A FESTA DO ABACAXI NO MUNÍCIPIO DA CANA Ricardo da Silva Costa Aluno do Programa de Pós-graduação do Instituto de Geografia - nível mestrado Universidade Federal de Uberlândia - UFU [email protected] Rosselvelt José Santos Professor e Coordenador do Programa de Pós-graduação do Instituto de Geografia Universidade Federal de Uberlândia - UFU [email protected] RESUMO O trabalho corresponde ao estudo dos vínculos territoriais dos produtores de abacaxi, no município de Canápolis, localizado na mesorregião do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba no estado de Minas Gerais. Elencamos a festa do abacaxi realizada na cidade como possibilidade de compreender a condição dos produtores de abacaxi do município de Canápolis, pois, se trata de um evento onde os produtores se encontram e dialogam sobre as tensões existentes. A festa também é usada como possibilidade de fortalecimento dos vínculos territoriais dos produtores de abacaxi no município. Com o avanço do agronegócio principalmente o canavieiro no município os produtores de abacaxi vem sofrendo imposições de várias ordens e tiveram que se (re)adequar para continuar produzindo e se mantendo como produtores rurais. Percebe-se que a partir da presença do usineiro e do capital a ele associado, o lugar passa por transformações tanto na paisagem quanto no cotidiano dos produtores. Assim o estudo começa mostrando as faces do agronegócio tendo como recorte temporal a década de 2000, depois, trabalhamos a festa como processo que se institui a partir de práticas sociais. Palavras-chave: Território; lugar; paisagem; produtores de abacaxi. O MUNICÍPIO NO CONTEXTO DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA Canápolis localiza-se na região do Triângulo Mineiro (mapa 01). Sua população, segundo estimativa do IBGE 2010, é de 11.365 habitantes. O município de Canápolis tem sua economia pautada na produção agropecuária, destacam-se os plantios de abacaxi, melancia e grãos como, milho e soja. Além do gado leiteiro e de corte. Segundo IBGE 2010, Canápolis possui cerca de 29.000 hectares plantados com cana-de-açúcar. Essa quantidade de hectares quando comparada à área total do município de 83.973,7 hectares, temos que aproximadamente 35% das terras já se encontram ocupadas com lavouras de cana. Diante dessa situação indagamos sobre a possibilidade do município manter a sua capacidade de produção, principalmente de alimentos, portanto torna-se necessário analisar a forma com que este fenômeno ocorre em Canápolis. Pensar a problemática da condição dos produtores tradicionais do município de Canápolis sob o avanço das lavouras de cana-de-açúcar é necessariamente pensar a precariedade da sua existência interligada e ou subordinada ao modo de produção capitalista. Sistema que segundo Harvey (2006, p. 80-81): [...] constrói e reconstrói uma geografia à sua própria imagem e semelhança. Constrói uma paisagem geográfica distintiva, um espaço produtivo de transporte e comunicação, de infraestrutura e de organizações territoriais que facilitam a acumulação do capital numa dada fase de sua história, apenas para ter de ser desconstruído e reconfigurado a fim de abrir caminho para maior acumulação num estágio ulterior. Portanto, torna-se também importante e necessário incluir nos estudos sobre a expansão do setor sucroenergético impactos socioespaciais da cana-de-açúcar na desarticulação da produção agropecuária (em especial o abacaxi) e de alimentos no município de Canápolis. Certamente as lavouras de cana-de-açúcar interferiram na produtividade e no abastecimento de produtos perecíveis, como, frutas e verduras, assim como de produtos de alimentação básica do trabalhador e no encarecimento que estes sofrerão dada a escassez e as dificuldades para produzi-los. Compreendemos que o avanço do agronegócio (soja, milho, pastagem, etc.) no interior do Estado mineiro é complexo, denso e repleto de particularidades, o que motivou o estudo. A preocupação se dá devido essa expansão atingir as áreas rurais ocupadas por populações tradicionais do Cerrado mineiro. Partimos do avanço do agronegócio sucroalcooleiro, da década de 2000. Pois entendemos que esse avanço canavieiro para o Cerrado mineiro causa a homogeneização1 das paisagens. Na prática, os usineiros reocupam o espaço, transformando pastagens em imensas lavouras de cana-de-açúcar. Como não são apenas lavouras, mas carregam consigo interesses que acabam tencionando os modos de vida dos produtores tradicionais. Na prática