Cartas do leitor: o caráter histórico da revista “a par” em revista. Cláudia Cristina da Silva Susana Oliveira Vieira 7º período de jornalismo Comunicação Social (Habilitação em jornalismo) Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais As revistas estão cada vez mais personalizadas para atender a um público específico e, nesse sentido, ajuda a construir identidades, cria identificações e proporciona a sensação de pertencimento a um segmento. Este conceito é coerente com a proposta do jornalismo regional que assume a identidade de um determinado grupo, isto é, uma produção jornalística voltada para a cultura local, valorizando o potencial de cada região. Neste contexto, a revista “a par”, pioneira no Oeste de Minas Gerais, destaca-se por valorizar a cultura, a história e dar voz aos anseios dos moradores da cidade de Formiga e região. Lançada no dia primeiro de maio de 2004, essa revista já foi mensal. Hoje é quinzenal e abrange sete cidades: Formiga, Campo Belo, Pains, Itapecerica, Córrego Fundo, Arcos e Piumhi. Assim, o artigo traz uma análise da seção “Cartas do leitor”, o qual confirma a representação da revista “a par” como documento histórico e como resgate da memória coletiva, à medida que os leitores enviam cartas e e-mails à redação que contém críticas, elogios e sugestões. Palavras-chaves – Revista regional, história, memória, cartas do leitor As revistas estão em toda parte: na sala, na cozinha, no quarto e até no banheiro. Entram sem pedir licença, pois são consideradas como alguém da família. Imagens, ícones, símbolos e escritas se misturam e interagem com um único objetivo: prender a atenção do receptor. Atualmente, vêem-se, nas bancas, revistas para todos os gostos e para todo tipo de público: masculino, decoração, unhas, culinária, crianças, Internet, artesanato, carros, etc. Este veículo de comunicação torna-se cada vez mais segmentado e direcionado a um determinado grupo. 1 Para a autora do livro Jornalismo de revista, Marília Scalzo (2003), a revista é um veículo de comunicação, um produto, um negócio, uma marca, um objeto, um conjunto de serviços, uma mistura de jornalismo e entretenimento. Já o editor espanhol Juan Cano, citado por Scalzo, define revista “como uma história de amor com o leitor”. Como toda relação, essa também é feita de confiança, credibilidade, expectativas, idealizações, erros, pedidos de desculpas, acertos, elogios, brigas e reconciliações. Para Scalzo, revista também é um encontro entre um editor e um leitor, um contato que se estabelece, um fio invisível que une um grupo de pessoas e, nesse sentido, ajuda a construir identidades, ou seja, cria identificações, possibilita a filiação e/ou pertencimento a um determinado grupo. Assim, o conceito de revista é coerente com a proposta do jornalismo regional que é aquele que assume a identidade de um determinado grupo, isto é, uma produção jornalística voltada para uma comunidade específica. Não dá para esquecer também que revistas são impressas e o que é impresso, historicamente, parece mais verdadeiro do que aquilo que não é. Isso pode até mudar com o tempo e com a chegada de novas tecnologias, mas, por enquanto, permanece assim. A durabilidade da revista também é outro quesito que afirma a sua posição enquanto documento. É comum ver pessoas lendo revistas de dois anos atrás e gostarem do que estão lendo, apesar de a publicação ser antiga. Esse veículo de comunicação transcende as noções de “velho” e “novo” no jornalismo. Embora o atual e veloz desenvolvimento das tecnologias de informação e da cultura audiovisual, a palavra escrita é o meio mais eficaz para transmitir informações complexas. Quem quer informações com profundidade deve, obrigatoriamente, buscá-las em livros, jornais, revistas, folhetos, pois quem quer saber mais tem de ler. Além disso, a palavra escrita dá ao leitor a oportunidade de ele voltar ao texto e fazer uma nova leitura sobre determinado assunto que não tenha sido entendido. Entretanto, fica a pergunta: o que mais chama a atenção do leitor: uma revista? Ou um jornal? Marília Scalzo afirma que a revista pode chamar mais atenção pelo formato. A forma que mistura entretenimento, educação, cultura e