C&T15.book Page 1 Friday, September 12, 2003 9:06 AM UNIVERSIDADE METODISTA DE PIRACICABA Revista de Ciência & Tecnologia Da Tecnologia de Grupo ao Neotectonismo ISNN 0103-8575 • Piracicaba, SP • Volume 8 • Número 15 • P 1-108 • junho /2000 REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 1 C&T15.book Page 2 Friday, September 12, 2003 9:06 AM UNIVERSIDADE METODISTA DE PIRACICABA Reitor ALMIR DE SOUZA MAIA Vice-reitor Acadêmico ELY ESER BARRETO CÉSAR Vice-reitor Administrativo GUSTAVO JACQUES DIAS ALVIM EDITORA UNIMEP CONSELHO DE POLÍTICA EDITORIAL Almir de Souza Maia (presidente) Antonio Roque Dechen Casimiro Cabrera Peralta Cláudia Regina Cavaglieri Elias Boaventura Ely Eser Barreto César (vice-presidente) Francisco Cock Fontanella Gislene Garcia Franco do Nascimento Nivaldo Lemos Coppini NÚMERO 15 – VOLUME 8 – 2000 COMISSÃO EDITORIAL Nivaldo Lemos Coppini (presidente) Hélio Dias da Silva Klaus Schützer Maria de Fátima Nepomuceno Dédalo Waldo Luis de Lucca EDITOR-EXECUTIVO Heitor Amílcar da Silveira Neto (MTb 13.787) SECRETÁRIA DA COMISSÃO EDITORIAL acadêmica Flavia Paduan Bellani A REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA é uma publicação semestral da Universidade Metodista de Piracicaba. Os textos são selecionados por processo anônimo de avaliação por pares (peer review). Veja as normas para publicação no final da revista. Os originais devem ser encaminhados por e-mail ao endereço [email protected] ou, pelo Correio, para: Comissão Editorial da RC&T, a/c prof. Nivaldo Coppini, UNIMEP – Campus Santa Bárbara d’Oeste – Rod. Santa Bárbara/Iracemápolis, km 01 – 13450-000 – Santa Bárbara d’Oeste/SP. As opiniões expressas nos artigos, tanto os encomendados como os enviados espontaneamente, são de responsabilidade dos seus autores. 2 REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA (Science na Technology Journal) is published twice a year by Universidade Metodista de Piracicaba (São Paulo – Brazil). It contains papers on scientific and technological issues. Manuscripts are selected through a blind peer review process. Editorial norms for submission of articles can be requested to the Editor. A Revista Ciência & Tecnologia é indexada por Revista de Ciência & Tecnologia is indexed by Base de Dados do Centro de Informações Científicas e Tecnológicas (Comissão Nacional de Energia Nuclear); Base de Dados do Ibge; Internacional Abstracts in Operations Research/IOR (University of Exeter); Periódica – Incide de Revistas Latinoamericanas em Ciencias (Unam); Subis (Sheffield Academic Press). EQUIPE TÉCNICA SECRETÁRIA Ivonete Savino ASSISTENTE ADMINISTRATIVO Altair Alves da Silva EDIÇÃO DE TEXTO Milena de Castro REVISÃO Sabrina R. Bologna CAPA Genival Cardoso Impressão: Personal Grafik Gráfica e Editora DTP E PRODUÇÃO Gráfica UNIMEP • Impresso em Duplicadora Digital Xerox Doutech 135 ASSINATURAS E REDAÇÃO EDITORA UNIMEP Rodovia do Açúcar, km 156 13400-911 – Piracicaba – SP Tel/fax: (19) 430-1620 E-mail: [email protected] REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA V. 1 • N. 1 • 1981 Piracicaba, Editora UNIMEP Semestral / Twice a year 1- Tecnologia – periódicos CDU – 62 (05) ISNN 0103-8575 Junho • 2000 C&T15.book Page 3 Friday, September 12, 2003 9:06 AM RC&T 15 Editorial PRESTÍGIO E RESPEITO Definitivamente, nenhuma pesquisa científica pode ser completa se os resultados das investigações nela conduzidas não forem amplamente divulgados por meios capazes de apresentá-los à sociedade, de maneira a contribuir para a formação de recursos humanos, para o avanço da ciência ou mesmo para disponibilizá-los aos setores produtivos dessa sociedade. É nesse sentido que muito nos honra apresentar mais este número da REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA, que tem demonstrado constituir eficaz espaço editorial no debate e na difusão de inúmeras informações científicas, cumprindo, assim, o seu papel acadêmico ao longo dos anos. Tanto que sua importância não está restrita ao meio unimepiano. Sua inserção já é marcante na comunidade científica, inserção esta revelada pelos numerosos trabalhos de pesquisadores de renome nacional e internacional nela publicados. Além disso, a qualidade identificada nos seus artigos já é, em si, um visível atestado de prestígio e de respeito da comunidade científica. A REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA representa também um espaço privilegiado para os pesquisadores da UNIMEP na divulgação e documentação pública dos seus trabalhos científicos. Sob esse enfoque, a RC&T se configura como um alicerce indispensável dos Programas de Fomento do Fundo de Apoio à Pesquisa (FAP/UNIMEP), significando, por isso, um elemento fundamental para a concretização do ciclo da pesquisa em nossa instituição. Assim, resta-nos parabenizar sua comissão editorial, pelo árduo trabalho da elaboração deste periódico, e os colaboradores da revista, pelo seu voto de confiança que propicia a veiculação através da RC&T do resultado de suas mais recentes descobertas científicas. ELY ESER BARRETO CÉSAR Vice-Reitor Acadêmico REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 3 C&T15.book Page 4 Friday, September 12, 2003 9:06 AM 4 Junho • 2000 C&T15.book Page 5 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Sumário 7 AVALIAÇÃO DA MEDIDA DE EFICIÊNCIA DE FERRAMENTAL DE GRUPO (EFG) VISANDO REDUÇÃO DE TEMPOS DE PREPARAÇÃO An Evaluation of the Group Tooling Efficiency Measure ANTONIO NELSON CORRÊIA FILHO & NELSON CARVALHO MAESTRELLI 13 EMISSÕES DE NOX EM TURBINAS A GÁS: MECANISMOS DE FORMAÇÃO E ALGUMAS TECNOLOGIAS DE REDUÇÃO NOX Emissions in Gas Turbines: formation mechanism and reduction ANTONIO GARRIDO GALLEGO, GILBERTO MARTINS & WALDYR L. R. GALLO 23 PROJETO DE CONSTRUÇÃO DE APLICATIVO ESTATÍSTICO PARA ANÁLISES DESCRITIVAS: SISTEMA DE ANÁLISES DESCRITIVAS-SIAD (parte II) Project for Statistical Applicative Construction to Descriptivies Analysis: Descriptivies Analysis System-SIAD (part II) ANGELA M. C. JORGE CORRÊA, FRANCISCO BACCARIN, VALÉRIA M. D’AREZZO ZILIO, ARIVALDO MATHIENSEN JR., EVELIN GIULIANA LIMA & HELOISA HELENA SFERRA 33 ABSORVEDORES DE RADIAÇÃO ELETROMAGNÉTICA APLICADOS NO SETOR AERONÁUTICO Electromagnetic Radiation Absorbers with Aeronautical Applications JOSIANE DE CASTRO DIAS, FÁBIO SANTOS DA SILVA, MIRABEL CERQUEIRA REZENDE & INÁCIO MALMONGE MARTIN 43 UM SISTEMA CORRETO E COMPLETO PARA A LÓGICA PROPOSIONAL CLÁSSICA Correctness and Completeness System for Classical Propositional Logic JOSÉ CARLOS MAGOSSI REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 5 C&T15.book Page 6 Friday, September 12, 2003 9:06 AM 51 A PROBABILIDADE NA ÓPTICA DA GEOMETRIA The Probability in the Optical of the Geometry IDEMAURO ANTÔNIO RODRIGUES LARA 59 BALANÇO DE RADIAÇÃO SOBRE UM SOLO DESCOBERTO PARA QUATRO PERÍODOS DO ANO Radiation Balance at the Surface of a Bare Soil for Four Periods of the Year MÁRIO DE MIRANDA VILAS BOAS RAMOS LEITÃO, MAGNA SOELMA BESERRA DE MOURA, TRÍCIA REGINA F. C. SALDANHA, JOSÉ ESPÍNOLA SOBRINHO & GERTRUDES MACARIO DE OLIVEIRA 67 AQUISITION AND CHARACTERIZATION OF NEPHELINE GLASS-CERAMIC Obtenção e Caracterização de Vitrocerâmicos de Nefelina CRISTINA DONEDA GOMES DE BORBA & HUMBERTO RIELLA 75 PROPRIEDADES TÉRMICAS E BIODEGRADABILIDADE DE PCL E PHB EM UM POOL DE FUNGOS Thermal Properties and Biodegradability of PCL and PHB Submitted in Fungi Pool DERVAL DOS SANTOS ROSA, DENISE FRANCO PENTEADO & MARIA REGINA CALIL 81 MÉTODOS EFICIENTES PARA A TRANSFORMAÇÃO GENÉTICA DE PLANTAS Efficient Methods for Genetic Plants Transformation ELIANE ROMANATO SANTARÉM 91 O NEOTECTONISMO NA COSTA DO SUDESTE E DO NORDESTE BRASILEIRO Neotectonism of Southeastern and Northeastern Brazilian Coast CARLOS CÉSAR UCHÔA DE LIMA 6 Junho • 2000 C&T15.book Page 7 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Avaliação da Medida de Eficiência de Ferramental de Grupo (EFG) Visando Redução de Tempos de Preparação An Evaluation of the Group Tooling Efficiency Measure ANTONIO NELSON CORRÊIA FILHO Universidade Metodista de Piracicaba [email protected] NELSON CARVALHO MAESTRELLI Universidade Metodista de Piracicaba [email protected] RESUMO – Este trabalho aprofunda o estudo da medida de eficiência do ferramental de grupo (EFG), analisando a dispersão dos valores obtidos a partir da análise de adequação da matriz ferramentas versus peças. Visa a facilitar a escolha do ferramental, em situações que apresentam várias possibilidades de soluções e envolvam grande número de ferramentas. São estudadas as situações que podem ocorrer (teoricamente) na escolha da melhor solução e apresentadas propostas para resolvê-las, objetivando a redução dos tempos de preparação de máquinas. Para melhor visualização desta proposta, um caso de aplicação é exposto. Palavras-chave: FERRAMENTAL DE GRUPO – REDUÇÃO DO TEMPO DE PREPARAÇÃO – PADRONIZAÇÃO DE FERRAMENTAS. ABSTRACT – This paper studies the group tooling efficiency measure, analysing the dispersion that occurs in the results of tools versus parts adequacy matrix. This study allows to help the decision making about the tool selection problem, that occurs when the number of parts and tools are too large. The better choice of tool set will carry out the major results in set up time reduction or even elimination. A study case is also included. Keywords: GROUP TOOLING – SET UP REDUCTION – TOOLING STANDARDISATION. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 07-12 7 C&T15.book Page 8 Friday, September 12, 2003 9:06 AM INTRODUÇÃO O método usado neste trabalho, para determinação do ferramental de grupo, baseia-se na proposta apresentada em Kusiak (1990). Esse método (Corrêia Filho, 1998) utiliza um modelo baseado em formulação matricial para verificar se existe um número determinado de ferramentas que pode processar peças diferentes, sem a necessidade de trocas e ajustes, ou seja, definir o ferramental de grupo. O ferramental de grupo, segundo (Burbidge, 1971), visa a reduzir os tempos de preparação de máquinas através do desenvolvimento de ferramental padronizado, a ser utilizado por peças pertencentes às mesmas famílias, o que é possível em função das similaridades de projeto e fabricação dessas peças. Para entender a utilização de formulação matricial na definição de ferramental de grupo, será apresentado um exemplo de aplicação. Considera-se uma máquina que processa as peças (P1), (P3), (P4), (P7) e (P5), apresentadas na figura 1. Para esse processamento, são necessárias oito ferramentas, dadas por T1 a T8. A figura 1 mostra a matriz de incidência ferramentas versus peças original para tal situação, e a matriz rearranjada pela aplicação de um algoritmo de agrupamento (Kusiak, 1990). Fig. 1. Matriz de incidência (Ferramentas versus Peças). Peças T1 T2 T3 T4 T5 T6 T7 T8 1 1 0 0 1 0 1 0 0 3 0 1 1 0 1 0 0 1 4 1 0 0 1 0 1 1 0 Matriz (1a) Peças 7 0 0 1 0 1 0 0 1 5 0 1 0 0 1 0 0 1 T1 T4 T6 T7 T5 T8 T2 T3 4 1 1 1 1 0 0 0 0 1 1 1 1 0 0 0 0 0 3 0 0 0 0 1 1 1 1 5 0 0 0 0 1 1 1 0 7 0 0 0 0 1 1 0 1 Matriz reordenada (1b) Analisando-se a matriz da figura 1, é possível identificar dois conjuntos iniciais, C1 e C2, compostos da seguinte maneira: C1: peças (4) e (1) ferramentas T1, T4, T6 e T7 C2: peças (3), (5) e (7) ferramentas T5, T8, T2 e T3 8 A existência destes dois "agrupamentos" ou "conjuntos iniciais" conduz a duas possíveis soluções para a identificação do ferramental de grupo, cada uma delas originadas de um dos conjuntos. O método propõe que a regra de formação das matrizes de adequação seja dada por: bij = [0.1,1.0] se é possível usar a ferramenta i para processar a peça j, não é atribuído valor; se não, há possibilidade. O valor de bij definido pelo intervalo [0.1, 1.0] será determinado de acordo com o nível de adequação da ferramenta à peça. Quanto maior a adequação entre a ferramenta e a peça, maior o valor de bij (Corrêia Filho, 1998). A figura 2 apresenta as matrizes de adequação MA1 e MA2, que se originam da matriz reordenada (fig. 1). Fig. 2. Matriz de adequação. Peças Peças 4 1 3 5 7 T1 1 1 0,6 0,4 0,4 T4 1 1 0,3 0,7 1 T6 1 1 – 0,5 0 T7 1 0 – 0 – Matriz de Adequação MA1 4 1 3 5 7 T5 0,4 0,8 1 1 1 T8 1 1 1 1 1 T2 0,3 1 1 1 0 T3 0,6 – 1 0 1 Matriz de Adequação MA2 Analisando a situação apresentada pelas matrizes de adequação MA1 e MA2, obtidas a partir dos conjuntos iniciais C1 e C2, percebe-se que: a matriz MA1 para uma possível solução deverá ser acrescida de duas linhas, correspondentes à inclusão de T2 e T3. Isso é necessário para possibilitar o processamento de todas as peças do agrupamento, conforme figura 3. Fig. 3. Matriz de adequação MA1 ampliada. T1 T4 T6 T7 T2 T3 4 1 1 1 1 0 0 1 1 1 1 0 0 0 Peças 3 0,6 0,3 – – 1 1 5 0,4 0,7 0,5 0 1 0 7 0,4 1 0 – 0 1 Para o caso de MA2, é possível processar todo o conjunto de peças com as mesmas ferramentas, embora o valor de adequação de T2 para P4 seja pequeno (bij = 0,3). Junho • 2000 C&T15.book Page 9 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Uma restrição a ser considerada na análise de MA1 e MA2 é o número de ferramentas que o magazine da máquina escolhida pode armazenar. Desse modo, sendo Tm: capacidade de ferramentas do magazine da máquina (é o número máximo de ferramentas que podem ser montadas simultaneamente na máquina); Ts: número de ferramentas proposto pela solução gerada a partir do uso do método de adequação; Tem-se que: Ts ≤ Tm, para que seja possível montar todas as ferramentas necessárias, sem trocas, garantindo o processamento de todas as peças da família definida. Para comparar diferentes soluções obtidas a partir da análise das matrizes de adequação, é preciso utilizar algum parâmetro que avalie a qualidade de cada solução, além da restrição já citada. Para isso, foi criada a medida “Eficiência do Ferramental de Grupo” (EFG). Esse trabalho analisa tal medida, aprofundando-se nos casos em que diferentes conjuntos de dados apresentem resultados próximos para EFG, dificultando a escolha da melhor solução. No próximo item, a medida EFG será melhor detalhada. DEFINIÇÃO DA MEDIDA EFG A medida EFG é determinada pela relação seguinte: n t ∑ ∑ bij = 1i = 1 EFG = j------------------------( n.t—z) onde: bij = valor da adequação da ferramenta i à peça j; n = número de peças da matriz de adequação; t = número de ferramentas da matriz de adequação; z = número de vezes em que, na matriz de adequação, ocorre a situação em que não é feita a análise para a adequação (não há necessidade de usar a ferramenta para a peça em questão), ou seja, é o número de “zeros” da matriz de adequação. No exemplo dado no item anterior, se o magazine da máquina suportar no máximo quatro ferramentas, não será possível utilizar MA1. No exemplo estudado, e com base nas matrizes MA1 e MA2 definidas, tem-se na tabela 1 o resumo para os conjuntos iniciais: Tab. 1. Resumo para os conjuntos iniciais. CONJ. INICIAL FERRAMENTAS EFG TS TM C1 C2 Ferramentas 1 1 1 1 1 1 1 0, 2 1 MA1 EFG = 0, 91 REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 07-12 0,71 0,84 6 4 4 4 OBS Inviável Viável Para este exemplo de aplicação (tabela 1), não é necessário aprofundar a análise sobre EFG, pois a escolha sobre a melhor solução recai sobre a opção que utiliza o conjunto C2. Nos itens seguintes deste trabalho, serão analisados casos em que não será possível escolher a melhor solução, baseando-se apenas no valor que EFG assume para cada situação, principalmente quando os valores gerados forem muito próximos. ESTUDO DA MEDIDA EFG Conforme visto, a medida EFG é utilizada para comparar as soluções encontradas, de modo a facilitar o processo de escolha da melhor opção da matriz de adequação (MA). As matrizes expressas na figura 4 ilustram situações distintas, mas que geram valores iguais para EFG. Fig. 4. Matriz adequação com os mesmos valores de EFG. Pe as P1 P2 P3 T1 T2 T3 T1,T4,T6,T7 T5,T8,T2,T3 Pe as P1 P2 P3 Ferramentas T1 1 1 1 T2 1 1 1 T3 0, 5 0, 7 1 MA2 EFG = 0, 91 9 C&T15.book Page 10 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Fig. 5. Matriz adequação com os valores de EFG próximos. Pe as P1 P2 P3 T1 1 1 1 Ferramentas T2 1 0, 2 1 MA1 EFG = 0, 87 A figura 5 apresenta situação em que os valores EFG são muito próximos, mas gerados a partir de conjuntos de valores para bij com diferentes níveis de dispersão. Para adotar a melhor opção de solução quando são encontrados dados com essas características (mesmo valor de EFG para conjuntos de dados distintos, ou valores próximos de EFG, com conjuntos de dados com diferentes níveis de dispersão), pode-se utilizar a medida de desvio padrão (Vieira & Hoffmann, 1986), aplicada sobre os elementos bij das matrizes de adequação. O objetivo é a utilização desse conhecimento, ou seja, o desvio-padrão para indicar a MA que possui a menor dispersão dos valores bij em torno da EFG para cada MA estudada. O desvio padrão é calculado pela fórmula: ( ∑ b ij ) – -------------------n.t—z --------------------------------------------( n.t—z) – 1 ∑ bbij 2 2 Sb = ij onde: Sbij – desvio-padrão dos valores bij em torno de EFG. A relação entre o desvio-padrão e a EFG fornece a dispersão relativa, conhecida como medida de coeficiente de variação (Vieira & Hoffmann, 1986). Neste trabalho será utilizada a dispersão relativa de dispersão em relação a EFG. Para esse cálculo usase o coeficiente de variação (CV), dado pela fórmula: CV = Sbij . 100 EFG Segundo Corrêia Filho (1998), a melhor solução é a MA que apresentar o maior EFG, ou seja, a melhor solução ocorre quando todos os elementos bij = 1. De fato, este resultado apresenta maior EFG, com menor variação dos elementos bij da MA, ou seja: EFG =1, Sbij= 0 e CV = 0. Esta situação configura a solução ideal do problema. Deve-se, portanto, buscar as soluções em que são gerados os valores mais altos para EFG, 10 Pe as P1 P2 P3 T1 1 1 1 T2 0, 7 0, 5 0, 7 Ferramentas MA2 EFG = 0, 82 simultaneamente a valores mais baixos para as medidas de Sbij e CV. Neste trabalho, propõe-se considerar, como soluções adequadas, aquelas que apresentem os valores EFG maiores que 75%, conforme a tabela 2. Tab. 2. Considerações das soluções conforme o valor de EFG. CONDIÇÕES EFG (%) Melhor solução Boa solução Solução suficiente Desconsiderar 100,00 87,50 ≤ EFG < 100,00 75,00 ≤ EFG < 87,50 0,10 ≤ EFG < 75,00 Voltando-se para a situação hipotética mostrada na figura 4, pode-se verificar, de acordo com a tabela 2, que as soluções representadas pelas situações MA1 e MA2 pertencem à mesma faixa de valores de EFG, na condição de “Boa Solução”. Assim, há necessidade de maiores detalhes para a escolha da melhor solução. Os resultados dos cálculos dessa situação são apresentados na tabela 3. Tab. 3. Resultados dos cálculos, conforme a situação da figura 4. SOLUÇÃO EFG SBIJ CV (%) MA1 MA2 0,91 0,91 0,27 0,18 29,26 20,12 Da análise dos dados obtidos, observa-se que a solução com menor CV será considerada a melhor. No caso em questão, será escolhida a situação representada por MA2. Para a segunda situação hipotética, apresentada na figura 5, verifica-se, de acordo com a tabela 2, que as soluções definidas por MA1 e MA2 pertencem à mesma faixa de valores para EFG, na condição de “Solução Suficiente”. Deve-se salientar que as soluções que pertencerem à maior faixa de valores EFG (tab. 2) serão consideradas as melhores. Junho • 2000 C&T15.book Page 11 Friday, September 12, 2003 9:06 AM A tabela 4 apresenta os resultados da situação da figura 5. Fig. 6. Matriz adequação (MA4). Peças Tipos de operações Desbaste 1 externo Acabamento 1 externo Canal 0 externo P1 P2 P3 P7 P4 P6 P8 P5 Tab. 4. Resultados dos cálculos, conforme a situação da figura 5. SOLUÇÃO EFG SBIJ CV (%) T1 1 1 1 1 1 1 1 T2 1 0 0 1 1 1 1 T3 1 0 0 0,5 0,5 0 0 T4 1 0 0 0 0 0 0 T5 1 0 0 0 0,2 0 0 0 T6 1 1 0 0 0 0 0 T7 0 1 1 1 0,2 0 0 0 T8 0 0 1 0 0 0 0 T9 0 0 1 0,2 0,2 0 0 0 APLICAÇÃO DO MÉTODO PROPOSTO T15 0 0 0 0 0 1 0 0 Neste item considera-se uma aplicação real, em um ambiente industrial (Corrêia Filho, 1998). No caso, foram obtidas duas possíveis soluções, representadas pelas figuras 6 e 7. Neste primeiro caso, tem-se para EFG: EFG = (b11 + b12 + ... + b1n) + (b21 + ... + b2n) + ... + ( bt1 + bt2 + ... + btn) / (n.t-z) EFG = 29,8 / (8 x 12 – 62) = 0,88 A Eficiência do Ferramental de Grupo (EFG) é de 88%. O valor de EFG para esta situação será dado por: EFG = (b11 + b12 + ... + b1n) + (b21 + ... + b2n) + ... +(bt1 + bt2 + ... + btn) / (n.t-z) EFG = 28,1 / (8 x 11 – 55) = 0,85 E a Eficiência do Ferramental de Grupo é de 85%. Observa-se que MA4 (fig. 6) e MA3 (fig. 7) não pertencem à mesma faixa de valores de EFG (tab. 2). A MA4 pertence à faixa de valores EFG, na condição de “Boa Solução”, enquanto a faixa de valor a que pertence EFG para MA3 é considerada condição de “Solução Suficiente”. Conforme citado anteriormente, a melhor solução pertence à maior faixa de valores EFG. Neste caso há uma única solução, não sendo necessário considerar o cálculo das medidas de dispersão para melhor comparação das opções. T16 0 0 0 0 0 1 0 0 T17 0 0 0 1 0 0 1 0 0,33 0,21 37,68 26,16 Como os valores de EFG se apresentam dentro da mesma faixa para EFG (tab. 2), deve-se considerar, para melhor solução, aquela que apresente menor coeficiente de variação (CV). No caso, será considerada a solução representada por MA2. No item seguinte deste trabalho, analisa-se uma situação real, ocorrida em ambiente industrial, para aplicação dessa proposta de análise. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 07-12 Ferramentas 0,87 0,82 0 0 0 Broca Desbaste interno Rosca interna Desbaste interno Acabamento interno Canal interno Broca φ8 Rosca externa Rosca externa Fig. 7. Matriz adequação (MA3). Peças Tipos de operações Acabamento 1 externo Canal 0 externo P1 P2 P3 P7 P4 P6 P8 P5 Ferramentas MA1 MA2 T2 1 0 0 1 1 1 T3 1 0 0 0,5 0,5 0 0 T4 1 0 0 0 0 0 T5 1 0,5 0,5 0,5 0,2 0 0 0 T6 1 1 0 0 0 0 0 0 T8 0 0 1 0 0 0 0 0 T9 0 0 1 0,2 0,2 0 0 0 T1 1 1 1 1 1 1 1 1 T16 0 0 0 0 0 1 0 0 T17 0 0 0 1 0 0 1 0 T15 0 0 0 0 0 1 0 0 0 1 0 Broca Desbaste interno Rosca interna Acabamento interno Canal interno Desbaste externo Rosca externa Rosca externa Broca φ8 11 C&T15.book Page 12 Friday, September 12, 2003 9:06 AM A proposta de definir faixas de valores para EFG é para garantir, em primeiro lugar, os valores de EFG, configurando que a melhor escolha de solução ocorreu. CONCLUSÕES De acordo com Corrêia Filho (1998), a melhor solução para representar o ferramental de grupo é a que apresentar a maior medida de EFG. No entanto, para os casos em que são gerados valores muito próximos de EFG, deve-se considerar também as medidas de dispersão (desvio padrão e coeficiente de variação) para auxiliar a tarefa de escolha da melhor solução. A utilização de faixas de valores para EFG garante que sejam considerados, em primeiro lugar, os valores EFG. Caso sejam muito próximos (ou pertençam à mesma faixa de valores), deve-se comparar as demais medidas propostas, para avaliar a dispersão dos valores da matriz de adequação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BURBIDGE, L.J. Production Flow Analysis. Production Engineering, (4), pp. 139-152, 1971. CORRÊIA FILHO, A.N. Proposta de um Método para Identificação do Ferramental de Grupo Baseado em Análise de Agrupamentos. Santa Bárbara d’Oeste: Centro de Tecnologia, Universidade Metodista de Piracicaba, 1998. [Tese de mestrado]. KUSIAK, A. Intelligent Manufacturing Systems. Englewood Cliffs, N.J: Prentice-Hall, 1990. VIEIRA, S. & HOFFMANN, R. Elementos de Estatística. São Paulo: Atlas, 1986. 12 Junho • 2000 C&T15.book Page 13 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Emissões de Nox em Turbinas a Gás: Mecanismos de Formação e Algumas Tecnologias de Redução NOX Emissions in Gas Turbines: formation mechanism and reduction ANTONIO GARRIDO GALLEGO Universidade Metodista de Piracicaba [email protected] GILBERTO MARTINS Universidade Metodista de Piracicaba [email protected] WALDYR L. R. GALLO Universidade Metodista de Piracicaba [email protected] RESUMO – Este trabalho apresenta a questão das emissões de óxidos de nitrogênio (NOx) produzidos por turbinas a gás de uso industrial. São discutidos os aspectos de regulamentação de emissões (no Brasil e em outros países), os principais mecanismos de formação dos óxidos nitrosos em câmaras de combustão de turbinas a gás e as principais estratégias para o controle das emissões, incluindo injeção de água, injeção de vapor, combustão por estágios, combustores “low-NOx” e redução catalítica. A necessidade de revisão da legislação brasileira é ressaltada. Palavras-chave: TURBINAS A GÁS INDUSTRIAIS – EMISSÕES DE NOX – FORMAÇÃO DE NOX. ABSTRACT – This work studies some aspects related to the NOx emissions from industrial gas turbines. Brazilian and international emission regulations are discussed. The main oxide formation mechanisms inside the combustion chamber are presented, and the main strategies for the reduction of NOx emission are explored (including water and steam injection, staged combustion, low-NOx burners and catalytic reduction). The need for a revision on Brazilian regulations for NOx is evidenced. Keywords: GAS TURBINES – NOX EMISSIONS – NOX FORMATION MECHANISM. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 13-22 13 C&T15.book Page 14 Friday, September 12, 2003 9:06 AM INTRODUÇÃO N o atual cenário energético mundial, no qual a escassez dos recursos soma-se aos problemas ambientais oriundos da utilização de energia e extração de produtos naturais, observa-se uma crescente preocupação com a busca de maior racionalidade no uso da energia, além da procura de processos com menor impacto ambiental. No Brasil, como em todo o mundo, o setor energético vem sofrendo profundas transformações motivadas não apenas por questões de ordem técnica e econômica, mas também por pressões da sociedade. A capacidade atual instalada de geração de energia elétrica no País é de pouco mais de 60 GW. Desse total, cerca de 94% são de origem hidráulica e o restante, de origem térmica. Porém, com o aumento da demanda de energia elétrica e a necessidade da garantia na qualidade de fornecimento, existe a necessidade do aumento do parque gerador. Dificuldades para a exploração do potencial hídrico, como altos custos de investimento, longos prazos de instalação e problemas ambientais, foram levados em conta na elaboração do Plano Decenal de Expansão do Setor Elétrico para o período 19972006, que estima para 2006 uma composição da geração de energia elétrica hidroelétrica de 83% e termoelétrica de 17%. Com essa perspectiva de mudança do perfil de geração de energia elétrica, além da possibilidade de implantação de plantas térmicas e sistemas de cogeração devido à efetivação do projeto do gasoduto Brasil-Bolívia, verifica-se a necessidade de se rever alguns aspectos da legislação ambiental, principalmente no que concerne às emissões de óxidos de nitrogênio. Frente às atuais tecnologias disponíveis para a geração de energia elétrica, é esperado o uso de combustíveis de origem fóssil como fonte energética. A efetivação do gasoduto Brasil-Bolívia certamente irá contribuir para a viabilização de plantas termelétricas ou sistemas de co-geração, ao disponibilizar grandes quantidades de gás natural. Nesse sentido, deve-se discutir qual a melhor forma de gerar energia elétrica com o menor impacto ambiental em plantas térmicas e sistemas de co-geração. Em todos os processos térmicos existem substâncias que são liberadas e que podem tornar-se problemá- 14 ticas para os seres vivos e estruturas urbanas, dependendo da concentração, características do local e situação climática, entre outros fatores. Os óxidos de nitrogênio (NOX) são gases nocivos à saúde, causam irritação nos olhos e no sistema respiratório, sendo ainda parcialmente responsáveis pelas chuvas ácidas e formação do smog (processo fotoquímico de oxidação da atmosfera), juntamente com material particulado, ozônio e hidrocarbonetos. Frente às considerações acima, este trabalho apresenta alguns aspectos relacionados às emissões de NOX provenientes de turbinas a gás industriais para geração de eletricidade, enfocando principalmente seus mecanismos de formação e formas de prevenção e redução de emissões. POLUIÇÃO DO AR: REGULAMENTAÇÕES E EMISSÕES A adoção de padrões de qualidade do ar objetivos e coerentes é um instrumento de gestão ambiental que procura resguardar a saúde pública, o bem-estar da população, assim como fauna, flora e meio ambiente em geral. Para que esse instrumento seja eficaz, é necessário, porém, que também se estabeleçam padrões de emissão para cada poluente atmosférico monitorado pelos padrões de qualidade do ar, e, mais do que isso, que se estabeleçam modelos de dispersão de poluentes capazes de correlacionar as emissões à qualidade do ar na região. Infelizmente, na regulamentação brasileira para fontes estacionárias de emissões gasosas, CONAMA n.º 008/90 (Ventura, 1996), não existe qualquer referência a emissões de NOX. Esse tipo de poluente é avaliado apenas quanto à qualidade do ar, CONAMA n.º 003/90 (Ventura, 1996). Assim, não existem limites para a emissão de NOX, seja por turbinas a gás, seja por qualquer outra fonte estacionária ou móvel senão indiretamente. Na verdade, a legislação menciona a necessidade de se empregar “a melhor tecnologia disponível”, quando não existe limitação explícita para um dado poluente (Ventura, 1996). Países da Europa, Japão e Estados Unidos possuem limites de emissões por fonte geradora, que servem de parâmetro de controle e acompanhamento. Junho • 2000 C&T15.book Page 15 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Bathie (1996) apresenta padrões de emissões de NOx aplicados para turbinas a gás industriais utilizados pelo New Source Performance Standards (NSPS) dos Estados Unidos. O critério usado para determinação do limite de emissões de NOX foi baseado no consumo de combustível e na quantidade de nitrogênio em sua composição, sendo os valores corrigidos para 15% de oxigênio em base seca. Para termelétricas, o limite é fixado em 75 ppmv e, para outros usos, em 150 ppmv. No caso de aplicações militares, de combate a incêndio e de emergência, não há limites. Estudos conduzidos pela CORINAIR (CORe INventories AIR), da Enviromental European Agency (EEA, 1998), mostram que os setores que apresentam maiores níveis de emissões totais de NOX são os de geração de energia elétrica, em uso industrial e em transportes, com contribuição de 20,93%, 13,65% e 56,68%, respectivamente. A Tokio Electric Power Company (TEPCO) é a segunda maior companhia de geração de energia elétrica privada do mundo, suprindo a área metropolitana de Tóquio. Sua preocupação é atender à demanda de energia elétrica com a menor emissão de poluentes por kWh instalado. Na figura 1 é apresentada sua tendência histórica de geração elétrica e de emissões de NOX entre 1973 e 1995. Durante o período 1985-1995 houve aumento de 47% na produção de eletricidade, com redução de emissão de NOX de 36%. A melhora dos níveis de emissões de NOx é atribuída ao uso de combustíveis de melhor qualidade, melhora contínua dos sistemas de combustão e instalação de sistemas de denitrificação nas chaminés. Fig. 1. Emissões médias de NOX dos sistemas de potência em operação (TEPCO, 1998). Emiss es de NOx (m dia de sistemas de pot ncia em opera o) Uma comparação entre os valores das emissões médias de Nox de sistemas de potência de países como Canadá, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos e do próprio Japão, divulgados pela TEPCO (1998) é apresentada na tabela 1. Note-se que a primeira coluna (geração termelétrica) considera diferentes tecnologias e combustíveis, variando entre os países. Da mesma forma, a segunda coluna (geração elétrica total) inclui todos os tipos de tecnologias de geração elétrica (hidráulica, nuclear, térmicas convencionais). O valor médio de emissões da geração de eletricidade de todos os países é inferior aos valores das emissões das termelétricas, graças à mistura de sistemas de geração com diferentes tecnologias que possuem poluentes ou emissões que não foram levados em conta (por exemplo, energia nuclear). Verifica-se na tabela 1 que grande parte dos países apresenta valores médios de emissões de Nox em termelétricas superiores a 2 g/kWh, mas existe potencial e tecnologia para redução desses níveis de emissões, como o apresentado pela Alemanha, com níveis de emissões inferiores a 2 g/kWh, e o Japão, com níveis inferiores a 0,5. Tab. 1. Níveis de emissões de NOx em geração de eletricidade de vários países (TEPCO, 1998). MÉDIA DAS MÉDIA DA GERAÇÃO PAÍSES TERMELÉTRICAS DE ELETRICIDADE g/kWh g/kWh Alemanha Canadá França Grã-Bretanha Itália Japão EUA (1992) (1991) (1992) (1993) (1990) (1995) (1993) 1,50 2,45 2,21 2,52 2,28 0,35 2,98 0,99 0,55 0,24 1,77 1,91 0,19 2,09 g/kwh Centena de milh es de KWh / ano 3000 1,6 1,4 2500 1,2 2000 1 <---Pot ncia de sa da 1500 0,8 0,6 1000 0,4 Emiss es ---> 500 0,2 0 0 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 Anos REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 13-22 No Brasil, com a tendência da expansão da geração elétrica através de termelétricas ou sistemas de co-geração, os projetos que não estejam enquadrados em limites de emissões recomendados internacionalmente devem ser questionados e rejeitados, porque trarão problemas ambientais futuros ou agravarão os já existentes. A elaboração de normas brasileiras rígidas de controle ambiental, com a adoção de padrões de emissão de NOx e um sistema de moni- 15 C&T15.book Page 16 Friday, September 12, 2003 9:06 AM toramento que garanta a manutenção dos padrões de qualidade do ar, é portanto tarefa urgente. MECANISMOS DE FORMAÇÃO DE NOX A Formação de NO Entre os óxidos formados durante o processo de combustão, o mais encontrado é o óxido de nitrogênio (NO). Esse óxido pode ser obtido no processo de combustão por três caminhos: a reação do nitrogênio atmosférico com o oxigênio a altas temperaturas, formando o NO térmico; reação de radicais hidrocarbônicos livres com a molécula de nitrogênio, formando o NO prompt (NO rápido); e pela reação do nitrogênio existente no combustível, formando o NO combustível. Dependendo das condições em que ocorre a combustão, existe o predomínio de um dos tipos de mecanismos mencionados: a altas temperaturas, predomina NO térmico; se a quantidade de nitrogênio contido no combustível é alta e a temperatura é baixa, o NO combustível e o NO prompt são os predominantes. O NO térmico é obtido a partir da reação do nitrogênio do ar atmosférico com o oxigênio dissociado pelas altas temperaturas impostas no processo de combustão. As principais reações de formação do NO térmico são apresentadas abaixo, segundo modelo proposto por Zeldovich: N2 + O ⇔ NO + N N + O2 ⇔ NO + O N + OH = > NO + H (1) (2) (3) A velocidade de formação do NO térmico é determinada pela equação (1), importante quando em condições próximas a estequiométrica e mistura rica. Nessas condições se produz grande quantidade e óxido de nitrogênio. A velocidade de formação de NO é menor do que a velocidade da maioria das reações de combustão e verifica-se que na região da chama pouco NO térmico é formado, com grande parcela sendo gerada na região de pós-chama (Chigier, 1981). Chigier (1981) apresenta na equação (4) a taxa de formação de óxido de nitrogênio, indicando que a quantidade de NO depende exclusivamente 16 da temperatura e das concentrações de oxigênio e de nitrogênio. O autor comenta a boa concordância com valores da equação e os valores de NO medidos na região de pós-queima, mas quando comparado a valores medidos na região de combustão, existe um erro significativo, devido à não possibilidade de se prever o acréscimo de NO formado, proveniente do NO combustível e NO prompt. d ( NO ) 10 1⁄2 1⁄2 ----------------- = 6x10 T eq exp ( [ – 69090 ⁄ T eq ] [ O 2 ] eq [ N 2 ] eq ) t (4) A formação de NO térmico aumenta com a temperatura e com o tempo de exposição. O aumento de temperatura contribui com a energia que acelera a reação de dissociação, exigindo menor tempo de exposição para que ela ocorra. Isso significa que, para uma dada mistura, existe uma temperatura na qual o tempo de exposição não é mais significativo no aumento de NO térmico, devido ao fato de o processo de formação de NO ter atingido o equilíbrio químico. Deve ser observado que, para uma dada temperatura de referência, uma nova condição de equilíbrio para formação do NO térmico pode ser atingida com o aumento do excesso de ar (mistura pobre), em função da maior presença de oxigênio e nitrogênio, que podem se dissociar e reagir. Outro fator importante é o tempo de residência; todavia para relações de combustível/ar baixas (por volta de 0,4), o tempo de residência não tem influência no aumento da formação de NO térmico, dada a diminuição da temperatura da chama. Lefebvre (1995) cita que os pontos-chave relativos à formação de NO térmico podem ser resumidos da seguinte forma: a) a formação do NO térmico é controlada pela temperatura de chama; b) pequena quantidade de NO térmico é formada com temperaturas abaixo de 1.850 K; c) para relações de combustão com mistura pobre (relação combustível/ar < 0,5), NO formado independe do tempo de residência. O NO combustível é formado a partir da reação do oxigênio com o nitrogênio contido no combustível durante o processo de combustão. Frações de nitrogênio podem se encontradas nos combustíveis desde 0,2% em massa, nos destilados leves, até 2% em massa nas frações asfálticas e carvões. Junho • 2000 C&T15.book Page 17 Friday, September 12, 2003 9:06 AM A oxidação de moléculas de baixo peso molecular que contêm nitrogênio, presente no combustível ou formadas durante a combustão (NH3, HCN, CN), é muito rápida, ocorrendo em escala de tempo similar à das outras reações do processo de combustão. A formação do NO combustível, além de ser fortemente influenciada pela quantidade de nitrogênio presente na composição do combustível, é influenciada pela relação ar/combustível da reação de combustão. Altas concentrações de NO combustível são obtidas em reações pobres (baixas temperaturas de chama), ou seja, a temperatura tem pouca influência. Quando a combustão ocorre a baixas temperaturas, como em reatores de leito fluidizado (750 a 950ºC), o NO combustível é o mais predominante. O mecanismo de formação do NO combustível pode ser encontrado em Chigier (1981). Conforme Lefebvre (1983), o mecanismo de formação do NO combustível parece seguir os seguintes critérios: a) a conversão do nitrogênio pertencente ao combustível para óxido de nitrogênio (NO) é praticamente total para condições de excesso de ar, quando operando com combustível que possui baixas concentrações de nitrogênio (menos que 0,5% em massa); b) a conversão decresce com o acréscimo da concentração de nitrogênio no combustível, especialmente para condições de mistura rica; c) a conversão aumenta vagarosamente com a elevação da temperatura de chama. O termo prompt NO ou NO rápido foi apresentado por Fenimore (Chigier, 1981), que o caracterizou pelo rápido aparecimento de NO na frente de chama, envolvendo mecanismo cinéticos que não são completamente compreendidos. Uma explicação para a obtenção do NO prompt é baseada na reação do nitrogênio com radicais hidrocarbônicos (CH, C etc.), existentes na frente de chama. Conforme Lefebvre (1995), a reação inicial para a formação do NO prompt é iniciada a partir da formação do HCN, representada pelas equações 5 e 6, ocorrendo reações intermediárias, que formam compostos como CN, NCO, HNCO; estes por sua vez são oxidados, formando o NO. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 13-22 N2 + CH ⇔ HCN + N C + N2 ⇔ CN + N (5) (6) Chigier (1981) cita que, ao serem analisados experimentos realizados com grandes concentrações de HCN próximo à zona de chama, verificou-se uma rápida queda da concentração de HCN e uma rápida formação de NO. Uma das teorias utilizadas para explicar o ocorrido é a de que na frente de chama o nitrogênio proveniente do combustível reage para a formação do NO via HCN. Essa teoria na realidade junta o mecanismo de formação do NO combustível com o NO prompt. Algumas características com relação ao NO prompt são apresentadas por Chigier (1981): a) a absoluta dependência da presença de hidrocarbonos ativos; b) a relativa independência da temperatura, tipo de combustível ou mistura. Em experiências realizadas em condições estequiométricas foram obtidos níveis de NO prompt de 50 a 90 ppm; ao se alterar a temperatura de 1.900 K para 2.350 K não houve significativo aumento NO prompt; em compensação, ao se aumentar relação combustível/ar de 0,9 para 2,0 a 1.900 K foi produzido significativo aumento na produção de NO prompt; c) quando em baixas temperaturas de chama, um tempo longo de residência promove a destruição do NO ativo formado a partir de reações desse com hidrocarbonos. A Formação de NO2 A formação de NO2 próximo à chama é praticamente desprezível se comparada com o NO formado, sendo que parcela do NO2 formado nessa região se converte em NO. A conversão de NO em NO2, por sua vez, ocorre nas zonas em que existe excesso de ar na câmara de combustão, o que caracteriza uma maior estabilidade do NO2 a baixas temperaturas, quando comparado com o NO. A partir da cinética de reação pode ser prevista a conversão de NO em NO2. Tomando um exemplo: a 700 K e para um tempo de 0,1 ms, ocorre rapidamente 25% de conversão; por outro lado, ao se aumentar a temperatura para 900 K, a conversão é menor que 6%. Existem dúvidas se a conversão de NO para NO2 ocorre dentro da câmara de combustão ou nas proximidades da saída da câmara. 17 C&T15.book Page 18 Friday, September 12, 2003 9:06 AM CORRELAÇÕES EMPÍRICAS PARA PREVISÃO DA FORMAÇÃO DE NOX A possibilidade de se prever o comportamento térmico e as emissões geradas por uma turbina são importantes, principalmente na fase de projeto e escolha do sistema a ser utilizado. Existem duas formas para determinar a quantidade de NOx: a primeira vem da necessidade de se conhecer os mecanismos de reação, equações de equilíbrio e as constantes de velocidade de reação e de se resolver essas equações por métodos computacionais; outra forma é desenvolver correlações empíricas a partir de dados coletados em equipamentos existentes. A elaboração dos modelos está baseada em três parâmetros: a) tempo de residência na zona de combustão; b) taxa da reação química; c) taxa de mistura. A partir desses parâmetros podem ser obtidos termos que relacionam tamanho da câmara de combustão, perda de carga, proporções dos fluxos envolvidos, além das condições de entrada, como pressão, temperatura e fluxo de massa. Seguindo essa metodologia, algumas equações para previsão de formação de NOX em turbinas a gás são apresentadas por Lefebvre (1995). A equação (7) foi desenvolvida pelo próprio autor: NOx = 9 × 10-8 P -1,25 Vc exp (0,001Tst) / mA Tpz (7) onde: Vc é volume da combustão (m3), P é a pressão da combustão (kPa), Tst é a temperatura da chama (K), Tpz é a temperatura média da câmara da chama (K), e mA é fluxo de massa de ar (kg/s); o resultado obtido é dado em gramas de NOx por quilo de combustível (g/kg de combustível). Conforme o autor, esta equação oferece boa previsão da determinação de NOx em câmaras de combustão do tipo “spray”. Outros autores, como Odgers & Krestchmer, Lewis & Rokk (In: Lefrevre, 1995), apresentam também correlações empíricas, apresentadas nas equações 8, 9 e 10. NOx = 29 exp – (21.670/T) P0,66 × [ 1 – exp -(250 t) ] (8) onde: P é a pressão da câmara de combustão (Pa), T é a temperatura da chama (K), e t é o tempo 18 de formação do NOx (ms), sendo atribuído 0,8 ms para “airblast atomizers”, 1,0 ms para “pressure atomizers”, 1,5 a 2,0 ms para turbinas industriais queimando combustível líquido; o resultado obtido é dado em gramas de NOx por quilo de combustível (g/kg de combustível). NOx = 3,3192 × 10-6 exp (0,0079776 Τ) P0,5 (9) onde: P é a pressão da câmara de combustão (atm), T é a temperatura da chama (K), o resultado obtido é dado partes por milhão em volume (ppmv). Esta equação se aplica em câmaras de combustão de turbinas aeroderivativas e não é recomendada para turbinas industriais. NOx = 18.1 P1,42 mA0,3 q0,72 (10) onde: P é a pressão da câmara de combustão (atm), mA é fluxo de massa de ar (kg/s), e q é a relação combustível/ar; o resultado obtido é dado em ppm. Essa correlação tem boa aproximação para turbinas utilizando gás na faixa de 1,5 a 34MW. TECNOLOGIAS PARA A REDUÇÃO DE EMISSÕES DE NOx As soluções para a redução do nível de emissões de NOx em turbinas a gás podem ser variadas: injeção de água líquida ou vapor, uso de câmaras de combustão como baixa emissão de NOx, ou tratamento dos gases de combustão, dependendo a escolha final de sua viabilidade técnica e econômica. Em geral, tecnologias que tendem a diminuir as emissões de NOx atuam de forma desfavorável quanto às emissões de monóxido de carbono (CO) e de hidrocarbonetos não queimados (UHC). A figura 2 mostra os problemas que podem ocorrer a partir da escolha de temperaturas muito baixas para a zona primária de uma câmara de combustão: abaixo de 1.600 K, embora as emissões de NOx sejam baixas, ocorre um aumento nas emissões de monóxido de carbono (CO). De forma inversa, acima de 1.800 K o nível de CO seria reduzido, mas os níveis de emissões de NOx seriam altos. Junho • 2000 C&T15.book Page 19 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Fig. 2. Influência da temperatura da zona primária nas emissões de NOx e CO (Chigier, 1981). Injeção de Água ou Vapor na Câmara de Combustão A injeção de água líquida ou vapor na câmara de combustão diminui substancialmente a temperatura de chama na zona primária, conseguindo baixos níveis de emissões de NOx, além de um aumento de trabalho máximo fornecido pela turbina em função do aumento do fluxo de massa. Proporções usuais de injeção de água líquida estão por volta de 50% do fluxo de combustível e na faixa de 100 a 200% do fluxo de combustível para a injeção de vapor. As desvantagens desse tipo de sistema são: a) no caso de injeção de água líquida, há necessidade de se usar água desmineralizada e em quantidade substancial; b) no caso da injeção de vapor, além da vazão necessária, o gerador de vapor deve ter pressão compatível com a pressão da câmara de combustão da turbina; c) pode ocorrer aumento do nível de emissões de monóxido de carbono e de hidrocarbonetos; d) pode haver oscilações da chama, no caso de injeção de água na fase líquida; e) há redução no rendimento térmico da turbina sempre que se usa injeção de água na fase líquida. Na tabela 2 são apresentados níveis de emissões alcançados de NOx em função da quantidade de água líquida ou vapor adicionada na câmara de combustão, e sua influência no aumento da potência e da eficiência da turbina. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 13-22 Câmara de Combustão de Geometria Variável Esse tipo de configuração de câmara de combustão não é nova e possui muitas variantes. Sua utilização em turbinas aeronáuticas é justificada por ser um dos meios de reacendimento em vôo. Esse tipo de câmara não era bem aceito pelos projetistas de turbinas estacionárias em razão das complexidades mecânicas envolvidas. Porém, com a necessidade da redução de emissões, tal tecnologia passou a ser utilizada também em turbinas industriais. O sistema de variação da geometria modula a quantidade de ar necessário de diluição, mantendo a temperatura da zona primária próxima às condições de baixa formação de NO. Quando a turbina trabalha em baixa carga, existe um sistema que desvia parte do ar para a zona de mistura, mantendo a chama controlada. A desvantagem desse sistema reside na complexidade do seu controle, que tende a aumentar custo e peso, bem como reduzir a confiabilidade da operação. Câmara de Combustão em Estágios Esse tipo de sistema é utilizado por vários fabricantes, nele encontrando-se valores de emissões de NOx inferiores a 25 ppmv (base 15% oxigênio) e sem a injeção de água ou vapor. O conceito da combustão em estágios é promover uma distribuição uniforme do fluxo de ar na câmara, alternando o fluxo de combustível para manter a temperatura de combustão constante e em valores adequados a baixas emissões. Um meio de se fazer à injeção de combustível seletiva pode ser pela combinação de injetores de combustível em uma coroa circular, conseguindo-se temperatura da combustão localizada e divida. A desvantagem desse sistema é o resfriamento de reações químicas que acontecem nas extremidades das zonas de combustão, o que pode ocasionar baixa eficiência e aumento na formação de CO e UHC. Em uma típica combustão por estágio, uma relação combustível/ar ao redor de 0.8 no primeiro estágio é usada para alcançar eficiência de combustão alta, baixa emissão de CO e UHC. Já em condições de plena carga, a zona de chama e de mistura são mantidas com uma relação combustível/ar ao redor de 0.6 para minimizar as emissões de óxido nítrico e fumaça. 19 C&T15.book Page 20 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Tab. 2. Emissões NOx em função da quantidade de água injetada (Schorr, 1991). EM MASSA NÍVEL DE NOX (PPMVD) COMBUSTÍVEL PÁROPORÇÃO POTÊNCIA DE SAÍDA GUA / COMBUSTÍVEL 75 42 42 25 25 Óleo leve Gás natural Gás natural Gás natural Gás natural 50% (líquida) 100% (vapor) 140% (vapor) 120% (líquida) 130% (vapor) Turbinas a gás aeronáuticas costumam empregar sistemas radiais ou paralelos de injeção de ar, quando em câmaras anulares. Para as turbinas industriais o sistema utilizado pode ser do tipo série ou axial, em que uma porção do combustível é injetada em uma zona de combustão primária (piloto) e a jusante, em uma zona de combustão principal que opera a baixas relações de combustível/ar, minimizando a formação de fumaça e NOx. Uma das vantagens desse tipo de sistema é o fato de o fluxo de gás quente da zona piloto assegurar alta eficiência de combustão, até mesmo a baixas relações de combustível/ar, além do bom perfil de temperatura radial na saída da câmara. Sua principal desvantagem é a dificuldade de realização da adaptação em algumas turbinas, devido principalmente à adaptação dos injetores de combustível para as duas fases de combustão. Câmara de Combustão Dry Low NOx Combustor O termo “dry low" é usado para indicar a câmara de combustão capaz de alcançar baixas emissões de NOx sem a necessidade da injeção de água ou vapor, através de uma estratégia centrada na mistura prévia entre o combustível e o ar (premix). A rigor, as câmaras de combustão em estágios descritos anteriormente poderiam ser também enquadradas como “dry-low-NOx”. As avaliações realizadas pela Solar Turbines (Lefebvre, 1995) indicam baixos níveis de NOx, ao redor de 12 ppm a 6 bar e 20 ppm a 9 bar, com o CO abaixo de 50 ppm. Tais níveis de concentrações são atingidos a partir da boa mistura do ar com o combustível e em condições operacionais restritas. Para produzir uma câmara de combustão de baixa emissão em uma versão industrial da turbina Rolls Royce RB 211, o combustor anular foi substi- 20 Aumento de 3 % Aumento de 5 % Aumento de 5 % Aumento de 6 % Aumento de 5.5 % EFICIÊNCIA Aumento de 1,8 % Aumento de 3,0 % Aumento de 2,0 % Aumento de 4,0 % Aumento de 3,0 % tuído por nove combustores que realizam uma mistura prévia entre o ar e o combustível. Testes realizados com pressões de no mínimo 20 atm demonstraram a habilidade desta câmara para alcançar simultaneamente baixo NOx e CO em grande faixa de temperatura sem recorrer a geometria variável ou extração de ar. A Asea Brown Boveri desenvolveu um módulo “Premix Cônical Burner” (queimador “EV”) que oferece bom potencial para baixas emissões em uma larga faixa de trabalho. Uma característica importante desse queimador é a estabilização de chama no espaço livre perto da sua saída, podendo utilizar combustíveis gasosos e líquidos em conjunto. Uma combinação de escoamento do ar e injeção tangencial de combustível proporciona uma boa mistura antes da região de chama. Valores de NOx abaixo de 12 ppmv são obtidos, mantendo baixa emissão de CO e UHC. Câmara de Combustão Lean Premix-Prevaporize Combustion Esse conceito de câmara é freqüentemente usado quando se requer níveis muito baixos de emissão utilizando combustíveis líquidos. O combustível é injetado de forma atomizada no fluxo de ar em alta velocidade e direcionado para a zona de combustão. O objetivo desse tipo de projeto é obter a completa evaporação e a melhor mistura possível do combustível e do ar, evitando-se a formação de gotas, além de se ter uma mistura com excesso de ar que reduz as emissões de NOx. Os problemas dessa tecnologia incluem a vaporização incompleta da mistura, risco de auto-ignição, possibilidade de retrocesso da mistura e dificuldade de acendimento. Alguns desse problemas são resolvidos com a inclusão de sistema de combustão por estágio ou geometria variável. Conforme Lefebvre (1995), o “lean premix” tem consi- Junho • 2000 C&T15.book Page 21 Friday, September 12, 2003 9:06 AM derável potencial, obtendo-se valores de emissões de NOx inferiores a 10 ppm, com temperatura de chama de 2.000 K, mas os problemas de mistura e auto-ignição ainda são presentes. Redução Catalítica Seletiva A Redução Catalítica Seletiva (RCS) é uma forma de tratamento dos gases de combustão na saída da turbina. Trata-se de um processo baseado na grande afinidade da amônia (NH3) com o NOx: a amônia é injetada de forma controlada (devido ao seu poder corrosivo) nos gases de combustão antes da entrada no conversor catalítico, local onde se converte seletivamente o NOx em N2 e água. São usados como catalisadores o pentóxido de vanádio (V2O5) ou óxido de titânio (TiO2), devendo o processo ocorrer dentro de uma faixa de temperatura de 285 a 400ºC, o que limita o seu uso em ciclos que possuam sistema de recuperação de energia dos gases de combustão. Outro problema é o controle da injeção de amônia, que não pode ser arrastada com os gases de combustão (a emissão de amônia é ainda pior que a de NOx). Com essa tecnologia é possível atingir níveis extremamente baixos de emissões de NOx. Cohen (1996) cita que se consegue valores inferiores a 10 ppmvd. A National Aeronautics and Space Administration (NASA), visando eliminar NOx proveniente dos propulsores das naves espaciais, desenvolveu um sistema de conversão de óxidos de nitrogênio em nitrato de potássio, matéria-prima utilizada na fabricação de fertilizantes. O sistema é composto de um reservatório que possui uma solução “scrubber” (limpadora), bombeada no topo de uma coluna que absorve dos gases o NOx presente, convertendo-o em ácido nítrico e nitroso, e fluindo junto com a solução para o reservatório. Um sistema controla a adição de peróxido de hidrogênio, que assegura somente a existência de ácidos nítrico e nitroso no tanque. Existe outro sistema que mantém o pH entre 5.0 e 9.0 a partir da adição de hidróxido de potássio, que, ao reagir com o ácido de nítrico, forma o nitrato de potássio. Esse nitrato de potássio aquoso pode ser removido a qualquer momento do reservatório, enquanto a concentração se aproxima do limite de solubilidade de 18%. Esse projeto ainda não foi fabricado em escala industrial, mas pode ser mais uma tecnologia a ser adotada para a diminuição das emissões de NOx e ainda com possibilidade de produzir fertilizante (National Aeronautics Space Administration, 1998). CONSIDERAÇÕES FINAIS E CONCLUSÕES A formação de NOx em turbinas a gás está ligada ao próprio processo de combustão. Os mecanismos de formação de NOx indicam a influência da temperatura na zona primária, da pressão de operação da câmara, das concentrações de oxigênio e nitrogênio e da presença de nitrogênio na composição química do combustível. Assim, as tecnologias existentes de redução de formação de NOx utilizam-se desses parâmetros para conseguir obter uma diminuição das emissões. Atualmente existem tecnologias que atuam preventivamente sobre a formação de NOx, especialmente através de novas concepções de projeto de câmaras de combustão. A alternativa de redução catalítica do NOx deve ser evitada sempre que possível, dado que o emprego de amônia para tal finalidade aumenta os custos e pode ser inconveniente se mal controlada (emissão de amônia para o ambiente). Antes da elaboração de projetos e da instalação de sistemas de potência ou de co-geração empregando turbinas a gás, unicamente preocupados com a maior eficiência, é necessário que se avalie que tipo de câmara de combustão está sendo fornecido e se compare os níveis de emissão, para cada condição de operação, com padrões internacionalmente aceitos. Do ponto de vista legal, é urgente que sejam instituídos limites de emissões de NOx na legislação brasileira, bem como instrumentos que operacionalizem seu controle. Esse tipo de medida certamente incentiva a busca de sistemas mais eficientes do ponto de vista térmico e ambiental. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BATHIE, W. W. Fundamentals of Gas Turbines, 2th edition. U.S.A.: John Wiley & Songs, Inc., 1996. CHIGIER, N. Energy, Combustion and Environment. U.S.A.: McGrall-Hill, 1981. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 13-22 21 C&T15.book Page 22 Friday, September 12, 2003 9:06 AM COHEN, H.; ROGERS, G.F.C. & SARAVANAMUTTOO, H.I.H. 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Taubaté: Vana, 1996. 22 Junho • 2000 C&T15.book Page 23 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Projeto de Construção de Aplicativo Estatístico para Análises Descritivas: Sistema de Análises Descritivas-Siad (parte I) Project for Statistical Applicative Construction to Descriptivies Analysis: descriptivies analysis system – SIAD (part II) ANGELA M. C. JORGE CORRÊA Universidade Metodista de Piracicaba [email protected] FRANCISCO BACCARIN Universidade Metodista de Piracicaba [email protected] VALÉRIA M. D’AREZZO ZILIO Universidade Metodista de Piracicaba [email protected] ARIVALDO MATHIENSEN JR. Universidade Metodista de Piracicaba [email protected] EVELIN GIULIANA LIMA Universidade Metodista de Piracicaba [email protected] HELOISA HELENA SFERRA Universidade Metodista de Piracicaba [email protected] RESUMO – O presente texto relata uma experiência de pesquisa interdisciplinar de iniciação científica envolvendo alunos e professores de estatística e análise e desenvolvimento de sistemas, do curso de Análise de Sistemas, da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Nesse contexto, desenvolveu-se um projeto que consistiu em construção, teste e validação de um aplicativo estatístico para análises descritivas denominado Sistema de Análises Descritivas (SIAD). Trata-se de aplicativo destinado a auxiliar usuários de diferentes áreas do conhecimento que necessitem de ferramentas computacionais para o desenvolvimento de metodologias da estatística descritiva. O objetivo central do estudo foi a construção de um software compacto e de fácil utilização, acompanhado de documentação e recursos necessários ao entendimento e à operacionalização do aplicativo. Para a realização do projeto aplicou-se uma combinação das metodologias Estruturada e Orientada a Objetos, visto que a linguagem escolhida para seu desenvolvimento, Borland Delphi 3.0, oferece recursos de programação orientada a objetos e eventos. O resultado do estudo é o software SIAD, composto de sete módulos: REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 23-32 23 C&T15.book Page 24 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Entrada de Dados (ou módulo básico do sistema), Box-Plot, Correlação e Regressão Linear Simples, Gráficos, Índices ou Medidas, Tabelas de Freqüências e Teste Qui-Quadrado. Também foi criado um site para socialização do aplicativo. Palavras-chave: ESTATÍSTICA DESCRITIVA – APLICATIVO ESTATÍSTICO – ANÁLISE DE SISTEMAS – ESTATÍSTICA. Abstract – The present paper reports an experience of scientific initiation multisubject research, involving students and professors of System and Development Analysis as well as Statistics, from the course of System Analysis in the Methodist University of Piracicaba (UNIMEP). In this context, a project was developed, consisting of the making, testing and validating of the statistics software named Descriptive System Analysis (SIAD). This concerns of a software meant to help users from different areas of knowledge, who need computer tools for the development of metodologies in Descriptive Statistics. The central object of this study was the making of a compact and user–friendly software, attached with documentation and the necessary tools to its understanding and use. For the accomplishment of the project, a combination of the Structured and Object Oriented Methodologies was applied, as the language chosen for its development, Borland Delphi 3.0, offers object and event oriented programming resources. The result of the study is the SIAD software, which consists of seven modules: data entry (or basic module of system), Box-Plot, Correlation and Simple Linear Regression, Graphs, Index or Measures, Frequency Tables and Qui-Square Test. A site for the socialization of the software was also created. Keywords: DESCRIPTIVE STATISTICS – STATISTICAL SOFTWARE – SYSTEM ANALYSIS STATISTICS. INTRODUÇÃO A nálises Estatísticas Descritivas são parte da metodologia científica de pesquisas em diferentes áreas do conhecimento. Com a integração dos recursos da informática aos métodos estatísticos, essas análises tornam-se mais ágeis e seguras, e podem ser desenvolvidas com apoio de vários aplicativos estatísticos. Nesse âmbito, considerando ser de interesse de pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento a utilização de um aplicativo simples e de fácil operacionalização, destinado a apoiar análises empíricas de dados, propôsse a construção do Sistema de Análises Descritivas (SIAD), através da seqüência de dois projetos de iniciação científica, com apoio do CNPq e da UNIMEP. O primeiro deles teve por objetivo projetar o SIAD, enquanto o segundo, aqui relatado, destinou-se à construção do software.1 Tal aplicativo tem por objetivo atender às etapas do método estatístico descritivo, desde o planejamento da pesquisa de campo até a fase de análise, bem como permitir a realização de testes não-paramétricos, como o teste do QuiQuadrado. A construção do software foi realizada em conformidade com as normas técnicas da área e necessitou de conhecimentos integrados de várias disciplinas do curso de Análise de Sistemas. Com1 Além dos autores do artigo, participou também desse projeto o aluno bolsista Alex de Almeida Neves. 24 plementarmente, o projeto possibilitou ao aluno bolsista de iniciação científica maior aprofundamento nas áreas de estatística e análise e desenvolvimento de sistemas. O estudo respondeu, ainda, pela elaboração da documentação (como manual do usuário, help on-line de como utilizar o sistema e help on-line de tópicos estatísticos) necessária à utilização adequada do SIAD, disponibilizando ao futuro usuário do software os recursos necessários ao entendimento e utilização do aplicativo. Acrescenta-se que o presente artigo é evolução de artigo publicado anteriormente na Revista de Ciência & Tecnologia número 13, vol. 7. METODOLOGIA O projeto foi dividido em várias fases de atividades. Inicialmente foi feito um estudo detalhado das definições do projeto do SIAD, visando a familiarização dos alunos bolsistas com o software a ser desenvolvido. Os conceitos estatísticos necessários foram pesquisados e definidos com base em autores como Fonseca & Martins (1993), Toledo & Ovalle (1982), Vieira & Hoffmann (1991) e Bussab & Morettin (1991). Após essa fase, passou-se à definição das técnicas e processos metodológicos necessários à construção do sistema, definindo-se que a linguagem a ser utilizada seria a Borland Delphi 3.0 e o banco de dados seria o Paradox, por este ser nativo do Delphi. Também adotou-se a Metodologia Estruturada, que, segundo Gane & Sarson (1983), se constitui de um conjunto de técnicas e Junho • 2000 C&T15.book Page 25 Friday, September 12, 2003 9:06 AM ferramentas derivadas da programação visual e do projeto estruturado. Destaca-se que o enfoque principal desta metodologia é a construção de um modelo lógico do sistema, através da utilização de técnicas gráficas que fornecem uma visão geral dele e de como suas partes se relacionam, para atender às necessidades do usuário. Além da Metodologia Estruturada, foi necessário também a utilização de conceitos relacionados à Metodologia Orientada a Objetos, cuja principal característica é a criação de classes (Martin, 1994). Registra-se que na Programação Orientada a Objetos é possível reutilizar códigos já prontos, agrupando os dados e os procedimentos/ funções que farão uso desses dados, tratando-os como um objeto único. Outra característica importante a destacar é a possibilidade de criar objetos derivados de outros, ou seja, criar um novo objeto herdando atributos e ações de outro (Alves, 1997). Para a programação, também adotou-se a Programação Orientada a Eventos, na qual os códigos executáveis encontram-se em subprogramas ou funções, sendo estes acionados por eventos (como, por exemplo, um clique do mouse) ou ainda chamados por outras rotinas acionadas por um evento. Em seguida, passou-se à codificação do sistema. Inicialmente, criou-se a base de dados necessária à sua manutenção, utilizando a ferramenta Borland Database Desktop7, disponível no Delphi, conforme indicado por Cantù (1997), que permite manipulação de tabelas de várias bases de dados, como dBase, Paradox e Access, entre outras. Considerando as especificações de interface do software para ambiente Windows, definiu-se uma estrutura de menu principal para o SIAD, contendo uma barra de menu suspenso com os seguintes itens: Arquivo, Gerar, Consultar e Ajuda. Também foram definidos vários submenus, com o objetivo de fornecer melhor visualização ao usuário, além de várias teclas de atalho para facilitar sua utilização, caso o usuário faça acesso ao aplicativo através do teclado. Após a elaboração e construção dos menus, passou-se à construção das interfaces de entrada de dados, necessárias à manutenção de uma pesquisa. Para isso, foram criados vários formulários, que fazem a interação do usuário com o sistema, obtendo-se assim os dados necessários a uma pesquisa, segundo Osier, Grobman & Batson (1997). Em todo desenvolvimento do sistema utilizou-se a abordagem Top-Down que, segundo Page- REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 23-32 Jones (1988), consiste em implementar-se primeiramente o módulo superior do sistema com seus respectivos módulos subordinados, até que se atinjam todos os módulos inferiores e o sistema esteja completo. Salienta-se que, nessa abordagem, de acordo com DeMarco (1989), as interfaces críticas são testadas em primeiro lugar e o sistema, mesmo incompleto, fornece uma idéia geral de como ele será. Paralelamente à implementação, foram aplicados testes com a finalidade de garantir que os programas se adaptassem aos requisitos do projeto e funcionassem corretamente. Para isso, adotou-se a abordagem de Martin & McClure (1991), que consiste em selecionar um conjunto de dados de entrada com os quais se executará o programa; determinar a saída que se espera ser produzida; executar o programa e analisar os resultados produzidos. Destaca-se que esse processo é realizado em quatro principais etapas. Na primeira delas efetua-se o Teste de Unidade, testando cada função, subrotina ou módulo como sendo uma unidade, objetivando verificar se as especificações do projeto estão corretamente implementadas pelo código; a estrutura básica do módulo através dos testes mais simples possíveis; o desempenho do módulo através de dados de entrada válidos; o desempenho do módulo através de dados de entrada inválidos bem como a correção de cada laço, especialmente a correção dos términos de laço. Na segunda etapa aplica-se o Teste de Integração: realizado em nível de subsistema, testa a integração entre os seus módulos. Quando um módulo está funcionando adequadamente dentro da estrutura do programa, acrescenta-se outro módulo e o teste continua. Repete-se esse processo até que todos os módulos do sistema tenham sido integrados e testados. Na terceira etapa desenvolve-se o Teste de Sistema, que verifica se o sistema inteiro está funcionando corretamente, a fim de descobrir implementações incorretas das especificações do projeto. Nesse teste, os dados de entrada devem testar as partes mais importantes e as mais freqüentemente usadas do programa; representar o uso normal ou esperado do programa; revelar erros sobre condições de processamento extremas ou críticas. Finalmente, na quarta etapa, aplica-se o Teste de Aceitação, que verifica se o sistema atende aos requisitos do usuário. Neste, o usuário opera o software com dados reais, não necessitando conhecer a estrutura interna do sistema. 25 C&T15.book Page 26 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Fig. 1. Tela em que o usuário cadastra os dados coletados para cada amostra. RESULTADOS O principal resultado da pesquisa foi o desenvolvimento de um conjunto de atividades relacionadas à codificação, teste e validação do software SIAD, que atende todas as fases do método estatístico descritivo, desde o planejamento da pesquisa de campo e coleta de amostras aleatórias, sistemáticas ou estratificadas, até a fase de análise, utilizando metodologias estatísticas descritivas e permitindo a realização de testes não-paramétricos, como o Qui-Quadrado. O módulo básico do sistema oferece ao usuário opção de cadastrar pesquisas e tipos de amostra, definir a estrutura do arquivo de dados amostrais, gerar e listar os números da amostra, cadastrar os dados das amostras, bem como exportar os dados amostrais para o Microsoft Excel e Microsoft Word e efetuar cópia da pesquisa, para utilizá-la em outro computador. Na figura 1 apresenta-se um exemplo de tela para cadastro de dados, considerando-se uma amostra estratificada aleatória (referente à pesquisa realizada no segundo semestre de 1997 com os alunos do curso diurno de Análise de Sistemas, da UNIMEP). Além do módulo básico, o SIAD possui outros seis módulos: Box-Plot, Correlação e Regressão Linear Simples, Gráficos, Índices ou Medidas e 26 Qui-Quadrado. Apresenta-se resumidamente, a seguir, cada um desses módulos. O Box-Plot, também chamado de “Gráfico de Caixa”, é um esquema gráfico para análise exploratória de dados, muito útil no estudo da forma de uma distribuição, conforme Bussab & Morettin (1991). Sua construção é baseada em cinco pontos (mediana, quartis 1 e 3 e valores extremos). Além de indicar claramente a forma da distribuição (se simétrica ou assimétrica), permite detectar a existência (ou não) de valores discrepantes, a partir do cálculo dos limites (inferiores e superiores) de discrepância. O módulo construído no SIAD apresenta para o usuário o desenho do Box-Plot, selecionada a variável e o(s) estrato(s) desejado(s). O sistema também exibe alguns cálculos para auxiliar o usuário na interpretação do resultado: menor e maior valor da amostra, mediana, quartis 1 e 3, limite inferior e superior de discrepância e, quando houver, valores discrepantes. Na figura 2 apresenta-se o Box-Plot referente à variável “idade” de uma amostra de 70 estudantes do curso diurno de Análise de Sistemas, da UNIMEP, no segundo semestre de 1997. Pelo esquema gráfico, observa-se que a amostra apresenta assimetria positiva e possui duas idades discrepantes. Junho • 2000 C&T15.book Page 27 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Fig. 2. Tela de exibição do Box-Plot referente à uma amostra da variável “idade”. Fig. 3. Diagrama de Dispersão gerado a partir de uma amostra de 22 pares (X,Y), em que X consiste em gastos com propaganda (em u.m.) e Y, quantidade vendida. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 23-32 27 C&T15.book Page 28 Friday, September 12, 2003 9:06 AM O módulo Correlação e Regressão Linear, através do cálculo do coeficiente de correlação linear de Pearson, permite quantificar o relacionamento linear entre duas variáveis de interesse. A idéia gráfica desse relacionamento (ou variação conjunta) entre duas variáveis é normalmente expressa através de um gráfico simples, chamado Diagrama de Dispersão. Já o modelo de relacionamento linear entre variáveis de interesse pode ser obtido através da estimação de uma reta pelo método de mínimos quadrados, e consiste na metodologia estatística de regressão linear simples (ver, entre outros, Iemma, 1992). O módulo Correlação e Regressão Linear Simples, do SIAD, apresenta gráficos e índices que permitem subsidiar estudos que necessitem de análises de correlação e modelagem linear simples. Para tanto, apresenta ao usuário cálculos das estimativas dos coeficientes da reta de mínimos quadrados, coeficientes de correlação e determinação, valor das somas dos quadrados de erros totais, erros explicados pela regressão e resíduos, além da estatística F, diagrama de dispersão e gráfico de resíduos. Ao exibir o diagrama de dispersão, o usuário pode optar pela apresentação da linha de ten- dência (equação da reta) e do coeficiente de determinação do modelo. Na figura 3, apresenta-se o diagrama de dispersão, associado à amostra de 22 pares de valores (X,Y), em que X consiste nos gastos com propaganda, em unidade monetária (u.m.), e Y, a quantidade vendida, extraído de Corrêa (1999). Também se registra a estimativa do modelo linear ajustado, e o valor do coeficiente de determinação. Segundo Vieira & Hoffmann (1991), os gráficos de Barras e Colunas são freqüentemente utilizados para apresentar séries cronológicas, geográficas e categóricas, embora possam representar qualquer série estatística. Os Gráficos de Setores (pizza) são utilizados para comparar proporções: representam um fato e todas as partes em que ele se subdivide. Os Gráficos de Linhas servem para representar séries cronológicas, sendo o tempo colocado no eixo das abscissas e os valores observados no eixo das ordenadas, expressando muito bem a tendência de crescimento de uma variável no tempo. Por outro lado, os Histogramas e Polígonos de Freqüências devem ser utilizados para representar as distribuições de freqüências de variáveis quantitativas, indicando a forma da distribuição dos dados. Fig. 4. Gráfico de Colunas Sobrepostas com uma variável qualitativa e quatro estratos gerado pelo SIAD, ilustrando a distribuição dos alunos do curso diurno de Análise de Sistemas da UNIMEP, no segundo semestre de 1997, conforme o sexo e o semestre. 28 Junho • 2000 C&T15.book Page 29 Friday, September 12, 2003 9:06 AM O módulo “Gráficos”, no SIAD, permite ao usuário gerar gráficos para variáveis quantitativas e qualitativas, a partir de dados brutos ou tabelados. As opções oferecidas são dos seguintes tipos de gráficos: área, barras, colunas, linhas, pizza e pontos, no caso de variáveis qualitativas, e histogramas e polígono de freqüências, para variáveis quantitativas. Ainda possibilita copiar o gráfico do SIAD para a área de transferência do Windows, permitindo, então, transferi-lo para outros aplicativos (como Word, Excel, PowerPoint etc.). Esse módulo ainda disponibiliza ao usuário a opção de formatar o gráfico, ou seja, suas paredes, eixos e fundo, entre outros atributos. Na figura 4, apresenta-se um gráfico de colunas sobrepostas, ilustrando a distribuição dos alunos do curso diurno de Análise de Sistemas da UNIMEP, segundo o sexo e o semestre, para o segundo semestre de 1997. Segundo Toledo & Ovale (1982), a descrição de um conjunto de dados quantitativos pode ser feita através de índices ou medidas. Esses índices são números resumos, que permitem caracterizar a tendência central (ou posição) dos valores, bem como a variabilidade, assimetria e curtose. Essa descrição pode ser complementada através do cálculo de separatrizes (como quartis, decis e percentis). O módulo Índices ou Medidas do SIAD calcula esses índices para a amostra (simples, por estratos e no total), ou seja, gera medidas de posição (como média, mediana e moda), de variabilidade (como variância, desvio padrão e coeficiente de variação), coeficiente de assimetria (baseado no 3.