Os Modos de Elaboração de Estratégias e o Comportamento Estratégico de Organizações Contábeis frente às Alterações na Estrutura das Normas Contábeis Brasileiras. Autoria: José Elenilson Cruz, Luiz Carlos de Oliveira Silva, Danielle Montenegro Salamone Nunes, Valmir Emil Hoffmann Resumo Esse trabalho investiga possíveis associações entre o modo de elaboração das estratégias (MINTZBERG, 1973) e o comportamento estratégico (MILES e SNOW 1978) em organizações contábeis, quanto aos impactos na estrutura organizacional provocados pelas adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões internacionais. Para tanto essa pesquisa apoia-se em questionário estruturado contendo questões fechadas de múltipla escolha e utiliza técnicas de estatística não paramétrica. No que se refere à questão dos impactos das obrigações acessórias na estrutura das organizações contábeis, o resultado indica a existência de associação entre o comportamento estratégico e o modo de elaboração das estratégias adotados pelas organizações contábeis. 1 1. INTRODUÇÃO A discussão sobre estratégia em pequenas empresas não é recente. Mintzberg (1973) foi pioneiro ao afirmar que as pequenas empresas elaboram estratégias, e dessa forma demonstrou que a existência do planejamento como um processo racional não é uma condição para que haja estratégias em uma organização. O autor descreve esse modo como sendo centralizado em torno do empreendedor/a, com flexibilidade e alta velocidade de resposta (MINTZBERG, 1973). Isso dista da descrição que o autor faz do planejamento estratégico no mesmo texto que, ao contrário, é um processo formal e sistemático, com divisão de tarefas entre planejadores e executores. Embora não se reportando exclusivamente a pequenas empresas, em uma contribuição posterior, Mintzberg (1983) assume que também é possível haver a formulação de estratégias de maneira não deliberada, dentro de um processo sistemático, nomeado como estratégia emergente. Para o autor a emergência de estratégias aparece quando uma estratégia previamente desenhada sofre pressão externa e necessita ser modificada para poder atingir seu objetivo. Essas ideias assumem que o ambiente é, tanto uma força a ser dominada, com conexão ao voluntarismo, como no caso do modo empreendedor de elaboração de estratégias (MINTZBERG, 1973), como determinista, como no caso da estratégia emergente apontada por Mintzberg (1983). Uma contribuição à compreensão da formulação de estratégias foi apresentada por Quinn (1978; 1980), que afirmou ser a formulação de estratégias um processo eminentemente contingencial, e assim assume-se o determinismo do ambiente. Essas propostas foram reunidas por Idenburg (1993) que apresentou ainda o planejamento estratégico com o um processo de aprendizagem, flexível e ajustável ao longo do tempo. Ainda com relação a ambiente, em 1978 Miles e Snow publicaram uma classificação que chamaram de comportamento estratégico, procurando descrever como o estrategista toma decisões em função das pressões ambientais, de forma contingencial ou não. Essas decisões acabam por refletir em ajustes internos na estrutura dos papéis desempenhados, nas relações e nos processo gerenciais. Nessas duas abordagens – formulação de estratégias e comportamento estratégico – percebe-se que há posturas tanto voluntaristas como deterministas em relação ao ambiente externo. Como arcabouços teóricos, é possível perceber que elas podem ser aplicáveis a mais de um tipo de organização como o referencial teórico mostra. Contudo em setores mais específicos, em que mudanças podem ser adotadas em ritmos diferentes parece ser que elas seriam mais aceitas em determinados tipos de formulação e comportamentos mais que outros. Esse pode ser o caso das pequenas empresas de serviços contábeis. A integração da economia e a expansão dos mercados em escala mundial, dentre outras implicações, requer que os países adaptem sua estrutura contábil, a fim de se alcançar a harmonia com práticas contábeis consolidadas em nível global (MUNDO, 2013). Nesse sentido, a promulgação da Lei nº 11.638/07 alterou a estrutura contábil brasileira para adequála aos padrões internacionais - International Financial Reporting Standards (IRFS) e criou mecanismos que propiciaram maior uniformidade e homogeneidade nas informações prestadas à sociedade de forma geral (BRASIL, 2007). Uma das mudanças introduzida pela referida lei está nas práticas contábeis que afetaram principalmente as empresas de sociedades anônimas de capital aberto, gerando como consequência novas práticas de escrituração fiscal eletrônica das obrigações acessórias, tais como a declaração de apuração de contribuições sociais (DACON), demonstrativo de notas fiscais (DNF) e regime especial de apuração e pagamento da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS (RECOB), válidas para todas as empresas, independente do tipo de regime de tributação do imposto de renda. 2 Segundo Cosenza e Laurencel (2011), o processo de adequação dos procedimentos contábeis brasileiros às normas internacionais constitui-se num grande desafio para a comunidade contábil brasileira, já que acarreta importantes mudanças de comportamento na conduta técnica profissional e implica em profundas alterações no conjunto regulatório brasileiro. Uma das principais críticas ao processo de padronização está ligada aos custos envolvidos em todo o processo, como a própria burocracia que aumenta em função do incremento de normas. Alem disso, as normas internacionais para serem adotadas na totalidade em um país (Code Law), pode fazer necessárias grandes mudanças nas legislações envolvidas. Assim o processo pode ser moroso, aumentando os custos globais (FERNANDES et al. 2011). Deve-se também considerar que tais mudanças provocaram impactos na estrutura das organizações contábeis, uma