lazer, torna-se mais atrativa. Ainda, é fácil de carregar, de guardar, de colocar numa estante e de colecionar. Seu papel e impressão, 2 além de não sujarem as mãos como os jornais, garantem qualidade do conteúdo informacional e das imagens. Conforme Scalzo, na última década, os jornais fizeram um nítido esforço para se tornarem cada vez mais parecidos com revistas - seja nos temas, na linguagem ou na divisão em cadernos. No entanto, não obtiveram o sucesso esperado com tal metamorfose, por uma simples questão de formato e de público. Os jornais descobriram, por exemplo, que precisavam falar para os jovens - e trataram de criar suplementos específicos para esse tipo de publico. No entanto para ler o suplemento dedicado especialmente a ele, o jovem precisa comprar o jornal inteiro Revista tem foco no leitor conhece seu rosto, fala com ele diretamente. Trata-o por “você” (SCALZO, 2003, p.15). Esta proximidade que a revista proporciona ao leitor revela a importância dela como documento histórico. Ao contrário do jornal que é publicado num dia e, no outro, é usado para embrulhar objetos, as revistas são guardadas pelos seus donos entre os objetos de maior valor. Isso acontece porque a maioria das matérias de revista é atemporal, e, por terem seus conteúdos apurados em profundidade, servem como material de pesquisa. Além disso, as revistas oferecem muitos recursos gráficos para se contar uma história, como por exemplo, a fotografia e a infografia. Um texto será bem compreendido se estiver acompanhado de uma boa ilustração. Além de chamar mais a atenção do leitor, a matéria fica mais clara. No caso de uma revista regional, o veículo de comunicação se torna ainda mais próximo do leitor, pois este se reconhece à medida que lê e vê a sua cultura, os problemas sociais e a sua realidade local refletida nas matérias. Essa revista proporciona visibilidade às características do cidadão do interior do Brasil, enquanto as nacionais veiculam fatos relacionados aos estados de Brasília, do Rio de Janeiro e de São Paulo. O leitor sabe que a revista regional é para ser guardada, porque ela, além de informálo, servirá de legado para os descendentes que queiram saber da cidade e da origem de 3 sua família. Então, surge a importância da revista regional para a documentação histórica e para o resgate da memória coletiva. 1. Linguagem, pensamento e memória Através da palavra somos capazes de nos situar no tempo, lembrando o que ocorreu no passado e antecipando o futuro pelo pensamento. A linguagem, por meio da representação simbólica e abstrata, permite o distanciamento do homem em relação ao mundo, mas também é o que possibilitará seu retorno ao mundo para transformá-lo. A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base mais profunda da sociedade humana. (HJELMSLEV, citado por Marilena Chauí, 2002, p.137) Portanto, se não tem oportunidade de desenvolver e enriquecer a linguagem, o homem torna-se incapaz de compreender e agir sobre o mundo que o cerca. Por isso, a linguagem fixa o homem no tempo. Através dela, o homem deixa de reagir somente ao presente, ao imediato; passa a poder pensar o passado e o futuro e, com isso, a construir seu projeto de vida. A imprensa torna-se extremamente relevante, porque contribui para a construção de um arquivo das histórias de um povo. A palavra escrita grafa o presente no papel, dando a oportunidade ao homem de poder rememorar fatos e resgatar a sua memória. Nas palavras de Pierre Lévy (1993): “Tendo o papel como suporte, a memória coletiva começa o lento abandono do espaço para inscrever-se no tempo”. Para Marilena Chauí (2002), como consciência da diferença temporal – passado, presente, futuro, a memória é uma forma de percepção interna chamada introspecção, cujo objetivo é interior ao sujeito do conhecimento: As coisas lembradas, o próprio passado do sujeito e o passado relatado ou registrado por outros em narrativas orais e escritas. A autora diz que, além dessa dimensão pessoal e introspectiva (interior) da memória, é preciso 4 mencionar sua dimensão coletiva ou social, isto é, a memória objetiva, gravada nos monumentos, nos documentos e nos relatos da história de uma sociedade. Para Jacques