º momento em relação à média), coeficiente de curtose (com base no 4.º momento em relação à média), separatrizes e outras médias (como ponderada e geométrica). A figura 5 ilustra parte desses índices, considerando a variável “Idade”, por estratos e no total da amostra de alunos do curso diurno de Análise de Sistemas da UNIMEP, no segundo semestre de 1997. O módulo Tabelas de Freqüências permite ao usuário gerar tabelas simples ou de dupla entrada, tanto para variáveis qualitativas como quantitativas. No caso de variáveis quantitativas, o usuário pode optar por gerar a tabela com os dados agrupados (ou não) em classes. O usuário ainda pode inserir Fonte, Notas de Rodapé e Chamadas, gerar gráficos, calcular índices e REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 23-32 realizar o teste Qui-Quadrado, a partir das tabelas já geradas. Os procedimentos estatísticos (normas e orientações) seguem Vieira & Hoffmann (1991). A figura 6 apresenta a tabela de freqüências relativa à amostra de 70 alunos do curso diurno de Análise de Sistemas da UNIMEP, conforme o sexo e o semestre cursado pelo aluno, no segundo semestre de 1997. Uma tabela do SIAD, quando gerada para uma variável quantitativa, pode apresentar a freqüência observada (fj), a freqüência relativa ao total da coluna (fr Coluna), a freqüência relativa ao total da linha (fr Linha) e a freqüência relativa ao total geral (fr Total Geral). No caso de variáveis quantitativas, pode apresentar a freqüência observada da classe (fj), a freqüência relativa (fr), o ponto médio da referida classe (xj), bem como as freqüências acumuladas diretas (Fj e Frj) e inversas (Fj* e Frj*). Segundo De Francisco (1994), o Qui-Quadrado é uma medida de extensão que compara, em uma relação finita, as freqüências observadas com as freqüências esperadas. Dependendo do valor obtido nessa comparação, é possível afirmar, com certo nível de confiança, se as freqüências observadas são compatíveis com as freqüências esperadas. Ao tomar essa decisão, está se efetuando um teste de Aderência, a partir de uma tabela de freqüências simples. Além desse teste simples, é possível também lançar mão do Qui-Quadrado para verificar a independência entre fatores ou atributos de classificação, a partir de uma tabela de dupla entrada, chamada de tabela de contingência. Esse último módulo do SIAD permite ao usuário realizar o teste Qui-Quadrado para tabelas de entrada simples e de contingência. Para sua realização, o usuário deverá escolher o nível de significância desejado. Em tabelas de entrada simples (para os testes de aderência), o usuário deverá fornecer as freqüências esperadas. Para testes de independência, a partir de tabelas de contingência, as freqüências esperadas são automaticamente efetuadas pelo SIAD. Na figura 7 apresenta-se a tela com os resultados de um teste Qui-Quadrado sobre a opinião de donas-de-casa a respeito de um novo detergente lançado no mercado (De Francisco, 1994). 29 C&T15.book Page 30 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Fig. 5. Índices gerados para a variável idade, obtida através de pesquisa realizada junto aos alunos do curso diurno de Análise de Sistemas da UNIMEP, no segundo semestre de 1997. Fig. 6. Tabela gerada pelo SIAD, referente a uma amostra de 70 alunos do curso diurno de Análise de Sistemas da UNIMEP, durante o segundo semestre de 1997, segundo o sexo e o semestre cursado pelo aluno. 30 Junho • 2000 C&T15.book Page 31 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Fig. 7. Resultado do teste do Qui-Quadrado aplicado à opinião de donas-de-casa em relação a um novo detergente lançado no mercado. pronto e disponível para utilização, oferecendo todos os recursos necessários para seu entendimento e operacionalização. Acredita-se que, por ser um aplicativo para uso exclusivo no apoio a análises descritivas, poderá ser de grande utilização por pesquisadores de diferentes áreas do saber, que necessitem de auxílio estatístico-computacional de fácil operacionalização. Fig. 8. Tela com os tópicos referentes à ajuda de utilização do SIAD. Finalizando a apresentação dos resultados, registra-se, adicionalmente, que o sistema conta também com o Manual do Usuário e help on-line de como utilizar o sistema (sendo este contextual, ou seja, em qualquer ponto do programa, o usuário pode teclar F1, e o sistema apresentará uma ajuda sobre o contexto em que ele se encontra). A figura 8 ilustra a tela de conteúdo da ajuda de utilização do SIAD (nela são apresentados todos os tópicos da ajuda, para que o usuário escolha o item que deseja visualizar). O sistema ainda disponibiliza uma ajuda sobre Tópicos Estatísticos, no qual o usuário irá encontrar definições e exemplos para cada medida calculada pelo SIAD. A figura 9 apresenta uma tela de conteúdo da ajuda de tópicos estatísticos (nela são apresentados todos os tópicos dessa ajuda, para que o usuário escolha o assunto desejado). Fig. 9. Tela com os tópicos da ajuda de estatística. CONCLUSÃO O principal resultado do projeto de iniciação científica aqui relatado foi a elaboração do software denominado SIAD. Tal aplicativo encontra-se REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 23-32 31 C&T15.book Page 32 Friday, September 12, 2003 9:06 AM REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, W.P. Delphi 3.0 – Programação Visual para Windows. São Paulo: Érica, 1997. BUSSAB, W.O. & MORETTIN, P.A. Estatística Básica. 4.ª ed., São Paulo: Atual, 1991. CANTÙ, M. Dominando o Delphi 3. Trad. Álvaro Antunes & Marcos Jorge, São Paulo: Makron Books do Brasil, 1997. CORRÊA, A.M.C.J. Roteiros para Análises Descritivas com Auxílio do Excel Versão 7.0. Grupo de Área de Métodos Quantitativos, Piracicaba: UNIMEP, 1999. CORRÊA, A.M.C.J. et al. Projeto para Construção de Aplicativo Estatístico para Análises Descritivas: Sistema de Análise Descritivas (SIAD). Revista de Ciência & Tecnologia, Piracicaba: Editora UNIMEP, 7 (13): 111-117, 1999. DeMARCO, T. Análise Estruturada e Especificações. 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O presente trabalho apresenta conceitos básicos e trabalhos experimentais envolvidos na ciência dos materiais absorvedores de radiação eletromagnética, juntamente com informações sobre os materiais primários empregados no seu processamento e as metodologias de caracterização baseadas nas técnicas do Arco NRL (Naval Research Laboratory) e RCS (Radar Cross Section). Palavras-chave: MATERIAIS ABSORVEDORES DE RADIAÇÃO – BLINDAGEM ELETROMAGNÉTICA – ABSORVEDORES. ABSTRACT – Radar absorbing materials (RAM) are obtained from polymeric matrices added with specific additives or using hybrid structures in composite materials. Nowadays, these materials are widely used in various fields, including space, aircraft, electronics, medical and telecommunications. The purpose of the present work is to show a review of the basic concepts concerning radar absorbing materials, giving information about raw materials used in its processing and the characterization methodologies based in NRL (Naval Research Laboratory) arc and RCS (Radar Cross Section) techniques. Keywords: RADAR ABSORBING MATERIALS – ELECTROMAGNETIC SHIELDING – ABSORBERS. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 33-42 33 C&T15.book Page 34 Friday, September 12, 2003 9:06 AM INTRODUÇÃO Materiais Absorvedores de Radiação D e maneira simplificada pode-se dizer que os materiais absorvedores de radiação (Radar Absorbing Materials-RAM) promovem a troca de energia da radiação eletromagnética pela energia térmica, devido às características intrínsecas de determinados componentes, podendo-se citar alguns tipos de materiais carbonosos, polímeros condutores e ferritas. Esses materiais, quando atingidos por uma onda eletromagnética, têm a estrutura molecular excitada e a energia incidente é convertida em calor (Interavia, 1998). Exemplos de uso bem sucedido desses materiais podem ser encontrados na aeronáutica clássica, na blindagem eletromagnética de instrumentos de aeronaves (Stonier, 1991; e International Encyclopaedia of Composites, 1991), na fabricação de artefatos utilizados na área de telecomunicações, podendo-se citar a proteção eletromagnética em edifícios e câmaras anecóicas, devido à interferência de sinais em geral, em sistemas de cabeamento de controle de ruídos espúrios e em programas de vigilância; na indústria de eletroeletrônicos, na segurança de fornos de microondas; e no monitoramento inteligente de camuflagem e na blindagem de equipamentos utilizados na área médica (Jafellicci Jr., 1997). Os RAM podem ser divididos em materiais que absorvem os campos magnético e elétrico e a combinação de ambos, denominados materiais absorvedores. Um critério para a seleção de um material absorvedor é, em especial, a localização da região natural de ressonância magnética dos aditivos a ele incorporados, por exemplo, as ferritas (International Encyclopaedia of Composites, 1991; Ufimtsev, 1996; Hippel, 1954; Sattar, 1996). A eficiência na absorção do sinal emitido por uma determinada fonte pode ser avaliada pela atenuação da reflexão da radiação, promovida pelo material ou objeto em questão. A medida considera não só a influência do material, mas também a geometria do objeto, denominada de RCS (Radar Cross Section), utilizada para descrever o tamanho virtual do objeto detectado pelo receptor de sinal na faixa de freqüência do emissor de ondas (Halliday & Resnick, 1984). 34 A transparência ou a reflexão de uma estrutura submetida a uma determinada radiação incidente são funções não apenas da geometria da peça, mas também das propriedades do material, particularmente de suas propriedades dielétricas ε (a permissividade, também chamada de constante dielétrica) e de suas propriedades magnéticas µ (a permeabilidade magnética) (Afsar et al., 1986; Emerson, 1973). Sendo assim, alguns materiais podem ser usados para absorver alta porcentagem da radiação incidente ou para atenuar parte dela ou, ainda, serem transparentes a essa radiação. As duas categorias de absorvedores (dielétricos e magnéticos) podem ser obtidas por: • absorvedores dielétricos: a partir da adição de pequenas partículas de carbono, grafite ou partículas de metal pulverizadas em uma matriz polimérica; e • absorvedores magnéticos: pela adição de aditivos com características magnéticas, por exemplo, ferritas, conhecendo-se a sua curva de histerese magnética (Afsar et al., 1986; Verwey & Helmann, 1947). Absorvedores Magnéticos Os absorvedores magnéticos são constituídos geralmente de polímeros, como: elastômeros à base de poliisopreno, neopreno, nitrilas, silicones e/ou polímeros poliuretânicos, fenólicos ou epoxídicos, os quais são aditados com materiais com características magnéticas, por exemplo as ferritas. Esses absorvedores podem ter em sua formulação, além da ferrita, partículas de carbono e/ou polímeros condutores. Pelo controle das propriedades magnéticas e espessura do material, o polímero aditado pode ser projetado para alcançar altos valores de permeabilidade. Isso envolve a seleção apropriada do aditivo, de sua concentração e distribuição na matriz do RAM, de modo a favorecer um alto fator de perda (tan δ). Os absorvedores magnéticos são, normalmente, menos espessos, apresentando em alguns casos 1/10 da espessura dos absorvedores dielétricos. No entanto, as suas características de absorção são equivalentes às dos absorvedores dielétricos (International Encyclopaedia of Composites, 1991). Junho • 2000 C&T15.book Page 35 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Ferritas DE DIPOLOS MAGNÉTICOS Paramagnético Ferromagnético Antiferromagnético Ferrimagnético ↑ ↑ ↑ ↑ ↑ REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 33-42 Tab. 1. Tipos de magnetismo classificados conforme a orientação dos momentos magnéticos dos materiais. ORIENTAÇÃO DOS MOMENTOS ORDENAMENTO ↑ ↑ Os materiais cerâmicos incluem uma categoria ampla de compostos, empregados nas mais diversas áreas e com finalidades específicas, podendo-se citar os piezoelétricos, os ferroelétricos, os isolantes e os supercondutores (Buchanan, 1991). As ferritas são materiais cerâmicos, contendo ferro, oxigênio e outro metal, apresentando características magnéticas, com fórmula química tipo M2+[Fe23+]O4 e condutividade elétrica relativamente alta. Esses materiais apresentam curva de histerese quando submetidos a um campo magnético externo. As ferritas, por absorverem ondas eletromagnéticas, têm atraído muito a atenção nas últimas décadas como aditivo no processamento dos RAM (Afsar et al., 1986; Buchanan, 1991; Sattar, 1996). O entendimento das propriedades de magnetismo em um material pode ser resumido na combinação de três fatores (Marques & Varanda, 1998): • a origem do magnetismo, ou seja, a existência dos momentos magnéticos no material; • a existência de interações entre os momentos magnéticos e o entendimento dessas interações; • a mecânica estatística, necessária para o entendimento das propriedades macroscópicas mensuráveis em laboratório. Quando um campo magnético externo é aplicado em um material com propriedades magnéticas, algumas de suas regiões alinham os seus momentos magnéticos atômicos paralelamente em uma única direção, constituindo, assim, os domínios magnéticos do material. Esses domínios crescem por influência de outros vizinhos, podendo sofrer uma rotação no sentido mais fácil para se alinharem com o campo magnético aplicado. Dessa forma, as propriedades magnéticas em referência são resultantes do ordenamento dos momentos de dipolo magnéticos das espécies que constituem o material. Então, o momento magnético dos átomos deve-se ao momento orbital dos elétrons em torno do núcleo e ao momento de rotação (spin) do elétron em torno de seu próprio eixo. A ordenação dos momentos magnéticos fornece os tipos de magnetismo apresentados na tabela 1 (Marques & Varanda, 1998). As propriedades magnéticas das ferritas estão diretamente relacionadas com os elétrons da camada incompleta dos cátions do metal. Nessas camadas, os números quânticos orbital e de spin dos elétrons desemparelhados combinam com os momentos magnéticos dos demais elétrons (Buchanan, 1991). A soma desses momentos dá o momento magnético do átomo (Cho; Kang & Oh, 1996). Nas ferritas ferrimagnéticas o alinhamento dos momentos magnéticos antiparalelos, com números desiguais de spins nas duas direções, é que fornece o momento magnético resultante diferente de zero. Nos materiais ferromagnéticos, os momentos magnéticos dos elétrons constituintes estão espontaneamente alinhados em paralelo (vide tab. 1) e o momento magnético resultante se torna diferente de zero (Sattar, 1996). Em alguns casos, os momentos magnéticos estão dispostos antiparalelamente, levando a um momento magnético integral nulo. Esses materiais são chamados antiferromagnéticos, como por exemplo, o MnO2 (Verwey & Helmann, 1947). ↑ ↑ ↑ ↑ ↑ ↑ ↓ ↑ ↓ ↑ ↓ ↑ ↑↓↑↓↑↓ Todos os materiais ferro e ferrimagnéticos exibem o efeito de histerese, entre um campo magnético aplicado (H) e a indução magnética (B) do material apresentando, consequentemente, propriedades associadas a esse efeito, como permeabilidade magnética, saturação de magnetização e forças coercitivas (Buchanan, 1991). Estruturas das Ferritas As ferritas podem ser classificadas em: • estrutura tipo granada, com fórmula geral 5Fe2O3:3 Me2O3, onde Me2O3 = óxido metálico de terras raras; • estrutura tipo espinélio, com fórmula geral 1Fe2O3:1MeO, onde MeO = óxido de metal de transição; • estrutura tipo hexagonal, com fórmula geral 6Fe2O3:1 MeO, onde MeO = óxido de metal divalente, grupo II A da Tabela Periódica (Buchanan, 1991). 35 C&T15.book Page 36 Friday, September 12, 2003 9:06 AM As ferritas com fórmula geral MFe2O4 (onde M = Co, Ni, Mn etc.) são do tipo espinélio, por analogia à estrutura do mineral espinélio (MgAl2O4). Esse tipo de estrutura possibilita uma distribuição dos cátions no retículo cristalino, em sítios tetraédricos e octaédricos, cujos vértices são ocupados por átomos de oxigênio formando um arranjo cúbico de face centrada. Nessa estrutura, os íons metálicos ocupam os interstícios entre os átomos de oxigênio (Verwey & Helmann, 1947). Esses sítios podem ser tetraédricos (sítio A), devido ao cátion metálico estar localizado no centro de um tetraedro, e octaédrico (sítio B), quando o cátion metálico localiza-se no centro de um octaedro. As propriedades físico-químicas dos espinélios não dependem somente do tipo de cátion, mas também da distribuição desses nos sítios disponíveis no retículo cristalino. Essa estrutura influencia as propriedades magnéticas desses materiais, permitindo a sua utilização nas indústrias de cabo telefônico, televisão, transformadores, antenas de rádio, ímãs permanentes em alto-falantes, filtros de microondas etc. As ferritas do tipo espinélio contendo átomos de Zn ou Cd podem apresentar momento magnético máximo, a uma certa concentração desses elementos (Cho; Kang & Oh, 1996). Em função dessas características, as ferritas tipo espinélio são muito utilizadas como aditivos no processamento de RAM, sendo usadas em materiais absorvedores à base de polímeros, como tintas, mantas e espumas absorvedoras de radiação eletromagnética, para faixas de freqüências estreitas e largas (Cho; Kang & Oh, 1996). Negro de Fumo Atualmente, o negro de fumo (NF) tornou-se um dos aditivos mais aceitos comercialmente no processamento de plásticos condutivos e borrachas. Existem, basicamente, quatro tipos de negro de fumo, diferenciados em função do processo de fabricação e propriedades específicas. Em aplicações industriais os mais utilizados são os obtidos pela degradação de compostos orgânicos em forno (Engineered Materials Handbook, 1998). O NF é um material carbonoso da classe dos carbonos poliméricos, apresentando estrutura cristalográfica dos planos basais similar à do grafite (Nohara, 1998) e, como tal, intrinsecamente semicondutor (Dias, 1998). Tab. 2. Propriedades elétricas típicas de matrizes poliméricas (International Encyclopaedia of Composites, 1991). CONSTANTE DIELÉTRICA, FATOR DE MATRIZES POLIMÉRICAS ε′ / ε0 PERDA , TAN δ Utilizadas em Compósitos Convencionais Poliéster 2,7-3,2 Epóxi 3,0-3,4 Cianato de éster 2,7-3,2 Utilizadas em Compósitos Para Uso em Alta Temperatura Fenólicas 3,1-3,5 Polimidas 2,7-3,2 Silicone 2,8-2,9 Polieteramida (PEI) 3,1 Utilizadas em Compósitos Termoplásticos Policarbonato (LEXAN) (G.E.) 2,5 PPO (NORYL) (G.E.) 2,6 Polisulfona (PS) 3,1 Polietersulfona (PES) 3,5 Polisulfeto de Fenileno (PPS) 3,0 Teflon (E.I.Dupon) 2,1 0,005-0,020 0,010-0,030 0,004-0,010 0,030-0,037 0,005-0,008 0,002-0,006 0,004 0,0006 0,0009 0,003 0,003 0,002 0,0004 Dados para freqüências de 10 GHz a 20 oC 36 Junho • 2000 C&T15.book Page 37 Friday, September 12, 2003 9:06 AM A condutividade elétrica desejada de um material dopado com NF é função das propriedades físico-químicas desse aditivo (Cabot Co., 1998). A seleção apropriada do tipo de NF condutor a ser utilizado como aditivo no processamento de um RAM é crítica. Pois isso depende de parâmetros como incorporação desse aditivo na matriz polimérica, condutividade, processabilidade, dispersão e custo (Ruvolo Filho, 1998; Fazenda, 1995a, 1995b). O fluxo de elétrons em uma mistura de negro de fumo e matriz polimérica é alcançado quando o NF forma uma rede condutiva na massa polimérica. O fluxo de elétrons ocorre quando as partículas de NF, que se encontram agregadas, permanecem em contato ou separadas por distâncias muito pequenas. Esse fenômeno é, em geral, função da área superficial, da estrutura e dos tipos de partículas (pó ou grãos). A área superficial caracteriza o tamanho da partícula e seu grau de microporosidade (Cabot Co., 1998). Altos valores de área superficial levam a um maior número de agregados por unidade de peso, resultando em distâncias interagregados menores, tornando as amostras mais condutivas eletricamente, a uma dada carga (Rodriguez, 1989). Desse modo, a quantidade de negro de fumo necessária para alterar a condutividade elétrica de materiais é, geralmente, pequena (Berins, 1991; Johnson, 1992). Esse tipo de carbono na área de absorvedores de ondas eletromagnéticas é bastante utilizado por suas características físicas, como área superficial e condutividade. Estas características permitem a absorção da radiação incidente, transformando-a em calor. Uma outra vantagem da utilização do NF é o controle do seu grau de pureza química durante o seu processamento, de modo a ser compatível com a utilização, ou seja, isento de íons metálicos que possam promover o aumento da refletividade do material. Absorvedores Dielétricos As superfícies dielétricas normalmente utilizadas no setor aeronáutico, como estruturas absorvedoras de radiação, são em plásticos reforçados, como, por exemplo, laminados de compósitos poliméricos com fibras de carbono (International Encyclopaedia of Composites, 1991). A quantidade de radiação refletida de uma estrutura de plástico REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 33-42 reforçado por fibras é função da constante dielétrica dos materiais na superfície. As constantes dielétricas para materiais não metálicos podem ser observadas na tabela 2. Uma estrutura projetada para absorver energia eletromagnética na faixa de 2 a 20 GHz deve apresentar uma constante dielétrica efetiva em torno do valor unitário. Isso é possível pela incorporação de aditivos específicos ao uso do absorvedor. Uma estrutura com espessura adequada pode ser projetada com características de transmissão máxima pela seleção das constantes dielétricas desejadas dos materiais empregados na sua preparação, para uma determinada banda de freqüência de utilização. Por exemplo, compósitos poliméricos com fibras de quartzo têm boas propriedades dielétricas para uso em artefatos transparentes à radiação (tab. 3) (International Encyclopaedia of Composites, 1991). Tab. 3. Constantes dielétricas de alguns compósitos com fibras de quartzo. CONSTANTE FATOR DE PERDA COMPÓSITOS DIELÉTRICA Quartzo/Epóxi Fibras de Quartzo/ Bismaleimida Fibras de Quartzo/Polimida Fibras de Quartzo/PPS Fibras de Quartzo/ (Astroquartz©-49) 2,8 – 3,7 0,006 – 0,013 4,0 – 4,4 0,006 – 0,012 3,0 – 3,2 3,3 0,004 – 0,008 0,002 3,8 0,0001 – 0,0002 Eficiência dos Absorvedores A eficiência de um material absorvedor ou o quanto um objeto está absorvendo da radiação incidente é medida pela densidade de fluxo de energia do campo espalhado pelo objeto na direção do receptor do radar, comumente chamado de RCS (Halliday & Resnick, 1984; Johnson, 1992; Brugess & Berlekamp, 1988). Um transmissor de radar produz um sinal que se propaga em um padrão esférico, sendo a potência do sinal que atinge um objeto proporcional ao tamanho desse objeto e inversamente proporcional à área da esfera. Como essa área é proporcional ao quadrado de seu raio, a potência do sinal do radar que atinge o objeto é inversamente proporcional ao quadrado da distância do objeto ao radar (Skolnik, 1970; Knott, Schaeffer & Tuley, 1985). 37 C&T15.book Page 38 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Para que haja a detecção do objeto, as ondas do radar devem retornar à antena receptora. Com a finalidade de se obter uma baixa detecção, uma grande porcentagem da energia dos sinais do radar, que atinge o objeto, precisa ser absorvida ou espalhada por sua superfície. A energia que for espalhada deve ser refletida em direções distintas da direção do receptor em que o sinal foi gerado (Johnson, 1992; Brugess & Berlekamp, 1988). O sinal de radiação refletido pelo objeto também se propaga esfericamente. A quantidade de energia que retorna ao radar (o eco do radar) dependerá do tamanho do objeto e de suas características de baixa detecção. Se o objeto possui características de baixa detecção, então o sinal será menor do que realmente é, ou seja, o seu RCS será reduzido (International Encyclopaedia of Composites, 1991). A radiação que atinge a superfície da estrutura de uma aeronave não é apenas refletida, mas também gera uma onda secundária que se propaga paralelamente à superfície. Essa onda se propaga através da superfície da estrutura até encontrar uma descontinuidade, como uma falha, uma junta ou lâmina pontiaguda e nesse ponto será refletida para fora da estrutura. Ondas que se propagam pela superfície podem contribuir significativamente para o aumento do RCS (Skolnik, 1970). No entanto, quando a onda encontra um absorvedor, parte da radiação pode ser dissipada e/ou absorvida dependendo do fator de perda do material. sinal refletido, por exemplo, tem-se o equivalente a 99% de absorção da energia incidente. Tab. 5. Valores de RCS típicos (International Encyclopaedia of Composites, 1991). TIPOS RCS (M2) Jato Jumbo Fortaleza voadora B-17 Bombardeiro B-47 Bombardeiro B-1 Bombardeiro B-1B Grandes aviões de caça Pequenos aviões de caça Pequeno monomotor Homem Pássaro pequeno Inseto Caça F-117A Bombardeiro B-2 (Stonier, 1991) 100 80 40 10 1,0 5-6 2-3 1,0 1,0 0,01 0,00001 0,1 0,01 A tabela 5 mostra o RCS que radares típicos conseguem captar de algumas aeronaves em comparação ao RCS do homem, de pequenos pássaros e insetos (International Encyclopaedia of Composites, 1991). MEDIDAS EXPERIMENTAIS DE REFLETIVIDADE Técnica do Arco NRL Tab. 4. Relação entre atenuação do sinal refletido e porcentagem de energia absorvida (International Encyclopaedia of Composites, 1991). ATENUAÇÃO DA REFLEXÃO, dB % DA ENERGIA ABSORVIDA 0 -3 -10 -15 -20 -30 -40 0 50 90 96,9 99 99,9 99,99 A tabela 4 exemplifica a relação entre a atenuação da reflexão (dB) e a porcentagem de absorção do sinal de radiação. A 20 dB de redução do 38 O arco NRL é um dispositivo concebido no Laboratório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos da América (Naval Research Laboratory), na década de 50, como um meio de avaliar painéis absorvedores. O arco consiste, basicamente, de uma estrutura em madeira que permite fixar um par de antenas transmissora e receptora, tipo corneta, em uma variedade de ângulos. Cada corneta dependendo da freqüência é colocada em um suporte móvel, em qualquer lugar desejado ao longo do arco. A amostra é posicionada sobre um pequeno pedestal no centro da curvatura do arco (Skolnik, 1970). A figura 1 mostra esse dispositivo adaptado e montado junto à câmara anecóica do Centro Técnico Aeroespacial. Junho • 2000 C&T15.book Page 39 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Fig. 1. Esquema do arco de NRL com os acessórios, mostrando a estrutura ao longo da qual um par de cornetas pode ser ajustado e a amostra em teste posicionada no centro do arco. A estrutura do arco é projetada de modo a manter a antena apontada para o centro da amostra em teste. As antenas transmissora e receptora podem ficar próximas, mas a distância mínima deve equivaler à abertura de uma corneta em uso. Como material de referência e apoio da amostra em teste utiliza-se, normalmente, uma placa de metal. No entanto, os tamanhos das placas de referência e da amostra devem ser idênticos. O sistema para as medidas em intervalos de freqüências é constituído por um gerador de sinal com uma saída em amplitude modulada, que transmite uma faixa de freqüência. O sinal refletido é captado pela corneta receptora, sendo visualizado em um analisador de espectros (Knott, Schaeffer & Tuley, 1985). A amostra em teste é posicionada no mesmo local da placa de referência. O resultado do índice de refletividade (atenuação do sinal incidente) será a diferença entre a medida da placa de referência e a da amostra. Se dados de desempenho são necessários em outras freqüências, deve-se ajustar o gerador com as cornetas substituídas adequadamente, conforme a necessidade. A limitação de uso da técnica do arco NRL é a dificuldade para se medir a fase relativa do sinal refletido. Consequentemente, essa técnica é empregada apenas para caracterizar diretamente a amplitude da reflexão (Skolnik, 1970; Knott, Schaeffer & Tuley, 1985). REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 33-42 A figura 2 mostra uma medida de refletividade, com varredura de 8-12 GHz, em um material de referência (placa de alumínio), curva superior, e um absorvedor tipo pintura poliuretânica aditada com ferrita NiZn e NF (curva inferior), mostrando uma absorção média da radiação incidente de 4 dB, correspondendo, segundo a tabela 4, a valores de absorção superiores a 50%. Esse RAM foi processado no Centro Técnico Aeroespacial e caracterizado pelo uso do arco NRL. O teste é realizado próximo à incidência normal da radiação. O material em teste foi projetado para ser utilizado na faixa de 8-12 GHz. Fig. 2. Medida de refletividade de um absorvedor desenvolvido no CTA, na região de 8-12 GHz. 39 C&T15.book Page 40 Friday, September 12, 2003 9:06 AM A figura 3 mostra uma medida de refletividade, com varredura de 8-12 GHz, em um material de referência e um absorvedor tipo manta, com espessura de 3 mm aditada com as mesmas ferritas e negro de fumo, processado no Centro Técnico Aeroespacial, efetuada no mesmo arco NRL. O teste é realizado próximo à incidência normal da radiação. Fig. 4. Esquema do dispositivo utilizado no método RCS (Knott, Schaeffer & Tuley, 1985). Fig. 3. Medida de refletividade de um absorvedor desenvolvido no CTA, na região de 8-12 GHz. A desvantagem dessa técnica é que o suporte não é completamente invisível para a onda eletromagnética, podendo introduzir reflexões indesejáveis. O revestimento do suporte com material tipo espuma com altas perdas é aconselhável para minimizar essas reflexões. Corpos-de-prova para os Ensaios Via Técnicas RCS e Arco NRL Técnica RCS A técnica do arco NRL permite colocar o material a ser caracterizado na condição de campo próximo, cujo valor da refletividade pode ser menor que o medido sob a condição de campo distante. Uma alternativa para simular medidas em campo distante é utilizar uma câmara anecóica, empregando a técnica RCS (Skolnik, 1970). Para uma avaliação sem interferências de absorvedores, a técnica RCS deve ser empregada (Knott, Schaeffer & Tuley, 1985). Esta técnica requer um painel de dupla face, uma com o material refletor e outra com o material absorvedor montado em um suporte giratório, posicionado no centro entre as cornetas transmissora e receptora. Essa metodologia apresenta a vantagem de se obter em um mesmo ensaio, os valores de referência e de atenuação do material em teste, com a necessidade, apenas, de um giro de 360º do eixo. Na figura 4 tem-se um esquema simplificado do dispositivo utilizado nessa técnica (Knott, Schaeffer & Tuley). 40 A definição dos tamanhos dos corpos-deprova, em função da faixa de freqüência a ser utilizada na caracterização via técnicas RCS ou arco NRL, é uma etapa importante de modo a garantir a qualidade das medidas. Para isso, faz-se o uso da equação 1, que permite calcular as dimensões mínimas dos corpos-de-prova a serem ensaiados, λ=c/f (1) onde, λ = comprimento de onda (m), c = 3 x 108, velocidade da luz no vácuo (m2/s) e f o valor da freqüência (Hz). As dimensões dos corpos-de-prova devem ser iguais ou superiores a 3λ, pois as contribuições das bordas influenciam nas medidas (efeito de difração). Geralmente, a placa apresenta 3λ ao longo de uma dimensão e, preferencialmente, 5λ ou mais na outra. Essa exigência pode ser estendida a tamanhos maiores se a amostra do material possuir características de desempenho muito altas, chegando até a 15 λ (Skolnik, 1970). A figura 5 esquematiza as dimensões das placas em teste. Junho • 2000 C&T15.book Page 41 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Fig. 5. Dimensões mínimas dos corpos-de-prova para os ensaios via técnicas RCS e arco NRL. As dimensões dos corpos-de-prova devem obedecer o limite de 15λ, sendo que um mesmo corpo-de-prova, preparado para medidas em freqüências mais baixas, pode ser utilizado em medidas em mais altas freqüências (Skolnik, 1970). Por exemplo, um corpo-de-prova preparado para medidas a freqüência de 5 GHz (0,30 m X 0,18 m) pode ser utilizado para testes em 10 e 20 GHz. Nessa abordagem dos métodos de medição da absorção de radiação eletromagnética e da variação das dimensões dos corpos-de-prova, o método do arco NRL mostra-se simples, oferecendo respostas rápidas na avaliação de absorvedores. A tabela 6 traz algumas dimensões de placas em função de determinadas faixas de freqüências. Tab. 6. Correlação entre dimensões de corpos-de-prova e λ, a determinadas freqüências. LARGURA ALTURA FREQÜÊNCIA COMPRIMENTO DE ONDA 5λ 3λ F λ (M) (M) (M) 400 MHz 800 MHz 1 GHz 2 GHz 8 GHz 10 GHz 20 GHz 0,75 0,38 0,30 0,15 0,038 0,030 0,015 3,75 1,88 1,50 0,75 0,19 0,15 0,075 2,25 1,12 0,90 0,45 0,11 0,090 0,045 CONCLUSÃO O domínio da tecnologia de processamento e caracterização de absorvedores com características específicas de absorção de determinadas faixas de freqüência em microondas, para aplicações diversas, é restrito a poucos países. O processamento gerenciado desses materiais, visando às aplicações finais, permite a otimização de uso de sistemas eletroeletrônicos, utilizados nas áreas de telecomunicações, aeroespacial e médica, entre outras. A avaliação de absorvedores, para faixas estreitas e largas de freqüência, mostra-se adequada e rápida pelo uso de testes de refletividade, via técnicas do Arco NRL e RCS. O presente trabalho mostra de maneira resumida conceitos e técnicas necessários para a obtenção e o aprimoramento de materiais absorvedores de radiação eletromagnética (2-20 GHz), dando ênfase às ferritas e às suas estruturas. O Centro Técnico Aeroespacial vem se dedicando a essa área de processamento de RAM, efetuando medidas da refletividade de amostras preparadas pelo uso de polímeros à base de poliuretanos e epóxi, de partículas de negro de fumo e de ferritas, em diferentes concentrações e espessuras, desde 1997. Estes absorvedores têm sido obtidos como tintas, mantas poliuretânicas, epoxídicas e de silicone e colméias revestidas com ferritas e negro de fumo, com bons resultados de atenuação da radiação incidente na faixa de 2-20 GHz. Uma outra técnica em pesquisa e desenvolvimento de RAM no Centro Técnico Aeroespacial está sendo atualmente pesquisada pelo mesmo grupo com o uso de polímeros condutores que, impregnados com outros materiais, constituirão uma nova e importante fase deste trabalho. Agradecimentos À FAPESP (Processos 97/14055-7 e 98/11030-6) e ao Comando da Aeronáutica, pelo apoio financeiro, e às empresas Imag Ind. e Com. de Produtos Eletrônicos Ltda. e Cabot Brasil Ind. e Com. Ltda./Especial Blacks Division, pela doação de amostras. Agradecemos, também, ao eng. Marcos Ferraz, pelas informações e sugestões prestadas aos autores, e ao Sr. Manoel Guilherme da Silva Mello, do IF/Unicamp, pela correção e editoração do texto. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AFSAR, M. et al. 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O mecanismo formal utilizado neste texto baseia-se nos tableaux analíticos, construídos em forma de árvores binárias. As técnicas formais utilizadas neste texto podem ser estendidas para estudar outros tipos de lógicas, inclusive não-clássicas. Palavras-chave: LÓGICA PROPOSICIONAL CLÁSSICA – TABLEAUX – CORREÇÃO – COMPLETUDE. ABSTRACT – The main purpose of this text is to provide proofs of correctness and completeness theorems including strong sense for one system of classical propositional logic. This one arises from didactic aspects rather than unpublished ones. We want to support beginners when dealing with logic showing in a direct way both theorems, correctness and completeness, for a system in classical propositional logic, besides the exposition of mainly syntactical and semantical concepts related to their proofs. Their formal proofs are related to the mechanical method based on analytic tableaux, which are constructed in a form of binary trees. The formal techniques that have been used in this text can be extended to study other logic and non-classical logic as well. Keywords: CLASSICAL PROPOSITIONAL LOGIC – TABLEAUX – CORRECTNESS – COMPLETENESS. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 43-50 43 C&T15.book Page 44 Friday, September 12, 2003 9:06 AM INTRODUÇÃO E ste texto tem por objetivo a exposição de um sistema lógico proposicional correto e completo, fundamentando-se em seu aspecto elucidativo, e não unicamente no seu caráter inédito. Um apoio ao estudante iniciante em questões lógicas é pretendido, mostrando de modo direto as provas de correção e completude de um sistema lógico proposicional. Ao se estudar lógica, seja num curso inicial, seja num curso avançado, depara-se com uma infinidade de definições, propriedades e símbolos que, por sua vez, chegam a confundir a leitura ou até mesmo impossibilitar o entendimento correto de conceitos subjacentes. Evidentemente, essas questões não são tão relevantes quando abordadas por pesquisadores com um grau de abstração elevado. No entanto, isso não se sucede em geral com estudantes de graduação, os quais estão em fase de desenvolvimento de suas habilidades abstratas. As provas de correção e completude geralmente são rodeadas de conceitos diversos, os quais normalmente dificultam a compreensão própria de sua essência, qual seja, a coincidência entre a sintaxe e a semântica do sistema. Desse modo, neste texto, irá se propor de maneira sucinta um sistema lógico proposicional correto e completo, além de mostrar a sintaxe, a semântica e suas propriedades essenciais e, finalmente, os teoremas que os relacionam. Estudos mais aprofundados sobre lógica clássica podem ser encontrados em Bell & Machover (1977); Church (1956); Fitting (1990); Mendelson (1987); Robbin (1969); Shoenfield (1967); Smullyan (1968); e van Dalen (1980). DESENVOLVIMENTO Sintaxe Para iniciar o desenvolvimento de uma linguagem é necessário introduzir seu vocabulário, seu alfabeto, ou seja, quais símbolos que manipulados apropriadamente produzirão algum sentido na linguagem. Não basta simplesmente descrevê-los, é preciso também elaborar algum procedimento que produza “mais símbolos” a partir de símbolos já discutidos. Esse procedimento consiste em definir algumas regras de formação, possibilitando gerar uma infinidade de símbolos (ou seqüências de símbolos) pertencentes à 44 linguagem, os quais poderão ser interpretados convenientemente segundo uma semântica apropriada. Essa seção é dedicada à sintaxe da linguagem do cálculo proposicional clássico. Essa linguagem será denominada linguagem L. Definição 1.1: O alfabeto da linguagem L consiste de: a) variáveis proposicionais: p0, p1, p2, ... b) conectivos: ¬, ∧, ∨, →, ↔. c) sinais de pontuação: (, ). Esse símbolos são suficientes para definir a linguagem L. Variáveis proposicionais são letras minúsculas acrescidas de índices inferiores pertencentes ao conjunto dos números naturais. Essas variáveis servirão como base para a interpretação (parte semântica) da linguagem L. Os conectivos, como o próprio nome diz, servirão para conectar as variáveis proposicionais umas com as outras, as quais serão delimitadas, quando necessário entre parênteses, o da esquerda e da direita. Seqüências finitas de símbolos do alfabeto acima constituem uma expressão. Por exemplo, ¬¬¬¬ ∧ p1 é uma expressão de L. Nota-se que a expressão não requer nenhuma regra especial de formação, simplesmente uma justaposição de símbolos. Outros exemplos de expressão são os seguintes: • (p1 ∧ p2) • ))((( • ()¬¬→ No entanto, símbolos que não pertencem à linguagem não são considerados como expressões, por exemplo: (p-2 → m), p1 + q. Infinitas expressões podem ser formadas. Visando uma futura interpretação, é conveniente limitar-se às expressões bem formadas, ou seja, que sigam uma certa regra de formação. A tabela 1 apresenta a leitura e os nomes das expressões empregadas na definição seguinte de fórmula. Tab. 1. Leitura de expressões. EXPRESSÃO LEITURA (¬x) (x∧y) (x∨y) (x→y) (x↔y) não x xey x ou y se x então y x se e somente se y NOME negação conjunção disjunção condicional bicondicional Junho • 2000 C&T15.book Page 45 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Definição 1.2: Uma expressão é reconhecida como uma fórmula se satisfizer ao menos uma das condições abaixo: a) cada variável proposicional é uma fórmula; b) se X e Y são fórmulas, então (X ∧ Y), (X ∨ Y), (X → Y) e (X ↔ Y) também são fórmulas; c) se X é uma fórmula, então (¬X) também é fórmula; d) só é fórmula o que advém das condições (a), (b) e (c) acima. Nem todas as expressões são fórmulas (ou expressões bem formadas), mas todas as fórmulas são expressões. Exemplos de fórmulas são: • (p1∧p2) • (((¬p1)→p3)∧(p3∨p3)) • (¬p3) Os seguintes são exemplos de expressões que não são fórmulas: • (p1) (pois há parênteses a mais) • p1∧p2(pois faltam parênteses) Obs.: doravante quando não houver dúvidas no contexto, as letras minúsculas x, y, z, serão utilizadas para representar variáveis proporcionais, e as letras maiúsculas X, Y, Z, ..., com ou sem índices inferiores, para representar fórmulas. Semântica Objetiva-se interpretar os símbolos, mais precisamente as fórmulas, até então inseridos na linguagem L da lógica clássica. Por sua vez, essa interpretação se dará associando-se à linguagem dois novos símbolos: os símbolos 1 (lê-se: verdadeiro) e 0 (lê-se: falso). Estes farão parte da semântica de L, os quais, de modo geral, fornecerão um sentido às fórmulas de L. Desse modo, a relação com fórmulas é dada por meio de uma função que associa a cada fórmula um valor semântico, a saber, verdadeiro ou falso. Definição 2.1: Seja F o conjunto de todas as fórmulas de L. Uma valoração v é uma função que associa a cada fórmula x ∈ F um elemento v (x) ∈ {1, 0}. Se v (x) = 1, diz-se que a fórmula x é verdadeira, e se v(x) = 0, diz-se que é falsa. Uma valoração atribui um significado a cada fórmula de L, ou seja, cada fórmula recebe 1 ou recebe 0. Como valorações são funções, torna-se evidente que para qualquer fórmula x, ou x é 1 ou x é 0, não existe um REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 43-50 terceiro valor. Além disso, x não pode ser 1 e 0 ao mesmo tempo. Exemplo: Seja uma função v1 de F em {1,0} definida como segue: 1, se x é do tipo pi, para i par; v1 (x) v1 (x) = 0, se x é do tipo pi, para i ímpar; 1, se x não é variável proposicional. A função v1 é uma valoração. A noção de valoração serve a muitos propósitos; porém, é um tanto livre para servir de parâmetro em algumas situações, por exemplo, em circuitos de chaveamento. Nestes, 1 pode relacionar-se a passagem de corrente elétrica e 0 a não passagem de corrente elétrica. Na valoração acima, v1 (p2) = 1, pois o índice da variável proposicional p2 é par, e v1 (¬p2) = 1, pois ¬p2 não é variável proposicional. Se p2 representar um interruptor ligado de um circuito de chaveamento, (¬p2) representará um interruptor desligado; porém, na valoração acima, nos dois casos passaria corrente elétrica, tanto ligado como desligado, situação que não interessa aos propósitos de circuitos de chaveamento1 e que, no entanto, é contemplada na definição de valoração como feita acima. As valorações discutidas neste texto serão aquelas cujas situações de verdade se aproximam de situações conhecidas, como no exemplo anterior, em que se espera que no circuito v1(p2) e v1(¬p2) tenham valores opostos. Para tal, algumas condições devem ser inseridas na definição de valoração. { Definição 2.2: Uma valoração booleana v é uma valoração que satisfaz às seguintes condições: 1) v (¬x) = 1-v (x); 2) v (x ∧ y) = min {v (x), v (y)}; 3) v (x ∨ y) = max {v (x),v (y)}. Os outros conectivos são definidos em função destes: (x → y) =def ((¬x) ∨ y) (x ↔ y) =def ((x → y) ∧ (y → x)). A valoração booleana atribui um “significado” a todas a fórmulas de L, de tal forma que este se aproxime das características comuns dos conectivos ¬, ∧, ∨, →, ↔. 1 Não se pretende aqui introduzir um estudo sobre circuitos de chaveamento, apenas lançar mão deste exemplo para justificar a noção seguinte de valoração booleana. A intenção é apenas didática. 45 C&T15.book Page 46 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Uma tabela verdade é um procedimento efetivo utilizado para se calcular os valores verdade de uma fórmula. O seguinte é um resumo das condições estabelecidas para valoração booleana expostas via tabela verdade. Tab. 2. Tabela verdade do conectivo ¬. X (¬X) 1 0 0 1 Tab. 3. Tabela verdade dos conectivos ∧, ∨, →, ↔. X Y (X∧Y) (X∨Y) (X→Y) (X↔Y) 1 1 0 0 1 0 1 0 1 0 0 0 1 1 1 0 1 0 1 1 1 0 0 1 Definição 2.3: Diz-se que uma fórmula x de L é uma tautologia se v (x) = 1 para todas as valorações booleanas. As seguintes fórmulas são exemplos de tautologias: • (x → x) • (((x → y) → x) → x) • (x → (y → z)) → ((x → y) → (x → z)) Definição 2.4: Uma fórmula x é satisfazível se e somente se existe uma valoração booleana v tal que v (x) = 1. Definição 2.5: Um conjunto S de fórmulas é satisfazível se e somente se existe uma valoração booleana tal que v (x) = 1 para todo x ∈ S. Definição 2.6: A fórmula x é logicamente equivalente à fórmula y (em símbolos, x ≡ y) se e somente se v (x) = v (y) para todas as valorações booleanas. Definição 2.7: A fórmula y é conseqüência lógica de um conjunto S de fórmulas (em símbolos, S|=y) se e somente se para toda valoração booleana v, se v (x) = 1 para todo x∈S então v (y) = 1. Particularmente tem-se que x|= y se e somente se para toda valoração booleana v, se v (x) = 1 então v (y) = 1.2 As seguintes são eqüivalências lógicas, para fórmulas3 quaisquer x e y: i) x → y ≡ ¬x ∨ y 2 A notação S|= / y significa que y não é conseqüência lógica do conjunto S de fórmulas. 46 ii) x ∧ y ≡ ¬(¬x ∨ ¬y) iii) x ∨ y ≡ ¬(¬x ∧ ¬y) iv) ¬¬x ≡ x v) ¬(x → y) ≡ x ∧ ¬y vi) ¬(x ∧ y) ≡ (¬x ∨ ¬y) vii) ¬(x ∨ y) ≡ (¬x ∧¬y) Nota-se que as fórmulas da lógica, todas elas, podem ser expressas como fórmulas equivalentes escritas como conjunções ou como disjunções. Por exemplo, x → y pode ser escrita como uma disjunção (¬x) ∨ y; a fórmula ¬(x → y) pode ser escrita como uma conjunção x ∧ (¬y). Definição 2.8: Uma fórmula é dita como do tipo α se puder ser escrita como uma conjunção cujos componentes serão denominados por α1 e α2. A tabela 4 expõe as fórmulas do tipo α e seus componentes α1 e α2. Tab. 4. Fórmulas do tipo α. α α1 (X∧Y) ¬(X∨Y) ¬(X→Y) ¬¬X X ¬X X X α2 Y ¬Y ¬Y X Definição 2.9: Uma fórmula é conhecida como do tipo β se puder ser escrita como uma disjunção com componentes denominados por β1 e β2. A tabela 5 expõe as fórmulas do tipo β e seus componentes β1 e β2. Tab. 5. Fórmulas do tipo β. β β1 ¬(X∧Y) ¬X (X∨Y) X (X→Y) ¬X β2 ¬Y Y Y Teorema 2.10: Para qualquer valoração booleana v, v (α) = v (α1) ∧ v (α2) e v (β) = v (β1) ∨ v (β2). Tableaux Analíticos Os tableaux analíticos são procedimentos de prova elaborados em forma de árvores binárias. As árvores contêm sempre um número finito de ramos. 3 Doravante, algumas convenções serão utilizadas na escrita das fórmulas. Parênteses externos podem ser omitidos e (¬X) pode ser escrito como ¬X. Junho • 2000 C&T15.book Page 47 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Cada ramo, por sua vez, constitui-se de um conjunto de nós, de forma que em cada nó ocorre uma fórmula da lógica. O objetivo de uma prova tableau é verificar se uma dada fórmula X da lógica é tautológica ou não. Inicia-se tentando falsificar a fórmula X4 e, na seqüência, aplica-se regras que estendem os ramos, aumentando a árvore. Ao final, a impossibilidade de falsificação da fórmula X, que seria identificada pela ocorrência de contradições em todos os ramos da árvore, implica a afirmação de que X é uma tautologia. A relação (coincidência) entre sintaxe e semântica será mostrada em seguida. Antes, porém, algumas definições se fazem necessárias. Estudos sobre tableaux analíticos podem ser encontrados em Smullyan (1968) e Fitting (1990). Definição 3.1: Um tableau analítico para uma fórmula X é uma árvore ordenada diádica,5 cujos pontos são fórmulas, e construído como se segue. Começa-se por colocar ¬X na origem. Supõe-se que ℑ já é um tableau construído para X e E é um ponto final. Então pode-se estender ℑ por uma das seguintes operações: a) se alguma fórmula do tipo α ocorre no ramo RE, então pode-se adicionar ou α1 ou α2 como único sucessor de E; b) se alguma fórmula do tipo β ocorre no ramo RE, então pode-se simultaneamente adicionar β1 como sucessor da esquerda de E e β2 como sucessor da direita de E. Os itens (a) e (b) acima dizem respeito a regras tableaux de extensão de ramos. Estas podem ser definidas de acordo com os tipos de fórmulas. Para as fórmulas do tipo a tem-se a regra α e para as fórmulas do tipo β tem-se a regra β. Como as fórmulas do tipo α possuem comportamento conjuntivo, ou seja, podem ser expressas enquanto fórmulas escritas como conjunção, então torna-se intuitivo que em um tableau, numa árvore binária, se uma fórmula do tipo α ocorrer num nó do tableau é possível estender esse tableau (aumentar a árvore), acrescentando nos pontos finais abaixo da ocorrência dessa fórmula os componentes α1 e α2. 4 Cada fórmula ocorrida em um nó da árvore é considerada verdadeira; assim, se ¬X ocorre na origem, entende-se que ¬X é verdadeira e, portanto, que X é falsa. 5 Ver Smullyan, 1968. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 43-50 Regra α α α1 α2 α α1 α2 Raciocínio análogo pode ser feito para as fórmulas do tipo β. Se uma fórmula do tipo β ocorrer num nó de um tableau, ao se aplicar uma regra nessa fórmula, é intuitivo que ocorra uma bifurcação, pois as fórmulas do tipo β comportam-se como disjunções, e o uso do “ou” sugere uma divisão nos caminhos do tableau, nos pontos finais abaixo da fórmula do tipo β. Regra β β β β1 _ β2 β1 β2 Definição 3.2: Um ramo θ de um tableau é dito estar fechado se contém X e ¬X para alguma fórmula X. Definição 3.3: Um tableau ℑ é entendido como fechado se todos os seus ramos estão fechados. Definição 3.4: Uma prova tableau da fórmula X é um tableau fechado começado por ¬X. Exemplo: Segue uma prova tableau para a fórmula (x → y) → ((¬x) ∨ y)): (1) ¬((x → y)→((¬x) ∨ y)) origem (2) (x → y) regra α em (1) (3) ¬((¬x) ∨ y) regra α em (1) (4) ¬(¬x) regra α em (3) (5) (¬y) regra α em (3) (6) x regra α em (4) (7) ¬x regra β em (2) × (8) y regra β em (2) × A construção desse tableau inicia-se a partir da fórmula ¬((x → y) → ((¬x) ∨ y)) colocada na origem e da aplicação da regra α à essa fórmula. Essa regra produz duas novas fórmulas, colocadas nos nós (2) e (3) da árvore. O processo continua ao se aplicar regras α e β às fórmulas que vão surgindo até que se termine o tableau, ou seja, quando todas as fórmulas já sofreram aplicação de alguma regra tableau. A marca × ao final dos ramos é colocada somente nos ramos fechados, ou seja, que contêm uma contradição entre suas fórmulas. No exemplo acima, o ramo da esquerda contém x e ¬x como 47 C&T15.book Page 48 Friday, September 12, 2003 9:06 AM contradição e o ramo da direita contém y e ¬y como contradição. Definição 3.5: Um ramo de um tableau é dito satisfazível se e somente se o conjunto de fórmulas que ele contém é satisfazível. Definição 3.6: Um tableau é satisfazível se e somente se tem pelo menos um ramo satisfazível . Definição 3.7: Um ramo θ é dito completo se para cada fórmula do tipo α que ocorre em θ ambos α1 e α2 também ocorrem em θ e para cada fórmula do tipo β que ocorre em θ β1 ocorre em θ ou β2 ocorre em θ, ou seja, pelo menos um dos componentes de β ocorre em θ. Definição 3.8: Um tableau ℑ é terminado se cada ramo de ℑ está completo ou está fechado. Teorema 3.9: Suponhamos que ℑ é um tableau satisfazível. Seja ℑ' um tableau obtido a partir de ℑ pela aplicação de uma regra de extensão de ramos (regra α ou regra β). Então ℑ' é satisfazível. Teorema 3.10 (correção fraca): Se X tem uma prova tableau, então X é uma tautologia. Demonstração: Vamos supor por hipótese que X tem uma prova tableau e que X não é uma tautologia. Se X tem uma prova tableau, então nenhum ramo desse tableau é aberto, ou seja, todos os ramos fecham. Se X não é tautologia, então existe uma valoração booleana v tal que v (X) = 0. Um tableau para X começa com ¬X, e se X não é uma tautologia existe um caso onde v (X) = 0 e, conseqüentemente, ¬X é verdadeiro. Assim, o conjunto {¬X} é satisfazível. Seja ℑ o tableau começando por ¬X. Pelo teorema 3.9, qualquer extensão ℑ' de ℑ será satisfazível, ou seja, um tableau começando com ¬X terá ao menos um ramo satisfazível. Mas isso contradiz a hipótese de que X tem uma prova tableau, ou seja, todos os ramos do tableau, começando por ¬X, fecham (não são satisfazíveis). Portanto, se X tem uma prova tableau, X é uma tautologia. Mostrou-se então que cada fórmula que tem uma prova tableau é uma tautologia. Isso assegura a consistência do sistema lógico, pois não se terá que uma fórmula X e sua negação ¬X sejam provadas. Assim, tudo o que o sistema produz por meio de provas tableau são fórmulas tautológicas. 48 Dedutibilidade A noção de dedutibilidade é uma noção sintática e será definida em termos de provas tableau. Definição 4.1: Sejam S um conjunto de fórmulas e X uma fórmula qualquer. Um tableau para X usando S como um conjunto de afirmações globais significa um tableau começado por ¬X e de tal forma que a seguinte condição seja satisfeita: • qualquer fórmula Z ∈ S pode ser adicionada ao final de qualquer ramo do tableau. Definição 4.2: Sejam S um conjunto de fórmulas e X uma fórmula qualquer. Diz-se que X é dedutível tableaux a partir de S (em símbolos, S|– X) se e somente se existir um tableau fechado terminado para X usando S como um conjunto de afirmações globais. Em outras palavras, diz-se que S|– X6 se e somente se existe um tableau fechado que começa com ¬X e de tal forma que em qualquer ponto final de qualquer ramo do tableau seja possível adicionar qualquer fórmula de S. Teorema 4.3 (correção forte): Sejam S um conjunto de fórmulas e X uma fórmula qualquer. Se S|– X, então S|=X. Mostrou-se que se X é dedutível tableau a partir de um conjunto S de fórmulas, então X é conseqüência lógica do mesmo conjunto S de fórmulas da lógica proposicional clássica. Completude Já se mostrou que o sistema é consistente (não prova fórmulas contraditórias) e que, através de provas tableau, produz fórmulas tautológicas. No entanto, resta demonstrar que todas as tautologias são provadas por meio de tableaux. O objetivo seguinte é mostrar que, para qualquer fórmula X, se X é uma tautologia, então X tem uma prova tableau. Mostra-se ainda um resultado mais forte: se X é conseqüência lógica de um conjunto S, então X é dedutível tableaux a partir de S. Definição 5.1: Um conjunto H de fórmulas proposicionais é chamado um conjunto de Hintikka, sempre que as seguintes condições forem satisfeitas: H1– Nenhuma variável proposicional e sua negação estão simultaneamente em H: 6 A notação S|/– X será utilizada para representar que X não é dedutível-tableaux a partir de S. Junho • 2000 C&T15.book Page 49 Friday, September 12, 2003 9:06 AM H2– Se α ∈ H então α1 ∈ H e α2 ∈ H: H3– Se β ∈ H então β1 ∈ H ou β2 ∈ H: O lema seguinte estabelece uma conexão entre fórmulas vistas sob a ótica de provas tableau e fórmulas vistas sob a ótica de valorações booleanas. Lema 5.2 (Hintikka): Cada conjunto H de Hintikka é satisfazível. Seja H um conjunto de Hintikka. Deseja-se encontrar uma valoração booleana na qual cada elemento de H seja verdadeiro. Para tal, atribui-se o seguinte: 1. se uma variável proposicional x ∈ H então v (x) = 1; 2. se a negação de uma variável proposicional ¬x ∈ H então v (x) = 0; 3. se nem x nem ¬x pertencem a H então v (x) = 1. Mostra-se facilmente, a partir dessa valoração booleana, que cada fórmula pertencente a H é verdadeira sob v. A prova por indução é simples e não será feita. Teorema 5.3: Qualquer ramo completo aberto de qualquer tableau é satisfazível. Se um ramo é aberto, não contém nenhuma fórmula e nem sua negação (condição H1). Se o ramo é completo então, se α pertence ao ramo pela definição de ramo completo, tem-se que α1 e α2 pertencem ao ramo (condição H2) e o mesmo argumento vale para qualquer fórmula β que pertença ao ramo, ao menos β1 ou β2 pertencem ao ramo (condição H3). Portanto, um conjunto de fórmulas pertencente a um ramo aberto completo satisfaz as condições do conjunto de Hintikka, e pelo lema de Hintikka é satisfazível. Teorema 5.4 (completude fraca): Se X é uma tautologia, então X tem uma prova tableau. Demonstração: Mostra-se por contraposição. Supõe-se ℑ um tableau terminado começado por ¬X. Se ℑ não tem uma prova tableau, então existe pelo menos um ramo aberto e completo, e pelo teorema 5.3 é satisfazível. Logo, a origem ¬X é satisfazível e, conseqüentemente, X não pode ser tautologia. Portanto, se X é uma tautologia, existe uma prova tableau para X. de fórmulas e X uma fórmula qualquer. Se S|=X, então S|– X. Demonstração: Supondo-se que não existe um tableau fechado para a fórmula X usando S como um conjunto de afirmações globais, mostra-se / X. Para tal, é introduzido um proceentão que S |= dimento sistemático à construção do tableau. Supõe-se que os membros de S estejam arranjados da seguinte maneira: S: x1, x2, x3, ... . Estágio 0: Começa-se o tableau por “(1) ¬X”. Aplicam-se regras de extensão de ramos a todas as fórmulas que não sejam variáveis proposicionais até que o tableau esteja terminado. Considera-se agora que o procedimento se encontra no estágio n. Estágio n Para cada ramo aberto θ do tableau terminado construído até esse estágio: Adiciona-se no final de θ para cada i ≤ n as fórmulas x1, x2, ..., xn. Procede-se dessa maneira até que o tableau esteja terminado. Ao final do procedimento sistemático, feito para n = 1, 2, 3, ..., o tableau, por hipótese, estará aberto. Logo, tem-se pelo menos um ramo aberto θ. Esse ramo aberto é um conjunto de Hintikka, ou seja, em cada estágio n procedeu-se até que o tableau ficasse terminado. Se o procedimento sistemático parar para algum n, então o ramo aberto obtido será um conjunto de Hintikka (pois o procedimento foi construído de modo a assegurar isso) e, portanto, satisfazível (lema de Hintikka). Por outro lado, se o procedimento sistemático não parar, então pelo lema de König7 esse tableau é uma árvore com finitos sucessores, mas infinitos pontos; logo, tem um ramo infinito. Esse ramo infinito, por sua vez, é aberto e, também, um conjunto de Hintikka (desde que o procedimento tenha sido seguido corretamente); portanto, é satisfazível. Mas o conjunto de fórmulas em θ deve conter “(1) ¬X” desde que este é o início do tableau; além disso, deve conter Z para cada Z ∈ S. Assim ¬X é satisfazível, o que implica que X é falsa. Mas como θ é satisfazível, 7 Teorema 5.5 (completude forte): Sejam S um conjunto REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 43-50 Lema de König: uma árvore infinita, finitamente gerada, deve ter um ramo infinito. 49 C&T15.book Page 50 Friday, September 12, 2003 9:06 AM existe uma valoração booleana v, tal que para cada Z ∈ θ, v (Z) = 1 e v (X) = 0. Por conseguinte, existe uma valoração booleana na qual todas as fórmulas de S são verdadeiras e a fórmula X é falsa. Portanto, S|= / X. CONCLUSÃO O sistema lógico proposto é proposicional, ou seja, não aborda questões relacionadas a quantificadores, os quais se encaixariam num estudo sobre lógicas de primeira ordem. Este, por sua vez, é abordado segundo um método de prova chamado tableaux analíticos, divulgado por Smullyan (1968). Outros métodos de prova utilizados para demonstrações de teoremas da correção e completude, muito difundidos nos meios acadêmicos, são os métodos axiomáticos e os de dedução natural. Os tableaux analíticos, por terem a forma de árvores binárias, são comumente exportados para investigação de problemas em ciência da computação e engenharia. Isso porque carregam o princípio de subfórmulas segundo o qual, para se provar uma fórmula, as únicas fórmulas necessárias são suas subfórmulas, em oposição a sistemas axiomáticos, os quais exigem introduzir outras fórmulas numa prova que não unicamente as subfórmulas da fórmula que está sendo provada. Provas tableau e valorações booleanas podem ser desenvolvidas independentemente uma da outra; o lema de Hintikka faz uma ponte entre sintaxe (no caso, prova tableau) e semântica (no caso, o conceito de satisfatibilidade). Os teoremas de correção e completude mostram que todas as fórmulas provadas por meio de um tableau são tautológicas e todas as tautologias são provadas por meio de tableaux, estabelecendo assim uma relação de coincidência entre a sintaxe e a semântica de um sistema lógico proposicional clássico, no senso de que estas podem ser intercambiáveis. Basicamente, se é necessário saber se uma fórmula X é tautológica, pode-se utilizar um tableau e verificar se existe uma prova tableau para X ou, por outro lado, se for necessário saber se existe uma prova tableau para uma fórmula X, pode-se fazer uma tabela verdade e verificar se X é uma tautologia. A lógica proposicional clássica é um excelente exemplo de sistema lógico correto e completo, tornando-se fácil a verificação da coincidência entre sintaxe e semântica. Este pode ser utilizado como auxílio para o conhecimento de outros sistemas, inclusive os sistemas não-clássicos (Fitting, 1983). Extensões do sistema proposto neste texto podem ser encontradas em Smullyan (1968) e Fitting (1983/90). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BELL, J.L. & MACHOVER, M. A Course in Mathematical Logic. Amsterdã: North Holland Publishing Company, 1977. CHURCH, A. Introduction to Mathematical Logic. Princeton-New Jersey: Princeton University Press, 1956. DALEN, D. van. Logic and Structure. 3.ª ed., Nova York: Springer-Verlag, 1980. FITTING, M. First-Order Logic and Automated Theorem Proving. 2.ª ed., Nova York: Springer-Verlag, 1990. __________. Proof Methods for Modal and Intuitionistic Logics. Dordrecht: D.Reidel Publishing Company, 1983. MENDELSON, E. Introduction to Mathematical Logic. 3.ª ed., Nova York: Chapman & Hall, 1987. ROBBIN, J.W. Mathematical Logic: a first course. Nova York: W.A. Benjamin, Inc., 1969. SHOENFIELD, J.R. Mathematical Logic. Reading: Addison-Wesley, 1967. SMULLYAN, R. First Order Logic. Berlin/Heidelberg: Springer-Verlag, 1968. 50 Junho • 2000 C&T15.book Page 51 Friday, September 12, 2003 9:06 AM A Probabilidade na Óptica da Geometria The Probability in the Optical of the Geometry IDEMAURO ANTÔNIO RODRIGUES LARA ESALQ-USP [email protected] RESUMO – A probabilidade constitui-se num dos tópicos presentes em quase todos os cursos iniciais de estatística. Muitas vezes, professores e alunos podem ter dificuldades na associação de determinados conceitos com outras áreas do saber, em particular com a geometria. No presente trabalho mostra-se como a geometria pode ser utilizada na apresentação e compreensão de muitos conceitos da Teoria da Probabilidade. A metodologia está centrada nos conceitos básicos da geometria vetorial elementar. Verifica-se que, além de servir como um importante recurso didático, a geometria possui uma linguagem simples e indutiva, permitindo concretizar linhas rigorosas de raciocínio. Palavras-chave: VETOR – VARIÁVEL ALEATÓRIA – PRODUTO INTERNO – ESPERANÇA MATEMÁTICA – PROJEÇÃO ORTOGONAL. ABSTRACT – Probability is a key topic in almost all introductory statistical courses. Often, teachers and students can have difficulties with the association between some concepts and other knowledge areas, particularly geometry. In this work, it is shown how geometry may be used in the presentation and in helping the comprehension of many concepts in the probability theory. The methodology is centered in basic concepts of the elementary vectorial geometry. Beyond the important didactical resource, it is verified that geometry has a simple and inductive language allowing to make real rigorous lines of reasoning. Keywords: VECTOR – RANDOM VARIABLE – INTERNAL PRODUCT – MATHEMATICAL EXPECTATION – ORTOGONAL PROJECTION. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 51-58 51 C&T15.book Page 52 Friday, September 12, 2003 9:06 AM INTRODUÇÃO A partir da década de 80 surgiu, no meio estatístico, uma crescente preocupação com a valorização da abordagem geométrica como um importante recurso didático. Para se ter uma idéia, Margolis (1979) publicou um artigo em que citou vários exemplos do uso da geometria vetorial para derivação de resultados elementares, no campo da estatística descritiva e na análise da regressão. Herr (1980) estabeleceu um paralelo entre o ponto de vista algébrico e o geométrico sobre a estimação de mínimos quadrados, mostrando, assim, as vantagens da descrição geométrica. Bryant (1984) enfatizou que “não há fórmulas diferentes em geometria, probabilidade e estatística, e sim variações sobre um tema comum”. Esse autor mostrou a equivalência existente entre muitos fundamentos básicos expressos em diferentes linguagens. Schey (1985) relatou uma descrição geométrica dos contrastes ortogonais na análise da variância de modelos de classificação simples, justificando a condição da soma dos coeficientes ser zero nas combinações lineares das médias dos tratamentos. Saville & Wood (1986) usaram elementos básicos da geometria n-dimensional para fazer análise da variância e da regressão de forma rigorosa, mas elementar. Iemma et al. (1993) descreveram geometricamente a análise da variância como uma aplicação do Teorema de Pitágoras e forneceram um procedimento simples e imediato para a obtenção do projetor ortogonal associado a uma dada hipótese. Lara (1998) reviu artigos com inclinação geométrica e apresentou a dissertação “Tópicos de Geometria com Aplicações em Estatística”, mostrando que a geometria não só é um recurso didático, como também serve de ferramental básico na solução de problemas ocasionais no meio estatístico, como por exemplo a colinearidade e a seleção de variáveis nos modelos de regressão. Registra-se que essa preocupação com a abordagem geométrica já podia ser notada em artigos muito antigos, entre eles, os de Fisher (1915), Bartlett (1933/34), Durbin & Kendall (1951) e Scheffé (1959). Isso se deve, sem dúvida, ao fato de que a grande maioria dos métodos estatísticos pode ser desenvolvida por meio de conceitos geométricos. No entanto, isso não é, em geral, apresentado em 52 cursos de estatística, pela dificuldade encontrada por alunos e professores na associação entre os conceitos estatísticos e geométricos. Por outro lado, apesar da relevância do tema, tanto do ponto de vista didático quanto da força incontestável do relacionamento que associa a estatística e a geometria, a revisão de literatura revelou que alguns tópicos, especialmente a probabilidade, não têm sido usualmente citados em trabalhos com inclinação geométrica. Nesse contexto, este artigo tem por objetivo básico mostrar a versão geométrica de alguns conceitos ligados à probabilidade, procurando na medida do possível ilustrá-los graficamente e/ou numericamente. O MÉTODO O método proposto está centrado nos conceitos da geometria elementar, por exemplo, pontos, segmentos de reta, comprimentos, distâncias, ângulos e projeções ortogonais. O elo de ligação desses conceitos com a probabilidade é estabelecido mediante a abordagem vetorial. Sendo assim, apresentam-se a seguir, sucintamente, alguns tópicos da geometria vetorial indispensáveis para a compreensão desse trabalho. Vetor Seja ℜ o conjunto dos números reais e seja n um número inteiro e positivo, então x’ = [ x1, x2, …, xn], onde xi ∈ ℜ para todo i = 1, 2, ..., n, é dito vetor n-dimensional, ou simplesmente vetor n × 1. Geometricamente, o vetor é um ponto do espaço cartesiano n-dimensional (ℜn) ou um segmento de reta que une esse ponto à origem do sistema cartesiano, conforme ilustra a figura 1. Fig.1. Visão geométrica de um vetor em três dimensões. Junho • 2000 C&T15.book Page 53 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Adição, Subtração e Multiplicação por Escalar de Vetores Dados dois vetores quaisquer x e y de ℜn: x1 e y = y2 ... x2 ... x = y1 xn mesmo espaço cartesiano. Entre os possíveis produtos internos que satisfazem as propriedades da definição, destaca-se o produto interno usual: n <x,y> = ∑ x i y i, i=1 por ser o mais conhecido entre todos. yn a adição e subtração entre ambos é definida por: x1 ±y1 x2 ±y2 ; ... x±y = xn ±yn e, se c é um escalar, define-se cx como o vetor obtido pela multiplicação de cada componente de x por c. Fig. 2. Adição, subtração e multiplicação de vetores por escalar. Norma Euclidiana Chama-se de norma euclidiana de um vetor x e denota-se por x o número real não negativo, definido em relação ao produto interno <x,x>, ou seja: x = [ <x,x> ] 1⁄2 , satisfazendo os axiomas: a) x>0 se x ≠ φ (positividade) b) x=0 se x ≠ φ (nulidade) c) cx= c x (homogeneidade) d) x+y≤ x+ y (desigualdade triangular) Uma interpretação geométrica simples da norma euclidiana é que ela mede o comprimento de um vetor. Ângulo entre Dois Vetores Sejam x e y dois vetores não nulos do ℜn, o ângulo entre eles é definido por: <x,y> cos θ = ----------------- ; – 1 ≤ cos θ≤ 1 ⇒ θ = x . y Geometricamente, como ilustrado pela figura 2, a adição e a subtração de vetores podem ser descritas segundo as diagonais de um paralelogramo. <x,y> = arc cos ----------------- ; x . y 0 0 † θ † 180 0 Dessa definição decorre também que: <x,y> = x. y. cos θ Espaços e Subespaços Vetoriais Produto Interno Formalmente o produto interno ou produto escalar entre dois vetores x e y de ℜn é definido como uma função que associa a cada par de vetores x e y um número real, denotado por <x,y>, satisfazendo em relação aos vetores x, y e z e ao escalar c as propriedades: a)<x,y> = <y,x> (comutativa ou simetria); b) <x,y+z> = <x,y> + <x,z> (distributiva ou linearidade); c) <cx,y> = c <x,y> (homogeneidade); d) <x,x> ≥ 0; <x,x> = 0 ⇔ x=φ (positividade). Registra-se, adicionalmente, que pode estar definido mais do que um produto interno num REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 51-58 Um espaço vetorial real Vn é um conjunto de vetores de n componentes reais, fechado em relação às operações de adição de vetores e multiplicação de vetores por escalar. É imediato verificar que o conjunto ℜn é um espaço vetorial real. Ademais, se Sné um subconjunto do ℜn, fechado em relação às operações de adição de vetores e multiplicação de vetores por escalar, então Sn é um subespaço vetorial. Projeções Ortogonais Se x e y são dois vetores de um espaço veto<x,y> rial, com y ≠ φ, o vetor ---------------y diz-se a projeção de <y,y> x sobre y. Genericamente, a projeção de um vetor 53 C&T15.book Page 54 Friday, September 12, 2003 9:06 AM sobre um subespaço é um caso particular de transformação linear. Seja V um espaço vetorial e L um subespaço de V com dimensão finita. Uma função T: V → L, que preserva a adição de vetores e a multiplicação por escalar, é dita transformação linear de V em L, estabelecendo que se x ∈ V então T(x) é a projeção de x sobre L. Considere então o seguinte tipo de problema: dado um elemento x de V, determinar um elemento de L cuja distância a x seja tão pequena quanto possível. Se x ∈ L, então é evidente que T(x) = x. Se x não pertence a L, então o vetor T(x) mais próximo a x define-se pelo pé da perpendicular tirada de x para o subespaço L (e é único). Fig. 3. Projeção ortogonal em duas dimensões: x projetado em y. mente. A título de ilustração, considere a seguinte situação: Duas pessoas A e B fazem a seguinte aposta: lançam duas vezes uma única moeda. Se der duas caras, A ganhará 16 unidades monetárias (u.m.) de B; se der duas coroas, A ganhará 10 u.m. de B; e se der uma cara e uma coroa, B ganhará 14 u.m. de A. Então tem-se Ω = {(cara, cara); (coroa, coroa); (cara, coroa); (coroa, cara)}; a variável aleatória do ponto de vista de A será X= [16,10,-14]; do ponto de vista de B será Y= [-16,-10,-14], onde o sinal negativo indica a perda na aposta e p= [1/4,1/4,1/2] é o vetor de probabilidades associado às variáveis aleatórias. Geometricamente as variáveis aleatórias X e Y representam dois vetores do ℜ3. Fig. 4. Uma visão geométrica das variáveis aleatórias no espaço tridimensional. APLICAÇÕES DO MÉTODO: UMA ABORDAGEM COM EXEMPLO DE VARIÁVEL ALEATÓRIA DISCRETA Na análise de experimentos verifica-se freqüentemente que o fenômeno estudado tem n possibilidades distintas de se manifestar, descritas no seu espaço amostral Ω, e a cada possível resultado (numérico ou não numérico) de Ω associa-se uma dada probabilidade. Contudo, em muitas experiências tem-se interesse na mensuração de uma característica particular e no seu registro como um número. Sempre que se associa um número real a cada resultado de Ω, considera-se uma função cujo domínio é o próprio espaço amostral e o contradomínio é o conjunto dos números reais em questão. Tal função X:Ω → ℜ é denominada variável aleatória. Nesse sentido, informalmente, a variável aleatória pode ser vista como a caracterização numérica do resultado do experimento. Interpretando-se as variáveis aleatórias como vetores, torna-se possível pensar na Teoria da Probabilidade geometrica- 54 Por outro lado, o valor esperado de uma variável aleatória X com função de distribuição F (x) é definido rigorosamente por alguns tratados da estatística matemática pela integral genérica de Lebesgue-Stieltjes, aqui denotada integral L.S.: +∞ E ( X ) = ∫ x dF ( x ) (1) –∞ que existe se, e somente se, essa integral for convergente. Corrêa (1981) e James (1981) comentam a vantagem da utilização dessa integral na definição da esperança matemática, bem como em outros conceitos. Assim, a integral L.S. evita a necessidade de se exporem todos os teoremas e definições duplamente e, desse modo, se F (x) é a função de distribuição de uma variável aleatória discreta X, a integral L.S. reduz-se a uma série: se P(X=xi) = Junho • 2000 C&T15.book Page 55 Friday, September 12, 2003 9:06 AM p(xi) ≥ 0 e Σi p(xi)=1e, isto é, se p é a função de probabilidade de X, então p(xi) é um salto de F (x) em xi e: +∞ ∫ x dF ( x ) = –∞ ∑ xi p ( xi ). i Sendo F (x) uma função de distribuição de uma variável aleatória contínua que tem como função densidade de probabilidade f (x), então f (x) é a derivada de F (x), isto é d F (x) = f (x) dx e a integral L.S. torna-se uma integral comum do tipo Riemann: +∞ +∞ b –∞ –∞ b→+∞ a ∫ x dF ( x ) = lim ∫ xf ( x ) dx, ∫ xf ( x ) dx = a→-∞ também como um caso particular. A ligação desse conceito (1) com a geometria fica estabelecida pelo produto interno: <(x1,x2,…,xn),(y1,y2,…yn)>=p1x1y1+p2x2y2 +…+ pnxnyn e, desse modo, é imediato verificar que em relação ao produto interno: E(X) = < X,J>, (2) onde J = [1,1,…,1]. Logo, para o exemplo das apostas, pode-se calcular o valor esperado das variáveis aleatórias X e Y: 1 1 1 1 E ( X ) = <X,J> = --- . 16.1 + --- 10.1 + --- .(-14).1=- --4 4 2 2 1 1 1 1 E ( Y ) = <Y,J> = --- .