vão sendo encurralados nos seus próprios territórios. Com a (re)ocupação das áreas tradicionalmente destinadas à pecuária e a produção de uma economia de trocas, na mesorregião do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, promove-se em diversos lugares a alteração das velhas estruturas das comunidades rurais. Estruturas como as das escolas, das igrejas, das comunidades, das famílias, dentre outras se apresentam em mutação. Nosso estudo focou os produtores de abacaxi. No município de Canápolis, os produtores de abacaxi foram percebendo as imposições do agronegócio quando tiveram que renovar os seus arrendamentos. O preço da terra se elevou e tiveram que se adequar às novas condições impostas pelo setor sucroenergético. O acesso à terra que geralmente era mediada pelas relações de vizinhança vai sendo seriamente afetada pela presença e reprodução do grande capital, pois o arrendamento praticado pelo usineiro retira da terra o dono da terra. A relação de vizinhança fica comprometida porque quase não se tem moradores no entorno das grandes lavouras de cana. Aqui, ali, depois daquele córrego morava gente, a gente se encontrava, fazia vizinhança... tinha uma vida, não era triste como agora... Cana é isso... É uma coisa vazia, triste, assim sem vida... Fica muito difícil encontra gente assim de parelha com a gente2. Quando o produtor rural arrenda suas terras para o cultivo da cana-de-açúcar, altera a dinâmica da comunidade. No lugar, a vida se transforma, fincando no lugar uma profunda tristeza. A gente fica com a memoria daquela época que aquele córrego era rodeado de casas... Morava gente. Agora você vai ver gente, vai se 1 Ao tratarmos de homogeneização pensamos na paisagem, pois, de certa distância só observamos cana e mais cana no município de Canápolis. No entanto, ao adentrarmos no interior do espaço rural constatamos a existência “de vida rural”, pequenos produtores vivendo cerceado pela cana, produzindo e residindo nos lugares. 2 Entrevista realizada em 2011 no município de Canápolis. encontrar com gente na cidade... Aqui a gente não se encontra... Fica aquela lembrança que ali tinha uma família, lá outra e depois outra. Era então povoada e não era triste como agora. Cana deixa aqui, uma coisa vazia, sem vida... 3 Com a inserção das lavouras de cana, os moradores dos lugares rurais saem, pois, neste momento não é mais necessário ficar morando na fazenda, e assim, no cotidiano da comunidade, os moradores sentem os seus vazios. Quando não tem vizinho, falta aquela coisa de você ter uma amizade, teruma coisa de presença, de pode ter na conta um recurso na precisão. Então, agora as pessoa vão se afastando, não tem mais aquele entrosamento, aquela confusão de vizinho.4 No lugar, a rede de vizinhança perde seus nós, agora o vizinho ficou mais distante, não da mais para ir a pé ou a cavalo, pois as lavouras de cana não permitem o trânsito em seu interior e as estradas não são mais seguras devido aos caminhões que ali trafegam. Caminhão? Não é um trem, um treminhão que anda dia e noite, não dá um descanso. Dai ele vem, levanta aquela poeira, assim bem alta, aquela nuvem de coisa marrom de você ter uma constipação...Uma coisa que assusta, da gente perder o folego.5 Além dos incômodos do aumento de trafego de caminhões os produtores “perdem” a referência, ali deixa de existir a árvore, o mourão de cerca, etc. Ao perguntar para um morador como chegar a certa fazenda, ele responde: Assim,você pega essa estrada e vai reto toda vida, lá na frente cê pega a esquerda, depois é mio cê pergunta pra alguém purque depois só tem cana ai fica difici si o cê pega uma estrada errada fica perdido no canavial.6 Pensado na fala do entrevistado, vimos em Claval (1999, p. 295) que “a paisagem encontra-se, algumas vezes valorizadas por si mesmas: deixa de ser somente uma expressão da vida social, toma uma dimensão estética ou funda a identidade do grupo”. O processo de expansão das lavouras de cana-de-açúcar envolve um movimento de reocupação, redefinição e revalorização dos espaços já ocupados por 3 Entrevista realizada em 2011 no município de Canápolis. Entrevista realizada em 2011 no município de Canápolis. 5 Entrevista realizada em 2011 no município de Canápolis. 6 Entrevista realizada em 2013 no município de Canápolis. 