UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE CURSO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS Camila Santos Sterchele MANIFESTAÇÕES DE PODER NAS RELAÇÕES ESCOLARES São Paulo 2009 1 UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE CURSO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS Camila Santos Sterchele MANIFESTAÇÕES DE PODER NAS RELAÇÕES ESCOLARES Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro de Ciências Biológicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como parte dos requisitos exigidos para a conclusão do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas. Orientador: Prof. Dr. José Cássio Másculo São Paulo 2009 2 AGRADECIMENTOS Primeiramente, agradeço a Universidade Presbiteriana Mackenzie e ao Centro de Ciências Biológicas pela imensa oportunidade de realização de um trabalho de conclusão de curso em licenciatura. Além da disponibilização de um excelente corpo docente e diretivo, a Universidade proporcionou-me um ambiente agradável, completo e eficaz, com todos os recursos necessários para a realização das minhas atividades diárias. Em segundo lugar, mas com igual importância, agradeço ao professor doutor José Cássio Másculo, que me aceitou como sua orientanda. Foi uma honra ter uma pessoa tão sábia, justa e dedicada norteando meus pensamentos, colocando-me em um estado de constante reflexão. Sou muito grata por ter me tirado da posição de conforto; por me fazer enxergar as situações com uma maior profundidade; por me causar inquietações e por todo auxílio, apoio, prontidão e paciência que me ofereceu ao longo do desenvolvimento do trabalho. Agradeço também a professora Ms Magda, por todos os conselhos, orientações, colaborações e críticas que ocorrem desde o início do curso de licenciatura, que me fizeram crescer demasiadamente. Foi fundamental conhecê-la e tê-la como mediadora do meu aprendizado, pois além ser uma profissional excepcional, é uma pessoa maravilhosa e iluminada. Agradeço às professoras doutoras Ani Martins e Graciela Deri por terem aceitado o convite para participar da banca examinadora. Além disso, agradeço aos professores, não só os do curso de licenciatura, que contribuíram para minha formação, não só profissional, mas também para a minha formação humana. Faço um agradecimento especial aos meus pais, autores de grande parte da Camila que sou hoje. São pessoas que me ensinaram muitas coisas, me cobriram de amor, nunca me abandonaram e sempre acreditaram em mim, independente das dificuldades que atravessássemos. Agradeço à minha irmã Livia, por encher meus dias de luz e alegria. E agradeço ao meu namorado Bruno pela imensa paciência; por me encher de amor e carinho; por agüentar minhas constantes mudanças de humor e pela compreensão e ajuda nessa etapa tão importante da minha vida. Tenho um amor muito grande por todos vocês. 3 Agradeço aos amigos que me apoiaram, ouviram meus desabafos e filosofias, me ajudaram, trocaram conhecimentos e compartilharam crises existenciais. Agradeço em especial minhas amigas: Juliana, Thaís e Lívia, minhas parceiras do início ao fim. 4 O poder revela o homem. Sófocles 5 RESUMO O presente trabalho trata das várias dimensões de poder que ocorrem dentro do ambiente escolar. Partindo da abordagem teórica de Foucault e de outros autores, este estudo analisa as relações de poder em várias escolas de São Paulo no ano de 2009, tanto públicas quanto privadas, através de relatórios que contêm em seus cadernos de campo as observações cotidianas de estagiários que estavam se licenciando em Ciências Biológicas. O objetivo desta pesquisa foi realizar a verificação de como as relações de poder se manisfestam dentro do ambiente escolar; fazer a identificação de como as relações de poder observadas interfere no trabalho do docente e também no aprendizado do aluno; e avaliar como o poder institucional influencia as atitudes do professor. Constatou-se que nas manifestações de poder escolares, tanto as práticas de controle quanto as de resistência, aparentemente corriqueiras, interferem na prática docente e no aprendizado do aluno, criando posturas e ações que reproduzem, em menor proporção, a rede de relações de poder instituídas na sociedade. Palavras-chave: poder; ambiente escolar; Foucault; caderno de campo; relações de poder; atitudes do professor. 6 ABSTRACT This paper deals with the various dimensions of power that occur within the school environment. Based on the theoretical approach of Foucault and others, this study examines power relations in various schools of Sao Paulo in 2009, both public and private, through reports that contain the field notebooks everyday observations of trainees who were licensing is in Biological Sciences. The purpose of this investigation is to check how the power relations that manifests within the school environment; the identification of how power relations observed interfere in the work of teachers and also in student learning; and assess how the institutional power influence attitudes of the teacher. It was found that the manifestations of power school, both control practices as the resistance, apparently trivial, impact on teaching practice and student learning, creating attitudes and actions that play to a lesser extent, the network of power relations imposed on society. Keywords: power; school environment; Foucault; notebook field, power relations, attitudes of teachers. 7 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO........................................................................................................................08 2. CAPÍTULO 1 – CULTURA, EDUCAÇÃO E INSTITUIÇÃO ESCOLAR............................10 3. CAPÍTULO 2 – PODER ..........................................................................................................16 4. CAPÍTULO 3 – EDUCAÇÃO X PODER................................................................................21 5. CAPÍTULO 4 – FORMAS DE CONTROLE, VIGILÂNCIA, DISCIPLINAMENTO E PUNIÇÃO.................................................................................................................................30 6. CAPÍTULO 5 – RESISTÊNCIAS............................................................................................34 7. CAPÍTULO 6 – REPRODUÇÃO, DESDOBRAMENTOS E PERSPECTIVAS...................38 8. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS..............................................................................42 9. RESULTADOS E DISCUSSÃO..............................................................................................46 10. CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................................96 11. REFERÊNCIAS .......................................................................................................................99 ANEXO 1 8 1. INTRODUÇÃO O presente trabalho de conclusão de curso irá discutir as manifestações de poder exercidadas nas instituições escolares. A idéia deste trabalho surgiu a partir da observação de fatos - ligados ao poder - ocorridos dentro das escolas, que incomodavam e causavam inquietação, vivenciada por anos na posição de estudante, e posteriormente, na posição de estagiário. Na primeira experiência, ainda bem jovens, nos esforçamos para tentar entender o porquê de algumas relações se estabelecerem no espaço escolar, questionando muitas vezes professores, colegas de classe, coordenadores e até os pais, para pelo menos sabermos se o que ocorre é certo ou errado. Sem respostas convincentes e presenciando repetidamente as mesmas cenas, acabamos por achar normal tudo o que acontece. Já na segunda experiência, como estagiário, não somos mais tão jovens. Ingressamos em uma universidade, e esse evento pressupõe, no mínimo, que estamos atrás de conhecimento. Com essa busca, possivelmente aumentamos nossa visão crítica, através da leitura de diversos autores, de conversas com docentes e do próprio amadurecimento advindo da idade. Assim, adquirimos um embasamento maior para compreender os acontecimentos que nos geram incômodos. E justamente nessa etapa, fica muito mais propício desenvolvermos atividades que oportunizam a formação de um pensamento lógico, crítico, capaz de estabelecer relações entre os conhecimentos aprendidos e os fenômenos reais. Desta forma, a busca por respostas acerca das manifestações de poder ocorridas nas relações escolares – como acontecem, por que acontecem - se fez necessária. Além disso, o interesse pelas relações de poder que se instauram no ambiente escolar aumentou consideravelmente depois de sua utilização como ponto norteador de um pequeno relatório desenvolvido na graduação. Nesse primeiro momento, o tema foi estudado bem superficialmente, mas possibilitou uma boa noção sobre o assunto. Essas escolhas anteriores facilitaram o discernimento do tema para que ocorresse o desenvolvimento, em apenas um semestre, deste presente trabalho. Delimitado o tema – poder - e nossa problemática – poderXeducação -, fomos fazer um levantamento bibliográfico, já que inicialmente o nosso estudo seria inteiramente teórico. Elencamos obras na íntegra de grandes pensadores, como por exemplo, Michael Foucault e Michael Apple, para dar base ao nosso estudo. Porém, ao longo do desenvolvimento do trabalho percebemos que seria 9 interessante termos fatos reais, concretos, para relacionarmos e analisarmos com tudo aquilo que iríamos expor na teoria. Pensamos em ir a campo acompanhar o dia-a-dia escolar, para fazermos as observações necessárias, mas, visto que tínhamos menos de seis meses para produzir o trabalho, concluímos que isso seria inviável. Foi então que surgiu a idéia de fazermos uma análise em cima de relatos do cotidiano escolar já presenciados. Pesquisamos uma disciplina no curso de licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie que propôs a confecção de um relatório de estágio supervisionado – de 70 horas - com um caderno de campo, que descreve detalhadamente o dia-a-dia dentro da escola. Desses relatórios foram retirados os episódios que nos interessavam, e posteriormente, fizemos uma análise com o referencial teórico selecionado. A relevância e a aplicabilidade do trabalho mudaram completamente. As manifestações de poder, os mecanismos, os desdobramentos, as reproduções, as resistências, enfim, todos esses aspectos que permeiam não só as instituições escolares, mas sim a sociedade com um todo, foram confrontados com dados reais e atuais. Para facilitar a leitura, entendimento e organização, o trabalho foi estruturado da seguinte maneira: o capítulo 1 aborda Cultura, Educação e Instituição Escolar; o capítulo 2 trata do Poder; o capítulo 3 fala da Educação X Poder; o capítulo 4 descreve as Formas de controle, vigilância, disciplinamento e punição; o capítulo 5 evidencia as Resistências; e finalmente o capítulo, que traz a Reprodução, Desdobramentos e Perspectivas. Depois, explicitamos quais procedimentos metodológicos foram adotados para a realização do estudo. Posteriormente apresentaremos nossos dados , já com a análise dos mesmos. Esse conjunto de resultados e análise é o que compõe a nossa discussão. Decidimos interligar tudo em um único bloco para a leitura não ficar demasiadamente cansativa e repetitiva. Fecharemos as idéias com as considerações finais. Sendo assim, este estudo teve como objetivo verificar como as relações de poder se manisfestam dentro do ambiente escolar; identificar como as relações de poder observadas interferem no trabalho do docente e também no aprendizado do aluno; avaliar como o poder institucional influencia as atitudes do professor. 10 2. CULTURA, EDUCAÇÃO E INSTITUIÇÃO ESCOLAR Bruner (2001) acredita que os sistemas educacionais são altamente institucionalizados, pois se comportam como outras instituições e sofrem problemas comuns a todas elas. O que a diferencia é o fato de preparar pessoas para assumir uma parte ativa em outras instituições. As instituições educativas são formações sócio-culturais complexas, com identidades resultantes de lutas, esforços, oposições, inter-relações e transformações. As instituições são produtos e produtoras de processos – além de formar a sociedade, também a expressa – onde se desenrolam ações individuais e coletivas (GARAY, 1998). De acordo com Garay (1998), há uma grande dificuldade em analisar as instituições educativas, devido sua grande articulação com a sociedade, pois desenvolve funções não apenas educativas, mas também, funções políticas e econômicas. Bruner (2001) afirma que independente da forma como é conduzida e em que cultura acontece, a educação sempre traz conseqüências para a vida daqueles que foram submetidos a ela. Ela fornece habilidades, formas de raciocinar, sentir, agir e falar que posteriormente poderá ser negociadas nos mercados institucionalizados de uma sociedade. Nesse sentido mais profundo, portanto, a educação nunca é neutra; nunca está privada de conseqüências sociais e econômicas. A educação sempre é política. E, por conseqüência, o conhecimento também não é neutro, como afirma Fiske (1989). Segundo ele, conhecimento é poder, e a circulação do conhecimento é parte da distribuição social do poder. A capacidade discursiva para construir um senso comum que possa ser inserido na vida cultural e política é central na relação social de poder. Paro (2008) afirma que no senso comum, educação e ensino são tidos como sinônimos. Ambos se reduzem à passagem de conhecimento, ainda quando trata de valores ou atitudes. Já para as ciências humanas, a educação é, em um sentido mais amplo, a apropriação da cultura. No senso comum, a educação geralmente é associada ao lar, à família; já o ensino é atribuído à escola. Assim, acreditam que a função da escola é passar conhecimentos e informações (conteúdo) de quem sabe (professor) para quem não sabe (aluno). O conteúdo é encarado como algo totalmente independente do método de ensino. E mais, as opções didáticas são 11 ditadas por características do conteúdo, e não por necessidades dos alunos. E no fundo, o educador é visto como um explicador de conteúdos. Esta é uma concepção tradicional de educação – aqui esse termo não se refere a uma tendência ou escola teórica; é utilizado apenas para denominar aquilo que o senso comum idealiza como sendo a boa prática pedagógica escolar – que pode ser confirmada em nossas escolas. Basta atentar para o fato de que, em todos os níveis de escolaridade, com alunos dos mais diferentes estágios de desenvolvimento biológico, psicológico e social, os métodos e procedimentos de ensino são basicamente os mesmos. Paro (2008) diz que, em seu sentido mais amplo, a educação consiste na apropriação da cultura. Envolve conhecimentos, informações, valores, crenças, ciência, arte, tecnologia, filosofia, direito, costumes, tudo enfim que o homem produz em sua transcendência da natureza. A natureza (tudo aquilo que existe independentemente da vontade e da ação dos homens) contrapõe-se à cultura (tudo que o homem produz ao fazer história). Esse conceito de educação não tem por fim desenvolver competências e habilidades nos alunos que os capacitem apenas a responder testes e provas para passar no vestibular ou ingressar no mercado de trabalho, mas visa a formação do homem em sua integralidade. Pensar o homem como o objetivo da educação exige, antes de tudo, ter clareza a respeito de sua especificidade histórica. O que capacita o homem a tornar-se histórico é, antes e acima de tudo, sua condição de sujeito. É como sujeito que o homem se diferencia do restante da natureza. Ele é o único ser para quem o mundo não é indiferente. Isso significa que ele é o único que se desprende de sua condição meramente natural, pronunciando-se diante do real e criando valores. Na criação de valores (“Isto é bom, isto não é”) revela-se o caráter ético do homem. O homem faz história, portanto, ao produzir cultura. A necessidade da educação se dá precisamente porque, embora autor da história pela produção da cultura, o homem ao nascer encontra-se inteiramente desprovido de qualquer traço cultural. Ele precisa apropriar-se da cultura historicamente produzida. A educação como apropriação da cultura apresenta-se, pois, como atualização histórico-cultural (PARO, 2008). O conceito crítico de educação o diferencia radicalmente do ingênuo conceito do senso comum. Em primeiro lugar a preocupação da educação tomada num sentido rigoroso é com o homem na integralidade de sua condição histórica, não se restringindo a fins parciais de preparação para o trabalho, para ter sucesso em exames ou para qualquer aspecto restrito da 12 vida das pessoas. Em segundo lugar, e em conseqüência disso, seu conteúdo é a própria cultura humana em sua inteireza, como produção histórica do homem, não se bastando em conhecimentos e informações, como costuma fazer a educação tradicional (PARO, 2008). Campos et al (2008) dizem que o conjunto de significações culturais de todo grupo ou classe social é construído de forma arbitrária – arbitrário cultural -, porque seus pressupostos não são nem naturais, nem universais. As condições para a produção e reprodução cultural são sociais, e não naturais. A produção de cultura é um processo social. Todos os significados sobre as relações sociais, todos os discursos e textos que exercem esses importantes papéis culturais podem circular, apenas, quando relacionados ao sistema social. Qualquer sistema social necessita de um sistema cultural de significação que sirva para mantê-lo, seja para desestabilizá-lo, para fazê-lo mais receptivo à mudança. Cultura e significados são, portanto, inerentemente políticos. Estão envolvidos na distribuição e redistribuição das várias formas de poder social (FISKE, 1989). Quando o jovem chega à escola já traz experiências, atitudes, valores que constituem e refletem a cultura de sua família e de seu meio social (CECCON et al, 2006). Sendo assim, toda a ação pedagógica é objetivamente uma violência simbólica enquanto imposição de um arbitrário cultural. Isso ocorre porque há a legitimação de um arbitrário cultural em detrimento do outro, através de uma comunicação pedagógica. Essa comunicação é exercida por aqueles que detêm um poder e que, por tal condição, conferem status ao discurso. A ação pedagógica pode existir em toda a formação social que se vale da educação para a indicação de um habitus. Contudo, a educação institucionalizada é o local de primazia para ação pedagógica e para a reprodução cultural dominante (CAMPOS et al, 2008). Bruner (2001) explica que os currículos das escolas e os “climas” das salas de aula sempre refletem valores tanto culturais não-articulados quanto planos explícitos; esses valores nunca estão muito distanciados de considerações de classe social e de prerrogativas de poder social. Desta forma, o currículo “não-oficial” é extremamente importante para entendermos algumas relações que se estabelecem no âmbito escolar. 13 Não podemos esquecer que a prática escolar não se reduz à sala de aula. A situação de ensino em que se envolvem professor e alunos é apenas um dos momentos da educação escolar. Bruner (2001) sustenta que o currículo de uma escola não trata apenas de matérias. A principal disciplina da escola, do ponto de vista cultural, é a própria escola. É esta a experiência da escola que a maioria dos alunos tem que determina, por sua vez, o significado que eles atribuem à escola. É muito comum procurar-se apenas no currículo formal adotado pela escola aquilo que compôs os saberes teoricamente passíveis de serem apreendidos pelos educando. Mas é preciso considerar o já consagrado conceito de currículo oculto que se acha presente dentro e fora das salas de aula. Apple (1989) argumenta que as escolas estão organizadas não apenas para ensinar o conhecimento referente a que, como e para que, exigido pela nossa sociedade, mas estão organizadas também de uma forma tal que elas, ao final das contas, auxiliam na produção do conhecimento técnico/administrativo necessário, entre outras coisas, para expandir mercados, controlar a produção , o trabalho e as pessoas, produzir a pesquisa básica e aplicada exigida pela industria e criar necessidades artificiais generalizadas entre a população. Este conhecimento técnico/administrativo é possível de ser acumulado. Ele age como uma forma de capital, e como o capital econômico, este capital cultural tende a ser controlado e a servir aos interesses das classes mais poderosas da sociedade. Os capitais cultural e econômico estão vinculados. O tipo de conhecimento considerado como mais legítimo na escola, o qual atua como um complexo filtro para estratificar grupos de alunos, está conectado as necessidades específicas de nosso tipo de formação social. As escolas produzem conhecimento de um tipo particular, portanto, ao mesmo tempo em que recriam categorias de desajustamento que estratificam os alunos. A criação de desajustamentos e a produção de capital cultural estão indissoluvelmente conectados. Assim, fica claro que o processo de escolarização é tanto um sistema de reprodução quanto um sistema de produção. Garay (1998) afirma que a questão institucional não se configura como tema e problema, mas sim como vivência de que o trabalho, a aprendizagem e o cotidiano organizacional estão marcados pela insatisfação, mal-estar e improdutividade. Todos esses fatores culminam para alguns efeitos não desejados, como o fracasso escolar, perda no sentido do trabalho, indisciplina e apatia. Para explicar esses efeitos a instituição não assume suas falhas e utiliza como discurso: a falta de formação e compromisso dos docentes; carências de inteligência, de linguagem e de integração familiar por parte dos discentes. 14 Ceccon et al (2006) complementam dizendo que a causa do fracasso dos alunos por vezes é apontada como resultado dos seus defeitos, insuficiências individuais e coletivas, como por exemplo, falta de dons, falta de inteligência, problemas de caráter, linguagem pobre, carência afetiva. Assim, os responsáveis seriam a família ou o próprio jovem, eximindo a escola e a sociedade de qualquer culpa. Essa visão deixa de lado o fundamental: que, a escola impõe um tipo de cultura dominante em detrimento das outras. Através do cotidiano escolar, os alunos vão se convencendo de que só existe uma solução, uma só verdade, e é o professor que detém a chave para todas as respostas. Os alunos não imaginam, não escolhem nada e acabam aceitando o status quo, uma ordem vinda de outros. Apple (1989) coloca que os professores culpam a si mesmos como indivíduos (ou a seus alunos) pelos fracassos dos alunos. Fica claro que o problema não é questão da quantidade de esforço despendido por professores e outras pessoas envolvidas no currículo. De fato, poucos grupos de pessoas trabalham tão duramente e em circunstâncias tão incertas, difíceis e complexas, quanto professores e administradores. Ao invés disso, fica mais nítido que a própria instituição e as conexões que ela mantinha com outras agências sociais poderosas geravam as práticas e as regras dominantes da vida dos educadores. Culpar os professores, incriminar os indivíduos, não ajuda nada. Analisar, como e, especialmente por que, a instituição faz o que faz, de modo que se pudesse ir alem dessas, ações individuais, parecia muito mais adequado. Dessa forma poderíamos tomar decisões muito melhores a respeito de ações curriculares pedagógicas. Arendt (2005) diz que o educador está em relação ao jovem como representante de um mundo pelo qual deve assumir a responsabilidade e acrescenta que qualquer pessoa que se recuse a assumir a responsabilidade coletiva pelo mundo não deveria ter crianças. Raramente as pessoas devem obediência a uma única instituição: um indivíduo pertence a uma família de origem e à outra pelo casamento, a um grupo estudantil, a um grupo profissional, a um bairro, bem como a grupos mais gerais, como uma nação ou uma classe social. Cada um desses agrupamentos institucionais se esforça para atingir seu padrão distintivo de direitos e de responsabilidades. Assim, essas instituições podem se complementar de maneira funcional, contudo, elas acabam competindo por privilégio e poder (BRUNER, 2001). 15 As escolas não são apenas instituições de reprodução, instituições em que o conhecimento explícito e implícito ensinado molda os estudantes como seres passivos que estarão então aptos e ansiosos para adaptar-se a uma sociedade injusta. Esta interpretação é falha. Ela vê os estudantes como internalizadores passivos de mensagens sociais préfabricadas. Qualquer coisa que a instituição transmita, seja, no currículo formal ou no oculto, é absorvida, não intervindo ai modificações introduzidas por culturas de classe ou pela rejeição feita pela classe dominada das mensagens sociais dominantes. Mas não é assim que as coisas se passam. O que é mais provável que ocorra é a reinterpretação por parte do estudante, ou na melhor das hipóteses, somente uma aceitação parcial, e muitas vezes a rejeição pura e simples dos significados intencionais e não intencionais das escolas. Obviamente, as escolas precisam ser vistas de uma forma muito mais complexa do que apenas através de simples reprodução (APPLE, 1989). 