CIBERLITERATURA E LINGUAGEM NÃO-VERBAL Eliene Cristina Carvalho1 Aline Morais da Silva1 Débora Cristina dos Santos Silva2 RESUMO: Este trabalho tem como tema a Ciberliteratura, e a relação que a mesma estabelece com a Linguagem não-verbal. O objetivo central é expor como ela é construída, os recursos utilizados para a sua criação, além de caracterizar a linguagem desafiadora muito utilizada na sua construção a “não-verbal”. Esta pesquisa foi realizada através de consultas telemáticas e acervo bibliográfico de grandes autores como: Ernesto M. de Melo e Castro, Rui Torres, Pedro Barbosa, Lucrecia D’Aléssio Ferrara, Nanni Balestrini. De caráter teórico e voltado à prática docente, este trabalho faz parte de pesquisas desenvolvidas pelo CEL - Centro de Estudos e Linguagem, ligado ao NUPTEC Núcleo de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica e à RedePesq, credenciada pela FAPEG. PALAVRAS-CHAVE: Ciberliteratura. Literatura Gerada por Computador. Linguagem não-verbal. Literatura e Informática. Compreender a poesia lírica da modernidade não é uma tarefa das mais fáceis. A poesia está caracterizada como caótica e experimental, lançando-se em muitas direções, num turbilhão de formas e temas, às vezes complementares, às vezes antagônicos. Seu hermetismo gera uma sensação de desequilíbrio, de desordem. A ausência de um padrão único para fazer o poético leva cada autor a buscar sua própria identidade poética no que diz respeito aos aspectos formais e temáticos de sua produção. Os inúmeros movimentos de vanguarda (desde a destruição do convencional e a rebeldia dos futuristas, passando pelas combinações rítmicas e pelos jogos de imagens ousadas do Expressionismo, pela realidade fracionada e expressa em planos superpostos no Cubismo, pelo acaso e pela anarquia do Dadaísmo, e pela junção entre o sonho e a realidade pregada pelo Surrealismo), os experimentalismos individuais ou de grupo, chegando-se até as inovações mais ousadas do Concretismo e seus similares, são provas cabais da multifacetação que a poesia lírica vem vivendo, desde o século XIX até este limiar de milênio e quebram o estigma de que a poesia é um gênero poético popular, em que se expressam unicamente sentimentos do eu lírico relacionados ao amor, à morte, à natureza (Pinheiro, 2003). Sendo a poesia moderna totalmente centrada na linguagem e seus experimentalismos, é explorada em todas as suas potencialidades. O poeta, ao criar sua obra, retira as palavras de seu estado de inércia, levando-as 1 2 Acadêmicas do 6º Período do Curso de Letras da Unievangélica. Bolsistas PBIC e PVIC 2009/FUNADESP. Orientadora: Profa Dra Débora Cristina dos Santos Silva. 1 para as infinitudes da poesia, não as limitando às ordens fonológica, morfossintática e semântica estabelecidas, mas a uma habilidade criadora que as submete a um universo de linguagem ilimitado. Como princípios estéticos e ideológicos que possibilitam a percepção de linhas de força análogas no lirismo moderno, temos: o antipassadismo, como ruptura com a tradição cultural e o desejo de criar uma nova estética; a sugestão, tendendo mais a sugerir que a comunicar, chegando-se ao extremo da “não-comunicação”; a despersonalização, devido à crise do conceito de personalidade, que reduziu a condição do ser humano; a fragmentação, apresentando não a totalidade da vida, mas apenas fragmentos da realidade; o figurativismo penetrando no campo do desenho artístico, rompendo fronteiras e buscando pontos de intersecção entre técnicas e maneiras; e o grotesco, colocando o feio como um valor intrínseco, autônomo, estabelecendo novos padrões estéticos (D’Onofrio, 1978). A partir de um repertório totalmente novo, o homem começa a fazer criações fantásticas, ao ponto de muitos não distinguirem o que é literatura e o que não é. E com o advento da informática e da era digital, a Ciberliteratura vem proporcionar um espetáculo de novas criações poéticas, fazendo com que o leitor mergulhe em um mundo de cores, sons, movimentos, além de poder interagir com a leitura através de ferramentas do computador. Os primeiros livros inteiramente publicados como resultados de Literatura Gerada por Computador (LGC) surgiram na década