Le Goff (1992), a memória coletiva se deu a partir da característica arquivista do sistema midiático, desde o surgimento da escrita. O autor destaca que esta memória assume até então duas formas emblemáticas: a primeira delas é a comemoração por meio das inscrições nos monumentos, a segunda é em forma de documento que a memória escrita pôde assumir, pois se destina a suportes específicos: osso, pele, bambu, papiro, papel. Falar em memória é resgatar o passado. “O nome, ou a palavra, ou objeto retém na nossa memória, enquanto idéia, aquilo que já não está ao alcance dos nossos sentidos”. (PIERCE, citado por Maria Lúcia Aranha, 1993, p.29). A escrita foi encarada pelo homem como maneira única de se conservar lembranças, visto que “as palavras e os pensamentos morrem, mas os escritos permanecem” (HALBWACHS, 1990, p.80). Desse modo, tendo em vista a importância da narrativa escrita na construção da história de uma sociedade, não há como descartar o valor do jornalismo como documento histórico. Nelson Tranquina (1999) diz que o jornalismo é entendido como uma prática social que estabelece relações com o mundo simbólico e com o mundo material dos indivíduos. Esta constituição de relações simbólicas e de materiais acontece enquanto memória, história e linguagem. História, porque são relações que se constituem a partir das exterioridades do jornalismo, sendo que este se encontra inserido dentro do processo de produção, transformação e manutenção da sociedade tecnológica para a qual a informação virou mercadoria sofisticada e o jornalismo transformou-se em atividade industrial. Assim, a memória jornalística e diplomática surge como “a entrada em cena da opinião pública, nacional e internacional, que constrói também a sua própria história” (Le Goff, 1994, p.461). O jornalismo regional torna a cidade verdadeiramente conhecida pelos próprios habitantes. Faz com que os leitores conheçam a história e a importância do município, em relação às outras regiões do país. Preservar costumes e culturas é um papel a ser desempenhado pela mídia regional. É preciso investimento na qualidade das redações e, por conseqüência, o resultado final é encarado como um trabalho sério e eficiente que faz a diferença. 5 A valorização da produção regional é mais do que a preservação da cultura é uma estratégia de fomento a democracia cultural e respeito às características regionais. Para Halbwachs (1990), pertencer a um determinado grupo é condição primordial para o registro da memória que é tratada pelo autor como um fenômeno de natureza social. A coletividade vai influir na formação da memória individual que sofre mudanças conforme o lugar que o indivíduo ocupa, por ser um ponto de vista sobre a memória coletiva. Assim, cada sociedade recorta o espaço a seu modo, de forma a constituir um quadro fixo onde encerra e localiza suas lembranças. E é por meio da linguagem, da palavra escrita, que tal realidade se mostra mais evidente e clara. A linguagem é, assim, um dos principais instrumentos na formação do mundo cultural, pois ela nos permite transcender a nossa experiência. “No momento em que damos nome a qualquer objeto da natureza, nós o individuamos, o diferenciamos do resto que o cerca, ele passa a existir para a nossa consciência”. (PIERCE, citado por Maria Lúcia Aranha, 1993, p.29). Neste contexto, surge a necessidade de se falar da revista “a par”, publicação regional pioneira, destacando suas devidas peculiaridades. 3. O surgimento da revista “a par” A revista regional “a par”, lançada no dia primeiro de maio de 2004, iniciou-se com periodicidade mensal, com uma média de 40 a 60 páginas. Elaborada em Formiga, pertence à empresa jornalística Laudares e Fonseca. À época de lançamento, a equipe de produção era formada por: Káthia Maria Leal (diretora de redação e repórter), Maria Aparecida Leal (repórter), Jania do Carmo Rodrigues (repórter), e Márcio Camargo (diagramação). A revista surgiu a partir do desejo do proprietário da empresa jornalística Laudares e Fonseca, Manoel Gandra Fonseca, de criar um veículo de comunicação regional, após a tentativa frustrada de regionalizar o jornal de propriedade dele, o diário “O Pergaminho”, de Formiga. O projeto editorial da “a par” foi baseado em algumas revistas informativas nacionais de grande circulação, como Veja, Isto é e Época, sendo que as características destas foram adaptadas para a realidade local. 