vez que acarretaram custos adicionais com aquisição e instalação de novos equipamentos de informática e treinamento e capacitação de profissionais, aumentando os custos operacionais dessas organizações (ZANLUCA, 2010). Sob essa perspectiva, o presente trabalho investiga possíveis associações entre o modo de elaboração das estratégias de Mintzberg (1973) e o comportamento estratégico dentro da tipologia proposta por Miles e Snow (1978) em organizações contábeis sediadas em Goiânia, Goiás, quanto aos impactos na estrutura organizacional provocados por duas questões distintas: a) necessidade de adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões internacionais; e b) aumento de exigências das obrigações acessórias. Além desta introdução, o trabalho compõe-se de mais quatro seções: fundamentação teórica, métodos, resultados e discussão e considerações finais. 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Para atingir o objetivo proposto foi realizada fundamentação teórica sobre estratégia organizacional, no que se refere ao processo de elaboração e ao comportamento estratégico, objeto de estudo (empresas prestadoras de serviços contábeis), convergências e padronização das normas contábeis e os seus reflexos na tributação. 2.1 Estratégias Organizacionais Segundo Hax (1990), definir estratégia não é tão simples quanto parece, uma vez que alguns de seus elementos podem ser aplicados a qualquer organização (por possuírem validade universal) e outros dependem fortemente da natureza, estrutura e cultura da empresa. Assim, pode-se assumir que estratégia é tanto um padrão de decisões como aponta Andrews (1994), como uma maneira de relacionar a empresa ao seu ambiente (PORTER, 2004). Então, para clarificar melhor o processo de definição de estratégia, Hax (1990) sugere que o conceito seja separado do processo de elaboração. Segundo Porter (2004), tal processo ocorre tanto de maneira implícita como explícita, sendo o processo explícito aquele que se caracteriza pela formalidade, cujos benefícios são mais significativos para as empresas. A essência da formulação de uma estratégia competitiva é estabelecer o relacionamento da empresa com o seu ambiente, definindo as bases de competição (PORTER, 2004). Para tanto, ao elaborar suas estratégias, a empresa deve considerar seus fatores internos, como pontos fortes e fracos, bem como fatores externos como ameaças e oportunidades do ambiente. (PORTER, 2004), ou, como mostra Mintzberg (1973), deve partir da experiência acumulada. Na visão de Mintzberg (1973), a elaboração das estratégias pode ser desenvolvida de três modos distintos: empreendedor, adaptativo e o planejamento racional. O modo empreendedor caracteriza-se por refletir as características pessoais do empresário fundador do negócio, assim como o desejo de realização, centralização, autocracia, baixa aversão ao risco 3 e decisões arrojadas. Quando as empresas adotam tal modo, a busca por novas oportunidades de negócios é priorizada, ficando a resolução de problemas em segundo plano, mesmo em condições de incerteza. Nesse modo as decisões corajosas de seu fundador conduzem a empresa a maiores ganhos, sendo o crescimento o principal objetivo da firma (MINTZBERG, 1973). No modo adaptativo o tomador de decisões mantém uma posição de segurança, procurando evitar a incerteza; seus objetivos não são claros e suas decisões, de natureza basicamente corretiva, são tomadas em pequenos passos. Agindo dessa forma o gestor resolve problemas urgentes decorrentes de eventos imprevistos, mas não procura desenvolver estratégias de longo prazo; a organização é controlada por uma coalizão de interesses díspares, e os administradores focam suas decisões na redução de conflitos (MINTZBERG, 1973). O modo do planejamento racional tem como característica a formalidade de seus passos, incluindo o estabelecimento de missão, visão, objetivos e planos a partir do diagnóstico sistematizado dos pontos fortes e fracos da empresa, bem como das ameaças e oportunidades do ambiente (MINTZBERG, 1973; IDENBURG, 1993). Segundo os autores, nesse modo, os administradores implementam os planos baseados nas vantagens competitivas e nas competências essenciais da organização. Diversos trabalhos discutiram formulação de estratégias no Brasil, como Brandalise, Rojo, Mata e Souza (2012) que pesquisam a construção de cenários para a formulação de estratégias em um atacado de confecções no Paraná; Tachizawa, Pozo e Alves (2012) propõem um modelo de formulação de estratégias a partir de planejamento para uma pequena organização não governamental; Quadros et al. (2012) aplicam um modelo de planejamento estratégico para pequenas empresas numa organização de pequeno porte do setor de construção civil; Nonaka e Souza (2011) investigam o processo de formação e formulação de estratégias em micro e pequenas empresas atacadistas, varejistas e processadoras do setor de confecção e vestuário; Costa, Boaventura e Barreto (2010) estudam a formulação de estratégias de órgãos públicos municipais de turismo do Estado de São Paulo; Berté, Rodrigues e Almeida (2008) analisam a formulação de estratégias em pequenas empresas de base tecnológica e Piovezan, Laurindo e Carvalho (2008) apresentam um método simplificado para a formulação de estratégia para pequenas e médias empresas, estruturado em sete passos que consideram tanto o ambiente empresarial e as competências essenciais da empresa. Outra discussão presente na literatura de estratégia diz respeito à forma como as organizações reagem diante de determinadas circunstâncias do ambiente. Para Miles e Snow (1978), as organizações redefinem e ajustam constantemente os mecanismos - estrutura interna de papéis, relações e processos gerenciais - pelos quais atingem seus objetivos. Nesse aspecto, os autores propõem um modelo de