(-16).1 + --- . ( – 10 ).1 + --- .14.1= --4 4 2 2 Pelos resultados obtidos para os valores esperados das variáveis aleatórias (v.a.’s) X e Y, verifica-se que o jogador B tem vantagem na aposta, pois o valor esperado por B é positivo, ao passo que o valor esperado por A é negativo. Essa aposta só seria justa se não houvesse vantagem para nenhum dos apostadores. O produto interno, nesse caso, apresenta uma aplicação bastante interessante na verificação de que o jogo é eqüitativo ou não. Um jogo eqüitativo é aquele em que o ganho esperado é nulo, ou seja, a longo prazo, ou em média, não se espera ganhar nem perder. Isso só ocorre quando o produto interno da variável aleatória pelo vetor J é zero, o que indica a ortogonalidade entre o vetor de probabilidades e o vetor de apostas descrito pela respectiva variável aleatória. De modo análogo ao caso unidimensional, pode-se definir a esperança conjunta de v.a.’s de dimensão mais elevada. Em particular, para o caso bidimensional, se (X, Y) é um vetor aleatório e Z = g REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 51-58 (X, Y) uma função real de (X, Y) então Z também é uma variável aleatória (unidimensional) e seu valor esperado pode ser dado pela integral L.S. (1), já apresentada. Então, sem perda de generalidade, seja: +∞ +∞ –∞ –∞ E ( X.Y ) = ∫ z dF ( z ) = ∫ xy dF ( x, y ) (3) Esse é um resultado extremamente útil, pois mostra que para calcular o valor esperado de (X,Y) não há necessidade de conhecer a distribuição de probabilidade da variável aleatória Z. Sendo assim, se (X, Y) é um vetor de v.a.’s discretas e se p(X=xi, Y=Yi) = p(xi,yi) ≥ 0, isto é, p(xi,yi) é a função de probabilidade conjunta de (X,Y) então: E ( X.Y ) = ∑ ∑ xi yj p ( xi, yj ) i j e, se (X,Y) é um vetor de v.a.’s contínuas com função densidade de probabilidade conjunta f(x,y), então: +∞ +∞ E ( X.Y ) = ∫ ∫ xyf ( x, y ) ( dx ) dy –∞ –∞ verificando-se em ambos os casos as mesmas particularidades da integral L.S. Assim como a esperança unidimensional, a esperança conjunta de duas variáveis aleatórias quaisquer (3) pode também ser interpretada como um produto interno, embora nesse caso o produto interno não seja usual. Sobre esse aspecto, Bryant (1984) mostra que: (4) E ( X.Y ) = <X,Y> = X Y cos θ verificando-se que a equação (4) é válida em relação ao seguinte produto interno em: <(x1,x2,…,xn),(y1,y2,…yn)>=p11x1y1+p12x1y2 +…+ pnnxnyn e, obviamente, a equação (4) satisfaz as propriedades básicas do produto interno. Considere o exemplo ilustrativo dessa seção, cuja distribuição conjunta das variáveis aleatórias X e Y é apresentada na tabela 1. Tab. 1. Distribuição de probabilidade conjunta de X e Y. -14 10 16 MARGINAL (Y) -16 0 0 1/4 1/4 -10 0 1/4 0 1/4 14 1/2 0 0 1/2 1/2 1/4 1/4 1 Y X Marginal (X) 55 C&T15.book Page 56 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Com base nesses dados tem-se: E (X.Y) = <(16, 10, -14), (-16, -10, 14) > = -187 Uma das vantagens da descrição da esperança segundo o produto interno é que, por meio de suas propriedades, torna-se fácil a demonstração de alguns teoremas envolvendo a esperança matemática, a saber: a) E(k) = k, onde k é uma constante real; A demonstração é imediata pela definição (2), bastando efetuar o produto interno: E(k) = <kJ, J> = E(kJ) = k. b) E(kX) = kE(X); A demonstração decorre da propriedade homogeneidade do produto interno: E(kX) = <kX, J> = k = <X,Y> = kE(X). c) E(kX + q) = kE(X) + q, onde q é uma constante real. A demonstração decorre das propriedades a e b. d) E(X + Y) = E(X) + E(Y); Aplicando essas idéias ao exemplo do jogo da moeda, tem-se: 2 σ X = < ( 16, 10, – 14 ) – ( – 1 ⁄ 2 ) ( 1, 1, 1 ), ( 16, 10, – 14 ) – ( – 1 ⁄ 2 ) ( 1, 1, 1 )>= = ( 33/2, 21/2, -27/2 ) 2 = 186, 75 ∴σ X = ( 33/2, 21/2, -27/2 ) = 13, 66 e, de modo análogo, para a v.a. Y, tem-se σ2y = 186,75 e σy= 13,66 Vistos sob o prisma de uma projeção ortogonal, os conceitos de valor esperado e variância apresentam uma interpretação geométrica simples. Considere no espaço vetorial ℜn os vetores que denotam a v. a. X e o vetor J. Seja P (X) a projeção ortogonal do vetor X sobre o vetor J, tal que P (X) = k, onde k é uma constante real. Nessas condições, a direção da projeção ortogonal é dada pelo vetor X – P (X), que é ortogonal ao subespaço vetorial determinado pelo vetor J, e por conseguinte: <X– P(X),J>=0 ⇒ < X, J >=< P(X), J > ⇒ E (X) = =E (P (X)) ⇒ µX =P (X) Fig. 5. A esperança matemática como uma projeção ortogonal. A demonstração decorre da propriedade distributiva do produto interno: E(X + Y, J) = =<X + Y, J> <X, J> + <Y, J> = E(X) + E(Y). A abordagem geométrica da esperança por meio do produto interno também pode ser utilizada para mostrar que muitas outras idéias da Teoria da Probabilidade correspondem a idéias comuns em geometria, conforme salientou Bryant (1984). Desse modo, para qualquer variável aleatória X: 2 <X,X> = X 2 = E ( X.X ) = E ( X ) 2) ou seja, E(X corresponde geometricamente ao comprimento quadrático do vetor representativo da v.a. X. Tomando-se uma v.a. centrada, por analogia, pode-se definir a variância associada a v.a. X. Considere que E(X) = µX , então: <X – µ X, X – µ X > = X – µ X 2 2 = E [ ( X – µX ) ] = σX 2 Conseqüentemente, o desvio padrão da v.a. X é dado pela norma euclidiana: σX = X – µX 56 A figura 5 mostra que a esperança matemática de uma variável aleatória X nada mais é do que um caso particular de projeção ortogonal. Do ponto de vista geométrico, a direção dessa projeção é a menor distância entre X e J, cujo comprimento quadrático é probabilisticamente a variância da v. a. X. De modo semelhante ao da esperança, é possível verificar com facilidade alguns teoremas envolvendo a variância de uma variável aleatória pela aplicação imediata da definição σ2x = X - µX2 a) Var (k) = 0, onde k é uma constante real; Prova: Var (k) = X - µX2 = k - k2 = 0. b) Var (kX) = k2Var(X); Prova: kX - kE (X)2= k (X - E(X))2= = k2 X - E(X)2= k2 Var (X) Junho • 2000 C&T15.book Page 57 Friday, September 12, 2003 9:06 AM c) Var (kX + q) = k2Var (X), onde q é uma constante real; Prova: kX + q – kE (X) + q2= = kX – kE (X)2= k2 Var (X). Considerando a idéia de v.a.’s centradas, com o enfoque geométrico, o ângulo q formado entre os vetores representativos das v.a.’s X e Y, por exemplo, fornece uma importante regra que define o conhecido coeficiente de correlação na população: 〈 ( X – µ X ), ( Y – µ Y )〉 ρ XY = cos θ = -------------------------------------------------- ; – 1 ≤ ρ XY ≤ 1, X – µX Y – µY conforme ilustra a figura 6. Sem perder de vista a idéia de v.a.’s centradas, considere x e y os vetores que as representam geometricamente, como no exemplo em questão. Na Teoria da Probabilidade, é bastante conhecido o Teorema da Variância de uma soma de v.a.’s: Var (x+y) = Var (x) + Var (y) + 2Cov (x,y) (5) Em (5), a covariância é igual à esperança conjunta de x e y, pois as v.a.’s estão centradas em suas esperanças e, assim, o teorema clássico (5) pode ser interpretado geometricamente como uma decorrência direta da aplicação da Lei dos Cossenos, válida para triângulos quaisquer: Fig. 7. Variáveis aleatórias centradas e a Lei dos Cossenos. Fig. 6. Variáveis aleatórias centradas e o coeficiente de correlação. Aplicando a Lei dos Cossenos ao triângulo ABC da figura 7: x+y2 = x2 + y2 – 2 x.y. cos(180º – θ) mas, como cos(180º – θ) = – cos θ. Assim: Retomando o exemplo do jogo x=X – µX e y=Y – µY , considere e os vetores que representam as variáveis aleatórias centradas: x=[33/2, 21/2, –27/2] e y=[–33/2, –21/2, 27/2] e usando σX = σY = 13,66, obtém-se o coeficiente de correlação: 〈 x, y〉 ρ xy = cos θ = ---------------= x y <(33/2, 21/2, —27/2), (—33/2, —21/2, 27/2)> = ------------------------------------------------------------------------------------------------------ = ( 13, 66 ).(13,66) – 186, 75 = ---------------------2- = – 1 ( 13, 66 ) Com base nesse resultado, afirma-se estatisticamente que as variáveis têm correlação linear negativa perfeita. Geometricamente, isso significa que os vetores x e y são colineares, como pode ser observado na figura 4 e através do ângulo formado entre eles: θ = arc cos(–1) = 180º REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 51-58 x+y2 = x2 + y2 + 2 x.y. cos θ (6) A equação (6) é, portanto, a expressão geométrica do teorema (5) e, assim, se duas variáveis são não correlacionadas, em termos geométricos eqüivale a dizer que os dois vetores que as descrevem são ortogonais. Nesse caso, a equação (6) reduz-se ao Teorema de Pitágoras: x+y2 = x2 + y2 Note que no exemplo que ilustra esta seção os vetores são colineares e não é possível formar um triângulo, e sim uma linha. Nesse caso, a variância de (x + y) é nula, como se pode comprovar pela equação (6): Var (x+y) = x+y2 = 186,75 +186,75 + 2. (–186,75) = 0 CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente artigo ilustra apenas algumas das muitas situações teórico-práticas em que o procedimento geométrico simplifica sobremaneira a apresentação, como também a compreensão dos 57 C&T15.book Page 58 Friday, September 12, 2003 9:06 AM conceitos elementares da Teoria da Probabilidade. Convém salientar que o exemplo apresentado do “jogo da moeda” tem apenas uma conotação didática, no sentido de ilustrar o procedimento de forma a facilitar a compreensão do leitor. Na prática docente e discente precisamos com freqüência estabelecer conexões entre “diferentes teorias” e, particularmente, buscar métodos que possam compilar os resultados. A geometria parece que se tornou um meio natural para tais propósitos. Nesse sentido, o método exposto pode servir de ajuda tanto para estudantes como a professores em seus estudos e pesquisas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARTLETT, M.S. The Vector Representation of a Sample. Proceedings of the Cambridge Philosophical Society, v.30, pp. 327340, 1933/34. BRYANT, P. Geometry, Statistics, Probability: variations on a common theme. The American Statistician, 38(1): pp. 38-48, fev./ 84. CORRÊA, A.M.C.J. Funções Geradoras de Momentos. Piracicaba, p. 190, 1981. [Dissertação de mestrado, ESALQ/USP]. DURBIN, J. & KENDALL, M.G. The Geometry of Estimation. Biometrika, v. 38, pp. 150-158, 1951. FISHER, R.A. Frequency Distribuition of the Values of the Correlation Coefficient in Samples from an Indefinitely Large Population. Biometrika, v.10, pp. 507-521, 1915. HERR, D.G. On the History of the Use of Geometry in the General Linear Model. The American Statistician., 34 (1): 43-47, fev./1980. IEMMA, A.F. et al. Sobre a Construção de Projetores Ortogonais. Revista Matemática Estatística II, 11: 133-142, 1993. JAMES, B.R. Probabilidade: um curso em nível intermediário. Rio de Janeiro: Instituto de Matemática Pura e Aplicada, p. 304, 1981. LARA, I.A.R. 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The American Statistician, 39 (2): 104-106, mai./85. 58 Junho • 2000 C&T15.book Page 59 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Balanço de Radiação Sobre um Solo Descoberto para quatro Períodos do Ano Radiation Balance at the Surface of a Bare Soil For Four Periods of the Year MÁRIO DE MIRANDA VILAS BOAS RAMOS LEITÃO Universidade Federal da Paraíba [email protected] MAGNA SOELMA BESERRA DE MOURA Universidade Federal da Paraíba [email protected] TRÍCIA REGINA F. C. SALDANHA Universidade Federal da Paraíba [email protected] JOSÉ ESPÍNOLA SOBRINHO Universidade Federal da Paraíba [email protected] GERTRUDES MACARIO DE OLIVEIRA Universidade Federal da Paraíba [email protected] RESUMO – Esta pesquisa foi desenvolvida no campo experimental da Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM), em Mossoró, RN, em quatro diferentes épocas do ano: inverno, primavera, verão e outono. O objetivo principal foi analisar o comportamento do balanço de radiação solar sobre uma superfície de solo descoberto, em períodos representativos das quatro estações do ano. Os dados aqui utilizados foram coletados de segundo em segundo, por meio de um sistema automático de coleta de dados “datalogger” 21X, e depois efetuadas médias a cada cinco minutos. Os resultados evidenciaram uma superioridade de todos os componentes do balanço de radiação solar observados na primavera em relação às outras estações, com exceção da radiação atmosférica que devido a uma maior nebulosidade foi máxima no outono. Nos períodos de inverno, verão e outono, a média de radiação global incidente à superfície do solo, comparada a da primavera, apresentou redução de 14%, 10% e 16%, respectivamente. Analisando o saldo de radiação, verificou-se que ele se manteve no outono praticamente igual ao da primavera, apenas 0,8% menor, ao passo que no inverno e no verão sofreu redução de 6% e 33%, respectivamente. Já o albedo médio diário apresentou-se máximo no verão (21,7%) e mínimo no outono (16,6%). Palavras-chave: BALANÇO DE RADIAÇÃO – ALBEDO – ESTAÇÕES DO ANO. ABSTRACT – This research was conducted in the experimental area of the Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM), in the city of Mossoró, RN, in the four seasons of the year: winter, spring, summer and autumn. The main REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 59-66 59 C&T15.book Page 60 Friday, September 12, 2003 9:06 AM objective was to analyze the behaviour of the radiation balance at the surface of a bare soil in different seasons. The data was collected each second and averaged over 5 minute intervals and stored in a datalogger (an automatic data colleting system – 21X). The results showed that all the radiation balance components except the atmospheric radiation were high in spring. The atmospheric radiation was maximum in autumn due to the high cloudiness in this season. Decreases of 14%, 10% and 16% of global radiation, as compared to spring time, were noticed in winter, summer and autumn, respectively. The corresponding decreases in net radiation were 7%, 33% and 0,8%, respectively. The daily mean albedo was maximum in the summer (21,7%) and minimum in the autumn (16,6%). Keywords: SOLAR RADIATION – ALBEDO – SEASON. INTRODUÇÃO A energia proveniente do Sol é o fator mais importante para o desenvolvimento dos processos físicos que influenciam as condições de tempo e clima. Assim, pode-se afirmar que de maneira geral todos os fenômenos físicos, químicos, físico-químicos e biológicos ocorridos no solo estão direta ou indiretamente relacionados com a quantidade de radiação solar incidente sobre a sua superfície. No Nordeste Brasileiro, a agricultura representa um papel importante na economia regional. No entanto, as adversidades climáticas aliadas a práticas agrícolas ultrapassadas tornam essa atividade primordialmente de subsistência. Considerando que a agricultura irrigada apresenta-se como uma alternativa valiosa à região, é necessário que os recursos hídricos disponíveis sejam empregados de maneira racional (Silva, 1994). Desse modo, visando otimizar o uso da água e utilizar melhor os recursos hídricos existentes, evitando assim prejuízos por falta ou excesso, é importante determinar o conteúdo de água perdido para atmosfera, pelo solo e pela planta, por evapotranspiração, em função da disponibilidade de água no solo e da energia disponível à superfície. Os métodos mais precisos para determinação da evapotranspiração de culturas têm por parâmetro indispensável o saldo de radiação solar incidente na superfície. Em razão da sua importância, diversos pesquisadores têm realizado estudos objetivando determinar o balanço de radiação solar, dando ênfase principalmente ao saldo de radiação em florestas, pastagens ou cultivos. Ao estudar o balanço de radiação solar em cultura de soja irrigada, em Mandacaru (Juazeiro, BA, 9º 24’ S; 40º 26’ W; alt. 375 m), Leitão (1989) encontrou para todo ciclo de desen- 60 volvimento da cultura valores médios diários para a radiação global de 529,3 cal.cm-2.d-1 e para o saldo de radiação 329,2 cal.cm-2.d-1. Já para o período no qual o solo encontrava-se descoberto, o saldo de radiação solar foi de 359,2 cal.cm-2.d-1. Valores semelhantes foram encontrados por Moura et al. (1999), ao estudar os componentes do balanço de radiação solar à superfície em um solo descoberto em Mossoró, RN: valores médios instantâneos diários para a radiação global de 551,4 W.m-2 (569,3 cal.cm-2.d-1) e para o saldo de radiação, valor de 320,0 W.m-2 (330,0 cal.cm-2.d-1) para o período de estudo representativo da primavera. Feitosa (1996), analisando o comportamento da radiação solar global e do saldo de radiação em áreas de pastagem e floresta na Amazônia, observou que na área de floresta o saldo de radiação representou um percentual de radiação solar global bem mais significativo do que aquele da área de pastagem, ou seja, nas estações seca e chuvosa, o saldo de radiação na floresta foi maior 8% e 11%, respectivamente, do que na área de pastagem. Estudando os componentes do balanço de radiação solar sobre uma cultura de amendoim irrigado em Rodelas, BA, Oliveira (1998) verificou que a ocorrência de irrigação produz uma imediata redução no fluxo de radiação refletida (K↑) e simultaneamente um aumento no saldo de radiação solar na superfície. O saldo de radiação sobre um dossel vegetal representa a quantidade de energia na forma de ondas eletromagnéticas que este dispõe para repartir entre os fluxos de energia necessários aos processos de evapotranspiração, aquecimento do ar, aquecimento do solo e fotossíntese (Tubelis et al., 1980). Em outras palavras, a radiação líquida representada pelo saldo de radiação resulta das trocas de energia estabelecidas na atmosfera, as quais estão condicio- Junho • 2000 C&T15.book Page 61 Friday, September 12, 2003 9:06 AM nadas pelo fluxo de radiação emitido pelo sol e refletido pela superfície, constituído predominantemente por radiação de ondas curtas e pelas radiações de ondas longas emitidas pela atmosfera e superfície terrestre, respectivamente. Mendez e Assis (1983), partindo dos fluxos de radiação solar global incidente, radiação solar refletida e saldo de radiação solar medidos em uma área cultivada com sorgo, determinaram equações que permitem estimar para o local estudado o saldo de radiação, a radiação global, o coeficiente térmico e o albedo da cultura. Por outro lado, diversos trabalhos utilizando o balanço de energia para definição da evapotranspiração de culturas têm sido desenvolvidos. Cunha e Bergamaschi (1994) quantificaram o fluxo de calor latente de evaporação mediante o balanço de energia e estimaram a evapotranspiração da cultura do milho, em El Dourado do Sul, RS. Cunha et al. (1996) determinaram os componentes do balanço de energia em Taquiri, RS, para alguns dias do ciclo de desenvolvimento do milho, considerando estágios de desenvolvimento e condições diferenciadas de demanda atmosférica. Teixeira et al. (1997), com base em dados de radiação solar global, saldo de radiação, fluxo de calor no solo, como também em gradientes de temperatura e pressão de vapor, avaliaram os componentes do balanço de energia durante estágios de desenvolvimento de um cultivo de videira, em Petrolina-PE. Diante do exposto e considerando a radiação solar como um parâmetro bastante útil e importante para a determinação das necessidades hídricas das culturas, este trabalho teve por objetivo medir e avaliar o comportamento e as respectivas contribuições dos componentes do balanço de radiação solar sobre uma superfície de solo descoberto para períodos representativos das estações do ano, em Mossoró, RN. MATERIAIS E MÉTODOS tros de distância de Natal. As normais climatológicas da região, segundo Chagas (1997), apresentam temperatura média anual de 27,6ºC, máxima de 33,5ºC e mínima de 22,8ºC, sendo dezembro o mês mais quente e julho, o mais frio. A média anual da precipitação é de 772,7 mm, os ventos predominantes são de nordeste e sudeste, com velocidade média anual de 3,9 m/s. A pressão atmosférica média anual é de 757,1 mmHg, atingindo valor máximo no mês de julho em torno de 758,7 mmHg e mínimo em dezembro de 756,2 mmHg. A evaporação média medida segundo o evaporímetro de Piché e o tanque classe “A” é 174,7 e 231,1 mm/ mês, respectivamente. A umidade relativa, a nebulosidade e a insolação têm valores médios anuais de 68,1%, 4/10 e 241,7 horas, respectivamente. A classificação climática, segundo Koeppen, para o município de Mossoró, RN, é do tipo BSwh’, significando “clima seco, muito quente, com estação chuvosa no verão, atrasando-se para o outono”. De acordo com a classificação de Thornthwaite, o clima local é do tipo DdA’a’, ou seja, “semi-árido, megatérmico, com pequeno ou nenhum excesso de água durante o ano”. Caracterização do Solo O solo da área em que esta pesquisa foi desenvolvida é classificado como Podzólico Vermelho Amarelo Equivalente Eutrófico, grande grupo Eutrustalfs do “Soil Taxonomy” (Brasil, 1971). Suas características físicas e químicas foram determinadas no Laboratório de Análises de Águas e Fertilidade de Solo, da Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM). De acordo com Araújo (1997), o solo apresenta pH em água (1:2,5) de 7,0; alumínio trocável (Al+++) 0,0 cmol/kg; cálcio (Ca) + magnésio (Mg) 12,8 cmol/kg; fósforo (P) 187,0 mg/kg; potássio 0,34 cmol/kg; areia grossa 61%; areia fina 25%; silte 10%; argila 4%; além de classe textural de areia, capacidade de campo 7,05 g/g e ponto de murcha permanente de 1,92 g/g. Localização e Caracterização Climática Coleta de Dados Esta pesquisa foi desenvolvida no campo experimental da Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM), no município de Mossoró, RN (5º 11’S; 37º 20’W; altitude 18 m), a 280 quilôme- Os dados meteorológicos utilizados neste trabalho foram obtidos durante quatro fases experimentais: de 17 a 27/06 de 1998 (inverno), 27/09 a 7/10 de 1998 (primavera); 23/12 de 1998 a 2/01 de REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 59-66 61 C&T15.book Page 62 Friday, September 12, 2003 9:06 AM 1999 (verão) e 22/03 a 1/04 de 1999 (outono). Para tanto, sensores foram instalados em uma torre micrometeorológica e ligados a um sistema automático de coleta de dados, possibilitando medir os seguintes parâmetros: temperatura do solo, temperatura de bulbo seco e bulbo úmido, velocidade do vento, radiação solar global, radiação solar refletida, saldo de radiação e fluxo de calor no solo. As medidas foram efetuadas com os seguintes sensores: termopares a base de fio cobre-constantan para medir a temperatura do solo a 1 cm de profundidade; psicrômetro constituído de termopares de bulbo seco e bulbo úmido para medir temperatura e umidade do ar; anemômetro de conchas para medir velocidade do vento a 150 cm de altura da superfície; dois piranômetros espectrais para medir radiação solar global e refletida; saldo radiômetro para medir o saldo de radiação; e um fluxímetro para medir o fluxo de calor no solo a 1 cm de profundidade da superfície. Os dados foram coletados em um “micrologger” 21X, sistema automático de aquisição de dados de alta resolução, alimentado por um painel solar. Esse equipamento permitiu a aquisição de dados em intervalos de um segundo e geração de médias a cada cinco minutos para todos os parâmetros, as quais, a cada 48 horas, eram armazenadas na memória do 21X e posteriormente transferidas para um microcomputador. Dados Indiretos Radiação de onda longa emitida pela superfície (L↑) – A quantidade de radiação na forma de ondas longas, emitida pela superfície do solo, foi obtida segundo a equação de Stefan-Boltzman: L↑= ε. δ. T4 (1) onde: ε é a emissividade da superfície; σ, a constante de Stefan-Boltzman (5,67.10-8W/m2.k4); e T, a temperatura da superfície em Kelvin. A radiação de ondas longas emitida pela superfície foi determinada para cada intervalo de cinco minutos durante os dias estudados e, partindo-se desses valores, foram calculadas as médias diárias e para cada período estudado. Radiação de onda longa emitida pela atmosfera (L↓) – O balanço de radiação solar à superfície, também denominado de radiação líquida, é constituído pela soma dos balanços de radiação de ondas 62 curtas e da radiação de ondas longas, sendo considerados positivos os fluxos verticais que chegam a superfície e negativos os que saem. Desse modo, o balanço de radiação solar na superfície pode ser obtido pela equação: Rn = ( K↓–K↑) + (L↓ – L↑) (2) onde: Rn é a radiação líquida; K↓, a radiação de onda curta incidente (radiação global); K↑, a radiação de onda curta refletida pela superfície; L↓, a radiação de onda longa incidente, ou seja, emitida pela atmosfera; e L↑, a radiação de onda longa emitida pela superfície. Utilizando os dados do saldo de radiação, da radiação de ondas curtas incidente e refletida, medidos como descrito no item anterior, e da radiação de ondas longas emitida pela superfície do solo, estimada mediante a equação 1, obteve-se por subtração, através da equação (3) a radiação de ondas longas proveniente da atmosfera. L↓ = Rn – ( K↓–K↑) + L↑ (3) Albedo A razão entre a radiação refletida e a radiação global incidente é designada albedo, ou poder refletor da superfície. Dessa maneira, determinou-se o albedo médio para cada cinco minutos ao longo do dia, tomando a razão entre as médias de 5 em 5 minutos da radiação solar refletida e da radiação solar incidente, e o albedo médio diário para cada período, fazendo a razão entre os valores médios diários da radiação solar refletida e da radiação solar incidente, usando a equação (4): (4) r = K↑ x 100 K↓ onde: r é o albedo (%); K↓, a radiação incidente; e K↑, a radiação refletida. RESULTADOS E DISCUSSÕES Nas figuras de 1 a 4 são apresentados gráficos representativos do comportamento médio diário dos componentes do balanço de radiação solar para os quatro períodos: inverno, primavera, verão e outono, respectivamente. Verificou-se, a partir das Junho • 2000 C&T15.book Page 63 Friday, September 12, 2003 9:06 AM curvas de radiação global, que esta apresentou basicamente comportamento semelhante nos quatro períodos estudados, com valores máximos próximo às 11 horas, e em torno de 810; 1.100; 980 e 880 W.m-2 para inverno, primavera, verão e outono, respectivamente. Pelo comportamento das curvas de radiação global, observou-se que em todos os períodos houve ao longo do dia presença de nebulosidade, tendo em vista que essas curvas apresentaram ligeiras variações. Em termos de incidência diária de radiação global, conforme pode ser observado na tabela 1, a primavera foi o período que apresentou a maior média (578,3 W.m-2), ao passo que o outono foi o período que registrou a menor média (488,0 W.m-2). Os dados da tabela 1 também mostram que enquanto a máxima média instantânea diária da radiação global ocorreu na primavera (627,8 W.m-2), a menor foi observada no outono (308,5 W.m-2). Comparando a incidência da radiação global em todas as estações, percebe-se que os valores médios desta componente no inverno, verão e outono corresponderam a 86%, 90% e 84%, respectivamente, do obtido na primavera. Verifica-se ainda nas figuras de 1 a 4 que a radiação refletida pela superfície do solo apresentou valores máximos também em torno das 11 horas, atingindo 150; 220; 200 e 140 W.m-2, para os períodos de inverno, primavera, verão e outono, respectivamente. Em termos de média diária, verificou-se que a radiação refletida instantânea apresentou o maior valor no período de primavera (124,5 W.m-2), enquanto a menor média foi registrada no outono (78,6 W.m-2). Comparando a radiação refletida pela superfície do solo na primavera com a radiação refletida nos demais períodos, verificou-se que, em média, nos períodos de inverno, verão e outono a radiação refletida representou respectivamente cerca de 70%, 90% e 63% daquela observada na primavera. Já em termos de albedo médio diário, verificou-se que o maior valor ocorreu no verão (21,7%), seguido de perto pelo da primavera (21,5%), logo depois pelo do inverno bem mais distante (17,7%) e, por último, pelo albedo do outono, o menor de todos (16,6%). REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 59-66 Percebeu-se ainda que em todos os períodos, enquanto a radiação emitida pela superfície apresentou valores máximos médios em torno das 13 horas, a radiação atmosférica atingiu os maiores valores médios após as 14 horas, o que indica uma dependência tanto do balanço de radiação de ondas curtas como do aquecimento da superfície e da atmosfera, respectivamente. Observando as figuras de 1 a 4, verifica-se que a radiação atmosférica apresentou uma variação bem mais pronunciada no período de verão do que nos demais. A radiação emitida pela superfície apresentou valores máximos médios em torno de 580; 670; 590 e 570 W.m-2 nos períodos de inverno, primavera, verão e outono, respectivamente. Em termos de média para o período, a radiação emitida pela superfície apresentou o maior valor no verão (457,8 W.m-2) e o menor valor no inverno (434,0 W.m-2). A radiação líquida apresentou o comportamento diário sincronizado com a radiação global, com os máximos também ocorrendo em torno de 11 horas, alcançando valores em torno de 560; 660; 490 e 640 W.m-2, nas estações de inverno, primavera, verão e outono, respectivamente. Analisando ainda os dados da tabela 1, constata-se que em termos do saldo de radiação médio diário, a primavera também foi o período que apresentou o maior valor (331,0 W.m-2), ao passo que o verão foi o período em que o saldo de radiação teve o menor valor (221,6 W.m-2). Os maiores valores do saldo de radiação registrados na primavera e no outono, em contraste com valores menores no inverno e no verão, são explicados por uma maior aproximação do ângulo de declinação do Sol nestes períodos do ano, com a latitude local 5º11’ S. Ou seja, em março e setembro os raios solares incidem mais perpendicularmente em Mossoró e, conseqüentemente, maior quantidade de radiação incide sobre a superfície local. Comparando o saldo médio de radiação observado no período da primavera com as médias dos demais períodos, verifica-se que enquanto o outono apresentou uma média praticamente igual a primavera (0,8% a menos), nos períodos de inverno e verão houve redução da energia líquida à superfície de 6% e 33%, respectivamente. 63 C&T15.book Page 64 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Tab. 1. Médias instantâneas diárias, diárias máximas e diárias mínimas dos componentes do balanço de radiação em Mossoró, RN, para os quatros períodos estudados. K↓ K↑ L↑ L↓ RN MÉDIA PERÍODO PERÍODO (W.m-2) (W.m-2) (W.m-2) (W.m-2) (W.m-2) Diária Máxima Mínima Diária Máxima Mínima Diária Máxima Mínima Diária Máxima Mínima Inverno Primavera Verão Outono 496,9 578,2 345,5 578,3 627,8 419,5 519,4 580,9 404,0 488,0 557,5 308,5 Fig. 1. Comportamento médio dos componentes do balanço de radiação solar para o período de inverno. Rn K↓ K↑ L↓ L↑ Fig. 2. Comportamento médio dos componentes do balanço de radiação solar para o período de primavera. Rn 64 K↓ K↑ L↓ L↑ 87,8 116,2 64,1 124,5 136,5 88,7 112,7 128,4 80,8 78,6 95,1 46,7 434,0 445,7 438,4 435,1 444,9 428,2 457,8 464,6 448,8 456,6 464,4 445,9 424,4 437,9 406,1 429,3 446,0 405,5 357,5 383,8 337,2 447,5 454,6 437,4 310,7 362,8 223,5 331,0 358,1 241,2 221,6 249,4 179,4 328,5 398,0 212,0 Fig. 3. Comportamento médio dos componentes do balanço de radiação solar para o período de verão. Rn K↓ K↑ L↓ L↑ Fig. 4. Comportamento médio dos componentes do balanço de radiação solar para o período de outono. Rn K↓ K↑ L↓ L↑ Junho • 2000 C&T15.book Page 65 Friday, September 12, 2003 9:06 AM CONCLUSÕES Os resultados obtidos indicam que, dos quatros períodos aqui estudados, a primavera foi o que apresentou os maiores valores de todos os componentes do balanço de radiação solar incidente na superfície, exceto a radiação atmosférica máxima no período do outono, provavelmente em função de uma presença maior de nebulosidade durante este período. Por outro lado, a maior incidência de radiação global à superfície durante o período de primavera contribuiu para uma variação mais acentuada dos demais componentes do balanço de radiação neste período. Verificou-se ainda que nos períodos de inverno, verão e outono houve uma redução na média diária de radiação global incidente na superfície do solo em relação a primavera de 14%, 10% e 16%, respectivamente. O saldo de radiação médio do período da primavera, comparado com o dos demais períodos, evidenciou que, enquanto no outono este parâmetro foi praticamente igual e no inverno menor apenas 6%, no verão teve uma redução bastante acentuada (33%). Finalmente, concluiu-se que em termos de albedo, concluiu-se que a primavera e o outono, mesmo sendo os períodos do ano que mais refletem radiação solar incidente, foram também os que proporcionam maior disponibilidade de energia líquida à superfície. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAÚJO, A.P. Produção de Cultivares e Híbridos de Repolho no Município de Mossoró, RN. ESAM, p. 27, 1997. [Monografia de graduação em Engenharia Agronômica]. BRASIL, Ministério da Agricultura. Levantamento exploratório-reconhecimento de solos do estado do Rio Grande do Norte. S. 1. Recife, DNPEA-SUDENE/USAID, 1971. (DDP, Boletim 21, PE 13). CHAGAS, F.C. Normais Climatológicas para Mossoró, RN (1970-1996). 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REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 59-66 65 C&T15.book Page 66 Friday, September 12, 2003 9:06 AM 66 Junho • 2000 C&T15.book Page 67 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Aquisition and Characterization of Nepheline Glass-ceramic Obtenção e Caracterização de Vitrocerâmicos de Nefelina CRISTINA DONEDA GOMES DE BORBA Universidade Federal de Santa Catarina [email protected] HUMBERTO RIELLA Universidade Federal de Santa Catarina [email protected] ABSTRACT – Glass and nepheline glass-ceramics were obtained from Na2O-Al2O3-SiO2 system using additives and nucleating agents like TiO2, ZrO2, SnO2 e ZnO. Factorial design was used to determine optimal content of nucleating agents. The melt was performed at 1.600ºC and different contents of nepheline phase were obtained by a crystallization process. X-ray diffraction, differential thermal analysis and scanning electronic on microscopy on used to characterize glass and glass ceramics. The results showed that TiO2 and ZnO, when together, decrease the melting viscosity and treatment temperatures, producing a refined microstructure. Keywords: GLASS-CERAMIC – NEPHELINE – NUCLEATING AGENT. RESUMO – Foram obtidos vidros e vitrocerâmicos de nefelina a partir do sistema Na2O-Al2O3-SiO2, utilizando diferentes aditivos e agentes nucleantes: TiO2, ZrO2, SnO2 e ZnO. A quantidade ótima de agente nucleante em cada composição foi determinada mediante modelamento fatorial. A fusão foi realizada a 1.600ºC e os tratamentos de nucleação e crescimento foram realizados de forma a obter amostras com diferentes teores de fase nefelina. As técnicas de caracterização utilizadas foram: difração de raios-X, análise térmica diferencial e microscopia eletrônica de varredura. Os resultados mostraram que TiO2 e ZnO adicionados juntos diminuem a viscosidade de envase. Além disso, diminuem as temperaturas de tratamento térmico e favorecem a cristalização do vidro, refinando a microestrutura do vitrocerâmico. Palavras-chave: VITROCERÂMICO – NEFELINA – AGENTE NUCLEANTE. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 67-74 67 C&T15.book Page 68 Friday, September 12, 2003 9:06 AM INTRODUCTION G lass-ceramics are defined as polycrystalline materials, with residual amorphous phase, obtained from glass melting and controlled crystallization (Strnad, 1984). These materials are interesting because of their specific properties and use in various fields. Its properties originate from the parent glass composition and the microstructure control that can be manipulated during crystallization heat treatment. An important advantage of glass-ceramics over crystalline materials is the capacity to produce complex shapes. Another advantage, when compared to sintered powder materials, is the absence of pores in the structure. The strength and toughness of glass-ceramic are usually higher than those of the parent glass. Both properties of glass and glass-ceramic can be controlled by adjusting the composition in order to match the thermal expansion coefficient. During the last three decades glass-ceramics containing nepheline (Na3KAl4Si4O16) as crystalline phase have been developed for several uses such as: material for coating spaceships, dental prostheses, tableware, dinnerware and material resistant to acids (MacDowell, 1984; Volf, 1984). Studies on nepheline glass-ceramics (Duke, 1971; MacDowwell, 1982; Megles, 1972) indicated the optimal range inside the phase diagram Na2O-Al2O3-SiO2 and the efficiency of TiO2, ZrO2, ZnO, SnO2 and Rb2O as additive and nucleating agents. Additionally, the simultaneous use of TiO2 with other nucleating agent presented significant modifications in the microstructure and in the properties such as: rupture module, density and thermal expansion coefficient. In this work, nepheline glass-ceramic was obtained from raw mineral materials. Factorial design methodology was used to study the optimal amount of the nucleating agents. It was also used to minimize the number of heat treatment experiments and to verify the influence of the nucleation temperature, holding time of crystal growth and growth temperature (Montgomery, 1984). EXPERIMENTAL PROCEDURE The raw materials used in the glass compositions were: nepheline (a mineral containing the 68 phases nepheline, microline and albite feldspars), sodium carbonate, alumina, TiO2, ZrO2, SnO2 and ZnO. Glass compositions were established in nepheline stoichiometric composition. In figure 1 of the phase diagram Na2O-Al2O3-SiO2 (Levin et al., 1974), we can see the nepheline composition: 21,82% Na2O, 35,89% Al2O3 and 42,29% SiO2 in weight. To reach this composition, the sum of 8,1% of Na2O and 8,3% of K2O, in weight, originating from the nepheline, was considered as 16,4% of Na2O. The addition of sodium carbonate was necessary for the correction of Na2O, since the stoichiometric proportion of Na:K in the nepheline was 3:1. Table 1 shows V1 containing TiO2 and ZrO2, V2 containing TiO2 and SnO2 and V3 containing TiO2 and ZnO. The additive values mentioned in the literature were used in V1, V2 and V3 (Duke, 1971; Megles, 1972). The mixtures were melted at 1.600ºC for 2 hours in an alumina crucible, at an electric laboratory furnace, with a heating rate of 10ºC/min. The optimal amount of nucleating agents for each one of the compositions V1, V2 and V3 was studied through a factorial design 32: 2 variables in 3 levels. The two variables were: TiO2 and ZrO2 contents for V1, TiO2 and SnO2 contents for V2 and TiO2 and ZnO contents for V3. Each additive was tested in 3 levels: low, medium and high, according to table 2. In this design, composed of 9 experiments for each composition, a block of 3 experiments only, was performed, with the other 2 combinations of the first block. Table 2 shows the glass compositions in weight. Transparency, color, homogeneity and viscosity were the parameters used to choose the best compositions: V11, V20 and V31 (tab. 1). Powdered samples of V11, V20 and V31 were characterized through differential thermal analysis (DTA) to find the vitreous transition range and the crystallization temperature (TC) (fig. 2). Temperature values of vitreous transition (Tg) and TC were used for heat treatment, performed through factorial design 33. In the design 33, composed of 27 different combinations, a block of 9 experiments only was performed. The parameters studied were: nucleation temperature (TN), holding Junho • 2000 C&T15.book Page 69 Friday, September 12, 2003 9:06 AM time of crystal growth (tC) and growth temperature (TC), while the nucleation holding time (tN) was maintained constant. Table 3 displays an outline of the 9 testssals performed for each of the 3 glasses: A, B, C, D, E, F, G, H and I, and, in table 4, the low, medium and high values are presented. Monolithic glass samples were inserted in the oven for the crystallization process during the holding time. X-ray diffraction of the glasses and glassceramics was performed in monolithic samples, using Philips Xpert equipment (Cu Kα radiation). The X-ray patterns presented in figures 3, 4 and 5 are relative to the glasses and glass-ceramics V11, V20 and V31, respectively. The samples were etched with oxalic acid for the microstructure analysis, performed in a scanning electron microscope (SEM) (fig. 6 and 7). RESULTS AND DISCUSSIONS Table 1 shows the studied glass compositions, where V2 and V3 compositions are suitable for region rich in alkali in figure 1, and V1 composition is rich in former oxide. Glasses from Na2O-Al2O3-SiO2 system have high melting viscosity, which was the criterion used to define the optimal work range. Other compositions of this diagram, suggested by Tashiro (1977) and Duke (1977), were also considered regarding the same criterion, but did not achieve good results. The parameters used to compare glass compositions were molar proportions among the following oxides: formers, modifiers and intermediates. The proportion of SiO2/(Na2O+K2O) was 2,17 for V1 and 1,78 for V2 and V3, while the molar proportion of SiO2/Al2O3 was 0,79 for V1 and 0,64 for V2 and V3. In other words, V1 is richer in the forming oxide SiO2 than V2 and V3. Fig. 1. Compositions studied on phase diagram Na2O-Al2O3-SiO2. Fases cristalinas: Quartzo – SiO2 Tridimita – SiO2 Cristobalita – SiO2 Corundum – AI203 Mulita – 3 AI203. 2SiO2 Albita – Na2O. AI203. 6SiO2 Nefelina – Na2O. Ai203. 2SiO2 Carnegieite – Na2O. AI203. 2SiO2 REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 67-74 69 C&T15.book Page 70 Friday, September 12, 2003 9:06 AM As shown in figure 1, Duke (1973) defined the work range as a hexagon centered in the stoichiometric composition, while Megles (1972) worked in richer regions of SiO2. Formulations with more Al2O3 tend to present smaller melt viscosity. It occurs due to an increase of the proportion Al2O3:Na2O and the amount of Al ions increases with coordination 6, until Al2O3:Na2O 1:1 composition, where only coordination 4 occurs. In other words, until the same molar proportion, Al2O3 acts as glass forming, and from this point it acts as a modifier, reducing the viscosity and increasing the density of the vitreous system (Volf, 1984). Concentration of Al2O3 around 30 wt%, resulting in a glass-ceramics of high dimensional stability, even when the working temperature reaches 1.200ºC, although a concentration higher than 38% increases the liquidus temperature (Duke, 1973). The K+ ion, when present in higher concentrations of 3 wt%, has the role of developing transparent glasses and glass-ceramics. However when used in the same Na+ ion concentrations does not help crystallization (Duke, 1973). It was observed that it is indispensable to introduce at least one nucleating agent for crystallization of this glass system. TiO2 was used in all of the 3 glasses, since its action as nucleating agent is known. Formulations containing only TiO2 reduced the melt viscosity when present in concentrations above 10%. On the other hand, when TiO2 acts together with ZnO or SnO2, the viscosity decreases with smaller amounts of the additive. TiO2 used together with ZnO or SnO2 favor the acquisition of more transparent glasses than those ones produced with TiO2 and ZrO2. The results, referring to the additive behavior, are in accordance with the literature (Duke, 1973). This demonstrates the efficiency of using two or more additives to decrease the viscosity, to refine the microstructure and to increase the crystallinity. The additive can act in differentiated ways: as nucleating agents and as a microstructure refining agent; an overlap of these mechanisms can also acus. TiO2 is a nucleating agent used in several systems in wide concentrations, although its performance is still discussed. In this system, TiO2 can be introduced from 5 to 15 wt% (Duke, 1973). The mechanism pro- 70 posed by Beall (1982) for the nucleation is based on the following stages: (i) separation of the amorphous phase, forming islands rich in Ti, (ii) separation of anatase nuclei, (iii) nucleation of carnegeite metastable crystals (NaAlSiO4) and (iv) transformation of the carnegeite in nepheline. ZrO2 is usually used in contents that vary from 0,5 to 5%, with a solubility of 3,4% in silicate glasses which increase the viscosity of the vitreous system (Tashiro, 1977; and McMillan, 1964). SnO2 can be introduced in contents from rarying 2 to 8% and ZnO from 1 to 10% (Duke, 1973; Tashiro, 1977). The determination of the optimal amount of additive for the studied composition was necessary since an excessive amount of nucleating agent result in a coarse microstructure (Duke, 1973), while insufficient contents disfavor the homogeneity. Table 2 displays the additive levels introduced in the 3 compositions V11, V20 and V31. All the additives were tested in 3 levels, except for ZrO2 which was tested in only 2, due to the fact of increasing viscosity which is a process restriction property. The medium level of TiO2 was adjusted for 4,5% in V3 composition, because TiO2, when combined with ZnO, strongly reduces the viscosity in an accentuated way. The optimized compositions were the following: medium level for V1, low level for V2 and medium level for V3, orV11, V20 and V31, respectively. Tab. 1. Composition of the glasses (wt.%). V1 V11 V2 V20 V3 Na2O K2O CaO Al2O3 SiO2 TiO2 ZrO2 SnO2 ZnO 8,49 6,40 1,18 30,33 40,83 10,22 2,55 – – 8,79 6,63 1,22 31,40 42,26 7,16 2,56 – – 10,66 5,46 1,00 32,41 34,82 10,44 – 5,22 – 11,97 6,13 1,13 36,41 39,12 3,15 – 2,10 – 11,84 6,07 1,11 36,00 38,69 3,15 – – 3,15 Tab. 2. Levels of nucleating agents contents. LOW MEDIUM TiO2 ZrO2 SnO2 ZnO 3,0 2,0 2,0 3,0 7,0 2,5 4,0 4,5 V31 11,38 5,83 1,07 34,60 37,18 5,23 – – 4,71 HIGH 10,0 2,5 5,0 6,0 Junho • 2000 C&T15.book Page 71 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Figure 2 shows the DTA curves of the glasses for V11, V20 and V31 compositions. The typical glass behavior is observed by a change of the slope line, indicating the interval of a vitreous transition, and the exothermal peak, indicating the crystallization temperature (TC). The temperature medium value between the beginning and the end of the vitreous transition interval was assumed as Tg. The DTA glass curves for V11 presents a less intense and defined crystallization peak than for V20 and V30. Another observed fact is that the width of TC peak increases progressively from V20 to V31 and V11. DTA analysis, performed in monolithic samples, showed that TC peaks stayed the same temperature for the three glasses, reducing its height significantly. This proves that the increase of the superficial area did not influence the TC value, indicating the bulk crystallization mechanism. Tg and TC temperatures are: 705ºC and 871ºC for V11, 734ºC and 975ºC for V20 and 661ºC and 905ºC for V31, respectively. o DTA ( V) µ 905 C V31 o V22 o 871 C 200 400 600 800 V11 1000 1200 o Temperature (C) In order to obtain different contents of crystalline phase in glass-ceramics, designed experiments were condeted as described in tables 3 and 4. The thermal treatments were performed according to the criterion of nucleating the samples in temperatures superior than each glass Tg, in settled times. The crystal growth was done at TC and in temperatures immediately inferior and superior to TC, in variable times. Since glass V11 TC peak is broad and less intense, the values of TN and TC of the thermal treatment are close. This implicates in overlapping nucleation and crystallization events, which REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 67-74 Tab. 3. Experiments design for the thermal treatment. TC LOW TC MEDIUM TC HIGH TN low TN medium TN high tC low A tC medium D tC high G tC high B tC low E tC medium H tC medium C tC high F tC low I Tab. 4. Thermal treatment parameter values. LEVELS TN (OC) tN (MIN) TC (OC) tC (MIN) V11 V20 V30 Fig. 2. DTA glass curves of V11, V20 and V31. 975 C hinder the microstructure control. In the other glasses, V20 and V31, the nucleation and crystallization events happened separately. Low Medium High Low Medium High Low Medium High 775 795 815 800 820 840 730 750 770 30 30 30 15 15 15 15 15 15 850 930 1008 925 975 1000 860 905 950 30 60 120 15 30 60 15 60 120 The sequences of the X-ray patterns presented in figures 3, 4 and 5 show the behavior of the glasses V11, V20 and V31 after heat treatments A, B, C, D, E, F, G, H and I. It is possible to observe that a crystalline phase did not occur in all treatments. However where it happened, the identified phase was nepheline (Na3K)Al4Si4O16 (JCPDS 9-338). In this case, a preferential growth of the peaks relative to the orientations (002) and (004) was verified. Even in the initial crystallization stages the preferential growth in the axis “c” of the nepheline hexagonal structure occurred. The heat treatments performed in V11 did not enhance crystallization, except for V11-F (TN = 795oC; tN = 30 min; TC = 1.008ºC and tC = 120 min), as shown in the defined peaks of the X-ray pattern. DTA results (fig.1), where TC is not well defined, prove that glass V11 is hard to crystallize. But the sequences of the treatments in V20 and V31 characterize glass-ceramics with several crystallization stages, besides reaching high crystallinity, as in V20-F (TN = 820ºC; tN = 15 min; TC = 1.000ºC and tC = 60 min) and V20-H (TN = 840ºC; tN = 15 min; TC = 975ºC and tC = 30 71 C&T15.book Page 72 Friday, September 12, 2003 9:06 AM min) and V31-I (TN = 770ºC; tN = 15 min; TC = 950ºC and tC = 15 min). Intensity (c.p.s.) Fig. 3. X-ray patterns of glass V11 after the heat treatments A, B, C, D, E, F, G, H and I. F I H G E D C B A 20 25 30 35 40 45 2θ Fig. 4. X-ray patterns of glass V20 after the heat treatments A, B, C, D, E, F, G, H and I. Intensity (c.p.s.) H F I G E D C B A 20 25 30 35 40 45 2θ Fig. 5. X-ray patterns of glass V31 after the heat treatments A, B, C, D, E, F, G, H and I. The microstructure analysis performed in the glass-ceramics samples showed the microstructure refinement. Figures 6 and 7 show glass V20 micrography after heat treatment F, where it is possible to verify the uniformity, high crystallinity and high density. The crystals are fine disks, shaped with 150 nm diameter and thickness around 30 nm. In other samples with high crystallinity, V11 F and V31 I, analysis problems were found in SEM due to high resolution demanded in such refined microstructures. All the analyzed samples presented homogeneous bulk crystallization, a crystal formation front starting from the surface was not having been observed. These micrographs prove the mechanism of bulk crystallization and agree with the results obtained by DTA, where the powdered and monolithic samples presented the same values of TC. Another outstanding fact is the optical property of the material, relative to transparency. The glass-ceramics obtained from V20 and V31 are translucent, while those obtained from V11 are opaque. This fact can be correlated with the nucleating agent used, therefore ZrO2 favors the opacity of the glass. In the present case, contents above 2,5% were responsible for non homogeneous samples after crystallization, in spite of literature indication of the ZrO2 ability in refining the microstructure. SnO2, used up to 3%, is indicated to favor transparent and brilliant glass-ceramics, while ZnO is indicated for microstructure refinement (Tashiro, 1977), according to the obtained results. The fact that the microstructure has nanoparticles can explain the samples translucence of the samples, since this property is accentuated by microstructure refinement. Fig. 6. Microstructure of glass V20-F, after heat treatment (TN = 820ºC; tN = 15 min; TC = 1.000ºC and tC = 60 min). Intensity (c.p.s.) I H G F E D C B A 20 25 30 35 40 45 2θ 72 Junho • 2000 C&T15.book Page 73 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Fig. 7. Microstructure of glass V20-F, showing nepheline crystals with 150 nm diameter. CONCLUSIONS This study concluded that: • The use of nepheline, as a raw material, is viable for glass and glass-ceramics production. • Melting viscosity was the process parameter which defined the region around the stoichiometric composition of the nepheline for optimal working. • TiO2 contents above 7% favor the crystallization during melting, being the optimization of nucleating agent an important stage of heat treatment control. • Among the nucleating agents used, TiO2 and ZnO present better efficiency, reducing viscosity, promoting crystallization and resulting in translucent glass-ceramics. • Melting temperature at 1.600ºC can be considered high, but is compatible with industrial processes, if the temperature and time of thermal treatments are optimized. • Glass V11, with TiO2 and ZrO2, presented overlapping of the nucleation and crystallization events, hindering crystalline phase control. The glasses V20 and V31, with TiO2 and SnO2 and TiO2 and ZnO, respectively, showed that they can be obtained with several crystalline phase contents, depending on the thermal treatment used. • Factorial design proved to be a suitable tool to optimize the experiments, making possible the simultaneous study of the variables TN, TC and tC possible. The number of measurements was reduced from 27 to 9 through a block experimentation only. • The fact that glasses crystallize the nepheline phase only is a positive result which helps in the microstructure control. • The fine microstructure showed disk shaped crystals, with a medium diameter around 120 nm and a thickness of 30 nm. • This refined microstructure was the result of several process parameters: (i) optimization of nucleating agent contents, (ii) use of two nucleating agents and (iii) simultaneous optimization of TN, TC and tC. REFERENCES BEALL, G.H. & PIERSON, J.E. Method of Making Peraluminous Nepheline/Kalsilite Glass-Ceramics. 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Este trabalho mostra alguns resultados relativos a mudanças nas propriedades térmicas – por exemplo, o ponto de fusão (Tm), entalpia de fusão (DHm) e cristalinidade (C) – de polímeros biodegradáveis, como o polihidroxibutirato (PHB) e a policaprolactona (PCL), quando submetidos à moldagem por compressão a quente e à biodegradação por um pool de microrganismos. Os resultados evidenciam que o processamento do material reduz a cristalinidade somente do PHB, ou seja, aumenta sua fase amorfa, fato que torna o polímero mais suscetível a permeação de água e ataques de microorganismos, conforme foi constatado no ensaio de biodegradabilidade em fungos. Por outro lado, não foram observadas mudanças nas propriedades térmicas do PCL. Palavras-chave: POLÍMERO – DEGRADAÇÃO – POLÍMERO BIODEGRADÁVEL – PCL E PHB. ABSTRACT – The use of polymeric material has been growing in our daily life. A great number of applications has been developed and it is strongly related to the morphology, mechanical and thermal characteristics of the materials. However, its increase has been promoted serious environment problems. The aim of this work is to show some results concerning changes on the thermal properties – e.g. melting temperature (Tm), melting enthalpy (DHm) and crystallinity (C) – of biodegradable polymers, such as polyhydroxybutyrate (PHB) and polycaprolactone (PCL) molded by hot compression by high temperature and the biodegradation through a pool of microorganisms. The results allow concluding that the processing reduces the crystallinity of PHB, which it increases its amorphous phase, which makes it more susceptible to the water permeation and microorganisms attacks as we can see in biodegradation test with a pool of microorganisms. On the other hand, changes are not observed in the PCL thermal properties. Keywords: POLYMER – DEGRADATION – BIODEGRADABLE POLYMER – PCL AND PHB. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 75-80 75 C&T15.book Page 76 Friday, September 12, 2003 9:06 AM INTRODUÇÃO C onsiderando a extensão do uso de materiais poliméricos em produtos como canetas, conectores telefônicos, embalagens e revestimentos de equipamentos eletrônicos, é difícil imaginar o mundo hoje em dia sem a presença dos plásticos. Porém, o plástico convencional apresenta taxas de degradação extremamente baixas, podendo gerar problemas sérios à manutenção do equilíbrio ambiental. Grande quantidade de lixo plástico acumula-se dia após dia, pondo em risco as relações existentes em ecossistemas terrestres e aquáticos (Rosa & Carraro, 1999). Alternativas são procuradas com o objetivo de substituir o polímero convencional por materiais mais compatíveis com a filosofia de preservação ambiental. Um das soluções encontradas é inserir o polímero biodegradável no mercado de plásticos. Alguma pesquisa inicial nesse campo tem sido incentivada, por suas aplicações potenciais na área biomédica. Atualmente, a necessidade de reduzir a quantidade de resíduos plásticos descartada no meio ambiente tem revelado a área de polímeros biodegradáveis como de grande interesse entre os investigadores (Scott & Gilead, 1995). Do ponto de vista científico, o polímero biodegradável é definido como plásticos cuja degradação resulta primariamente da ação de microrganismos de ocorrência natural, entre eles, bactérias, fungos ou algas. Materiais como compostos de amido, polivinil álcool, polilactatos e polihidroxibutirato são exemplos de polímeros biodegradáveis. Testes de biodegradabilidade foram desenvolvidos a fim de quantificar a capacidade de os microorganismos degradarem esses polímeros. Métodos padronizados para investigar a biodegradação de plásticos sob condições de laboratório foram publicados pela American Society for Testing and Materials (ASTM). As aplicações concretas desses polímeros relacionam-se firmemente às características mecânicas e à morfologia do material. Cabe também aqui considerar que esses materiais podem ser degradados em um pequeno período de tempo, dependendo da condição em que são expostos. Sabe-se que, durante o processamento, os polímeros são fundidos e moldados a um formato desejado e, assim, podem sofrer 76 certa degradação causada pela temperatura e por forças mecânicas às quais o material é submetido. A degradação induzida por cisalhamento e a degradação térmica, provenientes do processamento, podem causar alterações na morfologia e nas características mecânicas do material puro (Barak, 1991). Comparando as propriedades físicas do polímero, antes e após o processamento, pode-se inferir sobre suas aplicações e até mesmo construir modelos capazes de predizer se ele irá sofrer ou não degradação biológica (Chiellini & Solaro, 1996). A determinação da relação entre a fração cristalina/amorfa fornece informações relativas a densidade, dureza e resistência mecânica e térmica, como também elasticidade, maciez e flexibilidade do polímero (Mano, 1985). A cristalinidade, definida como um “arranjo ordenado e uma repetição regular de estruturas atômicas ou moleculares no espaço”, pode ser indiretamente medida por uma análise de DSC (Calorimetria Exploratória Diferencial). Esse método de análise térmica consiste em submeter a amostra a uma variação programada de temperatura e, com base nisso, a quantia de energia medida será aquela necessária para manter a amostra, bem como o material inerte de referência, na mesma temperatura (Raghavan, 1995). Entre os polímeros biodegradáveis, o polihidroxibutirato (PHB) é um dos que tem atraído mais a atenção dos pesquisadores. Essa substância é produzida pela bactéria Alcaligenes eutrophorus, que a acumula sob a forma de grânulos intracelulares a partir de substâncias como a glicose e a sacarose. O polímero é completamente degradado, gerando CO2 e convertido à biomassa por bactérias, fungos e leveduras. Há muitas aplicações para esse polímero biodegradável, seja na indústria de embalagens, na agricultura, seja em áreas médicas, especialmente na ortopedia. Um segundo polímero biodegradável que vem sendo bastante estudado é a policaprolactona (PCL), um poliéster alifático cuja aplicação está sendo investigada particularmente no contexto de sistemas de liberação de drogas (Chiellini & Solaro, 1996). Acredita-se que, no solo, enzimas extracelulares sejam as responsáveis por quebrar as extensas cadeias de PCL antes que os microorganismos tenham a capacidade de assimilar o polímero. Junho • 2000 C&T15.book Page 77 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Alguns trabalhos têm sido feitos com diferentes microorganismos visando verificar a biodegradabilidade. A capacidade de microorganismos que degradam lignina para atacar plásticos degradáveis foi investigada em frasco de cultura com agitação (Lee, 1991). O plástico degradável usado foi produzido comercialmente por Polylean Archer-DanielMidland, contendo pró-oxidante e 6% de amido. Nesse experimento foram usadas as bactérias Streptomyces virisosporus T7A, S. badius 252 e S. setonii 75Vi2 e o fungo Phanerochaete chfysosporium, conhecidos como degradantes de lignina. A atividade pró-oxidante foi acelerada colocando-se um filme polimérico em um forno seco a 70˚C sob pressão atmosférica por 0, 4, 8, 12, 16 ou 20 dias. Também foi investigado o efeito da luz ultravioleta 365 nm por 2, 4 e 8 semanas na biodegradabilidade do plástico. Para o teste nos frascos de cultura, os plásticos foram desinfetados quimicamente e incubados com agitação a 125 rpm a 37˚C em meio de cultura com 0,6% de extrato de levedura (pH = 7,1) para as espécies de Streptomyces e a 30˚C em meio com 3% de extrato de malte (pH = 4,5) para a linhagem de fungo durante 4 semanas, juntamente com um controle sem inóculo para cada tratamento. Os resultados da perda de massa foram inconclusivos em razão do acúmulo de massa proveniente do crescimento dos microorganismos. Os filmes tratados com irradiação da luz ultravioleta por 2 e 4 semanas mostraram maior biodegradação para todas as três bactérias. Para a linhagem de fungo nenhuma degradação foi visualmente observada. Leonas & Gorden (1996) estudaram os efeitos do ataque bacteriano na degradação de filmes plásticos sob condições simuladas de ambientes aquáticos. Seis diferentes tipos de plásticos bio e fotodegradáveis foram colocados em aquário e expostos à luz UVA. Nesse trabalho, polietileno de baixa-densidade, copolímeros de polietileno, poliestireno e polietileno +6% amido de milho foram expostos em ambientes aquáticos e a populações bacterianas e a resistência à tração foi acompanhada paralelamente à degradação dos filmes plásticos. Os polímeros biodegradáveis, descritos brevemente acima, possuem um campo de aplicação potencial muito extenso, dentro das exigências de uso de baixo REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 75-80 tempo de vida, como embalagens em geral, “recipiente” que envolve as mudas na agricultura, entre outras utilizações (Scott & Gilead, 1995). Destaca-se, dessa forma, a relevância dessas considerações, baseadas no princípio da melhoria da qualidade de vida como uma necessidade e preocupação cada vez mais presentes. Nesse estudo foram selecionados dois tipos de polímeros biodegradáveis: o polihidroxibutirato (PHB) e a policaprolactona (PCL), dos quais procurou-se monitorar as propriedades térmicas dos materiais originais e após o processamento de moldagem por compressão. MATERIAIS E MÉTODOS Materiais As amostras usadas nesse trabalho foram o PHB, da Copersucar S.A., e o PCL do tipo P-767, da Union Carbide, com índice de fluidez 1,9 ± 0,3 (ASTM D-1238) e densidade 1,14g/cm3, originalmente obtidas em forma de pó e “pellets”, respectivamente. Como controle utilizou-se o polietileno de baixa densidade (PEBD), da Union Carbide. Análises Térmicas As análises térmicas foram feitas em triplicata, usando equipamento da TA Instruments Modelo DSC 2000. Os polímeros originais e processados (711 mg) foram aquecidos até a fusão em “panelas” de alumínio padrão. A taxa de aquecimento foi de 10,0ºC/min. e a corrida foi realizada na faixa de temperatura de 50ºC até 350ºC para PCL, e de 50ºC até 250ºC, para o PHB. O instrumento foi calibrado com o elemento químico índio (Tm = 156,4ºC, ∆Hm = 28,47 kJ/kg). As amostras foram processadas pelo método de moldagem por compressão, usando-se uma temperatura do molde de 205ºC para o PHB e 95ºC para o PCL e uma pressão de 5 toneladas por 5 minutos para ambos o polímeros. Para calcular a cristalinidade dos materiais, o calor de fusão do polímero 100% cristalino foi extraído da literatura (∆H0 PHB = 146,0 J/g and ∆H0 PCL = 81,6 J/g ) (Chiellini & Solaro, 1996). Microorganismos Aspergillus niger (ATCC 9642), Penicillium pinophillum (ATCC 9644), Chaetomium globosum 77 C&T15.book Page 78 Friday, September 12, 2003 9:06 AM (ATCC 6205), Aerobasidium pullulans (ATCC 15233) e Gliocadium virens (ATCC 9645). O G. virens foi obtido do Instituto Adolfo Lutz e os outros microorganismos, adquiridos da Coleção de Culturas da Fundação Tropical André Tosello. Inóculo As linhagens dos microrganismos acima especificadas cresceram separadamente em um meio apropriado a 28ºC, durante duas semanas. As suspensões de esporos foram obtidas colocando-se 10 ml de uma solução 0,5% (m/v) de Tween 80 numa Placa de Petri e os esporos foram cuidadosamente removidos com uma alça de Drigalsky. Os esporos foram vertidos em um frasco Erlenmeyer de 125 ml, previamente esterilizado, contendo 45 ml de água esterilizada e de 10 a 15 pérolas de vidro, de 5 mm em diâmetro, e, então, agitado vigorosamente. As suspensões foram filtradas em lã de vidro e, em seguida, centrifugadas. O sobrenadante foi descartado e o resíduo resuspenso em 50 ml de água esterilizada. Os esporos obtidos a partir de cada um dos fungos foram lavados dessa maneira por três vezes. A suspensão final teve o número de esporos contados microscopicamente com o auxílio de uma câmara de Newbauer (hematímetro) e, quando necessário, diluídos, para obter 106 ± 105 esporos/ml. Mistura das Suspensões de Esporos dos Fungos – A operação mencionada acima foi feita para cada organismo usado no teste e volumes iguais da suspensão de esporos resultante foram misturados para se obter a suspensão final de esporos. profundidade com meio de cultura. Em seguida, a superfície foi inoculada com a suspensão contendo a mistura de esporos, de forma que toda a superfície foi umedecida. As placas foram incubadas em estufas reguladas a 28ºC de temperatura e 85% de umidade relativa durante 28, 42 e 63 dias. Foram feitas três repetições/amostra para cada tempo de incubação especificado (28, 42 e 63 dias). A quantidade de meio de cultura não foi aletrada no decorrer do experimento. Como controle, foi utilizado um polímero não biodegradável, o polietileno. RESULTADOS As curvas típicas obtidas por Calorimetria Exploratória Diferencial (DSC) para o PCL e PHB original e após o processamento são mostradas nas figuras 1 e 2, respectivamente. Fig. 1. Curva de DSC do PCL original (a) e processado (b). Meio de cultura O meio de cultura usado foi preparado com a seguinte composição (por litro): KH2PO4, 0,7g; MgSO4.7H2O, 0,7g; NH4NO3, 1,0g; NaCl, 0,005g; FeSO4.7H2O, 0,002g; ZnSO4.7H2O, 0,002g; MnSO4.H2O, 0,001g; K2HPO4, 0,7g; Agar, 15,0g. O pH foi ajustado a 6,5 com adição de 0,001N NaOH, quando necessário. Inoculação Os filmes poliméricos de PHB, PCL e PEBD foram colocados na superfície das placas de Petri esterilizadas contendo uma camada de 3 a 6 mm de 78 Na tabela 1 são mostrados os resultados da Análise Térmica, obtidos por DSC. A porcentagem de cristalinidade foi calculada a partir dos dados do calor de fusão. Junho • 2000 C&T15.book Page 79 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Fig. 2. Curva de DSC do PHB original (a) e processado (b). Tab. 1. Valores médios das propriedades térmicas e morfológicas do PCL e PHB, puro e processado, e seus respectivos desvios-padrão, com 95% de confiança. TEMPERA- CALOR DE CRISTALINIAMOSTRA TOTAL TURA DE FUSÃO (J/G) DADE(%) FUSÃO (º C) PCL original 68,5 ± 0,7 82,2 ± 1,7 PCL processado 65,6 ± 0,6 78,2 ± 5,8 PHB original 179,9 ± 1,8 104,9 ± 4,5 PHB processado 177,8 ± 0,8 86,2 ± 4,3 58,9 ± 1,6 56,0 ± 0,7 71,9 ± 4,5 59,1 ± 3,6 Na tabela 2 são mostrados os resultados da perda de massa obtidos com o PHB e PCL quando submetidos ao pool de fungos. Tab. 2. Variação da massa (%) dos polímeros durante o tempo do bioensaio. POLÍMEROS PERDA DE MASSA (%) PHB PCL LDPE (controle) 28 dias 10,29 1,21 0,42 REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 75-80 42 dias 17,67 1,32 0,36 63 dias 40,39 2,12 0,21 DISCUSSÃO Analisando-se as curvas de DSC do PHB original, como ilustrado na figura 2(a), nota-se a existência de ombros prévios do pico de fusão, fato que pode indicar a presença de cadeias poliméricas menores do que a massa molar média. Esse comportamento não é observado no mesmo material depois de seu processamento, ou seja, verifica-se apenas um pico de fusão a uma temperatura ligeiramente inferior. Percebe-se que o processamento gera um valor mais baixo do calor de fusão e da cristalinidade total do PHB processado quando comparado com a amostra original. O PCL não apresenta alterações significativas relativas à cristalinidade, antes e após ser processado, e o mesmo comportamento é observado em relação aos valores do calor de fusão do material (figura 1 e tabela 1). Porém, houve uma redução de 3,0ºC na temperatura de fusão média do PCL, o que pode ser atribuído às condições de processamento do polímero. Observa-se que, no caso de PHB, as formas de degradação provenientes do processamento são capazes de alterar a cristalinidade desse material e diminuem a fração cristalina, aumentando, por conseqüência, a fração amorfa. Essas mudanças estruturais podem trazer um aumento na elasticidade e na flexibilidade, como também uma diminuição de densidade, rigidez, resistências mecânica e térmica e a ataques de solventes. A diminuição da resistência à dissolução em solventes pode gerar uma capacidade maior de permeação da água na fração amorfa, facilitando com isso o ataque dos microorganismos aos polímeros.2,5 O PHB mostrou-se mais susceptível ao ataque por fungos do que o PCL. Por conseguinte, a perda de massa é maior no PHB, se comparado ao PCL, como pode ser constatado na tabela 2, que revela 10% de perda de massa em 28 dias e 40% de perda de massa em 63 dias para o PHB. Com relação ao PCL, os resultados foram: 1,21% perda de massa em 28 dias e 2,12% em 63 dias. CONCLUSÕES A caracterização térmica e das propriedades morfológicas do PHB e do PCL indica a possibilidade de estabelecer campos potenciais de aplicações para os polímeros biodegradáveis estudados, por 79 C&T15.book Page 80 Friday, September 12, 2003 9:06 AM exemplo em embalagens, em que a flexibilidade é uma característica desejada. O processamento do PHB diminuiu a cristalinidade desse material em 17,8%, evidenciando uma facilitação ao ataque dos microorganismos sobre o polímero processado quando comparado com a amostra original. Uma evidência desse fato é que a média de perda de massa em 63 dias foi de 40,4%. Para o PCL, não houve alteração significativa em relação ao mesmo parâmetro. Agradecimentos A José Sebastião de Sá, Edson Teixeira e Paulo C. Porta Nova, da Union Carbide, e a Roberto Nonato, da Copersucar S. A., por suas colaborações. À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo incentivo, através do Projeto – Processo 1999 / 10.716-4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARAK, P. et al. Organic Chemicals in The Environment – Biodegradability Of Polyhidroxybutyrate (Co-Hydroxyvalerate) And Starch – Incorporeted Polyethylene Plastic Films In Soil. J. Environ. Qual., v. 20, pp. 173-179, 1991. CHIELLINI, E. & SOLARO, R. Biodegradable Polymeric Materials. Advanced Materials, 8 (4): 305-313, 1996. LEE, B. et al. Biodegradation of Degradable Plastic Polyethylene. Phanerochaete and Streptomyces species Applied and Environmental Microbiology, 57 (3): 678-685, 1991. LEONAS, K.K & GORDEN, R.W. Bacteria Associated with Desintegrating Plastics Films Under Simulated Aquatic Environments. Bull Environ. Contam.Toxicol, v. 56, pp. 948-955, 1996. MANO, E.B. Introdução a Polímeros. São Paulo: Edgard Blücher, p. 111, 1985. RAGHAVAN, D. Characterization of Biodegradable Plastics. Polym. Plast. Technol. Eng., 34 (1): 41-63, 1995. ROSA, D.S. & CARRARO, G. 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Os métodos utilizados na produção de plantas geneticamente modificadas podem ser classificados como diretos e indiretos. Os métodos diretos são aqueles que provocam modificações nas paredes e membranas celulares para introdução de DNA exógeno, através de processos físicos ou químicos. Entre eles, os mais eficientes são a eletroporação de protoplastos, a transformação mediada por PEG e o bombardeamento de partículas. O método indireto requer a utilização de um vetor biológico para a introdução do DNA na planta. Os vetores mais utilizados são a Agrobacterium tumefaciens e rhizogenes, patógenos vegetais com a capacidade de transferir parte de seu DNA para o genoma da planta. A transferência de genes mediada por agrobacterium tem sido bastante empregada, em razão de sua conveniência e da alta probabilidade de integração de uma ou poucas cópias do gene introduzido. Plantas transgênicas têm sido produzidas nas principais espécies cultivadas e levadas ao mercado consumidor, expressando aumento da qualidade nutricional ou resistência a herbicidas, insetos ou fungos. Palavras-chave: AGROBACTERIUM – BIOBALÍSTICA – ELETROPORAÇÃO – PLANTAS TRANSGÊNICAS – TRANSFORMAÇÃO GENÉTICA. ABSTRACT – The available gene transfer systems have been able to generate new plant varieties, better adapted to the environment and exhibiting improved crop productivity. The production of transgenic plants relies on the use of physical/chemical or biological means to introduce the transgene into the plant cells. Physical/chemical methods cause modifications to cell walls and plasma membranes, and foreign DNA is then delivered into the cell. Electroporation, PEGmediated transformation and particle bombardment are the more efficient and relevant direct techniques of transferring DNA into plant. Biological method requires the use of plant pathogens for the DNA introduction. Agrobacterium tumefaciens and a. Rhizogenes are the main pathogens used, which are able to infect and introduce part of their DNA into a receptive host. Agrobacterium-mediated gene transfer has been the method of choice due to convenience and high probability of single or low copy number integration. Transgenic plants have been obtained for the major crop species and introduced to the marked, expressing improved nutricional value, resistance to herbicides, insect or fungal pathogens. Keywords: AGROBACTERIUM – ELECTROPORATION – GENETIC TRANSFORMATION – PARTICLE BOMBARDMENT – TRANSGENIC PLANTS. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 81-90 81 C&T15.book Page 82 Friday, September 12, 2003 9:06 AM INTRODUÇÃO P or muitos anos, o único método disponível para a introdução de características de interesse em plantas foi o melhoramento clássico, envolvendo cruzamentos, seguidos pela seleção de plantas com fenótipo desejável. Porém, esse processo é lento, necessitando vários anos para produzir e liberar comercialmente uma nova variedade (Christou, 1992). A engenharia genética de plantas não só acelera o processo de melhoramento, como permite transpor as barreiras de incompatibilidade sexual através da hibridização somática ou da introdução de genes específicos em células vegetais, utilizando os métodos de transformação (Moraes & Fernandes, 1987). A transformação genética é o processo de introdução controlada de ácidos nucléicos exógenos em um genoma receptor, sem comprometer a viabilidade das células. Com os avanços da tecnologia de DNA recombinante, é possível transferir para plantas genes isolados de outras plantas, ou mesmo de animais e microrganismos (Perani et al., 1986), permitindo a criação de novas variedades que podem ser usadas em programas de melhoramento convencional. Até o presente, diversos genes foram introduzidos estavelmente em plantas, conferindo resistência a herbicidas, fungos, bactérias, vírus e insetos e resistência a estresses ambientais. Para que o processo de transformação seja efetivo, o DNA deve ser introduzido em células ou tecidos vegetais aptos a regenerar plantas completas. Um dos fatores limitantes na transformação genética tem sido a baixa eficiência das técnicas de cultura de tecidos vegetais in vitro. Aliado a isso, em muitas situações, a esterilidade total ou parcial das plantas transgênicas obtidas pode consistir em uma barreira para a finalização desse processo. Portanto, para iniciar os trabalhos de transformação, os aspectos relacionados à regeneração de plantas, através da cultura de tecidos, devem ser completamente elucidados. (Chilton et al., 1977) ou Agrobacterium rhizogenes (Chilton et al., 1982), de forma a intermediar a transferência de genes. Esse método tem sido bastante usado na obtenção de plantas transgênicas. Entretanto, algumas dicotiledôneas e a maioria das monocotiledôneas e gimnospermas não são suscetíveis, ou apresentam pouca suscetibilidade, à infecção pela Agrobacterium (Potrikus, 1990). Em alguns casos, a eficiência do processo de transformação pode ser aumentada com o uso de cepas supervirulentas de bactéria (Hansen et al., 1994) ou com a adição de compostos fenólicos ao meio de cultivo, como indutor da transferência do DNA bacteriano (Stachel et al., 1985). Os métodos diretos, também extensivamente adotados, não requerem a utilização de vetores biológicos, mas em muitos casos utilizam protoplastos, o que dificulta a regeneração de plantas. A eficiência do método de transformação vai depender da espécie em estudo e do tecido usado como alvo da transformação e, de maneira geral, os parâmetros devem ser otimizados para cada técnica. MÉTODOS DIRETOS Os métodos de transferência direta de genes utilizam processos físicos ou químicos que causam modificações nas paredes e membranas celulares, facilitando a introdução de DNA exógeno. Diversos métodos diretos têm sido propostos, variando em sua eficiência e praticidade. Entre eles, os métodos que resultaram em maior número de espécies transformadas foram a eletroporação de protoplastos, a transformação por polietilenoglicol e a aceleração de partículas (Fisk & Dandekar, 1993). As demais técnicas, como micro e macroinjeção, utilização de raios laser, microfibras de carboneto de silício e ultra-som, foram testadas para produção de plantas transgênicas. Porém, apresentaram baixa eficiência ou não foram reproduzíveis (Southgate et al., 1998). Eletroporação de Protoplastos DESENVOLVIMENTO A transferência de genes para espécies vegetais tem sido possível graças à manipulação genética de células, utilizando métodos diretos ou indiretos de transformação. O método indireto é aquele no qual se utiliza um vetor, como Agrobacterium tumefaciens 82 Protoplastos são definidos como células desprovidas de paredes celulares (Evans, 1991). Para a introdução de DNA usando a eletroporação, os protoplastos são expostos a pulsos curtos de corrente contínua e alta voltagem, em presença do DNA exógeno (Fromm et al., 1985). Esse tratamento induz Junho • 2000 C&T15.book Page 83 Friday, September 12, 2003 9:06 AM uma alteração reversível da permeabilidade da membrana plasmática e poros temporários são formados, permitindo a entrada do DNA nas células. A extensão da formação de poros é determinada pela intensidade e duração do pulso elétrico e pela concentração iônica do tampão de eletroporação. Os poros aumentam em tamanho e número com o aumento da duração e intensidade dos pulsos (Joersbo & Brunstedt, 1991; Finer et al., 1996). Parâmetros como tipo e duração dos pulsos elétricos, intensidade do campo elétrico, concentração e forma do DNA, presença ou ausência de DNA carreador, composição do tampão de eletroporação e temperatura de incubação dos protoplastos devem ser determinados. A transformação genética de plantas por eletroporação de protoplastos oferece a vantagem de não necessitar de um vetor biológico e de não haver barreira física para a introdução de DNA. É uma técnica rápida, simples e realizada sem agentes tóxicos às células, embora os pulsos elétricos possam ter efeito deletério na sobrevivência dos protoplastos e subseqüente regeneração de plantas. Algumas plantas transgênicas foram obtidas utilizando essa técnica (Shimamoto et al., 1989; Dale et al., 1993). O maior obstáculo do método está na dificuldade de regeneração de plantas a partir de protoplastos transformados. Mesmo quando a regeneração é obtida, as plantas podem apresentar problemas de redução de fertilidade (Rhodes et al., 1989), além de várias espécies ainda serem consideradas recalcitrantes para essa tecnologia (Birch, 1997). Uma alternativa para aumentar a eficiência da eletroporação tem sido a redução do tratamento enzimático para a retirada da parede celular. D’Halluin et al. (1992) obtiveram plantas transgênicas mediante a eletroporação de calos embriogênicos de Zea mays, com ferimento mecânico do tecido alvo. Mais recentemente, foi sugerido que a indução de plasmólise parcial das células, imediatamente antes da eletroporação, substituiria o tratamento enzimático (Sabri et al., 1996). A associação de plasmólise e eletroporação permite a difusão do DNA em espaços intercelulares ou a penetração lenta do DNA pelos poros das paredes celulares, sendo o choque elétrico necessário apenas para permeabilizar a membrana plasmática (Dekeyser et al., 1990). Esse método poderia evitar os problemas REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 81-90 relacionados com o uso de protoplastos (Sabri et al., 1996). Absorção de DNA Mediada por PEG Polietilenoglicol (PEG), usado em combinação com Ca+2, Mg+2 e pH alcalino, promove a ligação do DNA exógeno à superfície dos protoplastos. O DNA é absorvido pela célula por endocitose. O PEG pode atuar, também, na proteção do DNA contra a atividade das nucleases (Finer et al., 1996). A freqüência de transformação, usando PEG, é de aproximadamente 1% e restrita a algumas espécies (Raybould & Gray, 1993). O tratamento com PEG pode danificar grande número de células, reduzindo a capacidade de regeneração. O peso molecular e a concentração do PEG são parâmetros que devem ser estabelecidos. Geralmente, é usado PEG 6000 em concentrações variando entre 15% e 25% (Finer et al., 1996). Outras variáveis devem, ainda, ser otimizadas, como pH, forma do DNA e concentração de Ca+2 ou Mg+2. O pré-tratamento dos protoplastos por 5 min a 45ºC pode aumentar a freqüência de transformação por inibir a atividade das nucleases (Finer et al., 1996). A desvantagem dessa técnica é a dependência de um sistema eficiente de regeneração de plantas completas a partir de protoplastos, atualmente restrito a poucas espécies. Apesar das limitações da técnica, algumas espécies, como fumo, arroz e Citrus, foram transformadas (Fisk & Dandekar, 1993). Bombardeamento de Partículas Esse método consiste na aceleração de micropartículas de metal, que atravessam a parede celular e a membrana plasmática, carreando DNA para o interior da célula (Sanford, 1988). O termo bombardeamento de partículas pode ser substituído por aceleração de microprojéteis ou método biolístico (Sanford, 1988). O método baseia-se no uso de um equipamento que produz uma força propulsora, usando pólvora, gás ou eletricidade, para acelerar micropartículas inertes, cobertas com DNA, em direção às células alvo. Após o bombardeamento, uma proporção de células atingidas permanece viável; o DNA é integrado no genoma vegetal e incorporado aos processos celulares de transcrição e 83 C&T15.book Page 84 Friday, September 12, 2003 9:06 AM tradução, resultando na expressão estável do gene introduzido (Finer et al., 1996). A maioria dos modelos biolísticos atuais emprega macroprojéteis, usados como veículo para aceleração dos microprojéteis colocados na sua superfície. Tipicamente, os macroprojéteis têm a forma de um cilindro plástico ou disco de metal (Finer et al., 1996). Um microprojétil é definido como qualquer partícula capaz de ser acelerada, de maneira que penetre nas células (Sanford, 1990). Deve ser pequeno o suficiente para entrar na célula sem ser letal, deve ser capaz de carregar DNA na sua superfície e ser denso a fim de atingir a energia cinética requerida para penetração das paredes celulares (Uchimiya et al., 1989). Os microprojéteis são fabricados usando metais de alta densidade, como tungstênio e ouro; são mais ou menos esféricos e medem cerca de 0,4 a 2,0 cm de diâmetro (Sanford, 1990). Os metais utilizados na produção de partículas devem ser quimicamente inertes para evitar reações adversas com o DNA exógeno ou componentes celulares. As partículas de tungstênio são mais baratas, porém, mais heterogêneas em tamanho e forma, quando comparadas com as de ouro (Hunold et al., 1994). A desvantagem do tungstênio está na possibilidade de as partículas sofrerem degradação catalítica com o passar do tempo, sendo tóxicas para alguns tipos de células (Russell et al., 1992). São também sujeitas à oxidação, o que afeta a adesão do DNA ou degrada o DNA aderido (Russell et al., 1992). As partículas de ouro são mais uniformes e inertes biologicamente, não causando danos às células. No entanto, elas tendem a se aglomerar irreversivelmente em soluções aquosas, reduzindo a eficiência do processo de introdução de DNA (Kikkert, 1993). As partículas de ouro, em razão da sua mais alta densidade, penetram no tecido até as camadas celulares mais profundas, ao passo que a maioria das partículas de tungstênio não penetra além das camadas superficiais (Hunold et al., 1994). Sendo assim, a relação entre o tipo de microprojéteis usado para o bombardeamento e a expressão temporária ou estável do gene introduzido deve ser avaliada para cada espécie e tecido estudados. 84 Existem vários modelos de aceleradores de partículas. O modelo mais utilizado, o PDS 1000/ He (Sanford et al., 1991), usa uma descarga de gás hélio em alta pressão (1.000-1.200 psi) para acelerar microprojéteis. Modificações nesse sistema permitiram a idealização de um aparelho de aceleração de partículas mais simplificado, utilizando pressões muito mais baixas do que a anteriormente descrita, chegando a 60 psi. Esse modelo, Influxo de Partículas (Finer et al., 1992) apresenta a vantagem de reduzir o dano causado aos tecidos. Modelos que não utilizam gás como força propulsora incluem o modelo Accell ‘ (McCabe & Christou, 1993) e o bombardeador a ar (Oard, 1993). O primeiro emprega a energia gerada pela vaporização de uma gota d’água através de uma descarga elétrica e o segundo usa ar comprimido para acelerar os microprojéteis. O uso do processo biolístico é bastante amplo e, quando comparado com a maioria dos métodos diretos de introdução de DNA em plantas, o bombardeamento de partículas apresenta várias vantagens. É uma técnica altamente versátil e de fácil adaptação, podendo ser aplicada a grande variedade de células e tecidos, incluindo suspensões (Klein et al., 1989; Fromm et al., 1990), calos (Vasil et al., 1985), tecidos meristemáticos (McCabe & Martinelli, 1993), embriões imaturos (Southgate et al., 1998) e embriões somáticos (Finer & McMullen, 1991; Santarém & Ferreira, 1997). Essa técnica tem permitido a regeneração de plantas transgênicas de maneira reproduzível e com menos variabilidade entre experimentos (Luthra et al., 1997). As metodologias empregadas são simples, eficientes e essencialmente idênticas, independentemente do tecido vegetal e do DNA exógeno empregado. Em adição ao seu uso para obtenção de organismos geneticamente transformados, o processo de bombardeamento de microprojéteis tem contribuído para os estudos dos mecanismos de expressão e regulação gênica (Birch, 1997). Algumas adaptações da biobalística têm sido propostas associando o bombardeamento ao método da Agrobacterium. Os microferimentos produzidos pela penetração das partículas nos tecidos bombardeados ampliam a área de infecção pela bactéria, aumentando a eficiência de transformação (Bidney et Junho • 2000 C&T15.book Page 85 Friday, September 12, 2003 9:06 AM al., 1992; Droste, 1998). Outro sistema que combina as vantagens da transformação por Agrobacterium com a alta eficiência do sistema biolístico foi descrito por Hansen & Chilton (1996). Essa técnica, denominada “agrolística”, permite a transferência do gene de interesse para o genoma da planta, sem que haja a integração das seqüências dos vetores. Isso ocorre em virtude da co-transformação de dois dos genes de virulência, juntamente com um marcador de seleção flanqueado pelas seqüências de bordas do T-DNA. MÉTODO INDIRETO Agrobacterium Agrobacterium é uma bactéria de solo, Gram negativa, aeróbica, pertencente à Família Rhizobiaceae (Zambrisky, 1988). Sua importância para os estudos de transformação de plantas reside na capacidade natural que esses patógenos possuem de introduzir DNA em plantas hospedeiras. Esse DNA é integrado e passa a ser expresso como parte do genoma da planta (Hohn, 1992). Como conseqüência dessa expressão, o padrão normal de desenvolvimento é alterado: A. tumefaciens causa a formação de tumores, ao passo que a infecção por A. rhizogenes resulta na proliferação de raízes (Lipp-Nissinen, 1993). As bactérias possuem plasmídeos que recebem denominações de acordo com a alteração de desenvolvimento vegetal que provocam: Ti, indutor de tumores, e Ri, indutor de raízes. Atualmente, a A. tumefaciens é a mais usada para estudos de transformação. Durante a infecção por A. tumefaciens, uma parte do plasmídeo Ti, denominada T-DNA ou DNA de transferência, é transferida para a célula vegetal e integrada no genoma (Hohn, 1992). Essa região contendo o T-DNA é definida por duas seqüências imperfeitas, conservadas e repetidas de 25 pares de bases, denominadas bordas direita e esquerda. Os genes do T-DNA são expressos somente nas células vegetais e são responsáveis pela produção excessiva de hormônios (auxinas e citocininas) ou pelo aumento da sensibilidade das células vegetais a esses compostos, levando à formação de tumores. Esses genes também são responsáveis pela produção de opinas, compostos usados como fonte REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 81-90 de carbono e nitrogênio pela bactéria (Willmitzer et al., 1980). Em muitos casos, a presença desses genes em células ou tecidos transformados é indesejável, pois impede a regeneração de plantas com fenótipo normal. Esse problema pode ser contornado por meio da técnica de “desarmamento” da Agrobacterium, na qual os genes podem ser inativados ou removidos. Na ausência de genes que regulem as rotas biossintéticas dos hormônios, as células transformadas podem ser identificadas pela inclusão de genes marcadores no T-DNA (uidA- β-glucuronidase) ou genes de resistência a antibióticos, como, por exemplo, hpt II (higromicina) ou npt II (canamicina). A infecção por Agrobacterium requer um ferimento no tecido vegetal (Sangwan et al., 1992). Primeiramente, acreditava-se que o ferimento teria a função de remover a barreira física imposta pela parede celular. Atualmente, sabe-se que as células feridas, mas metabolicamente ativas, excretam compostos fenólicos de baixo peso molecular, especificamente reconhecidos pela bactéria no momento da infecção. Essas moléculas foram identificadas como acetosiringona (AS) ou a-hidroxi-acetosiringona (OH-AS) (Stachel et al., 1985), chalconas e derivados do ácido cinâmico (Stachel et al., 1986) e são responsáveis pela iniciação da transferência do TDNA (Zambryski et al., 1989). Acredita-se que a transferência do T-DNA para as células vegetais ocorra de maneira semelhante à conjugação bacteriana (Zupan & Zambrisky, 1995) e os genes responsáveis pela transferência estejam localizados na região de virulência (vir) do plasmídeo Ti (Zambryski, 1988; Zambryski et al., 1989). A região vir é composta de seis grupos de genes, essenciais para transformação (virA, virB, virD e virG) ou que aumentam a eficiência desse processo (virC e virE). Alguns dos genes de virulência, chvA, chvB, cel, att e pscA, localizam-se no cromossoma bacteriano, expressam-se constitutivamente e são responsáveis pelo reconhecimento e contato das células vegetais com a bactéria durante o processo de infecção (Zambryski et al., 1989; Hohn, 1992). Os genes chvA, chvB e pscA são responsáveis pela síntese de β-1,2-glucano (Douglas et al., 1985), o cel, pela síntese de fibrilas de celulose e 85 C&T15.book Page 86 Friday, September 12, 2003 9:06 AM o att regula a síntese das proteínas de membrana (Matthysse, 1987). A interação bactéria/parede celular vegetal foi estudada em Arabidopsis thaliana por Sangwan et al. (1992). Os autores sugerem que, durante o período de cultivo, as células estejam em divisão e diferenciação, e novas paredes celulares sejam sintetizadas. Nesse mesmo período, a bactéria produz grandes quantidades de material celulósico e os resultados sugerem uma interação entre os polissacarídeos da parede celular vegetal e as fibrilas de celulose produzidas pela bactéria. A ativação dos genes da região vir é seguida por drásticas mudanças no T-DNA, resultando na sua completa transferência para o núcleo da célula vegetal. A incorporação do T-DNA no genoma da planta não está completamente elucidada, mas sugere-se que ocorra de maneira aleatória. A integração pode ser explicada como um evento de recombinação ilegítima ou não homóloga (Mayerhofer et al., 1990). Gharthi-Chhetri et al. (1990) sugeriram que a integração do DNA exógeno ocorre entre as duas primeiras divisões celulares, durante a fase de replicação do DNA. Freqüentemente, uma a três cópias do TDNA estão presentes, algumas vezes em arranjos tandem (Zambryski et al., 1989). A A. rhizogenes é outra espécie do gênero Agrobacterium, que causa a proliferação de raízes a partir de tecidos feridos e infectados pela bactéria. Essas raízes podem ser cultivadas in vitro em ausência de reguladores de crescimento (Lipp-Nissinen, 1993). Assim como a A. tumefaciens, a A. rhizogenes possui um plasmídeo de alto peso molecular, o Ri, do qual o T-DNA é transferido para a célula vegetal (Brasileiro & Dusi, 1999). Culturas de raízes transformadas por A. rhizogenes podem ser utilizadas para a produção de metabólitos secundários de interesse farmacêutico, como produtos naturais biologicamente ativos. A técnica de transformação por Agrobacterium tem sido aprimorada desde 1988, quando Zambryski e colaboradores relataram o uso de Agrobacterium tumefaciens modificada geneticamente para introdução de genes exógenos em plantas. Na transformação utilizando esse vetor, vários parâmetros devem ser considerados, entre eles, presença de substâncias fenólicas para indução da trans- 86 ferência do T-DNA, pH, temperatura, açúcares, período de co-cultivo e antibióticos para controle do crescimento da bactéria (Stachel et al., 1986; Holford et al., 1992). Várias espécies de importância comercial têm sido alvo dessa técnica com resultados positivos (Fisk & Dandekar, 1993; Brasileiro & Dusi, 1999). Recentemente, foi proposto o uso de pulsos curtos de ultra-som para ferir e modificar o tecido alvo da transformação, visando o aumento da infecção por Agrobacterium. Essa técnica foi denominada SAAT (Sonication Assisted Agrobacterium-mediated Transformation; Trick & Finer, 1997) e permitiu uma maior eficiência no processo de transformação de várias espécies, antes recalcitrantes para Agrobacterium. A aplicação da SAAT em tecidos cotiledonares de soja resultou no aumento da freqüência de expressão do gene repórter utilizado (Santarém et al., 1998) e plantas transgênicas dessa espécie foram obtidas aplicando-se SAAT em suspensões embriogênicas (Trick & Finer, 1998). EXPRESSÃO DOS TRANSGENES Apesar da otimização das técnicas de transformação genética, os sítios de integração do DNA exógeno e o número de cópias integradas no genoma da planta são, ainda, imprevisíveis (Vaucheret et al., 1998). A princípio, as moléculas de DNA integram-se ao acaso no genoma, embora haja indicações de que se integrem em regiões com alta atividade transcricional (Brasileiro & Dusi, 1999). O número de cópias dos transgenes inseridos no genoma varia de acordo com a metodologia empregada na transferência de genes. Com os métodos diretos, foram detectadas múltiplas cópias, como também a fragmentação e recombinação do transgene (Hadi et al., 1996; Siemens & Schieder, 1996). Por sua vez, a transformação por Agrobacterium é considerada um processo mais preciso, com integração de uma ou poucas cópias no genoma da planta (De Block, 1993). Há uma variação considerável na expressão dos transgenes em plantas transformadas, que não decorre necessariamente da diferença no número de cópias. Assim, a atividade do gene não é exclusivamente determinada pelos níveis de transcrição. Junho • 2000 C&T15.book Page 87 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Fatores epigenéticos podem influenciar os níveis de expressão, podendo levar à inativação do gene por inibição da transcrição ou do acúmulo do RNAm. Esse fenômeno, denominado silenciamento de genes, pode ser influenciado pelo local de inserção do transgene e está associado à metilação do DNA receptor (Vaucheret et al., 1998). CONCLUSÃO As técnicas de transformação genética de plantas têm permitido acelerar o melhoramento vegetal, gerando variedades com desempenho superior e adaptadas ao ambiente de cultivo. Os métodos de transferência de genes podem variar em eficiência e aplicabilidade, dependendo da espécie e/ ou do tecido alvos da transformação. Entre os métodos diretos mais usados, o bombardeamento de partículas tem resultado no maior número de espécies transformadas, principalmente nos cereais, em que a transformação por Agrobacterium é pouco eficiente. O uso de Agrobacterium como vetor para a transferência de genes apresenta vantagens sobre os métodos diretos por ser uma metodologia mais precisa, resultando na integração de um menor número de cópias do transgene. A transformação genética não encerra com a obtenção de plantas transgênicas que expressam o fenótipo desejado. São necessárias exaustivas pesquisas para garantir que essas plantas não apresentem riscos à saúde e ao ambiente, permitindo que sejam inseridas no sistema produtivo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BIDNEY, D. et al. 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REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 81-90 89 C&T15.book Page 90 Friday, September 12, 2003 9:06 AM 90 Junho • 2000 C&T15.book Page 91 Friday, September 12, 2003 9:06 AM O Neotectonismo na Costa do Sudeste e do Nordeste Brasileiro Neotectonism of Southeastern and Northeastern Brazilian Coast CARLOS CÉSAR UCHÔA DE LIMA Universidade Federal de Feira de Santana [email protected] RESUMO – A partir da década de 70, vários pesquisadores ligados à geologia estrutural e à geotectônica começaram a voltar seus interesses para as atividades tectônicas ocorridas desde o final do terciário até o quaternário (neotectônica) evidenciados pela morfologia do relevo atual e das estruturas geológicas observadas. Outro fator que começou a chamar a atenção dos geólogos e geofísicos no Brasil foi o desencadeamento de sismos, ocorridos com maior freqüência na Região Nordeste, na década de 80. Fenômenos dessa natureza têm sido relatados desde o século passado, mas o pensamento de que o território brasileiro é tectonicamente estável fez com que a comunidade científica de modo geral não relacionasse esses sismos à tectônica global. O crescente interesse pela temática fez com que esse pensamento fosse modificado, e, para aqueles que hoje estudam os processos geológicos ocorridos a partir do terciário superior, fica evidente que o tectonismo atual é um dos principais mecanismos controladores desses processos, bem como, da morfologia do relevo por eles modelados. Palavras-chave: NEOTECTÔNICA – SISMOS – PROCESSOS GEOLÓGICOS. ABSTRACT – In the 70’, geologists concerned with Structural Geology and Geotectonics began to turn their attention to Late Cenozoic tectonics events (neotectonics), evidenced by landscape morphology and geological structures. Another factor that raised interest of many researchers were successive seismic events in Northeastern Brazil, in the 80’. Seismic activities of this nature are cited since last century, but the idea that Brazilian territory is tectonically stable prevented the scientific community to relate that seismic events to global tectonics. The rising interest for the subject of Neotectonics led to the change of this belief and for those who study geological processes younger than Neogene it is evident that today’s tectonism is one of the main control of these processes, as well as of the relief morphology. Keywords: NEOTECTONICS – SEISMIC EVENTS – GEOLOGICAL PROCESSES. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 91-102 91 C&T15.book Page 92 Friday, September 12, 2003 9:06 AM INTRODUÇÃO O termo neotectônica foi utilizado pela primeira vez por Obruchev (1948), que o entende como uma sucessão de movimentos crustais recentes, desenvolvidos a partir do terciário superior e durante todo o quaternário (apud Suguio & Martin 1996). Esse conjunto de processos ocorridos a partir do Neogeno determinaria as principais feições do relevo atual da Terra. Mais recentemente a International Union for Quaternary Research (INQUA) divulgou em sua homepage a definição sugerida por Pavlides (1989): “Neotectônica é o estudo de eventos tectônicos jovens, que ocorreram ou ainda estão ocorrendo em uma região qualquer, após sua orogênese ou após o seu reajustamento tectônico mais significativo”. No Brasil, apesar da palavra neotectonismo ser amplamente divulgada, Hasui (1990) utilizou o termo tectônica ressurgente para a reativação de falhamentos pré-cambrianos durante o tércioquaternário, ocorrida em território brasileiro. Apesar das pequenas variações terminológicas e conceituais em relação aos processos tectônicos mais recentes, para Saadi (1993) existe um consenso entre os diversos pesquisadores em considerar uma relação obrigatória entre a neotectônica e a configuração da morfologia atual, não levando em conta a idade das feições estudadas, que poderia remontar em até 107 anos. Com base no pensamento de Pavlides (1989), de que o início do período neotectônico depende das características individuais de cada ambiente geológico, Hasui (1990) relaciona a origem do neotectonismo no Brasil à migração do continente sul-americano e conseqüente abertura do Atlântico Sul, iniciada no terciário médio, por considerar que essas movimentações ocorrem até os dias atuais. Como marco desses eventos, Hasui (op. cit.) propõe o início da deposição do Grupo Barreiras e do último pacote das bacias costeiras, e o término do magmatismo em território brasileiro, há cerca de 12 M.a. no Nordeste, datando portanto do Mioceno Médio. Com relação aos sismos no Brasil, até meados da década de 70 não se costumava de modo geral correlacioná-los aos movimentos tectônicos. Reflexos de sismos longínquos, acomodações de camadas, colapsos de zonas calcárias e deslizamentos de terra eram as explicações oferecidas para esses even- 92 tos (Hasui & Ponçano, 1978). Nos anos 80, a relação entre a sismicidade e os estudos neotectônicos foi ficando cada vez mais próxima, principalmente com os eventos sísmicos desencadeados no Nordeste Brasileiro. Este trabalho objetiva fazer uma resenha histórica das ocorrências sísmicas no Brasil, enfatizando aquelas ocorridas no Nordeste, bem como fazer uma síntese da evolução do conhecimento sobre o neotectonismo no Brasil Oriental. Para atingir tais metas, foi feita uma pesquisa bibliográfica que se estende desde trabalhos (artigos e/ou livros) do final do século passado até os dias atuais. REGISTRO HISTÓRICO DE TERREMOTOS NO BRASIL Distantes em tempo e espaço das discussões sobre a terminologia adequada para se referir às modificações tectônicas mais recentes (do Neogeno ao Quaternário), alguns pesquisadores no final do século passado e início deste século já se preocupavam em registrar os eventos sísmicos que ocorriam no Brasil e, em particular, no Nordeste Brasileiro. Capanema (1859) executou o primeiro trabalho sobre sismos do Brasil (apud Assumpção et al., 1980), destacando o evento de 1808 ocorrido em Açu, RN, com magnitude estimada por Ferreira & Assumpção (1983) em 4,8 mb. O próprio Imperador do Brasil, D. Pedro II, entrega em 1860 os “documentos relativos ao tremor de terra havido em Pernambuco em 1811” ao Instituto Histórico Geographico e Ethnographico do Brasil. Com relação aos tremores de terra ocorridos na Bahia, um relato mais apurado vem por parte de Theodoro Sampaio em três artigos. Sampaio (1916) descreve os movimentos sísmicos na Baía de Todos os Santos, utilizando alguns critérios para evidenciar tais eventos. O primeiro deles relaciona-se à expressão topográfica (morfologia do relevo), como conseqüência de movimentos sísmicos, já que, segundo ele, a baía encontra-se topograficamente rebaixada e com o contorno de suas costas profundamente modificado. Segundo esse autor, as falhas geológicas ressaltadas pelos paredões ou tombadores se constituem em evidências dos violentos abalos sísmicos que atingiram parte da baía em época posterior ao Junho • 2000 C&T15.book Page 93 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Terciário, provocando o abatimento da bacia, permitindo assim, a invasão do mar. Outro critério utilizado pelo pesquisador foi o relato de pessoas que sentiram os abalos sísmicos. O último abalo até aquela data (1916) teria ocorrido na tarde do dia seis de novembro de 1915, em que fora sentido em vários locais nas imediações da baía (entre elas, Saubara, Vila de São Francisco, Ilha das Fontes, Sul de Itaparica e Santo Amaro). Segundo o Frei Pheliberto Gille, do Convento da Vila de São Francisco, um forte abalo de terra, acompanhado de um “estrondo subterrâneo” semelhante ao do trovão, fez as paredes grossas do convento balançar. Há no mesmo trabalho, vários outros eventos citados desde o século XVII até o início do século XX. Uma dessas citações parece falar de tsunamis. Segundo o autor, em 1666 (dados de Rocha Pitta) o mar saiu de seus limites naturais por três dias alternados, cobrindo a praia de “innumeravel e miudo pescado”. Em seu trabalho de 1919, Sampaio volta a falar dos sismos na Baía de Todos os Santos, expondo uma importante e curiosa afirmação, a de que muitos ilhéus (pequenas ilhas) àquela época estavam pouco a pouco sumindo do mapa hidrográfico em conseqüência da subsidência da baía. Sampaio (1920) volta a tratar os tremores de terra, dessa vez destacando os que ocorreram em 1919 no estado da Bahia. Para maior precisão dos eventos ocorridos, ele organiza e passa a coordenar uma comissão para inspecionar pessoalmente as conseqüências do terremoto de 22/11/1919. Além de atingir algumas cidades do Recôncavo, esse evento foi sentido também em Salvador, com relato de moradores do Campo Grande, Amaralina e dos pacientes do Hospital Santa Isabel, em Nazaré. A comissão chefiada por Sampaio observou próximo ao leito do Rio Paramirim fendas recentes nos muros e paredes das casas. Na escala de intensidade, esse sismo foi classificado como um tremor muito forte, provocando inclusive queda de algumas chaminés. É interessante observar que em todos os relatos tomados por Theodoro Sampaio os eventos sísmicos são sempre precedidos de um barulho surdo semelhante a um trovão. Outras observações que chamaram a atenção do pesquisador foram os relatos de moradores próximo ao mar. Esses quase sempre falavam de um borbulhamento das águas mari- REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 91-102 nhas (como se estivessem fervendo) e de um comportamento anormal dos peixes, que saltavam sem parar, como se fugissem de algo e do cheiro de enxofre em alguns locais. Esses e outros relatos fizeram com que Theodoro Sampaio não interpretasse os eventos sísmicos como simples acomodação de camadas, e sim como a ação de agentes internos ao longo do eixo sinclinal (ele e outros pesquisadores da época acreditavam que o recôncavo era um grande sinclínio) ou das linhas de fraturas ali presentes. E para finalizar a sua interpretação, Sampaio acreditava que os tremores de terra eram precursores de atividades vulcânicas e cessariam apenas quando começasse uma erupção. Antes de Sampaio, Branner (apud Ferreira & Assumpção, 1983) publicou em 1912 um artigo sobre terremotos no Brasil, citando os sismos ocorridos no sertão baiano em 1904 e 1905 e que atingiram as cidades de Senhor do Bonfim e Xique– Xique, respectivamente, dois dos mais expressivos sismos ocorridos no início do século. Outro registro importante diz respeito à sucessão de eventos (um total de cinco) ocorridos em fevereiro de 1903 em Baturité, região serrana do estado do Ceará. Em 1920, Branner publicou o artigo “Recents Earthquakes in Brazil”, fazendo um apanhado dos tremores de terra ocorridos entre 1917 e 1919 no nosso país. Entre os vários sismos citados por Branner, destacam-se os acontecidos na Bahia e relatados por Sampaio (1919), além do de Maranguape, cidade próxima à Fortaleza. Com os dados fornecidos por Branner, Ferreira & Assumpção (1983) estimaram a magnitude, a partir da área afetada, em aproximadamente 4,5 mb para esse último. PRIMEIRAS REFERÊNCIAS AO NEOTECTONISMO BRASILEIRO Apesar do esforço de pesquisadores do início do século em relatar e tentar mostrar as possíveis causas da sismicidade no Brasil, só na década de 70, com a implantação de grandes obras de engenharia civil (usinas hidrelétricas e termonucleares), é que o interesse pelo tema neotectonismo ganhou um campo maior de abordagem na literatura (Haberlehner, 1978). Antes disso, poucos foram os trabalhos que enfatizaram essa temática. 93 C&T15.book Page 94 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Um dos trabalhos pioneiros em abordar o tectonismo moderno no Brasil foi o de Freitas (1951). Segundo esse autor, a conformação dos planaltos, as muralhas (horsts), as fossas (grabens) e os vales de “afundimento” (rift valleys), presentes em território brasileiro, são evidências de uma tectônica cenozóica no Brasil. Entre as diversas deformações epirogênicas do escudo brasileiro, ele cita as “muralhas” que modelam as serras do Mar e da Mantiqueira como resultantes de uma ruptura do escudo cristalino, provocada por arqueamentos epirogenéticos que originariam uma sucessão de falhas escalonadas, atingindo o clímax durante o cenozóico. Para Freitas (op. cit.), as por ele chamadas deformações epirogênicas modernas do escudo brasileiro estariam ligadas aos fenômenos orogenéticos dos Andes e, secundariamente, a mecanismos de compensação isostática ocorrida pela longa denudação desde o Pré-cambriano. Outro trabalho digno de nota da década de 50 é o de King (1956), intitulado “A Geomorfologia do Brasil Oriental”. Nesse importante artigo para a geomorfologia e a geologia do Brasil, o autor faz um relato do desenvolvimento da paisagem atual do leste brasileiro, relacionando-a a uma série de eventos erosivos (ciclos de denudação) mesozóicos e cenozóicos. Os ciclos de denudação cenozóicos são: Sul-americano (Terciário Inferior/Médio), Velhas (Terciário Superior) e Paraguassu (Quaternário). Na observação e descrição destes últimos, várias são as referências ligadas a um tectonismo plio-pleistocênico. Ao Ciclo Velhas, King relaciona a deposição do Grupo Barreiras, denominado por este autor “as barreiras” e descrito como uma espessa cobertura de argilas e areias pliocênicas. Essa cobertura sofreria, no final do Terciário ou no pleistoceno, esforços tectônicos que a inclinariam para o mar na direção ESE. O Grupo Barreiras nos estados da Bahia e Sergipe evidenciaria ainda pequenas dobras e falhas com um a dois metros de delocamento, frutos desses eventos tectônicos. Com relação à disposição dos rios, o autor ressalta o Vale do São Francisco como resultante de uma ruptura tectônica a partir da Cadeia do Espinhaço, que representaria o estágio máximo de elevação do interior continental desde a zona costeira. 