos a necessidade de adequação aos padrões estéticos. A estética associada a padrões assume uma relação de grande estabilidade com a saúde. Possuir um corpo esteticamente belo é essencial para obtenção da saúde, de acordo com os discursos do quadro. Assim, percebemos que no quadro a “estética é encarada como sinônimo de boa forma que, por sua vez, passa a ser sinônimo de saúde” (CARVALHO, 1995, p. 126-127). Todavia, essa associação esconde grandes riscos para as pessoas que buscam uma adequação à determinados padrões estéticos difundidos socialmente através da mídia de forma irresponsável. Especialmente quando utilizam para isto de meios nada favoráveis visando obtenção de um corpo saudável, como o uso irrestrito de medicamentos sem orientação médica, a realização de dietas de alta restrição calórica, a submissão sem orientação a programas de exercícios físicos de alta intensidade, entre outras. Verificamos que os saberes e práticas predominantes nessa compreensão de saúde possuem como base as ciências anatômicas, bioquímicas e fisiológicas, e, para tanto, utilizam de saberes ou práticas alimentares da Nutrição bem como da prática de atividade física da Educação Física. Principalmente através da realização de dietas hipocalóricas em relação ao 142 gasto energético, com prescrição e acompanhamento de nutricionistas, a realização de refeições fragmentadas ao longo do dia, a hidratação, entre outros. Quanto à atividade física, através de exercícios físicos de predominância aeróbica e com acompanhamento do profissional de Educação Física, além da variação nos tipos de atividades realizadas e na frequência. Um exemplo dos exercícios realizados podem ser evidenciados na imagem 21, quando a apresentadora Renata Ceribelli é submetida a pular corda. Imagem 21 – Renata Ceribelli enfrenta o desafio de pular corda A imagem 21 apresenta a prática de pular corda como alternativa de exercício aeróbico. Não reconhece a atividade como uma prática cultural à qual a jornalista não teve acesso a vivenciá-la em outros momentos de sua vida. A prática em questão ainda deixa algumas inquietações sobre os efeitos prejudiciais que pode provocar no corpo, especialmente por ser uma atividade de alto impacto nas articulações, especialmente para pessoas de peso 143 elevado como a jornalista. Estes efeitos prejudiciais não foram relatados pelo profissional de Educação Física e desconsiderado em sua vivência. Ao final do quadro mais uma vez ficou demonstrada a associação entre o emagrecimento e a obtenção da saúde. Este fato foi verificado quando a redação do Fantástico apontou que “depois de 90 dias reprogramando o corpo, eles perderam quilos e ganharam saúde” (POSTAGEM 95). Ou seja, emagreceram e obtiveram saúde. Portanto, visualizamos que “é neste domínio comum situado nas fronteiras de saúde com a estética a partir de um padrão, que se forma esta ‘ditadura estética’ sob a qual se vive hoje em dia – esta obrigação contemporânea de ser bonito e saudável!” (PRADO FILHO e TRISOTTO, 2008, p. 120). Assim, as associações promovidas entre os padrões corporais e a saúde acabam por enfatizar a necessidade e responsabilidades dos indivíduos estarem adequados aos modelos esteticamente perfeitos divulgados socialmente, reduzindo dessa forma, a complexidade que representa o “ser saudável”. Na ideia de ser saudável, sendo esta compreendida como o conjunto de códigos, normas e valores a serem seguidos pela população na busca pela saúde, “divulgada” no quadro Medida Certa ficou evidente uma associação linear entre a perda de peso e a aquisição de saúde. O corpo magro como sinônimo de corpo saudável. Utilizou-se da generalização para propagar para os sujeitos que a perda de peso contribui de forma significativa para a conquista da saúde. Para isso, foram divulgadas inúmeras dicas de exercícios físicos e de controle alimentar para auxiliar os sujeitos na perda de peso. A estética a partir de um padrão e a composição corporal foram à chave para aquisição de um corpo saudável. Como não reconhecem as características individuais negam a necessidades de muitos em aumentar o peso corporal. Ser saudável de acordo com o quadro Medida Certa requer uma ritualística de saberes e práticas. É necessário o desprendimento de uma série de atitudes por cada sujeito na busca 144 pela adequação aos índices e padrões previamente estabelecidos para a aquisição de uma Medida Certa, e consequentemente da saúde. Exemplos de práticas defendidas para aquisição da saúde são localizados quando Márcio Atalla recomenda dormir no mínimo seis horas por noite e realizar exercícios aeróbicos por 150 minutos por semana (VÍDEO FANTÁSTICO 09). Outro exemplo dos modelos preestabelecidos para obtenção da saúde é indicado pelo profissional de Educação Física quando argumenta que “para ser considerada saudável uma pessoa tem que dar diariamente nada menos do que 10 mil passos” (MÁRCIO ATALLA, POSTAGEM 40). A saúde é então conquistada através de um conjunto de códigos e atitudes que devem ser seguidas pelos sujeitos. Verificamos neste ponto uma grande associação entre as ideias expressas no quadro e o que nos apresenta Foucault sobre as práticas médicas e os cuidados com a saúde efetivados no século XIX. Segundo o autor “a prática médica podia, desse modo, conceder grande destaque ao regime, à dietética, em suma, a toda uma regra de vida e de alimentação que o individuo se impunha a si mesmo” (FOUCAULT, 2004, p. 38). Saúde associada à atividade física e ao controle alimentar Outra perspectiva de saúde encontrada nas análises do quadro Medida Certa, refere-se à saúde pensada a partir de uma relação de causa e consequência entre a realização de atividade física e o controle alimentar. Um exemplo desta associação pode ser localizada na fala do profissional de Educação Física Márcio Atalla quando argumenta que “a ideia é incorporar, de maneira regular, atividade física na vida dos dois. Isso vai refletir diretamente na saúde” (MÁRCIO ATALLA, POSTAGEM 03). Desde já, reconhecemos as significativas contribuições da atividade física e de uma alimentação equilibrada para a obtenção da saúde, no entanto, devemos compreender que a saúde possui uma complexidade maior e não pode 145 ser restrita a esses aspectos, bem como reconhecemos que as práticas alimentares e de exercícios indevidas podem trazer uma série de malefícios ao corpo. Sobre atividade física trazemos como argumento as discussões realizadas por Carvalho (1995, p. 49 – 50). Para ela, “o termo atividade física carrega toda e qualquer ação humana que comporte a ideia de trabalho como conceito físico”, e, “tudo que é movimento humano desde fazer sexo até caminhar no parque, é atividade física”. Essa compreensão acaba sendo generalista, e durante o quadro percebemos que o entendimento do termo atividade física esteve restrito especialmente aos exercícios físicos orientados para objetivos préestabelecidos, sejam eles, aumento da capacidade cardiorrespiratória, fortalecimento muscular e emagrecimento. Esses assumem ainda uma postura mecanicista e não oportunizam um olhar para a expressão e linguagem proferida por eles e seus significados. Essa compreensão está atrelada a necessidade de gasto energético, desconsiderando os aspectos culturais e simbólicos do movimento humano. Carvalho (1995) ainda reflete sobre o papel da atividade física na sociedade contemporânea e comenta que: Contemporaneamente, a atividade física, ao tempo que canaliza a atenção da sociedade para a sua capacidade de delinear corpos saudáveis, fortes, belos, mascara outros determinantes do setor de saúde e do quadro social brasileiro. De outra forma, se superestima o papel de determinação da atividade física em relação à saúde (CARVALHO, 1995, p. 63). Como argumentado acima, a atividade física assume papel ativo sobre o corpo objetivando desde questões estéticas até a saúde. A autora alerta no final de sua citação para a superestima do papel da atividade física sobre a saúde, especialmente os discursos que vem defender uma linearidade absoluta entre a prática da atividade física e a saúde, ou mesmo de que a atividade física isoladamente poderia oportunizar a saúde para os indivíduos. 146 Durante o quadro, a atividade física e o controle alimentar foram utilizados como elementos principais para a obtenção dos objetivos estabelecidos, ou seja, obtenção de saúde. Através da intervenção dos profissionais da Nutrição e da Educação Física os jornalistas Renata Ceribelli e Zeca Camargo foram submetidos às intervenções na busca pela perda de peso, e consequentemente alcançarem a saúde, como apresentamos acima. Vemos uma clara associação dessa compreensão de saúde ao que Carvalho (1995, p. 126) reflete em seus estudos. Segundo a autora, “as orientações acerca das receitas, dietas, quantidade de exercícios também têm sido veiculados na área da saúde, com o objetivo de habilitar o leitor a manter o equilíbrio entre seus hábitos (alimentares, físicos, comportamentais) e seu ritmo de vida”. O mesmo foi evidenciado no quadro através de um conjunto de normativas sobre as quais os seres humanos devem se adequar. Para tanto, o profissional de Educação Física argumenta que para obtenção da saúde é necessário à adesão de bons hábitos e, dessa forma, destaca três dicas como essenciais. “Atividade física regular, número um, fundamental; se alimentar bem, se alimentar bem quer dizer: comer fracionadamente e escolher bons alimentos; terceira dica é dormir bem. Essas três dicas compõe na verdade os bons hábitos” (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO BLOG 01). A imagem 22 apresenta um dos hábitos favoritos da jornalista Renata Ceribelli. A prática do ciclismo foi adotada durante o quadro Medida Certa pela jornalista como uma das atividades físicas de maior regularidade e prazer. Através dessa prática a jornalista percorreu diferentes pontos da cidade do Rio de Janeiro. 147 Imagem 22 – Renata Ceribelli estreia bicicleta presente de aniversário No início do quadro Medida Certa os jornalistas Renata Ceribelli e Zeca Camargo relataram os cuidados que tinham com a alimentação e com a prática de atividade física, e que em consequência das rotinas de trabalho com horários desregulados não conseguiam manter uma prática regular de exercícios e controle da alimentação. O jornalista Zeca Camargo comenta que tinha uma alimentação desregulada e sem horários (VÍDEO FANTÁSTICO 01). Além dos jornalistas, o quadro a todo instante evidenciou a necessidade de realização destas intervenções pelo público que acompanhou o quadro tanto pelas reportagens exibidas ao vivo no Fantástico, como pelas postagens realizadas no blog do Medida Certa. Para a população foram disponibilizadas dicas de exercícios, as formas corretas de realização, os seus benefícios, a frequência, entre outras informações. Não discutiram de forma aprofundada sobre os malefícios da prática de atividade física mal orientada e inadequada para os seres humanos. Segundo o profissional Márcio Atalla “atividade física não é igual a um medicamento que você toma e faz efeito na hora, você precisa de um pouco de regularidade pra começar a colher os benefícios” (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO FANTÁSTICO 05). 148 Reconhecemos a importância da estimulação da prática da atividade física para toda a população, no entanto, esse reconhecimento parece apenas “teórico”, visto que “no plano da concretização de programas, de propostas, da realização de atividades, da implementação do sistematizado, a prática específica tem privilegiado, ao longo da história da Educação Física brasileira, a minoria, a quem pode pagar” (CARVALHO, 2001, p. 13). A autora cita a área da Educação Física visto que foi nela que aprofundou seu estudo, mas é possível perceber que essa valorização da minoria, especialmente daquela que dispõem de recurso para pagar, tem crescido e se pulverizado nas diferentes áreas envolvidas pela busca da saúde. No que concerne à alimentação, foram disponibilizadas informações a respeito da composição química dos alimentos, as quantidades indicadas, receitas de preparos, a frequência da alimentação, a importância da alimentação fragmentada etc. Imagem 23 – Zeca Camargo almoça na casa da mãe Maria Inês 149 A imagem 23 apresenta características ampliadas do ato de alimentar-se. Compreendemos que ela expõe uma compreensão de alimentação que vai além da ingestão de tipos e quantidades de alimentos devidamente controlados. Conforme apresenta a imagem 23, a alimentação é um momento repleto de significações culturais, simbólicas e afetivas. Talvez em consequência da influência técnico-científica no controle alimentar vivenciado atualmente tenhamos nos preocupado apenas com os constituintes bioquímicos desta e esqueçamos do que o ato de se alimentar revela. O momento da alimentação é palco de grandes acontecimentos. Seja os religiosos, como expresso através da Santa Ceia, ou os familiares nos almoços de domingo com a família ou mesmo na união entre amigos e colegas de profissões. Conforme argumenta Cyrulnik (1997, p 49) “a maior parte dos acontecimentos familiares é marcada por um ritual alimentar, e a história do grupo poderia contar-se pelos alimentos”. A imagem 23 apresenta um desses momentos de encontro familiar em torno da alimentação. Atualmente, evidenciamos que a fragmentação familiar