08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 SERVIÇO SOCIAL E SAÚDE: EXIGÊNCIAS E DESAFIOS PARA A AÇÃO PROFISSIONAL NO AMBITO HOSPITALAR EM REGIÃO DE FRONTEIRA Maria Geusina da Silva1 Flavio Fidélis de Melo2 RESUMO O presente trabalho tem como objetivo debater acerca da ação profissional do assistente social na área da saúde, em especial no âmbito médico-hospitalar, evidenciando os desafios da intervenção profissional no Hospital Municipal de Foz do Iguaçu na atenção às necessidades de saúde da população brasileira residente em Ciudad Del Este – Paraguai. A concepção teórica de ação profissional defendida nesta proposta parte de um conjunto de instrumentos e técnicas que associada às competências teórico-metodológicas e ético-políticas materializam a atuação profissional do assistente social junto ao usuário, com intuito de resguardar o acesso as ações e serviços de saúde no ambiente hospitalar. Palavras-chave: Serviço Social, Ação Profissional, Hospital, Saúde. ABSTRACT This study has as objective to discuss concerning the professional action of the social worker in the health area, mainly in the medical-hospital care scenario, emphasizing the challenges of the professional intervention in the Municipal Hospital of Foz do Iguaçu in attention to the health requirement of Brazilian people who lives in Ciudad Del Este – Paraguai. The theorist idea of the professional action defended on this proposal comes from an aggregate of tools and techniques, which, if associated to theoretical-methodological and ethical-political 1 Assistente Social, Professora e Coordenadora do Curso de Serviço Social da Faculdade União das Américas, Mestre em Serviço Social pelo Programa de Pós Graduação, Mestrado em Serviço Social, do Departamento de Serviço Social, da Universidade Federal de Santa Catarina. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação, da Faculdade de Serviço Social, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e Membro do Núcleo de Pesquisa e Estudos em Saúde e Trabalho, do Curso de Serviço Social, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Avenida Paraná,1610 bloco 03 apt°1203, Jd. Pólo Centro Foz do Iguaçu Paraná. (45) 99755456. [email protected]. 2 Assistente social especialista em Gestão e Planejamento de Políticas Sociais, analista de seguro social da Agencia Previdência Social de Foz do Iguaçu. Rua Goiânia, 83. Vila C. Cidade Foz do Iguaçu. [email protected] 1 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 competences, reify the professional action of the social worker with the users, aiming to cover the access to the actions and the heath service in the hospital environment. Keywords: Social Services, Professional Action, Hospital, Health. 1 Introdução O presente artigo é fruto do trabalho de conclusão de curso, intitulado “Serviço Social e Saúde: desafios da ação profissional do assistente social no hospital municipal de Foz do Iguaçu na atenção às necessidades de saúde da população brasileira residente em Ciudad Del Este – Paraguai, apresentado em banca no ano de 2008.As inquietações que levaram a formulação da proposta de investigação decorrem a inserção do acadêmico no espaço sócio-institucional, para iniciação do Estágio Curricular Obrigatório em Serviço Social no Hospital Municipal de Foz do Iguaçu e da inserção no Projeto de Pesquisa “Direito à Saúde: concepções da população residente na linha da fronteira Mercosul”, desenvolvido através de parceria do Curso de Serviço Social da Faculdade União das Américas via Núcleo de Extensão e Pesquisa da Instituição de Ensino Superior – IES – com o núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade Civil, Políticas Públicas e Serviço Social – NESPP do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. A condição de Bolsista de pesquisa ampliou a aproximação aprofundando nossas indagações em relação ao tema proposto. O estudo teve como objetivo desvelar os desafios colocados a ação profissional do assistente social no Hospital Municipal de Foz do Iguaçu na atenção às necessidades de saúde da população brasileira residente em Ciudad Del Este – Paraguai 2 Exigências e desafios para ação profissional do assistente social o: O Caso brasileiro O Serviço Social enquanto profissão vai adentrar de forma significativa na área da saúde em meados da década de 1940, quando a Organização Mundial de Saúde 2 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 (OMS) elabora em 1948, um “novo” conceito de saúde, que passa a requisitar diferentes práticas profissionais, dentre os quais, o assistente social para atuarem na área da saúde em uma perspectiva multidisciplinar. Tais requisições decorrem em parte, da necessidade de suprir a falta de profissionais no âmbito da saúde, muito embora essa “nova” inserção não vá influir diretamente nas lutas mais gerais da classe trabalhadora neste setor. (BRAVO & MATOS, 2006). A inserção do Serviço Social na área da saúde tem sido historicamente condicionada por intervenções distintas, ora pelo Estado, ora pela sociedade civil organizada, considerando que o Estado ordenador do segundo. Nesse sentido, a ação profissional do assistente social no campo da saúde no contexto brasileiro, desde sua inserção datada de 1940, vem paulatinamente sendo transformada em detrimento da conjuntura econômica, política, social e cultural. É no marco dessas transformações históricas que a influência norte-americana ganha espaço acerca da profissão, que tão logo é substituída pela européia, marcando de forma profícua a conjuntura que precede a década anterior. Nessa perspectiva, Bravo e Matos (2006) revela que esta influência “situa-se no Congresso Interamericano de Serviço Social realizado em 1941, em Atlântic City (EUA)” (BRAVO & MATOS, 2006, p. 198). A expansão do Serviço Social no país, ocorre a partir de 1945, relacionada com as exigências e necessidades de aprofundamento do capitalismo no Brasil e às mudanças que ocorreram no panorama internacional (...) nesta década, a ação profissional na saúde também se amplia, transformando-se no setor que mais vem absorvendo os assistentes sociais (BRAVO & MATOS, 2006, p. 198). É nesse terreno histórico que o Serviço Social operava suas ações profissionais no campo da saúde, atendendo as exigências postas à profissão naquele momento, que tinha como pano de fundo o aprofundamento das bases de legitimação do capitalismo no cenário brasileiro com fortes implicações no âmbito mundial, em “função do término da 2ª Guerra Mundial” (BRAVO & MATOS, 2006, p. 198). Dessa forma, a atuação profissional do assistente social amplia-se concomitantemente à área da saúde, o que vai determinar efetivamente no maior campo profissional para os assistentes sociais brasileiros. À afirmação acima pode ser identificada na segunda metade dos anos 1950 com o surgimento da epidemiologia social que passa a reconhecer as condições de vida, de trabalho e os fatores ambientais que interferem nos estados de saúde e 3 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 doença da classe trabalhadora. Embora exista naquele período histórico uma ampliação do espaço de intervenção do assistente social, tal fato não resultará em avanços para a categoria na área da saúde (BRAVO & MATOS, 2006). É importante salientar que tal inserção, não se deu de forma homogenia e nem tampouco hegemônica na área da saúde, o que se constatava, era uma predominância das práticas médico-hegemônico que tinha como perspectiva contribuir para a expansão do labor curativo em detrimento da prevenção e promoção da saúde no campo sanitário. A atuação profissional do assistente social na área da saúde apresentava características de cunho caritativo embasadas em práticas cristãs oriundas da igreja católica, respaldadas pelo Estado. Logo, o Serviço Social atuava nos problemas de saúde apresentados pela “população cliente” através de práticas sócio-educativas no intuito de resgatar a moral recaindo na “psicologização dos problemas sociais” (BRAVO & MATOS, 2006). Diante do exposto, observa-se que o Serviço Social na década de 1960 necessitava rever seus aportes teóricos e metodológicos frente à ação profissional desenvolvida no âmbito das relações sócio-institucionais, mais que isso, questionava a necessidade de mudar radicalmente suas perspectivas de atuação neste campo, haja vista a debilidade teórica-crítica adotada e evidenciada na época, em decorrência da forte presença do conservadorismo nas suas formas de intervenção. Em 1964 se instaura o período ditatorial no Brasil, fato que vai atingir diretamente o Serviço Social que vivenciava naquele período o processo de renovação, onde se constatava a busca permanente de rompimento com o conservadorismo que permeava a profissão nesse contexto (BRAVO & MATOS, 2006). Nesse quadro, o Serviço Social passa a incorporar uma ótica endógena da profissão, buscando permanentemente seu processo de revisão interna, em que grande parcela dos profissionais reconhecia a urgente e necessária mudança no contexto das relações sociais que emergiam no campo da saúde neste momento histórico. Dessa forma, a proposta elaborada foi denominada de “Modernização Conservadora”, pois os assistentes sociais acreditavam categoricamente que tal perspectiva daria conta de romper com o conservadorismo até então existente no interior da profissão. 