adaptação organizacional denominado de ciclo adaptativo. Segundo Hoffmann et al. (2009), esse modelo está assentado sobre quatro tipos de comportamentos estratégicos, que são adotados pelas organizações diante de determinadas condições apresentadas pelo ambiente. Os quatro tipos de comportamentos estratégicos, na perspectiva de Miles e Snow (1978), são: defensor, prospector, analítico e reativo. Para os autores, no comportamento defensivo a empresa tem a estabilidade como meta e busca dominar uma parcela do mercado oferecendo um conjunto limitado de produtos ou serviços dirigidos a um segmento estreito de mercado. É o tipo da organização especializada na produção de produtos e/ou na prestação de serviços com características singulares a determinado público alvo. Apesar de o defensor combater de forma agressiva a entrada de concorrentes em seu nicho de mercado, tende a ignorar desenvolvimentos e tendências fora de seus domínios, complementam Miles e Snow (1978). No comportamento prospector a empresa explora novos produtos e oportunidades de mercado, pois entende que ter a reputação de empresa inovadora pode ser tão ou mais importante do que obtenção de alta rentabilidade. Esse comportamento é percebido em organizações criativas que frequentemente 4 modificam e propiciam mudanças e incertezas, às quais a concorrência tem que se adaptar e responder. O comportamento analítico surge como um tipo que combina os pontos fortes dos comportamentos prospector e defensor, podendo ser considerado como híbrido. Ao adotar esse tipo de comportamento, a organização procura minimizar os riscos e maximizar as oportunidades de lucro. É comum a empresa possuir uma área de negócios central mais estável e um componente de negócios mais dinâmico tratado de uma forma prospectora (HOFFMANN, et al., 2009). No comportamento reativo a empresa está inserida em um estado de instabilidade quase permanente devido às características de seu ambiente. A empresa apresenta mau desempenho por responder de forma inadequada à mudança ambiental e à incerteza. O comportamento reativo é típico de organizações que parecem não apresentar nenhuma relação coerente entre estratégia e estrutura, possuindo uma “não-estratégia” de reações impulsivas a eventos do ambiente. No Brasil trabalhos recentes aplicaram os conceitos de Miles e Snow (1978). Gardelin, Rossetto e Verdinelli (2013) examinam o relacionamento entre o comportamento estratégico e incerteza ambiental na percepção de gestores de pequenas de pequenas empresas; Chichoski, Ceretta e Rocha (2013) investigam o comportamento estratégico de empresas do setor industrial da cidade de Ampére/PR; Somavilla, Machado e Sehnem (2013) investigam como ocorreu o comportamento estratégico de uma empresa provedora de internet no Rio Grande do Sul, durante o seu processo de evolução, relacionando os tipos de comportamento às fases do ciclo adaptativo da empresa; Zanin, Machado e Sehnem (2011) investigam as formas de planejamento estratégico e os tipos de comportamento estratégico adotados por uma cooperativa de leite de Santa Catarina durante o seu processo evolutivo e Almeida, Antonialli e Gomes (2011) examinam o comportamento estratégico de pequenas empresas de propriedade e gestão feminina, com base na percepção de suas proprietárias. 2.2 A convergência e padronização das normas contábeis e os reflexos tributários No Brasil, o processo de convergência às normas internacionais de contabilidade (conhecidas pela sigla IFRS) teve como um de seus marcos o Projeto de Lei nº 3.741 apresentado ao Congresso no ano 2000 e transformado na Lei 11.638/07. Outro marco importante foi a criação do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) - Resolução CFC n° 1.055/05 - com o intuito de unificar a emissão de pronunciamentos contábeis e alinhá-los aos padrões internacionais do International Accouting Standards Board (IASB). Dessa forma criou-se um instrumento legal que permitiu a internacionalização contábil no Brasil com alcance nos mercados regulados, como o das companhias abertas, de seguros, de energia, de bancos, de transporte terrestre, dentre outras, e a institucionalização do CPC permitiu, além da internacionalização contábil, uma harmonização dos padrões contábeis internamente ao viabilizar a reunião de todas essas entidades (DANTAS, et al. 2012). Weffort (2005) elenca alguns fatores positivos concernentes à harmonização das normas contábeis, como por exemplo, a maior consistência das demonstrações financeiras entre os países, facilitando assim as análises de investimentos e o aumento do mercado de trabalho para contadores e prestadores de serviços contábeis. A autora, porém, considera como fatores negativos a desconsideração às diferenças entre os países ao adotar normas contábeis internacionais, o desprezo às diferenças sociais, econômicas, jurídicas e culturais, bem como a possibilidade de arbitramento de normas de países mais desenvolvidos para aqueles menos desenvolvidos economicamente. Macedo et al. (2013) acrescentam que ao longo desse processo de mudanças foram observadas além de modificações conceituais, mudanças de critério contábil e mudanças de classificação e contabilização de operações que até então eram apresentadas fora do balanço. 