pela distância entre seus membros, a correria imposta pelas fontes de trabalho, a individualização da vida, tem colaborado para que a alimentação em grupo seja cada vez menos realizada. Em outros períodos unir-se diante a mesa nas refeições tornava-se o momento de debate e conversas sobre os acontecimentos do dia, bem como para o planejamento e orientação familiar. Esse momento de reunião comandado pelo responsável pela casa colocava todos os seus membros em comunhão, porém, notamos “o desaparecimento dos ritos de mesa onde o pai reinava. Torna observável a modificação das estruturas familiares em que se pode notar a ausência frequente dos adolescentes, que, conseguem evitar esse ritual de partilha” (CYRULNIK, 1997, P. 51). Hoje, assiste-se mudanças quanto a essas práticas, começando pelo afastamento do ato de alimentar-se como próprio da residência onde habitam, eliminação 150 do espaço delimitado para realização desse ato, prática que pode ser realizada enquanto se realizam outras atividades, como por exemplo assistir TV ou mesmo acessar internet. Assim, o quadro ao oportunizar o almoço de Zeca Camargo com a sua mãe Maria Helena, mesmo diante a grande correria enfrentada pelo jornalista no seu dia a dia nos mostra que o ato de alimentar-se está carregado de muitos outros sentidos que vão além da simples ingestão de alimentos devidamente quantificados. “Em redor da pulsão alimentar, os indivíduos ligam-se, os grupos estruturam-se e as sociedades organizam-se” (CYRULNIK, 1997, p. 52). Porém o sentido da alimentação no quadro Medida Certa se restringiu aos aspectos calóricos. Ainda sobre a alimentação Márcio Atalla destaca que: Nesse programa nós não vamos seguir nenhum cardápio, nenhuma dieta preestabelecida. As cinco regras de alimentação que será seguida por Renata e pelo Zeca é: 1 - fracionar a refeição; 2 - diminuir o consumo de gorduras; principalmente as saturadas; 3 – aumentar o consumo de fibras; 4 – aumentar o consumo de água; e, 5 – diminuir açúcar e sal na alimentação (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO FANTÁSTICO 03). O profissional de Educação Física em outros momentos do quadro volta a enfatizar os cuidados com a alimentação a partir dessas cinco regras. Para ele, “o mais importante é que a gente coloque mais fibra, tente diminuir a gordura, tente comer menos sal e açúcar, sempre está fracionando a alimentação e beber mais água” (MÁRCIO ATALLA, VÍDEO FANTÁSTICO 11). Conforme argumenta Oliveira et al (2010, p. 32) “na literatura cientifica biomédica ou em suas construções contemporâneas que ecoam na mídia, é possível encontrar uma extensa variedade de discursos advogando a relação entre ‘corpos’ em forma e a ideia de evitar riscos a saúde”. Complementando ainda afirmam: 151 A experiência pessoal cotidiana, entretanto, nos faz observar que a visão hegemônica de saúde permeada nos meios de comunicação fortalece e complementa a necessidade de um discurso de legitimação sociocultural, sustentada pela moral que se funda na conservação da vida. O que subjaz esta questão é a sedução constante de busca de um corpo utopicamente considerado ‘perfeito’. Em outras palavras, o que parece impelir as pessoas a mostrar adesão à prática de exercícios físicos e a tudo a ela agregado pode residir muito mais no desejo de modelagem estética das formas corporais do que na prevenção de determinadas doenças (OLIVEIRA et al, 2010, p. 34). De acordo com os argumentos apresentados acima, a mídia imbuída na divulgação e comercialização de produtos acaba por convidar as pessoas a aderirem à prática de atividade física com objetivo na saúde, no entanto, faz isso muitas vezes maquiando a preocupação com as questões estéticas. Por isso, devemos refletir sobre as informações propagadas pelos meios de comunicação, pois, elas são destinadas as massas e dessa forma não reconhecem as individualidades de cada um. Assim, o quadro ao propor saberes e práticas sobre a atividade física e alimentação faz de forma generalista, sem reconhecer as características individuais, os contextos em que estão inseridos e os recursos que possuem disponíveis. Para embasar estes saberes e práticas efetivados na busca pela saúde através da atividade física e da alimentação foram utilizados conhecimentos da bioquímica, anatomia, fisiologia e fisiologia do exercício. E para pô-los em prática foram utilizados de profissionais das áreas de Nutrição e de Educação Física, com auxílio dos conhecimentos médicos. Apresentamos a seguir mais exemplos de como a compreensão de saúde atrelada a atividade física e ao controle alimentar foi propagada durante os discursos do quadro Medida Certa, além de como estes saberes e práticas sobre estes foram apresentados para a população. Em uma das postagens realizadas no blog, o profissional de Educação Física tira dúvidas dos expectadores sobre exercícios e alimentação. Dentre os questionamentos é possível destacar: Qual a proposta da série “Medida Certa”? É possível praticar atividade física sem frequentar uma academia de ginástica? Musculação ajuda a emagrecer? Malhar 152 sem fazer dieta emagrece? Existe um alimento mágico para emagrecer? Quais os exercícios ajudam a diminuir as taxas de colesterol? É possível emagrecer em duas semanas? Suplemento alimentar ajuda ou não no ganho de massa muscular? Caminhar é um bom começo para quem não faz exercícios regularmente? Como perder aquela gordurinha a mais na barriga? Quem é hipertenso pode fazer exercícios físicos regularmente? Quem quer mudar os hábitos deve procurar que profissionais? Existe um limite de tempo para se exercitar diariamente? Ginástica localizada fortalece os músculos? Para quem tem dores na coluna qual é o exercício indicado? Tomar remédios diuréticos para perder peso é errado? É verdade que pessoas podem ter o metabolismo mais lento ou mais rápido do que outras? O spining é bom para perder peso? Qual é o melhor horário para a pratica de exercícios? Qual a importância do sono para perda de peso? (POSTAGEM 11). Diante estes questionamentos o profissional Márcio Atalla buscou se posicionar e contribuir para a mudança de hábitos nas pessoas, especialmente no que concerne a atividade física e a alimentação. Para isso apresentou dicas e desmistificou muitas ideias que perpassam o imaginário social da população. Ao fazer isso o profissional mostra que sua função no quadro vai além da motivação dos participantes, como descrito inicialmente pela jornalista Sônia Bridi. Em outros momentos do quadro Márcio Atalla também esclareceu sobre os benefícios da prática da atividade física para o coração e para os demais órgãos do corpo, além de contribuir para retardar a osteoporose e a falta de memória (POSTAGEM 14). Sobre alimentação, o profissional de Educação Física diz que suco de caixinha é uma boa opção, no entanto, esclarece que estes não podem ser comparados ao suco de fruta preparados na hora. Aponta os pontos negativos de sua ingestão, mas destaca também o ponto positivo de conservar a vitamina C das frutas (POSTAGEM 22). Além disso, apresenta os benefícios da ingestão de fibras na alimentação, mostra de que forma elas agem em nosso corpo, as 153 quantidades mínimas necessárias, os alimentos que a compõem e os problemas que ajudam a evitar (POSTAGEM 43). Em uma postagem a nutricionista Laura Breves cita os sete mandamentos para uma alimentação saudável: 1) comer a cada três ou quatro horas; 2) não beliscar nos intervalos; 3) tomar pelo menos dois litros de água por dia; 4) tomar líquidos quentes (eles dão a sensação de que você está saciado); 5) mastigar mais os alimentos; 6) escolher alimentos que contenham pouca gordura, porém mais fibra; 7) usar o relógio para controlar o tempo da refeição” (LAURA BREVES, POSTAGEM 27). Ao indicar a utilização do relógio na alimentação, a nutricionista refere-se à necessidade de dar-se tempo para realizar as refeições, ou seja, saborear a comida e realizar a mastigação de forma adequada, uma contemplação do ato de alimentar-se e não apenas o exercício mecânico e rápido de mastigar e deglutir os alimentos. Sobre os saberes e práticas abordados sobre a alimentação e exercícios destacamos também o diálogo estabelecido entre Márcio Atalla com os internautas através do blog do quadro em que esclarece duvidas sobre os exercícios realizados em casa, alimentação fragmentada, exercícios aeróbicos, plataforma vibratória, a baixa imunidade por consequência de dietas, sobre bebidas, exercícios pós gravidez, dentre outras dúvidas (POSTAGEM 30). Além disso, Márcio Atalla aponta benefícios da prática de exercícios para prevenir e até mesmo curar a depressão. Segundo Renata Ceribelli, uma boa condição física aumenta a autoestima e dá saúde e bem estar (POSTAGEM 38). O profissional de Educação Física fala sobre a importância da caminhada para saúde enquanto prática de atividade física, e faz a recomendação diária mínima de 10 mil passos para cada pessoa. Segundo ele, estudos têm comprovado que “aqueles que adotam a caminhada como hábito têm menos gordura corporal, menor pressão sanguínea e melhor tolerância à glicose. A caminhada também combate a osteoporose, melhora a lombalgia, 154 recupera o vigor sexual e fortalece o sistema imunológico” (MÁRCIO ATALLA, POSTAGEM 40). Além disso, o profissional de Educação Física destaca que a Organização Mundial de Saúde (OMS) indica a realização de 30 minutos de atividade física durante 5 dias da semana (VÍDEO FANTÁSTICO 02). Renata Ceribelli comenta sobre a realização de exercícios: Eu estou muito mais disposta, o exercício físico fez toda diferença na minha vida. Segundo a organização mundial de saúde para você ter uma vida saudável, você tem que fazer 150 minutos semanais, meia horinha por dia, de exercício aeróbico: andar, caminhar, pedalar, isso já vai mudar muito sua disposição, vai te deixar menos ansiosa, vai dormir melhor (RENATA CERIBELLI, VÍDEO BLOG 15). A jornalista argumenta também que, de acordo com pesquisas americanas, a inatividade física apresenta grandes riscos à saúde. Para tanto, apresenta os benefícios da prática regular de exercícios físicos de acordo com a OMS e as mortes ocasionadas pelo sedentarismo (POSTAGEM 80). Continuando os argumentos a favor da prática de atividade física para aquisição e manutenção da saúde Márcio Atalla destaca que: A prática de atividade física também ajuda a evitar a formação de placas de gordura na parede das artérias do coração, causando a angina no peito e infarto do miocárdio. O esporte melhora a capacidade de trabalho do coração e dos pulmões, melhorando o condicionamento cardiorrespiratório. Mexer o corpo também evita o aparecimento de câncer no intestino, na mama e na próstata. O portador de doença que consegue se exercitar tem uma melhora significativa em sua qualidade de vida ao praticar esportes (MÁRCIO ATALLA, POSTAGEM 44). Dessa forma, evidenciamos mais uma vez em seus discursos uma associação da saúde à prática de exercícios. Estes devem ser praticados como forma de prevenção, mas também como alternativa de cura para muitos problemas de saúde. No entanto, as informações são 155 disponibilizadas de forma generalizadas e sem maiores aprofundamentos, fato que demanda reflexões e maiores esclarecimentos a respeito. Por uma compreensão de saúde existencial Ao analisarmos os discursos do quadro sobre a saúde, verificamos diferentes compreensões, saberes e práticas como apresentamos anteriormente nas categorias de análise. No entanto, sentimos a necessidade de ampliar estas compreensões e defender uma perspectiva de saúde atrelada a compreensão de corpo não somente como objeto, mas também enquanto sujeito vivo, que além de ser orgânico está inserido em um contexto social, histórico e cultural. Esse corpo possuidor de vida está entregue as aventuras e incertezas do viver. Para tanto, é necessário um incessante confronto com os acontecimentos sociais. Para Canguilhem (2011, p. 140) “a vida não é, portanto, para o ser vivo, uma dedução monótona, um movimento retilíneo; ela ignora a rigidez geométrica, ela é debate ou explicação com um meio em que há fugas, vazios, esquivamentos e resistências inesperadas”. Complementando este entendimento sobre a vida, o autor “sintetiza”: “a vida joga contra a entropia crescente” (CANGUILHEM, 2011, p. 186). No que concerne à saúde, o autor acima citado faz algumas considerações. Para ele “a saúde é uma maneira de abordar a existência com uma sensação não apenas de possuidor ou portador, mas também, se necessário, de criador de valor, de instaurador de normas vitais” (CANGUILHEM, 2011, p. 143). Assim, o corpo também possui papel autônomo sobre a saúde, mas estará entrelaçado a elementos históricos, sociais e culturais. A compreensão de saúde que aqui apresentamos não teve espaço direto nos discursos proferidos durante o desenvolvimento do quadro Medida Certa, seja pelos jornalistas Renata 156 Ceribelli e Zeca Camargo ou pelos profissionais da área da saúde envolvidos, como médicos, nutricionistas e o profissional de Educação Física Márcio Atalla. Nem tão pouco foi abordada nas categorias de análise. Porém, localizamos no Medida Certa de forma discreta elementos que nos permitem evidenciar tentativas de ampliar a compreensão de saúde para além das categorias de conteúdos analisadas acima. Especialmente nos momentos em que os discursos apontam para