16 3. PODER Para iniciar o capítulo, colocaremos os conceitos de poder de uma forma bem abrangente. Segundo a definição clássica do dicionário Aurélio (2001, p.541), poder é: 1. Ter a faculdade de. 2. Ter força, ou energia, ou calma, ou paciência, para. 3. Ter possibilidade de, ou autorização para. 4. Estar arriscado ou exposto a. 5. Ter ocasião ou meio de. 6. Ter o direito ou razão de. 7. Ter saúde ou capacidade para agüentar ou suportar, etc. 8. Ter possibilidade. 9. Dispor de força ou autoridade. 10. Ter força física ou moral. 11. Direito de deliberar, agir e mandar. 12. Possibilidade; meios. 13. Vigor, potência. 14. Domínio, força. 15. Eficácia, efeito. 16. Capacidade, aptidão. 17. Autoridade constituída; governo dum país. 18. Função do Estado relativa a suas formas distintas e exercida pelos órgãos competentes. Diante de tantas definições, alguns cientistas sociais posicionam o poder como a capacidade de um agente para criar determinados resultados, sendo derivado de uma relação social entre indivíduos, grupos ou organizações, em que uma das partes exerce controle sobre a outra. Os efeitos produzidos são indeterminados, como por exemplo, o grau de controle e de obediência. Por isso, determinam a noção abstrata de poder como uma possibilidade, como uma capacidade potencial para a ação (FRENCH; RAVEN, 1969). Foucault defende que o poder não se concentra, não se centraliza, nem se totaliza. Ele faz e se desfaz em focos (essa idéia desafia a idéia esquerdista de que o poder seria propriedade de uma classe que o conquista. O poder não é uma propriedade, não está concentrado em uma sede, pois ele é estratégico. O poder é uma questão de exercício, não de posse (FOUCAULT, 2004). French e Raven (1969) ampliam o conceito de poder com a idéia de influência. Uma relação de influência se estabelece quando um indivíduo adere valores, interesses e comportamentos alheios. Em uma relação de poder, essa adesão pode ser com ou sem a permissão de quem adere. Entretanto, independente se é com ou sem a permissão do indivíduo sobre quem ele é exercido, o poder, que é uma relação de forças, torna-se possível por quem o exerce. Eles também acreditam que as relações de força não são consolidadas obrigatoriamente através de meios violentos ou coercitivos. Além disso, enfatizam que essas relações não se limitam ao espaço institucional. De acordo com Foucault (2004), o poder não se oferece, não se troca, nem se recupera, apenas se executa, só existe em ação. Sendo assim, ele enfatiza que não podemos considerar o 17 poder como uma propriedade, algo que se possui ou não. Ele diz que o poder não existe. O que existe são práticas e relações de poder, sendo ele algo que se exerce, que se realiza, que funciona. Para Foucault (2006), o poder não é uma instituição, nem uma estrutura, nem o Estado, o poder é uma situação estratégica onde se concentram as relações de força. As lutas e afrontamentos incessantes transformam, reforçam e invertem essas relações. E complementa dizendo que não há poder sem recusa ou revolta em potencial. No sentido mais amplo o poder se caracteriza como a capacidade ou possibilidade de agir, produzir efeitos. Pode referir-se a indivíduos, grupos, coisas e fenômenos naturais. O poder que afirma o ser humano como sujeito pode ser analisado em duas perspectivas: poder como capacidade de agir sobre as coisas e o poder como capacidade de determinar o comportamento de outros (PARO, 2008). Paro (2008) diz ainda que o poder pode também ser a capacidade de fazer, a habilidade para fazer coisas. O fazer implica poder, poder-fazer. Entretanto não podemos acreditar que esse poder-fazer represente apenas uma característica individual. O poder-fazer é sempre parte do fluxo social de fazer. É sempre um entrelaçamento de nossa atividade com a atividade anterior ou atual de outros. É sempre o produto do fazer alheio. Foucault (2006) afirma que as formas de poder são exercidas em todos os setores da sociedade, por dispositivos que se constituem historicamente. Pretendendo maior entendimento do conceito, podemos ainda citar os estados do poder. Existe o poder atual, que trata do poder em ato; aquele que é efetivamente exercido. Nesse, quem detém o poder produz a mudança do comportamento alheio, a partir da vontade do primeiro. Caso ocorra mudança de comportamento, mas sem atender à intenção de quem o casou, não podemos dizer que houve exercício do poder, mas sim a frustração na efetivação do mesmo. Também existe o poder potencial, que aborda a simples possibilidade do exercício. Ele envolve a ocorrência de maior ou menor probabilidade de obediência das ordens proferidas por quem possui o poder (PARO, 2008). O poder atual pressupõe a existência do poder potencial, já que antes do exercício do poder é necessário que haja a possibilidade de exercício. Alguém possui o poder quando é 18 provável que sua ordem seja acatada por outro; esse mesmo alguém pratica o poder quando ele ordena e sua ordem é acatada por outro (PARO, 2008). As práticas de poder são constitucionais com relação às praticas discursivas, ou seja, elas são geradoras dos saberes. Elas se desenvolvem e se estabelecem como relações microfísicas – o poder constitui a realidade - em uma dimensão estratégica com relação aos saberes. Assim, todos os regimes de saber contêm relações de poder (FOUCAULT, 2004). Os diferentes graus de obediência remetem às idéia de poder estabilizado - quando existe uma grande chance de que B realize os comportamentos desejados por A - e de poder institucionalizado - quando a relação de poder estabilizado se liga com varias funções definidas e coordenadas entre si como, por exemplo, um exército ou partido político. O exercício do poder, sua institucionalização e sua estabilização, dependem do julgamento que as pessoas fazem do poder, ou seja, dependem também das expectativas e percepções que as pessoas têm a respeito dele (PARO, 2008). Paro (2008) comenta que as noções de poder estabilizado e poder institucionalizado são muitos importantes para a clareza do conceito de autoridade. Primeiro, é fundamental ressaltar que autoridade não é um mero sinônimo de poder. Para os objetivos do presente trabalho, é importante delimitar bem o seu sentido, compreendendo- o como uma espécie de poder com condições demasiadamente definidas. Stoppino (1991) acredita que autoridade é um poder estável, a que os subordinados prestam uma obediência incondicional. Diz que praticamente todas as relações de poder mais duradouras e importantes são relações de autoridade, como por exemplo, o poder de um empresário sobre os trabalhadores e o poder do mestre sobre os alunos. Arendt (2005) coloca que a bandeira da autoridade é o reconhecimento inquestionável por aqueles a quem se pede que obedeçam. Ela acredita que nem a coerção nem a persuasão são necessárias. Em uma segunda definição de autoridade, Stoppino (1991) acrescenta que a autoridade é um tipo especial de poder estabilizado, chamado de poder legítimo. É aquele em que adesão dos subordinados é produto de uma avaliação positiva das ordens a serem acatadas. Apenas 19 nessa segunda definição podemos dizer que autoridade introduz em uma forma democrática de exercício do poder. É neste sentido de um poder institucionalizado ou estabilizado, que conta com a concordância livre e consciente das partes envolvidas, que termo autoridade será compreendido em nosso estudo. Será entendido como autoritarismo precisamente a negação dessa condição democrática da autoridade. Nessa situação, ocorre uma imposição de obediência. Segundo a definição de Paro (2008), outra forma de enriquecer o entendimento do conceito de poder é levar em consideração os modos do poder ser exercido. Assim, temos três modos de exercício de poder: a coerção, a manipulação e persuasão. Na coerção, existe nitidamente um conflito de interesses entre quem tem o poder e quem é o alvo dele. Não é explicitamente uma ameaça, podendo ser uma promessa de vantagem ou suborno. Já a manipulação baseia-se em um conflito presente, mas de forma potencial. Mesmo sem uso da coação, aquele que exerce o poder gera o comportamento do outro, ocultando ou disfarçando seu real objetivo. Os recursos usados são: o controle e uso enganoso da informação e a manipulação psicológica. Vale salientar que na manipulação há ocultação dos objetivos por trás da ação e também, intenção consciente dessa ocultação. Por sua vez, a persuasão supõe a completa ausência de conflito na relação de poder. Assim, B tem determinada atitude do interesse de A, pois este o convenceu a realizá-lo livre de qualquer constrangimento. Porém, provavelmente, se não tivesse ocorrido a intervenção de A, o comportamento de B seria outro. Em termos políticos, essa é a relação democrática, pois há a produção da convivência entre sujeitos. Desta forma, se faz necessário distinguir essa concepção de persuasão de outros usos que se referem a concepções muito diversas da que explicitamos aqui. Por exemplo, Arendt (2001) acredita que persuadir é impor sua própria opinião dentre várias opiniões. Considera que persuasão não é o oposto de governar pela violência só é outra maneira de fazer isso. Essa conotação de persuasão é totalmente diferente do significado que pretendemos oferecer ao termo, pois iguala persuasão a coerção. A persuasão precisa subentender o diálogo em que os atores podem exercer sua condição de sujeito. Já para Stoppino (1991), a persuasão tem a finalidade de obter o consentimento voluntário e consciente daquele a quem se dirige. É comum as mensagens persuasivas recorrerem, para captar adesão dos destinatários, a maneiras que são inadmissíveis dentro da persuasão racional - cujo fim é pautar em argumentos a verdade – e que se destinam a trapaceá-los, a enquadrar suas escolhas sem que eles os saibam, como por exemplo, o recurso 20 a mecanismos psicológicos inconscientes. Assim, a mensagem continua sendo persuasiva. No entanto, trata-se de uma persuasão ilusória ou oculta, assim sendo, portanto, uma forma de manipulação. O poder-fazer, como dito anteriormente, é sempre parte de um fluxo social. Mas, quando esse fluxo se fratura, esse poder-fazer transforma-se em seu oposto, em poder - sobre. É a relação de poder guiada tanto pela coerção quanto pela manipulação. O poder-sobre rompe o reconhecimento mútuo: aqueles sobre os que se exerce o poder não são reconhecidos. Tira-se o fazer dos fazedores. Vira a história dos poderosos, a história dos que falam o que os outros devem fazer. Nega-se o fazer da maioria, e poucos se apropriam desse fazer. O fluxo do fazer torna-se um processo fragmentado A distinção entre o poder-sobre, que serve para a dominação, e o poder-fazer, que intensifica a condição de sujeito do outro, é de suma relevância no estudo das relações de poder que têm lugar na sociedade (PARO, 2008). O poder é uma relação, uma rede produtiva. Ele produz o saber; cria a realidade ao invés de vetá-la. É desvalorizada a idéia de que o poder é relativo ao Estado, sendo ele seu detentor. O Estado é, na verdade, o efeito de uma multiplicidade de focos de poder. Os focos de poder são difusos, de modo que, somente em condições especiais, esses focos se reúnem, tomando dimensões abrangentes como a de um Estado (FOUCAULT, 2006). Foucault (2004) afirma que o que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz o prazer, forma saber, produz discurso. A verdade não existe fora do poder ou sem poder. A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem o seu regime de verdade, sua política geral de verdade, isto é, os tipos de discursos que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiro. A verdade é centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produzem; está submetida a uma constante incitação econômica e política; é objeto, de várias formas, de uma imensa difusão e de um imenso consumo (circula nos aparelhos de educação ou de informação, cuja extensão no corpo social é relativamente grande, não obstante algumas limitações rigorosas); é produzida e transmitida sob o controle, não exclusivo, mas dominante, de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos (universidade, exército, escritura, meios de comunicação); enfim, é objeto de debate político e de confronto social (as lutas ideológicas). 21 4. EDUCAÇÃO X PODER Todo processo educacional abrange alguém com a pretensão de modificar comportamentos alheios (educador) e alguém cujos comportamentos se supõem passiveis de serem modificados (educandos). Assim, todo processo educativo envolve uma relação de poder em seu conceito mais geral, seja em estado potencial, seja em estado atual. Em princípio, essa relação pode dar-se tanto como poder-sobre, quanto como poder-fazer. No primeiro caso, o educador procura impor os componentes culturais contra a vontade ou os interesses do educando, utilizando-se, para isso, da coerção ou da manipulação. No segundo caso, o modo privilegiado de exercício do poder é a persuasão. Porém, somente o poder-fazer é compatível com uma educação que visa a constituição de sujeitos livres. É esta a educação como prática “democrática” que nos interessa examinar na perspectiva do exercício do poder (PARO, 2008). A educação não está sozinha, diz Bruner (2001). Ela existe em uma cultura. E a cultura trata também de poder, de distinções e de recompensas. As instituições realizam a função séria da cultura, porém fazem isso através da coerção implícita, como na forma de incentivos e desincentivos, e explícita, como restrições apoiadas pelo poder do Estado. Paro (2008) afirma que o poder existe e é exercido tanto por parte do educador quanto do educando. Da parte do educando, a capacidade de agir sobre as coisas refere-se a sua ação intencional no processo de apreender a realidade, fazendo-se sujeito do aprendizado e incorporando elementos culturais que o engrandecem e o fortalecem, expandindo seu vigor, sua capacidade de poder-fazer, tornando-se, pois, ‘‘poderoso’’ à medida que adquire cada vez mais capacidade de agir e fazer–se sujeito. A concepção de educação do senso comum (tradicional) que costuma orientar a prática pedagógica em nossas escolas desconhece ou resiste fortemente a idéia do educando com detentor do poder. O professor ensina, para o aluno, que apreende passivamente o que lhe é ensinado. Ignora-se, assim, o complexo processo pelo qual os componentes da cultura se incorporam na personalidade viva de cada ser humano e o necessário envolvimento do educando como sujeito nesse processo. No entanto, a concepção de educação do senso comum (tradicional) acredita que é possível ensinar o conceito diretamente, sem levar em conta toda a subjetividade do educando 22 e sua participação ativa no processo. O poder do professor se manifesta em ambos os sentidos: como capacidade de agir e como capacidade de mudar comportamentos de outros. No primeiro caso, verifica-se seu poder no próprio exercício de sua função de professor, que detém determinadas capacidades de didata e educador e as aplica em seu trabalho com os educandos. Mas se manifesta também no fato de que todo processo de ensino para o outro é também processo de aprendizado para si próprio. O professor aprende enquanto ensina, se engrandece e se fortalece em seus atributos intelectuais, tornando-se mais poderoso a medida que enriquece sua personalidade (PARO, 2008). Ao renunciarmos ao conceito de educação do senso comum, em que os métodos de ensino privilegiam os “conteúdos” em detrimento dos sujeitos envolvidos, e optarmos pela “educação democrática”, em que a referência é o sujeito, seguramente as bases metodológicas serão modificadas, levando em consideração o aluno e o educador. É evidente que os métodos de ensino precisam ser incorporados pela participação ativa dos alunos, principalmente quando o conteúdo abrange, além de toda uma cultura, valores, conhecimentos, comportamentos e crenças (PARO, 2008). Paro (2008) diz que o mais importante para o tema do ensino é precisamente sua capacidade de influir no comportamento de outros. E esse poder é de uma importância tão fundamental em termos sociais que o educador não apenas modifica o comportamento do educando ou do aluno, mas constitui a própria mediação para a modificação, ou melhor, para a construção de sua personalidade. O homem nasce com potencialidades infinitas para fazerse humano-histórico, apreendendo a cultura disponível e formando sua personalidade, mas ele não faz isso naturalmente. É preciso a intervenção do educador. Este é seu poder: a capacidade de levar indivíduos a se fazerem seres dotados de historicidade. Já sabemos que, na escola, como em toda a parte, o poder se encontra tanto no estado atual quanto no estado potencial. Mas, se não se pode negligenciar este último, devendo-se considerar as formas ideológicas e representações do poder bem como sua formalização em leis e normas que emanam dos órgãos superiores do sistema de ensino, porque, afinal, tudo isso influencia e condiciona a realização pratica do poder, é preciso também uma atenção toda especial para com o poder atual, ou seja, o seu efetivo exercício na instituição escolar. Não basta restringir-se as chamadas instâncias globais e superiores do poder, é preciso ir às instâncias mais mínimas, precisamente onde é mais difícil de detectá-lo, compreendê-lo e 23 interpretá-lo. Para seguir uma recomendação de Foucault (2004), é preciso captar o poder em suas extremidades, em suas ultimas ramificações, lá onde ele se torna capilar; captar o poder nas suas formas e instituições mais regionais e locais, principalmente no ponto em que, ultrapassando as regras de direito que o organizam e delimitam, ele se prolonga, penetra em instituições, corporifica-se em técnicas e se mune de instrumentos de intervenção material, eventualmente violento. Paro (2008) sustenta a idéia de que como todo poder social, o poder da educação e do educador existe, primeiramente, em estado potencial, só se tornando atual a medida que se realiza concretamente. A análise do poder da escola em termos potenciais exige considerar a natureza dos objetivos que ela pretende realizar: só tendo conhecimento da intenção ou do interessa de quem detém o poder é possível constatar se seu poder esta de fato sendo exercido. Parece que precisamente aqui reside uma das questões mais importantes relacionadas à escola básica em nossa sociedade. A questão fundamental de nossa escola tem sido precisamente pouco ambiciosa em seus objetivos. Orientada por uma concepção de educação do senso comum, seus objetivos tem sido muito poucos ambiciosos, restringindo-se apenas a passar conhecimentos e informações. Paro (2008) declara que o mais grave é que o problema não se reduz a isso, mas inclui também o fato amplamente constatado de que, por pretender apenas isso, nem isso consegue realizar, visto que mesmo os conhecimentos e informações exigem, para serem assimilados e incorporados à personalidade do aprendiz, o envolvimento de outras dimensões culturais dessa personalidade. Para realizar seu objetivo de transmissão de conhecimentos, a escola lança mão das disciplinas escolares como a matemática, a geografia, a história, nas quais esses conhecimentos estão distribuídos e que compõem currículos e programas de ensino. São executados e depois conferidos a partir de testes e provas, quer internamente a escola para decidir sobre a promoção para a próxima série ou a retenção, quer externamente por meio de exames como os do Sistema de Avaliação da Educação Básica ou o Exame Nacional do Ensino Médio. Os dados relativos aos resultados desses exames externos mostram de forma evidente o fracasso da escola em alcançar os objetivos que ela se propõe. O poder-fazer da escola que temos, é muito menor do que ela oficialmente declara ter. As causas desse fracasso são muito variadas; uma importante causa muito pouca discutida e que parece estar na base de todo o problema do baixo desempenho do ensino é precisamente a timidez de sua ambição no provimento de cultura. Ao pretender passar apenas conhecimentos, deixa de lado os 24 componentes da cultura que, articulados com o conhecimento, dariam razão de ser a este e tornariam mais efetiva sua apreensão pelos educandos. Ainda sobre o estado potencial do poder que a escola e seus educadores têm, Paro (2008) afirma ser interessante fazer o confronto entre aquilo que a instituição educacional tem intenção de realizar com seu ensino e aquilo que ela efetivamente realiza. A escola tem interesse em mudar o comportamento de seus alunos de modo que eles aprendam seus conteúdos, porém o que as crianças e jovens aprendem é desenvolver sentimentos de repulsa ao saber – pois a forma que se lhes apresenta para a apreensão desse saber é desinteressante e não fala de perto a seus interesses e desejos – não se pode dizer que esse resultado tenha sido o produto do exercício de um poder, e sim a frustração do poder da escola que não conseguiu o que pretendia. Isso tem acontecido, pois, a instituição que supostamente seria o lugar privilegiado de provimento e disseminação da cultura em todas as suas dimensões, acaba por afastar daí as pessoas, que, assim, não só não aprendem com eficácia o que ela tenta ensinar, mas também deixam de desenvolver o interesse, o apego e a familiaridade com as múltiplas manifestações da cultura. Suposta uma educação democrática, a única maneira de exercício do poder envolvida no processo pedagógico é a persuasão. Quem se dispõe a persuadir deve sempre expor-se á possibilidade não apenas de não persuadir na direção que pretendia, mas também de ser persuadido na direção contrária. Assim entendida, a persuasão exibe uma aparência de extrema fragilidade. Por isso, a educação é sempre uma possibilidade, não uma certeza. Como o que embasa a educação é a condição de sujeito do educando, e como a característica fundadora do sujeito é sua vontade, a tarefa primeira do educador é oferecer ao aluno as condições propícias ao desenvolvimento a sua vontade de aprender. O professor, no exercício de seu poder de educar, produz no aluno não diretamente o aprender, e sim, sua mediação, o querer aprender. Disposto a aprender, o discente usa os meios disponíveis, como a explicação do professor, o material escolar e a relação com os colegas, para produzir ele mesmo o seu aprendizado. A condição de incerteza intrínseca à persuasão, é justamente a força da relação pedagógica, que evidencia a única forma que o educador possui de exercer o seu poder. O professor só exerce de fato seu poder, quando, por, uma relação de risco, isto é, pela persuasão, ilude construir em seu aluno um valor que permeie todo seu aprendizado: o desejo de aprender. Ao fazer isso, ele potencializa o aluno, incrementa seu poder-fazer. A função do educador é um fenômeno que intriga por seu caráter de extrema contradição: sua importância 25 e imprescindibilidade se revelam no preciso instante em que sua ação educativa já não é sequer necessária. Ao renunciar a ensinar unilateralmente, convencido de que ensino e aprendizado são faces de uma mesma moeda, dimensões de um mesmo processo em que estão envolvidos educador e educando, o professor oferece ao aluno a opção da cumplicidade. O aluno já não apenas obedece as ordens do professor, ele participa de uma obra compartilhada com outro (PARO, 2008). Paro (2008) diz que ao fazer-se continuativo no tempo e aceito como algo normal por todos os envolvidos, o poder do professor e da escola apresenta-se como poder estabilizado. Mais do que isso, trata-se de um poder institucionalizado, na medida em que a escola e os professores possuem funções definidas e coordenadas de maneira estável e aceitas institucionalmente. Essa estabilidade nas expectativas com relação ao poder é necessária para o funcionamento normal da escola como instituição. Usualmente, espera-se que a escola tenha o poder de transmitir conhecimentos, e a maneira de conseguir isso é exercendo seu poder sobre os alunos para que eles se empenhem em estudar e aprender os que lhes ensina. Mas essa expectativa é, em boa medida, resultado da maneira que a própria instituição escolar se apresenta diante do público e desenvolve suas atribuições, premiando ou punindo seus alunos de acordo com seu sucesso ou fracasso nos exames. Muitos professores mal informados, ou mal formados, acreditam que o interesse do aluno em estudar só se consegue