4 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 Nessa perspectiva, o Serviço Social na década de 1970 começa a se organizar enquanto categoria profissional, no intuito também de elaborar novas propostas teórico-metodológica para a atuação dos profissionais, momento pelo qual se realiza uma integração para o desenvolvimento da profissão, no entanto, tal perspectiva pautava-se nos aportes do estrutural-funcionalismo3 norte-americano, podendo apreender que tal fato não permitiu a desvinculação das práticas individuais e curativas no âmbito da saúde em que os assistentes sociais exerciam nas funções. (BRAVO & MATOS, 2006). Diante do apresentado, constata-se que embora tenha existido uma tentativa de “mordenização da profissão” essa não trouxe avanços significativos para a intervenção dos assistentes sociais, especialmente no campo da saúde, haja vista que a ação profissional nas instituições continuou pautada na “na teoria sistêmica, na modernização e que influenciou a elaboração dos programas sociais e a política social de saúde” (ABRANTES, 2008, p. 50). Dessa forma, Bravo (1996) apud Bravo (2006) ressalta que O Serviço Social na saúde vai receber as influências da modernização que se operou no âmbito das políticas sociais, sedimentando sua ação na prática curativa, principalmente na assistência médica (...) foram enfatizadas as técnicas de intervenção, a burocratização das atividades, a psicologização das relações sociais e a concessão de benefícios... (BRAVO, 1996 apud BRAVO, 2006, p. 202). É no marco dos anos 1980 que saúde avança de forma significativa no contexto brasileiro a partir da emergência da saúde coletiva, transformações que também irão ocorrer na categoria profissional, identificadas a partir da ampliação do debate teórico com o Estado e as políticas sociais, tendo como pano de fundo a perspectiva marxiana (BRAVO & MATOS, 2006). No Brasil o movimento sanitário pautou em sua agenda política grande propostas de mudanças na área da saúde ao longo das lutas ídeo-políticas que permeavam o Estado e o campo da saúde, buscando a consolidação do Projeto pela Reforma Sanitária que vinha sendo construído desde meados da década de 70. Entretanto, é na 8ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986 na cidade de Brasília que se conseguiu efetivar suas propostas de atuação no setor, contrapondose as diversificadas propostas de mercado que visavam deteriorar os serviços públicos 5 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 de saúde, portanto a 8ª Conferência pode ser apreendida enquanto um instrumento viabilizador de direitos no marco das conquistas alcançadas no campo da saúde (BRAVO & MATOS, 2006). Tais conquistas confirmaram um amplo conceito de proteção social no Estado brasileiro, uma vez que, com a promulgação da Constituição Federal de 1988, a saúde e elevada ao patamar de direito social, passando a conformar um conjunto de ações e serviços de cunho protetivo, preventivo e promoção resguardada pelo Estado e pela sociedade. Dessa forma, a saúde, a assistência e previdência social constituem a “tríade” da Política de Seguridade Social no país. A constituição cidadã de 1988 preconiza que as ações de saúde deveriam integrar uma rede regionalizada e hierárquica, plasmando-se num Sistema Único de Saúde (SUS). No que tange ao modelo de proteção social, a Constituição Federal de 1988 é uma das mais progressistas, onde a saúde, conjuntamente com a Assistência Social e a Previdência Social, integra a Seguridade Social. À saúde coube cinco artigos (Arts. 196-200) e nestes está inscrito que ela é um direito de todos e dever do Estado, e a integração dos serviços de saúde de forma regionalizada e hierárquica, constituindo um sistema único (BRAVO & MATOS, 2006, p. 203) Adentrando os anos 1990, identifica-se com maior intensidade a política de ajuste neoliberal emergente no âmbito do Estado brasileiro, é neste período que a ideologia em questão começa a influenciar o Estado a não intervir na “questão social”, deixando a encargo da sociedade a responsabilidade pelas suas condições de vida, bem como a manutenção de suas necessidades básicas de sobrevivência. Essa política de cunho neoliberal vai ter suas implicações no contexto da saúde nos anos 90, haja vista a “autonomia” deste sobre o Estado, culminando na privatização dos bens e serviços públicos de saúde. Diante do exposto, constata-se a relevância das considerações de Bravo (2006) quando coloca a afirmativa do ideário neoliberal no contexto brasileiro e, especialmente no campo da saúde, A afirmação da hegemonia neoliberal no Brasil tem sido responsável pela redução dos direitos sociais e trabalhistas, desemprego estrutural, precarização do trabalho, desmonte da previdência pública, sucateamento da saúde e da educação [...] a saúde fica vinculada ao mercado, enfatizando-se as parcerias com a sociedade civil, responsabilizando a mesma para assumir os custos da crise (BRAVO, 2006, p. 100). 6 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 As transformações no campo da saúde interferem diretamente nas ações profissionais dos assistentes sociais que intervém nesses espaços sócio-ocupacionais, colocando exigências para o Serviço Social. Porém, ao mesmo passo que se coloca tais exigências, também surgem desafios para a profissão, visto que, as práticas neoliberais muitas vezes estão respaldadas pelo próprio Estado, enquanto deveria elaborar estratégias de enfrentamento para combater as proposituras postas pelo arcaico ideário neoliberal. Diante do exposto, constata-se que a política de saúde no cenário brasileiro tem sido corroborada por interesses distintos à sua consolidação, refletidos por projetos antagônicos que permeiam o setor desde o seu nascedouro. Trata-se, portanto, de duas perspectivas; uma que diz respeito à política social de saúde com forte presença constitucional, quando elege em 1988 que essa “é um direito de todos e dever do Estado” difundindo princípios de universalidade, equidade, integralidade e participar popular em sua gestão, e outra, calcada em políticas de ajustes (contenção de custos) e terceirização dos serviços públicos de saúde. É nesse cenário histórico de lutas que se inscreve o trabalho profissional do assistente social no campo da saúde. Historicamente, verifica-se que o Serviço Social na área da saúde vem imprimindo diversificadas formas de atuação profissional, dada à complexidade de transformações que a política em questão vem sofrendo desde a Reforma Sanitária até a conformação do SUS. Porém, não se identifica nenhuma critica contundente da categoria profissional inserida nesse setor acerca das formas de atuação, pelo contrário, o que se constata é uma intervenção tradicional (Serviço Social de caso) atuando intensivamente no âmbito curativo e individual. Esse modelo de atuação dos assistentes sociais é produto histórico da não vinculação do Serviço Social as lutas dos movimentos sociais pela democratização da política de saúde, em decorrência do seu processo de revisão interna. Tal resultou numa inserção posterior quando já havia consolidado os avanços e conquistas do movimento pela Reforma Sanitária, o que resultou na consolidação de um engajamento periférico dos assistentes sociais neste setor. Nessa perspectiva, a ação profissional do assistente social vem sendo pautada pelos avanços consolidados pela perspectiva de Intenção de Ruptura, caracterizada como terceira direção do processo de Renovação do Serviço Social brasileiro. Essa 7 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 perspectiva ainda que de forma muito tímida favoreceu o debate sobre a intervenção dos assistentes sociais nos diferentes espaços sócio-ocupacionais, incluso a saúde. (BRAVO & MATOS, 2006). O trabalho profissional no âmbito da saúde nos anos 90 tem sido reordenado pelas contradições presentes nesta área, decorrentes dos projetos em disputa, qual seja: Projeto de Reforma Sanitária e Projeto Privatista, onde o segundo confronta-se com o Projeto Ético-Político da categoria profissional dos assistentes sociais por defender princípios e valores centrados na emancipação dos sujeitos sociais, reconhecendo-os enquanto sujeitos de direitos. É em meio a essas contradições que o Serviço Social vincula-se ao Projeto de Reforma Sanitária por entender que este possui perspectivas concretas em direção a uma sociedade mais justa e igualitária princípios do projeto ético-político da profissão no contexto do capitalismo monopolista. A política de saúde na década de 1990, evidencia a consolidação do Projeto de Reforma Privatista que traz como proposta, a contenção dos gastos, favorecendo