a saúde através de uma complexidade de elementos que articulados entre si garantiriam ao ser humano um equilíbrio de seus constituintes e um estado saudável reconhecido por si. Aqui pretendemos deslocar nossos olhares para uma compreensão saúde que vai além dos aspectos biológicos e do atrelamento a padrões previamente determinados. Assim, como Carvalho (2001, p. 11-12), concordamos que devemos deslocar “a concepção de saúde centrada no organismo, no físico, no biológico para a saúde como processo e resultado das opções na vida, opções relativas ao trabalho, à moradia, ao lazer, mas especialmente nos valores e princípios de vida que se quer, que se acredita ser melhor”. Diante disso, compreendemos que “a saúde resulta de possibilidades, que abrangem condições de vida, de modo geral, e em particular, de acesso ao trabalho, serviços de saúde, moradia, alimentação, lazer conquistados – por direito ou por interesse – ao longo da vida” (CARVALHO, 2001, p. 14). Ainda, segundo a autora anteriormente citada: A saúde está diretamente relacionada com as escolhas que não se restringem tão somente a poder escolher este ou aquele trabalho, realizar-se pessoal e profissionalmente com ele, morar dignamente, comer, relaxar e poder proporcionar condições de vida para os mais próximos, mas também conseguir viver dignamente com base em valores que não predominam em uma sociedade como a brasileira – excludente, individualista, competitivista, consumista (CARVALHO, 2001, p. 14). A citação acima trás a tona uma ideia nova na compreensão de saúde ao reconhecer a importância dos valores propagados no imaginário social e presente nas relações estabelecidas 157 entre os seres humanos. Quem sabe a presença da solidariedade, do respeito, do amor, da união, da fraternidade, dentre outros valores pudesse contribuir para o desenvolvimento da saúde dos sujeitos. Trazemos assim à tona a necessidade da dimensão afetiva da saúde, que em muitos momentos tem sido negligenciada. No movimento em busca de uma ampliação da compreensão de saúde e dos saberes e práticas efetivados sobre ela, encontramos também as ideias de Sampaio (2006, p. 79-80). Para ela “falar de saúde é dar expressão ao corpo. É escutá-lo como corpo expressivo, sensível, vulnerável, transcendente, marcado por experiências pessoais singulares e coletivas que podem ser de inclusão ou de exclusão ao defrontar-se no cotidiano”. Complementando ainda cita que: lugar comum ou sintonia com as perspectivas da Organização Mundial da Saúde, seria afirmar que a saúde é muito mais do que a ausência de doenças. Constitui-se em um direito muito mais amplo de afirmação da vida e de construção da cultura, na qual o ser humano tenha acesso não apenas às suas condições básicas (de alimentação, moradia, higiene, educação, trabalho, lazer, prática de esportes e acesso ao conhecimento e tratamentos médicos disponíveis na sociedade em que vive), mas que haja espaço para seus desejos e vontades (SAMPAIO, 2006, p. 80-81). Nas ideias apresentadas acima, a autora mostra uma compreensão de saúde que vai além da ausência de doença, a reconhecendo como um direito de afirmação da vida. No entanto, ganha destaque em sua fala a afirmação da necessidade de reconhecer os desejos e vontades dos sujeitos em busca da saúde. Isso nos permite refletir sobre os cuidados para com a saúde que em sua maioria partem de informações e padrões exclusivamente exteriores. Outra perspectiva ampliada de saúde, e que também estabelece relações com a compreensão apresentada acima é apresentada por Alves e Carvalho (2010). Neste artigo os autores buscam também ampliar o entendimento de saúde e para isso trazem para os leitores a compreensão de grande saúde proposta Nietzshe. Como citam os autores “a grande saúde não busca a conservação, o que distancia seus propósitos do âmbito restritivo da prevenção. Antes 158 e fundamentalmente, a grande saúde afirma a vida em plenitude, mas também, e não menos, afirma a dor e a morte como pulsões vitais da própria vida” (ALVES e CARVALHO, 2010, p. 236). Segundo os autores supracitados não se concebe esta noção de saúde sem pensar o corpo como ser próprio. A grande saúde é reservada àqueles que querem experimentar diferentes modos de querer, sentir e pensar. Assim, ela só existe quando nos oferecemos à esta aventura do viver, à exploração e à descoberta de diferentes pontos de vista. Ao refletir sobre a saúde e suas compreensões, saberes e práticas, Mendes (2010, p. 17) argumenta que “desde a Antiguidade, diversos discursos e praticas educativas em saúde são construídas e ressignificadas conforme o tempo e o espaço em que ocorrem e, variam de acordo com a compreensão de corpo e o tipo de educação que almeja”. Assim, se compreendemos o corpo a partir da perspectiva fenomenológica devemos oportunizar uma compreensão de saúde que dialogue diretamente com este corpo vivo, objetivo, subjetivo, orgânico, histórico e cultural. É o que faz Mendes (2007) ao considerar a saúde dentro de uma perspectiva existencial. A saúde como verdade do corpo situada no mundo que está inserido. Para Mendes (2007) a saúde na perspectiva existencial não está relacionada apenas ao individual. Nesta perspectiva de saúde são considerados além dos aspectos biológicos, os fatores culturais, sociais e históricos. Portanto, a saúde é: um processo dinâmico em que o ser humano enquanto existe como ser situado no mundo, busca harmonizar-se com o restante na natureza através de sua capacidade de atuar e resistir frente as intempéries da vida [...] Saúde e doença não estão em contraposição; ambas fazem parte da existência humana (MENDES, 2007, p. 129). Compreender a saúde a partir dessas características permite reconhecer as necessidades e desejos de cada corpo, e de quem convive conosco em sociedade. A saúde 159 seria então a constante busca pelo equilíbrio do corpo com o ambiente em que vive a partir dos seus múltiplos aspectos (MENDES, 2007). De acordo com Resende (2008, p. 139) “pensar numa, concepção de saúde afirmativa não é negar a doença ou a morte, mas ao contrário, afirmá-las como partes de um mesmo processo: a experiência de viver”. Para tanto, a arte de viver tem atrelada a si a doença e a morte, antes de serem oposições, são inerência. Assim, “a saúde nessa perspectiva, é a saúde possível para aquele indivíduo, com aquela experiência, e ele será tão mais saudável quanto puder estabelecer uma relação flexível e espontânea com o meio ou determinada enfermidade” (RESENDE, 2008, p. 140). Portanto, ao reconhecermos o corpo não somente como objeto, mas também enquanto sujeito vivo, subjetivo, biológico, histórico e cultural, devemos compreender a saúde dentro de uma perspectiva que oportunize esse corpo expressar sua individualidade, não uma individualidade isolada, mas ao contrário, uma individualidade que traz traços dos diferentes cenários e relações sociais estabelecidas por esse corpo enquanto “ser único”, ou seja, um corpo como unidade construída na diversidade de outros corpos. Assim, estaremos diante de uma compreensão de saúde que entrelaça os aspectos biológicos aos elementos culturais, históricos e emocionais deste corpo que coexiste em sociedade. 160 CONSIDERAÇÕES FINAIS Imagem 24 – Zeca Camargo e Renata Ceribelli antes da realização dos exames bioquímicos no consultório médico 161 Nesta pesquisa oportunizamos espaços para discussões e reflexões a respeito dos temas corpo e saúde a partir de um diálogo com a mídia. A mídia enquanto meio de mediação de informações nos apresentou também elementos através dos quais pudemos caracterizar o contexto social em que os discursos sobre o corpo e a saúde emergiram. Sociedade essa respaldada através do conhecimento técnico-científico utilizado na comercialização de produtos para o consumo. Ainda, uma sociedade individualizada, que valoriza as aparências e a virtualidade. O quadro Medida Certa do programa Fantástico da emissora Rede Globo de Telecomunicações nos serviu como um rico espaço para discussões e reflexões sobre as compreensões, saberes e práticas que se efetivaram em relação aos temas do corpo e da saúde na mídia. Temas esses de grande relevância nos conhecimentos produzidos e aplicados na área da Educação Física em seus diferentes espaços de atuação profissional: escolas, academias, hospitais, clubes, dentre outros. No quadro foi possível evidenciar através da presença do profissional de Educação Física como responsável pelo desenvolvimento do mesmo, que a Educação Física enquanto área de produção e aplicação dos conhecimentos tem contribuído na construção de saberes e práticas que acabam por reforçar as compreensões de corpo e saúde atreladas unicamente aos aspectos biológicos, de forma generalizada e reducionista. Embora tenhamos encontrados perspectivas de estudos diferenciados e ampliados de profissionais da área da Educação Física (NÓBREGA, 2010; MENDES, 2007; MEDEIROS, 2011; dentre outros), é necessário uma ampliação cada vez maior para saberes e práticas que reconheçam o corpo enquanto vivo e situado socialmente em um determinado contexto. Reconhecemos assim a importância do debate desses temas em linhas de pesquisas nas ciências humanas. Durante as análises dos discursos do quadro Medida Certa ficou evidente diferentes formas de cuidados com o corpo em busca da saúde. Estes foram propagados com a intenção 162 de serem consumidos pelas pessoas na objetivação de um cuidado para consigo. No entanto, as formas de cuidado propagadas se deram a partir de padrões e modelos, fato que rejeitamos diante a variedade corporal existente nos diferentes contextos sociais. Defendemos formas de cuidado com o corpo que leve em consideração antes de tudo o sujeito que será cuidado, seja por si ou pelos outros. Assim, acreditamos que oportunizar diferentes formas de cuidado com o corpo, é também, reconhecer que esses cuidados estão sujeito a transformações. Imbuídos pelos pensamentos de Michel Foucault, visualizamos transformações das diferentes formas de cuidados com o corpo em busca da saúde em períodos históricos distintos. O autor mostra como o conceito de cuidado de si se diferencia em três períodos históricos e como essas práticas associadas a esse conceito vão se modificando: o socráticoplatônico; os séculos I e II ou idade de ouro; e, a era Cristã (FOUCAULT, 1985). É importante destacar que Foucault em seus estudos voltava-se para os escritos realizados por filósofos de outras épocas para poder pensar acontecimentos do seu tempo e estabelecer diferenças. No período socrático-platônico, Foucault (2010) utiliza do Alcebíades para apresentar as características do cuidado de si. Segundo Foucault (2010), neste período, o cuidado de si deveria ser uma prática desenvolvida por jovens da elite, um privilégio de classe, que deveriam aprender a cuidar de si para assim poder cuidar dos outros, ou seja, cuidar dos outros através do governo das cidades. É preciso inicialmente conhecer a si mesmo para poder cuidar de si e posteriormente cuidar dos outros. Continuando com suas argumentações, Foucault (2010, p. 9) destaca que “o cuidado de si é uma espécie de aguilhão que deve ser implantado na carne dos homens, cravado na sua existência, e constitui um principio de agitação, um princípio de movimento, um principio de permanente inquietude no curso da existência”. Esse cuidado de si vincula-se fortemente ao exercício do poder. 163 O segundo momento que destacamos sobre o cuidado de si nos estudos de Foucault (2010), é o que compreende os séculos I e II. Nessa nova configuração do cuidado de si, visualizamos a mudança de uma prática que se restringia aos jovens de elites para uma prática que deveria ser universalizada entre toda a população. Na prática do cuidado de si, dos séculos I e II, o sujeito está desvinculado da atividade política. É preciso que ele se volte para si, que converta-se a si mesmo para beneficio próprio. “Ocupar-se consigo tornou-se um principio geral e incondicional, um imperativo que se impõem a todos, durante todo o tempo e sem condição de status” (FOUCAULT, 2010, p. 76). Outro elemento que ganha destaque nesse cuidado de si é a velhice. Segundo Foucault (2010, p. 98) “a mais alta forma do cuidado de si, o momento de sua recompensa, estará precisamente na velhice”. A velhice nesse período é coroada como momento principal do cuidado de si. Dessa forma, os indivíduos deveriam preparar-se para velhice. Esta consistiria em um objetivo a ser buscado pelos sujeitos, assumindo características positivas na vida de quem a alcança. Além disso, nesse período ao tratar da cuidado de si no livro História da Sexualidade, Foucault (1985) destaca que ocupar-se consigo mesmo configura-se como um pré-requisito básico para o desenvolvimento de uma “arte da existência”. Para tanto, é necessário adotar um conjunto de procedimentos, práticas, receitas, que seriam ensinadas e aperfeiçoadas pelas pessoas no cuidado de si. Uma prática social que se oportuniza na relação com os outros. Outro marco importante do cuidado de si nos estudos de Foucault (2010) é o período da era cristã. Nesse período evidenciamos um cuidado de si que objetiva a salvação do sujeito, e para tanto, utiliza-se da espiritualidade como aliado para essa “conquista”. Com base em Foucault (2010, p. 163) “é preciso salvar-se, salvar-se para salvar os outros”. Nessa pratica do cuidado de si, a verdade assume papel central, verdade essa que em grande parte é vivenciada pelos discursos de verdade com base nos preceitos do cristianismo. 