6 Assim como todas as revistas informativas nacionais, a “a par” tem a seção de frases, formada pelas declarações retiradas do jornal “O Pergaminho”, a seção de entrevistas com personalidades políticas, colunas sociais, matéria de capa e matérias secundárias, que geralmente são duas, e artigos. Outra seção é a enquete cujo objetivo é saber a opinião dos formiguenses sobre temas atuais. Duas partes da revista merecem destaque especial devido à necessidade de valorizar a cultura regional e de resgatar a história local. A primeira é a seção “Vindos de Longe” que relata a história de imigrantes que se mudaram para Formiga, e o porquê de eles terem escolhido o município como ponto de residência. A matéria mostra as disparidades culturais do país de origem do entrevistado, em relação ao Brasil, e especialmente em relação à cidade de Formiga; também traz informações adicionais sobre o continente, o país e a cidade do imigrante. A segunda é uma editoria que se chama “História em Fotos” que reconstitui a história da cidade através de fotos antigas de colecionadores do município. A “a par” valoriza a produção artística local, ao veicular, também, reportagens sobre músicos, artesãos, artistas plásticos e escritores formiguenses. A revista traz ainda artigos sobre opiniões de especialistas que têm como objetivo a prestação de serviços, como artigos de direito e saúde, além de uma página dedicada à culinária. Na penúltima página publica-se uma crônica escrita pelo escritor formiguense Wilson Liberato, residente em São Paulo, sobre fatos ocorridos em sua cidade natal. A revista manteve essas colunas fixas em todas edições até o momento que ela se tornou quinzenal e passou por uma reestruturação gráfica e editorial, em que se alternaram as seções e acrescentaram outras. Em 19 de fevereiro de 2005, a “a par” tornou-se quinzenal, com 32 páginas. Porém, foi no dia 19 de março, depois de 10 edições mensais e 3 quinzenais, que a “a par” alcançou o seu objetivo original: tornou-se de fato regional. A regionalização teve início a partir de quatro cidades vizinhas de Formiga: Pains, Campo Belo, Córrego Fundo e Itapecerica. No dia 16 de abril, o periódico começou a circular em Arcos e, no dia 02 de julho, em Piumhi, outros dois municípios próximos a Formiga. 7 Em cada uma dessas cidades, possui um correspondente que, em geral, são jornalistas ou produtores culturais, nativos da cidade. A equipe de redação é formada por: Manoel Gandra Fonseca (Diretor e Jornalista responsável), Karla Luciana Oliveira de Souza (Diretora de Redação e repórter), Lenir da Silva Campos (repórter), Jania do Carmo Rodrigues (repórter) e Maxuel Cruz (ilustração e diagramação). A inovação da revista “a par” é o link no site www.flashoeste.com.br que possibilita ao internauta ler a sinopse das principais matérias da edição, antes de a revista começar a circular. A “a par” destaca-se por ser uma revista pioneira, regional e de variedades que têm como objetivo inteirar a população de Formiga e região acerca dos fatos locais e regionais. Além disso, tem o intuito de resgatar a história da cidade onde a mídia impressa surgiu há 122 anos, com o primeiro jornal impresso, o “O Democrata”, publicado em 1881. Conforme a ex-Diretora de Redação, Káthia Maria Leal, que fez parte da equipe de criação do projeto da revista, a “a par” é peculiar até no que diz respeito à produção de notícias. O repórter, quando sai para a rua para apurar uma matéria, não sai sem informações prévias sobre o assunto, porque conhece a localidade e as necessidades do seu povo. Esse fato o capacita a realizar um processo de apuração mais verossímil, pois o jornalista tem maiores condições de ouvir as fontes que estão próximas e de tratar de assuntos que vão interferir diretamente na realidade da população. Outra particularidade da “a par” é a proximidade geográfica entre a revista e o leitor. Isto permite que a equipe de redação saiba da dimensão da repercussão das matérias na sociedade e da discussão social causada por elas. Káthia Leal ressalta também a importância de a revista constituir-se como um documento histórico. A jornalista conta que a coluna “História em Fotos”, coletânea de fotos antigas de um mesmo assunto, tem uma boa recepção, porque remete ao passado dos formiguenses. Então, surge o caráter documental, pois muitos assuntos publicados servirão de base para resgatar o passado, explicar o presente e projetar o futuro. 