com a chantagem. Um exemplo que ilustra a importância da noção de imagens do poder – que muitas vezes são distorcidas - na compreensão da realidade do ensino é o fenômeno da reprovação escolar como “motivação” para o aluno estudar. Com a introdução em alguns sistemas de ensino, da progressão continuada, e com a consciência por parte do aluno de que ele não será reprovado no final do ano letivo, desaparece a motivação do aluno, porque ele sabe que, estudando ou não, vai passar de qualquer forma. Na verdade, o que muda é a imagem que o aluno tem do poder do professor. Antes ele estudava ou fingia estudar, porque estava diante de uma ameaça, que podia se concretizar, porque o professor tinha o poder de puni-lo, reprovando-o. Agora com a promoção automática, por mais que o professor continue com o poder de prejudicá-lo (avaliando-o negativamente no conselho de classe, denunciando-o aos pais, repreendendo-o e, sobretudo, deixando de proporcionar-lhe um ensino de boa qualidade) a imagem do poder do professor se desfaz porque sua “autoridade” advinha somente do poder de reprovar. A imagem do poder muda também para 26 o professor. Especialmente o professor tradicional se sente aniquilado porque perdeu seu único poder que tinha diante da classe. (PARO, 2008). Paro (2008) declara que a permanência de um poder estabilizado e institucionalizado na escola nos leva a refletir sobre a presença da autoridade da instituição escolar ou do professor. O conceito de autoridade que adotamos como poder legítimo, em que a obediência as ordens se dá por uma aceitação do poder em decorrência de uma sua avaliação positiva e livremente aceita, empresta importância muito grande ao desenvolvimento da autoridade escolar por meio de uma prática pedagógica democrática. É pela percepção e consideração dos interesses, desejos, apreensões, medos e aspirações de seus alunos que o professor pode atuar para corrigir falhas e aproveitar as potencialidades existentes. Se realmente o aluno só aprende se quiser, ele precisa aceitar o poder que o professor exerce ao ensinar-lhe. Isso faz parte da autoridade do professor. O contrário é autoritarismo, isto é, a tentativa do professor de passar seus conteúdos sem a adesão dos alunos. Por isso que o ensino penoso, desinteressante, monótono, entediante, que não consegue produzir o interesse do aluno, pode ser considerado sempre como um ensino autoritário. O prejuízo que o autoritarismo da escola tradicional, por sua tentativa de imposição arbitrária de conteúdos, traz em termos sociais não é apenas de natureza explicitamente pedagógica- por seu fracasso precisamente em passar esses conteúdos- mas também de natureza política, ao deixar de contribuir para a formação de personalidades democráticas. A escola, ao invés de formas cidadãos predispostos a agir democraticamente, acaba por contribuir para a formação de personalidades autoritárias. Stoppino (1991) complementa dizendo que as principais características são, de uma parte, a disposição à obediência preocupada com os superiores, incluindo por vezes o obséquio e a adulação para com todos aqueles que detêm a força e o poder; de outra parte, a disposição em tratar com arrogância e desprezo os inferiores hierárquicos e em geral todos aqueles que não tem poder e autoridade. Paro (2008) ressalta que ao impor um ensino desinteressante em que à criança cabe apenas obedecer às determinações do professor e da escola, independente de sua vontade e interesse, a escola tradicional concorre para desenvolver um tipo de obediência e passividade que não é compatível com o exercício democrático de cidadãos autônomos, incutindo valores que favorecem a constituição de indivíduos acostumados a dominar os mais fracos e a obedecer sem resistência aos mais fortes. 27 As crianças mais novas, das escolas de educação infantil e das primeiras séries do ensino fundamental, ainda têm uma grande dependência das normas estabelecidas pelos adultos e tendem a obedecer inquestionavelmente ao professor ou a professora, levadas quer pela perfeição quer pela falta de opção. Sua tendência é crescer desenvolvendo condutas de comodismo e passividade que irão influir em sua personalidade adulta. Por isso, não é difícil, às vezes, ver no professor autoritário de hoje o aluno vítima de autoritarismo de ontem. Assim, se é a partir de práticas democráticas que se traçam verdadeiros cidadãos, parece não haver dúvida de que, para formar pessoas que contribuam com seu esforço para uma sociedade mais justa e mais livre, é preciso concentrar todos os esforços para que se tenha uma prática escolar condizente com esses ideais (PARO, 2008). O que os alunos aprendem na escola é moldado mais pelo currículo oculto, o padrão de relacionamentos sociais em sala de aula e na escola como um todo, do que pelo currículo formal. O currículo oculto muitas vezes atua em oposição às metas declaradas do currículo formal, e, em vez de promover uma aprendizagem efetiva, ele enfraquece a mesma. Em tais condições, a subordinação, conformidade, e disciplina substituem o desenvolvimento do pensamento crítico, como características básicas da experiência escolar. Mas a escola tradicional insiste em ignorar esses aspectos, contemplando quase exclusivamente o que está contido no currículo formal, ao mesmo tempo em que separa de maneira drástica a “aula”, que se prática dentro das classes, do que acontece nos outros espaços e situações escolares. Com isso, a prática escolar em geral que, por necessidade do próprio exercício democrático, deveria pautar-se pelas ações coletivas e pela cooperação entre indivíduos acaba se realizando a partir do paradigma das relações individualizantes que, lamentavelmente, são privilegiadas nas situações de ensino (PARO, 2008). Se a prática democrática deve envolver a instituição escolar por inteiro, é certo que a organização da escola deve ser de modo a favorecer tal prática democrática, possibilitando a participação de todos nas tomadas de decisão. É preciso que o objeto final que oriente a democratização seja o aluno e o desenvolvimento de sua autonomia, pois o fim de uma escola democrática é precisamente a formação de personalidades humano-históricas em seus alunos. O poder (certamente como poder-fazer) e a participação do aluno nas tomadas de decisão, não podem consistir apenas na sua atuação no conselho de escola nem tampouco se resumir a esfera de um grêmio ou outra entidade estudantil “representativa” dos alunos, separada de sua atividade escolar cotidiana. É preciso que, como parte inseparável de sua educação, o aluno 28 exercite seu poder no contexto da pratica escolar. Não se trata, obviamente, de renunciarem os adultos à responsabilidade de administrar a escola de modo a que ela atinja seus objetivos. É preciso prever algum grau de autonomia aos alunos num processo de elevação de responsabilidades. Mas a fronteira entre a democracia e o mero espontaneísmo pode ser muito incerta e mal percebida, se não se atenta para a condição política da educação, considerando a diferença entre uma conduta que dá voz aos educandos, como estratégia para que eles se fazerem autônomos, e um procedimento de simples fuga da responsabilidade educativa. A autoridade como poder legítimo é indispensável para a realização da educação, não se justificando que, a pretexto de evitar o autoritarismo, simplesmente se suprima a autoridade, tudo permitindo ao aluno e o deixando sem a devida orientação cultural e construção educativa (PARO, 2008). Paro (2008) fala que o entendimento da educação como exercício do poder, ajuda a compreender o processo pedagógico em si, mas deve trazer maior clareza também a compreensão da prática escolar em geral e a concepção de uma organização escolar que favoreça a realização mais democrática dessa prática. Se a escola não tem a qualidade que desejamos porque não está organizada para formar o cidadão necessário a uma sociedade democrática, é preciso transformar em profundidade essa escola. Obviamente, não se pode pretender que a transformação da escola seja suficiente, mas certamente é uma transformação necessária. É nesse sentido que o estudo da realidade de nossas escolas da perspectiva da análise do poder se põe como exigência para compreender a realidade escolar. Estudar a prática escolar da perspectiva do poder implica levar em conta tanto o podercontra, que se manifesta em suas múltiplas formas de denominação e de violação da subjetividade, quanto o poder-fazer, que engrandece personalidades e incrementa o vigor da ação humano-social. Trata-se de considerar e ter como foco de análise os micropoderes que se exercem no interior da instituição escolar, estando alerta para as interdições, a vigilância, as coerções, os controles e as proibições, mas não deixar de atentar também para as relações de libertação, de fortalecimento mutuo de subjetividades, de companheirismo, de lealdade e de incremento do poder-fazer uns dos outros. Mesmo quando se considera que esses micropoderes que se verificam na realidade escolar são submissos por poderes de esferas mais amplas da sociedade e do Estado, trata-se de compreendê-los onde eles se exercem, porque é nessas mínimas instâncias que os seres humanos vivem e experimentam suas mais profundas conseqüências. Se o poder esta em toda a parte, em toda parte precisamos conhecê-lo e tomar 29 decisões a seu respeito. Somente conhecendo em profundidade o que se passa no interior da escola poderemos conceber e implementar medidas para transformá-la de modo a que ela justifique sua razão de ser como instituição que concorre para uma sociedade mais democrática (PARO, 2008). 30 5. FORMAS DE CONTROLE, VIGILÂNCIA, DISCIPLINAMENTO E PUNIÇÃO O mundo é construído em torno de muitos eixos de poder, dos quais nós temos participação pessoal. Vivemos envolvidos em processos de dominação e subordinação que são muito ocultos. Compreender isso pode exigir que nos desvencilhemos do senso comum, pois estamos profundamente interconectados (APPLE, 1989). Foucault (2005) acredita que nos espaços institucionais acabamos nos sentidos vigiados constantemente e essa presença molda nossos corpos, nossas atitudes, nossa subjetividade espécie de hábito ou exercício que adquirimos de acordo com certos expedientes que mudam historicamente. Esse “controle” sobre o nosso corpo é exercido de modo automático e silencioso. Desde o final do XVIII ela tem sido dominada por uma forma de controle que se denomina disciplina. O ideal da sociedade disciplinar é maximizar o exercício da função em cada espaço, para que as várias funções disciplinares se encadeiem sem lacunas. Além disso, a sociedade disciplinar precisa aumentar os espaços disciplinares, a fim de que o deslocamento dos indivíduos entre os vários espaços não interrompa a continuidade da modelação. Pode-se dizer que a disciplina controla os corpos para produzir indivíduos. Ceccon et al (2006) propõem que quando a criança entra na escola, imediatamente é “parafusada” em uma cadeira onde fica imóvel, petrificada, confinada, reduzida a contemplação das paredes para estudar durante horas. Desta maneira, a criança é domesticada fisicamente, aprendendo rapidamente o que é submissão. Seus desejos, vontades e prazeres são reprimidos e acabam sendo taxados de indisciplina, falta de respeito, desinteresse. É feito de tudo para a escola ser um mundo de silêncio e imobilidade. O aluno deve apenas calar, escutar, obedecer e no fim, ser julgado. O considerado bom aluno, é aquele jovem disciplinado, dócil, quietinho, que só ouve o que o professor diz. É aquele que aceita com boa vontade todos os limites institucionais. E o bom professor é aquele que ordena, sabe, decide, julga, anota, pune, afinal ele é a autoridade maior dentro da sala de aula. O pior é que toda essa situação é encarada como normal, natural, pois é vivenciada na maioria das escolas, onde cada integrante tem um papel pré-determinado. A maioria das perguntas que o professor faz se inserem em um contexto de comunicação, artificial, pois nesse caso, não se trata de perguntas de verdade já que quem pergunta possui a resposta. 31 Foucault (2005) propõe que a sociedade disciplinar é formada por espaços disciplinares, cada um tomando o corpo como objeto, do qual extrai uma determinada função disciplinar. Devido à articulação em rede dos espaços disciplinares, existe um diagrama da sociedade disciplinar. Trata-se de um esquema de seu funcionamento, que explica como o corpo é submetido a uma tecnologia de poder. Esse diagrama é o Panóptico. O princípio de Panóptico está baseado em uma espécie de economia do poder, quer dizer, fazer com que as relações de poder se tornem automáticas, a fim de que os corpos sejam moldados por uma função disciplinar sem que tenha de haver um consumo de forças humanas para tanto. O Panóptico visa imprimir um estado de permanente vigilância, de modo que o próprio indivíduo se transforme, no vigiar de si mesmo. O poder, assim, torna-se automático; no limite, ninguém precisa exercê-lo, é invisível. O Panóptico é uma máquina de criar e manter o poder, independente de quem o exerce, formando fiscais perpetuamente fiscalizados. Foucault (2005) prossegue, dizendo que a disciplina é uma tecnologia usada para fins maciços e serve para funções precisas em instituições, como por exemplo, a escola. Essas instituições são espaços disciplinares, pois uma das características básicas da tecnologia disciplinar é que ela tem como condição, para moldar certa multiplicidade de comportamentos de acordo com uma determinada função, que essa multiplicidade seja restrita e que o espaço seja limitado, não muito extenso, como por exemplo, a sala de aula. Sendo assim, a disciplina não está contida em qualquer um desses espaços institucionais. Ela é uma relação de poder que se atualiza em cada um desses espaços. Ela articula vários espaços, aumentando seu poder de propagação e alcance. Ele complementa dizendo que vigilância é o principal instrumento de controle da disciplina. É uma vigilância contínua e permanente que precisa penetrar nos lugares e estar presente a toda hora. Na escola não são adquiridos apenas conhecimentos. Aprendemos também uma série de normas de comportamento, como: ordem, disciplina, respeito, obediência. A sala de aula com carteiras dispostas em fileiras privilegia o trabalho e sucesso individual, além de evitar que os alunos falem uns com os outros durante a aula. O valor implícito que a escola transmite é o individualismo. O tablado que fica na frente da sala para o professor, deixa-o em uma posição de superioridade, de importância, de autoridade absoluta. Aqui o valor implícito, é a submissão, afirmando uma idéia de hierarquia (CECCON et al, 2006). 32 Toda sociedade impõe um controle social sobre o corpo. E é exatamente esse controle que varia historicamente. Na sociedade disciplinar, o corpo é um objeto de análise e é fragmentado. Por meio de certas técnicas que se aplicam ao corpo, o ser humano é visto como um objeto que pode ser modelado. A idéia é que uma função disciplinar molde as pessoas em tempo contínuo, pois quando o individuo passar de um espaço para outro, ou seja, quando ele vai ser moldado segundo outra função, a operação exercida sobre o corpo, no espaço anterior, deve servir como preparo para a nova função (FOUCAULT, 2005). Para Ceccon et al (2006), a escola é um mundo uniforme, de comunicação artificial, de punição, castigo. As provas, os trabalhos, enfim, qualquer atividade que resulte em uma nota sucede-se nas escolas descontroladamente. Para a grande maioria são causa de tensão e inquietação, ampliadas pela pressão dos pais, que acabam sobrepondo ao sistema das notas um sistema próprio de punições e recompensas. Os alunos não conseguem perceber o sentido nem a utilidade das coisas. Os exercícios escolares, repetitivos e impositivos, poucas vezes possuem uma real justificativa. Assim, com medo do castigo, os discentes acabam aceitando. Para Apple (1989), o prêmio e a punição são motivações extrínsecas ao ensino. Paro (2008) fala que para considerarmos o homem como ser histórico, necessariamente temos que considerá-lo como ser social e, mais do que isso, como ser político. Em sentindo amplo, o político significa a produção de convivência entre indivíduos e grupos. Tal convivência é produzida pela dominação – ocorre quando uma das partes (indivíduo ou grupo) diminui ou anula a subjetividade do outro, tomando-o como objeto- ou pelo diálogocaracterizado por troca de impressões e aceitação mútua. Para a educação, o fator preponderante da condição política humana é relativo ao tipo de sociedade que se imagina em termos políticos e, conseqüentemente, o modelo de homem político que se pretender desenvolver. Apple (1989) complementa dizendo que o sistema cultural e educacional é um elemento excepcionalmente importante na manutenção das relações existentes de dominação e exploração na nossa sociedade, pois a educação é, do começo ao fim, um empreendimento político. Campos et al (2008) acreditam na educação como um campo social, no qual os sujeitos possuem mais ou menos poder, dependendo da posição que ocupam no campo. Além disso, pontuam que o campo social segue uma lei geral, que determina constantes lutas internas. A razão dessas lutas é a busca pela dominação. 33 O professor pode assumir duas facetas: a primeira é a de todo poderoso, senhor do destino, dos jovens; a segunda é a de simples executor a serviço de uma instituição, preso aos programas, superiores, pais, colegas, autoridades. Na realidade, o docente faz parte de um sistema de controles e normas tão fortes quanto aquele que impõe aos seus alunos. Uns aceitam esse sistema, outros aproveitam os poucos espaços livres para inovar (CECCON et al, 2006). Muitos professores são incapazes de compreender e de controlar os conflitos e tensões que nascem de suas relações com os alunos. Assim, acabam adotando uma atitude autoritária e burocrática. Muitos professores ao defenderem a hierarquia, atribuem mais importância as regras de comportamento da classe, ao invés de se preocuparem com seus próprios sentimentos de poder e insegurança perante os alunos. Também há professores que fazem o oposto. Para serem aceitos, pela classe renunciam a seu papel de educadores, confundindo-se com os alunos e instituindo um mal-estar nos discentes (CECCON et al, 2006). 34 6. RESISTÊNCIAS Discordar de algo já pré-estabelecido pode resultar em conflitos, e a maioria das pessoas tem medo disso. Porém, Apple (1989) nos fornece a idéia de que, mesmo perante todas as formas de disciplinamento e dominação abordadas no capítulo anterior, os indivíduos criam mecanismos para se desvencilhar de tudo isso, resistindo sob formas sutis e importantes. Eles freqüentemente contradizem e, em parte, transformam modos de controle em oportunidades de resistência e de manutenção de suas próprias normas informais de direção do processo de trabalho. A reprodução é obtida não apenas através da aceitação das ideologias hegemônicas, mas também através da oposição e resistências (APPLE, 1989). Essas resistências culturais informais, esse processo de contestação, podem agir sob formas contraditórias, as quais podem acabar sendo reprodutivas. Ao resistir e estabelecer uma cultura informal que tanto recria algumas espécies de controle quanto rejeita uma boa parte das normas, os indivíduos podem também estar de forma latente reforçando as relações sociais da produção capitalista. Podem controlar parcialmente o nível de destreza e a cadência das suas atividades, mas não modificam realmente as exigências mínimas da produção. Resistências em um nível podem reproduzir em parte a falta de controle em outro (APPLE, 1989). Foucault (2004) diz que o Estado não é o órgão central e único de poder. Os poderes não estão localizados em nenhum ponto específico da estrutura social. O poder é algo que se exerce. Não existe de um lado os que têm o poder e, de outro, aqueles que se encontram dele aliviados. O poder não existe, o que existe são práticas ou relações de poder. Qualquer luta é sempre resistência dentro da própria rede do poder. Onde há poder, há resistência. Não existe o lugar da resistência, mas pontos móveis e transitórios. O poder é luta, afrontamento, relação de força; não é um lugar que se ocupa, nem um objeto que se possui. Vemos as escolas como um espelho da sociedade, especialmente o currículo oculto das escolas. A “sociedade” precisa de trabalhadores dóceis; as escolas através de suas relações sociais e de seus currículos ocultos garantem de alguma forma a produção dessa docilidade. Trabalhadores obedientes no mercado de trabalho são espelhados no “mercado de idéias” da escola. Porém, as escolas podem ser mais que espelhos reprodutivos. Sempre haverá 35 elementos de contradição, de resistências, de autonomia relativa, quem tem potencial transformativo (APPLE, 1989). Os professores são controlados, dizendo que não tem escolha. Não gostam do currículo, do material didático, mas precisam acatar, pois são ordens superiores. Por outro lado, as resistências estão lá (APPLE, 1989). Os estudantes tornam-se bastante hábeis em “driblar o sistema”. Grande número deles, adaptam de forma criativa seus ambientes de forma que possam sair da aula, colocar humor em suas rotinas, controlar informalmente a cadência da vida escolar e, de forma geral, tentar levar o dia. Nessas mesmas escolas, muitos estudantes vão ainda mais além. Eles simplesmente rejeitam os currículos oculto e explícito da escola. O professor que esta ensinando matemática, ciências, história, orientação vocacional, etc., é ignorado o mais possível. Além disso, o ensino velado da pontualidade, asseio, obediência e outras normas e valores de raiz mais econômica é simplesmente repudiado tanto quanto possível. A verdadeira tarefa dos alunos é a de sobreviver até que o sinal soe (APPLE, 1989). Apple (1989) emprega empregar duas categorias principais para analisar as contradições e paradoxos da vida desses estudantes e da classe que eles representam: penetração e limitação. A penetração é uma opção inconsciente e refere-se aqueles casos nos quais os estudantes desenvolvem respostas em relação à escola e ao trabalho, respostas que vêem a realidade injusta que eles enfrentam. Sua rejeição de grande parte do conteúdo e da forma da vida educacional cotidiana baseia-se na compreensão quase inconsciente de que, como uma classe, a escola não lhes permitirá ir muito alem de onde eles já estão. O capital cultural utilizado nas escolas assegura o êxito dos filhos dos grupos dominantes da sociedade. Já limitação é o conflito entre a cultura e escola. As penetrações culturais são reprimidas e impedidas de avançar devido as contradições embutidas. O que realmente parece ocorrer é que os métodos de alguma forma colocam limites e permitem que os estudantes desenvolvam em suas vidas cotidianas na escola temas e atitudes que lhes dão força e podem atuar contra os valores ideológicos representados pela escola. Resistência, subversão da autoridade, ludibriar o sistema, criar diversões e prazer, formar um grupo informal para opor-se as atividades da escola, tudo isso é causado pela escola, embora tudo isso seja exatamente o oposto do que os administradores e professores querem. Portanto, 36 se os trabalhadores são intercambiáveis e o próprio trabalho é indiferenciado, todos parecendo iguais, a escola exerce um papel importante no processo de possibilitar que os estudantes desenvolvam penetrações em relação a essa situação. Ao mesmo tempo, entretanto, as limitações estão claramente ai, limitações que de forma igualmente clara acabam por prender esses jovens a um mercado de trabalho injusto e prepará-los para um trabalho padronizado (APPLE, 1989). Quando constatamos a resistência sistemática dos alunos ao método autoritário e admirável engenhosidade empregada pelos jovens para escapar a coação disciplinar, não podemos abster-nos de considerar como defeituoso um sistema que desperdiça tantas energias em lugar de empregá-las na cooperação (PARO, 2008). Aquilo que os jovens mais gostam de fazer, que é brincar e relacionar-se espontaneamente com seus colegas, é reiteradamente coibido na escola. Podemos dizer que, relacionando-se com os colegas, brincando, divertindose, o jovem se torna mais poderoso, à medida que desenvolve sua personalidade e exerce seu poder-fazer, sem as inúteis repressões e limitações da escola tradicional. Mas a mentalidade da maioria dos educadores escolares parece ser aquela que defende que “o ensino é coisa séria”, que não admite a brincadeira porque a função da escola é “preparar para a vida”, que não é nenhuma brincadeira. Para os estudantes, uma vez que a escola define o que é conhecimento legítimo, restam duas opções (embora, naturalmente, elas não sejam na realidade decisões conscientes). Uma das alternativas é a de aceitar essa definição e chatear-se uma boa parte do tempo. A outra é a de encontrar brechas no controle organizacional e explorá-las para manter algum grau de poder sobre a vida cotidiana. Embora os estudantes exerçam uma boa quantidade de poder informal no contexto escolar- ao matar tempo, incomodar os professores, e assim por diante eles não apenas participam das ideologias hegemônicas, como as reproduzem, ao menos parcialmente, ideologias que podem não ser nada benéficas. Como uma forma de conhecimento, o exercício do poder sob essa forma mostra como as formas culturais são muitas vezes reprodutivas e como os participantes, através da oposição, na verdade participam daquela prática reprodutiva (APPLE, 1989). A criação e a incidência dessas formas culturais tendem a afetar todos os estudantes e serve para reforçar a interpretação de que os sistemas sociais não devem ser confrontados, mas, em vez disso, devem ser resistidos através dessas formas de oposição. Como criadores 37 daquelas formas culturais, os estudantes estão reproduzindo formas que os condenarão a expressões de reação, mas não fortalecerão uma oposição crítica. Nessa elaboração da cultura, os estudantes participam da elaboração dos processos reprodutivos que fazem com que seja aprovável que eles terão a mesma sorte em outros locais, especialmente no local de trabalho (APPLE, 1989). 