164 No Cristianismo o cuidado de si deveria promover uma renúncia dos sujeitos a si, ou seja, para esse período os sujeitos deveriam renunciar a si, não no sentido de abandoná-lo, mas renunciar a si para dissipar as ilusões interiores, afastar os maus pensamentos e, assim, converter-se a si, para passar a olhar sobre si mesmo. Embora sabendo que os sentidos do cuidado de si apresentados por Michel Foucault não tem relações diretas com as formas de cuidados com o corpo em busca da saúde apresentadas e vivenciadas no quadro Medida Certa, entendemos que as formas de cuidado refletidas pelo autor em outros períodos históricos nos permitem visualizar transformações das formas de cuidado visualizadas no presente. No quadro, verificamos uma predominância de formas de cuidado com o corpo em busca da saúde atreladas à conhecimentos e informações exteriores a eles. Baseado principalmente nos valores numéricos, os sujeitos foram estimulados a cuidarem de si adequando-se à normas e padrões previamente estabelecidos. Destacamos ainda que não foi evidenciado durante o quadro um diálogo com os jornalistas sobre seus gostos e desejos no que concerne exercícios físicos e alimentação. Assim, compreendemos que o cuidado com o corpo em busca da saúde foi executado mediante as formas de cuidado defendidas pelo “outro”, através das indicações profissionais e dos modelos previamente estabelecidos de alimentação e de exercícios. Desse modo, entendemos que as formas de cuidado oportunizadas pelo quadro não reconhecem e não atendem as necessidades individuais, sendo, portanto, insuficientes. Sobre estas normas ou padrões, verificamos que foram estabelecidas e pulverizadas no imaginário social com base nos conhecimentos biológicos construídos nas ciências anatômicas, bioquímicas e fisiológicas. Uma forte valorização dos conhecimentos científicos e tecnológicos. Assim, para cuidar de si, Renata Ceribelli e Zeca Camargo, deveriam manter ou adequar os componentes biológicos de seus corpos dentro de padrões pré-estabelecidos e 165 verificados mediante a realização de exames médicos, bioquímicos, entre outros. Prevalece desta forma, um cuidado baseado em valores numéricos e não em sensações, percepções, desejos, entre outras manifestações possíveis de serem expressas por cada um por meio de suas percepções corporais. Também, nas formas de cuidado apresentadas percebemos uma aceitação de que a responsabilidade é de cada individuo. Portanto, cada um deveria buscar adequar-se aos padrões e normas divulgados independente da condição social. Todavia, reconhecemos uma grande lacuna ao não priorizar o conhecimento de si, ou seja, do próprio ser humano em relação ao seu corpo, para a efetivação de cuidados. Antes disso, o quadro acaba defendendo formas de cuidado com o corpo e com a saúde que tomam como base fatores externos aos sujeitos. No entanto, o quadro não reconhece as dificuldades dos sujeitos de cuidados a partir de orientações somente externas. Ao colocar a responsabilidade sobre os indivíduos o quadro exime as entidades governamentais da assistência de subsídios para uma qualidade de vida favorável, tais como: saúde, moradia, educação, emprego, entre outros, bem como também ausenta de si a responsabilidade enquanto entidade social, apontando o sujeito como único responsável pelos avanços ou atrasos no cuidado com o corpo e a saúde. Além dos fatores externos serem utilizados como referenciais no cuidado dedicado por cada corpo, à vigilância sobre este cuidado parece ficar também sobre a tutela de “entidades” exteriores a ele. Isso pode ser percebido através dos discursos proferidos pelas instituições escolares, médicas, religiosas, midiáticas etc. Verificamos uma contradição, na hora de fazer responsabiliza-se o sujeito pela intervenção, já na hora de avaliar os resultados entra em cena os elementos externos. Verifica-se a indicação de formas de cuidado com o corpo em busca da saúde através de exercícios físicos e do controle alimentar com informações advindas dos profissionais 166 especializados, sem levar em consideração os gostos e os objetivos individuais. O cuidado com a alimentação é propagado no quadro através de informações nutricionais e da restrição alimentar realizada pelos jornalistas, sendo estas também direcionadas ao público acompanhante do quadro. Dessa forma, muitas vezes o cuidado realizado pelo sujeito se torna enfadonho e insignificante. Todavia, compreendemos que as diferentes formas de cuidado efetivadas pelos seres humanos devem proporcionar o reconhecimento das características, gostos e prazeres de cada um. Quanto às formas de cuidado realizadas e defendidas pelo quadro através dos exercícios verificamos uma predominância do conhecimento fisiológico e dos efeitos biológicos ocasionado por estes. Os cuidados propagados defendem a prática de exercícios como alternativa para a adequação a níveis considerados normais em relação aos aspectos bioquímicos e fisiológicos do corpo. Lembrando que os níveis assim considerados são elaborados com base em dados generalistas e exteriores aos sujeitos. Sobre os exercícios verificamos ainda informações simplistas e generalistas, não apresentando informações mais esclarecedoras a respeito de sua realização, como os efeitos negativos de uma prática não orientada. O quadro em poucos momentos apresenta formas de cuidado que reconhecem que o corpo humano também é sujeito ativo e autônomo, com capacidade de realizar escolha e tomar decisões. Assim, as formas de cuidado com o corpo e com a saúde propagadas e vivenciadas no quadro Medida Certa aconteceram de forma a priorizar o beneficio individual, ou seja, pensaram o sujeito como ser isolado, não o reconhecendo como integrante de um contexto social mais amplo. Entendemos que um ser que promove um verdadeiro cuidado de si acaba consequentemente cuidando dos outros, visto que não habita o mundo de forma isolada, mas entrelaçado a uma complexidade de fatores culturais, históricos, emocionais, econômicos, educacionais, entre outros. 167 Segundo o quadro foi necessário à adoção de cuidados para consigo na medida certa, no entanto, o quadro não define em nenhum momento de forma clara qual seria a medida certa. Pensamos que uma medida certa não pode ser definida e muito menos identificada, mas sentida e vivida por cada sujeito dentro de seu existir, em um processo contínuo de transformação. Dessa forma, a compreensão do quadro é restrita e acaba despertando a falsa ilusão em inúmeros consumidores de suas informações de que existe uma medida certa ideal que pode ser alcançada. Ainda, diante as discussões oportunizadas no quadro Medida Certa sobre o corpo e a saúde verificamos que está dissipada no seio social uma ideologia de saúde, ou mais precisamente uma ideologia do ser saudável. Assim como as formas de cuidado apresentadas acima, trazemos as discussões sobre a “Ideologia do ser saudável” a partir das construções e reflexões teóricas de Michel Foucault. As discussões promovidas por Foucault sobre uma ideologia do ser saudável acabam se fazendo presente em diferentes espaços de sua obra, no entanto, buscaremos suporte para esta a partir do seu livro “O nascimento da clínica” para pensar como a Medicina contribuiu para a formação de um modelo característico de ser saudável. Foucault (2004) apresenta elementos que caracterizam a formação de uma consciência coletiva e de saberes e práticas que deveriam ser administrados para obtenção da saúde. A saúde seria nesta lógica recursiva uma estratégia política, visto que seriam destinados investimentos a formação de uma consciência coletiva de cuidados para com ela. Sobre o médico, Foucault (2004, p. 36) destaca que sua tarefa é primeiramente política, visto que, “a luta contra a doença deve começar por uma guerra contra os maus governos; o homem só será total e definitivamente curado se for primeiramente liberto”. A medicina ficou encarregada da tarefa constante de informar, controlar e coagir. No entanto, Foucault (2004, p. 33) argumenta que “será preciso que cada cidadão esteja informado do que é necessário e 168 possível saber em Medicina”. No quadro analisado essa ideia ressurge para oportunizar saberes e responsabilizar os indivíduos dos seus usos na busca pela saúde. Embora com roupagens diferentes, verificamos no quadro Medida Certa que ainda perdura uma tentativa de controlar a vida dos sujeitos. Os discursos divulgados deveriam ser absorvidos pela população e esta deveria realizar os investimentos necessários para alcançar os objetivos do quadro. Nas discussões sobre ideologia percebemos que esta está atrelada as relações de poder exercidas socialmente. O embate discursivo realizado nas relações sociais permite a construção de ideologias que são compartilhadas e pulverizadas no imaginário social. Para Foucault (2011, p. 102-103): Parece-me que se deve compreender o poder, primeiro como a multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivos de sua organização; o jogo que através de lutas e afrontamentos incessantes os transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de força encontram uma nas outras, formando cadeias ou sistemas ou ao contrário, as defasagens e contradições que os isolam entre si; enfim, as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais na formulação da lei, nas hegemonias sociais. Assim, o poder relaciona-se a hegemonia. “O poder não é uma instituição e nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade” (FOUCAULT, 2011, p. 103). O autor ainda deixa expresso que o poder está atrelado aos discursos difundidos socialmente. Tomando como base os discursos do quadro Medida Certa, partindo especialmente do seu título, encontramos uma concepção ideológica de saúde que está fortemente atrelada a padrões pré-determinados. As ideias propagadas reforçam a ideia de que para se ter saúde é necessário que se façam escolhas e se tomem atitudes em busca de adequarem-se a padrões estabelecidos socialmente. 169 Além disso, os discursos do quadro mostraram a saúde diretamente atrelada aos padrões de normalidade dos componentes bioquímicos do corpo. Para tanto foi necessário mensurá-los através dos exames bioquímicos laboratoriais e avaliados com base em índices pré-estabelecidos em tabelas de referências. Assim, os valores numéricos e os cálculos matemáticos foram utilizados para caracterizar ou não a adequação a saúde, ou seja, os números assumiram a simbologia da saúde e do ser saudável. Outra perspectiva que encontramos nessa relação com o corpo refere-se às biopolíticas efetivadas sobre ele na busca por uma disciplinarização. O conceito de biopolítica é apresentado por Foucault (1997, p. 89). O referido autor: Entendia por biopolítica a maneira pelo qual se tentam, desde o século XVII, racionalizar os problemas propostos à prática governamental, pelos fenômenos próprios a um conjunto de seres vivos constituídos em população: saúde, higiene, natalidade, raças... Sabe-se o lugar crescente que esses problemas ocupam, desde o século XIX e as questões políticas e econômicas em que eles se constituíram até os dias de hoje. As estratégias biopolíticas objetivaram dessa forma uma disciplinarização e controle dos sujeitos através de um conjunto de condutas que deveriam ser seguidas por cada individuo no cuidado para consigo, e consequentemente cuidado com os outros. Deixamos nossas críticas para a utilização somente de parâmetros exteriores como referências para adequação, sem a oportunidade de escolhas e sem o reconhecimento das características individuais. Reconhecemos a importância das orientações e dos conhecimentos utilizados provenientes de pesquisas, no entanto defendemos que os seres humanos sejam pensados diante suas individualidades biológicas, culturais e históricas, não como fatores isolados, mas entrelaçados entre si. Além disso, o quadro ainda deixa expresso que é necessário o desprendimento de cada ser humano em busca da adequação aos padrões alimentares e de exercícios divulgados como corretos. Assim, a responsabilidade pela adequação aos padrões e ao conjunto de códigos 170 estabelecidos é pessoal. Ou seja, a individualidade só é reconhecida na responsabilidade de cada sujeito manter-se saudável, no entanto não se reconhece a individualidade no momento de escolher que cuidados tomar. Portanto, o quadro Medida Certa ao fazer uso dos saberes e práticas sobre corpo e saúde, e divulgá-las para a população acaba por compartilhar uma ideologia de saúde já existente ou mesmo por construir uma ideologia de saúde pautada majoritariamente no controle alimentar e na prática de exercícios físicos. E a Educação Física tem contribuído com essa visão de forma hegemônica, especialmente através do quadro Medida Certa. Quanto as compreensões, saberes e práticas apresentadas a respeito do corpo e da saúde, verificamos que estas se mantiveram restritas e limitadas, pautadas essencialmente em conhecimentos de cunho biológico, com contribuições dos conhecimentos científicos e tecnológicos, provindos predominantemente de conhecimentos exteriores aos sujeitos e estabelecidos com base em parâmetros ou índices de normalidade aos quais os sujeitos deveriam