8 4- A afirmação do caráter histórico de “a par” através da seção “Carta do leitor” A perspectiva do receptor tem sido recentemente retomada por autores dos mais diversos campos do conhecimento, evidenciando uma tendência cultural de se buscar as diferentes formas de interpretação e interação social. Visto que cada leitor pode ter opiniões diferentes sobre o mesmo assunto publicado em determinado veículo de comunicação. Saber a opinião do leitor e o que ele pensa é muito importante para a credibilidade de qualquer veículo de comunicação, pois o receptor contribui para a transformação, evolução dos veículos a medida que criticam, sugerem mudanças e elogiam as publicações. Na imprensa, a Seção “Carta do leitor” é o espaço reservado para que o leitor participe desse processo, no entanto como diz Bahia (1990), a correspondência dos leitores, não é por si só fielmente representativa de valores como penetração, credibilidade, honestidade, prestigio ou autoridade do veículo, porque há sempre um grande número deles que nunca se manifestam, há um número expressivo dos que só opinam sobre determinados assuntos, e há também um ponderável número dos que escrevem demais, são desinformados ou fazem julgamentos apressados. O grande trunfo da “Carta do Leitor”, conforme diz Juarez Bahia, é que elas são indicadores ideais para, em certos momentos, traduzir níveis de receptividade a determinadas posições ou matérias; para testar formulas de estilo e linguagem do veículo e para aferir legibilidade ou alcance do conteúdo. Em princípio, o leitor está presente em todo veículo, nas reportagens, entrevistas, nos editoriais, nos editoriais, nas notícias de utilidade pública, nas informações de serviço, nos classificados e na publicidade em geral. Porém são as cartas que fornecem o modo comum, simples, espontâneo de manifestação do leitor, tenha ele ou não acesso ao noticiário. (BAHIA, 1990, p.108). Nesse sentido, é coerente a análise da Seção “Carta do Leitor” de “a par” como afirmação dos objetivos da revista que são: resgatar a historia, contribuir com a formação da memória coletiva e dar visibilidade à cultura local. Por meio desse espaço democrático reservado ao leitor, pode-se perceber a “voz” do receptor que elogia, critica e sugere mudanças e até reivindica ações do poder público. O leitor se mostra motivado quando 9 existe a possibilidade de ele não ser apenas um receptor passivo no processo de comunicação, mas também um emissor com voz ativa. Na segunda edição, publicada no primeiro de junho de 2004, duas cartas relataram a satisfação dos formiguenses com a chegada da primeira revista regional. Uma das correspondências foi enviada por alunos da 4º série da Escola Honorato de Castro, que conheceram o periódico por meio da professora Fátima. Eles parabenizaram a equipe de redação pela iniciativa e por estarem contribuindo com o desenvolvimento de Formiga. Na segunda carta, o vereador Aluísio Veloso Cunha relata o quanto ficou orgulhoso de ser formiguense, ao folhear a primeira edição de “a par” e ver a riqueza cultural de seu povo retratada nas páginas da revista. A peculiaridade da revista “a par” é de não ser apenas uma revista informativa, mas também de ser um documento histórico, portanto, grande porcentagem dos entrevistados da seção “Entrevista” são idosos que participaram e acompanharam o desenvolvimento da cidade. A coluna “História em Fotos”, também resgata fatos por meio de fotografias. A carta do leitor Marcos Paulo Faria pode comprovar o citado acima. O vendedor revela o quanto foi bom rever as fotos do carnaval formiguense na década de 80, publicadas na décima primeira edição. Ele faz também um apelo ao poder público que incentive e designe verbas para que atividades como esta voltem