5 Tudo isto trouxe também em seu bojo a acentuação de divergências entre os critérios contábeis e os fiscais/tributários adotados no âmbito das empresas. A fim de realizar os ajustes tributários decorrentes das divergências entre a Lei nº 11.638/07 e a legislação tributária e instituir a neutralização fiscal, foi criado o Regime Tributário de Transição (RTT) (Lei 11.941/09). A adoção pelo RTT foi optativa para os anos de 2008 e 2009, passando a ser obrigatório em 2010 para as empresas tributadas pelo lucro real, presumido ou arbitrado. Portanto, conforme Pêgas (2011), nos anos de 2008 e 2009 existiram dois tipos de apuração: uma em que as empresas optaram pelo RTT neutralizando os efeitos tributários, e outra na qual as empresas não optaram por neutralizar os efeitos tributários, passando a partir de 2008 a considerar as novas normas societárias também para fins fiscais. Para atender ao regime transitório, as autoridades fiscais instituíram uma nova obrigação acessória em que as empresas indicariam os ajustes necessários para eliminação dos efeitos dos novos métodos e critérios contábeis, o Controle Fiscal Contábil de Transição (FCONT). Em meio a toda essa modificação, pode-se perceber que as alterações advindas da lei envolveram não apenas os aspectos contábeis e fiscais/tributárias, mas também, por consequência, aspectos de computação e informática. O que traz, para empresas do ramo contábil uma maior preocupação com treinamento e adequação de procedimentos (contábeis e de informática) para acompanhar as mudanças decorrentes da Lei 11.638/07 e da harmonização contábil às normas internacionais (FERREIRA, 2012). Nesse sentido, continua o autor, as modificações da legislação e, consequentemente, as obrigações fiscais acessórias, bem como as adaptações necessárias no aspecto tecnológico fazem com que os profissionais da área contábil tenham uma constante necessidade de atualização. 3 MÉTODOS Esse trabalho possui caráter descritivo com abordagem qualitativa e quantitativa. Para a coleta de dados aplicou-se questionário estruturado, contendo questões fechadas de múltipla escolha, adaptado de Hoffmann et al. (2009). O trabalho contou com o apoio do Conselho Regional de Contabilidade do Estado de Goiás (CRC-GO) para o encaminhamento dos convites às 1.532 organizações contábeis registradas nesse conselho. A primeira chamada foi realizada em 20/11/13 e a segunda em 27/11/13. As 86 respostas recebidas totalizaram 860 observações, cuja tabulação descritiva foi realizada pela plataforma digital survey monkey. Para a análise quantitativa dos dados, visando identificar se existe associação entre o comportamento estratégico (MILES; SNOW, 1978) apresentado pelas organizações contábeis e os modos de elaboração das estratégias (MINTZBERG, 1973), utilizou-se a técnica não paramétrica do teste qui-quadradro de Pearson (χ2), considerando um nível de significância de 5%. Nesse aspecto, foram propostas as seguintes hipóteses no que tange à questão dos impactos das obrigações acessórias: H0: Não existe associação entre o comportamento estratégico adotado pela organização contábil e o modo de elaboração da estratégia, empreendido para o estudo dos impactos na estrutura organizacional, decorrentes das exigências das obrigações acessórias. H1: Existe associação entre o comportamento estratégico adotado pela organização contábil e o modo de elaboração da estratégia, empreendido para o estudo dos impactos na estrutura organizacional, decorrentes das exigências das obrigações acessórias. Hipóteses similares foram propostas para averiguação dos impactos das adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões internacionais: 6 H0: Não existe associação entre o comportamento estratégico apresentado pela organização contábil e o modo de elaboração da estratégia, empreendido o estudo dos impactos estrutura organizacional, decorrentes das adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões internacionais. H1: Existe associação entre o comportamento estratégico apresentado pela organização contábil e o modo de elaboração da estratégia, empreendido o estudo dos impactos na estrutura organizacional, decorrentes das adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões internacionais. Identificada a existência de associação entre o comportamento estratégico apresentado pelas organizações contábeis e os modos de elaboração das estratégias, passa-se a identificação de relações de interdependência entre esses dois fatores aplicando a análise de correspondência (ANACOR). A análise de correspondência (ANACOR) é uma técnica que examina relações de interdependência de variáveis categóricas, sendo utilizada para redução dimensional e mapeamento perceptual (HAIR et al., 2009). Os autores destacam, ainda, que a análise de correspondência (ANACOR) é uma técnica exploratória, não sendo adequada na realização de teste confirmatórios. 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO Como citado no referencial teórico, diversos trabalhos procuram investigar os temas formulação de estratégias e comportamento estratégico em pequenas empresas no Brasil. Os resultados que serão apresentados nesse tópico complementam o conhecimento então produzido, uma vez que esse trabalho investigou se há associação entre os modos de elaboração de estratégias de Mintzberg (1973) e tipos de comportamento estratégico de Miles e Snow (1978), assunto não abordado nos trabalhos citados. Os resultados serão discutidos em termos qualitativos e quantitativos. Porém, antes dessa etapa é apresentada a caracterização da empresas prestadora de serviços contábeis. 