se adequar. Diante disso, evidenciamos a presença de uma ideologia de corpo e saúde as quais os apresentadores, assim como os espectadores, deveriam corresponder. Os discursos do quadro acabam acentuando uma preocupação com o consumo de bens e serviços estéticos de cuidado com o corpo com finalidade nas aparências. O corpo, sob a ótica da reprogramação foi visualizado como um sistema operacional a partir do qual suas funções deveriam ser programadas para perda de peso e obtenção da medida certa. E a saúde como responsabilidade individual deveria ser alcançada através dessa reprogramação com o controle alimentar e a realização de exercícios físicos. Assim, os discursos e práticas do quadro Medida Certa que predominam não valorizam os conhecimentos que cada um possui, nem suas características individuais. Tomam como base parâmetros e conhecimentos amplos e descontextualizados visto que se destinam a grande massa. Embora se apresentem pontos de resistências na recepção dos 171 discursos midiáticos estes podem acabar contaminados pelos mesmos, sem maiores reflexões. Este fato reforça a importância de pesquisas como esta que oportunizam conhecimentos e reflexões sobre os discursos veiculados pela mídia e que muitas vezes são fundamentados em estudos da Educação Física. Para a Educação Física, este trabalho oportunizou a construção de conhecimentos sobre o corpo e a saúde, temas esses essenciais no trabalho dos conteúdos da área nos espaços escolares, bem como nos demais espaços profissionais, academias, clubes, hospitais, entre outros. Assim, esperamos que a Educação Física possa contribuir para formação de seres humanos capazes de recepcionar criticamente os discursos do espaço midiático, bem como possam usufruir dos conhecimentos oportunizados pela mídia de forma a priorizar os cuidados com o corpo em busca de saúde, e não apenas o consumo e a valorização das aparências e da estética associada a um padrão específico. Reconhecendo dentro do seu contexto de atuação o corpo enquanto vivo e a saúde como existencial. Dessa forma, esta pesquisa não tem pretensões de responder a todas as especificidades que correspondem aos temas corpo e saúde, especialmente em suas relações com a mídia. Todavia, a mesma oportunizou reflexões sobre como essas compreensões, saberes e práticas são dissipadas no imaginário social e como se materializaram nas práticas sociais realizadas por Renata Ceribelli e Zeca Camargo no quadro Medida Certa. Para que tenhamos respostas a outros questionamentos que também envolvem essa temática de estudo, sugerimos o desenvolvimento de outras pesquisas com perspectivas semelhantes de investigação dos espaços midiáticos, especialmente esses que se propõem na discussão de temas relacionados à saúde, como exemplo, o programa Bem-Estar da Rede Globo de Telecomunicações. Sobre essa pesquisa, ainda guardamos como futuras intenções a análise dos comentários que foram coletados e arquivados, para que possamos compreender como as pessoas recepcionaram as informações do quadro Medida Certa. A produção dessa análise 172 será enviada para periódicos científicos ou outra fonte de divulgação acadêmica da Educação Física ou áreas afins. Portanto, defendemos diante o exposto a necessidade de refletir sobre as informações midiáticas, visto que, elas nos trazem elementos sobre o contexto social em que emergem e o público a quem se destinam. Quanto ao corpo e a saúde, percebemos que estes são alvos de diferentes investimentos das esferas do consumo, estética, aparência, cuidado, política, poder, entre outras. Este fato nos coloca diante a necessidade de reflexões cada vez mais aprofundadas como as que pretendemos realizar em outros momentos de nossa formação enquanto professor e pesquisador da área da Educação Física, como exemplo, na formação em nível de Doutorado. 173 REFERÊNCIAS: ALBINO, Beatriz Staimbach; VAZ, Alexandre Fernandez. O corpo e as técnicas para o embelezamento feminino: esquemas da indústria cultural na Revista Boa Forma. Movimento, Porto Alegre, v. 14, n. 01, p. 199 – 223, jan./abr., 2008. ALMEIDA, Maria da Conceição de. A consciência do corpo nos humanos. In. ALMEIDA, Maria da Conceição de. Cultura e pensamento complexo. – Natal, RN: EDUFRN – Editora da UFRN, 2009. ALVES, Audrey S.; BAPTISTA, Marcos Rodrigues. 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Comida! 17 Quinta - 07 de abril Renata comemora aniversário com bicicleta 18 Quinta - 07 de abril nova 3ª dica do Atalla: Tabagismo é a principal 19 Sexta - 08 de abril causa de morte evitável no mundo Aniversário light 20 Sexta - 08 de abril Culpa! 21 Sexta - 08 de abril 4ª dica do Atalla: suco de caixinha é uma boa 22 Sábado - 09 de abril opção Primeiro balanço 23 Sábado - 09 de abril 2ª SEMANA 5ª dica do Atalla: exercícios físicos ajudam a 24 Segunda - 11 de abril combater a depressão O problema da água 25 Segunda - 11 de abril Zeca e Renata encaram academia e exercícios 26 Segunda - 11 de abril na primeira semana Sete mandamentos da alimentação saudável 27 Segunda - 11 de abril Como eu me convenci a correr por 30 minutos 28 Terça - 12 de abril Dominando a ansiedade 29 Terça - 12 de abril 181 30 Terça - 12 de abril 31 Terça - 12 de abril 32 Quarta - 13 de abril 33 Quarta - 13 de abril 34 Quinta - 14 de abril 35 Quinta - 14 de abril 36 Sexta - 15 de abril 37 Sexta - 15 de abril 38 Sábado - 16 de abril 39 Domingo - 17 de abril 40 41 Segunda - 18 de abril Segunda - 18 de abril 42 Terça - 19 de abril 43 Quarta - 20 de abril 44 Quinta - 21 de abril 45 Quinta - 21 de abril 46 Sexta - 22 de abril 47 Sexta - 22 de abril 48 Domingo - 24 de abril 49 Quarta - 27 de abril 50 Quarta - 27 de abril 51 Quarta - 27 de abril 52 Quinta - 28 de abril 53 Quinta - 28 de abril 54 Sexta - 29 de abril 55 Sábado - 30 de abril 56 Domingo - 01 de maio 57 Terça - 03 de maio Márcio Atalla tira dúvidas dos internautas Renata Ceribelli sua a camisa para entrar em forma 6ª dica do Atalla: ouvir música durante o exercício ajuda a emagrecer Aquela “forcinha” 7ª dica do Atalla: falta de nutrientes pode provocar problemas de saúde Dia de chocolate... será? Fã de Zeca e Renata aproveita quando Medida Certa para reprogramar o corpo Sobre o mau-humor 8ª dica do Atalla: exercício físico ajuda a combater a baixa autoestima Zeca encara almoço na casa da mãe e Renata aprende a se exercitar mesmo fora de casa 3ª SEMANA 9ª dica do Atalla: ande mais a pé Apresentando, Maria Inês! Momento difícil... mas a verdade tem que ser dita 10ª dica do Atalla: coloque mais fibras em sua alimentação 11ª dica do Atalla: prática de atividade física só promove ganhos a saúde Luan Santana e Dudu Nobre dão aquela forcinha para o Zeca e Renata E a gripe me pegou... Mãe de Zeca Camargo ensina suculenta receita de rosbife Zeca e Renata tentam manter hábitos saudáveis no almoço de domingo 4ª SEMANA 12ª dica do Atalla: suor não faz perder peso Márcio Atalla tira dúvidas de quem quer entrar na medida certa Medida Certa: que dieta é essa? 13ª dica do Atalla: queijo conttage é excelente para alimentação saudável Renata ensina receita de hambúrguer de soja 14ª dica do Atalla: abdominais trazem vários benefícios para o organismos Cozinheira de Renata Ceribelli ensina receita saborosa de jiló Viagens de trabalho dificultam rotina saudável de Zeca e Renata 2º MÊS 5ª SEMANA Fui madrinha de um casamento e passei por 182 58 Quarta - 04 de maio 59 Quinta - 05 de maio 60 Sexta - 06 de maio 61 Terça - 10 de maio 62 Terça - 10 de maio 63 Quarta - 11 de maio 64 Quinta - 12 de maio 65 Sexta - 13 de maio 66 Domingo - 15 de maio 67 Terça - 17 de maio 68 Terça - 17 de maio 69 Quarta - 18 de maio 70 Quinta - 19 de maio 71 Segunda - 23 de maio 72 Segunda - 23 de maio 73 Terça - 24 de maio 74 Sábado - 28 de maio 75 Domingo - 29 de maio 76 Quarta - 01 de junho 77 Quinta - 02 de junho 78 Quinta - 02 de junho 79 Segunda - 06 de junho 80 Terça - 07 de junho uma das situações mais engraçadas Meu treino... vai encarar? 15ª dica do Atalla: natação trabalha o coração e ajuda a queimar calorias Doce de Buenos Aires... pode? 6ª SEMANA Fazer exercícios com companhia é muito bom! Com o marido, melhor ainda! Zeca Camargo não abandona o Medida Certa nem nas férias em Paris Nutricionista ajuda Ceribelli a encontrar Medida Certa no supermercado 16ª dica do Atalla: nunca é tarde para começar a se exercitar 17ª dica do Atalla: ginástica funcional traz equilíbrio e beleza ao corpo Zeca Camargo e Renata Ceribelli enfrentam a balança 7ª SEMANA 18ª dica do Atalla: pratique atividade física na gravidez Meu corpo já entendeu Renata Ceribelli ensina exercício simples para obter bons resultados Zeca e Renata experimentam nova atividade: remo 8ª SEMANA 19ª dica do Atalla: gorduras do bem geram benefícios para a saúde Zeca descobre que boa noite de sono ajuda a emagrecer 20ª dica do Atalla: usados de maneira correta, exercícios ajudam a recuperar lesões Inspirada por Zeca e Renata, família se une para emagrecer Zeca mostra que é possível queimar calorias na balada 3º MÊS 9ª SEMANA Medida Certa às avessas: Márcio Atalla dá dicas para quem precisa engordar 21ª dica do Atalla: varizes X musculação – permitido com cautela Zeca usa semente saudável para deixar salada crocante 10ª SEMANA Renata e Zeca encaram remo na lagoa e corrida com paraquedas na praia 22ª dica do Atalla: inatividade física é 183 81 Terça - 07 de junho 82 Terça - 07 de junho 83 Sexta - 10 de junho 84 Segunda - 13 de junho 85 Terça - 14 de junho 86 Quarta - 15 de junho 87 Quinta - 16 de junho 88 Quinta - 16 de junho 89 90 91 92 Segunda - 20 de junho Terça - 21 de junho Quarta - 22 de junho Quinta - 23 de junho 93 Sexta - 24 de junho 94 Sábado - 25 de junho 95 96 Domingo - 26 de junho 97 Domingo - 26 de junho Domingo - 26 de junho responsável por aproximadamente 2 milhões de mortes Bom condicionamento físico permite... subir a pedra bonita Fantástico: Ceribelli avalia mudanças provocadas pelo quadro Medida Certa 23ª dica do Atalla: água de coco é boa para saúde e não engorda 11ª SEMANA Zeca e Renata Ceribelli já sentem diferenças no guarda-roupa Calcule sua medida certa 24ª dica do Atalla: grávida também pode malhar Desafio lançado, missão cumprida: Renata sobe de bicicleta até o Cristo Ganhando a medida certa – a batalha de um editor para ganhar peso 12ª SEMANA Zeca e Renata encaram trilha difícil Hora da Verdade: encontro com a fita métrica 25ª dica do Atalla: inclua cereais na dieta Proteínas – por que elas são tão importantes? Veja o antes e o depois de quem entrou no desafio medida certa com Zeca e Renata Zeca e Renata levam caminhada Medida Certa para 11 capitais Confira as novas medidas dos apresentadores Depois de 90 dias, Zeca e Renata perdem quilos e ganham saúde Veja o antes e depois de Zeca e Renata 184 FICHA DE ANÁLISE DE CONTEÚDO - VÍDEO ORIGEM DO VÍDEO: EXIBIDO AO VIVO SEMANA DE EXIBIÇÃO: 1ª SEMANA DATA DE EXIBIÇÃO: 03/04/2011 NÚMERO DO VÍDEO: 1 DURAÇÃO: 15:10 CATEGORIAS DE ANÁLISE DESCRIÇÃO Transcrição Renata: Tudo começou com um grande susto uma participação do Zeca no Vídeo Show que prepararam uma surpresa para ele e eu estava nessa surpresa e no final agente ficou chocada. Quando eu fiz essa entrevista com o Zeca lá no meio dos anos 80 eu era repórter do vídeo show e o Zeca já tinha começado a dar suas voltas no mundo pro fantástico. Zeca: Teve um susto anterior quando você mesma fez uma matéria sobre o transexual por causa desse ultimo big brother, aí colocaram um arquivo, uma imagem minha apresentando um fantástico sobre mudança de sexo e aí, foi chocante. Renata: é o Zeca estava bem diferente; Zeca: É eu já fui bem magro, mais magro até do que quando eu entrei no fantástico em 1996, olha eu aqui no início de minha carreira de jornalista, final dos anos 80. Renata: Não Zeca eu nunca fui magrinha, tipo modelo, mas fui magra, pra falar a verdade até os meus 25 anos eu não tinha a menos preocupação com isso, a coisa mudou mesmo depois que eu engravidei de gêmeos, engordei quase 30 kg na minha gravidez. Zeca: Chega um momento na vida de um homem que ele se olha no espelho e tem que dizer, estou gordo, estou acabado, talvez não tenha caminho de volta e é por isso que nós escalamos o Márcio Atalla pra dizer que tudo isso é mentira, tem jeito. Márcio Atalla: Sou professor de Educação Física, já tem mais de 10 anos que eu venho desenvolvendo esse trabalho com pessoas que é basicamente incorporar a atividade física de maneira regular e melhorar alguns hábitos, estilo de vida. Lançei um desafio pro Zeca e pra Renata que é justamente isso, eles precisam incorporar de maneira regular a atividade física na vida dele, e isso vai refletir diretamente na saúde. Não pode tomar medicamento, não pode tomar suplemento e não pode apelar para fórmula mágica, sem precisar abrir mão das boas coisas que todos nós gostamos e precisa ter muita disposição, é isso é que pode, é a vontade de mudar, isso é o mais importante. Minha proposta é essa, três meses para vocês sentirem a diferença. Zeca: O lema agora é qualidade de vida na medida certa, são 90 dias para reprogramar o corpo.Pô mais se essa mudança de hábitos é necessária mesmo é por que alguma coisa de errado agente está fazendo né Renata? Renata: Eu acho né, começando pela rotina, trabalhar no fantástico não é exatamente uma rotina. 