4 produtores tradicionais do cerrado, bem como desarticulações de modos de vida fortemente vinculados aos seus respectivos territórios, tornando-se necessários amplos estudos. Além do debate teórico a respeito da cultura e das representações culturais dos produtores rurais, no campo fomos aos lugares vividos dos pesquisados e procuramos observar as transformações socioespaciais. Ainda como recurso metodológico, agimos estabelecendo reflexões teóricas empíricas. Os fatos e fenômenos vivenciados no campo tornam-se, neste procedimento, um importante material para atuarmos comparativamente com a teoria. Apesar desse avanço do setor sucroenergético sobre os territórios dos produtores rurais exercer impactos de varias ordens, eles conseguiram, se articular e com a ajuda da prefeitura realizam a “Festa do abacaxi”. A festa torna-se importante, pois, mostra que apesar das dificuldades os produtores de abacaxi não desistem de continuar produzindo na terra da cana. A FESTA No município de Canápolis, na região do Triângulo Mineiro, o processo de ocupação iniciou-se em meados da década de 1930, com a doação de terras para a formação do povoado. Com a vinda dessas pessoas para trabalhar no campo foi formando diversas comunidades rurais. Foi nessas comunidades onde começou o cultivo do abacaxi, fruto vindo de Monte Alegre (antiga comarca de Canápolis), assim o abacaxi foi ganhando importância no cenário do município e importante também para a população, pois o cultivo gera na cadeia produtiva, vários empregos. Neste contexto, a cultura do abacaxi acabou “cunhando” simbolismos no município, como exemplo, as placas com os nomes das ruas, tendo o fruto como referencia, outro exemplo e a escultura do fruto no acesso rodoviário à cidade (fotografia 01). A festa como categoria de analise se revela densa e cheia de sociabilidade, pois continua capaz de reunir vários produtores de abacaxi do município e dos municípios limítrofes. De acordo com Kinn (2009): [...] as festas tiveram uma forte presença na organização das comunidades rurais, fato que é por demais evidente, haja vista que o envolvimento comunitário das pessoas ocorre no processo produtivo, principalmente na troca de serviços e produtos que se tornam compromissos fortalecidos durante os encontros comunitários (KINN; SANTOS, 2009, p. 59). Apesar de a festa ter sido realizada no Parque do Peão da cidade (fotografia 02) de Canápolis observamos o empenho dos produtores em organizar a festa (junto com a prefeitura). Constatamos no recinto da festa, nas decorações dos estantes elementos simbólicos que reforçam a identidade do município com a cultura do abacaxi, reafirmando na festa os vínculos territoriais com a cultura da fruta. (fotografia 03). Com a festa percebemos que os produtores de abacaxi de Canápolis buscam “novas”7 formas de cultivo do abacaxi. A festa parece fortalecer o lugar em um espaço marcado por transformações socioeconômicas que ocorrem rapidamente. Segundo Santos (2008, p. 28): A festa abriga dimensões de tempo, tem duração. Tem o antes, o durante e o depois. Nas sociedades mais simples a centralidade da festa manifestando-se como direção e sentido de atos, relações, decisões, em suma, de práticas, de políticas, deriva do fato de que tais comunidades administram seu tempo. Fazem-no, certamente, conforme prescrições do mundo ao qual pertencem guardando certa institucionalidade, seja religiosa, seja estatal, mas a comunidade enquanto tal‚ dona do seu tempo. O tempo é presente – prático; é disto que deriva a centralidade da festa. No lugar, pelo fato da festa continuar atrelada às práticas sociais dos produtores de abacaxi são razões que se pôde pensar a festa como possibilidade de conhecer mais finamente as condições de vida dos produtores rurais. No nosso lugar produzir abacaxi é como jogar na loteria. Então não é certeza que a roça vai dar ganho... Então a gente continua e a festa também8 Trata-se de um modo de vida em que as pessoas vão tomando consciência do mercado e que a noção de festa possibilita conhecer o mundo e a forma e a importância desse modo de vida implicada na festa pelo momento e pelo lugar. 