38 7. REPRODUÇÃO, DESDOBRAMENTOS E PERSPECTIVAS A escola possui “mecanismos secretos”, que causam reprovações, fracassos e reprodução de desigualdade social. A escola é uma máquina programada e seu funcionamento acaba selecionando, promovendo e valorizando algumas pessoas, e, rejeitando e eliminando outras. Na escola aprendemos, além dos conhecimentos, uma série de normas de comportamento, como ordem, disciplina, respeito, obediência – que é o que realmente faz a máquina funcionar. Entretanto, se fizermos uma análise mais profunda, perceberemos que na realidade a escola não é uma máquina. Ela é apenas uma peça da máquina, no meio de tantas outras. A escola reproduz a desigualdade entre classes sociais diferentes, cria dependências. Ao fornecer conhecimentos e diplomas a uma minoria, ao favorecer uma única forma de cultura, que é a dos privilegiados, em detrimento daquela do meio popular, ao convencer cada um que o processo de seleção é justo, a escola torna normal e inevitável a separação da sociedade entre a minoria que pensa, comanda, administra, controla, e a maioria que executa, obedece, se submete (CECCON et al, 2006). Vemos situações estagnadas, pois os integrantes das instituições acabam se acostumando e se enquadrando naquele determinado funcionamento, muitas vezes por medo de perder o emprego, outras vezes por simples acomodação, com a ilusão de que mudar é um evento ‘’extraterrestre’’, não podendo ser exercido por humanos. Os professores vão seguindo um script e rapidamente são consumidos, inconscientemente, pela enfadonha rotina. Na escola, o conflito deveria ser permanente, pois apesar de ser fonte de dificuldades e sofrimento, traz como conseqüências o questionamento, a mobilização e a construção de novas formas de sentido (GARAY, 1998). O desafio da reestruturação na educação consiste em abandonar as burocracias, os decretos inflexíveis, as formas paternalistas de confiança e os arranjos rápidos ao nível do sistema, para unir os professores e os outros parceiros educativos, principalmente alunos e pais. Refere-se, em um sentido fundamental, à reconstrução das relações de poder na escola. A possibilidade de fixação de ações docentes mais dinâmicas é limitada pelas estruturas existentes. Para os professores interagirem entre si de um modo mais flexível, aprenderem mais uns com os outros e melhorarem continuamente suas competências é preciso criar novas 39 estruturas institucionais que viabilizem tais aprendizagens e interações (HARGREAVES, 1998). Segundo Sacristán (2000), o currículo reproduz as relações existentes, pois é moldado por diferentes âmbitos como, influências sociais, econômicas e culturais, regulações políticas e administrativas, produção de meio didático, participação da família, organização e ambiente escolar e da sala de aula. Ele ainda lembra que o currículo é uma visão limitada da cultura, por isso é utopia acreditar na inclusão de todos os conteúdos. No momento em que o professor (ou a escola) vai escolher os conteúdos que entrarão no seu plano, tem que se orientar pelas prioridades: o que é fundamental, o que é pré-requisito, o que é interessante. Desta forma, o currículo não deve ser visto como apenas uma lista de disciplinas e conteúdos, um mero documento que fica engavetado nas escolas, mas sim como um instrumento de poder e reprodução. Um currículo completo e elaborado coletivamente deve conter uma breve fundamentação teórica, o histórico do ensino da disciplina, os objetivos de cada série (coerentes com a prática), os conteúdos que serão trabalhados, as justificativas, as modalidades didáticas e as referências bibliográficas; com sugestões de atividades e leituras complementares. Além disso, o currículo precisa ser revisto permanentemente para acompanhar as mudanças contextuais da sociedade (KRASILCHIK, 2005), e não apenas ser copiado o do ano anterior. Além disso, o currículo desempenha a função de explicitar os aspectos do desenvolvimento e socialização de alunos que a educação escolar promove. Ao explicitar esses aspectos, o currículo estabelece intenções educativas que presidirão o planejamento e o desenvolvimento do processo de escolarização. O problema da elaboração e desenvolvimento do currículo reside então, em boa medida, em formular essas intenções e, uma vez formuladas, em assegura a coerência e a continuidade, desde as formulações gerais até sua tradução em termos de propostas concretas de atividade de ensino – aprendizagem nas aulas (SACRISTÁN, 2000). Outro instrumento que auxilia a reprodução e a manutenção da ordem e da disciplina é a avaliação. Ela é um excelente meio de controlar e adaptas as condutas sociais dos alunos. Com a pretensão de conseguir um clima favorável para a aprendizagem, trabalha-se com o aluno a submissão e adequação a padrões e normas comportamentais estabelecidas no interior 40 da escola. A palavra do docente não aceita a discussão, o bom aluno é o submisso e, deste modo, o prepara para a passividade e para a dependência. Os procedimentos avaliativos têm poder e efetivamente moldam as condutas dos alunos, ressaltando o caráter conflituoso desse processo, que não se mostra eficiente e não se dá sem resistência por parte dos alunos. A desobediência do aluno é punida por meio de baixos conceitos, o que pode levá-lo à reprovação e até ao convencimento de que é incapaz de adaptar-se à escola (SOUSA, 2003). Como não há motivadores naturais que o professor possa utilizar, a retirada dos motivadores artificiais (nota, reprovação) desestabiliza as relações de poder existentes, obrigando o professor a lançar mão de outras formas de controle, nem sempre mais adequadas (FREITAS, 2003). Sousa (2003) afirma que a atribuição de nota é vista como meio de controle para que os alunos façam as tarefas e mantenham-se disciplinados. A professora controla os alunos através de vistos, de anotar ou não quem fez a tarefa, dizendo às vezes, que isso integra a avaliação contínua. De acordo com Sacristán (2000), além de evidenciar a repetição, alguns exercícios são dados como castigo. Isto é uma prova de que o próprio professor vê os exercícios dados negativamente, fazendo assim os alunos associarem esta prática de modo negativo também. Afonso (2005) diz que a escola possui um sistema de incentivos externos muito semelhantes ao pagamento na esfera do trabalho. Estes incentivos são as notas que os alunos recebem. Então, é como se estivesse recebendo uma recompensa por fazer ou não a tarefa. Hoffmann (2005) concorda dizendo que muitas notas são atribuídas arbitrariamente, sem critérios precisos. Os alunos acabam se importando demasiadamente com os negativos que a professora dá para quem não faz a lição, preocupando-se assim só com a nota, não com o aprendizado. Muitas vezes os alunos copiam a lição de quem já fez, só para não ganhar negativo ou bilhete na agenda, que acarretará bronca dos pais. As relações de poder e subordinação presentes na sociedade reproduzem-se na forma pela qual a escola se organiza e funciona. E, dentre os aspectos específicos da vida da escola em que se expressam relações autoritárias e hierárquicas, tem-se a avaliação, que é viabilizada não apenas com provas, mas também com a verificação de cadernos; atribuição de pontos negativos e positivos para toda e qualquer coisa; ferramentas como a caneta vermelha, que 41 salientam a ação corretiva; notas de participação; uso obrigatório de caneta (HOFFMANN, 2005). O professor utiliza o poder de autoridade em sala de aula e o poder da nota no processo avaliativo. Krasilchik (2005) relata a importância das notas para o aluno e do uso do poder do professor na atribuição dessas notas. Portanto, segundo Freitas (2003), os procedimentos de avaliação estão articulados com a forma que a escola assume como instituição social, que em nossa sociedade corresponde a determinadas funções, como hierarquizar, controlar e formar os valores impostos pela sociedade (submissão, competição, entre outros). Em tempos de desencanto com a possibilidade de transformação pelas estruturas do Estado, é essencial que preservemos nossa disposição de intervir diretamente, abrindo espaços de resistência e mobilização no interior das instituições (FREITAS, 2003). 42 8. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Para atender os objetivos propostos - verificar como as relações de poder se manisfestam dentro do ambiente escolar; identificar como as relações de poder observadas interferem no trabalho do docente e também no aprendizado do aluno; avaliar como o poder institucional influencia as atitudes do professor -, iniciamos um levantamento bibliográfico de autores que discutem a questão do poder na escola. Feito isso, fomos para a etapa de obtenção de dados para posterior análise. Essa captação foi feita a partir de relatórios de estágio - de 70 horas - produzidos na disciplina de Projetos Educacionais para o Ensino de Biologia. Os presentes relatórios foram confeccionados pelos alunos - estagiários - do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, durante o primeiro semestre de 2009. Eles estavam arquivados na Instituição e foram disponibilizados pelo Núcleo de Estágios. Esses relatórios contêm a descrição detalhada: da escola, das aulas acompanhadas que foram registradas em um caderno de campo e de algumas entrevistas realizadas com integrantes da vida escolar. A parte do relatório que interessou para o presente estudo foi o caderno de campo, pois possui justamente o dia-a-dia escolar, com todos os acontecimentos, comportamentos, atitudes ocorridos no interior da escola. Esses relatórios de estágio são considerados documentos, conforme constata-se em alguns conceitos consolidados como, por exemplo, o do dicionário Aurélio: “Do latim documentum, de docere – ensinar, mostrar: Toda base de conhecimento fixado materialmente e suscetível de ser utilizado para consulta, estudo ou prova” (FERREIRA, 2001, p.244). No mesmo sentido, segundo as normas da ABNT (NBR 6023, 2002, p.21), verifica-se que documento é “Qualquer suporte que contenha informação registrada [...] que possa servir para consulta, estudo ou prova. Inclui impressos, manuscritos, registros audiovisuais e sonoros, imagens, sem modificações, independentemente do período decorrido desde a primeira publicação”. E principalmente em autores como Phillips (apud ANDRÉ; LÜDKE, 1988, p.38), que afirmam que documento é “Quaisquer materiais escritos que possam ser usados como fonte de 43 informação sobre o comportamento humano”. E como Pádua (1996, p.63), que diz que “documento é toda base de conhecimento fixado materialmente e suscetível a ser utilizado para estudo [...] documentum: aquilo que ensina ou serve de exemplo ou prova”. André e Lüdke (1988) dizem que a vantagem de se trabalhar com esse tipo de material é a de que os documentos constituem uma fonte rica e estável de dados. Persistindo ao longo do tempo, os documentos podem ser consultados várias vezes e inclusive servir de base a diferentes estudos, o que dá mais estabilidade aos resultados obtidos. A desvantagem é que nesses documentos alguns dados podem ser subjetivos. Assim sendo, a metodologia escolhida para o presente trabalho foi a análise documental, que busca identificar informações fatuais nos relatórios de estágio a partir de questões ou hipóteses de interesse. A pesquisa documental é um tipo de pesquisa qualitativa, ou seja, é aquela pesquisa que se preocupa com os significados dos fenômenos e processos sociais e que leva em consideração as motivações, valores e crenças que permeiam a rede de relações sociais (PÁDUA, 1996). De acordo com Pádua (1996), a pesquisa documental é aquela realizada a partir de documentos, antigos ou contemporâneos, não-fraudados, com o intuito de descrever fatos sociais, estabelecendo suas características ou tendências. André e Lüdke (1988) propõe que a escolha dos documentos a serem utilizados não deve ser aleatória, para evitar uma seleção eventual e o direcionamento de dados. Por isso, a escolha dos relatórios seguiu um critério. Ficou definido que seriam analisados apenas os relatórios que foram aprovados na disciplina e os que receberam autorização dos seus autores para o uso na pesquisa. Com o intuito de conseguir as autorizações para utilizar os relatórios em questão, elaboramos uma carta de apresentação da pesquisa e um termo de consentimento informado (ANEXO 1) e, posteriormente, entregamos aos autores desses relatórios. A carta de apresentação explica detalhadamente toda a nossa pesquisa, deixando bem claro o tema, os objetivos e a forma de utilização dos dados. Também esclarece que não haverá despesas pessoais, compensações financeiras e, principalmente, que não haverá a identificação do autor do relatório, da escola, alunos, professores etc. O termo de consentimento informado retoma 44 as informações da carta de apresentação e traz as lacunas para a assinatura dos autores dos relatórios, caso concordem voluntariamente com tudo que foi explicitado sobre a pesquisa. Tínhamos no total uma amostra inicial de vinte e três relatórios de estágio. Dentre esses, apenas um foi reprovado na disciplina, pois não atendeu o que foi solicitado pela professora. Assim, como estava muito incompleto e não nos fornecia dados para análise, não o utilizamos. Um outro relatório não continha caderno de campo com a observação do cotidiano escolar, pois o aluno em questão observou apenas reuniões de formação de professores. E como a intenção é padronizar os dados, este relatório não foi utilizado. E outros dois relatórios não foram usados, pois não foi concedida a autorização dos seus autores. Sendo assim, nossa amostra final para análise foi de dezenove relatórios. Desses relatórios, como já foi dito anteriormente, utilizamos apenas os cadernos de campo, que contêm todos os comentários e impressões dos estagiários acerca do que observaram em campo – nesse caso, o campo foi a escola – ao longo do estágio. Vale ressaltar que esses relatórios de estágio foram produzidos por alguns estudantes ao longo de uma disciplina. Esses estudantes acompanharam a dinâmica escolar de colégios distintos. Então, é preciso considerar aqui que cada estudante fez sua própria observação. Ao olhar para um mesmo objeto ou situação, é muito provável que duas pessoas enxerguem coisas diferentes. Isso porque o “ver” de cada pessoa depende muito da sua história pessoal e principalmente de sua bagagem cultural. Assim, o tipo de formação de cada pessoa, o grupo social a que pertence, suas aptidões e predileções fazem com que sua atenção se concentre em determinados aspectos da realidade, desviando-se de outros (ANDRÉ; LUDKE, 1988). Após a leitura prévia dos cadernos de campo, optamos pelos dados referentes às manifestações que indicam relações de poder tanto na sala de aula como na própria escola. Para atender ao nosso critério, retiramos dos cadernos de campo os episódios que consideramos relevantes e interessantes. Os episódios estão em forma de citação direta ou indireta de alunos, professores, coordenadores ou no discurso do próprio estagiário. É importante ressaltar que os mesmos foram transcritos na íntegra, com erros, abreviaturas, gírias, descrições e opiniões. Desta forma, os dados obtidos dos relatórios de estágio foram analisados e confrontados com os autores estudados inicialmente. 45 É importante frisar que os registros a seguir pertencem aos alunos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie que realizaram estágio em escolas diversas para a disciplina Projetos Educacionais para o Ensino de Biologia. Estes registros compõem o caderno de campo, parte integrante do relatório que produziram no final da disciplina, que contém todas as observações presenciadas ao longo do estágio. Além disso, é necessário dizer que os autores destes relatórios, as escolas que estagiaram, os professores que acompanharam, os alunos que observaram, enfim, todos esses nomes, todas essas informações mais específicas serão omitidas no trabalho, visto que não se faz necessário em nenhum momento essas identificações. O anonimato será preservado, pois o relevante e interessante para esse estudo são as ações, os comportamentos e os episódios vivenciados pelos integrantes da instituição escolar. 46 9. RESULTADOS E DISCUSSÃO Nesse capítulo, portanto, serão analisados e confrontados os dados obtidos dos relatórios de estágio com os autores estudados inicialmente. Para tal, a seguir, apresentamos os relatórios das diferentes escolas identificados por letras (A, B, C...). Os episódios retirados estão no texto com uma letra menor, para se diferenciarem da análise dos mesmos: - Relatório A (escola pública) Exitem regras que são impostas dentro da escola através do poder institucionalizado. São as chamadas regras convencionais, que são bem definidas e acabam exercendo controle sobre os indivíduos. Apesar de por vezes serem contestadas, elas continuam em vigor. São normas já pré-estabelecidas e específicas que compõem as instituições, inclusive a escola. Cada instituição cria seus próprios regimentos internos, que muitas vezes fazem imposições desnecessárias e sem uma justificativa válida (PARO, 2008). É o caso, por exemplo, da proibição do uso de boné pelos alunos; da obrigatoriedade do uso do uniforme e, também, do controle da presença através da chamada, como vemos no episódio a seguir: A professora entra na sala [...] e faz a chamada (p.1). São exercidos no interior da sala de aula métodos coercitivos, onde há claramente um conflito de interesses entre quem tem o poder e quem é o alvo dele. Não é necessariamente uma ameaça, pode ser uma promessa de vantagem ou suborno (PARO, 2008). Dentre os aspectos específicos da vida escolar em que se expressam relações autoritárias e hierárquicas, tem-se a avaliação, que é viabilizada não apenas com provas, mas também com a verificação de cadernos; ferramentas como a caneta vermelha, que salientam a ação corretiva; notas de participação; e atribuição de pontos negativos e positivos para toda e qualquer coisa (HOFFMANN, 2005), como vemos no seguinte relato: A professora faz chamada e dá visto nos cadernos. Os alunos que fizeram são anotados no diário de classe, assim como os que não fizeram (p.1). Discordar de algo já pré-estabelecido pode resultar em conflitos, e a maioria das pessoas tem medo disso. Porém, Apple (1989) nos fornece a idéia de que, mesmo perante todas as 47 formas de disciplinamento e dominação, os indivíduos criam mecanismos para se esquivar dessa situação. Observe o seguinte episódio: [...] parte da aula os alunos ficam conversando sobre assuntos diversos enquanto a professora faz coisas paralelas, como por exemplo, organizar o seu diário de classe ou corrigir exercícios (p.2). A respeito disso, Foucault (2004) diz que o poder não existe, o que existe são práticas ou relações de poder. Qualquer luta é sempre uma resistência dentro da própria rede do poder. Onde há poder, há resistência. Não existe o lugar da resistência, mas pontos móveis e transitórios. O poder é luta, afrontamento, relação de força; não é um lugar que se ocupa, nem um objeto que se possui. Além da resistência por parte dos alunos, é visível também uma resistência por parte do docente, consolidada pelo seu descompromisso perante os discentes. A atitude do professor de ignorar o que está se passando dentro da sala de aula e desenvolver outras atividades, ao invés de ministrar sua aula, evidencia um descaso profissional. Note o acontecimento seguinte: A professora verifica a situação dos alunos no seu diário e fala p/ eles, enquanto isso, conversarem em tom baixo. Ela analisa a média de cada aluno. Em determinado momento a sala começa a fazer muita bagunça e ela fala: - Parem de falar alto, se vocês continuarem a falar desse jeito eu fecho a média do jeito que tá! (p.3). Com relação ao episódio, Paro (2008) declara que a maioria dos professores acredita que o interesse do aluno em estudar e a disciplina só se conseguem por via da chantagem. Um exemplo que evidencia a importância da noção de imagens do poder na compreensão da realidade do ensino é o fenômeno da reprovação escolar como “motivação” para o aluno estudar. Com a introdução em alguns sistemas de ensino da progressão continuada, e com a consciência por parte do aluno de que ele não será reprovado no final do ano letivo, desaparece a motivação do aluno, porque ele sabe que, estudando ou não, vai passar de qualquer forma. Na verdade, o que muda é a imagem que o aluno tem do poder do professor. Antes ele estudava ou fingia estudar, porque estava diante de uma ameaça, que podia se concretizar, porque o professor tinha o poder de puni-lo, reprovando-o. Agora com a 48 promoção automática, por mais que o professor continue com o poder de prejudicá-lo (avaliando-o negativamente no conselho de classe, denunciando-o aos pais, repreendendo-o e, sobretudo, deixando de proporcionar-lhe um ensino de boa qualidade) a imagem do poder do professor se desfaz porque sua “autoridade” advinha somente do poder de reprovar. A imagem do poder muda também para o professor. Especialmente o professor tradicional se sente aniquilado porque perdeu seu único poder que tinha diante da classe. Nos próximos episódios, é possível notar o reflexo do poder sobre o ambiente que atua, sobre o espaço físico: Alunos enfileirados, é entregue uma folha para ser realizado um gráfico (p.4). Dia de prova, os alunos enfileirados, a professora distribui a prova e pede silêncio. Prova individual e sem consulta (p.4). Na escola não são adquiridos apenas conhecimentos. Aprendemos também uma série de normas de comportamento, como: ordem, disciplina, respeito, obediência. A sala de aula com carteiras dispostas em fileiras privilegia o trabalho e sucesso individual, além de evitar que os alunos falem uns com os outros durante a aula. O valor implícito que a escola transmite é o individualismo (CECCON et al, 2006). Foucault (2005) defende que a disciplina é um tipo de organização do espaço. É uma técnica de distribuição dos indivíduos através da inserção dos corpos em um espaço individualizado e classificatório. Observe o próximo fato: A professora pega um mp3 de um aluno que ouvia música durante a aula [...] O aluno questiona a professora que “olhou” o celular. Aluno: - Ah professora, você pode atender o celular! Profª: - Primeiro: eu não atendi o celular, vocês nunca me viram atender o celular em sala de aula. Segundo: seu eu atendesse, eu sou a professora e você é o aluno! Aluno: - Ah! Eu também tenho uma filha pequena... Você é melhor do que eu? Profª: - Não, não sou, mas por enquanto eu sou a professora aqui (p.7). Stoppino (1991) diz que a autoridade é um tipo especial de poder estabilizado, chamado de poder legítimo. É aquele em que adesão dos subordinados é produto de uma avaliação positiva das ordens a serem acatadas. Apenas nessa segunda definição podemos dizer que 49 autoridade introduz em uma forma democrática de exercício do poder. É neste sentido de um poder institucionalizado ou estabilizado, que conta com a concordância livre e consciente das partes envolvidas, que termo autoridade será compreendido em nosso estudo. Será entendido como autoritarismo precisamente a negação dessa condição democrática da autoridade. Nessa situação, ocorre uma imposição de obediência. No episódio a seguir, ocorre uma ameaça por parte do educador: A professora interrompe a aula porque 2 alunos conversam muito e fala: - Eu acho que não estou numa sala de crianças! Vocês vão ver a próxima atividade que eu vou dar pra vocês! (p.8). Para conseguir o silêncio dos alunos, a professora faz uma ameaça a eles. Acha que assim está conseguindo impor respeito. Mas é totalmente o contrário. No momento em que age dessa forma, demonstra um grande desrespeito pelos educandos e afirma aquela postura. A punição acaba sendo uma motivação extrínseca ao ensino (APPLE, 1989). Segundo Foucault (2005), fica evidente no próximo relato que o ato de vigiar os alunos é o principal instrumento de controle da disciplina. É uma vigilância contínua e permanente que precisa penetrar nos alunos e estar presente a toda hora: A professora [...] começa a carimbar os cadernos (“dar visto”) e assinar (p.8). O objetivo aqui é imprimir um estado de permanente vigilância, de modo que o próprio indivíduo se transforme, no vigiar de si mesmo. O poder, assim, torna-se automático; no limite, ninguém precisa exercê-lo, é invisível (Foucault, 2005). Observe o episódio a seguir: A professora começa a passar um texto na lousa [...] quando termina ela pergunta o porquê alguns alunos não copiam... - Eu quero saber o porquê tem aluno que nao esta copiando? Vocês pensam que estao onde? Na casa de vocês? Eu disse que no 1º bimestre eu ia ajudar quem precisava de nota mas no 2º bimestre eu ia cobrar! Quero todo mundo abrindo o caderno e quem não tiver toda a matéria vai levar ponto negativo agora! (p.9). 