4.1 Caracterização da empresa prestadora de serviços contábeis Organizações contábeis são entidades prestadoras de serviços que, de acordo com Pereira (2005) têm como objetivo principal fornecer informações acerca do patrimônio e suas variações, além de atender às obrigações decorrentes da legislação fiscal e tributária das empresas clientes. Entretanto, ainda segundo o autor, as empresas de serviços contábeis estão estruturadas prioritariamente para emissão de relatórios fiscais, o que acaba dificultando a percepção dos clientes acerca do diferencial qualitativo entre uma empresa e outra. Em sentido semelhante, Adriano et al. (2007) acrescentam que as organizações contábeis tem a função de cuidar do patrimônio de seus clientes, bem como dar suporte para fins econômico-financeiros, e, assim, resolver problemas patrimoniais, reduzir custos e aumentar lucros. O Conselho Federal de Contabilidade (CFC), por meio da Resolução nº 1.098/07 aponta a existência de duas modalidades de organizações contábeis: a) Escritório individual – quando o contabilista, embora sem personificação jurídica, executa suas atividades independentemente do local e do número de empresas ou serviços sob sua responsabilidade; e b) Organização contábil – pessoa jurídica de natureza civil, constituída sob a forma de sociedade, tendo por objetivo a prestação de serviços profissionais de contabilidade. Assim, as empresas contábeis são sociedades civis constituídas com o objetivo de realizar atividades relacionadas ao campo da contabilidade, enquadrando-se, em sua maioria, como micro ou pequenas empresas, segundo critérios do Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE). 7 Para Carvalho e Tomaz (2010), com o aumento da concorrência entre os mercados, os gestores passam a se interessar cada vez mais por informações contábeis úteis que possam subsidiar o processo de decisão empresarial e a continuidade de seus empreendimentos. Nesse mesmo sentido, Carvalho et al. (2008) apontam que o crescimento do setor de serviços e a necessidade de informações para melhorar sua qualidade, notadamente no setor contábil, podem ser considerados como um dos instrumentos de grande importância dentro das empresas. Assim, espera-se que serviços contábeis apresentem relatórios com informações cada vez mais claras, oportunas e relevantes, em tempo hábil ao processo gerencial das organizações (BARROS, 2005). 4.2 Análise qualitativa 4.2.1 Perfil dos Respondentes e das empresas participantes do estudo A grande maioria dos respondentes é composta por sócios-proprietários e gerentes, equivalendo a 95,3% das respostas. O nível de escolaridade predominante é a formação superior em ciências contábeis, com 52,3% com destaque também para outras formações ou especialização (31,4%).Verifica-se que 69% das organizações estão enquadradas como micro empresas, enquanto que 20% estão sob o regime de empreendedor individual. Em relação ao número de funcionários, 78,8% possuem até 09 colaboradores, enquanto que 12,9% possuem de 11 a 20 funcionários. Quando questionadas sobre especialização ou diversificação dos serviços oferecidos, 88,4% das empresas são diversificadas, prestando serviços a vários segmentos econômicos. Enquanto 11,6% são especializadas em até três segmentos distintos. Esses resultados demonstram que micro e pequenas empresas de serviços contábeis também têm procurado ofertar serviços especializados a determinados setores da atividade econômica. Percebe-se também que 26,7% das empresas têm entre 11 e 20 anos e 17,4% têm de 21 a 30 anos de existência. As figuras 1 e 2 sintetizam os resultados. A empresa é do tipo: Opções de respostas Especializado (em até 03 segmentos econômicos de mercado, por exemplo: transporte, combustíveis e construção civil) são responsáveis por 50% ou mais do faturamento. Diversificado (presta serviços a vários segmentos econômicos de mercado) Quantos anos tem a empresa?? % de resp 11,6% 88,4% Total Figura 1: Especialidade da prestação dos serviços Fonte: Dados da pesquisa (2013) Contag. Resp 10 76 86 Opções de repostas Até 01 de 02 a 03 de 04 a 05 de 06 a 10 de 11 a 20 de 21 a 30 mais de 31 % de Contag. resp Resp 5,8% 5 9,3% 8 10,5% 9 18,6% 16 26,7% 23 17,4% 15 11,6% 10 Total 86 Figura 2: Idade das empresas Fonte: Dados da pesquisa (2013) 4.2.2 Percepção das organizações contábeis quanto às obrigações acessórias A Figura 3 mostra os modos de elaboração de estratégia adotados pelas empresas quanto ao estudo dos impactos provocados pela introdução das obrigações acessórias na estrutura da organização. Verifica-se que 60,5% adotaram o modo adaptativo, pois realizaram um estudo de forma gradual conforme a evolução dos acontecimentos. Isso reflete a afirmação de Mintzberg (1973), de que as ações da organização adaptativa são de natureza corretiva e reativa, implementadas em passos incrementais. Percebe-se que 32,6% das empresas adotaram o modo empreendedor, uma vez que não se preocuparam em realizar estudo a respeito da questão, demonstrando que a resolução de problemas tem prioridade secundária (MINTZBERG, 1973). Apenas 8,1% das empresas fizeram uso do modo de 8 planejado, pois estudaram a questão com profundidade da questão. Isto demonstra que são organizações que analisam de forma sistemática e estruturada as condições ambientais (MINTZBERG, 1973). A Figura 4 evidencia o comportamento estratégico das empresas na questão. Verificase que 48,8% das empresas tiveram um comportamento analítico, percebendo as exigências das obrigações acessórias como uma oportunidade para melhoria dos serviços. O comportamento estratégico analítico é típico de organizações que detêm certa estabilidade nos negócios e procuram maximizar oportunidades de lucro e minimizar riscos (MILES e SNOW, 1978). Outros 39,5% das empresas adotaram um comportamento estratégico defensor ao perceber tais exigências como um custo adicional para sua estrutura. O comportamento estratégico defensor é característico das organizações especializadas em determinados nichos de mercado (MINTZBERG, 1973). Como nesse trabalho apenas 11,6% das empresas são do tipo especializado (ver quadro 05), verifica-se o que comportamento defensor foi também adotado em empresas diversificadas. Já em 12,8% das empresas, o comportamento estratégico verificado é o prospector, percebendo as mudanças como uma oportunidade para geração de novos negócios. Conforme afirmam Miles e Snow (1978), empresas prospectores exploram novos produtos e oportunidades de mercado, atuando com inovação e criatividade. Apenas 7% apresentaram um comportamento estratégico reativo porque encararam as