94 Um outro trabalho importante ligado à geomorfologia, e com algumas observações estruturais que implicam um tectonismo ativo durante o terciário e o quaternário, é o de Tricart e Silva (1968). Apesar de enfocar principalmente a morfogênese do relevo atual como conseqüência das variações climáticas e mudanças do nível do mar, algumas referências apontam para a influência tectônica na conformação desse relevo. No livro Estudos de Geomorfologia da Bahia e Sergipe (p. 57), os autores chamam a atenção para as deformações observadas na superfície pós-Barreiras, bem como na base dessa “formação”, na região litorânea próxima à cidade de Salvador. Considerando o Grupo Barreiras como de idade pliocênica, pode-se inferir, a partir dessa observação, uma ação tectônica desde o final do Terciário. Ponte (1969) desenvolve um trabalho de interpretação foto-geomorfológica na Bacia Alagoas-Sergipe, aplicando a técnica denominada análise morfotectônica ou morfo-estrutural. Essa técnica consiste em avaliar o estudo do microrrelevo e da rede hidrográfica, correlacionando-a com o delineamento estrutural subjacente. Nas áreas onde afloram os sedimentos do Grupo Barreiras, Ponte (op. cit.) observou variações de espessura desse complexo sedimentar (espessamento nos baixos regionais e adelgaçamento sobre os altos estruturais), sugerindo que as estruturas delineadoras desses desníveis topográficos (falhas) estiveram ativas durante sua deposição, implicando um tectonismo ativo no Terciário Superior. Várias feições observadas por esse autor na distribuição da drenagem pressupõem um controle tectônico dessas feições. O Rio São Francisco, por exemplo, que possui próximo à desembocadura uma tendência de seguir para SE, sofre duas deflexões, uma antes da cidade de Penedo (AL), para NE, e outra mais perto da costa, para Sul. Esse caso reflete o controle estrutural com os falhamentos atingindo possivelmente os sedimentos quaternários dessa planície. CAUSAS E EVIDÊNCIAS DO NEOTECTONISMO Nesse tópico, tentar-se-á separar os trabalhos que advogam a causa da neotectônica como um dos agentes modeladores do relevo, a partir das evidências bases em que eles se apóiam, sejam elas sismológicas, morfogenéticas, sejam aquelas ligadas a linhas Junho • 2000 C&T15.book Page 95 Friday, September 12, 2003 9:06 AM de fraqueza estrutural e eventos tectono-termais. Muitos trabalhos baseiam suas interpretações em mais de um tipo de evidência, ressaltando, no entanto, um principal. Por isso, a divisão feita aqui representa tão somente uma tentativa de melhorar o entendimento sobre as várias evidências do tectonismo cenozóico, procurando enfatizar a dinâmica causal desses eventos. Evidências Sismológicas Uma associação entre o neotectonismo e a sismicidade natural é feita por Hasui & Ponçano (1978), que consideram os sismos recentes ocorridos no Brasil, e divulgados pela imprensa e por alguns trabalhos científicos, como evidências de um tectonismo cenozóico brasileiro. Segundo esses autores, há uma relação direta entre os sismos verificados no Brasil e os movimentos tectônicos de caráter global. Eles atribuem às geossuturas proterozóicas (zonas de descontinuidades que atingem o manto e permitem a ascensão de materiais máficos e ultramáficos) o papel de zonas frágeis, nas quais as forças tectônicas atuam, originando assim os sismos (fig.1). Haberlehner (1978) identifica diversas regiões do Brasil onde há concentração de atividade sísmica e as denomina províncias sismotectônicas. Para esse autor, existiriam dez dessas províncias, de norte a sul do país, em zonas de falhas ativas. Assumpção et al. (1980) fazem um levantamento dos principais sismos ocorridos no sudeste, ressaltando a sua magnitude sem, no entanto, apresentarem qualquer interpretação tectônica. Ferreira & Assumpção (1983) desenvolvem um trabalho semelhante, só que bem mais abrangente em tempo para o Nordeste, e concluem que a relação entre os epicentros dos sismos e os lineamentos presentes naquela região não é muito clara. Já em caráter regional, Hasui et al. (1978a) relacionam a sismicidade na região das serras da Mantiqueira e do Mar, englobando o leste de São Paulo e Rio de Janeiro e sul de Minas Gerais, com a reativação de falhas proterozóicas de direção NE/SW ali existentes, mostrando várias localidades afetadas pelos sismos. Evidências por Falhas e Eventos Tectono-Termais Estudando as bacias marginais brasileiras, Asmus & Ponte (1973) concluíram que o tecto- REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 91-102 nismo nessas bacias persistiu até o Terciário, principalmente ao longo de falhas reativadas. Essas reativações ocorreriam por movimentações epirogenéticas desde o final do Cretáceo até o Plioceno-Pleistoceno. Hasui et al. (1978b), em seu estudo sobre as bacias tafrogênicas continentais do sudeste brasileiro, relacionaram os depósitos sedimentares daquela região à tectônica regional desenvolvida desde o Ciclo Brasiliano (Proterozóico Superior), culminando com a implantação de bacias continentais no Terciário Superior e/ou Pleistoceno pela reativação de falhas antigas. Fig. 1. Relação entre as geossuturas proterozóicas e os sismos ocorridos no Brasil. O mapa destaca a concentração de sismos no Nordeste (zona sismogênica de Fortaleza e Cráton do São Francisco) e Sudeste do Brasil (região das Serras do Mar e da Mantiqueira). (Modificado de Hasui & Ponçano, 1978). Asmus & Ferrari (1978) falam de um tectonismo cenozóico que atingiu a Região Sudeste e parte da Região Sul do Brasil, onde predominou a reativação de linhas de fraqueza pré-cambrianas entre o Paleoceno e o Plioceno, com rejeitos de até 3.000 m. Esse tectonismo estaria associado a processos tectono-térmicos iniciados no Permiano/Triássico, que teriam ocasionado considerável soerguimento crustal (estágio pré-rift). A partir do Eocretáceo haveria uma ruptura da crosta continental como 95 C&T15.book Page 96 Friday, September 12, 2003 9:06 AM conseqüência de uma nova manifestação tectonomagmática (fase rift). Esses eventos tectono-térmicos teriam provocado um desequilíbrio isostático entre as partes elevadas (porção continental) e as regiões oceânicas. No terciário, esses esforços atingiriam dimensão suficiente para reativar as linhas de fraquezas pré-cambrianas (falhamentos), expressas hoje em dia pelas escarpas da Serra do Mar e da Mantiqueira. Esse tectonismo cenozóico originaria uma seqüência de falhas escalonadas com os blocos resultantes desses falhamentos sendo basculados, configurando uma disposição de semi-grabens (fig. 2). Hasui (1990) é o primeiro a colocar de forma mais clara a relação entre o neotectonismo no Brasil e a reativação de falhas e outras linhas de fraquezas (zonas de cisalhamento dúctil, por exemplo), baseando suas afirmações no fato de que é mais fácil reativar uma linha de fraqueza preexistente do que nuclear uma nova. Seguindo essa linha de raciocínio, Hasui (op. cit.) afirma que os processos geológicos ocorridos desde o Proterozóico até o Recente são controlados por linhas de suturas pré-cambrianas, constituindo zonas de fraquezas, que separam a crosta em vários blocos. Esses processos seriam desencadeados pela tectônica global que, agindo sobre as linhas de suturas que bordejam os blocos crustais, provocariam o que ele denominou de tectônica ressurgente. Szatmari (1999) afirma que os processos tectônicos ocorridos tanto no Cretáceo como no Cenozóico definem-se pelo arranjo crustal pré-cambriano. mento, mostram que o movimento ocorreu até o holoceno com um deslocamento vertical de aproximadamente 4 m (Bezerra et al., 1998; Bezerra, 1999). A falha de Jundiaí corta granitos pré-cambrianos e verticalmente desloca a Base do Grupo Barreiras em até 260 m. Evidências a partir de Tensões Intraplaca Evidências Morfogenéticas Bezerra (1999) faz um esboço das principais falhas geradas ou reativadas durante o Benozóico na Bacia Potiguar. Elas possuem um caráter predominantemente transcorrente, são comumente segmentadas e mostram relações sistemáticas de truncamento (cross cutting), o que evidencia sua contemporaneidade. As falhas que atravessam as rochas quaternárias e terciárias controlam a espessura dos depósitos sedimentares resultantes do movimento delas, bem como o padrão de drenagem. A falha mais extensa é a de Carnaubais, estendendo-se pelos estados do Ceará e do Rio Grande do Norte. A leste dessa falha, depósitos de intermaré elevados, com a presença de bivalvos marinhos em posição de cresci- 96 Fig. 2. Perfil esquemático mostrando os falhamentos escalonados e basculamento de blocos resultantes do tectonismo cenozóico que atingiu o Sudeste do Brasil (modificado de Asmus & Ferrari, 1978). Bezerra (1999) conclui que a paleosismicidade no Nordeste do Brasil tem ocorrido desde o Plioceno em intensidade tectônica maior do que os dados instrumentais têm revelado. O stress principal seria de compressão, orientado na direção E-W, o que originaria as falhas NE e NW observadas (Bezerra & Amaro, 1998). Martin et al. (1986) analisaram as principais evidências geomórficas e geológicas indicativas de atividades neotectônicas na Bacia do Recôncavo e parte do litoral baiano ao sul dessa bacia. Entre as evidências geomórficas, os autores ratificam as afirmações de King (1956) e Tricart & Silva (1968) sobre a rede hidrográfica embrionária em direção à Baía de Todos os Santos, sugerindo uma origem recente para essa baía. Essas evidências são mais marcantes na parte oeste da bacia, limitada pela falha de Maragogipe. Nesse local, um desnível de 100 m de altura mostra que os rios ainda não tiveram tempo de escavar seus leitos, aparecendo pequenas cachoeiras. Além disso, depressões ao pé da falha, ocupadas por pequenas baías e canais de Junho • 2000 C&T15.book Page 97 Friday, September 12, 2003 9:06 AM maré, sugerem afundamentos recentes ao longo do plano de falha de Maragogipe. As evidências geológicas relacionam-se aos desnivelamentos das linhas de costa pleistocênicas e holocênicas. Estas últimas foram associadas à curva de variação do nível relativo do mar, nos últimos 7.000 anos, na região de Salvador. A integração dos dados geomórficos e geológicos permitiu a delimitação da Bacia do Recôncavo em compartimentos limitados por falhas mais ou menos paralelas (fig. 3). Fig. 3. Compartimentação da Bacia do Recôncavo e de parte do litoral sul da Bahia em função dos dados fornecidos pela morfologia e pelos desnivelamentos holocênicos. A história de cada compartimento diferencia-se pela maior ou menor subsidência durante o Quaternário. O compartimento n.º 2, por exemplo, esteve sujeito à subsidência geral mais importante desse período (fonte: Martin et al., 1986). REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 91-102 O GRUPO BARREIRAS E O SEU SIGNIFICADO NEOTECTÔNICO Muitas evidências de neotectonismo foram observadas por Silva & Tricart (1980) nos sedimentos do Grupo Barreiras, no litoral sul da Bahia. A primeira delas seria o basculamento suave para sudeste desse grupo, que, segundo esses autores, se prolongaria por toda a plataforma continental. Coincidências entre a disposição das falésias e as falhas cretácicas foram observadas próximo a Valença, mostrando relação entre alinhamentos mais antigos e a morfologia atual das escarpas litorâneas. Além disso, vários alinhamentos de vales e áreas deprimidas estão direcionados segundo as orientações de falhamentos do embasamento Pré-cambriano, o que pode representar uma reativação recente dessas linhas de fraqueza. Para a região litorânea entre Porto Seguro e Santa Cruz de Cabrália, Mendes et al. (1987) e Bittencourt et al. (1999) mostram, através de imagem de radar e de fotografia aérea, respectivamente, um nítido basculamento para NE da superfície pós-Barreiras, evidenciado pelo alinhamento do padrão de drenagem do bloco situado a norte do Vale do Buranhém, onde o rio homônimo bordeja o plano de falha (fig. 4). Lima & Vilas Boas (1999), estudando as falésias do Grupo Barreiras no litoral sul baiano, citam algumas evidências de neotectonismo associadas a esse complexo sedimentar. O sistema de lineamentos nessa região, por exemplo, possui um paralelismo com a linha de costa, indicando provavelmente um controle estrutural na deposição dos sedimentos com possível reativação das falhas pertencentes a esses lineamentos (Lima & Vila Boas, 1999). Além disso, foram observadas zonas de fraturas bem definidas que, por não perturbarem a laminação original e cortarem todo o pacote sedimentar, foram interpretadas como de origem pósdeposicional. Outras feições importantes observadas foram a presença de diques areno-granulosos de espessura decimétrica, imersos em argilitos, e o basculamento para NE em várias porções da superfície atual acima do Barreiras. Bittencourt et al. (1999) e Amaro et al. (1999) relacionam os lineamentos (falhas) pré-terciários do litoral baiano e potiguar, respectivamente, com o delineamento costeiro atual, representado principal- 97 C&T15.book Page 98 Friday, September 12, 2003 9:06 AM mente pelas falésias do Grupo Barreiras. Souza et al. (1999) fazem um levantamento das deformações impressas nesse grupo, no litoral cearense, tais como juntas verticais, falhas e dobras do tipo roll-over, caracterizando-as como estruturas sin-sedimentares, resultantes de um tectonismo ativo do Mioceno ao Pleistoceno. Lima et al. (1990) estabelecem uma relação entre o neotectonismo, as estruturas geológicas Pré-terciárias e o padrão de afloramento do Grupo Barreiras na Bacia Potiguar, mostrando o condicionamento da morfologia atual dos tabuleiros pertencentes a esse grupo à estruturação dos horizontes pré-Barreiras e às forças de compressão e tração que atingem a área atualmente. Segundo esses autores, as janelas estratigráficas produzidas pela erosão ao longo dos rios são, na maioria, subparalelas ao eixo p (compressão) e subperpendiculares ao eixo t (tração relativa), o que implica uma relação direta entre essas forças e a configuração das falésias pertencentes ao Grupo Barreiras. 251 sismos no Brasil entre 1560 e 1977, sendo que, destes, pelo menos 138 não coincidem com os citados por Ferreira & Assumpção (1983) e por Assumpção et al. (1980). Somando-se a esses dados, estão os sucessivos eventos sísmicos na região de João Câmara, RN, entre 1986 e 1989, que, segundo Bezerra (1999), incluíram mais de 14.000 abalos, com 15 deles possuindo magnitude entre 4,1 e 5,1 na escala Richter. Fig. 4. Imagem de radar mostrando a deflexão da drenagem a partir do basculamento para NE de um bloco situado entre as cidades de Santa Cruz de Cabrália e Porto Seguro, Bahia. (Mendes et al., 1987). DISCUSSÃO Apesar do tema neotectonismo ter sido relegado ao descrédito, durante muito tempo, pela comunidade científica brasileira, por acreditar que um país bordejado por uma margem continental do tipo Atlântica (passiva) se constitui em uma região extremamente estável, no decorrer desse século, as evidências encontradas e destacadas por alguns expoentes da comunidade geológica fizeram com que, aos poucos, esse pensamento fosse sendo modificado. Os sismos estudados hoje em dia são muito mais comuns do que a princípio se poderia esperar. O relato desses sismos poderia ainda ser em quantidade bem maior, já que durante muito tempo a população se concentrou nas regiões litorâneas e os instrumentos fornecedores de dados sismológicos só há pouco mais de duas décadas foram instalados em nosso país (Hasui & Ponçano, 1978). É fato que os eventos sísmicos estão presentes e, segundo o levantamento de Ferreira & Assumpção (1983), só para o Nordeste Brasileiro, entre o século XVII e o início da década de 80 do século XX, foram catalogados 253 sismos. Assumpção et al. (1980) descrevem um total de 21 sismos na Região Sudeste entre 1861 e 1979, e Haberlehner (1978) cita a ocorrência de 98 Outros dados sobre a ação neotectônica em nosso país são os relacionados à estruturação geológica adquirida ao longo de sua formação e que deixou, como legado, zonas de suturas pré-cambrianas que hoje, sob a ação da tectônica global, se constituem em zonas de fraqueza (Hasui & Ponçano, 1978; Hasui, 1990). Sabe-se hoje em dia que nas regiões intraplaca a tensão horizontal máxima dispõe-se paralelamente à direção de movimentação absoluta das placas litosféricas, o que pressupõe regimes tectônicos compressionais nessas regiões, provocando regimes de falhas reversas ou falhas de rejeito lateral como as observadas, por exemplo, na Bacia Potiguar (Lima Neto, 1999). A ação das forças compressivas intraplaca, atuando sobre as fraquezas estruturais, são as responsáveis pela reativação e, conseqüentemente, pelos deslocamentos de blocos e pela ação sísmica por eles provocada. É natural, no entanto, que existam algumas particularidades regionais responsáveis por ligeiras alterações no direciona- Junho • 2000 C&T15.book Page 99 Friday, September 12, 2003 9:06 AM mento dessas tensões e, por conseguinte, das estruturas criadas. Para o Nordeste, por exemplo, as observações de Lima (1999) estão em desacordo com a previsão do direcionamento da tensão horizontal máxima e, segundo esse autor, fontes locais como carga de sedimentos e diferenças de densidade da litosfera têm sido subestimadas nos modelamentos efetuados. Áreas onde há o desenvolvimento de falhas normais na Bacia de Campos indicam localmente um regime distensivo e, segundo Lima Neto (1999), esse predomínio relaciona-se a um sistema ainda em compactação sobre uma camada de sal (tectônica de sal ou halocinética). Bittencourt et al. (1999) falam de um controle flexural em toda a margem brasileira para a configuração da zona costeira. A carga de sedimentos depositada nas margens continentais geraria forças extensionais que reativariam falhas antigas e poderiam nuclear novas falhas. Esse pensamento pode ser encarado como uma particularidade para algumas áreas onde a carga sedimentar é significativa, já que em algumas porções dessas margens a quantidade de sedimentos oriundos do continente é muito pequena, gerando plataformas bastante estreitas. Além dos sismos e da análise estrutural, as anomalias morfológicas constituem dados que, há muito tempo, vêm chamando a atenção dos pesquisadores. Sampaio (1916) relatou uma topografia rebaixada para a Baía de Todos os Santos e observava que os seus paredões eram conseqüência dos sismos (tectonismo) pós–terciário. Freitas (1951) destacou como evidência de tectonismo cenozóico as escarpas que modelam as serras do Mar e da Mantiqueira e foi mais além ao afirmar a correlação entre os fenômenos epirogenéticos brasileiros com o orogenético dos Andes, fato aceito atualmente pela comunidade científica. Lima (1999), por exemplo, relaciona a compressão intraplaca à associações mecânicas existentes entre a convergência NazcaAmérica do Sul e a deformação andina. Todos os dados mostrados sobre a sismicidade e as evidências morfogenéticas e estruturais, apesar de esclarecerem o quanto o tectonismo atuou e atua em território brasileiro, não são suficientes, entretanto, para comparar a ação tectônica em nosso país com aquela desencadeada em regiões situadas nos REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 91-102 limites de placas tectônicas. Isso assegura a estabilidade tectônica relativa do território brasileiro, o que não implica, no entanto, inatividade tectônica. CONCLUSÕES Algumas conclusões podem ser sumarizadas dentro do estudo executado. A principal delas talvez seja a concordância quase que geral sobre o comportamento do esforço intraplaca, interpretado pela maioria dos pesquisadores como de origem compressiva. Apesar desse consenso, variações locais, como carga de sedimento, diferenças de densidade da litosfera, posicionamento original das falhas précambrianas e influência de eventos termais, podem alterar localmente o direcionamento dessas forças. Outras conclusões importantes de serem relatadas são: • As zonas sismogênicas presentes em nosso país associam-se invariavelmente a regiões onde geossuturas pré-cambrianas ocorrem. Isso implica uma relação direta entre a sismicidade e o neotectonismo. • A movimentação da placa sul americana para W/NW é o principal fator das ocorrências tectônicas em nosso país. Vale lembrar que o embasamento do território brasileiro possui intrincado sistema de lineamentos (zonas de fraqueza) que, sob o esforço da tectônica global, pode sofrer deslocamentos diferenciais. Dessa forma, é possível haver rebaixamento em algumas regiões e soerguimento em outras. Toda a deposição do Grupo Barreiras e o seu modelamento posterior representam o produto de eventos neotectônicos. Ao longo do litoral brasileiro, suas falésias expressam variações locais, a depender da proximidade ou não de zonas sismogênicas, do sistema de falhas e fraturas associadas, além da história da tectônica recente da região. • Outras feições importantes, resultantes ou influenciadas pela ação do neotectonismo em nosso país, são as escarpas que margeiam as Serras do Mar e da Mantiqueira, o delineamento do Vale do São Francisco e, em áreas localizadas, o espessamento de depósitos quaternários costeiros. 99 C&T15.book Page 100 Friday, September 12, 2003 9:06 AM REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMARO, V.E. et al. Reativação Tectônica Meso-cenozóica das Estruturas Brasilianas na Faixa Litorânea Oriental do Nordeste do Brasil - com base dos dados gravimétricos, imagens Landsat 5-TM e GEMS/banda X. Anais do SBG/SNET, Lençóis, 7 (4): pp. 46-49, 1999. ASMUS, H.E. & FERRARI, A.L. 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REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 91-102 101 C&T15.book Page 102 Friday, September 12, 2003 9:06 AM 102 Junho • 2000 C&T15.book Page 103 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Revista de Ciência & Tecnologia CORPO DE CONSULTORES Arquitetura e Urbanismo João Moreno (Unimep) Renata Faccini de Camargo (UNIMEP) Ciências Econômicas Antônio Carlos Sacilotto (UNIMEP) Computação/Informática Maria de Fátima Nepomucemo (UNIMEP) Engenharia Civil Sueli do Carmo Bettine( Puccamp) Engenharia de Alimentos Engenharia de Produção Alceu Gomes Filho (UFSCar) Edjar Martins Telles Felipe Araujo Calarge (UNIMEP) Gilberto Martins (UNIMEP) Jefferson Ozone Mortatti (USP) João Alberto Camarotto (UFScar) José Antonio Arantes Salles (UNIMEP) José Arnaldo Barra Montevechi (EFEI) José Luiz Duarte Ribeiro (UFRGS) Klaus Schützer (UNIMEP) Luis Carlos da Cunha Colombo (UNIMEP) Luiz César Carpinetti Milton Vieira Júnior (UNIMEP) Mitsuo Serikawa (UNIMEP) Nelson Carvalho Maestrelli (UNIMEP) Nelson Nepomuceno (UNIMEP) Neócles Alves Pereira (UNIMEP) Nivaldo Lemos Coppini (UNIMEP) Paulo C. Miguel (UNIMEP) Paulo Corrêa Lima (Unicamp) Paulo Jorge Figueiro (UNIMEP) Rosângela Maria Vanalle (UNIMEP) Sílvio Roberto Ignácio Pires (UNIMEP) Engenharia Elétrica Afonso de Oliveira Alonso (Unicamp) Yaro Burian Júnior (Unicamp) REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 103-104 Engenharia Mecânica Álisson Rocha Machado (UFU) Álvaro José Abackerli (UNIMEP) Anselmo Eduardo Diniz (Unicamp) Antonio Batocchio (Unicamp) Benedito de Moraes Purquério Benedito Di Giacomo (USP) Carlos Alberto Gasparetto (Unicamp) Eduardo Vila Gonçalves Filho EESUSP Francisco José de Almeida (UNIMEP) Marco Stipkovic Filho (EPUSP) Olivio Novaski (Unicamp) Reginaldo Texeira Coelho (EESCUSP) Rosalvo Tiago Ruffino (USP) Roxana Maria Martinez Orrego (UNIMEP) Waldir Luiz Ribeiro Gallo (Unicamp) Física Ana Elisa Vives Carneiro (UNIMEP) Antônio Ludovico Beraldo (Unicamp) Aparecido dos Reis Coutinho (UNIMEP) Lorival Fante Júnior (UNIMEP) Maria Guiomar Carneiro Tornazello (UNIMEP) Milton Grecchi (UNIMEP) Roseana da Exaltação Trevisan (Unicamp) Matemática e Estatística Angela M.C. Jorge Corrêa (UNIMEP) Armando M. Infante (Unicamp) Maria Imaculada Monte Bello (UNIMEP) Waldo Luis de Lucca (UNIMEP) Maria Cristina Aranda Batocchio (Unicamp) Química e Engenharia Química Ana Célia Ruggiero (UNIMEP) Franklina Maria Bragion de Toledo (FMEP) Ines Joekes (Unicamp) Sandra Maria Boscolo Brienza (UNIMEP) Sônia Maria Malmonge (UNIMEP) 103 C&T15.book Page 105 Friday, September 12, 2003 9:06 AM Revista de Ciência & Tecnologia NORMAS PARA PUBLICAÇÃO PRINCÍPIOS GERAIS 1. A REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA tem por objetivo publicar trabalhos que contribuam para o desenvolvimento científico e tecnológico nas áreas de Ciências Exatas, Engenharia, Tecnologia e Arquitetura e Urbanismo. 2. Os temas podem ser apresentados através dos seguintes tipos de artigos: • ensaio: artigo teórico sobre determinado tema; • relato: artigo sobre pesquisa experimental concluída ou em andamento; • revisão de literatura: levantamento do estágio atual de determinado assunto e compilação crítica de dados experimentais e propostas teóricas recentes; • resenha: comentário crítico de livros e/ou teses; • carta: comentário a artigos relevantes publicados anteriormente. 3. Os artigos devem ser inéditos, sendo vedada sua publicação em outras revistas brasileiras. A publicação do mesmo artigo em revistas estrangeiras deverá contar com a autorização prévia da Comissão Editorial da RC&T. 4. A aceitação do artigo depende dos seguintes critérios: • adequação ao escopo da revista; • qualidade científica ou tecnológica avaliada pela Comissão Editorial e por processo anônimo de avaliação por pares (peer review), com consultores não remunerados, especialmente convidados, cujos nomes são divulgados anualmente, como forma de reconhecimento; • cumprimento da presente Norma. Os autores serão sempre informados do andamento do processo de avaliação e seleção dos artigos e os originais serão devolvidos nos casos de sua não aceitação. 5. Os artigos devem considerar como unidade padrão a página A4, com margens 2,5 cm, pará- REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 105-108 grafo justificado, fonte Times New Roman, tamanho 12, digitada em espaço 1,5 e em editor Word 97 for Windows, sem qualquer formatação especial. Os artigos devem ter as seguintes dimensões: • ensaio e relato: de 12 a 20 páginas-padrão, nelas incluídas todas as subdivisões dos capítulos, figuras, tabelas e referências bibliográficas; • revisão de literatura: de 10 a 15 páginaspadrão, nelas incluídas todas as subdivisões dos capítulos, figuras, tabelas e referências bibliográficas; • resenha e carta: de 2 a 4 páginas-padrão. 6. Os artigos podem sofrer alterações editoriais não substanciais (reparagrafações, correções gramaticais e adequações estilísticas), que não modifiquem o sentido do texto. O autor será solicitado a revisar as mudanças eventualmente introduzidas. 7. Não há remuneração pelos trabalhos. O autor de cada artigo recebe gratuitamente 3 (três) exemplares da revista; no caso de artigo assinado por mais de um autor, são entregues 5 (cinco) exemplares. O(s) autor(es) pode(m) ainda comprar outros exemplares com desconto de 30% sobre o preço de capa. 8. Os artigos devem ser encaminhados pelo Correio para: Comissão Editorial da RC&T A/c: prof. Nivaldo Lemos Coppini Unimep – Campus Santa Bárbara d’Oeste Km 1, Rod. Santa Bárbara d’Oeste/Iracemápolis CEP:13450-000 – Santa Bárbara d’Oeste através de ofício, do qual deve constar: • declaração de cessão dos direitos autorais para publicação na revista; • declaração de concordância com as Normas para Publicação da RC&T. Opcionalmente, os artigos e as declarações poderão ser encaminhadas através de arquivos “atachados” para o e-mail [email protected]. 105 C&T15.book Page 106 Friday, September 12, 2003 9:06 AM ESTRUTURA conter todas as informações para identificação do livro comentado (autor; título, tradutor, se houver; edição, se não for a primeira; local; editora; ano; total de páginas; e título original, se houver). No caso de teses/dissertações, segue-se o mesmo princípio, no que for aplicável, acrescido de informações sobre a instituição na qual tiver sido produzida. 9. Cada artigo deve conter os seguintes elementos: Identificação: • Nome do(s) autor(es); • Telefone, e-mail e endereço do(s) autor(es) para contato; • Titulação acadêmica; função e origem (instituição e unidade) do(s) autor(es); • Título e, se for o caso, subtítulo: precisa(m) indicar claramente o conteúdo do texto e ser(em) conciso(s) (título: no máximo 10 palavras; subtítulos: no máximo 15 palavras) • Subvenção: menção de apoio e financiamento eventualmente recebidos; • Agradecimentos, apenas se absolutamente indispensáveis. Esses elementos devem ser apresentados em folha separada, pois contêm dados que não serão divulgados aos consultores. Após a aceitação do artigo, os dados serão incluídos para publicação. O texto deve conter: • Título e, se for o caso, subtítulo em português e inglês, qualquer que seja o idioma utilizado dentre os determinados por estas normas, bem como os limites de palavras acima definidos; • Resumo em português e Abstract em inglês, qualquer que seja o idioma utilizado no texto dentre os determinados por estas normas. Conterão entre 150 a 200 palavras com a mesma formatação da página padrão acima definida; • Para fins de indexação, o autor deve indicar no mínimo três e no máximo seis palavraschave logo após a apresentação do Resumo, e, posteriormente ao Abstract, sua versão para o inglês (keywords). • O texto pode ser escrito em português, inglês ou espanhol e deve estar subdividido em: INTRODUÇÃO, DESENVOLVIMENTO, CONCLUSÃO e REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. Cabe ao autor criar os intertítulos para o seu trabalho: em letras maiúsculas e sem numeração. No caso de Relatos, podem ter as seguintes seções: INTRODUÇÃO, METODOLOGIA (ou MATERIAIS E MÉTODOS), RESULTADOS, DISCUSSÕES, CONCLUSÕES, NOTAS e REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. No caso de Resenhas, o texto deve 106 DOCUMENTAÇÃO 10. O artigo poderá apresentar notas explicativas.1 Elas devem ser indicadas por numeração seqüencial sobrescrita e apresentadas no rodapé da página, com a mesma formatação da página padrão. O artigo precisa apresentar as referências bibliográficas de acordo com a norma NBR 6.023/1989 da ABNT, em sua versão exemplificada abaixo, que consiste em fazer a citação da referência ao longo do texto: Para se ter uma idéia do avanço nesta direção, até novembro de 1997, inúmeras empresas foram certificadas conforme uma das normas de série ISO 9000 (Emmanuel, 1997). Entretanto, requisitos da Qualidade, segundo Brederodes (1996), não estão somente restritos à esfera da ISO 9000. As Referências Bibliográficas deverão ser apresentadas em ordem alfabética pelo sobrenome dos autores. I– Sobrenome do autor (maiúsculo), nome (minúsculo). Título da obra (itálico). Tradutor, edição, cidade em que foi publicado: editora, ano de publicação. Ex.: HOBSBAWM, E.J. Era dos Extremos: o breve século XX; 1914-1991. Trad. Marcos Santarrita, São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Obs.: sendo 1.ª edição, esta não deve ser indicada. II– Designação de parentes não pode abrir referência bibliográfica. Ex.: JUNQUEIRA NETTO, P.... Sobrenome composto: CASTELLO BRANCO, H. de,... VILLA-LOBBOS, H.,... III– Obras escritas por dois autores. Ex.: ARANHA, M.L. de A. & MARTINS, M.H.P. Filosofando: introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1986. IV– Obras escritas por três ou mais autores. Coloca-se o nome do primeiro autor, seguido da expressão et al. Ex.: 1 As notas explicativas devem ser apresentadas desta forma. Junho • 2000 C&T15.book Page 107 Friday, September 12, 2003 9:06 AM PIRES, M.C.S. et al. Como fazer uma Monografia. 4.ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1991. Se houver um responsável pela obra (coordenador ou organizador): GENTILI, P. (org.). Pedagogia da Exclusão: o neoliberalismo e a crise da escola pública. Petrópolis: Vozes, 1995. V– Artigos de revistas e jornal. Revista: sobrenome do autor (maiúsculo), prenome. Título do artigo, título do jornal (itálico), local, volume (número/fascículo): páginas incursivas, ano. Ex. com autor: ZAMPRONHA, M.L.S. Música e semiótica. Arte, Unesp, Rio Claro, 6: 105-128, 1990. Ex. sem autor: Máquinas paradas braços cruzados. Atenção, Página Aberta, ano 2, (7): 10-17, 1996. Jornal: sobrenome do autor (maiúsculo), prenome, título do artigo, título do jornal (itálico), local, dia, mês, ano, número ou título do caderno, seção ou suplemento, página inicial-final. Ex. com autor: FRIAS FILHO, O. Peça de Calderón sintetiza teatro barroco. Folha de S.Paulo, São Paulo, 23/out./91, Ilustrada, p. 3. Ex. sem autor: Duas economias, duas moedas. Gazeta Mercantil, São Paulo, 31/jan./97, p. 7. VI– Capítulo de um livro escrito por um único autor. Substituir o nome do autor depois do “in” por um travessão de três toques. Ex.: ECO, U. A procura do material. In: ________. Como se faz uma tese em ciências humanas, 4.ª ed. Lisboa: Presença, 1988. VII– Autor do capítulo diferente do responsável pelo livro. Sobrenome do autor (maiúsculo) que realizou o capítulo, prenome. Título do capítulo. In (sobrenome do organizador do livro em maiúsculo), nome, título do livro (itálico), edição, local de publicação, editora, data. Ex.: COSTA, M. da. A educação em tempos de conservadorismo. In: GENTILI, P. Pedagogia da Exclusão: crítica ao neoliberalismo em educação em educação. Petrópolis: Vozes, 1995. VII– Enciclopédia e dicionário. GRANDE ENCICLOPÉDIA DELTA LAROUSSE. Rio de Janeiro, Delta, 1974, v. 7, p. 2.960. FERREIRA, A.B.H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975, p. 397. REVISTA DE CIÊNCIA & TECNOLOGIA • 15 – pp. 105-108 VIII– Fontes eletrônicas A documentação de arquivos virtuais deve conter as seguintes informações, quando disponíveis: • sobrenome e nome do autor; • título completo do documento (entre aspas); • título do trabalho no qual está inserido (em itálico); • data (dia, mês e/ou ano) da disponibilização ou da última atualização; • endereço eletrônico (URL) completo (entre parênteses angulares); • data de acesso (entre parênteses). Exemplos : Site genérico LANCASHIRE, I. Home page. Sept. 13, 1998. <http:// www.chass.utoronto.ca:8080/~ian/ index.html> (10/dez./98). Artigo de origem impressa COSTA, Florência. Há 30 anos, o mergulho nas trevas do AI-5. O Globo, 6.12.98. <http:// www.oglobo.com.br> (6/dez./98). Dados/textos retirados de CD-rom ENCICLOPÉDIA ENCARTA 99. São Paulo: Microsoft, 1999. Verbete “Abolicionistas”. CD-rom. Artigo de origem eletrônica CRUZ, Ubirajara Buddin. “The Cranberries: discography”. The Cranberries: images. Feb./97. <http:// www.ufpel.tche.br/~bira/cranber/ cranb_04.html> (12/jul./97) . OITICICA FILHO, Francisco. “Fotojornalismo, ilustração e retórica”. <http://www.transmidia.al.org.br/ retoric.htm> (6/dez./98). Livro de origem impressa LOCKE, John. A Letter Concerning Toleration. Translated by William Popple. 1689. <http://www.constitution.org/jl/tolerati.htm>. Livro de origem eletrônica GUAY, Tim. A Brief Look at McLuhan's Theories. WEB Publishing Paradigms. <http://hoshi.cic.sfu.ca/ ~guay/Paradigm/McLuhan.html> (10/dez./ 98). KRISTOL, Irving. Keeping Up With Ourselves. 30/jun/96. <http://www.english.upenn.edu/~afilreis/ 50s/kristol-endofi.html> (7/ago./98). Verbete ZIEGER, Herman E. “Aldehyde”. The Software Toolworks Multimedia Encyclopedia. Vers. 1.5. Software Toolworks. Boston: Grolier, 1992. “Fresco”. Britannica Online. Vers. 97.1.1. Mar./97. Encyclopaedia Britannica. 29/mar./97. http:// www.eb.com:180. 107 C&T15.book Page 108 Friday, September 12, 2003 9:06 AM E-mail BARTSCH, R. <[email protected]> “Normas técnicas ABNT – Internet”. 13/nov./98. Comunicação pessoal. Comunicação sincrônica (MOOs, MUDs, IRC etc.) ARAÚJO, Camila Silveira. Participação em chat no IRC #Pelotas. <http://www.ircpel.com.br> (2/ set./97). lista de discussão SEABROOK, Richard H. C. <[email protected]> “Community and Progress”. 22/jan./94. <[email protected]> (22/ jan./94). FTP (File Transfer Protocol) BRUCKMAN, Amy. “Approaches to Managing Deviant Behavior in Virtual Communities”. <ftp:// ftp.media.mit.edu/pub/asb/papers/deviancechi-94> (4/dez./94). Telnet GOMES, Lee. “Xerox's On-Line Neighborhood: A Great Place to Visit”. Mercury News. 3 May 1992. telnet lamba.parc.xerox.com 8888, @go #50827, press 13 (5/dec./94). Gopher QUITTNER, Joshua. “Far Out: Welcome to Their World Built of MUD”. Newsday, 7/nov./93. gopher University of Koeln/About MUDs, MOOs, and MUSEs in Education/Selected Papers/ newsday (5/dec./94). Newsgroup (Usenet) SLADE, Robert. <[email protected]> “UNIX Made Easy”. 26 Mar.1996. <alt.books.reviews> (31/mar./96). APRESENTAÇÃO 11. O encaminhamento de artigos passa por várias ETAPAS: • Apresentar três (3) cópias paginadas para apreciação prévia, dispostas pelas normas. Se aceito preliminarmente pela Comissão Editorial, o artigo é submetido à apreciação por processo anônimo de avaliação por pares (peer review), sendo posteriormente devolvido ao autor para eventual revisão. 108 • Após a revisão, deve-se apresentar uma via do texto impressa e outra em disquete, com arquivo gravado no formato Word 97 for Windows. Encaminhar também via do texto definitivo em papel, destacando as correções efetuadas com base nas alterações sugeridas pelos consultores, para facilitar a conferência. O trecho corrigido deverá ser grifado com tinta vermelha, ou marcado com cor vermelha da fonte através do editor de texto, ou ainda marcado com caneta “hidrocor destaca texto”. Concluído o processo de editoração, o autor recebe uma prova final que lhe será submetida à aprovação. • Caso o artigo seja vetado pela Comissão Editorial, é encaminhada justificativa ao(s) autor(es) juntamente com a devolução do texto original. 12. As ILUSTRAÇÕES (tabelas, gráficos, desenhos, mapas e fotografias) necessárias à compreensão do texto devem ser numeradas seqüencialmente com algarismos arábicos e apresentadas, de modo a garantir uma boa qualidade de impressão. Precisam ter título conciso, grafado em minúsculas. 13. TABELAS devem ser editadas em Word 97 for Windows ou Excel. Sua formatação precisa estar de acordo com as dimensões da revista. Devem vir inseridas nos pontos exatos de suas apresentações ao longo do texto. 14. GRÁFICOS e DESENHOS, além da inclusão nos locais exatos do texto (cópia impressa e disquete), precisam ser enviados em seus arquivos originais em separado (p.ex.: Excel, CorelDraw, PhotoShop, PaintBrush etc.). 15. As FOTOGRAFIAS devem oferecer bom contraste e foco nítido e precisam ser fornecidas em arquivos em formato “tif” ou “gif”. 16. Outras informações poderão ser conseguidas através da secretaria da Comissão Editorial da RC&T pelos telefones (19) 430-1767 ou 430-1770 ou ainda através do e-mail [email protected]. Junho • 2000