50 A professora quer que os alunos façam exatamente o que ela está mandando, no caso copiar a matéria, sem nenhuma argumentação coerente. Para Ceccon et al (2006), os alunos não conseguem perceber o sentido nem a utilidade das coisas. Os exercícios escolares, repetitivos e impositivos, poucas vezes possuem uma real justificativa. Assim, com medo do castigo, os discentes acabam aceitando. - Relatório B (escola particular) Começamos a análise do relatório B com comportamentos evidentes de vigilância, controle e punição. Veja os episódios a seguir: A professora começou a passar de carteira em carteira olhando a tarefa, pegou a agenda de quem não fez a lição ou estava incompleto [...] Após olhar a lição de todos, ela sentou em sua mesa e rapidamente carimbou a agenda dos que não fizeram com um carimbo dizendo que o aluno não fez a tarefa, anotou também em uma pasta com uma folha identificada para cada aluno, que ele não fez a lição (p.1). Cerca de 7 alunos não fizeram a lição, a profª anota na agenda, na pasta e no seu controle (p.10). Pede aos alunos [professora] que peguem o material para dar visto na lição, vai passando de mesa em mesa, anota quem não fez a lição (p.8). A profª recolhe os exercícios e anota quem não entregou (p.9). Recolhe a tarefa, anota quem não fez (p.10). Neste caso, para moldar o comportamento - aqui no caso o ato de fazer a tarefa - do aluno ocorre a manipulação, que se baseia em um conflito presente, mas de forma potencial. Mesmo sem uso da coação, aquele que exerce o poder gera o comportamento do outro, ocultando ou disfarçando seu real objetivo. O controle é um dos recursos utilizados. Vale salientar que na manipulação há ocultação dos objetivos por trás da ação e também, intenção consciente dessa ocultação (PARO, 2008). Nessa escola, o poder institucionalizado também aparece como forma de controle: 51 Profª entra na sala, arruma suas coisas e faz chamada (p.8). Observe os próximos relatos: Cerca de 10 alunos não fizeram a lição e levaram o carimbo na agenda e a anotação na pasta. Alguns alunos questionam a professora do porquê precisar anotar na pasta [...] ela responde que é para os pais ficarem cientes do que acontece com os filhos na escola e que acha boa idéia da pasta (p.2). [...] [professora] coloca esquemas na lousa, os alunos conversam um pouco, pedem p/ ir ao banheiro, ela não deixa (p.32). Notamos aqui traços de autoritarismo. Stoppino (1991) diz que suas principais características são, de uma parte, a disposição à obediência preocupada com os superiores, incluindo por vezes o obséquio e a adulação para com todos aqueles que detêm a força e o poder; de outra parte, a disposição em tratar com arrogância e desprezo os inferiores hierárquicos e em geral todos aqueles que não tem poder e autoridade. Paro (2008) diz que os alunos desenvolvem um tipo de obediência e passividade que não é compatível com o exercício democrático de cidadãos autônomos, embutindo valores que favorecem a constituição de indivíduos acostumados a dominar os mais fracos e a obedecer sem resistência aos mais fortes. Diante de tantas formas de dominação, disciplinamento, vigilância e punição, os indivíduos criam maneiras de minimizar esses efeitos, através das resistências, como vemos nos episódios a seguir: [...] inicia a explicação, os alunos se acalmam, alguns prestam atenção, outros fingem que prestam lendo coisas de outras matérias ou passando bilhetinhos ou então apenas ficam quietos, mas com a mente em outro lugar (p.3). [...] quando a prof passava textos na lousa, alguns deitaram na mesa, como se estivessem dormindo, e a prof vendo isto, deu uma bronca e disse que se era pra dormir que ficassem em casa, se visse novamente alguém dormindo ia dar negativo. Os alunos ficaram meio assustados, e daí por diante ficaram em silêncio até após a explicação (p.4). 52 [...] eles [os alunos] conversam bastante, jogam borracha, branquinho, papel um p/ o outro e a profª corrige exercícios de outras salas; a profª inicia a explicação. Os alunos ficam quietos, mas não perguntam nada. Parecem não estar entendendo, parecem que estão “viajando” bem longe dali (p.10). Profª chega na sala, pede silêncio, arruma suas coisas, passa vistando a tarefa. Os alunos conversam bastante, andam pela sala, escondem agenda apara não levar bilhete, trocam de lugar para a profª não vistar o caderno. Parece que 13 alunos não fizeram a lição, alguns a professora não notou que trocaram de lugar (p.13). A prof pede para que façam lição no final de semana e que estudem para na próxima aula entenderem melhor o conteúdo, os alunos dão risada, dizem que irão fazer a tarefa, mas com ar irônico (p.7). Alguns alunos conversam durante a correção e a profª pára várias vezes para dar bronca neles, dizendo: “Não é porque vocês não fizeram a lição que vão ficar conversando! Podem copiar o que estamos falando!” Os alunos abrem o caderno e copiam a correção. Parecem estar fingindo a cópia, só para não levarem anotação na pasta (p.10). Profª passa matéria na lousa [...] Os alunos ficam tirando sarro dos nomes diferentes e conversam bastante, quando a profª vai iniciar a explicação, pede silêncio e diz que se alguém conversar irá dar como matéria dada, parecendo estar bem brava, não entendi por que. Ela consegue explicar sem que eles conversem, mas também não perguntam nada (p.27). Apple (1989) diz que os estudantes tornam-se mestres em “driblar o sistema”. Grande número deles adapta de forma criativa seus ambientes de forma que possam sair da aula, colocar humor em suas rotinas, controlar informalmente a cadência da vida escolar e, de forma geral, tentar levar o dia. Nessas mesmas escolas, muitos estudantes vão ainda mais além. Eles simplesmente rejeitam os currículos oculto e explícito da escola. O professor que está ensinando matemática, ciências, história etc., é ignorado o mais possível. Além disso, o ensino velado da pontualidade, asseio, obediência e outras normas e valores de raiz mais econômica é simplesmente repudiado tanto quanto possível. A verdadeira tarefa dos alunos é a de sobreviver até que o sinal soe. Observe os episódios que seguem: 53 Os alunos ainda estão agitados, por ser a primeira aula e conversam bastante contando fatos do dia anterior e o que farão no final de semana, perguntam pra professora o que ela fará [...] Ela diz que eles não podem se esquecer que no final de semana também é dia de se fazer lição e estudar (p.6). Nesse caso, o poder se estende para outros espaços, além daquele onde foi consolidado. Foucault (2005) afirma que toda sociedade impõe um controle social sobre o corpo. Por meio de certas técnicas que se aplicam ao corpo, o ser humano é visto como um objeto que pode ser modelado. A idéia é que uma função disciplinar molde as pessoas em tempo contínuo, pois quando o individuo passar de um espaço para outro, ou seja, quando ele vai ser moldado segundo outra função, a operação exercida sobre o corpo, no espaço anterior, deve servir como preparo para a nova função. Assim, os alunos precisam fazer a lição e estudar no final de semana, em suas casas, pois o ato de vigiar suas ações partirá de sua própria consciência. Os episódios de ameaça são corriqueiros: Cerca de 15 alunos não fizeram a lição. A profª conversa com eles, dizendo que esta é uma matéria difícil e que devem estudar em casa, fazendo os exercícios, senão terão problemas na prova (p.8). Os alunos ficam tirando dúvidas e conversando, começam a fazer muito barulho, a profª dá broncas dizendo que senão pararem vão ter problemas com a prova (p.16). Profª passa matéria na lousa [...] Enquanto copiam, [professora] faz a chamada, os alunos estão muito agitados, falam demais e não ouvem a chamada, a profª se irrita e grita com eles, pedindo silêncio, diz que desse jeito não dá, que eles vão ficar com falta (p.30). Ela [professora] diz que ao final da aula entregará as provas e eles verão o “desastre” (p.22). Atente para esse relato: [...] Diz [professora] para eles estudarem bastante, pois esses simulados ajudam muito no treinamento para o vestibular. Um aluno diz que não vai fazer FUVEST, pois sabe que não vai passar, então não vai se matar de estudar para o simulado, nem para o vestibular. A profª diz que ele deveria estudar bastante sim, que só precisa largar de preguiça e que o azar era dele (p.17). 54 Ceccon et al (2006) afirmam que a causa do fracasso dos alunos por vezes é apontada como resultado dos seus defeitos, insuficiências individuais e coletivas, como por exemplo, falta de dons, falta de inteligência, problemas de caráter. Assim, os responsáveis seriam a família ou o próprio jovem, eximindo a escola e a sociedade de qualquer culpa. Através do cotidiano escolar, os alunos vão se convencendo de que só existe uma solução, uma só verdade, e é o professor que detém a chave para todas as respostas. Os alunos não imaginam, não escolhem nada e acabam aceitando o status quo, uma ordem vinda de outros. No próximo episódio ocorre uma coisa curiosa: A profª diz que acha que não apresentaram dúvidas, pois a maioria fez a lição. Mas talvez, podem ter copiado da resposta da apostila (p.13). A professora associa o fato de a maioria ter realizado a atividade com a ausência de dúvidas e o conseqüente entendimento da matéria. Ou seja, ela nem se dá o trabalho de perguntar se os educandos têm dúvidas ou não. Ela tira suas conclusões. De acordo com Arendt (2005), quem detêm o poder, acaba tomando as decisões pelo outro, aquele sobre quem o poder é exercido. Observe o próximo episódio: Profª dá exercícios para os alunos resolverem, como revisão para a prova [...] Os alunos se mantêm quietos, prestam atenção, parecem estar com medo da prova (p.18). Para Ceccon et al (2006) as provas, os trabalhos, enfim, qualquer atividade que resulte em uma nota sucede-se nas escolas descontroladamente. Na maioria dos alunos são causa de tensão e inquietação, pois não conseguem perceber o sentido nem a utilidade das coisas. Os exercícios escolares, repetitivos e impositivos, poucas vezes possuem uma real justificativa. Assim, com medo do castigo, os discentes acabam aceitando. Alguns dispositivos de disciplinamento propostos por Foucault (2005) ocorrem automaticamente, pois já estão incorporados pelos indivíduos: 55 Em outra sala, quando a profª entra as carteiras já estão arrumadas e ela distribui as provas (p.19). Os alunos vão chegando e indo para seus lugares de costume [...] quando a maioria já está na sala, a profª pede p/ que os alunos que estão ao fundo venham p/ frente, entrega as provas, pede para fazerem silêncio [...] e então diz para começarem a prova [...] (p.19). Dentro da instituição escolar também ocorre uma hierarquização, devido o poder que cada um assume. O diretor sempre é visto como autoridade máxima dentro da escola. Depois dele temos o coordenador, o professor e por fim, lá na base da pirâmide, o aluno. O valor importante aqui é o da submissão, pois os inferiores devem obediência incondicional aos superiores. As relações são permeadas por dominação e medos (CECCON et al, 2006). Isso fica evidente nos seguintes relatos: [...] Na explicação a coordenadora chega na sala, interrompe a explicação p/ distribuir a apostila nova, a profª se parece um pouco incomodada, mas ajuda na distribuição (p.22). Eles [alunos] conversam bastante, a coordenadora entra para dar recado e eles se assustam e ficam quietos, a coordenadora diz para eles conversarem menos e produzirem mais, ela dá o recado, sobre o recreio, que está tendo muito lixo no pátio, os alunos ouvem, não falam nada (p.29). Por vezes, ocorre a transferência de problemas e conflitos para indivíduos que ocupam um lugar elevado na hierarquia. Isso acontece devido a idéia ilusória (FOUCAULT, 2004) de que, um coordenador por exemplo, possui mais poderes que um professor. Assim, apoiada na imagem de que determinado indivíduo tem mais autoridade, transfere a questão para que este a solucione. Podemos observar isso nos seguintes episódios: Um aluno estava copiando lição de Matemática de outro aluno, a profª viu e tirou dele o material, o anotou na pasta e disse que iria entregar p/ a profª de Matemática (p.24). Os alunos conversam bastante, fazem muito barulho durante a atividade, a profª pára tudo umas 3X para dar bronca e pedir p/ falarem mais baixo, até ameaça chamar a coordenadora (p.14). A ação de vigiar os alunos é muito presente: 56 “Provão”. A profª chega na sala, os alunos estão resolvendo o simulado [...] A profª fica a aula toda na sala fazendo suas coisas e os supervisionando (p.20). Foucault (2005) acredita que nos espaços institucionais acabamos nos sentindo vigiados constantemente e essa presença molda nossos corpos, nossas atitudes, nosso comportamento, nossa subjetividade. Muitas vezes os mecanismos que os professores utilizam parecem eficientes para a domesticação de seus alunos (FOUCAULT, 2005). Porém, um olhar mais cuidadoso revela que esses recursos muitas vezes são ineficazes, como vemos a seguir: Os alunos ao fazerem o exercício conversam bastante entre si, a profª dá umas broncas, pede para separar algumas duplas, Logo voltam a conversar (p.21). Isso acontece, pois do outro lado, os alunos exercem suas resistências e oposições a tudo que é imposto (APPLE, 1989). Observe o próximo relato: Cerca de 10 alunos não fizeram a lição, a profª se queixa de ter que ficar anotando, diz que perde muito tempo da aula (p.28). Neste caso, o próprio docente critica sua prática, dizendo que o ato de fiscalizar quem fez ou não a tarefa é perda de tempo. Reclama, porém, não faz nada para alterar sua ação. Talvez seja porque ele faça parte de um sistema de controles e normas tão fortes quanto aquele que impõe aos seus alunos e, então, acaba aceitando o sistema. E por conseqüência, sua prática fica restringida ao que lhe mandam fazer (CECCON et al, 2006). - Relatório C (escola particular) Observe o seguinte acontecimento: A professora fará chamada oral, de 15 em 15 dias. Ela chama os alunos por ordem alfabética na sua mesa e faz uma pergunta (p.4). 57 Um aspecto específico da vida escolar que expressa relações de poder é a avaliação, que é viabilizada de uma forma autoritária e hierárquica. Ela é consolidada não apenas com provas, mas também com atribuição de pontos negativos e positivos para toda e qualquer coisa; chamadas orais; notas de participação (HOFFMANN, 2005). A chamada oral, em específico, pode causar muito nervosismo nos alunos, afinal, alguns deles preferem escrever ao invés de falar, devido à timidez. Além disso, com a pergunta sendo feita oralmente o aluno precisa responder imediatamente, sem conseguir raciocinar, devido a imensa pressão. A professora iniciou a aula perguntando quem havia feito a lição de casa. Poucos alunos disseram que sim. Ela então perguntou o porque que quase ninguem tinha feito. Os alunos reclamaram dizendo que era muita coisa para fazer e a professora sempre dava tarefa para casa e que eles tem que fazer tarefas de outras matérias também (p.5). Note o acontecimento seguinte: Algumas alunas chegaram atrasadas do intervalo e a prof deu um carimbo de atraso na agenda de cada uma. Quando se completa três carimbos o aluno é obrigado à voltar para casa. Uma aluna tentou discutir coma professora argumentando o motivo de seu atraso e se alterou um pouco. Sua colega chamou sua atenção dizendo que não há pq bater boca, é uma regra da escola e tem que ser respeitada (p.8). O carimbo que a professora atribui às alunas corresponde a uma punição devido ao atraso. Porém, esse carimbo foi dado sem ao menos a professora perguntar o motivo do atraso, sem a possibilidade de argumentação por parte das alunas. Assim, fica muito claro aqui o exercício do poder. Outro ponto interessante é uma aluna falando para outra não responder ao docente, pois existe uma regra na escola que proíbe isso e ela tem que ser respeitada. Isso mostra que o corpo é submetido a uma tecnologia de poder onde ocorre um estado de permanente vigilância, de modo que o próprio indivíduo se transforma em um vigilante de si mesmo. O poder, assim, torna-se automático, formando fiscais perpetuamente fiscalizados (FOUCAULT, 2005). Percebemos no episódio acima que alunas foram punidas, pois tiveram uma postura classificada incorreta pela escola e conseqüentemente, pelo professor. Contudo, vamos evidenciar no episódio abaixo uma grande contradição: 58 A professora chegou atrasada. Quando chegou a sala estava uma baderna. Ela brigou com os alunos e disse que como “castigo” os alunos teriam que fazer exercícios a aula toda. Ela passou as páginas do livro didático e eles ficaram fazendo (p.9). Desta vez, quem se atrasa é a professora. E adivinhe? Não acontece nada com ela. Obviamente, porque dentro da sala de aula ela é a pessoa que está acima na pirâmide da hierarquia. Sendo assim, ela é quem detém e exerce o poder. E o pior, além de tudo, ela acaba punindo os alunos, pois achou que estavam sendo muito indisciplinados. Faz os alunos ficarem a aula inteira desenvolvendo exercícios, como forma de castigo. Isto é uma prova de que o próprio professor vê os exercícios dados negativamente, fazendo assim os alunos associarem esta prática de modo negativo também (SACRISTÁN, 2000). - Relatório D (escola pública) O poder institucionalizado aparece como forma de controle (FOUCAULT, 2006). Para que os alunos freqüentem a escola, a instituição obriga os professores a realizarem chamada todos os dias. Assim, controla a presença dos alunos, pois existe um limite de faltas impostas pela legislação educacional. Caso não existisse esse controle, provavelmente a freqüência seria muito pequena, afinal, a escola de hoje não oferece quase nenhum atrativo aos jovens: A aula começa [...] o professor entra, arruma seu material na mesa, faz a chamada (p.1). A vigilância constante é uma característica muito recorrente nos episódios. Ela é o principal instrumento de controle da disciplina. Não basta olhar os indivíduos às vezes ou ver se o que fizeram é conforme a regra. É preciso vigiá-los durante todo o tempo da atividade e submetê-los a uma perpétua pirâmide de olhares. A disciplina implica um registro contínuo (FOUCAULT, 2004). O professor [...] passa entre as carteiras para ver quem está copiando o resumo (p.1). A aula começa, o professor entra, arruma as carteiras dos alunos que estão dispersas pela sala [...] faz chamada e começa a passar matéria na lousa. Enquanto os alunos 59 copiam o professor passa entre as carteiras para verificar o andamento dos alunos (p.4). Enxergamos as escolas como um espelho da sociedade. A “sociedade” precisa de trabalhadores dóceis; as escolas através de suas relações sociais e de seus currículos ocultos garantem de alguma forma a produção dessa docilidade, da domesticação, do disciplinamento. Trabalhadores obedientes no mercado de trabalho são espelhados no “mercado de idéias” da escola (APPLE, 1989). É o que evidenciamos no episódio seguinte: Ele [professor] chega em um grupo de meninos e vê que nenhum deles está copiando e diz: - Porque vocês não estão copiando o que eu passei? Um dos alunos responde: - Ahh professor eu esqueci o caderno. O outro fala: - Não preciso copiar, eu estudo pelo livro. O professor diz: - Vocês sabem que eu visto e dou nota pelos cadernos então se vocês quiserem ficar com zero, por mim tudo bem! Todos terminaram a cópia (p.3). Além disso, nesse episódio fica claro que o autoritarismo do educador, exercido pela chantagem, sobrepõe a resistência (o ato de não copiar) dos alunos. As escolas podem e devem ser mais que espelhos reprodutivos. Sempre haverá elementos de contradição, de resistências, de autonomia relativa, que tem potencial transformativo (APPLE, 1989). Encontramos resistências de todas as formas possíveis: Algumas alunas não gostam de copiar a matéria e falam: - Professor, pára de passar esse resumo na lousa. Você ainda tem muitas aulas para dar hoje, você vai ficar bem cansado! (p.1). O professor chama atenção de 2 meninos: - Vocês estão copiando? - Estamos prof - Deixa eu ver O prof continua: - Mas vocês ainda estão na primeira parte! É bom vocês agilizarem pq já vou começar a explicação (p.9). 60 O professor pede para os alunos tirarem o boné. Eles não querem tirar. O professor diz que se vierem de boné na próxima aula, não vão entrar na sala. Os alunos dizem: - Duvido!!! (p.21). Alguns professores se sentem muito superiores perante os alunos, afinal, os educandos estão na escola para serem educados. O professor só está lá para ensinar, pois ele já estudou, portanto, sabe tudo. Certo - errado na verdade - de que o educando não detêm o poder, abusa de sua posição e toma atitudes muitas vezes exageradas (ARENDT, 2001). Veja o próximo episódio, onde o professor foi verbalmente violento: [O professor] Diz aos alunos que irá distribuir os livros que eles irão usar nesse ano [...] Começa a distribuir os livros em ordem de chamada. Após ter distribuído todos os livros o professor diz: - Vocês não precisam trazer o livro todos os dias, só quando eu pedir. E mais importante, irei atribuir nota para a conservação dos livros pois ano que vem outros irão usar. Um dos alunos diz: - Você está nos chamando de vandalos? O professor responde: - Mais ou menos!! (p.2). A disposição das carteiras facilita o exercício do poder, pois promove o individualismo, gera a possibilidade de uma vigilância e controle maior e aumenta a domesticação (FOUCAULT, 2006): [...] [professor] pede aos alunos para organizarem as carteiras. Faz a chamada e começa a passar um resumo na lousa. Pede para todos copiarem e não conversarem (p.6). O professor fala para os alunos: - Por que vocês tiram as carteiras do lugar? A sala fica uma bagunça. Podem colocar essas carteiras enfileiradas no lugar e na última aula quando eu voltar aqui, quero que a sala continue arrumada, se não vou tirar ponto de participação. Um dos alunos insiste em não colocar a carteira no lugar. O prof briga: - Coloca a carteira no lugar agora O aluno diz: - Não “enxe o saco” O prof retruca: - Então é melhor você ir pra fora falar com a diretora. 61 O aluno, com má vontade, põe a cadeira no lugar (p.8). Esse segundo episódio mostra outros fatores além da vigilância aumentada pela composição do espaço físico. A princípio, o professor tenta exercer seu poder mandando o aluno colocar a carteira no lugar correto. Contudo, o aluno demonstra resistência, não cumprindo o papel de “bom aluno”. Não sabendo agir, o professor além de ameaçar expulsar o aluno, recorre a alguém superior dentro da hierarquia, que ele acredita deter mais poder. Com isso, o aluno sente medo e cessa sua resistência. Acaba fazendo o que o professor manda; uma atitude de um “bom aluno”, pois em uma luta de forças, em um conflito, quem pode mais vence (CECCON et al 2006). As ameaças e chantagens estão presentes quase todos os dias (PARO, 2008), pois são formas de garantir a ordem, a obediência, a disciplina, a domesticação, a docilidade: Em um determinado momento o professor fala: - Se vocês não fizerem a lição, não vão ganhar o ponto (p.4). [...] ele [professor] passa em cada carteira vistando os cadernos, coloca um carimbo no caderno, pede o nº do aluno e marca um ponto (p.4). O prof começa a fazer a chamada [...] ele diz: - Quem não responder vai ficar com falta. Eu não quero nem saber (p.19). [...] e o professor fala: - Então era melhor vocês não terem ganhado livro, pq ninguém trás!! Da próxima vez que eu pedir o livro e vocês não trouxerem eu vou tirar ponto (p.18). O professor reclama e pede para um aluno tirar o fone de ouvido. Depois um dos alunos coloca uma música alta no meio da sala e o prof diz: - É bom você desligar isso. Se eu pegar eu não devolvo (p.14). O professor entra, arruma as carteiras. Da exercícios e diz que para responde-los os alunos irão consultar o livro. E diz: - Quem não trouxe o livro vai ficar com zero. Quem não trouxe o livro? Mais da metade dos alunos levantam a mão, aí o professor diz: - Desse jeito a maioria vai estar aqui nessa sala ano que vem de novo (p.12). 