mudanças como uma barreira/limitação à melhoria dos serviços. As empresas com esse comportamento não apresentam relação coerente entre estratégia e estrutura, tem reações impulsivas a eventos do ambiente e, frequentemente, apresentam instabilidade e mau desempenho (MILES e SNOW, 1978). . Como o escritório percebe ou percebeu a introdução das exigências citadas na questão anterior? Em relação à introdução das obrigações acessórias (como DACON, DNF, RECOB e outras) por parte de órgãos da União, estados e municípios, o escritório contábil: 60,0% 70,0% 60,0% 50,0% 40,0% 30,0% 20,0% 10,0% 0,0% 50,0% 40,0% 30,0% 20,0% 10,0% 0,0% Realizou um estudo O estudo dos impactos Não realizou estudo dos aprofundado dos impactos dessas exigências na impactos dessas exigências dessas exigências na estrutura do escritório foi na estrutura da empresa. estrutura do escritório. realizado de acordo com a evolução dos acontecimentos. Figura 3: Estudo dos impactos das obrigações acessórias na estrutura organizacional. Fonte: Dados da pesquisa (2013) Como uma Como uma Como um custo Como uma oportunidade para adicional decorrente oportunidade de barreira/limitação à melhoria da melhoria da da adaptações geração de novos qualidade dos exigidas na estrutura qualidade dos negócios. serviços do do escritório. serviços do escritório escritório. Figura 4: Percepção dos impactos das obrigações na estrutura organizacional Fonte: Dados da pesquisa (2013) 4.2.3 Percepção das organizações contábeis quanto às adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões internacionais. A Figura 5 mostra os modos de elaboração de estratégia adotados pelas empresas quanto às adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões de normas internacionais - International Financial Reporting Standards (IRFS). O modo empreendedor foi utilizado por 46,5% das empresas, uma vez que estas não realizaram estudo algum em relação à questão. Esse resultado está em linha com o pressuposto teórico de que o modo empreendedor é uma característica de pequenas empresas (MINTZBERG, 1973; HOFFMANN et al., 2009). Nas empresas empreendedoras as decisões são audazes e corajosas em busca da prosperidade do negócio mesmo em condições de incerteza 9 (HOFFMANN et al. 2009). Outros 43% das empresas adotaram o modo adaptativo ao estudarem os impactos de forma gradual ao longo dos acontecimentos. Nesse modo, além de tomar decisões em pequenos passos, o gestor procura resolver os problemas decorrentes de eventos imprevistos numa posição de segurança para evitar a incerteza (MINTZBERG, 1973; QUINN, 1980). O modo menos presente foi o planejado, tendo em vista que apenas 10,5% das empresas estudaram com profundidade os impactos dessas exigências na estrutura organizacional. As empresas que adotam esse modo caracterizam-se pela formalidade de seu planejamento em termos de definição diagnóstico, plano, objetivos e metas precisas (HOFFMANN, et al. 2009). Na Figura 6 são apresentados os tipos de comportamentos estratégicos adotados pelas empresas quanto às adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões de normas internacionais - International Financial Reporting Standards (IRFS). Como se verifica, 45,8% dos escritórios veem em tais adequações oportunidade para melhorar os seus serviços, denotando o comportamento empreendedor analítico. No entanto 25,3% as percebem como uma alavanca de custos, apresentando um comportamento defensor, típico de empresas especializadas em nichos de mercado (MILES e SNOW, 1978). Percebe-se nesse resultado que o comportamento defensivo, característico de empresas especializadas Miles e Snow (1978) está também presente nas organizações diversificadas. Já 16,9% das organizações percebem tais exigências como uma oportunidade para geração de novos negócios, denotando um comportamento prospector, característico das empresas que inovadoras e criativas (MILES e SNOW, 1978). Apenas 12% entenderam que essas exigências se configuraram como uma barreira/limitação à melhoria dos serviços ofertados, demonstrando um comportamento reativo, característico das organizações que apresentam uma “não-estratégia” de reações impulsivas a eventos do ambiente (MILES e SNOW, 1978; HOFFMANN, et al., 2009). Como o escritório percebe ou percebeu a introdução das exigências citadas na questão anterior? Em relação às exigências de adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões de normas internacionais - IFRS (International Financial Reporting Standards), o escritório contábil: 50,0% 45,0% 40,0% 35,0% 30,0% 25,0% 20,0% 15,0% 10,0% 5,0% 0,0% Realizou um estudo O estudo dos impactos Não realizou estudo dos aprofundado dos impactos dessas exigências na impactos dessas dessas exigências na estrutura do escritório foi exigências na estrutura da estrutura do escritório. realizado de acordo com a empresa. evolução dos acontecimentos. Figura 5: Estudo dos impactos das IFRS na estrutura organizacional Fonte: Dados da pesquisa ( 2013) 50,0% 45,0% 40,0% 35,0% 30,0% 25,0% 20,0% 15,0% 10,0% 5,0% 0,0% Como uma oportunidade para geração de novos negócios. Como um custo Como uma Como uma adicional decorrente oportunidade de barreira/limitação à das adaptações melhoraria da melhoria da qualidade exigidas na estrutura qualidade dos dos serviços do do escritório. serviços do escritório. escritório. Figura 6: Percepção dos impactos da IFRS na estrutura organizacional. Fonte: Dados da Pesquisa (2013) 4.3 Análise quantitativa 4.3.1. Impactos das obrigações acessórias na estrutura da organização contábil Para análise dessa questão foram excluídas 08 questionários que deixaram de assinalar ou assinalaram mais de uma opção nas questões 07 e/ou 08 do questionário. Assim foram validadas 78 respostas que testaram as seguintes hipóteses: 10 H0: Não existe associação entre o comportamento estratégico