e incitando o Estado à privatização da coisa pública. Nesse sentido, o referido projeto tem “como principais características [...] o caráter focalizado para atender as populações vulneráveis, a desconcentração dos serviços e o questionamento da universalidade do acesso” (BRAVO & MATOS, 2006, p. 206). A partir do exposto, identifica-se que ambos os projetos – Projeto de Reforma Sanitária e Projeto Privatista – no contexto anteriormente apontado tem apresentado aos assistentes sociais diferentes intervenções no campo da saúde conforme pontua Bravo e Matos (2006): O projeto privatista requisitou, e vem requisitando, ao assistente social, entre outras demandas: seleção socioeconômica dos usuários, atuação psicossocial através de aconselhamento, ação fiscalizadora aos usuários dos planos de saúde, assistencialismo através da ideologia do favor e predomínio de práticas individuais. Entretanto, o projeto de reforma sanitária vem apresentando, como demandas, que o assistente social trabalhe as seguintes questões: busca de democratização do acesso às unidades e aos serviços de saúde, atendimentos humanizado, estratégias de interação da instituição de saúde com a realidade, interdisciplinaridade, ênfase nas abordagens grupais, acesso democrático às informações e estímulo à participação cidadã (p.206). Observa-se que as requisições apresentadas aos assistentes sociais no âmbito da saúde são totalmente adversas, o que tem intensificado as exigências postas aos profissionais do setor, mais que isso, tem-se apresentado desafios extremamente 8 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 complexos no interior dos espaços sócio-institucionais de saúde no Brasil. Tais complexificações decorrem das divergências explicitadas em ambos os projetos em disputa como foi constatado em Bravo e Matos (2006). Nessa perspectiva, Nogueira e Mioto (2006) afirmam que: Inegavelmente, a maior conquista do SUS foi quanto ao direito de aceso universal e igualitário às ações e serviços de saúde em todos os níveis de complexidade (...) o SUS nesses quase dezesseis anos, continua com seus radicais defensores e radicais opositores (...) tal se deve à permanente disputa sobre o alcance da saúde como direito, em relação à própria concepção de saúde e às maneiras para viabilizar seu acesso e sua garantia (p.232-233) Diante do apresentado, pode-se identificar que o assistente social enfrenta inúmeros desafios no cotidiano profissional, onde cada vez mais são chamados a dar respostas condizentes com a realidade institucional, caracterizando enquanto uma exigência do espaço sócio-ocupacional que, em sua grande maioria requisita apenas a resolução dos “problemas” apresentados a instituição, não conformando o atendimento na ótica da totalidade que envolve os sujeitos destinatários da ação profissional. O assistente social no campo da saúde, atuante no interior do SUS tem se deparado com inúmeros desafios quanto à materialização de suas intervenções no âmbito da saúde, haja vista os mecanismos elaborados/adotados que tem se constituído em desafios imensamente difíceis de ser superados, como a implantação do Cartão SUS, uma mecanismo viabilizador para o acesso aos bens e serviços do sistema nacional de saúde, este instrumento tem apresentado situações constrangedoras, uma vez que não é toda população tem acesso a habitação, terra, trabalho etc. logo, a ausência de qualquer documento civil inviabiliza o acesso ao sistema público de saúde, salvo nos casos em que há riso de morte, em que as organizações, estabelecimentos e instituições da área saúde são obrigados a atender. Contudo, o trabalho profissional do assistente social tem sido requisitado cada vez mais nos espaços público de saúde, em especial e historicamente na área hospitalar, isso se deve ao reconhecimento da competência teórico-metodológica e técnica-operativa do assistente social nestes espaços, especialmente nos hospitais. Nesse sentido é que propusemos no subtítulo a seguir o debate do Serviço Social no contexto médico hospitalar, enfatizando as particularidades da ação profissional. 9 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 3 O Significado sócio histórico e as particularidades da ação profissional do assistente social no âmbito hospitalar Ao refletirmos o tema em questão é necessário, primeiramente, tecer algumas considerações acerca do surgimento dos hospitais no contexto em que essa instituição emergiu e desenvolveu. Dessa forma, pensar a ação profissional do assistente social nessa organização4 não é uma tarefa fácil, haja vista que tais atuações se complexificam em meio aos processos historicamente determinados. A partir do exposto, observa-se que já existiam preocupações quanto ao bem estar da população, visto que o processo de adoecimento comprometia a evolução da sociedade, em outras palavras, comprometia a evolução do capitalismo. Nesse sentido, Silva (1997), observa que [...] qualquer fator que interrompesse o processo de saúde do homem merecia preocupação, sendo nesse momento que se desencadeou a 5 necessidade de existência de Instituições Sociais que assistissem a saúde do homem, no sentido de se garantir o desenvolvimento da sociedade (SILVA, 1995, p. 7). A exposição acima permite observar que o desenvolvimento das “instituições sociais” era uma proposta merecedora de preocupações, tendo em vista que sua função além de garantir à atenção a saúde da população, tinha por sua vez, objetivos mais contundentes com as perspectivas defendidas pela classe dominante, ou seja, a propostas de desenvolvimento visavam inteiramente à maximização dos lucros capitalistas da época. Diante do apresentado, é que vão surgir os primeiros hospitais voltados à atenção à saúde da população, tendo como objetivo “prevenir” o adoecimento dos homens para que houvesse o desejado desenvolvimento econômico. Com bases nessas pontuações, é possível observar que o hospital assumiu “significativos e diferentes papéis em cada momento histórico, devido às diferentes 4 Compreendemos enquanto uma organização (hospitalar), tendo como referência a definição de Franscisco (1997) quando coloca que “as organizações são grandes ou pequenos conjuntos de formas materiais que põem em efetividade, que concretizam, as opções que as instituições distribuem, que as instituições enunciam” (FRANSCISCO apud MELO, 2008 p.14). 5 Instituições sociais: “um grupo de pessoas unidas em tarefa ou tarefas comuns, subordinadas a certa porção do meio ambiente, manejando algum aparelho técnico e obedecendo a um corpo de regra” (MALINOWSKY, RONSEN, 1979 citado por SILVA, 1995, p. 7). 10 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 denominações que se empregavam à saúde nas diversas fases vivenciadas pela sociedade” (SILVA, 1997, p. 7). Nesse sentido, A concepção de que era necessária a assistência social em caso de doença ou outro importuno era altamente desenvolvida durante a Idade Média. Estava presente tanto entre os muçulmanos e judeus quanto entre os cristãos e evidenciou-se principalmente através da criação de hospitais. Considerações religiosas e sociais predominaram no desenvolvimento destes serviços [...] (RONSEN, 1979 apud SILVA, 1995, p. 7). Constata-se que os hospitais eram considerados como depósitos onde alocavam todos os enfermos que não dispunham de recursos financeiros, observa-se que sua função era mais social do que curativa. Dessa forma, Campos (1995) coloca que Os primeiros hospitais foram criados como locais de isolamento onde a caridade se exercia com uma prática de cristianismo. Eram locais para pobres, mulheres desamparadas, velhos e doentes crônicos, sob o cuidado de monges e religiosos. Constituía o último recurso que a caridade oferecia para o paciente pobre [...] a tecnologia médica disponível só minorava o sofrimento: os pacientes com maiores recursos tratavam-se a domicílio e a relação médico-paciente era independente da organização hospitalar (CAMPOS, 1995, p. 18). Observa-se que as práticas sociais operacionalizadas no âmbito hospitalar eram pautadas em perspectivas de cunho caritativo e religioso, voltados especialmente aos doentes desvalidos de todo e qualquer recurso, sendo, portanto, um espaço privilegiado para atuação da igreja. Assim, desde as primeiras organizações de atenção à saúde, em especial as hospitalares, engendram historicamente concepções simétricas no que se refere às concepções de cunho conservador, a respeito da saúde e da profissão de Serviço Social enquanto práticas pautadas na caridade, filantropia e cristianização. Diante do exposto, observa-se que a igreja começa a “perder” espaço na condução das “práticas” hospitalares com o advento do Renascimento Cultural, como era denominado pelos povos ocidentais, bem como pela ascensão do Estado Absolutista, que passava a intervir nas proposições de bem-estar e saúde da época. Com a reforma, a igreja começou a perder o monopólio da assistência e, mesmo em países católicos, o Estado passou a se encarregar