62 [...] o professor começa a passar um resumo na lousa e pede para que os alunos copiem. Durante a cópia muitos alunos conversam e o professor pede para conversarem baixo e copiarem logo. Ele diz: - Vocês já copiaram essa parte da lousa? A maioria responde: - Não. Aí o prof diz: - Mas vocês estão conversando então eu acho que vocês já acabaram né?!! Vou apagar a lousa (p.25). O professor reclama com algumas meninas pois elas demoram muito para voltarem do intervalo. - Vocês já estão quase 10 minutos fora do horário. Dá próxima vez vocês não vão entrar! (p.28). [...] faz uma revisão [...] Uma das alunas está com o celular na mão e o prof diz: - O que você está fazendo com esse celular? Você ta tirando foto de mim? É bom você apagar isso. - Não prof, eu não tirei foto sua. O prof vai até a aluna e diz: - Então eu tbm vou tirar uma foto sua. - Mas eu não tirei. - Deixa eu ver. A aluna acaba apagando a foto (p.21). E conseqüentemente, para sobreviverem até que toque o sinal e a aula termine, os alunos praticam variadas formas de resistência (APPLE, 1989): Os alunos copiam e conversam ao mesmo tempo. Sempre há alguns alunos ouvindo música, mexendo no celular (p.15). [...] o professor mal consegue falar, porque há muita conversa na aula (p.16). [...] o professor passa exercícios e começa a vistar [...] Ao chegar em uma das alunas o prof diz: - Cade os exercícios? - Estão aqui. - Mas estão incompletos, para ganhar o ponto você tem que completar. - Há prof, me dá o ponto. - Não. - Eu não vou fazer porcaria nenhuma. - Então ta. Vai ficar sem o ponto. 63 - Eu não ligo para essa droga de ponto. O prof deixa a aluna reclamando (p.17). - Relatório E (escola particular) Como em outras instituições, o controle imposto através do poder institucionalizado se faz presente (PARO, 2008): Faz chamada no início da aula (p.2). Evidenciamos muitas manifestções de resistência (APPLE, 1989) por parte dos alunos. Observe os episódios a seguir, que demonstram essas ações: Os alunos conversam bastante sobre outros assuntos durante a aula. (p.2). Ocorrem poucas perguntas, sem associação com a vida dos alunos. Muita conversa paralela (p. 3). [...] o professor leva os alunos a sala de informática pede a eles que procurem sites confiáveis, perguntas que ele escreve na lousa ou perguntas do livro, os alunos procuram e a medida que vão acabando mandam a pesquisa por e-mail para o professor, e isto vale como positivo [...] alguns não procuram e entram em sites de bate-papo, Youtube ou Orkut, outros copiam e colam o que acharam da Internet sem ler e mandam sem arrumar para o professor (p.5). Em todas as aulas as quais eram feitas provas, alguns alunos faziam colas, ou colavam de colegas ou ainda conversavam com colegas sobre questões (p.15). Enquanto o prof passa matéria na lousa os alunos copiam e conversam sobre outros assuntos, riem, brincam, mas sentados nas cadeiras em fileiras (p.7). Neste último episódio fica evidente que além da resistência exercida pelo aluno, há uma forma de disciplinamento imperando dentro da sala de aula. O espaço físico, com a disposição das carteiras enfileiradas, promove um disciplinamento automático. Ou seja, os alunos podem conversar, rir, brincar, mas não saem de seus lugares, pois existe ali um poder vigente, mas que é invisível (FOUCAULT, 2004). 64 As formas de vigilância e controle propostas por Foucault (2005) se fazem presentes nos seguintes relatos: Alunos que terminaram [questões] recebem visto e o prof dá positivo no seu caderno de “notas” [esta faz parte da nota de participação] (p.5). [...] Os alunos conforme a participação e o envolvi//o ganharão nota! E virarão créditos que no final do ano será distribuído a matéria que o aluno quiser (p.14). A escola possui um sistema de incentivos externos muito semelhantes ao pagamento na esfera do trabalho. Estes incentivos são as notas que os alunos recebem. Então, é como se estivesse recebendo uma recompensa por fazer ou não a tarefa. É o que acontece nesse segundo episódio (AFONSO, 2005). Observe o próximo episódio: A voz do professor sempre é alta, “tônica”, “grossa” [...] mantém contato [olhar] sempre com os alunos (p.9). Acreditando que possui maior superioridade, o professor adota uma postura condizente com sua idéia. Possivelmente, para ele o “bom professor” é aquele que ordena, sabe, decide, julga, anota, pune, afinal ele é a autoridade maior dentro da sala de aula (CECCON et al, 2006). - Relatório F (escola pública) O exercício do poder praticado sob formas de vigilância, controle, dominação, obediência permeiam alguns episódios. Ocorrem abusos, ameaças, chantagens, contradições, medos, como vemos nos relatos abaixo: Quando um aluno foi tirar uma dúvida e ele foi explicar, tinha outro aluno falando alto e então, o professor ficou extremamente nervoso com isso e falou para o aluno que desse jeito não ia dar certo e que se ele não ficasse quieto ia para fora. Achei muito exagerado o tom do professor com o aluno e eu já imaginava que ele teria 65 dificuldades para controlar os alunos, pois ele os deixa ficarem conversando muito e depois tenta conseguir silêncio repentino (p.4). [...] pediu para os alunos abrirem o caderno e chamou um aluno para começar a ler o texto. Cada aluno que terminava de ler, escolhia outro para continuar. Não achei muito interessante isto, pois os alunos se dispersavam, ficavam se escondendo para não serem escolhidos (p.6). O professor chegou, esperou os alunos entrarem e sentarem em seus lugares e depois fez chamada. Este foi o dia que chegou a lista de chamada. Para fazer a chamada, o professor vai chamando os números e se algum aluno não responder e for pedir presença, ele não dá (p.14). Durante a leitura, um aluno se recusou a ler e o professor disse que quem se recusasse é porque não sabia ler e não estaria participando da aula. Ele disse que ou ele lia ou ia embora. O aluno continuou se recusando a ler e então, o professor o mandou para fora da sala (p.19). Após os alunos copiarem, ele vistou os cadernos (p.25). [...] um aluno nesta sala também não quer ler e desta vez, ele falou que ia dar um ponto negativo (p.21). Os alunos conversaram bastante, mas copiaram o que foi passado e o professor ficou andando pela sala para verificar o que os alunos estavam fazendo (p.27). [...] vistou os cadernos dos alunos que ele não vistou ontem e tinha valor: 2,0. Os alunos que não fizeram ficaram com nota 1,0, pois o professor não pode dar zero porque isto iria significar que o aluno não está freqüentando a escola (p.27). [...] o professor pediu para uma aluna passar na lousa uma matéria de um livro dele para os alunos copiarem. Ele ficou sentado na mesa e as vezes observava se os alunos estavam copiando a matéria (p.19). Também são recorrentes formas de resistência, como vemos nos relatos abaixo: A aula estava quase terminando e uma aluna começou a perambular pela sala e o professor ficou só observando e depois pediu para ela sentar, porém ela continuou do mesmo jeito. Até que uma hora ele resolveu perguntar para ela onde ela pensava que estava e ela respondeu: na escola (p.4). 66 O professor [...] pediu para os alunos anotarem o trabalho do bimestre. Os alunos começaram a gritar e falaram um monte de coisa, pareciam inconformados e ficavam falando que estava muito cedo para isso (p.5). O resto da aula os alunos ficaram conversando e um menino estava escutando música com fone e quando o professor viu, ficou bravo e pediu para ele tirar, pois o aluno sabe que é proibido (p.9). Às vezes ocorre a estrapolação e abuso de poder. Apesar de muitos comportamentos e atitudes serem inadequadas e condenáveis, existe coisas que são inadmissíveis, não só dentro da escola, mas em qualquer ponto da sociedade, como por exemplo, xingamentos. Observe o episódio a seguir: Os alunos reclamaram porque o professor estava passando trabalho e como continuaram a reclamar do trabalho ele fez um comentário falando que sabe que alguns não têm o que reclamar pois são vagabundos (p.10). Observe o seguinte episódio: Até o momento, de todas as salas observadas é a sala em que os alunos ficam quietos durante a leitura do texto mostrando que estão prestando atenção (p.12). Talvez esse comentário esteja equivocado. O silêncio dos alunos não comprova que eles realmente estão prestando atenção. Essa atitude por parte deles pode ser mais uma forma de resistência. Enquanto estão quietos podem estar “viajando”, pensando em outras coisas, com a cabeça em outro lugar (APPLE, 1989). Note o episódio seguinte: Um aluno estava em pé e ele [professor] perguntou o que estava acontecendo e o aluno respondeu que o outro estava sentado no lugar dele e então, o outro aluno disse que chegou primeiro e na carteira não tem o nome de ninguém. O professor pediu para parar de criar caso e então, a aluno disse para ele: Eu sempre sento aqui “fio”. O professor disse: “Fio” não e o aluno disse: Claro que é, com esse cabeção aí. O professor ficou irritado e o mandou para fora da sala (p.29). 67 O aluno foi inicialmente resistente, argumentando que não existe uma carteira com o nome escrito de cada aluno. Portanto as carteiras são livres, vagas e se senta aonde quiser. Porém, isso contrariou um colega, que acredita que cada um tem seu lugar pré-estabelecido – este aluno provavelmente já foi domesticado (FOUCAULT, 2005). O professor interferiu na discussão e o aluno faltou com respeito a ele. Porém, no final, o professor não conseguiu contornar a situação, não conseguiu suportar a idéia de seu poder está sendo ameaçado. Por isso, expulsou o aluno da sala de aula. Veja o seguinte episódio: Durante a explicação, um aluno interrompia várias vezes para fazer perguntas e tirar dúvidas, fazendo comentários e às vezes o professor ficava irritado com ele (p.23). De acordo com Ceccon et al (2006), o aluno deve apenas calar, escutar, obedecer e no fim, ser julgado. O considerado “bom aluno”, é aquele jovem disciplinado, dócil, quietinho, que só ouve o que o professor diz. Assim, nesse caso, ele não foi um bom aluno, pois ficou questionando o professor. No episódio seguinte, um aluno pergunta ao professor por que ele precisa seguir uma regra, sendo que não tem ninguém olhando. O professor responde apenas que regras são regras. Nesse caso vem à tona o conceito de Foucault (2004) sobre as pirâmides de olhares, onde um vigia o outro. Um olhar que vigia e que cada um, sentindo-o sobre si, acabará por interiorizar, a ponto de observar a si mesmo; sendo assim, cada um exercerá esta vigilância sobre e contra si mesmo. Observe a seguir: Durante a explicação, um aluno estava com fone no ouvido e o professor pediu para ele tirar, pois é proibido e o aluno falou: Mas professor ninguém está vendo! E o professor disse: Mas regra é regra, tira porque não pode. O aluno tirou o fone, mas pareceu ter ficado bravo com o professor (p.11). - Relatório G (escola particular) 68 No interior da sala de aula, para haver a legitimação do poder, podem ocorrer métodos coercitivos implícitos – incentivos e desincentivos - e explícitos – restrições apoiadas pelo poder do Estado. Não é necessariamente uma ameaça, pode ser uma promessa de vantagem ou suborno (BRUNER, 2001). Observe os próximos relatos: Todo conteúdo deve ser anotado no caderno porque o mesmo será posteriormente vistado e avaliado pelo professor (p.10). Os slides traziam fotos das doenças, as quais por vezes eram motivo de risadas. O professor intervinha nessas situações, alegando que era preciso ter respeito, que isso poderia ocorrer com um membro familiar de qualquer um deles e que esse desrespeito poderia custar nota (p.17). E, contrariando o sistema, as resistências (APPLE, 1989) aparecerem. Veja o relato: Os alunos, de modo geral [...] reclamam do rigor com o qual o professor atribui a nota trimestral, uma vez que ela é composta de diversas atividades, como provas, nota de caderno, nota de comportamento – atrelada ao cumprimento das atividades, podendo ser reduzida mediante indisciplina, chamada oral, execução de exercícios no quadro (p.11). Para se certificar que todos estão acompanhando a leitura, o professor adota o seguinte método: um aluno começa a ler, em um momento repentino, o professor chama outra pessoa para continuar a ler, do ponto que a outra pessoa encerrou. Isso é mais uma forma de controle (FOUCAULT, 2005). Observe: [...] solicitou que um aluno desse continuidade a leitura. Este lia alguns minutos, até que outro aluno fosse selecionado (p.12). - Relatório H (escola particular) Começaremos demonstrando nesses relatos as resistências (APPLE, 1989) que permeiam a instituição escolar. Observe os seguintes episódios: Há muitas conversas paralelas. Várias vezes o professor tem que parar a aula e pedir silêncio (p.2). 69 Essa sala estava em silêncio absoluto. A maioria estava prestando atenção, mas alguns estavam com aquele olhar fixo, perdido, do tipo “tô viajando” (p.6). [...] começou a explicação e duas meninas estavam dormindo. Foi até elas, as acordou e pediu que fossem lavar o rosto. [...] continuou a explicação, e depois começaram umas conversinhas paralelas. Ele precisou interromper a aula novamente. depois [...] ele ficou muito irritado, pois pegou uma menina fazendo exercícios de outra matéria. Parou a aula e começou a falar: “o que vocês pretendem da vida? Qual o objetivo de vocês? [...] Eu fico aqui me esforçando para dar uma aula diferente pra vocês, mas vocês não tão nem aí. Reconhecimento zero! [...]” O silêncio se instaurou (p.9). Nesse último episódio, houve uma resistência inicial por parte dos alunos, e depois, por parte de uma única aluna especificamente. Entretanto, quando o professor começou a brigar com a sala, todos ficaram quietos. Ou seja, aqui ocorreu uma luta de forças. Os alunos resistem, mas no final o docente vence a batalha, obtendo um silêncio coletivo. Para o professor, pouco importa se ele conseguiu isso por meios legítimos. O que vale é que ele teve o que queria desde o começo: silêncio. Em muitos momentos fica claro que o professor só consegue resultados com os alunos através da ameaça. Ficamos com a impressão que ele faz de tudo para os discentes terem medo. Ele transmite nas suas atitudes e falas a convicção de que o medo que seus alunos têm dele, não é medo, é respeito (APPLE, 1989). Por vezes, o docente não fica só na ameaça. Vai lá e cumpre tudo o que falou, da maneira mais autoritária possível (STOPPINO, 1991). Veja a seguir: [...] Uns alunos não param de conversar. Ele abre a porta e fala pra eles irem dar um passeio. Aí o silêncio se estabelece (p.2). [...] um menino não ficava quieto. O professor chamou sua atenção 2 vezes, na terceira: “Pode sair da sala!” Aí o menino: “Mas professor...”. E ele: “Sem mais! Pode sair!”. A aula continuou normalmente (p.12). [...] A sala estava uma bagunça. Entrou na sala e já começou a arrumar a lousa, nem falou com eles. Parecia irritado esse dia. Terminou de organizar a lousa e quando 70 virou-se pegou no flagra dois meninos brincando de guerrinha de papel. Mandou os dois saírem da sala na mesma hora (p.5). [...] quando [professor] terminou pediu silêncio imediatamente. Eles insistiam na conversa. Então o professor contou o que tinha acontecido no 3º ano, na 1ª aula (a expulsão!). No mesmo momento eles ficaram quietos (p.7). Freitas (2003) acredita que os procedimentos de avaliação estão articulados com a forma que a escola assume como instituição social, o que, em nossa sociedade corresponde a determinadas funções, como hierarquizar, controlar e formar os valores impostos pela sociedade (submissão, competição, entre outros). Observe o próximo acontecimento: TESTÃO. Prova que eles realizam toda sexta-feira, com todas as matérias [...] A prova é uma simulação do vestibular. O clima é de tensão, pois rola uma grande competição entre os alunos (p.4). No meio da prova alguns alunos que finalizaram começaram a entregar. De repente, do nada, uma menina que estava sentada no fundo da sala começa a chorar. Ela começa a falar que está nervosa; que não agüenta essa pressão; que ela vai mal; que não sabe nada. O professor tira ela da sala e a chama para conversar. Depois ele me contou que a menina estava com medo dos pais, que cobram ela demasiadamente. Disse que não queria decepcioná-los com notas ruins. E ao mesmo tempo, teme não passar no vestibular (p.7). As provas representam para a grande maioria tensão e inquietação, ampliadas pela pressão dos pais, que acabam sobrepondo ao sistema das notas um sistema próprio de punições e recompensas. Os alunos não conseguem perceber o sentido nem a utilidade das coisas (CECCON et al, 2006). - Relatório I (escola particular) Iremos registrar as resistências (APPLE, 1989) que ocorrem no cotidiano escolar. Observe-as a seguir: Sendo uma aula após o intervalo, acontece o atrazo habitual dos alunos (p.6). 71 Houve muita conversa [...] (p.9). Nessa escola também ocorre o controle da frequência dos alunos, através da chamada. Isso é uma forma de poder institucionalizado, já incorporado à instituição (PARO, 2008): Os alunos se sentam, respondem a chamada (p.18). Observe os próximos acontecimentos: Ela [professora] explica quais foram os principais problemas na elaboração dos textos, mas não pede para os alunos refazerem. Estes mal escutam o que havia de errado, se focando em comparar as notas que receberam entre si (p.4). A professora devolve os execícios das organelas celulares para cada dupla e discute os erros mais comuns, enquanto novamente os alunos poucos prestam atenção, pois se encontram ocupados discutindo suas notas (p.15). A professora não utiliza os erros dos alunos como algo positivo. Ao invés de fazer a correção e depois permitir que os alunos refaçam a atividade, para notar se efetivamente eles aprenderem algo, a professora usa os erros apenas como critério para atribuir notas. Portanto, segundo Freitas (2003), a avaliação sempre está articulada com a forma que a escola assume como instituição social, o que, em nossa sociedade corresponde a determinadas funções, como hierarquizar, controlar e formar os valores impostos pela sociedade (submissão, competição, entre outros). Os episódios a seguir evidenciam o disciplinamento dos alunos obtido pelo exercício do poder do docente. Isso ocorre através de punições, ameaças, chantagens e promessas. Vale pontuar que esses métodos muitas vezes não funcionam. Observe: Mais uma vez o atrazo habitual após o curto intervalo de 10 min ocorre. A professora resolve então conversar com a turma e diz que eles serão prejudicados (p.10). A aula que ocorreu no laboratório foi [...] observação de células vegetais provenientes do catafilo de Alium cepa [...] Duas meninas começaram a chorar falando que a cebola estava irritando os olhos delas e então alguns meninos começaram a rir da cara delas. A professora pediu colaboração das pessoas que 72 estavam envolvidas no ocorrido e falou que a nota de conceito deles estava sendo prejudicada pela atitude não condicente com a postura de laboratório, assim um relativo silêncio foi obtido e a aula prosseguiu (p.11). Após o intervalo, o atrazo de 50% da sala ocorre como de costume. A professora ameaça tirar nota da participação dos alunos que atrazam, pois são sempre os mesmos e a conversa aparentemente não adiantou para a conscientização (p.14). Mais uma vez dois alunos chegam após a chamada. A profa dá presença a eles, mas desconta a nota de participação destes (p.21). O ensino velado da pontualidade, asseio, obediência e outras normas e valores de raiz mais econômica é simplesmente repudiado tanto quanto possível (APPLE, 2005). Neste último episódio, a professora pune os alunos que chegaram atrasados, através da diminuição de suas notas. Nem dá a oportunidade dos alunos justificarem o atraso. Contudo, veremos no episódio seguinte uma grande contradição: A professora atraza-se um pouco e então o início da aula da-se com 10 min de atrazo (p.18). A mesma atitude que a professora repreendeu anteriormente, desta vez é ela que comete. Ela puniu os alunos pelo atraso, mas o mesmo atraso que ela cometeu não é punido, afinal, dentro da sala de aula não existe ninguém que pode a recriminar. Note os episódios seguintes: [...] os alunos já estão na classe. Quando a professora entra, eles retomam seus lugares [...] (p.1). Ao final da aula a profa sai, mas os alunos permanecem em seus lugares, ainda copiando grande parte dos desenhos e esquemas que ocupam a totalidade da louza (p.22). Acabamos nos sentindo constantemente vigiados nos espaços institucionais. Essa presença molda nossos comportamentos, nossas atitudes. Esse “controle” sobre o nosso corpo é exercido de modo automático e silencioso. Por meio de certas técnicas que se aplicam ao corpo, o ser humano é visto como um objeto que pode ser modelado. A idéia é que uma 73 função disciplinar molde as pessoas em tempo contínuo, pois quando o indivíduo passar de um espaço para outro, ou seja, quando ele vai ser moldado segundo outra função, a operação exercida sobre o corpo, no espaço anterior, deve servir como preparo para a nova função (FOUCAULT, 2005). Assim, mesmo a sem a professora pedir, os alunos vão para seus lugares, e depois, mesmo ela saindo da sala, os alunos não saem de seus lugares. Esses eventos demonstram que os alunos já estão domesticados, moldados e agem automaticamente. - Relatório J (escola pública) No interior da sala de aula ocorrem métodos coercitivos, onde há claramente um conflito de interesses entre quem tem o poder e quem é o alvo dele. Não é necessariamente uma ameaça, pode ser uma promessa de vantagem ou suborno (PARO, 2008). Tudo isso é feito com uma constante vigilância e com o objetivo de desenvolver nos alunos o disciplinamento, a docilidade, a domesticação (FOUCAULT, 2005), como constatamos nos relatos a seguir: A aula encerrou-se com a professora avisando que na próxima aula tomará medidas mais drásticas quanto ao comportamento (p.2). [...] mau comportamento durante as primeiras aulas. A professora fez uma pressão maior também, dizendo que a prova seria igual ao comportamento em sala (p.6). Nessa sala especificamente, ela [professora] pediu que os exercícios passados fossem entregues, devido a indisciplina (p.11). Ao final da aula realizou a conferência dos cadernos dos alunos, já que é uma avaliação que compõe a meta deles (p.6). Nesse dia, em uma conversa com o diretor, falamos sobre o sistema de avaliação da escola. Ele confessou pra mim que acha a avaliação do colégio muito tradicional, mas que, apesar dos apesares, tinha suas vantagens, pois intensificava a disciplina e dedicação dos alunos [...] O diretor ainda complementou: “os alunos novos acabam demorando mais para se adaptar principalmente no quesito disciplina, inclusive 74 fazemos tempo de adaptação com orientação para evitar problemas entre os alunos, professores, e ainda, outros colegas” (p.15). [...] No final da aula perguntei pra professora como ela dava nota de participação dos alunos e ela respondeu: “no tema caderno, observo a resolução dos exercícios e organização e disposição das idéias no caderno, já que é uma ferramenta de estudo, precisa estar organizada. Sempre falo para meus alunos que o caderno traduz o que eles são! E no quesito comportamento, realmente sou rígida, principalmente com alunos que não entendem o recado [...] Disciplina, organização e estudo são conceitos obrigatórios nessa etapa da vida” (p.17). Partindo para a segunda etapa da aula, a sala foi dividida em duplas e o questionário foi dividido. Eu ficaria responsável por ajudar supervisionar, já que a professora tinha um congresso e precisava sair. Essa foi a primeira vez que eu notei sinais de indisciplina na aula, com conversas, e demora para soluções das questões. Mas logo consegui impor respeito, falando um pouco mais alto e de certa forma explicitando que a referida atividade valeria nota e assim consegui com que todos fizessem seus relatórios [...] (p.13). É curioso notar que neste último episódio, até o estagiário acredita a indisciplina – aqui categorizada como a conversa dos alunos – pode ser combatida com a imposição de “respeito”. Ele acredita que essa imposição é feita através da alteração do tom de voz e com a citação de que a atividade em questão valerá nota. Ou seja, usa de seu poder transitório com os alunos e ainda os ameaça, através da atribuição de nota para o trabalho executado. Por fim, os discentes acabam fazendo a atividade proposta, mas não por livre e espontânea vontade, e sim por medo, submissão e disciplinamento. - Relatório L (escola particular) As provas, trabalhos, pontos de comportamento, enfim, qualquer forma de punição e penalidade para os alunos são causa de tensão e inquietação, maximizadas pela pressão exercida pelos pais (CECCON et al, 2006). O prêmio e a punição são motivações extrínsecas ao ensino (APPLE, 1989). Punição e premiações observadas nos relatos abaixo: Ela [professora] ia anotando positivo em seu controle pras pessoas que haviam realizado a atividade [...] (p.2). 