a ser realizada com sucesso. A carta também é uma forma de aproximação entre o veículo de comunicação e seu público alvo. Todo veículo e não só o escrito, nos quais as cartas por sua própria natureza encontram um leito próprio, deve procurar e consolidar uma aproximação com seu público. Pois, na prática parece difícil manter uma ligação verdadeiramente estreita, embora nada impeça um contato vivo e recíproco. (BAHIA, 1990, p.108). O fato de a revista ter se tornado regional agradou muitos leitores de cidades vizinhas que tiveram a felicidade de ver sua terra natal estampada nas páginas de “a par”. A leitora Carla de Faria residente em Pains foi uma delas. Ela disse que sempre teve vontade de ver imagens de seu município e de outras cidades como Itapecerica e Córrego Fundo publicadas nas páginas da revista. 10 Outra leitora que ficou contente com a regionalização da revista foi a arcoense Laura Monteiro, residente em Belo Horizonte. Ela diz ter ficado feliz por ler reportagens que valorizam os aspectos culturais de Arcos. Conforme Bahia (1990), quanto maior for o grau de participação dos leitores maior será a intensidade do debate que elas costumam provocar. Por isso é importante que o leitor tenha consciência desse espaço reservado para ele para criticar o que precisa ser criticado e elogiar o que deve ser elogiado. O leitor precisa ter consciência de que ao emitir sugestões ele pode interferir no processo de escolha e produção de matérias. Ele pode sugerir pautas, enfoques e apontar erros, fazendo com que haja interação entre emissão e recepção. Conforme Bahia (1990), a imprensa não se afasta nunca da convicção de que os anseios dos leitores, ouvintes e telespectadores são bem refletidos pelo veículo, pois, do contrário, ele não seria aceito. “A seção é eficaz, porque as cartas se bem avaliadas servem justamente para confirmar ou desmentir esse sentimento, ou apontar brechas na sua formulação”. 5. Um breve histórico da mídia formiguense A cidade de Formiga está localizada na região oeste de Minas Gerais, está a 197 quilômetros de Belo Horizonte. O município tem 147 anos de emancipação políticoadministrativa e uma população estimada em 66.000 habitantes, conforme registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). A cidade tem cinco emissoras de rádio, um canal de televisão (TV Oeste), dois jornais semanários, um diário e a revista “a par”. O Pergaminho, produzido pela mesma empresa da revista, Laudares e Fonseca, é o único jornal diário de Formiga. A primeira edição foi experimental e circulou no dia 03 de agosto de 1991. Permaneceu durante um ano e meio com circulação mensal. De 1993 a 1995 foi quinzenal e depois se tornou semanal. Em 2000, passou a ser diário. Tem uma tiragem de 2.500 exemplares e 2.500 assinantes em mais de 100 cidades. A linha editorial é extremamente política. Tem gráfica própria, possui 51 funcionários e é o terceiro jornal do Brasil a ter a figura do ombudsman. 11 O jornal Tribuna Formiguense é o mais antigo em circulação e foi publicado a mais de 25 anos. Fundado em agosto de 1979 pelo formiguense Jésus Ferreira da Silva e depois foi herdado pela filha Glaydes Silva. Quando começou a circular, tinha periodicidade quinzenal e uma tiragem de 1.000 exemplares. Hoje de propriedade de outra família, tornou-se semanal, com uma tiragem de 2.500 exemplares. É de circulação regional (cinco cidades). Atualmente, em cada cidade que abrange, há um correspondente, totalizando 8 funcionários. O jornal tem uma linha editorial voltada para a política e para o social. O Nova Imprensa foi fundado, em janeiro de 1997, pelo vice-presidente da Federação Brasileira de jornais do interior e circulou até 31 de março de 2000, com o nome de Gazeta do Oeste. Com periodicidade semanal, circula as sextas-feiras. Tem uma tiragem de 2.500 exemplares e cerca de 1.500 assinantes. É um jornal de opinião que desenvolve o trabalho de jornalismo investigativo. Publica assuntos em níveis estaduais e nacionais, relacionados à política brasileira. É o segundo jornal do estado a ter a edição completa na versão on-line. A página existe há quatro anos e recebe cerca 4.000 visitas semanais. Tem um total de 10 funcionários