dela em medida cada vez maior. A partir do século XVI (...) com a erupção do capitalismo comercial e, logo depois, do capitalismo manufatureiro, desorganizou aquele mundo, suscitando choques diretos entre senhores e 11 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 camponeses que levam à decomposição da ordem feudal, o número de “marginalizados” aumentou enormemente, o que forçou o Estado a paulatinamente assumir [o] cuidado e controle [da assistência social] [...] (SINGER, 1981 apud SILVA, 1997, p. 11). O Estado diante dessa posição tinha como propósito acabar com o poder da igreja, considerada como a maior instituição no período medieval, delegando a comunidade às responsabilidades de exercer assistência aos doentes, muito embora o teor caritativo de tal prática não fosse extinto. Considera-se, que a partir do século XVI, o hospital imerge num processo gradativo de desenvolvimento, onde se constata posteriormente aos séculos XVII, XVIII e XIX a explosão científica que ascendia nesses períodos, havendo um rompimento com a medicina leiga até então predominante. Dessa forma, reconhecendo que a ciência poderia ser aplicada na medicina (SILVA, 1997). A explosão científica alterou consideravelmente as condições de vida em sociedade, de um lado aumentou a pobreza e a miséria e conseqüentemente o número de doentes, mas em contrapartida, através do avanço tecnológico que se iniciou naquele momento criaram-se novas técnicas e instrumentos de produção que levaram a vida social, e conseqüentemente, o hospital a um rápido e permanente processo de desenvolvimento (SILVA, 1997, p. 12). Dessa forma, surgem os hospitais-escola que alavancaram os tratamentos de saúde por ser considerada uma organização “apta a tratar os casos de doença e, conseqüentemente garantir a reprodução da força de trabalho” (SILVA, 1997, p. 13). As novas bases estabelecidas para a medicina na cura das doenças, durante um longo período, apresentaram deficiências perante alguns tipos de doença, levando os médicos a questionar a estrutura dos hospitais, pois o fracasso reconhecido não poderia estar na prática médica, já que esta agora apresentava uma certa cientificidade. Desta forma, os médicos passaram a reconhecer que a aplicação da ciência na medicina como o estudo da bacteriologia e de laboratório exigiam espaços específicos para serem aplicáveis, e no entanto, os hospitais não dispunham desses espaços. Constataram ainda, que se fazia necessário atender os doentes que apresentavam doenças causadas por bactérias, separadamente, pois estes, a partir de então, foram reconhecidos como fonte de contágio (SILVA, 1997, p. 13). Tal reconhecimento pela medicina de que havia um fracasso nas estruturas hospitalares e não na medicina aplicada, provocou “[...] em 1873 a emergência do hospital na era dos hospitais modernos” (SILVA, 1997, p. 14). Dessa forma, emergem os hospitais modernos no cenário mundial como uma organização de atenção à saúde que tinha por objetivo aprimorar a prática da medicina, almejando atingir um patamar de eficiência na promoção do bem-estar 12 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 físico, social e mental, ou seja, no bem-estar humano e de saúde. Essa nova estruturação dos hospitais modernos vai requisitar diferentes intervenções profissionais no contexto médico hospitalar, dentre elas o do assistente social. Esta nova concepção de hospital, engendrada a partir do final do século XIX, permitiu que o hospital fosse visto para além do centro de formação médica, remetendo-o à visão de um centro comunitário de saúde, pelas novas práticas que foram inseridas neste ambiente devido às novas descobertas da medicina e o crescimento populacional (SILVA, 1997, p. 14). O hospital se tornava cada vez mais importante neste cenário, tendo em vista as alterações ocorridas nos padrões de atendimento, com intuito de atingir um grau de perfeito bem-estar humano, configurando-se como o hospital que se conhece no século XX. Dessa forma, para […] a Organização Mundial de Saúde (OMS) o hospital é parte integrante de um sistema coordenado de saúde, cuja função é dispensar à comunidade completa assistência médica, preventiva e curativa, incluindo serviços extensivos à família em seu domicílio e ainda um centro de formação dos que trabalham no campo de saúde e para as pesquisas biossociais (OMS apud CAMPOS, 1995, p. 20). A partir da exposição, Campos (1995) revelam que a Organização Mundial de Saúde definiu o conceito de hospital, e considera que o [...] hospital é parte integrante de uma organização médica e social, cuja função básica consiste em proporcionar à população assistência médicosanitária completa, tanto curativa como preventiva, sob quaisquer regimes de atendimento, inclusive o domiciliar, e cujos serviços externos irradiaram até o âmbito familiar, constituindo-se também em pesquisas em saúde, bem como de encaminhamento de pacientes, cabendo-lhes supervisionar e orientar os estabelecimentos de saúde a ele vinculados tecnicamente (OMS apud CAMPOS, 1995, p. 20). Numa visão mais positivista, encontramos em Borba (1985) apud Campos (1995) que no Brasil a Comissão criada pelo Governo Federal6 definiu que o “Hospital é a instituição destinada a internar, para diagnóstico e tratamento, pessoas que necessitam de Assistência Médica e cuidados constantes de enfermagem” (BORBA, 1985 apud CAMPOS, 1995, p. 22). Tangenciando o contexto brasileiro, verifica-se que as trajetórias dos hospitais do país percorreram diferentemente do âmbito mundial, haja vista os 6 Comissão para elaborar o anteprojeto da Lei Orgânica da Assistência Médico-Hospitalar nº. 37.773, do dia 18/08/1955 (CAMPOS, 1995). 13 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 atrasos históricos em que se desenvolveram. Nesse sentido, Mirshawa (1994) apud Silva (1997, p. 17) revela que em 1543, logo após o seu descobrimento, a terra de “Santa Cruz antes mesmo de ter seu primeiro governador geral, ganhou uma Obra de Misericórdia erguida em Santos por Braz Cubas, sendo este o primeiro hospital brasileiro”. Diante dessa constatação, observa-se que vários hospitais foram emergindo por todo o país, embora não se tenham desvinculado das referências históricas dos hospitais medievais, que pautavam-se em perspectivas conservadoras. A partir de então, surgem novos e modernos projetos de hospitais como “a irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Santos e o Hospital das Clínicas em São Paulo” (SILVA, 1997, p. 17), tais organizações surgiram e buscavam ultrapassar a dimensão caritativa, espiritual e religiosa. Concomitantemente, com o desenvolvimento da sociedade, esses grandes projetos evoluíam em grande escala, o que requisitou dentre tantos profissionais, a admissão do assistente social neste espaço sócio-ocupacional, alterando de tempos em tempos, consideráveis mudanças no contexto em que emergia um centro de atenção à saúde. Mas foi em 1974, que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) definiu o conceito de hospital no contexto brasileiro: Entende-se por estabelecimento hospitalar aquele que tem por finalidade principal prestar assistência médica em regime de internação, possuindo leitos e instalações apropriadas a sua finalidade e que conte no seu corpo clínico com a presença de pelo menos um médico (IBGE; BEREZOWSKY, 1977 apud SILVA, 1997, p. 18). Diante do apresentado, é possível perceber, que foi com essas mesmas características que o Hospital Municipal de Foz do Iguaçu localizado ao extremo Oeste do Paraná na Tríplice Fronteira7 foi inaugurado no dia 12 de setembro de 2006, e desde então vem dispensando bens e serviços de saúde de média complexidade e assistência hospitalar aos munícipes. Esse hospital decorre de um amplo processo 7 A denominação “Tríplice Fronteira” originalmente foi conformada pelos países do Brasil, Paraguai e Argentina, os quais fazem divisa com os municípios de Foz do Iguaçu (Brasil) com Puerto Iguazu (Argentina) e Foz do Iguaçu com Ciudad Del Este (Paraguai), caracterizados como “cidades gêmeas”. 