75 A prof entregou aos alunos os exercícios, + p/ quem fez e – p/ quem ñ fez (p.6). [...] ela [professora] falou que ia marcar quem não estivesse estudando (p.9). [...] [professora] anotou quem ñ havia trazido avental (p.25). Ela [professora] passou nas carteiras dando positivo e negativo para quem não fez e mandou alguns alunos irem na lousa passar as respostas (p.18). [...] ela [professora] foi passando nas fileiras olhando o caderno de cada aluno para ver se os exercícios que ela havia pedido estavam feitos. Ela foi marcando positivo e negativo (p.38). Ela [professora] olhou as respostas de uma aluna e pediu para que essa colocasse todas as respostas na lousa. Enquanto essa aluna passava as respostas na lousa, os alunos conversavam e a professora anotava na pasta da sala os alunos que não tinham ido bem na prova, ou que não haviam feito muitos exercícios (p.43). Os alunos realmente estavam fazendo os exercícios, e quando terminaram levaram para a prof vistar e dar positivo. Um aluno disse: - Nossa, meu primeiro positivo! (p.51). Nos próximos episódios podemos analisar uma série de relações de poder. Fica constatado o uso da vigilância, pelo professor, para manter a disciplina dos alunos, no primeiro episódio em prova e no segundo em aula. A resistência por parte dos alunos que conversavam em ambas as ocorrências e por um aluno que tentou colar no episódio da prova: A prof entregou as provas para os alunos [...] Ao longo da prova ela andava pela sala, ficava em pé no fundo, ou fazia algumas coisa em sua mesa [...] Apenas 1 aluno foi visto tentando colar [...] Quem terminasse a prova entregava e poderia, de acordo c/ a prof, ou estudar Física (q seria a outra prova deles no dia) ou dormir, mas não conversar. Houve conversa (p.11). A prof entrou na sala e disse que iria vistar os exercícios [...] Ela demorou quase 15 minutos para vistar o caderno de todos os alunos. A maioria dos alunos estava em pé, conversando alto. Depois, a professora pediu para que duas alunas passarem as respostas na lousa. Os alunos sentaram-se, alguns copiavam as respostas, mas o barulho alto na sala continuou. A professora realizava suas atividades em sua mesa (p.45). 76 Na ocorrência abaixo os alunos resistem, a todo o momento, à aula. Muitos professores defendem a hierarquia, no entanto, para serem aceitos pela classe, alguns educadores renunciam seu papel, confundindo-se com os alunos e instituindo um mal-estar nos discentes (CECCON et AL, 2006): Quando a prof terminou a correção oral, mtos alunos levantaram, ficaram andando pela sala, brincando entre si e até gritando. O assunto era futebol e o final do campeonato paulista [...] Ela começou a passar matéria nova na lousa [...] Nesse momento, os alunos estavam praticamente gritando, a prof falou que estava passando matéria nova e mtos alunos falaram ao mesmo tempo: Não! A prof deu risada e falou para eles copiarem [...] a maioria dos alunos não estava copiando, todos estavam conversando, alguns estavam até gritando. A prof às vezes pedia para eles falarem mais baixo, e às vezes até entrava no assunto deles (p.31). Nos fatos a seguir, os educandos resistem de forma sutil e inteligente, criando mecanismos para se desprender de todas as maneiras de disciplinamento e dominação (APLLE, 1989): [...] a maioria dos alunos não terminou a atividade e ficou conversando (p.6). A sala estava bastante agitada e alguns alunos estavam conversando muito. A prof parava de falar e ficava olhando p/ a sala, para que os alunos parassem tb (p.10). [...] a sala estava agitada, fazendo muitos comentários, muitas perguntas e tentando colar (conversar com os amigos sobre a prova) [...] (p.12). A conversa foi muita, a prof pedia silêncio mas não adiantava, então, como depois dessa aula já era intervalo, ela liberou os alunos que já haviam terminado a prova (p.13). Enquanto a prof. passava o resumo, a maioria dos alunos estavam conversando e poucos estavam copiando (p.16). Nesse tempo que ela [professora] deixou para eles fazerem as questões, a grande maioria da sala estava falando muito alto, estava em pé e um aluno estava até com o rádio do cel ligado. Ela pediu para que ele desligasse o rádio do cel e ele desligou. Ela falava que iria terminar logo o tempo deles fazerem as questões, mas eles nem se manifestaram (p.16). 77 A prof entrou na sala, tentou dar um recado sobre quem tinha perdido uma aula de laboratório, mas não estava conseguindo, de tanta conversa. Ela pediu silêncio por mais de uma vez, até q deu o recado, mesmo com conversa (p.35). [...] A prof pediu silêncio; a sala ainda estava conversando mto, ela continuou explicando e pediu para q eles fizessem exercícios q estavam naquela folha. Eles ficaram conversando e poucos começaram a fazer (p.36). [...] Durante a explicação mtas vezes ela tinha que falar mais alto e pedir silêncio (p.37). Os alunos sentaram-se em grupo e realizaram a atividade. A prof deixou eles ouvirem música. Havia 3 músicas ≠s tocando. Por diversas vezes a prof pedia para eles abaixarem, mas o volume continuava o mesmo. Ela ficou em sua mesa realizando suas atividades (p.41). [...] Depois de vistar ela [professora] ficou sentada, chamando a atenção da sala, pois a maioria não estava corrigindo, estava falando alto, e até jogando futebol com bola de papel. A professora pedia pra eles se sentarem, copiarem a correção, mas não adiantava, eles continuaram (p.53). Nos episódios abaixo, além da resistência dos alunos relatada acima, também pode-se notar o descaso do professor em determinadas situações. Para o educador o fato da classe não se dedicar ao ensino não parecia importante no momento: No início do tempo q a prof deixou p/ estudo, apenas 1 grupo de 4 meninas estava estudando e tirando dúvidas, o restante ficou conversando, andando pela sala e fazendo dobraduras de estrelinha. A prof ficou sentada em sua cadeira, fazendo outra atividade. Depois de muito tempo a prof disse p/ eles aproveitarem esse tempo para estudar e disse que aquele ñ era o momento de fazer estrelinhas [...] a maioria dos alunos continuou conversando, andando, brincando e fazendo dobraduras de estrelas (p.8). Os alunos estavam mto agitados. A prof ficou fazendo suas coisas sentada na sua carteira (p.18). Depois, ela [professora] pediu para q uns alunos passassem a correção de exercícios na lousa. Nesse momento a sala estava mto agitada, com mta conversa e poucos 78 alunos conferiram se as respostas estavam certas. O restante da aula e durante a correção ela ficou sentada na mesa fazendo outras atividades (p.22). O tom da sala estava muito alto, e por diversas vezes a prof pedia silencio. Ao longo da aula ela permaneceu realizando suas atividades em sua mesa (p.12). Os alunos estavam falando muito alto e não estavam fazendo a correção. [...] Ela fez o seguinte comentário comigo: “Eles tem prova segunda-feira e não estão nem aí. Eu também não ligo, problema deles”. E permaneceu sentada o restante da aula (p.46). Ainda tratando de resistência dos alunos dentro da sala de aula, verificamos nos dois episódios que seguem que os professores fizeram uso de ameaças para controlar o comportamento dos educandos: Os alunos tentaram se comunicar bastante nessa sala durante a prova. A prof deu bronca em uma aluna e a ameçou de ter q fazer a prova na sala da coordenadora pedagógica (p.13). [...] Chegou uma hora que dez alunos da sala estavam de cabeça baixa dormindo. A prof disse que iria acelerar a explicação antes que todos dormissem. Ela terminou a explicação e pediu para que eles pegassem o livro, a maioria dos q estavam dormindo levantou a cabeça; assim a prof disse: - Gente, eu sei que essa matéria é chata, só que não é toda aula que dá para ser muito dinâmica, mas vocês ficarem de cabeça baixa, dormindo, é sinal que vocês não estão nem aí, e isso vai contar na nota qualitativa. Depois que ela falou isso, apenas um aluno continuou com a cabeça baixa, dormindo (p.34). Nos casos que analisaremos a seguir observou-se a imposição de obediência. O autoritarismo fica constatado como tentativa do professor passar seus conteúdos sem adesão dos discentes. Dessa forma pode-se verificar que o ensino torna-se algo penoso, monótono, entediante, o que resulta na falta de interesse do aluno (PARO, 2008). Outra relação de poder evidenciado pelo autoritarismo é a relação que os alunos têm com coordenadores e diretores, onde a figura autoritária denota medo: [...] ela [professora] falou para os alunos as páginas que eram importantes do livro, as que eram só para eles lerem e as que eles tinham que cancelar (rabiscar ou tirar do livro e rasgar) (p.14). 79 [...] com a prof gritando por silêncio a sala se acalmou e ficou em silêncio (p.17). No meio da aula uma coordenadora interrompeu a aula. Essa coordenadora começou a falar sobre a indisciplina daquela sala de aula, falar da postura dos alunos. Comentou que mais de um prof reclamou que não estava conseguindo dar aula lá, e que havia um caso que o aluno encontrava-se deitado no chão durante a aula [...] falou que iria conversar com o prof coordenador daquela sala para que ele mudasse algumas pessoas de lugar e fizesse um mapa da sala para que fosse seguido pelos outros professores (p.2). [...] Um aluno perguntou se poderia ter um trio pois a sala tinha nº ímpar e a professora disse que não, que um aluno teria que fazer sozinho (p.49). A prof entrou na sala e foi interrompida pela coordenadora dos alunos, para que ela pudesse entregar os boletins e a convocação da reunião. Ela então deu o recado e entregou os papéis aos alunos. Eles ficaram muito agitados com a entrega do boletim, falaram em voz alta e perguntavam aos colegas suas notas (p.43). Enquanto a coordenadora falava os alunos ficavam quetos, mas quando ela terminou e saiu os alunos começaram a fazer comentários entre eles (p.3). Abaixo, os episódios retratam a falta de coerência dos professores em sala. O descaso do educador com o tempo de aula, matéria, ensino e principalmente, os alunos. No primeiro relato a professora não cumpri com o que ela diz ser sua programação e os alunos fazem o que bem entendem. Já no segundo relato, a professora ignora o comentário da aluna: A prof tinha dito na aula anterior (dobradinha) que iria começar a aula corrigindo os exercícios que eles estavam terminando, porém, ela ainda ficou por volta de 25 min fazendo atividade dela, sentada em sua mesa. Enquanto isso, a maioria dos alunos ficou conversando [...] (p.4). [...] Ela [professora] também perguntou se tinha necessidade de colocar a correção na lousa, um aluno respondeu que não, outra aluna respondeu que tinha necessidade sim. Aparentemente, a prof. finjiu que não escutou a aluna e respondeu: não, né? (p.4). Nos episódios que seguem o professor ameaça punir os alunos que chegam atrasados. No entanto, em outros momentos o próprio professor é quem chega atrasado. Fica então caracterizado o poder de forma unilateral, uma vez que dentro da sala de aula não há ninguém que possa punir ou ameaçar o professor pelo seu atraso: 80 A prof chegou na sala e só tinha 1 aluno. A maioria voltou do intervalo aproximadamente 10 min depois do início da aula. A prof disse que eles estavam chegando muito tarde, que era para chegar mais cedo, pois não iriam entrar mais essa hora (p.51). A aula que começa 06h50min iniciou-se 07h07min, pois a professora se atrasou (p.1). A prof se atrasou pra chegar na sala (p.18). - Relatório M (escola particular) Nos fatos relatados a seguir podemos verificar como o educador utiliza a punição (FOUCAULT, 2005) como meio de chamar a atenção do aluno. Pode-se constatar que poucas vezes a punição possui uma real justificativa. Além disso, percebemos que o professor ordena, decide, julga, anota, afinal ele é considerado a autoridade maior dentro da sala de aula (CECCON et al, 2006): [...] professora pede para os alunos desligarem som e eles continuam a ouvir até que ela começa a pedir um quadro sobre doenças virais e bacterianas para entregar para nota (p.1). [...] a conversa cada vez mais vai aumentando e ela fala que ela vai olhar o caderno no final da aula pra ver se eles copiaram a matéria (p.2). A professora entra na sala e coloca na lousa doenças causadas por fungos (micoses). Os alunos copiam o que ela põe na lousa enquanto conversam e dão risadas [...] Durante a explicação os alunos se dispersam falando quem já teve micose e zoando um da cara do outro [...] A professora chama a atenção deles falando que eles devem focar na explicação mas eles ainda falam de quem tem ou não micose, entao ela grita e fala que quem não ficar quieto vai pra fora da sala. Ela termina a explicação sem que os alunos dêem mais alguma palavra (p.4). A professora “ameaça” os alunos falando que quem não estiver fazendo ela vai colocar pra fora da sala de aula (p.8). 81 [...] Uns alunos levantam dos lugares e formam um grupinho para conversar, então a professora bate na mesa para chamar a atenção dela falando que se não voltarem para o lugar vão sair da sala (p.9). [...] a professora faz a chamada, porém a sala está uma zona, todos conversando, rindo e brincando. Um dos alunos coloca música no celular, ai a professora grita com ele mandando desligar aquilo e começar a copiar (p.3). O relato a seguir evidencia o controle institucional exercido através da chamada, que tem como função vigiar a frequência dos alunos (FOUCAULT, 2005): Após colocar tudo na lousa a professora sentou para fazer chamada (p.2). Professora entra na sala e faz chamada. Alunos fora das ordens das carteiras, e ela têm q chamar cada um mais de uma vez, pois não dá para ouvir a resposta de alguns e outros nem ouvem, então precisam ser avisados por colegas (alguns apontam onde os colegas estão, pois estes não vêem a chamada) (p.5). Ela [professora] faz chamada e depois fica olhando para a classe. A classe está conversando muito e existem alguns alunos que mantém a carteira um pouco desalinhada da fileira para ficarem mais perto para conversar. A professora vê isso e grita com os alunos falando para eles pararem de conversar e começarem a copiar logo. Eles diminuem a conversa, alguns pegam papel para copiar, mas os que de fato começam são poucos. Ela levanta da mesa e começa a rondar pela sala olhando o que os alunos estavam fazendo. Quando ela vai chegando a maioria dos alunos começa a escrever (p.7). Nas ocorrências a seguir foi possível constatar o descaso do professor com as dificuldades e os interesses dos alunos. Isso pode ocasionar mais desinteresse ou rejeição à matéria no futuro: [...] Quando ela [professora] termina a chamada e começa a organizar algumas coisas de uma pasta, alguns alunos vão até ela para perguntar se a resposta está certa. Um deles levou a resposta errada (“mas profi, então como faz?” “pensa mais um pouquinho e se você não conseguir eu já vou colocar na lousa o certo”) (p.10). [...] Um dos alunos vai até a mesa da professora tirar uma dúvida, a professora explica, o aluno pergunta de novo, ela fala a mesma coisa da mesma forma e o aluno sai com “cara de dúvida” [...] alguns alunos vão tirar dúvida com a professora mas 82 aparentemente todos voltam com duvidas (comentários entre eles quando voltam pro lugar) [...] Alguns alunos pedem para ela resolver dois exercícios então ela vai para lousa [...] Ao fim da resolução a professora pergunta se tem duvidas e ninguém fala nada (p.8). A resistência (APPLE, 1989) que os alunos demonstram nos relatos abaixo é resultado de relações de controle impostas pelo professor: Enquanto ela [professora] coloca toda matéria na lousa os alunos ficam conversando e rindo, alguns copiam, outros nem se incomodam em pegar algo para escrever (p.1). Enquanto a professora coloca os tópicos na lousa os alunos não copiam e outros estão copiando atividades para nota para aula de português, que será a próxima (p.1). A professora entra na classe e os alunos nem olham, não param de fazer o que estão fazendo (conversando, um casal namorando, outros ouvindo música com fone de ouvido) (p.4). [...] Quando ela [professora] fala sobre a doença do sono, muitos alunos começam a rir falando que devem ter essa doença porque sempre estão com sono. Depois de explicar a doença do sono muitos alunos se dispersaram e começaram a conversar sobre o quanto tem que acordar cedo e dormem tarde (p.6). Ainda podemos analisar a resistência dos alunos com relação ao professor e o posterior descaso do educador, como vemos a seguir: [...] Durante o tempo estipulado para a resolução dos exercícios a maioria dos alunos não faz nada e começam a conversar. Ela fica o resto da aula sentada (p.12). [...] a música continua em sala de aula e alguns alunos ficam cantando e outros conversam. Alguns dos alunos ouvem música no celular com fone de ouvido. A professora fala que o que ela está colocando na lousa é questão de prova e ignora a conversa até que uma aluna grita que o outro está incomodando ela e um outro menino (fica cutucando e mexendo no cabelo da menina). A professora falou para ele parar e se virou para escrever na lousa. O menino continuou a cutucar a menina (p.1). 83 [...] os alunos copiam, conversam e um deles coloca o celular para tocar musica, e a professora nem liga (p.2). Um aluno coloca música na sala de aula durante a fala da professora e alguns alunos dão risada, a professora finge que não ouviu e continua a explicação como se nada tivesse acontecido. Ela termina a explicação e se senta na sua mesa, ela fica lá até bater o sinal de fim de aula enquanto os alunos ficam andando pela classe e conversando (p.5). O autoritarismo do professor (STOPPINO, 1991) é evidenciado na imposição de obediência e submissão. Esse professor autoritário de hoje pode ser reflexo de um aluno vitima de autoritarismo no passado. Observe os seguintes episódios: [...] os alunos vão respondendo o que eles pensam e depois que todos falaram o que achavam, ela fala pra eles pararem e então anotarem a resposta certa que ela vai ditar (p.2). A maioria das perguntas que o professor faz se inserem em um contexto de comunicação artificial, pois não se trata de perguntas reais já que quem pergunta possui a resposta (CECCON et al, 2006), como vemos no episódio seguinte: [...] Durante o exercício ela pergunta se todos entenderam até aquele ponto, o que parece uma pergunta retórica, já que ela não espera a resposta e continua a resolução (p.9). - Relatório N (escola particular) Nos fatos relatados a seguir, o professor utiliza o seu poder perante os alunos e quando não obtém uma resposta positiva, como a obediência e o disciplinamento, busca outra saída para o controle dos alunos, como a aplicação de punição (FOUCAULT, 2005): Aula iniciada com pedido de silêncio [...] Muitos alunos conversando, professor pede silêncio novamente [...] O professor retira um aluno da sala na 3ª vez que pede p/ que fique quieto. Agora a sala permanece quieta (p.1). 84 [...] a sala continua fazendo mta bagunça. Então faltando 20 minutos p/ acabar a aula o professor pára a aula e pede p/ alunos entregarem p/ próxima aula um resumo sobre a aula de hoje, passa uns exercícios, e fica sentado na cadeira (p.4). Nesse próximo episódio, o professor procura vigiar um grupo específico de alunos que atrapalha o rendimento da aula tentando moldá-los e esperando uma nova atitude por parte deles. No fim acaba ameaçando o grupo como ocorre em outras circunstâncias (FOUCAULT, 2005): O professor faz perguntas toda hora p/ os alunos q estão conversando, querendo dizer “presta atenção!”, mas deixa subentendido (p.3). O professor iniciou divisão celular com muita dificuldade, pois os alunos estavam muito inquietos. O professor começou ficar meio irritado c/ um certo grupo q ñ parou de atrapalhar a aula toda, então ele vira e fala “ Que continuar falando tudo bem, vamos ver sua nota depois” e ignorou o grupo o resto da aula (p.7). Mais uma vez podemos observar a resistência (APPLE, 1989) dos alunos: O profº teve dificuldade de explicar o trabalho pq os alunos estavam fazendo muita bagunça. A explicação custou muito tempo (p.11). - Relatório O (escola particular) Sendo a resistência resultado de uma relação onde o professor tenta controlar a classe pelo poder que lhe é concebido (APPLE, 1989), temos os seguintes fatos: Aula foi muito atravancada, com conversas paralelas constantes (p.2). [...] ficou evidente que os alunos não leram o texto, pois a discussão foi muito excassa (p.4). [...] Poucos alunos leram [o texto solicitado] e a solução proposta por ela [professora] foi fazer uma síntese do texto, parágrafo a parágrafo [...] após uma breve discussão escrevia as idéias na lousa (acho esse método muito infantil e oferece pouca autonomia) (p.2). 85 Nos episódios abaixo, pode-se analisar como o professor faz uso do autoritarismo (STOPPINO, 1991) para manter a disciplina e controle da classe. Em nenhum momento a relação se faz mútua. O que se observa é a imposição do poder. Observe os relatos: [...] Sobre não ter lido o texto, a professora pergunta a um aluno: “Você não tem vergonha?” E ele: “tenho” demonstrando responsabilidade pela falta (p.3). A professora começa a aula perguntando: “Devo ficar brava?” se referindo à lição de casa (p.4). Discussão do texto: “O significado da vida”. Durante esta aula uma menina começou a ter dúvidas que necessitam de um aprofundamento teórico. Para aquietar a menina, a professora disse: “Finge que é mágica!”. A menina continuou a questionar e a professora rebateu dizendo: “Só acredita, não pensa!” (p.8). [...] Os alunos perguntaram para a professora se tinham que saber a estrutura do DNA e ela respondeu: “Tem que saber sim. Não interessa se é por amor, decorando...tem que decorar”. Os alunos ficaram assustados com este comentário (p.9). A professora quis marcar uma prova e os alunos reclamaram pois esta seria logo após o feriado. Os alunos ficaram indignados e ela ameaçou-os dizendo que a prova aconteceria de qualquer jeito. Eles que não estudassem para ver o que ia acontecer (p.9). Os alunos perguntaram para a professora por quê eles devem memorizar a composição do DNA, e ela respondeu: “Eu não memorizo o seu nome? Você preferiria que eu chegasse aqui e te chamasse de menino? Vocês tem que sentar, pensar e ser for preciso, memorizar também!” (p.10). Discussão sobre a primeira parte do filme. A professora já entrou na sala de aula perguntando (afirmando) que os alunos não tinham feito anotações sobre o filme. Ela logo iniciou uma síntese na lousa e disse que eles não teriam o direito de opinar (p.12). Um mecanismo da manutenção do controle é utilização de ameaças e punições. Esse tipo de relação fica evidenciado nos episódios a seguir. 