185 Zeca: Não é mesmo. O fantástico chegou aqui em casa as 7 e pouco da manhã, é porque eu já acordei as 6 e pouco. Eu costumo dormir 6 horas por noite mais hoje eu dormi 5, então agente já começa um pouco cansado, eu não preciso dormir muito, eu acordo bem, eu preciso fazer pelo menos duas vezes por semana uma aula de musculação, quando muito uma aeróbica, eu não tomo água, eu tenho dificuldade de tomar água, eu gosto é de uma bebida industrializada, mas é um hábito que eu sei que eu tenho que mudar, eu já sei disso. Eu tou conversando aqui mais agente tem que ir embora, só mais um vai. Literalmente eu não sei que horas eu vou comer de novo. 4 minutos para fazer o check in eu vou tomar um café. Tem tempo três minutos. Provavelmente o único exercício que eu vou conseguir fazer hoje (subindo as escadas). Cheguei no Rio direto, 10:30 da manhã eu já fui pra reunião de pauta do fantástico. Depois de duas horas e meia sem beliscar nada claro a fome já bateu e forte, agente tem uma horinha, uma hora e meia para almoçar, rápido, direito eu não sei, mais rápido tem. Linguiçinha, filé a braseiro, farofa, batata portuguesa, arroz pode vir, eu acabo comendo muito fora né, sobretudo aqui no rio e eu como muito. Olha nem precisa puxar muito pela memória, qualquer viagem que eu faço aqui pelo fantástico e outras particulares também eu faço questão de provar a culinária local. Renata: Já a minha alimentação é mais regrada viu. Eu almocei muito cedo, eu almocei super lightzinho, tudo certinho, 3:30 da tarde estava morrendo de fome. O meu pecado eu confesso, é beliscar, o tempo todo, e tem gente em casa que fica no meu pé. Célia! (beliscou uma uva) Eu belisco Célia? Célia: Belisca. Renata: (Risos) Célia: Ela come certo, porém ela belisca muito gelatina e pudim. Tá aqui uma coisa que ela gosta muito, ela bota ali e vai comendo, vai comendo, ela deve ter uns 5 quilos de queijo minas no corpo. Renata: Na hora do jantar a comida aqui em casa é toda balanceada, grelhados, legumes, saladas, mas ó, tudo light gente, eu vou na sobremesa light. Esse pudim é até difícil de acreditar que ele é light de tão bom. Olha a hora, já são quase 11:30 da noite comendo isso né, uma combinação que eu preciso ter depois das refeições, um café e um chocolatinho adocicando, eu tenho que tomar café toda noite e isso atrapalha um pouco do meu sono também. Zeca: Então essa é mais ou menos a nossa rotina, comer entre as gravações, sem horários, e exercícios só quando o tempo permite, mas daqui para frente tudo vai ter que ser diferente. Renata: Primeiro passo nós vamos ter que descobrir como anda nossa saúde, começando pelo exame de sangue. Zeca: Já estão pronto nossos exames de sangue já? Alexandre: Já, estão excelentes, podem ser melhorados obviamente. 186 Renata: Estão bom. Alexandre: Você especialmente está um espetáculo. O Zeca está mais ou menos. Renata: Eu estou um espetáculo. Alexandre: Hemograma está excelente, glicose normal, Renata você tem um colesterol muito bom. Renata: E o Zeca? Alexandre: A glicose dele está um pouquinho alta, não chega a ser um índice de diabetes, mas pensa que é a ponta do iceberg. Zeca: Glicose é o nível de açúcar no sangue. Renata: Quanto mais alto maior o risco de desenvolver diabetes. Alexandre: A onde há fumaça a fogo. Agente tem que ficar atento a isso. O ácido úrico está bastante alto, seu colesterol também não está nada bom. Zeca: O ácido úrico é uma substância que é resultado da quebra das proteínas e o colesterol é a gordura do sangue, nenhum dos dois pode ficar muito alto, se não. E olhe a muitos anos que eu não fazia um exame de sangue tão completo assim. Alexandre: Começou bem, a pressão 12 por 8. Zeca: Normal? Alexandre: Normal, 12 por 76, excelente pressão já é o bom começo Zeca. Zeca: Finalmente uma boa notícia. Alexandre: Você nunca fumou não né Zeca? Zeca: Nunca. Alexandre: Agora você vai deitar. Hum, eu vou encontrar coisa aqui, edema é excesso de água, o que que acontece, a pessoa que fica muito tempo em pé a pessoa que não faz exercício aeróbico direito como é o seu caso, acaba retendo muito líquido aqui (pernas). Zeca: Que venha o teste de esforço. Alexandre: E ai moleza? Zeca: Muito ruim essa coisa de respirar, péssimo. Alexandre: pressão controladíssima, eletro normal, muito bom, muito bom, muito bom mesmo, pressão máxima foi de 19 por 7, excelente. Zeca: Renata vem aí. Renata: os homens sempre se dão melhor nessa? Alexandre: Não, aqui é justamente o contrário. Renata: Ele está me consolando. Eu já encarei a realidade, eu vou emagrecer. Aí que depressão (risos). Coração, pulmão, pressão tudo certo comigo, mas eu ainda não estou muito contente não. Zeca, tou deprimida, eu estou tão gorda quanto você. Zeca: Eu estou pior, qualquer coisa que você estiver eu tou pior. Renata: Não tá, não tá, eu tou gorda quanto você, é verdade. Zeca: O problema não é gordura, é tudo ruim, é água no tornozelo. 187 Renata: eu tou mais desidratada do que você. Unidos venceremos. E venha o teste de esforço. Alexandre: Numa escala de cansaço de 0 a 10, qual seria o seu máximo, 7 para 8?, Renata: Deu canseira hein, e os resultados não foram lá muito animadores não. Alexandre: Sua capacidade está fraca e o seu condicionamento está mais fraco ainda. Zeca: agente saiu de lá meio triste, e o dia seguinte tinha mais exame pela frente. Fala Márcio. Márcio: grande zeca, preparado? Zeca: Hoje mais uma notícia? Márcio: Não, só boas notícias. Zeca: Ninguém passou bem ontem nem eu nem a Renata. Márcio: Olhe, eu acho assim, ele fez uma fotografia e o papel do médico é aquele de alertar, o que eu posso dizer a você é que fator de risco não quer dizer que você vá ter nada, você não tem nada hoje, entendeu, você é uma pessoa de risca apenas com alguns fatores de risco. Zeca: O veredito da nutricionista Laura Breves é cauteloso. Aqui tiramos todas as medidas, altura, circunferência abdominal, percentual de gordura. Laura: 111.4. Zeca: aí eu não gostei, ah não gostei mesmo. Laura: Você entrou no primeiro grau, de obesidade, você já passou do sobrepeso. Zeca: e aqui ó, é um sinal de alerta, o IMC índice de massa corporal está alto, essa medida é uma relação entre peso e altura. O meu está quanto? Laura: Está 31,5. Então a primeira meta sua é sair desse índice de 30, com menos 6 quilos de peso você entra em 29.8, quer dizer, você cai de índice. Zeca: quer dizer que se eu tiver que colocar uma meta.. Laura: Se você perder 5% de peso você já entra, você já sai do primeiro grau que agente chama. Zeca: Simples. Laura: Em termos de circunferência abdominal, 102 já é uma circunferência com risco alto, então você tem que perder 8 cm, para sair desse risco, mais o ideal... Zeca: 8 cm! Cadê a sua fita? Laura: São três furos no seu cinto. Zeca: (risos) Super fácil. Três? Laura: composição corporal, você está com 29% de gordura, mas pra você ficar bem. Zeca: tem que perder 10, ou seja baixar de 29% para 19% de gordura corporal. Agora, venha, venha a próxima paciente, Renata! Renata: estou escrevendo um diário da nossa experiência, e terminei assim, estou na sala de espera da nutricionista e ouvi o Zeca gritando lá dentro, 5 furos no cinto? 188 SÍNTESE DO VÍDEO Zeca: Três. Renata: Eu ouvi cinco. Pior momento pra mim até agora, hora de tirar minhas medidas, primeiro altura mais fácil né, 170, agora o peso, socorro, será que eu tenho mesmo que mostrar isso. Zeca: Eu já encarei, manda. Renata: nem o meu marido sabe o quanto eu peso, 80.3, tirando a roupa.. Laura: É menos de 80. Renata: menos de 80 quanto Laura: Ah aí deve ter um meio quilo de roupa Renata: isso aí eu vou contar que tá descontando a roupa, 79.80. Os homens podem até não entender, mas para nós mulheres essas 500 gramas fazem tanta diferença. Alias agente tenta ganhar onde pode, né? Braço de família italiana. Laura: 31.5 Zeca: Hora do veredito. Renata: Isso significa o que? É muito? Laura: Não, você está em sobrepeso, 27,7, atenção você passou do índice considerado normal, são parâmetros de saúde. Renata: Eu não tou gostando não. Laura: tua circunferência abdominal você tem que tá com ela abaixo de 88, você está com 96,5. Renata: tá alto? Laura: Tá, também tem aí os furinhos do cinto. Composição corporal, você está com 35,85% de gordura teria que perder aqui ó uns 7%. Zeca: Ou seja Renata, basta você tem que baixar para uns 28% de gordura, vamos ver quem chega primeiro? Renata: E você de casa também pode entrar nessa, pegue uma fita métrica e passe um pouco abaixo do umbigo, acima dos ossos da bacia. Zeca: nas mulheres deve ficar abaixo de 88 cm, e nos homens abaixo de 102 cm, se a sua cintura passou dessas marcas está na hora de fazer como agente e tomar uma atitude. Márcio: esse tipo de jantar não vai ser proibido nesses três meses de jeito nenhum, agente não vai proibir nada, só que ele passa a ser excessão, vamos tentar fazer uma regra com outros hábitos e ver o que acontece, vai fazer exercício isso é fato. Zeca: começamos amanhã as 9:30 da manhã. Vamos fazer um brinde, o brinde é para os próximos três meses. Renata: depois dessa última ceia não tem mais desculpa, você vai ver como uma boa alimentação e rotinas de exercícios vai fazer agente entrar na medida certa. Introdução ao quadro, motivos que levaram os apresentadores a participarem do Medida Certa; Apresentação dos personagens principais: Zeca Camargo, Renta Ceribelli e Márcio Atalla; Objetivo do quadro/intervenção: incorporar atividade física de maneira regular e melhorar alguns hábitos, estilo de 189 SABERES E PRÁTICAS SOBRE CORPO E SAÚDE COMPREENSÃO DE CORPO vida; Três meses para sentir a diferença; Apresentação da rotina dos apresentadores: trabalho, atividade física e alimentação (fora e em casa); “Então essa é mais ou menos a nossa rotina, comer entre as gravações, sem horários, e exercícios só quando o tempo permite, mas daqui para frente tudo vai ter que ser diferente” – Zeca Camargo Avaliação da saúde: exame de sangue, hemograma, avaliação médica, retenção de líquido, teste de esforço; Glicose, colesterol e ácido úrico de Zeca Elevado Pressão boa; nunca fumou, excesso de agua – Zeca Esclarecimentos do médico Apresentação dos resultados dos exames e testes realizados; Condicionamento físico fraco de Renata; Avaliação física com a nutricionista: “aqui tiramos todas as medidas, altura, circunferência abdominal, percentual de gordura,... Zeca Avaliação pela nutricionista Laura Breves Medição da altura, peso, circunferências, percentual de gordura... Incorporar atividade física de maneira regular, isso vai refletir diretamente na saúde – Márcio Atalla Não pode tomar medicamento, não pode tomar suplemento e não pode apelar para fórmula mágica – Marcío Atalla Descrição dos cuidados com o corpo e saúde dos apresentadores; Cuidados com a alimentação – alimentação desregulada e sem horários; Falta de atividade física... “onde há fumaça a fogo, então agente tem que estar bastante atento a isso” – Cardiologista Alexandre Carvalho Parâmetros baseados em números, em valores numéricos prédeterminados “coração, pulmão, pressão, tudo certo comigo, mas eu ainda não estou muito contente não... – Zeca, Ham(Zeca)... tou deprimida, eu tou tão gorda quanto você (Renata).... Eu tou pior, qualquer coisa que você tiver eu tou pior (Zeca)... Avaliação física da nutricionista... IMC Avaliação baseada em números e em estatísticas Corpo passível de reprogramação Semelhança a um sistema operacional de computador, que pode e deve ser reprogramado na busca da medida certa; Corpo fragmentado composto por valores numéricos de: leucócitos, hemoglobina, hematócrito, hemácias, promielócitos, metamielócitos, entre outros; Corpo que pode ser mensurado, medido, quantificado, trabalhado; Relevância apenas aos elementos biológicos. 