14 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 que determinou a emergência de sua construção no Município “iguaçuense”, no entanto, tal determinação não pode ser concebida por acaso, uma vez que sua conformação decorre das problemáticas evidenciadas ao logo de sua trajetória histórica no âmbito da saúde no Município, mais que isso, pode estar imbricado por acordos “político-partidários”. Contrariando o conceito de hospital criado pela Comissão do Governo Federal, essa perspectiva recria diversificados papéis para a organização hospitalar tendo em vista o reconhecimento de que o hospital não é conformado somente pelas práticas médicas, e nem tampouco a saúde seja efetivada unicamente por ela. Tal reconhecimento levou a inserção de várias profissões, dentre elas, o Serviço Social no campo hospitalar por reconhecê-lo enquanto trabalho especializado no âmbito da divisão social e técnica do trabalho. Constata-se a partir do exposto, que desde o início das atividades laborais no Hospital Municipal de Foz do Iguaçu o Serviço Social já se fazia presente neste espaço sócio-ocupacional por ser reconhecida como uma prática socialmente necessária, muito embora essa presença não esteja marcada pelo reconhecimento da competência do assistente social, e sim pela obrigatoriedade que a organização hospitalar precisava cumprir para realização das atividades do setor a partir das recomendações da vigilância sanitária. Nesse sentido, a Resolução nº. 218 de 6 de março de 1997 afirma que a partir dos “princípios e diretrizes do SUS e reconhecendo a imprescindibilidade das ações realizadas pelos diferentes profissionais de nível superior, o Plenário do Conselho Nacional de Saúde reconheceu como profissionais de saúde de nível superior” (VASCONCELOS, 2006, p. 255) as seguinte categorias [...] assistentes sociais, biólogos, profissionais de educação física, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, médicos, veterinários, nutricionistas, odontólogos, psicólogos e terapeutas ocupacionais. Trata-se de profissões reguladas juridicamente as quais exige uma formação teórica e técnica de nível superior o que supõe a apropriação de conhecimentos produzidos historicamente, para a prestação de serviços à sociedade a partir de compromissos éticos, expressos nos seus códigos de Ética, o que lhes garante uma relativa autonomia (VASCOLCELOS, 2006, p. 255). Verifica-se que o Serviço Social vem gradativamente ampliando seu espaço de atuação, haja vista o reconhecimento legal da profissão, bem como o reconhecimento quanto às condições de vida e de trabalho nos processos sócio-culturais que permeiam a vida em sociedade. Nesse sentido, o binômio saúde/doença ganha 15 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 contornos mais delineados, e tem nos determinantes sociais, uma raiz comum, significa dizer, que o estado de saúde é determinado efetivamente pelas condições reais de vida e de trabalho (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988). Nesse sentido, O assistente social, como profissional da saúde tem como competência intervir junto aos fenômenos sócio-culturais e econômicos, que reduzem a eficácia dos programas de prestação de serviços no Setor, quer seja a nível de promoção, proteção, e/ou recuperação da saúde (CFESS apud Dal Prá, 2006, p. 30). O Serviço Social no Hospital Municipal de Foz do Iguaçu operacionaliza suas intervenções na perspectiva da promoção, proteção e recuperação da saúde dos usuários destinatários da ação profissional, considerando o processo de saúde/doença que envolvem e determinam a complexidade das situações apresentadas ao setor de Serviço Social no âmbito hospitalar. Tal perspectiva pode ser compreendida enquanto uma das particularidades da ação profissional do assistente neste espaço, uma vez que o mesmo possuiu uma sólida base teórico-metodológica, ético-política e técnicooperativa, engendradas pela formação profissional e materializadas pela competência técnico-operativa que permeia ação profissional, conferindo lhe certa autonomia. Segundo Costa (2006) os processos de trabalho na área da saúde pública embora tenham atendido as determinações do capital, tem incorporado características particulares do trabalho neste setor como o objeto da “saúde incide sobre situações concretas (envolvem o processo de saúde-doença) e não sobre coisas, os resultados são de difícil previsão e o que se consome é o efeito presumido de uma determinada ação ou procedimento” (COSTA, 2006, p. 310). Nesse sentido, nota-se que a presença do Serviço Social no conjunto dos processos de trabalho é produto histórico, bem como do reconhecimento social da profissão acerca das particularidades da ação profissional do assistente social no âmbito hospitalar. Dessa forma, o Serviço Social do Hospital Municipal de Foz do Iguaçu opera suas ações a partir desse reconhecimento e passa então a intervir junto aos pacientes e seus familiares, numa linha sócio-educativa de cunho humanizador, incentivando-os a participarem do processo de recuperação da saúde na condição de cidadãos, democratizando as informações disponíveis no âmbito hospitalar de forma a garantir o acesso aos serviços oferecidos, bem como a resolutividade das situações sociais que 16 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 interferem no processo saúde/doença através dos recursos institucionais e comunitários (Costa, 2006). Contrariando estas colocações, identifica-se que as mudanças estruturais ainda não avançaram para a superação do modelo médico-hegemônico, “uma vez que para alcançar tal proposição, o sistema de saúde destinado a população deveria centrar suas ações nas reais necessidades de saúde da das pessoas e articular ações intersetoriais com as demais políticas sociais” (COSTA, 2006, p. 311). Nesse cenário pode-se dizer que o Serviço Social do Hospital Municipal de Foz do Iguaçu vem executando suas ações na perspectiva da atenção integral, em detrimento das ações racionalizadoras dos gestores municipais da saúde pública do Município que não ampliam as equipes de profissionais de saúde na mesma medida em que as demandas aumentam por conta das precárias condições de vida. Dessa forma, A rede ambulatorial e hospitalar geral [...] também tem aumento de demanda sem a equivalente ampliação das equipes e da capacidade operacional, o que provoca obstáculos à integração do sistema e, conseqüentemente, [...] além de não assegurar atendimento para todos os que procuram os serviços, tem se constituído um espaço de “quebra”, obstrução da integralidade das ações, entre os diversos níveis de complexidade (unidades de atenção básica > centros clínicos > hospital geral > hospital especializado etc. comprometendo a racionalização e qualidade de atenção. (COSTA, 2006, p. 312) (grifos nossos). Nessa lógica, observa-se que a ação profissional do assistente social no atendimento hospitalar pauta-se primeiramente, na obtenção dos dados dos usuários por meio das diferentes técnicas/instrumentos, mediante as diversificadas situações imediatas que se apresentam no Pronto Socorro8, os quais são encaminhados pelas diferentes categorias profissionais ao Serviço Social. No atendimento hospitalar, por exemplo, a obtenção dos dados, por meio de entrevistas, preenchimento de ficha social ou questionário, é a primeira etapa do processo de atendimento e acompanhamento realizado pelo assistente social, integrando, pois, um conjunto de procedimentos e normas relativos ao internamento dos pacientes. A objetivação dessa atividade se dá a partir do encaminhamento dos médicos de plantão, quando da autorização de um internamento. Note-se que não apenas do médico, mas os demais profissionais da equipe do pronto-socorro reiteram o encaminhamento da família e/ou responsável pelo paciente ao setor de Serviço Social (COSTA, 2006, p 320). 8 Considera-se para o presente trabalho “Pronto-Socorro” aqueles estabelecimentos caracterizados como urgência e emergência e considerados como “porta de entrada” para os serviços hospitalares. 17 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 Segundo Costa (2006) essas atividades, estão relacionadas com a necessidade de agilizar os procedimentos viabilizadores para realização de exames, medicamentos e notificações de alta e/ou óbito e, ainda relacionam-se com outra necessidade da organização hospitalar, a rotatividade dos leitos, ora por conta da demanda reprimida, ora pela captação de recursos. De acordo com Vasconcelos (1998) apud Melo (2008) as demandas deste profissional na área da saúde, em especial nos hospitais podem ser apreendidas da seguinte maneira: ● Acompanhamento de internação ● Autorização visita e/ou emissão de cartão para acompanhante ● Visita as enfermarias ● Alta hospitalar ● Transferência/remoção hospitalar ● Localização da família de pacientes internados ● Comunicação de quadro clínico para família ● Providências quanto à violência contra crianças/idoso/mulher ● Comunicação de óbito (VASCONCELOS, apud MELO, 2008, p. 11-12). Neste sentido, as ações e/ou atividades exercidas pelos profissionais assistentes sociais na área de saúde de alta complexidade e assistência hospitalar são prioritariamente: ● Atendimento ao público interno e externo; ● Visitas diárias em todas as alas, sendo o atendimento dividido pelos profissionais, que constituem um canal aberto entre usuário/a e instituição, acolhendo as demandas, discutindo as dificuldades e facilitando a reflexão sobre a situação apresentada; ● Orientar os pacientes e familiares sobre as normas e rotinas da instituição; ● Mobilizar a rede de serviços sociais do município e região, a fim de atender a demanda e necessidades do paciente, bem como de seus familiares; ● Orientar as famílias para receber o paciente após a alta hospitalar; ● Investigar as situações: cultural, ambiental, social, pessoal, e econômica do paciente e de seus familiares, a fim de identificar problemas que