7 8 Ao falarmos de novas, estamos falando das tecnologias empregadas para o cultivo do abacaxi. Entrevista realizada em 2011 no município de Canápolis. Então a festa do abacaxi é um acontecimento que é mais que produzir abacaxi é como dizer que a gente existe. Então é certeza que a tem outra coisa que não é só cana... 9 No momento e no lugar da festa, os produtores de abacaxi, tanto na condição de participantes como consumidores da festa, principalmente nos shows, percebem que eles são responsáveis pela organização da comunidade, das famílias, de uma política de valorização do lugar. O povo fala da cana, da usina do arrendamento, mas ela não tem a festa. A festa é do abacaxi. Então aqui a gente faz uma lavoura e uma reunião que a cana não faz. O reconhecimento de um conhecimento diferente vai indicando também uma consciência do lugar, de saberes e fazeres decorrentes de certa disciplina entre seus membros, nas suas relações com a natureza e dos vínculos territoriais dos produtores rurais entre si. Cada um desses saberes e fazeres exige uma demanda significativa de trabalho, tecnologia e recursos financeiros. A produção do abacaxi ocorre pela técnica e anuncia diversas imposições. Desse modo, a permanência da festa decorre de possibilidades alcançadas pelos produtores rurais que estão implicadas no desenvolvimento das forças produtivas e na produção das novas condições de produção. A gente planta, mas colhe precisa aplica recurso. Quem não tem recurso nem planta. Dai você tem que dar aquilo que a planta pede. Na época da seca tem que dá água10. Aplicar tecnologia ajuda a entender a produção de uma lavoura que o setor sucroenergético não produz. Em contrapartida, as práticas produtivas do produtor de abacaxi provoca uma linearização no tempo desses produtores. Uma roça de abacaxi dá trabalho. A gente planta, mas não tem sossego. Se a planta precisa de água e a chuva não vêm, a gente é obrigado a irrigar.11 O tempo, que antes do uso de tecnologias era empregado pelos produtores para reproduzir a vida, vem sendo profundamente transformado. Isto quer dizer que 9 Entrevista realizada em 2011 no município de Canápolis. Entrevista realizada em 2011 no município de Canápolis. 11 Entrevista realizada em 2011 no município de Canápolis. 10 a festa continua, mas os produtores estão sendo inseridos no mundo da mercadoria. Contudo, com a manutenção da festa do abacaxi, e com a valorização da produção fica mais difícil os usineiros adentrarem nas terras ocupadas pela cultura do abacaxi. Assim a festa do abacaxi vinda das práticas sociais, revela vínculos territoriais que se processam a partir do lugar e das relações que os produtores são capazes de estabelecer no espaço. No município tem aqueles que não gostam da cana e tem também aqueles que gostam do abacaxi. Além disso, descobrimos aqueles que gostam tanto da cultura do abacaxi quanto da cana. Aqui no Canápolis ninguém é obrigado a gostar de uma coisa e desgostar de outra coisa. Agora quando a usa passa veneno com avião a gente que vive do abacaxi passa a desgostar da cana. No caso das duas culturas há oposições, pois se trata de diferentes lógicas de produção e de interesses sociais. CONSIDERAÇÕES FINAIS A festa reúne diferentes sujeitos sociais. Cada um ao seu modo participa dos festejos se se destituir dos seus interesses. Na festa encontramos o dono de terra. Os donos de terras tratam o arrendamento como uma forma de viver de renda. Essa situação é funcional e simbólica e tanto faz alugar as suas áreas para qualquer uma das duas culturas. São pessoas que ao lançarem mão do arrendamento para obterem renda exercem domínio sobre o território, tanto para se apropriar de parte da riqueza produzida, quanto para produzir “significados”. No entanto, existem outras pessoas, como os produtores de abacaxi, os comerciantes da fruta, além dos técnicos agrícolas e funcionários públicos. São pessoas que se encontram na festa e nela consideramos que há negociações entre diferentes produtores. Elas ocorrem com a mediação da prefeitura. Portanto, a festa do abacaxi decorre de arranjos e estratégias entre diferentes sujeitos sociais. Compreendemos, também, que os processos de formação dos vínculos territórios revelam a importância da ajuda mutua e empenho de grande parte dos produtores e da comunidade. Vimos que a festa apresenta um movimento, o qual resulta das transformações do cotidiano dos produtores de abacaxi. Transformações as quais se revelam como oposição entre produtores rurais da fruta e usineiros. REFERÊNCIA CLAVAL, P. A Geografia Cultural. Tradução de Luiz Fugazzola Pimenta; Margareth de Castro Afeche Pimenta. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1999. HAESBAERT, R. Da desterritorialização à multiterritorialidade. Anais do X Encontro de Geógrafos da América Latina – 20 a 26 de março de 2005 – Universidade de São Paulo. HARVEY, D. Espaços de esperança. Trad. de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Edições Loyola, 2006. SANTOS, M. 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