190 COMPREENSÃO DE SAÚDE #FICA A DICA INFORMAÇÕES PARA O PÚBLICO OUTRAS INFORMAÇÕES RELEVANTES Corpo quantificado Saúde associada a perca de peso e a uma medida correta; Enfatiza-se a composição e estabilização dos elementos biológicos; Pode ser mensurada apenas pelas medidas, exames médicos; Saúde baseada em padrões de normalidade “você passou do índice considerado normal, são parâmetros de saúde” Laura Breves Durante o vídeo é apresentado no canto inferior esquerdo em forma de legenda alguns informações sobre o que esta sendo apresentado; Apresentação dos valores dos exames e das medidas com sinalização de positivo ou negativo quando fora dos padrões de normalidade “Glicose é o nível de açúcar no sangue” – Zeca “quanto mais alto maior o perigo de desenvolver diabetes” – Renata “o ácido úrico é uma substância que é resultado da quebra das proteínas e o colesterol é a gordura no sangue, nenhum dos dois pode ficar muito alto se não...” – Zeca Esclarecimento pelo médico “Imc, índice de massa corporal, essa medida é uma relação entre peso e altura” – Zeca Apresentação ilustrativa da fórmula para calcular o IMC “e você de casa também pode entrar nessa, pegue uma fita métrica e passe um pouco abaixo do umbigo, acima dos ossos da bacia” (Renata) “Nas mulheres deve ficar abaixo de 88 e nos homens abaixo de 102 cm, se a sua cintura passou dessas marcas, hum, tá na hora de fazer igual agente e tomar uma atitude (Zeca)” “estou gordo, estou acabado, talvez não tenha caminho de volta” – Zeca Camargo Comenta que tem e convida o professor de educação física. O lema agora é qualidade de vida na medida certa, são 90 dias para reprogramar o corpo – Zeca Camargo O vídeo traz recortes de programas anteriores realizados pelos apresentadores para traçar comparativos Avaliação com o cardiologista Alexandre Carvalho Comparativos entre Zeca e Renata “Agente sai de lá meio triste” – Zeca O papel do médico é aquele de alertar, o que eu posso dizer para você é que fator de risco não quer dizer que você vai ter nada, você não tem nada hoje, entendeu, se eu pegar você, você é uma pessoa saudável com alguns fatores de risco – Márcio Atalla O VEREDITO da nutricionista Laura Breves é cauteloso – Zeca Peso de Zeca – 111,4 “eu já não gostei” – Zeca .... “você entrou no primeiro grau de obesidade, você já passou do sinal de 191 alerta” – Laura Breves Valorização excessiva da perda de peso Valores numéricos como objetivos a serem alcançados, estratégia de alcançar medida certa baseada em valores numéricos calculados através de programas estatísticos Valorização da perda da gordura corporal “pior momento pra mim até agora, hora de tirar as minhas medidas, primeiro a altura mais fácil né, 170, agora o peso, socorro! Será que eu tenho mesmo que contar isso” – Renata 80,3 Hora do veredito “depois dessa última ceia não tem mais desculpas, você vai ver como uma boa alimentação e rotina de exercícios vai fazer agente entrar na medida certa” – Renata 192 FICHA DE ANÁLISE DE CONTEÚDO - VÍDEO ORIGEM DO VÍDEO: EXIBIDO AO VIVO SEMANA DE EXIBIÇÃO: 12ª SEMANA DATA DE EXIBIÇÃO: 26/06/2011 NÚMERO DO VÍDEO: 14 DURAÇÃO: 8:39 CATEGORIAS DE ANÁLISE DESCRIÇÃO Transcrição Patricia: na parte médica agente viu que todos os índices melhoraram, agora agente vai ver o peso e a cintura, mas antes eu quero saber qual é a expectativa dessa dupla fantástica que suou e acompanhou aí durantes esses 90 dias né. Renata: Olha, é muito mais curiosidade do que expectativa, agente viu, agente está sentindo os resultados em nosso corpo, MAS AGENTE QUER VER O NÚMERO NÉ. Zeca: Vocês estão me enrolando, vamos lá logo as medidas. Patícia: Vamos lá, vamos revelar as medidas que vocês e o país inteiro querem saber, quem tem esse segredo para a gente é Márcio Atalla, nosso convidado especial no show da vida. não vai colocar ninguém para malhar hoje, ninguém para pular corda, correr na esteira dentro da água. Renata: Não dê ideias. Patricia: Pois é o diretor está gostando dessa ideia. Vamos aos resultados, seja bem vindo ao show da vida. o que você conta para a gente aqui. Márcio: Antes de mais nada o medida certa é um programa de qualidade de vida. Claro que o emagrecimento vai ser uma consequência dessa reprogramação. Antes de mudar a rotina nesses três messes eles estavam fora da medida certa. Zeca: agente nem sabia o que era medida certa. Patrícia: agente acompanhou isso direitinho. Agora, vamos direto aos números, acho que o brasil inteiro quer saber BALANÇA... é inimiga de muita gente. Márcio: começando pela Renata. Renata você começou o programa com 80,3 kg. Renata: Nem quero lembrar mais disso. Márcio: na terça feira nós fomos encarrar a balança. Bom agora depois de muito suor, de três meses, Renata seu novo peso é 74,4 kg.” Vibração de Zeca e Renata pelo resultado. Renata: Eu achei que tivesse perdido menos. Márcio: Você achou que tivesse perdido menos? Renata: Eu achei que tivesse perdido menos, eu perdi bastante, pq eu sempre achei que eu tenho dificuldade de perder peso. Zeca: bateu 6 quilos e 600 gramas. Patrícia: Está feliz? Renata: Muito feliz, me surpreendi de verdade. Patrícia: e agora Zeca Camargo já ali compenetrado só de olho esperando, e aí Atalla fala para agente. Zeca: a palavra é desesperado. Patrícia: Calma aí que esse desespero vai acabar. Olha o Atalla com uma cara de feliz aqui, ele deve ter bons resultados para 193 agente. Márcio: o Zeca começou esse programa com 111,4 kg, agente viu a imagem. Zeca: eu tenho muito orgulho dessas 400 gramas. Márcio: Também n terça ele encarou a balança, ele mais CDF subiu de costa para não ver, “Agora 104 kg” Vibração com o novo peso. Zeca: estou contente, era mais ou menos minha aposta. Patricia: Atalla não é só o numero da balança que vale né, acho que é importante agente dizer pro pessoal de casa que está nos assistindo nesse momento. Márcio: O número da balança pra mim conta menos, o que que é importante, eles entraram num programa que a atividade física é o carro chefe e eles não tiveram nenhum dieta restritiva. Renata: O que importa é perder a gordura do corpo. Márcio: emagrecer é perder gordura. Renata: Não é perder peso na balança. Márcio: Não é, então agente agora vai aos números que realmente são importantes para mim. Renata você perdeu 9,5k kg de gordura. (Ceribelli demonstra surpresa com o resultado, elogia. Os jornalistas parabenmizam). Renata: E ganhei 3,6 kg de massa muscular. Márcio: esse é o jeito saudável de emagrecer. Patrícia: Não tem mágica né Atalla? Atalla: Não tem mágica. Renata: Ou seja, você pede gordura e ganha massa muscular. Márcio: e sem falar, agora a gente vai falar do nosso amigo Zeca, que ele controla todos os fatores para doenças crônicas, fatores de riscos, agente viu nos examos. Mas chega disso, Zeca olha o que você perdeu de gordura, 12,29 kg. (Zeca fica surpreso e bastante feliz com os resultados). E ganhou 4,9 kg de massa muscular. Po isso que pros dois, Renata perdeu 10% de gordura. E que era nossa meta, que era o qua agente esperava em 90 dias. Renata: 90 dias sem remédio, sem dieta radial, sem suplemento, só na saúde. Márcio: E zeca também perdeu 10 %. Zeca: eu tou quieto assim por que eu tou meio assustado, pro bem. Patrícia: Nos bastidores o pessoal ta chamando o zeca de Tamagro e não Zeca Camargo. Zeca: mas falta o Grand finale. Patrícia: A ultima medida é a circunferência abdominal que é importante tanto para os homens quanto para as mulheres. Márcio: é muito importante, claro que ela mostra o emagrecimento. A circunferência abdominal é um fator de risco para várias doenças cardiovasculares, nas mulheres é importante que esse índice fique abaixo de 88 cm. Patrícia: como é que estava a Renata; Márcio: a Renata começou com 96,5 cm. 8 cm e meio a mais. É muito, são três furos de um cinto. 194 Renata: Eu não imaginava isso. Patrícia: e hoje, agente tá vendo que ela está com uma cinturinha fina, colocou até um vestidinho. Márcio: Esse resultado eu tenho muito prazer em anunciar, Renata você diminuiu para 82,7 cm, são 14 cm a menos. 5 furos no sinto. ( Os apresentadores comemoram e renata demonstra surpresa.) Renata: Ou seja isso é resultado da perda de gordura. Zeca: Renata Ceribelli eu tou muito orgulhoso de você. (comentários entre os jornalistas) Márcio: ele começou com 110,3 cm. Patrícia: ou seja 8 cm também acima. Márcio: É, ele tem que ficar abaixo de 102 cm para diminuir esse fator de risco de doenças cardiácas. E Zeca sua nova cinturinha é de 99 cm. (Zeca Camargo comemora muito, vibra com o resultado. Comentam sobre as mudanças efetivadas). Patricua comenta que Zeca solicitava a troca de sintos. Renata: essa felicidade não é só pra agente, a felicidade de poder dar um exemplo para as pessoas, mostrar como é possível você reprogramar seu corpo com saúde, é muito legal. Zeca: Com a vida maluca que agente tem. Patrícia: Eu estava confiando no esforço de vocês, parabéns Renata, parabéns Zeca. Ea Medida certa não termina por aí não né, não vai parar não. Zeca: Patrícia, a partir do domingo que vem, eu a Renata e o Atalla s nos vamos sair no Brasil todo numa caminhada do medida certa. Renata: É uma iniciativa para levar para vocês tudo que agente aprendeu nesses três meses. As primeiras capitais das caminhadas do medida certa são, Rio de janeiro e Belém do Pará. Patricia: Tá dado o recado, mais informações no site do Fantástico onde depois do programa vocês vão poder conversar ao vivo com o Márcio Atalla. O HOMEM QUE CONSEGUIU COLOCAR RENATA CERIBELLI E ZECA CAMARGO NA MEDIDA CERTA”. Márcio: mas eu quero fazer mais um desafio, você deixa? Patricia: Claro, você é bem vindo Atalla. Márcio: eu quero voltar daqui a três meses para saber se vocês continuam na medida certa. SÍNTESE DO VÍDEO Patrícia Poeta comenta sobre resultados do quadro. “Agente viu que todos os índices melhoraram, agora agente vai ver o peso e a cintura, mas antes eu quero saber qual é a expectativa dessa dupla fantástica que suou e acompanhou aí durantes esses 90 dias né”. Renata diz que... “Olha, é muito mais curiosidade do que expectativa, agente viu, agente está sentindo os resultados em nosso corpo, MAS AGENTE QUER VER O NÚMERO NÉ” Márcio Atalla vai ao fantástico como convidado falar sobre os resultados finais. Márcio diz... “Antes de mais nada o medida certa é um programa de qualidade de vida. Claro que o emagrecimento vai ser uma consequência dessa reprogramação. 195 Antes de mudar a rotina nesses três messes eles estavam fora da medida certa...” Zeca diz... “agente nem sabia o que era medida certa” Patrícia.... “Vamos direto aos números, acho que o brasil inteiro quer saber BALANÇA... é inimiga de muita gente” Márcio destaca.... “Renata você começou o programa com 80,3 kg” “agora depois de muito suor, de três meses, Renata seu novo peso é 74,4 kg.” Vibração de Zeca e Renata pelo resultado. Renata comenta que achou que vivesse perdido menos. Destaca a felicidade com o novo peso. Sobre Zeca, Márcio Atalla destaca... “o Zeca começou esse programa com 111,4 kg” “Agora 104 kg” Vibração com o novo peso. Xeca diz “estou contente” Patricia Poeta destaca.... “Atalla não é só o numero da balança que vale né, acho que é importante agente dizer pro pessoal de casa que está nos assistindo nesse momento”. Márcio Atalla diz... “O número da balança pra mim conta menos, o que que é importante, eles entraram num programa que a atividade física é o carro chefe e eles não tiveram nenhum dieta restritiva” Renata diz... “O que importa é perder a gordura do corpo” Márcio diz... “emagrecer é perder gordura” Renata... “Não é perder peso na balança” Márcio... “Não é, então agente agora vai aos números que realmente são importantes para mim” “Renata você perdeu 9,5k kg de gordura” Ceribelli demonstra surpresa com o resultado, elogia. Ganhou 3,6 kg de massa muscular. Márcio... “esse é o jeito saudável de emagrecer” Renata... “Ou seja, você pede gordura e ganha massa muscular” Márcio comenta sobre os resultados de Zeca... “Zeca olha o que você perdeu de gordura, 12,29 kg” Zeca fica surpreso e bastante feliz com os resultados. E ganhou 4,9 kg de massa muscular. Renata perdeu 10% de gordura. E zeca também perdeu 10 %. A ultima medida é a circunferência abdominal que é importante tanto para os homens quanto para as mulheres. Márcio... “A circunferência abdominal é um fator de risco para várias doenças cardiovasculares, nas mulheres é importante que esse índice fique abaixo de 88 cm, a Renata começou com 96,5 cm” “Renata você diminuiu para 82,7 cm, são 14 cm a menos”. Os apresentadores comemoram e renata demonstra surpresa. Sobre Zeca... “ele começou com 110,3 cm” “sua nova cinturinha é de 99 cm” Zeca Camargo comemora muito, vibra com o resultado. Comentam sobre as mudanças efetivadas. Renata diz... “essa felicidade não é só pra agente, a felicidade de poder dar um exemplo para as pessoas, mostrar como é possível você reprogramar seu corpo com saúde, é muito legal”. Patrícia diz... “ E o medida certa não vai parar por aqui não né?” Zeca diz que eles irão sair pelo Brasil todo realizando a caminhada do medida certa. É uma forma de compartilhar o que aprenderam nos 3 meses. Patricia convida a entrarem num chat com Mário Atalla “O 196 SABERES E PRÁTICAS SOBRE CORPO E SAÚDE COMPREENSÃO DE CORPO COMPREENSÃO DE SAÚDE #FICA A DICA INFORMAÇÕES PARA O PÚBLICO OUTRAS INFORMAÇÕES RELEVANTES HOMEM QUE CONSEGUIU COLOCAR RENATA CERIBELLI E ZECA CAMARGO NA MEDIDA CERTA”. Márcio propõem o desafio de voltar em três meses e verificar se os apresentadores irão se manter na medida certa. Conhecimentos antropométricos. Pesagem, medida, percentual de gordura. Corpo vivo, enquanto sujeito, os apresentadores enquanto corpos “Nossos corpos”. Corpo compreendido a partir das medidas e do peso. Associada a padrões de normalidade. Associada a perda de peso e ao emagrecimento corporal. Com base em medidas antropométricas. Darão início as caminhadas medida certa. 