86 Ela [professora] declarou na sala de aula que a prova será bastante difícil, muito conceitual, afinal ela está tendo muita dificuldade com a classe (p.4). A professora deu uma aula extremamente expositiva sobre protozoários e foi montando figuras destes organismos no data-show. A aula foi muito monótona e os alunos começaram a ficar muito agitados (o escuro contribuiu). A pedido da professora tentei localizar os focos de conversa e reparei que muitos meninos ficam olhando para lousa, fingindo prestar atenção, mas suas bocas estão se mechendo, o que mostra que ficam conversando desta forma. Por isso é que a professora não percebe de onde vem o barulho (p.6). A aula foi completamente expositiva e os alunos só mostravam interesse pelas imagens [...] A professora ameaçou fazer uma prova deste conteúdo se os alunos não ficassem quietos (p.11). Exibição da segunda parte do filme [...] Desta vez a professora disse que os alunos deveriam entregar um texto com os principais aspectos do filme, valendo nota. Todos os alunos fizeram (p.12). Prova [...] possuía esquemas bastante difíceis de serem interpretados e os alunos tiveram muita dificuldade em resolvê-los. Parece-me que a professora fez de propósito, para melhorar a disciplina da turma (p.15). No ultimo episódio desse relatório pode-se perceber o descaso com que alguns professores conduzem suas disciplinas: [...] Percebi que há um aluno que senta logo na primeira carteira de uma fileira que fica a aula inteira resmungando. Ele fala em voz alta (porém em tom baixo) comentários como: “O que importa o que eu quero? Gente incompetente não tem chances de fazer escolhas”. Tive a impressão que ele gosta de ser rabugento. A professora e os colegas ignoram esses comentários (p.3). Provavelmente esse aluno está exercendo um tipo de resistência perante o ensino. E, além do mais, pode estar querendo chamar atenção. Porém, tanto o professor quanto os alunos o ignoram, reforçando ainda mais o seu estado de insatisfação e inferioridade. - Relatório P (escola particular) 87 Com os fatos descritos abaixo podemos observar que em vários momentos alunos conversam e apresentam muita resistência à aula, ao professor e às tarefas (PARO, 2008): [...] Se vocês não copiarem vo manda vocês p/ fora. Eles então pegam o caderno mas nem todos realmente copiam (p.5). Quando bate o sinal os alunos levantam e vão embora, mesmo com ela falando (p.6). [...] poucos alunos copiam. Alguns parecem fazer uma outra atividade (p.10). Poucos alunos anotam (p.10). Os alunos continuam respondendo, desordenadamente, ele [professor] pede que eles parem de responder. - Professora: “vamo para de conversar e copia o que ta na lousa” A maioria dos alunos faz outras coisas, conversam , mexem no celular entre outras coisas (p.12). Professora: - vamo conversa menos e copiar mais... Aluno: - ah, nem vou copiar, depois eu pego de alguém (p.13). A prof passa a matéria na lousa enquanto os alunos conversão; alguns copiam, um coloca um funk para tocar no celular (p.14). Os alunos continuam falando muito (p.7). Em alguns casos, o professor usa de proibições, chantagens, ameaças e punições para manter a ordem e disciplina. Assim, temos que ter como foco de análise os micropoderes que se exercem no interior da instituição escolar, estando alerta para as interdições, a vigilância, as coerções, os controles e as proibições (FOUCAULT, 2004). Essas características aparecem nos episódios a seguir: Os alunos estão conversando, o prof para a aula e pergunta aos alunos sobre o que ele estava falando (p.1). Professor – Eu to atrapalhando a conversa de vocês? Aluno – tem alguém aqui no fundo concordando. Professor – Isso reflete na prova depois. Ele usa a prova com “troca” pelo silêncio (p.2). 88 Um aluno estava provocando uma aluna, ela berra pedindo p/ ele parar. A prof para a aula e pede para o aluno mudar de lugar, ele vai relutante e falando mtos palavrões (p.3). Ela [professora] estava explicando e um celular começa a tocar mto alto e os alunos começam a rir; ela dá uma bronca neles e ameaça olhar o caderno no final da aula (p.11). Professora: - deixa eu ver o seu caderno; começa copiar logo... Ela pede p/ ver os cadernos de alguns alunos que não param de falar (p.12). Ela [professora] bate na mesa e pede p/ os alunos falarem mais baixo. Os alunos estão de pé conversando. Professora: - quem não estiver fazendo ex vai sair! Repete varias vz quem não estiver fazendo vai sair, entendido? - Vai sair a sala toda, não me incomodo. Eles continuam conversando, só q mais baixo (p.18). Um aluno começa a discutir com outro falando mto alto. A prof levanta e manda os 2 pararem. Gente que que é isso, aqui não é feira [...] (p.7). Uma aluna entra, olha p/ a prof e pede p/ ir ao banheiro; A prof fala: vc acabou de voltar do intervalo depois vc vai (p.21). Há regras que são impostas dentro da escola através do poder institucionalizado. São as chamadas regras convencionais, que são bem definidas e acabam exercendo controle sobre os indivíduos. Apesar de por vezes serem contestadas, elas continuam em vigor. São normas já pré-estabelecidas e específicas que compõem as instituições, inclusive a escola (PARO, 2008). Segue um episódio com regras que os alunos devem seguir: No quadro de avisos da sala estão fixados um aviso sobre o uso obrigatório do uniforme e um com as normas básicas da escola (p.2). - Relatório Q (escola particular) Observe o relato a seguir: 89 Quando a prof realiza uma pergunta, ela msm a responde (p.1). Esse primeiro episódio pode ser inserido em um contexto de comunicação artificial, uma vez que não se trata de perguntas de verdade já que quem pergunta é o detentor da resposta (CECCON et al, 2006). Apple (1989) nos fornece a idéia de que, mesmo perante todas as formas de disciplinamento e dominação, os indivíduos criam mecanismos para se esquivar dessa situação. Observe os seguintes episódios que apresentam resistências: Durante as aulas, os alunos pedem demais para se retirar da sala, seja beber água, banheiro ou qualquer outro assunto (p.6). [...] o aluno estava rasgando as mangas do próprio uniforme, alegando calor detalhe, na sala com ar condicionado ligado e gélido. A professora somente respira e retoma a lista de exercício. Ao longo da aula os alunos brincam com os pedaços rasgados do uniforme (p.20). Os alunos participam pouco [...] dois alunos, se mostram apáticos, cansados e procuram desviar a atenção utilizando celulares ou dormindo (p.24). Nos fatos relatados a seguir, o professor age com total descaso e ignora não só diálogos entre os alunos como ações que deveriam, no mínimo, serem analisadas: [...] eu não vou implorar pelo silêncio... a responsabilidade é de vcs... eu não estou nem ai (p.1). Um aluno derruba o estojo da outra aluna: “Ah! ‘X’ seu preto!”. A professora fingiu que não ouviu (p.22). A professora tentar manter a disciplina com demonstrações de poder nas suas relações e comentários, como observamos abaixo: Durante a correção surge um exercício errado e a sala estava conversando então: Prof ª: “É por isso que vcs ñ entendem, fiquem conversando, não fazem silêncio... desse jeito só tem que dar errado” (p.4). 90 Durante a resolução surge uma dúvida e profª tenta explicar e diz: “A sala toda já decorou minhas falas ou não?” (p.4). Por vezes, ocorre a transferência de conflitos para indivíduos que ocupam um lugar elevado na hierarquia. Isso acontece devido a idéia ilusória (FOUCAULT, 2004) de que um diretor, por exemplo, possui mais poderes que um professor. Assim, apoiada na imagem de que determinado indivíduo tem mais autoridade, transfere a questão para que este a solucione. Podemos observar isso no seguinte episódio: A aula já começa c/ discussão sobre a possibilidade de mudar de sala. É cortada pela professora de maneira bruta, com gritos em direção ao aluno pivô do conflito. A diretora veio quase ao fim da aula e resolveu o problema (p.7). A professora não conseguindo resolver a questão, mesmo com excessos de autoritarismo, transferiu a responsabilidade para a diretora. - Relatório R (escola pública) Em todos os episódios desse relatório fica evidenciado que os alunos encontram diversas maneiras de enfrentar a figura do educador e resistem ao conteúdo que é transmitido em aula (PARO, 2008). Para manter uma relação de controle dos alunos, o professor utiliza o seu poder, aplicando métodos para manter a disciplina, como exercícios, avaliações, relatórios e atividades que contam pontos para nota final e conseqüente aprovação. Observe os relatos: Durante as aulas observadas, conversas paralelas à aula são comuns, com raras interferências dos professores (p.1). Os alunos levantam de seus lugares e se comunicam com os colegas durante a aula sem encontrar barreiras dos professores, que permitiam essa atitude no decorrer da aula (p.1). O conteúdo dado em sala de aula, em grande parte deve ser anotado pelos alunos (p.1). Durante as observações de aula encontram-se uma gama de atitudes realizadas pelos alunos, como a permanência de alguns virados de costas para o professor, outros conversando com colegas [...] (p.1). 91 Normalmente após 20 minutos de aula já ocorrem alguns focos de conversas entre os alunos, enquanto que os outros se desligam do professor e passam a realizar atividades não relacionadas à presente aula (p.2). A professora parou sua aula, pois afirmava que os alunos estavam dispersos e não estavam interessados. Logo, ela propôs que fosse realizado um exercício que valeria nota (p.3). Diante de aulas que não envolvem uma previa estruturação do conteúdo ficam evidentes as diversas “saídas” que o professor utiliza para manter a disciplina em sala de aula. Dentre elas: exercícios; pequenas avaliações como chamadas orais, redações ou relatórios; resolução de exercícios na lousa (p.3). - Relatório S (escola particular) Nos episódios relatados abaixo, a professora não procura interpretar o que o aluno questiona ou sua justificativa, ela apenas faz ameaças e impõe uma regra de comportamento e conduta. Caso o aluno não corresponder, é punido com a perda de pontos em sua nota (FREITAS, 2003): A professora anota os nº de quem não levou livro, um aluno: - Profª, eu não trouxe porque as respostas estão no caderno, não preciso do livro agora na correção, e é mto pesado. - O livro é para estar aqui toda aula e faz parte da média instrumental – diz a profª (p.4). Muitos alunos sobem atrasado da Ed.fisica. A profª briga e anota os números, pois vai ser descontado da média instrumental (p.5). A profª inicia a aula perguntando onde parou. Ninguém responde. - Gente, vocês não acompanham a aula? Ninguém copiou a matéria? Ninguém responde. A profª bem irritada abre seu diário p/ ver onde parou e fala: - Vocês sabem que tudo faz parte da média instrumental, né... (p.24). Profª pergunta quem não levou a apostila e anota os números (p.42). 92 A profª pergunta quem esta sem apostila e uma aluna diz que esqueceu. Profª “Esqueceu? Que pena” A profª parece dizer c/ um tom irônico. Aluna “Nossa que ódio. Como ela é irônica” A profª anotou os números e continuou (p.57). Nos casos a seguir os educadores adotam uma atitude que evidencia uma postura de dominação e controle (FOUCAULT, 2005), onde o poder é explicitamente colocado de maneira hierárquica, através de ameças e chantagens : A “tia do corredor” estava gritando com os alunos pedindo silêncio [...] (p.3). [...] a professora faz chamada pelo mapa de classe. Há um tumulto na sala, pois há muitos alunos fora do lugar (p.2). Professora: “vocês tem algum problema para entender que se existe um mapa da sala, ele é para ser seguido?” E os alunos voltam para seus respectivos lugares (p.3). Começa a aula com a chamada com o mapa de classe (para saber se os alunos estão sentados nos lugares certos) (p.6). Aluno: - Não professora! Para esse dia não, é um dia depois do carnaval. Como a gente vai fazer a lição? Deixa para outra aula. A professora apenas ri (p.6). [...] Um aluno questiona a profª: - Por que você não corrige todos os exercícios? - Porque não tem tempo, precisamos aproveitar (p.7). [...] a profª começa a fazer perguntas em relação a matéria e ninguém responde. Ela começa a falar mais alto e ninguém responde. Ela chega perto e para de falar até que eles começam a copiar (p.16). A profª deu bronca na sala, porque muitos alunos chegaram atrasados do intervalo. “vocês não aprendem! Toda aula é a mesma coisa. Da próxima vez vocês não vão entrar na minha aula” (p.21). A profª formou as duplas de acordo com as notas dos alunos (p.25). 93 A profª é extremamente rígida nas correções (p.26). A profª falou do capitulo do livro que tinha pulado há um tempo atrás e disse: “vcs sabem que eu gosto de sair da ordem e fazer do meu jeito” (p.27). A profª chega correndo c/ alguns minutinhos de atraso. Um aluno diz: - Ah profª! Eu também vou querer mais tempo para prova! Ela finge não ouvir (p.35). A profª entra na sala, muitos alunos entram depois. Profª – onde vcs estavam? Aluno – a gente não ouviu o sinal por causa da música que toca no pátio. Profª – vou pedir pra não tocar mais música pra vcs ouvirem o sinal (p.39). Uma das formas dos professores demonstrarem poder sobre os alunos é manter uma relação de ameaça que pode ocasionar uma dificuldade no aprendizado, proporcionado pela tensão, pelo medo das ameaças (PARO, 2008), como vemos nos seguintes episódios: A professora pede silêncio muitas vezes, mas não é atendida. Fica quieta e espera a sala se acalmar. Os alunos parecem disfarçar, fingindo que não vêem que a profª está na sala. Até que ela altera o tom de voz e cada p/ seu lugar (p.4). [...] a profª fala que vai começar a chamada oral. Os alunos ficam tensos [...] A profª faz uma pergunta para um aluno que parece nervoso e diz que não sabe, depois foi observado ele falando para o outro aluno que sabia a resposta, mas na hora ficou nervoso e “deu branco” (p.7). [...] a professora pediu que os alunos fechassem os livros e através de um sorteio, chamou um número da chamada para começar a fazer perguntas, [...] os alunos pareciam tensos e desesperados com o sorteio. A professora disse: “quem acerta ganha 2 ponto e quem erra tira 0,0” (p.9). A profª entra na sala e um aluno pergunta: “Profª vai ter chamada oral?” Ela responde “Claro! Mal começou a rodada perguntas, se prepara!”. Os alunos ficam tensos [...] a profª diz: “gente, é muito fácil! Lembram do esquema que eu mandei decorar?” (p.12). [...] semana que vem é a prova e não vai estar nada fácil- diz a profª (p.13). 94 É prova. A profª faz as recomendações. Passa de carteira a carteira para ver se não tem nada anotado (p.34). [...] alguns alunos tentam colar mas a profª já ameaça tirar a prova (profª fica muito atenta durante a prova) (p.34). [...] durante a explicação muitos alunos conversam [...] profª – a prova é semana que vem! – diz c/ tom ameaçador (p.39). Profª: - Pessoal, a rodada de chamada oral é na prox. aula. Estudem. Alunos: - Que saco! Nunca consigo acerta nada (p.64). Profª: - Isso! Continuem conversando, não prestam atenção na aula, não fazem a lição de casa, não sabem nada de vestibular. O que vocês estão fazendo aqui? Vão passar no vestibular assim? (p.69). Em alguns casos os alunos demonstram resistência a participar da aula (APPLE, 1989). Uma vez que o aluno só irá aprender se quiser, cabe ao professor chamar seu interesse. Fingir que nada acontece enquanto os alunos não correspondem à aula é reflexo do descaso com a educação, da vontade de ensinar e do compromisso com a profissão. Nos episódios seguintes fica evidente tanto o descaso dos professores quanto a resistência dos alunos: A profª parece incomodada c/ a falta de interesse dos alunos, mas não se manifesta, continua a aula normalmente (p.5). Muitos dormem, conversam e fazem outra coisa (p.5). [...] muitos alunos dormem durante a explicação (p.11). [...] muitos alunos conversam. Acabou a aula, o sinal toca e um aluno fala bem alto: - Ah! Que pena! Todos riem (p.19). [...] a profª tentava estabelecer contato com os alunos durante a explicação, fazendo as perguntas, mas ninguém participou (p.22). A maioria da sala dormia, era evidente e a profª fingia não ver (p.23). [...] pouca participação e quase nenhum aluno havia feito a lição (p.31). 95 A aula continua como sempre, os alunos parecem estar bem desinteressados (p.50). [...] pouca participação, algumas meninas trocavam bilhetinho (p.58). - Relatório T (escola particular) Observe o episódio a seguir: Professora: - Gente, gente! Eu vou passar um filme. Depois nós vamos discutir o que vocês entenderam, então prestem atenção no filme! (p.6). Exercendo o seu poder, a professora impõe que os alunos assistam ao filme. E assim, para legitimar sua ação, chantageia os alunos dizendo que depois ocorrerá uma discussão sobre o filme (CECCON et al, 2006). Observe o próximo relato: Em uma conversa com um aluno ele diz: - Ah! É que a aula é muito ruim e nunca muda! A gente já está cansado de ficar vendo escrever na lousa as fórmulas que já tem no livro e manda a gente fazer os exercícios do livro. Se fossem assim eu prefiro ler o livro que eu ganho mais. Eu só sei aplicar os números nas fórmulas, se ela me pedir alguma coisa diferente na prova, eu não vou saber fazer (p.7). Fica evidente na fala do aluno a insatisfação diante da rotina escolar. Pelo relato, podemos inferir que o professor apenas transmite o conteúdo e manda os alunos realizarem exercícios. Estes são repetitivos, impositivos e poucas vezes possuem uma real justificativa. Na realidade, a maior insatisfação dos alunos reside no fato de não enxergarem nenhuma aplicabilidade do que aprendem na escola (APPLE, 1989). 96 10. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao selecionar episódios de relações de poder nos relatórios de estágio (presentes em atitudes aparentemente corriqueiras) verificou-se como as relações de poder se manisfestam dentro do ambiente escolar. Averiguou-se que, independentemente da escola observada, repetiam-se praticamente os mesmos mecanismos de controle e resistências. Da mesma forma, tais mecanismos se assemelham aos descritos pelos diferentes pesquisadores que estudamos, evidenciando então, tratar-se de práticas comuns que se reproduzem nas escolas ocidentais como uma “engrenagem de produção”, através do controle, manifestado pelas chamadas, uniformes, notas, ameaças, carteiras “no lugar certo”, verificação de cadernos, atribuições de pontos positivos e negativos, advertências. E também através das resistências, como por exemplo: algazarras, descompromisso, fingir fazer a lição, dormir, tudo isso para “sobreviver” ao período obrigatório de aula. Dessa maneira, contatou-se que todas essas atitudes demonstradas comprometem tanto o trabalho do docente quanto o aprendizado do aluno, pois, ao invés da sala de aula ser utilizada como um local de troca e reelaboração de conhecimento, acaba se tornando um mero campo de exercício do poder. De um lado temos o professor, que ao invés de atuar como mediador, atua muitas vezes como “ditador”, tentando modelar e impor as falas, pensamentos, comportamentos e posturas que julga adequadas (ou que os superiores a ele considerem adequadas) para seus alunos. Do outro lado temos o discente que, ao invés de utilizar o momento que está na escola para desenvolver seu intelecto, passa a maior parte do tempo criando maneiras de se esquivar de todo esse sistema vigente. Também foi possível constatar que o poder institucional influencia as atitudes do professor, já que o mesmo é submetido a uma hierarquia administrativa e pedagógica que o controla. O professor se subordina às autoridades e ordens superiores (se vê rendido a regras, planos, currículos, posicionamentos) e isso o leva a acentuar uma dominação compensadora. Acaba exercendo essa “compensação” com a ordem hierárquica inferior, ou seja, com os alunos, impondo obediência, disciplinamento e submissão. Na instituição escolar é o professor que avalia o aluno mediante a nota, participa dos conselhos de classe onde o destino do aluno é julgado, prepara as avaliações. E para cumprir todas essas funções ele também é 97 vigiado (assim como os alunos), e, além disso, é pago para executar seu trabalho, cujas atividades abrangem desde o controle dos discentes até a criação de provas, que geralmente se tornam instrumentos de reprodução e exclusão. Assim, após o levantamento e análise das manifestações de poder nas relações escolares, percebemos que o sistema de operação das escolas não visa o aprendizado eficaz e racional do conhecimento científico e, o pior, vem se perpetuando há anos. Porém, esse problema não pode ser resolvido de imediato dentro das escolas, afinal, a verdadeira raiz encontra-se fora delas. A escola é interligada ao modo industrial de produção, e acaba só reforçando a ação domesticadora da sociedade de consumo e do Estado. A reestruturação do modo de produção e de organização social vigente é um processo inseparável da reinvenção dos contextos e das modalidades de aquisição do saber. Todos os personagens envolvidos nas manifestações de poder no espaço escolar (alunos, professores, coordenadores, orientadores, diretores) reproduzem, seja em menor proporção, a rede de relações de poder instituídas na sociedade. Necessitamos rever essa disciplina baseada em categorias reducionistas e economicistas que provam ser danosas, e, ao mesmo tempo, questionar a escola com o intuito de deixar visíveis as raízes da dominação e da exploração que, sem dúvida, existem. Esse é um caminho difícil de ser trilhado. Envolve criticar uma tradição e utilizá-la, ao mesmo tempo. Embora seja importante compreender que as escolas contribuem para reproduzir relações de gênero e as relações sociais de produção, elas também historicamente reproduzem, ”por detrás de suas costas”, formas específicas de resistência. Portanto, analisar a prática escolar da perspectiva do poder sugere levar em conta tanto o poder-contra, que se traduz em várias formas de violação da subjetividade, quanto o poderfazer, que engrandece indivíduos e aumenta a força da ação humano-social. Trata-se de ter como foco de análise os micropoderes que se exercem no interior da instituição escolar, estando alerta para a vigilância, as coerções, os controles, as punições e as proibições, mas não deixando de atentar também para as relações de libertação, de fortalecimento mútuo de subjetividades, de companheirismo e de aumento do poder-fazer uns dos outros. Também quando se considera que esses micropoderes que se constatam na realidade escolar são submissos por poderes de esferas mais amplas da sociedade e do Estado, trata-se de compreender onde eles se exercem, porque é nessas mínimas instâncias que os indivíduos 98 vivem e experimentam suas mais profundas conseqüências. Se o poder está em toda a parte, em toda parte precisamos conhecê-lo e tomar decisões a seu respeito. Somente conhecendo em profundidade o que se passa no interior da escola poderemos idealizar e colocar em prática medidas para transformá-la de modo que ela justifique sua razão de ser como instituição, que concorre para uma sociedade mais livre. 99 11. REFERÊNCIAS AFONSO, A.J. Sociologia da educação e avaliação educacional. In: AFONSO, A.J. Avaliação educacional-regulação e emancipação: para uma sociologia das políticas avaliativas contemporâneas. 3.ed. São Paulo: Ed. Cortez, 2005. ANDRÉ, M.D.A.; LÜDKE, M. Pesquisa em Educação: Abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986. APPLE, M. Educação e Poder. Porto Alegre: Ed. Artes Médicas, 1989. ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. 5. Ed. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2005. _______. Sobre a violência. 3.ed. Rio de Janeiro: Ed. Relume Dumará, 2001. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. 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Este estudo tem como objetivo verificar como as relações de poder se manisfestam dentro do ambiente escolar; identificar como as relações de poder observadas interferem no trabalho do docente e também no aprendizado do aluno; avaliar como o poder institucional influencia as atitudes do professor. Estas informações estão sendo fornecidas para subsidiar sua autorização para a leitura e utilização dos dados presentes em seu relatório de estágio. Em qualquer etapa do estudo, você terá acesso ao investigador para esclarecimento de eventuais dúvidas. Contato: Camila Santos Sterchele, telefone (11) 7444-0659, endereço eletrônico: [email protected] É garantida ao concedente do relatório a liberdade da retirada de consentimento e o abandono do estudo a qualquer momento. As informações obtidas serão analisadas, mas não será divulgada a identificação do autor do relatório, da escola, alunos e professores observados. Fica assegurado, também, o direito de ser mantido atualizado sobre os resultados parciais da pesquisa, assim que esses resultados chegarem ao conhecimento do pesquisador. Não há despesas pessoais para o concedente em qualquer fase do estudo. Também não há compensação financeira relacionada à sua participação. Comprometo-me, como pesquisador principal, a utilizar os dados e o material coletados somente para esta pesquisa. 103 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Acredito ter sido suficientemente informado(a) a respeito da pesquisa. Ficaram claros para mim quais são os propósitos do estudo, os procedimentos a serem realizados, as garantias de confidencialidade e de esclarecimentos permanentes. Ficou claro também que minha autorização para consulta do relatório de estágio é isenta de despesas e que tenho garantia do acesso aos dados quando necessário. Concordo voluntariamente em participar deste estudo e poderei retirar o meu consentimento a qualquer momento, antes ou durante o mesmo, sem penalidades ou prejuízo ou perda de qualquer benefício. Nome: Data: Assinatura do concedente Nome: Data: Assinatura do pesquisador principal