adotado pela organização contábil e o modo de elaboração da estratégia, empreendido para o estudo dos impactos na estrutura organizacional, decorrentes das exigências das obrigações acessórias. H1: Existe associação entre o comportamento estratégico adotado pela organização contábil e o modo de elaboração da estratégia, empreendido para o estudo dos impactos na estrutura organizacional, decorrentes das exigências das obrigações acessórias. Os resultados são apresentados na Tabela 1 e 2. Tabela 1: Distribuição do modo de formulação por tipo de comportamento quanto às obrigações acessórias Modo de planejamento Adaptativo Comportamento N N (%) Analítico 36 21 Defensivo 4 Prospector Reativo 8 30 Total 78 Empreendedor Planejado n (%) n (%) (26,92) 12 (15,38) 3 2 (2,56) 2 (2,56) 0 - 1 (1,28) 4 (5,13) 3 (3,85) 21 (26,92) 9 (11,54) 0 - 45 (57,69) 27 (34,62) 6 (7,69) (3,85) Fonte: Dados da Pesquisa (2013) Tabela 2: Teste Qui-Quadrado Resultado 2 Pearson χ Grau de liberdade Sig. (bicaudal) 16,56 6 0,0110 Fonte: Dados da Pesquisa (2013) Pela Tabela 1, percebe-se que o modo mais presente foi o adaptativo, adotado por 45 empresas (57,69%). Os dados indicam haver associação deste modo com o comportamento analítico (21 casos) e com o reativo (21 casos). Nesse caso, têm-se dois extremos. A grande maioria das organizações que estudaram os impactos das exigências das obrigações acessórias de forma gradual ao longo dos acontecimentos perceberam que tais exigências seria uma oportunidade para melhoria dos serviços ou uma barreira/limitação à melhoria dos serviços. O modo empreendedor está presente em 27 empresas (34,62%), estando também mais fortemente associado ao comportamento analítico (12 casos) e reativo (9 casos). A associação do modo empreendedor com o comportamento analítico evidencia que a maioria das organizações buscou maximizar as oportunidades de lucro, minimizando os riscos envolvidos (MILES e SNOW, 1978). E a associação com o comportamento reativo demonstra que um terço dessas empresas tiveram reações impulsivas frente aos impactos decorrentes das obrigações acessórias, não apresentando relação coerente entre estratégia e estrutura (MILES e SNOW, 1978). Pela Tabela 2 verifica-se que ao considerar um nível de significância de 5% e grau de liberdade 6, o teste apresentou um χ2 calculado de 16,56 superior ao χ2 crítico tabelado que é de 12,592. Isso significa que é possível rejeitar a hipótese nula de que não existe associação entre o comportamento estratégico adotado pela organização contábil e o 11 modo de elaboração da estratégia, empreendido para o estudo dos impactos na estrutura organizacional, decorrentes das exigências das obrigações acessórias. Dessa forma, tendo em vista que existe evidência de associação entre o comportamento estratégico adotado pela organização contábil e o modo de elaboração da estratégia, aplicou-se a Análise de Correspondência (ANACOR) para identificação de relações de interdependência entre esses dois fatores. A figura 7 apresenta o mapa perceptual entre o comportamento estratégico e o modo de elaboração da estratégia. É possível observar sinais de relações de proximidade entre o modo de planejamento adaptativo e o comportamento reativo e entre o modo de planejamento racional e o comportamento prospector. 1.5 Análise de Correspondência (ANACOR) Dimension 2 ( 3.5%) 0 .5 1 4 Defensivo 3 Empreendedor Reativo 2 1 Prospector 3 Analítico 2 Adaptativo -.5 1 Planejado -.5 0 .5 1 1.5 Dimension 1 (96.5%) Comportamento 2 2.5 Tipo de Planejamento coordinates in symmetric normalization Figura 7: Mapa Perceptual : Comportamento x Modo de planejamento Fonte:Dados da pesquisa (2013) A relação entre o modo de planejamento adaptativo e o comportamento reativo era esperada já que a ausência de objetivos claros e de estratégias de longo prazo, características do modo de planejamento adaptativo, podem de fato levar a um comportamento reativo, que segundo Miles e Snow (1978) é típico de organizações que parecem não apresentar nenhuma relação coerente entre estratégia e estrutura, possuindo uma “não-estratégia” de reações impulsivas a eventos do ambiente. Ainda, é possível observar que o comportamento analítico apresenta uma relação de proximidade tanto com o modo de planejamento empreendedor quanto o adaptativo. De acordo com Hoffmann et al (2009) o comportamento analítico combina os pontos fortes dos comportamentos prospector e defensivo, em que a organização procura minimizar os riscos e maximizar as oportunidades de lucro. Ou seja, ao mesmo tempo em que a empresa tenta manter a estabilidade, buscando dominar uma parcela do mercado, ela explora novos produtos e oportunidades de mercado. Esse comportamento híbrido pode explicar a proximidade tanto com o modo de planejamento empreendedor, em que a busca por novas oportunidades de negócio é priorizada, e o modo de planejamento adaptativo, em que as decisões buscam manter uma posição de segurança. 12 4.3.2. Impactos das adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões internacionais Para análise dessa questão foram excluídas 03 questionários que deixaram de assinalar ou assinalaram mais de uma opção nas questões 09 e/ou 10 do questionário. Assim foram validadas 83 respostas e testou-se as seguintes hipóteses: H0: Não existe associação entre o comportamento estratégico apresentado pela organização contábil e o modo de elaboração da estratégia, empreendido para o estudo dos impactos na estrutura organizacional, decorrentes das adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões internacionais. H1: Existe associação entre o comportamento estratégico apresentado pela organização contábil e o modo de elaboração da estratégia, empreendido o estudo dos impactos na estrutura organizacional, decorrentes das adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões internacionais. Os resultados são apresentados nas Tabelas 3 e 4 a seguir. Tabela 03: Distribuição do modo de planejamento por tipo de comportamento quanto às adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões internacionais (IFRS) Modo de planejamento Adaptativo Empreendedor Planejado Comportamento N N (%) n (%) n (%) Analítico 38 16 (19,28) 17 (20,48) 5 (6,02) Defensivo 10 4 (4,82) 6 (7,23) 0 - Prospectos Reativo 14 5 (6,02) 5 (6,02) 4 (4,82) 21 12 (14,46) 9 (10,84) 0 - Total 83 37 (44,58) 37 (44,58) 9 (10,84) Fonte: Dados da Pesquisa (2013) Tabela 04: Teste Qui-Quadrado Resultado 2 Pearson χ Grau de liberdade Sig. (bicaudal) 9,49 6 0,1478 Fonte: Dados da Pesquisa (2013) Pela Tabela 3, percebe-se um equilíbrio em termos de presença dos modos de planejamento adaptativo e empreendedor, ambos em 44,58% das empresas. Apesar da aparente associação do modo de planejamento adaptativo com os comportamentos analítico (16 casos) e reativo (12 casos), o resultado da Tabela 4 indica, considerando um nível de significância de 5% e grau de liberdade 6, que estatisticamente não existe evidência de associação entre o comportamento estratégico apresentado pela organização contábil e o modo de elaboração da estratégia. Como não foi identificada a existência de associação entre o comportamento estratégico apresentado pelas organizações contábeis e os modos de elaboração das estratégias quanto aos impactos das adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões internacionais, não foi aplicada a análise de correspondência (ANACOR). 13 5 CONCLUSÕES O presente trabalho investigou possíveis associações entre o modo de elaboração das estratégias, de Mintzberg (1973), e o comportamento estratégico, de Miles e Snow (1978), empreendidos por organizações contábeis frente às alterações na estrutura das normas contábeis brasileiras. As respostas revelam que a maioria das organizações (98,8%) é composta por micro e pequenas empresas, com base nos critérios da Lei nº 123/2006. Como consequência, 86% dos profissionais que responderam o questionário são sócios-proprietários. Quanto ao número de funcionários, 77,9% tem menos de 10 colaboradores. Em relação aos serviços prestados, 88,4% são do tipo diversificada atendendo a vários setores da atividade econômica. Apesar de serem micros organizações 26,7% tem entre 11 a 20 anos de existência, enquanto 17,4% tem entre 21 a 30 anos e 11,6% estão no mercado há mais de 31 anos. Quanto aos tipos de comportamento estratégico e aos modos de elaboração do planejamento estratégico, as empresas apresentaram resultados diferentes nas questões investigadas. Em relação à primeira questão - estudo dos impactos das obrigações acessórias na estrutura da organização - os resultados estatísticos confirmam a associação do modo de elaboração de estratégia adaptativo, empreendido por 57,69% das empresas, com os comportamentos estratégicos analítico e reativo, bem como a associação do modo empreendedor, presente em 34,62% das organizações, com os comportamentos estratégicos analítico e reativo. Portanto, nessa questão, foi possível rejeitar a hipótese nula de que não existe associação entre o comportamento estratégico adotado pela organização contábil e o modo de elaboração da estratégia. Quanto à segunda questão – estudo dos impactos das adequações dos procedimentos contábeis brasileiros aos padrões internacionais - houve equilíbrio na adoção dos modos de planejamento adaptativo e empreendedor por parte das empresas. Apesar do fato de o modo de planejamento adaptativo estar combinado com os comportamentos analítico (16 casos) e reativo (12 casos), os resultados estatísticos não permitem fazer associação. Portanto, nessa questão, os resultados indicam que é possível rejeitar a hipótese nula de que não existe associação entre o comportamento estratégico adotado pela organização contábil e o modo de elaboração da estratégia, empreendido para o estudo de tais impactos. Verificou-se ainda que nas duas questões de análise, o modo de planejamento adaptativo está mais presente do que o modo empreendedor, o que de certa forma, diverge do postulado teórico de Mintzberg (1973), uma vez que para o autor, o modo empreendedor estaria mais presente nas pequenas empresas. Esse fato, talvez, é justificado pelo tipo de organização e pela natureza dos impactos pesquisados. As conclusões desse estudo contribuem para a construção do conhecimento gerado pela área de estratégia no Brasil e abrem caminho para que novos trabalhos busquem encontrar evidências similares de associação entre os modos de elaboração das estratégias, de Mintzberg (1973) e os comportamentos estratégicos, de Miles e Snow (1978), de empresas inseridas em outros contextos de atuação. Entretanto, também é preciso continuar a investigação do fenômeno nas empresas contábeis com introdução de procedimentos metodológicos complementares para se alcançar conclusões mais precisas quanto a esse e outros aspectos não abordados no presente estudo. 14 6 REFERÊNCIAS ADRIANO, Nayana A. et al. A tecnologia da informação das empresas prestadoras de serviços contábeis: um estudo realizado na cidade de Pesqueira/PE. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE CUSTOS, 10, 2007, Lyon.Anais eletrônicos... Lyon: IIC, 2007. Disponível em:<http://www.intercostos.org/documentos/Queiroga.pdf>. ALMEIDA, I. C.; ANTONIALLI, L. M.; GOMES, A. F. Comportamento estratégico de mulheres empresárias: estudo Baseado na tipologia de Miles e Snow. Revista IberoAmericana de Estratégia – RIAE, vol. 10, n.1, p.102-127, jan./abr.2011. ANDREWS, K. The concept of corporate strategy. In: DE WIT, Bob & MEYER, Ron.: Strategy: process, content, context - an international perspective. St. Paul/USA: West Publishing, 1994. 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