possam interferir no tratamento de saúde; ● Entrevistas sociais; ● Remoção; 18 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 ● Realizar visitas domiciliares sempre que necessário; ● Elaborar projetos específicos de atuação, estabelecendo estratégias esboçadas a partir de situações concretas do paciente e da família; ● Orientações sobre direitos do paciente como os previdenciários, humanos, da mulher, criança e adolescente, idoso entre outros; ● Participação em comissões intra-hospitalar (HUOP apud MELO, 2008, p. 1213). Verifica-se que mesmo a área da saúde sendo um espaço sócio-ocupacional que absorve o maior quantitativo de profissionais, existe ainda uma precarização das condições de trabalho que muitas vezes impõe limites à intervenção do assistente social. Esses limites podem ser apontados como as correlações de força entre a insuficiente oferta de serviços e a grande demanda, que revela uma descentralização de ações e serviços pela União e o Estado não acompanhada de recursos financeiros deixado a encargo de o Município implantar e financiar todos os serviços. Observa-se que há muito ainda o que se fazer no campo da saúde, haja vista o “imperialismo” das teses neoliberais, bem como das práticas conservadores que permeiam o exercício e a ação profissional do assistente social no contexto médico hospitalar, é necessário ultrapassar as práticas (neo) conservadoras presentes no âmbito da saúde, tendo como principal objetivo a materialização dos direitos sociais, dentre eles a saúde. Nessa perspectiva, é urgente e necessário repensar as abordagens teórico-políticas, para que se possa efetivamente consolidar as perspectivas do Projeto de Reforma Sanitária, bem como do Projeto Ético-Político Profissional do Assistente Social nesse cenário. Nesse sentido, o assistente social precisa ter domínio da legislação social9 que engendra determinações jurídicas e políticas. Tal domínio subsidiará suas intervenções no campo da saúde, em especial no ambiente hospitalar, como também o conhecimento pleno das diferentes políticas sociais e setoriais públicas que conformam a rede de proteção social. Essa iniciativa ou proposta pode ser compreendida como o ponto de partida para a efetivação da então chamada integralidade/intersetorialidade. 9 Exatamente reconhecendo tal necessidade o CFESS – Conselho Federal de Serviço Social, em parceria com os CRESS – Conselhos Regionais de Serviço Social –, publicou e vem reeditando de forma atualizada uma coetânea de leis sociais disponibilizadas para assistentes sociais e outros profissionais e cidadãos interessados (COSTA, 2006, p. 329). 19 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 4 Desafios da ação profissional do assistente social no Hospital Municipal de Foz do Iguaçu na atenção às necessidades de saúde da população brasileira residente em Ciudad Del Este - Paraguai: Considerações sobre a Pesquisa A cidade de Foz do Iguaçu no Estado do Paraná – Brasil está situada ao extremo oeste e faz divisa com os países da Argentina e Paraguai, dessa forma é que se originou a denominação “Tríplice Fronteira” conformado pelos três países. O Brasil se liga ao Paraguai pela Ponte Internacional da Amizade e à Argentina pela Ponte Tranquedo Neves, a Ponte da Fraternidade. Paraguai e Argentina usam o território brasileiro como ligação. Ônibus regulares de linha circular urbana internacional fazem o transporte de passageiros entre as três cidades há muitos anos, como se fizesse uma rota de bairro/centro/bairro de qualquer cidade (ACIFI, 2003 apud SILVA, 2006, p. 71). É neste cenário que está localizado o Hospital Municipal de Foz do Iguaçu, inaugurado em 12 de setembro de 2006, e desde então vem dispensando bens e serviços de saúde a população “iguaçuense”, porém, constata-se na atualidade que os brasileiros que moram em Ciudad Del Este no Paraguai vêm demandando ações e serviços de saúde ao sistema de saúde local em grande medida após a implementação do Hospital Municipal (MELO, 2008). Observa-se nas escassas produções teóricas que tratam do tema, a relevância das determinações políticas, econômicas, sociais e culturais que impulsionaram a emergência da construção dessa organização hospitalar no município de Foz do Iguaçu. Nesse sentido, é importante ressaltar que dentre os inúmeros fatores que originaram tal construção, dois destes foram fundamentais para sua efetivação, qual seja; a consolidação do projeto modernista que implantou e implementou a Usina Hidrelétrica de Itaipu e as lutas ídeo-políticas dos países nacionais (Brasil e Paraguai) que fomentaram “contratualidades informais” acerca da fruição do direito ao acesso aos bens e serviços de saúde aos brasileiros residentes em Ciudad Del Este. Entretanto, identifica-se uma ausência de reflexão no tocante a ação profissional do assistente social neste cenário, uma vez que os gestores e as diferentes categorias profissionais têm requisitado a atuação do assistente social diante da problemática evidenciada no cotidiano institucional. Tais requisições por parte de gestores e profissionais não podem ser analisados desvinculadamente dos equívocos cometidos por boa parte desses atores, uma vez que o Serviço Social 20 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 reconhece que sua intervenção profissional vem sendo solicitada tão somente na resolutividade dos “problemas sociais” que emergem no âmbito da saúde, em especial no ambiente hospitalar. É importante salientar que antes mesmo de o Hospital Municipal de Foz do Iguaçu ser criado, já existiam elevadas demandas para o setor saúde, bem como para ação profissional do assistente social nas Unidades de Saúde (UBS) e nos Centros Médicos Especializados do município, porém, esses estabelecimentos não garantiam atendimento à população brasileira residente em Ciudad Del Este – Paraguai, haja vista que os critérios estabelecidos pelas instâncias ordenadoras do sistema de saúde pública pautavam-se no critério da territorialização e/ou distritalização, o que evidentemente promovia o cerceamento do direito ao acesso a esse segmento populacional. Dessa forma, o “gestor tem utilizado, como forma de enfrentamento e limite impeditivo [...] a adoção de protocolos e critérios para o acesso e utilização dos serviços, dispositivos que privam ainda mais o gozo...” (SILVA, 2006, p. 96) do acesso aos tratamentos de saúde. [...] princípio da territorialidade – da localização do indivíduo no território nacional – na mediada em que são exigidos comprovantes da regularidade de sua situação no Brasil (CPF e carteira de identidade), e de residência fixa na circunvizinhança das UBS e de residência fixa no mesmo município das unidades prestadoras de serviços de saúde, como é o caso [...] dos hospitais. (DAL PRÁ e MENDES, 2007, p. 321). Diante o exposto, os profissionais de Serviço Social presentes nesses estabelecimentos de atenção à saúde, elaboravam estratégias “como ações ou técnicas desenvolvidas pelos Assistentes Sociais que trabalham na área da saúde nas fronteiras [...] com o fim de promover o acesso da população (...) no SUS” (DAL PRÁ, 2006 apud DAL PRÁ, 2007, p. 324) para inclusão dessa população fronteiriça no atendimento “médico-ambulatorial”. Tal prática era justificada fundamentalmente nas premissas do texto constitucional que reza a saúde como um “direito de todos e dever do Estado” resguardado a todos os brasileiros, independentemente de residência e domicílio em território nacional. Em muitos casos de usuários [...] o acesso à saúde foi possibilitado a partir do atendimento específico dos Assistentes Sociais [...] intervindo de maneira favorável à eqüidade e à justiça social, assegurando a universalidade de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, neste caso aos serviços e ações da política pública de saúde [...] para o acesso e efetivação do direito à saúde para a população fronteiriça que busca o SUS (DAL PRÁ e MENDES, 2007, p. 320). 