197 POSTAGENS A proposta… sex, 01/04/11 por redacao fantastico | categoria Bastidores | tags dieta, peso, proposta, renata ceribelli Por Renata Ceribelli Imagine ser chamada na sala do seu chefe e ser convidada a contar seu peso e suas medidas para o Brasil inteiro! No início achei que era uma brincadeira, mas pela risadinha dele…. percebi logo que era sério, muito sério. Era mais uma idéia ousada saindo daquela sala no fundo da redação. A sala do Luiz Nascimento, diretor do Fantástico. Conforme fui ouvindo como seria o projeto, o fato de divulgar meu peso e minhas medidas foi ficando muito pequeno. Vou experimentar o que há anos venho dizendo nas minhas reportagens: o que fazer para ter mais saúde, mais disposição, qualidade de vida, o que fazer para envelhecer bem! Vou encarar um programa de saúde em frente as câmeras, e o público vai acompanhar os efeitos disso no meu corpo, na minha saúde. Vou tirar da memória do meu corpo tudo aquilo que me fez engordar no decorrer dos anos, e vou reprogramá-lo em 90 dias . Quero ver quem tem coragem de encarar esse desafio comigo. Você tem? 198 Márcio Atalla tira dúvidas sobre exercícios e alimentação ter, 05/04/11 por redacao fantastico | categoria Márcio Atalla | tags dieta, Márcio Atalla, renata ceribelli, zeca camargo Qual a proposta da série ‘Medida Certa’? A primeira proposta, na verdade, é sobre mudança de hábito e ela passa principalmente pela prática de atividade física, ter uma vida mais ativa em relação ao movimento. Se a gente comparar as pessoas que viviam na década de 70 com as que vivem hoje, veremos que a gente gasta em média trezentas calorias a menos por dia. E qual foi o resultado disso? Nunca tivemos tantos obesos, e problemas de saúde, como diabetes, problemas cardíacos e doenças crônicas. Então, a proposta é incorporar movimento, e entrar com orientação nutricional, que na verdade, são quatro pontos: 1) comer fracionadamente, ou seja, fazer de cinco a seis refeições por dia, 2) diminuir a quantidade de gorduras, principalmente as gorduras saturadas, 3) aumentar o consumo de fibras 4) diminuir a ingestão de sal e açúcar. Isso vai se refletir não só no emagrecimento dos dois, mas também nos fatores de risco, que principalmente no Zeca estavam bem aumentados. Vamos mostrar que só com atividade física e se alimentando um pouco melhor, a pessoa consegue ter benefícios reais na saúde, melhorar a qualidade de vida e ficar mais distante do uso de medicamentos. É possível praticar atividade física em frequentar uma academia de ginástica? Na série “Medida Certa” vocês vão ver que vou passar algumas alternativas. Vou passar uma série de exercícios que a pessoa pode fazer em casa, isso para a parte muscular. Agora, a parte aeróbica, que é a parte cardiovascular, não precisa de dinheiro. Você pode caminhar trinta minutos por dia, isso já é eficiente. Musculação ajuda a emagrecer? Ajuda, mas a musculação não é o exercício mais eficiente, que é o aeróbico. Mas ajuda a emagrecer por alguns motivos: o primeiro é que qualquer atividade física gera um gasto 199 calórico, o segundo é que se a pessoa aumenta a massa muscular, e o músculo para se manter vivo gasta mais calorias do que a gordura, significa dizer que com mais músculos, mesmo em repouso, o corpo vai gastar mais calorias para manter aquela massa muscular que a pessoa ganhou. Malhar sem fazer dieta emagrece? Sim, existem vários trabalhos científicos que mostram que aumentando o consumo calórico, a pessoa já consegue emagrecer. É uma fórmula simples, o quanto se ingere menos o quanto é gasto. Claro, que é sempre importante ter uma orientação nutricional e fazer boas escolhas. É evitar gordura, aumentar o consumo de fibras e comer fracionadamente. Existe um alimento mágico para emagrecer? Não existe um alimento poderoso que vai resolver todos os problemas. Você tem que procurar fazer boas escolhas na alimentação. Por exemplo, a linhaça é rica em fibras, mas se você está ingerindo muita gordura, não será ela que vai te ajudar. Sozinha não irá fazer milagres. Quais exercícios ajudam a diminuir as taxas de colesterol? Exercícios aeróbicos são mais eficientes do que a musculação, sem dúvida nenhuma. É muito importante diminuir a ingestão de gordura saturada e álcool. É possível emagrecer em duas semanas? Emagrecer em duas semanas, a pessoa não vai. Se quiser perder peso, o que não significa a mesma coisa, já que perder peso é perder massa muscular e líquido, é possível fazendo estas loucuras, como a dieta da proteína ou comendo pouco, o que sou totalmente contra. Para se perder 1 kg de gordura, a pessoa tem que ter um déficit de calorias, ou seja, comer menos do que gastar, 9 mil calorias. Então, pode-se imaginar que não será em pouco tempo. Não sou muito a favor do emagrecimento rápido. Suplementos alimentares ajudam ou não no ganho de massa muscular? Sem dúvida o suplemento ajuda no processo de ganho de massa muscular. Não aconselho porque a única pessoa que pode orientar o consumo de um suplemento nutricional é um nutricionista, depois que analisar toda a alimentação daquela pessoa. Como eu irei suplementar uma coisa, se eu não sei o que está em excesso ou falta? Está na moda tomar suplementos de proteína, sendo que a alimentação do brasileiro já tem a proteína necessária. Então, aquilo só está sobrecarregando os rins e o fígado. O suplemento só é indicado para o atleta amador ou profissional. E o atleta amador é aquele que treina três horas por dia. Fora isso, só com alimentação a pessoa consegue atingir toda a meta de nutrientes que deve ter. 200 Mesmo assim, se ela quer aumentar a massa muscular e acha que não se alimenta bem, deve procurar um nutricionista. E o profissional vai ver exatamente o quanto se precisa. É importante deixar claro que o suplemento em grande quantidade faz mal. Isso vai ter uma conta lá na frente a ser paga. Isso é mais sério do que parece. Caminhar é um bom começo para quem não faz exercícios regularmente? É excelente, se puder em quatro dias acumular 150 minutos, já se atinge a recomendação da Organização Mundial da Saúde. Como perder aquela gordurinha a mais na barriga? Não tem jeito, a solução é o exercício aeróbico. Agora, se quiser definir o abdômen, é o exercício abdominal. Uma dica são os exercícios intervalados, que são mais eficientes. O que é isso? Por exemplo, correr por dois minutos, andar por dois minutos e assim por diante. Quem é hipertenso pode fazer exercícios físicos regularmente? Deve, pois a atividade física é super recomendada para quem hipertensão. Principalmente a atividade aeróbica porque vai diminuir a pr essão arterial. É comprovado. Quem quer mudar os hábitos deve procurar quais profissionais? Em primeiro lugar a pessoa tem que realmente querer mudar e ir abandonando os hábitos ruins e os substituir pelos bons. Os profissionais mais indicados são: em primeiro lugar um médico, para se saber se a pessoa está apta a praticar atividade física e depois ter uma boa orientação de um professor de educação física. E se tiver condições financeiras pode-se também procurar um nutricionista que vai avaliar a alimentação e dar boas orientações neste sentido. Existe um limite de tempo para se exercitar diariamente? Cada pessoa tem um limite e uma condição física diferente. Mas com uma hora por dia já se consegue treinar muito bem e colher todos os benefícios para a saúde. Ginástica localizada fortalece os músculos? Sendo bem feita fortalece bastante os músculos e tem o mesmo benefício da musculação. Para quem tem dores na coluna qual é o exercício indicado? O Pilates e a natação são as atividades indicadas, pois não têm impacto. A bicicleta ergométrica também não tem impacto na articulação. Para a pessoa que tem dor nas costas, como opção de atividade aeróbica, indicaria a natação e a bicicleta ergométrica. Para o fortalecimento da musculatura, sem dúvida indicaria o Pilates. 201 Tomar remédios diuréticos para perder peso é errado? Temos que lembrar que 60% do nosso peso corporal é formado de líquido. Emagrecer é perder gordura. Ao tomar um diurético a pessoa vai perder líquido e desidratar. Funciona como ir à sauna, a pessoa vai e perde líquido, sai de lá mais leve. E quando toma água, volta ao peso antigo. É verdade que pessoas podem ter o metabolismo mais rápido ou mais lento do que outras? É totalmente verdade. Duas manobras muito eficientes para acelerar o metabolismo são: fazer atividade física e comer fracionadamente. O spinning é bom para perder peso? Muito, se for feito com regularidade. Para se colher os benefícios de qualquer atividade física ela deve ser feita com regularidade. Qual é o melhor horário para a prática de exercícios físicos? O melhor horário para se praticar atividade física é quando a pessoa se sente bem e está mais disposta. Tem gente que se sente melhor pela manhã e outras à noite. Não há uma regra. Qual a importância do sono para a perda de peso? Os estudos mais recentes e confiáveis apontam que quem dorme menos de seis horas por dia tem uma tendência a engordar mais. A quantidade de sono pode influenciar muito no ganho de peso. 202 Confira as novas medidas dos apresentadores dom, 26/06/11 por redacao fantastico | categoria Episódios | tags balança, cintura, gordura, medidas,músculo, peso, renata ceribelli, zeca camargo Renata Ceribelli: Peso inicial: 80,3 kg Peso final: 74,4 kg (perdeu 9,5 kg de gordura e ganhou 3,6 kg de massa muscular) Circunferência abdominal inicial: 96,5 cm Circunferência abdominal final: 82,7 cm. “Achei que tivesse perdido menos. Estou muito feliz, me surpreendi de verdade”, disse Renata. . Zeca Camargo: Peso inicial: 111,4kg Peso final: 104 kg (perdeu 12,29kg de gordura e ganhou 4,9 kg de massa muscular) Circunferência abdominal inicial: 110,3 cm Circunferência abdominal final: 99cm. “Era mais ou menos a minha aposta. No meio do programa, eu tinha perdido 4 kg. Na reta final eu pensei que perderia mais 2 ou 3 kg. Estou contente”, comentou o apresentador. 203 FICHA DE ANÁLISE DE CONTEÚDO – POSTAGEM TÍTULO DA POSTAGEM: A PROPOSTA NÚMERO DA POSTAGEM: 01 DATA DA POSTAGEM: SEXTA 01/04/2011 TOTAL DE COMENTÁRIOS: 809 POSTADO POR: RENATA CERIBELLI CATEGORIAS DE ANÁLISE SÍNTESE POSTAGEM DA DESCRIÇÃO Apresentação de como Renata recebeu a proposta do seu apresentador. Reações iniciais e posteriores ao receber o “desafio”. SABERES E PRÁTICAS SOBRE CORPO E SAÚDE COMPREENSÃO DE Um corpo como um sistema operacional de computador com capacidade de memória que pode ser esvaziada e com um CORPO sistema que pode ser reprogramado. “Vou tirar da memória do meu corpo tudo aquilo que me fez engordar no decorrer dos anos, e vou reprogramá-lo em 90 dias” – Renata COMPREENSÃO DE Associada fortemente a perda de peso, saúde conseguida na ausência de gordura SAÚDE INFORMAÇÕES PARA “Quero ver quem tem coragem de encarar esse desafio comigo. Você tem?” – RENATA O PÚBLICO Convidando as pessoas de casa a também entrarem na medida certa. Reforçando que o objetivo maior é saúde “Vou encarar um OUTRAS programa de saúde em frente as câmeras, e o público vai INFORMAÇÕES acompanhar os efeitos disso no meu corpo, na minha saúde” – RELEVANTES Renata 204 FICHA DE ANÁLISE DE CONTEÚDO - POSTAGEM TÍTULO DA POSTAGEM: MÁRCIO ATALLA TIRA DÚVIDAS SOBRE EXERCÍCIOS E ALIMENTAÇÃO NÚMERO DA POSTAGEM: 11 DATA DA POSTAGEM: 05/04/2011 TOTAL DE COMENTÁRIOS: 43 POSTADO POR: REDAÇÃO DO FANTÁSTICO CATEGORIAS DE ANÁLISE SÍNTESE DA POSTAGEM SABERES E PRÁTICAS SOBRE CORPO E SAÚDE COMPREENSÃO DE CORPO COMPREENSÃO DE SAÚDE INFORMAÇÕES PARA O PÚBLICO OUTRAS INFORMAÇÕES RELEVANTES DESCRIÇÃO A postagem tenta tirar várias dúvidas dos expectadores do quadro: Qual a proposta da série “Medida Certa”? É possível praticar atividade física sem frequentar uma academia de ginástica? Musculação ajuda a emagrecer? Malhar sem fazer dieta emagrece? Existe um alimento mágico para emagrecer? Quais os exercícios ajudam a diminuir as taxas de colesterol? É possível emagrecer em duas semanas? Suplemento alimentar ajuda ou não no ganho de massa muscular? Caminhar é um bom começo para quem não faz exercícios regularmente? Como perder aquela gurdurinha a mais na barriga? Quem é hipertenso pode fazer exercícios físicos regularmente? Quem quer mudar os hábitos deve procurar que profissionais? Existe um limite de tempo para se exercitar diariamente? Ginástica localizada fortalece os músculos? Para quem tem dores na coluna qual é o exercício indicado? Tomar remédios diuréticos para perder peso é errado? É verdade que pessoas podem ter o metabolismo mais lento ou mais rápido do que outras? O spining é bom para perder peso? Qual é o melhor horário para a pratica de exercícios? Qual a importância do sono para perda de peso? Saberes e praticas baseados nos conhecimentos fisiológicos e bioquímicos. Um corpo com possibilidade de mudanças fisiológicas promovidas pelos exercícios e novos hábitos alimentares. Exercícios físicos e alimentação como práticas a serem realizadas sobre o corpo, além da suplementação e utilização de medicamentos. Um corpo biológico, visto a partir da fisiologia e da bioquímica. Um corpo objeto que pode ser modificado através de intervenções alimentares e de exercícios. Um corpo fragmentado que pode ser trabalhado a partir de partes. Com base em dados estatísticos. Não prioriza as subjetividades. Saúde associada somente as características biológicas, pensada a partir da ausência de doenças, associada também a perda de peso. Diferentes informações de como cuidar do corpo através de exercícios e alimentação para obtenção de saúde. Muitos erros ortográficos nas postagens. Informações amplas que vão desde alimentação, medicação, exercícios, entre outros. Não abre espaço para as subjetividades e afetividade das pessoas. As informações apresentadas nos soam como condutas que devem ser utilizadas na busca pela saúde. 205 Esclarecimento sobre diferentes assuntos. 206 FICHA DE ANÁLISE DE CONTEÚDO – POSTAGEM TÍTULO DA POSTAGEM: CONFIRA AS NOVAS MEDIDAS DOS APRESENTADORES NÚMERO DA POSTAGEM: 97 DATA DA POSTAGEM: 26/06/2011 TOTAL DE COMENTÁRIOS: 18 POSTADO POR: REDAÇÃO FANTÁSTICO CATEGORIAS DE ANÁLISE DESCRIÇÃO SÍNTESE DA POSTAGEM Apresenta as novas medidas dos apresentadores após os 90 dias de participação no quadro, aponta as perdas de gordura e os ganhos de massa muscular. Deixa comentários dos apresentadores. SABERES E PRÁTICAS SOBRE CORPO E SAÚDE COMPREENSÃO DE CORPO COMPREENSÃO DE SAÚDE INFORMAÇÕES PARA O PÚBLICO OUTRAS INFORMAÇÕES RELEVANTES - -