e cerca de 15 colaboradores. A TV Oeste (Fundação Educacional e Cultural de Integração do Oeste de Minas) foi criada em 1989 e levou 11 anos para conseguir concessão de funcionamento. Começou a funcionar em outubro de 2001 em caráter experimental. O sinal da TV chega atualmente a 11 cidades do oeste mineiro: Piumhi, Pimenta, Pains, Doresopólis, Arcos, Iguatama, Lagoa da Prata, Bambuí, Candeias, Campo Belo e Formiga. A emissora é geradora e é transmitida no canal Rede Minas, emissora de Belo Horizonte filiada à TV Cultura. A diretoria da TV Oeste é composta por três pessoas: Alessandro Pieroni (presidente); Márcio Gato (vice-presidente) e o diretor financeiro Maurílio Arantes. O único telejornal produzido pela emissora é o “Oeste Notícias”. É apresentado pela estudante Graziela Faria, aluna do curso de Gestão da Comunicação Integrada da PUC Minas Arcos. O jornalismo apresentado tem uma proposta comunitária e quase que totalmente voltado para atender os interesses das comunidades. Um dos problemas enfrentados pela emissora é 12 que, apesar de ser regional, as notícias são predominantemente produzidas sobre fatos que ocorrem em Formiga. A cidade fica com 20% da cobertura total do telejornal. A rádio Líder FM pertence a Geraldo União de Negócios e filiada à Rede mineira de rádio (Global Comunicação e marketing holding do Brasil). A freqüência é de 102,5 FM, e a rádio de maior abrangência em Formiga chega a atingir 100 municípios. Além da programação musical, a rádio conta com programação jornalística, valorizando as notícias de Formiga e região. A rádio tem também correspondentes diretos de Belo Horizonte direto da central de noticias. Além do noticiário, a rádio conta também com programas esportivos regionais e nacionais. A rádio 93.FM pertence a Antônio Leão da Silva e existe desde 1986. Com uma freqüência de 93.3 FM, atinge aproximadamente 20 cidades da região. A rádio conta com agência Rádio Brasil de notícias para transmitir informações aos ouvintes. A maioria das notícias divulgadas é nacional e pouco sobre a região. Não há programação jornalística específica, porque as agências mandam as notícias via Internet, e os locutores a divulgam. A rádio Difusora Formiguense AM pertence a Antônio Leão da Silva e existe desde 1941. Com uma freqüência de 93.3 AM e 850 MHZ, atinge aproximadamente 20 cidades. Apresenta programação musical e popular quando o ouvinte pode conversar ao vivo com o locutor. Não há programação jornalística específica, sendo algumas produzidas pela Agência rádio Brasil de Brasília. A rádio Divinal AM pertence a Jaime Ribeiro de Mendonça e existe há 13 anos. Com uma freqüência de 91.1 MHz, atinge aproximadamente 30 cidades. A programação é de cunho informativo e social com notícias da cidade e da região. O programa “Jaime Mendonça” que vai ao ar de sete da manha ao meio dia é o programa de maior audiência. Tem como objetivo ajudar moradores de Formiga e da região, os quais estejam passando por dificuldades financeiras. O locutor pede aos ouvintes que doem roupas e alimentos para quem tem necessidade. A rádio Realidade 87.9 pertence à associação comunitária de ação social, cultural e de comunicação. Licenciada desde 27 de maio de 2004, a rádio tem uma freqüência de 87.9. Por ser comunitária, atinge apenas a região de Formiga. Além da programação musical, a rádio tem serviço de utilidade pública para atender a comunidade. 13 6. Referências Bibliográficas BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica: as técnicas do jornalismo. 4ª ed. São Paulo: Ática. 1990. 253 p. CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 12ª ed. São Paulo: Ática, 2002, pp.125 a 144. HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. 2ª ed, São Paulo: Vértice, 1990, 189p. LE GOFF. História e memória. 4ª ed. Campinas (SP):Editora da UNICAMP, 1996, 423p. LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora 34, 1993, 208 p. NUNES, Mônica Rebecca F. A memória na mídia: a evolução dos memes de afeto. São Paulo: Annablume: Fapesp, 2001. pp.20 a 21. SCALZO, Marília. Jornalismo de revista. São Paulo: Contexto, 2003, pp.12 a 15. TRANQUINA, Nelson. Jornalismo: questões, teorias e estória. Lisboa: Vega,1993 14