de 70 na Espanha e em Portugal. Entretanto, a sigla LGC já havia sido criada por Alain Vuillemin no seu livro Littérature et Informatique (1966). O autor propôs este termo para designar globalmente todo este novo tipo de criação literária. A Ciberliteratura, LGC (Literatura Gerada por Computador) ou Infoliteratura são termos que designam um processo criativo nascido com a tecnologia da informática, em que o computador é utilizado, de forma criativa, como manipulador de signos verbais e não-verbais, deixando de ser apenas simples armazenador e transmissor de informação, que é o seu uso corrente. Tal uso do computador, extensível de forma geral à Arte Assistida por Computador e à Ciberarte ( composição musical, criação de imagens sintéticas, cinema animado por computador), varia de acordo com as potencialidades gerativas do algoritmo introduzido nos programas. Tais programas podem possuir algoritmos de base combinatória, aleatória, estrutural, interativista ou mista (combinando uma ou mais destas modalidades). Em seu estado atual a LGC abrange três grandes linhas, gêneros ou tendências de criação textual, as quais muitas vezes podem assumir uma forma mista: a Poesia Animada por Computador (introduz novas componentes no domínio da textualidade, movimento e temporalidade, é uma das tendências que resulta da utilização criativa do computador para fins literários), Literatura Generativa (produção de textos literários continuamente cambiáveis por meio de um dicionário específico e uso de algoritmos) e a Hiperficção (literatura produzida e disponibilizada nos meios digitais, como world wide web, disquetes e CD-Rooms; a ficção em hipertexto constitui-se de histórias repletas de bifurcações e com várias escolhas de sequência 2 narrativa). A leitura não se desenvolve de forma linear na Hiperficção, mas através da ativação de links por parte do leitor que escolhe o seu percurso individual de leitura, participando desta maneira na elaboração da própria obra; deparando-se com novas relações entre o autor e o leitor. Este transforma-se em co-autor e a obra não pré-existe à leitura, é um objeto a ser construído pelo leitor que lhe confere não só uma interpretação, como até agora sucedia na leitura tradicional. Na Ciberliteratura, o computador funciona como “máquina aberta”, uma máquina onde a informação de entrada input é diferente da informação de saída output, por se diferenciar das “máquinas fechadas”, como é o gravador de áudio e vídeo, onde a informação de entrada é igual à informação de saída. O computador no seu todo equivale a uma máquina semiótica, criadora de informação nova, o que produz uma alteração em todo o circuito comunicacional da literatura no que concerne à criação, o suporte e a circulação da mensagem. (Pedro Barbosa, 2001) Além de utilizar recursos inéditos, o que mais intriga neste tipo de literatura é o fato dela utilizar constantemente um tipo de linguagem desafiadora, a Linguagem não-verbal. Como dizia o lógico, matemático, físico e filósofo norte-americano Charles Sanders Peirce, “não podemos pensar sem signos”. O Signo é uma entidade de duas faces, o significado e o significante, que se reclamam reciprocamente quando comunicamos. Os Signos podem ser verbais e não-verbais, o signo nãoverbal é de baixa definição, ou seja, a informação dele decorrente pode ser rica, porém pouco saturada em relação à precisão dos seus dados. A fragmentação sígnica é a marca da Linguagem não-verbal; nela não encontramos um signo, mas signos aglomerados sem convenções: sons, palavras, cores, traços, tamanhos, texturas. Não há convenção, não há sintaxe que as relacione: sua associação está implícita, ou melhor, precisa ser produzida (Ferrara, 2007). A variedade sígnica que compõe o não-verbal mescla todos os códigos, de modo que o próprio verbal pode compor o não-verbal, mas não tem sobre ele qualquer força hegemônica e centralizante; ao contrário, a palavra nele se distribui, porem não o determina, como no poema Amor de Clarice, de Rui Torres. Podemos chamar a esta variedade e combinação de signos de intersemiotização: linguagem complexa estruturalmente, porém mais eficiente enquanto possibilidade de representação. O texto