21 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 No quadro das pontuações, ressalta-se que com a criação do Hospital Municipal de Foz do Iguaçu no ano de 2006, as demandas emergentes nos estabelecimentos acima mencionados reverteram-se à assistência hospitalar e à alta complexidade, uma vez que a população referenciada vivenciava os limites institucionais que lhe eram colocados quando da procura por atendimento, pois para além do cerceamento do acesso, também não lhes era dispensado atenção integral as suas necessidades de saúde. Nesta direção, para [...] os Assistentes Sociais, o maior desafio é o de desenvolver o trabalho profissional garantindo o atendimento das necessidades e demandas dos usuários [...] tendo a intervenção calcada em ações voltadas para a interação entre os diversos níveis do sistema de saúde e fora dele. Ou seja, faz-se necessário trabalhar a conexão das necessidades de saúde da população com os princípios e as diretrizes do SUS e, para além do sistema, buscar a conexão com a rede externa de proteção social, a articulação da política de saúde com as demais políticas setoriais, como por exemplo, assistência social, educação, habitação, e com a rede de atendimento [...] tendo em vista a preocupação com o desenvolvimento de ações comprometidas com a garantia dos direitos sociais e do direito à saúde, orientadas pelas necessidades dos usuários, visando ao atendimento integral em saúde (COSTA, 2000 apud DAL PRÁ, 2007, p. 327). Contudo, o que se observa na atual conjuntura no município, é uma continuidade de tal prática também no âmbito médico-hospitalar, mesmo sendo em menor grau, tendo em vista que uma grande parcela da população brasileira residente em Ciudad Del Este – Paraguai procura atendimento quando seu estado de saúde encontra-se agravado, tal estratégia obriga o sistema municipai de saúde brasileira atender essa demanda, dos considerados “despossuídos de direitos” pela gestão municipal. Nesse sentido, as estratégias utilizadas por essa população tem tido grande repercussões no debate da saúde, ora pela obrigatoriedade do atendimento pelo gestor dos serviços de saúde, ora pela eficácia de tal estratégia, conforme foi explicitado no capítulo anterior. Nessa direção, é que pontuamos o cerne do presente debate ao considerarmos a gravidade das situações sociais apresentadas ao Serviço Social do Hospital Municipal na região de fronteira, uma vez que a população usuária brasileira residente em Ciudad Del Este – Paraguai procura deixar seu estado de saúde agravar-se para serem incluídos no sistema público de saúde. Dessa forma, o assistente social no âmbito hospitalar tem-se deparado com situações imediatas frente circunstâncias mediatas, pois as demandas apresentadas no Pronto Atendimento Municipal 22 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 (caracterizado como porta de entrada para os serviços hospitalares) está relacionada à outra questão, a ausência de documentação civil dessa população, pois embora sejam atendidos pela organização hospitalar, precisam viabilizar a documentação exigida para resguardar a continuidade do seu tratamento, bem como para garantia de repasse de recursos pelo ente federado. Se há muito a ser realizado no âmbito do Hospital Municipal de Foz do Iguaçu pelo Serviço Social, muito se tem concretizado nessa organização hospitalar no que se refere à materialidade do acesso a bens e serviços de saúde para população brasileira residente em Ciudad Del Este, especialmente na atenção às necessidades de saúde dessa população, o que em parte, tem conseguido suprimir alguns desafios presentes no plano da atuação profissional. No entanto, são muitos ainda os desafios da ação profissional do assistente social no Hospital Municipal de Foz do Iguaçu, haja vista que o Serviço Social depende necessariamente de outras intervenções profissionais, as quais embora estejam inter-relacionadas, muitas vezes intensificam as correlações de força por não apreenderem na sua totalidade a complexidade do trabalho profissional do assistente social e da dinâmica conjuntural. Mais que isso, é o desafio de tratar a atuação profissional [...] a partir de sua categoria básica que é a ação profissional. As ações profissionais, segundo Mioto (2006), se estruturam sustentadas no conhecimento da realidade e dos sujeitos para as quais são destinadas, na definição de objetivos considerando o espaço dentro o qual se realiza, na escolha de abordagens adequadas para aproximar-se dos sujeitos destinatários da ação e compatíveis com os sujeitos” (MIOTO e NOGUEIRA, 2006, p. 281). Nessa direção, é que se tentará desvelar as diferentes concepções dos profissionais que atuam no Hospital Municipal de Foz do Iguaçu, dentre eles, o Serviço Social, pois compreendemos que este profissional deve ou deveria necessariamente ter um comprometimento frente os princípios do projeto Ético-Político profissional que encontram-se em consonância com os princípios do SUS. O Hospital Municipal de Foz do Iguaçu inaugurado em setembro de 2006, localizado ao extremo oeste do Estado do Paraná, mais precisamente na Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai) desde o seu nascedouro é permeado por diferentes práticas profissionais, dentre elas o Serviço Social. Essa organização hospitalar foi criada atendendo ao disposto pelo Ministério da Saúde (MS) com intuito 23 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 de promover bem-estar físico, social e mental a população “iguaçuense” (MELO, 2008). Observa-se que o Serviço Social no Hospital Municipal tem sido requisitado permanentemente no cotidiano institucional por ser considerado enquanto uma prática socialmente necessária em meio às relações sociais que se configuram no âmbito hospitalar, tais requisições decorrem em parte, da dinâmica fronteiriça por apresentarem demandas peculiares que só podem ser identificadas nessa região. A ação profissional do assistente social nesse cenário está condicionada a compreensão do que seria a ação profissional do assistente social pelas diferentes categorias profissionais que atuam no Hospital Municipal de Foz do Iguaçu, incluso a concepção do Serviço Social. Constatou-se com o desenvolvimento da pesquisa a existência de uma diversidade de definições acerca do conceito de ação profissional pelos diferentes profissionais. Os conceitos de ação profissional do assistente social na percepção das diferentes categorias profissionais apresentam em si como, um conjunto de ações e atividades que fazem parte do cotidiano profissional do assistente social, porém, a intervenção do assistente social conforma um conjunto de ações e procedimentos historicamente determinados. Observa-se que as concepções que foram evidenciadas mostram um distanciamento do conceito defendido por Mioto (2001), quando a autora coloca que a ação profissional é permeada por [...] uma dimensão operativa quanto uma dimensão ética, e expressa no momento em que se realiza o processo de apropriação que os profissionais fazem dos fundamentos teórico-metodológico e ético-político da profissão em determinado momento histórico. São as ações profissionais que colocam em movimento, no âmbito da realidade social, determinados projetos de profissão (MIOTO, 2001, p. 16). Dessa forma, acredita-se que a ação profissional do assistente social deve conformar algumas considerações no âmbito do processo saúde/doença, especialmente no campo da intervenção profissional. Trata-se, então, de apreender, compreender e interpretar que a ação dos assistentes sociais se materializa em meio as relações sociais contraditórias de interesses e necessidades distintas, nas quais, atualmente, o universal é substituído pelo focalizado, a gratuidade é vista como ônus da máquina estatal provocando atraso no desenvolvimento e no crescimento econômico. Deve-se considerar que as desigualdades sociais expressadas nas iniqüidades econômicas, sociais, políticas e culturais da classe trabalhadora e 24 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 subalterna, são as bases para se pensar e propor as intervenções (SILVA, 2006, p. 116). Nesse sentido, o conceito de ação profissional expresso pelas autoras permite inferir que tal definição, assim como defendido nesse trabalho, engendra um arsenal de técnicas e procedimentos socialmente determinados numa dada profissão, que por sua vez, implicam necessariamente em habilidades e competências de ordem teóricometodológica e ético-política que se corporificam nas ações profissionais nesse contexto. Salienta-se que as definições apresentadas pelos diferentes profissionais sobre o conceito de ação profissional restringem-se as atribuições e atividades do profissional assistente social dentro do complexo sistema de saúde e hospitalar, muito embora os profissionais demonstrem um reconhecimento que essa atuação busca resguardar direitos. Outro traço a ser considerado, é que independente de reconhecerem a intervenção do assistente social como viabilizadora de direitos, as concepções apresentadas expressam resquícios da herança tradicionalista e conservadora, que historicamente são identificadas nos discursos e práticas do Serviço Social. Embora o movimento de Reconceituação pela via do projeto de Intenção de Ruptura tenha operado mudanças significativas no interior da profissão de Serviço Social, tais transformações ainda não superaram a imagem de profissão e de prática assistencialista, caritativa e filantrópica, que atribui à ação profissional do assistente social um caráter messiânico e/ou fatalista. Tal colocação tem fundamento à medida que se identificou uma concepção de ação profissional ainda que tímida e superficial, a ultrapassagem de uma intervenção pautada nos moldes conservadores que apreendiam a intervenção profissional pautadas no estudo, diagnóstico e tratamento Netto (2001). Pois quando nos defrontamos com perspectivas que consideram o trabalho do assistente social deverá “ reintegrar o indivíduo a sociedade”, que “intervém nas questões sociais”, que “deve promover a inserção comunitária” verifica uma concepção de ação que extrapola o espaço sócio-ocupacional requisitando a articulação com as demais políticas sociais e setoriais, deste modo inferindo a necessidade de apreensão da totalidade social na atenção às necessidades de saúde dos usuários. Observa-se que os profissionais do Hospital Municipal de Foz do Iguaçu, apresentam um conjunto de desafios para a atuação profissional do assistente social 25 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 nessa organização hospitalar, ora por conta da população flutuante, ora pelas precárias condições sócio-econômicas dos usuários. Em relação às particularidades da fronteira, quando colocam que “os desafios é de atender uma população bem diversificada” dessa forma, concebem a fronteira enquanto fator limite impeditivo para o acesso as ações, bens e serviços de saúde no lado brasileiro. Dessa forma, As fronteiras estão presentes no imaginário social como limite, aparecendo como naturalizadas. Entretanto, elas são mais do que isso, pois, ao mesmo tempo em que impedem, permitem a passagem [...]