não-verbal não agride nossa atenção, o hábito de atuar nos mesmos espaços e ambientes faz com que eles sejam cada vez mais iguais e imperceptíveis, tornando árdua e diversificada a tarefa de seu receptor. As teorias do formalismo e do futurismo, através de Chklovski, já definiam a especificidade da obra de arte literária em particular, como um modo ‘difícil’ de organizar a realidade, que deve levar o receptor a estranhá-la e obrigá-lo a uma reflexão pra identificá-la, ou seja, é necessário “reconhecer” a realidade, conhecê-la outra vez. Mas, como o texto nãoverbal não agride nossa atenção, ele se torna cada vez mais imperceptível e homogêneo, o que nos faz ter extrema dificuldade neste “reconhecimento”. O novo não é passível ao 3 conhecimento, esta faculdade se inicia a partir de um elemento anterior, já sedimentado na memória informacional. Há pouco pra ensinar quanto a um método de leitura não-verbal, ou seja, não há um método fixado e sobretudo, predeterminado, e sim procedimentos metodológicos, porém a sua operacionalização depende da natureza e da dinâmica de cada objeto lido. Quando falamos em métodos podemos salientar quatro aspectos: a necessidade de se estabelecer um modo de ler; esse modo se refaz ou se completa a cada leitura, visto que o próprio objeto lido sugere, na sua dinâmica, como deve ser visto; a necessidade de ter presente que o que vemos no objeto lido é resultado de uma operação singular entre o que está no objeto e a memória das nossas informações e experiências emocionais e culturais, individuais e coletivas, logo o resultado da leitura é sempre possível, mas jamais correto ou total; e a necessidade de ousadia nas associações para que se possa flagrar uma idéia nova, uma comparação imprevista, uma hipótese explicativa inusitada. A eleição de uma dominante desperta a atenção para o ambiente espacial, para o texto que nos envolve, porém ela é estratégica e metodologicamente ambiciosa. Em outras, palavras, é operacional, porque dela depende a despasteurização do habitual, tornando heterogêneo o homogêneo. Hierarquiza-se a textura indicial e isto nos permite estranhar o ambiente e colocar em crise o hábito de ver, perceber e ousar. Este artigo faz parte da pesquisa que integra o projeto Palavra e Imagem na poesia luso-brasileira e o subprojeto Augusto de Campos e Ernesto M. de Melo e Castro: Do verbo ao pixel, com a participação colaborativa da UFG, UEG, UniEvangélica, ligada ao projeto, intitulado Estudos Transversais de Lírica Brasileira Contemporânea: leitura e ensino de poesia nas escolas, que integra a REDE DE PESQUISA EM LEITURA E ENSINO DE POESIA, credenciada pela FAPEG. O subprojeto mencionado anteriormente está sendo desenvolvido dentro dos projetos PBIC-PVIC/2009 da UniEvangélica e está inserido dentro do projeto Ler.com. oferecido pelo CEL (Centro de Estudos e Linguagens) da mesma IES, a partir do 2º semestre de 2009. O projeto busca promover oficinas de capacitação de professores, para a leitura e o ensino de língua e literatura. Esta pesquisa foi desenvolvida através de pesquisas bibliográficas e telemáticas, possibilitando um aprofundamento teórico sobre a poesia experimental e literatura digital. REFERÊNCIAS FERRARA, Lucrecia D’Aléssio. Leitura sem palavras. 5. ed. São Paulo: Ática, 2007. VUILLEMIN, Alain (ed., 1996). Littérature et informatique - la littérature générée par ordinateur. Artois Presses Université, Arras. 4 BARBOSA, Pedro. Ciberliteratura, inteligência artificial e criação de sentido. Disponível em: <http://www.pedrobarbosa.net/artigos-online/artigo-icnc.htm> Acesso em: 31/07/2009. CASTRO, Ernesto M. de Melo e. Disponível em: <http://www.ociocriativo.com.br/guests/ meloecastro/>. Acesso em:03/08/2009. FINIZOLA, Fátima. Novas interferências do meio digital. Disponível em: >http//www.coriso.net/ .../Poesia%20Concreta%20Contemporânea%20-%20Novas%20Interferências%20doMeio%20 digital%20.pdf>. Acesso em: 03/08/2009. Ciberliteratura. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciberliteratura>. Acesso em: 04/08/2009. POESIA Experimental Portuguesa – Cadernos e Catálogos. Disponível em: <http://po-ex.net/ index.php/...ciberliteratura>. Acesso em: 10/08/2009. 5