. E o que queremos discutir neste momento é a questão fronteira vinculada à territorialidade, onde os pontos de contato estão dispostos lado a lado e, neste sentido, o conceito de fronteira precisa ser repensando (MULLER, 2003 apud SILVA, 2006, p. 65). Em relação ao tema fronteira foi identificada na pesquisa como um limite, um desafio perene e não conclusivo que requerem uma intervenção do assistente social que atenda as demandas imediatamente colocadas, implicando numa intensificação dos obstáculos na para efetivação de práticas sanitárias integrais na atenção as necessidades de saúde da população fronteiriça. Outra questão a ser considerada como fator determinante para a busca de bens e serviços da rede de saúde pública do município são as incongruências entre os sistemas nacionais de saúde, em que no Brasil as ações, bens e serviços de saúde são dispensados gratuitamente em detrimento da parcialidade e precariedade da saúde pública do Paraguai, como pontua Dal Prá e Mendes (2007) e Silva (2006). Outro desafio detectado na atuação profissional do assistente social, é a inclusão dos brasileiros residentes na contigüidade da fronteira no SUS, pois compreendem que esse segmento populacional encontram-se desprotegidos dos sistemas de saúde tanto brasileiro, quanto paraguaio, reivindicando e em muitos casos tendo como única alternativa a ação profissional do assistente social para resguardar o direito ao acesso aos serviços de saúde hospitalar. Dal Prá e Mendes (2007). A ausência de documentação civil brasileira é um outro desafio que se coloca no cotidiano do profissional de Serviço Social. Tal situação se coloca como obstáculo à medida que a documentação civil é o meio pelo qual o usuário pode acessar qualquer ação ou serviço de saúde, e a não existência repõem sobre o assistente social a responsabilidade pelo resguardo do direito à saúde, mais que isso implica na responsabilidade pelo direito a vida, uma vez que o usuário ao adentrar a unidade hospitalar ficará a cargo do profissional providenciar conjuntamente com a família a documentação necessária. 26 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 Desta forma o profissional se vê pressionado por ambas as partes família do usuário e unidade hospitalar. Pois de um lado a família requisita do assistente social providencia para que o atendimento seja garantido e, do outro lado a instituição reclama as mesmas medidas com o intuito de receber o repasse financeiro do ministério da saúde para o custeio do procedimento e/ou atendimento dispensado. Nestas situações desafiadoras o assistente social encontra-se perdido por se tratar de uma questão que extrapola a sua ação no contexto hospitalar, que, no entanto esta sob a sua responsabilidade profissional responder, seja acionando outras políticas sociais e setoriais, seja resguardando o acesso, ainda que não em sua totalidade. A partir do apresentado, observa-se que os diferentes profissionais evidenciam e compreendem os desafios para atuação profissional do assistente social, a partir da leitura da realidade com a qual trabalham, pois apreendem que tais desafios são produtos históricos dessa realidade. Ao mesmo passo que apresentam a diversidade de limites para ação profissional do assistente social, apontam que o acesso aos serviços de saúde hospitalar devem ser garantido a população brasileira residente no entorno da fronteira, demonstrando que o assistente social como profissional dotado de competência teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa é capaz de ultrapassar as práticas burocratizadas e restritivas do sistema de saúde brasileiro. Considerando que o fluxo intenso e existente na dinâmica fronteiriça impõe desafios para ação profissional do assistente social no âmbito do Hospital Municipal de Foz do Iguaçu, contatou-se no que diz respeito à questão do direito à saúde da população fronteiriça, um reconhecimento por parte da equipe de saúde desses como sujeitos de direito, ainda que esse usuário não apresente os meios necessários e requisitos para acessar. Constatou-se que não a distinção entre brasileiros e estrangeiros quanto ao acesso aos serviços públicos de saúde no município, mais que isso, está implícito na questão dos direitos humanos, visto que o contexto em questão situa-se no plano internacional. Esse reconhecimento da equipe de saúde imprime a ação do assistente social, um imenso desafio, pois delegam ao mesmo tempo que requisitam do profissional a compreensão do direito e relações internacionais,reivindicando uma solida competência teórico-metodológica e ética-político capaz de operacionalizar e encaminhar essas situações que muitas vezes requerem intervenções que extrapolam os limites nacionais. 27 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 Observou-se que a população brasileira residente em Ciudad Del Este – Paraguai se vale das mais variadas estratégias para buscar o ingressar no SUS, como apontado por Silva (2006). Tal ocorre porque os gestores de saúde promovem “barreiras” quanto ao acesso às ações, bens e serviços de saúde por não serem considerados cidadãos “portadores” de direito. Nesse sentido, observa-se que os usuários brasileiros não residentes elaboram estratégias para o ingresso e até mesmo burlam os critérios estabelecidos pela instituição para conseguir acessar a rede de serviços, em especial no Hospital Municipal de Foz do Iguaçu via Pronto Atendimento Municipal. Assim o maior desafio ao desafio para o assistente social é de garantir o acesso aos serviços públicos de saúde, a partir da defesa que os brasileiros residentes em Ciudad Del Este – Paraguai devem usufruir dos direitos constitucionais independentemente das regiões que residem, ressaltam que devem ser assistidas as necessidades de saúde dessa população, uma vez que ao migrarem para o Paraguai não abriram mão da cidadania brasileira Silva (2006). Muito embora o Serviço Social tenha conseguido efetivar alguns atendimentos a população brasileira residente em Ciudad Del Este – Paraguai, não avançou no sentido de concretizar o atendimento na perspectiva da atenção integral, o que de fato, possibilitaria sua participação na atenção às necessidades de saúde desse segmento nessa organização hospitalar, pois o assistente social, mesmo que não tenha conhecimento da dimensão de sua ação, tem ciência que sua [...] intervenção profissional nesse espaço passa tanto pelo conhecimento da população fronteiriça que busca assistência à saúde no SUS, pelo desvendamento das condições sociais, políticas, econômicas e culturais existentes em cada uma dos países [...] pelas diferenças existentes [...] esses elementos podem constituir o ponto de partida para um intervenção profissional junto à população fronteiriça que realmente atenda suas necessidades sociais e ofereça real acesso ao direito à saúde” (DAL PRÁ e MENDES, 2007, p. 319). Para que as intervenções do assistente social sejam condizentes com a realidade fronteiriça no âmbito do hospitalar, uma vez que para efetivação das ações profissionais, é necessário colocar em movimento a práxis acompanhada dos aportes teórico-metodológicos, ético-políticos que as conformam. Muito embora reconheçamos que nos acordos e legislações internacionais, ou seja, no direito internacional não figura os direitos sociais, tal situação além de se 28 08, 09 E 10 DE AGOSTO DE 2011 PELOTAS - RS – BRASIL ISBN 978-85-7590-139-7 colocar como um desafio evidencia-se como um dilema ético-político que não está na competência do assistente social resolver, mas está na sua responsabilidade torná-los públicos de forma a sensibilizar as diferentes instâncias governamentais para essa polêmica em que envolve o bem maior do ser humano, que é o direito à vida. 5 - Referências BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Senado Federal, 1988. 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